Finalizada Em: 28/09/2018
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Capítulo Único

Verão. Sol. Piscina. Cerveja. Amigos.
Isso é tudo que eu preciso.
, me solta!” batia em minhas costas enquanto eu me aproximava da piscina. Meu riso era difícil de controlar.
“Você quer mesmo que eu te solte?” Virei de costas pra piscina e ela percebeu que se eu a soltasse ela iria direto pra água.
“Não! Não me solta aqui, me bota no chão,” ela me batia com cada vez mais força.
Olhei para os meus amigos e vi que eles riam tanto quanto eu.
“Ok. Você venceu,” coloquei no chão e sua primeira reação foi me dar um tapa no braço. “Ai, pequena. Isso dói!” Passei a mão pelo local e puder ver sua mão marcada em minha pele pálida.
“Era pra doer mesmo, .” Pelo seu tom de voz sério vi que a brincadeira tinha mesmo acabado.
marchou para dentro de casa sem olhar para nenhum de nós.
“Isso não pode ser bom.” Ouvi Adrian sussurrar para Christian e Hugo.
Suspirei e entrei em casa atrás da minha melhor amiga.
.” Observei seus cabelos se movimentarem no ritmo de suas passadas largas.
Como ela não se virou, continuei a segui-la, até que ambos estávamos na cozinha.
, deixa de besteira,” supliquei.
sentou-se na bancada ao lado do fogão e cruzou os braços, seus olhos focados em algo que apenas ela via no chão. Reparei que seus lábios formavam um biquinho adorável e sorri comigo mesmo.
“Não teve graça, ,” ela continuou séria. Seus olhos agora me observando atentamente.
“Ah, pequena, foi um pouco engraçado,” Tentei fazer cócegas nela, mas sua reação imediata foi se encolher e afastar minhas mãos, então eu parei.
“Ficar com a bunda para cima no meio de um monte de garotos não foi exatamente uma situação confortável para mim. Pra piorar a parte de cima do meu biquíni quase abriu. Seria completamente constrangedor,” sua voz apesar de calma estava um pouco estrangulada, o que me dizia que ela estava mesmo chateada.
“Desculpa,” Sussurrei aproximando-me dela lentamente.
observou suas próprias mãos por alguns segundos antes de seus olhos encontrarem os meus novamente.
“Só se você prometer que vai me dar um pote grande nutella. O meu está quase acabando.” Uma de suas mãos me puxou pela barra da camisa, fazendo com que minha cintura batesse em seus joelhos.
“Você sabe que quando faz essa carinha eu posso prometer o que você quiser.” Abracei-a pela cintura e dei um beijo rápido em sua bochecha. “E agora, estou desculpado?”
apertou meu nariz entre seu dedo indicador e o polegar e sorriu sinceramente, “vou ver o que posso fazer por você”.
Rolei meus olhos sabendo que ela estava apenas se fazendo de difícil e virei de costas.
“Quer carona?”
Não ouvi uma resposta, mas seus braços imediatamente se cruzaram em meu pescoço e suas pernas se ajustaram em minha cintura.
“Acho que preciso começar a me preparar para a possibilidade de problemas na coluna em um futuro próximo,” brinquei.
Esperei alguns segundos por uma resposta, até que pareceu compreender.
“Está dizendo que eu estou gorda?” Sua voz estava alguns oitavos acima do necessário.
Ri, “de forma alguma, mas você está longe de ser aquela pirralha pequenininha que eu conheci”.
“Hm, por que isso soa como uma ofensa?” Seu tom de voz era leve e eu sabia que ela não estava realmente ofendida.
“Talvez você não tenha ganhado massa gorda e sim massa magra,” sugeri.
“Está me chamando de gostosa então?”
“É uma boa interpretação,” respondi.
Ouvi sua risada contida antes de colocá-la no chão e ver seu sorriso aberto.
“Já disse que te amo hoje?” me abraçou encostando sua bochecha em meu peito. “Porque sabe, é muito importante dizer eu te amo para as pessoas que você realmente ama.”
Eu podia sentir seu corpo empurrando o meu para trás, mas foi só quando estava dentro da água que entendi o que a minha melhor amiga estava fazendo.
“Você não acha que isso vai ficar barato, não é?” Perguntei quando finalmente emergi.
Vi uma feição de pânico tomar conta do rosto de por alguns segundos antes de ela perceber que eu já estava saindo da piscina e então ela correu o mais rápido que pôde.
, não. Por favor!” Ela implorou sem conseguir conter o riso.
Não ofereci uma resposta, apenas continuei a persegui-la pelo quintal, minhas pernas longas dando-me uma boa vantagem em cima dela. Vez ou outra ela olhava pra trás e eu podia ver seus lábios formando um sorriso em seu rosto.
“Alex!” gritou, fazendo-me perceber uma figura alta e bronzeada que caminhava em direção a ela. “Amor, me salva.”
Achei graça da forma dramática como ela se jogou nos braços de seu namorado enquanto tentava recuperar o fôlego.
“Tudo tranquilo, Alex?” Acenei rapidamente e apoiei minhas mãos em meus joelhos, tão sem fôlego quanto .
“Tranquilo. Achei que vocês estavam só relaxando na piscina,” ele brincou enquanto nos observava.
“A culpa é dela,” acenei com a cabeça para onde estava, apoiada no ombro do namorado.
Demonstrando toda sua maturidade, mostrou a língua para mim e eu rolei meus olhos mais uma vez.
“Foi mais do que merecido,” ela respondeu antes de se virar para o namorado. “Agora que você está aqui posso jogá-lo na piscina também.”
Alex riu e, num movimento rápido, pegou no colo.
“Não se eu te jogar antes.”
Observei-o correr até a piscina e se jogar nela com ainda em seu colo. Caminhei de volta para a piscina gargalhando e agradecendo Alex mentalmente por ter feito a minha revanche bem mais fácil.

Observei a janela no segundo andar ainda fechada e cogitei por alguns segundos entrar pela porta da frente, mas minhas pernas optaram pelo caminho que já estavam acostumadas. Pulei na varanda da frente e habilidosamente subi no telhado da casa. Com cuidado caminhei por ele usando minhas pernas e meus braços até chegar à janela que estava observando minutos antes.
,” chamei, batendo no vidro com a articulação do meu dedo indicador.
Esperei alguns segundos até que surgiu em meu campo de visão, seus cabelos desarrumados depois da noite de sono e seu corpo coberto por uma calça de moletom e uma blusa duas vezes maior que o seu tamanho.
Demorou um pouco, mas quando seu cérebro finalmente processou o que estava acontecendo, vi seus olhos se arregalarem e ela pegar o celular que descansava em seu criado mudo.
!” Ouvi seu grito, abafado por causa da janela ainda fechada.
Suspirei vendo-a correr pelo quarto com roupas em seus braços e depois a porta do banheiro bater com força, tirando-a completamente do meu campo de visão.
“Tudo bem, eu espero aqui fora,” comentei alto para que ela ouvisse.
Ao som de resmungos ela abriu a porta do banheiro e correu para destrancar a janela e me deixar entrar em seu quarto antes de voltar rapidamente para o banheiro.
, você sabe que eu preciso de pelo menos trinta minutos para me arrumar e tomar café. Já são quase oito horas,” reclamou.
“Sabe, existe uma nova invenção... Como se chama mesmo? Ah, claro. Despertador!”
Pude ouvir bufar de frustração no banheiro e ri comigo mesmo. Por anos a ouvi reclamar que acordar ao som do despertador a faz ficar de mau humor pelo resto do dia e isso não era problema quando ela tinha sempre seus pais para acordá-la, mas desde que eles se separaram e sua mãe conseguiu uma grande promoção que a faz viajar algumas vezes no mês, ainda não parece conseguir fazer o uso da tecnologia a seu favor.
“Se perdermos essa prova juro que mato você,” ela reclamou, saindo do banheiro, já vestida e com o cabelo preso em um rabo de cavalo firme. “Vamos logo.”
Antes que eu pudesse responder sua mão pegou a minha e me puxou para fora do quarto e escada abaixo.
, relaxa,” argumentei enquanto fazia o possível para não tropeçar nos degraus.
entrou na cozinha rapidamente e saiu de lá três segundos depois com uma caixa de cereal em mãos.
“Café da manhã no carro então,” concordei, seguindo-a até o meu carro que estava estacionado em frente a sua casa.
Já dentro no carro ela observou atentamente a caixa de cereal em sua mão. Eu sabia que ela não estava lendo nada do que estava escrito ali, eu conhecia muito bem aquele olhar e sabia que ela estava enxergando muito além da caixa de cereal.
“Ei,” toquei sua mão e sua visão voltou a se focar, seus olhos rapidamente encontrando os meus. Sorri tranquilamente desviando o olhar da rua a minha frente por um segundo. “Não vamos perder a prova.”
Com o lábio inferior preso firmemente entre seus dentes acenou com a cabeça. Acariciei sua mão que ainda estava próxima a minha e observei a feição de seu rosto suavizar aos poucos.
“Não consigo acreditar que depois dessa prova tudo acaba.”
Suspirei. Era mesmo difícil acreditar que nunca mais precisaríamos ir para a escola.
“Desculpe pelos gritos. Provas me deixam nervosa.”
Ri. “Eu sei.”
sorriu parecendo mais relaxada e voltou sua atenção para o seu café da manhã enquanto eu ligava o som do carro e deixava que a música na rádio preenchesse o silencio.

Senti o peso de seu corpo em minhas costas antes mesmo de ouvir sua voz. Sorri quando seus braços me abraçaram pelo pescoço e ouvi sua risada infantil.
“Férias, ! Férias!” comemorou.
“Como foi de prova?” Perguntei, mesmo já sabendo a resposta.
Ela pulou de volta para o chão e começou a caminhar ao meu lado. Passei o braço por seus ombros, aproximando-a de mim.
“Melhor do que o esperado.” Ela respondeu com sinceridade.
Lancei-lhe um sorriso cumplice e beijei o topo de sua cabeça. “Eu te avisei.”
,” ouvimos uma voz chamar.
A alguns metros de distancia avistei Sarah, a melhor amiga da , e seu grupo de amigas populares.
“Já vai me trocar pela vida de popular?” Fingi uma voz ofendida que a fez rir e rolar os olhos.
“Te vejo mais tarde?” perguntou antes de beijar minha bochecha.
Concordei antes de acenar para seu grupo de amigas que sorriram amigavelmente.
A alguns metros dali avistei Christian, Adrian e Hugo sentados em uma mesa redonda no pátio da escola. Eu sempre brinquei que é uma das populares enquanto eu faço parte da turma de perdedores, mas a verdade é que eu e meu grupo de amigos não nos encaixamos nesses estereótipos idiotas.
Há quase dois anos resolvemos formar uma banda e desde então nos tornamos um pouco mais conhecidos no colégio e na cidade. Garotas estão sempre por perto, mas a decisão de formar uma banda fez com que nos aproximássemos ainda mais e nos tornássemos inseparáveis.
Apesar de conhecer desde que tínhamos 10 anos, ela só se tornou minha melhor amiga há três anos quando veio estudar no mesmo colégio que eu. Não levou muito tempo para que ela se enturmasse e encontrasse seu grupo de amigas, o que me fez pensar que ela nunca mais olharia na minha cara, mas assim como a minha banda, se tornou parte de mim.
“Demorou, cara,” Adrian reclamou.
Apesar de não ser um aluno ruim, Adrian é conhecido por sempre ser o primeiro a terminar as provas. Suas notas não eram as melhores, mas ele nunca perdeu nenhuma matéria.
“Nem todo mundo tem a capacidade de fazer uma prova em trinta minutos,” Respondi.
“Podemos programar os ensaios agora?” Christian sugeriu. “Já podemos marcar um hoje.”
Balancei a cabeça.
“Hoje eu não posso. A Cora chega hoje. Preciso pegá-la na estação de trem em alguns minutos.”
Cora é a minha única prima. Nunca fomos muito próximos na infância já que ela mora em outra cidade, mas desde o verão passado nos aproximamos e agora ela estava a caminho para passar uma semana comigo.
“Sua prima?” Christian imediatamente perguntou sem esconder sua animação.
Eu não sabia exatamente o que havia rolado entre ele e a Cora, apenas que quando ela voltou para sua cidade ele ficou arrasado. Christian nunca falou muito sobre eles, mas foi claro o quão desapontado ele ficou quando ela não ligou depois de partir.
Concordei vagamente e vi seus lábios formarem um sorriso discreto.
“Preciso ir ou vou me atrasar. Vejo vocês hoje à noite.”
Levantei-me rapidamente e caminhei em direção à saída do colégio, feliz por fazer aquele caminho uma última vez.

Avistei Cora antes mesmo de estacionar o carro na área de desembarque da estação. Suas roupas pretas eram sua marca registrada. Desde o tênis até os óculos escuros, tudo era preto. Apesar de bastante feminina, ela nunca abria mão de seu visual escuro.
“E ai, !”
Sai do carro e abracei rapidamente antes de colocar sua pequena mala no porta-malas do carro. Ela carregava uma bolsa preta no ombro e seu celular estava firmemente seguro em sua mão.
“Como foi a viagem?” Perguntei quando já estávamos os dois no carro.
Cora deu de ombros, não parecendo muito interessada em falar sobre a viagem e logo mudando de assunto.
“Como andam as coisas por aqui?” Ela dividia sua atenção entre mim e seu celular, digitando algo furiosamente.
“Tudo na mesma. As aulas terminaram, o que significa que estamos de férias e oficialmente livres do colégio para sempre.”
“Alguma noticia das faculdades?”
A olhei rapidamente, “Achei que tivesse te contado.”
Cora deixou o celular de lado e me olhou com curiosidade.
“Contado o quê?”
“Não me inscrevi em nenhuma faculdade. Estamos levando a banda a sério.”
Ela ficou pensativa por alguns segundos. “Não consigo decidir se está mesmo falando sério.”
Ri e balancei a cabeça.
“Claro que estou. Pode perguntar para os caras mais tarde.”
Por um segundo pensei ter visto uma tristeza tomar conta de seu rosto, mas logo ela sorriu.
“Vamos sair hoje à noite?”
Confirmei com um sorriso e ela pareceu satisfeita com a resposta, sua atenção se voltando para o celular mais uma vez enquanto eu me contentava com as músicas que saiam das caixas de som para me fazerem companhia.

O caminho até em casa foi rápido. Com as ruas livres e pouco movimentadas por causa do horário, em poucos minutos estacionei do lado de fora da garagem que agora servia para guardar os instrumentos que usávamos para ensaiar e escrever músicas.
“Então é aqui que a mágica acontece.” Cora brincou.
Era a primeira vez que ela via a casa já que no verão passado eu ainda não tinha completado meus tão esperados 18 anos.
A casa havia sido dos meus avós por muitos anos, mas após eles falecerem eu a herdei, mas não antes de completar 18 anos. Por vezes eu me sentia estranho por morar sozinho numa casa que trazia tantas recordações da minha infância, mas estava grato por ter meu próprio espaço.
“Sinta-se em casa.” Falei para Cora ao abrir a casa.
Ela olhou ao redor e depois voltou sua atenção para mim.
“Não sei por que achei que ao entrar aqui a minha infância passaria diante dos meus olhos.”
“Acho que você está falando da morte, não dessa casa.” Brinquei.
Como mencionei antes, eu e Cora nunca fomos muito próximos quando éramos mais novos. Tudo que sabemos é que houve uma briga entre a mãe de Cora, minha tia, e o resto da família e ela se mudou para outra cidade, raramente entrando em contato ou deixando que convivêssemos com Cora.
“O quarto de hóspedes é no final do corredor,” apontei, levando sua mala até lá enquanto ela me seguia.
Enquanto ajudava Cora a colocar a mala no quarto de hóspedes, ouvi a buzina de casa tocar.
“Está esperando visita?” Cora perguntou olhando na direção da sala.
“Não, mas meus amigos têm o hábito de aparecerem sem avisar. Já volto.”
Não fiquei surpreso ao encontrar do outro lado da porta. Dentre todos os meus amigos ela era a que mais frequentava minha casa, especialmente quando não era convidada.
Ela abriu um sorriso sincero e mostrou o pote de Nutella que tinha em mãos. “Surpresa!”
“Sua visita parou de ser surpresa há uns três anos.”
riu e deu de ombros.
“Achei que deveríamos celebrar o inicio das férias.”
“Alguma idéia de como celebrarmos?” Apontei para sua mão. “Além da Nutella, claro.”
“Na verdade esperava que-”
O barulho de algo caindo veio do quarto onde Cora estava e interrompeu .
“Ew, por favor, não me diga que tem uma garota pelada em casa nesse momento.”
Ri e dei de ombros. “Bem, ela não está pelada, isso posso lhe garantir.”
fez uma careta, mas antes que reclamasse expliquei quem estava lá.
“O Christian sabe que ela está aqui?” Ela perguntou com cautela.
Confirmei com um aceno de cabeça e ela pareceu pensativa.
Depois que Cora foi embora no último verão e Christian ficou arrasado, decidiu que, de alguma forma, Cora havia machucado nosso amigo e acabou desenvolvendo uma implicância com minha prima. Elas não haviam se encontrado desde então e eu não sabia bem como reagiria à presença de Cora.
“Ei, ?” Cora apareceu atrás de mim.
A expressão no rosto de mudou de mágoa para relutância até um sorriso suavizar seu rosto.
“Oi, Cora.”
Cora pareceu contente em ver .
“Oi, . Que bom te ver de novo,” fez um pequeno aceno com a cabeça e manteve o sorriso calmo.
Se eu não a conhecesse acharia que seu sorriso era genuíno, mas sabia que por dentro seu sangue estava fervendo. sempre foi o tipo de amiga que parte em defesa das pessoas que ama, sem medo de enfrentar quem quer que tenha magoado seus amigos. Se ela tinha colocado na cabeça que Cora havia machucado Christian, então não importava o que minha prima fizesse, a veria como uma inimiga até que ela provasse o contrário.
, acho que tem algo errado com o chuveiro do meu quarto.”
Vi o choque passar pelo rosto de e engoli em seco.
“Hm, na verdade você só precisa puxar um pouco o registro. Posso te ajudar se quiser.”
“Não, não precisa. Você tem visita.”
Com um rápido aceno na direção de , Cora voltou para o quarto de hospedes.
“Meu quarto?” reclamou. Suas mãos fazendo aspas no ar ao dizer a primeira palavra.
Dei de ombros. “É só o quarto de hóspedes”.
rolou os olhos como se não acreditasse em minhas palavras.
“Você não me disse que ela vinha passar o verão aqui de novo.”
“Você não perguntou,” devolvi.
suspirou, mas não disse mais nada. Ela ainda estava parada na porta de minha casa, o que era algo estranho já que ela normalmente entrava e já ia se jogando no sofá ou abrindo os armários da cozinha. Seus olhos me observavam atentamente, como se esperassem conseguir ver através de mim a qualquer segundo, o que, pra ser honesto, era algo que eu acreditava que ela pudesse fazer.
“Eu vejo você de noite, .”
“Ah, qual é, . Não pode ficar chateada comigo por causa disso,” reclamei a observando marchar até seu carro.
Sem se virar para mim advertiu com clareza. “Quer apostar?”

Meus três melhores amigos não demoraram muito para aparecer, durante o verão eles tinham o hábito de transformar a minha casa em uma república, mesmo quando eu ainda morava com meus pais. Apesar de o quarto de hóspedes estar ocupado eles se viravam e dormiam até do lado de fora se fosse preciso.
Christian olhou ao redor pela milésima vez e eu resolvi tirá-lo de sua miséria.
“Ela não está aqui, disse que ia visitar uns amigos,” peguei algumas cervejas na geladeira e guiei meus amigos até a piscina.
Apesar de Christian apenas levantar os ombros como se não se importasse, percebi que ele pareceu um pouco desapontado por não poder ver Cora.
“Não foi que disse que esperava não ver Cora nunca mais depois que...” Adrian parou de falar de repente e apontou discretamente para Christian.
“Ela não vai ficar muito feliz com a visita.” Hugo completou.
“Ela não está muito feliz com a visita.” Corrigi.
“Achei que você tinha conversado com ela,” Adrian comentou com Christian.
“Eu conversei, mas vocês sabem como ela é.” Respondeu.
Concordei com um aceno e resolvi deixar a conversa de lado.
Aproveitamos o dia ensolarado na beira da piscina discutindo planos para o futuro e até conseguimos escrever alguns versos de uma música que Adrian tinha começado na noite anterior.
Quando o sol começou a ficar quente demais para nossas peles pálidas, resolvemos sair para almoçar em um fast food perto de casa. Antes mesmo de entrarmos eu reconheci o carro de parado no estacionamento e me preparei mentalmente para o gelo que sabia que ela iria me dar.
Assim que entramos percebemos que não éramos os únicos a ter a ótima ideia de começar as férias comendo junk food. Apesar da fila enorme, a maioria das pessoas estava em grupos grandes, fazendo com que ainda tivessem algumas mesas vazias no local.
Enquanto eu e Hugo saímos para arrumar uma mesa, Adrian e Christian ficaram na fila para fazer o pedido. No meio do caminho Hugo apontou para uma mesa mais afastada.
“Aquela é a Danielle do lado da ?” Perguntou.
Olhei ao redor, surpreso ao ouvir o nome da minha melhor amiga. Quando meus olhos a encontraram, vi que ela conversava com Danielle, uma de suas melhores amigas e atual paixão platônica do Hugo.
“É sim,” confirmei.
Percebi que a atenção de Hugo ainda estava focada na mesa do outro lado do restaurante e suspirei. Se ao menos Danielle soubesse o quanto meu amigo era louco por ela...
Christian e Adrian se aproximaram com as bandejas nas mãos e rindo alto fazendo com que a atenção de Hugo finalmente se voltasse para nossa mesa.
Se em algum momento notou que estávamos ali, ela não demonstrou. Por alguns segundos pensei em mandar uma mensagem para ela, mas então lembrei o que ela havia dito no dia anterior. Se ela iria ficar chateada comigo, então eu não iria correr atrás dela.
“Cara, ela está te encarando. Confia em mim,” Adrian disse.
Observei Christian sacudir a cabeça e rolar os olhos.
“Quem está te encarando?” Perguntei.
Antes que ele pudesse responder, Adrian se intrometeu.
“Aquela garota na fila, que está de camisa vermelha.” Ela apontou discretamente para uma garota com o rosto vagamente familiar.
Encarei a garota por alguns segundos, tentando lembrar de onde a conhecia, mas foi só quando minha prima surgiu atrás dela que percebi de onde a conhecia.
“Aquela é a Cora?” Hugo perguntou, imediatamente fazendo com que Christian tirasse os olhos de seu sanduiche.
“Uhum. E aquela é a Karen, amiga dela. A voz dela é um pouco estridente, mas ela beija bem.”
Meus três amigos me olharam e eu dei de ombros.
“A gente ficou no verão passado.”
“E por que ela não para de encarar o Christian?”
Hugo riu e sacudiu a cabeça.
“Cara, ela estava encarando o . O Christian só está ao lado dele.”
Adrian olhou de mim para o Christian e deu de ombros, voltando a encher sua boca de batata frita.
“Oi, meninos!” Cora falou, sem sair do lado de sua amiga. Seus olhos aflitos iam de mim para o Hugo e depois para o Adrian, fazendo o possível para evitar Christian.
Adrian e Hugo acenaram enquanto Christian a encarou por alguns segundos, sem saber direito o que fazer. Com um leve aceno de cabeça ele voltou sua atenção para a comida. O que estava acontecendo com meus amigos?
Parte de mim queria chamar Cora para se juntar a nós na mesa, mas eu sabia que Christian não gostaria muito da ideia. Além do mais as coisas entre mim e Karen não haviam terminado muito bem já que depois de ficarmos por algumas semanas eu a vi com outro cara. Não que estivéssemos em algum tipo de relação séria, mas o fato de ela ter simplesmente sumido sem dar noticia depois me deixou um pouco magoado.
Alguns minutos depois acabamos esquecendo o assunto e começamos a discutir sobre algumas músicas que tínhamos escrito nos últimos dias de aula e que precisávamos trabalhar na letra e melodia.
Quando estávamos saindo do restaurante Danielle veio em nossa direção com um sorriso simpático no rosto.
“Meninos, vocês vão na inauguração do Metro Bar hoje à noite?”
“Vamos sim. A banda do seu irmão vai tocar, né?” Adrian perguntou.
Olhei rapidamente para a mesa que ela estava anteriormente sentada com os amigos e vi olhar para o outro lado assim que notou que eu a observava.
“Sim. Eles estão lançando o segundo EP na semana que vem, então é uma boa divulgação.”
“Estaremos lá,” Christian confirmou.
Danielle sorriu para nós, fazendo com que Hugo quase caísse de joelhos, e virou-se para voltar para a mesa que seus amigos estavam. Lancei um último olhar para e saí puxando Hugo pelo braço.

“Cora?” Chamei, batendo na porta do quarto de hóspedes.
Ouvi minha prima autorizar minha entrava e abri a porta encontrando-a deitada na cama olhando a tela do celular.
Minha prima tirou os olhos do aparelho eletrônico e me olhou com curiosidade.
“Hoje a noite vai rolar a apresentação uma banda conhecida nossa,” falei, me referindo a mim e a minha própria banda. “Na verdade é a banda do irmão de uma amiga da . Tá a fim de ir?”
“Claro! É aquela banda que você comentou comigo há um tempo?”
Puxei pela memória algumas das bandas que eu já tinha comentado com a Cora e lembrei que tinha mandado o link do primeiro EP da banda pra ela.
“É sim. Eles estão lançando um novo EP, na verdade,” expliquei.
“Legal. Você vai dirigir? Podemos dividir um táxi caso queira beber,” Cora sugeriu.
“Hm, é, um táxi me parece melhor,” concordou, já revelando minha intenção de beber.
Quando estava fechando a porta do quarto ouvi sua voz me chamar.
“O Chris vai estar lá?” Perguntou, sua voz revelando uma certa insegurança, o que era bem incomum para Cora.
O Christian não gostava muito de que o chamassem de Chris, algum trauma de infância que ele nunca realmente revelou, mas desde o começo Cora o chamava assim e ele nunca pareceu se importar.
Concordei com um aceno e ela sorriu discretamente. Fechei a porta do quarto, deixando-a sozinha novamente e pensei em mandar uma mensagem para Christian, mas achei melhor guardar a pergunta da Cora para mim mesmo.
Algumas horas depois eu estava pronto, sentado no sofá e esperando Cora terminar de se maquiar. Segundo ela aquilo levaria apenas uns dois minutinhos, mas aparentemente aquele número deveria ser multiplicado por 5 porque já faziam quase 10 minutos que eu estava sentado ali, olhando todos os aplicativos de redes sociais que eu tinha no telefone, sem achar nada que realmente prendesse a minha atenção.
Ouvi o barulho de salto alto no piso de porcelanato e levantei os olhos, arregalando-os levemente ao ver minha prima. Ela estava incrível em um shortinho de curto e uma blusa brilhante que valorizava seu farto busto.
“Tudo isso porque eu disse que o Christian vai estar lá?” Brinquei.
“Claro que não,” Cora respondeu. Apesar de querer parecer indiferente, seu nervosismo a entregou.
Quando chegamos ao Metro Bar ele já estava cheio. Apesar da música alta, ainda comandada pelo DJ, já que a banda não começaria por mais algum tempo, as pessoas conversavam tranquilamente em mesas e no bar.
Encontrei Adrian perto do bar, cerveja em mãos e conversando com Patrick, o baixista da Vault, a banda que iria tocar no pub.
“E ai, cara?” Cumprimentei os dois e apresentei Cora a Patrick.
Vi seus olhos fitarem o busto da minha prima muito rapidamente enquanto ele apertava sua mão e ela dizia que adorava o primeiro EP da banda dele.
Pouco tempo depois Hugo e Christian se juntaram a nós. Cora tinha ido até o outro lado do bar para pegar uma cerveja, então tive que esperar para ver a reação do Christian ao vê-la.
“A não vem?” Hugo perguntou.
Dei de ombros e apontei para onde Danielle estava, mais perto do palco e cercada pelo irmão e seus amigos de banda.
“A Danielle está ali, então ela deve estar por perto,” afirmei.
“Por falar em Danielle,” Adrian se intrometeu na conversa. “Quando vai virar homem e chamá-la pra sair?”
Hugo deu de ombros parecendo um pouco envergonhado.
“Posso chamá-la quando quiser,” mentiu.
Adrian me olhou abrindo um sorriso debochado, mas não falou mais nada.
A última vez que Hugo havia chamado uma garota pra sair havia sido Vanessa, sua última namorada. Eles ficaram juntos por quase dois anos até que seus pais decidiram mudar de país e ela achou que seria uma boa ideia ir embora e deixar apenas um bilhete de despedida de três linhas para Hugo.
Percebi os olhos atentos de Christian que encaravam algo do outro lado do bar e acompanhei sue olhar. Não foi difícil encontrar Cora com uma cerveja na mão e sorrindo enquanto conversava com um cara alto.
Christian deu um gole em sua cerveja que quase esvaziou a garrafa e respirou fundo antes de marchar até minha prima. Antes que eu pudesse ver o desfecho daquilo senti alguém esbarrar em mim e me virei a tempo de ver uma cabeleira ondulada se dirigir até a entrada do bar.
Reconheci imediatamente, mas para minha surpresa ela realmente pareceu não me notar ou ao menos reconhecer que tinha esbarrado em mim.
Avisei para Adrian e Hugo que voltava já e fui atrás dela.
,” chamei, um pouco alto para que ela me ouvisse por cima da música.
Sem dar sinais de que me ouviu, ela continuou a caminhar até sair do bar e entrar no estacionamento que ficava do outro lado da rua.
entrou no carro de sua mãe que ela muitas vezes pegava emprestado e eu finalmente a alcancei, batendo no vidro.
,” repeti.
Ela virou-se assustada e finalmente percebi que ela estava falando com alguém no telefone. Notei seus olhos um pouco vermelhos e senti meu coração acelerar.
“Não posso falar agora, . Tenho que ir,” disse.
“Está tudo bem? Aconteceu alguma coisa,” indaguei.
Ela balançou a cabeça e pediu que eu me afastasse antes de sair cantando pneus do estacionamento.
Fiquei alguns minutos parado, meus olhos focados na rua por onde o carro dela havia sumido, talvez na expectativa de que aquilo tivesse sido uma piada e ela fosse voltar rindo da minha cara. Claro que isso não aconteceu.
Voltei para o bar me sentindo confuso e frustrado. Apesar da vontade de ligar para , achei melhor não arriscar tirar sua atenção do volante.
“O que aconteceu?” Adrian perguntou, me olhando com atenção.
Dei de ombros. “Não sei.”
E eu realmente não fazia ideia do que tinha acabado de acontecer.
Danielle apareceu logo depois e nos apresentou ao irmão e o resto da banda dele, o que acabou me distraindo e me fazendo esquecer de ligar para minha melhor amiga.
Quando a banda começou a tocar o lugar já estava lotado. Eu já havia ouvido o EP dos caras muitas vezes e sabia que eles eram muito bons, mas fiquei impressionado ao ouvi-los ao vivo. A banda tinha um som um pouco mais pesado, como um metal alternativo, mas todos pareciam estar gostando do show.
“Um dia vai ser a gente!” Christian falou.
Pela primeira vez eu reparei que ele estava ao lado da minha prima que apesar de parecer estar muito entretida pela música, pude ver que vez ou outra olhava para Christian de canto do olho.
Depois de tocarem quatro músicas do novo EP, duas do antigo e alguns covers, a banda agradeceu a presença de todos e saiu do palco.
Imaginei como seria se um dia realmente fosse eu, Christian, Adrian e Hugo naquele palco tocando nossas músicas e senti um frio subir pela espinha. Não havia nada que eu quisesse mais na vida do que poder me apresentar em palcos e ouvir o público cantar as letras de volta para a gente.
“Uma cerveja, por favor,” pedi a um dos garçons no bar.
, certo?” Ouvi uma voz ao meu lado e fiquei surpreso ao encontrar um rosto pouco familiar.
Sorri para a garota ao meu lado. Seu longo cabelo era quase preto e seus olhos castanhos claros não estavam enfeitados com grandes quantidades de maquiagem como a maioria das garotas ao nosso redor.
“Meu nome é Helen,” ela estendeu a mão e eu a apertei.
“Você estuda lá no colégio,” respondi, finalmente lembrando por que o rosto dela era familiar.
“Bom, estudava, né? Estamos livres daquelas pressões,” lembrou.
Concordei com um breve aceno.
O garçom colocou a minha cerveja no balcão e eu a peguei antes de virar para Helen novamente.
“O que achou da banda?” Perguntei, interessado em conhecer um pouco mais da garota que sabia meu nome antes que eu soubesse o dela.
“Hm, eles são ótimos, mas eu já os conhecia.”
Arqueei uma sobrancelha. “Sério?”
Ela apontou discretamente para um dos caras da banda que eu sabia que era o baixista e se chamava Luccas.
“O Luccas é o meu ex-namorado,” revelou.
“Ah, então você gosta de caras de banda?”
Helen sorriu, suas bochechas assumindo um tom rosado, mas sem demonstrar qualquer insegurança.
“Não posso contestar essa conclusão,” brincou. “Mas não é como se eu só namorasse músicos.”
“Hm, será que eu deveria ter começado essa conversa dizendo que eu também tenho uma banda?” Indaguei com um sorriso.
“Tecnicamente quem começou a conversa fui eu,” Helen lembrou.
Ri da sua expressão que dizia que ela estava gostando do flerte tanto quanto eu.
Enquanto ela contava sobre as bandas que já tinha visto ao vivo e quais eram suas favoritas eu senti meu celular vibrar no bolso. Como o bar ainda estava lotado, eu sabia que não adiantava atender, pois não conseguiria ouvir nada de qualquer jeito, então apenas deixei que ele caísse na caixa postal.
“Pra ser honesta o meu show favorito ainda é um dos primeiros que eu assisti. Green Day no Estádio Norva.”
“Está brincando? Eu estava lá,” comentei sem acreditar na coincidência.
“O quão incrível foi quando eles voltaram para o palco quando todo mundo achava que já tinha acabado e começaram a tocar alguns clássicos que ficaram de fora da turnê?”
“Acredita que eu quase fui embora e perdi?”
Mais uma vez senti meu celular vibrar e pedi um segundo para Helen, fisgando meu celular de dentro do bolso e vendo o nome da brilhar na tela.
?”
Apesar de conseguir ouvir sua voz, não pude entender o que ela estava dizendo. Apontando para a porta do pub, deixei claro para Helen que precisava sair por um segundo ou não conseguiria ouvir nada.
Mesmo o lado de fora ainda estando barulhento, era possível ouvir a voz de do outro lado da linha chamando meu nome.
, não dava para te ouvir muito bem dentro do bar.”
“Consegue me ouvir agora?”
Assim que sua voz atingiu meu ouvido eu senti meu coração parar. Ela estava chorando e eu não precisava estar ao seu lado ou ver suas lágrimas para saber disso.
, o que aconteceu?” Minha voz já estava alguns oitavos acima do normal e minhas pernas me levavam de um lado para o outro. “Onde você está? Não importa, eu estou indo praí.”
Ouvi sua risada triste antes de fungar e responder:
, está tudo bem. Eu estou em casa e vo-”
“Okay, eu estou indo,” falei, interrompendo qualquer desculpa que ela fosse me dar.
Soltei alguns xingamentos ao lembrar que tinha ido até lá de táxi e corri para dentro do bar, encontrando Hugo facilmente na multidão.
“Preciso do seu carro,” falei em seu ouvido e o desespero em minha voz fez com que ele imediatamente me desse a chave, sem perguntar o motivo.
“Você não estava conversando com a,” Adrian apontou para Helen que ainda estava sentada no bar.
Caminhei apressado até ela e dei uma justificativa qualquer sobre um imprevisto e, assim como Hugo, ela deve ter percebido a urgência na minha voz já que apenas concordou rapidamente e disse que não tinha problema.
Eu não sabia o que tinha feito de bom na vida para ser recompensado com ruas completamente vazias e não policiadas que me permitiam acelerar acima da velocidade até a casa de .
Quando sai do carro a vi abrir a porta de casa vestindo um blusão e um short colorido. Abri os braços ao alcança-la e ela jogou seu corpo contra o meu, seu abraço apertado fazendo minha respiração finalmente voltar ao normal.
“Você não precisava ter vindo,” sussurrou.
Pelo tom de sua voz e a forma como ainda me abraçava eu sabia que ela queria dizer exatamente o contrário.
Entramos em sua casa e sentamos no sofá. Passei meu braço por seus ombros e ela encostou sua cabeça em meu peito. Seu cabelo estava preso em uma trança desajeitada e eu brinquei com os fios soltos.
“Terminei com o Alex,” ela revelou em meio a um suspiro.
Deixei meu cérebro processar a informação por alguns segundos antes de dizer qualquer coisa. Até onde eu sabia o namoro deles estava indo muito bem, ou pelo menos ela nunca tinha me dado alguma pista de que eles pudessem terminar em breve.
“Nutella?” Ofereci já me levantando para ir buscar o potinho do doce que eu sabia que ela sempre tinha estocado na cozinha. O último inclusive dado por mim.
“Foi estupido na verdade,” comentou.
me seguiu até a cozinha e sentou no balcão de mármore que ficava no centro.
“O que aconteceu?” Perguntei, deixando a curiosidade levar o melhor de mim.
deu de ombros enterrando sua colher no pote de chocolate. Ela evitou meu olhar, o que me fez concluir que ela estava envergonhada por algum motivo.
Apertei levemente o lado de sua barriga, sabendo que ela sentiria cócegas e se encolheria.
!” Resmungou. “Não aconteceu nada, foi besteira.”
“Você terminou com ele por uma besteira?”
me olhou e suspirou.
“Não foi a primeira vez que a gente brigou pelo mesmo motivo,” explicou.
Recostei-me no balcão em que ela estava sentada e coloquei minha colher no potinho que estava na mão dela.
“Qual é o motivo?”
deu de ombros e sorriu sem animação. “Você.”
Engasguei um pouco com o chocolate, mas disfarcei a surpresa.
Ficamos em silêncio por algum tempo, sem saber direito o que dizer. Ela nunca havia dito nada sobre o Alex ser ciumento ou que ele se incomodava com a nossa relação e eu me perguntei se ele havia sido o único cara que a se relacionara a achar que éramos mais que melhores amigos.
“Isso quer dizer que eu te devo um novo namorado?” Falei em tom de deboche para aliviar o clima.
riu.
“Acho que você já me deve uns três.”
“Ah, que seja. Você merece muito mais do que os babacas que você chama de namorados,” apesar do tom de brincadeira eu não poderia falar mais sério.
Certo, Alex não era a pior pessoa e até onde eu sabia ele tratava muito bem, mas certa vez alguns posts um tanto preconceituosos em uma de suas redes sociais haviam chamado a minha atenção e desde então não conseguia deixar de pensar em quais outros tipos de preconceitos ele escondia por trás do sorriso de bom moço.
sorriu olhando para o potinho de Nutella que ainda estava em suas mãos e depois me olhou, parando para analisar rapidamente a minha expressão.
“Obrigada, .”
Peguei sua mão na minha e a apertei levemente, sabendo que não era necessário dizer mais nada além do que já havia sido dito.

A primeira coisa que notei ao chegar em casa no dia seguinte foi um par de tênis masculinos que estava jogado perto da porta. Por ainda estar um pouco sonolento eu não os reconheci de imediato, mas foi só eu ouvir uma risada conhecida vinda do quarto de hóspedes que imediatamente eu soube que eles pertenciam ao Christian.
Depois de um banho rápido eu resolvi preparar um café da manhã. Como o sol já estava brilhando forte no céu, convidei para um banho de piscina na tentativa de animá-la um pouco. Apesar de aparentar não ter sido afetada pelo término do namoro, eu sabia que ela gostava muito do Alex e estava investida na relação.
“Ei, esse tênis não é do Christian?” perguntou assim que entrou em minha casa.
Claro que ela os reconheceria. Qualquer um reconheceria o tênis colorido que o Christian gostava de usar.
Confirmei e ela levou a mão até a boca, surpresa com a revelação.
“Não acredito que ele me fez quase pular no pescoço da Cora depois do verão passado e agora está transando com ela novamente,” comentou indignada.
Dei de ombros, sem querer apontar que eu havia dito para ela não se intrometer na relação dos dois, mas ela havia escolhido me ignorar.
Ouvimos um barulho suspeito vindo do quarto onde eles estavam e corremos para a piscina, sem querer correr o risco de ouvirmos mais do que queríamos e devíamos.
“Se você tivesse me dito que vir pra cá resultaria num voyeurismo indesejado eu certamente teria dito que não,” brincou.
Caímos na piscina juntos e ficamos aproveitando a água por um tempo. A temperatura estava boa, nem muito fria e nem muito morna, ideal para aquele dia de verão.
Nadamos de um lado para o outro, apostando corridas bobas como se tivéssemos 10 anos novamente.
“Alex me ligou hoje cedo,” contou.
Estávamos na beira da piscina, nossos braços apoiados na borda enquanto recuperávamos o folego depois de algumas corridas na água.
Virei minha cabeça encontrando seus olhos apertados por causa do sol.
“O que ele queria?”
deu de ombros. “Eu não atendi.”
Como ela não disse mais nada, eu resolvi não estender o assunto.
Christian e Cora apareceram como se nada tivesse acontecido nos chamando para tomar café em um restaurante, mas resolvemos deixá-los aproveitar sozinhos o momento amorzinho deles.
fez careta quando eles sumiram de vista.
“Eu tinha esquecido como eles ficam bem juntos,” confessou.
Apesar de ter concordado com um aceno de cabeça, eu não achava que eles ficavam tão bem juntos. Em outra ocasião, se estivéssemos somente eu e os caras, muito provavelmente iriamos dizer o quão fora do alcance do Christian a minha prima está.
Lembrei subitamente de Helen, a garota da noite anterior e considerei contar sobre ela para a , mas quando a olhei vi que ela estava absorta em seus próprios pensamentos, seus olhos fixos na água como se fosse a coisa mais interessante que ela já tivesse visto.
“Eu estava pensando,” falou de repente.
Esperei que ela completasse, mas ficou muda novamente.
“O quê?”
deu de ombros parecendo insegura por um momento.
“Qual é a sensação de beijar embaixo d’água?”
Seu tom de voz estava um pouco infantil e eu quis rir, mas não o fiz.
“Normal?” Sugeri.
sorriu. “Já experimentou antes?”
Balancei a cabeça negando.
Ela me encarou por alguns segundos e eu podia ver em seus olhos o quão rápido sua mente estava trabalhando naquele momento. Em um piscar de olhos mergulhou, puxando meu braço segundos depois, me dando apenas um segundo para juntar todo o ar que podia em meus pulmões.
Debaixo d’água seus cabelos flutuavam ao redor de seu rosto angelical. Seus olhos me olhavam com expectativa, mas seus lábios ainda tentavam esconder um sorriso que eu sabia que era só meu.
Sem pensar duas vezes eu puxei seu corpo para perto do meu e selei nossos lábios. E esse foi o momento em que meu mundo parou.
Eu não saberia dizer se o beijo durou 5 segundos ou 5 minutos. Eu também não saberia explicar as ondas elétricas que passaram por todo o meu corpo assim que seus lábios encontraram os meus. Era como se ela fosse um fio de alta tensão e com cada toque eu levasse um choque que acordava tudo dentro do mim.
Meu corpo estava leve, flutuando num azul infinito. Até aquele momento eu não sabia que todo o meu mundo podia se resumir a apenas uma pessoa. Éramos eu e ela e mais nada.
E então acabou.
se afastou lentamente, fazendo com que eu abrisse os meus olhos e encontrasse os seus, me encarando com espanto. Então eu soube que ela sentiu o mesmo que eu.
Quando emergimos foi rápida ao quebrar a tensão com uma risada discreta.
“Acho que você tinha razão. É normal,” comentou.
“É... Normal,” concordei sem animação.
ficou pensativa por alguns momentos e depois passou o dedo pelos lábios, fazendo uma careta engraçada.
“Não precisa humilhar também,” falei tentando ser engraçado, mas me sentindo um pouco ofendido.
riu. “Não é isso. Só é estranho beijar o meu melhor amigo.”
Dei de ombros.
“De qualquer forma acho que acabamos de dar o motivo que o Alex precisava pra não gostar mesmo de mim.”
corou e mordeu o lábio inferior, parecendo decidir se deveria dizer em voz alta o que estava em sua mente.
“Talvez até dois motivos.” Sussurrou.
Olhei-a sem entender e ela respondeu sem me olhar enquanto saia da piscina.
“Você beija melhor do que ele.”
Esperei que ela me olhasse depois de dizer isso, mas isso não aconteceu. Sua voz, um pouco mais baixa que o normal, revelava sua insegurança ao dizer aquilo. Eu apenas sorri comigo mesmo, ainda sentindo os efeitos do seu beijo em diferentes partes do meu corpo.

O primeiro mês de férias passou em um piscar de olhos. Os dias ensolarados eram aproveitados na piscina e nas poucas vezes que chovia nós escolhíamos ir ao shopping ou assistir um filme em casa.
Eu e os caras estávamos ensaiando algumas músicas novas que acabávamos escrevendo quando nos cansávamos de ficar torrando debaixo do sol.
Christian e Cora seguiam firmes, mas apesar de fazerem todos os programas de casais e até andarem de mãos dadas, se ofendiam quando alguém sugeria que eles estavam em uma relação séria.
Quando todos decidimos que estávamos de saco cheio do cloro da piscina, resolvemos finalmente ir até a praia e curtir o dia por lá.
Nos dividimos em dois carros. Hugo levaria Adrian, Danielle e Sarah, as melhores amigas de . Se eu conhecia bem os meus amigos, apostaria que essa divisão foi proposital já que ultimamente o Adrian vinha perguntando sobre a Sarah sempre que encontrava .
Em meu carro estávamos eu, , Christian e Cora. Todo o caminho até a praia minha melhor amiga, sentada no banco do carona, manteve as pernas apoiadas no painel e cantou distraidamente as músicas que tocavam no rádio.
Gostaria de poder dizer que a viagem foi tranquila, mas o maldito short curto demais de fazia com que meu olhar vez ou outra se distraísse das ruas à minha frente para me concentrar em suas pernas bronzeadas que agora atormentavam meus pensamentos. Agradeci mentalmente quando finalmente chegamos e deixei meus pensamentos vagarem para mais longe enquanto meus amigos estendiam toalhas na areia e se preparavam para um dia tranquilo em frente ao mar.
“Você está distraído,” afirmou, já sentando em minha frente com o protetor solar em suas mãos.
No carro ela havia perguntado se eu havia passado o creme em meu rosto e quando eu disse que não precisava disso ela fez um discurso de 10 minutos sobre os perigos do sol e da falta de proteção.
“Está tudo bem?” Perguntou já começando a passar o creme gelado em meu rosto quente.
Fechei os olhos aproveitando a delicadeza de seu toque e confirmei com um aceno distraído. Eu podia sentir sua respiração próxima ao meu rosto o que fazia com que as memórias do nosso beijo que vinham me atormentando diariamente me atingissem mais fortes do que nunca.
Quando terminou seu trabalho ela apertou meu nariz levemente, fazendo com que eu abrisse meus olhos e encontrasse seu rosto sorridente me encarando.
“Obrigado,” sussurrei.
olhou para suas mãos, esfregando-as uma na outra e depois me encarou novamente, seu olhar atento demorando um pouco mais em meus lábios antes de encontrar os meus olhos e ela soltar um suspiro quase inaudível. Sem dizer mais nenhuma palavra ela se levantou e caminhou até onde suas amigas estavam.
“Vamos para a água, cara,” Adrian sugeriu.
Concordei rapidamente, agradecendo silenciosamente pela distração momentânea.
Na água notamos um grupo de três amigas que pareciam turistas, julgando pelo sotaque carregado.
“Você poderia tirar uma foto nossa?” Uma delas perguntou já me oferecendo o celular.
Depois de tirar a foto ela perguntou se eu e Adrian éramos da área e acabamos engatando uma conversa sobre os pontos turísticos da cidade e dicas de restaurantes e bares que elas poderiam visitar.
Eu já estava entretido em uma conversa um pouco mais pessoal com uma das garotas quando senti uma mão gelada em minhas costas e pulei para o lado de susto.
“Nossa, te assustei tanto assim?” perguntou com um sorriso brincando em seus lábios.
“Estava distraído,” murmurei.
Ela cumprimentou Amanda, a garota com quem eu estava conversando e permaneceu ao meu lado, introduzindo-se facilmente na conversa.
Em qualquer outra situação eu teria achado aquela intromissão normal, a sempre se enturmou facilmente e conseguia conversar com qualquer pessoa sobre os mais variados assuntos, mas foram suas ações que a entregaram.
No começo ela apenas apoiou seu braço em meu ombro de forma casual, depois seus dedos começaram a brincar com meu cabelo molhado e então, da forma mais natural possível, ela fez com que eu abrisse meus braços e se encaixou entre eles de forma que ficássemos numa posição intima como se fossemos namorados. Claro que Amanda entendeu a indireta e não demorou muito para se afastar de nós.
“O que aconteceu?” Perguntei confuso.
me olhou parecendo ainda mais confusa que eu.
“Nada. Por quê?”
Pensei em falar alguma coisa, mas talvez eu estivesse levando as coisas muito à sério. Dei de ombros e ela sorriu.
“A minha mãe tem perguntado por você,” comentou. “Disse que você nunca mais apareceu e até perguntou se a gente tinha terminado.”
Ri. “Ela ainda acha que estamos namorando?”
Há uns dois anos a mãe da criou uma teoria de que tínhamos uma relação secreta. Até sua filha começar a namorar sério com o Alex, ela me apresentava a todos como namorado da .
“Está brincando? Na cabeça dela o único motivo para eu ter terminado com o Alex é você. Imagina se ela descobre sobre o beijo.”
Seu rosto ficou mais sério enquanto nos olhávamos sem saber bem como lidar com o assunto. Senti uma vontade de puxá-la para debaixo d’água e beijá-la novamente, apenas para saber se tudo aquilo que senti foi real ou algo da minha imaginação.
,” segurei seu braço na intenção de fazer exatamente o que o meu corpo inteiro estava implorando para que eu fizesse e pude ver em seus olhos que ela estava pronta para aquilo.
, vamos tomar um sol na areia,” Sarah chamou aproximando-se de nós.
Deixei escapar um suspiro frustrado enquanto olhava para a amiga com um sorriso forçado.
‘Vamos sim,” concordou seguindo a amiga em direção ao lugar na areia que nossos amigos se encontravam.
“Está tudo bem, cara?” Hugo perguntou alguns minutos depois quando eu me juntei à ele e ao Christian.
Concordei com um aceno antes de também voltarmos para a areia.
O plano era voltar para casa cedo para podermos ir ao cinema, mas acabamos resolvendo curtir o por do sol na praia.
Notei que o Adrian e a Sarah estavam sentados bem próximos um dos outros, conversando baixo sobre algo que os fazia rir constantemente. Quando ele me olhou eu sorri, contente por ele estar com alguém legal como a Sarah.
Para minha surpresa, saiu de seu lugar e caminhou até mim, sentando entre as minhas pernas, suas costas apoiada em meu peito enquanto ela deitava sua cabeça em meu ombro.
“Está todo mundo de casal,” sussurrou. “Achei que podíamos tentar ser um também, mesmo que de mentirinha.”
Acariciei seus cabelos e beijei sua têmpora, sabendo que algo havia mudado em nossa relação e no jeito como meu corpo reagia a sua proximidade.
“Só de mentirinha mesmo?” Brinquei.
me lançou um sorriso triste e me deu um selinho rápido antes de voltar a recostar sua cabeça em meu ombro e deixar que o silêncio tomasse conta do nosso espaço enquanto observávamos o sol sumir no horizonte.

Todos nós temos aquela pessoa em nossas vidas para quem nós nunca temos coragem de dizer não. Quando eu era mais novo essa pessoa era a minha mãe. Ela sempre tinha um jeitinho de me fazer dizer sim para o que ela queria, fosse ir ao mercado ajudá-la com as compras do mês ou até colocar um avental e te dar um suporte enquanto ela fazia seus famosos cupcakes de chocolate que todos amavam.
Então eu conheci a .
Desde o inicio da nossa amizade sempre sentimos uma conexão forte, algo que fazia com que nos sentíssemos a vontade na presença um do outro. Tudo entre nós fluía naturalmente, como se nossos cérebros funcionassem de maneira igual e nos tornássemos cumplices em todos os momentos, mas ultimamente eu me encontrava em diversas situações onde eu só queria dizer não para qualquer pedido dela. Era como se eu me sentisse frágil demais quando estava próximo a ela, mas ainda assim ela me tinha enrolado em seus dedos.
“Vamos, , por favor,” implorou.
Balancei minha cabeça sabendo que a minha muralha de gelo estava desabando.
“Vai ser rápido, prometo,” ela repetiu. “Só um vestido e então voltamos pra casa.”
, você tem mil vestidos em casa. Não pode vestir um deles?” Argumentei.
Estávamos a sós em minha casa. Ela havia aparecido mais cedo para assistirmos um filme de terror que ela estava com medo de ver sozinha, mas eu sabia que devia haver alguma segunda intenção por detrás daquela visita. E ali estava ela.
“Não posso ir nessa festa com um vestido antigo! É uma festa em comemoração à minha entrada na faculdade, vida adulta e todo aquele blá blá blá.”
“A sua e a de metade da escola,” comentei com um sorriso.
Ela me olhou feio e eu suspirei. Minha muralha estava derretida no chão.
Caminhei ao lado de pelo shopping, ela já parecia saber exatamente em que loja queria ir. Seus passos eram largos e ela tinha um sorriso sincero no rosto.
Quando chegamos em frente a loja que ela tinha em mente, foi direto para a arara de onde tirou um vestido preto brilhante.
“O que acha?” Ela me olhou com expectativa.
“Hm, é bonito,” disse. “Mas esse decote não é muito grande?”
rolou os olhos. “Essa é as costas, .”
Um vendedor que aparentava ter a nossa idade se aproximou e nos cumprimentou. Pela forma como ele abraçou e a chamou de linda eu assumi que eles já se conheciam.
Ele a guiou até o provador, sua mão na lombar dela e em minha mente eu me vi quebrando todos os seus dedos lentamente até que ele nunca mais pudesse encostar nem um deles nela. Balancei a cabeça para me livrar daquele pensamento que eu nem conseguia reconhecer como meu. O que estava acontecendo?
Agradeci quando outros clientes entraram na loja e o vendedor se retirou, nos deixando sozinhos na área de provadores.
“O que acha?” perguntou, abrindo a porta do provador e me fazendo desviar a atenção do celular em minha mão.
Se eu pudesse ter fotografado aquele momento, eu o teria feito. Não a minha cara de idiota, claro, mas a garota em minha frente que havia virado o meu mundo de cabeça pra baixo.
O vestido era realmente bonito e realçava seu corpo de uma forma inacreditável, mas não era isso que tinha feito com que minha mente entrasse em êxtase. tinha um sorriso em seu rosto que fazia com que aquele clichê dos olhos brilhando se tornasse realidade. Ela tentava morder o lábio inferior, provavelmente para controlar o riso, mas logo o sorriso incontrolável aparecia novamente, fazendo com que eu tivesse que lutar para achar as palavras.
“Caramba,” foi tudo que consegui dizer.
riu e deu uma voltinha, mostrando o decote que deixava uma boa parte de suas costas à mostra.
“Pareço pronta para vida adulta?” Ela brincou.
“Não sei se para vida adulta, mas parece pronta para roubar o coração de todos os caras da festa.”
riu antes de entrar novamente no provador. Quando ela fechou a porta a ouvi sussurrar para si mesma:
“Talvez eu só queira roubar o de um.”

Eu já havia ido a muitas festas de diferentes tipos e em diferentes lugares. Os grupos mais populares do colégio adoravam disputar quem conseguia dar a melhor festa o que resultava em muitas festas durante o ano letivo e ainda mais durante as férias.
Nilton Cohen era de longe o cara mais rico da escola – talvez até da cidade. Conhecido por dirigir desde os 16 anos, sem se preocupar com as regras de trânsito, ele já havia aparecido no colégio com diversos carros esportivos. Seus pais judeus só andavam viajando pelo mundo, o que fazia com que ele e seu irmão mais velho organizassem inúmeras festas durante o ano.
Christian, Hugo e eu estávamos no jardim da famosa mansão dos Cohen. Todo mundo na cidade já havia desejado ao menos uma vez poder entrar nessa casa e ver como era a decoração ou descobrir se havia passagens secretas e cofres escondidos atrás de grandes estantes.
Algumas pessoas já se jogavam na piscina de roupa e tudo, algumas das garotas mais corajosas entravam apenas de calcinha e sutiã, dando gritinhos ao sentir a água fria contra seus corpos seminus.
Adrian apareceu depois de um tempo, sem a Sarah ao seu lado, o que nos levou a questionar onde ela estava, já que ele havia a buscado em casa.
“Ela encontrou com a e as amigas e ficaram conversando lá dentro,” respondeu.
“A já chegou?” Questionei, estranhando o fato de ela ainda não ter pulado em minhas costas ou gritado meu nome do outro lado do jardim.
“Já! Cara aquele vestido... Bom trabalho,” Adrian sorriu, me dando alguns tapinhas no ombro como se eu tivesse escolhido o vestido para ela.
Dei um sorriso sem graça e pesquei meu celular no banho, enviando uma mensagem para minha melhor amiga.

Seu vestido já está famoso.


Alguns minutos depois recebi como resposta um emoji com os olhos arregalados e as bochechas rosadas.
Na minha roda de amigos, meus três companheiros riram de algo que eu não prestei atenção.
, escuta essa,” Christian falou. “Segundo o Hugo, hoje é a noite em que a Danielle dá bola pra ele.”
“Cara, sem chance de ela te dar um segundo de seu tempo com aquele vestido. Metade dos caras dessa festa já deve estar trás dela.”
Olhei para onde Adrian apontou e vi Danielle conversando com alguns amigos. Seu vestido curto realmente chamava atenção e eu notei muitos garotos que, como nós, estavam falando sobre ela.
“Eu acho que ele deveria tentar,” dei de ombros.
Hugo me lançou o olhar de agradecimento enquanto Christian e Adrian balançaram a cabeça.
O celular de Christian tocou e ele se afastou dizendo que era a Cora e iria encontrá-la dentro da casa.
Uma música pop que não saia das rádios começou a tocar, fazendo com que muitas das pessoas que estavam no jardim entrassem na casa para dançar. Resolvemos fazer o mesmo, apesar de não dançarmos era sempre engraçado ver como as pessoas se comportavam depois de alguns drinks.
Avistei facilmente, cercada por seu grupo de amigas e com aquele vestido que eu sabia que iria habitar meus sonhos por um bom tempo. Elas faziam dancinhas engraçadas e riam de seus passos desconexos.
Sarah avistou Adrian e veio ao seu encontro fazendo com que a seguisse com o olhar e me encontrasse. Com um sorriso ela gesticulou para o próprio corpo, fazendo menção à minha mensagem sobre seu vestido.
Quando ela voltou sua atenção às amigas, aproveitei para admirá-la mais uma vez naquele vestido. Diferente de quando estávamos na loja, seu rosto agora estava maquiado e seu cabelo solto caindo sobre seus ombros e suas costas nuas.
Christian e Cora de aproximaram e só então reparei que o Adrian havia sumido com a Sarah. Eu não sabia se os dois estavam levando as ficadas a sério, mas, assim como minha prima e o Christian, eles não se desgrudavam.
Os dois tinham copos com tequila e sal em suas mãos e ofereceram a mim e ao Hugo.
“Sem limão?” Perguntei.
“Limão é para os fracos,” Cora brincou.
Brindamos e viramos os copos em nossas bocas, o liquido forte descendo facilmente por minha garganta.
“Estava precisando disso,” comentei.
Minha prima trouxe o assunto da entrada do Christian na faculdade de música e começamos uma discussão sobre isso. De nós quatro na banda ele havia sido o único a tentar entrar numa faculdade. Apesar de ainda indeciso sobre se matricular ou não, ele parecia animado com a possibilidade. O único problema era que a Universidade era em outra cidade, apesar de ser próxima, sabíamos que os ensaios da banda não seriam mais os mesmos.
A discussão entre a minha prima e o Christian acabou, de alguma forma, os levando a uma sessão de amassos, fazendo com que eu e o Hugo nos afastássemos um pouco.
“Acha mesmo que eu tenho alguma chance com a Danielle?” Hugo perguntou.
“Acho que só vai saber se tentar,” comentei com honestidade.
Ele pareceu pensar por alguns segundos e então, sem dizer nenhuma palavra, se afastou em direção ao jardim da casa novamente.
Olhei ao redor sem encontrar nenhum rosto amigo, apenas conhecidos da escola e resolvi ir até o bar da mansão onde os irmãos Cohen haviam colocado um freezer enorme cheio de cerveja.
Com uma garrafa na mão, admirei a coleção de whiskeys do patriarca da família Cohen. Era óbvio que algumas das bebidas ali eram caras demais para ficar expostas daquela forma, mas algo me dizia que a intenção era justamente mostrá-las para as visitas.
“Está brincando de pique esconde?”
parou ao meu lado, um de seus ombros tocando no meu e uma cerveja em sua mão.
“Meus amigos me trocaram por garotas,” confessei.
Ela riu. “Por que você não achou uma para você?”
“Quem disse que eu não achei?”
Não sei se ela entendeu a indireta, mas ficou em silencio, tomando alguns goles de sua cerveja e também admirando as garrafas caras a nossa frente.
encostou sua cabeça em meu ombro e suspirou.
“Essa é a nossa música, .”
Até o momento eu não estava prestando atenção na música que saia das caixas de som, então eu parei para ouvir.
Era uma música um pouco antiga, cantada por uma voz feminina um tanto forçada, mas foi a letra que fez com que eu congelasse em meu lugar. A garota cantava sobre um cara que conseguia terminar suas frases antes mesmo dela começá-las e como quando ela olhava em seus olhos achava que já o havia visto milhões de vezes antes. No final do refrão a garota, claramente apaixonada, dizia que o cara já devia ter sido dela em outra vida.
Quando o refrão estava prestes a se repetir novamente, toda a casa ficou escura e a música foi substituída por gritinhos assustados e urros animados de caras já claramente bêbados.
Minha mão procurou pela de , encontrando-a facilmente e entrelaçando nossos dedos.
Algumas lanternas de celulares começaram a ser ligadas e nós fizemos o mesmo, deixando nossas cervejas no balcão atrás de nós.
“O que acha que aconteceu?” perguntou.
“Acho que algum vizinho está querendo dormir,” comentei, fazendo-a rir.
“Vem comigo,” disse, me puxando pela mão e me conduzindo pela casa.
Era difícil se desviar das pessoas que ainda caminhavam sem saber para onde estavam indo, confusas com a falta de energia repentina. iluminava o caminho com seu celular e encontrou facilmente as escadas que nos levou ao segundo andar. Em outra ocasião eu teria desejado que as luzes voltassem a funcionar já que nunca havia frequentado aquela parte da casa.
Ouvi contar baixinho o numero de portas e quando chegou até a quarta do lado esquerdo ela a abriu, iluminando um quarto claramente feminino, certificando-se de que não havia ninguém ali. Ela fechou a porta atrás de nós e deitou no piso acarpetado, chamando-me para fazer o mesmo.
“Onde estamos?” Perguntei, curioso.
“No quarto da Gabriella, irmã mais nova dos Cohen. Ela estuda em um colégio interno na Inglaterra e raramente vem aqui.”
Deixamos nossos celulares no chão ao nosso redor, iluminando um pouco nossos rostos.
“Belas estrelas,” comentei me referindo ao teto do quarto que era cheio de estrelas fluorescentes coladas.
Ficamos em silêncio no quarto, ouvindo os sons e gritos que vinham do andar de baixo. As pessoas pareciam estar gostando daquela falta de energia repentina, apesar de o som de garrafas e copos quebrando ser um tanto assustador.
segurou minha mão entrelaçando nossos dedos e virou de lado. Eu podia sentir seus olhos encarando meu rosto com atenção, mas achei melhor não me virar. Ela estava perigosamente perto de mim e eu sabia que não precisava da influência de álcool para permitir que algo acontecesse naquele momento.
Tentei ocupar minha cabeça com algum pensamento que não fosse nosso beijo ou as sensações que ele me causou, mas deitado ali ao seu lado tudo que eu sabia era ela. Tudo que eu sentia era ela. Tudo que eu via era ela. Tudo que eu pensava era ela.
Mais do que nunca eu quis beijá-la novamente, provar para mim mesmo que tudo aquilo havia sido verdade.
Quando finalmente tomei coragem para virar meu rosto e encará-la, percebi que seus olhos estavam fechados e sua respiração ficando mais lenta aos poucos. Notei suas bochechas levemente rosadas por conta do calor e da bebida e como sua boca ainda possua uma camada de batom vermelho.
Isso não pode estar acontecendo, pensei.
Aos poucos senti meu corpo ficar mais leve e minhas pálpebras mais pesadas. A escuridão e o fato de que o barulho do lado de fora do quarto começava a ficar mais baixo fez com que eu adormecesse rapidamente, entrando em um sono pesado.
Acordei com uma claridade fraca entrando pela janela do quarto. Minha reação imediata foi procurar um corpo ao lado do meu, mas logo percebi que estava sozinho.
?” Chamei baixinho.
Nenhuma resposta.
Esfreguei meus olhos com força antes de me levantar e sair do quarto procurando por .
Na sala do andar de baixo algumas pessoas pareciam estar desmaiadas pelo chão e sofás. Entrei na cozinha, chamando por minha melhor amiga novamente, mas não obtive resposta. Antes que pegasse meu celular no bolso ouvi um barulho do lado de fora e abri a porta de vidro que levava ao jardim. fora mais algumas pessoas estavam espalhadas pela grama, todas parecendo estar num sono profundo. Então o barulho de água chamou minha atenção.
Apesar da pouca claridade eu podia ver a piscina a alguns metros de distancia. Por um segundo achei que o barulho tivesse vindo de outro lugar já que ela parecia estar vazia, mas segundos depois emergiu fazendo com que meus batimentos acelerassem e eu me achasse mais patético do que nunca.
Demorou alguns segundos para que ela me visse ali, parado, encarando-a como se ela fosse algo da minha imaginação. Não sei o que na sua expressão fez com que eu caminhasse rapidamente enquanto me livrava da minha camisa e meus sapatos. Talvez tenha sido seu olhar que pela primeira vez revelava que aquele beijo havia significado o mesmo para ela que significou para mim.
Quando dei por mim estava entrando na piscina, nossos corpos se encontrando rapidamente e nossos lábios procurando um pelo outro, o desejo ficando claro pela forma como nossas mãos exploravam nossos corpos.
A sensação de poder beijar de novo era esmagadora e dominava todo meu corpo. Minhas mãos seguravam seu rosto enquanto meus dedos estavam perdidos em seus cabelos molhados. Eu podia sentir as unhas dela em minhas costas e seus gemidos contidos cada vez que eu mordia seu lábio inferior.
Mesmo depois que nossas bocas se afastaram mantivemos nossas testas encostadas uma na outra. Ainda tentávamos recuperar o folego quando uma das pessoas que estava jogada na grama se levantou, reclamando de alguma coisa que não prestamos atenção.
me deu um selinho rápido de depois passou o polegar por meu lábio inferior. Enquanto eu acompanhava seus movimentos, tentava achar alguma palavra que pudesse descrever tudo aquilo, algo que eu pudesse dizer que traduzisse o que eu estava sentindo, mas era impossível.
riu de repente, “, tem noção do quão clichê nós somos?”
“Pelo menos eu não fiz uma serenata com a banda da escola para te dizer que você é boa demais para ser verdade,” argumentei, fazendo-a gargalhar. “Ou apareci com uma caixa de som na janela de sua casa.”
“Talvez a gente possa dar uma volta no jardim em um cortador de grama,” ela sugeriu.
“Ou talvez a gente possa criar o nosso próprio clichê,” comentei.
sorriu. Aquele sorriso que é só meu e que faz com que meu mundo se resuma a ela.
“Só nosso,” ela sussurrou antes de voltar a me beijar e fazer com que o mundo ao nosso redor sumisse.
A verdade era que eu não me importava de sermos um clichê. Se ela quisesse eu viveria todos os clichês mais idiotas de filmes com ela. Correria até o aeroporto e pararia um avião apenas para dizer o quanto a amava, a beijaria debaixo da chuva depois de uma briga e até dançaria em um flash mob numa estação de trem, porque em uma coisa tinha razão... Em outra vida ela deve mesmo ter sido minha.


Epílogo

O dia estava perfeito para estarmos no clube. O sol brilhava forte no céu enquanto eu a observava sem conseguir controlar o sorriso. Era difícil olhá-la sem sorrir. Seus cabelos balançavam ao vento enquanto ela corria de um lado para o outro antes de pular na piscina.
Ao meu lado a observava com a mesma fascinação no olhar. O sorriso no seu rosto não negava sua felicidade. Ela virou o rosto para me olhar e me deu um selinho rápido.
“Esse é o dia perfeito, sabia?” Comentou.
Observamos Catarina, nossa filha de quatro anos, enquanto ela brincava com Henrique, filho do Christian com sua esposa. Em um certo momento os dois mergulharam juntos, sumindo debaixo d’agua por alguns segundos.
“Achei que o clichê da piscina era nosso,” comentei, fazendo rir.
“A gente sempre pode criar um novo,” ela respondeu com meu sorriso favorito estampado em seu rosto.
Pra ser honesto eu aceitaria viver todos os clichês contanto que eu tivesse minha melhor amiga ao meu lado.



Fim.



Nota da autora: Oi oi! Pra quem não conhecia ainda essa é a Closer, mas na versão 2.0 haha
Ela foi originalmente escrita e postada há uns 10 anos e há alguns anos eu reescrevi para um projeto do site, mas que acabou não rolando. Esses dias me deu um estalo e lembrei da existência dessa versão e depois de reler, fazer ajustes, reescrever (de novo) algumas partes eu decidi que estava pronta para colocá-la no mundo. Essa fanfic tem uma importância enorme pra mim, pois foi com ela que comecei a ganhar reconhecimento como autora, então o meu carinho por ela é realmente infinito, seja na versão antiga ou nessa. Ela foi inspirada no texto que está na descrição que é de autoria desconhecida, eu só fiz traduzir do inglês. Ela também foi originalmente escrita com o Mcfly (Dougie como PP), mas agora preferi deixar com personagens originais mesmo e só o PP interativo. Bom, é isso. Peço que vocês tirem um segundinho do seu dia para comentar ai embaixo, pois o feedback dos leitores é de extrema importância para um autor. Obrigada por lerem 



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Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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