Última atualização: 29/03/2018

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[Capítulo Dezesseis]

— Você não iria à delegacia?
— Não desvie de assunto.
— Só confie em mim, ok? — eu disse, tentando me remexer na cama.
— Você que precisa confiar em mim, por que não quer me contar? — franziu o cenho, descansando as mãos na cintura.
— Pai, por favor, deixe-me a sós com — pedi, mas ele negou com a cabeça. — Caramba!
— Isso é jeito de falar comigo, mocinha? — rolei os olhos e suspirei. — Já pode começar.
— E se eu não quiser? — ele somente ergueu uma das sobrancelhas, e já ia começar a falar quando foi interrompido pelo toque do seu celular.
— É o doutor Phill, preciso atender, mas ainda não terminamos. — apontou para mim e foi atender a ligação no outro cômodo.
— Temos que sair daqui enquanto minha mãe não está. — eu disse.
— Mas...
— Eu explico tudo depois, precisamos ser rápidas!

Fui me virando devagar até colocar os pés no chão e me levantei com a ajuda da . Saímos pela janela. Depois do esforço de pular o muro, andar rápido estava sendo um sacrifício, porém conseguimos chegar à casa de tio Michael.

, que bilhete é este? — mal entramos e tia Audrey já nos recepcionava, erguendo a sua mão, mostrando o papel. — Que história é essa de ligar para a polícia?
— Mãe, eu... — interrompi quando senti uma pontada mais forte na coluna.
— Nossa! A dor está ficando mais intensa. — tentei respirar fundo.
— Temos que te levar ao hospital.
— O que aconteceu, ? — tia Audrey se aproximou. — Não me diga que seu pai...
— Não. Desta vez fui golpeada nas costas pela minha mãe.
— Por que ela fez isso?
— Eu também quero saber. — sentou-se à minha frente. — , o que tá acontecendo?
— Eu descobri o motivo da separação dos meus pais — tia Audrey arregalou os olhos. — Minha mãe é uma stripper e meu pai não a suporta por esse motivo. Eles perderam um filho por conta disso, então começou a beber e se drogar, acumulando dívidas altas na boate. — arregalava os olhos. — Minha mãe trabalha lá até hoje e veio fugida, pra pedir ajuda ao meu pai, mas isso foi o que ela disse a ele e meu irmão. O que ela quer mesmo é que meu pai morra, o preço de sua liberdade é a morte dele.
— Então a história é muito mais complicada do que imaginávamos! — tia Audrey pôs a mão na boca e andou de um lado para o outro. — Tenho que contar tudo ao Michael.
— Mãe, isso é assunto da .
— Não mesmo, somos a família dela e precisamos ajudar. Não entende que pode morrer? — eu e nos entreolhamos, estranhando o comportamento de tia Audrey. — e também correm risco de vida.
— Meu pai não pode saber de nada agora, ele ficaria possesso e tentaria fazer algo contra minha mãe, já que o velho dono da boate ameaçou a mim e meu irmão.
— Eu não disse — ela coçou a cabeça. — Vocês também estão em perigo.
— Tia, eu temo que minha mãe tente fazer alguma maldade com as próprias mãos.
— Ela não teria coragem.
— Eu acho que ela teria, sim. — opinou. — A maluca golpeou a própria filha, imagine o que pode fazer com o ex-marido.
— Mas isso é muito grave! — tia Audrey disse, já se descontrolando.
— Entende por que não posso contar ao meu pai?
— Ele agiria diferente com sua mãe e ela perceberia. — assenti. — Mas eu vou contar isso ao Michael, assim que ele chegar do trabalho.
— Gostaria de contar a também, mas não sei se devo. Ele vive defendendo minha mãe, e pode acabar nos prejudicando, mesmo sem intenção.
, o seu irmão precisa saber a mãe podre que tem.
, isso é jeito de falar? — olhamos assustadas para tia Audrey, que parecia bem nervosa.
— É a verdade, — ela respondeu.
— Não quero que fale da mãe da desta forma. — rolou os olhos. — Eu te dei educação, menina, não se esqueça de usá-la. E trate de desfazer essa cara de...
— Tia, tá tudo bem.
— Não está, não — ela me olhou. — Não importa o que aquela mulher faça, ela não vai deixar de ser sua mãe. — olhou para . — E eu exijo que você respeite isso.
— Já terminou? — a provocou. Tia Audrey ficou vermelha de raiva. — Não sei por que está assim, tão nervosa.
— Ah, ela não sabe por que eu to nervosa — a mulher a nossa frente riu, sem humor. — Então deixa eu te contar, A SUPER GIRL E O IRMÃO DELA ESTÃO CORRENDO RISCO DE VIDA! — ela gritou, enquanto sacudia , que mantinha seus olhos arregalados. — Entendeu a gravidade da situação, agora?
— Tia — ela me olhou — Por que tá agindo assim? — perguntei receosa. Ela olhou arrependida para e a abraçou.
Eu não disse, mas estava assustada com sua reação, ela teve um surto daqueles. Sinistro!
— É a segunda vez que passamos por algo do tipo. — tia Audrey se sentou ao lado da minha amiga, que se esforçava para não chorar, ou rir, não dá para saber quais serão as reações da . Deve ter herdado isso da mãe. — Primeiro aparece aquele moleque para tentar estragar sua vida e, consequentemente, a nossa. Agora surge a sua mãe querendo desgraçar a todos nós.
— Mas, não precisa se preocupar tanto, tia. — eu disse sincera.
— E você acha que eu consigo? — ela suspirou. — , eu conheço você e seu irmão há anos. Amo vocês dois como se fossem minhas crias, jamais deixarei de me preocupar. A mesma felicidade que eu desejo para e eu desejo para você e .
— Obrigada, tia. Você é a mãe que eu não tive.
— É por isso que me preocupo, sou sua mãe. — ela sorriu pra mim e beijou minha testa. — Acho que te devo desculpas, não é filha? — disse a .
— Não, eu entendi que você está bastante nervosa. — ela mexeu em seu cabelo. — Não vou mais te provocar, pelo menos, por enquanto.
— Meus amores. — tia Audrey nos abraçou e foi tão forte que senti minha coluna pulsar, novamente. Resmunguei de dor.
— Mãe, você tá nos esmagando e a tá machucada.
— Vou te levar ao hospital, espere só eu pegar minha bolsa. — tia Audrey subiu.
— Detesto hospital! — resmunguei.
— Eu também. Ainda mais porque me lembro de tudo o que aconteceu. — suspirou. — Mas vou com vocês.
— Obrigada. — ela sorriu. — E se meu pai vir atrás de mim?
— Qualquer coisa eu te protejo. — tia Audrey disse, pegando as chaves. — Venha, eu te ajudo.

Depois de mais ou menos 1h e meia, eu estava de volta à casa da . Precisei tomar um medicamento pela veia para aliviar a dor, porém ainda sentia um pouco de dificuldade no caminhar.

— Está melhor? — tia Audrey perguntou ainda preocupada.
— Sim, tia — ela deu um suspiro de alívio. — Obrigada.
— Mãe, o que vamos fazer? — perguntou. — Porque a não pode voltar para casa.
— Olha, não vamos pensar nisso agora, ok? — tia Audrey estava indo para o seu quarto. — Mais tarde seu irmão e Michael chegam e nós resolvemos isso.

Fiquei pensando em , havia algumas semanas que eu não o via e estava sendo torturante, mas eu não fazia ideia de qual seria a sua reação ao ver-me, novamente. Meu pai acha que nós estamos namorando, mas a verdade é que ainda nem fez o pedido e, sinceramente, não acho que ele fará tão cedo.

? Não está me ouvindo? — chamou minha atenção me dando um tapinha na testa.
— Pra que mais violência na minha vida? — ela riu alto, me contagiando. Logo senti uma leve pontada na coluna. — Ai!
— Você tá igual a minha avó. — rolei os olhos. — Vamos para o meu quarto, você deita na minha cama e fica mais a vontade.
— Obrigada, mas acho que neste momento, eu preciso mesmo é de um banho.
— Vamos subir então. — me ajudou a ficar de pé, mas eu fui caminhando sozinha mesmo.

Estava sentindo o efeito da medicação e já conseguia andar sem que minha coluna latejasse ou desse alguma pontada.

— Nossa!
— Que foi? — me olhou.
— Essa nova cor das paredes deu um realce legal aqui.
— Minha mãe que teve a ideia de mudar um pouco a cor e a decoração, no geral. — ela deu de ombros. — Quer uma toalha? — assenti e ela tirou uma de dentro de seu armário.
— Valeu. — entrei no banheiro.
, minha mãe está me chamando, já volto.
— Okay.

Demorei no chuveiro porque queria relaxar um pouco. Ouvi um barulho na porta, sabia que era a minha amiga.

, o shampoo acabou. Tem outro aí? — ela não respondeu, mas colocou o vidro na prateleira. — Obrigada, super girl.

Saí do banheiro e vi , prestes a entrar em seu quarto. Ele me olhou.

, o que está fazendo aqui? — ele adentrou o quarto de . Deitei-me na cama, com cuidado. — O que houve? Está machucada?
— Sim, mas é uma longa...
— Não voltou por minha causa, não é mesmo? — sua voz estava num tom elevado.
— Sendo tão babaca, ultimamente, acha mesmo que estou aqui por você? — ele respirou fundo. — Pare de me punir desta forma, tá!? Eu sei que errei, mas não fui a única a cometer erros.
— Tem razão.
— Não quero discutir com você toda vez que nos encontrarmos.
— Também não. — ele se aproximou. — Eu gosto de você, de verdade.
— Sinceramente, eu não tenho mais certeza disso. — ele franziu a testa. — Mas, tenho certeza do que sinto por você, e é tão forte que me faz querer te ter por perto, sempre. O que é ridículo, porque sei que pra você não faz diferença. — bufei com raiva de mim mesma.
— Não diga o que não sabe! — ele disse firme. — Eu só me afastei de você, com sua própria aprovação, para não terminarmos algo que mal havia começado. Se ficássemos juntos, num momento tão difícil para nossas famílias, não teríamos futuro. — minhas lágrimas já escorriam, involuntariamente. — Você precisa entender isso!
— Eu não quero falar sobre nós dois, não agora.
— Já estamos falando.
— Mas eu não quero continuar! — eu elevei meu tom de voz e o encarei. — Eu não estou em condições, você não percebe?
— Percebo. Você nunca está em condições.
, to passando por problemas, novamente, e desta vez, eu não faço ideia de como resolver. É mais grave do que eu pensava. — respirei fundo.
— Sua mãe? — assenti. — Desculpe, eu não sabia. Eu disse que te ajudaria a descobrir os segredos dos seus pais, porém não cumpri com minha palavra.
— E foi melhor assim! — afirmei, secando minhas lágrimas. — Você teria se envolvido num problemão por minha causa.
— Acho que já estou envolvido em problemas relacionados a você, há tempos. — ele riu fraco. — Mas eu não ligo, farei o que for necessário para te proteger.
— Não preci...
— Nem termine a frase. — ele me interrompeu, fixando os olhos nos meus. — Você pode até não acreditar, mas eu me preocupo com você.

Ele acariciou o meu rosto, senti meu coração acelerando, estávamos prestes a nos beijar.

— olhamos para a porta e tinha uma expressão nada amigável. — É sério isso?
— O que você tá fazendo aqui? — se aproximou dele, nervoso.
— Vamos conversar civilizadamente, por favor.
— Não tem conversa, quero seu irmão fora da minha casa.
— Eu não quero brigar, . — ergueu os braços. — Só vim ver minha irmã, que por sinal está adorando ficar aqui.
— Seu imbecil! — sufocou meu irmão, contra a parede. Tentei puxá-lo.
— Pare com isso!
, esse cara é um...
— Babaca? Pode ser, mas é o meu irmão, então solte ele.
— Me desculpe, mas o que ele fez com a minha irmã não tem perdão.
— Sério, ? Não era você que dizia pra eu perdoar por todo mal que ele causava a mim e meu irmão? — ele bufou.
— Quantas vezes eu vou ter que dizer que não forcei a nada?
— Cala essa boca! — socou . — Eu tento me controlar, mas ele me provoca. Droga!
— Vocês poderiam ter mais consideração por mim, já que não posso ficar aqui tentando separá-los dessa briguinha ridícula. — a contragosto o soltou. — Estou machucada. Quero dizer, quase tive uma lesão grave na coluna.
— Quem foi que te machucou? Não me diga que... — se irou.
— Não, meu pai nem me encostou, mas ele está envolvido.
, explicação. Eu quero explicação de tudo. — meu irmão exigiu.
— Deixa ela se sentar. — me levou até a cama da . — Pronto.
— Já pode nos dar licença, cara. Isso é assunto de família. — meu irmão começou a provocar.
— Esqueceu que sou parte da sua família há anos, ? — rebateu. — Além disso, estou em minha casa.
— Vou ter que esperar as criancinhas briguentas terminar a discussão? Eu posso deixá-los aqui pra se matarem, sozinhos. — eles se calaram. — Melhor assim.

Contei tudo o que aconteceu para eles e também se juntou a nós na conversa, estávamos bolando algum plano para proteger meu pai.

— E se eu pedir meu pai pra falar com o diretor da QUEMEVES pra...
— Mandar a uma viagem de trabalho? — continuei e assentiu.
— Acho que seria muito arriscado. Minha mãe vai logo desconfiar. — disse .
— Eu concordo. Sua mãe é mais esperta do que imaginamos. — dessa vez, foi . — Acho que seu irmão puxou a esperteza dela.
— Qual é, cara? Vai ficar me provocando o tempo todo?
— Eu só não quebro essa sua cara por respeito a sua irmã.
— Não, isso não é verdade. — me olhou. — Você quer bater nele toda vez que o vê. Como conseguem trabalhar juntos?
— Isso que eu ia perguntar. — confessou.
— Ele fez o que não devia com a minha irmã, quer que eu me sinta como? — me encarou, de braços abertos. Estava bastante enraivecido.
— Pare de ficar dizendo isso. Já aconteceu, não há mais o que fazer. — eu disse e ele bufou, se virando para outro lado. — E deixe de ser cretino!
— Vai ficar me ofendendo agora? — se indignou.
, você precisa entender que eu também quis. — manifestou-se.
— Mas ele não gostava de você, só se aproveitou do momento, dos seus sentimentos. — parecia envergonhada, e a conhecendo bem, sabia que o irmão estava a constrangendo.
— Você não percebe que este é um assunto delicado para sua irmã? — ele me encarou, novamente. — É a intimidade dela que você fica expondo toda vez que vê o meu irmão. Você nem se importa se têm pessoas ao redor ouvindo tudo.
— Imagine então se eu fizesse o mesmo com você, . — riu sem humor.
— Ótimo, se ponha no lugar do meu irmão, da mesma forma que eu me coloco no lugar da sua irmã e tente ver as coisas deste lado. — ele murchou — Se você fizesse o mesmo comigo, seria tão insensível quanto está sendo agora. — ficou sério, repentinamente. Olhou para .
— Eu não quero te magoar ainda mais — disse, a abraçando. — É difícil perceber que você deixou de ser uma criancinha. Eu só quis te proteger.
— Sei disso. — ela concordou, se soltando do abraço. — , ainda não houve uma conversa entre nós dois sobre o acontecido, mas eu tenho consciência do que fizemos e assumo a responsabilidade também. Sei que meus pais e não foram justos com você, mas nunca concordei com isso.
— Ao contrário do que seu irmão pensa, eu não me aproveitei do momento e muito menos dos seus sentimentos. — ele deu uma rápida olhada para , que virou o rosto. — Eu gosto de você, .
— O quê? — dissemos em uma só voz.
— Só não admitia a mim mesmo, até a perda do bebê.
— Não vamos falar...
— Vamos falar disso, sim. — ele insistiu. — Eu fiquei tão mal quanto você. Aliás, não há um dia em que eu me esqueça dessa dor. — minha amiga chorava silenciosamente, secou suas lágrimas, suavemente.

Olhei para e ele mordia o lábio, se segurando para não gritar, enquanto meu coração parecia estar despedaçando.

o chamou. — Desculpa, cara.
— Tudo bem, eu faria o mesmo se fosse com a minha irmã. — eles se cumprimentaram. — Mas só por isso não revidei, até porque seria covardia.
— Tá me chamando de fraco?
— É você quem tá dizendo. — meu irmão ergueu os braços, rindo fraco.
— Não era pra ser mesmo, eu prefiro pensar assim. — disse, tentando conter o choro.
— Fico muito feliz por vocês terem feito as pazes! — eu disse empolgada e se aproximou de mim, mas não o dei confiança.
— Ei — reclamou. — Fique longe da minha irmã!
— Deixe de ser tão protetor, nos defendeu. — Eles ficarão juntos, de qualquer forma.
— Não tenho tanta certeza disso. — sussurrei para mim mesma.
— Eu ouvi, hein — disse, sem me olhar.
, eu queria te dizer que — meu irmão respirou fundo, hesitando em dizer o que ela gostaria de ouvir há tempos. — Acredito que você será muito mais feliz.
— É só isso que tem a dizer? — ela perguntou esperançosa.
— Sim, é só isso. — se afastou covardemente e minha amiga pareceu decepcionada. — Você viverá bem melhor do que vive agora.
— Tenho certeza que sim. — ele a olhou. — Drew e eu conversamos e...
— Drew?
— Meu namorado. — disse, tentando atingí meu irmão. Deu certo.
— Ah claro, o seu namorado.
abaixou a cabeça, erguendo as sobrancelhas. Era visível a tristeza do depois de ouvir , e eu me senti mal por ele.
— Você também será muito feliz, — ele assentiu — Independente de quem estiver ao seu lado. — fui até e a abracei forte.
— Se todos nós estivermos felizes nesse futuro que você imaginou, então eu mal posso esperar por ele, super girl!



[Capítulo Dezessete]

— Crianças, desçam! — ouvimos tio Michael gritar da sala, obedecemos.
— Como está, ?
— Bem, na medida do possível.
— Audrey me contou tudo. — olhei para ela, que assentiu. — Acredito que seu irmão também já saiba.
— Sim. — confirmou.
— Na verdade, todos nós já sabemos. — disse.
— Vocês estavam chorando? — tia Audrey perguntou preocupada.
— Não, só estávamos resolvendo algumas questões entre nós, nada demais, mãe. — disse, rolando os olhos.
— Nós também precisamos resolver algumas questões — tio Michael se aproximou de e todos sentiram a tensão no ar.
— Querido... — tia Audrey já ia interceder por meu irmão.
— Fique tranquila, Audrey. Eu só quero me desculpar com — eu e nos entreolhamos, confusas. — O que aconteceu foi doloroso para todos nós e eu não pensei em você, apenas te condenei. Não quero que fique com esse peso nas suas costas, garoto, porém tenha mais juízo daqui pra frente. — ele abraçou meu irmão. — Isso vale pra vocês também. — ele apontou pra nós.
— Quanto drama! — deixou escapar e tio Michael a olhou feio. — Só to brincando.
— Também preciso me desculpar com e — tia Audrey se aproximou do meu irmão. — Você é como um filho pra mim, eu jamais faria algo para te magoar, criança! Assim como Michael, eu também te condenei e nem se quer pensei no quanto você estava sofrendo. — ela me puxou pelo braço. — , você não teve culpa de nada. Nada mesmo. Você foi a maior vítima de tudo que aconteceu e, eu até me envergonho pela minha atitude contra você e seu irmão. — engoli o choro — Minhas crianças, eu vou proteger vocês. — ela nos abraçou. — Vocês não estão sozinhos nessa!
— Mãe, eu to tão feliz que você, finalmente, entendeu que eles não tiveram culpa.
— Eu também, filha.
— Assim, eu não quero cortar o clima dramático, mas precisamos bolar um plano pra tirar a mãe da e de circulação.
— Como assim? — meu irmão franziu a testa. — Qual é, ? É a minha mãe, cara.
— Se acalma, pediu. — Não vamos matar sua mãe!
— Que ideia é essa? — eu perguntei, rindo e todos me acompanharam.
— É que falou de uma forma estranha, achei que ele faria como o Red John.
— Lá vem esse moleque falando dessa série, de novo. — tio Michael resmungou.
— Tenho certeza que se vocês tirassem um tempo pra assistir apenas um episódio, gostarão tanto quanto eu.
— Acho meio difícil alguém gostar tanto quanto você, uma vez que seu nível de vício já passou do que é conhecido como "limite" — rolou os olhos, fazendo rir. — Mas, acredito que possam curtir mesmo.
— Vocês não irão nos convencer, crianças. — tia Audrey deu uma risadinha. — Falando sério agora, o que vamos fazer para proteger as crianças e , Michael?
— Então, nós pensamos que você poderia falar com seu chefe pra fazer meu pai "viajar a negócio".
— O doutor Phill jamais mandaria .
— Por que não?
— Seu pai é ótimo no que faz, todos precisam dele na QUEMEVES. — bufei. — , não acha esse plano muito arriscado, não?
e também acham. — disse, bufando. — Mas, se não contarmos ao tio , vai ser mais fácil de convencer a mãe da .
— Porque com certeza ela vai investigar todos os fatos para saber se realmente está indo a trabalho ou para se proteger. — tia Audrey completou.
— Isso é verdade. — disse . — Não vai dar certo, melhor contarmos a verdade a ele.
— Melhor não fazer isso, não neste momento. — me olhou. — Vai por mim.
— Tem razão, filho — tio Michael se levantou. — Não quero que vocês se preocupem com isso. Tragam seus pertences e voltem a morar aqui.
— Michael, isso é pior! — tia Audrey, disse óbvia. — A mãe deles desconfiará logo.
— Acho melhor eu fingir que não contei nada a ninguém.
— Que ideia é essa? Ela vai ficar te ameaçando. — disse, irritado.
— Porém, vai achar que estou nas mãos dela.
— Mas, você estará nas mãos dela. — disse, negando com a cabeça. — Não vai dar certo!
— Ela só quer o meu pai.
, não seja ingênua — olhei para . — Ela vai fazer o que for preciso para atingir seu pai, e não hesitará em machucar você ou pra conseguir o quer.
— É verdade. — tio Michael se pronunciou.
— Ela não é tão má assim. — mais uma vez a defendendo.
— Não, ela é doente mesmo. — ele me olhou, irritado. — Vocês precisam confiar em mim, vou fingir que só vim aqui pra estudar com a para a prova de amanhã.
— Vocês têm prova amanhã? — tia Audrey pôs as mãos na cintura. me olhou e assentimos receosas.
— Química. — eu disse, fazendo careta.
— Eu não quero saber como, mas é bom que as duas tirem uma ótima nota!
— Então tá valendo colar do Tyler? — perguntou animada e tia Audrey arqueou uma sobrancelha, eu apenas ri.
— Assim você estraga a nossa tática. — eu disse, e ela deu de ombros.
— Olhe, eu vou fingir que não ouvi isso. — tio Michael foi à cozinha.
— Voltando ao assunto anterior, você veio machucada — respirei fundo e assenti. — O que dirá a sua mãe quando ela perguntar se alguém desconfiou? — já estava me irritando com tanta preocupação.
— Digo que vocês acreditaram que eu caí ao tentar pular o muro pra vir estudar.
— Ainda acho arriscado. — ignorei .
— A única coisa que pode colocar tudo a perder é a desconfiança do meu pai.
— Ele percebeu?
— Foi ele quem abriu a porta, que estava trancada, me tirou do chão, e viu o pedaço de madeira, que a minha mãe usou pra me bater, caído. — levantei os ombros. — Não sei, mas acho que ele foi ligando uma coisa na outra.
— Você vai saber se livrar dessa também, certo? — mais afirmou do que perguntou.
— É claro que sim! — engoli o seco. — Minha mãe vai ser mais insuportável do que sempre foi agora.
, apesar de tudo, ela é nossa mãe. Você não pode se esquecer disso.
— Até porque você tá sempre me lembrando. — o olhei séria. — Depois de tudo que aquela mulher fez você ainda insiste em defendê-la.
— Crianças, não comecem! — tio Michael ordenou. — Vocês precisam, mais que nunca, ser mais unidos agora.
— A chave para um bom vigarista, é sempre fazer o alvo achar que está no controle. — eu disse, olhando para o meu irmão.
— Patrick Jane. — ele sorriu largamente e eu assenti.
— Ah não. Eu não aguento mais ouvir vocês falando sobre essa série. — tio Michael foi para seu quarto.
— Eu faço das palavras de Michael as minhas. — tia Audrey o acompanhou.
logo se aproximou de mim, sussurrando em meu ouvido e eu ria junto a ele. Meu irmão nos olhava como se fosse nos fulminar.
, deixe os dois em paz. — ouvi pedir. — Eles passaram por tantas coisas, mal tiveram tempo pra ficarem juntos.
— E nós? — segurou a mão da minha amiga. — Quando ficaremos juntos?
— Solte a minha irmã. — me deu um susto, com sua agressividade. Irritei-me com sua atitude. E pelo susto que tomei também.
— Sabe o que vai acontecer? — se afastou do meu irmão e apontou para , me juntei a ela. — Você vai perder a por dar mais atenção a minha vida, que não te pertence, do que a ela.
, desse jeito só vai afastar cada vez mais a de você por não saber como lidar com ela. — eu disse a ele. — E outra, cansei dessa briguinha ridícula entre você e !
— Não precisam ficar tão bravas.
— Cale a boca, ! — minha amiga estava realmente irritada. — To a ponto de dar um soco na sua cara.
— Essa é a minha irmã! — sorriu orgulhoso.
— Imbecil! — o lancei um olhar mortal.
— O que está acontecendo com você hoje?
— Você só tá me irritando com essas babaquices.
, eu não quero...
— Vamos para o meu quarto? — me chamou e na mesma hora concordei.

Corremos pela escada e ela bateu com a porta.

— Super girl, eu sei que não é o momento de falarmos sobre isso, você está passando por novos problemas familiares.
— Quanto aos problemas com os meus pais eu só quero esquecer, pelo menos, por enquanto. — deitei-me em sua cama, olhando para o teto. — Pode desabafar.
— Fiquei mexida com o que seu irmão disse. — ela se deitou do meu lado, olhando para a parede. — Acredita que ele está sendo sincero?
— Eu te confesso que nem desconfiava desse sentimento dele por você, mas ele me pareceu muito sincero.
— Agora as palavras dele vão ficar martelando no meu subconsciente.
ficou mal por você ter falado do Drew, ainda mais por vocês estarem muito emotivos naquele momento.
— Não queria magoá-lo.
— Eu sei. — respirei fundo. — Mas isso foi bom pra ele.
— Como assim?
— Meu irmão finalmente tomou coragem de admitir a ele mesmo que gosta de você. E com Drew no caminho dele, ou ele corre atrás do prejuízo ou te perde de vez. — olhei para e ela ria abobalhada.
— Verdade. — ela suspirou.
— E quanto a Drew?
— Ele é maravilhoso, eu gosto tanto dele, mas...
— Gosta ainda mais de ?
— Tenho Drew como um amigo que beijo de vez em quando. — eu ri alto. — Não fique rindo, to me sentindo culpada por dizer isso.
— Eu te entendo, super girl.
— Mas eu gosto do seu irmão há tanto tempo, e o sentimento foi ficando cada vez mais forte. — ela me olhou. — Eu quero o pra mim.
— Então se ele te pedir em namoro...
— Eu aceito.
— Na hora?
— De jeito nenhum! Ele vai ter que me provar que realmente gosta de mim e me merece, depois de tudo. — assenti. — Não acha que deveria cobrar o mesmo do meu irmão?
— Discutimos sobre isso hoje — sentei-me na cama, segurando a almofada escrita: "love really hurts", ela combina tanto com a situação. — Eu disse a ele que não tenho mais certeza do sentimento dele por mim.
— O que ele fez?
— Se irritou bastante. — ela arqueou as sobrancelhas. — O problema é que não estamos tendo tempo para nós dois.
— Eu concordo.
— Por que vocês não saem um pouco? Só os dois.
— É uma ótima ideia! — apareceu na porta. — O que você acha?
— Agora?
— Por que não?
— Ainda estou brava com você.
— Isso vai passar assim que eu te beijar. — ele se aproximou.
— Sai daqui. — disse o empurrando e ele riu. — Tudo bem, mas preciso me arrumar e as roupas da sua irmã não me ajudam muito. — me lançou um olhar mortal.
— Não diga bobagem, você está sempre linda. — sorri largamente ao ouvi-lo.
— Eu agradeço, mas prefiro passar em casa antes.
— Como quiser, minha jovem donzela. — nós rimos. — Só espere mais uns 10 minutos, ao contrário de você, eu preciso de muita arrumação pra ficar apresentável.
— Eu concordo. — disse. — E chega desse clima meloso na minha frente. — ela reclamou, me fazendo rolar os olhos.
— Eu não demoro. — ele disse, entrando em seu quarto.
— Não pode deixar de ser chata? — perguntei.
— Por quê? É tão divertido irritar vocês. — ela riu. — Você fica tão boba perto dele, e o pior é que ele fica mais idiota do que já é quando te vê.
— Seria tão legal se você e meu irmão se acertassem.
— Sinceramente, eu também acho. — ela se virou, olhando para o teto. — Mas ele não demonstra sentimento algum, ele não se afeta.
— Eu acabei de me afetar com o que disse. — apareceu na porta e deu um salto, se sentando com postura. Ri ao presenciar a cena. — Será que podemos conversar?
— Vai me levar pra sair também?
— Na verdade, eu pensei nos banquinhos do seu jardim. — ela murchou e ficou confuso. O olhei feio, e ele pareceu entender. — Mas, eu tenho uma ideia melhor. — antes que perguntasse, ele respondeu: — É surpresa.
— Okay, me espere sentado, precisarei de tempo para me arrumar.
— Não diga bobagem, você está sempre linda. — bati com a mão na testa e me olhou, estava perdido.
— Sério que você tá repetindo o que meu irmão disse a ? — ele ficou sem saber o que dizer. — Tudo bem, pelo menos você tentou. E agradeço pelo elogio, é a mais pura verdade.
— Ah, fico mais aliviado. — ele sorriu bobo.
— Mas na próxima seja mais original. — eu ri alto. — Pode sentar se quiser, vai demorar um pouco até eu me arrumar.
— Vou ficar te esperando no jardim.
— Eu vou com você. — disse a .
— Como assim? Não vai me ajudar na escolha da roupa? — se indignou.
— Você nunca usa as roupas que eu escolho pra você.
— Por isso preciso da sua ajuda, quando você escolhe tenho a certeza que as roupas não são tão boas, então já as elimino.
— Vou fingir que não ouvi isso. — não esperei por resposta. Saí logo do quarto.

Fui até e ficamos esperando e nos banquinhos. Conversamos um pouco e eu dei algumas dicas pra ele não vacilar com minha amiga.

, vamos? — estava simples, porém linda. Meu irmão me olhou.
— Tudo bem, eu espero aqui sozinha, ele já deve estar descendo. — meu irmão voltou seu olhar para , o belisquei.
— Sinto-me até constrangido diante de tanta beleza. — ela franziu o cenho. — Estou lisonjeado em ter a sua companhia, minha cara milady.
— Obrigada, .
— Por obséquio — ela entrelaçou o braço no dele. — Estás preparada?
— Sim. — me olhou com sua típica expressão de "what?" e eu dei de ombros.

Só fiquei pensando se esse comportamento do meu irmão era bom ou ruim.

, esperou muito aqui? — apareceu a minha frente.
— Foi o tempo suficiente para eu conversar com meu irmão.
— Vai ser difícil pra ele aprender como tratar de um jeito que ela se agrade.
— Acredite, será mais difícil do que imaginamos — ele fez careta — Mas vamos continuar tentando ajudá-lo. — assentiu e fixou os olhos em mim. — Por que tá me olhando assim?
— Porque eu quero te beijar. — ele já ia se aproximando, quando o interrompi.
— Pois não vai. — ele franziu o cenho. — Não agora.
— O que houve desta vez?
— Vamos para minha casa? — ele assentiu.



[Capítulo Dezoito]

Caminhamos devagar até minha casa. Antes de entrarmos, puxou meu braço, de leve.

— Por que não me conta o que tá acontecendo?
— Você sabe, ouviu minha conversa com sua irmã. — ele abaixou a cabeça e me olhou em seguida.
— Ainda acha que eu não gosto de você? — mordi meu lábio. — O que você quer que eu faça?

Ouvimos um barulho na porta e ela se abriu, era minha mãe.

— O que ele faz aqui, ?
— Nós vamos sair, eu só vim me trocar.
— Vão para onde?
— Ao parque, colocaram brinquedos novos. — respondeu por mim.
— Você não tem prova amanhã? — minha mãe perguntou.
— Como sabe?
— Está no seu quadro de avisos. — ergui as sobrancelhas, me lembrando de ter escrito mesmo.
— Não iremos demorar, prometo que trago ela antes das 00:00h.
— O que? Esse horário já é tarde.
— Mãe! — a olhei, indignada.
— Vou ter que falar com o seu pai.
— Caramba! — reclamei, mas ela ignorou. — Vamos entrar, .
— Sua mãe te controla mesmo — ele sussurrou em meu ouvido. — Pelo menos ela acha.
— Não fale nada, apenas entre.
— O que houve desta vez, ?
— Eu só quero ir ao parque com .
— Ele quer trazê-la às 00:00h. — minha mãe disse.
— Aí não, garoto. — meu pai se irritou. — Qual é a sua intenção com minha filha? Você ainda nem a pediu em namoro.
— Pai, por favor! — fiquei envergonhada, mas no fundo, eu queria essa resposta tanto quanto meu pai.
— Filha, eu preciso saber!
, não responda.
, eu e seu pai precisamos saber com quem você se relaciona. — minha mãe disse. Meu rosto estava quente, de tanta vergonha e raiva.
— Eu gosto da sua filha, ainda não a pedi em namoro porque mal tivemos tempo de ficar juntos. — ele me olhou de relance — Mas, se vocês permitirem, teremos tempo parar firma um compromisso sério.
, eu acho melhor...
— Gostei da sua resposta, garoto! Sendo filho do Michael, não podia pensar de outra forma. — suspirou aliviado. — Só não demore muito com isso, minha filha não é bagunça. E não ouse em magoá-la!
— Mas quer trazer a menina às 00:00h, vão ficar fazendo o quê até esse horário se ainda são 18:50h?
— 21:30h quero que traga minha filha de volta. — minha mãe estava mesmo envenenando o meu pai.
— Não vamos aproveitar nada. — eu disse, indignada.
— E vocês querem aproveitar o quê? — minha mãe me olhou. — Já tive a sua idade, menina. Sei como as coisas funcionam.
— Você tem prova amanhã, chegue cedo para descansar e ter um bom desempenho. — disse .
— Acho melhor você se aprontar logo, o tempo tá passando. — a mulher disse, somente para me provocar.

Subi rápido e escolhi uma roupa simples e casual, me vesti rápido, dei uma bagunçada no cabelo, usei apenas rímel, gloss e delineador, estava pronta.

— Gosta mesmo dele, não é? — minha mãe entrou no quarto.
— Sim, eu gosto.
— Bom saber disso. — arregalei meus olhos.
— Você...
— Fique tranquila, eu só quero o seu pai. — bufei. — Não contou ao namoradinho, contou?
— Claro que não, acabei de dizer que gosto dele. Não colocaria a vida de em risco.
— Nem pelo seu pai? — respirei fundo.
— Nós podemos resolver essa situação, pra que morte?
— Porque vai ser mais rápido. — ela sorriu e se aproximou. — Acha mesmo que eu sujaria as minhas lindas mãos com o sangue do seu pai? , eu só fugi pra alguém fazer o trabalho sujo pra mim.
— Então aquele velho virá atrás do meu pai?
— Se ele já não estiver por aqui. — engoli o seco. — Não tenha medo, eu jamais faria algo contra você e seu irmão. A dor de perder um filho é terrível.
— Não percebe que também está colocando nossa vida em risco?
— Eu vou proteger vocês! — ela me abraçou. — Me desculpa por hoje?
— Agora você está arrependida?
, você ia contar ao seu pai, queria estragar meus planos. — rolei os olhos. — Você só tem 16 anos, não deve se intrometer nestes assuntos de adultos.
— Não me trate como criança! — pedi irritada.
— Então não haja como uma. — ela ergueu as sobrancelhas. — Não vai me desculpar?
— Você me machucou mesmo, por pouco não fiquei paraplégica.
— Não exagere.
— Foi o médico quem disse.
— Audrey te levou ao hospital?
— Sim, tive que tomar medicamentos fortes pela veia pra aliviar a dor.
— Se sente melhor? — assenti.
— Sim, parece que estou anestesiada, só ando com um pouco de dificuldade, mas vai passar.
— Não era pra você estar em repouso? — ela arqueou uma sobrancelha.
— Sim, mas como já me sinto melhor...
— Deveria seguir o conselho do médico!
— Mãe, por favor — ela cruzou os braços. — Eu preciso desse tempo com !
— Por que quer tanto isso? — ela estava muito interessada nos detalhes e claro, estranhei toda a conversa, mas precisava fazê-la acreditar que está no controle.
— Você mesma disse que já teve a minha idade, pode me entender, não é? — ela concordou. — é a primeira pessoa com quem me relaciono depois do Fishy. — ela já ia dizer algo, mas não deixei. — Não quero falar sobre isso agora.
— Tudo bem, o importante é que você não contou nada a ninguém e está bem. — ela sorriu, passando as mãos pelo meu cabelo. — Não vai mesmo desculpar a mamãe?
— Desculpo, no entanto, ainda não quero ser sua amiga. — ela bufou. — Mas, eu confesso que é bom ter uma mãe por perto. Só gostaria que você fosse sincera quanto aos seus sentimentos por mim e meu irmão. — uma lágrima escorreu em meu rosto. Foi um tanto de encenação, com um pingo de verdade.
— Não fique assim, filha, isso me parte o coração. — ela pareceu preocupada — Eu amo você e seu irmão mais que tudo nesse mundo!
— É difícil acreditar em você. — ela suspirou.
— Eu posso compreender.
— Às vezes, eu tento aproveitar sua companhia, porque por mais que eu não queira admitir, você sabe como se achegar a mim. — eu disse sincera. — Mas aí eu lembro de tudo que você fez até hoje e isso me dói.
— Eu quero mudar.
— Quer nada. — ela me encarou. — Se quisesse, não planejaria a morte do meu pai.
, esqueça isso. Não foi você quem disse que podemos resolver essa situação? — assenti. — Então, meu amor, vamos tentar.
— Tudo bem, eu preciso ir agora.
— Aproveite sua noite, mas não do jeito que você tá imaginando.
— Eu não imaginei nada. — disse, franzindo a testa e ela riu. — Qual é a graça?
— Você é tão ingênua, filha.
— Quer dizer idiota? — ela rolou os olhos.
— Não, eu quis dizer com alma pura. — eu ergui as sobrancelhas e ela me olhou de um jeito materno. — Você está tão linda!
— Isso foi estranho. — ela bufou, rolando os olhos.
— Sai da minha frente. — tentei prender a risada. Sua expressão de “desisto de tentar agradar essa menina” foi a melhor.

Peguei meu celular e saí do quarto, corri pela escada, assustando meu pai.

— Que isso, trem? — eu ri. — Já vai?
— Tô até atrasada. — beijei a bochecha dele — Fui.
— Tchau, tio . — meu pai apenas acenou para .

Já no caminho para ir ao parque, entrelaçou sua mão na minha. O olhei sorridente e ele me deu um selinho.

— Acho que já entendi seu ponto de vista, . — ele não me olhava. — Assim como o seu pai você acha que não quero algo sério contigo.
— Ele achava que você era meu namorado.
— E no fundo você queria que fosse assim? — me olhou de relance.
— Confesso que sim. — ele já ia dizer algo, mas não dei tempo — Porém, eu não quero que você tome essa atitude só porque meu pai te deu uma prensa.
— Você ainda quer mais de mim? — assenti, sem o olhar. — , se há algo que te incomoda, você pode conversar comigo abertamente. Não precisa ter vergonha.

Com mais alguns minutos, chegamos ao parque. comprou algodão doce para nós e seguimos para a fila de um dos brinquedos.

— Eu não quero apressar as coisas, muito menos te pressionar a isso. — ele concordou. — Não quero ser chata com você.
— Chata? Eu adoro o seu jeitinho. — sorri involuntariamente, mas sem o olhar. — Acredite, eu gostaria de te dar mais atenção, e vou tentar mais de agora em diante.
— Fico muito feliz em ouvir isso.

Ele se aproximou ainda mais para me beijar, mas fomos interrompidos pelas reclamações de pessoas que estavam na fila. Quando percebemos, já era a nossa vez.

— Caramba , isso me dá medo!
— Eu vou estar contigo. — eu não disse a ele, mas suas palavras não me acalmaram em nada.

Vi que algumas pessoas que saíram do brinquedo reclamavam, enquanto outras nem conseguiam falar de tamanho enjoo, já os mais aventureiros queriam repetir a dose. Olhei para o brinquedo e me senti como no filme Premonição, sim, eu estava me tremendo toda.

, você está bem? — ele perguntou preocupado.
— Só estou receosa.
— Vai ficar tudo bem. — disse animado e eu forcei um sorriso.

Entramos no brinquedo e eu mal conseguia respirar, ele segurou minha mão e eu a apertei como se estivesse prestes a parir. O brinquedo começou a girar, a velocidade foi ficando mais alta a cada segundo, eu já não tinha controle sobre o meu nervosismo. Tentei gritar por , mas a voz não saía, era estranho. Tudo já estava girando junto com o brinquedo, porém eu suava cada vez mais, não conseguia parar de tremer, minha visão foi ficando turva até que tudo escureceu.

Acordei assustada e sentindo um mal-estar, quando dei por mim, já estava no meu quarto. Sentei-me, ainda meio tonta e vi me olhando da poltrona.

, que bom que você acordou! — ele se aproximou, sentando-se frente a mim. — Fiquei preocupado.
— Como foi que eu cheguei aqui?
— Não é meio óbvio que eu te trouxe? — dei de ombros.
— O que eu tive?
— Você desmaiou no brinquedo e eu só percebi quando descemos. Uma ambulância que estava perto foi até o local e cuidaram de você. — ergui as sobrancelhas. — Uma enfermeira disse que foi uma crise forte de pânico. — respirei fundo. — Mas já passou, não é mesmo?
— Sim, só estou enjoada. — tentei me levantar.
— O que tá fazendo? — ele tentou impedir.
— Não é meio óbvio que eu estou me levantando? — quando me levantei, senti as pernas bambas. Meu pai adentrou o quarto na hora.
— Volte para a cama. — obedeci. Não tinha escolha mesmo.
— Filha, que susto você nos deu! — minha mãe disse, com uma caneca nas mãos.
— Por que estou tão fraca?
— Você precisou de calmantes. — disse, entortando a boca. Arregalei meus olhos — Mas está tudo bem agora.
— Eu to com tanto sono. — passei as mãos em meu rosto.
— Fiz um chá para você. — minha mãe disse e me lançou um olhar significativo.
— Eu odeio chá! — reclamei, na tentativa de não tomar aquilo. Só Deus pra saber o que tinha naquela caneca.
— Vai te fazer bem, filha.
— Não, tem um gosto horrível.
— Como sabe? Você ainda nem provou.
— Estou dizendo, eu não gosto de chá.
— Mas vai tomar! — ordenou, bufei.
— Acho que você já pode ir, garoto. Está tarde e não é bom sair por aí neste horário. — disse minha mãe.
— Ele não tem culpa. — deixei claro, antes que começassem a condená-lo.
— Sabemos disso, . — minha mãe se aproximou com o chá e me entregou — Mas, você precisa descansar, tem prova amanhã.
— Tudo bem, só queria me certificar de que ela acordaria bem. — ele selou nossos lábios e meu pai pigarreou, nos provocando. se levantou e eu o mandei um beijo no ar. — Boa noite a todos.
— Vou te levar até a porta. — me surpreendeu com sua atitude.
— Não vai beber?
— Que chá é esse? — perguntei desconfiada.
— De malva, vai aliviar suas dores na coluna, caso ainda esteja sentindo. Também vai te dar mais energia física e mental, para fazer uma boa prova amanhã. — olhei para o chá, receosa. — Pode beber sem medo, você vai se sentir melhor.

Confesso que estava com muito receio de tomar o chá, mas para não levantar desconfiança, bebi tudo num só gole.

— Prontinho. Agora, deite-se e descanse. — ela saiu do quarto, levando a caneca.

Aproveitei o tempo que fiquei só para me trocar, minhas roupas de dormir são mais confortáveis. Voltando pra cama, meu irmão invadiu o quarto.

correu até mim.
— Você ainda pode usar a educação — ele rolou os olhos. — Se tiver, é claro.
— Se for pra rir, me avise, prometo me esforçar pra não te deixar sem graça. — eu ri do mau-humor dele. — Encontrei com no meio do caminho e ele me contou tudo. — ele olhou para a porta e depois pra mim. — O que ela te deu pra beber?
— Chá de malva.
— E você diz isso, tranquilamente? — dei de ombros. — Não pode deixar ela te controlar.
— Mas tenho que fazer com que ela pense assim. — ele pôs as mãos na cintura e me olhou. — Amanhã, precisamos nos encontrar longe daqui.
— Descobriu mais coisas? — perguntou num sussurro.
— Apenas uma, porém a mais ameaçadora.
— Assim você me deixa preocupado.
— Não fique, haja naturalmente. — ele assentiu. — Agora, eu tenho que fingir que já estou dormindo.
No mesmo momento, deitei-me novamente e apagou a luz.
— Boa noite, irmãzinha.
— Boa noite, bipolar. — ouvi sua risada, enquanto fechava a porta.


Fiz tanto esforço para dormir e nada, acho que o chá já estava fazendo efeito, me despertou. Liguei o abajur e peguei meu livro, aproveitei o silêncio da madrugada para continuar minha leitura. Os Anjos Sentinelas — Eternamente, esse livro é tão maravilhoso, pena que e eu mal tenho tempo de ler, mas aproveito toda oportunidade para apreciá-lo.
Já havia lido mais ou menos cinco capítulos quando meu celular vibrou no criado-mudo, era mandando mensagem: "Olhe para a sua direita". Assim fiz e levei o maior susto da minha vida.

— Ficou louco? — pus a mão no peito.
— Calma, respira. — disse, se sentando ao meu lado. — Tá muito assustada, ultimamente.
— Vou nem te dar uma resposta.
— Acabou de me responder.
— Tanto faz. — pigarreei. — O que deu em você para vir aqui essa hora?
— É assim que me recepciona? — rolei os olhos e selei nossos lábios. — Achei que sua mãe tinha colocado veneno no chá.
— Bom, como pode perceber, o veneno não foi forte o bastante para me derrubar. — ele riu e eu o acompanhei. — Meu irmão também chegou aqui desesperado achando que eu tinha sido envenenada.
— Quando vi sua mãe te entregando aquela caneca, eu pensei que desmaiaria como você hoje no parque. — dei um soco em seu braço, mas ele me segurou.
— Seu idiota. — ele riu, me olhando de forma sedutora. — Por que tá me olhando assim? — franzi a testa sem entender, até vê-lo desviando o olhar para o meu corpo, me cobri rapidamente. — Desculpe, é que eu nunca havia te visto assim.
— Eu também nunca vi você me olhando dessa forma.
— Só agora eu pude ver o quanto você cresceu.
— Não sou mais uma menininha, . — ele assentiu. — Aliás, deixei de ser há um tempinho.
— Você ainda tem 16 anos.
— Faço 17 daqui a uma semana. — disse o testando e ele arregalou os olhos. — Esqueceu?
— Não, claro que não. — ele ficou nervoso — Acha que eu esqueceria a data do seu aniversário? — aproximou seu rosto do meu, já prestes a me beijar.
— Tenho certeza. — o empurrei brava — Meu aniversário é daqui a três dias, na mesma data de aniversário da sua irmã.
— Acho que agora eu vacilei feio, não é mesmo? — ele baixou a cabeça.
— Nos vemos amanhã. — me virei de costas para ele, bufando de raiva.

Antes de ir, ele me desejou uma boa noite, mas eu não o respondi, até porque ele fez questão de estraga-la. Depois de tanto pensar no quanto me irritou, o sono me alcançou.



[Capítulo Dezenove]

! — ouvi alguém me chamar e me virei para ver quem era. — Levanta logo, você está atrasada!

Merda! Levantei da cama num pulo e vesti o uniforme, rapidamente, corri para o banheiro e mal me olhei no espelho, só precisava escovar os dentes. Peguei minha mochila e meu celular, desci.

— Vai tomar seu café, já aprontei tudo. — minha mãe disse, vindo da cozinha.
— Não, vou comer qualquer coisa na escola.
, você precisa se alimentar.
— Mãe, eu já to atrasada. — ela bufou. — Não irá se repetir, se é o que te preocupa. — ela assentiu.
— Bom dia, família. — olhei para . — Tchau, família.
— Me dá uma carona. — saímos de casa.
— Eu vou me atrasar para o trabalho.
, eu tenho prova hoje, por favor. — ele me olhou indeciso.
— Tá bom, sobe aí na garupa.
— Valeu, maninho.

No meio do caminho, me lembrei de que saiu com minha amiga, estava curiosa.

— Como foi ontem com ?
— Uma droga! Não quero falar sobre.
— Tá bom. — olhei para o relógio no meu pulso e fiquei mais preocupada. — Não dá pra você ir mais rápido?
— Se você fosse menos pesada eu pedalaria mais rápido. — dei um tapa em sua nuca. — Você vai nos fazer cair.
— Só seja mais rápido e cala a boca.

Não demorou muito e eu cheguei à escola. O sinal já havia tocado e eu precisava correr.
— Mocinha — parei e me virei. — Vai tomar uma advertência se continuar correndo. — o inspetor disse firme.
— Também vou tomar um zero se não chegar a tempo na sala, dá licença. — dei as costas ao homem e continuei correndo. Não sei de onde tirei coragem para enfrentá-lo, mas eu precisava fazer a prova.
— Volte aqui, menina atrevida! — corri até a sala, não ia ficar me atrasando mais por conta dele.

Fiquei frente à porta e respirei fundo, arrumando o cabelo. Vi o inspetor se aproximando e adentrei logo a sala.

— Professor, bom dia! — sorri simpática e ele retribuiu. — Desculpe a demora, eu tive um pequeno atraso.
— Bom dia, . — me sentei ao lado da . — Seu atraso não foi tão pequeno assim.
— Ah, é que...
— Professor Nathaniel, com licença. — o inspetor estava na porta me olhando.
— Que merda você fez, ? — me perguntou, num sussurro e eu apenas escondi meu rosto. Que vergonha!
— Aquela mocinha ali me deu as costas enquanto eu falava com ela e veio correndo pelos corredores. — ele apontou para mim e a turma toda me olhou. Novamente, que vergonha!
, por que fez isso? — professor Nathaniel me olhou confuso.
— Eu não podia perder a prova!
— Mas ela só vai começar depois do intervalo.
— Ah — eu fiquei sem fala e todos começaram a rir de mim, inclusive . — Sua traíra!
— Eu vou deixar passar desta vez porque a mocinha estava confusa, mas que não se repita.
, você não vai dizer nada? — professor Nathaniel me despertou.
— Ah, claro. Ér, obrigada pela sua bondade. — eu disse ao inspetor e a turma riu ainda mais. — Gente, eu não to entendendo a graça.
— E nem eu. — professor Nathaniel se pronunciou, assim que o inspetor saiu da sala. — Chega de brincadeiras! Façam os exercícios agora e tirem suas dúvidas enquanto há tempo, a prova vai ser difícil.

No intervalo, fomos até a cantina. Compramos qualquer besteira para comer e fomos até a pracinha.

— Como foi ontem com meu irmão? — perguntei já me alimentando.
— Uma droga, ele parece ter medo do que vai falar. Fica medindo as palavras.
— Isso não é bom?
— Lógico que... É? — eu ri da cara que ela fez. — Sério, eu não sei se vai dar certo.
— Você precisa ter paciência, meu irmão é pior que quando o assunto é "garota". Ele só não quer te magoar.
— Nem meu irmão. — pigarreei. — Ele me contou da mancada que deu ontem.
— Ele vive dando mancadas.
— Você tá pegando muito no pé dele.
— Eu não estou exigindo nada, só...
— Quer que ele te peça em namoro, tá desesperada pra isso. — a conversa estava desagradável.
— Eu não estou desesperada para namorar , só não sinto que ele gosta de mim tanto quanto eu gosto dele.
— Ele só quer ter certeza de que vocês têm futuro juntos.
— Então ele ainda tem dúvidas sobre o que sente por mim?
— Não, ele tem dúvidas sobre como o sentimento de vocês vai sobreviver a tantos acontecimentos. — cocei a cabeça. — Você é toda complicada!
— Ah, qual é? Você é toda indecisa, namora o Drew, mas gosta do meu irmão.
— Pelo menos eu tenho alguém pra chamar de ‘namorado’.
— Está sendo ridícula!
— Não, a situação é ridícula.
— E você não está ajudando em nada. — deixei bem claro.
— Então estamos quites.
, cala a boca. — ela me olhou, de sobrancelhas arqueadas. — Tá falando muita besteira.
— Eu não sou a única.
— Ah, claro que não, você nunca pode errar sozinha, não é mesmo?
— O que você quer? — ela bufou. — Eu gosto do Drew, ele é um cara legal, mas eu não sinto por ele o mesmo que sinto pelo , é complicado.
— Você precisa dizer isso ao Drew.
— Não, eu vou acabar o magoando.
— Tenho certeza que ele vai te entender.
— Drew é uma das melhores pessoas que eu já conheci, não quero ferí-lo. — seus olhos marearam. — é um idiota, mas é dele que eu gosto.
— Ele tem se esforçado para tentar ser menos idiota. — ela riu fraco.
— Eu só preciso que ele seja ele, entende? — eu assenti. — Sem tentar copiar o meu irmão e sem seguir as suas recomendações.
— Só tentei ajudar.
— Eu sei, mas "milady" é demais pra mim! — nós rimos. — Desculpa por falar daquela forma contigo, sei que foi eu quem deu a ideia de fazer meu irmão provar que gosta mesmo de você.
— Tudo bem, eu fiz isso por mim. Precisava ter a certeza.
, ele não para de falar em você, e quando não fala tá pensando. — eu sorri. — O que faz ele se irritar é a sua desconfiança, não duvide dos sentimentos dele.
— Acho que também vacilei com ele.
— Todos nós vacilamos, relaxa.
, — olhamos na mesma direção e Halston estava acenando para nós com suas amigas. — Acho que as idiotas vão se atrasar para a prova.
— Como assim, ainda estamos no horário — elas estavam fechando o portão que dá acesso à pracinha e à escola. — Droga!

Corremos até elas, porém não deu tempo.

— Merda! — estava irritadíssima. — Essa garota me estressa!
— Ela estressa todos nesta escola.
— Menos o professor Nathaniel. — ela bufou.
— Já sei.
— Fala logo.
— Vamos pular.
— Ficou louca? Olha a altura disso. — ficou socando o portão. — Mas que merda! Eu me matei de estudar pela madrugada pra não ficar em dependência nas férias e essa jararaca faz isso. A vida não é justa!
— Mas Deus é! — ela me olhou, rolando os olhos. — Que foi? É verdade.
— Tá bom.
— É sério — ela tampou minha boca, mas mordi sua mão. — Vamos pular logo.
— Canibal. — dei de ombros. — Eu não quero fazer isso.
, eu vou primeiro.
— Como você vai escalar esse muro, inteligência?
— Vou ficar do outro lado da rua, aí eu corro e quando me aproximar do muro, dou impulso e pulo. — franziu a testa.
— Você é ginasta?
— Não, mas...
— Então não inventa de se quebrar. Quer ficar paraplégica pra valer? — neguei pensando na possibilidade. — Você me dá uma ajudinha e eu vou aparecer na câmera que fica ali perto do portão. — ela apontou e eu assenti. — Alguém vai me ver e saberão que o portão foi fechado.
— Tá bom, vamos tentar.
Juntei as mãos e ela pisou, quando deu impulso não aguentei o peso e a deixei cair.
— Droga, ! — eu fiquei rindo alto — Saia de perto de mim.
— Vamos tentar, novamente. — a ajudei a levantar.
— De jeito nenhum! — continuei rindo. — Vou ligar pra diretora Dinah, ela vai nos ajudar.
— Por que não pensou nisso antes? — ela me lançou um olhar mortal e eu ri mais forte.

Não demorou muito e o inspetor Meia-Noite abriu o portão para nós.

— Obrigada! — eu disse.
— A diretora Dinah está esperando vocês na porta da sala. Corram, a prova já começou.
— Mas não podemos cor...
— Vamos logo! — me puxou e corremos juntas.

Diretora Dinah nos esperava na entrada da nossa sala.

— Não precisam dizer nada, vi tudo pela câmera. — ela abriu a porta. — Professor Nathaniel, com licença.
— Toda. — ele nos olhou. — Onde estavam? A prova começou há 15 minutos.
— Professor Nathaniel, essas meninas foram vítimas da babaquice da aluna Halston e do seu bando, desculpem os termos. — olhei para que ria alto, assim como eu e a turma.
— Não pode falar assim de nós! — Halston se levantou. — O meu pai é advogado e...
— Por isso conhece bem as cláusulas que estão no contrato que o mesmo concordou e assinou para você estudar aqui. — a diretora rebateu e Halston fez sua melhor expressão de coitada. — Não ouse em me ameaçar, menina!
— Diretora, elas estavam aqui o tempo todo. — professor Nathaniel estava tentando defendê-las. Lamentável!
— Tenho as imagens da câmera do portão que dá passagem à pracinha, elas o fecharam propositalmente, para as alunas e se atrasarem para o começo da prova.
— Meninas, isso é verdade?
— Acha que estou mentindo, professor Nathaniel?
— De forma alguma, diretora Dinah. Mas preciso saber se elas vão desmentir. — olhamos para elas. — Então meninas, digam a verdade.
— Eu não fiz nada, foram elas. — Halston começou com suas mentiras.
— Pare de mentir, sua cara de cavalo está filmada como a mandante dessa idiotice. — minha amiga disse, sem paciência.
, tenha modos. — professor Nathaniel pediu. — Façam silêncio! — disse a turma.
— Vocês não percebem? Elas me obrigaram. Eu jamais faria isso! — ela se defendeu, novamente.
— Meninas, vocês fizeram isso?
— Professor Nathaniel, por favor, você está mesmo acreditando na aluna Halston? — diretora Dinah estava inquieta. — Não vê que ela quer pôr a culpa só nas amigas?
— Eu as vi fechando o portão. — Simon disse simples.
— E por que não abriu? — perguntei.
— Achei engraçado. — o idiota respondeu, dando de ombros.
— Você vai achar mais graça quando estiver em casa com a suspensão que vai receber, junto com as meninas. — a diretora disse e a sala foi à loucura.
— Diretora Dinah, isso é realmente necessário? — professor Nathaniel estava nos irritando.
— Por uma vez na vida, professor, não seja a voz da razão. Seja a voz da ira. — eu disse.
— The Mentalist é? — a diretora perguntou, me surpreendendo. — Gosto da série.
— Professor, só falta 1h pra terminarmos a prova, o que faremos? — Tyler perguntou.
— Pergunte às suas colegas que vieram atrapalhar a prova. — me olhou indignada.
— Você sabe muito bem de quem é a culpa do atraso das meninas, professor Nathaniel. Não jogue a responsabilidade nas costas das alunas e . — diretora Dinah mais uma vez nos defendeu. — São quantas questões?
— 5. — Tyler respondeu envergonhado.
— Não dá pra terminar em 1h?
— Pra mim sim, eu to achando tudo fácil. — a turma reclamou com Tyler. — Mas eu não sei para os outros.
— Vocês — a diretora apontou para Halston, Simon e as outras meninas. — Na minha sala assim que terminarem as provas e não ouse em tentar ir embora, o inspetor Meia-Noite sabe muito bem quem vocês são e não vai deixá-los ir.
— Se sentem logo e façam essa prova. — professor Nathaniel disse para nós, assim que diretora Dinah se retirou. — De jeito nenhum que você vai fazer essa prova ao lado da sua amiga, !
— Mas...
— Quero você aqui na minha frente, ao lado de Tyler. — obedeci. — Sejam rápidos!

Terminamos a prova que, realmente, não foi difícil, estava tudo exatamente igual aos exercícios e testes. Professor Nathaniel sempre tentar nos pôr medo, mas acredito que eu tenha me saído bem.

— Caramba, que sortuda! — a olhei. — O professor te colocou ao lado do Tyler, ele é um gênio.
— Você sabe que eu não colo. — ela me olhou desconfiada.
— O gênio que você não quis...
— Ele pode ser gênio, mas ainda é nojento. — eu ri fraco.
— Como a prova foi pra você? — perguntei, enquanto estávamos nos aproximando da casa dela.
— Pra mim tudo é difícil, mas consegui fazer os cálculos, então acho que me saí bem. — bati palminhas a provocando e ela rolou os olhos. — Você lembra qual foi sua resposta da questão número 1?
— Sim, respondi 18 u. — ela fez sua típica expressão de "what?S".
— Como assim? A minha resposta deu 36,5 g/mol. — eu ri forte. — Não tem graça, eu to ferrada!
— Relaxa, eu só estou brincando. — ela parou na rua pra me lançar um olhar mortal. — Respondi igual você.
— Quer almoçar aqui? — ela disse já no portão de casa.
— Acabei de lembrar que preciso falar com você e os meninos.
— Aqui em casa?
— Melhor não. — pensei um pouco. — Vamos até o estúdio e esperamos eles saírem para almoçar.
Retornamos ao nosso percurso que era próximo ao colégio, e os esperamos em frente ao estúdio.

Passaram-se 15 minutos e eles não saíam.

— Tá demorando. — reclamou.
— Ali eles saindo. — levantamos e fomos até eles.
— Ei, o que estão fazendo aqui? — meu irmão perguntou, desconfiado.
— Preciso falar com vocês três, juntos.
— Mas, você não está mais brava comigo? — perguntou e eu neguei com a cabeça. Ele sorriu bobo.
— Precisamos ir para um lugar reservado, quanto menos pessoas melhor.
— Tem uma sala que não é usada há anos aqui no estúdio, acho que não teremos problemas se formos para lá. — disse, despreocupado.
— Certeza?
— Sim, o nosso chefe sempre pede pra gente dar uma olhada, lá. — disse para . — Não vamos ter problema nenhum.
— Então parem de perder tempo. — disse, nos empurrando.

Seguimos os meninos pelo estúdio, que mais parecia o do Ink Master, e encontramos uma sala cheia de tralhas. Adentramos o lugar e nos sentamos no chão.

— Vocês trouxeram algo pra comer? — meu irmão perguntou, fazendo eu e nos entreolharmos.
— Nós estamos com fome, vamos ter que sair para comprar alguma coisa. — disse, quase se levantando.
— Eu tenho alguns biscoitinhos na mochila, querem? — perguntou, já tirando a vasilha da mochila.
— Eu também tenho. — tirei da mochila e entreguei a eles. já ia comer, mas dei uma bofetada em sua mão e ela me olhou, sem entender — Comam sozinhos, a gente espera, daqui a pouco estamos em casa.
— O que quer nos dizer? — meu irmão perguntou não se preocupando com a cena nojenta dele falando de boca cheia.
— Ontem, quando eu estava me arrumando para ir ao parque com , minha mãe foi ao meu quarto e ficou conversando comigo. Ela confessou que fugiu para outra pessoa matar . — arregalou os olhos. — Disse que não sujaria suas mãos com o sangue dele.
— Ela podia estar brincando com você, . — ele a defendeu. — Mães são assim.
, o pior cego é aquele que não quer ver. — disse a ele, que parecia incrédulo.
— A pior parte é que o velho, dono da boate, já deve estar entre nós pra matar meu pai.
— Ela também disse isso? — meu irmão perguntou e eu assenti. estava visivelmente chateado. — Eu não consigo acreditar que ela seja essa pessoa tão fria!
— Cara, eu posso imaginar o quão difícil deve estar sendo, mas você precisa acreditar na sua irmã. — disse a ele e meu irmão assentiu.
— Acho melhor falarmos com a polícia. — sugeriu.
— É arriscado — eu disse.
— Risco nós já estamos correndo. — disse .
— Precisamos contar isso ao delegado Hopper. — foi à vez do meu irmão. — Só assim teremos algum tipo de proteção.
— Sério? Agora vocês estão contra mim? — me indignei.
— Ninguém tá contra você, .
— Estão sim! — me levantei. — Eu estou fazendo de tudo para proteger a todos e vocês tentam me ferrar desse jeito?
— Para mudar o mundo, você precisa antes mudar a sua cabeça.
, vá à merda e leve essas frases contigo! — ele me encarou. — Já te disse que você não é o Patrick Jane.
— Ei, se acalme — levantou-se, vindo em minha direção.
— Não to entendendo toda essa preocupação com um pai que só faz você sofrer. — disse. — Ele até te espancou, ou você se esqueceu disso?
— As marcas no meu corpo não me deixam esquecer, e você também não. — ela bufou. — O que você não consegue entender é que agora é o pai que nunca.
— Agora? — se pronunciou. — Faz uma análise do tempo que ele perdeu nos desprezando como filhos até agora. Como eu sempre disse, você fica fazendo doce pra ele, por isso o idiota que chamamos de pai te atura.
— Isso não é verdade.
— Ah não? — ele riu. — Por que acha que ele continua me tratando de forma indiferente? Eu não fico atrás dele. Acha que meu sentimento por ele mudou?
— Você precisa dar uma chance a ele.
— A mesma chance que eu dou a minha mãe? — bufei de raiva.
— Você se importa mais com a mulher que só causou sofrimento a nossa família do que com que...
— Só causou sofrimento a nossa família. — ele me olhou. — Se a nossa mãe é uma pessoa horrível, o nosso papai tá no mesmo barco.
— Se você for à polícia, ficará do lado dela. Se ficar no mesmo lado que ela, vou entender como uma declaração de guerra.
— Se é isso que você quer.
— Gente, vamos nos acalmar. — nos interrompeu. — A situação é muito grave.
— Sim, eu sei. Aliás, nós sabíamos disso, e resolvemos deixar minha mãe pensar que está no controle. — eu me afastei dele. — Era pra vocês fingirem que não sabiam de nada, mas não, os espertos estão querendo encrenca. Pois bem, o meu pai vai morrer. — olhei para eles. — Se é isso que desejam, devo parabenizá-los. Vocês vão conseguir mais rápido do que imaginam! — aplaudi, rindo sarcástica e peguei minha mochila.
— Onde você vai? — , perguntou.
— Pra casa do... — respirei fundo — Me dê um tempo, por favor.
— Super girl — me chamou.
— Deixem ir. — meu irmão pediu, me olhando. — Assim que eu sair do trabalho, contarei tudo ao delegado Hopper

Minha ira aumentou ainda mais e eu saí dali, sem dar ouvidos a mais ninguém. Eu já nem estou mais me importando comigo, mas é o meu pai quem está correndo risco de vida, e o pior é que ele nem sabe. Como vai poder se defender? Droga de vida!
Meu celular tocou e era minha mãe.

, está tudo bem? — rolei os olhos. — Já era para você ter chegado aqui em casa. Onde você está?
— Não precisa fingir que se importa comigo, tá!? — pigarreei. — E também não importa onde estou se ficar longe de você é o que eu quero.
Filha, você não percebe que eu só quero o seu bem?
— O que você quer pra mim tá longe de ser o meu bem. — a ouvi bufar do outro lado da linha.
Se você não me contar onde está eu vou te achar! — não respondi, esperando pela sua reação. — Está avisada.

Olhei a minha volta e comecei a caminhar, passando pelo colégio. Fui até a pracinha e fiquei ali, observando o movimento e a hora que abririam o portão que dá entrada à escola.

Já eram 14:00h, eu teria que esperar um pouco mais se quisesse entrar na escola. Não parava de olhar ao meu redor, minha mãe é louca, só Deus sabe do que ela seria capaz.
Coloquei a mochila na frente do meu rosto, caso alguém estivesse a minha procura, não me reconheceria. Fiquei assim durante alguns minutos, até perceber alguém se sentando ao meu lado. Meu coração disparou.
— Melhor não gritar e nem tentar nada, só to aqui pra te proteger! — eu reconheci a voz. Quando levantei meu rosto para ter certeza de quem era, meus olhos quase saltaram do rosto — Sentiu saudades?
— Fishy?! — comecei a me tremer. — Era pra você estar preso.
— To em liberdade a mais tempo do que você imagina. — eu bufei de raiva. — Mas isso não importa agora.
— Como não? Você estava me perseguindo, me ameaçou. — levantei a cabeça, o olhando. — Por culpa sua minha amiga perdeu um bebê.
— Isso é sério? — Fishy parecia ter se afetado. — Eu peço desculpas, apesar de saber que isso não importa pra vocês.
— O que vai fazer comigo?
— Nada de ruim, eu prometo. Agora, se abaixe.
— O que te faz pensar que eu acreditaria em você?
— Eu sou apaixonado por você, jamais te machucaria.
— Isso não quer dizer nada. — respirei fundo. — Foi minha mãe quem te mandou, não é mesmo?
— Se você não se abaixar eles vão te reconhecer. — continuei do mesmo jeito, esperando pela resposta. — Não, sua mãe mandou os homens do velho Martin, dono da boate.
— Você o conhece? — franzi a testa.
— Sou filho dele.
— O QUÊ? — dei um gritinho, chamando atenção de algumas pessoas que passavam pela pracinha.
— Têm dois homens caminhando em nossa direção.
— E você diz isso, tranquilamente? — ele riu fraco.
— Põe esse boné, com a aba virada pra trás — me entregou o objeto.
— E agora?
— Fazemos isso — Fishy segurou meu rosto, me beijando de forma intensa.



[Capítulo Vinte]

Fiquei tão surpresa que não tive reação contrária, cedi ao beijo, ainda de olhos abertos. Os homens passaram por nós, mas Fishy continuou segurando meu rosto. Dei uma tapa de leve em sua mão e afastei um pouco o meu rosto.

— Ficou louco? — sussurrei, irritada.
— Essa é sua forma de me agradecer? — rolei os olhos e ele soltou uma risada — Esses homens não vão sossegar enquanto não te encontrarem, então é melhor você entrar no personagem e colaborar comigo.
— Terei que fingir ser sua...
— Namorada — engoli o seco — Exatamente!
— Mas...
— Não gosta da ideia? — ele tombou a cabeça, arqueando as sobrancelhas — Porque eu me agrado muito.
— Fishy! — me olhou de forma sedutora — Eu sou quase comprometida, não posso.
— Com aquele cara que te beijou na cabana? — assenti — Me rejeitou pra ficar com quem não te quer?
— Vamos mesmo ficar falando sobre isso enquanto estou sendo "caçada"? — me irritei e ele olhou para os lados.
— Vista essa jaqueta — ele me entregou a roupa e virou a aba do meu boné para frente — O portão do colégio abriu, mas não acho que seja uma boa ideia passarmos por lá. Não quero que deem pistas que você passou por aqui.
— O que eu farei? — perguntei preocupada.
— Eu vou te ajudar. — senti sinceridade em suas palavras. — Precisamos ir para um lugar seguro.

Mais uma vez, Fishy olhou ao nosso redor, se levantou e segurou em minha mão, me levando para um caminho desconhecido por mim. A cada 10 segundos ele me pedia para abaixar a cabeça, senão me reconheceriam, já estava ficando mais aflita que o normal.

Estávamos a tanto tempo caminhando, que comecei a sentir dores nos pés. Pedi para pararmos um pouco, mas Fishy achou melhor continuarmos, caso contrário, nos alcançariam.

O medo já estava me dominando de tal forma, que a cada passo que eu dava, olhava para trás, receosa de que os homens estivessem nos seguindo.

— Fishy — ele me olhou de relance — Eu não aguento mais.
— Só mais um pouco, estamos quase chegando.
— Chegando aonde? — ele não respondeu, apenas continuou no caminho.

Finalmente, depois de caminhar muito, por uma estrada deserta e meio assustadora, avistamos uma casinha pequena e, aparentemente, frágil.

— Nossa! — franzi o cenho.
— O quê?
— Parece tão...
— Velha? — o olhei.
— Eu diria humilde. — ele riu fraco — Será que é segura?
— Sim, eu mesmo a construí. — respondeu se aproximando da casa — Entre.

Ainda receosa, adentrei o local analisando cada detalhe. Não tinha decorações, era apenas composta por alguns móveis muito antigos e gastos, havia muita sujeira também.

— Há quanto tempo esse lugar não é limpo? — perguntei, olhando para as teias de aranha nos cantos da parede.
— Desde quando construí. — respondeu simples.
— E quando você o construiu? — o olhei séria.
— Há bastante tempo! — arregalei os olhos. — Eu queria um lugar calmo e escondido para o caso de alguma necessidade, como agora. — ele trancou a porta.

O trinco parecia ser tão antigo que me fez pensar se trancaria mesmo a porta, como se tivesse ouvido os meus pensamentos, Fishy usou um pedaço de madeira para reforçar a segurança na porta.

— Você parece meio assustada. — me olhou.
— Eu preciso me esconder — ele assentiu — Mas você não.
— Preciso sim. — ele limpou um banquinho, fazendo sinal para eu me sentar — Sua mãe me ajudou a sair da cadeia, e me pediu pra ficar te vigiando.
— O quê? — me desesperei — Então, eu fui muito idiota em acreditar em você! Ainda mais depois de tudo que fez.
, calma — se aproximou, me fazendo levantar e correr até a janela — Eu não vou te entregar.
— Não acredito em você.
— Depois que fui solto, eu ficava te observando dia e noite, mas hoje sua mãe me pediu pra te encontrar, e eu sabia que não era pra boa coisa.
— Claro que não, aquela mulher é um monstro!
— Por isso resolvi te proteger — arqueei as sobrancelhas — Neste momento, os homens do velho Martin devem estar me procurando também.
— Você traiu minha mãe?
— Pra te proteger, eu faço qualquer coisa. — afastei-me da janela, tornando a me sentar no banquinho.
— E-eu nem sei o que dizer — suspirei.
— Eu sou louco por você — se aproximou de mim, ajoelhando-se para ficar na mesma altura. — Jamais permitiria que fizessem algum mal a você.
— Mas você mesmo tentou fazer. — ele abaixou a cabeça.
— Por favor, me perdoe por aquilo. — suspirei alto — Enlouqueci quando te vi beijando aquele cara, mas isso não justifica.
— Não mesmo! — ele levantou seu olhar pra mim — Eu gosto muito do , mesmo que eu saia desta situação, é com ele que eu vou ficar.
— Ele também gosta e quer ficar com você? — eu engoli o seco, desviando meu olhar para qualquer lugar que não fosse seus olhos. — Por que ele não tava com você quando te encontrei? Porque eu vi que você estava com ele, sua amiga e com seu irmão.
— Nós brigamos, foi só isso.
— Ok. — Fishy se levantou, indo para perto da janela.

Ficamos em silêncio durante um tempo, eu sabia que ele estava chateado, mas não podia alimentar qualquer tipo de esperança em relação a nós. Da última vez, ele me perseguiu por isso.
Ainda era difícil acreditar que estava confiando nele, depois de tudo que aprontou, porém Fishy se mostrava sincero em suas intenções de me ajudar.

— Pode ficar tranquila, não farei nada dessa vez. — eu estava de costas para ele — Se você não gosta de mim, não posso te forçar a isso.
— Eu fiquei encantado por você. — me virei, o olhando — Mas você foi muito ansioso, se tivesse esperado mais...
, eu não quero ouvir isso, tá?! — ele suspirou.
— Desculpe. — olhei para o chão e me espantei, novamente, com o tanto de sujeira. — Tenho que limpar essa casa. — me levantei.
— Eu te ajudo.

Fishy me mostrou onde ficavam os produtos e objetos de limpeza, passamos o fim de tarde limpando tudo.

— Eu preciso de um banho.
— No armário do quarto, tem toalhas e roupas minhas. — ele apontou e eu assenti — Esse lugar só pode estar limpo durante os dias que ficarmos, caso saiamos daqui, teremos que sujá-lo, novamente.
— Ok. — me afastei indo pegar as coisas no armário.

Tomei um banho rápido, eu ainda estava muito cismada e se precisasse correr, não queria sair de toalha ou nu. Pode parecer loucura, mas eu estava sujeita a tudo, a qualquer momento.

— Eu deixei uma toalha pra você — disse assim que saí do banheiro, o vendo deitado na cama.
— Obrigado. — ele me olhou — Até que as minhas roupas ficaram boas em você. — soltei uma risada fraca.
Fishy se levantou, pegando algumas roupas e indo ao banheiro.

Depois de algum tempo conversando sobre minha mãe e o velho Martin e sobre como nos defenderíamos, caso fosse necessário, senti fome.

— Tem algo para comermos?
— Eu trouxe alguns biscoitos. — ele fez careta.
— Tudo bem. — Fishy pegou os biscoitos e comemos de forma rápida. — Você não teme por sua vida?
— Eu temo pela sua. — ele me olhou nos olhos, e eu suspirei — A minha já não vale muita coisa mesmo. — deu de ombros. — Já errei demais nesse meu pouco tempo de vida.
— Não fale assim! — disse e ele arqueou as sobrancelhas — Todo mundo comete erros, assim como todo mundo merece uma chance. Com você não seria diferente. — ele respirou fundo, parando de comer para me olhar — Percebe o que está fazendo por mim?
— Faço isso porque gosto de você. — disse mais uma vez.
— Então, você merece a cofiança que eu estou o depositando. — ele abaixou a cabeça. — Eu vou tentar te proteger também. — ouvi sua risada baixa.
— Como?
— Não sei, mas vou tentar. — virei o rosto para o meu celular, estava tarde.

O celular começou a tocar, era .

— Não atenda. — olhei para Fishy.
— Ele já sabe sobre minha mãe.
— Ela pode estar o usando pra tentar chegar a você. — arregalei os olhos. — É só ameaçá-lo.
jamais me entregaria.
— Tenho certeza disso, mas se gosta dele, não atenda. — assenti meio triste. — Melhor descansarmos.

Fishy fez uma cama no chão e se deitou, eu apenas continuei onde estava e, fiquei pensando na minha vida. Mais uma vez, eu tendo que me esconder, mas agora da minha mãe.
Tive receio de dormir, eu não estava totalmente segura de que Fishy me protegeria mesmo, mas não tinha escolha. Eu não parava de olhar para a janela, mas por um momento, desviei o olhar para Fishy e tomei um leve susto, ele me observava.

— Descanse.
— Eu não to conseguindo. — suspirei.
— Você nem tentou. — ele riu fraco. — Não confia em mim, né?! — eu ia falar, mas ele não me deu tempo. — Tudo bem, eu entendo.
— Desculpe, é difícil pra mim.
— Como disse, eu entendo. — assenti, respirando fundo e me virei para o lado contrário a ele. — Boa noite, gatinha.
— Boa noite, peixinho. — sorri ao ouvir sua risada.
Resolvi dar lugar ao sono.

Passados dois dias escondida no pequeno esconderijo de Fishy, amanheci na manhã do meu aniversário com uma leve dor de cabeça, me virei na cama e olhei para o chão, Fishy não estava lá. Engoli o seco e fui ao banheiro, ele também não estava lá, aproveitei para me higienizar e tudo que eu pensava era manter a calma.
Fui caminhando devagar para a cozinha, torcendo para vê-lo, mas não o encontrei, olhei para a porta, que ainda estava trancava e franzi a testa, achando estranho. Respirei fundo e me aproximei da janela, nem sinal dele.
Fiquei sentada na cama e liguei o celular, pensando se ligaria ou não para ou meu irmão, havia ligações e mensagens deles, e a incerteza de Fishy ter ou não armado uma emboscada para mim era grande.

Ouvi um barulho na cozinha, meu coração começou a palpitar forte e minhas mãos suarem. Engatinhei até o local e vi Fishy segurando algumas sacolas, saindo por uma pequena porta, no chão. Levantei-me rápido e corri até ele, o abraçando.

— Que droga, Fishy!
— O que aconteceu? — perguntou sem entender. Afastei-me para o olhar.
— Achei que você tinha ido me entregar, ou que levaram você — disse aflita. — Por que não me avisou que ia sair?
— Eu não quis te acordar, você parecia cansada. — ele colocou as sacolas em cima da pequena mesa e apontou para a porta. — Mas você tava segura, eu nem mexi no trinco.
— Sim, eu vi. Por isso também fiquei assustada. — respirei fundo. — Fico mais aliviada agora por te ver.
— O que eu posso fazer pra provar que to fazendo tudo isso pra te proteger? — ele fixou seu olhar em meus olhos.
— Nada, eu sinto que você está sendo sincero. — o olhei na mesma intensidade. — Você já tá fazendo muito por mim, por isso agradeço. — ele forçou um sorriso.
— Comprei alguns mantimentos pra ficarmos aqui, sabe cozinhar?
— Não tão bem quanto o meu pai e tia Audrey, mas sei. — fiz careta.
— Não tem problema, eu faço as nossas refeições. — ergui as sobrancelhas e ele riu. — Tá preparada pra mudar a aparência?
— Como assim? — franzi a testa, desconfiada.
— Mudar a cor e o corte do cabelo. — ele disse, mexendo em uma das sacolas.
— Não é exagero?
— Se você quiser sair na rua, não.
— Pois eu não quero, estou muito bem trancada aqui. — menti, o fazendo arquear uma sobrancelha. — Fishy!
— Gosto tanto quando você me chamar pelo nome. — sorriu bobo.
— Esse não é o seu nome. — ele rolou os olhos. — Aliás, qual é o seu nome?
— Para a sua segurança, melhor você não saber. — bufei — E então — tirou da sacola e ergueu os tubos de tinta — Vai encarar?
— Claro. — eu disse firme e ele sorriu.

Confiei, mais uma vez, em Fishy. Ele fez questão de pintar minhas madeixas e cortá-las, fiquei meio receosa, claro, mas ele parecia saber o que estava fazendo.

— Já se passaram 40 minutos, pode lavar o cabelo que ainda te resta. — ele disse, enquanto preparava algo para comermos.
— Como assim? — arregalei os olhos. — Quanto do meu cabelo você cortou?
— Verás — ele sorriu despreocupado. — Vá logo lavá-lo!
— Ok.

Tomei um banho rápido, e conforme via o excesso de tinta escorrendo pelo meu corpo e indo para o ralo, sentia um friozinho na barriga. É sempre bom mudar, apesar de eu não ter o costume de fazer coisas do tipo, estava gostando da sensação.
Saí do banho na esperança de olhar no espelho, porém não tinha um ali, tentei arrumar o cabelo do jeito de sempre, mas temia por não estar bom, já que o corte havia mudado.

, por que a demora? — ouvi a voz de Fishy.
— Eu queria um es... — assim que me virei saindo do banheiro, deparei-me com o espelho e abri o maior sorriso que já dei em todos os tempos. — Nossa! E-eu estou...
— Ainda mais gata!

Olhei para Fishy ainda sorrindo, logo desviando o olhar para o espelho, novamente. Aproximei-me, mexendo no cabelo e analisando cada detalhe.

ia amar me ver assim. — suspirei, lembrando que era o aniversário dela também. — Hoje nós fazemos 17 anos. — disse meio triste.
— Por isso resolveu mudar? — olhei para Fishy — Trocando de idade e de cabelo... Quer ser uma nova ?
— Só quero ser uma versão melhorada de mim mesma. — ri sozinha. — Amei o presente, peixinho.
— Ah, não era essa a intenção, mas já que gostou. — dei uma piscadela, tornando a olhar para o espelho. — Já sei o presente que posso te dar! — ele saiu do quarto.
— Fishy, não precisa. — vi pelo espelho ele segurando um pequeno bolo, me virei para ele, que sorria largamente.
— Feliz aniversário, gatinha! — fiquei boquiaberta e sem reação — Não vai assoprar as velas?
— Oh, claro. — me aproximei dele, soprando as velas para a felicidade do mesmo. O olhei ainda incrédula. — Como soube?
— Sua mãe me contou. — respirei fundo. — Ela disse que faria uma festa surpresa pra você e sua amiga hoje, mas não deve acontecer.
nunca iria aceitar que fizessem uma festa sem eu ali presente.
— Mas seria surpresa.
— Acredite, ela acabaria com a festa. — ri lembrando o jeito da minha amiga. — E todos, exceto a minha mãe, dariam razão a ela.
— Tá sentindo falta deles? — Fishy colocou o bolo em cima da cama e se aproximou de mim.
— Sim. — o abracei num impulso. — Mas pelo menos você tá aqui comigo, eu detestaria ter que passar meu aniversário, sozinha.
— Estarei com você sempre que quiser. — me afastei para o olhar. — Você não tem noção do quanto eu te gosto. — ele me fitou — O que posso fazer para...
— Tudo que você têm feito já me prova que é sincero quando diz que gosta de mim — suspirei, o encarando. — Só me sinto mal por não poder retribuir a você esse sentimento.
— Eu não a culpo. — ele virou seu rosto, mas eu o puxei em minha direção, olhando em seus olhos. — Sabia que isso é uma tortura?
— Desculpe. — disse o soltando, ficando de costas para ele.
— Me desculpe você.

Fishy puxou meu braço, virando-me em sua direção e levando-me até a parede, me beijando. Arregalei os olhos, surpresa, mas não conseguia resistir aos seus beijos.
Senti minha respiração ficar ainda mais falha quando ele interrompeu o beijo e começou a acariciar meu rosto, me olhando, intensamente, nos olhos.

— Fishy — ele arqueou uma sobrancelha — É melhor pararmos por aqui.
— Tem certeza? — perguntou quase num sussurro — Porque eu sinto uma dúvida da sua parte, posso até vê-la em seu olhar. — ele mordeu o lábio inferior, fazendo-me fitar sua boca.
— S-sim, eu tenho. — o empurrei no mesmo instante. — Não vamos comer o bolo? Parece estar delicioso!
— Que habilidade em fugir do climão, hein. — ele riu — Parabéns duas vezes.
— Idiota.

A tarde se aproximou rápido, conversamos durante um bom tempo sobre como poderíamos ajudar a sair da mira da minha mãe.

— Você acha que...
— Espere — o celular dele tocou. — Meu pai tá ligando.
— Não vai atender? — ele negou com a cabeça.
— Agora não. — ele me olhou.
— Quer que eu pinte o seu cabelo?
— Não preciso disso, vou ficar o tempo todo de boné. — tombei a cabeça, o observando. — Que é?
— Vai ficar bom.
— Tudo bem, . — me levantei no mesmo instante, preparando a mistura.

Não sabia ao certo o que estava fazendo, mas tinha a certeza de que não ficaria tão bom. Fishy me perguntava se eu estava conseguindo usar a tinta a cada 5 segundos e eu mentia dizendo que sim, e desconversava.

Passaram-se 40 minutos, Fishy foi lavar o cabelo e eu fiquei sentada na cama, o esperando.

, que merda você fez no meu cabelo?! — levei um susto com seu tom de voz elevado.
— Nem deve estar tão... — quando o vi na minha frente arregalei os olhos.
— Ruim? Tá péssimo! — tentei prender a risada, mas não consegui. — E ainda ri de mim?
— Ah, Fishy — andei em sua direção — Nem ficou terrível. — menti.
— Vou ter que raspar meu cabelo, nem brincando encaro as ruas desse jeito! — ele disse irritado.
— Se acalme peixinho. — pensei um pouco — O cabelo está ótimo assim, seu pai nunca irá imaginar que você fez isso.
— Eu fiz? — ele me olhou, arqueando as sobrancelhas. — Pior que eu ainda deixei você fazer esta merda.
— Fishy, você tá exagerando um pouco. — analisei seu cabelo.
— Exagerando? Meu cabelo tá parecendo pelo de cachorro de rua. — gargalhei tão alto, que ele acabou sendo contagiado.
— A cor também ficou uma droga. — confessei, ainda rindo. — Desculpe.
— Só você pra fazer isso comigo, .
— O lado bom é que nós nunca seremos reconhecidos! — tentei reanimá-lo e ele assentiu. — Agora, vamos comer algo?
— Sim, isso tudo me deu fome. — ele brincou e eu o acompanhei até a cozinha, para me certificar de que ele não se vingaria usando a comida.

O jantar estava pronto, Fishy se sentou à minha frente e preparamos o nosso prato. O cheiro era bom, o sabor mais ainda.

— Pelo jeito você gostou da minha comida. — ele disse, enquanto eu lavava a louça.
— Sim, você é um ótimo dono de casa. — nós rimos. — Por falar em casa, to sentindo falta da minha.
— Eu não sei por quanto tempo mais teremos que ficar aqui, mas pelo menos estamos tentando bolar alguns planos pra tentarmos sair desta situação, que já tá sendo sufocante. — o olhei, de relance. — No que tá pensando?
— Meu pai. Seu pai. Minha mãe. — terminei de lavar a louça e me virei na direção de Fishy, que estava encostado à parede, de braços cruzados. — Eu estou com um medo enorme de a essa altura, eles terem matado o meu pai.
— Olha, não fique pensando nisso agora, o mais importante no momento é a sua vida. — respirei fundo. — Sei o quanto é difícil pra você, mas tente relaxar.
— Não dá! É a segunda vez que tenho que passar por uma situação assim de ter que fugir e ficar escondida, ter que ficar longe da minha família... Eu sinto a falta deles. — meus olhos começaram a marejar. — E parece não adiantar ficar afastada, porque tenho a sensação de estar em perigo o tempo todo.
— Ei, não fique assim. — Fishy se aproximou de mim, me abraçando. — Eu não disse que vou te proteger?! — resmunguei. — Então, não importa o que aconteça, ou o quanto isso custe, eu vou te proteger!
— Obrigada. — o apertei no abraço. — Será que podemos sair um pouco?
— Agora? — me afastei para o olhar e assenti — Acho que não é uma boa ideia.
— Teríamos uma menor possibilidade de sermos reconhecidos, porque você sabe que mudar o visual só despista por algum tempo, mas uma hora ou outra vão nos descobrir.
— Mas a gente não vai ficar saindo de casa sempre, não podemos abusar do perigo. — suspirei. — É melhor amanhã, cedo.
— Se você diz — me afastei dele, indo para o quarto. — Boa noite.
— Boa noite.

Deitei na cama um tanto irritada, queria muito sair e respirar um ar diferente daquele dentro de casa. Já estava sufocada, me sentindo presa, eu queria a liberdade, pelo menos naquela noite.

Esperei Fishy dormir e me levantei devagar, vestindo a jaqueta e guardando o meu celular com o fone de ouvido no bolso, e colocando o tênis, indo para a cozinha. Achei a chave da pequena porta que fica no chão dentro do armário e a abri, indo para o lado de fora. Estava tão escuro e assustador que pensei em voltar para o lado de dentro da casa, mas eu precisava desse tempo só pra mim. Liguei o celular e conectei o fone, havia muitas ligações perdidas da minha família, fora as mensagens.

Coloquei Hero para tocar e fiquei lembrando do quanto eu dançava esta música na Thanicia Dance Company, acabei abandonando as aulas de dança e no fundo, sabia que não devia ter feito isso. Tantas coisas acontecendo no mesmo momento, nem mesmo para os estudos eu estava tendo tempo de dar importância, e não fazia ideia de como conseguiria uma bolsa para cursar Dança, nem mesmo sabia como passaria de série, mas daria um jeito.

Fiquei caminhando com a lanterna do celular ligada, até que ouvi um barulho estranho, sabia que Fishy estava dormindo, não seria ele. Respirei fundo e tentei voltar rápido para casa, mas tropecei em alguma pedra e caí, a lanterna do celular desligou, então não consegui achá-lo. Algo se aproximou de mim e eu comecei a suar frio, senti uma mão apertar meu ombro e no mesmo instante, desmaiei.

Abri os olhos rapidamente, olhando ao meu redor e ficando ainda mais assustada. O dia já tinha amanhecido e eu estava em casa, na cama e Fishy próximo à janela, olhando para o lado de fora.

— Como...
— Eu poderia ser seu herói, sabia?! — ele se virou para mim.
— O que aconteceu? — me sentei, escorando as costas na cabeceira da cama.
, por que você acha que eu disse pra sairmos de casa hoje cedo e não ontem à noite? — rolei os olhos, não estava a fim de me irritar logo pela manhã — Já sabe, né?!
— Eu só queria...
— Arrumar problema. — o encarei. — Custava esperar mais um pouco?
— Tá me custando essa conversa chata. — me levantei da cama.
— Aonde vai?
— Vai ficar me monitorando agora?
— Esse era o meu trabalho. — ele sorriu fraco.
— Pois não é mais. — ergui uma sobrancelha. — Você já tá me irritando demais!
— Calma, não foi a minha intenção.
— Nunca é. — entrei no banheiro, batendo forte a porta.
— Se bater mais forte ela vai cair. — bufei ao ouvi-lo.

Fishy estava me irritando como costumava fazer, era como uma diversão para ele. Meu irmão eu até consigo aturar, mas outro dele eu não encaro, não.



[Capítulo Vinte e Um]

Assim se passou um mês que eu e Fishy estávamos escondidos. Em alguns momentos foi bem difícil, mas confesso que Fishy fazia de tudo para me agradar e eu não nego que a companhia dele é bem agradável, porém eu sentia falta da minha casa, da minha família.

Olhei ao meu redor, sendo incomodada pela claridade, eu estava sozinha. Levantei-me da cama e fui ao banheiro, tomei um banho bem demorado e voltei ao quarto não encontrando Fishy, abri o armário e peguei suas roupas.
Retornei ao banheiro e vesti uma calça branca e regata preta comprida, terminei de me arrumar e saí, o vendo trocar a camisa. Virei meu rosto tentando ignorar o belo físico que estava à minha frente, disfarcei calçando o meu tênis.

— Você não sabe disfarçar. — o olhei de relance. — Preparei o seu café, se alimente e vamos sair.
— Para onde?
— Que tal caminhar pela pracinha e tomar um sorvete? — franzi a testa.
— Estamos seguros o suficiente para fazermos isso, tranquilamente?
— Eu não disse que seria tranquilo. — ele ficou pensativo.
— Ok. — me levantei. — Por sorvete eu corro o risco.
— Pensando melhor, não vamos correr risco por uma coisa banal. — o olhei, indignada.
— Vamos sim — pigarreei — Ninguém mandou você falar, agora eu quero e nem adianta dizer que não. — ele cruzou os braços, me observando. — O que é?
— Essa roupa ficou melhor em você do que em mim. — apenas o ignorei, indo para a cozinha.

Não estava com muita fome, mas terminei o café e voltei ao quarto para pegar meu celular.

— Droga! — bufei, não lembrando onde o deixei.
— Tá procurando isso? — Fishy ergueu o celular.
— Onde estava? — o peguei rápido.
— No banheiro. — franzi o cenho, estranhando e ele assentiu.
— Ok, obrigada por encontrá-lo. — ele suspirou.
— Coloque esta jaqueta e este boné. — estendeu a mão para me entregar.
— A jaqueta eu até visto, mas o boné não. — Fishy respirou fundo, parecia irritado. — Não arrumei meu cabelo para colocar o boné e escondê-lo.
— Fico muito satisfeito que você tenha gostado tanto assim do seu cabelo, mesmo que já tenha se passado um mês e ele precise de um retoque — rolei os olhos. — Mas, por favor, coloque o boné, apenas por precaução.
— Fishy, eu não vou usar! — vesti a jaqueta e joguei o boné na cama.
— Eu já não quero ir, e você ainda não facilita. — o olhei firme.
— Por que tá sendo tão chato?
— Você que tá sendo teimosa! — arqueei as sobrancelhas, descansando as mãos na cintura. — , por que você não quer colaborar comigo hoje? — ele parecia realmente nervoso. — Eu só to tentando te proteger, mas que droga!
— Ok. — peguei o boné e o coloquei com a aba virada para trás. — Eu uso.
— Obrigado.

Já nas ruas, caminhamos tanto que eu sentia calor, mas Fishy não me deixou tirar a jaqueta, por precaução. Essa historinha estava me irritando por demais, ou eu que estava sendo chata demais.
Encontramos algumas pessoas desconhecidas numa pracinha que eu nunca havia ido antes, eram bem mais movimentada e bonita que a de perto do colégio.

, quer o sorvete agora? — Fishy me perguntou, sorridente.
— Que pergunta, é claro que eu quero! — disse sem paciência e ele murchou na hora.
— Por que tá agindo assim comigo? — o olhei — Eu não entendo.
— Deve ser porque você tá me irritando muito mais hoje. — respirei fundo. — Vá lá comprar nosso sorvete. — eu estava indo sentar em um dos bancos, quando Fishy me parou. — O que é dessa vez?
— Qual sabor você quer?
— Chocolate branco.

Afastei-me dele, peguei meu celular e li algumas das mensagens que minha família me enviou, como pareciam desesperados, pelas palavras. Fishy sentou-se ao meu lado e entregou-me o sorvete.

— Nem em pensamento os responda. — olhei para ele. — Eu falo sério.
— Você tá ficando insuportável! — levantei-me, porém Fishy me parou.
— Por que tá agindo assim? — respirei fundo.
— Nada. — ele arqueou uma das sobrancelhas. — É sério!
— Você sabe que pode se abrir comigo. — o olhei bem nos olhos.
— Desculpe, eu não posso descontar em você tudo que estou sentindo, até porque não são sentimentos bons. Também não quero que pense que não sou grata por tudo que está fazendo por mim — ele assentiu e eu suspirei alto. — Agradeço por me aturar, você não é obrigado a passar por isso.
— Não sou mesmo. — ele me olhou de cima a baixo, cruzando os braços e me fazendo rir fraco. — Mas pra ficar perto de você, eu aguento até esse seu mau-humor, que não quer passar.
— Desculpe Fishy — ele mordeu o lábio e eu fingi não me afetar após ver isso — Mesmo.
— Tudo bem, gatinha. — ele soltou risada gostosa.
— AÍ ESTÃO VOCÊS! — olhamos na direção de quem gritava, um policial apontava para nós. Droga!
— Venha! — Fishy pegou em minha mão e corremos para trás do parquinho.
— Como nos descobriram?
— Devem ter oferecido uma recompensa pra algum morador daqui nos entregar. — bufei. — Temos que tentar voltar para o nosso esconderijo.
— Como? Eles não vão descansar até...
— Já sei — ele me levou até uma área não movimentada. — Tire a jaqueta, boné e calça.
— O quê? — arregalei os olhos e ele bufou.
— Você precisa ser rápida! — Fishy disse, tirando sua camisa e me entregando. — Vista isso por cima da regata, vai ficar como um vestido. Quando tirar a calça, me entregue.

Arqueei uma sobrancelha e ele virou o rosto, retirei o boné e jaqueta, jogando no chão e vestindo a camisa que ele usava.

— Será que você pode ser mais rápida? — retirei a calça, rapidamente, o entregando e ele a vestiu. — Pronto.
— Não vai tirar sua touca? — Fishy apertou os olhos. — Ninguém vai reparar no seu cabelo, tire logo. — assim ele fez, cavando um buraco e escondendo as roupas ali. — Você é rápido.
— Já você — tombei a cabeça e franzi o cenho, quando eu ia respondê-lo, ele tampou minha boca. — Eles estão por perto, não faça barulho.

Vimos um dos policiais de costas para nós, Fishy, rapidamente, puxou-me contra ele, me beijando.

— Ei, vocês! — o homem nos chamou e eu meio que paralisei, mas Fishy continuou me segurando e não parou o beijo. — Não viram uma garota de boné com um garoto estranho de touca por aí? — não o respondemos, apenas continuamos nos beijando. Senti que o policial se aproximava. — Vocês não me ouviram? — Fishy parou o beijo, lentamente, segurando em meu rosto, eu fiz o mesmo.
— E você não vê que tá atrapalhando? — ele disse ao homem.
— Isso lá é jeito de falar comigo, moleque? — o policial se irritou, e eu abracei Fishy, tentando esconder ainda mais nossos rostos. — Saiam daqui.
— Obrigada. — eu disse, abraçada a Fishy e caminhamos, rapidamente.
— Esperem! — o homem pediu, nos fazendo parar de costas para ele. Respirei fundo.
— Fica calma. — Fishy sussurrou no meu ouvido. — O que quer dessa vez, senhor?
— Que vocês fiquem — ainda estávamos de costas — Vocês são estranhos demais para o meu gosto, estou achando suspeito.

Olhei para Fishy e o mesmo fez sinal para eu me acalmar. Abaixou-se, fingindo estar amarrando o tênis e pegou um pedaço de madeira que estava ao seu lado, golpeando o policial.

— Vamos, rápido! — me puxou, correndo pelo caminho que fizemos da pracinha do colégio ao esconderijo, no dia que fugimos. — Daqui a pouco o encontram caído e viram atrás de nós.
— E agora, o que faremos?
— Toda vez que me faz essa pergunta, tenho a impressão que você quer que eu te beije. — ele me parou, roubando-me um beijo.
— Fishy, tá maluco?! — bati em seu peito, e ele riu, tornando a me puxar e correr. — Que ideia é essa? Estamos em perigo.
— Não estamos em perigo, só não queremos ser pegos.
— Então espere até seu pai te encontrar e minha mãe também. — ele me olhou de relance, correndo mais rápido. — Não to aguentando mais, meus pés estão doendo.
— Quer que eu te leve no colo? — ouvimos o barulho de uma sirene, apertei a mão de Fishy e corremos mais rápido.

Depois de alguns bons minutos correndo, paramos um pouco para retomar o fôlego.

— É isso que dá não se exer...
— Não venha me chamar de sedentária! — levantei a mão o olhando firme.
— Eu não ia.
— Sei. — ele riu fraco, olhando ao nosso redor.
— Vamos continuar? — eu assenti e continuamos.
— ESTAMOS CHEGANDO! — ouvimos alguém gritar de algum lugar escondido, porque não vimos ninguém. — EU POSSO VÊ-LOS!
— Mas que droga! Isso tá parecendo filme de terror durante o dia! — eu disse nervosa.
— Vamos mais rápido. — tirei forças e fôlego não sei de onde, mas acelerei. — Pode ser algum morador querendo nos assustar.
— Ninguém mora aqui por perto, a sua velha casinha é muito bem escondida. — engoli o seco, olhando a minha volta. — O pior é que nem tivemos tempo de bagunçar as coisas pra tentar despistá-los.
— Não tínhamos como adivinhar. — ele respondeu segurando em minha mão, novamente, e fomos mais rápido.

Finalmente, chegamos ao esconderijo. Fishy se aproximou da portinha no chão a abrindo e entrando, na minha vez, senti alguém me segurar, tampando a minha boca.

— Calma. — a pessoa me virou.
— O que você tá fazendo aqui, ? É arriscado!
— Vim salvar você. — me abraçou. — Ele te fez mal?
— Não, claro que não. — me soltei para o olhar. — Fishy está me protegendo da minha mãe, por isso você pode ficar tran...
— Ela o denunciou.
— O quê? — arregalei os olhos.

A porta que estava trancada foi aberta e Fishy saiu algemado com delegado Hopper e minha mãe o seguindo.

— O que está acontecendo? — me aproximei.
— Ele não devia ter saído da prisão, . — disse, saindo da casa junto com meu pai. — E você não devia estar aqui com ele! — disse ríspido.
, de qual lado você está?
, o que achou que estava fazendo quando resolveu se aproximar, novamente, desse moleque? — meu pai perguntou nervoso. — RESPONDA!
— Pai, eu também me surpreendi ao vê-lo, mas acredite, o reencontrei no momento certo. — ele bufou, descansando as mãos na cintura. — Ele me protegeu esse tempo todo, vocês estão cometendo uma injustiça! — eu disse firme e meu pai socou a parede, que deu uma leve balançada.
— Você está defendendo esse filho do cão? — minha mãe me olhou firme.
— E quem é você para chamá-lo assim, sua diaba?! — ela se aproximou. — Ele estava me protegendo de você.
— Está percebendo, delegado? Esse moleque sequestrou minha filha e ainda fez a cabeça dela contra mim, que só estou tentando ajudar.
— Ajudar?
, pare com isso! — meu irmão me puxou pelo braço. — Você tá passando dos limites!
, você sabe de tudo, por que está agindo assim? — sussurrei em seu ouvido.
— Só vim aqui pra ajudar vocês, todos, exceto nossa mãe, estão encenando. Explico melhor depois, agora apenas entre no personagem e continue com sua histeria. — ele sussurrou de volta e eu assenti. — Você entendeu? Ela é a nossa mãe e você a deve respeito! — aumentou o tom de voz.
— Não! - aproximei-me de Fishy. — Olhe para mim, eu estou bem. Não tem necessidade de prendê-lo, ele não fez nada grave.
— Mocinha, eu já sei do caso desse aqui — delegado Hopper disse — Ele te perseguiu, foi preso, saiu da cadeia, te sequestrou... E agora, vai voltar pra cadeia. — eu comecei um choro bem falso, porém convincente. — Me admira você estar o defendendo. Como conseguiu ficar aqui por um mês?
— Fishy cuidou muito bem de mim — não deixava de ser verdade. — E a companhia dele é ótima.
— Ele a enfeitiçou, só pode ser isso. — minha mãe disse.
— Não, mãe. Fishy gosta de mim e demonstra isso, eu apenas o retribui o sentimento. — ele me olhou, sorrindo de lado.
— Você esqueceu seu namorado? veio para te tirar das mãos desse moleque atrevido e você diz essas coisas na frente dele?
sabia que o nosso relacionamento, que nem chegou a se firmar, estava sujeito a isso. — eu o olhei, dando uma piscadela e o mesmo se fingiu de triste.
, as suas palavras são como facadas, atingindo sua ponta bem no fundo do meu coração. — se aproximou de mim, acariciando meu rosto. — Não signifiquei nada para você?
— Significou, sim. — olhei em seus olhos. — Mas desde que Fishy apareceu na minha vida...
— Você está estranha! — minha mãe interrompeu-me. — Olhem para o cabelo dela, e essas roupas.
— Eu me sinto muito bem assim. — passei as mãos pelo cabelo.
— Já eu — Fishy resmungou, quase me fazendo rir.
— Seu cabelo tá uma droga, como fez isso? — perguntou a Fishy, que me olhou. Fiquei implorando, mentalmente, para meu irmão conter a vontade de rir, senão eu riria junto.
, você ficou ainda mais linda.
— Poupe-me dos seus vagos elogios, . — tirei sua mão de meu rosto e afastei-me. — Eu não entendo qual é o real motivo da prisão de Fishy, ele não fugiu da cadeia, foi solto e desde então, não me fez mal algum.
— Como não? Ele te sequestrou. — meu pai disse.
— Delegado, se você colher algumas informações, saberá que eu estava na pracinha perto do meu colégio, sozinha, minutos antes de Fishy aparecer.
— Fishy deve ter te mandado alguma mensagem, que você provavelmente apagou, ou te ligou e você apagou do registro, já que ele a ameaçou.
— Ele não me ameaçou! — eu fingi indignação. — Eu quis vir.
— Mas ele é maior de idade e você só tem 16 anos, é errado. — minha mãe disse firme.
— Ela fez 17 anos, mulher. — meu pai disse, balançando a cabeça em negação.
— Mas continua sendo menor de idade. — ela passou as mãos pelo cabelo, tentando não mostrar que ficou sem graça por ter errado a minha idade.
— Fishy tem a idade de . — a olhei. — E de também, seria errado eu namorar ele?
— Não importa, mocinha. Foi sem o consentimento dos seus pais e são eles que respondem por você. — delegado Hopper me calou com suas palavras. — Sem mais delongas, vou levá-lo para a delegacia. Um dos responsáveis de , por favor, venha comigo para prestar queixa.
— Eu vou. — minha mãe disse rapidamente, me olhando.
— O quê? — me aproximei dele. — Ela vai ferrar com Fishy lá. — sussurrei.
— Não se preocupe, o delegado está ciente das mentiras dela, fique tranquila. — assenti e meu pai me abraçou.
— Farei isso para o seu bem. — ela disse, antes de entrar no carro da polícia e eu rolei os olhos.
Os policiais iam saindo, mas eu ainda não acreditava no que estava acontecendo. A minha mãe é a pessoa mais mau-caráter que eu já conheci, imagine se não fosse parente.
— Filha? — olhei para — Eu estava com tanta saudade, temia por sua vida.
— Já eu temia pela sua — suspirei. — Minha mãe quer te matar desde que voltou, mas como você ficou comigo na cabana por aqueles dias, só foi atrasando a execução do plano dela.
— Já parou para pensar que essa perseguição, que levou a nós nos escondermos na cabana, pode ter sido um plano de Fishy para te proteger? — me afastei para olhá-lo nos olhos.
— O quê?
— Até mesmo quando ele apareceu no dia da oficina, não foi por acaso. — disse .
— Mas por qual razão?
— Te proteger?! — foi vez de .
— Mas, por que tantos beijos? — sussurrei para mim mesma.
— O quê? — disseram em uníssono.
— Nada — eu cocei a cabeça, nervosa. — Só estou confusa. — ficou me olhando desconfiado.
— Sua mãe formou um plano macabro de acabar comigo para ficar com você, e meus bens, claro. Mas ela contou ao velho Martin, por isso ele mandou seu filho, o Fishy, com a ordem de te proteger. E desde então, Fishy planeja encontros nada casuais para te ver porque sabia que sua mãe estava para voltar a Keoursna com esse plano. — meu pai ia dizendo e minha mente parecia dar um nó apertado a cada palavra. — No dia da oficina, ele só queria te conhecer e achar uma brecha para te ver novamente e ficar por perto, então se matriculou na escola, mas depois você o dispensou, então pensou que te ameaçando seria uma boa forma de você o obedecer, não se distanciando, até mesmo para ele poder ficar sempre te observando. — pensei no bebê que a havia perdido e no quanto o culpei por isso. — E agora, mais uma vez, ele reapareceu para te proteger.
— Como vocês sabem disso tudo?
— O velho Martin nos procurou, de forma indireta, e contou toda a verdade. — disse.
— Quando o velho decidiu contar isso? Como vocês acreditaram? E por que ele quis me proteger?
— Há poucos dias, e não foi difícil de acreditar, só ligamos um ponto ao outro. E ele quis te proteger porque sua mãe foi mandante do crime que levou o nosso primeiro filho à morte, e talvez fosse capaz de fazer o mesmo com você para tentar me atingir, de alguma forma. — os olhos do meu pai marejaram.
— Ela não seria capaz, seria?!
— Eu briguei com o velho Martin naquele dia, eu não suportava saber que sua mãe trabalhava daquela forma. — ele respirou fundo — Então, para ela deixar claro que eu não podia a impedir e que se eu tentasse, novamente, acabaria com a minha vida, mandou alguns homens do velho atirarem no meu carro. — tentava impedir o choro, mas sua voz estava embargada demais. — Tudo isso por dinheiro, por ser a favorita dos homens, por ambição.
— Ela é pior do que eu pensava! — estava impressionada. — Minha mãe é um monstro!
— Sabíamos que ela ia querer prestar queixa contra Fishy, afinal, ele atrapalhou os planos dela com sua traição, então combinamos assim com o delegado e ele vai prendê-la.
— Sem provas?
— O velho Martin está a esperando na delegacia, ele têm provas e testemunhas. — disse um tanto triste.
— Por que ele não fez isso antes?
— Ninguém acreditaria nele.
— Mas se ele tem provas contra ela.
— E quem ia garantir que ele não forjou as provas? — meu pai indagou e ficou meio inquieto.
— E quem garante que ele não fez isso agora?
— Cara, não faça isso consigo mesmo. — apertou o ombro do meu irmão. — O velho só deu tempo para todos perceberem quem realmente é a sua mãe, mas antes que ela fizesse mais ruindades, ele tomou providências.
— Nossa! E-eu... É muita coisa pra eu processar ao mesmo tempo. — confessei. — Pai, eu sinto muito por esse meu irmão.
— Acredito que essa não tenha sido a real intenção dela.
— Está a defendendo? — meu irmão levantou o olhar para . — É sério isso?
— Não estou a defendendo, mas a real intenção de sua mãe era apenas dar um susto em mim, se ela quisesse mesmo me matar, naquela época, teria feito. — respirei fundo. — Ela não sabia que nosso filho estaria comigo no carro, e agora a vingança dela é por isso.
— Ela acha que o culpado da morte dele foi você? — meu pai assentiu. — Essa mulher é louca!
, pare de falar assim! — estava nervoso. — Ninguém nunca a ajudou, por isso ela age dessa forma.
— Filho — meu pai tentou se aproximar, mas o empurrou contra a parede, tentando asfixia-lo. tentou o parar, mas meu irmão estava irado. Meu pai apenas o empurrou, segurando um de seus braços para trás. — Eu entendo o seu sentimento de revolta, também o sinto, perdi um filho por conta dessa mulher que você adora e chama de mãe. Mas tome cuidado, eu o conheço muito bem e não quero perdê-lo também.

Meu irmão caiu de joelhos, em lágrimas, e num impulso o abracei forte. O abraço que raramente desfrutávamos, mas que no momento era necessário.

— Por favor, deem um tempo para nós dois. — pedi a e , eles se afastaram.
— Me sinto um idiota — ele chorou mais forte — Eu a defendi, tratei-a muito bem, a amo como a mãe que ela nunca foi, eu não entendo como pode ser tão fria!
— Eu sei que você estranhará o que vou dizer, mas ela nos ama. Do jeito dela, mas ama. — ele me olhou. Seus olhos estavam tão vermelhos por conta do choro. — É verdade, eu também dei uma brecha a ela para ter um pouquinho da mãe que não tive e estava gostando, até ameaçar o meu pai e querer controlar os meus passos. Mas ela me disse que não faria nada contra eu e você, que nos protegeria.
— Você acreditou?
— Não tão rápido, oras. Você sabe como sou. — suspirei. — Mas eu quis acreditar.
— Sente que é verdade? — assenti.
— Sim, o que meu pai disse faz sentido, e o comportamento dela durante esse tempo perto de nós também me leva a crer.
— É engraçado te ouvir falando isso, você sempre teve rejeição a ela. — sorriu de lado.
— Porque eu sentia a rejeição dela com a gente. — o olhei. — Ainda não sei o que ela entende de amor, mas acho que nem mesmo ela entende, só sente.
— Não sei por que sou tão ligado a ela.
— Já eu sou mais ligada ao meu pai. — sorri — É normal, .
— Mas ela não é uma mãe como tia Audrey, por exemplo.
também não era um pai como tio Michael. E por falar nisso, você precisa dar uma chance a ele.
— De novo? — arqueei uma sobrancelha. — , você precisa entender que...
— Ele mudou. — meu irmão bufou. — realmente se preocupa.
— Com você.
— Não seja injusto com ele, . — firmei meu olhar. — Você sabe que depois de todos esses acontecimentos nosso pai mudou muitas de suas atitudes.
— Você sabe que ele ainda se droga? — arregalei os olhos. — Todas as noites, ele vai para o terraço e aí você já sabe.
— Ah, bem eu não sabia, mas — respirei fundo, desviando o olhar dos olhos do meu irmão. — Como você...
— Não estou inventando, eu vejo, . — engoli o seco — Vai ficar com essa cara?
— Eu só to surpresa, achei que ele já tivesse parado com isso. — bufei. — Mas eu já tinha visto também, na cabana. Pensei que seria a última vez.
— Ele também precisa de ajuda, assim como nossa mãe. — encarei meu irmão. — Se eu tenho que dar uma chance ao , você precisa dar uma chance a ela. — dei um longo suspiro.
— Já que é assim, tudo bem. — nos levantamos.
está tão calado. — estranhei. — Você sabe por quê?
— Ah, eu acho melhor você conversar com ele.
— Me conte logo. — ele bufou.
não ficou nada confortável ao saber que você estava com Fishy — eu já ia me defender, mas meu irmão foi mais rápido. — Antes que você comece a dar suas desculpas, quero lembrar que você tem uma queda por esse cara e nunca sentiu necessidade de esconder isso.
— Sim, eu tenho uma queda por Fishy, e agora mais ainda porque — meu irmão cruzou os braços e sua expressão ficou mais séria. — Eu conheci o lado carinhoso e protetor dele, mas de verdade, sem aquelas falsas ameaças.
— Você acha mesmo que ele estava sendo sincero contigo?
— E por que não estaria? — meu irmão rolou os olhos.
— Não seja ingênua, tudo isso estava nos planos dele pra te proteger, foi só encenação.
— Não foi! — disse firme. — As trocas de olhares, os sorrisos, os abraços, os apertos de mão, os beijos... Tudo foi sincero. — ficou ainda mais sério, e eu me arrependi do que havia dito. — Até mesmo as irritações, foram verdadeiras.
— Os beijos?
— É — pigarreei — Nós nos beijamos algumas vezes.
— Quantas vezes? — minha vez de cruzar os braços e deixar a expressão mais séria. — Eu não vou brigar com você, mas me ajude a entender.
— Entender o quê? — bufei.
— Nem mesmo você tá entendendo, né. — desviei meu olhar para o lado contrário de . — Você gosta do , mas tá apaixonada pelo Fishy.
— Não é isso! — suspirei — Eu gosto muito de , muito mesmo.
— Mas? — olhei para o meu irmão. — Pode se abrir comigo, eu não vou te dar bronca.
— Ele não tem atitude.
— E você gostou dele mesmo assim. — suspirei alto. — Por que isso mudou?
— Depois que conheci Fishy, eu pensei muito no jeito dos dois.
— Há quanto tempo você vem comparando ele com ? — abaixei a cabeça. — , as pessoas são diferentes umas das outras.
— Eu sei.
— Então respeite isso. — fechei meus olhos, respirando fundo. — Você não pode cobrar ou querer de algo que não seja do feitio dele, só porque viu isso em outro cara e se agradou.
!
— Estou dizendo o que você precisa ouvir, é para o seu bem. — o encarei. — Pode me dizer por que se apaixonou por Fishy?
— Ora essa — ele ergueu as sobrancelhas. — Fishy tem um jeito tão ousado que não dá pra ignorar, foi o que mais me chamou atenção, no começo. — fiz uma linha com a boca, desfazendo em seguida. — Confesso que também me deixei envolver porque queria esquecer , mas depois de ficar com Fishy por esse tempo, eu notei o seu lado carinhoso, mas sem deixar de lado o jeitão atrevido, além de brincalhão, protetor e sincero. — sorri de lado.
— Hum, ok. — não estava conseguindo entender o meu irmão. Esse tipo de conversa eu costumo ter com . — Agora me diga, por que se apaixonou por ?
— Aish! — fiquei alguns segundos pensando. — é muito ajuizado, diferente de Fishy.
— Sem comparações! — tombei a cabeça, olhando séria para meu irmão. — O que tá esperando? Continue. — olhei para o céu, pensativa.
sempre acalma a minha pessoa quando estou muito nervosa, me aconselha quando estou confusa, me faz rir quando estou triste ou brava, me dá forças quando passo por alguma dificuldade, é cavalheiro e sensível, é tão sentimental quanto eu e por isso me compreende bem mais que a , às vezes — ri fraco ao lembrar algumas situações. pigarreou — Desculpe, eu esqueço. — ele fez sinal para eu continuar. — Ele faz eu me sentir a garota mais linda aqui de Keoursna, não que eu já não saiba. — meu irmão rolou os olhos e eu ri — Estou brincando, claro. Mas, é como me sinto, e tem sua parcela de culpa em tudo de bom que sinto, sempre tem um dedinho dele. Ele é como um amigo que eu posso contar sempre, um parceiro mesmo, por quem eu sou completamente apaixonada, entende?!
— Sim, eu entendo. Mas e você? — olhei para meu irmão. — Percebe o quanto ele te faz bem, mesmo "sem atitude"? — ele fez aspas com os dedos.
— Acho que fui injusta com ele.
continua sendo o mesmo de sempre, você que mudou e queria que ele fizesse o mesmo. — assenti. — Eu não falo só do seu cabelo e dessa roupa.
— Eu só queria ser uma versão melhorada de mim mesma. — suspirei — Quanto às roupas, eu não tive escolha.
— Não há problema em querer mudar para melhor, todo mundo tem esse direito e é até bom — estava atenta a cada palavra de . — Só não é quando não fazemos isso por nós mesmos, mas porque pessoas más e inconvenientes se aproveitam de nossas fraquezas, e se intrometem em nossas vidas, para tentar nos moldar conforme acham que será bom para nós. Ninguém tem esse direito, oras!
— Mas, se fazem isso, não é por que damos alguma brecha?
— Às vezes sim, por isso devemos ser mais fortes que qualquer opinião contrária, sobre nós. — meu irmão disse firme. — Você realmente quis mudar por você?
— Não no começo, eu achava que mudando até mesmo algumas atitudes, talvez pudesse me pedir em namoro de uma vez por todas. — confessei e meu irmão respirou fundo — Mas, depois eu pensei bastante e percebi o quanto estava sendo imatura, então pensei mais ainda e decidi mudar, inclusive esse tipo de pensamento, por mim mesma.
— Sua relação com Fishy te ajudou a mudar esse pensamento? De querer namorar, desesperadamente?
— Eu só deixei de ser dependente desse pensamento — ele assentiu. — Mas, de alguma forma, esse tempo com Fishy me fez muito bem e eu sou grata a ele por isso.
— Imagino que sim. — meu irmão sorriu. Aproximei-me dele, o abraçando.
— O jeito protetor dele lembra o seu e, isso fazia a saudade que eu sentia de você, aumentar ainda mais. — senti ele me apertar no abraço. — É muito ruim ficar longe de quem a gente ama.
— Eu sei, fiquei longe de você por duas vezes, mas essa foi bem mais demorada. — ele riu fraco. — Agora estamos juntos, novamente, e nada irá nos separar.
— Assim espero! — ouvimos uma buzinada, que nos assustou.
— Não dá pra deixar a conversa para depois? — olhamos para trás e meu pai estava no carro. — Vocês estão demorando demais!

Desviei meu olhar para o banco de trás, não estava lá. Franzi o cenho, estranhando e olhando ao meu redor.

— Por que será que não está com o meu pai?
— Porque eu preferi voltar e ficar aqui com você e , mesmo que escondido — ele saiu de trás da porta do esconderijo e eu fiquei boquiaberta. Olhei para o meu irmão, ele sorria largamente.
— Você sabia? — ele assentiu.
— Eu o vi voltando, quando estávamos falando sobre , então...
— Você me fez um monte de perguntas e eu boba, respondi tudo, sinceramente.
— Não fique brava — se aproximou, segurando em minhas mãos — Eu...
— Estamos aqui há tempo demais. — meu pai reclamou. — Entrem logo nesse carro!
— É como eu disse quando estávamos na cabana, sempre tem alguém para nos atrapalhar! — resmungou, enquanto caminhávamos até o carro.

sentou-se no banco do carona e conversou com o meu pai até chegarmos à casa de tio Michael. Já eu e apenas aproveitamos a companhia um do outro em silêncio, deixamos nossos olhares falarem por si só. Parecia que o mundo era só nosso... Até meu pai, mais uma vez, nos interromper.

— Chegamos, saiam logo do carro!



[Capítulo Vinte e Dois]

Adentramos a casa, eu fui recebida com um longo abraço da minha amiga.

— Assim você vai me sufocar, — ela suspirou — Senti sua falta, super girl.
— Tem noção do quão chato foi passar o nosso aniversário sem você? — ela deu uma tapa em meu ombro, fazendo-me rir.
— Ah, eu posso imaginar — caminhei até tia Audrey e ela me apertou num abraço. — Foi dureza pra mim também.
— Não faça mais isso, mocinha! — ela acariciou meu rosto — Você me deixou muito preocupada.
— Por que você quer testar o nosso coração, criança? — tio Michael se aproximou me olhando firme, mas logo sorriu e me abraçou — Esses meus filhos estão me deixando cada vez mais velho, olhem a quantidade de fios brancos que estão se alastrando no meu cabelo.
— Pensei que era por conta da idade avançada — provocou.
— Não me provoque, garoto — tio Michael apontou o dedo indicador para o meu irmão — Quer que o meu neto cresça sem pai?
— De forma alguma! — alisou a barriga de .
— E eu achando que estava menos ajuizada do que a amiga. — tia Audrey resmungou.
— Não estou entendendo. — engoli o seco.
— Você terá um sobrinho — meu irmão afirmou sorridente.
— Ou sobrinha — ressaltou.
— O QUÊ?

Tentei dizer algo sobre a notícia que acabara de ouvir, mas não consegui esboçar reação. Eu não imaginava algo do tipo, novamente, e tão cedo.
A parte mais chocante é que todos estão tranquilos e felizes com a gravidez da , mas isso só me assusta.

, está tudo bem? — tia Audrey perguntou preocupada.
— Sim, só fiquei meio zonza, mas já passou.
— Às vezes, eu fico assim também — disse tranquilamente — É normal na gravidez.
— O QUÊ? — , , tio Michael e me olharam de tal forma, que nem sei descrever.
— Não fale besteira, menina! — tia Audrey repreendeu minha amiga, que ficou rindo.
— Não me olhem assim, eu não estou grávida! — eles suspiraram se entreolhando.
— Mas seria legal se estivesse — olhei para — Nossos bebês cresceriam juntos.
— Tia — ela me olhou — Gravidez faz a pessoa ter pensamentos loucos?
— Geralmente, vai amadurecendo a mulher, mas eu não sei o que acontece com sua amiga.
— Parem de falar de mim como se eu não estivesse aqui — reclamou — Querem saber, vou para o meu quarto.
— Quer ir falar com ela agora ou quer comer primeiro? — tia Audrey perguntou já sabendo a minha resposta. Apontei para o quarto de e ela assentiu.

Adentrei o quarto, encontrando-a deitada na cama, comendo uma pequena barra de chocolate.

— Sei o que está pensando — ela disse.
— Ah, é? — cruzei os braços, arqueando as sobrancelhas — E no que eu estou pensando?
— Que eu devia ter me cuidado.
— O que? também se descuidou. — me sentei na cama — Mas eu não estava pensando nisso — ela parou de comer e me olhou — Amiga, tem certeza que você está grávida?
— Eu sei que parece loucura, mas sinto tudo que senti na primeira gravidez.
— Super girl — respirei fundo — Será que não é psicológico?
— Lembra quando você teve um encontro com o meu irmão? — eu assenti. — No mesmo dia, eu tive um encontro com o seu irmão, então... — ela me lançou um olhar significativo.
— Vocês... Ah, por isso ele não quis contar como foi o encontro. — assentiu — E você ficou dizendo que foi horrível, que não sabia se daria certo... Até discutimos nesse dia.
— Eu precisei me desviar do assunto — nós rimos — Mas continuando, há pouquíssimos dias eu comecei a me sentir estranha e minha mãe desconfiada, me levou à sua ginecologista e eu fiz um exame que confirmou a gravidez.
— Nossa, eu nem sei o que dizer.
— Tô com um mês, eu acho.
— Você acha? — eu ri.
— Eu ainda não entendo muito bem dessas coisas, minha mãe que tenta me explicar — ela resmungou. — Por isso eu não fui te buscar com os meninos, ela disse que seria melhor se eu ficasse, já que da última vez sofri um aborto espontâneo.
— Claro, eu entendo. Você precisa de todo cuidado. — ela concordou — Ai meu Deus, eu vou ter um sobrinho! — eu disse empolgada.
— Ou sobrinha — ela destacou sorridente — Eu confesso que ainda estou meio assustada, foi tão repentino. Parece que foi algo planejado, mas eu juro que fomos pegos de surpresa.
— Ah, eu sei disso. Vocês jamais planejariam um bebê, não agora. — ela suspirou — Mas, algumas coisas acontecem dessa forma na nossa vida, surpreendentemente.
— Tem razão — ela ajeitou o cabelo — E com o apoio da nossa família, me sinto mais aliviada.
— Eu também. Saber que meu irmão não será morto por me deixa bem aliviada. — brinquei, fazendo-a rir — Mas sério, a primeira gravidez foi um susto muito grande.
— Desta vez também foi — ela se ajeitou na cama — Mas, todos têm se esforçado pra me deixar o mais tranquila possível, inclusive a sua mãe.
— O quê? — arregalei os olhos — Como seus pais puderam permitir que aquela mulher se aproximasse de você? — indignei-me.
— Calma, parece loucura, mas ela realmente quer esse neto, ou neta. — fez careta — Ela até comprou isso — tirou da gaveta um par de sapatinhos de lã brancos, me entregando — São lindos, né?!
— Sim, são lindos — segurei os sapatinhos — Mas não se engane, amiga.
, eu entendo sua preocupação, mas percebi o quanto sua mãe gostou da notícia.
, você nunca foi ingênua — a olhei firme — Por que seria agora?
— Bem, você também nunca foi uma pessoa fria e, no entanto, está sendo — pegou os sapatinhos para guardar — Por qual razão?
— Olha, eu não quero brigar com você — respirei fundo, enquanto ouvia meu estômago roncar. — Vamos mudar de assunto.
— Vá comer algo.
— Eu gostaria de tomar um banho primeiro, me empresta uma roupa?
— Pega no meu armário — peguei a toalha e um macaquinho jeans preto com uma camiseta branca — Amei o seu cabelo.
— Foi ideia do Fishy.
— Como foi passar esse tempo com ele? — me virei para ela, que me olhou curiosa.
— Bom — ela arqueou as sobrancelhas — Meio irritante às vezes, mas ele foi tão...
— Tá apaixonada pelo Fishy?
— Ele é apaixonante — sorri ao lembrar o quanto tentava me proteger.
— E muito bonito, convenhamos. Com aqueles olhinhos puxados e toda aquela ousadia — eu assenti, rindo — Ficou dividida entre ele e meu irmão?
— Cheguei a ficar, sim — pigarreei — Mas, eu conversei com e ele me fez enxergar o quão imatura, e injusta eu estava sendo.
— Já sei que ele será um ótimo conselheiro para nossa filha — ela disse empolgada, alisando a barriga.
— Ou filho — eu ri e ela concordou. — Vou para o banho.

Caminhei, preguiçosamente, até o banheiro e tirei a roupa, me deparando com uma discreta manchinha de sangue na camisa, que mais parecia um vestido em mim.

— Isso explica a irritação exagerada nos dias anteriores. — sussurrei para mim mesma.

Tomei o banho quente e longo que eu merecia, depois de tanta informação na mente.

Olhei as pequenas gavetas do armário, procurando o que eu precisava para me manter protegida e limpa, por algum tempo. Mais uma vez, meu estômago roncou e eu me vesti mais rápido, sem demora saí do banheiro.

?! — me deparei com ele sentado na cama — O que houve?
— Só queria ficar a sós contigo — sorri, sentando-me à sua frente. — Você está bem com a prisão da sua mãe?
— Isso foi só consequência das más ações dela. — suspirei — Mas, não vamos falar disso agora, por favor.
— Ok. — ele sorriu e ficou me observando durante alguns segundos.
— Por que está me olhando assim?
— São tão raros os momentos que podemos ficar a sós, até parece mentira.
— É verdade — ele sorriu, me fazendo sorrir junto — Acho que preciso me desculpar com você.
— Não precisa, não. — disse num tom suave.
— Preciso sim, eu não estava sendo madura — respirei fundo — Fiquei tão confusa.
— Isso é normal. Eu também sou imaturo às vezes, mas a gente vai aprendendo e amadurecendo, é a vida. — ele suspirou.
— Sim, mas eu não quis te magoar.
— Eu sei. — ele forçou um sorriso — Mas, confesso que foi desconfortável ouvir você me comparando ao Fishy — engoli o seco — Até então, eu achava que você gostava do meu jeito.
— Mas eu gosto, sempre gostei. — olhei em seus olhos — E me fez lembrar o quão bem você me faz e significa para mim.
— Sim, preciso agradecer ao seu irmão. — nós rimos. me puxou para si, deslizando sua outra mão até minha nuca. — Eu gosto muito de você, . Muito mesmo. — ele encostou seus lábios nos meus, me beijando delicadamente — Senti tanto a sua falta. — confessou, enquanto acariciava o meu rosto.
— olhei assustada em direção à porta, era meu pai — Não vai descer para comer? disse que você está com fome. — perguntou num tom elevado.
— Sim, eu já vou — ele continuou nos olhando. — O que é?
— Estou esperando vocês se afastarem.
— Pai, por favor.
— Não , e pode ir à minha frente, não quero vocês tão grudados assim.
é o meu namorado, é claro que vamos nos acariciar! — eu disse num tom óbvio.
— Ele já te pediu em namoro? Porque eu acho que não. — ele ergueu uma sobrancelha e eu engoli o seco — Agora, vamos descer.

Fui andando em direção ao meu pai, quando se colocou ao meu lado, me parando. Não entendi sua reação.

— Tio — ele chamou meu pai, que parecia ainda mais impaciente quando se virou para nós — Você me permite namorar a ?
— O quê? — meu pai nos olhou, surpreso — Você está certo disso, garoto?
— Sim, eu estou. — sorriu para mim.
— desviei o olhar para — Você realmente quer isso?
— Pai, você sabe que sim.
— E então, tio? — o pressionou e meu pai o olhou de sobrancelhas erguidas.
— Tudo bem.
— Sério? — perguntei desconfiada.
— E eu tenho escolha? — meu pai resmungou.
— Finalmente — me abraçou.
— Encontro vocês lá embaixo, não demorem. — a contragosto nos deixou e eu ri do descontentamento dele.
— Eu nem acredito! — disse, me afastando um pouco para o olhar — Está mesmo certo disso?
— Como nunca estive antes. — me beijou mais uma vez — Pensei que o seu pai não iria permitir, ele ficou tão bravo quando nos viu.
— Ele vai parar de nos interromper.
— Não, não. Agora mesmo que ele vai nos interromper, seu pai faz isso de implicância — resmungou, fazendo biquinho.
— Bem, agora que somos namorados, teremos bastante tempo pra ficarmos juntos e matar a saudade. — selei nossos lábios.
— Hum, de qual forma? — ele sorriu malicioso.
— Não da que você está pensando — ele fez careta e eu ri — Vamos comer algo, eu estou mesmo com fome.

Depois de contar a novidade para todos, comemos e conversamos bastante sobre como eu passei esse tempo longe da família.

Não demorou muito para eu ir embora. Amo estar com minha família, mas também amo estar na minha casa.

Fui para o meu quarto e antes de adentrar, parei na porta e fiquei observando cada detalhe. Sempre gostei de mudar a decoração do quarto, eu fazia isso todos os anos com a ajuda de e , assim meu pai só ficava sabendo quando já estava feito. E como ele raramente entrava nos nossos quartos, fazíamos o que tínhamos vontade.

Meu irmão não era tão prestativo assim, na verdade, ele nunca foi e, nossa relação familiar também não cooperava. Confesso que eu precisava chantageá-lo; ou me ajudava, ou ficava sem se alimentar até que o quarto estivesse completamente renovado. Claro que ele não concordava inicialmente, mas sempre se rendia às minhas almôndegas, então no fim nós dois éramos beneficiados.
, ficava satisfeita apenas em ficar perto de como pagamento, então sempre era tranquilo.

— Esse ano você ainda não mudou a decoração — meu pai se aproximou da porta. — Não vai mudar?
— Como você sabe?
— Achou mesmo que eu não sabia? — dei de ombros e ele riu.
— Eu sou receosa quanto à mudanças, mas sempre gosto do que faço aqui no quarto.
— Ficando ruim ou não, quem além de nós e seus amigos, entrariam aqui para ver? — o olhei — Não se preocupe tanto com mudanças, pode ser bom de vez em quando.
— É que às vezes as pessoas são tão cruéis em seus comentários.
— Besteira, as pessoas sempre irão falar. Algumas bem, outras mal, mas sempre irão falar. — ele abanou as mãos — Você só não pode deixar isso te afetar.
— Caramba — ergui as sobrancelhas — O fala como você! — ele riu — Sério, o meu irmão lembra muito você, às vezes.
— Hum, será porque ele é meu filho? — disse brincalhão, me fazendo gargalhar — Venha me dar um abraço, senti muito sua falta e fiquei preocupadíssimo. — o abracei forte — Sua mãe quase me enlouqueceu, precisei...
— Se drogar? — me afastei para o olhar, mas ele abaixou a cabeça — Pai, com qual frequência...
— Você não precisa saber disso, — me olhou firme. — Deixe isso pra lá.
— Você tem paixão por luta e já teve a oportunidade de ser um lutador profissional, mas por conta das drogas perdeu essa chance. — ele deu um longo suspiro. — O que mais vai precisar perder?
— Eu vou parar com esse vício.
— Quando? — ele bufou — Você terá um neto. Não espere que ele cresça e te veja nesta situação, para só depois você pensar em parar.
— Chega desse assunto!
— Só quero te ajudar.
— E-eu sei, mas... — respirou fundo — Preciso sair agora. — ele beijou minha testa e saiu rápido.

Senti-me frustrada por não conseguir ajudá-lo, bem, ele nem me deu a chance de tentar, mas entendo que um vício como esse não seja fácil de se libertar, ainda mais pelo tempo de uso. São muitos anos vivendo assim, acredito que para o caso de , só reabilitação. Eu não sei bem, não entendo do assunto, mas poderia me aprofundar só para ajudá-lo.

— O que houve? — meu irmão adentrou o quarto.
— dei um leve pulo — Que susto! — ele ficou me olhando, esperando pela resposta — Nada, eu só estava pensando em mudar a decoração do quarto.
— Ah, é verdade, você ainda não fez isso nesse ano. — ele olhou ao redor — No que está pensando?
— Desta vez, eu quero trocar os móveis de lugar também, ok?
— Não — franzi a testa — Não mova o armário, ele é muito pesado. — o olhei séria — Ah, não faça essa cara, eu vou ficar quebrado pra ir trabalhar amanhã.
— Não vou fazer isso hoje, meu dia foi cheio, estou cansada!
— Mesmo quando não estiver cansada, não vou tirar o armário do lugar.
— Tudo bem, — rolei os olhos — Então, me ajude a... — suspirei.
?
— Eu gosto de como tudo está — o olhei — Porém, quero algo mais.
— E como quer que eu te ajude?
— Faça um desenho que represente a nossa família — ele ergueu as sobrancelhas — Isso incluiu...
— Tio Michael, tia Audrey, , e nosso filho, eu sei. — concordei com a cabeça — Mas, eu não faço ideia do que desenhar.
, você é criativo, pense em algo — ele cruzou os braços, arqueando uma sobrancelha — Por favor!
— Tá bem — sorri largamente. — Amanhã eu tento desenhar algo, no trabalho.
— Obrigada. — ele assentiu — Caramba, hoje foi o dia.
— Pois é, nossa mãe sendo presa, você descobrindo que terá um sobrinho...
— Nosso pai saindo pra se drogar.
— Mas isso não é novidade! — o olhei séria — Foi mal, desculpa.
— Eu só queria ajudá-lo.
não quer ser ajudado, pelo menos por enquanto, então tenha paciência. — assenti — Já reparei que ele não deixa você e ficarem a sós por muito tempo.
— Sim, ele sempre nos interrompe, fica o tempo todo perguntando o que estamos fazendo — suspirei — Mal conseguimos nos beijar.
— Já com o Fishy, você não perdeu tempo.
— Yah, esqueça isso! — bufei.
— Tudo bem — riu debochado — Como se sente agora que é oficialmente namorada do ?
— Sinto que eu não devia ter me importado tanto com isso, como fiz antes, mas o sentimento é muito bom, agora — assentiu — Nossa, é demais saber que ele gosta de mim a ponto de querer assumir isso ao resto do mundo. — suspirei — Mas, me conte como foi descobrir que você será pai?
— Um susto enorme! — ele arregalou os olhos, sem perceber — A primeira coisa que pensei foi em não perder esse bebê também, porque essas coisas acontecem muito com as mulheres.
— Desta vez, nós iremos cuidar para que nada de ruim aconteça à , assim ela terá uma gravidez saudável. — segurei em seu ombro — Não vai acontecer de novo, relaxa.
— Agradeço o apoio. — ele forçou um sorriso — Só quero que essa criança seja saudável, eu já a amo tanto. — eu me emocionei com a forma que meu irmão estava se expressando, nunca foi tão sentimental. — Queria tanto que nossa mãe pudesse acompanhar esse momento com a gente.
— Eu não. — ele me olhou espantado. — E dou graças a Deus por ela estar presa neste exato momento.
?!
— Estou pensando na segurança de todos, e principalmente, do bebê. — disse convicta — Não é bom que ele tenha contato com uma mulher como a nossa mãe.
— Nunca mais diga isso! — ele já ia saindo do quarto.
, eu não quis... — bateu a porta do quarto, antes mesmo de eu terminar — Te magoar. — bufei — Droga!

À noite foi se aproximando e eu fiquei arrumando as minhas coisas da escola, teria que repor todas as faltas e notas, de alguma forma, mas só de pensar já me batia o cansaço.

Pendurei minha mochila na parede e vesti minhas roupas de dormir.

— Ei, moça linda! — olhei na direção da janela e lá estava , adentrando o meu quarto — Que foi?
— Você viu eu me trocar?
— Ah, dessa vez eu não tive sorte, fique tranquila — ergui as sobrancelhas — Quem sabe na próxima...
— Yah, seu pervertido! — dei umas tapas nele.
— Calma, só estou brincando, você sabe o quanto eu te respeito!
— Sim, eu sei, estava brincando. — o abracei — O que te traz aqui, a essa hora da noite?
— Não gostou?
— Eu não disse isso, só estou surpresa. — ele sorriu — Mas gostei sim.
— Eu só queria passar um tempo com você, e aqui no seu quarto é menos agitado que o da — nós rimos um pouco — Podemos conversar com mais calma.
— Só não sei por quanto tempo, daqui a pouco meu pai aparece aqui.
— Acho que não, tio está com meu pai na delegacia — franzi o cenho, estava confusa — O delegado Hopper precisa do depoimento deles para inocentar Fishy. — assenti, ainda estranhando — E está lá em casa.
— Meu irmão está chateado comigo.
— Ele nos contou e por isso minha mãe ficou coversando com ele e . — suspirei, assentindo — Eu aproveitei a distração deles para escapar e vir aqui. — nós rimos um pouco — Depois de tudo que aconteceu, não quero te deixar sozinha.
— Não se preocupe tanto, a minha mãe já está presa. — eu o puxei para nos sentarmos na cama.
— Mas Fishy não. — respirei fundo tentando me preparar para os ciúmes de — Eu o invejei tanto por estar com você... Só com você, durante esse tempo todo.
— Primeiro: foi por apenas um mês. Segundo: não fale como se tivéssemos ido para uma viagem de férias, a situação não foi nada agradável. Terceiro: a dramática aqui sou eu. — segurei em sua mão — , tudo que Fishy fez foi me ajudar, me proteger. E eu preciso ser grata a ele por isso.
— Se você diz. — sussurrou cabisbaixo.
— Não fique assim — ergui seu rosto, o olhando nos olhos — É de você que eu gosto, de verdade. — ele sorriu de lado. — Além do mais, teremos todo tempo do mundo para aproveitarmos a companhia um do outro.
— Que tal começarmos agora?! — envolveu-me em seus braços e beijou-me delicadamente. — É incrível.
— O que? — sussurrei em meio ao beijo, mas ele parou para me olhar.
— O sentimento que tenho por você cresce a cada dia, eu nem consigo mais pensar no meu futuro sem que você esteja nele.
— Você quer me fazer chorar? — ele riu fraco.
— Só se for de alegria — sorri largamente — Porque a minha intenção é te fazer feliz até o fim dos meus dias.
— Nossa! Você fala como se estivéssemos prestes a nos casar. — eu ri de nervoso.
— Você quer — arregalei meus olhos — Casar comigo?
— Você — ele me olhou atentamente — Ficou maluco? — começou a gargalhar, me deixando confusa e um pouco irritada.
— Eu só estou brincando com você! Nossa, devia ter visto a sua cara — ele fez uma careta e continuou rindo, me deixando ainda mais irritada. — Ah, não fique brava. — selou nossos lábios.
— Eu não estou — menti forçando um sorriso.
— Tenho algo para você — ele retirou um embrulho do bolso do casaco — Fiz para te entregar no seu aniversário, mas isso não foi possível. De qualquer forma, espero que você goste. — me entregou.
— Não precisava se incomodar — ele deu de ombros, sorrindo. Retirei a embalagem do objeto e me deparei com uma caixa de madeira escura, no formato de um livro antigo. Quando a abri, havia duas páginas amareladas, uma contendo a minha imagem, delicadamente pintada, e outra com notas musicais. Na pintura, eu soprava as notas musicais, que iam voando ao céu, como se faz com as bolhas de sabão. Fiquei maravilhada e grata em como pensou em cada detalhe de sua obra.
— Você gostou? — perguntou esperançoso, porém um tanto receoso.
— Eu amei! — respondi animada e o abracei forte. — Muito obrigada.
— Fico muito feliz que tenha gostado — afastei-me um pouco para admirar seu sorriso satisfatório — Sei o quanto você gosta de coisas simples, decorações de madeira, livros, música... Enfim, tentei juntar tudo e acho que deu certo.
— Deu muito certo! — olhei mais uma vez para a caixa, logo desviando o meu olhar para ele. — Muito obrigada mesmo, esse é o presente mais lindo e significante que já recebi, não tenho como expressar o quanto amei. — o abracei novamente — Estou sem palavras, você é maravilhoso!
— Você é ainda mais! — sorri involuntariamente ao ouvir suas palavras — Não quero ser chato, adoraria ficar mais com você, porém você precisa voltar à escola amanhã e eu preciso manter o meu emprego.
— Está gostando mesmo do trabalho.
— Vez ou outra, os caras deixam eu e fazermos alguns rabiscos, como os mesmos chamam. Contudo é dureza, criticam tudo que desenhamos, mas acredito que, de alguma forma, isso tem nos ajudado. — ergui as sobrancelhas levemente — Estamos aprendendo a dar mais atenção aos mínimos detalhes, linhas retas, precisão, desenhos bem projetados, não errar na tinta...
— Fico muito feliz por vocês, de verdade. — disse sincera — Sei que você sempre fez esse trabalho utilizando a madeira e o desenho, mas nunca levou a sério. — concordou — Meu irmão também sempre desenhou, mas até escondia suas artes da gente. — ri fraco. — Aproveite esse aprendizado, você terá um retorno positivo no futuro, também.
— Sim, você tem razão. — ele sorriu — Agora preciso ir. — se levantou, caminhando até a janela. Fiz o mesmo.
— Bom trabalho amanhã — selei nossos lábios. — Boa noite.
— Durma bem e tenha uma ótima aula amanhã.
— Tenha cuidado na rua. — depositou um beijo na minha testa e saiu pela janela.

Guardei meu presente dentro do armário com o maior cuidado e carinho possível, e corri para fechar a janela.

Não estava sentindo fome, mas sono. Apaguei todas as luzes e me joguei na cama, desmaiando de sono.


[Capítulo Vinte e Três]

? — acordei assustada e confusa.
— O que houve? — me chacoalhava.
— Está atrasada! — lembrei que da aula e dei um pulo da cama — Da próxima vez, eu vou te deixar perder um dia de aula. — ele saiu do quarto, pelo seu tom de voz, ainda estava bravo comigo.

Troquei minha roupa de dormir pelo uniforme da escola e corri para o banheiro.
Peguei minha mochila e saí do quarto, gritando pelo meu irmão.

— Você sabe que horas são pra estar gritando desse jeito? — saiu do seu quarto, todo arrumado.
— Você precisa mesmo trabalhar nesses trajes? — perguntei, o observando arrumar a gravata.
— Se eu quiser manter meu emprego, sim. — ele disse num tom óbvio e eu dei de ombros. — Por que ainda está parada aí? Vá tomar o seu café da manhã.
— Não vou comer, estou atrasada.
— Desça e faça o seu desjejum, agora — disse firme — Não mandei você ir dormir tarde ontem. — fui para a cozinha, encontrando devorando o bolo de laranja.
— Vai me levar de carro para a escola? — me sentei à mesa.
— Não, te leva na bicicleta dele. — meu pai disse, enquanto passava o requeijão no pão.
— Minha bicicleta tá ruim, eu ia mesmo te pedir uma carona. — bufou — Vai nos levar?
— Sim, só porque estão atrasados.
— Na verdade, só a tá atrasada.
— Então você vai a pé.
— Mas assim eu vou me atrasar — meu irmão se indignou e eu ri.
— olhei para — Já que está rindo de , vai a pé com ele. — parei de rir no mesmo instante.
— Isso não é justo, eu realmente estou atrasada, droga!
— Cuidado como fala! — levantei-me e peguei minha mochila, correndo até a saída de casa. Peguei o celular e liguei para .
Oi, super girl.
— Vai pra escola hoje?
Já to na escola, vim com — bufei, perdendo a esperança — O que aconteceu?
— Não vou conseguir chegar a tempo de assistir a primeira aula. — respirei fundo — Mas tudo bem, eu copio do seu caderno depois.
Tá, preciso ir pra sala agora.
— Ok, tchau. — finalizei a chamada e vi meu pai saindo da garagem.
, entre no carro. — disse.
— Mas você...
— Entre logo! — meu irmão ordenou impaciente. Entrei rapidamente, precisava da carona.

Cheguei à escola já correndo pelos corredores, mas fui parada pelo inspetor Meia-Noite. Bati na minha própria testa, bufando.

— Olha, me desculpe, sei que não posso ficar correndo pelo colégio — ele assentiu de braços cruzados e olhar firme. — Mas me quebra essa, eu não posso mais faltar e já estou atrasada.
— Tudo bem — arquiei as sobrancelhas, incrédula, o fazendo rir — Senti falta de você correndo por esses corredores — sorri junto, mas ele parou de rir na hora — Não nos assuste mais assim, menina!
— Okay.
— Quer se atrasar mais? — neguei com a cabeça — Vá logo para a sala!

Não esperei por mais nada, apenas corri como se não houvesse amanhã e invadi a sala.

?! — professora Frida me olhou assustada — Está tudo bem?
— Agora sim. — sorri.
— Ficamos todos muito preocupados. — ela me abraçou.
— Eu não fiquei — ouvi Simon dizer.
— Muito menos eu — Halston concordou e suas amigas me olharam com desdém. — Seu cabelo está horrível!
— Egoístas como são, não poderiam mesmo pensar em outro alguém, além de si mesmos. — senhora Frida disse em minha defesa e foi a primeira a rir. — Eu amei o seu cabelo! Se ainda fosse jovem, faria igual. — ri de sua empolgação — Falando sério agora, você terá muitos trabalhos pela frente para recuperar nota e frequência, mas tenho certeza que sua amiga irá te ajudar.
— Tô aqui pra isso — disse, me fazendo rir.
— Agora todos prestem atenção na revisão — me sentei ao lado da minha amiga — Vocês terão prova daqui a duas semanas, então não brinquem em serviço. — assenti tranquilamente, mas minha vontade era de chorar.

Depois da aula de física, tivemos geografia e finalmente, o intervalo.
— Eu não aguento mais tanta matéria. — disse chorosa, enquanto lavava o meu rosto na pia do banheiro.
— Esse mês que você ficou ausente foi como uma chuva de exercícios e pesquisas — disse desanimada, enquanto saía de um dos sanitários — Eu não quero te assustar, mas você vai ter muito trabalho pela frente.
— Eu sei — suspirei — Mas farei o que for necessário para ser aprovada nos exames finais.
— Eu te ajudo.
— Não, nada de estresse para você e o bebê. — alisei sua barriga.
— Amiga, sei que está querendo nos proteger, mas não estou doente, apenas grávida.
— Então você está grávida? De novo? — Halston surgiu no banheiro, parecia preocupada.
— Isso é problema seu? — perguntou um tanto irritada.
— Se o Drew for o pai, sim, o problema também é meu.
— O que quer dizer? — ela hesitou em responder. — Deixa pra lá, de qualquer forma, isso não nos interessa.
— Vocês sabem que eu saía com o Drew antes o envolvimento dele com , quando ele decidiu parar de me ver, eu comecei a desconfiar que de gravidez — ela respirou fundo. — Ontem eu tive a confirmação.
— Por que você está contando isso pra gente? Cadê suas amigas? — estava tão confusa quanto eu.
— Quais amigas? — ela nos olhou — Essas interesseiras que me seguem não são minhas amigas.
— Pelo tempo, você deve estar com 2 ou 3 meses, não desconfiava?
— Sim, mas tinha medo de ter a confirmação — ela abaixou a cabeça. — Mas agora tenho uma solução para isso, vou abortar. — engoli o seco.
— Alguém mais sabe dessa gravidez? — perguntou preocupada, mas Halston negou com a cabeça.
— Vocês são as primeiras pessoas para qual eu contei.
— Você precisa contar ao Drew. — eu disse receosa por sua reação.
— Não posso fazer isso — Halston disse aflita — Não quero que ele pense que essa gravidez é só para prendê-lo a mim.
— Mas ele é o pai dessa criança, você não pode tomar uma decisão assim, sem antes falar com ele. — estava se envolvendo demais, e isso estava me preocupando. — Drew é uma ótima pessoa, jamais negaria essa criança.
— Os meus pais nunca aceitarão — ela desatou a chorar.
— É nesse momento que entra o Drew pra te apoiar. — falei, me aproximando dela — Por favor, não tome nenhuma decisão precipitada, pelo menos desta vez, não seja egoísta.
— Por que se importa?
— Estava demorando — se irritou.
— Só não gostaria que você se arrependesse quando já for tarde, essa decisão é para sempre e traz consequências.
— Eu preciso pensar — ela ia saindo um tanto atordoada, mas parou na porta — ...
— O pai do meu filho é o , meu namorado e irmão da .
— Que alívio! — ela suspirou, enxugando as lágrimas. — Agradeço pelas palavras, tentarei fazer a coisa certa desta vez. — Halston saiu sem nos dar tempo de resposta.
— Está tudo bem? — parecia enjoada.
— Sim, foi só uma tontura, já passou. — ela lavou o rosto — Acho que me envolvi demais no problema da Halston, mas eu só tentei ajudar. Perder um bebê é algo triste demais!
— Acho que é o seu instinto materno florescendo. — ela me olhou sorrindo.
— Vamos, ainda temos mais matérias pela frente.

As aulas terminaram, e eu estava acompanhando até sua casa, seus enjoos repentinos me preocupavam.
— Parece que as coisas mais loucas só acontecem com a gente — eu disse a .
— Ainda mais na escola. — ela concordou — Sempre há alguma treta.
— E sempre estamos no meio. — nós rimos — O que de mais louco poderia nos acontecer hoje?

Na esquina da casa da , passou o carro da cocada, o homem que anunciava os tipos e preços do produto, estava vestido de gorila, e parou o anúncio para dar suas cantadas. Eu e entreolhamos-nos, rindo e quando olhamos para trás, lá estava ele nos mandando beijos no ar.

— Não acredito que vi isso! — eu disse, rindo alto.
— Super girl, nem eu! — adentramos a casa, gargalhando forte.
— Do que tanto vocês estão rindo, hein? — tia Audrey desceu as escadas indo para a cozinha.
— Mãe, você não vai acreditar... — a seguiu.
— Está livre hoje à noite? — perguntou, me assustando — Calma — ele riu, enquanto me abraçava.
— Eu não estarei livre nos próximos dias — ele franziu o cenho — Tenho muitos trabalhos escolares para fazer.
— Eu entendo. — assenti — Mas já que estamos aqui — ele envolveu seus braços em minha cintura e nos beijamos.
— Os pombinhos já estão grudados?! — tia Audrey se aproximou — Ah , estou tão feliz que tenha assumido de vez que gosta de você! — ela segurou em minhas mãos — Amo você como filha e não poderia estar mais satisfeita com a escolha do meu filho.
— Mãe, é estranho você falar assim, porque parece que eles são irmãos.
— Menina, me deixe falar o que eu quiser — levantou os braços em rendição e eu apenas ri. — Quero que saiba que não importa o que aconteça, eu sempre estarei aqui com meu amor de mãe para você.
— Obrigada, tia Audrey — a abracei forte — Eu sempre te considerei como uma mãe para mim, e agora mais ainda — sorri olhando para — E agradeço por toda ajuda que sempre me deu.
— A mãe é minha, hein — disse, demonstrando ciúme.
— A mãe é nossa! — afirmei e ela ergueu as sobrancelhas — Agora eu preciso ir, só vim mesmo trazer a .
— Não quer almoçar com a gente?
— Terei que recusar, eu preciso aprontar o almoço para o meu irmão.
— Você nem faz isso — fiz careta para e, no mesmo instante, surgiu na sala. — Agora você não tem mais desculpa.
— Todos para a mesa, agora! — tia Audrey nos ordenou.

Nosso almoço foi um pouco mais demorado que o normal, mas divertido como sempre. Os meninos voltaram ao trabalho e eu fui para casa.

Três semanas se passaram, e eu precisei ficar em recuperação na escola junto com os alunos menos interessados, incluindo Simon, enquanto os outros estavam aproveitando as férias, incluindo .
Errei quase todas as questões na prova de física, fora as outras matérias que também fui mal. Eu precisava repor as notas.

— Professor Ramal, com licença — olhei para a porta indignada por estarem atrapalhando a minha concentração, era diretora Dinah — Eu preciso que a aluna vá até a minha sala.
— Claro. Pode ir, .
— Mas eu estou terminando o exer...
— Agora — elevou o tom de voz — É importante! — ela deu as costas, saindo da porta.
— Ok, agente Lisbon. — sussurrei.
— Hum, parece que hoje ela está brava — professor Ramal disse, sorrindo debochado — Tome cuidado! — forcei um sorriso e arrumei meu material.

Fui à direção e me surpreendi ao ver meu pai sentado em uma das cadeiras, já conversando com a diretora, aos risos.

— Oh , sente-se — diretora Dinah pediu e assim fiz — Seu pai é muito divertido! — franzi o cenho, estranhando o comentário — Bem, eu já conversei com o senhor e...
— Ah, por favor, me chame apenas de — eles sorriram um para o outro e eu estranhei mais ainda.
— Já conversei com — ela o olhou de relance — Sobre a sua situação e o deixei a par de tudo. Seu pai também me explicou tudo que aconteceu com você e eu sinto de verdade por isso, sempre gostei muito de você e , desejo o melhor as duas e aos outros alunos, apesar das suas diferenças. — assenti — O que posso fazer para te ajudar, como eu já disse ao seu pai, é conversar com seus professores e pedir para que te deem trabalhos extras para reposição de nota e frequência.
— Agradeço — disse preocupada.
— Algo te preocupa? — ela perguntou desconfiada.
— São muitas matérias e eu estou com dificuldade em todas elas, e agora com mais trabalhos, não tenho certeza se vou conseguir. — eu disse sincera.
— Eu entendo — ela pensou um pouco — Acho que posso pedir para os professores pegarem leve, mas não tenho como garantir nada. De qualquer forma, os professores Nathaniel e Ramal não irão te prejudicar.
— Saber disso já me alivia um pouco.
— Esses professores estão prejudicando a minha filha? — meu pai ergueu uma das sobrancelhas.
— Pai — o olhei — Eu e somos meio... — tentei encontrar o termo certo.
— Faladeiras — diretora Dinah me ajudou, temendo pela reação de .
— E isso irrita alguns professores. — eu disse.
— Mas nada que eu não possa resolver — respirei fundo, meu pai parecia ter se acalmado — Bem, é só isso, qualquer coisa estamos à disposição.
— Agradeço a ajuda que está dando a minha filha.
— Esse é o meu trabalho — diretora Dinah estava me preocupando com seus sorrisos largos para o meu pai — , você já pode ir com seu pai, eu e os professores teremos uma reunião agora.

Chegando à casa, tomei um banho rápido e abri o caderno, mais uma pesquisa a ser feita. Peguei meu notebook e comecei o trabalho de biologia. Não demorei tanto desta vez, mas minhas mãos estavam doendo.
Recebi uma mensagem de pedindo para eu ir ao trabalho dele, peguei minha bicicleta que estava no conserto e fui ao estúdio.

— eu guardei a bicicleta na entrada e me aproximei do balcão — Me dê um bom motivo pra ter me feito vir aqui agora.
— Chegou mais cedo do colégio? — ele olhou para o relógio.
— Sim, e aproveitei para adiantar uma pesquisa de biologia. — olhei ao meu redor, reparando no estúdio.
— Te atrapalhei? — perguntou, enquanto colocava uma pasta de desenhos no balcão — Foi mal.
— Não, eu já tinha terminado.
— Onde está ? — reparei nos desenhos que ele separava
— Ele deu uma saída.
, por que você...
— Fiz o desenho — ele pôs sobre a mesa e eu analisei. — Duas luvas de boxe para representar , papel com um lápis em cima pra me representar, notas musicais pra te representar, olhos revirados pra representar . — ri alto ao ouvir , não teria nada melhor que olhos revirados pra representá-la. — Fiz também um coração de madeira sendo pintado por um pincel pra representar o , colar de pérolas pra representar tia Audrey, blazer pra representar tio Michael, sapatinhos pra representar o bebê e...
— Amei! Ficou tudo lindo — sorri satisfeita — Mas para que essa algema no desenho? — ele engoliu o seco — ?!
— Pra representar a nossa mãe. — fiquei séria na mesma hora — , querendo ou não, ela faz parte da nossa família.
— Eu nem sei o que dizer agora, sinceramente — respirei fundo — Você estragou um desenho lindo.
— eu olhei para trás, era — Eu trouxe algo para você. — ele mostrou uma caixinha de madeira vermelha.
— Eu temo que seja o que estou imaginando — ele olhou para o meu irmão e eu abri a caixinha, encontrando uma pulseira prateada com as representações de de nós penduradas, como pingentes. Suspirei forte ao ver a algema — , você concordou com isso?
— Aquela mulher nunca irá deixar de ser sua mãe! — ele afirmou, me fazendo bufar.
— Jogue isso tudo fora e... Querem saber, não vou brigar com vocês por causa dela. — fui caminhando até entrada do estúdio, para pegar minha bicicleta, saindo esbarrei em um homem.
— Ei, calma bebê! — engoli o seco — Tá assustada?
— Desculpe! — ele sorriu de lado, ainda me segurando — Pode me soltar?
— Até posso — ele se aproximou mais — Mas não quero.
— Chris, solta ela! — meu irmão apareceu na entrada do estúdio com , que bufava. — Não vou falar de novo.
— Qual foi, ? — ele me olhou novamente — Deixa eu me divertir. — o homem aproximou sua boca da minha nuca, mas o empurrou, fazendo-o cair no chão. — Então o frangalho quer briga?! — ele se levantou.
— Vai ser babaca assim com a sua... — meu irmão já se juntava ao .
— Deixa para lá, ! — tentei segurá-lo, sem sucesso — — virei seu rosto para mim — Não vale a pena!
— Ele te desrespeitou — disse indignado, conseguia ver a raiva em seus olhos — Não vou deixar isso impune, não desta vez! — ele socou o rosto do homem, que o golpeou na costela e a briga continuou.

Antes que fizesse o mesmo, outro homem surgiu, o segurando.

— Chega! — ele gritou — , entre agora e leve a sua irmã contigo. — ele separou do outro homem. Meu irmão me puxou, levando-me para a sala de tralhas.
— ele resmungou — Desculpa.
— Não foi culpa sua, aquele cara é um safado! — disse nervoso — Chris já deu em cima da também, mas eu o alertei, não quis ouvir.

apareceu na sala, sendo imobilizado pelo chefe deles e o outro homem veio atrás.

— Até quando vai ser assim? — ele largou .
— Nava, você me conhece o suficiente pra saber que...
— Foi você quem começou a confusão, Chris. — o chefe disse firme — Essa menina é irmã do e namorada do .
— E daí? — ele piscou para mim e avançou em cima dele, mas foi novamente imobilizado. — Só por isso não podemos nos divertir?
— Aprenda a respeitar mulheres, babaca! — deu uma sequência de socos nele, fazendo-o desmaiar.
— Droga, — o chefe soltou para socorrer Chris — Assim você só piora as coisas.
— Desculpa Nava, não consegui controlar a raiva desta vez.
— Tudo bem, Chris mereceu — suspirou — Eu no lugar de vocês teria feito o mesmo, ou até pior. — Nava suspendeu Chris — Vou levar esse idiota do meu primo pra casa, vejo vocês amanhã. — ele saiu com o outro nas costas.
— Está tudo bem? — acariciou meu rosto.
— Sim, obrigada — o abracei. — Vamos sair daqui?
— Agora! — respondeu já se retirando.

Chegamos à casa, explicou toda situação ao meu pai e eu fui para o meu quarto. Tomei um banho quente e bem demorado. Vesti minha calça jeans velha e meu moletom, junto com a meia, estava frio.
Desci, encontrando já de banho tomado, na sala de jantar, ao lado do meu pai.

— Só estávamos esperando por você. — meu pai disse, se servindo.
Terminamos o jantar e recebeu uma ligação, olhei confusa para que deu de ombros.
— A mãe de vocês vai ser transferida ao leito, está com transtornos mentais graves. — ele se levantou — Quero acompanhar isso, vocês vêm?
— Sim — se levantou, seguindo meu pai.
— Eu também vou. — disse quase num sussurro e os segui.
— Ligue para o Michael, ele vai querer ir também. — meu pai disse a , enquanto tirava o carro da garagem.

Fomos durante todo caminho calados, acredito que se passaram mil coisas na mente deles, assim como na minha.
Chegamos à delegacia, e tio Michael entraram e nós aguardamos ao lado de fora, durante um bom tempo.

— Olhe, ela está vindo. — disse, me apertando no abraço.

Pareceu que, de repente, tudo ficou em câmera lenta quando minha mãe ia saindo algemada acompanhada de dois policiais, com e tio Michael à frente.

— Você vai pagar por tudo que me fez! — disse a meu pai.

Um barulho estrondoso foi ouvido por todos, e no momento de distração, mesmo algemada minha mãe puxou do coldre a arma do policial.

— Morra desgraçado! — ela atirou na direção de .

Os policiais a desarmaram e a equipe médica se aproximou, foi então que percebi o desespero no olhar da minha mãe. Não entendia o que ela estava gritando, só via ela se debatendo nos braços dos policiais.

Olhei para o meu pai e senti alívio ao vê-lo bem, mas não entendia a sua expressão de desespero ao olhar para o chão, até eu direcionar os meus olhos para o mesmo local e me deparar com meu irmão; estirado em um mar de sangue que jorrava de seu próprio corpo, sendo socorrido ali mesmo pela aglomeração de paramédicos que tentavam mantê-lo acordado.

me olhava como se estivesse pedindo ajuda, tentava dizer algo, porém tudo que saía de sua boca era sangue. Ele ergueu uma de suas mãos como despedida e meu coração acelerou ainda mais. Contudo, o meu total desespero e descontrole se iniciou quando, de repente, seus olhos se fecharam e não mais se abriram.


[Capítulo Vinte e Quatro]

— Eu ainda não acredito que isto esteja acontecendo — eu disse em um tom baixo, quando vi adentrando a nossa casa, acompanhado de , que empurrava a cadeira de rodas que o meu irmão usaria para o resto de sua vida.
— Pare de falar nisso e sorria para ele — disse, enquanto balançava um balão azul e acenava para , que parecia meio desconcertado. — Ele precisa de forças e não de dó. — ela foi a primeira a dar um abraço nele, o deixando mais à vontade com o clima festivo.
— Estão dando uma festa pra mim? — ele perguntou, surpreso.
— Para comemorar a volta do nosso filho para casa. — tia Audrey se aproximou dele, o abraçando com cuidado. Parecia estar com medo de machucá-lo.
— É um alívio saber que você está bem. — tio Michael apertou a mão do meu irmão.
— Vai ser difícil andar de bicicleta agora, hein irmão. — brincou, me fazendo dar uma tapa nele. — Ai! — ele reclamou, enquanto alisava seu braço e empurrou as rodas da cadeira, se aproximando de mim.
, tá tudo bem. — ele segurou minha mão e eu desviei o meu olhar em direção a escada. Não queria chorar na frente dele, mas vê-lo assim corta o meu coração. — Não é como se a gente não soubesse que eu vou precisar de me carregando na garupa da bicicleta dele.
— Eu não sabia dessa parte, não hein. — meu namorado reclamou, me fazendo rir fraco e eu finalmente tomei coragem de olhar para o meu irmão, não conseguindo mais segurar as lágrimas.
— Por que você tá chorando? — ele franziu a testa, me puxando para um abraço. O abraço mais demorado que já demos, em toda a nossa vida. — Não fique assim, eu tô bem, .
— É isso que importa pra mim, você estar bem — suspirei, tentando me recompor e me afastei dele, secando minhas lágrimas. me abraçou de lado e tia Audrey deu um passo à frente.
— Sei que estamos todos muito emotivos, mas vamos comer a torta de morango que eu fiz com tanto carinho para o meu filho.
— Obrigado, mãe. — disse brincalhão, indo abraçar a mãe.
— Sai bastardo, eu estou falando de ! — tia Audrey deu uma tapa na mão do meu namorado e foi para a cozinha, deixando os outros dando altas gargalhadas na sala. logo foi atrás da mãe.
— Parece que o seu namorado tá meio carente. — comentou , enquanto víamos meu pai e tio Michael ainda rindo de , que tentava se defender.
— Ele tá assim há dias.
— Já sei o que aconteceu. — eu o olhei, confusa — Você se afundou em tristeza e deixou de lado. — quando eu ia responder, ele me deu uma resposta — Isso não foi nada legal, hein.
— Eu não o deixei de lado, só precisei de um tempo pra mim. — meu irmão ergueu as sobrancelhas e eu suspirei — Eu estava muito pilhada, mas não queria descontar isso em .
— Então diga isso a ele. — meu irmão me deixou sozinha, indo para a cozinha.

Fiquei observando conversando com e tio Michael, tão alegre e gentil, sensível e dono de um sorriso lindo.

— Se babar mais um pouco serei obrigada a tirar uma fralda do meu bebê pra te dar. — surgiu ao meu lado, me dando um leve susto — Que bonitinho você o olhando toda apaixonadinha.
— Cala a boca! — eu dei uma tapa em sua perna e ela riu fraco — E sim, eu tô completamente apaixonada pelo seu irmão.
— Que bom ouvir isso — ele disse, sorrindo abobalhado — Porque eu também me sinto assim em relação a você.
— Ih, já vi que tô sobrando, tchau. — rolou os olhos e retornou para a cozinha.
— Eu quero conversar com você — ele já ia puxar um banquinho para se sentar ao meu lado — A sós, . Vamos para o meu quarto.
— Para onde vocês pensam que estão indo? — meu pai perguntou, nos olhando torto.
— Para o meu quarto, pai. — eu respondi óbvia e ele bufou.
— Deixe os meninos, . Você sabe que eles são os mais ajuizados! — tio Michael falou, bebendo um pouco de suco e meu pai deu de ombros, dando uma grande golada em sua bebida. No fundo, ele sabe que é verdade.

Eu subi, puxando meu namorado pela mão e adentramos o quarto, que ainda estava escuro. acendeu a luz e logo se encarregou de fechar a porta, eu apenas abri a janela para o vento fresco circular pelo quarto e sentei-me em minha cama.

— Eu nem acredito que o seu pai nos deixou subir. — ele disse aliviado, se sentando à minha frente.
— Pois é, nem eu. — nós rimos um pouco e eu me ajeitei na cama, pigarreando. — Bem, o que eu tenho a te dizer é que eu sinto muito por ter me afastado de você nesse tempo em que o meu irmão esteve no hospital.
— Eu só queria te apoiar, te dar forças.
— Eu sei — ele assentiu, concordando — Mas eu precisava de um tempo só pra mim.
— Era só você ter falado, . Não precisava ficar me evitando. — ele disse um pouco magoado e eu segurei em suas mãos — Mas eu sabia o que você queria, então eu te dei esse espaço.
— Sim, você foi maravilhoso comigo, como sempre. — ele forçou um sorriso e eu selei nossos lábios — Eu não quero que você continue pensando o que eu sei que tá pensando. — tentou se explicar, porém eu fui mais rápida — Você é a pessoa mais especial que eu conheço e eu gosto tanto de você, que nem consigo pensar em meu futuro sem que você esteja nele. E eu sei que você pensa que eu não gosto de você o suficiente, mas não é verdade.
— Tudo bem. — disse num tom não convincente.
— Ei, eu falo sério. — segurei em seu rosto, o olhando nos olhos e ele fez o mesmo — Sei que eu nunca te disse isso, mas eu te amo, de verdade. — confessei, percebendo a sua emoção.
— Eu também te amo, . — ele sorriu largamente e com lágrimas contidas em seus olhos, me beijou de forma doce e apaixonada.

Os minutos foram se passando e nós aprofundamos o beijo, que começou a tomar uma intensidade maior e eu já sentia o meu corpo inteiro pulsar. Nossos corpos se juntaram, rapidamente e logo fomos escorregando pela cama, eu já não tinha mais noção de nada fora do meu quarto. acariciava a minha pele e eu me arrepiava mais a cada toque que recebia dele, sentindo a respiração ficar falha, era uma mistura de sentimentos. Uma mistura boa de sentimentos.
Ele parou o beijo e se afastou um pouco, ficou me observando durante alguns segundos, sem dizer absolutamente nada, apenas acariciava o meu rosto como se estivesse memorizando cada parte dele e fixou seu olhar no meu. O olhar que eu acho tão charmoso e sedutor, o mesmo olhar que consegue falar coisas que talvez jamais teria coragem de dizer, mas que pelo olhar conseguia. Ah, que olhar!
Sorri ao parar para pensar no quão sortuda eu sou por tê-lo em minha vida e ele fez o mesmo, talvez pelo mesmo motivo, ou não. Mas ele sorriu de um jeito fofo, abobalhado e eu o puxei para um abraço.

— Obrigada — eu sussurrei em seu ouvido, o vendo se arrepiar no mesmo instante.
— Pelo que? — ele sussurrou de volta, me causando o mesmo efeito.
— Por existir, por estar em minha vida, por ser você — eu suspirei mais forte. — Por tudo.
— Eu que te agradeço, apenas por ser a , só por este fato eu já te amo. Mas então, você além de ser uma pessoa incrível, resolve me amar — ele riu fraco, me fazendo sorrir e levantou a sua face, me olhando nos olhos, novamente — Eu devo ser o cara mais sortudo desse mundo. — aproximou os seus lábios dos meus e prestes a me beijar, ouvimos algumas batidas impacientes na porta. — Estava bom demais para ser verdade.
— Ah, não reclame, foi o maior tempo que já ficamos juntinhos assim, em paz.
— É verdade — ele concordou, me beijando rápido.
, é melhor abrir logo esta porta, antes que eu a coloque abaixo. — ouvimos a voz do meu pai, parecia nervoso, como sempre.

Empurrei de cima de mim e levantei-me num pulo, ajeitando a minha roupa e o meu cabelo, por mais que não tivesse acontecido nada demais, o meu pai é muito encucado com as coisas. Aposto que já estava pensando o pior.
Fiz sinal para o meu namorado arrumar a cama e se sentar normalmente, e assim ele fez. Respirei fundo e abri a porta, me deparando com um bem irritado.

— Que foi, pai?
— Por que demorou tanto para abrir a porta?
— Sabe o que é, tio
, eu perguntei pra ela — meu pai disse firme, sem tirar os olhos de mim.
— Nós estávamos conversando sobre o tempo em que ficou no hospital.
— E precisa trancar a porta pra conversar?
— Sim, eu não queria que fôssemos interrompidos, mas não deu muito certo. — eu disse simples e ele respirou fundo.
— Tudo bem, desculpa.
— O que? Não entendi. — me fiz de desentendida.
— Vai mesmo me fazer repetir? — eu dei de ombros, quase rindo da situação e ele bufou. — Desculpa, tá ok?!
— Tá bom.
— Agora, gostaríamos que vocês descessem para passarmos um tempo em conjunto. Seu irmão tá bem e feliz de ver todos reunidos, vamos lá ficar com ele e alegrá-lo ainda mais. — eu assenti, chamando para descermos e meu pai foi à frente.
— Você é a minha heroína! — sussurrou, me fazendo rir fraco.
— Ah, os pombinhos chegaram — tia Audrey sorriu gentilmente e eu olhei para o meu irmão, dando uma piscadela e ele assentiu, sorrindo de lado. — Quase não sobrou torta, , Michael e comeram a metade, sozinhos.
— Na verdade, foi a quem comeu a maior parte. — falou, olhando para a namorada, que fez uma expressão de indignação.
— A culpa não é minha, vocês sabem que agora eu como por dois.
— Ah, esse é o novo argumento da , ela o usa para tudo. — brincou, levando uma tapa da irmã — A agressividade também aumentou.
— É verdade, Audrey, penso até que daqui a um tempo, precisaremos colocar essa menina em uma jaula. — tio Michael disse em um tom divertido, arrancando altas gargalhadas de todos, menos da . — Papai está brincando, filhota.
— Sei — ela disse, emburrada e tio Michael a puxou levemente, dando um beijo em sua testa.

Depois de ficarmos conversando sobre como está se sentindo, como nós nos sentimos enquanto ele estava no hospital, sobre como serão as coisas daqui para frente, durante horas, eu e ajudamos tia Audrey a fazer o jantar, que foi uma macarronada maravilhosa, todos eles retornaram para as suas casas, deixando uma pilha de louça imensa para eu lavar.

— Pai, não acha que precisamos de uma colaboradora nos serviços de casa? — perguntei, encarando a pia cheia e suja, que mais parecia um monstro.
— Não, eu acho que a gente sabe se virar bem. Não vejo necessidade. — ele respondeu simples, colocando mais um copo em conjunto com o resto da louça — Aliás, eu vou cortar todos os gastos excessivos a partir de agora, temos que pensar na recuperação do .
— Pai, você sabe que os médicos disseram que não vou voltar a andar, a fisioterapia é uma perda de tempo.
— A fisioterapia será ótima pra você, manterá os seus membros inferiores firmes e quem sabe…
— Eu entendo a parte de me exercitar para manter a boa saúde, mas voltar a andar é outra coisa e eu não quero me iludir. — olhei para o meu irmão, mas ele não demonstrava tristeza por sua situação. — E, sinceramente, eu já tô bem conformado com isso. Terei que em adaptar a uma nova vida, mas tudo bem, pelo menos ainda tô vivo e vou ver meu filho nascer e crescer bem. — meu pai apertou o ombro de e respirou fundo, parecia emocionado. Emocionado até demais.
— Você está sendo um exemplo para todos nós, filho. — ele pegou o mesmo copo que acabara de colocar na pia e despejou uma generosa quantidade de bebida no objeto.
— Pai, vai continuar bebendo? — eu perguntei preocupada e ele abanou a mão desocupada.
— Eu bebi pouco hoje.
— E nos outros dias? Os que eu estava no hospital? — parecia curioso.
— Ele abusou do álcool, como sempre e…
, fica quietinha, filha — ele terminou a bebida em uma só golada e coçou a cabeça — Eu vou dormir agora, boa noite.
— Boa noite — e eu dissemos em uma só voz, vendo cambaleando até chegar ao seu quarto.
— Ele piorou desde que eu fui para o hospital?
— Com as drogas eu não sei bem, mas como ele sempre se esconde pra usá-las, acho que todas as saídas que ele deu, com a desculpa de que precisava espairecer, deve ter exagerado sim. — eu contei a verdade ao meu irmão e ele suspirou forte — Mas com a bebida, eu tenho certeza, a prova foi agora. Ele bebeu hoje desde que você chegou do hospital e sem parar.
— Ah — meu irmão respirou fundo — Isso será um problema!
— Eu sei, mas não se culpe pela piora dele. — assentiu — Sabemos que ele faz tudo isso pra fugir dos problemas, mas acaba se arrependendo depois.
— Sim, mas eu não me culpo por isso mesmo, e nem por nada. — ele me olhou firme — Primeiro porque eu não pedi pra ser baleado, muito menos tentei cometer suicídio, quem fez isso comigo foi a nossa mãe.
, pode parecer mentira o que eu vou dizer agora e isso não ameniza a raiva que eu tô sentindo daquela mulher, mas ela realmente não quis te acertar. — meu irmão tentava segurar as lágrimas — Ela ficou ainda mais perturbada por achar que matou seu próprio filho e agora tá em um Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico, mas a situação é lamentável.
— Eu sei que não foi a intenção dela me balear, ela achou que acertaria o meu pai — passei as mãos pelo rosto, lembrando do dia que tudo aconteceu — Apesar disso, eu não sinto raiva dela, pelo contrário, eu a amo e me dói muito saber que ela tá nesse estado. Eu queria tê-la por perto, ainda mais agora que ela terá um netinho.
— Eu sinto muito alívio por estarmos todos longe dela, é mais seguro assim. — eu confessei, vendo o meu irmão se esforçando para não dizer nada. Eu sei que ele não gosta quando eu falo dessa forma, mas é como me sinto. — Desculpa , mas como você pode ser assim? Como pode estar tão tranquilo? Aquela mulher te deixou paraplégico, isso é para o resto da vida. Você tem noção de como eu tô me sentindo vendo você assim por causa dela? — comecei um choro fraco, mas que tomava intensidade a cada palavra dita — Eu queria dizer umas verdades na cara daquela mulher. Eu queria confessá-la tudo que ela me faz sentir de ruim. Eu queria dizer a ela o quanto a sua ausência contribuiu para o meu estado psicológico ser péssimo. Eu queria… — me puxou para um abraço e eu me ajoelhei, desabando em seus braços. Chorei tão forte que se o meu pai não tivesse tão bêbado, já teria descido com seu taco de beisebol, achando que alguém tinha invadido a casa.

Ficamos durante um bom tempo em silêncio, compartilhando a dor um do outro e sendo amparados pelo abraço acalentador que ainda nos mantinha unidos. Meu irmão se afastou um pouco para me olhar e secou algumas das minhas lágrimas, que não paravam de cair.

— Você acha que eu gosto de estar em uma cadeira de rodas, sabendo que vou usá-la pelo resto da minha vida? — eu ia respondê-lo, mas ele não me deu tempo — Você acha que eu gosto de ter uma bala alojada no peito, sabendo que ela passou pela minha clavícula e coluna, estraçalhando uma das minhas vértebras e me deixando no estado em que eu tô agora? — segurei firme em suas mãos, o olhando nos olhos — Essa mesma bala quase atingiu o meu coração, mas eu tô aqui agora e bem, tô vivo. Não vou mais andar e ainda é um pouco difícil pensar em como será daqui pra frente, mas a vida não acaba por isso, eu só preciso me acostumar com a nova adaptação das coisas e, , do que adiantaria eu me desesperar por estar assim ou me enfurecer com a minha mãe? Nada, eu continuaria da mesma forma, só que muito amargurado.
— Desde que ela saiu de Keoursna e veio pra cá, as coisas começaram a piorar em nossa vida.
— Ela precisava da nossa ajuda, a gente já devia ter notado que o comportamento dela não era normal.
— Agora a culpa é minha? — meu irmão rolou olhos, respirando fundo.
pare, eu não disse isso. A culpa não é nossa e nem dela, nossa mãe já estava doente, podia ter feito isso contra ela mesma. — eu arregalei os olhos — Só tô tentando dizer que ela foi vítima de sua própria loucura e sinceramente, eu já a perdoei pelo que aconteceu.
— É difícil pra mim — eu coloquei as mãos no rosto, bufando.
— Eu sei, mas se eu que fui o maior atingido por isso tudo tô com o coração livre da amargura, você também pode liberar o perdão. — eu encarei o meu irmão — Sei o que você tá pensando, mas sim, eu já perdoei também. E temos que ajudá-lo a vencer esses vícios.
— Você realmente mudou.
— Quando a gente se vê tão perto da morte, começa a pensar no que realmente vale a pena em nossa vida. E eu acho que vale a pena deixar de nutrir mágoas e tentar aproveitar ao máximo da segunda chance que me foi dada. — eu assenti, pensativa. — Só quero estar bem com quem eu amo e deixar as diferenças de lado, porque no fim das contas, o amor é o que conta.
— Eu te amo, — o abracei por mais uma vez.
— Eu também te amo, irmãzinha. — eu me afastei, segurando em suas mãos — E pra te provar o meu amor, vou te ajudar com a louça.
— Ah, obrigada gentleman.

Eu lavei toda a louça, tentando ser o mais rápido que podia e foi secando todos os utensílios. Como os armários agora ficam fora do alcance dele, eu guardei tudo direitinho e saímos da cozinha.

Fiquei meio pensativa sobre como eu levaria meu irmão para o seu quarto, já que o meu pai já tinha ido para o seu e eu provavelmente não teria forças para subir pela escada. Também não pagaria para ver, eu jamais tentaria algo arriscado assim, imagine se eu o derrubo. Mas, acho que pior ele não pode ficar… Ou pode?

Ri um pouco de nervoso por não saber o que fazer e ele ficou me olhando confuso.

— O que foi, estranha?
— Não sei como eu farei pra te subir.
— Não se preocupa, não, eu durmo aqui pelo sofá mesmo. — ele andou com a cadeira e ajeitou algumas almofadas no cantinho.
— Ficou maluco? Esse sofá é horrível, você sabe que ainda não comprou um novo!
— Relaxa , eu nem devo sentir dor na coluna mesmo. — ele riu despreocupado e eu dei uma tapa em seu braço — Eu tô brincando, ao contrário do que pensam, eu sinto muitas dores pelo corpo. É até meio estranho, mas o médico me passou alguns remédios para aliviar.
— Eu vou te levar para o seu…
, eu durmo aqui tranquilamente, não se preocupe tanto comigo. — ele se segurou no sofá e fez força nos braços para sustentar seu corpo por alguns e se sentou. Quando eu estava prestes a ajudá-lo a colocar as pernas pra cima, ele me impediu de continuar — Deixa que eu me viro, tenho que acostumar. Mas, de qualquer forma, obrigado.
— Então, eu vou dormir aqui contigo — subi rapidamente para pegar nossos cobertores e retornei à sala, logo cobrindo e pegando algumas almofadas para as ajeitar no sofá. Desliguei a luz e me deitei no outro sofá, de frente para meu irmão.
— Você tem certeza que quer dormir aqui?
— Sim — eu me ajeitei no local. Estava desconfortável, mas eu conseguiria ficar, é só por uma noite. — Vamos aproveitar esse tempinho para conversar mais um pouco, eu senti a sua falta enquanto estava no hospital.
— Tudo bem, mas você tem aula amanhã de manhã.
— Não tem problema, não. — eu suspirei.
— E como tá se saindo na recuperação das notas?
— Já consegui recuperar duas com os trabalhos, mas tá realmente difícil. São muitas matérias difíceis e para cada disciplina eu preciso de muitos pontos, é bastante puxado, mas eu acho que tô me saindo bem. — eu pensei um pouco, lembrando do trabalho de geografia que eu tenho que entregar amanhã. — E como foi o seu reencontro com a , hein? Como se sentiu? — fiquei um tempo esperando pela resposta — — o chamei, estranhando o seu silêncio — ?

Não obtive resposta do meu irmão e deduzi que ele já estava dormindo, e o deixei descansar. chegou do hospital, mas não teve tempo de relaxar, então ele precisava dessa noite tranquila de sono, e eu também. Já sabia que o dia seguinte seria mais tenso, as aulas sempre são tensas.

, acorda — meu pai me chamou com a voz baixa, quase em um sussurro.
— Ai! — senti uma pontada forte nas costas ao tentar me sentar no sofá, enquanto o resto do meu corpo estava todo dolorido.
— Não grita não, filha, eu estou morrendo de dor de cabeça. E o seu irmão ainda está dormindo. — passou a mão pela cabeça, parecia péssimo — Sinto como se eu tivesse sido atropelado por um caminhão, mas a dor ficou só na cabeça.
— A dor é apenas uma ilusão da mente — eu sussurrei uma frase de The Mentalist e me remexi, tentando levantar com a coluna reta — Nossa, mas essa ilusão tá bem realista! Parece que eu levei uma surra das bravas.
— Não olha pra mim, esses tempos já acabaram. E eu também não teria condições de levantar um braço, estou moidinho. — ele disse ainda em um tom baixo, me mostrando a mesa já posta com o café da manhã. — Seja bem rápida, eu vou te levar pra escola antes de ir trabalhar.
— O vai ficar sozinho? — eu o olhei preocupada, enquanto subia os degraus lentamente para a dor não piorar — Eu não acho seguro.
se ofereceu para ficar com ele, por enquanto, mas sabemos que ele irá precisar de uma enfermeira.
— Ele não vai gostar nada disso.
— Eu sei, mas não vamos poder estar com ele sempre, por isso é melhor ter alguém o auxiliando por tempo integral.
— Eu tô ouvindo tudo que vocês estão dizendo, porque a não sabe falar baixo e me acordou. — suspendeu seu corpo e ficou sentado, coçando os olhos e eu parei no meio da escada. — Eu não vou precisar de uma babá, ok?!
— Ah, que ótimo, porque eu vou contratar uma enfermeira.
— Que droga, pai!
— Olha a boca, moleque! — elevou o tom de voz, mas logo o normalizou, já que a sua ressaca estava acabando com ele. — Eu sei que você acha que pode fazer tudo, sozinho, mas agora as coisas serão diferentes, . — meu pai me olhou e fez sinal para eu subir, com certeza teria alguma conversa mais séria com meu irmão.

Adentrei o meu quarto, notando que eu tinha deixado a janela aberta desde o dia anterior, coisa que eu não costumo fazer, mas nem me dei conta até voltar ao quarto. Tomei um banho rápido e vesti o uniforme, coloquei o meu trabalho de geografia dentro da mochila, que estava uma bagunça e desci rapidamente.

— Quer ajuda aí? — perguntei ao meu irmão, o observando tentando se sentar na cadeira de rodas, sozinho.
— Não, eu consigo.
— Onde tá o meu pai?
— Ele foi até a dispen… — foi interrompido pelo tombo que levou e eu corri para ajudá-lo, o que o deixou mais irritado. — Deixa, eu consigo. Tenho que aprender a me virar sozinho, de qualquer forma.
— Mas que barulho foi es… — meu pai invadiu a sala, assustado e se deparando com caído — Pelo amor de Deus, filho. Se machucou? — tentou levantar meu irmão, mas o mesmo o impediu.
— Eu vou conseguir, só me solta. — meu pai o ergueu no colo com muita facilidade, já que o mesmo possui uma força incrível, e colocou sentado na cadeira, o deixando furioso. — Por que você fez isso?
— Ainda é tudo muito recente, você precisa se habituar à nova vida e vai precisar de ajuda, sim.
— Mas eu…
, deixa de ser orgulhoso, não é hora para isso. — meu pai se levantou, empurrando a cadeira até a mesa da cozinha. — Toma o seu café da manhã com tranquilidade e vê se relaxa, o dia apenas começou e ele pode melhorar.
— Verdade. — eu disse.
, por que você tá andando toda torta? — perguntou estranhando o meu andar e fazendo me olhar e começar uma risada meio alta. Fiz careta para ele e me sentei à sua frente, comendo algumas rosquinhas. — Não grita, não criatura, parece que a minha cabeça vai explodir.
— Eu tô dolorida por causa do sofá.
— Eu sabia que isso iria acontecer — meu irmão disse, bebericando seu café. — Pai, toma um pouco de leite, acho que vai melhorar a sua situação.
— Desde quando leite melhora ressaca?
— Não sei, mas leite é bom pra tudo, então pior do que você já tá não pode ficar. — meu pai bufou, jogando o café do seu copo na pia e despejando um pouco de leite no mesmo, logo bebendo. — Meu dia vai melhorar quando a vier aqui, ainda bem que a casa vai ficar livre pra nós dois. — meu pai parou de beber o leite e encarou o meu irmão, de sobrancelhas erguidas, me fazendo rir.
— Quando eu disse que o dia poderia melhorar não foi me referindo a isso. — ele terminou de tomar o líquido e deixou o copo em cima da pia. — , vamos.
— Tá bom. — peguei algumas rosquinhas para ir comendo no carro e joguei minha mochila nas costas. Dei uma tapa em , o fazendo reclamar por ter derramado um pouco do seu café sobre a mesa e segui meu pai até a garagem.

No intervalo da aula, me sentei em um dos banquinhos de sempre na pracinha, para lanchar e fiquei pensando no quanto a nota que eu recebi do professor Ramal pelo trabalho de geografia me ajudaria para me recuperar mais nessa disciplina. Terminei de me alimentar e saí da pracinha.

Passando pelo corredor, encontrei diretora Dinah mais animada que o seu normal, o que foi estranho, já que ela é conhecida por ser séria e mandona.

— ela me chamou, mas eu fingi que não escutei e continuei caminhando — Sei que está me ouvindo. — parei de caminhar e me virei, a olhando desconfiada. Me aproximei dela, já temerosa por alguma possível bronca, mesmo eu não tendo feito nada de errado. — Gostaria de saber como será o jantar hoje?
— Jantar? Hoje?
— Sim, seu pai me chamou para jantar com vocês hoje à noite, mas não quero me vestir tão formalmente, por isso perguntei.
— Por isso ele quis me trazer de carro. — eu disse em um sussurro.
— O que disse? — diretora Dinah me olhou simples.
— Não precisa se preocupar com a roupa, apenas vista o que te deixa confortável.
— Mas eu me sinto confortável com as roupas que costumo usar aqui na escola — ela disse, erguendo as sobrancelhas e eu a olhei dos pés à cabeça. Vestia uma saia preta e justa até os joelhos, com uma blusa social vermelha de mangas compridas, porém dobradas, e o salto fino preto. Além dos seus acessórios, que eu diria ser de ouro.
— Não tem importância, pode ir assim. — eu forcei um sorriso e ela suspirou.
— Bem, estou um pouco ansiosa — ela parecia realmente empolgada, para a minha surpresa. — Ah, eu soube que voltou para casa ontem, espero não ser uma visita incômoda.
— Não, claro que não. Você é a nossa convidada e será muito bem-vinda. — eu disse, pensando em como meu irmão reagiria à nova talvez futura namorada do meu pai.
— Diretora Dinah — uma voz conhecida nos interrompeu. Olhei para trás de mim e lá estava Halston, vestindo uma bermuda jeans escura e curta com uma camiseta amarela e tênis escuro. — Gostaria de conversar com a senhora. — ela ajeitou seu cabelo, que estava solto e me olhou de forma serena.
— Claro, pode entrar na minha sala. — diretora Dinah deu passagem para Halston e me olhou, sorridente. — Nos vemos à noite.
— Até mais. — eu disse e ela assentiu, entrando logo após.

As aulas terminaram e eu já saía da sala, colocando minha mochila sobre as costas, quando avistei Halston sentada em um dos bancos perto da direção. Quase não havia alunos por conta das férias por isso eu tinha uma boa visão do pátio. Só os menos disciplinados ficavam na escola durante o período de férias para recuperar notas e frequência e, no meu caso, eram as duas coisas.

Caminhei pelo corredor quase vazio e a olhei novamente, ela fez sinal para mim.

— Preciso falar contigo.
— Ficou me esperando? — ela assentiu. Ora, a Halston jamais faria isso antes. — Por qual motivo?
— Eu decidi levar a gravidez adiante — disse como se estivesse tirando um peso de suas costas e suspirou alto, me sentei ao seu lado. — Eu contei aos meus pais e no começo foi bem difícil, eles discutiram bastante e eu levei muita bronca, mas ele me acolheram. No fim das contas, não havia muito o que fazer, mas eles me obrigaram a contar a Drew.
— E qual foi a reação dele?
— Drew me apoiou e garantiu que irá assumir as responsabilidades da criança comigo. Os pais dele também não negaram ajuda e nem nada do tipo, me receberam muito bem e estão sempre me perguntando como eu e o bebê estamos e tudo mais — ela riu fraco, sem humor algum e fixou o olhar à sua frente. — Nós não vamos ficar juntos, mas combinamos de termos uma boa relação, pelo bebê, e também não há razão desentendimentos. Estamos lidando com tudo da melhor forma que conseguimos e está dando certo.
— Fico feliz em saber disso. — eu disse sincera e Halston me olhou.
— A conversa que eu tive com você e no banheiro aqui da escola me deu coragem para encarar a situação e falar com os meus pais, então obrigada. — ela segurou uma das minhas mãos e sorriu de leve — Sei que fui um pé no saco para vocês duas durante o tempo em que estudamos juntas, mas eu estou tentando melhorar. Quero ser uma pessoa melhor e uma boa mãe para o meu filho.
— Você será — ela assentiu, ajeitando a sua bolsa e se levantou. Eu fiz o mesmo.
— Diga a que eu quero manter contato, agora temos um assunto em comum. — ela disse, me fazendo rir fraco.
— Ah, é verdade, a gravidez. — ela me acompanhou com sua risada e caminhamos um pouco até a entrada do colégio. — Bem, até qualquer dia.
— Até. — Halston me surpreendeu com um abraço e eu meio que fiquei sem reação, mas retribuí. — Nos vemos em breve. — ela sorriu e se afastou, indo na direção oposta à minha.

Pensei em fazer uma surpresa a , o visitando no trabalho. Não sabia se era uma boa ideia já que Chris estaria lá e eu não queria ser o motivo de outro briga entre ele e o meu namorado, porém eu sabia o quanto ficaria alegre ao me ver e depois desse tempo em que ficou no hospital e eu meio que me afastei dele, queria o compensar pela minha ausência. Mas no fim, decidi por não incomodá-lo no horário de trabalho, poderia prejudicar ele, então fui direto para casa.





[Continua...]



Nota da autora: Eu preciso pedir mil perdões a vocês pela minha imensa demora para atualizar. Confesso que tinha pensado em desistir da história, mas a Pâms me incentivou muito a continuar (obrigada, mana ♥). E quando eu pensei em dar continuação a minha criação, o bloqueio me pegou de jeito e eu não consegui desenvolver nada por um tempão. Isso me prejudicou muito, e de certa forma, a vocês também. 😿
Quando eu fui tentar escrever, não gostei de como havia ficado e apaguei umas 5 páginas. Senti uma dorzinha no coração por isso, mas depois disso, consegui escrever mais dois capítulos e aqui estamos, FINALMENTE com atualização.
Mais uma vez, eu peço perdão pela demora. Sei que foi muito tempo mesmo sem att e até me sinto mal por isso, mas agora saiu e a fic está ainda mais próxima do fim...
Espero que vocês possam entender e desde já, agradeço a compreensão. ❤
A todos, BJoo 😽





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