FFOBS - Colisão, por Cah (Kerouls)

Última atualização: 17/11/2018
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01 – Ela

- Cereal? – Perguntei, observando meu irmão mais novo concordar sem emitir nenhum som. – Ainda de mal comigo?
- Hum. – Gabe balbuciou, fazendo um bico adorável.
Três dias antes eu havia me recusado a comprar um boneco do Capitão América para ele, e desde então Gabe estava fazendo uma “greve de palavras”, como ele mesmo denominou. O único porém é que na maioria das vezes ele esquecia da tal greve e começava a conversar comigo como se nada tivesse acontecido.
Sorri sozinha e voltei minha atenção para o jornal aberto na mesa a minha frente.
Meia hora de greve de palavras depois, estávamos saindo de casa em direção ao ponto do ônibus. Gabe caminhava em silêncio ao meu lado enquanto eu tentava puxar conversa e fazê-lo voltar a falar comigo. Tudo isso por causa de um boneco estúpido que não valia metade do preço que estava sendo cobrado.
Observei enquanto Gabe tentava, sem sucesso, colocar o casaco com a mochila ainda nas costas. Comecei a contar mentalmente quantos segundos demoraria para que ele me pedisse ajuda, mas quando chegamos no ponto de ônibus ele ainda estava mudo. Três senhoras estavam sentadas no banco, o que fez Gabe bufar de frustração, provavelmente porque seu plano era colocar a mochila no banco e finalmente vestir o casaco. Peguei a mochila de suas costas e ele soltou um agradecimento sem emoção, finalmente vestindo o casaco.
Quando um ônibus parou a nossa frente as três senhoras se levantaram, fazendo com que Gabe corresse para o banco. Antes que eu me sentasse ao seu lado um garoto que parecia ter seus vinte-e-poucos anos desceu do ônibus e caminhou até mim, parecendo um pouco perdido. Estremeci, mesmo estando bem protegida do frio, aquele garoto tinha a palavra problema estampada desde suas roupas descuidadas até seu cabelo despenteado.
- Olá. – Falou. Sua voz era grave e o tom educado contrastava com sua aparência.
Sorri em resposta e o observei tirar um papel amassado do bolso de seu jeans rasgado.
- Você saberia dizer onde fica essa casa? – Entregou-me o papel.
Li o endereço escrito com uma letra apressada e descuidada e me assustei ao perceber que era o endereço da minha casa. Olhei novamente para o garoto em minha frente claramente confuso com a minha mudez. Observei rapidamente seu rosto que tinha uma feição dura. Seu cabelo desgrenhado caia em ondas por sua testa quase até cobrir seus olhos que não demonstravam nenhuma emoção. Não havia nada remotamente familiar em seu rosto ou em seu jeito.
- Tem certeza que esse é o endereço correto? – Finalmente falei.
O garoto-problema pegou o papel da minha mão e pareceu ler novamente o que estava escrito.
- Hm, certeza. – Falou, incerto. A contradição me fez querer rir, mas não o fiz.
Vi meu ônibus se aproximar e acenei para Gabe se levantar.
- Será que o Garcia me deu o endereço errado? – Ouvi o garoto falar para si mesmo enquanto alcançava o celular em seu bolso.
- Garcia? – Repeti. – Tito Garcia? – Ele balançou a cabeça, confirmando.
- Ele mora na casa 507, não 505. Vira a primeira esquerda e é uma das últimas casas da rua. – Apontei a direção, já pegando a mão de Gabe para subirmos no ônibus.
- Obrigado. – Ele murmurou sem esboçar um sorriso.
- Tenha um bom dia! – Falei, mais para provocá-lo. Nada como uma gentileza para amolecer um coração de pedra.
Olhei para trás a tempo de vê-lo fazendo uma reverência engraçada e um sorriso largo e sincero se formou em meus lábios.
- Quem era aquele? – Gabe perguntou, esquecendo-se de sua greve de palavras.
Dei de ombros. – Um estranho pedindo informação.
- Você sempre me diz para não falar com estranhos. – Ele me olhou, curioso.
- E eu acho bom que você continue não falando. – Pelo tom da minha voz ele percebeu que aquele assunto estava encerrado antes mesmo de começar.
Gabe me lançou um último olhar indignado e cruzou os braços, voltando sua atenção para o trânsito do lado de fora da janela.

**


Após deixar Gabe na escola, caminhei apressadamente para a estação de metrô. Antes de deixar meu irmão entrar na sala prometi que amanhã iriamos procurar outro boneco do Capitão América. Não queria deixá-lo ir para mais um dia de aula chateado comigo. A conversa foi rápida, mas não o bastante. Em uma segunda-feira o metrô não permite nem um minuto de atraso, só isso já é o bastante para estragar completamente a manhã de um começo de semana. Desci as escadas da estação pulando alguns degraus e cheguei bem a tempo de entrar em um dos vagões. Respirei aliviada e me segurei na barra de ferro acima da minha cabeça logo antes de o trem entrar em movimento.
Enquanto o metrô se movimentava eu tentei lembrar como era a minha vida antes dessa rotina. Escola, atividades extracurriculares, muitas festas, muitos estudos... Até o dia em que um acidente mudou a minha rotina para sempre.
Gabe e eu perdemos nossos pais em um acidente de carro quando eu tinha 18 anos recém completados e Gabe apenas 5. Desde então eu era responsável por ele e pelo nosso sustento. O sonho de ingressar na faculdade havia ficado para trás, era preciso trabalhar e assumir as responsabilidades que antes eram dos meus pais. Nosso avô era a única pessoa da família que tínhamos contato, foi ele que desde o inicio nos ajudou. Apesar de os nossos pais não terem nos deixado sem nada, não era possível manter o mesmo padrão de vida que levávamos antes.
Com o dinheiro que nos foi deixado era possível pagar a escola de Gabe e as despesas da pequena casa de dois quartos em que morávamos. Aprendemos a viver uma vida mais simples, mas éramos felizes ali. Tínhamos um ao outro e isso era mais importante que qualquer um dos luxos que costumávamos ter.
Meu avô fora um músico famoso entre os anos 70 e 80, sua banda não chegou a ser famosa internacionalmente, mas fora uma carreira de sucesso e que lhe rendera bons frutos e fez com que ele vivesse uma vida confortável até a velhice. Até hoje eu ainda encontrava alguns de seus álbuns em lojas especializadas. Minha avó, como não podia ser diferente, esteve ao seu lado durante seus anos de anonimato e durante seus anos de sucesso. Há aproximadamente doze anos um câncer a pegou de surpresa, ela batalhou até o final, mas a doença foi mais forte. Gabe nunca chegou a conhecê-la, mas as memórias de nossos passeios e viagens ainda estavam bem vivas minha memória.
A casa onde eu a meu irmão morávamos era originalmente de meus avós. Com parte do dinheiro que ficara de herança eu havia feito um acordo com meu avô e comprei a sua casa. Depois de toda a fama e sucesso eles resolveram morar em um bairro mais simples, queriam apenas aproveitar a vida juntos. Há alguns anos meu avô se cansara de morar sozinho, mudara-se para uma casa de repouso em um bairro um pouco distante. Lá ele tinha amigos, pessoas para conversar e era bem tratado, todos ali se lembravam da Rock Mist, sua antiga banda.
Confesso que por vezes desejava tê-lo por perto. O visitávamos uma vez por semana, mas apesar de três anos já terem se passado, ainda era difícil aceitar o fato de que eu ser o único adulto da casa. A parte egoísta dentro de mim queria poder sair e se divertir numa sexta à noite, ir com as amigas para a balada, tomar sol na praia em um domingo.
Pouco tempo depois do acidente dos meus pais eu conheci Benjamin, meu atual namorado. A presença dele ao meu lado foi o que me ajudou a perceber que eu poderia criar o Gabe, arrumar um emprego e viver uma vida normal. Nosso relacionamento, claro, era diferente dos outros. Não podíamos sair juntos sempre que queríamos, precisávamos de antemão ter algo planejado para Gabe. Às vezes ele dormia na casa de amigos da escola, na casa de vizinhos, outras vezes passava o dia com o nosso avô. Não existia uma divisão exata de tempo, Ben sabia que a minha atenção estava sempre voltada para o Gabe, meu irmão estava sempre em primeiro lugar. Na maior parte do tempo ele entendia esse e me apoiava, mas não posso negar já ter percebido alguns raros momentos em que ele deixava escapar um comentário ou até uma expressão facial que escancarava seu incomodo com a nossa situação fora do comum.
- Bom dia. – Cumprimentei o porteiro do antigo prédio comercial.
Nove andares acima estava o escritório de Joana Lottie, uma escritora que fora amiga dos meus avós, para quem eu trabalhava como assistente.
- Ah, ! – Joana acenou para que eu me aproximasse. – Que bom que você está aqui.
Seu rosto fino e já cheio de rugas entregava sua idade, apenas disso sua disposição e a forma como levava a vida com leveza mostrava que ainda tinha muitas coisas para viver. Seu cabelo vermelho encaracolado estava sempre com uma aparência bem cuidada, assim como suas unhas sempre pintadas de preto.
Sorri em resposta ao seu cumprimento, mesmo sabendo por seu jeito apressado que aquele não seria um dia fácil.
- Esvazie a minha agenda hoje. Surgiu um imprevisto, uma reunião de última hora. – Falou, já colocando a bolsa no ombro. – Cancele o encontro que eu teria com aquele editor, Carlos alguma coisa e desmarque a minha ginecologista. Hoje eu não apareço mais aqui, se alguém ligar diga que houve um imprevisto e que é inadiável. Mais tarde nos falamos!
Com isso ela me deixou sozinha na antessala de seu pequeno escritório. Martha, a moça responsável pela limpeza do prédio entrou na sala e me olhou, seus olhos confusos com a pressa de Joana. Levantei meus ombros, demonstrando que estava tão confusa quanto ela.
Depois de fazer tudo que Joana havia pedido, liguei para a fonoaudióloga de Gabe e confirmei sua consulta no final da tarde. Desde o acidente Gabe começou a ter alguns problemas na fala, depois de dois anos de sessões com a fonoaudióloga mal era possível notar, mas não queria que ele largasse o tratamento de vez. Apesar do acidente a minha meta era fazer com que ele vivesse uma vida normal e curtisse sua infância o máximo que pudesse. Quisera eu que alguém tivesse me dado esse conselho durante a minha infância e adolescência.


02 - Ele

Antes de virar a esquina olhei para trás uma última vez. A garota caminhava para a parte detrás do ônibus, acompanhada de um pirralho que parecia ser seu irmão. Apesar de seu olhar de dúvida, ela havia sido a única pessoa a não fingir estar distraída e arrumar uma desculpa para se afastar quando me aproximei.
Andei pelo caminho que ela havia indicado e observei as casas da rua. Nenhuma delas era muito fora do comum, aquela não era uma vizinhança de classe alta, longe disso, mas mesmo assim era muito diferente do lugar onde eu havia crescido. Aquelas pessoas não precisavam trancar as portas e janelas de casa o dia inteiro, ou se preocupar com brigas envolvendo traficantes e policia.
Bati na porta da casa 507 e esperei, ouvindo passos apressados do outro lado da porta. Tito apareceu na minha frente, seu rosto, ainda tão jovem quanto nos tempos de colégio, me trouxe lembranças boas de quando a vida era mais divertida e menos complicada.
- Meu garoto! – Falou, abrindo um sorriso e me dando um abraço apertado com fortes tapas em minhas costas. – Achei que não fosse acertar o caminho.
- É, me perdi um pouco. – Confessei. – Mas no ponto de ônibus uma garota me ajudou a achar o caminho. Eu estava com o endereço errado. – Mostrei o papel que estava em meu bolso.
- Essa é a casa da , minha vizinha. Foi ela quem te ajudou?
Dei de ombros, não fazia ideia do nome da garota que havia me ajudado e naquele momento não estava preocupado em saber.
Joguei minha mochila no sofá e olhei ao redor, reparando que apesar de Tito ter morado por um tempo com sua irmã, não havia nada feminino naquele lugar, e bagunça por algum motivo já me era familiar.
Tito me ofereceu um tour pela casa que não durou mais de um minuto. Além da sala, apenas os dois quartos, banheiro e cozinha. Como eu já havia reparado aquela era uma vizinhança simples, nada de luxos por ali.
Sentamos novamente no sofá e eu peguei o antigo violão que estava jogado por ali. Havia muito tempo desde a última vez que eu havia dedilhado um, nunca me parecera muito interessante, mas garotas gostavam de caras que tocavam algum instrumento e no lugar onde eu cresci quanto mais garotas aos seus pés você tinha, mais você era respeitado.
Percebi pelo olhar que Tito me lançava que ele queria perguntar como havia sido minha vida no último ano. Sufocante era a única resposta que eu poderia lhe dar, mas apenas as lembranças daquele lugar, o verdadeiro inferno na terra, me fazia estremecer.
- Noticias do Nico? – Ele finalmente perguntou.
Neguei, dando de ombros novamente.
Nico, meu irmão mais velho. Quando fui preso ele era o braço direito de um dos maiores traficantes do bairro onde morávamos, mas pouco tempo depois ouvi sussurros de que ele havia assumido a liderança depois de um conflito entre gangues. Desde o começo da adolescência esteve envolvido com o tráfico, o dinheiro que recebia era o único sustento da casa onde morávamos com nossa mãe. Eu sempre soube que quando chegasse a idade certa, eu também teria que ajudar no sustento da casa, mas diferente de Nico optei por arrumar um trabalho que não envolvesse nada ilegal e perigoso.
Não por muito tempo.
As imagens da noite em que Nico finalmente me convenceu a vender drogas em uma festa de universidade ainda me atormentavam diariamente. Honestamente tudo era apenas um grande borrão. As cápsulas de anfetamina em meu bolso, as garotas que me olhavam como se eu fosse o melhor partido da festa, a polícia invadindo o local e as algemas que deixaram cicatrizes em meus pulsos.
De tudo que passei durante o ano em que fiquei recluso da sociedade foram as imagens que vi no presídio que gravadas em minha mente. Um ano aprisionado e tratado como um vagabundo drogado, esquecido por minha mãe e meu irmão. Completamente fodido, largado no fundo do poço.
Peguei o maço de cigarro e perguntei se Tito tinha algum isqueiro por perto. Pensei que ele fosse reclamar por estar fumando dentro de casa, mas ele pegou um e acendeu também. Aquela casa definitivamente poderia virar meu novo lugar favorito.

***


A re-adaptação à vida fora de um presídio não era fácil, eu sabia disso. A sensação de estar sendo constantemente vigiado nos persegue a cada passo, o medo nos torna inseguros, faz com que duvidemos até mesmo de nossas sombras. Mas a pior parte é a procura por um novo emprego, a busca por uma normalidade.
O jornal à minha frente mostrava novas vagas em diversos setores, mas eu sabia que as chances de eu conseguir qualquer uma delas eram mínimas ou até mesmo nulas. Circulei algumas opções que me pareceram promissoras e peguei o telefone já me preparando para ouvir o outro lado da linha ficar mudo quando eu falasse que havia saído recentemente da prisão. Depois de seis tentativas frustradas rasguei o jornal e o joguei no lixo.
A frustração me consumia mais e mais a cada dia. Estava frustrado com as pessoas ao meu redor, com a minha vida medíocre, mas a minha maior frustração era comigo mesmo. Eu havia sido estúpido e ingênuo ao aceitar a oferta de Nico na noite em que fui preso. Havia sido fraco, cedendo facilmente a sua pressão, mesmo sabendo que aquilo acabaria com qualquer chance de um futuro digno que eu pudesse ter. Eu tinha um emprego, uma família, que por mais que fosse desestruturada era o mais próximo que eu podia chamar de lar. E tinha garotas, ou pelo menos uma garota... Barbie. Ela não se importava com o fato de eu não ter dinheiro ou com o fato de que eu não poderia lhe prometer um futuro digno. Barbie era a minha garota, provavelmente a única que me amara por eu ser quem era, a única que de fato queria a minha atenção, e não a do meu irmão. Ou pelo menos era assim que eu pensava, até o dia em que eu fui levado algemado em um carro de policia. Aquela noite foi a última vez que a vi. Nunca recebi uma visita sua no tempo em que fiquei preso.
Tito entrou pela porta do fundo e viu alguns pedaços do jornal pelo chão. Seu olhar de pena fez meu sangue ferver, mais um pra me frustrar ainda mais. Levantei da cadeira e sai pela porta onde ele entrara. A parte de trás da casa era apenas uma grama baixa, nada de flores ou árvores. A única coisa que separava as casas era um pequeno muro, tão baixo que até um poodle seria capaz de pulá-lo. Deitei na espreguiçadeira que estava no meio da grama e acendi outro cigarro, minhas frustrações pareciam fáceis de aguentar quando eu tinha um maço em meu bolso e um cigarro entre meus dedos.

***


- Eu posso conseguir algo pra você lá no barzinho onde eu me apresento nos fins de semana. – Tito comentou enquanto estávamos sentados na escada em frente à sua porta. Ele dedilhava seu violão e eu, para variar, descontava minhas frustrações em um cigarro. O olhei, concordando e sorrindo agradecido. Provavelmente seria uma perda de seu tempo, mas eu apreciei sua consideração.
Eu e Tito havíamos estudado juntos nos últimos anos de escola. Sua família era ainda mais fodida que a minha, todos os seus quatro irmãos eram envolvidos com gangues, seu pai fora preso acusado de pedofilia e sua mãe era uma alcoólatra inútil, não muito diferente da minha. Ele fugira de casa pouco antes de terminar a escola para tentar ser músico. Tito poderia não ser famoso, mas o fato de ele ter conseguido deixar tantas merdas pra trás me fazia admirá-lo. Nossas histórias eram parecidas, talvez por isso nos déssemos tão bem. Havíamos deixado para trás um passado difícil para tentar ser alguém na vida, a única diferença é que ele ainda tinha chances, enquanto eu havia acabado com as minhas.
Avistei uma garota se aproximar de mãos dadas com um moleque magrelo que não devia ter muito mais que uns oito anos. Eles conversavam relaxadamente, ainda sem notar nossa presença.
- Foi ela. – Falei, soltando a fumaça por entre meus lábios.
Tito me olhou sem entender. Indiquei a garota que agora estava virando para entrar na casa ao lado.
- Ela que me indicou a direção de sua casa no ponto de ônibus.
- É a minha vizinha, . – Falou, acenando para ela e recebendo dois sorrisos em retorno.
Senti vontade de rir quando vi que o pirralho estava banguela, sem um dos dentes da frente. A única recordação que eu tinha da época em que meus dentes estavam começando a cair era de quando meu irmão havia arrancado o meu dente da frente no meio da noite. Não lembro mais se doera ou se fora apenas pelo susto, mas eu chorei até o dia seguinte.
- A aula de violão amanhã ainda está de pé? – perguntou enquanto destrancava a porta de casa. Tito confirmou e o pirralho, que eu ainda não fazia ideia do nome, comemorou, mostrando novamente seus dentes... Ou a falta deles.
- Já levou essa pra cama? – Perguntei, depois que os vizinhos entraram na casa.
Tito soltou uma risada nasalada e balançou a cabeça negativamente. Lembrei-me dos tempos de colégio em que nós éramos um tanto quanto populares com as garotas e desejei poder voltar no tempo, nem que fosse apenas por um dia. Se eu soubesse a volta que a minha vida daria, teria aproveitado mais aquela época.
- Nah, desde que ela se mudou para cá, um tal de Benjamin fez questão de deixar claro que é o namorado dela. – Explicou. – Ele é um dos engravatados, sempre desfilando por ai com um carro conversível.
- Pra mim esse é só mais um motivo para levá-la pra cama. – Ri.
- E eu não poderia concordar mais, mas ela nunca me deu bola. Quem sabe você não tem sorte?
Tito me deu alguns tapinhas nas costas e me deixou sozinho com meus pensamentos.
Sorte.
Há algum tempo essa palavra fora extinta do meu dicionário.

***


Por incrível que pareça existem duas coisas muito difíceis de acostumar depois que você passa certo tempo dividindo uma cela com outros caras; uma cama minimamente confortável e o silêncio no meio da noite.
Meus olhos abertos vasculhavam a escuridão do quarto, acostumando-se com os detalhes, a arrumação dos poucos móveis, a pouca claridade que entrava pela janela. Tudo naquele quarto parecia despertar minha atenção e afastar meu sono. O zumbido em meus ouvidos fazia com que o silêncio fosse agoniante, ainda mais alto que o barulho de outras pessoas roncando, conversando ou brigando.
Virei de lado e coloquei o travesseiro na minha cabeça, fechando os olhos com força, numa tentativa frustrada de apagar de uma vez. Quando nenhuma das minhas tentativas funcionou, peguei o maço de cigarro e fui novamente para a espreguiçadeira do lado de fora da casa.
Soltei um palavrão pesado ao sentir o ar extremamente frio atingir meu corpo coberto apenas pela cueca e uma camisa de manga curta. Deitei na espreguiçadeira acendendo o cigarro e relaxando, ignorando o frio e o fato de estar começando a chuviscar.
Depois de três cigarros finalmente me senti relaxado o suficiente para voltar pra cama e finalmente apagar até o dia seguinte. Antes de entrar em casa reparei que no jardim vizinho havia uma cadeira que estava ocupada pela irmã do pirralho banguela. Ela lia um livro, parecendo alheia ao que acontecia ao seu redor. Fiquei com vontade de ir até lá e perguntar se ela queria me dar uma mãozinha no meu problema de insônia, nada como umazinha para me fazer dormir tranquilamente, mas achei melhor não.
Deitei na cama, sentindo o corpo definitivamente mais relaxado do que antes. A última coisa que me recordo é de ter me revirado algumas vezes antes de finalmente cair num sono sem interrupções. Nada de roncos, conversas ou brigas. Depois de tantos meses eu finalmente pude voltar a dormir pesadamente e sem medo de não acordar na manhã seguinte.


03 – Ela

Meus passos apressados contrastavam com as pessoas que caminhavam tranquilamente pela calçada. Será que algum dia minha eterna batalha contra o tempo chegaria ao fim? Bastava eu querer que ele passasse devagar que ele parecia rir de mim, então eu pedia que um dia acabasse logo e adivinha? Curiosamente as 24 horas pareciam se tornar 30.
As aulas de Gabe haviam terminado há quase vinte minutos, enquanto eu desviava dos passantes, postes, carrinhos de comida e tudo que parecia estar propositadamente em meu caminho pensava se já havíamos perdido o terceiro e último ônibus que passava perto da escola de Gabe e nos deixava perto de casa.
Finalmente entrei pelos portões da escola e avistei Gabe sentado em um banco conversando com uma garota que parecia ter sua idade. Acenei para que ele se aproximasse e ele se despediu da amiga com um sorriso. Estendi o sanduiche em minha mão e ele negou.
- Não está com fome?
- Ainda não. Talvez em alguns minutos. – Falou, me fazendo rir.
- Lembra que hoje o Tito vai te dar aula de violão?
Há algum tempo Gabe vinha pedindo para fazer alguma atividade fora da escola. O dinheiro que sobrava das despesas não era suficiente para matriculá-lo em algo que o interessasse, então Tito, nosso vizinho, se oferecera para ensiná-lo a tocar violão. No começo Gabe parecera bastante empolgado, mas desde o dia anterior ele parecera perder um pouco o interesse pelas aulas.
- Aquele estranho vai estar lá?
Estranho é como ele vinha se referindo ao amigo do Tito. Eu não sabia seu nome, mas sua presença parecia ser a razão pelo desinteresse de Gabe. Talvez ele, como eu, sentisse que aquele garoto traria problemas para nossa pacata vizinhança.
- Provavelmente. Ele é nosso vizinho agora.
Gabe fez careta, colocando a língua para fora como se o pensamento do garoto-problema como nosso vizinho o enojasse.
Avistei o nosso ônibus e agradeci por não termos perdido. Uma corrida de táxi até em casa não seria nada barata. No meio do caminho Gabe pediu por seu sanduiche, lembrando que não teria tempo de comer antes da aula de violão. Coloquei os fones do celular no ouvido, sem me importar muito com as músicas que estavam tocando.
O aparelho vibrou em minha bolsa e eu sorri ao ver que era uma mensagem de Ben, meu namorado.
“Saudades! Vamos ao cinema no fim de semana? Te amo. xx”
Em resposta prometi que falaria com a mãe de um dos amigos de Gabe para ver se ele poderia passar a noite fora de casa. Esse era um dos maiores problemas de morar sozinha com o Gabe, o dinheiro para as despesas não incluíam uma babá, então antes e depois da escola eu era a única responsável por ele.
Quando bati na porta de Tito já estávamos quase trinta minutos atrasados para o horário que havíamos combinado. Antes mesmo que ele abrisse a porta eu já estava pedindo mil desculpas, explicando tudo que acontecera e embolando minhas próprias palavras.
- , relaxa. – Tito me tranquilizou. – Preparado pra aula? – Olhou para Gabe.
- O estranho está aqui?
- Gabe! – Chamei sua atenção.
Uma coisa era ele chamá-lo dessa forma quando estávamos sozinhos, mas agora o estranho podia estar ouvindo Gabe chamá-lo assim.
Tito me olhou, confuso. Sorri forçadamente.
- O seu amigo... É assim que o Gabe o chama.
- Estranho presente. – O garoto-problema entrou na sala. – E o nome é . – Falou, se jogando no sofá e nos ignorando.
Tito levou Gabe para um dos quartos e em poucos minutos já era possível ouvir as risadas acompanhadas de acordes desafinados de violão. pareceu se incomodar com o barulho e aumentou o som da tv. Lancei-lhe um olhar repreendedor e tudo que ele fez foi me olhar de volta, desafiando-me a falar alguma coisa.
Tentei pensar em alguma coisa inteligente para lhe dizer, alguma resposta que mostrasse que ele era apenas um estranho e nada que ele pudesse fazer atrapalharia a aula de violão do Gabe, mas alguma coisa em seus olhos fez com que eu me calasse. Eu nunca acreditei muito naquele ditado que diz que os olhos são o espelho da alma, mas olhando para aquele garoto jogado no sofá, me encarando com seus olhos duros e repreensivos eu percebi que por trás daquela barreira que ele parecia se esconder, havia uma história que eu não seria capaz de julgar, uma pessoa que eu não conhecia, mas que havia prendido a minha atenção desde a noite em que o vira fumando no gramado atrás de sua casa.
finalmente desviou o olhar do meu, quase como se pudesse ler meus pensamentos.
- Que diabos... – Falei por baixo fôlego, procurando algo que distraísse minha atenção e apagassem seus olhos da minha mente.
Liguei a torneira da cozinha e lavei minhas mãos, uma mania que eu tinha sempre que ficava nervosa por algum motivo. Já estava prestes a até começar a lavar os pratos sujos na pia numa tentativa desesperada de parecer inabalada quando ouvi alguns acordes de violão e reconheci a música de maior sucesso da banda do meu avô. Senti vontade de entrar no quarto e abraçar Tito por ensinar Gabe a tocar uma das músicas do nosso avô.
A televisão na sala estava novamente em um volume razoável, fazendo com que fosse possível ouvir uma voz cantando a música que Tito tocava no violão. Caminhei pelo pequeno corredor e antes mesmo de entrar na sala reconheci a voz que cantava a música.
- Que foi? – perguntou e só então percebi que estava o encarando novamente.
Pigarreei, fingindo que coçava meu pescoço enquanto tentava olhar em qualquer direção que não fosse a sua. Balancei a cabeça, tentando parecer despreocupada, mas ele continuava me olhando, esperando uma explicação. O único problema era que nem eu tinha uma explicação para o meu comportamento nos últimos minutos.
- Nada. – Finalmente falei, incapaz de inventar alguma mentira que fizesse sentido. – Era só a música... – Antes que eu completasse a frase ele se levantou e saiu pela porta da frente, deixando-me sozinha e fazendo com que eu me sentisse uma completa idiota.
– Grosso!
Talvez a palavra tenha saído um pouco alta demais, mas uma parte de mim vibrou quando ele colocou a cabeça pra dentro de casa e me olhou com um sorriso sacana no rosto.
- Falou alguma coisa?
- Acredito que você tenha ouvido perfeitamente o que eu falei... Estranho! - Antes que ele respondesse, repeti sua falta de educação e saí da sala, deixando-o sozinho com seus pensamentos que eu imaginei não serem nada agradáveis.

**


Eu estava terminando de fazer o jantar quando uma batida na porta chamou minha atenção. Gabe assistia televisão na sala e me olhou, em dúvida sobre atender ou não. Pedi que ele atendesse, mas antes perguntasse quem era.
- Sou eu. – A voz de Ben soou do outro lado da porta.
Gabe sorriu, por uns segundos parecendo que Ben era seu namorado, e não meu. Os dois se abraçaram, fazendo seu aperto de mão secreto, como eles chamavam. Não que fosse de fato um segredo, nem ao menos complicado era, mas Gabe adorava, de alguma forma se sentia importante por ter um aperto de mão secreto com um adulto.
Enquanto Ben caminhava até mim notei que ele havia cortado o cabelo recentemente, seus fios claros estavam espetados para cima ao invés de caindo sobre os olhos como da última vez que o vi. Ele me abraçou pela cintura e eu me estiquei para alcançar seus lábios.
- Vai jantar com a gente? – Perguntei, mostrando a sopa e a lasanha que estavam na mesa.
- Hm, na verdade já jantei, mas acho que não vou resistir. – Falou, puxando uma cadeira e sentando.
Durante o jantar Gabe e Ben conversavam sobre aleatoriedades, o que tinham aprendido durante as aulas, Gabe na escola e Ben na faculdade, o que fizeram durante o dia e no começo da noite. Eu sorria, fazendo alguns comentários, mas preferindo ouvir mais do que falar. Os olhares e sorrisos cumplices dos dois levavam minhas preocupações embora. Eu gostava do fato de Gabe ter uma presença masculina forte na sua vida, e eu sabia que Ben era um exemplo perfeito para ser seguido. Estudioso, batalhador, educado e sempre bem humorado, com ele as coisas pareciam mais simples, era fácil imaginar um futuro sem preocupações com ele ao meu lado.
Depois do jantar nos revezamos entre lavar, secar e guardar a louça. Normalmente Gabe não parecia empolgado em me ajudar nessas tarefas de casa, mas quando Ben estava presente ele fazia o possível para passar mais tempo ao seu lado. Entre nossos trabalhos e suas aulas na faculdade era difícil nos vermos todos os dias, sempre procurávamos dar um jeito de estarmos juntos, mas a frequência dificilmente passava das três vezes por semana. Nos primeiros meses de namoro chegávamos a passar dias inteiros juntos. Quando meu avô ainda morava conosco eu costumava passar muitos finais de semana na casa de Ben, mas quando meu avô decidiu ir para a casa de repouso eu ganhei novas responsabilidades e ficou difícil conciliar tantas coisas. Cheguei a cogitar terminar o namoro, mas mesmo sem saber das minhas intenções Ben me fez mudar de ideia e perceber que eu precisava dele ao meu lado para enfrentar tantos obstáculos. Com ele ao meu lado eu me atrevia a pensar que algo bom me esperava num futuro próximo.
- Vou colocar o Gabe na cama e volto para matar as saudades. – Falei no ouvido de Ben e senti ele se arrepiar.
- , o Ben pode ler pra mim hoje? – A voz manhosa de Gabe me fez sorrir.
Antes que eu pudesse responder Ben já estava caminhando até Gabe e pegando-o no colo. O olhei agradecida e ele piscou, sussurrando um volto já.
Apesar de a porta do quarto de Gabe estar fechada, era possível ouvir suas risadas altas e os pedido de Ben para que ele parasse de rir de qualquer besteira que havia falado. Troquei a calça jeans e a camisa de manga comprida por um pijama confortável e fui até o banheiro para escovar os dentes.
Olhei pela janela reparando que a luz do quarto que até alguns dias atrás estava sempre apagada por nunca haver ninguém no cômodo foi acesa. Eu sabia que o quarto do Tito ficava do outro lado, então a única pessoa que poderia estar naquele quarto era...
- De novo não. – Falei por baixo fôlego.
O garoto-problema surgiu no meu campo de visão usando apenas uma toalha branca amarrada na cintura. Seus cabelos estavam molhados e, ao contrário de pessoas normais que usam uma toalha para secá-los, ele usava as mãos, bagunçando-os por completo. Vi uma de suas mãos segurar a ponta da toalha em sua cintura e, percebendo o que ele estava prestes a fazer, soltei uma exclamação e sai do quarto rapidamente, decidindo que daquele momento em diante a cortina do meu quarto ficaria sempre fechada. Bem fechada.
Os lábios de Ben tocaram meu pescoço, me fazendo pular do sofá e jogar o livro que estava lendo no canto da sala. Coloquei a mão em meu peito, sentindo meu coração bater velozmente, fora do normal.
- Desculpe pelo susto. – Falou, me abraçando e beijando meus cabelos.
- Não foi nada, só estava distraída. – Respondi, puxando-o pela mão para que ele sentasse ao meu lado no sofá. – Senti sua falta. – Comentei, beijando o caminho de sua mandíbula até sua boca.
Ben optou por concordar sem usar qualquer palavra. Ele era bom nisso, em usar ações para se fazer entendido, quero dizer. No começo do namoro nós dois éramos só ações, a paixão reinava em nossa relação, era praticamente a forma como nos comunicávamos. Não que a paixão não existisse mais, apesar de eu nunca ter sentido o famoso nó no estomago ou ouvido fogos de artificio, sempre soube que o meu relacionamento com o Ben seria mais sério e duradouro que qualquer outro. Durante a minha adolescência eu tive apenas dois namorados além do Ben, nenhum deles durou mais de seis meses, e nenhuma relação fora tão intensa, mas para mim a falta das borboletas no estomago era algo normal, o tipo de coisa que acontecia apenas em livros e filmes, ainda mais após três anos de namoro.
Não sei dizer por quanto tempo ficamos deitados no sofá, trocando beijos, carinhos, falando coisas bobas e sem importância, mas quando olhei o relógio vi que já era quase meia noite. Demorei alguns minutos para carinhosamente expulsar Ben de casa, dormir depois da meia noite era dor de cabeça garantida na manhã seguinte. Minhas preciosas sete horas de sono eram essenciais para que o meu dia funcionasse nos conformes.
Levei Ben até o lado de fora da casa e ele me abraçou, sem saber o quão agradecida eu estava já que meu pijama não era o mais adequado para o frio. Apesar de estar um degrau abaixo de mim, eu ainda precisava olhar um pouco para cima para falar com ele.
- Volta amanhã? – Minha pergunta soou como um pedido.
- Amanhã não posso, tenho um relatório para entregar no sábado de manhã na faculdade. – Beijou meus lábios rapidamente. – Mas eu quero te ver no sábado a noite. – Sua voz manhosa me lembrou a de Gabe, agora eu sabia onde ele havia aprendido.
- Vem pra cá, então.
- Não, não assim. Quero só você, sem irmão mais novo, sem responsabilidades – Enquanto falava ele beijava meu pescoço, aproveitando a escuridão e o fato de estarmos sozinhos na rua. – sem roupa... – Completou, seus olhos verdes esmeralda brilhando, cheios de malicia.
Dei risada, tentando pensar na última vez que em que estivemos sozinhos daquela forma. Já havia se passado quase um mês, não era o máximo de tempo que havíamos ficado sem transar, mas era o suficiente para fazer com que nos empolgássemos um pouco mais do que devíamos àquela hora e em frente a minha casa.
Suas mãos já apertavam meus glúteos com vontade quando eu finalmente separei nossos corpos, com medo de que alguém passasse na rua, ou até mesmo Gabe abrisse a porta. Dei um último beijo rápido em seus lábios e o observei entrar no carro e sumir pela rua escura.
- Sabe... – Uma voz masculina, pela segunda vez na noite, me fez pular de susto. – Eu sinto falta dos tempos em que precisávamos pagar para ver um pornô. – falou despreocupado enquanto soltava a fumaça do cigarro por entre os lábios.
Engoli em seco, me recusando a ceder às suas provocações. Senti meu rosto em chamas mais uma vez e agradeci por estar escuro demais para que ele percebesse. Notei que, como na noite anterior, ele vestia apenas uma boxer e uma camisa e me perguntei se ele não sentia frio, porque desde que Ben afastara o corpo do meu eu estava praticamente congelando.
- Você sempre foi inconveniente assim ou fez um curso? – Certo, não foi a minha melhor piada, mas foi o melhor que meu cérebro conseguiu fazer àquela hora da noite.
Um sorriso convencido surgiu em seus lábios e ele deu um último trago no cigarro antes de jogá-lo no chão sem se preocupar se ainda estava aceso. Senti seus olhos intensos me analisarem e quando o olhei novamente vi que ele, sem o menor pudor, encarava minhas pernas poucos cobertas pelo short do pijama.
Bufei e entrei em casa rapidamente, sem me preocupar com o barulho que a porta fez quando a fechei com força.
- Belas pernas! – Ouvi sua voz alta e divertida do outro lado da porta.
Joguei-me na cama, cansada e irritada demais para ir até a casa vizinha e falar todos os desaforos que ocupavam minha mente naquele momento. O cansaço me atingiu com força, fazendo com que eu dormisse antes de poder anotar todas as respostas inteligentes que eu poderia ter dado para o garoto-problema que também havia se revelado como um belo insolente.


04 - Ele

A vida é sempre cheia de opções, algumas fáceis de escolher, outras difíceis. Enquanto eu me olhava no espelho, tentava decidir qual das camisas usar no primeiro dia de trabalho. Alguns meses antes essa seria uma das opções de fácil escolha, mas quando é preciso provar para o mundo, e principalmente para o possível-futuro-chefe, que você não é um drogado fodido, essa escolha se torna extremamente difícil. Cheguei a desejar que Tito não estivesse fora da cidade, mas percebi que aquele pensamento, junto com o fato de eu estar tentando escolher uma porcaria de camisa para usar, era muito infantil.
Na cozinha o cheiro dos ovos que eu havia deixado no fogo começava a passar de no ponto para queimado. Peguei rapidamente qualquer camisa em cima da cama e corri para desligar o fogo antes que meus ovos e a casa pegassem fogo. Abri os armários tentando encontrar o pó do café para a cafeteira, mas lembrei que antes de sair de casa Tito havia falado que eu teria que comprar mais.
- Porra! – Gritei, já odiando aquele dia.
Para algumas pessoas pode parecer fácil, mas para mim, começar o dia sem café, é a mesma coisa que nem ao menos começá-lo. Cigarros, café, mulheres... Eu sempre fui um cara de muitos vícios.
Olhei pela janela e pude perceber que e seu irmão estavam sentados à mesa da cozinha na casa ao lado. Mais de dez dias morando ali e aqueles dois pareciam me odiar cada vez mais. Não que eu os culpasse... Inferno! Eu estava pouco me fodendo para aqueles dois.
Sai de casa deixando a porta apenas encostada e bati na casa vizinha, ouvindo uma cadeira ser arrastada e alguns passos se aproximarem da porta.
- Oi. – falou, sem esboçar um sorriso e com um tom seco.
- Hm, ficamos sem café. – Respondi, apontando para minha casa.
Sem me dar uma resposta ela me deixou sozinho na porta e foi até a cozinha. Pela brecha que ficara aberta puder ver o pirralho banguela me olhando como se eu fosse um ladrão prestes a invadir a casa. Como bom sacana que sou, o encarei de volta, como se, de fato, estivesse prestes a invadir a casa e destruir tudo ali dentro. O pirralho se levantou rapidamente e sumiu da minha vista.
- Gabe? – Ouvi a voz de soar preocupada.
Observei-a caminhar de volta até a porta com um pacote pequeno de café. Ela me olhou, como se suspeitasse que eu tivesse feito seu irmão sair correndo.
- Que foi? – Perguntei, inocente.
- Assustar um garoto de oito anos de idade... Sério? – Seu tom irritado fez com que eu, sem querer, desse um passo para trás.
- O moleque acha que eu sou o diabo. – Dei de ombros, percebendo que aquela frase afetara mais a mim do que a ela.
- Santo é que você não é. – Respondeu, com um meio sorriso.
- Que seja! – Respondi, já me arrependendo de ter ido pedir qualquer coisa naquela casa. – Obrigado pelo café.
- Por nada.
fechou a porta de casa e eu pude ouvir um choro infantil. Passei a mão pelo cabelo, sentindo-me um pouco culpado. Um pouco de café mandaria aquela culpa de volta onde ela nunca deveria ter saído.

**


O barzinho onde Tito tocava nos fins de semana não se diferenciava muito de qualquer outro bar em que eu já havia entrado, fosse onde eu morava, ou em qualquer outro lugar. As paredes escuras e cheias de pôsteres, o longo balcão, o menu escrito a giz em um quadro velho e desgastado, e, é claro, as bebidas. A parte que poucas pessoas conheciam era onde eu estava naquele momento, a cozinha.
Meu chefe me mostrava rapidamente onde encontrar os materiais que eu precisaria ao mesmo tempo me apresentava aos meus novos colegas de trabalho e mandava mensagens no celular. Marcus, o cozinheiro chefe me cumprimentou com um pequeno movimento de cabeça e Lissa, sua assistente, acenou rapidamente. Reparei em sua saia curta, a enorme tatuagem em seu braço e em seus cabelos loiros – quase brancos - presos sem jeito em um rabo de cavalo. Nada mal.
Antes de ser pego vendendo drogas para Nico eu trabalhava em um restaurante popular do meu antigo bairro. Não era o melhor emprego do mundo e nem o lugar mais bem frequentado que existia, mas Phill, meu antigo chefe, fazia tudo aquilo valer a pena. Desde pequeno eu mantinha uma paixão meio secreta por receitas e pratos internacionais. A paixão surgira por causa do meu avô que era chef em um restaurante bacana e frequentado até por celebridades, apesar de ele ter morrido quando eu ainda era moleque, continuei com o sonho de seguir seus passos e também me tornar chef de cozinha.
Phill me ensinara tudo que meu avô não pôde por falta de tempo. Apesar das minhas infinitas burradas, ele tivera paciência comigo, insistia que eu tinha um bom futuro pela frente se continuasse daquele jeito. Lembro-me da primeira e única vez em que ele apareceu para uma visita no presidio, a decepção em seu olhar ainda fazia meu sangue ferver, imagino que aquele seria o mesmo olhar que o meu avô me lançaria se soubesse onde eu terminei.
- Tem experiência? – Marcus perguntou, sem desviar os olhos do peixe que limpava.
- Trabalhei por alguns anos em um restaurante.
Minhas mãos procuraram por algo para ocupá-las, mas eu ainda estava completamente perdido, acabei optando por mantê-las no bolso do meu jeans. Lissa me olhou, provavelmente percebendo o quão deslocado eu estava, e sorriu amigavelmente enquanto seus olhos me analisavam de cima abaixo sem discrição.
- Vai ficar parado ai? – Marcus chamou minha atenção. – Pega um avental e sirva-se. – Apontou um balde cheio de peixes prontos para serem limpos e descamados.

**


O bairro onde o bar ficava localizado era movimentado, pessoas caminhando pela calçada, carros, ônibus e motos ocupavam as ruas, era difícil achar um lugar para sentar e relaxar durante os vinte minutos de intervalo que eu tinha durante a tarde.
Caminhei apressado, no inicio sem rumo, até que vi a entrada de um parque qualquer e me dirigi para um dos bancos de madeira que estavam vazios. Acendi um cigarro e peguei o celular no bolso, vendo que Tito havia mandado uma mensagem avisando que chegaria no dia seguinte.
Sem conseguir pensar em algo mais útil para fazer passei os olhos pela minha lista de contatos. Cliquei no nome de Nico e li o numero que há um bom tempo eu tentava apagar da minha memória. Fiquei tentado a ligar, apenas para ver se aquele numero ainda era usado por ele, mas antes que pudesse fazer a besteira alguém sentou ao meu lado.
Lissa cruzou as pernas bronzeadas de uma forma sensual e me olhou com malicia. Ofereci um cigarro e um isqueiro, mas ela aceitou apenas o primeiro, olhei-a sem entender e ela deu um meio sorriso, colocando seu cigarro na boca e usando o meu para acendê-lo.
- Bela tatuagem. – Falei quando ela me devolveu o cigarro.
- Digo o mesmo. – Respondeu, apontando para a tatuagem na parte interior do meu bíceps que geralmente passava despercebida. – O que significa?
- É uma cruz egípcia. – Levantei um pouco a manga da camisa para que ela visse toda a tatuagem. – Representa a vida eterna e é um amuleto protetor.
- Hm, interessante. – Respondeu em um tom desinteressado.
Dei de ombros, sem me importar muito com a falta de interesse dela. Fiz aquela tatuagem aos 17 anos e ela foi como um pacto entre mim e Nico, não importava o que a vida trouxesse, seriamos sempre irmãos, companheiros. É, bela merda de pacto. Da última vez que o vi a sua tatuagem no antebraço já estava sendo quase coberta por infinitas outras tatuagens que havia feito desde que entrara para uma gangue. Provavelmente outros pactos com seus novos irmãos.
Levantei-me do banco, reparando que tinha apenas cinco minutos para voltar para o bar. Antes de deixar Lissa sozinha, me virei para ela.
- Tá livre hoje à noite?
Ela soltou a fumaça do cigarro por entre os lábios, fazendo um biquinho forçado.
- Pra você? – Me olhou. – Talvez.
Sorri minimamente, levantando apenas o canto dos lábios, era fácil saber que garotas gostavam daquilo, e joguei meu cigarro no chão perto de seus pés antes de me virar e voltar para o bar.

**


Algumas pessoas podem pensar que eu sou convencido, apenas por saber do que mulheres gostam e conseguir decifrá-las mais do que outros caras. Quando eu era moleque não conseguia entender bem o porquê de as garotas sempre virem fáceis para mim. Meus amigos viviam me zoando, dizendo que eu roubava as meninas deles, mas só com o fim da adolescência percebi que uma boa parte dessas garotas eram as sobras do meu irmão. Elas não tinham sorte com ele? Vinham para o mais próximo dele que conseguiam... Eu. Por um tempo minha autoestima ficou abalada por causa disso, até que eu conheci a Barbie.
Hoje em dia eu apenas confiava em mim mesmo. Sabia que era mais bonito que a média e descobri que essa aparência de garoto-problema, de alguma forma, atraia as mulheres.
Quando meu turno no bar acabou, nem me preocupei em me despedir, só queria sair daquela cozinha apertada e fedida a peixe. Longe de mim ter alguma frescura, já trabalhara com fedores muito piores, mas tudo aquilo misturado com a voz irritante de Marcus era demais para mim. Já estava no ponto de ônibus quando Lissa me alcançou, seu olhar revelava que o seu talvez de antes havia mudado para um sim. Sorri notando pela primeira vez na cicatriz em sua bochecha. Apesar da vontade de perguntar, apenas por curiosidade, o que havia acontecido, fiquei com receio de que a conversa se tornasse intensa demais. Conversar sobre nossas vidas não era bem o que eu tinha em mente para a noite.
Antes mesmo que eu abrisse a porta de casa, já pude sentir a mão de Lissa entrando por debaixo da minha camisa. Dentro de casa as roupas foram apenas sendo jogadas pelo caminho da sala até o meu quarto. Agradeci por Tito não estar em casa ou aquilo poderia ser bem constrangedor. De repente o pensamento de que Lissa era minha colega de trabalho e que eu teria que vê-la todos os dias da semana me atingiu, me fazendo desejar que sua intenção fosse a mesma que a minha, só uma noite prazerosa de sexo. Sem conversas, sem compromisso, sem pudores. Sexo. Era só o que eu queria.

**


Abri meus olhos lentamente, reparando que apesar de a cortina não estar fechada, não havia claridade do lado de fora. Peguei o celular e chequei o relógio que marcava quase 1 da manhã. Apesar de a minha cama estar vazia, levantei-me para checar se estava sozinho em casa. Nada de roupas femininas pelo chão, nenhum rastro feminino pela casa. Agradeci mentalmente e fui até a cozinha apenas para beber uma água. Nada como um bom sexo para curar uma insônia.
Abri a janela da sala e peguei um cigarro, apenas para não perder o hábito. Passei a mão por meu bíceps, que por algum motivo doía, e reparei nas marcas que as unhas de Lissa haviam deixado. Balancei a cabeça as observando no espelho, sem gostar de ter rastros dela por meu corpo. Não que o sexo não tivesse sido bom, mas a verdade é que depois da segunda vez e muitas posições a coisa toda meio que perdeu a graça. Nem ao menos conseguia lembrar quantas vezes ela havia gritado meu nome antes de eu apagar completamente, mas os gemidos impiedosos da garota estavam gravados em minha mente.
Joguei o toco do cigarro fora e, antes que pudesse pegar outro, lembrei que teria que acordar cedo para o trabalho. Meus dias de vagabundo haviam ficado para trás. Só esperava que esse emprego fosse temporário porque agora além da voz irritante de Marcus, teria a voz de Lissa em minha mente, gemendo meu nome e me atormentando o dia inteiro.


05 - Ela

Acordar cedo, preparar café da manhã e ir buscar meu irmão mais novo na casa de um amigo depois de uma festa de pijama, nunca estiveram no topo da minha lista de responsabilidades que eu teria aos vinte e um anos. Na verdade essas opções nem estavam listadas, nos meus planos para a faculdade as responsabilidades incluíam apenas, de vez em quando, estudar para provas, mas o topo da lista era composto por ir para festas com as amigas, conhecer garotos de fraternidades e me divertir como nunca antes em minha vida. Ah se eu soubesse naquela época que o nosso destino é impossível de ser controlado.
Sai de casa vestindo meu cardigã e me encolhendo por causa do frio. Caminhei pela rua contando as casas, mesmo sabendo em qual David, melhor amigo de Gabe, morava. Toquei a campainha e uma mulher jovem abriu a porta, sorrindo para mim.
- Oi, Anna. – Cumprimentei a mãe de David. – O Gabe está pronto?
Antes mesmo que ela negasse eu já sabia sua resposta. Gabe nunca estava pronto para voltar para casas depois de uma noite divertida com seus amigos. Eu sabia que ele perguntaria se podia ficar mais e ele sabia que a minha resposta seria não.
Anna me convidou para entrar na casa e me ofereceu alguma bebida, que eu prontamente neguei antes de sentar no sofá enquanto ela ia apressar Gabe. O ouvi resmungar que queria ficar mais, mas Anna já sabia minha resposta e apenas disse que ele poderia voltar sempre que quisesse. Gabe agradeceu pelo jantar e pela estadia e eu sorri, orgulhosa das suas boas maneiras.
- Se divertiu? – Perguntei, enquanto caminhávamos de volta para casa.
- Aham. – Sua boca estava cheia demais com o muffin que Anna havia lhe dado antes de sairmos. – Posso voltar amanhã?
- Nada de dormir fora em dias de semana. Talvez no próximo sábado, tudo bem?
Apesar de não ter gostado da resposta, Gabe concordou, voltando a encher a boca de muffin.
Durante muito tempo após o acidente de meus pais, tive medo que Gabe se tornasse uma criança problemática, fosse por não me respeitar ou por estar frustrado com os acontecimentos ao seu redor. Nos primeiros meses a presença de meu avô era mais constante, o que acabava aliviando um pouco da pressão sobre meus ombros. Era difícil aceitar que algo daquela dimensão havia acontecido com a gente. Cheguei a tentar culpar alguém, meu pai pela falta de controle no volante, à mim mesma por ter brigado com minha mãe no dia anterior, Deus por não ter impedido uma tragédia tão grande, mas no final das contas não havia culpados, fora um acidente, não havia nada que pudesse ser feito para evitar a perda.
Vi meu irmão pegar um livro de exercícios e começar a fazer a tarefa de casa que ele não havia tido tempo de terminar antes de ir pra casa de David. Naquele momento eu soube que eu não poderia ter feito um melhor trabalho em sua educação. Não que a presença de Ben e seu bom exemplo não tivessem ajudado bastante, seus estímulos, suas conversas com Gabe, tudo aquilo havia feito parte de seu desenvolvimento e sua criação.
- Precisa de ajuda? – Perguntei, olhando por cima de seu ombro e vendo alguns exercícios de matemática. Gabe negou, já concentrado e fazendo contas com seus dedos.
Ouvi uma batida na porta e fiquei surpresa ao ver Claire, uma das minhas amigas dos tempos de colégio, sorrindo para mim. Pouco mais de um mês havia de passado desde a última vez que havíamos nos falado por telefone. Ela prometera uma visita, mas até aquele momento eu achei que ela estivesse apenas falando por falar.
Depois de abraçá-la deixei que ela entrasse em casa e lhe ofereci algo para beber ou comer, mas ela apenas negou e foi até Gabe, o abraçando e trocando algumas poucas palavras.
- Não quero atrapalhar. – Falou, apontando para Gabe que voltara sua atenção para o livro novamente.
- Vamos lá pra fora. – Mostrei o caminho, mesmo sabendo que não era a primeira vez que ela me visitava.
Sentamos nas duas cadeiras de balanço do lado de fora e engatamos uma conversa sobre os últimos acontecimentos de nossas vidas. Claire, como sempre, tinha milhares de novidades para contar. Fosse sobre ela mesma, suas aulas na faculdade, seu trabalho em uma rede de televisão, ou sobre alguém dos tempos de escola que havia casado ou ficado grávida. Tentei lembrar algo emocionante que havia acontecido no último mês, mas minha vida havia se tornado uma rotina chata e sem mudanças. A única coisa que me veio em mente foi ter o garoto-problema como novo vizinho, mas não era algo que eu estava disposta a compartilhar com Claire, até porque além de não ser interessante, eu não sabia nada sobre ele e ela, com certeza, insistiria em vê-lo.
- E o Ben? Ainda pensando em fazer aquela especialização fora quando se formar? – Claire perguntou, fazendo com que preocupações que eu já havia há muito deixado pra trás voltassem de repente.
- Hm, acho que sim. – Respondi em voz baixa entregando minha apreensão.
Claire me olhou e eu pude perceber que ela estava com pena de mim. Nada me deixava mais frustrada do que pessoas que tinham pena de mim. Pena era algo que eu não precisava em minha vida.
- Você nunca pensou em ir com ele?
- E deixar o Gabe com quem?
- Com seu avô? – Sugeriu, sem muita certeza.
Balancei a cabeça negando. Há três anos a minha vida girava em torno de Gabe, era sempre eu e ele, ele e eu, e assim seria por um bom tempo.
Vi o olhar de Claire se desviar para algo no jardim da casa vizinha e um sorriso travesso tomar conta de seu rosto. Olhei na mesma direção que ela e vi deitar na espreguiçadeira do jardim vizinho. Apesar de o sol estar brilhando no céu a temperatura ainda estava baixa, mas ele não parecia se incomodar já que usava apenas uma calça jeans que deixava uma parte de sua cueca e fora, ao invés do cigarro, dessa vez ele tinha um livro em suas mãos. Rolei os olhos, prevendo o que viria a seguir.
- Mas que visão. – Claire comentou. – Vizinho novo?
- É... Garoto-problema. – Falei, olhando-o novamente.
- Parece o tipo de problema que eu quero em minha vida. – Comentou, me fazendo rir, incrédula.
Com o som alto da minha risada, abaixou o livro e pareceu nos notar ali. Fiquei sem graça por sermos pegas olhando para ele, mas ele pareceu pensar o contrário e nos lançou um sorriso de lado, convencido - e irresistível para Claire.
Quando reparei, ela já estava se levantando e caminhando até ele.
- O que... – Não consegui completar minha frase a tempo. Lá estava ela, puxando assunto com o meu novo vizinho indesejado.
Por causa da distância, não era possível ouvir claramente a conversa, mas a julgar pelas risadas altas de Claire a forma como ela tocava no cabelo a cada cinco segundos, o flerte estava acontecendo. Fiquei com vontade de ir até lá e lembrá-la de que ela tinha vinte e um anos e não era mais uma adolescente de dezesseis.
- , terminei a tarefa. – A voz de Gabe desviou minha atenção. – Posso ir brincar?
- Claro que pode, amorzinho – Sorri, vendo-o concordar e pegar a bola de futebol que estava no meio do jardim.
Gabe sempre fora muito bom em se virar sozinho em suas brincadeiras. Não que eu não brincasse com ele, mas quando eu estava ocupada, ele raramente reclamava por ter que brincar sozinho.
Claire voltou a sentar ao meu lado, um sorriso satisfeito em seu rosto. Rolei os olhos, sem acreditar que ela havia mesmo feito aquilo. Seus impulsos me faziam passar vergonha desde os tempos de colégio.
- . – Ela suspirou.
- Você só pode estar brincando. – Ri, sem emoção.
- O fato de você ter namorado não a impede de olhar para outros caras, sabia?
Sim, eu sabia. E eu olhava sim para outros caras, mas parecia ser o tipo de garoto que podia te colocar em sérios problemas apenas com uma simples troca de olhares.
Olhei novamente para onde ele estava e notei seu jeito despreocupado, um de seus braços atrás da cabeça fazendo com que a tatuagem em seu bíceps fosse visível. Desci meus olhos por seu peito um pouco malhado, sua calça e sua cueca eram usadas mais para baixo, diferente da forma como Ben usava, fazendo com que fosse possível ver as entradinhas em seu abdômen. Senti um arrepio passar por minha nuca e só ao sentir a mão de Claire em minha bochecha notei que o sangue fervia debaixo da minha pele.
- Ah, Ben, toma cuidado com esse novo vizinho da sua namorada. – Ela falou, num tom brincalhão.
- Cala boca. – Afastei sua mão de meu rosto, desejando poder enfiar minha cabeça em algum buraco.
Gabe chutou a bola com força e ela não acertou por alguns centímetros. Esperei pra ver sua reação e provar para Claire que daquele garoto só poderia sair problema.
- Toma cuidado com essa bola, pirralho. – Falou, um pouco ríspido.
Olhei pra Claire desafiando-a a falar alguma coisa e defender .
- Grosso. – Cantarolei, alto o suficiente para que ele e Claire pudessem ouvir.
- Você joga? – Ouvi Gabe perguntá-lo, seu tom deixava claro o desafio.
abaixou o livro e o olhou.
- Melhor do que você.
- Então prova. – Gabe chutou a bola em sua direção novamente.
me olhou, quase como se pedindo permissão. Eu dei de ombros e sorri, desafiando-o tanto quanto Gabe.
Não que meu irmão de oito anos fosse algum astro do futebol, mas eu já o havia visto jogar em alguns campeonatos em sua escola e ele era, de fato, muito melhor que os garotos da idade dele.
chutou a bola, se aproximando de Gabe e, quando estava perto o suficiente, o driblou, com uma facilidade que me deixou um pouco desconfortável. Gabe foi atrás dele, conseguindo roubar a bola depois de algumas tentativas. Lógico que por estar jogando com alguém que era muito mais alto, ele por vezes usava mais do que os pés e acabava puxando a calça ou o braço de .
O garoto-problema riu de algumas tentativas frustradas de Gabe e o driblou passando a bola por cima de sua cabeça. Por alguns segundos pensei que meu irmão fosse desistir e começar a chorar, mas ele lançou um olhar feio para e partiu para cima dele, usando todos os truques sujos possíveis para roubar a bola novamente. Naquele momento eu já estava até pensando em mudar minha opinião sobre . Por vezes era possível ver um sorriso sincero em seu rosto enquanto Gabe o segurava e tentava pegar a bola. Pude jurar que uma ou duas vezes ele, propositadamente, deixou que meu irmão pegasse a bola e fugisse rapidamente.
Gabe segurou a bola com as mãos e olhou para . – Quer tentar fazer um gol?
riu, pegando a bola da mão de Gabe e esperando que ele marcasse os limites do gol. Enquanto brincava com a bola em suas mãos, me olhou por alguns segundos, sustentei seu olhar e acabei sorrindo, quase que sem querer. Ele devolveu o sorriso e voltou sua atenção para meu irmão.
- Uhh... – Claire provocou. Dei um tapa em seu braço, fazendo-a desistir de falar qualquer outra coisa e se encolher, controlando uma risada.
- Se prepara! – falou, colocando a bola no chão enquanto Gabe se posicionava no gol.
Os dois primeiros chutes passaram um pouco longe do gol. O terceiro foi facilmente impedido por Gabe, que sorriu vitorioso. Mas foi no quarto chute que tudo desmoronou.
se preparou para chutar a bola. Gabe se agachou um pouco, tentando repetir a defesa anterior. Eu tive um daqueles pressentimentos ruins que toda mãe tem em relação aos filhos. A bola voou e atingiu em cheio o rosto de Gabe, fazendo com que ele caísse no chão.
- GABE! – Gritei, me levantando e correndo até onde ele estava.
- Porra! – Ouvi a voz de antes de ele se agachar ao meu lado.
O nariz de Gabe sangrava e eu via as lágrimas se acumularem em seus olhos. Num impulso, empurrei ao meu lado, fazendo-o cair com força na grama.
- Você é louco? – Perguntei. – Ele é uma criança!
- Foi sem querer. – Sua voz indignada gritou.
Antes que eu pudesse carregar Gabe, o fez.
- Solta ele!
- Vou levá-lo para o hospital, ver se está tudo bem. – Explicou.
Num acesso de raiva eu estapeei seu braço, tentando fazer com que ele devolvesse meu irmão. Claire me segurou, tentando conter minha raiva.
- , relaxa. O só está tentando ajudar. – Falou, sua voz calma fez com que eu recuperasse um pouco a sobriedade.
Seguimos até o carro de Tito e ele colocou Gabe sentado no banco de trás, passando o cinto de segurança por seu peito. Claire sentou no banco do carona e eu sentei atrás, analisando o nariz de Gabe e pedindo para que ele não falasse nada ou o machucado podia, de alguma forma, piorar. entrou em casa e segundos depois saiu pela porta vestindo uma camisa branca e com a chave do carro nas mãos.
O caminho até o hospital foi rápido e silencioso, apenas os gemidos dolorosos de Gabe ecoavam pelo carro. Eu segurava sua mão com força, desejando que o sangue estivesse saindo pelo meu nariz, e não pelo dele.
As coisas no hospital também aconteceram rápidas, ou pelo menos foi o que pareceu. Raio-X, enfermeiras, médica de plantão... Tudo parecia apenas um borrão. A médica garantiu que apesar de os ossos na base do nariz de Gabe terem quebrado, a única consequência seria a dor que ele sentiria, ou já sentia. Não havia nenhuma obstrução ou deformação e levaria em torno de duas semanas para tudo voltar ao normal.
Peguei Gabe em meu colo e o levei de volta para a sala de espera onde Claire lia uma revista e balançava as pernas, em um claro sinal de nervoso.
- Tudo bem com ele? – Perguntou. Sua voz deixando a rispidez de lado e assumindo um tom amedrontado.
- Tudo bem. Mas vai levar pelo menos duas semanas para sarar.
- Foi um bom jogo. – Gabe falou, estendendo a mão para .
O garoto-problema soltou uma gargalhada divertida e apertou a mão de Gabe.
Claire decidiu pegar um táxi dali mesmo, já que era mais próximo de sua casa. Pediu que eu a ligasse no dia seguinte para avisar se tinha sido tudo bem durante a noite.
Caminhei ao lado de em direção ao carro e sentei com Gabe no banco de trás. Apesar de ter ficado parecendo um motorista, não reclamou, apenas ligou o som do carro e saiu do estacionamento do hospital. No meio do caminho Gabe já havia adormecido com a cabeça encostada em meu ombro. Fiz carinho em seus cabelos e, vez ou outra, conferi seu nariz apenas para ter certeza de que não havia voltado a sangrar. Vi que me lançava alguns olhares pelo retrovisor, mas resolvi ignorá-lo. Uma parte de mim ainda queria acreditar que ele fizera aquilo de propósito, só porque Gabe havia defendido um de seus chutes. Mas toda vez que eu lembrava do seu sorriso e das vezes em que deixara Gabe roubar-lhe a bola, a parte de mim que queria culpá-lo desaparecia.

**


Quando o céu já estava completamente escuro do lado de fora, coloquei Gabe na cama e li alguns livros para ele. Talvez por causa do dia cansativo, ou por causa da dor no nariz, ele adormecera antes mesmo que eu pudesse finalizar livro. Beijei sua testa e puxei o cobertor pra cima, cobrindo-o até o pescoço.
Peguei meu livro na mesa da sala e abri a porta dos fundos, me assustando ao ver sentado no batente. Ele me olhou por alguns segundos enquanto eu sentava ao seu lado e abria meu livro, tentando ignorar sua presença.
- Não foi minha intenção machucá-lo. – Começou a falar.
- Eu sei.
- Eu não sei lidar muito bem com crianças...
- Percebi. – O interrompi.
Senti que ele me olhava e fechei o livro, devolvendo seu olhar. Reparei em seus olhos intensos e em sua cicatriz perto da boca. Por algum motivo sem explicações minhas mãos sentiram vontade de tocar seu rosto e deslizarem por sua cicatriz. Segurei o livro com força, tentando mandar aquela vontade para longe.
Vi os olhos de desviarem-se dos meus e descerem até a minha boca. Eu sabia o que vinha depois disso, qualquer garota sabia o que acontecia quando um garoto olhava daquela forma para os seus lábios. Senti uma dor aguda no estomago e meu coração acelerou num ritmo descompassado. Meu rosto estava saindo de sua cor normal e se tornando avermelhado, eu sabia disso porque conseguia sentir a temperatura da minha pele aumentar.
Olhei para minhas mãos e abri o livro novamente, quase podendo ouvir o barulho da tensão sendo quebrada.
- Obrigada por ter levado Gabe ao hospital. – Falei, realmente agradecida.
se levantou e se afastou.
- Por nada.




Continua...



Nota da autora: Eita, olha essa tensãooo! Haha Espero que gostem do capitulo e estejam curtindo a história. Minhas redes sociais estão logo aí embaixo caso queiram entrar em contato comigo. Como sempre, se puderem usar 30 segundos do seu dia para deixar um comentário, fará uma autora muito feliz. Beijo!





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Don't Let This Memory Fade Away (Restrita - Finalizada)
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Tell Me a Secret (Outros - Finalizada)
The Not-Xmas Day (Conto de Natal)
Tudo em Você (Outros - Finalizada)
You're Still The One (Parte 2 de Addicted)


Ai que honra poder betar mais uma história sua, Cah! Já sei que teremos mais uma história incrível. ♥
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