Última atualização: 28/12/2018

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C.A: 1 ao 23.


[Capítulo Vinte e Quatro]

— Eu ainda não acredito que isto esteja acontecendo — eu disse em um tom baixo, quando vi adentrando a nossa casa, acompanhado de , que empurrava a cadeira de rodas que o meu irmão usaria para o resto de sua vida.
— Pare de falar nisso e sorria para ele — disse, enquanto balançava um balão azul e acenava para , que parecia meio desconcertado. — Ele precisa de forças e não de dó. — ela foi a primeira a dar um abraço nele, o deixando mais à vontade com o clima festivo.
— Estão dando uma festa pra mim? — ele perguntou, surpreso.
— Para comemorar a volta do nosso filho para casa. — tia Audrey se aproximou dele, o abraçando com cuidado. Parecia estar com medo de machucá-lo.
— É um alívio saber que você está bem. — tio Michael apertou a mão do meu irmão.
— Vai ser difícil andar de bicicleta agora, hein irmão. — brincou, me fazendo dar uma tapa nele. — Ai! — ele reclamou, enquanto alisava seu braço e empurrou as rodas da cadeira, se aproximando de mim.
, tá tudo bem. — ele segurou minha mão e eu desviei o meu olhar em direção a escada. Não queria chorar na frente dele, mas vê-lo assim corta o meu coração. — Não é como se a gente não soubesse que eu vou precisar de me carregando na garupa da bicicleta dele.
— Eu não sabia dessa parte, não hein. — meu namorado reclamou, me fazendo rir fraco e eu finalmente tomei coragem de olhar para o meu irmão, não conseguindo mais segurar as lágrimas.
— Por que você tá chorando? — ele franziu a testa, me puxando para um abraço. O abraço mais demorado que já demos, em toda a nossa vida. — Não fique assim, eu tô bem, .
— É isso que importa pra mim, você estar bem — suspirei, tentando me recompor e me afastei dele, secando minhas lágrimas. me abraçou de lado e tia Audrey deu um passo à frente.
— Sei que estamos todos muito emotivos, mas vamos comer a torta de morango que eu fiz com tanto carinho para o meu filho.
— Obrigado, mãe. — disse brincalhão, indo abraçar a mãe.
— Sai bastardo, eu estou falando de ! — tia Audrey deu uma tapa na mão do meu namorado e foi para a cozinha, deixando os outros dando altas gargalhadas na sala. logo foi atrás da mãe.
— Parece que o seu namorado tá meio carente. — comentou , enquanto víamos meu pai e tio Michael ainda rindo de , que tentava se defender.
— Ele tá assim há dias.
— Já sei o que aconteceu. — eu o olhei, confusa — Você se afundou em tristeza e deixou de lado. — quando eu ia responder, ele me deu uma resposta — Isso não foi nada legal, hein.
— Eu não o deixei de lado, só precisei de um tempo pra mim. — meu irmão ergueu as sobrancelhas e eu suspirei — Eu estava muito pilhada, mas não queria descontar isso em .
— Então diga isso a ele. — meu irmão me deixou sozinha, indo para a cozinha.

Fiquei observando conversando com e tio Michael, tão alegre e gentil, sensível e dono de um sorriso lindo.

— Se babar mais um pouco serei obrigada a tirar uma fralda do meu bebê pra te dar. — surgiu ao meu lado, me dando um leve susto — Que bonitinho você o olhando toda apaixonadinha.
— Cala a boca! — eu dei uma tapa em sua perna e ela riu fraco — E sim, eu tô completamente apaixonada pelo seu irmão.
— Que bom ouvir isso — ele disse, sorrindo abobalhado — Porque eu também me sinto assim em relação a você.
— Ih, já vi que tô sobrando, tchau. — rolou os olhos e retornou para a cozinha.
— Eu quero conversar com você — ele já ia puxar um banquinho para se sentar ao meu lado — A sós, . Vamos para o meu quarto.
— Para onde vocês pensam que estão indo? — meu pai perguntou, nos olhando torto.
— Para o meu quarto, pai. — eu respondi óbvia e ele bufou.
— Deixe os meninos, . Você sabe que eles são os mais ajuizados! — tio Michael falou, bebendo um pouco de suco e meu pai deu de ombros, dando uma grande golada em sua bebida. No fundo, ele sabe que é verdade.

Eu subi, puxando meu namorado pela mão e adentramos o quarto, que ainda estava escuro. acendeu a luz e logo se encarregou de fechar a porta, eu apenas abri a janela para o vento fresco circular pelo quarto e sentei-me em minha cama.

— Eu nem acredito que o seu pai nos deixou subir. — ele disse aliviado, se sentando à minha frente.
— Pois é, nem eu. — nós rimos um pouco e eu me ajeitei na cama, pigarreando. — Bem, o que eu tenho a te dizer é que eu sinto muito por ter me afastado de você nesse tempo em que o meu irmão esteve no hospital.
— Eu só queria te apoiar, te dar forças.
— Eu sei — ele assentiu, concordando — Mas eu precisava de um tempo só pra mim.
— Era só você ter falado, . Não precisava ficar me evitando. — ele disse um pouco magoado e eu segurei em suas mãos — Mas eu sabia o que você queria, então eu te dei esse espaço.
— Sim, você foi maravilhoso comigo, como sempre. — ele forçou um sorriso e eu selei nossos lábios — Eu não quero que você continue pensando o que eu sei que tá pensando. — tentou se explicar, porém eu fui mais rápida — Você é a pessoa mais especial que eu conheço e eu gosto tanto de você, que nem consigo pensar em meu futuro sem que você esteja nele. E eu sei que você pensa que eu não gosto de você o suficiente, mas não é verdade.
— Tudo bem. — disse num tom não convincente.
— Ei, eu falo sério. — segurei em seu rosto, o olhando nos olhos e ele fez o mesmo — Sei que eu nunca te disse isso, mas eu te amo, de verdade. — confessei, percebendo a sua emoção.
— Eu também te amo, . — ele sorriu largamente e com lágrimas contidas em seus olhos, me beijou de forma doce e apaixonada.

Os minutos foram se passando e nós aprofundamos o beijo, que começou a tomar uma intensidade maior e eu já sentia o meu corpo inteiro pulsar. Nossos corpos se juntaram, rapidamente e logo fomos escorregando pela cama, eu já não tinha mais noção de nada fora do meu quarto. acariciava a minha pele e eu me arrepiava mais a cada toque que recebia dele, sentindo a respiração ficar falha, era uma mistura de sentimentos. Uma mistura boa de sentimentos.
Ele parou o beijo e se afastou um pouco, ficou me observando durante alguns segundos, sem dizer absolutamente nada, apenas acariciava o meu rosto como se estivesse memorizando cada parte dele e fixou seu olhar no meu. O olhar que eu acho tão charmoso e sedutor, o mesmo olhar que consegue falar coisas que talvez jamais teria coragem de dizer, mas que pelo olhar conseguia. Ah, que olhar!
Sorri ao parar para pensar no quão sortuda eu sou por tê-lo em minha vida e ele fez o mesmo, talvez pelo mesmo motivo, ou não. Mas ele sorriu de um jeito fofo, abobalhado e eu o puxei para um abraço.

— Obrigada — eu sussurrei em seu ouvido, o vendo se arrepiar no mesmo instante.
— Pelo que? — ele sussurrou de volta, me causando o mesmo efeito.
— Por existir, por estar em minha vida, por ser você — eu suspirei mais forte. — Por tudo.
— Eu que te agradeço, apenas por ser a , só por este fato eu já te amo. Mas então, você além de ser uma pessoa incrível, resolve me amar — ele riu fraco, me fazendo sorrir e levantou a sua face, me olhando nos olhos, novamente — Eu devo ser o cara mais sortudo desse mundo. — aproximou os seus lábios dos meus e prestes a me beijar, ouvimos algumas batidas impacientes na porta. — Estava bom demais para ser verdade.
— Ah, não reclame, foi o maior tempo que já ficamos juntinhos assim, em paz.
— É verdade — ele concordou, me beijando rápido.
, é melhor abrir logo esta porta, antes que eu a coloque abaixo. — ouvimos a voz do meu pai, parecia nervoso, como sempre.

Empurrei de cima de mim e levantei-me num pulo, ajeitando a minha roupa e o meu cabelo, por mais que não tivesse acontecido nada demais, o meu pai é muito encucado com as coisas. Aposto que já estava pensando o pior.
Fiz sinal para o meu namorado arrumar a cama e se sentar normalmente, e assim ele fez. Respirei fundo e abri a porta, me deparando com um bem irritado.

— Que foi, pai?
— Por que demorou tanto para abrir a porta?
— Sabe o que é, tio
, eu perguntei pra ela — meu pai disse firme, sem tirar os olhos de mim.
— Nós estávamos conversando sobre o tempo em que ficou no hospital.
— E precisa trancar a porta pra conversar?
— Sim, eu não queria que fôssemos interrompidos, mas não deu muito certo. — eu disse simples e ele respirou fundo.
— Tudo bem, desculpa.
— O que? Não entendi. — me fiz de desentendida.
— Vai mesmo me fazer repetir? — eu dei de ombros, quase rindo da situação e ele bufou. — Desculpa, tá ok?!
— Tá bom.
— Agora, gostaríamos que vocês descessem para passarmos um tempo em conjunto. Seu irmão tá bem e feliz de ver todos reunidos, vamos lá ficar com ele e alegrá-lo ainda mais. — eu assenti, chamando para descermos e meu pai foi à frente.
— Você é a minha heroína! — sussurrou, me fazendo rir fraco.
— Ah, os pombinhos chegaram — tia Audrey sorriu gentilmente e eu olhei para o meu irmão, dando uma piscadela e ele assentiu, sorrindo de lado. — Quase não sobrou torta, , Michael e comeram a metade, sozinhos.
— Na verdade, foi a quem comeu a maior parte. — falou, olhando para a namorada, que fez uma expressão de indignação.
— A culpa não é minha, vocês sabem que agora eu como por dois.
— Ah, esse é o novo argumento da , ela o usa para tudo. — brincou, levando uma tapa da irmã — A agressividade também aumentou.
— É verdade, Audrey, penso até que daqui a um tempo, precisaremos colocar essa menina em uma jaula. — tio Michael disse em um tom divertido, arrancando altas gargalhadas de todos, menos da . — Papai está brincando, filhota.
— Sei — ela disse, emburrada e tio Michael a puxou levemente, dando um beijo em sua testa.

Depois de ficarmos conversando sobre como está se sentindo, como nós nos sentimos enquanto ele estava no hospital, sobre como serão as coisas daqui para frente, durante horas, eu e ajudamos tia Audrey a fazer o jantar, que foi uma macarronada maravilhosa, todos eles retornaram para as suas casas, deixando uma pilha de louça imensa para eu lavar.

— Pai, não acha que precisamos de uma colaboradora nos serviços de casa? — perguntei, encarando a pia cheia e suja, que mais parecia um monstro.
— Não, eu acho que a gente sabe se virar bem. Não vejo necessidade. — ele respondeu simples, colocando mais um copo em conjunto com o resto da louça — Aliás, eu vou cortar todos os gastos excessivos a partir de agora, temos que pensar na recuperação do .
— Pai, você sabe que os médicos disseram que não vou voltar a andar, a fisioterapia é uma perda de tempo.
— A fisioterapia será ótima pra você, manterá os seus membros inferiores firmes e quem sabe…
— Eu entendo a parte de me exercitar para manter a boa saúde, mas voltar a andar é outra coisa e eu não quero me iludir. — olhei para o meu irmão, mas ele não demonstrava tristeza por sua situação. — E, sinceramente, eu já tô bem conformado com isso. Terei que em adaptar a uma nova vida, mas tudo bem, pelo menos ainda tô vivo e vou ver meu filho nascer e crescer bem. — meu pai apertou o ombro de e respirou fundo, parecia emocionado. Emocionado até demais.
— Você está sendo um exemplo para todos nós, filho. — ele pegou o mesmo copo que acabara de colocar na pia e despejou uma generosa quantidade de bebida no objeto.
— Pai, vai continuar bebendo? — eu perguntei preocupada e ele abanou a mão desocupada.
— Eu bebi pouco hoje.
— E nos outros dias? Os que eu estava no hospital? — parecia curioso.
— Ele abusou do álcool, como sempre e…
, fica quietinha, filha — ele terminou a bebida em uma só golada e coçou a cabeça — Eu vou dormir agora, boa noite.
— Boa noite — e eu dissemos em uma só voz, vendo cambaleando até chegar ao seu quarto.
— Ele piorou desde que eu fui para o hospital?
— Com as drogas eu não sei bem, mas como ele sempre se esconde pra usá-las, acho que todas as saídas que ele deu, com a desculpa de que precisava espairecer, deve ter exagerado sim. — eu contei a verdade ao meu irmão e ele suspirou forte — Mas com a bebida, eu tenho certeza, a prova foi agora. Ele bebeu hoje desde que você chegou do hospital e sem parar.
— Ah — meu irmão respirou fundo — Isso será um problema!
— Eu sei, mas não se culpe pela piora dele. — assentiu — Sabemos que ele faz tudo isso pra fugir dos problemas, mas acaba se arrependendo depois.
— Sim, mas eu não me culpo por isso mesmo, e nem por nada. — ele me olhou firme — Primeiro porque eu não pedi pra ser baleado, muito menos tentei cometer suicídio, quem fez isso comigo foi a nossa mãe.
, pode parecer mentira o que eu vou dizer agora e isso não ameniza a raiva que eu tô sentindo daquela mulher, mas ela realmente não quis te acertar. — meu irmão tentava segurar as lágrimas — Ela ficou ainda mais perturbada por achar que matou seu próprio filho e agora tá em um Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico, mas a situação é lamentável.
— Eu sei que não foi a intenção dela me balear, ela achou que acertaria o meu pai — passei as mãos pelo rosto, lembrando do dia que tudo aconteceu — Apesar disso, eu não sinto raiva dela, pelo contrário, eu a amo e me dói muito saber que ela tá nesse estado. Eu queria tê-la por perto, ainda mais agora que ela terá um netinho.
— Eu sinto muito alívio por estarmos todos longe dela, é mais seguro assim. — eu confessei, vendo o meu irmão se esforçando para não dizer nada. Eu sei que ele não gosta quando eu falo dessa forma, mas é como me sinto. — Desculpa , mas como você pode ser assim? Como pode estar tão tranquilo? Aquela mulher te deixou paraplégico, isso é para o resto da vida. Você tem noção de como eu tô me sentindo vendo você assim por causa dela? — comecei um choro fraco, mas que tomava intensidade a cada palavra dita — Eu queria dizer umas verdades na cara daquela mulher. Eu queria confessá-la tudo que ela me faz sentir de ruim. Eu queria dizer a ela o quanto a sua ausência contribuiu para o meu estado psicológico ser péssimo. Eu queria… — me puxou para um abraço e eu me ajoelhei, desabando em seus braços. Chorei tão forte que se o meu pai não tivesse tão bêbado, já teria descido com seu taco de beisebol, achando que alguém tinha invadido a casa.

Ficamos durante um bom tempo em silêncio, compartilhando a dor um do outro e sendo amparados pelo abraço acalentador que ainda nos mantinha unidos. Meu irmão se afastou um pouco para me olhar e secou algumas das minhas lágrimas, que não paravam de cair.

— Você acha que eu gosto de estar em uma cadeira de rodas, sabendo que vou usá-la pelo resto da minha vida? — eu ia respondê-lo, mas ele não me deu tempo — Você acha que eu gosto de ter uma bala alojada no peito, sabendo que ela passou pela minha clavícula e coluna, estraçalhando uma das minhas vértebras e me deixando no estado em que eu tô agora? — segurei firme em suas mãos, o olhando nos olhos — Essa mesma bala quase atingiu o meu coração, mas eu tô aqui agora e bem, tô vivo. Não vou mais andar e ainda é um pouco difícil pensar em como será daqui pra frente, mas a vida não acaba por isso, eu só preciso me acostumar com a nova adaptação das coisas e, , do que adiantaria eu me desesperar por estar assim ou me enfurecer com a minha mãe? Nada, eu continuaria da mesma forma, só que muito amargurado.
— Desde que ela saiu de Keoursna e veio pra cá, as coisas começaram a piorar em nossa vida.
— Ela precisava da nossa ajuda, a gente já devia ter notado que o comportamento dela não era normal.
— Agora a culpa é minha? — meu irmão rolou olhos, respirando fundo.
pare, eu não disse isso. A culpa não é nossa e nem dela, nossa mãe já estava doente, podia ter feito isso contra ela mesma. — eu arregalei os olhos — Só tô tentando dizer que ela foi vítima de sua própria loucura e sinceramente, eu já a perdoei pelo que aconteceu.
— É difícil pra mim — eu coloquei as mãos no rosto, bufando.
— Eu sei, mas se eu que fui o maior atingido por isso tudo tô com o coração livre da amargura, você também pode liberar o perdão. — eu encarei o meu irmão — Sei o que você tá pensando, mas sim, eu já perdoei também. E temos que ajudá-lo a vencer esses vícios.
— Você realmente mudou.
— Quando a gente se vê tão perto da morte, começa a pensar no que realmente vale a pena em nossa vida. E eu acho que vale a pena deixar de nutrir mágoas e tentar aproveitar ao máximo da segunda chance que me foi dada. — eu assenti, pensativa. — Só quero estar bem com quem eu amo e deixar as diferenças de lado, porque no fim das contas, o amor é o que conta.
— Eu te amo, — o abracei por mais uma vez.
— Eu também te amo, irmãzinha. — eu me afastei, segurando em suas mãos — E pra te provar o meu amor, vou te ajudar com a louça.
— Ah, obrigada gentleman.

Eu lavei toda a louça, tentando ser o mais rápido que podia e foi secando todos os utensílios. Como os armários agora ficam fora do alcance dele, eu guardei tudo direitinho e saímos da cozinha.

Fiquei meio pensativa sobre como eu levaria meu irmão para o seu quarto, já que o meu pai já tinha ido para o seu e eu provavelmente não teria forças para subir pela escada. Também não pagaria para ver, eu jamais tentaria algo arriscado assim, imagine se eu o derrubo. Mas, acho que pior ele não pode ficar… Ou pode?

Ri um pouco de nervoso por não saber o que fazer e ele ficou me olhando confuso.

— O que foi, estranha?
— Não sei como eu farei pra te subir.
— Não se preocupa, não, eu durmo aqui pelo sofá mesmo. — ele andou com a cadeira e ajeitou algumas almofadas no cantinho.
— Ficou maluco? Esse sofá é horrível, você sabe que ainda não comprou um novo!
— Relaxa , eu nem devo sentir dor na coluna mesmo. — ele riu despreocupado e eu dei uma tapa em seu braço — Eu tô brincando, ao contrário do que pensam, eu sinto muitas dores pelo corpo. É até meio estranho, mas o médico me passou alguns remédios para aliviar.
— Eu vou te levar para o seu…
, eu durmo aqui tranquilamente, não se preocupe tanto comigo. — ele se segurou no sofá e fez força nos braços para sustentar seu corpo por alguns e se sentou. Quando eu estava prestes a ajudá-lo a colocar as pernas pra cima, ele me impediu de continuar — Deixa que eu me viro, tenho que acostumar. Mas, de qualquer forma, obrigado.
— Então, eu vou dormir aqui contigo — subi rapidamente para pegar nossos cobertores e retornei à sala, logo cobrindo e pegando algumas almofadas para as ajeitar no sofá. Desliguei a luz e me deitei no outro sofá, de frente para meu irmão.
— Você tem certeza que quer dormir aqui?
— Sim — eu me ajeitei no local. Estava desconfortável, mas eu conseguiria ficar, é só por uma noite. — Vamos aproveitar esse tempinho para conversar mais um pouco, eu senti a sua falta enquanto estava no hospital.
— Tudo bem, mas você tem aula amanhã de manhã.
— Não tem problema, não. — eu suspirei.
— E como tá se saindo na recuperação das notas?
— Já consegui recuperar duas com os trabalhos, mas tá realmente difícil. São muitas matérias difíceis e para cada disciplina eu preciso de muitos pontos, é bastante puxado, mas eu acho que tô me saindo bem. — eu pensei um pouco, lembrando do trabalho de geografia que eu tenho que entregar amanhã. — E como foi o seu reencontro com a , hein? Como se sentiu? — fiquei um tempo esperando pela resposta — — o chamei, estranhando o seu silêncio — ?

Não obtive resposta do meu irmão e deduzi que ele já estava dormindo, e o deixei descansar. chegou do hospital, mas não teve tempo de relaxar, então ele precisava dessa noite tranquila de sono, e eu também. Já sabia que o dia seguinte seria mais tenso, as aulas sempre são tensas.

, acorda — meu pai me chamou com a voz baixa, quase em um sussurro.
— Ai! — senti uma pontada forte nas costas ao tentar me sentar no sofá, enquanto o resto do meu corpo estava todo dolorido.
— Não grita não, filha, eu estou morrendo de dor de cabeça. E o seu irmão ainda está dormindo. — passou a mão pela cabeça, parecia péssimo — Sinto como se eu tivesse sido atropelado por um caminhão, mas a dor ficou só na cabeça.
— A dor é apenas uma ilusão da mente — eu sussurrei uma frase de The Mentalist e me remexi, tentando levantar com a coluna reta — Nossa, mas essa ilusão tá bem realista! Parece que eu levei uma surra das bravas.
— Não olha pra mim, esses tempos já acabaram. E eu também não teria condições de levantar um braço, estou moidinho. — ele disse ainda em um tom baixo, me mostrando a mesa já posta com o café da manhã. — Seja bem rápida, eu vou te levar pra escola antes de ir trabalhar.
— O vai ficar sozinho? — eu o olhei preocupada, enquanto subia os degraus lentamente para a dor não piorar — Eu não acho seguro.
se ofereceu para ficar com ele, por enquanto, mas sabemos que ele irá precisar de uma enfermeira.
— Ele não vai gostar nada disso.
— Eu sei, mas não vamos poder estar com ele sempre, por isso é melhor ter alguém o auxiliando por tempo integral.
— Eu tô ouvindo tudo que vocês estão dizendo, porque a não sabe falar baixo e me acordou. — suspendeu seu corpo e ficou sentado, coçando os olhos e eu parei no meio da escada. — Eu não vou precisar de uma babá, ok?!
— Ah, que ótimo, porque eu vou contratar uma enfermeira.
— Que droga, pai!
— Olha a boca, moleque! — elevou o tom de voz, mas logo o normalizou, já que a sua ressaca estava acabando com ele. — Eu sei que você acha que pode fazer tudo, sozinho, mas agora as coisas serão diferentes, . — meu pai me olhou e fez sinal para eu subir, com certeza teria alguma conversa mais séria com meu irmão.

Adentrei o meu quarto, notando que eu tinha deixado a janela aberta desde o dia anterior, coisa que eu não costumo fazer, mas nem me dei conta até voltar ao quarto. Tomei um banho rápido e vesti o uniforme, coloquei o meu trabalho de geografia dentro da mochila, que estava uma bagunça e desci rapidamente.

— Quer ajuda aí? — perguntei ao meu irmão, o observando tentando se sentar na cadeira de rodas, sozinho.
— Não, eu consigo.
— Onde tá o meu pai?
— Ele foi até a dispen… — foi interrompido pelo tombo que levou e eu corri para ajudá-lo, o que o deixou mais irritado. — Deixa, eu consigo. Tenho que aprender a me virar sozinho, de qualquer forma.
— Mas que barulho foi es… — meu pai invadiu a sala, assustado e se deparando com caído — Pelo amor de Deus, filho. Se machucou? — tentou levantar meu irmão, mas o mesmo o impediu.
— Eu vou conseguir, só me solta. — meu pai o ergueu no colo com muita facilidade, já que o mesmo possui uma força incrível, e colocou sentado na cadeira, o deixando furioso. — Por que você fez isso?
— Ainda é tudo muito recente, você precisa se habituar à nova vida e vai precisar de ajuda, sim.
— Mas eu…
, deixa de ser orgulhoso, não é hora para isso. — meu pai se levantou, empurrando a cadeira até a mesa da cozinha. — Toma o seu café da manhã com tranquilidade e vê se relaxa, o dia apenas começou e ele pode melhorar.
— Verdade. — eu disse.
, por que você tá andando toda torta? — perguntou estranhando o meu andar e fazendo me olhar e começar uma risada meio alta. Fiz careta para ele e me sentei à sua frente, comendo algumas rosquinhas. — Não grita, não criatura, parece que a minha cabeça vai explodir.
— Eu tô dolorida por causa do sofá.
— Eu sabia que isso iria acontecer — meu irmão disse, bebericando seu café. — Pai, toma um pouco de leite, acho que vai melhorar a sua situação.
— Desde quando leite melhora ressaca?
— Não sei, mas leite é bom pra tudo, então pior do que você já tá não pode ficar. — meu pai bufou, jogando o café do seu copo na pia e despejando um pouco de leite no mesmo, logo bebendo. — Meu dia vai melhorar quando a vier aqui, ainda bem que a casa vai ficar livre pra nós dois. — meu pai parou de beber o leite e encarou o meu irmão, de sobrancelhas erguidas, me fazendo rir.
— Quando eu disse que o dia poderia melhorar não foi me referindo a isso. — ele terminou de tomar o líquido e deixou o copo em cima da pia. — , vamos.
— Tá bom. — peguei algumas rosquinhas para ir comendo no carro e joguei minha mochila nas costas. Dei uma tapa em , o fazendo reclamar por ter derramado um pouco do seu café sobre a mesa e segui meu pai até a garagem.

No intervalo da aula, me sentei em um dos banquinhos de sempre na pracinha, para lanchar e fiquei pensando no quanto a nota que eu recebi do professor Ramal pelo trabalho de geografia me ajudaria para me recuperar mais nessa disciplina. Terminei de me alimentar e saí da pracinha.

Passando pelo corredor, encontrei diretora Dinah mais animada que o seu normal, o que foi estranho, já que ela é conhecida por ser séria e mandona.

— ela me chamou, mas eu fingi que não escutei e continuei caminhando — Sei que está me ouvindo. — parei de caminhar e me virei, a olhando desconfiada. Me aproximei dela, já temerosa por alguma possível bronca, mesmo eu não tendo feito nada de errado. — Gostaria de saber como será o jantar hoje?
— Jantar? Hoje?
— Sim, seu pai me chamou para jantar com vocês hoje à noite, mas não quero me vestir tão formalmente, por isso perguntei.
— Por isso ele quis me trazer de carro. — eu disse em um sussurro.
— O que disse? — diretora Dinah me olhou simples.
— Não precisa se preocupar com a roupa, apenas vista o que te deixa confortável.
— Mas eu me sinto confortável com as roupas que costumo usar aqui na escola — ela disse, erguendo as sobrancelhas e eu a olhei dos pés à cabeça. Vestia uma saia preta e justa até os joelhos, com uma blusa social vermelha de mangas compridas, porém dobradas, e o salto fino preto. Além dos seus acessórios, que eu diria ser de ouro.
— Não tem importância, pode ir assim. — eu forcei um sorriso e ela suspirou.
— Bem, estou um pouco ansiosa — ela parecia realmente empolgada, para a minha surpresa. — Ah, eu soube que voltou para casa ontem, espero não ser uma visita incômoda.
— Não, claro que não. Você é a nossa convidada e será muito bem-vinda. — eu disse, pensando em como meu irmão reagiria à nova talvez futura namorada do meu pai.
— Diretora Dinah — uma voz conhecida nos interrompeu. Olhei para trás de mim e lá estava Halston, vestindo uma bermuda jeans escura e curta com uma camiseta amarela e tênis escuro. — Gostaria de conversar com a senhora. — ela ajeitou seu cabelo, que estava solto e me olhou de forma serena.
— Claro, pode entrar na minha sala. — diretora Dinah deu passagem para Halston e me olhou, sorridente. — Nos vemos à noite.
— Até mais. — eu disse e ela assentiu, entrando logo após.

As aulas terminaram e eu já saía da sala, colocando minha mochila sobre as costas, quando avistei Halston sentada em um dos bancos perto da direção. Quase não havia alunos por conta das férias por isso eu tinha uma boa visão do pátio. Só os menos disciplinados ficavam na escola durante o período de férias para recuperar notas e frequência e, no meu caso, eram as duas coisas.

Caminhei pelo corredor quase vazio e a olhei novamente, ela fez sinal para mim.

— Preciso falar contigo.
— Ficou me esperando? — ela assentiu. Ora, a Halston jamais faria isso antes. — Por qual motivo?
— Eu decidi levar a gravidez adiante — disse como se estivesse tirando um peso de suas costas e suspirou alto, me sentei ao seu lado. — Eu contei aos meus pais e no começo foi bem difícil, eles discutiram bastante e eu levei muita bronca, mas ele me acolheram. No fim das contas, não havia muito o que fazer, mas eles me obrigaram a contar a Drew.
— E qual foi a reação dele?
— Drew me apoiou e garantiu que irá assumir as responsabilidades da criança comigo. Os pais dele também não negaram ajuda e nem nada do tipo, me receberam muito bem e estão sempre me perguntando como eu e o bebê estamos e tudo mais — ela riu fraco, sem humor algum e fixou o olhar à sua frente. — Nós não vamos ficar juntos, mas combinamos de termos uma boa relação, pelo bebê, e também não há razão desentendimentos. Estamos lidando com tudo da melhor forma que conseguimos e está dando certo.
— Fico feliz em saber disso. — eu disse sincera e Halston me olhou.
— A conversa que eu tive com você e no banheiro aqui da escola me deu coragem para encarar a situação e falar com os meus pais, então obrigada. — ela segurou uma das minhas mãos e sorriu de leve — Sei que fui um pé no saco para vocês duas durante o tempo em que estudamos juntas, mas eu estou tentando melhorar. Quero ser uma pessoa melhor e uma boa mãe para o meu filho.
— Você será — ela assentiu, ajeitando a sua bolsa e se levantou. Eu fiz o mesmo.
— Diga a que eu quero manter contato, agora temos um assunto em comum. — ela disse, me fazendo rir fraco.
— Ah, é verdade, a gravidez. — ela me acompanhou com sua risada e caminhamos um pouco até a entrada do colégio. — Bem, até qualquer dia.
— Até. — Halston me surpreendeu com um abraço e eu meio que fiquei sem reação, mas retribuí. — Nos vemos em breve. — ela sorriu e se afastou, indo na direção oposta à minha.

Pensei em fazer uma surpresa a , o visitando no trabalho. Não sabia se era uma boa ideia já que Chris estaria lá e eu não queria ser o motivo de outro briga entre ele e o meu namorado, porém eu sabia o quanto ficaria alegre ao me ver e depois desse tempo em que ficou no hospital e eu meio que me afastei dele, queria o compensar pela minha ausência. Mas no fim, decidi por não incomodá-lo no horário de trabalho, poderia prejudicar ele, então fui direto para casa.


[Capítulo Vinte e Cinco]

Encontrei e deitados no sofá, agarrados um no outro, assistindo TV. Fiz barulho para eles notarem a minha presença e me sentei no outro sofá.

— Como foi o seu dia hoje? — perguntou.
— Bem estranho — joguei minha mochila ao meu lado — Halston apareceu no colégio e aproveitou para falar comigo sobre a gravidez, que ela decidiu levar adiante — ergueu as sobrancelhas, sorrindo de lado — E me pediu para te dizer que quer manter contato.
— Estranho! Halston nunca gostou de nós duas. — eu assenti — Mas tudo bem, agora temos um assunto em comum.
— Foi o que ela também disse. — respirei fundo, olhando para . — O mais estranho de tudo vem agora, chamou diretora Dinah para jantar com a gente, hoje.
— O que? Por que? — eles disseram em uma só voz.
— Eu não sei, desde as últimas reuniões no colégio eles ficam agindo estranho um com o outro, agora eles devem estar saindo.
— Ou irão oficializar o relacionamento — disse, um tanto pensativo — Constantemente ficava enviando mensagens no celular ou atendia a ligações, enquanto eu estava no hospital.
— Espera, você acha que o seu pai tá namorando com a diretora Dinah? — se sentou. — Isso é loucura!
— Isso não é impossível, não haveria outra razão para ela vir jantar aqui.
— Bem, eu tenho que ir pra casa agora, daqui a pouco a minha mãe chega do trabalho e eu preciso terminar as minhas tarefas diárias antes. — deu um beijo em e se levantou. — Eu vejo vocês amanhã.
— Tá bom.
— Fighting, super girl! — ela disse num tom engraçado e eu ri, a vendo sair.
, você tem certeza que a diretora Dinah virá jantar aqui hoje à noite?
— Sim — meu pai entrou na casa, respondendo e afrouxando a sua gravata — E antes que me perguntem, não avisei porque queria fazer uma surpresa para vocês.
— Não fale como se isso fosse uma surpresa boa, nós nem a conhecemos direito. — meu irmão respondeu, erguendo seu corpo para se sentar.
— Mas isso também não é uma coisa ruim — eu disse, dando de ombros e vendo meu pai tirar seu blazer. — Só que eu não farei o jantar.
— Ainda bem, não quero envenenar Dinah. — meu pai disse, fazendo rir alto. — Eu farei o jantar, já até comprei algumas coisas, fiquem tranquilos.
— Por que saiu tão cedo da empresa?
— Eu só fui mesmo para assinar alguns documentos que precisavam ser autorizados com certa urgência, mas estou na minha folga. — ele disse, levando as sacolas para a cozinha e voltando para a sala. — Bem, vou aproveitar para descansar um pouco, a minha cabeça ainda dói bastante. Não gritem, a menos que alguém invada a casa.
— Tudo bem. — eu disse, me levantando e pegando a minha mochila. — Eu ainda quero o meu desenho na parede, .
— Eu sei, já até comprei as tintas. — ele sorriu satisfeito e eu franzi a testa.
— Comprou quando?
— Quando voltei do estúdio, eu passei lá pra galera ver que eu já tô bem — eu assenti — E você não vai acreditar no que aconteceu.
— Bem, tire a minha curiosidade! — eu disse já empolgada.
— Vamos ao seu quarto, eu te conto enquanto faço o desenho na parede.
— PAI — gritei, vendo descendo os degraus em uma corrida rápida, com seu taco de beisebol na mão.
— Quem está aí? — ele ficou olhando ao nosso redor, apontando o taco para todos os cômodos.
— Nós?! — me olhou confuso — Eu só te chamei pra levar até o meu quarto.
— Ah , eu tomei o maior susto. — ele reclamou — Não podia ter me chamado civilizadamente?
— Desculpa! — ele assentiu, pegando no colo e subindo pela escada como se estivesse carregando uma almofada, me impressionei muito com a força que meu pai possui. Peguei a cadeira de rodas do meu irmão, a levando com certa dificuldade, mas eu não quis demonstrar.
Meu pai colocou sentado na cadeira e voltou para o seu quarto, provavelmente para tirar sua soneca.

Meu irmão me pediu para ir ao seu quarto, para pegar a sacola com as tintas. Mas logo que adentrei o local, não consegui tirar os olhos dos novos desenhos que ele havia feito, antes do acidente. Cada traço tão bem desenhado, as cores vivas deixavam os desenhos com aspecto mais divertido, enquanto as cores mais apagadas esbanjava intensidade e elegância.

— Por que tá demorando tanto? Eu só pedi uma sacola.

é muito talentoso, não devia duvidar de sua capacidade, já que o mesmo sabe exatamente o que fazer quando o assunto é desenho e pintura.

Peguei a sacola de tintas e retornei ao meu quarto, ainda folheando os desenhos em sua pasta.
— O que você tá fazendo com isso? — perguntou, assim que me viu com sua preciosidade em — Você é uma fofoqueira!
— Bem, eu diria curiosa. — respondi simples, sem dar muita importância a suas palavras. Estava mesmo entretida com o que ele mesmo nomeia de "rabiscos". — Você tem um talento incrível, .
— Me dê isso aqui — ele puxou a pasta da minha mão e colocou em seu colo — Eu não gosto quando você mexe nos meus desenhos. Aliás, eu não gosto quando mexem nas minhas coisas, principalmente quando eu não autorizei.
— Por que tá tão bravo? Tá parecendo a agente Lisbon. — eu ri fraco, me sentando na cama. — Já sei que vai ficar lindo! — disse, enquanto olhava para a parede de frente.
— Vou precisar de uma ajudinha, eu não tenho altura suficiente agora que tô na cadeira de rodas. — ele ficou encarando a parede, parecia estar planejando algo.
— O que você quer que eu faça?
— Lembra daquele banco enorme, que fica jogado na garagem? - resmunguei um "sim", o ouvindo atentamente — Pega pra mim, vou conseguir pintar numa boa altura com ele.
— Acho arriscado, .
— Só pega o banco, . — ele continuou encarando a parede e eu saí.

Dei a volta pelo nosso quintal e encontrei o banco, que parecia meio empoeirado, em meio a outros objetos não muito utilizados por nós. Peguei um pano pequeno e esfreguei no banco, tirando um pouco da poeira. Logo voltei ao quarto.

— Ótimo, acho que agora tá tudo certo. — disse, já se aproximando do banco e tentando subir, sozinho. — Você segura o banco com firmeza e eu subo.
— Ainda acho arriscado.
— Relaxa — meu irmão tentou se sentar, mas o banco virou levemente, me fazendo o segurar com mais força.
— Ah meu Deus! — ele ria um pouco alto e eu pus a mão no peito, tentando normalizar minha respiração — Que droga, !
— Você tá muito estressada, , isso não faz bem.
— Só tenho medo que você se machuque mais — bufei de raiva, colocando as mãos sobre o rosto — Eu ainda me sinto culpada pelo que aconteceu com você. — confessei, deixando as lágrimas caírem.
— Ei, você não tem culpa de nada, pelo contrário, é tão vítima quanto eu. — ele me abraçou, dando umas tapinhas fracas em minhas costas — Você precisa relaxar um pouco. Tire essa culpa de suas costas, aja normalmente e pare de me tratar como um doente.
— Mas…
, eu tô bem. Irei precisar de mais ajuda que antes a partir de agora, mas ok, eu só preciso me acostumar com a ideia de não andar mais. E você também precisa se acostumar comigo assim, porque é como eu estarei pelo resto da minha vida.
— Também não fale assim — eu me afastei um pouco dele e sequei meu rosto — Você vai voltar a andar, só precisa começar a fisioterapia. — ele respirou fundo, assentindo de um jeito não muito convincente.
— Ok. Mas agora, me dê as tintas. — entreguei a sacola à ele, que sorriu satisfeito. — Vou tentar fazer o melhor que eu posso.
— Eu sei disso! — afirmei com confiança — Ah , o que aconteceu no estúdio?
— Eu te conto.

A tarde havia se passado rápido, fiquei ajudando o meu irmão com seu desenho, que é o mesmo da minha pulseira, fez questão de guardar o acessório para mim. Ele sabia que eu me arrependeria depois, e realmente assim aconteceu. Me arrependi por ter ficado tão brava com ele e meu namorado, que só queriam me agradar, confesso que fui ingrata e insensível com eles.
Apesar da pulseira possuir uma algema como pingente, que representa a minha mãe, eu não deixaria de usá-la, porque ela tem um significado muito importante para mim. Representa a minha família, e eu amo isso.

À noite chegou e nós nos arrumamos para o jantar, meu pai disse que queria tudo casual, mas apesar disso, iria caprichar em tudo. Ele até nos ameaçou, dizendo que se fizéssemos feio na frente de diretora Dinah, ele tiraria o canal pago que eu e mais amamos, apenas para deixarmos de assistir The Mentalist, como castigo.
Que pai gentil eu tenho, não é mesmo?!

vestia uma calça jeans básica e uma camisa esportiva em um tom claro e de mangas longas, com um tênis simples. Parecia estar mais perfumado que o comum e ansioso como nunca antes, o que era um pouco engraçado para mim.
, optou por uma bermuda marrom e coturno de mesma cor, além da camisa preta com o símbolo do Red John, em vermelho.
E eu, escolhi um vestido laranja justo do busto à cintura, logo alargando até o final dele, um pouco antes dos joelhos e calcei uma sandália rasteirinha trançada, de cor marrom. Minha maquiagem era um pouco mais pesada do que costumo usar, confesso que exagerei no batom cor de amora, apesar de o jantar ser simples.
Eu queria que a diretora Dinah se sentisse confortável quando me olhasse, assim ficaria aliviada por saber que não exagerou em nada. Mas, levando em conta o fato de ela não se preocupar com opiniões alheias e ser sempre muito segura de si, talvez ficará mais à vontade do que imagino.

Meu pai já estava terminando de preparar a lasanha de carne com molho rosé, quando ouvimos a campainha. me olhou com as mãos no cabelo, como se estivesse me perguntando se estava bom. Assenti para ele e caminhei até a porta, a abrindo calmamente e me deparando com diretora Dinah, que exalava elegância em sua calça pantalona bege e sandálias de salto fino, na mesma tonalidade, além da blusa marrom que se estendia por dentro da calça e com uma jaqueta de couro vermelho, por cima dos ombros.

Ela sorriu largamente e passou a mão pelo seu rabo de cavalo, preso pelo próprio cabelo, bem no topo da cabeça. Surpreendentemente, sua maquiagem era suave, o que dava mais visibilidade à suas vestes.

, você está linda! — ela disse, enquanto me analisava discretamente — Nunca te vi tão…
— Arrumada? — eu ri fraco. — Não é sempre que eu me visto assim, mas hoje foi uma exceção.
— Pois fez muito bem! Está simples, porém charmosa. — eu arqueei as sobrancelhas — Com um toque de elegância, na medida certa.
— Eu achava que elegância nunca é demais — a olhei confusa.
— E não é, só não podemos cometer alguns deslizes por conta do exagero.
— Mas quando se tem classe, você pode…
— Não se engane, , ter classe vai além das roupas — ela me interrompeu — É saber como se portar, como manter a compostura, como falar, como se expressar… Visto isso, a roupa é apenas um complemento.
— Nossa, acho que preciso de algumas aulas sobre — eu disse e ela riu fraco.
— Tudo bem, teremos bastante tempo para praticarmos.
, deixe a diretora entrar! — ouvi a voz de , parecia meio indignado, e me dei conta de que ainda não havia convidado diretora Dinah para entrar.
— Ah, isso não foi nada elegante — eu disse apreensiva e abanou a mão no ar, rindo fraco — Desculpe e por favor, entre. — dei passagem para ela, que realmente demonstrava empolgação e ansiedade por este jantar.
— Ah, Red John fez mais uma vítima — diretora Dinah disse, fazendo uma expressão de indignação. — Apesar disso, você está bem, tigre flamejante? — arqueou as sobrancelhas e arregalou os olhos.
— Tacos e pedras podem quebrar meus ossos, mas palavras nunca irão me machucar. — ele respondeu com uma frase do Patrick Jane.
— Falou o cara que fica bravo comigo quando eu digo algo relacionado a nossa mãe.
— Será por que você só fala coisas ruins a respeito dela?
— Está mentindo para mim, Jane?
— Eu não menti, só não contei toda verdade a você. — meu irmão continuou mencionando frases da nossa série favorita. — O problema é que, algumas pessoas gostam de jogar a dor delas em outras; pessoas mais fracas. — ele me olhou, sabia que estava se referindo ao jeito que eu falo da nossa mãe, mesmo usando uma frase pronta do Patrick Jane para isso.
— Mentira!
— Tudo bem. Mentiras é que fazem o mundo ter sentido. Portanto, a verdade machuca. — nós olhamos, impressionados, para diretora Dinah e ela riu fraco. — Onde está ?
— Assistindo ao vivo um novo episódio da série — brincou, entendendo todas as nossas referências. — Dirigiu bem?
— Sim, a pista está bem tranquila hoje.
— O que? Por que não a buscou, pai? — perguntou surpreso.
— Ah não, eu vim com o meu carro. Gosto dessa autonomia. — ela disse simples e meu pai deu uma piscadela para o meu irmão.

se aproximou de diretora Dinah e os dois selaram seus lábios. Meu pai tirou a jaqueta dos ombros dela e pendurou ao lado da porta, nos avisando que o jantar estava pronto e a levando para a mesa de jantar.
Eu e nos entreolhamos com uma expressão estranha e seguimos o casal.

O jantar foi ótimo; a comida estava deliciosa, a sobremesa também, a conversa foi agradável e a companhia um do outro era boa. Principalmente, para e diretora Dinah, que não paravam de se lançarem olhares intensos.
Eu confesso que é meio estranho observar a cena, quero dizer, vou levar um tempo até me acostumar com isso.

— Eu tenho uma novidade pra contar — disse, não me surpreendendo porque já havia me contado, mas ele conseguiu deixar meu pai e diretora Dinah com olhares curiosos — Vou ser tatuador.
— O que? — meu pai quase deu um salto do sofá.
— Nava analisou alguns dos rabiscos que eu tinha esquecido no estúdio e surpreendentemente gostou do que viu. E como ele já vem treinando eu e há algum tempo, achou que eu tô preparado pra iniciar a minha carreira como tatuador. — meu irmão dizia ainda incrédulo e eu me sentia feliz por ele. — Eu fiquei meio intrigado no início, achei que ele só estava me dando a oportunidade por eu ter sofrido o acidente, talvez estivesse sentindo dó de mim.
— Eu duvido que ele faria isso, Nava parece ser o tipo de chefe durão e exigente, jamais deixaria você fazer algo tão complexo apenas por dó. — eu disse sincera e meu irmão assentiu — E você é muito bom no que faz, , merece esta chance.
— Isso é incrível, ! Estou feliz por essa nova fase em sua vida. — diretora Dinah disse sorrindo, parecia mesmo estar sendo sincera.
— Obrigado, diretora Dinah.
— Dinah. Me chamem apenas de Dinah. — ela olhou para mim — Mas enquanto estivermos na escola, serei diretora Dinah.
— Certo. — eu suspirei, já sabia que ela faria essa observação.
, não dirá nada ao seu filho? — ela o perguntou e me olhou, contendo o sorriso.
— Ah — meu pai a olhou meio surpreso, logo desviando o olhar para — Sim. — ele pigarreou — Eu estou orgulhoso de você, filho. Subiu em um cargo por mérito próprio e sei que fará um ótimo trabalho.
— Tá sendo sincero? — o analisou um pouco, desconfiado.
— Sim, eu estou. — meu pai respondeu firme — Confesso que este não é o emprego que sonhei para você, porém, quero que dê tudo certo em sua vida, independente das escolhas que você faça. — ele se levantou para abraçar o meu irmão, que ficou surpreso com o que ouviu.

Depois de mais alguns minutos de conversa, Dinah fez questão de voltar para casa, sozinha, em seu carro e apesar de querer muito acompanhá-la, respeitou sua vontade.

— Ela é bem mais legal do que aparentava ser na escola — disse, impressionado. — Eu não lembro nem mesmo de quando ela me dirigiu a palavra, enquanto eu ainda estudava lá.
— Verdade — eu respondi, me espreguiçando — parece apaixonado.
— Eu ouvi o que disse e não, eu estou apenas interessado. — meu irmão me olhou rindo, sabia tanto quanto eu que nosso pai estava mentindo. — , quer que eu te suba agora?
— Sim, eu tô mesmo cansado. — meu pai levantou meu irmão da cadeira de rodas e o levou para seu quarto.

Levei a cadeira de com certa dificuldade, não que seja tão pesada, mas eu sou meio desengonçada para algumas coisas.

Fui para o meu quarto, logo sendo surpreendida pela ligação de .
Me conte tudo, super girl. — ela pedia do outro lado da linha.
— Tudo o que? — me fiz de desentendida.
Como tudo o que? Estou falando do jantar. — percebi uma leve impaciência em sua voz e ri fraco.
— Foi um jantar muito agradável, ao contrário do que parece, diretora Dinah é bem legal e divertida. — eu disse me lembrando dela falando sobre The Mentalist.
Ah, que bom! — respondeu animada — É meio estranho saber que o seu pai tá saindo com a diretora da nossa escola. — ela riu um pouco.
— Verdade, é estranho pensar nisso, mas eles estão se conhecendo melhor e parecem estar mesmo gostando um do outro.
Isso é ótimo! — eu estranhei a animação da Talvez agora ela libere o nosso Baile de Formatura.
— O que? Ficou maluca?
Não, agora que você é enteada dela, vai ficar mais fácil e…
, todos os alunos já devem ter saído em viagem e além do mais, fomos proibidos de fazer o baile, você sabe o porquê.
Nem todos os alunos viajam, a maioria ainda deve estar em casa. — eu suspirei alto, é uma das pessoas mais loucas que eu conheço. — Eu só tô dizendo que, talvez agora, diretora Dinah reconsidere o nosso pedido. Mas se você não quer, tudo bem.
— Isso é loucura! Ela jamais aceitaria — eu pensei um pouco — E mesmo que ela aceitasse, não temos como planejar isso tão rápido.
Se esqueceu que já temos tudo anotado? — eu me lembrei de todo nosso trabalho em conjunto, ocultando coisas da diretora Dinah.
— Tá bom, eu preciso ir dormir. Conversamos melhor amanhã.
Boa noite, super girl.
— Boa noite. — eu finalizei a chamada.
Um Baile de Formatura à essa altura do campeonato é loucura!

Tomei um banho rápido, estava mesmo com sono e queria dormir. Saí do banheiro e logo vesti meu pijama, apaguei a luz, inclusive a do abajur e me deitei na cama, já relaxando o corpo.

Pensei um pouco em , não havíamos nos falado durante o dia inteiro, com certeza contou sobre o jantar e conhecendo o meu namorado, não quis vir atrapalhar. Imagina se me atrapalha em algo, pelo contrário!

— Eu devia ter visitado ele no trabalho hoje cedo. — sussurrei para mim mesma.
— Falando sozinha? — meu corpo paralisou ao ouvir uma voz em meu quarto, estava tudo escuro e eu não tinha coragem de acender a luz para ver o rosto da pessoa. — Não reconhece a minha voz? — continuei estática e sem expressar nenhum som.

Ouvi alguns passos, que se aproximavam de minha cama e a luz do abajur foi acesa, me deparei com Fishy me olhando e sorrindo ladino.
Ergui um pouco o meu corpo, me sentando na cama e franzindo a testa, confusa.

— Como…
— Não deveria deixar a janela aberta — eu olhei para o lado, encontrando a mesma escancarada. Já era a segunda vez que esquecia a janela aberta. — Senti sua falta.
— Fishy, o que você tá fazendo aqui?
— É assim que você me recepciona? — ele abriu os braços, rindo e se sentou em minha cama.
— Fishy, eu tenho aula amanhã cedo e…
— Tudo bem, eu te encontro amanhã na escola, mas preciso conversar com você. — eu assenti, curiosa e intrigada — Você fica linda em um pijama de verdade, as minhas roupas não ficavam tão bem em você quanto às suas. — eu me encolhi um pouco no cobertor e ele soltou uma risadinha.

Fishy se aproximou mais de mim e acariciou o meu rosto, senti meu corpo todo se arrepiar ao seu toque e me senti mal por isso. Ele estava prestes a me beijar, quando eu virei o meu rosto.

— Eu tô namorando o . — disse em forma de explicação e ele meio que paralisou.
— Certo. — Fishy respirou fundo, puxando a sua mão de volta e me olhando com certa tristeza no olhar.
— Bem, acho melhor você ir agora. —
— Ok, te vejo amanhã. — ele se levantou e caminhou até a minha janela, me lançando o seu olhar pela última vez e saindo do meu campo de vista.

Me levantei da cama e caminhei até a janela, logo a fechando, mas fiquei observando Fishy por alguns segundos; parecia ter ficado triste ao saber sobre o meu namoro, mas no fundo, ele sempre soube que isso aconteceria mais cedo ou mais tarde. Fishy sempre soube dos meus sentimentos por ... Mas também sempre soube da atração que eu sentia por ele.

Ainda em frente à janela, fiquei encarando o nada por alguns minutos, pensando em como as coisas foram acontecendo em minha vida. Mas logo me senti mais sonolenta e eu retornei à cama, apagando a luz do abajur e me entregando ao sono.

[Capítulo Vinte e Seis]

No dia seguinte, antes de ir trabalhar, chamou para acompanhar a primeira sessão de fisioterapia domiciliar do meu irmão; eu sei que a minha amiga não gosta de acordar tão cedo, ainda mais agora estando livre da escola, porém ela aceitou sem nem reclamar. Afinal, ela estaria ao lado do seu amorzinho, o apoiando no que precisasse.
Meu pai avisou a todos nós que, Cassie, a enfermeira que ajudaria , chegaria logo após a fisioterapia. Meu irmão não gostou nem um pouco da ideia e eu sabia que seria difícil para ele; sempre foi tão ativo e, em partes, independente, agora precisaria de auxílio e muito esforço para tentar voltar a ter uma vida mais próxima do que era antes.

Depois de assistir às primeiras aulas e ser obrigada a fazer um exercício de história com Simon, que não fez praticamente nada, fui para o intervalo. Eu não quis comer nada e, por um milagre, meu estômago não estava reclamando por isso.
Meu humor não estava dos melhores, Simon sempre me irrita muito, principalmente quando joga as suas piadinhas sobre Fishy, minha mãe e tudo que havia acontecido comigo.

Fiquei sentada em um dos bancos perto do pátio, tentando me afastar dos poucos alunos que ainda estavam no colégio naquele horário, enquanto tentava decorar algumas fórmulas dos exercícios de química. Vi Simon se aproximando, logo encostei a cabeça na parede e bufei, irritada, já sabia que ele viria me fazer raiva.

— eu o olhei normalmente e ele se sentou ao meu lado — Você não desconfia de nada?
— Hã?
— Eu vivo implicando contigo — eu concordei com a cabeça — Nem se passa pela sua cabeça o por quê?
— Não, eu nem imagino. — eu respirei fundo — Eu sei que você implica com a porque gosta dela, assim como Tyler. Mas comigo…
— Errado — me interrompeu rapidamente — Eu implico com a porque ela sempre me atrapalha de estar perto de você, já que a dupla implacável não se desgruda. — ele disse, revirando os olhos. — E eu implico contigo porque gosto de você.
— O quê? — Simon me olhou com mais intensidade e assentiu com a cabeça — Tá brincando comigo?!
— Não, eu realmente achei que você perceberia algum dia, mas isso nunca aconteceu. Você até gosta de outra pessoa — ele riu sem humor algum, apontando para a folha do caderno. Eu olhei na mesma direção e vi no cantinho do papel, escrito: " <3".
— Sim, eu estou namorando. — ele suspirou.
— Claro, eu já devia saber.
— Não é nada com você, Simon, eu só me apaixonei por antes.
— Eu sou um babaca, sempre fui. Você não olharia pra mim, de qualquer forma.
— Bem, eu gostei de você no primeiro ano — seus olhos azuis pareciam estar prestes a saltar do rosto, de tanto os arregalar. — Mas achei que você gostasse da .
— O quê? Eu nunca gostei da , sempre a achei chata. — eu ri fraco e ele me acompanhou — Tudo bem, ela é legal, às vezes, mas não me deixava brecha pra conversar contigo.
— Mas, agora isso passou — Simon assentiu, ajeitando alguns de seus fios ruivos, ele sempre deixava o cabelo bagunçado, porém, não hoje. — Eu espero que, pelo menos, agora você pare de implicar tanto comigo.
— Então quer dizer que eu ainda posso implicar contigo, só que com uma frequência mais baixa? — ele perguntou, me fazendo rir — é um cara de sorte por ter você. — Simon falou num tom alto e se levantou rapidamente, caminhando para o refeitório.

Eu não estava realmente acreditando em Simon, quero dizer, é meio insano pensar que ele gostava de mim durante esses 3 anos que estudamos juntos, não acredito muito na frase: "se implica muito contigo é porque gosta de você". Eu sempre o achei babaca e ponto.
Confesso que fiquei surpreendida, sim, mas ainda não crente nas palavras que eu acabara de ouvir.

Depois de uma manhã com muitos exercícios e mais pesquisas para serem feitas em casa, encontrei Dinah na porta de sua sala.
— ela me chamou com voz firme e expressão séria, o estado normal da diretora Dinah. — me ligou hoje cedo e disse que você precisa conversar comigo.
— Ah, ela disse… — engoli o seco, juro que se a minha amiga aparecesse à minha frente, eu lhe daria uma tapa bem forte. Dinah continuou me olhando, só que intrigada — É verdade, eu preciso falar uma coisa.
— Por favor, entre — ela me deu passagem e eu adentrei a sala da direção, logo me acomodando à cadeira — Então… — Dinah ergueu as sobrancelhas, talvez meio ansiosa e eu pigarreei forte, temerosa pelas suas próximas reações.
— Bem, na verdade, eu tenho um pedido a fazer — ela franziu a testa e eu engoli em seco — Gostaria de pedir permissão para a minha turma fazer o Baile de Formatura.
— De jeito nenhum!
— Por favor, diretora, esse é um acontecimento importantíssimo para todos nós.
— Eu sei disso, , mas vocês sabem o motivo de não terem participado. — eu bufei, lembrando da nossa proibição. — A sua turma foi a pior da escola em todo o ano letivo, eu os avisei que se continuassem com aquela bagunça de criancinhas de primário, vocês não iriam participar do baile.
— Dinah…
— Diretora — ela disse, me fazendo suspirar para manter a calma.
Diretora Dinah — a mesma assentiu com a cabeça — Que culpa nós, os mais quietos, temos pela baderna que os outros fazem?
— Os mais quietos? — eu estranhei a sua reação, já que ela ria alto — Todos vocês têm sua parcela de culpa, . Inclusive a senhorita e , que conversavam mais que tudo e todos. Não é porque vocês só fazem isso durante as aulas, que são menos culpadas que os outros, que tocavam o terror na turma e em todo o colégio.
— Mas…
, eu já dei a minha resposta. — eu respirei fundo, me sentindo derrotada — Não abrirei exceção para você só porque agora é minha enteada.
— Eu não fiz o pedido por isso.
— Ah, não? — ela me lançou o olhar de quem não estava nada convencida.
— Não. — eu firmei a minha voz, tentando ser o mais verdadeira possível — até me deu essa ideia, mas eu não aceitei. Não fiz o pedido só por que agora você e meu pai… — ela pigarreou forte, sabia que era para me interromper — Apenas acho que nós merecemos essa comemoração, mas agora…
— Tudo bem. Vocês podem organizar esse Baile de Formatura. — eu a olhei incrédula. — O tempo é muito curto, muito mesmo, mas eu acredito que...
— Na verdade, eu e as meninas passamos o ano inteiro fazendo o planejamento do nosso Baile de Formatura, tivemos um trabalho muito duro para arrecadar todo o dinheiro, mas...
— Como assim? Vocês planejaram tudo pelas minhas costas? — eu soltei uma risadinha sem graça e ela cruzou os braços — Então sabiam que eu iria aceitar?
— Não. Mas, nós iríamos tentar, então não deixamos de planejar nada. — diretora Dinah sorriu de forma intrigante e eu engoli o seco.
— Porém, farão tudo em apenas uma semana. — arregalei os olhos e ela deu de ombros — Não sei como irão conseguir, mas este é o prazo que eu dou a você e para aprontar essa comemoração.
— Uma semana? Mas esse é um tempo absurdo! Como iremos aprontar tudo em apenas uma semana?
— Eu sei que vocês conseguem! — ela deu uma piscadela, me deixando mais confiante — Com quem está o dinheiro das arrecadações?
— Fizemos uma conta conjunta, mas a responsável pela tesouraria é a... — ouvimos uma batida na porta.
— Entre. — diretora Dinah disse e Heather adentrou a sala.
— Ah, meu Deus! ! — ela veio me abraçar, eufórica.
— Você não vai acreditar no que acabou de acontecer… — eu disse, a deixando curiosa — Conseguimos permissão para fazer o Baile de Formatura.
— Ahhhh! — nós gritamos, juntas.
— Mas o nosso prazo é 1 semana.
— O que? — ela arregalou os olhos.
— É esse o prazo, se ainda quisermos.
— Não tem problema, vamos conseguir. — continuamos dando uns gritinhos histéricos.
— Parem com a gritaria, meninas, vocês ainda estão na minha sala. — nós tentamos nos recompor. — Bem, acho que já estamos conversadas, não é, ?
— Sim, diretora Dinah. — eu assenti. — Heather, depois a gente conversa melhor, precisamos nos organizar e falar com as meninas.
— Não temos muito tempo, precisamos acelerar. Mas, a parte do dinheiro já está resolvida, só precisamos mesmo ver a arrumação, certo?
— Certíssimo! — eu sorri, abobalhada.

Fala sério, há quanto tempo esperamos por isso? Quase nada, só levamos o ano inteiro para conseguir o "sim" da diretora Dinah. Eu realmente não imaginava que ela aceitaria, mas eu tinha certeza que nós iríamos tentar.

— Esperem! — diretora Dinah nos olhou, desconfiada, e eu engoli o seco — Não se esqueçam de comunicar os seus colegas de sala, hein!
— Pode deixar. — eu disse.
— Heather, você não veio aqui só porque adivinhou que eu iria permitir o baile, não é mesmo?
— Não, eu nem mesmo sabia que a estaria aqui. — Heather me olhou — Só vim buscar o meu histórico, sei que irei precisar para me matricular na faculdade.
— Já começou o período de matrículas? Vocês mal se formaram no Ensino Médio.
— Ainda não, mas eu só quero ter o documento em mãos.
— Tudo bem.
— Vou deixá-las à vontade, tchauzinho. — eu disse, abraçando Heather. — Nos falamos mais tarde, ok?
— Beleza, até mais.
— Até, . — diretora Dinah disse, sorrindo de lado e eu saí da sala.

Estava indo para casa, caminhando lentamente pelas ruas, o clima era abafado e, apesar de precisar correr com os preparativos do Baile de Formatura, entre outras coisas, naquele momento, eu queria desacelerar um pouco.
Senti que havia alguém me observando ao longe ou mais perto do que imaginava; no mesmo instante, fui abraçada.

— Ei! Quem você pensa que… Fishy?! — ele ria alto e eu dei uma tapa em seu ombro. — Por que você faz isso, peixinho atrevido?
— Porque é sempre muito engraçado! Você fica tão irritada, mas ao mesmo tempo sorri. — ele continuava rindo e eu o acompanhei — Você sabe que eu jamais te machucaria, eu só curto essa relação "amor e ódio" que nós temos. Aliás, ódio apenas da sua parte, porque da minha é só amor.
— Fishy — eu ri alto, dando-lhe outra tapa e, desta vez, ele reclamou. — Desculpa por não te esperar na escola, mas eu descobri que iremos fazer um Baile de Formatura e estou meio avoada, pensando nos preparativos.
— Tá tudo bem, eu só precisava me despedir de você.
— Como assim? — eu desfiz o sorriso e passei a encará-lo, séria.
— Eu vou voltar a morar com o meu pai, em Keoursna.
— O que? Por que?
, a minha missão aqui chegou ao fim. — engoli o choro — Você já está bem e segura, as coisas estão se resolvendo. Não tenho mais motivos para ficar.
— Não tem mesmo? — ele abaixou a cabeça e suspirou forte.

Eu já não sabia mais o que estava fazendo ou pensando; Fishy é uma pessoa tão envolvente e legal, me acostumei tanto em tê-lo por perto, difícil aceitar a sua partida.

— Tenho, sim, , mas não posso ficar por isso. — eu conseguia sentir a tristeza em sua fala — Seria perda de tempo.
— Fishy — ele finalmente me olhou.
— Tem algo mais a me dizer, ? — seu olhar era esperançoso. Sem muito pensar, eu o abracei.
— Sentirei a sua falta, peixinho!

Não queria ter que encarar a decepção em sua face, sei muito bem do sentimento que Fishy nutre por mim. No fundo, ele ainda tem esperança que ficaremos juntos e eu não posso iludí-lo.
Por mais que eu ainda me sinta atraída por ele e pelo seu jeito atrevido de ser, é que eu amo e desejo ter por toda a minha vida adulta.

? — ouvi a voz do meu namorado soar e quando me soltei do abraço que dei em Fishy, me deparei com . — O que aconteceu?
— Como assim? — perguntei, confusa.
— Pensei que algo grave havia acontecido, Fishy parecia estar te consolando. — mirou o olhar em Fishy, mas logo desviou a mim.
— É que ele vai voltar para Keoursna, estava se despedindo.
— É mesmo? — perguntou num tom debochado e Fishy também percebeu.
— Sim. Já pode começar a comemorar.
— Bem, eu não queria parecer tão babaca, mas já que você não se incomoda…
— Chega! Parem com isso. — eles me olharam, surpresos. — Por que vocês ficam agindo como se eu fosse um prêmio? Por que ficam agindo como se eu não estivesse aqui?

— Não, Fishy, me deixe terminar de falar. — ele se calou e assentiu.
?!
— Você também, ! — ele coçou sua cabeça e concordou. — Poxa, meninos, assim é complicado, sabe? Vocês são pessoas muito importantes para mim, não queria perder essa nossa proximidade.
— No que depender de mim, , você não vai.
— Não tenho certeza disso, Fishy. — ele levantou as sobrancelhas, acho que não esperava pela minha resposta. — Como será quando estiver nós 3, juntos?
— Olha, , por mim você pode ter a amizade que desejar, eu só quero que você se sinta bem e feliz. — disse — Mas, o meu problema com Fishy não é algo recente ou que eu possa ignorar.
— Se quer me ver bem e feliz, precisa começar a aceitar que eu quero Fishy por perto.
— Não posso ficar por perto agora, , mas pode me visitar quando quiser. — ele segurou minha mão.
— Ou você pode vir nos visitar.
Nos visitar? — elevou o tom de voz e eu o encarei, aborrecida — Bem, amigos se visitam, não é mesmo? — sua voz já estava mais suave.
— Tem razão, . Tem razão. — Fishy disse, meio aéreo, parecia pensar alto. — Agora preciso ir. Nos vemos, em breve, . — ele beijou minha mão.
— Até breve, peixinho. — eu o abracei forte e pigarreou.
— Até, . — ele estendeu a mão para o meu namorado que, a contragosto, o cumprimentou.
— Até.

Senti algumas lágrimas escorrerem por meu rosto, involuntariamente, ao ver Fishy caminhando na direção oposta em que estávamos. É como se eu estivesse perdendo um grande parceiro, um amigo mais que especial. E, de certa forma, não deixa de ser verdade.
me olhava, sem reação alguma, parecia não saber o que dizer ou fazer.

— Está chateado? — perguntei, assim que cheguei ao meu quarto, enquanto caminhava até a janela.
— Por que eu estaria?
— É sério que você está me fazendo essa pergunta? — eu soltei uma risadinha, sem humor algum. Tirei o meu tênis e a meia. — Você está calado desde que Fishy se foi.
, Fishy não está indo para a forca, ele só vai se mudar. — finalmente me encarou, com as mãos no bolso da bermuda.
— Está com ciúmes? — eu me aproximei dele, tentando conter o sorriso bobo.
— E-eu? Eu não. Claro que não. — ele coçou a cabeça — Só que ele é meio atrevido e não esconde os sentimentos que nutre por você.
— Fishy é muito atrevido, esse é um dos seus pontos mais fortes. — eu disse, com convicção. — Sei o que ele sente por mim — respirou fundo, abaixando o olhar — Mas eu sempre disse a ele o quanto gosto de você.

— Shhh… — eu coloquei o dedo indicador sobre seus lábios — Eu te amo, , nada e ninguém fará o meu sentimento por você diminuir. E sabe por quê? — ele arqueou as sobrancelhas e eu ri fraco — Porque o que sinto por você cresce a cada dia mais e mais. — ele beijou minha mão.
— Me desculpe pelo ciúme desnecessário, eu só…
— Se sente ameaçado por Fishy — ele assentiu, envergonhado — Não precisa se sentir assim, . É com você que eu quero ficar!
— Você é tão maravilhosa, — ele acariciou o meu rosto e me beijou lentamente. — Acho que nem te mereço…
? — eu segurei seu rosto e olhei em seus olhos — Você me merece tanto quanto eu te mereço, entendeu? — ele assentiu, respirando fundo — Pare de achar que não merecemos estar juntos.
— Desculpa. É que aconteceram tantas coisas, e parecia que era justamente para não ficarmos juntos.
— E agora que estamos namorando, parece mentira, não é? — eu disse, relembrando os acontecimentos. Me sentei na cama.
— Você também se sente assim? — ele perguntou, se sentando ao meu lado.
— Às vezes, mas, não quero deixar os pensamentos negativos e confusos me dominar, sabe? — ele concordou com a cabeça e eu me virei, ficando à sua frente. — Eu quero aproveitar cada segundo do nosso tempo juntos. Quero aproveitar cada beijo seu. — o puxei pela camisa, beijando-o ferozmente. — Queria te dizer que já me sinto pronta.
— Tem certeza, ? — ele perguntou, cauteloso. — Se você não estiver pronta, eu vou entender e nós…
— Eu tô pronta. — respondi com firmeza. — Eu finalmente sinto que é agora. O nosso momento, é agora.

Os minutos foram se passando e com eles, os beijos se intensificaram ainda mais. Aos poucos, um tirava a peça de roupa do outro, lentamente. Parecíamos não querer perder nem um segundo daquela sensação louca que estávamos sentindo, pela primeira vez.
Nossas mãos deslizavam sobre o corpo um do outro, a fim de não parar aquelas sensações boas. Era tudo muito novo. Um misto de insegurança e desejo, com uma pitada de ousadia. E, apesar de aguardar tanto por este dia, eu não me sentia tão nervosa, pelo contrário, estava certa disso. É fato que dentro de mim havia um pequeno receio, mas nada que tenha me impedido de apreciar este momento. Talvez porque eu queria isso tanto quanto ele.

? — me chamou, com sua voz ainda ofegante.
— Oi — respondi da mesma forma, encarando o teto do quarto. Ainda não havíamos levantado da cama.
— Deixa.
— Sim, , foi bom.
— Como sabe que…
— Eu sei que a sua preocupação era com isso, se seria bom para mim… — eu virei minha face em sua direção — E para você, foi bom?
— Sim. Bem melhor do que eu imaginava. — ele me olhou — Não foi só a sua primeira vez, foi a minha também. E eu queria que fosse especial, com uma garota especial.
— E qual foi a sua conclusão?
— Eu não teria feito escolha melhor. — ele entrelaçou nossas mãos.
— Você é incrível! — eu selei nossos lábios. — Te amo. Demais!
— Também te amo — ele aprofundou o beijo — Com todas as minhas forças.
— Adoraria ficar por mais tempo aqui com você, mas eu preciso resolver tantas coisas ainda hoje. — ele fez um biquinho fofo.
— Tudo bem, eu tentei chegar a tempo de te buscar na escola porque queria passar um tempinho contigo antes de voltar ao trabalho, mas, fomos bem além de um simples tempinho juntos, hoje. — eu sorri abobalhada, escondendo o meu rosto em seu peitoral. — Mas o estúdio vai encher bastante nesta tarde e eu não posso deixar o pessoal sobrecarregado.
— Eu sei e entendo. — ele me beijou, novamente.

Saímos da cama, a contragosto, e nos vestimos rapidamente; meu pai já havia batido na porta perguntando se iríamos demorar, já que o almoço estava esfriando. Se ele soubesse… Caçaria pelos quatro cantos da terra.
Tirei todo o jogo de cama e coloquei no cesto de roupas sujas, pus outros lençóis que eu costumo usar, como o da Barbie.

— Por que está rindo? — perguntei ao perceber a reação de .
— Não é nada, só acho engraçadinho o seu gosto por lençóis de tema. — eu ri fraco — Semana passada, estava usando um da Minnie.
— E na semana que vem será o da Moranguinho.
— Eu amo esse seu jeitinho. — ele segurou em meu rosto e selou nossos lábios. — Agora preciso mesmo ir.
— Mas você nem almoçou.
— Não se preocupe, eu compro algum biscoito no mercadinho.
— Tudo bem.

Abri a porta do quarto e saímos, encontrando e na sala. Meu irmão olhava para , meio desconfiado, já minha amiga me olhava como se soubesse de tudo.

— Onde estavam? Não os vimos quando chegamos. — perguntei.
— Estávamos almoçando, apenas. — meu irmão respondeu, simples — E vocês?
— Almoçando também, mas o prato era diferente. — respondeu, me olhando por cima da revista que estava "lendo".
— O quê? — meu irmão franziu a testa.
— Loucuras da . — eu dei de ombros, fingindo não me importar.
— Estou indo ao trabalho. — me olhou profundamente, logo beijou-me — Até breve.
— Espere, eu vou contigo. — meu irmão disse e pegou a cadeira de rodas, o ajudando a se sentar. — Até mais. — ele beijou a minha amiga e ela quase desmaiou de amores.
— Agora que eles saíram, me conta tudo. — minha amiga jogou a revista no outro sofá e me encarava, sorrindo.
— Não vou te contar nada! — me aproximei dela, sentando no sofá.
— Ih, pelo jeito foi ruim.
— Não foi ruim, pelo contrário. — eu sorri abobalhada, lembrando do momento. — Foi ótimo!
— O que foi ótimo? — meu pai perguntou, enquanto descia os degraus da escada.
— A conversa que tive hoje com a diretora Dinah. — respondi, desviando do assunto, imediatamente.
— Não me diga que… — já se animava.
— Sim, ela nos deixou fazer o Baile de Formatura!
— AHHH! — nós gritamos em uníssono e nos abraçamos. — Ah, meu Deus! Eu mal posso esperar para comprar o meu vestido!
— Mas antes, temos que organizar a festa em uma semana.
— O QUÊ?
— Esse foi o prazo que ela nos deu. — dei de ombros — Felizmente, encontrei com a Heather hoje na escola e ela pediu para comunicarmos as meninas.
— Isso vai ser bastante trabalhoso…
— A gente pode marcar com elas para planejarmos tudo ainda hoje. — eu olhei , que se olhava no espelho da sala, ajeitando sua roupa. — Posso chamar as meninas, pai?
— Só não quero bagunça. — ele respondeu, simples.
— Vai ter um grupo de garotas aqui, é claro que teremos bagunça. — disse, animada, e meu pai a olhou, desconfiado. — Ah, tio , deixa. Precisamos muito desse Baile de Formatura, você sabe que é o nosso sonho.
— É verdade, pai, sempre falamos o quanto seria legal participar de um Baile de Formatura.
— Sim, eu sei, é quase um sonho de infância para vocês. — respondeu — Mas o que isso tem a ver com a bagunça? — ele arqueou as sobrancelhas.
— Bem, é que vamos ter que sair e comprar algumas coisas e, provavelmente, iremos precisar recortar papéis, pintá-los, fazer ligações… — eu disse.
— E comer também, porque de saco vazio ninguém para em pé. — respondeu, enquanto comia algumas jujubas.
— meu pai começou a rir e eu o acompanhei — Nesse ritmo, essa criança virá pesando mais ou menos 5kg com o tanto de comida que você consome.
— Se já não estiver com 5kg. — comentei, ainda rindo.
— Está me chamando de barriguda, ?
— Não é como se você não estivesse, . — ela abriu a boca, indignada.
— Só por causa disso — ela colocou a tigela de jujubas sobre a mesinha de centro e se levantou — Vou deixar você organizando as coisas sozinha.
— Eu vou estar com as meninas.
— Então a minha presença não significa nada para você? — ela colocou a mão sobre o peito, dramatizando.
— Vocês, hein! — meu pai bufou. — Tenho um compromisso agora, então a casa está liberada para vocês, mas…
— WooHoo! — nós comemoramos.
— Eu não terminei — ele nos interrompeu — Tudo que sujarem, limpem, entendido?
— Sim, senhor. — bateu continência e meu pai revirou os olhos, nos fazendo rir.
— Vai demorar? — perguntei, curiosa.
— Talvez. — ele tentou conter o sorriso — Estou indo jantar na casa da Dinah.
— Hum… — eu e nos entreolhamos, rindo.
— Por que estão rindo assim?
— Tio , você está caidinho pela diretora Dinah!
, eu não…
— Não adianta disfarçar, dá para perceber. — ela colocou as mãos na barriga — Está vendo só, bebê? O vovô está apaixonado.
, não diga essas coisas a criança.
— Por que não? É bom que ela já vai aprendendo a lidar com sentimentos.
Ela? — meu pai franziu a testa — Já deu para saber o sexo?
— Eu tive um sonho lindo, e nele, um anjo me contava que estou esperando uma menina, então já falo com ela no feminino. — respondeu, meio alucinada.
— Garota, na próxima consulta, eu vou falar para a tia Audrey te levar também no psiquiatra ou neurologista.
— Meninas, se divirtam!
— Pai — ele já ia saindo. — Você acabou de almoçar e já vai jantar?
— Bem, é que eu me ofereci para fazer o jantar.
— Mesmo assim, ainda é bem cedo, não acha? — e me olharam estranho. — Por que estão me olhando assim?
— Porque você está com ciúmes do tio . — gargalhou.
— Não estou, não. — cruzei os braços.
— Oh, o bebezinho do papai está com ciúmes. — ele brincou, mudando o tom de voz. — Fica tranquila, nenhuma mulher irá substituir o lugar da sua mãe.
— Eu nem mesmo tive uma mãe. — respondi num tom carregado demais. — Quero dizer, a diretora Dinah é legal, eu fico feliz por vocês.
— Obrigado, filha. — meu pai pigarreou. — Bem, então eu já vou. Juízo, hein!
— Está tudo bem? — perguntou, preocupada.
— Sim, não esquenta a cabeça comigo, não.
— Tem certeza? — olhei para minha amiga e sorri.
— Relaxa, , eu estou bem. — ela assentiu. — Agora precisamos chamar as meninas, você pode mandar uma mensagem para a Heather?
— Claro, ela deve ter o contato das outras garotas. — peguei uma jujuba e comi imediatamente. — Não vai almoçar?
— Ah, não, estou sem fome. — franziu a testa e eu disfarcei.

Enquanto esperávamos as meninas, eu e ficamos pesquisando decorações simples e que pudéssemos fazer de forma rápida, afinal, uma semana é um prazo curtíssimo e, sinceramente, eu não fazia ideia de como aprontar tudo dentro desse tempo, mesmo tendo a ajuda das garotas. Seriam muitas opiniões diferentes, até entrarmos em um consenso...
A campainha tocou diversas vezes, já sabíamos que eram as nossas colegas de classe. Preguiçosamente eu me levantei para ir à porta, torcendo para que só Heather e mais três estivessem frente à casa. Mas, para minha surpresa, ao abrir a porta, me deparei com quase todas as garotas da turma.

— Trouxe reforços — Heather disse, sorridente, apontando para as meninas — Espero que não se importe.

[Capítulo Vinte e Sete]

, você parece assustada. — uma delas comentou, talvez percebendo o meu susto com a quantidade inesperada de meninas. — O que houve?
— Nada, só emoção pelo baile mesmo. — elas assentiram — Por favor, entrem.

Dei passagem para que elas pudessem se acomodar e fechei a porta logo em seguida. Elas observavam a casa e me olhava como se aquilo não fosse real. Em mil anos, jamais imaginaríamos ter tanto contato com as meninas da nossa turma.

— Vocês não chamaram a Halston? — perguntou, curiosa.
— Ela se mudou com os pais, então nem deve participar. — Gretha respondeu — Foi muita sorte vocês terem me encontrado em casa, eu estava prestes a viajar para a casa dos meus avós.
— Eu também. — Lilo comentou.
— Acreditam que eu também? — a mais nova entre nós, perguntou, surpresa.
— Bem, o importante é que estamos em um número considerável e podemos resolver tudo, sozinhas. — minha amiga disse.
— Acho que não, . — Heather pensou um pouco — Os meninos precisam ajudar também.
— Eu duvido que eles queiram.
— Com você estando em nosso meio, tenho certeza que, pelo menos, Simon vai querer "ajudar". — a mais novinha disse, rindo fraco, e colocando as mãos sobre a boca.
— Por que diz isso? — me fiz de desentendida.
— Porque já fazem 3 anos que ele gosta de você e todo mundo sabe disso.
— Todo mundo sabe disso? — perguntei, incrédula.
— Menos você. — minha amiga respondeu, simples.
— Bem, ele me contou hoje, mas… Isso não importa. — eu estava indignada — Por que vocês não me contaram antes?
— Ora, , eu sabia que você gostava do meu irmão, a minha torcida era para ele. — disse, como se aquilo fosse óbvio.
— Tô me sentindo traída. — eu disse, com as mãos na cintura e as garotas gargalharam.
— Deixe de ser dramática, . Você já até está namorando com o irmão da . — Lilo disse, sem tirar os olhos da tela do notebook.
— Que, por sinal, é bem bonito — a mais nova comentou, num tom baixo — Com todo o respeito.
— Com todo o respeito, né?! — eu disse, rindo da expressão engraçada que ela fez e fui acompanhada pelas outras meninas.
— Bem, eu tive uma ideia. — Gretha se manifestou — Por que não fazemos um Baile de Máscaras?
— Porque não temos dinheiro para isso. — respondeu, rapidamente — Não conseguimos arrecadar tanto durante o ano.
— Na verdade, com base nas contas que fiz na semana passada, temos o bastante para poder realizar um Baile de Máscaras. — Heather nos surpreendeu — A decoração não deve sair pelo preço de um rim, até porque a festa será apenas para nossa turma.
— Mas independente do tanto de pessoas que for, a decoração será feita em toda a quadra da escola e o lugar é enorme. Teremos muitos gastos da mesma forma. — minha amiga respondeu, ainda acelerada.
, será que você pode se acalmar um pouco? — Heather pediu.
— Eu estou…
— Nervosa. — Concluiu Heather e minha amiga pegou a tigela de jujuba e comeu mais algumas — Só estou tentando dizer que podemos fazer uma decoração completa, temos verbas para isso, independente da quantidade de pessoas que irão à festa.
— Acho que a quer dizer que, não temos apenas a decoração para nos preocuparmos, tem comida também, entende? — eu disse, em defesa da minha amiga e Heather assentiu.
— É verdade! A parte de roupas e tudo mais é pessoal de cada um, o gasto será nosso. Mas, em relação a comes e bebes, ainda é parte das verbas que juntamos durante todo o ano letivo. — a mais nova disse.
— E essas coisas saem bem caras, se não fizermos uma boa pesquisa. — vez da Gretha dizer.
— Aqui, meninas — Lilo nos mostrou a tela do meu notebook — Encontrei essa casa de festas pela internet; o espaço é bom, mas a equipe também fornece…
— Mas nós já temos a quadra da escola, não precisamos do salão. — a mais nova interrompeu Lilo, que a olhou sem entender.
— Deixa ela terminar de falar, mascotinho. — Gretha disse, dando uma leve tapa na testa da mais novinha, fazendo a menina reclamar.
— Continuando: — Lilo pigarreou — Além do salão, a equipe também fornece a parte de comidas e bebidas, DJ e aquela maquininha de fumaça para a pista de dança.
— E qual é o preço? — Heather perguntou.
— Bem mais do que você disse que nós temos. — Lilo respondeu, desanimada, e nós ficamos da mesma forma.
— Eu avisei que ainda tinha muita coisa a pagar. — disse e eu a encarei — Que foi? Eu avisei mesmo. — ela deu de ombros.
— Será que se pedirmos apenas a parte do buffet e da pista de dança, eles diminuem o valor? — Heather perguntou.
— Posso tentar entrar em contato com eles, mas acho que demora uns 3 dias até que me respondam. Eles são muito solicitados. — Lilo respondeu.
— Não temos esse tempo disponível. — eu disse, me levantando para ir à cozinha — Querem comer algo?
— Obrigada por perguntar, , estou mesmo faminta. — a mais nova respondeu, me fazendo rir.
— Então venha me ajudar.
— Vai lá, mascotinho. — Gretha brincou.
— Ei, eu não sou um "mascotinho", meu nome é Ann. — ela respondeu, meio brava. — Você fica zoando com a minha cara só porque sou baixinha e gordinha, e ainda…
— Ei! Não tem nada a ver com a sua aparência. — Gretha a interrompeu — É que você é a mais novinha da turma e eu acho "mascotinho" um apelido bem bonitinho.
— Ah, sim. — Ann foi se acalmando.
— Você é uma fofa, não achei que se sentiria ofendida por ser chamada de mascotinho. Desculpa.
— Tudo bem, eu já fico na defensiva porque a Halston e as babacas das amigas dela sempre me perturbavam. — nós arregalamos os olhos e começamos a rir. — Que foi?
— Você as chamou de babacas! — Lilo disse, ainda rindo forte.
— Não é isso que elas são? — Ann parecia confusa.
— Você é demais, mascotinho. — Gretha a abraçou.
— Ei! — Ann reclamou e Gretha a olhou, confusa — Tô só brincando.
— Gente, vocês são demais! — Lilo se pronunciou — Por que não fizemos isso antes?
— Isso o quê? — estava curiosa.
— Uma reuniãozinha social.
— Porque somos idiotas. Ao invés de nos juntarmos contra a Barbie e seu bando, ficávamos brigando entre si.
— A Halston meio que se arrependeu das babaquices dela — todas me olharam.
É verdade esse bilhete. — Lilo disse, fazendo as meninas rir.
— É verdade, gente, ela realmente ficou mais consciente. — reforçou.
— Bem, se a está dizendo, eu acredito. — Gretha respondeu.
— Que isso, hein?! — fiquei indignada, mas Ann se levantou, rapidamente e veio até à cozinha.
— Não se importe com essas meninas e, me diga, por onde começo?

Depois de preparar o suco, Ann levou alguns biscoitos e pãezinhos para a sala. Decidimos que realmente seria feito o Baile de Máscaras que Gretha sugeriu; encontramos uma empresa barata de lanches e bebidas para festas, chamada: Party 99. ter nos deu a bela ideia de colocarmos algumas músicas em um pen-drive e só usarmos as caixas de som do colégio e concordamos, afinal, não pagar por um DJ na festa seria um gasto a menos.
Combinamos que as cores de toda decoração serão preto e dourado. Já havíamos entrado em contato com a equipe e só falta mesmo depositar o dinheiro.
Aparentemente, estava tudo certo.

— Eu nem acredito que conseguimos vencer esse desafio que diretora Dinah nos deu. — Gretha disse, sorridente.
— Esquecemos de uma coisa — parou de comer os biscoitos e nos olhou — Os convites ainda não foram enviados.
— Meu Deus, gente! Essa é uma das partes mais importantes. — Ann se desesperou — Como pudemos ter esquecido? — Verdade! Sem convidados, tudo terá sido em vão. — Lilo disse, dando de ombros.
— Não é verdade, estamos fazendo isso já sabendo que nem todos irão. A maioria da turma está de férias e viajando, ou irá antes do baile acontecer. — Heather começou — Mas, independente de quem for, nós estaremos lá aproveitando tudo.
— E se a comida for demais para apenas algumas pessoas? — Gretha perguntou, preocupada.
estará lá para comer tudo. — eu disse e minha amiga deu uma piscadela, enquanto bebia suco e as garotas riram alto. — Fique tranquila, Gretha, comida nenhuma irá sobrar.
— É isto. — levantou sua mão e nós fizemos um high-five. — Mas ainda não fizemos os convites.
— Deixem comigo. — Lilo respondeu, sem tirar as mãos do teclado do notebook. — Já estou começando a escrever.


Galerinha da turma 3001,
o ano foi bem difícil para nós e continua sendo para alguns,
mas temos uma novidade que, talvez, alegre (e muito) o nosso fim de ano:
Formatura.
E todos vocês estão convocados a participar do nosso Baile de Máscaras,
que acontecerá no dia 16 de dezembro,
às 19:00h, na quadra do Colégio Brilho Flamejante.

*Não se esqueçam de levar seu acompanhante.


— O que acharam?
— Ficou legal. — Ann respondeu e as outras meninas assentiram.
— Então já vou enviar, beleza? — Lilo pediu nosso consentimento e todas concordamos. — Ok, enviado.
— Perfeito! — eu sorri, animada.
— Bem, está feito, se não tiver mais nada a fazer, eu já vou. — Lilo disse, enquanto fechava o notebook — Ainda tenho que ir assistir ao jogo de futebol do meu irmão hoje.
— Eu também preciso ir, meninas, tenho que começar a pesquisar por vestidos. — Heather disse, se levantando do sofá.
— Meu Deus! Minha mãe vai ficar louca quando eu contar sobre o baile. — Gretha riu fraco — É o sonho dela me ver em um vestido bonito.
— Você nunca usa? — perguntei, curiosa.
— Não, nunca gostei, mas irei abrir essa exceção. Apenas pelo nosso esforço. — eu sorri. — Agora preciso ir, sei como é a minha mãe, vai querer ficar até a madrugada pesquisando modelos de vestidos para eu experimentar.
Mães sendo mães. — Ann disse, fazendo todas rir e eu confesso que até tentei, mas as lembranças da minha mãe vieram e não foram as melhores, se é que eu tenho alguma boa.

As meninas foram embora, menos , que me ajudou a limpar toda a bagunça antes que chegasse. Se bem que, nós sabíamos que ele não chegaria tão cedo.
Minha amiga me olhava vez ou outra e pela sua expressão, estava preocupada.

— Não é de seu feitio ficar guardando algo que tá te deixando intrigada, ainda mais quando está relacionado a mim. — ela fingiu que não era com ela — Fala de uma vez, .
— Apenas hoje, você ficou sentida duas vezes por eu e Ann termos tocado no assunto: "mãe". — eu respirei fundo, desviando o olhar para o copo que eu estava secando — O que está acontecendo?
— Eu só fico chateada por não poder contar as coisas que me acontecem para a minha mãe. — tornei o olhar à — Quero dizer, eu queria ter tido uma mãe presente, sabe? — ela assentiu — Queria poder contar como está sendo no colégio, como estou me sentindo agora que eu e oficializamos o nosso namoro, ter a ajuda dela para escolher o meu vestido para usar no baile, contar qual foi a sensação de ter beijado pela primeira vez e, queria até mesmo me sentir envergonhada com perguntas constrangedoras que mães fazem, como: "o que achou da sua primeira vez?".
— Mas logo após as perguntas, elas ficam bem bravas por perceber que não somos mais crianças e depois começam a chorar. — eu ri fraco, sempre fala de forma engraçada, independente do assunto.
— Bem, isso nunca me aconteceu… — eu diminuí o tom da minha voz.
— Sinto muito por tudo que você passou com sua mãe, super girl. De verdade! — ela me abraçou. — Você pode contar comigo e com a minha mãe, sempre.
— Eu sei, amiga, e não quero que fique chateada, mas é diferente. Queria poder ter com a minha mãe o laço entre mãe e filha que a maioria das garotas da nossa idade tem, sabe? — ela assentiu — Quando a minha mãe retornou de Keoursna e parecia estar mudando, ficamos um pouco mais próximas. Eu ainda estava muito desconfiada, mas, queria poder sentir um pouquinho do cuidado dela para comigo. Depois, descobri que tudo não passava de um plano para matar o meu pai... Enfim, você já conhece toda a história.
— Entendo, sim. Mesmo com todos os defeitos, tenho uma boa relação com a minha mãe e nem me imagino numa situação semelhante a sua. — me soltou do abraço e me olhou como se tivesse feito uma descoberta incrível — Talvez, diretora Dinah possa ser a mãe que você não teve.
, eu não posso cobrar isso dela e nem mesma a própria deve sentir essa vontade. — eu suspirei alto — Nem sei como será o futuro dela e do meu pai, juntos.
— Acho que vão se casar, seu pai tá tão apaixonado.
— Mas eu não sei se Dinah também está, pelo menos, não o suficiente para aguentar os vícios do meu pai.
— Sabe o que eu acho? — olhei para — Acredito que o seu pai será capaz de largar tudo para ficar com diretora Dinah.
— Por que acha isso?
Porque o amor tem o poder de transformar.
— Tô de volta. — ouvi a voz do meu irmão invadir a casa. — Onde estão todos?
— Aqui na cozinha. — respondi, ainda pensando nas palavras da minha amiga.
— Amor, você ainda está aqui — nem esperou se aproximar e já foi ao encontro dele, na sala. — Seus pais não irão reclamar do tempo que você fica aqui em casa?
— Que nada! — ouvi ela responder — Mas preciso ir agora, acho que ainda vamos ao aniversário da tia Elizabeth.
— Tudo bem, se divirta. — meu irmão disse.
— Obrigada, amorzinho. — revirei os olhos, ao ouvir e comecei a rir sozinha — Tá debochada, hein, super girl!
— Desculpa. — eu pedi, continuando a rir.
— Rum! — ela resmungou e eu ouvi o barulho da porta se fechando com força.
— Vocês duas, hein! — meu irmão disse, rindo fraco. — já saiu?
— Sim. Ele saiu bem cedo para um jantar com diretora Dinah. — gargalhou — Que foi?
— Você nem tá escondendo o seu ciúme! — ele continuou gargalhando — E nem adianta dizer que não, eu te conheço.
— Não tô com ciúme, só fico pensativa.
— Sei… — eu peguei a minha garrafinha de água que estava no congelador e bebi quase todo o líquido que ali estava — Quero te falar uma coisa, , talvez você não goste muito. — eu o olhei, intrigada — Amanhã eu vou visitar a minha mãe e tô pensando em chamar a para ir comigo.
— Tudo bem.
— Só vai dizer isso?
— Você sabe o que eu penso sobre o assunto, então, sim, irei limitar a minha fala a "tudo bem". — ele suspirou alto. — Até porque eu não tenho o direito de te impedir a fazer nada do que você queira.
, sei disso tudo, mas queria te dizer que não vou visitá-la à toa.
— Como assim?
— Quero conhecer os nossos avós maternos. — eu arregalei os olhos, surpresa com o que dissera. — Você também quer, não é mesmo?
— Bem, não sei… — eu o olhei — A-acho que sim.
— Sei que passamos por muitas coisas e eu te compreendo totalmente por não querer mais ter "contato" com a nossa mãe, mas acho que podemos nos dar a chance de conhecer nossos avós. Pelo menos, eu quero muito.
— Quer que o bebê os conheça, não é mesmo? — ele assentiu e eu ri fraco — Mas quer fazer isso por você também.
— Por nós.

Eu percebia o quanto aquilo era importante para o meu irmão e eu queria aceitar aquela situação, pelo menos, por ele. Jamais iria na cadeia visitar a minha mãe. Não mesmo! Mas, me iria me esforçar para conhecer os meus avós maternos, afinal, eles não têm culpa da mulher que minha mãe se tornou.
Ou teriam?
São tantas perguntas sem resposta. Tantas incertezas. Tantas desconfianças… O melhor a fazer é realmente tirar tudo a limpo.
Sim, agora mais que nunca quero conhecer os meus avós.

? — interrompeu os meus pensamentos — Você parece meio distante.
— Só estou pensando na formatura. — menti.
— Então, diretora Dinah permitiu? — eu assenti — Que bom! Você e queriam tanto. — ele saiu empurrando a cadeira de rodas para a sala.
— Quer subir?
— Sim, preciso de um banho. — eu o olhei, séria — Sei o que está pensando, mas eu consigo.
— Mas, — ele parou de empurrar as rodas da cadeira para me olhar — A Cassie não deveria estar aqui para te ajudar?
a dispensou pouco tempo depois da fisioterapia. — eu arregalei os olhos e ele riu fraco — Parece que ela ficou enciumada.
— Eu não quero saber! — meu irmão riu mais — Você precisa da ajuda de uma enfermeira e, por sinal, Cassie é ótima no que faz.

— Também não quero que você fique fazendo ciúmes na minha amiga — ele sorriu ladino — Tira esse sorriso safado do rosto, !
, não se esqueça que você não é a minha mãe.
— Claro que não, tenho mais juízo que ela. E não me importo se você não gosta do que eu digo, mas não irei aceitar que você a faça de boba. está grávida, . — ele tirou o sorriso do rosto e respirou fundo — Ela passou por um aborto espontâneo e foi muito difícil para todos nós, principalmente para a própria, tenho certeza que você também não quer que algo a fragilize a ponto de perder outro bebê.
— Claro que não. — respondeu, imediatamente — E eu só estava brincando. Mas você, com essa mania de ser dramática, tem que levar tudo ao extremo.
— Agora o problema sou eu? — eu pus a mão sobre o peito e ele me deu as costas, empurrando a cadeira de rodas até a escada.

Ouvimos um barulho na porta e, de repente, adentrou a casa, meio decepcionado. Pelo menos, era o que transparecia através de sua expressão meio triste.
Ele tirou a jaqueta e a pendurou no suporte, estava agindo com certa lentidão. Estranhei, já que o meu pai é sempre tão acelerado.

— Vocês estão bem? — ele perguntou se aproximou, abrindo o botão das mangas de sua camisa. — Pelas suas respirações, parecem nervosos.
— Pai, por favor, pode me levar até o quarto? — pediu e o levou no colo até o quarto, juntamente com sua cadeira.
— meu pai desceu pela escada, preocupado — O que você disse a ele?
— Como assim? Eu não fiz nada demais! — arregalou os olhos. — Pai, eu juro, só estava tentando proteger ele, e o bebê.
— Filha, eu acredito em você. — assenti, sem acreditar. — Estou falando a verdade, . — meu pai se sentou no sofá e eu o acompanhei. — Mas, seu irmão está numa fase muito difícil.
— Sei disso e entendo o comportamento de . — minhas lágrimas começaram a escorrer por meu rosto, involuntariamente. — Eu também sofro por vê-lo estar passando por tudo isso.
— Então tente imaginar o sofrimento dele. — suspirei alto — Ele não vai falar que está mal porque, na cabeça dele, guardando todo seu sentimento para si, não irá nos fazer sofrer também.
— A culpa não foi dele! — eu afirmei — Todos sabem que a única culpada de tudo o que está acontecendo é a minha mãe.
— Sua mãe tem grande parte da culpa, mas será que todos os males realmente provém dela? — eu fiquei boquiaberta e incrédula com as palavras de .
— Não acredito que você…
— Não estou protegendo sua mãe de absolutamente nada. Quero, sim, que ela pague pelo que fez com seu irmão e por todas as outras coisas. — ele se levantou, passando as mãos pelo seu rosto — Mas, filha, as escolhas que fazemos são nossas. No fim das contas, quem irá arcar com as consequências de todas elas somos nós. E não devemos atribuir ao outro o que fazemos, mesmo que tenha sido ele o causador dos nossos transtornos.
— Isso não é justo — ele me olhou, com os olhos lacrimejando — Mesmo tento sofrido com todos esses problemas, ainda sou eu a culpada de tudo?
, não estou dizendo isso. — me abraçou, em meio ao choro. — Só estou tentando explicar que, podem até tentar nos destruir, ainda que aos poucos, mas a decisão de nos deixarmos ou não ser destruídos, é nossa. — ele secou as minhas lágrimas e olhou em meus olhos — Sei que até hoje você sofre as consequências da forma agressiva que eu te tratava. Sei também que já a tratou de forma muito errada também. E sei também que você possuiu uma mágoa muito grande em relação a sua mãe. — eu apertei os meus lábios e pisquei os olhos de forma intensa — Nada disso foi culpa sua, pelo contrário, você é a maior vítima de tudo. Mas, não deixe que a sua vida seja um resquício de toda essa situação.
— Eu já não sei o que fazer para mudar de vida.
— Você já tem feito isso, só não percebeu ainda. — eu suspirei alto — Filha, sei que o seu maior medo é ser como a sua mãe, mas você não é como ela. E suas escolhas são totalmente diferentes das dela.
— Então, era isso que você tinha a me dizer? Era isso que queria explicar?
— Sim, e você conseguiu entender aonde eu queria chegar depois de tanto falar no seu ouvido. — nós rimos fraco — Sua vida não será igual a da sua mãe, porque as suas escolhas não são parecidas com as dela.
— Mas, e se…
— E nem precisam ser. Independente do que aconteça, você sempre terá a opção de escolher algo diferente do que ela fez para a sua vida. — ele segurou o meu rosto, de forma delicada. — Não tenha medo do futuro. Quando ele chegar, você colherá os bons frutos de sementes que tem plantado agora. Por isso, viva o presente, pense, sim, no que as escolhas de hoje trarão para o seu futuro, mas não deixe de viver o agora.
— E, se em algumas vezes algo em mim se parecer com a minha mãe. — meu pai arqueou uma sobrancelha. — Bem, se eu tiver um defeito ou uma qualidade parecida com a dela?
— Bem, você tem parte da genética dela também, é natural que em algo se pareça com ela, mesmo que não goste disso. — assenti — Sua mãe não possui apenas defeitos, assim como eu não possuo apenas qualidades. — eu engoli a seco aquela verdade dita pelo meu pai. — Consegue me dizer uma coisa boa que você enxerga em sua mãe?
— Ah… Bem, e-ela… — eu pigarreei um pouco — Ela tem um cabelo lindo. — confessei.
— E o seu é exatamente como o dela. — meu pai sorriu para mim — Consegue perceber que nem tudo é tão ruim quanto parece?
— Verdade. Mas, ainda preciso de um tempo para começar a digerir melhor isso. — eu disse, sincera e assentiu. — Por que voltou tão cedo do jantar?
— Eu e Dinah tivemos uma conversa bem séria. Fiz uma revelação que a deixou chocada e um tanto chateada também. — eu imaginava que ele estaria falando de seu vício em bebidas alcoólicas e drogas ilícitas. — Ela me pediu um tempo para pensar melhor em um possível futuro para nosso relacionamento.
— Entendo. — se virou de costas para mim, mexendo em um dos quadros na parede da sala.
— Antes de voltar para casa, fiz um pedido a Dinah — ele me olhou.
— Qual?
— Que Dinah fosse te ajudar a escolher um vestido para o Baile de Formatura. — eu pus as mãos no rosto, incrédula.
— E o que ela disse?
— Que jamais negaria um pedido como esse. — ri alto, ainda sem acreditar naquilo.
— Obrigada, pai! — o abracei ainda mais forte dessa vez. — Isso significa muito para mim.
— Eu sei. — ele me soltou, ainda sorrindo. — Agora eu vou me deitar, amanhã tenho que trabalhar até tarde e você tem provas. — franzi a testa, confusa, como ele poderia saber? — Se esqueceu que estou saindo com a diretora do seu colégio?
— Ainda que eu quisesse esquecer, sempre me lembra. — ele riu fraco.

Subimos juntos até o andar de cima e cada um foi para o seu quarto. Tomei um banho rápido e me deitei na tentativa de relaxar, não poderia ir mal em minha última tentativa de não repetir o mesmo ano letivo. Só quero passar nessas provas e tentar a sorte no vestibular, tenho me esforçado tanto mesmo não acreditando que tenha sido o suficiente. Mas, tentar não mata e nem machuca, só serve como experiência.
Virei-me para o lado oposto e dei início a uma noite tranquila de sono.


[Continua...]


Nota da autora: Espero muito que vocês deem uma nova chance a Heavy (depois de tanto tempo sem att) e apreciem esse novo capítulo. Peço também que vocês comentem o que estão achando da história, é muito importante para mim ter esse retorno de vocês. Me deixarão super feliz! ♥
É isto, galerinha. Até os próximos capítulos, BJoo 😽


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