FFOBS - Colisão, por Cah (Kerouls)

Última atualização: 30/09/2018
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01 – Ela

- Cereal? – Perguntei, observando meu irmão mais novo concordar sem emitir nenhum som. – Ainda de mal comigo?
- Hum. – Gabe balbuciou, fazendo um bico adorável.
Três dias antes eu havia me recusado a comprar um boneco do Capitão América para ele, e desde então Gabe estava fazendo uma “greve de palavras”, como ele mesmo denominou. O único porém é que na maioria das vezes ele esquecia da tal greve e começava a conversar comigo como se nada tivesse acontecido.
Sorri sozinha e voltei minha atenção para o jornal aberto na mesa a minha frente.
Meia hora de greve de palavras depois, estávamos saindo de casa em direção ao ponto do ônibus. Gabe caminhava em silêncio ao meu lado enquanto eu tentava puxar conversa e fazê-lo voltar a falar comigo. Tudo isso por causa de um boneco estúpido que não valia metade do preço que estava sendo cobrado.
Observei enquanto Gabe tentava, sem sucesso, colocar o casaco com a mochila ainda nas costas. Comecei a contar mentalmente quantos segundos demoraria para que ele me pedisse ajuda, mas quando chegamos no ponto de ônibus ele ainda estava mudo. Três senhoras estavam sentadas no banco, o que fez Gabe bufar de frustração, provavelmente porque seu plano era colocar a mochila no banco e finalmente vestir o casaco. Peguei a mochila de suas costas e ele soltou um agradecimento sem emoção, finalmente vestindo o casaco.
Quando um ônibus parou a nossa frente as três senhoras se levantaram, fazendo com que Gabe corresse para o banco. Antes que eu me sentasse ao seu lado um garoto que parecia ter seus vinte-e-poucos anos desceu do ônibus e caminhou até mim, parecendo um pouco perdido. Estremeci, mesmo estando bem protegida do frio, aquele garoto tinha a palavra problema estampada desde suas roupas descuidadas até seu cabelo despenteado.
- Olá. – Falou. Sua voz era grave e o tom educado contrastava com sua aparência.
Sorri em resposta e o observei tirar um papel amassado do bolso de seu jeans rasgado.
- Você saberia dizer onde fica essa casa? – Entregou-me o papel.
Li o endereço escrito com uma letra apressada e descuidada e me assustei ao perceber que era o endereço da minha casa. Olhei novamente para o garoto em minha frente claramente confuso com a minha mudez. Observei rapidamente seu rosto que tinha uma feição dura. Seu cabelo desgrenhado caia em ondas por sua testa quase até cobrir seus olhos que não demonstravam nenhuma emoção. Não havia nada remotamente familiar em seu rosto ou em seu jeito.
- Tem certeza que esse é o endereço correto? – Finalmente falei.
O garoto-problema pegou o papel da minha mão e pareceu ler novamente o que estava escrito.
- Hm, certeza. – Falou, incerto. A contradição me fez querer rir, mas não o fiz.
Vi meu ônibus se aproximar e acenei para Gabe se levantar.
- Será que o Garcia me deu o endereço errado? – Ouvi o garoto falar para si mesmo enquanto alcançava o celular em seu bolso.
- Garcia? – Repeti. – Tito Garcia? – Ele balançou a cabeça, confirmando.
- Ele mora na casa 507, não 505. Vira a primeira esquerda e é uma das últimas casas da rua. – Apontei a direção, já pegando a mão de Gabe para subirmos no ônibus.
- Obrigado. – Ele murmurou sem esboçar um sorriso.
- Tenha um bom dia! – Falei, mais para provocá-lo. Nada como uma gentileza para amolecer um coração de pedra.
Olhei para trás a tempo de vê-lo fazendo uma reverência engraçada e um sorriso largo e sincero se formou em meus lábios.
- Quem era aquele? – Gabe perguntou, esquecendo-se de sua greve de palavras.
Dei de ombros. – Um estranho pedindo informação.
- Você sempre me diz para não falar com estranhos. – Ele me olhou, curioso.
- E eu acho bom que você continue não falando. – Pelo tom da minha voz ele percebeu que aquele assunto estava encerrado antes mesmo de começar.
Gabe me lançou um último olhar indignado e cruzou os braços, voltando sua atenção para o trânsito do lado de fora da janela.

**


Após deixar Gabe na escola, caminhei apressadamente para a estação de metrô. Antes de deixar meu irmão entrar na sala prometi que amanhã iriamos procurar outro boneco do Capitão América. Não queria deixá-lo ir para mais um dia de aula chateado comigo. A conversa foi rápida, mas não o bastante. Em uma segunda-feira o metrô não permite nem um minuto de atraso, só isso já é o bastante para estragar completamente a manhã de um começo de semana. Desci as escadas da estação pulando alguns degraus e cheguei bem a tempo de entrar em um dos vagões. Respirei aliviada e me segurei na barra de ferro acima da minha cabeça logo antes de o trem entrar em movimento.
Enquanto o metrô se movimentava eu tentei lembrar como era a minha vida antes dessa rotina. Escola, atividades extracurriculares, muitas festas, muitos estudos... Até o dia em que um acidente mudou a minha rotina para sempre.
Gabe e eu perdemos nossos pais em um acidente de carro quando eu tinha 18 anos recém completados e Gabe apenas 5. Desde então eu era responsável por ele e pelo nosso sustento. O sonho de ingressar na faculdade havia ficado para trás, era preciso trabalhar e assumir as responsabilidades que antes eram dos meus pais. Nosso avô era a única pessoa da família que tínhamos contato, foi ele que desde o inicio nos ajudou. Apesar de os nossos pais não terem nos deixado sem nada, não era possível manter o mesmo padrão de vida que levávamos antes.
Com o dinheiro que nos foi deixado era possível pagar a escola de Gabe e as despesas da pequena casa de dois quartos em que morávamos. Aprendemos a viver uma vida mais simples, mas éramos felizes ali. Tínhamos um ao outro e isso era mais importante que qualquer um dos luxos que costumávamos ter.
Meu avô fora um músico famoso entre os anos 70 e 80, sua banda não chegou a ser famosa internacionalmente, mas fora uma carreira de sucesso e que lhe rendera bons frutos e fez com que ele vivesse uma vida confortável até a velhice. Até hoje eu ainda encontrava alguns de seus álbuns em lojas especializadas. Minha avó, como não podia ser diferente, esteve ao seu lado durante seus anos de anonimato e durante seus anos de sucesso. Há aproximadamente doze anos um câncer a pegou de surpresa, ela batalhou até o final, mas a doença foi mais forte. Gabe nunca chegou a conhecê-la, mas as memórias de nossos passeios e viagens ainda estavam bem vivas minha memória.
A casa onde eu a meu irmão morávamos era originalmente de meus avós. Com parte do dinheiro que ficara de herança eu havia feito um acordo com meu avô e comprei a sua casa. Depois de toda a fama e sucesso eles resolveram morar em um bairro mais simples, queriam apenas aproveitar a vida juntos. Há alguns anos meu avô se cansara de morar sozinho, mudara-se para uma casa de repouso em um bairro um pouco distante. Lá ele tinha amigos, pessoas para conversar e era bem tratado, todos ali se lembravam da Rock Mist, sua antiga banda.
Confesso que por vezes desejava tê-lo por perto. O visitávamos uma vez por semana, mas apesar de três anos já terem se passado, ainda era difícil aceitar o fato de que eu ser o único adulto da casa. A parte egoísta dentro de mim queria poder sair e se divertir numa sexta à noite, ir com as amigas para a balada, tomar sol na praia em um domingo.
Pouco tempo depois do acidente dos meus pais eu conheci Benjamin, meu atual namorado. A presença dele ao meu lado foi o que me ajudou a perceber que eu poderia criar o Gabe, arrumar um emprego e viver uma vida normal. Nosso relacionamento, claro, era diferente dos outros. Não podíamos sair juntos sempre que queríamos, precisávamos de antemão ter algo planejado para Gabe. Às vezes ele dormia na casa de amigos da escola, na casa de vizinhos, outras vezes passava o dia com o nosso avô. Não existia uma divisão exata de tempo, Ben sabia que a minha atenção estava sempre voltada para o Gabe, meu irmão estava sempre em primeiro lugar. Na maior parte do tempo ele entendia esse e me apoiava, mas não posso negar já ter percebido alguns raros momentos em que ele deixava escapar um comentário ou até uma expressão facial que escancarava seu incomodo com a nossa situação fora do comum.
- Bom dia. – Cumprimentei o porteiro do antigo prédio comercial.
Nove andares acima estava o escritório de Joana Lottie, uma escritora que fora amiga dos meus avós, para quem eu trabalhava como assistente.
- Ah, ! – Joana acenou para que eu me aproximasse. – Que bom que você está aqui.
Seu rosto fino e já cheio de rugas entregava sua idade, apenas disso sua disposição e a forma como levava a vida com leveza mostrava que ainda tinha muitas coisas para viver. Seu cabelo vermelho encaracolado estava sempre com uma aparência bem cuidada, assim como suas unhas sempre pintadas de preto.
Sorri em resposta ao seu cumprimento, mesmo sabendo por seu jeito apressado que aquele não seria um dia fácil.
- Esvazie a minha agenda hoje. Surgiu um imprevisto, uma reunião de última hora. – Falou, já colocando a bolsa no ombro. – Cancele o encontro que eu teria com aquele editor, Carlos alguma coisa e desmarque a minha ginecologista. Hoje eu não apareço mais aqui, se alguém ligar diga que houve um imprevisto e que é inadiável. Mais tarde nos falamos!
Com isso ela me deixou sozinha na antessala de seu pequeno escritório. Martha, a moça responsável pela limpeza do prédio entrou na sala e me olhou, seus olhos confusos com a pressa de Joana. Levantei meus ombros, demonstrando que estava tão confusa quanto ela.
Depois de fazer tudo que Joana havia pedido, liguei para a fonoaudióloga de Gabe e confirmei sua consulta no final da tarde. Desde o acidente Gabe começou a ter alguns problemas na fala, depois de dois anos de sessões com a fonoaudióloga mal era possível notar, mas não queria que ele largasse o tratamento de vez. Apesar do acidente a minha meta era fazer com que ele vivesse uma vida normal e curtisse sua infância o máximo que pudesse. Quisera eu que alguém tivesse me dado esse conselho durante a minha infância e adolescência.


02 - Ele

Antes de virar a esquina olhei para trás uma última vez. A garota caminhava para a parte detrás do ônibus, acompanhada de um pirralho que parecia ser seu irmão. Apesar de seu olhar de dúvida, ela havia sido a única pessoa a não fingir estar distraída e arrumar uma desculpa para se afastar quando me aproximei.
Andei pelo caminho que ela havia indicado e observei as casas da rua. Nenhuma delas era muito fora do comum, aquela não era uma vizinhança de classe alta, longe disso, mas mesmo assim era muito diferente do lugar onde eu havia crescido. Aquelas pessoas não precisavam trancar as portas e janelas de casa o dia inteiro, ou se preocupar com brigas envolvendo traficantes e policia.
Bati na porta da casa 507 e esperei, ouvindo passos apressados do outro lado da porta. Tito apareceu na minha frente, seu rosto, ainda tão jovem quanto nos tempos de colégio, me trouxe lembranças boas de quando a vida era mais divertida e menos complicada.
- Meu garoto! – Falou, abrindo um sorriso e me dando um abraço apertado com fortes tapas em minhas costas. – Achei que não fosse acertar o caminho.
- É, me perdi um pouco. – Confessei. – Mas no ponto de ônibus uma garota me ajudou a achar o caminho. Eu estava com o endereço errado. – Mostrei o papel que estava em meu bolso.
- Essa é a casa da , minha vizinha. Foi ela quem te ajudou?
Dei de ombros, não fazia ideia do nome da garota que havia me ajudado e naquele momento não estava preocupado em saber.
Joguei minha mochila no sofá e olhei ao redor, reparando que apesar de Tito ter morado por um tempo com sua irmã, não havia nada feminino naquele lugar, e bagunça por algum motivo já me era familiar.
Tito me ofereceu um tour pela casa que não durou mais de um minuto. Além da sala, apenas os dois quartos, banheiro e cozinha. Como eu já havia reparado aquela era uma vizinhança simples, nada de luxos por ali.
Sentamos novamente no sofá e eu peguei o antigo violão que estava jogado por ali. Havia muito tempo desde a última vez que eu havia dedilhado um, nunca me parecera muito interessante, mas garotas gostavam de caras que tocavam algum instrumento e no lugar onde eu cresci quanto mais garotas aos seus pés você tinha, mais você era respeitado.
Percebi pelo olhar que Tito me lançava que ele queria perguntar como havia sido minha vida no último ano. Sufocante era a única resposta que eu poderia lhe dar, mas apenas as lembranças daquele lugar, o verdadeiro inferno na terra, me fazia estremecer.
- Noticias do Nico? – Ele finalmente perguntou.
Neguei, dando de ombros novamente.
Nico, meu irmão mais velho. Quando fui preso ele era o braço direito de um dos maiores traficantes do bairro onde morávamos, mas pouco tempo depois ouvi sussurros de que ele havia assumido a liderança depois de um conflito entre gangues. Desde o começo da adolescência esteve envolvido com o tráfico, o dinheiro que recebia era o único sustento da casa onde morávamos com nossa mãe. Eu sempre soube que quando chegasse a idade certa, eu também teria que ajudar no sustento da casa, mas diferente de Nico optei por arrumar um trabalho que não envolvesse nada ilegal e perigoso.
Não por muito tempo.
As imagens da noite em que Nico finalmente me convenceu a vender drogas em uma festa de universidade ainda me atormentavam diariamente. Honestamente tudo era apenas um grande borrão. As cápsulas de anfetamina em meu bolso, as garotas que me olhavam como se eu fosse o melhor partido da festa, a polícia invadindo o local e as algemas que deixaram cicatrizes em meus pulsos.
De tudo que passei durante o ano em que fiquei recluso da sociedade foram as imagens que vi no presídio que gravadas em minha mente. Um ano aprisionado e tratado como um vagabundo drogado, esquecido por minha mãe e meu irmão. Completamente fodido, largado no fundo do poço.
Peguei o maço de cigarro e perguntei se Tito tinha algum isqueiro por perto. Pensei que ele fosse reclamar por estar fumando dentro de casa, mas ele pegou um e acendeu também. Aquela casa definitivamente poderia virar meu novo lugar favorito.

***


A re-adaptação à vida fora de um presídio não era fácil, eu sabia disso. A sensação de estar sendo constantemente vigiado nos persegue a cada passo, o medo nos torna inseguros, faz com que duvidemos até mesmo de nossas sombras. Mas a pior parte é a procura por um novo emprego, a busca por uma normalidade.
O jornal à minha frente mostrava novas vagas em diversos setores, mas eu sabia que as chances de eu conseguir qualquer uma delas eram mínimas ou até mesmo nulas. Circulei algumas opções que me pareceram promissoras e peguei o telefone já me preparando para ouvir o outro lado da linha ficar mudo quando eu falasse que havia saído recentemente da prisão. Depois de seis tentativas frustradas rasguei o jornal e o joguei no lixo.
A frustração me consumia mais e mais a cada dia. Estava frustrado com as pessoas ao meu redor, com a minha vida medíocre, mas a minha maior frustração era comigo mesmo. Eu havia sido estúpido e ingênuo ao aceitar a oferta de Nico na noite em que fui preso. Havia sido fraco, cedendo facilmente a sua pressão, mesmo sabendo que aquilo acabaria com qualquer chance de um futuro digno que eu pudesse ter. Eu tinha um emprego, uma família, que por mais que fosse desestruturada era o mais próximo que eu podia chamar de lar. E tinha garotas, ou pelo menos uma garota... Barbie. Ela não se importava com o fato de eu não ter dinheiro ou com o fato de que eu não poderia lhe prometer um futuro digno. Barbie era a minha garota, provavelmente a única que me amara por eu ser quem era, a única que de fato queria a minha atenção, e não a do meu irmão. Ou pelo menos era assim que eu pensava, até o dia em que eu fui levado algemado em um carro de policia. Aquela noite foi a última vez que a vi. Nunca recebi uma visita sua no tempo em que fiquei preso.
Tito entrou pela porta do fundo e viu alguns pedaços do jornal pelo chão. Seu olhar de pena fez meu sangue ferver, mais um pra me frustrar ainda mais. Levantei da cadeira e sai pela porta onde ele entrara. A parte de trás da casa era apenas uma grama baixa, nada de flores ou árvores. A única coisa que separava as casas era um pequeno muro, tão baixo que até um poodle seria capaz de pulá-lo. Deitei na espreguiçadeira que estava no meio da grama e acendi outro cigarro, minhas frustrações pareciam fáceis de aguentar quando eu tinha um maço em meu bolso e um cigarro entre meus dedos.

***


- Eu posso conseguir algo pra você lá no barzinho onde eu me apresento nos fins de semana. – Tito comentou enquanto estávamos sentados na escada em frente à sua porta. Ele dedilhava seu violão e eu, para variar, descontava minhas frustrações em um cigarro. O olhei, concordando e sorrindo agradecido. Provavelmente seria uma perda de seu tempo, mas eu apreciei sua consideração.
Eu e Tito havíamos estudado juntos nos últimos anos de escola. Sua família era ainda mais fodida que a minha, todos os seus quatro irmãos eram envolvidos com gangues, seu pai fora preso acusado de pedofilia e sua mãe era uma alcoólatra inútil, não muito diferente da minha. Ele fugira de casa pouco antes de terminar a escola para tentar ser músico. Tito poderia não ser famoso, mas o fato de ele ter conseguido deixar tantas merdas pra trás me fazia admirá-lo. Nossas histórias eram parecidas, talvez por isso nos déssemos tão bem. Havíamos deixado para trás um passado difícil para tentar ser alguém na vida, a única diferença é que ele ainda tinha chances, enquanto eu havia acabado com as minhas.
Avistei uma garota se aproximar de mãos dadas com um moleque magrelo que não devia ter muito mais que uns oito anos. Eles conversavam relaxadamente, ainda sem notar nossa presença.
- Foi ela. – Falei, soltando a fumaça por entre meus lábios.
Tito me olhou sem entender. Indiquei a garota que agora estava virando para entrar na casa ao lado.
- Ela que me indicou a direção de sua casa no ponto de ônibus.
- É a minha vizinha, . – Falou, acenando para ela e recebendo dois sorrisos em retorno.
Senti vontade de rir quando vi que o pirralho estava banguela, sem um dos dentes da frente. A única recordação que eu tinha da época em que meus dentes estavam começando a cair era de quando meu irmão havia arrancado o meu dente da frente no meio da noite. Não lembro mais se doera ou se fora apenas pelo susto, mas eu chorei até o dia seguinte.
- A aula de violão amanhã ainda está de pé? – perguntou enquanto destrancava a porta de casa. Tito confirmou e o pirralho, que eu ainda não fazia ideia do nome, comemorou, mostrando novamente seus dentes... Ou a falta deles.
- Já levou essa pra cama? – Perguntei, depois que os vizinhos entraram na casa.
Tito soltou uma risada nasalada e balançou a cabeça negativamente. Lembrei-me dos tempos de colégio em que nós éramos um tanto quanto populares com as garotas e desejei poder voltar no tempo, nem que fosse apenas por um dia. Se eu soubesse a volta que a minha vida daria, teria aproveitado mais aquela época.
- Nah, desde que ela se mudou para cá, um tal de Benjamin fez questão de deixar claro que é o namorado dela. – Explicou. – Ele é um dos engravatados, sempre desfilando por ai com um carro conversível.
- Pra mim esse é só mais um motivo para levá-la pra cama. – Ri.
- E eu não poderia concordar mais, mas ela nunca me deu bola. Quem sabe você não tem sorte?
Tito me deu alguns tapinhas nas costas e me deixou sozinho com meus pensamentos.
Sorte.
Há algum tempo essa palavra fora extinta do meu dicionário.

***


Por incrível que pareça existem duas coisas muito difíceis de acostumar depois que você passa certo tempo dividindo uma cela com outros caras; uma cama minimamente confortável e o silêncio no meio da noite.
Meus olhos abertos vasculhavam a escuridão do quarto, acostumando-se com os detalhes, a arrumação dos poucos móveis, a pouca claridade que entrava pela janela. Tudo naquele quarto parecia despertar minha atenção e afastar meu sono. O zumbido em meus ouvidos fazia com que o silêncio fosse agoniante, ainda mais alto que o barulho de outras pessoas roncando, conversando ou brigando.
Virei de lado e coloquei o travesseiro na minha cabeça, fechando os olhos com força, numa tentativa frustrada de apagar de uma vez. Quando nenhuma das minhas tentativas funcionou, peguei o maço de cigarro e fui novamente para a espreguiçadeira do lado de fora da casa.
Soltei um palavrão pesado ao sentir o ar extremamente frio atingir meu corpo coberto apenas pela cueca e uma camisa de manga curta. Deitei na espreguiçadeira acendendo o cigarro e relaxando, ignorando o frio e o fato de estar começando a chuviscar.
Depois de três cigarros finalmente me senti relaxado o suficiente para voltar pra cama e finalmente apagar até o dia seguinte. Antes de entrar em casa reparei que no jardim vizinho havia uma cadeira que estava ocupada pela irmã do pirralho banguela. Ela lia um livro, parecendo alheia ao que acontecia ao seu redor. Fiquei com vontade de ir até lá e perguntar se ela queria me dar uma mãozinha no meu problema de insônia, nada como umazinha para me fazer dormir tranquilamente, mas achei melhor não.
Deitei na cama, sentindo o corpo definitivamente mais relaxado do que antes. A última coisa que me recordo é de ter me revirado algumas vezes antes de finalmente cair num sono sem interrupções. Nada de roncos, conversas ou brigas. Depois de tantos meses eu finalmente pude voltar a dormir pesadamente e sem medo de não acordar na manhã seguinte.


Continua...



Nota da autora: ‘Ello! Segundo capitulo sendo enviado para a beta antes de a fanfic entrar no site então não sei o que escrever aqui haha Se você está lendo isso depois de ler os dois primeiros capítulos, então obrigada por dar uma chance a minha história. Só queria dizer que ela é altamente influenciada pela trilogia Perfect Chemistry (Quimica Perfeita no BR – os dois primeiros livros já publicados por aqui) da Simone Elkeles. Li os livros em 2012 e, como disse na nota da atualização anterior, foi quando eu comecei a escrever essa história. Ah, a trilha sonora dela é definitivamente You Found Me do The Fray. Enfim, não esqueçam de deixar um comentário para que eu possa saber a opinião de vocês. xx





Outras Fanfics:
2030 (Outros - Finalizada)
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Ai que honra poder betar mais uma história sua, Cah! Já sei que teremos mais uma história incrível. ♥
Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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