Última atualização: 06/06/2018

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C.A: 1 ao 23.


[Capítulo Vinte e Quatro]

— Eu ainda não acredito que isto esteja acontecendo — eu disse em um tom baixo, quando vi adentrando a nossa casa, acompanhado de , que empurrava a cadeira de rodas que o meu irmão usaria para o resto de sua vida.
— Pare de falar nisso e sorria para ele — disse, enquanto balançava um balão azul e acenava para , que parecia meio desconcertado. — Ele precisa de forças e não de dó. — ela foi a primeira a dar um abraço nele, o deixando mais à vontade com o clima festivo.
— Estão dando uma festa pra mim? — ele perguntou, surpreso.
— Para comemorar a volta do nosso filho para casa. — tia Audrey se aproximou dele, o abraçando com cuidado. Parecia estar com medo de machucá-lo.
— É um alívio saber que você está bem. — tio Michael apertou a mão do meu irmão.
— Vai ser difícil andar de bicicleta agora, hein irmão. — brincou, me fazendo dar uma tapa nele. — Ai! — ele reclamou, enquanto alisava seu braço e empurrou as rodas da cadeira, se aproximando de mim.
, tá tudo bem. — ele segurou minha mão e eu desviei o meu olhar em direção a escada. Não queria chorar na frente dele, mas vê-lo assim corta o meu coração. — Não é como se a gente não soubesse que eu vou precisar de me carregando na garupa da bicicleta dele.
— Eu não sabia dessa parte, não hein. — meu namorado reclamou, me fazendo rir fraco e eu finalmente tomei coragem de olhar para o meu irmão, não conseguindo mais segurar as lágrimas.
— Por que você tá chorando? — ele franziu a testa, me puxando para um abraço. O abraço mais demorado que já demos, em toda a nossa vida. — Não fique assim, eu tô bem, .
— É isso que importa pra mim, você estar bem — suspirei, tentando me recompor e me afastei dele, secando minhas lágrimas. me abraçou de lado e tia Audrey deu um passo à frente.
— Sei que estamos todos muito emotivos, mas vamos comer a torta de morango que eu fiz com tanto carinho para o meu filho.
— Obrigado, mãe. — disse brincalhão, indo abraçar a mãe.
— Sai bastardo, eu estou falando de ! — tia Audrey deu uma tapa na mão do meu namorado e foi para a cozinha, deixando os outros dando altas gargalhadas na sala. logo foi atrás da mãe.
— Parece que o seu namorado tá meio carente. — comentou , enquanto víamos meu pai e tio Michael ainda rindo de , que tentava se defender.
— Ele tá assim há dias.
— Já sei o que aconteceu. — eu o olhei, confusa — Você se afundou em tristeza e deixou de lado. — quando eu ia responder, ele me deu uma resposta — Isso não foi nada legal, hein.
— Eu não o deixei de lado, só precisei de um tempo pra mim. — meu irmão ergueu as sobrancelhas e eu suspirei — Eu estava muito pilhada, mas não queria descontar isso em .
— Então diga isso a ele. — meu irmão me deixou sozinha, indo para a cozinha.

Fiquei observando conversando com e tio Michael, tão alegre e gentil, sensível e dono de um sorriso lindo.

— Se babar mais um pouco serei obrigada a tirar uma fralda do meu bebê pra te dar. — surgiu ao meu lado, me dando um leve susto — Que bonitinho você o olhando toda apaixonadinha.
— Cala a boca! — eu dei uma tapa em sua perna e ela riu fraco — E sim, eu tô completamente apaixonada pelo seu irmão.
— Que bom ouvir isso — ele disse, sorrindo abobalhado — Porque eu também me sinto assim em relação a você.
— Ih, já vi que tô sobrando, tchau. — rolou os olhos e retornou para a cozinha.
— Eu quero conversar com você — ele já ia puxar um banquinho para se sentar ao meu lado — A sós, . Vamos para o meu quarto.
— Para onde vocês pensam que estão indo? — meu pai perguntou, nos olhando torto.
— Para o meu quarto, pai. — eu respondi óbvia e ele bufou.
— Deixe os meninos, . Você sabe que eles são os mais ajuizados! — tio Michael falou, bebendo um pouco de suco e meu pai deu de ombros, dando uma grande golada em sua bebida. No fundo, ele sabe que é verdade.

Eu subi, puxando meu namorado pela mão e adentramos o quarto, que ainda estava escuro. acendeu a luz e logo se encarregou de fechar a porta, eu apenas abri a janela para o vento fresco circular pelo quarto e sentei-me em minha cama.

— Eu nem acredito que o seu pai nos deixou subir. — ele disse aliviado, se sentando à minha frente.
— Pois é, nem eu. — nós rimos um pouco e eu me ajeitei na cama, pigarreando. — Bem, o que eu tenho a te dizer é que eu sinto muito por ter me afastado de você nesse tempo em que o meu irmão esteve no hospital.
— Eu só queria te apoiar, te dar forças.
— Eu sei — ele assentiu, concordando — Mas eu precisava de um tempo só pra mim.
— Era só você ter falado, . Não precisava ficar me evitando. — ele disse um pouco magoado e eu segurei em suas mãos — Mas eu sabia o que você queria, então eu te dei esse espaço.
— Sim, você foi maravilhoso comigo, como sempre. — ele forçou um sorriso e eu selei nossos lábios — Eu não quero que você continue pensando o que eu sei que tá pensando. — tentou se explicar, porém eu fui mais rápida — Você é a pessoa mais especial que eu conheço e eu gosto tanto de você, que nem consigo pensar em meu futuro sem que você esteja nele. E eu sei que você pensa que eu não gosto de você o suficiente, mas não é verdade.
— Tudo bem. — disse num tom não convincente.
— Ei, eu falo sério. — segurei em seu rosto, o olhando nos olhos e ele fez o mesmo — Sei que eu nunca te disse isso, mas eu te amo, de verdade. — confessei, percebendo a sua emoção.
— Eu também te amo, . — ele sorriu largamente e com lágrimas contidas em seus olhos, me beijou de forma doce e apaixonada.

Os minutos foram se passando e nós aprofundamos o beijo, que começou a tomar uma intensidade maior e eu já sentia o meu corpo inteiro pulsar. Nossos corpos se juntaram, rapidamente e logo fomos escorregando pela cama, eu já não tinha mais noção de nada fora do meu quarto. acariciava a minha pele e eu me arrepiava mais a cada toque que recebia dele, sentindo a respiração ficar falha, era uma mistura de sentimentos. Uma mistura boa de sentimentos.
Ele parou o beijo e se afastou um pouco, ficou me observando durante alguns segundos, sem dizer absolutamente nada, apenas acariciava o meu rosto como se estivesse memorizando cada parte dele e fixou seu olhar no meu. O olhar que eu acho tão charmoso e sedutor, o mesmo olhar que consegue falar coisas que talvez jamais teria coragem de dizer, mas que pelo olhar conseguia. Ah, que olhar!
Sorri ao parar para pensar no quão sortuda eu sou por tê-lo em minha vida e ele fez o mesmo, talvez pelo mesmo motivo, ou não. Mas ele sorriu de um jeito fofo, abobalhado e eu o puxei para um abraço.

— Obrigada — eu sussurrei em seu ouvido, o vendo se arrepiar no mesmo instante.
— Pelo que? — ele sussurrou de volta, me causando o mesmo efeito.
— Por existir, por estar em minha vida, por ser você — eu suspirei mais forte. — Por tudo.
— Eu que te agradeço, apenas por ser a , só por este fato eu já te amo. Mas então, você além de ser uma pessoa incrível, resolve me amar — ele riu fraco, me fazendo sorrir e levantou a sua face, me olhando nos olhos, novamente — Eu devo ser o cara mais sortudo desse mundo. — aproximou os seus lábios dos meus e prestes a me beijar, ouvimos algumas batidas impacientes na porta. — Estava bom demais para ser verdade.
— Ah, não reclame, foi o maior tempo que já ficamos juntinhos assim, em paz.
— É verdade — ele concordou, me beijando rápido.
, é melhor abrir logo esta porta, antes que eu a coloque abaixo. — ouvimos a voz do meu pai, parecia nervoso, como sempre.

Empurrei de cima de mim e levantei-me num pulo, ajeitando a minha roupa e o meu cabelo, por mais que não tivesse acontecido nada demais, o meu pai é muito encucado com as coisas. Aposto que já estava pensando o pior.
Fiz sinal para o meu namorado arrumar a cama e se sentar normalmente, e assim ele fez. Respirei fundo e abri a porta, me deparando com um bem irritado.

— Que foi, pai?
— Por que demorou tanto para abrir a porta?
— Sabe o que é, tio
, eu perguntei pra ela — meu pai disse firme, sem tirar os olhos de mim.
— Nós estávamos conversando sobre o tempo em que ficou no hospital.
— E precisa trancar a porta pra conversar?
— Sim, eu não queria que fôssemos interrompidos, mas não deu muito certo. — eu disse simples e ele respirou fundo.
— Tudo bem, desculpa.
— O que? Não entendi. — me fiz de desentendida.
— Vai mesmo me fazer repetir? — eu dei de ombros, quase rindo da situação e ele bufou. — Desculpa, tá ok?!
— Tá bom.
— Agora, gostaríamos que vocês descessem para passarmos um tempo em conjunto. Seu irmão tá bem e feliz de ver todos reunidos, vamos lá ficar com ele e alegrá-lo ainda mais. — eu assenti, chamando para descermos e meu pai foi à frente.
— Você é a minha heroína! — sussurrou, me fazendo rir fraco.
— Ah, os pombinhos chegaram — tia Audrey sorriu gentilmente e eu olhei para o meu irmão, dando uma piscadela e ele assentiu, sorrindo de lado. — Quase não sobrou torta, , Michael e comeram a metade, sozinhos.
— Na verdade, foi a quem comeu a maior parte. — falou, olhando para a namorada, que fez uma expressão de indignação.
— A culpa não é minha, vocês sabem que agora eu como por dois.
— Ah, esse é o novo argumento da , ela o usa para tudo. — brincou, levando uma tapa da irmã — A agressividade também aumentou.
— É verdade, Audrey, penso até que daqui a um tempo, precisaremos colocar essa menina em uma jaula. — tio Michael disse em um tom divertido, arrancando altas gargalhadas de todos, menos da . — Papai está brincando, filhota.
— Sei — ela disse, emburrada e tio Michael a puxou levemente, dando um beijo em sua testa.

Depois de ficarmos conversando sobre como está se sentindo, como nós nos sentimos enquanto ele estava no hospital, sobre como serão as coisas daqui para frente, durante horas, eu e ajudamos tia Audrey a fazer o jantar, que foi uma macarronada maravilhosa, todos eles retornaram para as suas casas, deixando uma pilha de louça imensa para eu lavar.

— Pai, não acha que precisamos de uma colaboradora nos serviços de casa? — perguntei, encarando a pia cheia e suja, que mais parecia um monstro.
— Não, eu acho que a gente sabe se virar bem. Não vejo necessidade. — ele respondeu simples, colocando mais um copo em conjunto com o resto da louça — Aliás, eu vou cortar todos os gastos excessivos a partir de agora, temos que pensar na recuperação do .
— Pai, você sabe que os médicos disseram que não vou voltar a andar, a fisioterapia é uma perda de tempo.
— A fisioterapia será ótima pra você, manterá os seus membros inferiores firmes e quem sabe…
— Eu entendo a parte de me exercitar para manter a boa saúde, mas voltar a andar é outra coisa e eu não quero me iludir. — olhei para o meu irmão, mas ele não demonstrava tristeza por sua situação. — E, sinceramente, eu já tô bem conformado com isso. Terei que em adaptar a uma nova vida, mas tudo bem, pelo menos ainda tô vivo e vou ver meu filho nascer e crescer bem. — meu pai apertou o ombro de e respirou fundo, parecia emocionado. Emocionado até demais.
— Você está sendo um exemplo para todos nós, filho. — ele pegou o mesmo copo que acabara de colocar na pia e despejou uma generosa quantidade de bebida no objeto.
— Pai, vai continuar bebendo? — eu perguntei preocupada e ele abanou a mão desocupada.
— Eu bebi pouco hoje.
— E nos outros dias? Os que eu estava no hospital? — parecia curioso.
— Ele abusou do álcool, como sempre e…
, fica quietinha, filha — ele terminou a bebida em uma só golada e coçou a cabeça — Eu vou dormir agora, boa noite.
— Boa noite — e eu dissemos em uma só voz, vendo cambaleando até chegar ao seu quarto.
— Ele piorou desde que eu fui para o hospital?
— Com as drogas eu não sei bem, mas como ele sempre se esconde pra usá-las, acho que todas as saídas que ele deu, com a desculpa de que precisava espairecer, deve ter exagerado sim. — eu contei a verdade ao meu irmão e ele suspirou forte — Mas com a bebida, eu tenho certeza, a prova foi agora. Ele bebeu hoje desde que você chegou do hospital e sem parar.
— Ah — meu irmão respirou fundo — Isso será um problema!
— Eu sei, mas não se culpe pela piora dele. — assentiu — Sabemos que ele faz tudo isso pra fugir dos problemas, mas acaba se arrependendo depois.
— Sim, mas eu não me culpo por isso mesmo, e nem por nada. — ele me olhou firme — Primeiro porque eu não pedi pra ser baleado, muito menos tentei cometer suicídio, quem fez isso comigo foi a nossa mãe.
, pode parecer mentira o que eu vou dizer agora e isso não ameniza a raiva que eu tô sentindo daquela mulher, mas ela realmente não quis te acertar. — meu irmão tentava segurar as lágrimas — Ela ficou ainda mais perturbada por achar que matou seu próprio filho e agora tá em um Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico, mas a situação é lamentável.
— Eu sei que não foi a intenção dela me balear, ela achou que acertaria o meu pai — passei as mãos pelo rosto, lembrando do dia que tudo aconteceu — Apesar disso, eu não sinto raiva dela, pelo contrário, eu a amo e me dói muito saber que ela tá nesse estado. Eu queria tê-la por perto, ainda mais agora que ela terá um netinho.
— Eu sinto muito alívio por estarmos todos longe dela, é mais seguro assim. — eu confessei, vendo o meu irmão se esforçando para não dizer nada. Eu sei que ele não gosta quando eu falo dessa forma, mas é como me sinto. — Desculpa , mas como você pode ser assim? Como pode estar tão tranquilo? Aquela mulher te deixou paraplégico, isso é para o resto da vida. Você tem noção de como eu tô me sentindo vendo você assim por causa dela? — comecei um choro fraco, mas que tomava intensidade a cada palavra dita — Eu queria dizer umas verdades na cara daquela mulher. Eu queria confessá-la tudo que ela me faz sentir de ruim. Eu queria dizer a ela o quanto a sua ausência contribuiu para o meu estado psicológico ser péssimo. Eu queria… — me puxou para um abraço e eu me ajoelhei, desabando em seus braços. Chorei tão forte que se o meu pai não tivesse tão bêbado, já teria descido com seu taco de beisebol, achando que alguém tinha invadido a casa.

Ficamos durante um bom tempo em silêncio, compartilhando a dor um do outro e sendo amparados pelo abraço acalentador que ainda nos mantinha unidos. Meu irmão se afastou um pouco para me olhar e secou algumas das minhas lágrimas, que não paravam de cair.

— Você acha que eu gosto de estar em uma cadeira de rodas, sabendo que vou usá-la pelo resto da minha vida? — eu ia respondê-lo, mas ele não me deu tempo — Você acha que eu gosto de ter uma bala alojada no peito, sabendo que ela passou pela minha clavícula e coluna, estraçalhando uma das minhas vértebras e me deixando no estado em que eu tô agora? — segurei firme em suas mãos, o olhando nos olhos — Essa mesma bala quase atingiu o meu coração, mas eu tô aqui agora e bem, tô vivo. Não vou mais andar e ainda é um pouco difícil pensar em como será daqui pra frente, mas a vida não acaba por isso, eu só preciso me acostumar com a nova adaptação das coisas e, , do que adiantaria eu me desesperar por estar assim ou me enfurecer com a minha mãe? Nada, eu continuaria da mesma forma, só que muito amargurado.
— Desde que ela saiu de Keoursna e veio pra cá, as coisas começaram a piorar em nossa vida.
— Ela precisava da nossa ajuda, a gente já devia ter notado que o comportamento dela não era normal.
— Agora a culpa é minha? — meu irmão rolou olhos, respirando fundo.
pare, eu não disse isso. A culpa não é nossa e nem dela, nossa mãe já estava doente, podia ter feito isso contra ela mesma. — eu arregalei os olhos — Só tô tentando dizer que ela foi vítima de sua própria loucura e sinceramente, eu já a perdoei pelo que aconteceu.
— É difícil pra mim — eu coloquei as mãos no rosto, bufando.
— Eu sei, mas se eu que fui o maior atingido por isso tudo tô com o coração livre da amargura, você também pode liberar o perdão. — eu encarei o meu irmão — Sei o que você tá pensando, mas sim, eu já perdoei também. E temos que ajudá-lo a vencer esses vícios.
— Você realmente mudou.
— Quando a gente se vê tão perto da morte, começa a pensar no que realmente vale a pena em nossa vida. E eu acho que vale a pena deixar de nutrir mágoas e tentar aproveitar ao máximo da segunda chance que me foi dada. — eu assenti, pensativa. — Só quero estar bem com quem eu amo e deixar as diferenças de lado, porque no fim das contas, o amor é o que conta.
— Eu te amo, — o abracei por mais uma vez.
— Eu também te amo, irmãzinha. — eu me afastei, segurando em suas mãos — E pra te provar o meu amor, vou te ajudar com a louça.
— Ah, obrigada gentleman.

Eu lavei toda a louça, tentando ser o mais rápido que podia e foi secando todos os utensílios. Como os armários agora ficam fora do alcance dele, eu guardei tudo direitinho e saímos da cozinha.

Fiquei meio pensativa sobre como eu levaria meu irmão para o seu quarto, já que o meu pai já tinha ido para o seu e eu provavelmente não teria forças para subir pela escada. Também não pagaria para ver, eu jamais tentaria algo arriscado assim, imagine se eu o derrubo. Mas, acho que pior ele não pode ficar… Ou pode?

Ri um pouco de nervoso por não saber o que fazer e ele ficou me olhando confuso.

— O que foi, estranha?
— Não sei como eu farei pra te subir.
— Não se preocupa, não, eu durmo aqui pelo sofá mesmo. — ele andou com a cadeira e ajeitou algumas almofadas no cantinho.
— Ficou maluco? Esse sofá é horrível, você sabe que ainda não comprou um novo!
— Relaxa , eu nem devo sentir dor na coluna mesmo. — ele riu despreocupado e eu dei uma tapa em seu braço — Eu tô brincando, ao contrário do que pensam, eu sinto muitas dores pelo corpo. É até meio estranho, mas o médico me passou alguns remédios para aliviar.
— Eu vou te levar para o seu…
, eu durmo aqui tranquilamente, não se preocupe tanto comigo. — ele se segurou no sofá e fez força nos braços para sustentar seu corpo por alguns e se sentou. Quando eu estava prestes a ajudá-lo a colocar as pernas pra cima, ele me impediu de continuar — Deixa que eu me viro, tenho que acostumar. Mas, de qualquer forma, obrigado.
— Então, eu vou dormir aqui contigo — subi rapidamente para pegar nossos cobertores e retornei à sala, logo cobrindo e pegando algumas almofadas para as ajeitar no sofá. Desliguei a luz e me deitei no outro sofá, de frente para meu irmão.
— Você tem certeza que quer dormir aqui?
— Sim — eu me ajeitei no local. Estava desconfortável, mas eu conseguiria ficar, é só por uma noite. — Vamos aproveitar esse tempinho para conversar mais um pouco, eu senti a sua falta enquanto estava no hospital.
— Tudo bem, mas você tem aula amanhã de manhã.
— Não tem problema, não. — eu suspirei.
— E como tá se saindo na recuperação das notas?
— Já consegui recuperar duas com os trabalhos, mas tá realmente difícil. São muitas matérias difíceis e para cada disciplina eu preciso de muitos pontos, é bastante puxado, mas eu acho que tô me saindo bem. — eu pensei um pouco, lembrando do trabalho de geografia que eu tenho que entregar amanhã. — E como foi o seu reencontro com a , hein? Como se sentiu? — fiquei um tempo esperando pela resposta — — o chamei, estranhando o seu silêncio — ?

Não obtive resposta do meu irmão e deduzi que ele já estava dormindo, e o deixei descansar. chegou do hospital, mas não teve tempo de relaxar, então ele precisava dessa noite tranquila de sono, e eu também. Já sabia que o dia seguinte seria mais tenso, as aulas sempre são tensas.

, acorda — meu pai me chamou com a voz baixa, quase em um sussurro.
— Ai! — senti uma pontada forte nas costas ao tentar me sentar no sofá, enquanto o resto do meu corpo estava todo dolorido.
— Não grita não, filha, eu estou morrendo de dor de cabeça. E o seu irmão ainda está dormindo. — passou a mão pela cabeça, parecia péssimo — Sinto como se eu tivesse sido atropelado por um caminhão, mas a dor ficou só na cabeça.
— A dor é apenas uma ilusão da mente — eu sussurrei uma frase de The Mentalist e me remexi, tentando levantar com a coluna reta — Nossa, mas essa ilusão tá bem realista! Parece que eu levei uma surra das bravas.
— Não olha pra mim, esses tempos já acabaram. E eu também não teria condições de levantar um braço, estou moidinho. — ele disse ainda em um tom baixo, me mostrando a mesa já posta com o café da manhã. — Seja bem rápida, eu vou te levar pra escola antes de ir trabalhar.
— O vai ficar sozinho? — eu o olhei preocupada, enquanto subia os degraus lentamente para a dor não piorar — Eu não acho seguro.
se ofereceu para ficar com ele, por enquanto, mas sabemos que ele irá precisar de uma enfermeira.
— Ele não vai gostar nada disso.
— Eu sei, mas não vamos poder estar com ele sempre, por isso é melhor ter alguém o auxiliando por tempo integral.
— Eu tô ouvindo tudo que vocês estão dizendo, porque a não sabe falar baixo e me acordou. — suspendeu seu corpo e ficou sentado, coçando os olhos e eu parei no meio da escada. — Eu não vou precisar de uma babá, ok?!
— Ah, que ótimo, porque eu vou contratar uma enfermeira.
— Que droga, pai!
— Olha a boca, moleque! — elevou o tom de voz, mas logo o normalizou, já que a sua ressaca estava acabando com ele. — Eu sei que você acha que pode fazer tudo, sozinho, mas agora as coisas serão diferentes, . — meu pai me olhou e fez sinal para eu subir, com certeza teria alguma conversa mais séria com meu irmão.

Adentrei o meu quarto, notando que eu tinha deixado a janela aberta desde o dia anterior, coisa que eu não costumo fazer, mas nem me dei conta até voltar ao quarto. Tomei um banho rápido e vesti o uniforme, coloquei o meu trabalho de geografia dentro da mochila, que estava uma bagunça e desci rapidamente.

— Quer ajuda aí? — perguntei ao meu irmão, o observando tentando se sentar na cadeira de rodas, sozinho.
— Não, eu consigo.
— Onde tá o meu pai?
— Ele foi até a dispen… — foi interrompido pelo tombo que levou e eu corri para ajudá-lo, o que o deixou mais irritado. — Deixa, eu consigo. Tenho que aprender a me virar sozinho, de qualquer forma.
— Mas que barulho foi es… — meu pai invadiu a sala, assustado e se deparando com caído — Pelo amor de Deus, filho. Se machucou? — tentou levantar meu irmão, mas o mesmo o impediu.
— Eu vou conseguir, só me solta. — meu pai o ergueu no colo com muita facilidade, já que o mesmo possui uma força incrível, e colocou sentado na cadeira, o deixando furioso. — Por que você fez isso?
— Ainda é tudo muito recente, você precisa se habituar à nova vida e vai precisar de ajuda, sim.
— Mas eu…
, deixa de ser orgulhoso, não é hora para isso. — meu pai se levantou, empurrando a cadeira até a mesa da cozinha. — Toma o seu café da manhã com tranquilidade e vê se relaxa, o dia apenas começou e ele pode melhorar.
— Verdade. — eu disse.
, por que você tá andando toda torta? — perguntou estranhando o meu andar e fazendo me olhar e começar uma risada meio alta. Fiz careta para ele e me sentei à sua frente, comendo algumas rosquinhas. — Não grita, não criatura, parece que a minha cabeça vai explodir.
— Eu tô dolorida por causa do sofá.
— Eu sabia que isso iria acontecer — meu irmão disse, bebericando seu café. — Pai, toma um pouco de leite, acho que vai melhorar a sua situação.
— Desde quando leite melhora ressaca?
— Não sei, mas leite é bom pra tudo, então pior do que você já tá não pode ficar. — meu pai bufou, jogando o café do seu copo na pia e despejando um pouco de leite no mesmo, logo bebendo. — Meu dia vai melhorar quando a vier aqui, ainda bem que a casa vai ficar livre pra nós dois. — meu pai parou de beber o leite e encarou o meu irmão, de sobrancelhas erguidas, me fazendo rir.
— Quando eu disse que o dia poderia melhorar não foi me referindo a isso. — ele terminou de tomar o líquido e deixou o copo em cima da pia. — , vamos.
— Tá bom. — peguei algumas rosquinhas para ir comendo no carro e joguei minha mochila nas costas. Dei uma tapa em , o fazendo reclamar por ter derramado um pouco do seu café sobre a mesa e segui meu pai até a garagem.

No intervalo da aula, me sentei em um dos banquinhos de sempre na pracinha, para lanchar e fiquei pensando no quanto a nota que eu recebi do professor Ramal pelo trabalho de geografia me ajudaria para me recuperar mais nessa disciplina. Terminei de me alimentar e saí da pracinha.

Passando pelo corredor, encontrei diretora Dinah mais animada que o seu normal, o que foi estranho, já que ela é conhecida por ser séria e mandona.

— ela me chamou, mas eu fingi que não escutei e continuei caminhando — Sei que está me ouvindo. — parei de caminhar e me virei, a olhando desconfiada. Me aproximei dela, já temerosa por alguma possível bronca, mesmo eu não tendo feito nada de errado. — Gostaria de saber como será o jantar hoje?
— Jantar? Hoje?
— Sim, seu pai me chamou para jantar com vocês hoje à noite, mas não quero me vestir tão formalmente, por isso perguntei.
— Por isso ele quis me trazer de carro. — eu disse em um sussurro.
— O que disse? — diretora Dinah me olhou simples.
— Não precisa se preocupar com a roupa, apenas vista o que te deixa confortável.
— Mas eu me sinto confortável com as roupas que costumo usar aqui na escola — ela disse, erguendo as sobrancelhas e eu a olhei dos pés à cabeça. Vestia uma saia preta e justa até os joelhos, com uma blusa social vermelha de mangas compridas, porém dobradas, e o salto fino preto. Além dos seus acessórios, que eu diria ser de ouro.
— Não tem importância, pode ir assim. — eu forcei um sorriso e ela suspirou.
— Bem, estou um pouco ansiosa — ela parecia realmente empolgada, para a minha surpresa. — Ah, eu soube que voltou para casa ontem, espero não ser uma visita incômoda.
— Não, claro que não. Você é a nossa convidada e será muito bem-vinda. — eu disse, pensando em como meu irmão reagiria à nova talvez futura namorada do meu pai.
— Diretora Dinah — uma voz conhecida nos interrompeu. Olhei para trás de mim e lá estava Halston, vestindo uma bermuda jeans escura e curta com uma camiseta amarela e tênis escuro. — Gostaria de conversar com a senhora. — ela ajeitou seu cabelo, que estava solto e me olhou de forma serena.
— Claro, pode entrar na minha sala. — diretora Dinah deu passagem para Halston e me olhou, sorridente. — Nos vemos à noite.
— Até mais. — eu disse e ela assentiu, entrando logo após.

As aulas terminaram e eu já saía da sala, colocando minha mochila sobre as costas, quando avistei Halston sentada em um dos bancos perto da direção. Quase não havia alunos por conta das férias por isso eu tinha uma boa visão do pátio. Só os menos disciplinados ficavam na escola durante o período de férias para recuperar notas e frequência e, no meu caso, eram as duas coisas.

Caminhei pelo corredor quase vazio e a olhei novamente, ela fez sinal para mim.

— Preciso falar contigo.
— Ficou me esperando? — ela assentiu. Ora, a Halston jamais faria isso antes. — Por qual motivo?
— Eu decidi levar a gravidez adiante — disse como se estivesse tirando um peso de suas costas e suspirou alto, me sentei ao seu lado. — Eu contei aos meus pais e no começo foi bem difícil, eles discutiram bastante e eu levei muita bronca, mas ele me acolheram. No fim das contas, não havia muito o que fazer, mas eles me obrigaram a contar a Drew.
— E qual foi a reação dele?
— Drew me apoiou e garantiu que irá assumir as responsabilidades da criança comigo. Os pais dele também não negaram ajuda e nem nada do tipo, me receberam muito bem e estão sempre me perguntando como eu e o bebê estamos e tudo mais — ela riu fraco, sem humor algum e fixou o olhar à sua frente. — Nós não vamos ficar juntos, mas combinamos de termos uma boa relação, pelo bebê, e também não há razão desentendimentos. Estamos lidando com tudo da melhor forma que conseguimos e está dando certo.
— Fico feliz em saber disso. — eu disse sincera e Halston me olhou.
— A conversa que eu tive com você e no banheiro aqui da escola me deu coragem para encarar a situação e falar com os meus pais, então obrigada. — ela segurou uma das minhas mãos e sorriu de leve — Sei que fui um pé no saco para vocês duas durante o tempo em que estudamos juntas, mas eu estou tentando melhorar. Quero ser uma pessoa melhor e uma boa mãe para o meu filho.
— Você será — ela assentiu, ajeitando a sua bolsa e se levantou. Eu fiz o mesmo.
— Diga a que eu quero manter contato, agora temos um assunto em comum. — ela disse, me fazendo rir fraco.
— Ah, é verdade, a gravidez. — ela me acompanhou com sua risada e caminhamos um pouco até a entrada do colégio. — Bem, até qualquer dia.
— Até. — Halston me surpreendeu com um abraço e eu meio que fiquei sem reação, mas retribuí. — Nos vemos em breve. — ela sorriu e se afastou, indo na direção oposta à minha.

Pensei em fazer uma surpresa a , o visitando no trabalho. Não sabia se era uma boa ideia já que Chris estaria lá e eu não queria ser o motivo de outro briga entre ele e o meu namorado, porém eu sabia o quanto ficaria alegre ao me ver e depois desse tempo em que ficou no hospital e eu meio que me afastei dele, queria o compensar pela minha ausência. Mas no fim, decidi por não incomodá-lo no horário de trabalho, poderia prejudicar ele, então fui direto para casa.


[Capítulo Vinte e Cinco]

Encontrei e deitados no sofá, agarrados um no outro, assistindo TV. Fiz barulho para eles notarem a minha presença e me sentei no outro sofá.

— Como foi o seu dia hoje? — perguntou.
— Bem estranho — joguei minha mochila ao meu lado — Halston apareceu no colégio e aproveitou para falar comigo sobre a gravidez, que ela decidiu levar adiante — ergueu as sobrancelhas, sorrindo de lado — E me pediu para te dizer que quer manter contato.
— Estranho! Halston nunca gostou de nós duas. — eu assenti — Mas tudo bem, agora temos um assunto em comum.
— Foi o que ela também disse. — respirei fundo, olhando para . — O mais estranho de tudo vem agora, chamou diretora Dinah para jantar com a gente, hoje.
— O que? Por que? — eles disseram em uma só voz.
— Eu não sei, desde as últimas reuniões no colégio eles ficam agindo estranho um com o outro, agora eles devem estar saindo.
— Ou irão oficializar o relacionamento — disse, um tanto pensativo — Constantemente ficava enviando mensagens no celular ou atendia a ligações, enquanto eu estava no hospital.
— Espera, você acha que o seu pai tá namorando com a diretora Dinah? — se sentou. — Isso é loucura!
— Isso não é impossível, não haveria outra razão para ela vir jantar aqui.
— Bem, eu tenho que ir pra casa agora, daqui a pouco a minha mãe chega do trabalho e eu preciso terminar as minhas tarefas diárias antes. — deu um beijo em e se levantou. — Eu vejo vocês amanhã.
— Tá bom.
— Fighting, super girl! — ela disse num tom engraçado e eu ri, a vendo sair.
, você tem certeza que a diretora Dinah virá jantar aqui hoje à noite?
— Sim — meu pai entrou na casa, respondendo e afrouxando a sua gravata — E antes que me perguntem, não avisei porque queria fazer uma surpresa para vocês.
— Não fale como se isso fosse uma surpresa boa, nós nem a conhecemos direito. — meu irmão respondeu, erguendo seu corpo para se sentar.
— Mas isso também não é uma coisa ruim — eu disse, dando de ombros e vendo meu pai tirar seu blazer. — Só que eu não farei o jantar.
— Ainda bem, não quero envenenar Dinah. — meu pai disse, fazendo rir alto. — Eu farei o jantar, já até comprei algumas coisas, fiquem tranquilos.
— Por que saiu tão cedo da empresa?
— Eu só fui mesmo para assinar alguns documentos que precisavam ser autorizados com certa urgência, mas estou na minha folga. — ele disse, levando as sacolas para a cozinha e voltando para a sala. — Bem, vou aproveitar para descansar um pouco, a minha cabeça ainda dói bastante. Não gritem, a menos que alguém invada a casa.
— Tudo bem. — eu disse, me levantando e pegando a minha mochila. — Eu ainda quero o meu desenho na parede, .
— Eu sei, já até comprei as tintas. — ele sorriu satisfeito e eu franzi a testa.
— Comprou quando?
— Quando voltei do estúdio, eu passei lá pra galera ver que eu já tô bem — eu assenti — E você não vai acreditar no que aconteceu.
— Bem, tire a minha curiosidade! — eu disse já empolgada.
— Vamos ao seu quarto, eu te conto enquanto faço o desenho na parede.
— PAI — gritei, vendo descendo os degraus em uma corrida rápida, com seu taco de beisebol na mão.
— Quem está aí? — ele ficou olhando ao nosso redor, apontando o taco para todos os cômodos.
— Nós?! — me olhou confuso — Eu só te chamei pra levar até o meu quarto.
— Ah , eu tomei o maior susto. — ele reclamou — Não podia ter me chamado civilizadamente?
— Desculpa! — ele assentiu, pegando no colo e subindo pela escada como se estivesse carregando uma almofada, me impressionei muito com a força que meu pai possui. Peguei a cadeira de rodas do meu irmão, a levando com certa dificuldade, mas eu não quis demonstrar.
Meu pai colocou sentado na cadeira e voltou para o seu quarto, provavelmente para tirar sua soneca.

Meu irmão me pediu para ir ao seu quarto, para pegar a sacola com as tintas. Mas logo que adentrei o local, não consegui tirar os olhos dos novos desenhos que ele havia feito, antes do acidente. Cada traço tão bem desenhado, as cores vivas deixavam os desenhos com aspecto mais divertido, enquanto as cores mais apagadas esbanjava intensidade e elegância.

— Por que tá demorando tanto? Eu só pedi uma sacola.

é muito talentoso, não devia duvidar de sua capacidade, já que o mesmo sabe exatamente o que fazer quando o assunto é desenho e pintura.

Peguei a sacola de tintas e retornei ao meu quarto, ainda folheando os desenhos em sua pasta.
— O que você tá fazendo com isso? — perguntou, assim que me viu com sua preciosidade em — Você é uma fofoqueira!
— Bem, eu diria curiosa. — respondi simples, sem dar muita importância a suas palavras. Estava mesmo entretida com o que ele mesmo nomeia de “rabiscos”. — Você tem um talento incrível, .
— Me dê isso aqui — ele puxou a pasta da minha mão e colocou em seu colo — Eu não gosto quando você mexe nos meus desenhos. Aliás, eu não gosto quando mexem nas minhas coisas, principalmente quando eu não autorizei.
— Por que tá tão bravo? Tá parecendo a agente Lisbon. — eu ri fraco, me sentando na cama. — Já sei que vai ficar lindo! — disse, enquanto olhava para a parede de frente.
— Vou precisar de uma ajudinha, eu não tenho altura suficiente agora que tô na cadeira de rodas. — ele ficou encarando a parede, parecia estar planejando algo.
— O que você quer que eu faça?
— Lembra daquele banco enorme, que fica jogado na garagem? - resmunguei um "sim", o ouvindo atentamente — Pega pra mim, vou conseguir pintar numa boa altura com ele.
— Acho arriscado, .
— Só pega o banco, . — ele continuou encarando a parede e eu saí.

Dei a volta pelo nosso quintal e encontrei o banco, que parecia meio empoeirado, em meio a outros objetos não muito utilizados por nós. Peguei um pano pequeno e esfreguei no banco, tirando um pouco da poeira. Logo voltei ao quarto.

— Ótimo, acho que agora tá tudo certo. — disse, já se aproximando do banco e tentando subir, sozinho. — Você segura o banco com firmeza e eu subo.
— Ainda acho arriscado.
— Relaxa — meu irmão tentou se sentar, mas o banco virou levemente, me fazendo o segurar com mais força.
— Ah meu Deus! — ele ria um pouco alto e eu pus a mão no peito, tentando normalizar minha respiração — Que droga, !
— Você tá muito estressada, , isso não faz bem.
— Só tenho medo que você se machuque mais — bufei de raiva, colocando as mãos sobre o rosto — Eu ainda me sinto culpada pelo que aconteceu com você. — confessei, deixando as lágrimas caírem.
— Ei, você não tem culpa de nada, pelo contrário, é tão vítima quanto eu. — ele me abraçou, dando umas tapinhas fracas em minhas costas — Você precisa relaxar um pouco. Tire essa culpa de suas costas, aja normalmente e pare de me tratar como um doente.
— Mas…
, eu tô bem. Irei precisar de mais ajuda que antes a partir de agora, mas ok, eu só preciso me acostumar com a ideia de não andar mais. E você também precisa se acostumar comigo assim, porque é como eu estarei pelo resto da minha vida.
— Também não fale assim — eu me afastei um pouco dele e sequei meu rosto — Você vai voltar a andar, só precisa começar a fisioterapia. — ele respirou fundo, assentindo de um jeito não muito convincente.
— Ok. Mas agora, me dê as tintas. — entreguei a sacola à ele, que sorriu satisfeito. — Vou tentar fazer o melhor que eu posso.
— Eu sei disso! — afirmei com confiança — Ah , o que aconteceu no estúdio?
— Eu te conto.

A tarde havia se passado rápido, fiquei ajudando o meu irmão com seu desenho, que é o mesmo da minha pulseira, fez questão de guardar o acessório para mim. Ele sabia que eu me arrependeria depois, e realmente assim aconteceu. Me arrependi por ter ficado tão brava com ele e meu namorado, que só queriam me agradar, confesso que fui ingrata e insensível com eles.
Apesar da pulseira possuir uma algema como pingente, que representa a minha mãe, eu não deixaria de usá-la, porque ela tem um significado muito importante para mim. Representa a minha família, e eu amo isso.

À noite chegou e nós nos arrumamos para o jantar, meu pai disse que queria tudo casual, mas apesar disso, iria caprichar em tudo. Ele até nos ameaçou, dizendo que se fizéssemos feio na frente de diretora Dinah, ele tiraria o canal pago que eu e mais amamos, apenas para deixarmos de assistir The Mentalist, como castigo.
Que pai gentil eu tenho, não é mesmo?!

vestia uma calça jeans básica e uma camisa esportiva em um tom claro e de mangas longas, com um tênis simples. Parecia estar mais perfumado que o comum e ansioso como nunca antes, o que era um pouco engraçado para mim.
, optou por uma bermuda marrom e coturno de mesma cor, além da camisa preta com o símbolo do Red John, em vermelho.
E eu, escolhi um vestido laranja justo do busto à cintura, logo alargando até o final dele, um pouco antes dos joelhos e calcei uma sandália rasteirinha trançada, de cor marrom. Minha maquiagem era um pouco mais pesada do que costumo usar, confesso que exagerei no batom cor de amora, apesar de o jantar ser simples.
Eu queria que a diretora Dinah se sentisse confortável quando me olhasse, assim ficaria aliviada por saber que não exagerou em nada. Mas, levando em conta o fato de ela não se preocupar com opiniões alheias e ser sempre muito segura de si, talvez ficará mais à vontade do que imagino.

Meu pai já estava terminando de preparar a lasanha de carne com molho rosé, quando ouvimos a campainha. me olhou com as mãos no cabelo, como se estivesse me perguntando se estava bom. Assenti para ele e caminhei até a porta, a abrindo calmamente e me deparando com diretora Dinah, que exalava elegância em sua calça pantalona bege e sandálias de salto fino, na mesma tonalidade, além da blusa marrom que se estendia por dentro da calça e com uma jaqueta de couro vermelho, por cima dos ombros.

Ela sorriu largamente e passou a mão pelo seu rabo de cavalo, preso pelo próprio cabelo, bem no topo da cabeça. Surpreendentemente, sua maquiagem era suave, o que dava mais visibilidade à suas vestes.

, você está linda! — ela disse, enquanto me analisava discretamente — Nunca te vi tão…
— Arrumada? — eu ri fraco. — Não é sempre que eu me visto assim, mas hoje foi uma exceção.
— Pois fez muito bem! Está simples, porém charmosa. — eu arqueei as sobrancelhas — Com um toque de elegância, na medida certa.
— Eu achava que elegância nunca é demais — a olhei confusa.
— E não é, só não podemos cometer alguns deslizes por conta do exagero.
— Mas quando se tem classe, você pode…
— Não se engane, , ter classe vai além das roupas — ela me interrompeu — É saber como se portar, como manter a compostura, como falar, como se expressar… Visto isso, a roupa é apenas um complemento.
— Nossa, acho que preciso de algumas aulas sobre — eu disse e ela riu fraco.
— Tudo bem, teremos bastante tempo para praticarmos.
, deixe a diretora entrar! — ouvi a voz de , parecia meio indignado, e me dei conta de que ainda não havia convidado diretora Dinah para entrar.
— Ah, isso não foi nada elegante — eu disse apreensiva e abanou a mão no ar, rindo fraco — Desculpe e por favor, entre. — dei passagem para ela, que realmente demonstrava empolgação e ansiedade por este jantar.
— Ah, Red John fez mais uma vítima — diretora Dinah disse, fazendo uma expressão de indignação. — Apesar disso, você está bem, tigre flamejante? — arqueou as sobrancelhas e arregalou os olhos.
— Tacos e pedras podem quebrar meus ossos, mas palavras nunca irão me machucar. — ele respondeu com uma frase do Patrick Jane.
— Falou o cara que fica bravo comigo quando eu digo algo relacionado a nossa mãe.
— Será por que você só fala coisas ruins a respeito dela?
— Está mentindo para mim, Jane?
— Eu não menti, só não contei toda verdade a você. — meu irmão continuou mencionando frases da nossa série favorita. — O problema é que, algumas pessoas gostam de jogar a dor delas em outras; pessoas mais fracas. — ele me olhou, sabia que estava se referindo ao jeito que eu falo da nossa mãe, mesmo usando uma frase pronta do Patrick Jane para isso.
— Mentira!
— Tudo bem. Mentiras é que fazem o mundo ter sentido. Portanto, a verdade machuca. — nós olhamos, impressionados, para diretora Dinah e ela riu fraco. — Onde está ?
— Assistindo ao vivo um novo episódio da série — brincou, entendendo todas as nossas referências. — Dirigiu bem?
— Sim, a pista está bem tranquila hoje.
— O que? Por que não a buscou, pai? — perguntou surpreso.
— Ah não, eu vim com o meu carro. Gosto dessa autonomia. — ela disse simples e meu pai deu uma piscadela para o meu irmão.

se aproximou de diretora Dinah e os dois selaram seus lábios. Meu pai tirou a jaqueta dos ombros dela e pendurou ao lado da porta, nos avisando que o jantar estava pronto e a levando para a mesa de jantar.
Eu e nos entreolhamos com uma expressão estranha e seguimos o casal.

O jantar foi ótimo; a comida estava deliciosa, a sobremesa também, a conversa foi agradável e a companhia um do outro era boa. Principalmente, para e diretora Dinah, que não paravam de se lançarem olhares intensos.
Eu confesso que é meio estranho observar a cena, quero dizer, vou levar um tempo até me acostumar com isso.

— Eu tenho uma novidade pra contar — disse, não me surpreendendo porque já havia me contado, mas ele conseguiu deixar meu pai e diretora Dinah com olhares curiosos — Vou ser tatuador.
— O que? — meu pai quase deu um salto do sofá.
— Nava analisou alguns dos rabiscos que eu tinha esquecido no estúdio e surpreendentemente gostou do que viu. E como ele já vem treinando eu e há algum tempo, achou que eu tô preparado pra iniciar a minha carreira como tatuador. — meu irmão dizia ainda incrédulo e eu me sentia feliz por ele. — Eu fiquei meio intrigado no início, achei que ele só estava me dando a oportunidade por eu ter sofrido o acidente, talvez estivesse sentindo dó de mim.
— Eu duvido que ele faria isso, Nava parece ser o tipo de chefe durão e exigente, jamais deixaria você fazer algo tão complexo apenas por dó. — eu disse sincera e meu irmão assentiu — E você é muito bom no que faz, , merece esta chance.
— Isso é incrível, ! Estou feliz por essa nova fase em sua vida. — diretora Dinah disse sorrindo, parecia mesmo estar sendo sincera.
— Obrigado, diretora Dinah.
— Dinah. Me chamem apenas de Dinah. — ela olhou para mim — Mas enquanto estivermos na escola, serei diretora Dinah.
— Certo. — eu suspirei, já sabia que ela faria essa observação.
, não dirá nada ao seu filho? — ela o perguntou e me olhou, contendo o sorriso.
— Ah — meu pai a olhou meio surpreso, logo desviando o olhar para — Sim. — ele pigarreou — Eu estou orgulhoso de você, filho. Subiu em um cargo por mérito próprio e sei que fará um ótimo trabalho.
— Tá sendo sincero? — o analisou um pouco, desconfiado.
— Sim, eu estou. — meu pai respondeu firme — Confesso que este não é o emprego que sonhei para você, porém, quero que dê tudo certo em sua vida, independente das escolhas que você faça. — ele se levantou para abraçar o meu irmão, que ficou surpreso com o que ouviu.

Depois de mais alguns minutos de conversa, Dinah fez questão de voltar para casa, sozinha, em seu carro e apesar de querer muito acompanhá-la, respeitou sua vontade.

— Ela é bem mais legal do que aparentava ser na escola — disse, impressionado. — Eu não lembro nem mesmo de quando ela me dirigiu a palavra, enquanto eu ainda estudava lá.
— Verdade — eu respondi, me espreguiçando — parece apaixonado.
— Eu ouvi o que disse e não, eu estou apenas interessado. — meu irmão me olhou rindo, sabia tanto quanto eu que nosso pai estava mentindo. — , quer que eu te suba agora?
— Sim, eu tô mesmo cansado. — meu pai levantou meu irmão da cadeira de rodas e o levou para seu quarto.

Levei a cadeira de com certa dificuldade, não que seja tão pesada, mas eu sou meio desengonçada para algumas coisas.

Fui para o meu quarto, logo sendo surpreendida pela ligação de .
Me conte tudo, super girl. — ela pedia do outro lado da linha.
— Tudo o que? — me fiz de desentendida.
Como tudo o que? Estou falando do jantar. — percebi uma leve impaciência em sua voz e ri fraco.
— Foi um jantar muito agradável, ao contrário do que parece, diretora Dinah é bem legal e divertida. — eu disse me lembrando dela falando sobre The Mentalist.
Ah, que bom! — respondeu animada — É meio estranho saber que o seu pai tá saindo com a diretora da nossa escola. — ela riu um pouco.
— Verdade, é estranho pensar nisso, mas eles estão se conhecendo melhor e parecem estar mesmo gostando um do outro.
Isso é ótimo! — eu estranhei a animação da Talvez agora ela libere o nosso Baile de Formatura.
— O que? Ficou maluca?
Não, agora que você é enteada dela, vai ficar mais fácil e…
, todos os alunos já devem ter saído em viagem e além do mais, fomos proibidos de fazer o baile, você sabe o porquê.
Nem todos os alunos viajam, a maioria ainda deve estar em casa. — eu suspirei alto, é uma das pessoas mais loucas que eu conheço. — Eu só tô dizendo que, talvez agora, diretora Dinah reconsidere o nosso pedido. Mas se você não quer, tudo bem.
— Isso é loucura! Ela jamais aceitaria — eu pensei um pouco — E mesmo que ela aceitasse, não temos como planejar isso tão rápido.
Se esqueceu que já temos tudo anotado? — eu me lembrei de todo nosso trabalho em conjunto, ocultando coisas da diretora Dinah.
— Tá bom, eu preciso ir dormir. Conversamos melhor amanhã.
Boa noite, super girl.
— Boa noite. — eu finalizei a chamada.
Um Baile de Formatura à essa altura do campeonato é loucura!

Tomei um banho rápido, estava mesmo com sono e queria dormir. Saí do banheiro e logo vesti meu pijama, apaguei a luz, inclusive a do abajur e me deitei na cama, já relaxando o corpo.

Pensei um pouco em , não havíamos nos falado durante o dia inteiro, com certeza contou sobre o jantar e conhecendo o meu namorado, não quis vir atrapalhar. Imagina se me atrapalha em algo, pelo contrário!

— Eu devia ter visitado ele no trabalho hoje cedo. — sussurrei para mim mesma.
— Falando sozinha? — meu corpo paralisou ao ouvir uma voz em meu quarto, estava tudo escuro e eu não tinha coragem de acender a luz para ver o rosto da pessoa. — Não reconhece a minha voz? — continuei estática e sem expressar nenhum som.

Ouvi alguns passos, que se aproximavam de minha cama e a luz do abajur foi acesa, me deparei com Fishy me olhando e sorrindo ladino.
Ergui um pouco o meu corpo, me sentando na cama e franzindo a testa, confusa.

— Como…
— Não deveria deixar a janela aberta — eu olhei para o lado, encontrando a mesma escancarada. Já era a segunda vez que esquecia a janela aberta. — Senti sua falta.
— Fishy, o que você tá fazendo aqui?
— É assim que você me recepciona? — ele abriu os braços, rindo e se sentou em minha cama.
— Fishy, eu tenho aula amanhã cedo e…
— Tudo bem, eu te encontro amanhã na escola, mas preciso conversar com você. — eu assenti, curiosa e intrigada — Você fica linda em um pijama de verdade, as minhas roupas não ficavam tão bem em você quanto às suas. — eu me encolhi um pouco no cobertor e ele soltou uma risadinha.

Fishy se aproximou mais de mim e acariciou o meu rosto, senti meu corpo todo se arrepiar ao seu toque e me senti mal por isso. Ele estava prestes a me beijar, quando eu virei o meu rosto.

— Eu tô namorando o . — disse em forma de explicação e ele meio que paralisou.
— Certo. — Fishy respirou fundo, puxando a sua mão de volta e me olhando com certa tristeza no olhar.
— Bem, acho melhor você ir agora. —
— Ok, te vejo amanhã. — ele se levantou e caminhou até a minha janela, me lançando o seu olhar pela última vez e saindo do meu campo de vista.

Me levantei da cama e caminhei até a janela, logo a fechando, mas fiquei observando Fishy por alguns segundos; parecia ter ficado triste ao saber sobre o meu namoro, mas no fundo, ele sempre soube que isso aconteceria mais cedo ou mais tarde. Fishy sempre soube dos meus sentimentos por ... Mas também sempre soube da atração que eu sentia por ele.

Ainda em frente à janela, fiquei encarando o nada por alguns minutos, pensando em como as coisas foram acontecendo em minha vida. Mas logo me senti mais sonolenta e eu retornei à cama, apagando a luz do abajur e me entregando ao sono.



[Continua...]



Nota da autora: Primeiramente, PERDÃO pelo atraso na att! Mas, espero que vocês tenham gostado desse novo capítulo e, por favor, comentem o que vocês acharam. É muito importante pra mim!
Estamos na reta final dessa história que me acompanha por 3 anos (eu sei, é bastante tempo!), mas, seguimos firmes até o fim.
Ah, gostaria de avisá-los que, FINALMENTE, criei um grupo no fb para nós. Caso tenham interesse, apareçam por lá, ok? ❤
Até a próxima, BJoo 😽





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