FFOBS - Colisão, por Cah (Kerouls)

Última atualização: 10/06/2019
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01 – Ela

- Cereal? – Perguntei, observando meu irmão mais novo concordar sem emitir nenhum som. – Ainda de mal comigo?
- Hum. – Gabe balbuciou, fazendo um bico adorável.
Três dias antes eu havia me recusado a comprar um boneco do Capitão América para ele, e desde então Gabe estava fazendo uma “greve de palavras”, como ele mesmo denominou. O único porém é que na maioria das vezes ele esquecia da tal greve e começava a conversar comigo como se nada tivesse acontecido.
Sorri sozinha e voltei minha atenção para o jornal aberto na mesa a minha frente.
Meia hora de greve de palavras depois, estávamos saindo de casa em direção ao ponto do ônibus. Gabe caminhava em silêncio ao meu lado enquanto eu tentava puxar conversa e fazê-lo voltar a falar comigo. Tudo isso por causa de um boneco estúpido que não valia metade do preço que estava sendo cobrado.
Observei enquanto Gabe tentava, sem sucesso, colocar o casaco com a mochila ainda nas costas. Comecei a contar mentalmente quantos segundos demoraria para que ele me pedisse ajuda, mas quando chegamos no ponto de ônibus ele ainda estava mudo. Três senhoras estavam sentadas no banco, o que fez Gabe bufar de frustração, provavelmente porque seu plano era colocar a mochila no banco e finalmente vestir o casaco. Peguei a mochila de suas costas e ele soltou um agradecimento sem emoção, finalmente vestindo o casaco.
Quando um ônibus parou a nossa frente as três senhoras se levantaram, fazendo com que Gabe corresse para o banco. Antes que eu me sentasse ao seu lado um garoto que parecia ter seus vinte-e-poucos anos desceu do ônibus e caminhou até mim, parecendo um pouco perdido. Estremeci, mesmo estando bem protegida do frio, aquele garoto tinha a palavra problema estampada desde suas roupas descuidadas até seu cabelo despenteado.
- Olá. – Falou. Sua voz era grave e o tom educado contrastava com sua aparência.
Sorri em resposta e o observei tirar um papel amassado do bolso de seu jeans rasgado.
- Você saberia dizer onde fica essa casa? – Entregou-me o papel.
Li o endereço escrito com uma letra apressada e descuidada e me assustei ao perceber que era o endereço da minha casa. Olhei novamente para o garoto em minha frente claramente confuso com a minha mudez. Observei rapidamente seu rosto que tinha uma feição dura. Seu cabelo desgrenhado caia em ondas por sua testa quase até cobrir seus olhos que não demonstravam nenhuma emoção. Não havia nada remotamente familiar em seu rosto ou em seu jeito.
- Tem certeza que esse é o endereço correto? – Finalmente falei.
O garoto-problema pegou o papel da minha mão e pareceu ler novamente o que estava escrito.
- Hm, certeza. – Falou, incerto. A contradição me fez querer rir, mas não o fiz.
Vi meu ônibus se aproximar e acenei para Gabe se levantar.
- Será que o Garcia me deu o endereço errado? – Ouvi o garoto falar para si mesmo enquanto alcançava o celular em seu bolso.
- Garcia? – Repeti. – Tito Garcia? – Ele balançou a cabeça, confirmando.
- Ele mora na casa 507, não 505. Vira a primeira esquerda e é uma das últimas casas da rua. – Apontei a direção, já pegando a mão de Gabe para subirmos no ônibus.
- Obrigado. – Ele murmurou sem esboçar um sorriso.
- Tenha um bom dia! – Falei, mais para provocá-lo. Nada como uma gentileza para amolecer um coração de pedra.
Olhei para trás a tempo de vê-lo fazendo uma reverência engraçada e um sorriso largo e sincero se formou em meus lábios.
- Quem era aquele? – Gabe perguntou, esquecendo-se de sua greve de palavras.
Dei de ombros. – Um estranho pedindo informação.
- Você sempre me diz para não falar com estranhos. – Ele me olhou, curioso.
- E eu acho bom que você continue não falando. – Pelo tom da minha voz ele percebeu que aquele assunto estava encerrado antes mesmo de começar.
Gabe me lançou um último olhar indignado e cruzou os braços, voltando sua atenção para o trânsito do lado de fora da janela.

**


Após deixar Gabe na escola, caminhei apressadamente para a estação de metrô. Antes de deixar meu irmão entrar na sala prometi que amanhã iriamos procurar outro boneco do Capitão América. Não queria deixá-lo ir para mais um dia de aula chateado comigo. A conversa foi rápida, mas não o bastante. Em uma segunda-feira o metrô não permite nem um minuto de atraso, só isso já é o bastante para estragar completamente a manhã de um começo de semana. Desci as escadas da estação pulando alguns degraus e cheguei bem a tempo de entrar em um dos vagões. Respirei aliviada e me segurei na barra de ferro acima da minha cabeça logo antes de o trem entrar em movimento.
Enquanto o metrô se movimentava eu tentei lembrar como era a minha vida antes dessa rotina. Escola, atividades extracurriculares, muitas festas, muitos estudos... Até o dia em que um acidente mudou a minha rotina para sempre.
Gabe e eu perdemos nossos pais em um acidente de carro quando eu tinha 18 anos recém completados e Gabe apenas 5. Desde então eu era responsável por ele e pelo nosso sustento. O sonho de ingressar na faculdade havia ficado para trás, era preciso trabalhar e assumir as responsabilidades que antes eram dos meus pais. Nosso avô era a única pessoa da família que tínhamos contato, foi ele que desde o inicio nos ajudou. Apesar de os nossos pais não terem nos deixado sem nada, não era possível manter o mesmo padrão de vida que levávamos antes.
Com o dinheiro que nos foi deixado era possível pagar a escola de Gabe e as despesas da pequena casa de dois quartos em que morávamos. Aprendemos a viver uma vida mais simples, mas éramos felizes ali. Tínhamos um ao outro e isso era mais importante que qualquer um dos luxos que costumávamos ter.
Meu avô fora um músico famoso entre os anos 70 e 80, sua banda não chegou a ser famosa internacionalmente, mas fora uma carreira de sucesso e que lhe rendera bons frutos e fez com que ele vivesse uma vida confortável até a velhice. Até hoje eu ainda encontrava alguns de seus álbuns em lojas especializadas. Minha avó, como não podia ser diferente, esteve ao seu lado durante seus anos de anonimato e durante seus anos de sucesso. Há aproximadamente doze anos um câncer a pegou de surpresa, ela batalhou até o final, mas a doença foi mais forte. Gabe nunca chegou a conhecê-la, mas as memórias de nossos passeios e viagens ainda estavam bem vivas minha memória.
A casa onde eu a meu irmão morávamos era originalmente de meus avós. Com parte do dinheiro que ficara de herança eu havia feito um acordo com meu avô e comprei a sua casa. Depois de toda a fama e sucesso eles resolveram morar em um bairro mais simples, queriam apenas aproveitar a vida juntos. Há alguns anos meu avô se cansara de morar sozinho, mudara-se para uma casa de repouso em um bairro um pouco distante. Lá ele tinha amigos, pessoas para conversar e era bem tratado, todos ali se lembravam da Rock Mist, sua antiga banda.
Confesso que por vezes desejava tê-lo por perto. O visitávamos uma vez por semana, mas apesar de três anos já terem se passado, ainda era difícil aceitar o fato de que eu ser o único adulto da casa. A parte egoísta dentro de mim queria poder sair e se divertir numa sexta à noite, ir com as amigas para a balada, tomar sol na praia em um domingo.
Pouco tempo depois do acidente dos meus pais eu conheci Benjamin, meu atual namorado. A presença dele ao meu lado foi o que me ajudou a perceber que eu poderia criar o Gabe, arrumar um emprego e viver uma vida normal. Nosso relacionamento, claro, era diferente dos outros. Não podíamos sair juntos sempre que queríamos, precisávamos de antemão ter algo planejado para Gabe. Às vezes ele dormia na casa de amigos da escola, na casa de vizinhos, outras vezes passava o dia com o nosso avô. Não existia uma divisão exata de tempo, Ben sabia que a minha atenção estava sempre voltada para o Gabe, meu irmão estava sempre em primeiro lugar. Na maior parte do tempo ele entendia esse e me apoiava, mas não posso negar já ter percebido alguns raros momentos em que ele deixava escapar um comentário ou até uma expressão facial que escancarava seu incomodo com a nossa situação fora do comum.
- Bom dia. – Cumprimentei o porteiro do antigo prédio comercial.
Nove andares acima estava o escritório de Joana Lottie, uma escritora que fora amiga dos meus avós, para quem eu trabalhava como assistente.
- Ah, ! – Joana acenou para que eu me aproximasse. – Que bom que você está aqui.
Seu rosto fino e já cheio de rugas entregava sua idade, apenas disso sua disposição e a forma como levava a vida com leveza mostrava que ainda tinha muitas coisas para viver. Seu cabelo vermelho encaracolado estava sempre com uma aparência bem cuidada, assim como suas unhas sempre pintadas de preto.
Sorri em resposta ao seu cumprimento, mesmo sabendo por seu jeito apressado que aquele não seria um dia fácil.
- Esvazie a minha agenda hoje. Surgiu um imprevisto, uma reunião de última hora. – Falou, já colocando a bolsa no ombro. – Cancele o encontro que eu teria com aquele editor, Carlos alguma coisa e desmarque a minha ginecologista. Hoje eu não apareço mais aqui, se alguém ligar diga que houve um imprevisto e que é inadiável. Mais tarde nos falamos!
Com isso ela me deixou sozinha na antessala de seu pequeno escritório. Martha, a moça responsável pela limpeza do prédio entrou na sala e me olhou, seus olhos confusos com a pressa de Joana. Levantei meus ombros, demonstrando que estava tão confusa quanto ela.
Depois de fazer tudo que Joana havia pedido, liguei para a fonoaudióloga de Gabe e confirmei sua consulta no final da tarde. Desde o acidente Gabe começou a ter alguns problemas na fala, depois de dois anos de sessões com a fonoaudióloga mal era possível notar, mas não queria que ele largasse o tratamento de vez. Apesar do acidente a minha meta era fazer com que ele vivesse uma vida normal e curtisse sua infância o máximo que pudesse. Quisera eu que alguém tivesse me dado esse conselho durante a minha infância e adolescência.

02 - Ele

Antes de virar a esquina olhei para trás uma última vez. A garota caminhava para a parte detrás do ônibus, acompanhada de um pirralho que parecia ser seu irmão. Apesar de seu olhar de dúvida, ela havia sido a única pessoa a não fingir estar distraída e arrumar uma desculpa para se afastar quando me aproximei.
Andei pelo caminho que ela havia indicado e observei as casas da rua. Nenhuma delas era muito fora do comum, aquela não era uma vizinhança de classe alta, longe disso, mas mesmo assim era muito diferente do lugar onde eu havia crescido. Aquelas pessoas não precisavam trancar as portas e janelas de casa o dia inteiro, ou se preocupar com brigas envolvendo traficantes e policia.
Bati na porta da casa 507 e esperei, ouvindo passos apressados do outro lado da porta. Tito apareceu na minha frente, seu rosto, ainda tão jovem quanto nos tempos de colégio, me trouxe lembranças boas de quando a vida era mais divertida e menos complicada.
- Meu garoto! – Falou, abrindo um sorriso e me dando um abraço apertado com fortes tapas em minhas costas. – Achei que não fosse acertar o caminho.
- É, me perdi um pouco. – Confessei. – Mas no ponto de ônibus uma garota me ajudou a achar o caminho. Eu estava com o endereço errado. – Mostrei o papel que estava em meu bolso.
- Essa é a casa da , minha vizinha. Foi ela quem te ajudou?
Dei de ombros, não fazia ideia do nome da garota que havia me ajudado e naquele momento não estava preocupado em saber.
Joguei minha mochila no sofá e olhei ao redor, reparando que apesar de Tito ter morado por um tempo com sua irmã, não havia nada feminino naquele lugar, e bagunça por algum motivo já me era familiar.
Tito me ofereceu um tour pela casa que não durou mais de um minuto. Além da sala, apenas os dois quartos, banheiro e cozinha. Como eu já havia reparado aquela era uma vizinhança simples, nada de luxos por ali.
Sentamos novamente no sofá e eu peguei o antigo violão que estava jogado por ali. Havia muito tempo desde a última vez que eu havia dedilhado um, nunca me parecera muito interessante, mas garotas gostavam de caras que tocavam algum instrumento e no lugar onde eu cresci quanto mais garotas aos seus pés você tinha, mais você era respeitado.
Percebi pelo olhar que Tito me lançava que ele queria perguntar como havia sido minha vida no último ano. Sufocante era a única resposta que eu poderia lhe dar, mas apenas as lembranças daquele lugar, o verdadeiro inferno na terra, me fazia estremecer.
- Noticias do Nico? – Ele finalmente perguntou.
Neguei, dando de ombros novamente.
Nico, meu irmão mais velho. Quando fui preso ele era o braço direito de um dos maiores traficantes do bairro onde morávamos, mas pouco tempo depois ouvi sussurros de que ele havia assumido a liderança depois de um conflito entre gangues. Desde o começo da adolescência esteve envolvido com o tráfico, o dinheiro que recebia era o único sustento da casa onde morávamos com nossa mãe. Eu sempre soube que quando chegasse a idade certa, eu também teria que ajudar no sustento da casa, mas diferente de Nico optei por arrumar um trabalho que não envolvesse nada ilegal e perigoso.
Não por muito tempo.
As imagens da noite em que Nico finalmente me convenceu a vender drogas em uma festa de universidade ainda me atormentavam diariamente. Honestamente tudo era apenas um grande borrão. As cápsulas de anfetamina em meu bolso, as garotas que me olhavam como se eu fosse o melhor partido da festa, a polícia invadindo o local e as algemas que deixaram cicatrizes em meus pulsos.
De tudo que passei durante o ano em que fiquei recluso da sociedade foram as imagens que vi no presídio que gravadas em minha mente. Um ano aprisionado e tratado como um vagabundo drogado, esquecido por minha mãe e meu irmão. Completamente fodido, largado no fundo do poço.
Peguei o maço de cigarro e perguntei se Tito tinha algum isqueiro por perto. Pensei que ele fosse reclamar por estar fumando dentro de casa, mas ele pegou um e acendeu também. Aquela casa definitivamente poderia virar meu novo lugar favorito.

***


A re-adaptação à vida fora de um presídio não era fácil, eu sabia disso. A sensação de estar sendo constantemente vigiado nos persegue a cada passo, o medo nos torna inseguros, faz com que duvidemos até mesmo de nossas sombras. Mas a pior parte é a procura por um novo emprego, a busca por uma normalidade.
O jornal à minha frente mostrava novas vagas em diversos setores, mas eu sabia que as chances de eu conseguir qualquer uma delas eram mínimas ou até mesmo nulas. Circulei algumas opções que me pareceram promissoras e peguei o telefone já me preparando para ouvir o outro lado da linha ficar mudo quando eu falasse que havia saído recentemente da prisão. Depois de seis tentativas frustradas rasguei o jornal e o joguei no lixo.
A frustração me consumia mais e mais a cada dia. Estava frustrado com as pessoas ao meu redor, com a minha vida medíocre, mas a minha maior frustração era comigo mesmo. Eu havia sido estúpido e ingênuo ao aceitar a oferta de Nico na noite em que fui preso. Havia sido fraco, cedendo facilmente a sua pressão, mesmo sabendo que aquilo acabaria com qualquer chance de um futuro digno que eu pudesse ter. Eu tinha um emprego, uma família, que por mais que fosse desestruturada era o mais próximo que eu podia chamar de lar. E tinha garotas, ou pelo menos uma garota... Barbie. Ela não se importava com o fato de eu não ter dinheiro ou com o fato de que eu não poderia lhe prometer um futuro digno. Barbie era a minha garota, provavelmente a única que me amara por eu ser quem era, a única que de fato queria a minha atenção, e não a do meu irmão. Ou pelo menos era assim que eu pensava, até o dia em que eu fui levado algemado em um carro de policia. Aquela noite foi a última vez que a vi. Nunca recebi uma visita sua no tempo em que fiquei preso.
Tito entrou pela porta do fundo e viu alguns pedaços do jornal pelo chão. Seu olhar de pena fez meu sangue ferver, mais um pra me frustrar ainda mais. Levantei da cadeira e sai pela porta onde ele entrara. A parte de trás da casa era apenas uma grama baixa, nada de flores ou árvores. A única coisa que separava as casas era um pequeno muro, tão baixo que até um poodle seria capaz de pulá-lo. Deitei na espreguiçadeira que estava no meio da grama e acendi outro cigarro, minhas frustrações pareciam fáceis de aguentar quando eu tinha um maço em meu bolso e um cigarro entre meus dedos.

***


- Eu posso conseguir algo pra você lá no barzinho onde eu me apresento nos fins de semana. – Tito comentou enquanto estávamos sentados na escada em frente à sua porta. Ele dedilhava seu violão e eu, para variar, descontava minhas frustrações em um cigarro. O olhei, concordando e sorrindo agradecido. Provavelmente seria uma perda de seu tempo, mas eu apreciei sua consideração.
Eu e Tito havíamos estudado juntos nos últimos anos de escola. Sua família era ainda mais fodida que a minha, todos os seus quatro irmãos eram envolvidos com gangues, seu pai fora preso acusado de pedofilia e sua mãe era uma alcoólatra inútil, não muito diferente da minha. Ele fugira de casa pouco antes de terminar a escola para tentar ser músico. Tito poderia não ser famoso, mas o fato de ele ter conseguido deixar tantas merdas pra trás me fazia admirá-lo. Nossas histórias eram parecidas, talvez por isso nos déssemos tão bem. Havíamos deixado para trás um passado difícil para tentar ser alguém na vida, a única diferença é que ele ainda tinha chances, enquanto eu havia acabado com as minhas.
Avistei uma garota se aproximar de mãos dadas com um moleque magrelo que não devia ter muito mais que uns oito anos. Eles conversavam relaxadamente, ainda sem notar nossa presença.
- Foi ela. – Falei, soltando a fumaça por entre meus lábios.
Tito me olhou sem entender. Indiquei a garota que agora estava virando para entrar na casa ao lado.
- Ela que me indicou a direção de sua casa no ponto de ônibus.
- É a minha vizinha, . – Falou, acenando para ela e recebendo dois sorrisos em retorno.
Senti vontade de rir quando vi que o pirralho estava banguela, sem um dos dentes da frente. A única recordação que eu tinha da época em que meus dentes estavam começando a cair era de quando meu irmão havia arrancado o meu dente da frente no meio da noite. Não lembro mais se doera ou se fora apenas pelo susto, mas eu chorei até o dia seguinte.
- A aula de violão amanhã ainda está de pé? – perguntou enquanto destrancava a porta de casa. Tito confirmou e o pirralho, que eu ainda não fazia ideia do nome, comemorou, mostrando novamente seus dentes... Ou a falta deles.
- Já levou essa pra cama? – Perguntei, depois que os vizinhos entraram na casa.
Tito soltou uma risada nasalada e balançou a cabeça negativamente. Lembrei-me dos tempos de colégio em que nós éramos um tanto quanto populares com as garotas e desejei poder voltar no tempo, nem que fosse apenas por um dia. Se eu soubesse a volta que a minha vida daria, teria aproveitado mais aquela época.
- Nah, desde que ela se mudou para cá, um tal de Benjamin fez questão de deixar claro que é o namorado dela. – Explicou. – Ele é um dos engravatados, sempre desfilando por ai com um carro conversível.
- Pra mim esse é só mais um motivo para levá-la pra cama. – Ri.
- E eu não poderia concordar mais, mas ela nunca me deu bola. Quem sabe você não tem sorte?
Tito me deu alguns tapinhas nas costas e me deixou sozinho com meus pensamentos.
Sorte.
Há algum tempo essa palavra fora extinta do meu dicionário.

***


Por incrível que pareça existem duas coisas muito difíceis de acostumar depois que você passa certo tempo dividindo uma cela com outros caras; uma cama minimamente confortável e o silêncio no meio da noite.
Meus olhos abertos vasculhavam a escuridão do quarto, acostumando-se com os detalhes, a arrumação dos poucos móveis, a pouca claridade que entrava pela janela. Tudo naquele quarto parecia despertar minha atenção e afastar meu sono. O zumbido em meus ouvidos fazia com que o silêncio fosse agoniante, ainda mais alto que o barulho de outras pessoas roncando, conversando ou brigando.
Virei de lado e coloquei o travesseiro na minha cabeça, fechando os olhos com força, numa tentativa frustrada de apagar de uma vez. Quando nenhuma das minhas tentativas funcionou, peguei o maço de cigarro e fui novamente para a espreguiçadeira do lado de fora da casa.
Soltei um palavrão pesado ao sentir o ar extremamente frio atingir meu corpo coberto apenas pela cueca e uma camisa de manga curta. Deitei na espreguiçadeira acendendo o cigarro e relaxando, ignorando o frio e o fato de estar começando a chuviscar.
Depois de três cigarros finalmente me senti relaxado o suficiente para voltar pra cama e finalmente apagar até o dia seguinte. Antes de entrar em casa reparei que no jardim vizinho havia uma cadeira que estava ocupada pela irmã do pirralho banguela. Ela lia um livro, parecendo alheia ao que acontecia ao seu redor. Fiquei com vontade de ir até lá e perguntar se ela queria me dar uma mãozinha no meu problema de insônia, nada como umazinha para me fazer dormir tranquilamente, mas achei melhor não.
Deitei na cama, sentindo o corpo definitivamente mais relaxado do que antes. A última coisa que me recordo é de ter me revirado algumas vezes antes de finalmente cair num sono sem interrupções. Nada de roncos, conversas ou brigas. Depois de tantos meses eu finalmente pude voltar a dormir pesadamente e sem medo de não acordar na manhã seguinte.

03 – Ela

Meus passos apressados contrastavam com as pessoas que caminhavam tranquilamente pela calçada. Será que algum dia minha eterna batalha contra o tempo chegaria ao fim? Bastava eu querer que ele passasse devagar que ele parecia rir de mim, então eu pedia que um dia acabasse logo e adivinha? Curiosamente as 24 horas pareciam se tornar 30.
As aulas de Gabe haviam terminado há quase vinte minutos, enquanto eu desviava dos passantes, postes, carrinhos de comida e tudo que parecia estar propositadamente em meu caminho pensava se já havíamos perdido o terceiro e último ônibus que passava perto da escola de Gabe e nos deixava perto de casa.
Finalmente entrei pelos portões da escola e avistei Gabe sentado em um banco conversando com uma garota que parecia ter sua idade. Acenei para que ele se aproximasse e ele se despediu da amiga com um sorriso. Estendi o sanduiche em minha mão e ele negou.
- Não está com fome?
- Ainda não. Talvez em alguns minutos. – Falou, me fazendo rir.
- Lembra que hoje o Tito vai te dar aula de violão?
Há algum tempo Gabe vinha pedindo para fazer alguma atividade fora da escola. O dinheiro que sobrava das despesas não era suficiente para matriculá-lo em algo que o interessasse, então Tito, nosso vizinho, se oferecera para ensiná-lo a tocar violão. No começo Gabe parecera bastante empolgado, mas desde o dia anterior ele parecera perder um pouco o interesse pelas aulas.
- Aquele estranho vai estar lá?
Estranho é como ele vinha se referindo ao amigo do Tito. Eu não sabia seu nome, mas sua presença parecia ser a razão pelo desinteresse de Gabe. Talvez ele, como eu, sentisse que aquele garoto traria problemas para nossa pacata vizinhança.
- Provavelmente. Ele é nosso vizinho agora.
Gabe fez careta, colocando a língua para fora como se o pensamento do garoto-problema como nosso vizinho o enojasse.
Avistei o nosso ônibus e agradeci por não termos perdido. Uma corrida de táxi até em casa não seria nada barata. No meio do caminho Gabe pediu por seu sanduiche, lembrando que não teria tempo de comer antes da aula de violão. Coloquei os fones do celular no ouvido, sem me importar muito com as músicas que estavam tocando.
O aparelho vibrou em minha bolsa e eu sorri ao ver que era uma mensagem de Ben, meu namorado.
“Saudades! Vamos ao cinema no fim de semana? Te amo. xx”
Em resposta prometi que falaria com a mãe de um dos amigos de Gabe para ver se ele poderia passar a noite fora de casa. Esse era um dos maiores problemas de morar sozinha com o Gabe, o dinheiro para as despesas não incluíam uma babá, então antes e depois da escola eu era a única responsável por ele.
Quando bati na porta de Tito já estávamos quase trinta minutos atrasados para o horário que havíamos combinado. Antes mesmo que ele abrisse a porta eu já estava pedindo mil desculpas, explicando tudo que acontecera e embolando minhas próprias palavras.
- , relaxa. – Tito me tranquilizou. – Preparado pra aula? – Olhou para Gabe.
- O estranho está aqui?
- Gabe! – Chamei sua atenção.
Uma coisa era ele chamá-lo dessa forma quando estávamos sozinhos, mas agora o estranho podia estar ouvindo Gabe chamá-lo assim.
Tito me olhou, confuso. Sorri forçadamente.
- O seu amigo... É assim que o Gabe o chama.
- Estranho presente. – O garoto-problema entrou na sala. – E o nome é . – Falou, se jogando no sofá e nos ignorando.
Tito levou Gabe para um dos quartos e em poucos minutos já era possível ouvir as risadas acompanhadas de acordes desafinados de violão. pareceu se incomodar com o barulho e aumentou o som da tv. Lancei-lhe um olhar repreendedor e tudo que ele fez foi me olhar de volta, desafiando-me a falar alguma coisa.
Tentei pensar em alguma coisa inteligente para lhe dizer, alguma resposta que mostrasse que ele era apenas um estranho e nada que ele pudesse fazer atrapalharia a aula de violão do Gabe, mas alguma coisa em seus olhos fez com que eu me calasse. Eu nunca acreditei muito naquele ditado que diz que os olhos são o espelho da alma, mas olhando para aquele garoto jogado no sofá, me encarando com seus olhos duros e repreensivos eu percebi que por trás daquela barreira que ele parecia se esconder, havia uma história que eu não seria capaz de julgar, uma pessoa que eu não conhecia, mas que havia prendido a minha atenção desde a noite em que o vira fumando no gramado atrás de sua casa.
finalmente desviou o olhar do meu, quase como se pudesse ler meus pensamentos.
- Que diabos... – Falei por baixo fôlego, procurando algo que distraísse minha atenção e apagassem seus olhos da minha mente.
Liguei a torneira da cozinha e lavei minhas mãos, uma mania que eu tinha sempre que ficava nervosa por algum motivo. Já estava prestes a até começar a lavar os pratos sujos na pia numa tentativa desesperada de parecer inabalada quando ouvi alguns acordes de violão e reconheci a música de maior sucesso da banda do meu avô. Senti vontade de entrar no quarto e abraçar Tito por ensinar Gabe a tocar uma das músicas do nosso avô.
A televisão na sala estava novamente em um volume razoável, fazendo com que fosse possível ouvir uma voz cantando a música que Tito tocava no violão. Caminhei pelo pequeno corredor e antes mesmo de entrar na sala reconheci a voz que cantava a música.
- Que foi? – perguntou e só então percebi que estava o encarando novamente.
Pigarreei, fingindo que coçava meu pescoço enquanto tentava olhar em qualquer direção que não fosse a sua. Balancei a cabeça, tentando parecer despreocupada, mas ele continuava me olhando, esperando uma explicação. O único problema era que nem eu tinha uma explicação para o meu comportamento nos últimos minutos.
- Nada. – Finalmente falei, incapaz de inventar alguma mentira que fizesse sentido. – Era só a música... – Antes que eu completasse a frase ele se levantou e saiu pela porta da frente, deixando-me sozinha e fazendo com que eu me sentisse uma completa idiota.
– Grosso!
Talvez a palavra tenha saído um pouco alta demais, mas uma parte de mim vibrou quando ele colocou a cabeça pra dentro de casa e me olhou com um sorriso sacana no rosto.
- Falou alguma coisa?
- Acredito que você tenha ouvido perfeitamente o que eu falei... Estranho! - Antes que ele respondesse, repeti sua falta de educação e saí da sala, deixando-o sozinho com seus pensamentos que eu imaginei não serem nada agradáveis.

**


Eu estava terminando de fazer o jantar quando uma batida na porta chamou minha atenção. Gabe assistia televisão na sala e me olhou, em dúvida sobre atender ou não. Pedi que ele atendesse, mas antes perguntasse quem era.
- Sou eu. – A voz de Ben soou do outro lado da porta.
Gabe sorriu, por uns segundos parecendo que Ben era seu namorado, e não meu. Os dois se abraçaram, fazendo seu aperto de mão secreto, como eles chamavam. Não que fosse de fato um segredo, nem ao menos complicado era, mas Gabe adorava, de alguma forma se sentia importante por ter um aperto de mão secreto com um adulto.
Enquanto Ben caminhava até mim notei que ele havia cortado o cabelo recentemente, seus fios claros estavam espetados para cima ao invés de caindo sobre os olhos como da última vez que o vi. Ele me abraçou pela cintura e eu me estiquei para alcançar seus lábios.
- Vai jantar com a gente? – Perguntei, mostrando a sopa e a lasanha que estavam na mesa.
- Hm, na verdade já jantei, mas acho que não vou resistir. – Falou, puxando uma cadeira e sentando.
Durante o jantar Gabe e Ben conversavam sobre aleatoriedades, o que tinham aprendido durante as aulas, Gabe na escola e Ben na faculdade, o que fizeram durante o dia e no começo da noite. Eu sorria, fazendo alguns comentários, mas preferindo ouvir mais do que falar. Os olhares e sorrisos cumplices dos dois levavam minhas preocupações embora. Eu gostava do fato de Gabe ter uma presença masculina forte na sua vida, e eu sabia que Ben era um exemplo perfeito para ser seguido. Estudioso, batalhador, educado e sempre bem humorado, com ele as coisas pareciam mais simples, era fácil imaginar um futuro sem preocupações com ele ao meu lado.
Depois do jantar nos revezamos entre lavar, secar e guardar a louça. Normalmente Gabe não parecia empolgado em me ajudar nessas tarefas de casa, mas quando Ben estava presente ele fazia o possível para passar mais tempo ao seu lado. Entre nossos trabalhos e suas aulas na faculdade era difícil nos vermos todos os dias, sempre procurávamos dar um jeito de estarmos juntos, mas a frequência dificilmente passava das três vezes por semana. Nos primeiros meses de namoro chegávamos a passar dias inteiros juntos. Quando meu avô ainda morava conosco eu costumava passar muitos finais de semana na casa de Ben, mas quando meu avô decidiu ir para a casa de repouso eu ganhei novas responsabilidades e ficou difícil conciliar tantas coisas. Cheguei a cogitar terminar o namoro, mas mesmo sem saber das minhas intenções Ben me fez mudar de ideia e perceber que eu precisava dele ao meu lado para enfrentar tantos obstáculos. Com ele ao meu lado eu me atrevia a pensar que algo bom me esperava num futuro próximo.
- Vou colocar o Gabe na cama e volto para matar as saudades. – Falei no ouvido de Ben e senti ele se arrepiar.
- , o Ben pode ler pra mim hoje? – A voz manhosa de Gabe me fez sorrir.
Antes que eu pudesse responder Ben já estava caminhando até Gabe e pegando-o no colo. O olhei agradecida e ele piscou, sussurrando um volto já.
Apesar de a porta do quarto de Gabe estar fechada, era possível ouvir suas risadas altas e os pedido de Ben para que ele parasse de rir de qualquer besteira que havia falado. Troquei a calça jeans e a camisa de manga comprida por um pijama confortável e fui até o banheiro para escovar os dentes.
Olhei pela janela reparando que a luz do quarto que até alguns dias atrás estava sempre apagada por nunca haver ninguém no cômodo foi acesa. Eu sabia que o quarto do Tito ficava do outro lado, então a única pessoa que poderia estar naquele quarto era...
- De novo não. – Falei por baixo fôlego.
O garoto-problema surgiu no meu campo de visão usando apenas uma toalha branca amarrada na cintura. Seus cabelos estavam molhados e, ao contrário de pessoas normais que usam uma toalha para secá-los, ele usava as mãos, bagunçando-os por completo. Vi uma de suas mãos segurar a ponta da toalha em sua cintura e, percebendo o que ele estava prestes a fazer, soltei uma exclamação e sai do quarto rapidamente, decidindo que daquele momento em diante a cortina do meu quarto ficaria sempre fechada. Bem fechada.
Os lábios de Ben tocaram meu pescoço, me fazendo pular do sofá e jogar o livro que estava lendo no canto da sala. Coloquei a mão em meu peito, sentindo meu coração bater velozmente, fora do normal.
- Desculpe pelo susto. – Falou, me abraçando e beijando meus cabelos.
- Não foi nada, só estava distraída. – Respondi, puxando-o pela mão para que ele sentasse ao meu lado no sofá. – Senti sua falta. – Comentei, beijando o caminho de sua mandíbula até sua boca.
Ben optou por concordar sem usar qualquer palavra. Ele era bom nisso, em usar ações para se fazer entendido, quero dizer. No começo do namoro nós dois éramos só ações, a paixão reinava em nossa relação, era praticamente a forma como nos comunicávamos. Não que a paixão não existisse mais, apesar de eu nunca ter sentido o famoso nó no estomago ou ouvido fogos de artificio, sempre soube que o meu relacionamento com o Ben seria mais sério e duradouro que qualquer outro. Durante a minha adolescência eu tive apenas dois namorados além do Ben, nenhum deles durou mais de seis meses, e nenhuma relação fora tão intensa, mas para mim a falta das borboletas no estomago era algo normal, o tipo de coisa que acontecia apenas em livros e filmes, ainda mais após três anos de namoro.
Não sei dizer por quanto tempo ficamos deitados no sofá, trocando beijos, carinhos, falando coisas bobas e sem importância, mas quando olhei o relógio vi que já era quase meia noite. Demorei alguns minutos para carinhosamente expulsar Ben de casa, dormir depois da meia noite era dor de cabeça garantida na manhã seguinte. Minhas preciosas sete horas de sono eram essenciais para que o meu dia funcionasse nos conformes.
Levei Ben até o lado de fora da casa e ele me abraçou, sem saber o quão agradecida eu estava já que meu pijama não era o mais adequado para o frio. Apesar de estar um degrau abaixo de mim, eu ainda precisava olhar um pouco para cima para falar com ele.
- Volta amanhã? – Minha pergunta soou como um pedido.
- Amanhã não posso, tenho um relatório para entregar no sábado de manhã na faculdade. – Beijou meus lábios rapidamente. – Mas eu quero te ver no sábado a noite. – Sua voz manhosa me lembrou a de Gabe, agora eu sabia onde ele havia aprendido.
- Vem pra cá, então.
- Não, não assim. Quero só você, sem irmão mais novo, sem responsabilidades – Enquanto falava ele beijava meu pescoço, aproveitando a escuridão e o fato de estarmos sozinhos na rua. – sem roupa... – Completou, seus olhos verdes esmeralda brilhando, cheios de malicia.
Dei risada, tentando pensar na última vez que em que estivemos sozinhos daquela forma. Já havia se passado quase um mês, não era o máximo de tempo que havíamos ficado sem transar, mas era o suficiente para fazer com que nos empolgássemos um pouco mais do que devíamos àquela hora e em frente a minha casa.
Suas mãos já apertavam meus glúteos com vontade quando eu finalmente separei nossos corpos, com medo de que alguém passasse na rua, ou até mesmo Gabe abrisse a porta. Dei um último beijo rápido em seus lábios e o observei entrar no carro e sumir pela rua escura.
- Sabe... – Uma voz masculina, pela segunda vez na noite, me fez pular de susto. – Eu sinto falta dos tempos em que precisávamos pagar para ver um pornô. – falou despreocupado enquanto soltava a fumaça do cigarro por entre os lábios.
Engoli em seco, me recusando a ceder às suas provocações. Senti meu rosto em chamas mais uma vez e agradeci por estar escuro demais para que ele percebesse. Notei que, como na noite anterior, ele vestia apenas uma boxer e uma camisa e me perguntei se ele não sentia frio, porque desde que Ben afastara o corpo do meu eu estava praticamente congelando.
- Você sempre foi inconveniente assim ou fez um curso? – Certo, não foi a minha melhor piada, mas foi o melhor que meu cérebro conseguiu fazer àquela hora da noite.
Um sorriso convencido surgiu em seus lábios e ele deu um último trago no cigarro antes de jogá-lo no chão sem se preocupar se ainda estava aceso. Senti seus olhos intensos me analisarem e quando o olhei novamente vi que ele, sem o menor pudor, encarava minhas pernas poucos cobertas pelo short do pijama.
Bufei e entrei em casa rapidamente, sem me preocupar com o barulho que a porta fez quando a fechei com força.
- Belas pernas! – Ouvi sua voz alta e divertida do outro lado da porta.
Joguei-me na cama, cansada e irritada demais para ir até a casa vizinha e falar todos os desaforos que ocupavam minha mente naquele momento. O cansaço me atingiu com força, fazendo com que eu dormisse antes de poder anotar todas as respostas inteligentes que eu poderia ter dado para o garoto-problema que também havia se revelado como um belo insolente.

04 - Ele

A vida é sempre cheia de opções, algumas fáceis de escolher, outras difíceis. Enquanto eu me olhava no espelho, tentava decidir qual das camisas usar no primeiro dia de trabalho. Alguns meses antes essa seria uma das opções de fácil escolha, mas quando é preciso provar para o mundo, e principalmente para o possível-futuro-chefe, que você não é um drogado fodido, essa escolha se torna extremamente difícil. Cheguei a desejar que Tito não estivesse fora da cidade, mas percebi que aquele pensamento, junto com o fato de eu estar tentando escolher uma porcaria de camisa para usar, era muito infantil.
Na cozinha o cheiro dos ovos que eu havia deixado no fogo começava a passar de no ponto para queimado. Peguei rapidamente qualquer camisa em cima da cama e corri para desligar o fogo antes que meus ovos e a casa pegassem fogo. Abri os armários tentando encontrar o pó do café para a cafeteira, mas lembrei que antes de sair de casa Tito havia falado que eu teria que comprar mais.
- Porra! – Gritei, já odiando aquele dia.
Para algumas pessoas pode parecer fácil, mas para mim, começar o dia sem café, é a mesma coisa que nem ao menos começá-lo. Cigarros, café, mulheres... Eu sempre fui um cara de muitos vícios.
Olhei pela janela e pude perceber que e seu irmão estavam sentados à mesa da cozinha na casa ao lado. Mais de dez dias morando ali e aqueles dois pareciam me odiar cada vez mais. Não que eu os culpasse... Inferno! Eu estava pouco me fodendo para aqueles dois.
Sai de casa deixando a porta apenas encostada e bati na casa vizinha, ouvindo uma cadeira ser arrastada e alguns passos se aproximarem da porta.
- Oi. – falou, sem esboçar um sorriso e com um tom seco.
- Hm, ficamos sem café. – Respondi, apontando para minha casa.
Sem me dar uma resposta ela me deixou sozinho na porta e foi até a cozinha. Pela brecha que ficara aberta puder ver o pirralho banguela me olhando como se eu fosse um ladrão prestes a invadir a casa. Como bom sacana que sou, o encarei de volta, como se, de fato, estivesse prestes a invadir a casa e destruir tudo ali dentro. O pirralho se levantou rapidamente e sumiu da minha vista.
- Gabe? – Ouvi a voz de soar preocupada.
Observei-a caminhar de volta até a porta com um pacote pequeno de café. Ela me olhou, como se suspeitasse que eu tivesse feito seu irmão sair correndo.
- Que foi? – Perguntei, inocente.
- Assustar um garoto de oito anos de idade... Sério? – Seu tom irritado fez com que eu, sem querer, desse um passo para trás.
- O moleque acha que eu sou o diabo. – Dei de ombros, percebendo que aquela frase afetara mais a mim do que a ela.
- Santo é que você não é. – Respondeu, com um meio sorriso.
- Que seja! – Respondi, já me arrependendo de ter ido pedir qualquer coisa naquela casa. – Obrigado pelo café.
- Por nada.
fechou a porta de casa e eu pude ouvir um choro infantil. Passei a mão pelo cabelo, sentindo-me um pouco culpado. Um pouco de café mandaria aquela culpa de volta onde ela nunca deveria ter saído.

**


O barzinho onde Tito tocava nos fins de semana não se diferenciava muito de qualquer outro bar em que eu já havia entrado, fosse onde eu morava, ou em qualquer outro lugar. As paredes escuras e cheias de pôsteres, o longo balcão, o menu escrito a giz em um quadro velho e desgastado, e, é claro, as bebidas. A parte que poucas pessoas conheciam era onde eu estava naquele momento, a cozinha.
Meu chefe me mostrava rapidamente onde encontrar os materiais que eu precisaria ao mesmo tempo me apresentava aos meus novos colegas de trabalho e mandava mensagens no celular. Marcus, o cozinheiro chefe me cumprimentou com um pequeno movimento de cabeça e Lissa, sua assistente, acenou rapidamente. Reparei em sua saia curta, a enorme tatuagem em seu braço e em seus cabelos loiros – quase brancos - presos sem jeito em um rabo de cavalo. Nada mal.
Antes de ser pego vendendo drogas para Nico eu trabalhava em um restaurante popular do meu antigo bairro. Não era o melhor emprego do mundo e nem o lugar mais bem frequentado que existia, mas Phill, meu antigo chefe, fazia tudo aquilo valer a pena. Desde pequeno eu mantinha uma paixão meio secreta por receitas e pratos internacionais. A paixão surgira por causa do meu avô que era chef em um restaurante bacana e frequentado até por celebridades, apesar de ele ter morrido quando eu ainda era moleque, continuei com o sonho de seguir seus passos e também me tornar chef de cozinha.
Phill me ensinara tudo que meu avô não pôde por falta de tempo. Apesar das minhas infinitas burradas, ele tivera paciência comigo, insistia que eu tinha um bom futuro pela frente se continuasse daquele jeito. Lembro-me da primeira e única vez em que ele apareceu para uma visita no presidio, a decepção em seu olhar ainda fazia meu sangue ferver, imagino que aquele seria o mesmo olhar que o meu avô me lançaria se soubesse onde eu terminei.
- Tem experiência? – Marcus perguntou, sem desviar os olhos do peixe que limpava.
- Trabalhei por alguns anos em um restaurante.
Minhas mãos procuraram por algo para ocupá-las, mas eu ainda estava completamente perdido, acabei optando por mantê-las no bolso do meu jeans. Lissa me olhou, provavelmente percebendo o quão deslocado eu estava, e sorriu amigavelmente enquanto seus olhos me analisavam de cima abaixo sem discrição.
- Vai ficar parado ai? – Marcus chamou minha atenção. – Pega um avental e sirva-se. – Apontou um balde cheio de peixes prontos para serem limpos e descamados.

**


O bairro onde o bar ficava localizado era movimentado, pessoas caminhando pela calçada, carros, ônibus e motos ocupavam as ruas, era difícil achar um lugar para sentar e relaxar durante os vinte minutos de intervalo que eu tinha durante a tarde.
Caminhei apressado, no inicio sem rumo, até que vi a entrada de um parque qualquer e me dirigi para um dos bancos de madeira que estavam vazios. Acendi um cigarro e peguei o celular no bolso, vendo que Tito havia mandado uma mensagem avisando que chegaria no dia seguinte.
Sem conseguir pensar em algo mais útil para fazer passei os olhos pela minha lista de contatos. Cliquei no nome de Nico e li o numero que há um bom tempo eu tentava apagar da minha memória. Fiquei tentado a ligar, apenas para ver se aquele numero ainda era usado por ele, mas antes que pudesse fazer a besteira alguém sentou ao meu lado.
Lissa cruzou as pernas bronzeadas de uma forma sensual e me olhou com malicia. Ofereci um cigarro e um isqueiro, mas ela aceitou apenas o primeiro, olhei-a sem entender e ela deu um meio sorriso, colocando seu cigarro na boca e usando o meu para acendê-lo.
- Bela tatuagem. – Falei quando ela me devolveu o cigarro.
- Digo o mesmo. – Respondeu, apontando para a tatuagem na parte interior do meu bíceps que geralmente passava despercebida. – O que significa?
- É uma cruz egípcia. – Levantei um pouco a manga da camisa para que ela visse toda a tatuagem. – Representa a vida eterna e é um amuleto protetor.
- Hm, interessante. – Respondeu em um tom desinteressado.
Dei de ombros, sem me importar muito com a falta de interesse dela. Fiz aquela tatuagem aos 17 anos e ela foi como um pacto entre mim e Nico, não importava o que a vida trouxesse, seriamos sempre irmãos, companheiros. É, bela merda de pacto. Da última vez que o vi a sua tatuagem no antebraço já estava sendo quase coberta por infinitas outras tatuagens que havia feito desde que entrara para uma gangue. Provavelmente outros pactos com seus novos irmãos.
Levantei-me do banco, reparando que tinha apenas cinco minutos para voltar para o bar. Antes de deixar Lissa sozinha, me virei para ela.
- Tá livre hoje à noite?
Ela soltou a fumaça do cigarro por entre os lábios, fazendo um biquinho forçado.
- Pra você? – Me olhou. – Talvez.
Sorri minimamente, levantando apenas o canto dos lábios, era fácil saber que garotas gostavam daquilo, e joguei meu cigarro no chão perto de seus pés antes de me virar e voltar para o bar.

**


Algumas pessoas podem pensar que eu sou convencido, apenas por saber do que mulheres gostam e conseguir decifrá-las mais do que outros caras. Quando eu era moleque não conseguia entender bem o porquê de as garotas sempre virem fáceis para mim. Meus amigos viviam me zoando, dizendo que eu roubava as meninas deles, mas só com o fim da adolescência percebi que uma boa parte dessas garotas eram as sobras do meu irmão. Elas não tinham sorte com ele? Vinham para o mais próximo dele que conseguiam... Eu. Por um tempo minha autoestima ficou abalada por causa disso, até que eu conheci a Barbie.
Hoje em dia eu apenas confiava em mim mesmo. Sabia que era mais bonito que a média e descobri que essa aparência de garoto-problema, de alguma forma, atraia as mulheres.
Quando meu turno no bar acabou, nem me preocupei em me despedir, só queria sair daquela cozinha apertada e fedida a peixe. Longe de mim ter alguma frescura, já trabalhara com fedores muito piores, mas tudo aquilo misturado com a voz irritante de Marcus era demais para mim. Já estava no ponto de ônibus quando Lissa me alcançou, seu olhar revelava que o seu talvez de antes havia mudado para um sim. Sorri notando pela primeira vez na cicatriz em sua bochecha. Apesar da vontade de perguntar, apenas por curiosidade, o que havia acontecido, fiquei com receio de que a conversa se tornasse intensa demais. Conversar sobre nossas vidas não era bem o que eu tinha em mente para a noite.
Antes mesmo que eu abrisse a porta de casa, já pude sentir a mão de Lissa entrando por debaixo da minha camisa. Dentro de casa as roupas foram apenas sendo jogadas pelo caminho da sala até o meu quarto. Agradeci por Tito não estar em casa ou aquilo poderia ser bem constrangedor. De repente o pensamento de que Lissa era minha colega de trabalho e que eu teria que vê-la todos os dias da semana me atingiu, me fazendo desejar que sua intenção fosse a mesma que a minha, só uma noite prazerosa de sexo. Sem conversas, sem compromisso, sem pudores. Sexo. Era só o que eu queria.

**


Abri meus olhos lentamente, reparando que apesar de a cortina não estar fechada, não havia claridade do lado de fora. Peguei o celular e chequei o relógio que marcava quase 1 da manhã. Apesar de a minha cama estar vazia, levantei-me para checar se estava sozinho em casa. Nada de roupas femininas pelo chão, nenhum rastro feminino pela casa. Agradeci mentalmente e fui até a cozinha apenas para beber uma água. Nada como um bom sexo para curar uma insônia.
Abri a janela da sala e peguei um cigarro, apenas para não perder o hábito. Passei a mão por meu bíceps, que por algum motivo doía, e reparei nas marcas que as unhas de Lissa haviam deixado. Balancei a cabeça as observando no espelho, sem gostar de ter rastros dela por meu corpo. Não que o sexo não tivesse sido bom, mas a verdade é que depois da segunda vez e muitas posições a coisa toda meio que perdeu a graça. Nem ao menos conseguia lembrar quantas vezes ela havia gritado meu nome antes de eu apagar completamente, mas os gemidos impiedosos da garota estavam gravados em minha mente.
Joguei o toco do cigarro fora e, antes que pudesse pegar outro, lembrei que teria que acordar cedo para o trabalho. Meus dias de vagabundo haviam ficado para trás. Só esperava que esse emprego fosse temporário porque agora além da voz irritante de Marcus, teria a voz de Lissa em minha mente, gemendo meu nome e me atormentando o dia inteiro.

05 - Ela

Acordar cedo, preparar café da manhã e ir buscar meu irmão mais novo na casa de um amigo depois de uma festa de pijama, nunca estiveram no topo da minha lista de responsabilidades que eu teria aos vinte e um anos. Na verdade essas opções nem estavam listadas, nos meus planos para a faculdade as responsabilidades incluíam apenas, de vez em quando, estudar para provas, mas o topo da lista era composto por ir para festas com as amigas, conhecer garotos de fraternidades e me divertir como nunca antes em minha vida. Ah se eu soubesse naquela época que o nosso destino é impossível de ser controlado.
Sai de casa vestindo meu cardigã e me encolhendo por causa do frio. Caminhei pela rua contando as casas, mesmo sabendo em qual David, melhor amigo de Gabe, morava. Toquei a campainha e uma mulher jovem abriu a porta, sorrindo para mim.
- Oi, Anna. – Cumprimentei a mãe de David. – O Gabe está pronto?
Antes mesmo que ela negasse eu já sabia sua resposta. Gabe nunca estava pronto para voltar para casas depois de uma noite divertida com seus amigos. Eu sabia que ele perguntaria se podia ficar mais e ele sabia que a minha resposta seria não.
Anna me convidou para entrar na casa e me ofereceu alguma bebida, que eu prontamente neguei antes de sentar no sofá enquanto ela ia apressar Gabe. O ouvi resmungar que queria ficar mais, mas Anna já sabia minha resposta e apenas disse que ele poderia voltar sempre que quisesse. Gabe agradeceu pelo jantar e pela estadia e eu sorri, orgulhosa das suas boas maneiras.
- Se divertiu? – Perguntei, enquanto caminhávamos de volta para casa.
- Aham. – Sua boca estava cheia demais com o muffin que Anna havia lhe dado antes de sairmos. – Posso voltar amanhã?
- Nada de dormir fora em dias de semana. Talvez no próximo sábado, tudo bem?
Apesar de não ter gostado da resposta, Gabe concordou, voltando a encher a boca de muffin.
Durante muito tempo após o acidente de meus pais, tive medo que Gabe se tornasse uma criança problemática, fosse por não me respeitar ou por estar frustrado com os acontecimentos ao seu redor. Nos primeiros meses a presença de meu avô era mais constante, o que acabava aliviando um pouco da pressão sobre meus ombros. Era difícil aceitar que algo daquela dimensão havia acontecido com a gente. Cheguei a tentar culpar alguém, meu pai pela falta de controle no volante, à mim mesma por ter brigado com minha mãe no dia anterior, Deus por não ter impedido uma tragédia tão grande, mas no final das contas não havia culpados, fora um acidente, não havia nada que pudesse ser feito para evitar a perda.
Vi meu irmão pegar um livro de exercícios e começar a fazer a tarefa de casa que ele não havia tido tempo de terminar antes de ir pra casa de David. Naquele momento eu soube que eu não poderia ter feito um melhor trabalho em sua educação. Não que a presença de Ben e seu bom exemplo não tivessem ajudado bastante, seus estímulos, suas conversas com Gabe, tudo aquilo havia feito parte de seu desenvolvimento e sua criação.
- Precisa de ajuda? – Perguntei, olhando por cima de seu ombro e vendo alguns exercícios de matemática. Gabe negou, já concentrado e fazendo contas com seus dedos.
Ouvi uma batida na porta e fiquei surpresa ao ver Claire, uma das minhas amigas dos tempos de colégio, sorrindo para mim. Pouco mais de um mês havia de passado desde a última vez que havíamos nos falado por telefone. Ela prometera uma visita, mas até aquele momento eu achei que ela estivesse apenas falando por falar.
Depois de abraçá-la deixei que ela entrasse em casa e lhe ofereci algo para beber ou comer, mas ela apenas negou e foi até Gabe, o abraçando e trocando algumas poucas palavras.
- Não quero atrapalhar. – Falou, apontando para Gabe que voltara sua atenção para o livro novamente.
- Vamos lá pra fora. – Mostrei o caminho, mesmo sabendo que não era a primeira vez que ela me visitava.
Sentamos nas duas cadeiras de balanço do lado de fora e engatamos uma conversa sobre os últimos acontecimentos de nossas vidas. Claire, como sempre, tinha milhares de novidades para contar. Fosse sobre ela mesma, suas aulas na faculdade, seu trabalho em uma rede de televisão, ou sobre alguém dos tempos de escola que havia casado ou ficado grávida. Tentei lembrar algo emocionante que havia acontecido no último mês, mas minha vida havia se tornado uma rotina chata e sem mudanças. A única coisa que me veio em mente foi ter o garoto-problema como novo vizinho, mas não era algo que eu estava disposta a compartilhar com Claire, até porque além de não ser interessante, eu não sabia nada sobre ele e ela, com certeza, insistiria em vê-lo.
- E o Ben? Ainda pensando em fazer aquela especialização fora quando se formar? – Claire perguntou, fazendo com que preocupações que eu já havia há muito deixado pra trás voltassem de repente.
- Hm, acho que sim. – Respondi em voz baixa entregando minha apreensão.
Claire me olhou e eu pude perceber que ela estava com pena de mim. Nada me deixava mais frustrada do que pessoas que tinham pena de mim. Pena era algo que eu não precisava em minha vida.
- Você nunca pensou em ir com ele?
- E deixar o Gabe com quem?
- Com seu avô? – Sugeriu, sem muita certeza.
Balancei a cabeça negando. Há três anos a minha vida girava em torno de Gabe, era sempre eu e ele, ele e eu, e assim seria por um bom tempo.
Vi o olhar de Claire se desviar para algo no jardim da casa vizinha e um sorriso travesso tomar conta de seu rosto. Olhei na mesma direção que ela e vi deitar na espreguiçadeira do jardim vizinho. Apesar de o sol estar brilhando no céu a temperatura ainda estava baixa, mas ele não parecia se incomodar já que usava apenas uma calça jeans que deixava uma parte de sua cueca e fora, ao invés do cigarro, dessa vez ele tinha um livro em suas mãos. Rolei os olhos, prevendo o que viria a seguir.
- Mas que visão. – Claire comentou. – Vizinho novo?
- É... Garoto-problema. – Falei, olhando-o novamente.
- Parece o tipo de problema que eu quero em minha vida. – Comentou, me fazendo rir, incrédula.
Com o som alto da minha risada, abaixou o livro e pareceu nos notar ali. Fiquei sem graça por sermos pegas olhando para ele, mas ele pareceu pensar o contrário e nos lançou um sorriso de lado, convencido - e irresistível para Claire.
Quando reparei, ela já estava se levantando e caminhando até ele.
- O que... – Não consegui completar minha frase a tempo. Lá estava ela, puxando assunto com o meu novo vizinho indesejado.
Por causa da distância, não era possível ouvir claramente a conversa, mas a julgar pelas risadas altas de Claire a forma como ela tocava no cabelo a cada cinco segundos, o flerte estava acontecendo. Fiquei com vontade de ir até lá e lembrá-la de que ela tinha vinte e um anos e não era mais uma adolescente de dezesseis.
- , terminei a tarefa. – A voz de Gabe desviou minha atenção. – Posso ir brincar?
- Claro que pode, amorzinho – Sorri, vendo-o concordar e pegar a bola de futebol que estava no meio do jardim.
Gabe sempre fora muito bom em se virar sozinho em suas brincadeiras. Não que eu não brincasse com ele, mas quando eu estava ocupada, ele raramente reclamava por ter que brincar sozinho.
Claire voltou a sentar ao meu lado, um sorriso satisfeito em seu rosto. Rolei os olhos, sem acreditar que ela havia mesmo feito aquilo. Seus impulsos me faziam passar vergonha desde os tempos de colégio.
- . – Ela suspirou.
- Você só pode estar brincando. – Ri, sem emoção.
- O fato de você ter namorado não a impede de olhar para outros caras, sabia?
Sim, eu sabia. E eu olhava sim para outros caras, mas parecia ser o tipo de garoto que podia te colocar em sérios problemas apenas com uma simples troca de olhares.
Olhei novamente para onde ele estava e notei seu jeito despreocupado, um de seus braços atrás da cabeça fazendo com que a tatuagem em seu bíceps fosse visível. Desci meus olhos por seu peito um pouco malhado, sua calça e sua cueca eram usadas mais para baixo, diferente da forma como Ben usava, fazendo com que fosse possível ver as entradinhas em seu abdômen. Senti um arrepio passar por minha nuca e só ao sentir a mão de Claire em minha bochecha notei que o sangue fervia debaixo da minha pele.
- Ah, Ben, toma cuidado com esse novo vizinho da sua namorada. – Ela falou, num tom brincalhão.
- Cala boca. – Afastei sua mão de meu rosto, desejando poder enfiar minha cabeça em algum buraco.
Gabe chutou a bola com força e ela não acertou por alguns centímetros. Esperei pra ver sua reação e provar para Claire que daquele garoto só poderia sair problema.
- Toma cuidado com essa bola, pirralho. – Falou, um pouco ríspido.
Olhei pra Claire desafiando-a a falar alguma coisa e defender .
- Grosso. – Cantarolei, alto o suficiente para que ele e Claire pudessem ouvir.
- Você joga? – Ouvi Gabe perguntá-lo, seu tom deixava claro o desafio.
abaixou o livro e o olhou.
- Melhor do que você.
- Então prova. – Gabe chutou a bola em sua direção novamente.
me olhou, quase como se pedindo permissão. Eu dei de ombros e sorri, desafiando-o tanto quanto Gabe.
Não que meu irmão de oito anos fosse algum astro do futebol, mas eu já o havia visto jogar em alguns campeonatos em sua escola e ele era, de fato, muito melhor que os garotos da idade dele.
chutou a bola, se aproximando de Gabe e, quando estava perto o suficiente, o driblou, com uma facilidade que me deixou um pouco desconfortável. Gabe foi atrás dele, conseguindo roubar a bola depois de algumas tentativas. Lógico que por estar jogando com alguém que era muito mais alto, ele por vezes usava mais do que os pés e acabava puxando a calça ou o braço de .
O garoto-problema riu de algumas tentativas frustradas de Gabe e o driblou passando a bola por cima de sua cabeça. Por alguns segundos pensei que meu irmão fosse desistir e começar a chorar, mas ele lançou um olhar feio para e partiu para cima dele, usando todos os truques sujos possíveis para roubar a bola novamente. Naquele momento eu já estava até pensando em mudar minha opinião sobre . Por vezes era possível ver um sorriso sincero em seu rosto enquanto Gabe o segurava e tentava pegar a bola. Pude jurar que uma ou duas vezes ele, propositadamente, deixou que meu irmão pegasse a bola e fugisse rapidamente.
Gabe segurou a bola com as mãos e olhou para . – Quer tentar fazer um gol?
riu, pegando a bola da mão de Gabe e esperando que ele marcasse os limites do gol. Enquanto brincava com a bola em suas mãos, me olhou por alguns segundos, sustentei seu olhar e acabei sorrindo, quase que sem querer. Ele devolveu o sorriso e voltou sua atenção para meu irmão.
- Uhh... – Claire provocou. Dei um tapa em seu braço, fazendo-a desistir de falar qualquer outra coisa e se encolher, controlando uma risada.
- Se prepara! – falou, colocando a bola no chão enquanto Gabe se posicionava no gol.
Os dois primeiros chutes passaram um pouco longe do gol. O terceiro foi facilmente impedido por Gabe, que sorriu vitorioso. Mas foi no quarto chute que tudo desmoronou.
se preparou para chutar a bola. Gabe se agachou um pouco, tentando repetir a defesa anterior. Eu tive um daqueles pressentimentos ruins que toda mãe tem em relação aos filhos. A bola voou e atingiu em cheio o rosto de Gabe, fazendo com que ele caísse no chão.
- GABE! – Gritei, me levantando e correndo até onde ele estava.
- Porra! – Ouvi a voz de antes de ele se agachar ao meu lado.
O nariz de Gabe sangrava e eu via as lágrimas se acumularem em seus olhos. Num impulso, empurrei ao meu lado, fazendo-o cair com força na grama.
- Você é louco? – Perguntei. – Ele é uma criança!
- Foi sem querer. – Sua voz indignada gritou.
Antes que eu pudesse carregar Gabe, o fez.
- Solta ele!
- Vou levá-lo para o hospital, ver se está tudo bem. – Explicou.
Num acesso de raiva eu estapeei seu braço, tentando fazer com que ele devolvesse meu irmão. Claire me segurou, tentando conter minha raiva.
- , relaxa. O só está tentando ajudar. – Falou, sua voz calma fez com que eu recuperasse um pouco a sobriedade.
Seguimos até o carro de Tito e ele colocou Gabe sentado no banco de trás, passando o cinto de segurança por seu peito. Claire sentou no banco do carona e eu sentei atrás, analisando o nariz de Gabe e pedindo para que ele não falasse nada ou o machucado podia, de alguma forma, piorar. entrou em casa e segundos depois saiu pela porta vestindo uma camisa branca e com a chave do carro nas mãos.
O caminho até o hospital foi rápido e silencioso, apenas os gemidos dolorosos de Gabe ecoavam pelo carro. Eu segurava sua mão com força, desejando que o sangue estivesse saindo pelo meu nariz, e não pelo dele.
As coisas no hospital também aconteceram rápidas, ou pelo menos foi o que pareceu. Raio-X, enfermeiras, médica de plantão... Tudo parecia apenas um borrão. A médica garantiu que apesar de os ossos na base do nariz de Gabe terem quebrado, a única consequência seria a dor que ele sentiria, ou já sentia. Não havia nenhuma obstrução ou deformação e levaria em torno de duas semanas para tudo voltar ao normal.
Peguei Gabe em meu colo e o levei de volta para a sala de espera onde Claire lia uma revista e balançava as pernas, em um claro sinal de nervoso.
- Tudo bem com ele? – Perguntou. Sua voz deixando a rispidez de lado e assumindo um tom amedrontado.
- Tudo bem. Mas vai levar pelo menos duas semanas para sarar.
- Foi um bom jogo. – Gabe falou, estendendo a mão para .
O garoto-problema soltou uma gargalhada divertida e apertou a mão de Gabe.
Claire decidiu pegar um táxi dali mesmo, já que era mais próximo de sua casa. Pediu que eu a ligasse no dia seguinte para avisar se tinha sido tudo bem durante a noite.
Caminhei ao lado de em direção ao carro e sentei com Gabe no banco de trás. Apesar de ter ficado parecendo um motorista, não reclamou, apenas ligou o som do carro e saiu do estacionamento do hospital. No meio do caminho Gabe já havia adormecido com a cabeça encostada em meu ombro. Fiz carinho em seus cabelos e, vez ou outra, conferi seu nariz apenas para ter certeza de que não havia voltado a sangrar. Vi que me lançava alguns olhares pelo retrovisor, mas resolvi ignorá-lo. Uma parte de mim ainda queria acreditar que ele fizera aquilo de propósito, só porque Gabe havia defendido um de seus chutes. Mas toda vez que eu lembrava do seu sorriso e das vezes em que deixara Gabe roubar-lhe a bola, a parte de mim que queria culpá-lo desaparecia.

**


Quando o céu já estava completamente escuro do lado de fora, coloquei Gabe na cama e li alguns livros para ele. Talvez por causa do dia cansativo, ou por causa da dor no nariz, ele adormecera antes mesmo que eu pudesse finalizar livro. Beijei sua testa e puxei o cobertor pra cima, cobrindo-o até o pescoço.
Peguei meu livro na mesa da sala e abri a porta dos fundos, me assustando ao ver sentado no batente. Ele me olhou por alguns segundos enquanto eu sentava ao seu lado e abria meu livro, tentando ignorar sua presença.
- Não foi minha intenção machucá-lo. – Começou a falar.
- Eu sei.
- Eu não sei lidar muito bem com crianças...
- Percebi. – O interrompi.
Senti que ele me olhava e fechei o livro, devolvendo seu olhar. Reparei em seus olhos intensos e em sua cicatriz perto da boca. Por algum motivo sem explicações minhas mãos sentiram vontade de tocar seu rosto e deslizarem por sua cicatriz. Segurei o livro com força, tentando mandar aquela vontade para longe.
Vi os olhos de desviarem-se dos meus e descerem até a minha boca. Eu sabia o que vinha depois disso, qualquer garota sabia o que acontecia quando um garoto olhava daquela forma para os seus lábios. Senti uma dor aguda no estomago e meu coração acelerou num ritmo descompassado. Meu rosto estava saindo de sua cor normal e se tornando avermelhado, eu sabia disso porque conseguia sentir a temperatura da minha pele aumentar.
Olhei para minhas mãos e abri o livro novamente, quase podendo ouvir o barulho da tensão sendo quebrada.
- Obrigada por ter levado Gabe ao hospital. – Falei, realmente agradecida.
se levantou e se afastou.
- Por nada.

06 - Ele

O lema de qualquer ressaca se resume na frase “Nunca mais vou beber.”. Não era a primeira vez que eu acordava pensando assim, e provavelmente não seria a última. Ah, quem eu estava tentando enganar? Com certeza não seria a última! O relógio em meu pulso marcava pouco mais de sete da manhã e eu me perguntei por que, depois de apenas cinco horas de sono, eu já estava acordado. Revirei-me na cama, cobri meus olhos com o travesseiro, joguei o cobertor no chão, mudei de lado, me cobri novamente... E continuei acordado.
Levantei-me mau humorado e fui até o banheiro para esvaziar a bexiga e escovar os dentes. A porta do quarto de Tito ainda estava fechada e a casa estava silenciosa, fazendo com que até meus passos parecessem altos demais. Na cozinha fiz uma xícara de café e peguei um jornal velho que estava sobre a mesa.
Minha cabeça parecia prestes a explodir, cada pequeno movimento do meu corpo me fazia querer gemer de dor. Se eu já havia tido uma ressaca pior, não conseguia lembrar. Olhei meu braço apoiado sobre o jornal e reparei em algo escrito em tinta preta. Mais de perto percebi que era um número de celular e o nome Jenna. Soltei uma risada nasalada, e cheguei a sentir um pouco de pena da tal Jenna por ela achar que eu fosse de fato ligá-la no dia seguinte. Revirei minha mente em busca do rosto de Jenna, mas de forma alguma consegui lembrar se ela era a loira cheia de maquiagem ou a loira do sexo no banheiro. Bom, as duas fizeram minha noite muito mais satisfatória, mas a minha vontade de encontrá-las de novo era, se possível, negativa.
Alguns dias antes eu havia conhecido Hans, um bartender que trabalhava em um bar perto de onde eu trabalhava. Em poucos minutos de conversa já descobrimos que morávamos em bairros vizinhos e chegamos a estudar na mesma escola por um ano. Talvez por ele ser dois anos mais velho, nunca chegamos a nos encontrar, ou pelo menos não lembrávamos um do outro. Como eu, Hans se mudou para tentar fugir da violência e do tráfico, a única diferença é que ele havia se mudado com a família e nunca havia feito parte de qualquer gangue ou se envolvido com drogas. A boate que havíamos ido na noite anterior era afastada, em um bairro que lembrava muito o lugar onde havíamos crescido. Por ali ninguém pisava no calo de ninguém, o que acontecia ali, ficava por ali mesmo. Era preciso saber mostrar firmeza, mas ao mesmo tempo aceitar que alguma gangue barra pesada comandava o local e nada podia mudar aquilo.
Depois de tomar um banho quente e me vestir, resolvi ir até a padaria da esquina para comer alguma coisa, a geladeira de casa estava precisando de novos produtos com urgência, mas Tito era responsável por essa parte. Quando sai na rua vi e o irmão, que depois do incidente do nariz quebrado eu sabia que se chamava Gabe, caminhando a alguns passos de distância. Andei um pouco mais rápido e em poucos segundos estava logo atrás deles. Tirei um cigarro do bolso e passei na frente de , virando-me de frente para ela sem parar de caminhar.
- Tem isqueiro? – Perguntei, apenas para sacaneá-la. Sabia que uma garota como ela provavelmente odiava cigarro, especialmente próximo ao irmão mais novo.
soltou uma risada falsa e me tirou da frente dela, empurrando-me com uma das mãos. Ri, tirando o isqueiro do meu bolso e acendendo o cigarro, ainda caminhando ao lado dela.
- sempre diz que cigarro faz mal. – O moleque falou com inocência.
- é uma pessoa muito sábia. – Respondi no mesmo tom.
me olhou de canto de olho e eu pisquei ainda com o cigarro em minha boca.
- Quando podemos marcar outra partida de futebol? – Olhei para o pirralho que ainda estava banguela.
Ele deu de ombros, olhando para como se a questionasse.
- Quando seu nariz já estiver completamente curado, o que não deve demorar muito, e quando o resolver ser um pouco mais cuidadoso ao redor de crianças, o que não deve acontecer nunca. – Apesar de um sorriso brincar em seus lábios, seu tom era sério.
- Certo, próximo sábado então. Está marcado. – A ignorei.
Observei o rosto da garota ao meu lado assumir um tom um pouco mais rosado que o normal e fiquei na dúvida se era por raiva ou porque, por estarmos caminhando muito próximos, nossos braços se tocavam a todo momento, fazendo com que uma pequena onda de calor me atingisse e talvez o mesmo acontecesse com ela.
Eu não sabia onde eles estavam indo, mas, por algum motivo ainda não descoberto por mim, continuei caminhando ao lado dela. Ao chegar à padaria, reparei que eles também entraram pela porta de vidro. me olhou, questionando se aquele era mesmo meu destino ou eu estava apenas seguindo-os para deixá-la ainda mais irritada. Dei de ombros e me afastei, indo para o balcão enquanto eles se dirigiam para uma mesa ocupada por um cara que eu assumi ser o namorado de já que algumas semanas antes havia visto os dois na maior pegação do lado de fora da casa dela. Balancei a cabeça ao ver as roupas que ele usava e, por alguns longos segundos, fiquei com vontade de ir até lá perguntar se a mãe dele havia escolhido o que ele deveria usar.
Peguei o prato e o copo de café quando o cara atrás do balcão anunciou que o meu pedido estava pronto e, quando estava me dirigindo para uma das mesas mais afastadas, ouvi o pirralho banguela me chamar.
- Senta com a gente. – Falou, apontando a cadeira vazia entre ele e .
- Gabe! O pode sentar onde ele quiser. – Sua irmã o olhou, deixando claro que ele nunca deveria ter feito aquele convite.
Ops, tarde demais. Aquilo até que poderia ser engraçado.
Sentei na cadeira fazendo barulho e baguncei o cabelo do pirralho, agradecendo pela oportunidade. Ele sorriu de volta, sua inocência ainda maior que o buraco em sua boca devido ao dente faltando.
- Hm, Ben, esse é o , nosso vizinho. – sorriu forçadamente. – , o Ben é meu namorado.
- Ah, o famoso ! Prazer. – A voz do tal Ben era um pouco infantil, mas a julgar pela sua aparência, aquilo não devia ser novidade. Apertei sua mão e balancei a cabeça. O prazer era todo dele mesmo. – O Gabe me contou tudo sobre como você quebrou o nariz dele. – O sorriso vitorioso no rosto de Ben fez com que qualquer simpatia que eu pudesse sentir por ele, desaparecesse antes mesmo de aparecer.
- Eu também falei que você joga muito bem! – Gabe completou.
Sorri, dando-lhe alguns tapinhas nas costas e agradecendo mais uma vez pela oportunidade. se mexeu na cadeira, parecendo desconfortável e deslocada. A julgar pela forma como ela brincava com o canudo em seu copo, ela preferia estar em qualquer lugar que não fosse ali.
- Hm, vocês dois... namoram há muito tempo? – Perguntei fingindo que tinha qualquer interesse em ouvir a resposta.
- Uns três anos. – Ben sorriu presunçoso como se aquilo fosse motivo de orgulho para ele. O sorriso presunçoso quase fez com que eu desejasse ver aquela boca sem alguns dentes. – De onde você é? – Perguntou, lançando-me um olhar curioso.
- De longe. – Pelo meu tom de voz ficou claro que aquele assunto era proibido.
Dei de ombros quando Ben continuou me olhando e coloquei um monte de comida na boca antes que mandasse aquele cara para outro lugar também bem longe.
O resto do café da manhã foi estranho e embaraçoso. Ben lançava alguns olhares questionadores para que apenas brincava com a comida em seu prato, ainda parecendo completamente deslocada. Por alguns segundos pensei que se ela fosse a minha garota, eu nunca a deixaria se sentir daquele jeito, mas o pensamento me pareceu tão absurdo que eu soltei uma risada nasalada sem querer. Garotas como não eram pra mim. Não que ela não fosse bonita, ela era. Muito. Mas ela era tudo que eu não era, nossos mundos eram diferentes demais, nossas ideias se chocavam, éramos opostos que, diferentemente do ditado, não se atraiam. Certo, talvez ela me atraísse um pouco, e talvez fosse por isso que alguns dias antes eu havia quase a beijado por puro impulso, mas era o tipo de atração que eu sabia que nunca iria passar de um mero desejo.
Levantei-me da mesa e anunciei que precisava ir para casa. Claro que eu não precisava realmente ir pra casa, mas eu precisava mesmo sair dali, me distanciar o máximo possível do tal Ben e de sua família feliz. Eu não pertencia ali e sabia disso. Troquei um rápido high five com Gabe e acenei para , lançando apenas um olhar desgostoso para Ben, que foi recíproco.
Caminhei pela rua apressadamente, sentindo o vento frio me pegar desprevenido. Escondi as mãos nos bolsos da calça e me encolhi, sem obter sucesso em me proteger do frio. Olhei para trás algumas vezes, algo me incomodava e eu não sabia explicar o que era, mas uma sensação de estar sendo vigiado fez com que eu olhasse para todos os lados e encarasse qualquer pessoa que passasse por mim. Não era a primeira vez que aquela sensação me atingia e fazia com que meu estomago embrulhasse. Definitivamente não era um bom pressentimento.
Em casa, Tito estava jogado no sofá, assistindo televisão. Algo em minha expressão fez com que ele se sentasse e me olhasse confuso.
- Tudo bem, cara?
Balancei a cabeça confirmando e fui até o meu quarto, fechando a porta atrás de mim. Olhei pela janela, talvez esperando ver alguém, mas não encontrei nada. Fechei a cortina com força e sentei na cama, sentindo minha respiração ficar mais pesada.
Quando a gente resolve deixar pra trás um passado cheio de complicações, é difícil se livrar da insegurança, da sensação de que a qualquer momento seu passado pode bater a sua porta e atingi-lo de uma só vez. O fato de eu não ter tido notícias de Nico durante tantos meses não me deixava mais tranquilo, muito pelo contrário, a todo o momento eu ficava imaginando o que ele estava fazendo. Eu sabia que ele não ia simplesmente esquecer de mim tão fácil. Mais do que seu irmão, eu tinha um lugar reservado na gangue dele, se algo acontecesse com ele, eu tomaria seu lugar. Eu havia crescido ouvindo-o falar de gangues, drogas e todo tipo de ilegalidade que rolava por trás do tráfico. Talvez por isso eu fosse valioso, eu havia aprendido desde cedo o que um membro aprende apenas ao entrar para uma gangue.
Deitei na cama e senti o cansaço me abater, as cinco horas de sono durante a noite foram poucas e não conseguiram recarregar a minha energia. Não demorou muito para que eu caísse em um sono pesado, interrompido algumas vezes por pesadelos onde eu havia assumido o lugar de Nico e era líder de sua gangue.
Acordei ouvindo algumas risadas e acordes de violão vindos da sala. Meu cérebro demorou alguns segundos para processar onde eu estava e o que estava acontecendo. Olhei o relógio em meu pulso que marcava quase quatro da tarde e me assustei por ter dormido tanto, mas afinal, domingos foram feitos para descansar mesmo. Saí do quarto e vi Tito ensinando algo no violão para Gabe, cocei os olhos com força, tentando acordar de uma vez e ouvi meu estômago roncar alto. Na cozinha estava distraída com um livro grosso que eu não consegui identificar e nem ver a capa. Quando entrei pela porta, ela me olhou e sorriu. Desde a noite em que eu quase a beijei, havíamos trocado poucas palavras, exceto pelo nosso encontro naquela manhã. Eu não sabia dizer se ela estava me evitando ou eu, mesmo sem perceber, estava fugindo dela.
Fiz alguns ovos mexidos rapidamente, ansioso para colocar qualquer coisa em meu estômago. Enquanto eu ouvia o barulho da frigideira, lançava olhares discretos para a garota sentada à mesa. Ou o livro era muito bom e ela estava realmente muito absorta, ou ela estava fingindo interesse na leitura apenas para não ter que conversar comigo. Sentei no lado oposto da mesa e coloquei grandes garfadas em minha boca. havia tirado o livro da mesa e eu pude ver que era um dos livros da trilogia O Senhor dos Anéis. Eu havia lido aquele livro quando era mais novo, ou pelo menos havia tentado ler o primeiro, sem muito sucesso. Preferia livros rápidos, descrição demais apenas me deixava entediado e desinteressado. Não que eu lesse muito, especialmente depois que havia saído da adolescência, vez ou outra algum livro policial ou de terror capturava minha atenção e eu conseguia devorá-lo em poucos dias. colocou o livro na mesa novamente e me olhou, arqueando uma das sobrancelhas. Ela talvez não fizesse ideia do quão sexy ela ficava com aquela expressão, mas enquanto eu a encarava tudo que eu conseguia pensar envolvia nós dois e nenhuma roupa.
- Que foi? – Perguntei, olhando para o que restava dos ovos mexidos em meu prato.
- Você estava me encarando. – Explicou, colocando um marcador na página do livro e fechando-o.
- Não estava, não. – Ou estava? Eu nem sabia direito explicar se eu estava lendo o titulo do livro ou admirando sua extrema concentração.
- Eu gosto da sua tatuagem. – Falou, mudando completamente de assunto e me deixando um pouco desnorteado.
Por extinto, olhei para a tatuagem em meu bíceps, lembrando imediatamente do dia em que conheci Lissa e da sua reação ao saber o que a tatuagem significava.
- É uma cruz egípcia. – Falei, sem querer explicar o significado. pareceu se conformar com a resposta.
Antes que um de nós pudesse dizer mais alguma coisa, o pirralho banguela apareceu na cozinha. Antes de sentar no colo de , ele me lançou um sorriso, como se estivesse realmente feliz em me ver. Poucas pessoas haviam me lançado aquele sorriso, eu não era o tipo de pessoa que alegrava os outros com a minha presença.
Sem que nem mesmo a irmã perguntasse como havia sido a aula de violão, o pirralho já abriu a matraca e contou cada mínimo detalhe do que havia ocorrido. Eu perdi o interesse e, depois de dois minutos ouvindo-o falar, peguei meu celular e vi que havia uma chamada não atendida. Não reconheci o numero e por alguns segundos fiquei tentado a ligar de volta, mas assumi que se a pessoa quisesse mesmo falar comigo, tentaria de novo. ouvia com interesse o irmão contar coisas completamente sem importância. Ela provavelmente estava acostumada, o moleque era do tipo que falava mais do que podia e deveria.
Acenei vagamente para os irmãos à minha frente e saí da cozinha antes que meus ouvidos explodissem. Fui até o banheiro e me despi, sabendo que um banho seria a única forma de me despertar por completo. Quando saí do banheiro, usando apenas uma toalha enrolada na cintura, e Gabe não estavam mais lá. Tito ainda estava jogado no sofá, agora com um celular no ouvido, ele me olhou e, usando gestos, perguntou se estava tudo bem comigo. Balancei a cabeça positivamente e entrei em meu quarto, passando a mão em meu cabelo para secá-lo. Já vestido, deitei em minha cama e peguei um livro estúpido de receitas que Marcus havia me dado para ler, me senti como um adolescente estudando para uma prova do colégio.
Quando olhei do lado de fora da janela, o céu já estava escuro. Joguei a revista que estava lendo no chão do quarto - o livro de receitas não havia me prendido por muito tempo - e peguei o maço de cigarro no bolso da calça jeans que eu havia usado mais cedo.
- Ei, cara. – Dei de cara com Tito ao sair do quarto. – Estou indo em um bar no centro com uns amigos. Quer ir?
- Nah. Vou ficar por aqui hoje. – Dei alguns tapinhas em suas costas, agradecendo o convite e me despedi com um aceno.
Trabalhar cinco dias por semana na cozinha de um bar te faz querer ficar longe de qualquer pub durante o final de semana. Agradeci por não trabalhar aos sábados e domingos, apesar de serem os dias em que o bar estava mais movimentado, meu chefe havia deixado claro que nesses dias dois chefs profissionais comandavam a cozinha. Marcus era o único que trabalhava aos sábados, talvez por isso ele se achasse o fodão nos dias de semana.
Do lado de fora da casa, acendi um cigarro, encostando-me em uma das pilastras e admirando o céu estrelado.
- Hey, estranho. – Uma voz feminina falou. Olhei para a casa ao lado, mas a cadeira onde geralmente sentava para ler estava vazia. Procurei por seu rosto no jardim e vi que ela estava deitada em uma enorme toalha estendida na grama.
- Achei que só o pirralho me chamasse assim. – Comentei, me aproximando de onde ela estava.
desviou o olhar do meu e olhou para o céu, um sorriso debochado tomou conta dos seus lábios. Fiquei ali, em pé ao lado dela me sentindo um pouco deslocado e sem saber se ela havia apenas me cumprimentado por educação ou se realmente queria a minha presença ali. Olhei de volta para minha casa escura, considerando voltar para dentro, mas então ela gesticulou com a mão deixando claro que eu podia dividir a toalha com ela.
Sentei ao seu lado apoiando os braços nos joelhos enquanto ela continuava absorta observando o céu com intensidade. Silenciosamente me perguntei o que havia acontecido para que tudo mudasse tão drasticamente. Até algumas semanas atrás ela parecia me odiar, mas agora sua atitude era amigável. Virei o meu rosto e a olhei, percebendo que seus olhos estavam perdidos nas estrelas que tomavam conta do céu naquela noite. Continuei fumando meu cigarro, sem me importar em perguntar se ela se incomodava com o cheiro ou a fumaça.
- Garoto-problema. – Ela falou, de repente.
agora estava com o rosto estava virado para mim e o reflexo das luzes de sua casa em seus olhos me deixou desconfortável.
- Era assim que eu te chamava logo quando você se mudou. – Esclareceu.
Não precisei perguntar o motivo do apelido, ela não era a primeira a pensar que eu trazia comigo um monte de problemas. E nenhuma das pessoas que me chamava dessa forma estava errada. Eu tinha sim problemas, muitos deles, alguns eu havia deixado para trás, outros ainda levava comigo para onde quer que eu fosse. Caímos em um silêncio agradável, apenas o som de cigarras e outros insetos inundavam a noite e quebravam o silêncio da rua.
- Qual a sua história? – Perguntei.
- Ahn? – me olhou, confusa.
- A sua história. Você sabe, de onde você veio, como parou aqui... Essas coisas.
Ela hesitou um pouco antes de responder, mas quando o fez seus olhos revelaram a sinceridade de suas palavras.
- Eu e Gabe perdemos nossos pais há três anos em um acidente de carro. Costumávamos morar em um bairro um pouco distante daqui. Essa casa – Ela apontou para trás, indicando sua casa. – é do meu avô, foi ele quem nos ajudou com tudo depois do acidente.
pausou por alguns segundos, como se estivesse revivendo tudo em sua mente. Seu rosto não revelou nenhum tipo de dor, mas seu corpo se mexeu desconfortavelmente e, como consequência, moveu-se para mais próximo do meu.
- Na época, eu havia acabado de entrar para a Universidade de St Andrews. Eu tinha tantos planos em minha mente, mesmo faltando meses para as aulas começarem, eu já estava começando a arrumar as malas. Estudar na Escócia sempre havia sido meu sonho, estava em meus planos desde que eu me lembro por gente. – Ela soltou um suspiro cansado, como se aquelas memórias fossem um fardo pesado demais para ela. – Parece que o destino não estava muito satisfeito com meus planos, já que tive que trocar a universidade pela responsabilidade de criar o Gabe.
Virei-me novamente para encará-la e vi uma lágrima silenciosa descer por seu rosto. Instintivamente minha mão se moveu para limpar a lágrima, mas antes que pudesse tocar seu rosto, fingi que queria apenas coçar meu queixo e apoiei meu braço em meu peito, deixando que a lágrima fizesse seu caminho até a toalha em que estávamos, agora deitados lado a lado.
Alguns minutos de silêncio se passaram. Eu ouvia fungar e mexer os braços, como se estivesse enxugando o rosto, mas não ousei desviar meus olhos do céu novamente. Eu já havia visto garotas chorarem antes, muitas delas, mas o sentimento que tomava conta de mim ao ouvir a dor na voz da garota ao meu lado era novo e completamente estranho. Eu só queria puxá-la para perto de mim e confortá-la, acalmar sua dor com a minha.
- Por algum tempo depois do acidente a minha vida foi uma merda. – voltou a falar. – Eu estava completamente perdida, tudo ao meu redor era apenas um borrão. Era como se eu também tivesse morrido no acidente. O único momento em que eu me sentia viva era quando estava no banheiro, colocando para fora qualquer comida que eu havia ingerido.
Finalmente, depois de tomar coragem, me virei para encarar seu rosto. Seus olhos estavam fechados e o rosto, apesar de suas tentativas, estava molhado. Era possível ver os rastros que as lágrimas deixaram ao cair de seus olhos.
- Então eu percebi que Gabe, com seus 5 anos, estava sendo mais forte do que eu. – Ela riu, sem qualquer emoção. – Eu me senti patética.
abriu os olhos e me encarou, como se soubesse que eu já estivesse a olhando.
- E antes disso? – Perguntei, percebendo que ela havia parado de falar novamente. – Como você era?
Vi um sorriso aparecer em seus lábios, ela suspirou, fechando os olhos por alguns instantes e, ao abri-los, me encarou, me fazendo perceber que eles brilhavam, talvez por causa da excitação das lembranças de sua adolescência. Sorri de volta, encorajando-a a falar mais.
- Eu era livre. – Respondeu com simplicidade.
- Aluna estudiosa, sentava na primeira fileira, estudava nos fins de semana... – Assumi, arrancando uma risada nasalada de .
- Aluna que só conversava, sentava nas últimas fileiras junto com meu grupo da bagunça e nos fins de semana mal ficava em casa.
Foi a minha vez de rir, sem acreditar nas palavras dela. Uma garota como ela não poderia ter sido uma aluna-problema. Como ela havia passado em uma universidade tão concorrida?
- Os professores me odiavam por eu bagunçar tanto e ainda assim ter notas tão boas. – Respondeu, como se tivesse ouvido a minha pergunta. – Acho que as matérias sempre entraram com facilidade em minha cabeça. – Deu de ombros. – Eu não precisava me esforçar muito para ir bem em alguma prova e isso intrigava não só aos professores, mas aos meus amigos também.
Enquanto eu acendia outro cigarro, ela me olhou.
- Sua vez agora. Qual a sua história?
Traguei o cigarro algumas vezes, pensando na minha própria história. Poucas pessoas, na verdade provavelmente apenas Tito e a minha família, sabiam a minha história e o que eu já havia passado.
Virei meu rosto e me deparei com o rosto de mais próximo do que eu imaginava. O sorriso encorajador em seus lábios me dizia que eu podia confiar nela, que de alguma forma meus segredos estariam bem guardados e protegidos. Nossa proximidade me confortava e eu percebi que não tinha receio algum em me abrir para ela. Então eu contei a minha história.
Se em algum momento ficou entediada ou se arrependeu de ter me perguntado aquilo, ela não demonstrou. Por vezes seus olhos pareciam perdidos novamente nas estrelas, mas então ela me olhava e sorria, seus olhos não pareciam esconder suas emoções e deixavam claro que ela estava prestando atenção em tudo que eu falava, e o jeito com que ela se movia quietamente, fazendo com que nossos braços se roçassem, me confortava de alguma maneira inexplicável. Quando contei sobre o ano em que fiquei preso, ela me lançou um olhar compreensivo, não vi nenhum traço de pena ou de medo, ela não pareceu querer sair correndo de mim e se proteger do traficante de drogas e seus problemas. A cada palavra, eu sentia um peso sair do meu peito, como se guardar tudo aquilo estivesse me fazendo mal e finalmente poder falar abertamente com alguém estivesse me curando aos poucos.
Não sei ao certo por quanto tempo eu falei, mas ao chegar ao final e contar como havia chegado até a casa de Tito, meus lábios estavam secos e minha garganta doía um pouco. Lembrei-me de como ouviu atentamente enquanto Gabe contava sobre a aula de violão e assumi que ela estava acostumada a ter alguém sempre falando demais ao seu lado. Minha mente ainda vagava pelas memórias de minha infância e adolescência, as estrelas no céu começavam a serem cobertas por nuvens e meu corpo parecia completamente entorpecido. Então eu senti os dedos de traçarem lentamente o caminho da ponta do meu dedo até o meu pulso. Talvez ela nem estivesse consciente do que estava fazendo, mas eu desejei que ela não parasse, porque o calor que invadia meu corpo naquele momento era tão agradável e bem-vindo que acalmava minha mente e me fazia esquecer os problemas que pareciam me cercar.
Quando todas as estrelas no céu pareceram desaparecer, eu soube que era hora de voltar para a realidade. me olhou, demonstrando que pensava da mesma forma. Apesar disso, nenhum de nós teve coragem de se mover, nossos olhares estavam presos um no outro, num pedido mudo para que aquela noite não acabasse. Um barulho de trovão fez com que fechasse os olhos e se encolhesse. Suspirei, sabendo que se eu não me levantasse naquele momento, não seria mais capaz de sair dali.
Sentei, sentindo um pouco de tontura por ter sido muito rápido e, alguns segundos depois, fez o mesmo. Ela abraçou os joelhos e deitou a cabeça sobre eles, me olhando atentamente. Fingi estar distraído, esticando um pouco a toalha, simplesmente porque eu sabia que se a olhasse iria querer deitar novamente e começar tudo de novo.
- Obrigada. – Ela falou finalmente.
Por alguns segundos a encarei, descobrindo que ela não estava só grata por eu ter ouvido sua história, ela estava grata por eu ter compartilhado a minha. Sorri, colocando minha mão em seu pescoço e beijando sua testa, um beijo mais longo do que eu pretendia. Seu cheiro doce me invadiu sem aviso, fazendo com que um nó se formasse em minha garganta e meu estômago revirasse dolorosamente, mas não de uma forma ruim, apenas de uma forma diferente.
- Boa noite. – Sussurrei enquanto me levantava e me afastava lentamente, sentindo o frio finalmente me atingir e meu corpo protestar por não ter mais o calor do corpo dela próximo ao meu.

07 - Ela

- Vamos logo, . – Gabe reclamou já na porta de casa e com a mão na maçaneta.
Saí do banheiro passando a mão pela trança desajeitada que eu havia feito e sorri para ele. Sua animação era clara, não só por causa da sua ansiedade, mas o sorriso que não saia de sua boca desde acordara.
- Já vamos, meu amorzinho.
Colocando a bolsa em meu ombro, eu corri para encontrá-lo já do lado de fora de casa. Um de seus pés estava inquieto batendo no chão apressadamente e demonstrando sua impaciência. Eu queria rir da cena, mas ele pensaria que eu estava rindo dele e se tem algo que Gabe não gosta é de quando as pessoas riem dele.
- Ben já deve estar nos esperando. – Falou.
Peguei sua mão na minha e caminhamos em direção ao início da rua.
Ben havia nos convidado para tomar café da manhã na padaria favorita do meu irmão. Se havia um jeito fácil de deixar Gabe bem humorado o dia inteiro era só levá-lo para tomar café da manhã. Pontos extras se fosse em sua padaria favorita. Ben sabia muito bem como agradá-lo.
Ouvi passos atrás de mim e segundos depois surgiu em minha frente com um cigarro na boca e um sorriso sacana no rosto.
- Tem isqueiro?
Dei uma risada sem emoção e empurrando-o para o lado, tirei da minha frente. Ele não pareceu se incomodar com a indelicadeza e continuou caminhando ao meu lado enquanto acendia o cigarro.
- sempre diz que cigarro faz mal. – Gabe falou olhando de mim para .
- é uma pessoa muito sábia. – meu vizinho respondeu, mas pelo seu tom eu sabia que tinha ironia naquela frase.
Depois de e Gabe conversarem sobre outra possível partida de futebol, o que me deixava apavorada já que a última havia acabado com Gabe na emergência, caminhamos em silêncio. parecia estar indo na mesma direção que estávamos indo e, portanto, permaneceu ao meu lado na calçada. Vez ou outro nossos braços se tocavam e eu sentia arrepios descerem por minha espinha e meu rosto esquentar com a tensão que eu tentava não demonstrar.
Quando entramos na padaria, percebi que fez o mesmo e o olhei indagando se era ali mesmo que ele ia ou estava apenas nos seguindo, mas o pensamento pareceu idiota demais e eu resolvi o ignorar e ir ao encontro de Ben.
- Bom dia, meu amor. – meu namorado me cumprimentou com um selinho depois de fazer o aperto de mão secreto com Gabe.
Sorri sentando entre Ben e meu irmão e pegando o cardápio do café da manhã que estava em cima da mesa, só então percebendo o quão faminta estava.
Uma garçonete veio até a nossa mesa e fizemos os pedidos. Enquanto Gabe e Ben conversavam sobre um programa de televisão que ambos gostavam, eu aproveitei para olhar rapidamente para o balcão onde estava distraído olhando o celular. Seu cabelo ondulado caia sobre seus olhos, mas ele não parecia se incomodar.
- Não é, ? – Ouvi Gabe comentar animado.
Fingi estar distraída olhando os cartazes que ficavam acima do balcão e voltei a minha atenção para a nossa mesa, sorrindo para meu irmão e concordando, mesmo sem fazer a menor ideia do que eles estavam discutindo.
Agradeci mentalmente quando a garçonete trouxe os nossos pedidos e voltei a minha atenção completamente para o delicioso sanduiche em minha frente.
- Senta com a gente! – ouvi Gabe dizer olhando para alguém que passava por nossa mesa.
Quase engasguei ao constatar que, óbvio, ele estava falando com .
- Gabe! O pode sentar onde ele quiser. – o reprimi com o olhar, mas ele nem pareceu ligar.
Meu vizinho pareceu hesitar por alguns segundos olhando de mim para Ben, mas então sorriu divertido e sentou na cadeira em frente a minha.
Gabe exibia um sorriso satisfeito de quem achava que estava fazendo uma boa ação. Senti Ben ao meu lado ficar um pouco tenso com a intimidade com que bagunçou o cabelo de Gabe e sorriu para ele. Só então lembrei que eles ainda não se conheciam.
- Hm, Ben, esse é o , nosso vizinho. – Tentei sorrir, sem sucesso. – , o Ben é meu namorado.
- Ah, o famoso ! Prazer. – Ben estendeu a mão por cima da mesa, agora um pouco mais relaxado. Claro que Gabe já havia contado tudo sobre o nosso vizinho, especialmente depois do acidente. – O Gabe me contou tudo sobre como você quebrou o nariz dele.
Pelo sorriso convencido de Ben, eu sabia que aquela fora uma tentativa de destratar meu vizinho. Senti a única mordida que eu havia dado no sanduiche revirar em meu estômago. Olhei feio para Ben e cutuquei sua perna por debaixo da mesa. Aquele comentário havia sido desnecessário.
- Eu também falei que você joga muito bem. – Gabe comentou de forma inocente. Mesmo sem saber, ele havia defendido e pelo jeito que Ben o olhou era óbvio que não havia ficado feliz.
Cruzei as pernas debaixo da mesa, sentindo-me completamente embaraçada por aquela situação e brinquei com o canudo em meu copo de suco.
- Vocês dois namoram há muito tempo? – perguntou entre uma garfada e outra.
Seus olhos estavam fixos em seu prato e o seu tom de voz demonstrava indiferença.
Colocando um braço sobre meus ombros, Ben sorriu radiante.
- Uns três anos. – afirmou. – De onde você é?
- De longe. – respondeu sem emoção e deixando claro que não estava receptivo a outras perguntas.
Percebi que Ben o olhava com atenção e torci para que não insistisse no assunto ou fizesse mais perguntas ao meu vizinho.
Depois de alguns minutos que mais pareceram horas, se levantou e se despediu de nós rapidamente, parecendo ansioso para sair logo dali. Quando o vi sair da padaria, dei um suspiro aliviado que deve ter sido mais alto do que eu pretendia já que Ben me olhou com estranheza.
Peguei meu sanduiche novamente no prato e voltei a comer, mas logo percebi que a minha fome havia ido embora e a cada mordida meu estômago embrulhava mais. O silêncio e a apreensão entre mim e Ben era quase palpável. Apesar de ele não demonstrar estar incomodado, eu sabia que aquele encontro não havia sido amigável.
Ben definitivamente nunca fora um namorado muito ciumento. Ele era protetor, mas não de uma forma dominadora ou invasiva. Construímos nosso relacionamento com base na confiança e respeito mútuo e por isso nos dávamos tão bem.
Terminamos o café da manhã ainda sem trocarmos muitas palavras. Gabe, alheio a tudo que havia acontecido, era o único que falava sem parar. Quando nos levantamos para irmos embora, Ben pegou minha mão na sua e entrelaçou nossos dedos antes de beijar minha bochecha carinhosamente, demonstrando que, ao contrário do que parecia, estava tudo bem. Mas eu sabia que não estava.
Apesar de morarmos tão perto da padaria, voltamos para casa no carro de Ben. Uma de suas mãos estava no volante e a outra em minha perna fazendo carinho, um gesto que ele sabia que eu gostava e se repetia quase todas as vezes em que estávamos no carro.
Em casa, Gabe pediu para assistir um dos programas que havia gravado durante a semana e eu concordei sabendo que ele já havia feito as tarefas da escola e que só precisava finalizar um livro para uma de suas aulas. Fui até a cozinha e senti Ben logo atrás de mim.
- Esse , - ele começou, apoiando a mão no balcão enquanto eu fingia procurar por algo na geladeira. – ele é diferente do que eu imaginava.
Fechei a porta da geladeira e o olhei com curiosidade.
- O que você imaginava?
Ben deu de ombros e olhou para a casa ao lado pela janela da cozinha. Esperei ele falar mais alguma coisa, mas ele parecia absorto em seus próprios pensamentos.
Encostei no balcão ao seu lado e mexi na barra de sua jaqueta jeans, chamando sua atenção de volta para mim. Sorri quando ele me olhou e ficou na minha frente, apoiando as duas mãos no balcão e me deixando presa entre seus braços. O abracei pela cintura e ele fez o mesmo, seus lábios beijando minha testa, minha têmpora e depois minha boca. Antes que ele pudesse aprofundar o beijo, eu o afastei, apontando para Gabe no sofá entretido com a televisão.
Ben suspirou. – Sinto sua falta. – Sussurrou em meu ouvido.
Mordi meu lábio inferior e balancei a cabeça entendendo o que ele queria dizer.
- Eu sei. – Beijei seu pescoço carinhosamente e ele me apertou contra si.
Senti uma de suas mãos descerem até a minha coxa e depois irem até a minha bunda enquanto seus lábios passeavam por minha mandíbula e depois meu pescoço.
- Benjamin. – Meu tom de repreensão fez com que ele soltasse uma risada nasalada.
- Certo, certo. – Brincou, levantando as mãos e depois me roubando um selinho.
- Por que não me conta da visita dos seus pais? – Indaguei.
Os pais de Ben moravam em uma cidade distante e raramente vinham visitar o filho. Normalmente era Benjamin quem viaja para vê-los já que depois de se aposentarem, eles resolveram investir em viagens e estavam sempre em um lugar diferente do mundo.
- Foi uma visita rápida. – Ben comentou brincando com a ponta da minha trança.
- É? Para onde eles estão indo agora?
Ben sorriu. – Para a Espanha.
- Hmm.
Eu sabia o que vinha a seguir e a perspectiva daquela conversa fazia minha cabeça doer.
- Eles ficaram até animados com a possibilidade de morarmos lá. – ele comentou casualmente.
Ri com incredulidade e levei minhas mãos até meu rosto respirando fundo antes de olhar para meu namorado.
- Ben, isso não é uma possibilidade. Já conversamos sobre isso.
Lembrei da última conversa que tivemos, já há muito tempo, sobre o assunto e como acabamos tendo uma discussão desagradável. Tudo porque ele insistia nesse delírio de me levar com ele em uma aventura que eu sabia que era seu sonho, mas que estava completamente fora de cogitação para mim.
- , você nunca nem tenta ouvir meu lado. – Benjamin reclamou.
Afastei-me dele e dei a volta na mesa, parando de frente para ele novamente.
- Eu já ouvi o seu lado, assim como você já ouviu o meu e parece ignorá-lo.
Olhei para Gabe que parecia ainda absorto demais no programa na tv para notarmos a discussão na cozinha. Apesar de estarmos conversando quase aos sussurros, era difícil manter o tom de voz daquela forma quando a irritação começava a tomar conta de mim e, claramente, do meu namorado também.
- Toda vez que eu tento conversar, você me corta ou me ignora. Por que não...
- Ben. – o interrompi suspirando.
- Está vendo? – Ele acusou.
Sorri sem emoção e balancei a cabeça. Por que aquele assunto tinha que vir a tona novamente? E por que era tão difícil para ele entender que mudar para a Espanha definitivamente não estava em meus planos futuros?
- Eu entendo que você acha que tem essa vida toda planejada por aqui, mas só por isso não podemos mexer um pouco nos planos?
Ben se aproximou novamente de mim e me puxou pela mão.
- Não consegue mesmo imaginar nossa vida em Sevilha? Sabia que é uma das 7 melhores cidades para se viver na Espanha? E que eles tem 300 dias de sol por ano?
Ri dos seus fatos aleatórios e que para outras pessoas poderiam ser totalmente convincentes, mas que pouco me abalavam.
- Aposto que o Gabe adoraria saber disso. – Comentou, fazendo menção de ir até Gabe.
- Ben, não. – Segurei sua mão e o olhei com severidade.
A última coisa que eu precisava era Ben enchendo a cabeça de Gabe de ideias e sonhos que simplesmente não tinham chance de acontecer.
- Você tem medo que ele goste da ideia e você fique sem argumentos, não é? – O tom acusatório de Benjamin fez com que eu soltasse sua mão.
- Você está cansado de saber que não é só por causa do Gabe. Tem meu avô também, eu e Gabe somos a única família que ele ainda tem. Fora que eu nem sei falar espanhol, como conseguiria um emprego?
Ben deu de ombros. – Você não precisaria arrumar um emprego assim que chegarmos, pode tirar um tempo para aprender a língua, sabe que eu tenho condições de sustentar nós três.
Escondi meu rosto em minhas mãos novamente e contei até cinco mentalmente. Quando abri os olhos, Ben me encarava esperando uma resposta.
- Se for para continuar com essa conversa, eu prefiro que você vá embora, Ben.
A franqueza em minhas palavras o atingiu duramente. Ele balançou a cabeça e soltou um suspiro cansado.
- Que seja, .
Antes de sair de casa ele se despediu rapidamente de Gabe, deixando-me sozinha na cozinha com minha cabeça a mil.
- Está tudo bem, ? – Gabe me olhou com apreensão.
Sorri tranquilizando-o e caminhei até ele beijando seus cabelos.
- Tudo bem, amorzinho. Pode assistir mais um episódio e depois tenta terminar aquele livro para a sua aula de História, tá bom? Mais tarde tem a aula de violão com o Tito.
Gabe balançou a cabeça concordando com animação e voltou a atenção para a televisão.

***


Depois de colocar Gabe na cama e ler alguns livros para ele, passei em meu quarto e peguei o livro que eu havia começado há alguns dias e uma enorme toalha de piquenique. A noite estava agradável e o céu cheio de estrelas, o cenário ideal para eu finalmente terminar aquele livro.
Não consegui ler nem um capítulo inteiro quando fui distraída pelo barulho da porta fechando na casa vizinha. Olhei a tempo de ver com um cigarro na boca e recostado em uma pilastra. Sua expressão era calma e ele mantinha uma das mãos na calça de moletom que usava. Coloquei o livro ao meu lado na toalha e antes que pudesse pensar muito ouvi minha própria voz.
- Hey, estranho.
Demorou alguns segundos até que me visse ali no meio do gramado. Quando me localizou, ele caminhou lentamente até onde eu estava.
- Achei que só o pirralho me chamasse assim. – Comentou.
Voltei meu olhar para o céu estrelado e sorri, lembrando que aquele era realmente o apelido que Gabe havia lhe dado. O meu era bem diferente, mas eu não tinha certeza se queria revelar para .
Notei que permaneceu em pé ao lado da toalha, seu jeito desconcertado demonstrando que ele não sabia bem se era bem vindo ali. Lembrei da forma como ele me olhara naquela tarde enquanto esperávamos Gabe terminar a aula de violão, a intensidade em seu olhar por vezes me deixava sem reação. Finalmente gesticulei em direção a toalha, deixando claro que ele podia sentar ali também se quisesse e assim ele o fez.
Apesar de o cheiro do cigarro me incomodar, não falei nada. Senti seu olhar em cima de mim, mas não ousei tirar meus olhos das estrelas no céu.
- Garoto-problema. – Confessei de uma vez.
Virei-me para olhá-lo e ele parecia confuso.
- Era assim que eu te chamava logo quando você se mudou.
não pareceu se incomodar com o apelido. Enquanto apreciávamos o silêncio a nossa volta, ele continuou a fumar e eu me concentrei em apreciar o barulho da natureza.
- Qual a sua história? – perguntou depois de alguns minutos.
- Ahn? – O olhei sem entender.
- A sua história. Você sabe, de onde você veio, como parou aqui... Essas coisas.
Fiquei um pouco desconfortável a princípio, mas seus olhos, agora banhados pela luz de minha varanda e parecendo mais claros do que já os tinha visto, revelavam que aquela conversa seria só nossa.
Então eu decidi contar a minha história. Contei sobre a minha vida antes da morte dos meus pais, sobre o acidente e sobre como havíamos ido parar naquele bairro, morando na casa que era dos meus avós.
Claro que derramar algumas lágrimas foi inevitável. A falta que os meus pais faziam era algo que eu jamais superaria. A vida havia me ensinado a lidar com a dor da perda, mas a emoção que eu sentia ao lembrar deles era implacável. Toda vez um misto de saudade e aflição se abatia sobre mim.
Percebi que ouvia tudo com atenção. Seu olhar às vezes perdido nas estrelas no céu e outras me encarando com atenção. Ele deixou que eu chorasse baixinho, seu silêncio demonstrando respeito a minha dor.
Quando contei sobre a minha vida escolar, ele pareceu surpreso ao descobrir que eu não era uma aluna exemplar, mas era assim que a maioria das pessoas reagia, então não me importei. Sabia que vendo a minha vida agora era fácil assumir que eu tinha um determinado comportamento na adolescência.
Quando minha história chegou ao fim, ele acendeu outro cigarro.
- Sua vez. – comentei. – Qual a sua história?
hesitou por alguns segundos, pela sua expressão assumi que sua cabeça trabalhava a mil tentando decidir se ele deveria mesmo me contar sua história de vida.
Aproximei nossos corpos e o olhei com intensidade tentando lhe passar mais segurança, assim como ele havia feito comigo, intencionalmente ou não. Quando ele virou o rosto para mim eu sorri, confiante.
- Eu cresci em um bairro distante daqui. Apesar de ser parecido com esse, ele é completamente diferente.
Eu ri da comparação e ele sorriu de volta.
- Eu quero dizer que para de fora eles podem parecer similares, mas só quem vive a realidade lá de dentro sabe que eles não poderiam ser mais diferentes. Eu cresci sem um pai, fui criado por uma mãe alcoólatra e com um irmão que desde cedo se envolveu com o tráfico. Por lá, tiros e toques de recolher são parte da rotina.
soltou um suspiro pesado, demonstrando que aquele não era um assunto fácil para ele. Antes de continuar deu mais um trago no cigarro.
- Eu sempre tentei me manter distante dessa vida, sabia que não era o que eu queria para mim. O único exemplo bom que tive na vida foi meu avô. Ele era um chefe de cozinha bem sucedido e eu o admirava mais que tudo.
Um sorriso inocente tomou conta de seu rosto e eu não pude evitar sorrir junto. não parecia ser o tipo de pessoa que se abria para qualquer um, então tentei absorver suas palavras para guarda-las apenas em minha memória.
- Ele me ensinou tudo que eu sei hoje, mas ele faleceu cedo demais. – Comentou, referindo-se ao avô. – Não era fácil me manter longe do tráfico, ainda mais com Nico, meu irmão, constantemente tentando me levar para sua gangue.
- Isso é tudo tão distante da minha realidade que parece até um roteiro de filme. – Comentei.
deu uma gargalhada alta e eu senti meu rosto esquentar um pouco, envergonhada por parecer a garota riquinha que vive em uma realidade completamente distante.
- Acho que minha vida não é interessante o bastante para um filme. – ele comentou.
- Com certeza é mais interessante que a minha vida de garota branca da classe média. – Brinquei.
- Eu estava levando uma vida relativamente normal. – continuou. – Escola, garotas, festas, mas uma parte de mim sempre teve certeza de que o meu destino não seria muito diferente que o do meu irmão. Cheguei a trabalhar em um restaurante popular e Phill, meu antigo chefe, me ajudava a manter distância das drogas. Na época, o Tito também já era meu colega e ver alguém com uma vida familiar mais merda que a minha conseguir manter distância daquilo tudo me ajudava.
- Quando vocês se conheceram? – Perguntei curiosa.
Apesar de ser vizinha de Tito há algum tempo e de termos uma relação de amizade, eu pouco sabia sobre sua vida. Ele nunca comentara nada sobre seu passado e eu nunca senti necessidade de perguntar.
- No ensino médio. – respondeu. – Mas ele fugiu de casa antes de terminar os estudos.
Apesar de, até aquele momento, não saber o motivo, Tito havia me contado certa vez que havia saído de casa antes de terminar a escola. Na época não consegui imaginar um motivo para largar os estudos, agora entendia perfeitamente.
- Tudo mudou quando Nico finalmente me convenceu a vender algumas drogas em uma festa. Eu estava precisando de uma grana e ele me garantiu que seria algo rápido e não existia a possibilidade de eu ser pego.
parou de falar de repente e seu olhar estava perdido, provavelmente vendo um filme passar diante de seus olhos. Esperei em silêncio ele aos poucos parecer voltar para a realidade. Antes de continuar ele me olhou e eu o encarei de volta oferecendo um sorriso encorajador.
- Era uma festa de faculdade, pessoas com dinheiro. Quando descobriram que eu estava com as drogas virei o convidado de honra da festa. Consegui até curtir um pouco, mas então a polícia invadiu e eu não tive tempo de me livrar da droga em meus bolsos.
- Cocaína? – Indaguei.
balanou a cabeça.
- Anfetamina.
Concordei fazendo uma nota mental para procurar mais sobre a droga. Lembrava de já ter lido sobre mulheres que tomavam para emagrecer e sobre ela ser proibida em muitos países, mas só isso.
Enquanto relatava o ano em que ficara preso, eu ouvia atentamente. Sem nem mesmo perceber eu me aproximava dele, absorta em seu relato e absorvendo cada uma de suas palavras.
Ele contava de um jeito pesaroso e eu não conseguia nem imaginar tudo que ele sofrera na prisão, ainda mais sozinho.
- Então aquela primeira vez que nos vimos e você pediu informação sobre a casa de Tito, você tinha acabado de sair da prisão?
negou. – Eu havia saído na tarde do dia anterior. O número de Tito era o único que eu sabia de cor, além do de Nico, claro.
Deixamos que o silêncio recaísse sobre nós novamente. Ambos provavelmente pensando sobre tudo que havíamos conversado. Notei o quão próximos estávamos agora, diferente do início da conversa quando estávamos um em cada ponta da toalha.
Olhei rapidamente para os nossos braços e mãos quase colados um no outro e meus dedos traçaram o caminho da mão de , desde a ponta do seu dedo indicador até o seu pulso. Se eu não estivesse tão perto dele, talvez não tivesse notado o sorriso no cantinho de sua boca.
Uma rápida olhada para o céu revelou que era hora de acabar com a nossa bolha de realidade fora da realidade.
O olhar de encontrou o meu e eu senti toda a vontade de estourar a bolha se esvair rapidamente. Estava claro como um cristal que ele também não estava disposto a ir embora. Por alguns segundos permanecemos assim, perto demais e absortos demais em nosso próprio mundo.
Um trovão fez com que eu me encolhesse e finalmente a bolha foi rompida.
Em um movimento rápido se sentou e eu fiz o mesmo. Abracei meus joelhos e encostei a cabeça neles, observando meu vizinho ao meu lado. Apesar de ele não estar me olhando, sorri.
- Obrigada. – Sussurrei.
me fitou por alguns segundos e um sorriso sincero tomou conta do seu rosto. Com uma mão em meu pescoço ele beijou a minha testa, seus lábios quentes em minha pele fria fez meu sangue ferver e meus batimentos acelerarem de forma descompassada.
- Boa noite. – sussurrou de volta se levantando e caminhando lentamente de volta para sua casa.
Permaneci sentada ali por alguns minutos, minha mente ainda tentando processar tudo que havia acontecido. Quando um pingo grosso de água caiu em minha cabeça, eu me dei conta que tinha apenas alguns segundos até a chuva cair com força. Recolhi meu livro e a toalha e voltei para casa.
Antes de dormir, me dei conta de que a briga com Ben que eu passei o dia repassando em minha cabeça havia ficado em segundo plano. Talvez até em terceiro ou quarto.

08 - Ele

O meu plano para quarta-feira era apenas chegar em casa e comer a macarronada do dia anterior enquanto me distraia com series de terror na televisão, mas Tito havia me falado sobre um show que ele e alguns amigos músicos iriam fazer tocando músicas de rock dos anos 80 e 90 e eu não tive como recusar o convite.
Depois de chegar do trabalho e tomar um banho rápido - apenas para tirar o cheiro de comida do corpo, chequei a mensagem que Tito havia mandado mais cedo com a localização do bar onde ele iria tocar. Senti um calafrio ao perceber que o bairro não era muito longe de onde eu cresci. Eu não conhecia muito bem a região, mas esperava que não fosse perto o suficiente para encontrar pessoas indesejadas.
Segui para o ponto de ônibus com a cabeça a mil. Desde que saíra da prisão, eu não havia chegado próximo ao meu antigo bairro e eu não conseguia imaginar o que aconteceria caso eu decidisse voltar lá, o que eu esperava que não acontecesse tão cedo. Ou, melhor ainda, nunca.
No caminho até lá, eu tentava me distrair da tensão que sentia em meus ombros. Quanto mais me aproximava da parte da cidade onde eu havia crescido, mas que agora morava tão longe, mais desconfortável eu ficava. Não conseguia evitar olhar para todos que entravam no ônibus, a possibilidade de ver alguma pessoa da minha infância ou pior, amigos de Nico fazia meu estômago embrulhar.
O ponto onde desci ficava a dois quarteirões de distância do meu destino. Caminhei apressado, mas me sentindo idiota por estar tão apreensivo, ainda mais ao reparar na intensa movimentação da rua. Não pude evitar um suspiro de alívio ao avistar o letreiro com o nome do bar e ver a quantidade de pessoas que já se abarrotavam do lado de fora.
Imediatamente procurei por Gabriel, provavelmente um amigo de Tito que ele havia pedido que eu procurasse assim que chegasse. Ele era um cara baixinho, mas pelos músculos proeminentes que a camisa preta não conseguia encobrir, ficou evidente que ele conseguiria facilmente derrubar alguém duas vezes maior que ele.
- E aí, cara. – Ele me cumprimentou com dois tapinhas em minhas costas e me indicou o caminho pelo corredor estreito até chegarmos na parte espaçosa com um pequeno palco onde pude ver Tito e alguns amigos. Antes de ir até o seu encontro, fui até o bar e pedi uma cerveja.
- Deixa eu te apresentar para o pessoal. – Tito falou antes de apontar para os amigos.
- Tito falou que você manda bem no violão. – Um deles - talvez Kellan ou Kyle, não lembrava bem - comentou.
Dei de ombros. – Nah, arranho algumas musicas só.
- Quanta modéstia. – Tito brincou e riu antes de se virar para os amigos. – Ele toca muito bem, sim.
Por sorte, Gabriel apareceu mais uma vez e avisou que em cinco minutos eles poderiam começar.
Aproveitei a deixa para sair dali de fininho, desejando-lhes boa sorte e indo até um dos bancos vazios perto do bar. Antes mesmo que eles começassem a tocar, eu senti um par de olhos me vigiando e imediatamente entrei em estado de alerta novamente. Olhei ao redor, mas o lugar havia enchido rapidamente e eu não localizei ninguém que parecesse familiar ou estivesse prestando atenção em mim.
- Boa noite, pessoal. – A voz de um dos amigos de Tito soou do palco. Ele se apresentou e apresentou os outros 4 caras no palco antes de começarem a tocar um cover do U2.
Eu fiz o possível para tentar relaxar e curtir as músicas que eram tocadas. O repertório incluía covers das maiores bandas de rock, do Queen até Green Day, passando por Metallica, The Clash e várias outras bandas clássicas.
Apesar da sensação de estar sendo vigiado ter desaparecido, olhei ao redor algumas vezes apenas para me certificar de que só podia ser paranoia da minha cabeça.
Ao final do show o público no bar explodiu em aplausos e gritos. Tito e seus amigos agradeceram e se despediram antes de descer do palco e praticamente serem engolidos pelo público que estava por ali.
Fui até o bar pedir outra cerveja e do outro lado notei uma garota, seus grandes olhos castanhos me fitando com atenção. Ela estava entre dois caras, que eram pelo menos duas vezes o seu tamanho, mas não parecia prestar atenção na conversa. Sustentei seu olhar por alguns segundos, tentando lembrar se a conhecia de algum lugar, mas conclui que seu rosto definitivamente não era familiar.
Senti duas mãos em meus ombros e me virei, encontrando Kellan - eu havia prestado atenção quando ele se apresentou ao público antes do show - e Tito logo atrás dele. Sorri rapidamente e me virei mais uma vez, agora encontrando a mesma garota digitando furiosamente no celular. A tensão se espalhou por meu corpo e, por mais que eu dissesse para mim mesmo que aquilo não significava nada, uma parte de mim já tinha certeza que ela estava mandando mensagens para Nico.
Outros amigos de Tito chegaram falando alto e mais uma vez me distraindo. Tentei entrar na conversa algumas vezes, mas minha cabeça mal estava registrando o que eles falavam. Eu estava mais forçando um sorriso e alguns acenos com a cabeça do que qualquer coisa.
Afastei-me com a desculpa de que precisava ir ao banheiro e imediatamente meus olhos varreram o local, procurando o rosto da garota que já não estava mais próxima aos dois homens como anteriormente. Caminhei pelo lugar, prestando atenção aos rostos das pessoas e até recebendo alguns olhares estranhos. Quando eu estava quase desistindo e voltando para perto de Tito, eu a vi novamente. Rapidamente ela levantou o celular como se estivesse tirando uma foto minha e se virou em direção a saída. Levei um segundo para registrar o que havia acontecido antes de ir atrás dela. A adrenalina estava definitivamente me guiando naquele momento. Como o local estava cheio, chegar até a saída levou mais tempo do que eu esperava e a garota já não estava mais lá. Fui até a rua e olhei para os dois lados, mas nem sinal dela.
- Merda! – Falei alto, apoiando-me em um poste e recebendo alguns olhares curiosos.
No meu bolso o celular vibrou e eu o peguei rapidamente, vendo um numero desconhecido na tela.
- Alô?
Silêncio.
Apesar de eu conseguir ouvir uma respiração do outro lado da linha, nada foi dito. Fiquei com o celular no ouvido por alguns segundos antes de desligar.
Olhei em volta mais uma vez antes de voltar para dentro do bar, agora com a certeza de que ir até ali não fora uma boa ideia.
De volta na roda com Tito e seus amigos, eu fiz o possível para fingir que estava me divertindo apenas para não chatear ninguém, já que o show havia sido um sucesso e todos estavam muito animados. Sempre que me dirigiam a palavra eu fazia o possível para responder amigavelmente, mas a real era que a noite havia acabado para mim.
Algumas horas depois e com o bar já bem mais vazio, Tito virou para mim e perguntou se eu queria uma carona para casa ou iria ficar mais tempo lá. Levantei mais rápido do que pretendia, já me despedindo de todos e o acompanhando até o carro estacionado não muito distante da entrada do bar.
- Aconteceu alguma coisa, cara? Você parece um pouco tenso. – Tito comentou, já dentro do carro.
Soltei um suspiro pesado e contei para ele sobre a garota desconhecida e a ligação que recebi logo depois.
- Não consigo me livrar da sensação de que estou constantemente sendo vigiado. – Confessei.
Tito me olhou por alguns segundos e depois apertou meu ombro amigavelmente, parecendo incerto sobre o que falar.
- Acha mesmo que Nico faria algo contra o próprio irmão?
Dei de ombros. – Você o conhece, acha mesmo que ele não faria?
Apesar de não ter respondido, sua feição indicou que ele sabia que eu estava sendo realista.
Quando Tito girou a chave na ignição do carro, o veículo tossiu algumas vezes e desligou. Ao tentar de novo o carro fez a mesma coisa.
- Merda, de novo isso? – Tito reclamou.
- Ele já fez isso antes?
Tito balançou a cabeça concordando e saindo do carro. Abrimos o capô e com as lanternas dos celulares tentamos achar algum problema, mas não vimos nada aparente.
- Será que é a bateria? – Sugeri.
- Nah, a bateria é nova. Conhece algum mecânico?
Pensei por alguns segundos e então balancei a cabeça lentamente.
- Porco.
Tito demorou alguns segundos para reconhecer o apelido de um dos caras da nossa antiga vizinhança.
- Nando? Não, cara. É perto demais de lá.
Porco, ou Nando, era o mecânico do antigo bairro onde morávamos. Ele tinha uma oficina que, apesar de não ficar localizada no nosso bairro exatamente, era próxima demais.
Tirei o celular do bolso e digitei o nome da oficina dele. Sem pensar duas vezes eu cliquei no numero disponível. Apesar de já ser mais de uma da manhã, eu sabia que a oficina dele estava sempre aberta.
- Oficina do Nando. – Imediatamente reconheci a voz de Porco e olhei para Tito que rapidamente pegou o celular da minha mão.
Passei a mão pelo cabelo me sentindo um covarde imbecil.
Depois de alguns minutos, Tito me entregou o celular volta.
- Ele está vindo.
Enquanto esperávamos, sentamos na calçada observando o movimento na rua que, apesar do horário, ainda era grande devido aos estabelecimentos que se concentravam ali. Acendi um cigarro enquanto Tito se distraia com o celular. Não demorou muito para que um carro estacionasse logo atrás do de Tito.
- E aí, Porco. – Tito cumprimentou e Nando o puxou para um abraço.
- Quanto tempo, cara.
Levantei-me jogando a bituca do segundo cigarro no chão.
- ? – Nando falou, incerto. – Caralho, quando você saiu? – Perguntou, se referindo a minha saída da prisão.
- Há pouco tempo. – Respondi, apertando sua mão, mas depois ele também me puxou para um abraço amigável.
- Esse é Ligeiro, meu ajudante. – Porco comentou, apontando para um garoto atrás dele.
Apesar de não parecer ter muito mais que 16 anos, ele era alto, provavelmente quase 2 metros. Seu corpo era magrelo e sua cabeça estava coberta por um gorro preto. Ele fez um breve aceno para mim e Tito, mas eu reparei na forma como seu olhar demorou mais em mim antes de olhar para Porco que pareceu balançar a cabeça discretamente.
Porco e Ligeiro abriram novamente o capô do carro e, com a ajuda de lanternas, mexeram em algumas coisas. Depois de alguns minutos eles pediram que Tito entrasse no carro e tentasse ligar novamente. Quando ele girou a chave na ignição o carro rugiu e voltou a vida novamente.
- Não chamam esse aí de Ligeiro à toa. – Tito brincou.
Porco explicou rapidamente o que provavelmente havia acontecido, mas eu não prestei muita atenção. Apesar de estar escuro ali não foi difícil reparar no braço de Ligeiro onde uma tatuagem com o nome da gangue de Nico quase se escondia sob a manga puxada do moletom. Ele pareceu notar a direção do meu olhar e me encarou de volta até Porco chamá-lo e se despedir de nós.
- Ligeiro está na gangue. – Comentei quando já estávamos na rua de casa.
Tito não respondeu, mas vi a preocupação em seu olhar.
Em casa, tratei de tomar um banho quente para tentar me livrar da tensão, especialmente em meus ombros. Pensei nas milhares de possibilidades do que poderia acontecer em breve, mas nenhuma delas era favorável a mim. Tudo parecia estar desmoronando rápido demais.
Antes de dormir me certifiquei algumas vezes de que todas as portas e janelas estavam trancadas. A sensação de insegurança me fazia querer gritar de ódio, mas tive que me contentar com o silêncio dentro da casa que parecia ainda mais assustador que os barulhos do lado de fora.

09 - Ela

Com o final do inverno, eu percebi que a primavera seria muito diferente de tudo que eu esperava. Não era apenas a estação que havia mudado, eu não entendia bem o que havia acontecido, mas sabia que era algo relacionado à e sua presença, que desde a noite em que revelara sua história, havia se tornado constante. Gabe estava prestes a fazer 9 anos e sua aparência havia mudado mais do que eu, ou qualquer mãe que assiste seu filho crescer, gostaria. Em seu último corte de cabelo ele havia decidido que queria deixá-lo espetado, o problema é que como ele não tinha paciência para arrumá-lo, acabava que estava sempre uma bagunça. Suspeitei que isso também, de alguma forma, se relacionava ao nosso novo vizinho, com quem Gabe vinha tendo longas conversas e jogando futebol quase todos os finais de semana. Não bastasse o cabelo, agora ele também usava roupas que julgava estarem na moda. As calças estavam um pouco mais apertadas e as camisas sempre tinham desenhos estranhos e mensagens aleatórias.
Alguns dias haviam se passado desde que eu abrira meu coração para e ele fizera o mesmo, desde então vínhamos conversando bastante, talvez porque tivéssemos a mesma mania de sentar do lado de fora da casa durante a noite, o que nos aproximava e fazia com que, mesmo sem perceber, revelássemos nossos segredos um ao outro. Eu não sabia explicar por que ele, logo o garoto-problema, acabou se tornando uma pessoa tão agradável para se conversar. Bastava que ele se aproximasse e me olhasse com aqueles olhos que, ao contrário do que eu sempre julguei, podiam ser tão doces e tranquilizantes e eu já ia contando sobre o meu dia e dividindo minhas alegrias e preocupações. Tudo que eu sempre havia pensado sobre ele estava errado. Seu passado, assim como o meu, fizera com que uma barreira surgisse e criasse um lado dele não tão agradável.
Ben não havia dado notícias desde a nossa última briga, há uma semana. Não costumávamos brigar muito, depois de três anos de namoro estávamos mais acostumados a ter discussões que sempre acabavam em uma sessão de amassos no sofá. A última briga havia trazido a tona um assunto que eu já havia esquecido: o curso de especialização que ele queria fazer na Espanha depois de se formar. Não era a primeira briga que tínhamos sobre esse assunto, e provavelmente não seria a última, especialmente se ele continuasse insistindo para que eu fosse junto. Com ou sem o Gabe, morar na Espanha nunca esteve nos meus planos, Ben sabia disso, o que ele não sabia é que nem mesmo por ele eu estava disposta a mudar meus planos.
Meu celular tocou dentro da bolsa e eu corri para atender, prevendo que, se fosse Ben, eu acabaria me atrasando para levar Gabe na escola e, consequentemente, para chegar ao trabalho. O número de Joana, minha chefe, piscou na tela e eu atendi apressadamente. Joana podia não ser uma das melhores pessoas que eu conhecia, por vezes ela assumia uma personalidade arrogante, fazendo-me suspeitar que ela era bipolar, mas como chefe, eu não poderia reclamar. Meu trabalho não era fácil, por causa da equipe pequena do escritório, os trabalhos acabavam se acumulando, e eu, como secretária direta de Joana, acabava fazendo trabalhos que não eram meus e solucionando problemas fora da minha área. Apesar de ser escritora, Joana era uma mulher de poucas palavras, ela parecia querer economizá-las para seus livros. E foi usando pouquíssimas palavras que ela me disse que eu estava dispensada do trabalho naquele dia por causa de assuntos pessoais que ela precisava resolver. Antes que eu pudesse ao menos agradecer, ela desligou desejando-me um bom dia.
- Quem era? - Gabe entrou na sala, seu cabelo e roupas poderiam mudar, mas a curiosidade permanecia a mesma.
- Minha chefe. - Respondi, ainda um pouco confusa. - Aparentemente eu estou dispensada hoje.
- Oba! Posso passar o dia com você?
- Nem pensar. - Falei, firme. - Pega sua mochila que eu estou te esperando do lado de fora.
Antes de sair de casa, ouvi Gabe protestando, falando quão injusta a vida é por eu ter um dia de folga e ele não. O abracei de lado, enquanto caminhávamos em direção ao ponto de ônibus. Provavelmente por causa da proximidade de seu aniversário, Gabe havia me perguntado quando poderia ir sozinho para a escola, já que alguns de seus colegas já pegavam ônibus sozinhos. Eu não sabia se era bem verdade, já que só sabia de alguns de seus amigos que caminhavam sozinhos até a escola, mas isso era porque eles moravam próximos. Deixar Gabe pegar ônibus sozinho significava mais do que confiar nele, eu precisaria confiar nas outras pessoas, e eu não estava exatamente preparada para isso.
Deixei-o na escola e olhei ao redor, incerta sobre o que fazer em um dia de folga. Havia tanto tempo que eu não passava um dia inteiro sem trabalhar, que a sensação de liberdade em plena quinta-feira me deixou um pouco perdida. Lembrei-me de um relatório que eu teria que entregar na segunda e resolvi voltar pra casa. O quanto antes eu começasse, mais cedo eu terminaria e ficaria livre no final de semana. Antes de chegar em frente a minha casa, avistei sentado em frente à casa de Tito, por estar distraído com o violão na mão, ele não viu a minha aproximação.
- Você e o Tito vão formar uma banda? - Perguntei, vendo-o levantar o rosto e me olhar.
Seus olhos estavam apertados por causa do sol que brilhava forte, sorriu e apontou o lugar vazio ao seu lado para que eu me sentasse. Achei engraçado o fato de ele estar usando uma camisa em um dia que, comparado a um dia de inverno, estava quente.
- Então, a banda já tem nome?
- Nah. - Balançou a cabeça. - Não levo jeito pra isso. Sei dedilhar algumas coisas, mas nada comparado ao Tito.
- Que tipo de música você toca? - Apontei o violão.
Para minha surpresa, dedilhou uma das músicas da banda do meu avô. Controlei um riso e admirei a forma como ele tocava. Podia não ser nada demais comparado ao Tito, mas um pouco de prática e ele estaria lá. Se eu tentasse tocar, provavelmente quebraria uma ou duas cordas.
- Rock Mist, conhece?
- Hm, pode-se dizer que sim. - Ri, fazendo com que ele me olhasse, sem entender o motivo da risada. - O meu avô era vocalista e guitarrista da Rock Mist. - Expliquei, vendo seus olhos se arregalarem, tomados pela surpresa.
- Seu avô era vocalista da Rock Mist? - Repetiu, tentando confirmar se seus ouvidos não tinham entendido algo errado. Balancei a cabeça, concordando. - O seu avô, dono dessa casa? - apontou para a minha casa, e eu confirmei novamente.
Depois de alguns segundos de silêncio, em que eu acho que ele estava tentando absorver a informação, ele voltou a dedilhar o violão, fazendo com que a melodia da música soasse mais calma do que nos acordes de guitarra da banda. Sem aviso, começamos a cantar a música juntos, fazendo com que déssemos risada por causa da coincidência. Quando paramos de cantar revelei que aquela era a minha música favorita da Rock Mist, concordou e colocou o violão de lado.
- Você não deveria estar no trabalho?
- Deveria. - Assenti. - Mas minha chefe me deu o dia de folga. E você?
- Vou precisar trabalhar no sábado, então ganhei folga hoje.
Lembrei-me do relatório que eu deveria estar fazendo, mas a vontade de começar a fazê-lo havia fugido assim que vi sentado com o violão na mão. Eu não sabia explicar se tínhamos algum tipo de conexão, mas sempre que estávamos juntos, eu simplesmente perdia a vontade de fazer qualquer outra coisa, como se estar ali com ele fosse mais importante e o resto do mundo pudesse esperar. Se ele sentia o mesmo, eu não sabia, mas a verdade é que ele também não parecia disposto a ir a lugar algum naquele momento.
se levantou, pedindo que eu esperasse um segundo e entrou em casa. Apesar de não ter entendido muito bem o que ele queria, continuei sentada, esperando ele voltar.
- Vem comigo. - Falou, saindo de casa e pegando minha mão, me ajudando a levantar e me conduzindo até o carro de Tito.
- Para onde estamos indo? - Perguntei, quando ele entrou no carro.
Não houve uma resposta concreta para aquela pergunta, mas um largo sorriso tomou conta do seu rosto, o que fez com que eu relaxasse e aproveitasse o vento que entrava pela janela entreaberta e bagunçava meus cabelos. Dirigimos por mais de trinta minutos, até estacionar na beira da estrada, um lugar um tanto quanto deserto. Olhei ao redor, decidindo se eu deveria sair mesmo do carro, mas quando ele abriu a porta para mim, não tive outra opção.
- Para onde estamos indo? - Repeti a pergunta e , mais uma vez, não respondeu, apenas me pegou pela mão e começou a caminhar para a mata.
Um medo inesperado me atingiu, fazendo com que eu apertasse a mão de com força. Aquilo soava muito como um filme de terror em que o assassino leva a pobre garota para a mata e a esquarteja sem pena, a única diferença era que o cara que supostamente seria meu assassino, era também o único que me passava segurança por estar ali. apontou uma placa que dizia que aquela era uma trilha e continuou me guiando, como se já conhecesse aquele caminho há muito tempo. Depois de alguns minutos ele pareceu se desviar da trilha e entrar um pouco mais na mata. Senti vontade de soltar sua mão e voltar até o carro, mas antes que pudesse me decidir, ele apontou uma cerca que estava quebrada e me ajudou a pulá-la. Se aquela era uma propriedade privada, éramos criminosos por estarmos entrando sem autorização?
O resto da caminhada não foi muito longa, antes de chegarmos ao local já era possível saber que existia alguma cachoeira, o barulho era tão relaxante que fez com que eu caminhasse mais rápido, andando ao lado de .
- Onde estamos? - Perguntei.
No meio da mata havia uma clareira banhada por um rio de água cristalina e uma cachoeira. O sol que penetrava por entre as enormes árvores fazia com que a água brilhasse, tornando aquela paisagem quase surreal.
apertou minha mão carinhosamente e me lançou um sorriso sincero.
- Esse é o meu lugar secreto, meu esconderijo.
Ele me guiou para que sentássemos em uma pedra grande que ficava acima da água e mais próximo da cachoeira. Por alguns minutos ficamos apenas sentados, em silêncio, apreciando o barulho incessante da natureza. Eu ainda olhava ao redor, sem acreditar que aquilo não era apenas a minha imaginação. Era difícil acreditar que um lugar como aquele existia e que ainda não havia sido descoberto por mais pessoas. A minha vontade era de gritar, apenas para ouvir o eco distante e as respostas dos animais e insetos que viviam por ali.
Para minha surpresa, se levantou e tirou a camisa e a calça, ficando apenas com uma boxer preta. Desviei meu olhar, sentindo-me repentinamente culpada por estar ali com um cara seminu que não era meu namorado. Ouvi o barulho da água e senti alguns pingos gelados atingirem meus braços. Alguns preocupantes segundos se passaram antes que finalmente emergisse e me olhasse com um sorriso.
- Vem! - Falou, aproximando-se da pedra em que eu estava sentada.
Encolhi minhas pernas quando ele fez menção de tocá-las com suas mãos molhadas.
- Não estou de biquíni por baixo e não tenho uma roupa extra. - Falei.
- E você acha que eu tenho? - Riu.
Apesar de estar relutante, a ideia de cair naquela água cristalina me parecia tão boa quanto qualquer outra. A verdade é que minha mente começava a tomar consciência de algo que eu ainda não percebia, ou pelo menos fingia não perceber... Estar com me trazia lembranças da minha adolescência, a sensação de liberdade, a vontade de viver e aproveitar cada segundo como se no dia seguinte o mundo fosse acabar, coisas que eu nunca senti com Ben, sentimentos que eu achei que nunca mais poderia apreciar. Eu já não sabia se a culpa que sentia era por não sentir tudo aquilo com meu namorado, ou pelo fato de que eu não sentir sua falta em momentos como aquele.
Fiquei tão distraída em meus próprios pensamentos, que quando voltei para a realidade me dei conta de que não estava mais por ali. Levantei-me para poder ver melhor o rio, mas apesar da água cristalina, não consegui encontrá-lo.
- ? - Chamei, mas não ouve resposta. - ?
O silêncio começou a me assustar, e se ele tivesse batido a cabeça em algum lugar e se afogado?
Olhei ao redor novamente, apenas para me certificar, mas a única resposta que recebi foi o silêncio. Antes que minha mente pudesse processar o que estava acontecendo, eu já estava apenas de calcinha e sutiã, pulando na água sem me importar se estava gelada ou não. Emergi sentindo meus dentes baterem uns contra os outros, mas não tive muito tempo para reclamar, senti algo tocar minha perna e pulei, ouvindo meu grito ecoar na mata.
- ! - Gritei, empurrando-o para longe de mim quando ele emergiu rindo. Apesar do frio, senti meu sangue esquentar, a raiva tomando conta de mim, quase me fazendo chorar. - Você perdeu a noção?
Fui até a margem, andando o mais rápido que pude, pronta para me vestir e ir embora dali. Minha impressão desde o inicio estava correta, eu não deveria ter ido até ali, especialmente com o garoto-problema.
- Volta aqui. - gritou, correndo até mim.
Antes que eu pudesse me virar e mandá-lo para merda ou algum lugar pior, senti seus braços me segurarem pela cintura e me levantarem com facilidade. Não tive muito tempo para tentar lutar contra seu abraço, em algum lugar próximo ouvimos algumas vozes e passos se aproximando. Entreolhamos-nos, assustados demais para falar qualquer coisa.
- Tem alguém aí? - Uma voz grossa gritou.
me colocou de volta no chão e me puxou pela mão rapidamente. Pegamos nossas roupas em cima da pedra, mas não tivemos tempo de vesti-las, as vozes já estavam perto demais, era quase possível ver as pessoas se aproximando. Deixei que me guiasse para um caminho que levava até algumas pedras escondidas atrás da cachoeira. Quando chegamos num local mais escuro e escondido, me colocou encostada na pedra e, para minha surpresa, se colocou em minha frente, fazendo com que nossos corpos ficassem completamente grudados. Um passo para trás e ele cairia na água.
Encostei minha testa em seu ombro e ouvi minha respiração pesada. Em algum lugar distante ainda era possível escutar as vozes, mesmo com o barulho alto da água da cachoeira. Perguntei-me como fui parar ali, seminua, sentindo meu corpo responder de uma forma inesperada à proximidade de um cara que não era o meu namorado.
Fechei os olhos e rezei silenciosamente para que as pessoas que estavam lá fora fossem embora, eu não gostava da forma como as minhas pernas pareciam fracas demais para aguentar meu próprio peso ou como o cheiro de me invadia, deixando-me tonta e me fazendo perder a noção do que estava acontecendo ao nosso redor.
- . - Sussurrei, quando as vozes pareceram ir embora, mas continuávamos escondidos no mesmo lugar.
- Oi. - Sua boca estava encostada em meu ouvido e sua voz baixa fez com que eu estremecesse e minhas pernas bobeassem por um milésimo de segundo. Se não saíssemos dali logo eu não seria mais capaz de responder pelos meus atos, nem mesmo minha consciência que insistia em gritar e me alertar do quão errado tudo aquilo era.
- Por que você me trouxe aqui? - Essa não era a pergunta que eu pensei em fazer quando chamei seu nome, mas era tudo que eu conseguia pensar.
Ouvi um suspiro escapar por entre seus lábios e, por longos e torturantes segundos, sua respiração pesada em meu ouvido, como se ele não conseguisse pensar em uma resposta boa o suficiente, ou como se ele estivesse evitando a resposta que estava em sua mente. Quando ele pareceu pronto para finalmente falar alguma coisa, sua voz estava tão frágil que revelava sua sinceridade.
- Porque você faz com que eu queira revelar meus segredos. - Sussurrou.
Engoli em seco, controlando meus braços, que por milagre ainda estavam encostados na pedra atrás de mim. Minha vontade naquele momento era de deixar que minhas mãos passeassem livremente por seu corpo e explorassem cada pedaço seu. Sua respiração pesada em meu ouvido não facilitava o meu autocontrole.
- Is-isso é uma coisa boa? - Gaguejei.
Antes de ouvir sua resposta pude sentir seus lábios deslizando calmamente pela minha mandíbula. Mordi meu lábio, tentando não responder à carícia, mas todo o resto do meu corpo respondia ao seu mínimo toque, minha pele quente não conseguia negar que eu queria aquilo.
- Não. - Ele respondeu, seus lábios encostados em meu ouvido.
Levei algum tempo para lembrar qual havia sido a minha pergunta, minha mente havia entrado em um estado completamente entorpecido, naquele momento eu só conseguia pensar no quanto eu queria mais proximidade, mais intimidade, mais toques... Eu só queria mais e mais.
Eu não saberia dizer o que teria acontecido a seguir se não tivéssemos nos assustado com um morcego, que passou tão próximo de nossas cabeças, que fez com que perdesse o equilíbrio e caísse na água, quase me levando junto com ele. Os poucos segundos em que ele demorou a emergir não foram suficientes para fazer com que eu me recuperasse, tanto do susto quanto do momento tão íntimo que compartilhamos. Esperei alguns segundos, atenta aos sons do lado de fora, mas as pessoas que estavam por ali já haviam realmente ido embora.
Não houve risos ou palavras depois do susto, nenhum de nós dois parecia saber o que fazer ou como agir. Vestimos nossas roupas em silêncio. Pelo canto do olho pude ver que me observava, mas apesar de eu querer falar alguma coisa, apenas para quebrar a tensão, não fui capaz de dizer nada. Caminhamos de volta até o carro, dessa vez ele não segurava minha mão, apenas me guiava à distância, olhando para trás algumas vezes para ter certeza de que eu estava o seguindo. O silêncio dentro do carro era incômodo, como se de repente fôssemos estranhos novamente, como se minutos antes não tivéssemos quase perdido o controle da situação. Enquanto observava a estrada a nossa frente, lembrei-me de algo que havia passado pela minha cabeça algumas horas antes, e que poderia fazer com que o incidente de minutos antes fosse esquecido, pelo menos por algumas horas.
- Pega a segunda rua da direita. - Falei, quando vi que havíamos chegado no caminho de casa que eu já conhecia.
Recebi um olhar duvidoso de , mas sorri, tentando convencê-lo a seguir minhas orientações.
Depois de indicar o caminho certo para ele, chegamos a um bairro de classe alta, muito diferente de onde morávamos. Percebi que não parecia muito confortável por estar ali e que a curiosidade estava matando-o, mas ele não perguntou nada, apenas seguiu minhas instruções até estacionarmos em uma rua quieta, cheia de árvores e muros altos.
- É a minha vez de perguntar onde estamos? - Falou, com um sorriso no canto dos lábios.
Confirmei, indicando a placa da casa de repouso que ficava no final da rua. Não soube dizer se ele compreendia o que estávamos fazendo ali, mas ele não perguntou mais nada, apenas me acompanhou quando entrei pelo portão e dei a minha identidade na portaria da casa. Em poucos minutos estávamos em um jardim bem cuidado, onde muitos idosos conversavam e recebiam visitas de seus familiares e amigos.
- Vô! - Falei, correndo até o banco onde meu avô estava sentado, lendo um livro.
- Ah, minha neta preferida. - Ele brincou, me fazendo rir. Há anos eu escutava aquela "piada", mas o jeito como ele falava sempre me fazia rir. - Achei que tivesse esquecido seu velho avô.
Apesar de ele não ter falado por maldade, senti a culpa me abater, havia algum tempo desde a última vez que eu o visitara. As coisas apenas haviam ficado mais corridas nas últimas semanas. O abracei apertado e senti ele corresponder da mesma forma. Desde que eu perdera meus pais, meu avô havia se tornado o meu porto seguro, era sempre para ele que eu corria quando precisava de algum conforto.
- Nunca. - Falei.
Ouvi pigarrear atrás de mim e sorri, me virando para ele. Meu avô acompanhou meu olhar e estendeu a mão para ele, sabendo que estava comigo.
- Vô, esse é o . - Falei, observando os dois trocarem um aperto de mão.
abriu um sorriso tão grande e sincero que por alguns segundos me perguntei como pude algum dia achar que ele era só problema. Não que ele não tivesse alguns, mas afinal, quem não tinha?
- É um prazer conhecer o senhor. - Falou, revelando seu lado super educado.
- Ora, por favor, a única pessoa que insiste em me chamar de senhor é aquele namorado da . - Falou, fazendo com que eu o olhasse indignada, e risse, concordando silenciosamente. - Pode me chamar de Dominic.
- O é um grande fã da Rock Mist. - Eu não sabia se ele queria que o meu avô soubesse aquilo, mas era o motivo de eu tê-lo levado até ali.
Sentamos no banco e meu avô começou a contar a história da Rock Mist, desde quando a banda começara a tocar em pequenos festivais, até seus anos de glória. Eu já conhecia aquela história, pude ouvir durante toda a minha infância e adolescência, mas ao meu lado ouvia tudo com atenção, sem conseguir desviar o olhar de meu avô. Talvez fosse a forma como ele contava a história, mas tudo que meu avô falava arrancava uma risada nossa. Eu já estava cansada de saber quais partes eram reais e quais ele insistia em aumentar para parecer mais interessante. Depois de tantos anos contando essa história, ele estava acostumado a contar a versão mais curta, fora assim que acontecera quando o apresentei ao Ben, mas, por alguma razão, fora contemplado com a história completa.
Quando foi até o banheiro e me deixou sozinha com meu avô, recebi um olhar curioso.
- Você não costuma trazer amigos aqui.
Dei de ombros.
- Ele gosta bastante da Rock Mist, então pensei que você não se incomodaria se eu o trouxesse para conhecê-lo.
- Eu não me incomodo. - Ele tocou meu queixo, levantando meu rosto para encará-lo. - Mas eu conheço a minha neta bem o suficiente para saber que ela não traria qualquer pessoa aqui. Esse é especial. - Não foi uma pergunta, então eu apenas assumi que ele não precisava de uma resposta.
Mordi meu lábio, percebendo que eu simplesmente queria contar sobre para meu avô. O único problema é que nem eu mesma conseguia entender o que vinha acontecendo entre nós. Eu queria poder explicar o que acontecia quando estávamos juntos ou como ele parecia me entender melhor do que ninguém, queria até mesmo contar a forma como todo meu corpo parecia reagir a sua presença, mas meu cérebro não pareceu encontrar as palavras certas.
Apesar de aparentar desejo de passar o dia inteiro conversando com meu avô, tive que lembrá-lo que eu precisava pegar Gabe na escola. Do lado de fora da casa de repouso caminhamos lado a lado até o carro, nossos braços roçavam levemente o que fazia com que eu desejasse por mais contato. Antes que eu pudesse abrir a porta do carro, o fez, segurando-a aberta para que eu entrasse.
- Obrigado. - Ele falou, se aproximando de mim, mais do que deveria.
Engoli em seco, incerta sobre aquela aproximação. Seus olhos revelavam seu desejo e seu sorriso era tão sincero que beirava o infantil. Ele brincou com uma mexa do meu cabelo e a enrolou em seus dedos, depois deslizou a mão por meu rosto, descansando-a em meu pescoço, fazendo com que eu fechasse meus olhos. Eu já podia sentir sua respiração contra meu rosto e, apesar de minha mente me mandar abrir os olhos e fazê-lo parar, todo o resto de mim queria sentir seu gosto misturando-se ao meu.
beijou a minha bochecha longamente, muito próximo a minha boca, fazendo com que eu sentisse um arrepio percorrer meu corpo e meu estômago revirasse. Todo o momento durou provavelmente uns três segundos, mas para mim o mundo pareceu parar por minutos incessantes em que tudo se resumiu a nós dois e as sensações que eu definitivamente não esperava sentir naquele momento.
No alto dos meus 21 anos e depois de três namorados, nenhum momento podia se comparar àquele, eu nunca havia me sentido daquela forma, ainda mais com um simples beijo na bochecha.
Onde aquilo iria parar eu não sabia, mas quando dei por mim estava colocando minhas mãos em seu peito e o afastando de mim, quase como se tudo aquilo fosse mais do que eu pudesse suportar. Fechei os olhos com força e balancei a cabeça negativamente, apesar de eu não ter visto sua reação, senti ele se afastar e soltar o ar pesadamente. Ele estava prendendo a respiração como eu? Fechei a porta do carro e me afastei, eu não suportaria ter que entrar no mesmo carro que ele e ficar apenas a alguns centímetros de distância sem poder tocá-lo e desejar recomeçar tudo de novo. Talvez pelo mesmo motivo ele não tenha chamado meu nome enquanto me observava ir embora sem olhar pra trás.

10 – Ele

Eu nunca fui um cara de ter muito amigos, os poucos e bons que sempre tive eram o suficiente. Talvez por ter crescido em um bairro que era dominado pela insegurança, aprendi desde cedo a não confiar nas pessoas, especialmente as que chegavam em mim apenas para ter acesso ao meu irmão. Durante os anos de colégio, sempre preferi ficar mais isolado. Não que eu não tivesse amigos naquela época, Tito é um bom exemplo disso, mas eu apenas preferia não me abrir com muitas pessoas, mantinha os assuntos particulares fora da roda de amigos e colegas.
A mudança para a outra parte da cidade, depois de um ano de isolamento, não mudou a minha falta de confiança nas pessoas ao meu redor. Apesar de todos serem mais amigáveis e menos inseguros, eu ainda me sentia observado, como se houvesse um radar no meu bairro antigo que ainda estivesse monitorando cada passo meu. O fato de eu conhecer Nico melhor do que ninguém me dava a vantagem de saber que ele era um cara que não desistia fácil do que queria, e ele sempre, sempre conseguia o que queria. Se ele estivesse disposto a me encontrar, com certeza me encontraria. A julgar pelos telefonemas de números desconhecidos que eu andava recebendo, eu tinha a impressão de que ele já havia me encontrado. Ser um traficante temido lhe dava a vantagem de obter contatos importantes com pessoas de todas as partes da cidade e até de outros lugares.
Naquele momento, eu não estava muito preocupado com isso. Havia uma garrafa de cerveja em minha mão e alguns amigos ao meu redor. Como eu disse, as pessoas aqui são mais amigáveis, você não precisa provar sua fidelidade para ser aceito em um grupo de amigos, basta você conhecer algumas pessoas e essas pessoas te fazem conhecer mais e mais pessoas. E foi dessa forma que eu tinha ido parar ali, num pub, em uma sexta-feira à noite e rodeado de amigos do Hans e o do Matt, dois bartenders em um bar perto de onde eu trabalhava. Lissa também estava na roda, já que ela era amiga do Matt. Depois da nossa noite juntos, passamos a nos falar pouco, apenas no trabalho e sobre assuntos relacionados ao trabalho. Havia outra garota também, Holly, namorada de um dos caras que estavam na roda. Eu não sabia a história de ninguém ali e gostava do fato de ninguém saber a minha. As únicas coisas que importavam eram o presente, os amigos e a mesa cheia de garrafas de cerveja.
Confesso que não me esforçava muito para participar das conversas, a maioria delas não me interessava. Vez ou outra Matt ou Hans me incluíam, perguntando minha opinião; em outras vezes, eu falava algo apenas para mostrar que estava prestando atenção. Meu maior problema naquele momento era olhar Holly e Freddie, seu namorado, e perceber a forma como eles conversavam entre si, rindo de algo que um ou outro falava. Nunca em minha vida eu havia desejado viver algo como aquilo, eu nunca fui um cara de me prender a apenas uma garota e nem mesmo Barbie conseguira fazer com que eu mudasse. Não que eu não gostasse dela. Eu era apaixonado pela garota, ou pelo menos sempre achei que fosse. Mas ver o casal em minha frente me fazia perceber que talvez eu não fosse assim tão louco por ela, porque tudo que eu queria naquele momento era ter uma garota comigo, e a garota que eu queria ao meu lado era muito diferente de Barbie.
- Então, todo mundo lá em casa? – Um dos caras na mesa falou, já um pouco embolado por causa do nível alcoólico.
Todos na mesa concordaram, animados, mas eu apenas forcei um sorriso. Em uma outra ocasião, talvez umas semanas antes, eu teria concordado com a mesma empolgação, mas naquele momento eu só queria ir embora. Não que eu não estivesse gostando de estar finalmente me sentindo parte de um grupo de amigos depois de tanto tempo tendo que ficar atento a tudo e todos ao meu redor, mas talvez fosse o que aconteceu na semana passada que estivesse me impedindo de simplesmente beber e esquecer os problemas.
Quando todos se levantaram da mesa, eu fiz o mesmo, mas com uma intenção diferente. Dei alguns tapinhas nas costas de Matt e apontei o lado oposto da rua para onde eles estavam indo.
- Eu vou pegar meu caminho.
- Mas já? Estamos todos indo pra casa do Martino, tem mais cerveja lá. – Sorriu, passando o braço por meus ombros de uma forma amigável e até um pouco fraternal.
Balancei a cabeça negando e dei de ombros.
- Fica pra próxima, cara. Mas valeu por ter me chamado.
Trocamos um aperto de mão e eu acenei discretamente para Hans, sem querer chamar a atenção do grupo que já caminhava mais à frente. Quando já estava um pouco mais afastado, ouvi a voz de Lissa chamar meu nome e me virei, vendo-a caminhar até mim.
- Você não vem? – Perguntou, aproximando-se de mim e brincando com os botões da minha jaqueta.
- Nah. – Respondi, sem querer dar muitas explicações.
- Hm, que pena. – Ela mordeu seu lábio inferior e acariciou minha bochecha. - Achei que teríamos um tempinho a sós.
Em qualquer outro momento, a forma como ela me tocava e o fato de seus seios estarem quase expostos por causa do enorme decote de seu vestido teriam-me deixado excitado e me feito mudar de ideia, mas não aquela noite, não quando eu tinha tantas outras coisas ocupando minha cabeça.
- Quem sabe uma outra vez? – Beijei sua bochecha e me virei, afastando-me rapidamente.
Durante a caminhada, tentei calcular quanto tempo levaria para chegar em casa e se valia a pena esperar por um ônibus. Não havia muitos carros passando por ali, então assumi que um ônibus demoraria demais. Apesar da noite fria, resolvi aproveitar a caminhada para recuperar a sobriedade. Mesmo não tendo bebido muito, senti que meus reflexos não estavam em perfeitas condições e meus olhos estavam pesados demais. Por aquele ser um bairro com muitas casas noturnas e bares, as ruas estavam bem movimentadas e cheias de pessoas falando alto e rindo sem controle. Por alguns segundos, desejei ser uma daquelas pessoas. Elas pareciam se divertir sem se preocupar com o amanhã, esquecendo todos os problemas da semana que ficava para trás.
Peguei o celular em meu bolso e pensei em aproveitar o fato de estar alcoolizado como desculpa para ligar para , mas duvidei que ela atenderia as minhas ligações. Era culpa dela o fato de eu não estar conseguindo me divertir. Ou talvez fosse culpa minha, eu já nem sabia mais. Tudo que eu conseguia pensar era em como eu nunca deveria ter deixado que ela se aproximasse tanto, eu nunca deveria ter deixado que ela invadisse minha vida e meus pensamentos daquela forma.
Há uma semana não tínhamos nenhum tipo de contato, eu a vi apenas uma vez depois da visita que fizemos ao seu avô e daquele estúpido quase beijo que nunca deveria ter acontecido. Durante toda a semana ela deu um jeito de me evitar e não fazer nenhum tipo de contato, em contrapartida tudo que eu conseguia pensar era em como teria sido se ela não tivesse me afastado e ido embora sem olhar para trás.
Enquanto eu estava ocupado demais pensando em como tirar da minha cabeça, senti alguém esbarrar em mim com força, quase me fazendo cair no chão.
- Porra! – Falei alto, sem me importar em olhar quem havia esbarrado em mim.
Senti alguém me empurrar pelas costas e me virei, pronto para partir para a briga, mas antes que pudesse atingir o cara a minha frente, fui empurrado novamente por trás, dessa vez em direção a um beco escuro entre dois prédios antigos.
- O que... – Antes que pudesse completar a frase, senti um soco forte em meu estomago e me encolhi.
O beco escuro me impedia de ver os rostos das pessoas que me cercavam. Pela pouca luz, pude ver que eram dois caras altos com gorros na cabeça, mas isso foi tudo que consegui enxergar antes de receber uma joelhada no rosto e sentir meu nariz explodir enquanto o sangue jorrava. Cai no chão, sentindo a dor me atingir, mas ainda assim tentei me levantar e lutar de volta. Quem quer que fossem aqueles caras, eles não estavam para brincadeira. Empurrei um deles e tentei dar um soco no rosto do outro, mas ele desviou rápido e acabei acertando apenas seu ombro de uma forma desajeitada. Senti uma perna me dar uma rasteira e cai novamente no chão, batendo minha cabeça no asfalto gelado. Mais alguns chutes atingiram minhas costelas e eu fechei os olhos, rendido, sem saber o que fazer ou o porquê daquela violência.
- Seu merda! – Ouvi um deles falar e, por alguns segundos, pensei reconhecer sua voz.
Mais um chute me atingiu, dessa vez nas costas, fazendo com que eu me encolhesse ainda mais e fechasse os olhos com força. Um deles colocou o tênis em meu rosto, prensando-o contra o chão. Ouvi ele escarrar com vontade e seu cuspe cair a alguns centímetros do meu rosto.
- Você estava merecendo essa surra. – Falou, sua voz transbordando crueldade. – Esse foi só o começo, só um recadinho que o Nico está mandando.
Ao ouvir o nome de meu irmão, senti a raiva tomar conta de mim. Empurrei sua perna para longe e percebi que ele quase perdeu o equilíbrio. Antes que eu pudesse falar alguma coisa, ele chutou meu braço com força. O cara que estava calado até aquele momento se abaixou e pegou meu rosto, virando-o para encará-lo.
- Fica de olho, pirralho. Seu irmão não vai deixar você fugir assim tão rápido. Você é dos nossos. - Ele me deu alguns tapinhas no rosto.
Os dois se afastaram rindo e só então eu pude perceber que eu realmente reconhecia a voz de um deles. Era Tazzo, um dos capangas de confiança do Nico. Sua risada me trouxe lembranças de uma época que eu tentava apagar da minha memória.
Lutei contra a dor que parecia ficar pior a cada segundo e alcancei o celular em meu bolso, digitando rapidamente o número de Tito.
Não sei dizer por quanto tempo eu fiquei ali, deitado no pavimento gelado, sentindo o sangue jorrar do meu nariz e todo o resto do meu corpo protestar ao menor movimento, até mesmo a minha respiração fazia com que a dor piorasse. Talvez eu tenha apagado em algum momento, porque quando Tito finalmente me encontrou eu já estava em um estado delirante, incapaz de focar minha vista em alguma coisa e vendo luzes acenderem e apagarem na frente dos meus olhos.
Tito me levantou, ouvindo minhas reclamações e xingamentos por causa da dor, mas até ele me levar até a rua iluminada ele não fazia ideia do estado em que eu me encontrava.
- Caralho, . Que porra foi essa? – Falou, me olhando assustado.
Dei um meio sorriso amargo e balancei a cabeça.
- Eles me acharam. – Falei. – O Nico me achou.
A julgar pela confusão estampada em seu rosto, Tito tinha muitas perguntas a fazer, mas meus protestos de dor fizeram com que ele apenas me colocasse no carro em silêncio e dirigisse rapidamente pelas ruas.
- Eu vou te levar pra emergência do hospital. – Sua voz era firme, mas a frase quase soou como uma pergunta.
- Não! – Tentei levantar meu braço para fazer algum gesto, mas a dor foi tanta que apenas consegui soltar um gemido. – Eles vão chamar a polícia, cara.
- , você tá todo fodido. Eu nem sei o que fazer com você em casa! – Sua voz estava algumas oitavas acima do normal, e eu sabia que ele não era um cara que elevava a voz com frequência.
- Me leva pra casa, cara... Só me leva pra casa. – Minha voz saiu quase num sussurro.
Apesar de contrariado, Tito pegou o caminho de casa. A julgar pela rapidez com que chegamos, ele devia ter furado todos os sinais vermelhos pelo caminho. Senti o carro parar e tentei me mexer para me levantar e sair, mas naquele momento a dor já havia dominado todo o meu corpo, fazendo com que qualquer movimento doesse como se eu estivesse apanhando de novo. A porta ao meu lado abriu e eu vi o rosto de Tito contrair, talvez finalmente percebendo o quão derrotado eu estava. Ele colocou um dos meus braços em seus ombros e reclamou quando eu gritei vários palavrões.
Enquanto caminhávamos até a porta de casa, em um ritmo extremamente lento, ouvi o barulho de alguém se aproximando. Tentei fazer com que andássemos mais rápido, evitando qualquer contato com vizinhos e pessoas que passavam pela rua, mas a dor era ainda maior que a minha força de vontade.
- O que... – A voz de chegou até meus ouvidos e, quando ela viu meu rosto, soltou uma exclamação e cobriu a boca com as duas mãos.
Balancei a cabeça e olhei para o chão, tentando evitar o inevitável, ela já havia percebido o meu estado. Xinguei por baixo folego, desejando que qualquer outra pessoa estivesse ali naquele momento, menos ela. Sem dizer mais nenhuma palavra ela pegou meu outro braço e também passou por seus ombros, arrancando ainda mais palavrões de mim.
- Desculpa, desculpa. – Sussurrou, contorcendo o rosto como se estivesse sentindo a mesma dor que eu.
Tito abriu a porta de casa e os dois me sentaram no sofá com cuidado. Tito foi até a cozinha e me deixou sozinho com . Senti seus dedos tocarem meu rosto com delicadeza e virá-lo para encará-la. Eu não lutei contra e apenas a olhei, vendo meu rosto fodido refletir em seus olhos assustados. Ela pareceu analisar cada ferimento, cada mínimo pedaço do meu rosto sujo. Fechei meus olhos quando ela tocou minha testa, afastando meu cabelo para poder ver melhor o meu estado. Até aquele momento, eu não havia percebido que havia um pequeno corte em minha sobrancelha, mas então ela passou o polegar perto da ferida e eu finalmente senti a dor.
- Você precisa de pontos. Por que não levou ele para o hospital? – perguntou alto o suficiente para que Tito ouvisse e em um tom acusatório.
Antes que Tito pudesse responder, eu me intrometi.
- Eu pedi que ele me trouxesse pra casa.
- ...
balançou a cabeça e deu um suspiro alto. O que quer que ela fosse falar se perdeu antes de sair por sua boca. Ela me olhou, seus olhos percorrendo meu rosto mais uma vez, e apesar da dureza em seu olhar, ela não conseguiu esconder a preocupação.
Tito voltou com uma maleta branca que parecia ser um kit médico e a colocou no sofá, mas antes que pudesse abri-la, afastou suas mãos e a abriu, num pedido mudo para que eu deixasse que ela tomasse conta de tudo. Ouvi ela resmungar alguma coisa e depois olhar indignada para Tito.
- Esse kit é uma merda!
Tito riu, sem humor, dando de ombros e se desculpando. se levantou e, sem dizer nenhuma palavra, saiu de casa rapidamente. Eu e Tito trocamos um olhar, sem entender por que ela havia saído daquela forma.
Recostei-me no sofá, fazendo careta ao sentir a dor e levantei minha camisa, vendo uma enorme marca vermelha em meu estômago. Percebi os olhos de Tito se abrirem ainda mais, assustados com o que viam. Tentei tocar o local, mas a dor era tanta que eu abaixei meu braço no meio do caminho. Inspirei profundamente e expirei algumas vezes, sabendo que se tivesse alguma costela quebrada eu teria dificuldade para respirar e a dor seria ainda pior. Quando nada aconteceu, eu suspirei aliviado.
Ouvi passos do lado de fora e abaixei a camisa rapidamente, sem querer que visse aquilo. Ela entrou na sala novamente, dessa vez segurando uma maleta parecida com o kit de primeiros socorros que estava ao meu lado no sofá, só que um pouco maior. Observei-a colocar o kit do meu outro lado e abri-lo com cuidado.
- Eu preciso de uma bacia de gelo e um pano limpo. – Falou, olhando para Tito.
Quando ele sumiu pela porta da cozinha, ela me olhou novamente, talvez tentando decidir por onde começar, já que o estrago estava por toda parte.
Aos poucos ela foi limpando meu rosto, colocando curativos nas partes certas e checando para ver se havia maiores danos do que apenas a dor física. Seus toques eram tão delicados que por vezes eu tinha que abrir os olhos para confirmar se ela estava mesmo fazendo alguma coisa ou apenas acariciando meu rosto. Sua feição era séria e durante todo o processo ela não disse nenhuma palavra... a não ser alguns pedidos de desculpa quando eu me afastava e fazia careta, sentindo a dor ser mais forte do que a minha vontade de fingir que aquilo tudo não estava me matando. Tito estava sentado no braço do sofá, apenas observando tudo e se dispondo a ir buscar qualquer coisa que ela precisasse.
Quando pareceu terminar seu trabalho, ela novamente olhou meu rosto com atenção, buscando algo que não tivesse sido tratado. Seu olhar desceu pelos meus braços, procurando mais algum sinal de ferimento, e eu rezei para que ela não levantasse a minha camisa. Ela segurou meu braço, reparando na marca vermelha onde eu havia levado um chute. Seus dedos tocaram a marca e ela me olhou, procurando algum sinal de dor em meu rosto. Quem não a conhecesse poderia pensar que ela fazia aquilo todos os dias, tamanha era sua habilidade. Lembrei-me de uma das vezes em que havíamos conversado sobre seus pais, e ela dissera que havia aprendido todos os procedimentos de primeiros socorros porque sua mãe era enfermeira no hospital da cidade, eu só não imaginava que ela também saberia tratar de casos como o meu.
- Mais alguma coisa? – Sussurrou com a voz frágil. Seu tom revelava quase um pedido para que aquilo tudo tivesse terminado.
Instintivamente eu segurei a barra da minha camisa e neguei, balançando a cabeça. Ela me olhou por alguns segundos, seus olhos revelando uma certa aflição e quase beirando o medo. Gentilmente, ela afastou a minha mão e levantou a minha camisa, soltando um pequeno gemido que parecia estar preso em sua garganta. Por alguns segundos pensei ver seus olhos se enxerem de lágrimas, mas ela balançou a cabeça e se aproximou, analisando a enorme marca em meu abdômen.
- Você pode ter quebrado alguma costela. – Falou, tocando as partes ao redor do hematoma.
- Está tudo bem. – Minha voz estava quase tão frágil quanto a sua.
soltou um suspiro cansado, ainda analisando o meu hematoma. Rapidamente ela colocou algumas pedras de gelo em um pano e a pressionou contra o meu abdômen, fazendo com que eu me encolhesse e gemesse de dor. Vi que ela também se encolheu e mordeu o lábio inferior, talvez evitando que mais um gemido saísse por sua boca. Recostei-me novamente no sofá e fechei os olhos, desejando que aquela dor fosse embora de uma vez. Percebi que ia retirar o pano com gelo do meu abdômen e a impedi, segurando sua mão e fazendo com que ela continuasse pressionando o pano gelado contra minha pele.
Quando abri os olhos, Tito não estava mais na sala. Tirei minha mão de cima da e ela finalmente afastou o pano da minha pele, colocando-o de volta na bacia antes cheia de gelo. Ela estava ajoelhada à minha frente, guardando as últimas coisas no kit, e quando eu me aproximei, ela me olhou hesitante.
- Foi o seu irmão?
Se eu não estivesse tão próximo dela, teria que pedir que ela repetisse a pergunta, sua voz era apenas um sussurro fraco, sua feição parecia refletir a dor estampada em meu rosto.
Confirmei balançando a cabeça, incapaz de confessar em voz alta que alguém com o mesmo sangue que o meu havia feito aquilo comigo. segurou minhas mãos e entrelaçou nossos dedos, fazendo com que eu percebesse o quão pequenas suas mãos eram comparadas às minhas, mas ao mesmo tempo como elas se encaixavam uma na outra com perfeição. Levei uma de suas mãos até os meus lábios e a beijei, vendo a garota à minha frente abrir um meio sorriso pela primeira vez desde que me vira àquela noite.
Minha única vontade naquele momento era abraçar , sentir o calor do seu corpo e a doçura do seu perfume. Lembrei-me de como costumava achar todas essas coisas infantis e irreais, como eu pensava que nenhuma garota nunca me faria querer parar o tempo apenas para que eu pudesse admirá-la, como eu nunca pensei que pudesse ver todo o meu passado e futuro refletidos nos olhos de alguém. Mas, naquele momento, olhando para , era assim que eu me sentia. Foi ali que eu percebi que ela havia deixado de ser apenas a minha vizinha com o irmão tagarela e desejei, mais que tudo, não ser apenas um garoto-problema para ela.

11 – Ela

O buquê de flores descansava na mesa enquanto eu enchia um vaso com água para guardá-las. Observei meu namorado na cadeira da sala, uma de suas pernas inquieta revelava seu nervosismo. Ele estava usando uma camisa verde que eu adorava, pois fazia com que seus olhos ficassem ainda mais bonitos.
Depois de colocar as flores na água, caminhei lentamente de volta à sala e sentei no sofá, em frente à cadeira onde Benjamin estava sentado. Olhamo-nos em silêncio, nenhum dos dois sabendo exatamente como começar aquela conversa. Era a primeira vez que nos víamos desde a briga sobre o curso na Espanha, há vários dias.
Quando Ben me ligou, eu considerei nem atender sua ligação. Suas palavras duras ainda pairavam em minha mente, e eu não queria encontrá-lo ainda estando com raiva. Mas Gabe já estava começando a fazer muitas perguntas sobre o motivo de Ben não ter mais aparecido para visitá-lo, e eu sabia que quanto mais tempo passasse, mais difícil seria resolver a situação.
- . – Antes de dizer outra coisa, Ben levantou-se e sentou ao meu lado.
Seus braços me envolveram em um abraço e eu relaxei, seu cheiro familiar era confortante e eu apenas o abracei de volta porque era impossível negar que sua presença me fazia falta.
- Tudo aquilo que eu falei, foi estúpido. Por favor, me perdoe. Foi uma briga boba, eu não queria que nada daquilo tivesse acontecido.
Ben segurou minhas mãos entre as suas e me olhou com expectativa.
- Foi mesmo muito estúpido. As suas palavras me machucaram muito. – Falei observando seu rosto se contorcer e seus olhos implorarem por meu perdão. – Não podemos continuar tendo a mesma briga, Ben.
- Não vamos, eu prometo.
Suas mãos seguraram as minhas com mais força, demonstrando seu desespero.
- Não vamos mais falar sobre aquele assunto. Já decidi que não vou para a Espanha sem você. – A calma em suas palavras contrastava com a sua feição, e eu sabia que ele estava sendo honesto.
Ben e eu havíamos nos conhecido por causa de amigos em comum. Na época, a minha vida ainda estava de cabeça para baixo por causa da morte dos meus pais. Meu avô havia se mudado para nossa casa antiga para ajudar com tudo, desde documentos que precisavam ser assinados até a mudança para sua casa.
Durante o primeiro mês após a morte dos meus pais, eu mal saía do quarto. A vontade de viver havia desaparecido e a fase da negação parecia não ter fim. Acordar era uma tortura, a dor que eu sentia era grande demais para ser encarada, então eu dormia para esquecer a realidade.
As visitas dos meus amigos começaram a diminuir, já que eles tentavam quase todos os dias me tirar de casa e voltar a viver e eu acabava os expulsando. Até o dia em que escutei Gabe dizendo ao meu avô que estava preocupado comigo e que não queria me perder também. Era hora de encarar a realidade, se não por mim, pelo Gabe que precisava da minha presença mais do que nunca.
Danielle, uma das minhas melhores amigas na época e uma das poucas que não desistiu de me tirar de casa, convidou-me para uma festa na casa de alguém do colégio. Eu não fazia ideia se estava realmente preparada para ver todos os meus amigos, ainda mais em uma festa, mas decidi que era melhor me jogar de cabeça de uma vez.
Ben insistia que havia me visto assim que entrei pela porta da casa e que foi amor à primeira vista, mas eu não podia dizer o mesmo já que só notei sua presença no final da noite, quando ele diz que finalmente tomou coragem de ir falar comigo. Apesar de não ter dado o meu número a ele, Ben não desistiu e me achou em uma rede social por causa de amigos em comum.
Foram alguns meses de longas conversas antes de eu finalmente aceitar sair com ele. Eu sabia que a minha atenção precisava ser toda focada no Gabe, ele precisava de mim e eu dele, mas aos poucos Ben foi conquistando o seu espaço e ganhando a minha confiança e a do meu irmão. A persistência dele era realmente admirável.
- Amor. – A voz de Ben trouxe-me de volta para a realidade.
Percebi que ele ainda esperava uma resposta minha, mesmo que ele não tivesse feito uma pergunta.
- Você lembra da noite em que passamos naquele hotel incrível na beira da praia? – Perguntei.
Ben sorriu e concordou silenciosamente. Apesar do seu sorriso, suas sobrancelhas estavam arqueadas revelando que ele não entendia por que eu estava perguntando aquilo.
- Foi no nosso aniversário de seis meses de namoro, e aquela foi a primeira vez em que você mencionou a especialização na Espanha pra mim e tudo já parecia tão concreto na sua cabeça. Desde então, eu vejo você fazendo planos mesmo sabendo que não é viável para mim acompanhar você nessa aventura.
Ben mudou de posição no sofá, seus movimentos revelando que ele não estava tão confortável com as minhas palavras e para onde aquela conversa parecia estar se encaminhando.
- Essa viagem é um sonho seu. Por favor, não diga que pode desistir dele tão fácil assim só por causa de mim.
Ben balançou a cabeça, seu rosto um pouco corado.
- Não é por você, . Você é tudo pra mim. Essa viagem não faria sentido sem você.
Apesar de sua frase ter me incomodado mais do que eu poderia demonstrar, soltei suas mãos e toquei seu rosto, fazendo com que as rugas de preocupação que se acumulavam entre suas sobrancelhas sumissem.
- Essa viagem fez sentido antes de mim e, com certeza, fará depois. – Respondi com honestidade.
Ben segurou meu pulso e levou a palma da minha mão até seus lábios, beijando-a carinhosamente. Com uma risada nasalada e sem ânimo, ele me olhou com seriedade.
- Falando assim parece até que está terminando comigo.
Mantive seu olhar por alguns segundos antes de sentir a culpa e a vergonha tomarem conta de mim ao lembrar que ultimamente ele não era a pessoa que invadia meus pensamentos no meio do dia ou que me fazia perder o fôlego e sentir o que só poderiam ser as famosas borboletas no estômago quando se aproximava de mim.
Quando Ben se afastou, encolhendo-se no sofá, percebi que o meu silêncio havia se estendido demais. Meu rosto esquentou e, quando abri a boca para tentar negar sua afirmação, eu percebi que não sabia o que dizer.
Eu estava tentando terminar com ele? Assim, sem a menor consideração por tudo que vivemos? Eu poderia ser mesmo tão cruel a ponto de partir o coração que ele havia acabado de colocar em minhas mãos?
- , o que está acontecendo? – Ben suplicou.
- Ben, eu preciso saber que você não vai jogar tudo pra cima por causa de mim. Eu preciso que você me diga que seus planos são importantes demais para você desistir tão facilmente deles.
Eu podia sentir a urgência em minha própria voz. O pânico começava a se acumular em meu peito e parecia querer sufocar minhas palavras. Eu sempre soube que Ben me amava, ele era bom em demonstrar isso, fosse com gestos ou com palavras, mas carregar o peso de ser a pessoa que poderia destruir seus planos era algo que eu não seria capaz de suportar.
- , eu faria qualquer coisa por você. – Ele respondeu com simplicidade.
Antes mesmo que eu pudesse sentir a lágrima solitária que desceu por minha bochecha, Ben a enxugou com seu polegar.
- Você tem um futuro brilhante pela frente. Você é, de longe, uma das pessoas mais inteligentes que eu conheço, Ben. Eu olho pra você e sinto tanto orgulho. Não seria justo com nenhum de nós dois se você abandonasse tudo por minha causa.
Ben ficou em silêncio, minhas palavras preenchendo o ar entre nós dois. Seu olhar estava fixo em nossas mãos novamente entrelaçadas em seu colo.
Por alguns minutos, ficamos apenas sentados em silêncio. Com minha cabeça descansando no encosto do sofá, eu observava Ben parecer perdido em pensamentos, seus olhos evitando encontrar os meus.
Com um suspiro pesaroso, ele finalmente me olhou.
- Podemos concordar em discordar? Estou cansado dessa briga, cansado de tentar imaginar cenários onde você não está mais em minha vida.
Ben me puxou para mais perto e segurou meu rosto com suas mãos. Fechei os olhos quando ele aproximou o rosto do meu e sua testa encostou na minha.
- Por favor, .
Sua súplica era apenas um sussurro e eu senti meu coração acelerar. Por alguns segundos, precisei me concentrar somente em minha respiração.
- Por enquanto, sim. – Consegui responder, sem querer descartar o fato de que aquela conversa não havia terminado.
Com um sorriso em seus lábios e seus olhos esmeralda refletindo seu contentamento, Ben me puxou para sentar em seu colo. Seus braços fortes abraçaram minha cintura e ele beijou meu pescoço rapidamente antes de encostar sua cabeça em meu peito. O abracei de volta pelo pescoço e fiz um cafuné em seu cabelo curto. O jeito como seu corpo finalmente relaxou sob o meu carinho revelou a fragilidade que ele sentia naquele momento.
Por longos minutos, o som das nossas respirações e da vida acontecendo do lado de fora da casa foi tudo que ouvimos. Quando o celular de Ben apitou com uma nova mensagem, a realidade nos chamou de volta.
- Preciso ir. – Ben comentou após ler a mensagem.
Do lado de fora, ele me abraçou novamente e eu senti meus pés suspensos no ar.
O barulho de um carro próximo chamou minha atenção e eu olhei em tempo de ver sair do veículo e acenar para uma garota no banco do motorista. Seus olhos encontraram os meus e eu senti uma avalanche de sentimentos cair sobre mim. Meu cérebro se desconectou do mundo por um segundo e foi como se uma neblina encobrisse todos os meus pensamentos. Desnorteada e me sentindo tonta, minhas mãos instintivamente seguraram a camisa de Ben, que ainda estava falando algo com um sorriso no rosto.
-...Eu te ligo na sexta e confirmamos, certo? – Meu namorado perguntou animado e eu o olhei sem fazer a menor ideia do que ele estava falando.
Ouvi a porta da casa vizinha bater e recolhi minhas mãos, entrelaçando-as e sentindo o quão suadas e geladas elas estavam.
- Claro. Sexta-feira. – Repeti o que Ben havia dito e sorri.
Com um último beijo, ele se despediu e me deixou na calçada, meus pés incapazes de me levar de volta para casa e a neblina em meus pensamentos ainda me impedindo de entender o que tinha acabado de acontecer.

12 – Ele


A semana começou prometendo não ser nada fácil.
Observei meu rosto ainda fodido no espelho. Meu olho ainda estava roxo e os cortes se espalhavam por minha testa, bochecha e queixo. Os pontos no supercílio ainda doíam quando eu arqueava a sobrancelha ou franzia muito a testa, mas isso era o de menos. Meu corpo doía como se um caminhão tivesse passado por cima de mim dez vezes.
- Bom dia. – Cumprimentei ao chegar no trabalho.
Toni, meu chefe, lançou-me um olhar que beirava a indignação. Seus olhos analisaram meu rosto rapidamente antes de voltar sua atenção ao computador na sua frente.
- Fim de semana difícil? – Marcus perguntou ao me ver.
Lancei-lhe um sorriso desgostoso, esperando que fosse o suficiente para ele não tocar mais no assunto.
Troquei de roupa rapidamente, vestindo a camisa branca e fedida a fritura, e dei de frente com Lissa que havia se juntado a Marcus na cozinha.
Ela assobiou longamente, aquele assobio debochado, mas que ao mesmo tempo demonstra respeito.
- Espero que o outro cara esteja pior que você.
Dei de ombros.
- Foram dois.
Ela riu, claramente sem saber nada sobre a história, mas pelo menos não insistiu no assunto.
Durante o intervalo do almoço, enquanto eu aproveitava os vinte minutos restantes de folga na sombra de uma árvore perto do bar, senti meu celular vibrar no bolso. Por um segundo, prendi minha respiração esperando ver um dos dois números que constantemente me ligavam e eu sabia que estavam relacionados a Nico, mas um número desconhecido piscava na tela e eu hesitei antes de atender.
- ? – Uma voz familiar soou frágil do outro lado da linha.
- Mãe?
Do outro lado, um soluço me atingiu como um soco no estômago. Fiquei em silêncio esperando minha mãe falar algo, já que eu não parecia capaz de formular uma frase naquele momento.
- Meu menino. – Ela soluçou novamente.
Eu não fazia ideia se ela estava sóbria e nem se Nico estava com ela, mas tudo que eu conseguia pensar naquele momento era na ausência dela no último ano. Nem mesmo uma visita no tempo em que fiquei preso.
- Ouça, Nico não pode saber dessa conversa. Céus, se ele souber que consegui seu número...
Ela não precisava continuar aquela frase para eu saber o que aconteceria com ela se Nico descobrisse. Eu o conhecia o suficiente para saber que não teria piedade nem mesmo da própria mãe.
Um barulho do outro lado da linha me deixou em alerta. Com um sussurro afobado, minha mãe pediu que eu a encontrasse em dois dias em um endereço que eu mal tive tempo de registrar antes de a linha ficar muda.
Encarei o telefone ainda sem entender direito o que havia acontecido, mas rapidamente anotei o endereço que ela havia sussurrado antes que eu esquecesse algum detalhe. Reconheci o bairro por não ser longe da vizinhança onde cresci, mas o nome da rua ainda me era estranho.

***


Ainda faltavam duas horas até o horário em que minha mãe me pedira para encontrá-la. Percorri meus olhos pelas ruas movimentadas em busca de algum rosto familiar, mas não encontrei nada suspeito.
Por dois dias eu considerei se deveria mesmo ir até o endereço sussurrado por minha mãe. Havia mais de um ano que eu não tinha qualquer tipo de contato com ela e, depois que os capangas de Nico me encheram de porrada, eu estava cético sobre qualquer aproximação que pudesse vir de alguém minimamente próximo a ele.
Eu já havia percorrido duas vezes as ruas próximas ao local onde minha mãe estaria, procurando por qualquer sinal de Nico ou alguém da minha antiga vizinhança, mas nenhum rosto me chamou a atenção. Como eu poderia ter certeza de que minha mãe não tinha entrado em contato a mando dele? Quem podia me garantir que ele não seria a pessoa a minha espera?
As horas pareciam se arrastar enquanto a minha angustia só aumentava. Eu não me sentia seguro ali mesmo não sendo uma comunidade comandada pelo tráfico. Caminhei pelo mercadinho onde eu me encontrava, fingindo interesse em alguns produtos, mas ainda atento a tudo e todos ao meu redor. Aquele já era provavelmente o décimo estabelecimento que eu entrava apenas para matar tempo.
Quando faltavam apenas cinco minutos para o horário do encontro, eu me aproximei da praça onde minha mãe pediu para me encontrar. Ainda do outro lado da rua e dentro de uma quitanda onde o dono me observava com curiosidade e cautela. Tentei sorrir relaxado para que ele não alertasse ninguém, e ele pareceu acreditar que eu não iria assaltá-lo.
Avistei uma figura conhecida caminhar até um banco na praça e sentar olhando ao redor. Apesar de parecer mais velha e estar com uma expressão cabisbaixa, eu seria capaz de reconhecer minha própria mãe em qualquer lugar.
Esperei alguns minutos, observando todos os seus movimentos e o que acontecia pela rua, mas nada incomum chamou a minha atenção. Vi minha mãe perguntar as horas para um senhor que passava por ali e sorrir em agradecimento. Dez minutos já haviam se passado do horário marcado, mas eu precisava me assegurar de que ninguém iria sair de algum esconderijo e fazer sabe-se lá o que comigo.
Quando aceitei que nunca estaria completamente seguro e que havia averiguado a área o suficiente, caminhei até o banco onde minha mãe estava sentada.
- ! – Sua voz rouca, afetada depois de tantos anos de vício em cigarros, pareceu genuinamente surpresa e animada em me ver.
Ela me puxou para um abraço desajeitado e eu beijei o topo de sua cabeça. Suas roupas cheiravam a cigarro e álcool e eu podia ver buracos em pelo menos quatro lugares de sua camisa azul desbotada.
- Venha. Sente aqui. – Ela me puxou pela mão até o banco. – Acho que estamos seguros aqui.
Pelo jeito que ela olhou ao redor, eu concluí que aquilo definitivamente não era uma armadilha. Minha mãe nunca fora uma boa mentirosa, sua feição sempre revelava suas intenções.
- Olhe só pra você. – Ela segurou meu pescoço em suas mãos enrugadas e pela primeira vez pareceu notar meu rosto ainda com cicatrizes e hematomas.
Antes mesmo que ela fizesse a pergunta, eu balancei a cabeça confirmando.
- Nico.
Ela levou a mão até a boca e eu vi algumas lágrimas escaparem de seus olhos.
- Eu queria te encontrar para te alertar sobre seu irmão, mas cheguei atrasada.
- Me alertar? – Perguntei confuso.
Em nenhum momento imaginei que o motivo que ela havia pedido para eu encontrá-la havia sido para me alertar sobre Nico.
- Ele tem falado muito sobre você. Eu nunca entendo muito o que ele diz, você sabe como a bebida me deixa.
A naturalidade com que ela falava sobre seu maior vício, o álcool, demonstrava que sua vida não havia mudado muito desde a última vez que a vira. Apesar de poder sentir o cheiro de álcool em seu hálito, ela não parecia estar bêbada. Depois de tantos anos de vício, sua tolerância a certas substâncias era bem alta.
- Ele acha que você pode falar algo para a polícia. – Minha mãe revelou.
Examinei a praça novamente, apenas para me certificar e, quando olhei para minha mãe novamente, ela estava acendendo um cigarro. Neguei quando ela me ofereceu um, meu estômago embrulhado demais para eu colocar um cigarro que fosse na boca.
- Como conseguiu meu número?
Ela riu sem humor.
- O idiota do Tazzo deixou o celular à vista um dia desses e resolvi arriscar.
Ficamos em silêncio por alguns instantes, ambos parecendo deslocados e desconfortáveis.
- Eu quis te visitar. – Minha mãe sussurrou, seus olhos encarando o chão. – Eu tentei algumas vezes, mas ele sempre me ameaçava.
Senti um nó em minha garganta. Ouvir aquilo fazia com que uma raiva tomasse conta de mim. Era difícil controlar o impulso de ir encontrá-lo e enchê-lo de porrada. Foda-se, em momentos como aquele eu queria mesmo era matá-lo com minhas próprias mãos.
- Eu preciso ir. Não quero arriscar ficar muito tempo fora de casa, ele pode suspeitar.
Concordei em silêncio e a puxei para um abraço agradecido. Ela encostou a cabeça em meu peito e me apertou contra ela. Minha mãe nunca fora de muitas palavras, ela dizia que elas eram armas e que deveriam ser usadas com cuidado.
Sem me olhar nos olhos, ela gaguejou antes de fazer um último pedido.
- Você não teria alguns trocados? – Sua voz falhou e ela pigarreou. – Sabe como é, para o ônibus de volta.
Sem pensar muito, tirei algumas notas do bolso e coloquei em sua mão.
Observei-a ir embora e, mais uma vez, entrei em um estabelecimento onde ela não podia me ver. Antes de ir embora, a vi entrar no mercadinho onde eu havia estado mais cedo e sair com uma garrafa de vodka nas mãos.

***


Apesar de ainda estar desnorteado depois da conversa com minha mãe, no caminho de casa ouvi meu estômago roncar e resolvi parar em uma lanchonete não muito longe de casa para comer algo. Na saída, uma voz familiar me chamou e me virei para encontrar Holly, uma das garotas que estava no grupo de amigos que eu havia encontrado antes de ser espancado. Ela me ofereceu uma carona já que estava indo na direção do meu bairro e, apesar de ter planejado caminhar para espairecer, não quis ser indelicado e acabei aceitando.
- É ali no final da rua. – Indiquei.
Quando nos aproximamos, vi que estava do lado de fora conversando com o namorado. Rolei os olhos ao ver que ele a abraçava e parecia extremamente feliz.
Agradeci a Holly pela carona e sai do carro, acenando uma última vez. Quando me virei, percebi que me olhava, apesar de seu namorado não parecer me notar. Quando meus olhos encontraram os seus, pude sentir em cheio a vulnerabilidade que sempre me atingia quando eu estava perto dela. Continuei caminhando até entrar em casa e bater a porta, agradecendo pela familiaridade do espaço ao meu redor.
Horas mais tarde, quando o ronco de Tito já dava pra ser ouvido pela casa e o único som do lado de fora eram as cigarras e carros passando à distância, eu resolvi sentar na espreguiçadeira do lado de fora e fumar um cigarro. Eu precisava da quietude e paz que eu só conseguia encontrar tarde da noite.
Um vulto ao meu lado fez com que eu quase pulasse da cadeira.
- Sou só eu! – falou rapidamente, percebendo o quanto havia me assustado.
- Caralho, que susto.
Apesar de estar sem graça por parecer tão alarmado, eu ri.
- Desculpe.
Dei de ombros, demonstrando que não tinha problema.
Notei que ela usava um moletom pelo menos duas vezes maior que ela e deixei minha imaginação brincar de adivinhar se ela estava apenas de calcinha e sutiã por baixo daquilo.
- Posso sentar? – Sua voz não era mais que um sussurro, mas, por causa do silêncio ao nosso redor, eu conseguia entendê-la claramente.
Sentei mais próximo da beirada da espreguiçadeira e ela sentou de frente para mim com as pernas cruzadas. Rapidamente constatei que, infelizmente, havia mais do que apenas sua roupa íntima por baixo do moletom, um short preto agora visível por causa de sua posição.
Dei um último trago no cigarro e o apaguei com cuidado na grama. Eu queria fumar mais, mas sabia que não gostava. Perceber que ela conseguia mudar meus hábitos me incomodou.
Eu conseguia sentir seus olhos analisando meu rosto, sua feição preocupada não era difícil de ler.
- Você foi ao hospital. – Ela notou os pontos em meu supercílio.
Concordei em silêncio. Tito havia me convencido naquela mesma noite e eu acabei cedendo depois que ele disse que conhecia alguém que poderia me ajudar sem fazer muitas perguntas.
levou uma de suas mãos até o meu rosto e afastou o cabelo que caía em minha testa para examinar melhor os pontos. Ela se inclinou e seu rosto ficou perigosamente perto do meu, mas seu olhar atento em meus machucados revelou que ela não parecia se incomodar ou ao menos notar a proximidade.
Fechei os olhos quando ela tocou a pele ainda sensível perto da minha bochecha.
- Está cicatrizando rápido.
Seu sussurro tão perto da minha própria boca fez com que um arrepio percorresse meu corpo.
Senti ela se afastar e abri meus olhos. encarava as próprias mãos parecendo sem graça. Seu lábio inferior estava preso entre seus dentes e eu tinha certeza que a intenção dela não era ser sexy, e aquilo me enlouqueceu ainda mais.
Seria tão fácil beijá-la ali. Ela estava tão próxima e parecia tão vulnerável. Minha pele ansiava por seu toque novamente e tive que entrelaçar os dedos das minhas próprias mãos para impedi-las de tocar a garota em minha frente.
- Preciso voltar pra casa. Já está tarde. Eu só queria saber como você estava.
Apesar de não ter a menor intenção de ir dormir naquele momento, eu me levantei junto com ela.
me olhou por alguns segundos, seus olhos revelando que milhões de pensamentos passavam por sua cabeça naquele momento. Ao invés de virar e voltar para casa, seus braços envolveram minha cintura e, apesar da surpresa, eu aceitei o seu abraço.
Por causa da nossa diferença de altura, sua cabeça ficava logo abaixo do meu queixo e eu levei os meus lábios até os seus cabelos, que tinham um cheiro doce de fruta. Senti ela suspirar aliviada e a apertei mais contra mim, ignorando a dor que ainda estava sentindo no abdômen.
- Boa noite, . – Sussurrou se afastando.
- Boa noite, .
Ela sorriu quando usei seu apelido e se afastou lentamente, deixando-me sozinho com todos os meus pensamentos e emoções que eu nem podia e nem queria entender naquele momento.

13 – Ela


Ouvi uma buzina do lado de fora da casa e rapidamente chequei a bolsa para ter certeza de que não estava esquecendo nada. Chamei por Gabe e ele apareceu na sala com um sorriso, animado com a probabilidade de aquele ser um dia diferente dos que estávamos tendo. Era primavera e o sol não era exatamente o que todos esperavam durante o dia, mas naquela manhã ele resolvera aparecer sozinho, ao contrário dos dias anteriores quando estava sempre encoberto pelas nuvens cinzas. Prendi meu cabelo sem me importar muito em arrumá-lo, coloquei a bolsa em meu ombro e peguei a mão de Gabe, conduzindo-o para fora de casa.
Avistei Ben encostado despojadamente no carro, vestindo uma bermuda, camisa e com seus óculos de sol de décadas passadas. Sorri ao me aproximar, gostando de vê-lo daquele jeito despreocupado. Em dias normais, ele estava sempre vestido para o trabalho, com roupas sérias demais. Ele abriu a porta e ajudou Gabe a entrar no carro, depois se virou para mim com um sorriso e me abraçou pela cintura, beijando meus lábios carinhosamente.
- Gosto de te ver assim. – Comentei, tocando sua camisa verde clara que realçava seus olhos.
- Se eu pudesse, me vestiria assim todos os dias.
Eu sabia que não era verdade, ele adorava vestir-se bem alinhado, com suas calças e camisas sociais, e gostava mais ainda quando precisava vestir terno e gravata para algum evento.
Entramos no carro e seguimos para o clube, vendo as pessoas na rua usando suas roupas de verão, animadas para o dia de sol. Parecia que ninguém queria ficar em casa, todos estavam prontos para aproveitar o calor. As ruas estavam engarrafadas, os pontos de ônibus cheios, toda a cidade parecia repentinamente acordada em uma manhã de sábado.
Dentro do carro, Ben havia colocado uma música agitada, e Gabe no banco de trás fazia danças esquisitas, animado demais para ficar quieto, por mais curta que fosse a viagem.
Como era de se esperar, o clube estava cheio e, ao contrário do que normalmente fazíamos, paramos em uma vaga mais afastada já que todas perto da entrada já estavam ocupadas. Observei os carros ao redor e a entrada do clube, lembrando que, se eu não namorasse Ben, aquele seria um lugar que eu nunca poderia levar Gabe. Aquele era um clube privado, apenas membros podiam entrar, e a anuidade custava muito mais do que eu tinha condições de pagar. Pela primeira vez em anos eu me perguntei se era ruim estar levando Gabe naquele tipo de lugar, afinal, não era o tipo de lugar que frequentaríamos se eu e Ben não estivéssemos juntos. O pensamento de que Ben não seria o cara com quem eu passaria o resto da minha vida não era novo, mas eu me ainda assustava com a quantidade de vezes em que ele aparecia em minha mente ultimamente.
Dentro do clube, conseguimos pegar uma das poucas cabanas que ainda estavam vagas. A maioria parecia estar reservada mas, enquanto eu pegava toalhas para nós três, tive a impressão de ver Ben conversando com um dos atendentes na recepção e apertando sua mão logo após. Se eu conhecia bem meu namorado, aquele aperto de mão envolvia mais do que um acordo, em sua mão certamente havia alguma quantia em dinheiro.
- Vamos, Ben. – Gabe puxou a mão do meu namorado antes mesmo que eu pudesse colocar a bolsa em uma das espreguiçadeiras.
- Ninguém sai daqui sem protetor. – Falei, ouvindo os dois bufarem.
Muitas reclamações depois, eu finalmente terminei de passar o protetor nas duas crianças à minha frente. Eu não sabia se Ben estava disposto a passar o dia brincando com Gabe, mas naquele momento ele parecia animado, talvez porque ele sabia que a relação entre Gabe e havia evoluído. Gabe não parava de falar sobre as muitas partidas de futebol que ele e disputavam quase todo final de tarde e, por mais que Ben tentasse desviar o assunto, meu irmão estava simplesmente encantado pela habilidade do nosso vizinho com a bola. Mais de uma vez eu havia visto Ben rolar os olhos enquanto Gabe matracava sobre .
Observei os dois pularem juntos na piscina e sentei em uma das espreguiçadeiras que estavam na sombra tirando o vestido e passando protetor pelo corpo. O sol não estava lá muito quente, o verão ainda não havia dado sinais de que estava próximo, mas eu sabia que a minha pele queimaria fácil com aquele sol de primavera. De onde estava, Ben me lançou um sorriso, deixando claro que ele não passaria o dia apenas com Gabe. Sorri de volta e desejei que Gabe não tivesse distraído sua atenção, a única parte do meu corpo sem proteção era minhas costas e para isso eu realmente precisaria de ajuda.
- Precisa de ajuda? – Ouvi uma voz conhecida perguntar atrás de mim, enquanto eu tentava inutilmente alcançar o centro das minhas costas.
Virei-me, assustada e surpresa, encontrando atrás de mim com um sorriso largo no rosto. Perto de nós uma mulher, cujo rosto eu podia jurar que era familiar, afastou-se depois que afirmou que a encontraria em alguns minutos.
Não sei exatamente quantos segundos se passaram ou quantas vezes nesse meio tempo eu abri a boca, tentando falar alguma coisa, mas sem emitir som algum.
- . – Finalmente falei, sentindo-me completamente estúpida. – Eu não esperava te ver por aqui.
- É, eu sei. – Ele deu de ombros e soltou uma risada infantil. – Eu nem sabia que esse lugar existia, mas uns amigos me chamaram.
Concordei balançando a cabeça e segurei o protetor em minhas mãos com força na tentativa de escondê-lo e fingir que não ouvi a pergunta que havia feito. Claro, eu precisava de ajuda, mas definitivamente não a ajuda dele. A última coisa que eu queria naquele momento era sentir o toque dele, eu sabia exatamente como meu corpo reagiria, já havia sentido antes. Mordi meu lábio inferior, pronta para dar um passo para trás e inventar alguma desculpa para sair dali, mas olhou o protetor em minhas mãos e repetiu sua pergunta.
- Sério, precisa de ajuda?
Sorri e balancei a cabeça negativamente.
- Não, eu já terminei na verdade.
Guardei o protetor na bolsa e rapidamente olhei para o lugar onde antes havia visto Ben e Gabe na piscina, mas eles não estavam ali.
- ! – A voz de Gabe veio do outro lado, alta e animada demais.
- E aí, cara. – Eles trocaram um high five.
Ben aproximou-se lentamente e eu nem precisava ser vidente para saber que, por trás dos óculos escuros, ele estava revirando os olhos. Depois de cumprimentar rapidamente, ele deitou no pequeno sofá de praia na cabana e fingiu estar muito interessado em algo no celular.
- , aqui tem um campo de futebol. Podemos jogar mais tarde. – Gabe sugeriu.
- Está pronto para perder de novo? – brincou.
Gabe fingiu estar ofendido, mas deu risada.
- Pode ser eu e você contra e Ben. – Meu irmão parecia muito contente com a sua proposta. – Você topa, Ben?
Ben sorriu para Gabe, mas continuou ignorando a presença de .
- Claro, quem sabe mais tarde?
- E eu nem posso opinar sobre isso? Quem disse que eu quero jogar? – Perguntei, um pouco ofendida.
- Está com medo de perder, vizinha? – O tom provocativo de combinava com seu sorriso debochado.
- Amor, vamos mostrar para esses dois quem são Pelé e Maradona da nossa geração. – Estendi meu punho para Ben e ele riu tocando seu punho no meu.
Certo, eu estava definitivamente exagerando. Apesar de ter jogado futebol na época da escola, eu estava longe de ser uma revelação e mais longe ainda dos maiores craques do futebol, mas eu precisava revidar o deboche.
- Podemos ser Messi e Mbappé? – Gabe sussurrou para , mas todos nós ouvimos e rimos.
- Te vejo mais tarde, Messi. – bagunçou os cabelos de Gabe antes de acenar para mim e se afastar.
Não demorou para Gabe encontrar um colega da escola e ir brincar com ele no salão de jogos, deixando eu e Ben sozinhos e me fazendo reparar que meu namorado ainda estava vidrado na tela do celular.
Deitei no pequeno sofá redondo ao seu lado e mexi em seu cabelo molhado.
- Tem uma foto minha pelada nesse celular para você estar tão interessado assim? – Brinquei.
Com um suspiro, Ben deixou o celular de lado.
Toquei seu queixo e fiz seu rosto virar para mim. Tirei os óculos escuros que cobriam seus olhos e vi suas esmeraldas me encararem de volta. Quando acariciei sua bochecha, ele sorriu, seus olhos suavizando.
- Está chateado com Gabe? – Perguntei.
Ben desviou o olhar do meu, claramente incomodado com a pergunta. A minha pergunta poderia ser retórica, já que eu não precisava de sua confirmação para saber que, mesmo sem querer, ele estava sim chateado com Gabe e o seu incômodo com a minha pergunta demonstrava que ele sabia que era infantil se chatear com uma criança.
- Eu queria ter mais tempo para brincar com ele, mas entre o trabalho e a faculdade é difícil para mim ir até a casa de vocês todos os dias.
Aproximei meu corpo do seu e me apoiei em seu peito.
- Ben, ninguém está te cobrando nada. Gabe sabe que você é muito ocupado e ele aprecia os momentos em que vocês estão juntos. Não se sinta culpado por causa disso.
Ben suspirou alto novamente e, pela sua expressão, eu sabia que minhas palavras tinham surtido pouco efeito, mas preferi não insistir. Uma de suas mãos acariciava minhas costas, ele aproximou o rosto do meu e seus lábios quentes traçaram um caminho da minha bochecha até a minha boca.

**


No comecinho da tarde, algumas nuvens fizeram uma aparição rápida e encobriram o sol por alguns minutos, mas logo se dissiparam, e o clube ficou ainda mais cheio e movimentado.
Estávamos no restaurante do clube, aproveitando a pouca movimentação já que a maioria das pessoas curtia a piscina. Gabe, ao meu lado, atacava o seu prato de comida como se o mundo pudesse acabar a qualquer momento. Eu havia pedido uma costela que era definitivamente o meu prato favorito quando íamos ao clube. Na minha frente, o hambúrguer com fritas que Ben havia pedido estava esfriando após apenas duas mordidas já que uma ligação de seu pai havia interrompido o nosso almoço, há quase cinco minutos. Perto da mesa, Ben caminhava de um lado para o outro com o celular no ouvido.
Pelo vidro que separava o restaurante da área de fora, vi uma figura familiar passar com dois amigos. conversava animadamente com a mesma mulher que eu havia visto antes e um cara que parecia ter a mesma idade que ele. Quando me viu observando, ele fez uma careta engraçada e eu gargalhei.
Ben apareceu ao meu lado e seguiu o meu olhar até , que já estava de costas caminhando com os amigos. Quando ele sentou na minha frente novamente, eu limpei a garganta.
- Tudo bem com seu pai?
Com um breve aceno de cabeça, ele confirmou antes de voltar sua atenção para o hambúrguer em seu prato.
- Quando vamos jogar futebol com ? – Gabe perguntou.
Olhei seu prato já vazio e sorri.
- Mais tarde, Gabe. Vamos descansar um pouco e curtir mais a piscina, certo?
Para desviar a atenção de Gabe e não deixar que ele trouxesse para a conversa novamente, pedi que fosse até o display com vários sabores de sorvete e escolhesse um com bastante calda de chocolate, pedido que ele obedeceu rapidamente e com um sorriso no rosto.
Quando saímos do restaurante, ele já estava muito mais cheio do que quando chegamos. O clube continuava bastante movimentado. Músicas animadas saíam dos alto-falantes e era quase impossível achar uma cadeira ou espreguiçadeira que estivesse vazia. Caminhamos de volta até a nossa cabana e nos sentamos para relaxar um pouco. Apliquei protetor solar em Gabe novamente e deixei que ele voltasse para o salão de jogos procurar pelos amigos.
- Vamos relaxar um pouco no lago com correnteza? – Ben sugeriu.
Além da enorme piscina, o clube oferecia uma área com escorregadores e um lago artificial com correnteza, onde era possível pegar uma boia e relaxar enquanto a corrente nos conduzia por uma área quase fechada por várias árvores e plantas. Nos alto-falantes da área, eles colocavam sons da natureza para completar o ambiente e parecer que estávamos mesmo no meio de uma floresta.
Antes de entrarmos na água, Ben pegou uma das boias e me ofereceu. Dentro da água, eu me apoiei de um lado da boia e Ben do outro, deixando-nos um de frente para o outro.
- Posso? – Ben perguntou levando sua mão até o meu cabelo que estava amarrado em um coque.
Balancei a cabeça confirmando e ele desfez o nó, deixando que meu cabelo caísse pelos meus ombros. Nós dois sorrimos, lembrando que ele havia feito a mesma coisa no nosso primeiro encontro. Ben nunca escondera que amava o meu cabelo e gostava que eu o usasse solto, mas sempre pedia permissão antes de soltá-lo. Ele acariciou minha bochecha e depois enrolou uma mecha do meu cabelo em seu dedo indicador. Com meu queixo apoiado em minha mão eu o observei, meus olhos atentos aos seus movimentos.
- “And you look as beautiful as ever, and I swear that everyday I’ll get better.” – Ben cantarolou baixinho me fazendo sorrir. – “You make me feel this way somehow.”
Ben adorava James Arthur e, desde que ouvira aquela música, ele dizia que havia sido escrita para nós dois. Ele continuou cantando baixinho e eu senti meu rosto esquentar sob seu olhar intenso. No final do refrão, ele cantou a frase que intitulava a música “say you won’t let go” olhando em meus olhos. Depois da nossa última conversa sobre a viagem para Espanha, eu sabia que aquela música agora carregava um significado muito maior do que antes.
Diga que você não vai me deixar.
Seguimos o resto do caminho em silêncio, apenas deixando a correnteza nos levar. Vez ou outra, eu brincava com os fios molhados do cabelo de Ben que caíam curtos por sua testa, e ele se distraía com nossos dedos entrelaçados.
Quando voltamos para a cabana, percebi que Gabe ainda não havia voltado do salão de jogos já que as coisas estavam exatamente como as deixamos. Apesar de ficar um pouco preocupada, já que ele prometera não demorar, resolvi esperar mais um pouco, pois ele provavelmente havia se distraído brincando com os amigos. Deitei na espreguiçadeira para me secar e tentar me bronzear um pouco.
- Irmã do Gabe? – uma voz infantil ao meu lado me chamou e eu me virei encontrando Eric, o amigo do meu irmão. – O Gabe já foi?
Confusa, olhei para Ben e depois voltei a minha atenção para o garoto na minha frente, que era um pouco mais baixo que Gabe.
- Não, ele está no salão de jogos.
Eric balançou a cabeça. – Não está, não. Estávamos brincando de ping pong e ele disse que ia falar com um amigo, mas não voltou.
Senti o pânico me sufocar e, com um pulo, levantei-me ignorando a sensação de tontura. Não reparei que Ben havia se levantado junto comigo até sua mão encontrar a minha.
- Já faz muito tempo? - Ben perguntou a Eric.
Com um aceno de cabeça, o menino na minha frente concordou.
Ben e eu caminhamos apressados pela área da piscina. Meus olhos atentos varriam toda a extensão do lugar enquanto Ben observava a piscina com atenção, mas Gabe não estava por ali.
Fomos até o salão de jogos apenas para nos certificar de que Eric não havia se confundido, mas nada do meu irmão entre as crianças que brincavam animadas.
- Calma, ele tem que estar dentro do clube. – Ben comentou tentando me tranquilizar.
Depois de olharmos no restaurante, nos banheiros e no salão de festas eu já podia sentir as lágrimas em meus olhos e o sentimento de desespero tomar conta de mim.
Estávamos indo para uma área mais afastada quando uma risada familiar chamou a minha atenção e eu olhei em direção ao campo de futebol a alguns metros de distância.
- Esse gol não valeu! – Gabe falou entre risos antes de devolver a bola para .
- Eu vou matar meu irmão.
Soltei a mão de Ben e marchei até o campo de futebol sentindo meu rosto esquentar a cada passo que eu dava. Quando eu estava a alguns passos de distância, Gabe notou a minha presença e arregalou os olhos, decerto vendo a minha expressão nada amigável.
- Eu ia te falar que estava aqui, eu juro! – Ele defendeu-se.
- Gabe, você não pode fazer esse tipo de coisa. – Falei odiando o histerismo em minha voz.
Meu irmão correu para trás de e usou o nosso vizinho como escudo.
- Desculpa, desculpa, desculpa. Eu fui até lá, mas vocês não estavam e eu queria muito jogar bola com .
- Gabe, você quase matou sua irmã de preocupação. – Ben reclamou.
- Cara, você me falou que tinha avisado a eles. – comentou puxando Gabe pelo braço para que ele saísse de suas costas.
- Eu tentei, juro que tentei. Por favor, , não fique brava comigo.
Gabe caminhou até mim e me abraçou pela cintura. Eu o abracei de volta, aliviada demais por ele estar bem e seguro para dar um esporro nele.
- Por favor, não faça mais isso. – Comentei beijando seus cabelos. – E nada de televisão pelo resto do fim de semana.
Gabe fez um bico, mas concordou com o castigo.
- Podemos fazer a nossa partida? Messi e Mbappé, - ele apontou para ele mesmo e . – Contra... Quem são vocês mesmo? – Debochou.
Um olhar para Ben e eu sabia que ele definitivamente não queria fazer aquilo, mas concordou assim mesmo. Combinamos que a primeira dupla a fazer três gols vencia e assim iniciamos o jogo.
não escondeu a surpresa ao perceber que eu sabia mesmo jogar. Ele e Gabe estavam se divertindo enquanto Ben parecia empenhado demais em tentar roubar a bola do meu vizinho.
Com o placar já a dois gols a um para e Gabe, eu e Ben estávamos sob pressão. Se deixássemos que eles fizessem mais um gol, perderíamos. Meu namorado roubou a bola de Gabe e chutou para mim. Ri quando meu irmão veio em minha direção e tentou algumas vezes roubar a bola de mim, mas não notei que se aproximou por trás de mim. Ele envolveu minha cintura com um de seus braços e rapidamente roubou a bola.
- Isso nem vale! – Gritei entre risos correndo atrás dele.
Segurei um de seus braços e começamos uma pequena guerra amigável para ver quem conseguia roubar a bola. Entre puxões pelo braço, pela cintura e pequenos empurrões, não vimos Ben se aproximar e rapidamente roubar a bola e chutá-la com força para o gol, sem dar a menor chance a Gabe de tentar impedi-lo.
Quando olhei para meu namorado, vi que seu rosto não tinha uma expressão amigável. Tentei sorrir para tentar amenizar sua tensão, mas ele olhava de mim para atentamente e eu só conseguia me sentir desconfortável diante desse olhar.
No final, eu deixei que Gabe roubasse a bola de mim e fizesse o gol que lhes deu a vitória. A verdade é que, para mim, o jogo havia acabado e eu só queria sair dali. Nos despedimos de rapidamente e eu sugeri que fossemos para casa. As nuvens já estavam voltando e dessa vez elas pareciam carregadas e prontas para uma tempestade.
Gabe estava feliz demais com seu desempenho no jogo para notar que Ben estava calado e mal-humorado. Enquanto ele matracava no caminho até em casa sobre algumas jogadas suas e de , eu tentei simpatizar com o que meu namorado estava sentindo. Talvez eu e tivéssemos ido longe demais na brincadeira, mas a verdade é que a nossa relação já era, de uma certa forma, tão íntima que eu não prestei atenção para como aquilo podia afetar Ben.
Quando o carro parou em frente a minha casa, eu dei a chave para Gabe e pedi que ele fosse logo tomar banho. Depois de vê-lo entrar em casa, eu me virei para Ben, que olhava distraidamente para o painel do carro.
- Quer conversar? – Ofereci.
Depois de um longo suspiro, Ben balançou a cabeça negativamente.
- Preciso ir para casa, esfriar um pouco a cabeça.
Concordei em silêncio e já estava pronta para sair do carro quando Ben segurou minha mão.
- Eu nunca tinha reparado no jeito que ele olha para você.
O olhar de Ben estava fixo em nossas mãos juntas. O silêncio pairou por longos segundos dentro do carro. O único som entre nós era o de nossas respirações.
Mil pensamentos invadiram minha cabeça, mas nenhum deles saiu por meus lábios. Ainda em silêncio, eu saí do carro e deixei que Ben fosse embora, sentindo, mais uma vez, que ele deixara seu coração em minhas mãos.

14 – Ele

O dia estava quente, provavelmente o mais quente do ano até agora. Eu estava sentado no sofá da sala com o ventilador ligado no máximo, sem a menor vontade de me mover dali e fazer alguma coisa útil. A cantoria que soava pela casa ficava por conta de Tito que estava se arrumando para um encontro com uma garota que ele não parava de exaltar e dizer que era provavelmente o amor da vida dele.
Do lado de fora, o barulho de portas de carro fechando atraiu a minha atenção e pela janela da sala eu pude ver o namorado de estacionar o carro e entregar uma caixa grande para a namorada. Eu já estava disposto a parar de prestar atenção, mas a reação de a algo que ele disse fez com que meus olhos ficassem fixos no casal. Seu semblante passou de calmo para decepcionado e até um pouco irritado enquanto ele parecia se desculpar incessantemente.
Não demorou muito para que eles se despedissem e ela virasse para entrar em casa novamente. Seu semblante ainda revelava sua irritação e do jeito que a porta bateu me deu a certeza de que o que quer que o namorado dela tenha dito, ela não havia gostado nem um pouco.
Na televisão em minha frente um episódio qualquer de uma série antiga passava, mas eu não prestava mais atenção, minha mente vagava para a casa vizinha como vinha fazendo nas últimas semanas. Com um suspiro cansado eu desliguei a televisão e me levantei do sofá.
- Animado, hein, cara? - comentei dando dois tapinhas nas costas de Tito e me arrependendo logo depois já que ele ainda estava molhado por estar recém saído do banho.
- Estou te falando, , essa é a mulher da minha vida.
Balancei a cabeça lançando-lhe um sorriso descrente, mas nada iria abalar a sua confiança.
Tito sempre fora um romântico sem cura. Lembro-me da primeira garota que quebrou seu coração ainda no ensino médio. O nome dela era Lena e ele correra atrás dela por meses, insistindo que aquilo era mais que uma paixonite de adolescente, mas então ela apareceu com um cara mais velho e meu pobre amigo ficou desolado. A verdade era que ele adorava estar apaixonado e eu o admirava por isso.
Pela janela do meu quarto eu podia ver a casa ao lado onde minha vizinha caminhava apressada enchendo alguns balões e ajeitando algo na cozinha. Franzi a testa sem entender o motivo dos balões, mas não pude deixar de rir da expressão que ela fazia ao amarrar a ponta do balão ao terminar de enchê-lo. Antes que ela me pegasse a observando achei melhor me afastar da janela e procurar algo para ocupar a minha mente que não fosse .

***

- Não! Não! Não! - Ouvi uma voz feminina gritar.
A casa estava silenciosa novamente já que Tito havia ido para seu encontro e eu estava distraído lendo algumas notícias no celular. Levantei-me para olhar pela janela e me assustei ao ver um pouco de fumaça sair pela janela da casa vizinha. Peguei uma camisa que estava jogada em cima da cama e saí apressado de casa, bem a tempo de ver abrir a porta da frente e sacudir um pano, tentando afastar a fumaça que se acumulava na área da cozinha e sala de estar.
- Foi aqui que chamaram os bombeiros? - Brinquei.
pareceu surpresa em me ver, mas riu da minha piadinha.
Desde o nosso encontro no clube eu pude perceber que ela se afastara um pouco, algo que provavelmente estava relacionado a forma como seu namorado reagira a nossa partida amigável de futebol.
- Acha que esses cupcakes ainda tem salvação? - Ela apontou, desanimada, para a assadeira contendo alguns bolinhos completamente queimados.
Cheguei mais perto dos cupcakes e não pude deixar de rir do estado lamentável em que eles se encontravam: completamente tostados.
- Acho mais fácil eu me livrar dos meus pecados e conseguir a salvação. Esses aqui vão direto para o lixo. - Comentei, já jogando os cupcakes no lixo e ouvindo soltar uma exclamação.
- , eu não tenho mais tempo de fazer tudo de novo. Olha só a bagunça que está a casa.
- Por que mesmo está enchendo balões e queimando cupcakes?
rolou os olhos.
- Você esqueceu que é o aniversário do Gabe? Ele te odiaria se soubesse. A olhei, com os olhos arregalados e levei minha mão até a testa. Sim, eu havia esquecido completamente da festa do moleque. No dia que nos encontramos no clube, ele comentou algumas vezes sobre o seu aniversário e quão animado estava para a festinha que sua irmã prometera. Eu nunca fora bom de lembrar datas comemorativas, especialmente aniversários, mas imediatamente senti a culpa me consumir por dentro. Era difícil negar que eu havia me apegado à criança que antes eu via apenas como um pirralho falastrão.
- Faremos um trato. - Falei, decidido, e me olhou com curiosidade. - Eu te ajudo com os cupcakes e a arrumação e você não conta ao Gabe que eu esqueci o aniversário dele.
- Feito! - Ela concordou prontamente, me dando um aperto de mão.
Imediatamente comecei a caminhar pela cozinha, separando os ingredientes necessários para fazer cupcakes e limpando um pouco da bagunça que havia deixado.
Vez ou outra a olhava de canto de olho e reparava no seu empenho em encher os balões quase todos do mesmo tamanho, ou na forma em que ela cortava alguns desenhos de super heróis com tanta precisão que era possível ver a marca da tesoura em seus dedos, tamanha era a força com que ela a segurava.
- Uma curiosidade. - Comentei, medindo os ingredientes com cuidado.
não respondeu, mas de onde estava na sala, colocando os balões na janela que dava para frente da casa, ela me olhou e esperou eu continuar.
Fiz a minha melhor cara de paisagem para fingir ignorância em relação ao fato de ter visto ela ter se irritar com o namorado mais cedo.
- Esse parece ser o tipo de atividade que o seu namorado adoraria fazer parte.
me olhou por alguns segundos como se tentasse decifrar a minha expressão ou o que eu havia dito, mas, quando não encontrou nada em meu rosto, ela voltou a se concentrar na tarefa em mãos.
- Esse era o plano. - Ela respondeu, desanimada. - Mas ele precisou ir para um compromisso do trabalho.
Concordei silenciosamente e voltei a minha atenção para a massa de cupcake que eu estava terminando.
Trabalhamos em silêncio por um tempo, ambos concentrados em nossas tarefas. Em um determinado momento conectou seu celular na caixa de som e deixamos que a voz de Adele preenchesse o silêncio do ambiente.
Depois de colocar os bolinhos no forno, sentei ao lado de e me dediquei a encher os balões que ainda estavam por ali.
- Qual vai ser o sabor do recheio dos cupcakes? - Perguntei enquanto dava um nó na ponta de um balão.
- Esse ficou muito maior do que os outros. - afirmou, ignorando a minha pergunta.
Arqueei a sobrancelha, sem saber se ela estava falando sério, mas a sua feição revelou o quão genuíno aquele comentário havia sido.
- Não conhecia esse seu lado perfeccionista.
soltou uma risada nasalada.
- Eu costumo escondê-lo para não assustar as pessoas.
Desatei com cuidado o nó que havia feito e aproximei o bico do balão do ouvido de , soltando um pouco do ar preso dentro dele e fazendo com que ela se encolhesse e desse risada.
- ! - Reclamou, entre risos.
- Agora ele está dentro dos padrões do seu perfeccionismo? - Mostrei o balão e ela concordou com o rosto um pouco corado.
- E para responder a sua pergunta anterior, os cupcakes que eu havia feito não tinham recheio.
- Cupcakes sem recheio? - Enruguei o nariz e ela me olhou divertida. - Assim eles ficam sem graça.
sorriu de lado. - Às vezes eu esqueço que você é um aspirante a chef de cozinha.
- É… aspirante. - suspirei.
- Desculpe se soou ofensivo, não foi a minha intenção. - complementou rapidamente.
Balancei a cabeça. - Não, não foi isso.
Senti seus olhos passearem por meu rosto, tentando ler a minha expressão e seu corpo se moveu involuntariamente para mais perto do meu, nossos braços agora se tocando em cima da mesa. Seus olhos que ainda me encaravam com atenção eram um convite para que eu me abrisse e revelasse até os meus segredos mais perturbadores.
- As coisas andam um pouco complicadas. - Confessei. - É difícil imaginar um futuro onde ser chef de cozinha deixe de ser somente uma aspiração.
- Posso lhe oferecer um conselho de uma pessoa que teve as suas aspirações esmagadas pela vida? - Apesar do tom sério e sua feição calma, um sorriso leve brincava em seus lábios.
Concordei com um aceno e ela continuou.
- Já ouviu a expressão “mar calmo nunca fez bom marinheiro”? - A olhei com curiosidade e balancei a cabeça negativamente. - Foi algo que o meu avô falou e eu nunca esqueci. Cada desafio que enfrentamos traz um ensinamento e, por mais difíceis que as coisas possam parecer, não se deixe abater. Sei que é clichê, mas só percebemos o quão reais esses conselhos genéricos são quando enfrentamos situações assim.
Fiquei em silêncio por alguns instantes enquanto ela esperava a minha resposta, seus olhos atentos a minha reação.
- Você é mesmo sábia, não é? - Comentei, com uma risada divertida e ela se juntou.
- Gabe não é tão esperto a toa.
Voltamos a nos concentrar nos balões e outras decorações e acabamos decidindo que o melhor recheio para os cupcakes era o de limão, o favorito do Gabe. Decoramos os bolinhos com glacê colorido, nas cores dos super heróis da Marvel que Gabe tanto adorava. A decoração, graças à , estava impecável, seu perfeccionismo era mesmo conveniente em momentos como aquele.
Com nosso trabalho em conjunto não demorou muito para que a casa se enchesse de balões e do cheiro de comidas apropriadas ao paladar infantil como pipoca, cachorro quente e sanduíches. Não havia nenhum tipo de luxo na festa, mas tudo havia sido preparado com muita atenção e carinho por . Gabe com certeza iria gostar.
- Onde está o aniversariante? - Perguntei, pela primeira vez me dando conta de que não havia o visto desde o dia anterior, quando ele fez a aula de violão com Tito.
- Foi passar a manhã no aquário com dois amigos e depois iriam almoçar. Ele deve chegar por volta das três da tarde.
Concordei observando o relógio que já marcava quase duas da tarde e continuou.
- Bom, acho que está tudo pronto. Não sei como te agradecer por toda a ajuda.
- Lembre-se do nosso trato.
me lançou um sorriso cúmplice e concordou.
Ao invés de voltar para casa, decidi que eu definitivamente precisava comprar um presente para o moleque. Por sorte morávamos perto de um pequeno centro comercial e eu podia me virar por lá e encontrar algo que ele pudesse gostar.

Às três da tarde em ponto eu estava novamente na porta da casa vizinha vestindo uma calça jeans e uma camisa preta. Em minhas mãos eu tinha um livro bem embrulhado em um papel azul – tudo feito pela moça da loja, já que eu definitivamente nunca seria capaz de tamanha destreza. O livro havia sido recomendado pela vendedora da livraria, que me garantiu que uma criança da idade do Gabe adoraria a leitura.
- Olha só para você. - comentou após abrir a porta e me olhar de cima a baixo.
Qualquer que fosse a resposta que eu pudesse dar ficou presa em minha garganta com a visão que eu tive da minha vizinha em um vestido azul que ia até o joelho e tinha o decote perfeito para deixar a imaginação de qualquer um ir longe. Seus cabelos estavam presos em uma trança bem feita que estava caída sobre um de seus ombros.
Quando meus olhos encontraram os seus novamente eu notei seu rosto corado e um sorriso quase imperceptível em seus lábios. Talvez os meus olhos tivessem demorado um pouco demais em seu decote, mas, em minha defesa, eu estava realmente despreparado para uma visão tão estonteante.
- , não acredito que saiu para comprar um presente para Gabe. – Ela apontou o livro em minha mão. – Não precisava.
Dei de ombros. – É o mínimo que eu podia fazer.
- Sua ajuda com a arrumação já foi mais que suficiente. Gabe vai ficar muito feliz com a sua presença. Ele realmente te admira, sabe?
Foi a minha vez de sentir meu rosto esquentar. Não estava acostumado a ser admirado ou ao menos alegrar as pessoas com a minha presença. Desde que eu chegara a casa de Tito, as coisas pareciam estar mudando aos poucos, mas então eu pensava em Nico e sua gangue e lembrava o quão frágil tudo aquilo era, em um minuto tudo poderia ser tirado de mim e o medo era sufocante. Eu estava me apegando a uma realidade que, definitivamente, não me pertencia.
Os olhos de me encaravam e eu podia jurar que seria capaz de me perder na imensidão deles a qualquer momento. Sua feição serena fazia com que eu esquecesse minhas preocupações e só quisesse tê-la por perto em todos os momentos. Como ela conseguia me fazer digno de estar ali, compartilhando aqueles momentos, eu nunca iria entender.
- Gabe deve estar chegando em breve. Acha que ela vai gostar de tudo? Sei que deveria ter deixado ele escolher o tema, mas quis fazer uma surpresa.
olhou ao redor, suas mãos firmemente cruzadas demonstrando todo o seu nervosismo.
- Tenho certeza que ele vai amar tudo, .
Com a menção do seu apelido vi seus ombros relaxarem e ela abrir um sorriso comedido.
- Relaxe um pouco. – Sugeri, me aproximando dela.
- Honestamente acho que a única coisa que poderia me relaxar agora seria um pouco de vinho. – Ela riu do próprio comentário.
Observei caminhar pela sala ajeitando detalhes que só ela podia perceber que estavam fora do lugar, mas era claro que estava apenas tentando se distrair do estado de tensão que ela se encontrava.
Do lado de fora um barulho de porta de carro fechando chamou a nossa atenção e eu peguei o presente que havia colocado em cima da bancada, pronto para entregá-lo para o moleque, mas foi o namorado de que entrou pela porta. Seus olhos varreram a sala, registrando toda a decoração e ele tinha um sorriso estampado na cara, até que me viu parado com o presente de Gabe na mão.
- Então, o que achou? – perguntou caminhando até ele.
Benjamin olhou novamente a decoração e sorriu antes de beijar a têmpora da namorada e abraçá-la pela cintura.
- Está incrível, claro. Você é incrível.
abriu um sorriso genuíno e beijou os lábios do namorado rapidamente.
- Obrigada, mas não posso ficar com todos os créditos. me ajudou bastante.
Benjamin caminhou até mim e estendeu a mão. – E aí, cara.
Apertei sua mão e sorri educadamente.
Por sorte na mesma hora Gabe entrou pela porta com dois amigos e os três correram até a mesa com todas as comidas e decorações.
- ! – Gabe exclamou fazendo com que a irmã fosse até ele e lhe abraçasse enquanto ele apontava para todos os detalhes e sorria animado.
Depois de fazer um aperto de mão engraçado com o namorado de , ele correu até mim e me abraçou pela cintura.
- , você veio.
Apesar de ter sido pego de surpresa, eu o abracei de volta de forma desajeitada.
- Eu não perderia seu aniversário, pirralho. Espero que goste do presente. – Ofereci o livro em minha mão e ele aceitou com um sorriso enorme no rosto.
- Obrigado!
Não demorou para que a casa se enchesse de crianças, provavelmente amigos de Gabe da escola, e algumas mães e pais que resolveram também ficar a aproveitar a festa.
Eu já estava no quintal, observando Gabe brincar com os amigos e me sentindo completamente deslocado, quando Tito veio até mim e me abraçou de lado, seus dentes quase todos a mostra, tamanho era o sorriso que ele exibia. Depois de falar com Gabe e cumprimentar e o namorado, ele voltou para me contar todos os detalhes do seu encontro que, segundo ele, apenas serviu para comprovar que Martha – esse era o nome da escolhida – era realmente a mulher da sua vida. Não pude deixar de sentir uma ponta de inveja ao ver como seus olhos brilhavam enquanto ele contava sobre o que conversaram durante as muitas horas que passaram juntos.
- Ela é incrível, . Vamos nos ver novamente na Quarta-feira. Vamos para uma exibição de filmes do Charles Chaplin no parque da cidade.
- Fico feliz por você, cara. – Dei dois tapinhas em seu ombro, demonstrando o meu suporte.
Eu sabia que não adiantaria pedir que ele tomasse cuidado antes de ir se apaixonando loucamente por alguém que podia não sentir o mesmo que ele, só pelo modo como ele falava dela, era tarde demais para isso.
- E você, cara. Nenhuma mulher para conseguir derreter o seu coração de gelo? – Ele tocou meu peito com seu punho e eu ri divertido enquanto balançava a cabeça. – Nem mesmo aquela do seu trabalho?
- Não. Você sabe que ali foi apenas sexo.
Antes que eu pudesse continuar ouvi alguém limpar a garganta e surgir no meu campo de visão, sua feição revelando que ela estava embaraçada por ter ouvido o que eu havia dito.
- Posso oferecer um suco ou uma cerveja para meus vizinhos?
- Eu aceito uma cerveja, . – Tito respondeu não demonstrando notar o constrangimento da nossa vizinha.
- Eu estou bem. Obrigado.
Pelo resto da tarde eu tentei me manter distante de , não só pelo que acontecera, mas porque ela parecia contente em dividir seu tempo entre os pais dos amigos de Gabe, seu namorado e o aniversariante.
Depois de cantarmos os parabéns, eu aproveitei que Tito estava distraído em uma conversa com Benjamin e atravessei a pequena distância entre as casas para finalmente me isolar no conforto do meu quarto. Tito me conhecia o suficiente para saber que algumas horas em um ambiente cheio de crianças era o meu limite.
Apesar de o dia ainda estar claro - com a aproximação do verão estava escurecendo cada vez mais tarde – eu deitei na cama e tratei de me distrair com um livro antigo que eu já tentara ler diversas vezes antes, mas que naquele momento era o suficiente para afastar da minha mente qualquer pensamento indesejado, especialmente que envolvesse .
Na minha mente uma música - que tocara mais cedo enquanto arrumávamos a festa - na voz de Adele ainda declarava tudo que eu não conseguia me deixar confessar.

“You've been on my mind, I grow fonder every day
(Tenho pensado em você, me afeiçoo mais a cada dia)
Lose myself in time just thinking of your face...
(Me perco no tempo só pensando em seu rosto...)





Continua...



Nota da autora: Olá! Obrigada por dar uma chance à essa fanfic e ficarei extremamente feliz se puder deixar um comentário. Para ler spoilers, conhecer outras histórias minhas e interagir com outras leitoras, não deixe de participar do meu grupo no Facebook. Link abaixo. Beijos e até a próxima.



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