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Última atualização: 27/12/2021

O que tem começo, tem fim.

— Maquiavel



Incipit prologus

O homem levou a xícara de café até os próprios lábios, não se importando nenhum pouco que o líquido quente tenha queimado a sua língua. Ele não estava focado em nada no momento, exceto em uma mulher com uma criança do outro lado da mesa, a qual ele tomava o cuidado excessivo de não parecer que ele estava observando ela o tempo todo — apesar que estava mesmo.
Seu principal objetivo era a mulher. A criança era um efeito colateral da consequência que ele não tinha previsto em lidar, mas, no fim, sempre conseguia o que queria.
Ele não agia por impulso. Não. Tudo era devidamente calculado e se ele dizia que as coisas sairiam do jeito que ele queria, elas sairiam.
O desconhecido — que mais tarde seria descoberto —, bebeu mais um gole do café amargo, desviando o olhar para observar a rua devidamente calma, mas mantendo a sua atenção concentrada no objetivo. Ele não conseguia ouvir, da distância em que estava, o que ambas conversavam uma com a outra, mas a criança sorria para a mãe, que devolvia o sorriso de volta, sujando a bochecha da mais nova do que parecia ser sorvete.
O desconhecido estava ficando entediado. Embora fosse paciente na maior parte do tempo, estava começando a ficar ansioso para que ele chegasse finalmente a uma ação. Fazia tanto tempo que vinha planejando aquilo, que ele sequer podia cogitar dar errado.
Suas mãos formigavam de prazer, ao se permitir vagar pela lembrança de tocar a pele dela. Ele queria aquilo de novo. Desejava-a tanto, que aguentou ficar meses e meses no escuro, só para ter a oportunidade de fazê-la reviver tudo de novo. Não podia chegar até ela, ele sabia, mas podia abrir o caminho para que aquilo ocorresse.
Ele só precisava que aquela maldita mulher do outro lado da mesa cooperasse com os seus planos.
— Mamãe! — A criança deu um gritinho, seguido de uma risada bastante infantil.
Quando o homem observou, a mais nova estava com as bochechas completamente sujas de chantilly.
Ele deixou o copo de café de lado e ajeitou a própria postura, livrando-se do chapéu que usava para esconder parcialmente o seu rosto. Infelizmente, para ele, ser um dos mais procurados pelo FBI, fazia com que existisse a constante chance de ser reconhecido pelas ruas e acabar sendo pego. Ele não podia ser pego agora. O mesmo tinha planos antes desse momento inevitável chegar.
— Venha, vou te limpar! — A mais velha disse para a mais nova, que concordou com um aceno de cabeça positivo.
As duas tinham uma união impecável de mãe e filha. A menina se inclinou para a mãe, que pegou um pedaço de guardanapo e passou pela região das bochechas dela, nas partes em que havia a sujeira. O celular em cima da mesa apitou, indicando uma nova mensagem. A mulher abriu a notificação e emitiu um suspiro cansado, olhando para a mais nova, pedindo a conta em seguida.
Sally sabia que aquilo podia acontecer, mas, mesmo assim, alimentou a esperança que a irmã podia ainda aparecer no encontro marcado. Ultimamente, não havia muitos encontros das duas e Sally achava aquilo um absurdo, visto o quão próximas elas já haviam sido antes.
— Ela não vem de novo? — Ava perguntou.
Sally balançou a cabeça negativamente, respondendo à pergunta da filha.
Quando terminou de limpar as suas bochechas, livrou-se do guardanapo sujo e pegou a conta que o garçom lhe entregara, já puxando a carteira da bolsa.
— Eu te disse, mamãe! — Ava comentou. — A tia nunca vem quando tem palestras.
Sally estreitou os olhos em direção à filha, que mantinha um ar superior, como se gostasse de estar sempre certa.
Balançou a cabeça, sorrindo.
— Fique aqui, espertinha. — A mais velha disse. — Vou pagar a conta e vamos embora.
— Cinema? — A menina sugeriu.
— Como quiser! — Sally concordou, levantando-se.
Tudo teria sido evitado, se ela tivesse sido mais atenta naquele dia em específico. Ela teria percebido o homem observando os seus passos e em como ele sorriu tão sombriamente, que os pelos da sua nuca teriam se arrepiado. Ela teria percebido que ele se levantara em sua direção, os passos calculados e frios contra o chão. Teria notado que, com o pouco movimento que restava daquele café ao ar livre, ninguém perceberia o momento em que ela tinha sido capturada.
Foi tudo muito rápido e sutil.
Quando Sally começou a caminhar em direção à porta de entrada do café, o homem desconhecido cruzou o seu caminho, simulando um tropeço. A mulher murmurou um pedido de desculpas baixo e travou quando ele ergueu os olhos na direção dela, exibindo discretamente uma arma presa à sua cintura.
Sally engoliu a seco.
— Você vai vir comigo. — O homem ordenou.
Sua voz não era gentil. Sally percebeu que seu toque era ainda pior, quando os dedos dele se fecharam ao redor do pulso dela com força demais, mas ela não emitiu nenhum som, engolindo a seco.
Aos olhos dos outros, parecia um toque gentil, quase como se eles fossem amigos ou namorados e simplesmente estivessem trocando um carinho em público.
Sally arriscou um olhar para Ava, que parecia entretida demais no próprio celular.
— O que você quer? — Sally perguntou, sendo forçada a andar.
Ele não respondeu. Guiou-a para longe do café, para uma rua mais estreita e vazia. Sally queria ser corajosa, como a sua irmã era, e enfrentar quem quer que fosse aquele homem. Mas ela não era. Ela simplesmente não conseguia pensar em reagir, seu corpo todo sendo combustível do medo. Seus pensamentos iam diretamente até Ava.
— Vai viver o suficiente para descobrir o que eu quero... — ele finalmente respondeu, parando ao lado de uma van preta.
Sally abriu a boca para dizer algo, mas não conseguiu. Quando ele soltou o seu pulso, seu corpo inteiro foi tomado por impulso e a mulher tentou chutá-lo no meio das pernas, mas acertou a sua canela.
Ele a olhou com raiva e ela tentou correr, mas o homem foi mais rápido, puxando-a pelos cabelos soltos.
— Sua vadiazinha! — Ele xingou, irritado.
Sally não teve tempo de se defender, quando o homem bateu a sua cabeça contra a porta da van, fazendo-a perder a consciência.
Ele a jogou na parte de trás do veículo, satisfeito consigo mesmo.
E, então, foi atrás de Ava.



Unus
Veniens ad angulum

ㅤ📍 Unidade de Análise Comportamental - UAC às 11:30:

— O que está acontecendo? — A pergunta de David Rossi ecoou para o resto da equipe, que estavam parados um ao lado do outro, observando atentamente à porta fechada do escritório de Hotchner.
— Não temos certeza ainda... — Prentiss quem respondeu, sem desviar o olhar. — Aaron está há trinta minutos trancado com o diretor lá dentro.
— Isso é ruim, não é? — Garcia questionou, a expressão franzida em preocupação.
Ninguém respondeu imediatamente. Todo mundo ali sabia que uma visita do Diretor do FBI ao departamento não era exatamente um bom sinal, mas ninguém gostava de pensar que também era algo ruim.
Quando Derek abriu a boca para responder, a porta do escritório abriu e Aaron Hotchner saiu primeiro, sendo acompanhado por um homem de estatura mediana e a expressão séria demais. Os dois murmuraram algo e apertaram as mãos em despedida. Ele passou pelo resto da equipe, murmurando um cumprimento educado e Aaron logo chamou a atenção de todos.
— Reunião. — Ele anunciou.
O restante da equipe concordou. Em menos de cinco minutos, todos já estavam acomodados na sala de reunião de costume. Geralmente, JJ ou Garcia apresentavam o caso, mas, daquela vez, nenhuma das duas tinham informação de qual era o caso aberto da vez.
A expressão de Hotchner estava calma, porém, preocupada, e ele esperou até que todos estivessem sentados.
— O Diretor estava aqui, porque temos a abertura de um caso arquivado... — ele começou a explicar, mantendo as mãos cruzadas sobre a mesa, acima dos arquivos. — E temos que resolver com extrema urgência e cautela.
— Por que o caso foi reaberto? — Morgan questionou primeiro.
Aaron respirou fundo, mantendo a expressão séria.
— Há dois anos, Carl Courtner era um dos homens mais procurados do FBI... — ele começou a explicar, procurando uma maneira que não se estendesse muito, mas que fosse o suficiente para que todos eles entendessem. — Foi uma caçada extensa e tanto a equipe responsável pelo caso e o diretor, estavam sofrendo pressão para resolverem o mais rápido possível. As mortes estavam acelerando e a popularidade dele crescendo. — Continuou, começando a distribuir os arquivos para cada um deles presente ali. — O desfecho do caso foi a agente ser sequestrada, e ele, morto.
— Se ele foi morto, por que estamos com o caso? — Prentiss indagou.
— Porque ele não está morto de verdade. — Aaron respondeu. — O FBI não quis lidar com o fracasso de sua fuga, então forjou a morte dele e encerrou o caso. Principalmente depois que a agente pediu o desligamento.
O silêncio recaiu sobre todos eles. Reid tomou a atitude de abrir o arquivo e ler as informações que tinham ali. Eram todas informações sobre o caso, relatórios e fotos das cenas de crime.
— Aqui não diz o que aconteceu com ela. — JJ comentou, ainda olhando o arquivo.
— Seja lá o que for, foi o suficiente para ela. — Rossi completou.
Ninguém rebateu. Eles, mais do que ninguém, entendiam que aquele trabalho esgotava. Haviam coisas que uma pessoa podia lidar e algumas não. Tinha um certo limite do que alguém podia aguentar ver e passar.
tinha chegado perto desse limite e dois anos depois de todo o ocorrido, não tinha sido o suficiente para ela se recuperar.
— Isso quer dizer que ela não sabe que seu sequestrador está vivo? — Reid questionou, o tom quase genuíno na voz.
Ele não conseguia imaginar como ela se sentiria diante daquela informação. Achar que o pesadelo tinha acabado, para dois anos depois ser despertada por ele era cruel demais para alguém com um trauma daquele tamanho.
— Ainda não! — Hotchner respondeu, parecendo pesaroso. — Mas ela vai descobrir. Hoje de manhã, o assassino sequestrou a sua irmã e deixou um recado com a sua sobrinha. Ava está sob tutoria da assistente social no momento, até que alguém consiga entrar em contato com .
— O que ele dizia? — JJ perguntou.
— Ava diz que somente pode falar com a tia. — Aaron respondeu. — Garcia, você consegue localizá-la?
— Um momento, senhor! — Garcia respondeu, prontamente abrindo o seu notebook.
Ela tinha dedos ágeis contra os teclados e em menos de um minuto, estava com a localização certa.
— Ela ainda é uma agente? — Rossi indagou.
— Sim, mas ela desistiu de ser agente de campo. — Foi Garcia quem respondeu, tendo todas as informações na tela do notebook naquele momento. Nada passava despercebido para a mulher. — agora trabalha com a integração dos novatos e ministra seminários.
— Garcia... — Aaron chamou. — Onde ela está?
— Na academia, senhor! — Garcia respondeu.
— Prentiss e Reid, vocês vão atrás da Agente . — Hotchner começou a ordenar, recebendo um aceno positivo dos dois. — Rossi e Morgan irão comigo para o local do sequestro. JJ, traga a menina para cá. Garcia, procure tudo sobre os e Carl Courtner. Quero saber qualquer coisa que nos dê uma pista de onde ela está.
Todos assentiram, levantando-se para cumprir as novas ordens. Naquele caso específico, não havia a necessidade deles se deslocarem para outra cidade. Aaron Hotchner só esperava que pudesse concluir o mais rápido possível, e, de preferência, com Sally viva.


ㅤ📍 Academia do FBI em Quântico, Virgínia/EUA às 12:42:

não achava possível que pudesse estar se sentindo tão cansada ultimamente. Sua rotina, por mais incrível que pudesse parecer, tinha dobrado e seus horários não estavam batendo com os da irmã, o que a fazia se sentir culpada na maior parte do tempo.
Naquela manhã, ela deveria ter encontrado Sally, mas quando viu que a palestra se estenderia muito mais do que ela tinha contado, mandou uma mensagem se desculpando e prometendo que a compensaria em um jantar à noite. Seu peito se esmagava de saudade principalmente da sua sobrinha, mas ela tinha sorte que Ava era a criança mais compreensiva que ela já tinha conhecido. costumava achar que a garota era esperta demais para a própria idade.
? — A voz atrás de si chamou.
Quando ela se virou para descobrir quem a estava chamando, encontrou Peter com as mãos escondidas no bolso da calça. Ela guardou o celular, dando-se por vencida por um momento, vendo que sua irmã não estava respondendo as mensagens e nem atendendo as suas ligações. A agente precisaria caprichar no jantar à noite, percebeu, se quisesse que sua irmã a perdoasse por mais um encontro cancelado.
— Oi, Peter. — Ela murmurou, um sorriso gentil cobrindo os lábios.
Peter Olly ministrava alguns seminários ao lado dela e era um bom amigo, mas começava a suspeitar que o homem estava querendo ultrapassar essa linha de amizade. Torcia para que ele nunca tocasse no assunto, seria constrangedor recusar tão diretamente e ainda precisar continuar trabalhando com ele. Mas Peter parecia nunca ter coragem, o que deixava aliviada em partes.
— Estava pensando se você não quer almoçar... — ele convidou, parecendo ansioso pela resposta.
mordeu o próprio lábio, verificando o horário no relógio. Ela mal tinha percebido que já era hora de seu almoço, tendo sido sugada a manhã toda com compromissos para cumprir. Definitivamente, ela estava cansada.
— Com você? — Assim que a pergunta saiu de sua boca, ela se arrependeu.
Claro que era com ele. O rapaz estava ali, parado na sua frente com uma timidez gigante e o receio de ser rejeitado por um simples convite de almoço, todo seu corpo tenso. Às vezes, a mulher odiava saber a linguagem corporal de alguém tão bem daquela maneira, mas Peter especificamente era um livro aberto.
— Sim! — Ele finalmente respondeu.
deixou os ombros caírem, o sorriso ainda presente no rosto, prestes a aceitar o convite, já que não via mal nenhum em um almoço, mas os dois foram interrompidos por uma voz feminina desconhecida.
— Agente ?
virou-se novamente. A dona da voz estava acompanhada por um homem magro e ambos tinham uma expressão séria. Ela se demorou demais em analisar o rapaz que acompanhava a mulher, uma sensação de familiaridade tomando conta de si, mas ela tinha certeza que nunca o viu na vida, então aquilo não fazia sentido.
Balançou a cabeça, afastando os pensamentos e ignorou a sensação, certamente culpando o cansaço.
— Sim? — esperou.
— Sou a agente Especial Emily Prentiss — Apresentou-se, sentindo que não havia necessidade de mostrar a identificação. — Esse é o doutor Spencer Reid. Nós estamos aqui…
levantou um dedo educadamente, pedindo um minuto para Emily. Ela se calou no mesmo instante e aproveitou para virar-se para Peter.
— Peter, você se importa em deixar o almoço para outro dia? — Questionou.
O rapaz fez que “não” com a cabeça, concordando em adiar.
— Obrigada. Eu te encontro depois.
Ele assentiu, acenando em despedida e seguiu direto pelo corredor, deixando os três sozinhos.
desfez o sorriso gentil dos lábios e voltou a olhar para Prentiss, sua intuição gritando que ela sabia do que se tratava antes dos dois agentes informarem.
— É a Sally, não é? — perguntou.
Emily abriu a boca para responder, mas o som não saiu. Reid, que até então estava em silêncio ao seu lado, foi quem tomou a atitude.
— Sim. Sua irmã foi sequestrada hoje de manhã. — Spencer informou, o tom de voz calmo e firme o suficiente para entender que ele fazia aquilo há muito tempo. Certo cuidado emanava dele.
A academia também ensinava como eles deveriam se comportar ao darem notícias daquele tipo aos familiares das vítimas. E o doutor Reid, ela notou, já era muito acostumado com tal coisa.
A notícia tinha a pegado de surpresa. Seu corpo prendeu a sua respiração sozinha e ela piscou os olhos repetidas vezes rápido demais, como se esperasse que eles corrigissem e falassem que ela ouvira errado. Sally estava segura e salva, mas a expressão dos dois agentes mostrava que eles estavam falando bem sério.
Sally. Sua Sally tinha sido sequestrada e naquela manhã ela tinha cancelado o encontro das duas.
Culpa esmagou o seu peito e ela tentou puxar a respiração para os pulmões, obrigando-os a funcionarem.
— Você está bem? — Prentiss questionou, observando-a.
trincou os dentes.
— Quem a sequestrou? — A pergunta pulou dos lábios da mulher, sentindo a necessidade de saber a quem ela deveria direcionar toda a sua raiva.
Sally não deveria ser arrastada para aquilo. Ela tinha uma vida completamente diferente da sua e, no entanto, estava completamente envolvida como vítima no trabalho de .
— Acho que deveríamos ir para um lugar mais reservado... — Emily disse.
percebeu que ela tinha mais cuidado com as palavras. E daquela vez, o doutor parecia concordar com ela, pois não tomou a atitude de responder à pergunta da ex-agente de campo novamente. Seja quem fosse, sentiu que tinha muito mais do que ela sabia.
— Tudo bem! — Ela finalmente concordou, apontando com a cabeça para que a seguissem.
A agente seguiu o caminho reto pelos corredores. Cumprimentou alguns novatos por quem era responsável em integrar pelo caminho todo, até chegar no fim de um corredor e passar por uma porta que levava a um escritório pequeno e confortável. esperou que os dois agentes entrassem e fechou a porta atrás de si.
— Por favor, sentem-se! — Indicou o sofá com as mãos e sentou-se na poltrona de frente para eles. — Algo para beber?
— Não podemos demorar muito... — Reid apressou-se.
assentiu, a sensação lhe invadindo novamente, mas ela ignorou mais uma vez.
— Vocês são da UAC? — A mulher questionou, vendo ambos assentirem. — O que eu deveria saber agora?
— Agente ... — Emily começou, trocando um olhar breve com Reid, que assentiu, incentivando-a.
Ele não queria ser o portador da má notícia.
— Sei que vai parecer muito confuso agora, mas o sequestrador da sua irmã é Carl Courtner.
O quê? — O espanto de saiu em um sussurro quase inaudível, todo seu corpo tremendo. — Mas ele está morto!
— Eu sei, eu disse que ia parecer confuso, mas… — Emily continuou, soltando um suspiro.
— Ele só estava morto no papel. — Spencer Reid tomou a situação para si. — Quando você foi resgatada, ele fugiu no meio da perseguição, não foi morto.
— Mas eu li o relatório! — disse.
Seus lábios tremiam. Emily sentiu-se mal por ela. Não sabia exatamente o que ela estava sentindo no momento, mas entendia o suficiente para saber que não estava sendo fácil.
— O relatório foi alterado por ordem do diretor. Ele não quis aceitar o fracasso do caso e comunicou que Carl Courtner morreu em perseguição, dando finalmente um encerramento que tanto pressionaram. — Prentiss informou.
A respiração de falhou novamente.
Ela encarou os dois agentes à sua frente, mas não achou que os enxergou. Sua memória lhe traiu, enviando lembranças que ela tentou por tanto tempo esquecer. O rosto daquele homem ainda era nítido em sua memória e ela se odiava por isso. Quase podia ouvir a voz dele. Saber agora que ele estava vivo esse tempo todo…
— Vão embora! — Ela murmurou, levantando-se. Tentou mais uma vez puxar a respiração de volta, sentindo seus olhos lacrimejarem.
— O que disse? — Emily questionou.
sentiu seu peito ser esmagado. Parecia que alguém estava tentando a todo custo lhe roubar o ar. Ela sabia o que estava acontecendo. Às vezes passava as noites em claros, porque toda vez que iria dormir, não conseguia respirar.
— Estou pedindo para vocês irem embora. — Ela respondeu, a voz falhando.
A agente não olhava para os outros dois agentes. Ela encarava um ponto qualquer da parede, seus pensamentos confusos, querendo urgentemente ficar sozinha. Talvez pudesse gritar, chorar em paz, caída no chão, abraçando os próprios joelhos.
— Agente , nós não podemos…
Por favor, eu estou implorando! — pediu, os olhos marejados. A voz continuava falhando e ela se virou de frente para eles de volta, encarando-os. — Não posso… Eu simplesmente não posso…
O ar sumiu novamente. Emily olhou-a preocupada. Hesitante, Reid se aproximou da mulher. Ele sempre costumava evitar contato físico daquele tipo, ainda mais com pessoas desconhecidas, mas havia algo nela que o comovia.
Ele sentia a sensação lhe esmagando confortavelmente, quando parou na frente dela e pediu que ela o olhasse.
— Respire! — Aconselhou, demonstrando. Ele respirou o ar ao mesmo tempo que ela.
sentia-se a pior pessoa do mundo. Odiava a forma como aquele homem tinha poder sobre ela e sobre as suas lembranças, quase como se gostasse de obrigá-la a reviver quase tudo.
Tudo era um pesadelo.
— Respire! — Reid repetiu.
o olhou com compreensão. Seu corpo inteiro estava tenso, mas ela respirou, exatamente como ele tinha pedido, relaxando quando seus pulmões pareciam deixá-la em paz. Ele não a tocava, mas estava a centímetros de distância dela, o suficiente para ver os lábios dela tremendo. Ele não se preparou para o impacto do corpo dela abraçando o seu, surpreso demais quando notou que ela estava chorando.
Spencer buscou Emily com os olhos, que deu de ombros, sem saber exatamente o que dizer. Com as mãos suspensas no ar, Reid abraçou a mulher, meio desconfortável, deixando-a chorar sobre o seu ombro. Ela parecia frágil e ele estava desacostumado a lidar com situações do tipo, mas tudo o que sabia era que não podia deixá-la desabar sozinha.
E ele não deixou.
Daquele dia em diante, Spencer Reid nunca mais deixou.



Duo
Peropportune ad venari

ㅤ📍 Unidade de Análise Comportamental - UAC em Quântico, Virgínia/EUA às 13:57:

— Ava?
entrou silenciosamente pela porta. Era uma sala pequena, confortável e colorida, quase como se tivesse sido feita exatamente para crianças. Ava levantou a cabeça imediatamente à menção do seu nome e encontrou a tia, largando os papéis e lápis coloridos, levantando-se da cadeira. Correu até a tia, que a abraçou com gosto e preocupação, beijando as bochechas da menina como se sua vida dependesse daquilo.
Quando se acalmou e a vergonha de ter chorado nos braços de um desconhecido bateu, Prentiss e Reid explicaram que Ava estava sob a tutoria de uma assistente social e de Jennifer Jareau, a quem ela não conhecia, mas descobriu que a mulher também fazia parte da UAC. Então, lá estava ela. No prédio do departamento da Unidade de Análise Comportamental, onde Ava estava a esperando.
— Fiquei preocupada! — confidenciou para a sobrinha, soltando-a do abraço. — Você está bem?
Ava assentiu devagar. Ela parecia bem, pensou, mas havia algo a incomodando. Ela entendia que sua mãe tinha sido sequestrada?
— Ava, eu… — engoliu a seco, sentindo-se incapaz de continuar aquele assunto.
Sua sobrinha tinha somente sete anos. Era muita coisa para ela passar naquela idade, não queria jogar um fardo tão grande nas costas de alguém tão pequeno, mas uma hora iria precisar contar.
— Eu vou ver a mamãe de novo? — Ava perguntou, surpreendendo a tia.
mordeu o lábio com força, soltando um suspiro pesado. Ela olhou para a menina, que esperava ansiosamente a sua resposta, mas ela não deu imediatamente. A mais velha guiou a mais nova para uma mesa, sentando-a no seu colo em seguida.
— Eu vou ser sincera, boneca, porque não gosto de mentir para você... — começou, encostando a cabeça no ombro da mais nova. — Eu não sei. Mas eu prometo que farei de tudo para você vê-la de novo.
Ava ficou em silêncio e alguns segundos depois, assentiu, parecendo aceitar a resposta, para o alívio da agente. As duas ficaram assim por um tempo, aproveitando a presença uma da outra.
— Tia ? — Ava murmurou.
— Diga, boneca.
— Ele disse para eu dizer algo a você.
gelou.
Prentiss tinha lhe contado, é claro, sobre aquilo. A mulher ferveu de ódio ao descobrir que aquele desgraçado tinha se aproximado de sua menina, mas ficou aliviada que ele não fez nada contra ela. Queria perguntar à Ava mais sobre isso, mas se ela quisesse, ela mesma falaria.
— O que ele disse? — questionou, finalmente.
Exitus.

Mais tarde, no mesmo local...

Aaron Hotchner adentrou o local com calma. A presença do homem despertou a atenção de , que murmurou algo para Ava, deixando-a na mesa, desenhando. A mulher levantou-se e parou exatamente na frente do homem, que descobriu ser quem comandava aquela unidade e estava responsável pelo caso agora.
Ela não tinha pensado muito em querer fazer parte da investigação. Tinha planejado ficar com Ava o tempo todo, temendo que algo acontecesse a ela, mas depois do que sua sobrinha lhe disse, a agente mudou de ideia. Parecia mais do que necessário que ela fizesse parte daquilo. Isso lhe custaria mais do que ela esperava, mas para acabar com tudo, estava disposta a arriscar. Não podia viver sempre com medo, afinal.
— Sinto muito fazê-la esperar. — Hotchner estendeu a mão, da qual ela aceitou, firmando-a em um aperto leve, soltando-a em seguida. — Sou o Agente Especial Aaron Hotchner.
. — Apresentou-se simplesmente. — Mas você já sabia disso.
O mais velho deu um aceno discreto, confirmando. Ela passou a língua pelos lábios, nervosa.
— Agente Hotchner... — ela começou, criando coragem. — Solicitei a sua presença aqui, porque tenho um pedido. E espero que verdadeiramente leve em consideração.
— Farei o possível. — Ele disse, sincero.
assentiu. Olhou uma última vez para Ava, então virou-se para o homem.
— Quero fazer parte da investigação. — Informou o seu desejo. — Quero ajudar a pegar esse maldito.
Não era exatamente o que o chefe da Unidade esperava ouvir. Era verdade que ele estava disposto a ajudá-la no que fosse, a fim de amenizar a situação do estresse que o sequestro da irmã podia causar na agente, mas um pedido como aquele o pegou de surpresa.
— Agente , entendo que esteja inconformada e que… — Hotchner começou a falar, mas balançou a cabeça, interrompendo-o.
— Não estou inconformada, senhor. — Ela respondeu. — Estou furiosa.
— Esse sentimento não ajuda a investigação. — A voz calma do homem intercedeu.
Ele entendia a sensação. Sua equipe já tinham sido alvos pessoais muitas vezes, mas não fazia parte da equipe para ele abrir uma exceção, embora ela ainda fosse uma agente do FBI.
— Não estou buscando vingança... — ela explicou. — Estou buscando justiça. Eu sei que sua equipe leu os relatórios sobre esse homem. Sei que sabem que algo aconteceu comigo por causa dele. O que vai acontecer à Sally… não posso sequer imaginar. Por favor, me deixe ajudar.
Aaron a encarou, um suspiro quase discreto passando por seus lábios. Era uma decisão que ele precisaria de tempo para levar em consideração, mas o caso era urgente e ele não via problema em acrescentar uma ajuda para resolver o mais rápido que conseguisse. Entender os sentimentos da mulher o ajudou a decidir e seria melhor se ele pudesse ficar de olho nela, se a mesma estivesse por perto.
— Se eu julgar o seu comportamento por má conduta, será retirada imediatamente do caso. — Ele informou, o semblante sério fazendo jus às suas palavras. — Também seguirá todas as minhas ordens e sempre estará acompanhada por alguém da equipe. Você concorda com os termos?
sequer hesitou.
— Sim, senhor.
— Ótimo. — O Agente assentiu minimamente. — Eu queria poder dizer isso em circunstâncias melhores, mas… Bem-vinda à equipe, agente .
somente limitou-se a um balançar de cabeça positivo e um sorriso que não chegava aos seus olhos. Aaron, compreendendo a sua expressão, acenou em despedida e se retirou, deixando a mulher com a sobrinha novamente.
A agente sentia-se cansada. O esforço de não expressar a sua preocupação com a irmã para não deixar Ava assustada a fazia querer gritar e se encolher em um canto qualquer. Desejou ter lembrado de trazer o seu remédio, mas ela não podia pensar naquilo agora.
A mulher cruzou os braços, soltando um suspiro leve, observando a sua sobrinha desenhar calmamente com as mãos em cima da mesa e diversos papéis. Um pensamento lhe ocorreu rapidamente. Foi somente por uma fração de segundo, mas o suficiente para ela tomar uma decisão instantânea a respeito. Imediatamente, puxou o seu celular do bolso de trás da calça.
Se ela fosse participar mesmo daquela investigação, não poderia ficar o tempo todo de olho na sobrinha. Ela sequer poderia ficar ali o dia todo no prédio, enquanto a tia trabalhava. não era louca o suficiente para deixar a menina sozinha sob a supervisão de um estranho. Então, só restava uma única opção.
Discou o número pouco usado e esperou a chamada completar. Por um momento, não achou que ele fosse atender, mas quando a ligação estava prestes a ser encerrada, uma voz soou do outro lado.
Alô?
respirou fundo. Olhou mais uma vez para a sobrinha e sua determinação só crescia.
— Oi, Travis. — Murmurou a mulher, tentando parecer firme. — Sou eu.
O homem se calou do outro lado da linha. Tinha ficado claro que ele esperava qualquer outra pessoa no mundo, mas não ela. Ele era o pai de Ava e embora não fosse muito presente fisicamente, ainda mantinha contato com a menina, e, às vezes, os dois passavam as férias juntos.
Oi, . — Travis finalmente respondeu. — Eu não estava esperando.
— Eu sei. — Ela respondeu. — Mas aconteceu uma coisa.
Travis ficou em silêncio do outro lado o tempo todo em que iniciou o relato do que havia acontecido. Ele não tinha emitido nenhuma palavra, mas conseguia identificar seus suspiros e lufadas de ar que indicavam a preocupação e o medo do homem, tanto por Ava, quanto por Sally. E ela o entendia. Por Deus, como ela o entendia.
— Eu não pediria isso se não fosse importante... — ela continuou. — Preciso que você fique com a Ava por um tempo.
Você vai participar do caso?
— Sim. — Respondeu, admitindo. — E não posso fazer isso se Ava estiver por perto.
O que eu digo a ela? — O homem questionou, meio incerto.
Ele não era pai em tempo integral. Quando ele e Sally resolveram se separar, ela ficou com a guarda de Ava e ele resolveu se mudar para o Canadá. Continuava solteiro desde então e só passava algumas férias marcadas com a filha.
— Acampamento de férias. — respondeu.
Do outro lado, embora a agente não pudesse ver, ele sorriu.
Um silêncio incômodo recaiu entre eles. sabia que ele estava hesitando em fazer alguma pergunta, mas não quis incentivar, temendo-a. Mesmo assim, contrário ao seu desejo, Travis tomou coragem.
E se algo acontecer com ela?
Por “ela”, sabia, ele estava referindo-se à sua irmã e não à Ava.
— Travis… — suspirou, desviando o olhar da sua sobrinha para disfarçar a sua expressão. — Não posso pensar nisso agora. Só…
Pegarei um voo hoje à noite.
— Obrigada.


Dois dias depois...
ㅤ📍 Unidade de Análise Comportamental - UAC em Quântico, Virgínia/EUA:

bocejou, coçando a bochecha em seguida, para evitar a careta que queria se transformar em seu rosto ao encarar o líquido preto do café em seu copo médio. Ela não gostava de cafeína, mas, às vezes, era a única coisa que a mantinha acordada.
Desde que Sally tinha sido sequestrada, não conseguia dormir. Ava já tinha ido embora com o pai e a mulher prometeu ligar todos os dias para a sobrinha, sem grandes promessas quanto à sua mãe. Não suportaria se não conseguisse cumprir.
A agente respirou fundo e encostou-se na bancada da Copa, sozinha no ambiente, percebendo como estava aflita por falta de notícias. Não sabia nada de Sally desde que ela tinha sido levada, dois dias atrás. Ela não sabia o que aquele desgraçado estava planejando, mas não deveria ser coisa boa e, céus, que sua irmã estivesse bem. Ao menos viva.
Tomou um gole do café, finalmente, engolindo sem se esforçar muito em saborear o gosto ruim. Os outros agentes deveriam estar em algum lugar, ainda era muito cedo.
Todo mundo estava dando muito de si para resolver o caso o mais rápido possível, mas sem pista, ficava difícil trilhar um caminho. Courtner tinha sido esperto em evitar as câmeras. E mesmo que soubessem o tipo de carro que o homem estava usando, não servia muito para rastrear sem placa.
— Bom dia.
espantou os pensamentos ao ouvir uma voz masculina cumprimentá-la. Ela virou-se na direção da voz e encontrou David Rossi preparando um café para si.
— Bom dia. — Ela devolveu, igualmente educada.
Depois que Aaron Hotchner a aceitou no caso, ela foi apresentada ao restante da equipe e, graças a sua boa memória, tinha gravado o nome de todo mundo sem esforço nenhum.
Ela observou, em silêncio, tomando o próprio café, o homem adicionar açúcar ao copo. Era uma quantidade consideravelmente pequena e ela bebeu um gole, sentindo-se um pouco desconfortável.
— Você parece… — o mais velho começou a dizer.
— Perdida?
— Eu ia dizer “distraída”. — Ele completou.
deu um sorriso sem graça, deixando os ombros caírem, suspirando baixo.
— Não me entenda mal... — respondeu, a voz tranquila e contida. — Não conheço nenhum de vocês. É como ser uma estranha no meio de um grupo.
Tecnicamente, ela era mesmo uma estranha no meio de um grupo. Aquela equipe se conhecia há anos, era inevitável que a agente não se sentisse um pouquinho de fora. Principalmente por ter desistido de trabalhar em campo e não sabia o que era ter uma equipe mais. Estava muito bem trabalhando do outro lado, mas, ainda assim, era estranho estar ali.
— Você e o doutor Reid parecem se dar bem. — Rossi observou.
encarou o homem por um momento, sentindo que as palavras dele não tinham sido ditas com maldade; muito pelo contrário. Era verdade que ela e Reid se davam mesmo bem, mas não conseguia explicar a sensação familiar que ele lhe passava. Reid parecia estar sempre por perto dela e a mulher não sabia se ele fazia isso simplesmente por vontade própria ou porque tinha sido instruído a ficar de olho nela. Qualquer que fosse a opção, ela não se importava. Era bom ter uma companhia em um terreno que não era seu.
Pelo menos, não mais.
— Ele é gentil. — Foi tudo o que ela disse.
Rossi assentiu. Estava prestes a dar as costas e voltar para a sala principal, quando Garcia apareceu, completamente fora de contraste com o ambiente. Enquanto tudo ali era preto e escuro, Garcia era totalmente o contrário, vestida de rosa.
— Reunião. — Ela informou. — Tenho uma pista.
ficou totalmente alerta e deixou o copo vazio de café para trás, seguindo os dois até a sala de reunião que eles tinham. Ela cumprimentou o restante da equipe, sentando-se na mesa redonda, entre Reid e Prentiss. Garcia ficou em pé, ao lado da tela de TV pequena, com um controle na mão esquerda.
— Nós já sabemos que ele foi esperto o suficiente para evitar a câmeras, mas trabalhei nisso por horas... — Penelope começou a explicar. — Busquei todas as câmeras da área, como sabem também, e consegui o visual do carro que ele estava utilizando. Como não tinha placa, ficou difícil rastrear, mas enviei a descrição do veículo para o banco de dados. Agora pela manhã, a polícia do Texas me deu um retorno.
Finalmente, pensou, alguma pista.
Estava se sentindo inútil e culpada por não conseguir nada contra aquele homem, nenhuma pista sequer de onde estava a sua irmã. se mantinha esperançosa de que ela ainda estava viva, uma vez que não encontraram nenhum corpo com a sua descrição.
Uma imagem apareceu na tela, mostrando o veículo em um local abandonado, destruído e queimado.
— Esse é o veículo que Courtner estava usando quando sequestrou Sally ... — Garcia continuou. — Infelizmente, é uma área abandonada, então não há testemunhas, mas tudo indica que ele está no Texas.
Garcia fez uma expressão desanimada e se sentou no seu lugar, entre JJ e Morgan.
— Por que ele teria o trabalho de sequestrar Sally aqui para levá-la ao Texas? — JJ questionou.
encarou a tela, engolindo a seco. Ela quase soltou um xingamento baixinho ao ouvir a pergunta e constatar que sabia a resposta.
— Porque foi lá que tudo começou. — Ela respondeu.
A equipe a encarou por alguns instantes.
— Ele nasceu e cresceu no Texas, mas sempre odiou a cidade... — continuou. — Se está voltando para lá, é por minha causa.
— Algum motivo específico? — Prentiss, ao seu lado, indagou.
soltou um suspiro e encarou a sua nova colega de trabalho temporária. A mulher sentiu um gosto ruim na boca quando respondeu.
— É isso que pretendo descobrir.

O celular vibrou mais uma vez contra a mesa e a mulher suspirou, esfregando o rosto com as duas mãos. Não tinha ideia de que horas eram, mas sabia que era tarde o suficiente e tinha ultrapassado, mais uma vez, o seu horário dentro daquele escritório.
esticou o pescoço, massageando a pele sensível na tentativa de relaxar um pouco, enquanto também tentava não pensar no quanto o seu ex-namorado era irritante. achava que tinha sido firme e clara ao dizer que não queria mais nada com ele. Isso significava que o idiota não devia estar lhe mandando mensagens todos os dias tarde da noite, implorando por uma conversa ou um jantar fora. Ela não se via mais naquele relacionamento e se sentiu aliviada quando conseguiu terminar tudo sem se sentir uma pessoa ruim por isso, mas a verdade era aquela: seu trabalho sempre estava acima de tudo e fazia algum tempo que ela não sentia mais nada pelo homem. Não fazia sentido manter um relacionamento por conveniência.
não era aquele tipo de mulher.
Tinha aprendido o suficiente para entender que estar sozinha não era tão ruim quanto gostavam de dizer. Ela gostava da liberdade e de ser independente. Não havia vazio nenhum necessitando ser preenchido. Com isso, também precisava ignorar os comentários constantes da irmã, que insistia em dizer para que a vida não era só trabalho. No momento, era tudo o que a agente tinha e ela não podia reclamar.
encostou o corpo contra a cadeira de couro macio, no exato momento em que a porta do seu escritório pequeno foi aberta. Em seguida, May Choose entrou, fechando a porta atrás de si, segurando uma pasta fina na mão.
— Tenho algo que vai tirar a sua bunda dessa cadeira por um bom tempo... — May disse, sentando-se na cadeira livre na frente da mesa.
arriscou um palpite.
— Férias?
May riu. Balançou a cabeça em negação, no entanto, para a enorme infelicidade de .
— Não, mas é um caso novo. — A outra respondeu. — Quase como férias, porque você precisaria deixar Miami para ir ao Texas.
A agente Choose entregou a pasta fina para a mulher sentada do outro lado. mordeu o lábio e aceitou, abrindo a primeira página para estudar a preliminar do caso. Não tinham uma equipe oficial montada ainda, mas para May estar ali pessoalmente, significava que era um caso importante.
— Sabe o que penso de casos assim... — finalmente disse, depois de soltar um suspiro.
Ela fechou a pasta e a depositou na mesa, encarando a mais velha à sua frente. May assentiu devagar e mordeu a parte interna da sua bochecha esquerda, já esperando por uma possível recusa por parte da outra.
— Sim. — May disse. — Mas você também sabe que confio em poucos agentes. Você é uma delas.
abriu um sorriso e balançou a cabeça, apontando um dedo em riste para a mulher com um tom acusador.
— Você é ótima com chantagem emocional, sabia?
May deu de ombros, soltando uma risada.
— Eu sou ótima em levantar seu ego. — Corrigiu.
Embora o clima fosse um pouco descontraído, ambas sabiam que estava falando sério.
Não gostava mesmo daquele tipo de caso; importante o suficiente para sofrer pressão de alguma parte do governo. Era o tipo de situação que deixava estressada, porque além de se empenhar para resolver o caso o mais rápido possível, também precisava lidar com autoridades irritantes dizendo-lhe como deveria fazer o seu trabalho.
Por outro lado, era May quem estava lhe pedindo. Ela não gostava de dizer “não” para a agente Choose.
— Ah, que droga, May! — murmurou, coçando a bochecha. — Quem vai estar lá?
May Choose sorriu, satisfeita.
— Quem você quiser. É sua equipe agora.


Tres
Ad Originem

ㅤ📍 Local desconhecido às 10:43:

soltou um suspiro longo, indicando o quanto estava frustrada. Tinha perdido a noção do tempo, mas sabia o suficiente para entender que estavam voando há um tempo e ainda não tinha conseguido dormir um pouco. Nem mesmo por dois minutos sequer.
A equipe estava reunida logo atrás de si, sentados juntos, debatendo sobre alguma coisa que ela não estava prestando atenção. Era como se simplesmente fosse uma intrusa e seu lugar não era ali, mas, ainda assim, ela era necessária.
A agente estava um pouco mais afastada. Embora fosse um avião pequeno, tinha espaço suficiente para todo mundo, inclusive para se manterem distantes, caso quisessem.
Sua mente estava uma bagunça. Não parava de pensar na irmã e em como tudo teria sido evitado se alguma autoridade imbecil do FBI não tivesse declarado que o assassino estava morto. paralisou a sua vida por causa daquele desgraçado e agora não podia deixar de sentir que tudo tinha sido em vão.
Era a primeira vez, desde muito tempo, que estava indo para um caso em campo. No entanto, não estava nem um pouco ansiosa por aquilo.
Suspirou longamente de novo, esfregando o rosto com as duas mãos, resolvendo encarar o céu pela janela, esperando que seu corpo e mente se acalmassem um pouco. Não andava dormindo muito bem, então era notável o quão irritada ela estava por aquele motivo.
Talvez ligasse para Ava depois. A mais nova sempre a acalmava, não importava qual fosse a situação.
— Atrapalho? — Uma voz conhecida e calma soou ao seu lado.
A agente levantou os olhos na direção de Reid e o encontrou em pé ao seu lado, com uma expressão tímida, as duas mãos no bolso da calça e os fios de cabelo totalmente despenteados.
não entendeu o porquê, mas quando negou com a cabeça em resposta para ele e o homem se sentou na poltrona à sua frente, ela sentiu uma estranha sensação de conforto. Vinha sentindo-se assim na maior parte do tempo, quando Reid estava sempre perto.
Era como se ele fosse… familiar.
Mas ela não conseguia lembrar de nada. Tinha certeza que não o conhecia. Ele não era o tipo de cara que alguém seria capaz de esquecer, pensou, mas, no fim, não confiava na sua própria mente.
Não depois de tudo.
— Você anda suspirando muito desde que decolamos... — Reid observou.
A agente abriu um sorriso pequeno, encostando o corpo contra o seu assento e umedeceu os lábios devagar.
Que tipo de poder era aquele que o homem tinha? Agora ela parecia totalmente relaxada.
— Estou frustrada. — Acabou confessando.
Podia não se sentir próxima de ninguém do restante da equipe, mas com Spencer era diferente. Ela sentia que podia falar qualquer coisa a ele, podiam conversar sobre qualquer coisa. Era fácil fluir qualquer assunto com o jovem.
— Com o caso? — Ele questionou.
respirou devagar e negou com a cabeça novamente. Seus pensamentos tinham dado uma acalmada e ela se sentiu grata por isso.
— Comigo. — Respondeu.
Spencer assentiu. Da mesma forma que , ele também sentia uma sensação familiar perto dela. Talvez fosse justamente por isso que era tão fácil se aproximar. Ele não tinha tato nenhum para ser sociável, muito menos com uma mulher que mal conhecia.
Geralmente, costumava ficar bastante nervoso e tagarelava sem parar sobre alguma coisa que tinha bastante conhecimento, mesmo que ninguém quisesse saber sobre tal assunto; como, por exemplo, quantos habitantes tinha na cidade de Los Angeles ou como surgiu o FBI.
Mas, com … era diferente.
— Eu não consigo dormir desde que descobri que ele está vivo. — Ela confessou, a voz baixa. — Não tinha pesadelos há muito tempo. Agora… tenho todos.
foi obrigada a fazer terapia depois do caso. Tirou quatro meses de licença até ser liberada para trabalhar novamente, decidindo que não seria mais agente de campo. Ao invés disso, preferia trabalhar com o recrutamento de novos agentes em Quântico e com palestras sobre casos antigos e serial killers.
A terapia ajudou por um tempo. Ela não tinha mais tantos pesadelos e conseguia dormir uma noite inteira sem interrupções.
— Acredite... — Reid murmurou. — Sei exatamente como é.
Estava há anos naquele trabalho. Era impossível viver sem ser afetado com o que via no seu dia a dia, principalmente com alguns ataques que a equipe às vezes sofria. Reid já tinha sido sequestrado, torturado, baleado… tinha traumas suficientes por uma vida inteira. E, ainda assim, ele continuava ali.
Acreditava que, se estivesse cercado do restante da equipe, a quem ele considerava ser uma família, podia aguentar tudo.
Ele não achava que tinha a mesma âncora.
— Sei que vocês se perguntam por que desisti de ser agente de campo. — Ela disse, encarando-o. — Eu ouço algumas conversas.
— Espero que não entenda a equipe mal... — Reid defendeu. — Nós só queremos…
— Eu entendo, doutor Reid. — Ela o interrompeu gentilmente, mantendo o sorriso leve nos lábios, mas sua sinceridade não chegou aos olhos. — Eu sou nova e vocês estão curiosos, eu considero isso uma coisa normal. É só que… por algum tempo, eu também me questionei por que eu desisti.
Era uma dúvida genuína que sempre a consumia, mas, no fim de tudo, sempre chegava à mesma conclusão: não poderia passar pela mesma coisa novamente e ainda sobreviver.
— Esse trabalho consome muita humanidade que existe dentro de nós... — ela continuou, observando que Reid tinha ficado em silêncio, entregando-a um espaço muito bem-vindo. — Nós vemos coisas terríveis que a maioria não vê. Eles nos preparam para isso. Mas não preparam a gente para viver tal horror.
Spencer engoliu a seco, concordando silenciosamente com as palavras. Mas… como teriam sido preparados para aquilo? Reid não conseguia imaginar. Era uma experiência traumática e individual.
— Nós somos preparados para sobreviver. — Ele opinou.
A mulher assentiu, juntamos as mãos.
— Sim! — Concordou. — E quando eu percebi que não podia ficar o tempo todo sobrevivendo, também percebi que era hora de mudar. Ou eu mudava, ou enlouquecia.
Tinha sido uma decisão difícil. Foi como andar em círculos o tempo todo, até finalmente conseguir escapar dele em busca de um pouco de alívio, um pouco de segurança.
— Já quis desistir muitas vezes também... — Reid confessou. — Mas quando olho para eles… meu trabalho é a minha vida. Eu gosto de estar aqui.
olhou rapidamente para trás, encontrando JJ rindo de alguma coisa que Morgan dizia. Eles realmente ficavam muito à vontade na presença um do outro e a agente achava aquilo incrível. Nunca tinha tido uma equipe para chamar de “sua” daquela maneira.
— Não sei o que farei se eu perder a Sally. — A mulher sussurrou, baixo o suficiente para Spencer escutar. — Não posso dar essa notícia à Ava.
O homem sentiu uma onda de compaixão enorme pela mulher. Deveria estar sendo mais difícil para ela do que ele tinha imaginado que seria, quando a viu chorar alguns dias antes nos seus braços.
Ele engoliu a seco e esperou ela olhar para ele. Quando o fez, ele disse a única coisa que não deveria.
— Você não vai perder. — Murmurou. — Eu prometo.
piscou os olhos. Sentiu seu coração acelerar um pouco, as batidas ritmadas contra o seu peito.
Ela não respondeu, mas não precisou.
Spencer Reid parecia o tipo de pessoa que levava muito a sério uma promessa. Ele iria garantir que cumprisse aquela.
Daria tudo de si.


Mais tarde...
ㅤ📍 Em Texas/EUA:

bocejou discretamente, assim que saiu do carro, depois que Aaron Hotchner estacionou em frente à Delegacia do Texas que eles usariam como ponto para comandar a investigação.
Era normal que ela estivesse sentindo-se cansada, mas queria, mesmo que por alguns minutos, ter dormido um pouco. Mesmo assim, continuava desperta o bastante para fazer o seu trabalho sem grande dificuldade.
Não era sequer uma opção falhar naquele caso.
A mulher seguiu o restante da equipe, cumprimentando o delegado junto aos outros. Alguns segundos depois, todos eles estavam em uma sala grande, espaçosa o suficiente para caber um grupo.
— Espero que fiquem à vontade por aqui! — O delegado disse. — Se precisarem de alguma coisa, qualquer coisa, meus policiais estão à disposição.
— Nós agradecemos, delegado. — Hotchner respondeu. — Alguma novidade?
colocou as duas mãos no bolso do casaco que vestia. Era formal demais e combinava com o ambiente, embora não estivesse tão frio assim, mas ela se sentia confortável nele. Também se sentia mais leve depois de ter conversado um pouco com o doutor Reid, que, naquele momento, estava do outro lado da sala, observando o quadro montado do caso.
A agente não tinha prestado atenção naquilo, então piscou os olhos ao encontrar uma foto recente de sua irmã colada no quadro. Sally estava segurando um copo de sorvete pela metade e as bochechas sujas de chantilly, mas sorria para a câmera.
Sem perceber, ela se aproximou de Reid devagar, ignorando qualquer conversa paralela. Seus olhos afastaram as lágrimas.
— Infelizmente, não muito boas... — o delegado respondeu.
Ele era um homem de cinquenta e poucos anos, com o cabelo grisalho e barba por fazer. Apesar da sua idade, sua aparência estava perfeitamente cuidada e ele parecia ser bastante gentil com qualquer pessoa.
— O que aconteceu? — JJ quem questionou.
suspirou e voltou para o mesmo lugar de antes, os olhos de Reid acompanhando os seus passos. Preferia não ter que ficar encarando a foto da irmã o tempo todo.
— Nós encontramos um corpo… e um vídeo. — O mais velho respondeu.
O coração de deu um salto.
A agente aproximou-se o suficiente do delegado, engolindo a seco.
Um corpo.
Não podia ser de Sally. Não fazia sentido aquele desgraçado sequestrá-la, mantê-la viva por dois dias, apenas para desovar o seu corpo em outro estado. Ele não teria aquele trabalho para nada. Não se sua intenção fosse envolver alguma vingança contra .
— É a Sally? — A pergunta mal saiu.
O delegado a encarou. Felizmente para a mulher, ele não parecia prestes a lhe dar uma notícia terrível. Ainda assim… era o corpo de alguém.
— Não foi uma mulher. — Ele respondeu e soltou o ar, aliviada. — O nome da vítima é Ander Jones. Ele foi encontrado em uma área remota, a fita do vídeo presa na boca.
Ele pediu “um momento” para a equipe e saiu da sala rapidamente.
— Isso não parece com o M.O. dele... — Morgan comentou, o semblante preocupado.
quase riu. Ela puxou uma cadeira da mesa grande e se sentou nela.
— Acredite, agente Morgan... — começou a dizer, encarando o homem. — Eu não acho que ele vai seguir um padrão.
Antes que qualquer um ali presente pudesse completar com alguma coisa, o delegado tinha voltado. Um dos policiais o acompanhava e o mais velho instruiu o rapaz a fazer algo. Todo mundo se juntou à e se sentaram ao redor da mesa, espalhados, observando o policial colocar a fita para rodar na TV.
A princípio, não apareceu nada. Uma enorme tela preta dominou dez segundos da gravação, antes de um ruído muito alto surgir, arrancando algumas caretas desagradáveis da equipe, que não estavam esperando por aquilo. Em seguida, surgiu uma cena com uma iluminação bastante fraca, mas o suficiente para eles enxergarem um teto. O ruído tinha diminuído e a câmera avançou até uma porta, cujo letreiro estava escrito “Sally”.
não percebeu como apertou os dedos da mão com força, completamente concentrada no vídeo.
Era para ser você, ... — o homem disse atrás da câmera, a voz um pouco alterada.
O modo como ele a chamou pelo apelido… odiou. Era como se fossem íntimos e a última coisa que ela queria, era ser ligada a um assassino.
Rossi a encarou brevemente, mas a mulher não prestava atenção em ninguém, exceto na TV.
A porta foi aberta. O quarto era escuro demais e só havia a luz de um abajur, e uma cama em estado precário. Sally estava presa a ela.
Diga “olá” para a sua irmã! — O assassino ordenou.
Ele se aproximou de Sally, cuja aparência estava pálida. Os fios do cabelo estavam bagunçados e ela ainda usava a mesma roupa do dia que foi sequestrada. Os olhos estavam fundos de tanto chorar e sentiu o coração se apertar de culpa.
? — Sally chamou, até perceber que ele estava a gravando.
Parecia um pouco alheia à sua realidade em volta, mas piscou os olhos para se ajustar ao flash da câmera.
, você pode me tirar daqui? — Sally pediu. — Pode me tirar daqui e depois fugir? Esse homem… é louco.
O assassino chutou a cama de propósito, não gostando nenhum pouco do que Sally tinha dito. Ela esfregou o rosto, as pernas presas com correntes de ferro e se encolheu um pouco.
Você é louco! Ela nunca seria capaz de amar um assassino!
A câmera caiu e a gravação terminou.
ofegou baixinho, puxando o ar para os pulmões. Não sabia mais o que estava sentindo. Culpa, desespero, raiva… era muita coisa para ela focar em um sentimento só.
, você pode me tirar daqui?”
— Agente … — Aaron começou a dizer.
Mas levantou da cadeira, balançando a cabeça.
Desculpe. — Ela murmurou antes de sair.
Bateu a porta levemente e atravessou o corredor, mas não sabia para onde ia.
— Nós devemos…? — Prentiss tentou.
— Ela precisa de um tempo. — Rossi disse.
— Quanto tempo? — Reid questionou.
Houve um suspiro, mas JJ quem respondeu:
— Tempo suficiente.
Ninguém disse nada por alguns segundos, mas apesar de ter saído, eles precisavam continuar com o trabalho.
Era compreensível para qualquer um ali o quanto ficaria com o caso, principalmente por agora envolver a irmã. A mulher tinha lembranças que todos desconheciam, então jamais seriam contra ela ter saído daquela forma e quisesse um pouco de tempo para si.
Hotchner, na verdade, tinha imaginado que aquilo pudesse acontecer. Ele mesmo tinha que ficar de olho para que ela não acabasse cometendo nenhum erro, movida pelas próprias emoções, mas não invadiria o espaço dela daquela maneira.
Todo mundo precisava de um tempo com os próprios pensamentos. Naquele momento, ela necessitava mais do que qualquer um deles.



Quattuor
Secretum

Um tempo depois...
ㅤ📍 Em Texas/EUA:

Spencer Reid tentou esperar um limite respeitável de tempo antes de finalmente ir atrás da mulher, mas não conseguiu. Não era a sua forma mais comum de agir, mas, naquele momento, ele se importava mais com a novata e a sua possível reação ao vídeo que tinha recebido.
O rapaz olhou pela janela, na esperança que ela estivesse em algum lugar da sala principal lá fora, mas só encontrou policiais passando. O resto da equipe estavam espalhados pelo local, mas JJ e Derek estavam ali com ele, terminando de compor o quadro investigativo.
Reid esfregou os olhos e saiu da sala, avisando que iria pegar um café.
Trinta minutos já haviam passado.
Ele virou um corredor e dobrou a próxima esquerda, percebendo que era um local grande, mas estreito em passagens. O agente estava prestes a perguntar ao policial mais próximo pelo paradeiro de , mas não foi preciso. Quando Spencer se aproximou da porta seguinte, ele ouviu um barulho, algo que se assemelhava a um estrondo.
Em alerta, ele correu até o local, percebendo que ninguém mais tinha parado seu trabalho para questionar o motivo de algum barulho suspeito. Devagar, aproximou-se da porta, que estava meio entreaberta e reconheceu a silhueta da novata. estava curvada sobre uma mesa, as mãos apertando a madeira com força o suficiente para deixar seus dedos brancos. A respiração parecia irregular, mas, fora aquilo, Reid percebeu que ela estava bem.
Quando empurrou um pouco mais a porta, o rangido chamou a atenção de , que se virou em um susto, soltando o ar aliviada, notando que era só Spencer. O doutor olhou ao redor, encontrando alguns objetos jogados no chão.
— Desculpe... — murmurou, justificando as coisas no chão.
A sala era uma completa bagunça.
— Quando estou estressada, eu…
— Não precisa se explicar! — Reid adiantou-se, finalmente adentrando a sala mais um pouco.
A princípio, ele não soube como continuar falando sobre alguma coisa, qualquer coisa, questionando-se se naquele momento ele estava sendo inconveniente de alguma forma. O agente não entendia o espaço que ocupava, às vezes, mas não gostava muito de ser um incômodo. Ele ficou surpreso em notar que tinha alguns acessos de raiva, mas fazia sentido. Na maior parte do tempo, ela era uma mulher muito contida nas próprias emoções. Uma hora, precisaria arranjar um jeito de extravasar tudo o que sentia. E acumular raiva podia ser perigoso.
— Eu sinto muito pelo vídeo... — ele continuou, depois de um tempo em silêncio. — Fiquei preocupado que você pudesse…
balançou a cabeça.
— Doutor Reid. — Ela disse, a voz calma e firme. — Eu estou bem. Agradeço a preocupação.
Spencer assentiu devagar. Quando olhou para ela novamente, percebeu que a mulher estava incomodada com alguma coisa, mas não sabia se deveria perguntar. engoliu a seco e encostou-se à uma mesa velha que estava jogada ali e soltou um suspiro longo, esfregando o rosto em seguida, os ombros caídos. Finalmente, estava permitindo a si mesma um momento de fraqueza, algo que ela não costumava demonstrar na frente de ninguém, mas Reid a fazia sentir que podia ser qualquer coisa com ele. O rapaz não se importaria e seria a última pessoa do mundo que a julgaria por qualquer coisa.
— Eu liguei para Ava... — começou a dizer, o tom de voz baixo o suficiente só para que ele escutasse. — Ouvir a voz dela e saber que ela está bem, me acalma. Aquela garota é tudo para mim. Quando ela perguntou da mãe, eu não soube o que responder.
Spencer ouviu-a em silêncio. Ela levantou o rosto na direção dele, exibindo um sorriso fechado que não era sincero.
O agente aproximou-se e se colocou ao lado dela, um pouco mais distante, mas próximo o suficiente.
— Nós temos uma taxa de sucesso muito boa em casos assim. — Reid afirmou.
— Entendo que você me prometeu e agradeço por isso... — ela respondeu. — Mas não posso evitar me preparar para algo pior.
Ele entendia. Era algo que lidava com a situação médica da sua mãe o tempo todo, mas mesmo que ele estivesse se preparando para o pior o tempo todo, Reid sabia que quando acontecesse, nada o teria preparado de fato.
— O pior não vai acontecer! — Garantiu, uma segunda promessa que não deveria estar fazendo, mas não havia palavras melhores que confortasse uma pessoa. — Mas se acontecer, agente , quero que você saiba que tem uma rede de apoio aqui.
o encarou, sentindo-se completamente grata pela existência daquele homem, ali, ao seu lado. Ele tinha um semblante gentil, a expressão calma, uma postura confortável.
— Por favor, me chame de . — Ela pediu.
O homem concordou com um aceno positivo. A única coisa que o incomodava naquela situação, era simplesmente o fato de ser consumido por uma sensação familiar todas as vezes que estava perto dela daquela maneira.
— Nesse caso, Spencer, então. — Devolveu.
sorriu de verdade dessa vez.
— Combinado.
Spencer percebeu o momento em que a expressão de fechou. Ela virou o rosto, encarando um ponto cego bem à sua frente, desviando o olhar dos olhos dele, as mãos apertando a madeira da mesa. A mulher crispou os lábios, os pensamentos muito longe e Reid estava prestes a abrir a boca e dizer qualquer coisa, quando ela o interrompeu.
— Eu me lembro… de uma sala escura. — Ela começou a falar. — Diferente da que ele está mantendo Sally. Estou morrendo de medo de que ele esteja fazendo com ela tudo o que fez comigo.
A respiração de ficou um pouco fraca. A voz dela estava baixa e havia uma expressão infeliz em seu rosto. Reid sentiu-se completamente inútil, sem saber o que fazer diante daquela situação, principalmente quando não estava esperando que ela fizesse uma confissão tão íntima. Perguntava-se o tempo todo por que não conseguia lembrar dela. Ou talvez ele nunca a conheceu e tudo era simplesmente uma sensação?
— Do que mais você lembra? — Ele questionou.
soltou o ar pela boca e mexeu os ombros inconscientemente.
— Ele me drogava com alguma coisa... — confessou. — Às vezes, eu acordava sem saber onde estava ou o que estava acontecendo e ele se aproveitava disso. Outras vezes, eu tinha plena consciência.
— Você ficou viciada? — Reid indagou.
Ela o encarou, curiosa.
— Sim. — Admitiu, meio desconfiada. — Como sabe disso?
Spencer engoliu a seco, crispando os lábios em um sorriso muito bem moldado, mas sem sinceridade. Ele tinha memórias e experiência muitos ruins, tanto quanto as dela.
— Passei por algo parecido... — confessou, sem vergonha alguma. — Não tenho orgulho em dizer que pensei em voltar para o que tinha me viciado.
piscou os olhos, sentindo uma compaixão enorme por aquele homem. Ela nunca conheceu ninguém como ele e gostava da sensação de familiaridade que ele lhe causava toda vez que estava perto. Saber que ele tinha passado por uma experiência semelhante à dela tornava a sua simpatia pelo homem ainda maior.
— Houve momentos em que foi fácil ter uma recaída... — acenou com a cabeça, confessando sobre aquilo pela primeira vez. — Se não fosse a Sally ou Ava, eu não estaria aqui agora.
E era verdade. Uma verdade dolorosa de admitir, mas, ainda assim, uma verdade. Aquele sequestro transformou a sua vida em um inferno. Se ao menos soubesse que o homem gentil que conheceu e Carl Courtner eram a mesma pessoa
— É importante reconhecer que temos um sistema de apoio! — Reid tornou a dizer. — Eu…
Ele tentou continuar, mas foi interrompido pelo toque do celular. Quando ele verificou a mensagem no aparelho, encarou a mulher bem ao seu lado, expressando uma cara nada contente.
— Era a JJ... — ele explicou. — Encontraram outro corpo.


ㅤ📍 Sala de Reuniões na Delegacia do Texas/EUA:

Antes de seguir para a reunião, pediu que Reid fosse na frente e lhe proporcionasse um minuto sozinha. Naquele momento, a ex-agente de campo sentia-se vulnerável o suficiente para aparecer na frente da equipe toda, principalmente quando eles eram tão experientes em analisar alguém. Para , era importante mostrar que estava bem emocionalmente, disposta a seguir com o caso. Se fosse afastada dele, iria enlouquecer sozinha, sem saber o que estava acontecendo.
Então, ela respirou fundo, esticou os dedos e esfregou o rosto, testando um sorriso ameno para a situação. Logo em seguida, descartou a ideia. Fosse o que fosse, não era um bom dia — muito menos um bom momento — para esbanjar sorrisos.
engoliu a seco e respirou fundo, finalmente saindo da sala inutilizada e seguiu direto para a sala de reunião, onde encontrou todo mundo reunido. A televisão estava ligada, mas não havia nada sendo exibido, parado somente em um slide que ela não prestou atenção. Quando passou pela porta, vários pares de olhares pousaram sobre ela. piscou os olhos, um pouco incomodada com a atenção e verificou quem estava ali. Todos eles, exceto JJ e David Rossi.
— Alguma novidade? — Ela resolveu questionar, sentando-se em uma cadeira livre na mesa.
Reid não olhava para ela agora. Estava concentrado demais analisando a pasta que estava segurando, os olhos bem atentos no que quer que fosse que ele estivesse em mãos.
— Infelizmente, não muito boa... — Morgan respondeu. — Um dos policiais encontrou um novo corpo.
arfou, assentindo.
— E outra pessoa desapareceu. — Prentiss completou.
Hotchner estendeu uma pasta na direção da agente, a qual aceitou prontamente, abrindo. Na primeira página, havia a foto do corpo encontrado. Um homem, que parecia jovem demais.
— Qual a causa da morte? — Ela perguntou, lembrando que ele não era a primeira vítima.
— Overdose. — O delegado respondeu. — Por injeção direta.
encarou o homem, soltando a pasta em cima da mesa. Inconscientemente, ela tocou o local que a agulha perfurou a sua pele por muito tempo e Reid percebeu o seu movimento. Felizmente para a mulher, a cicatriz não era muito visível, mas aquele assunto lhe rendeu meses e meses de terapia.
— Tem algo que não estamos vendo nesse caso... — Hotchner avisou.
A agente ignorou, encontrando o olhar de Spencer sobre si. Ela relaxou as mãos e os braços, tornando a pegar a pasta de volta. Passou a folha para a página seguinte e engoliu a seco ao encontrar a foto da vítima desaparecida.
Uma garota. Adolescente.
Que não tinha nada a ver com aquela situação e agora tinha sido sequestrada pelo pior homem que já conheceu.
— Quando ela foi sequestrada? — Questionou, sem tirar os olhos da pasta.
— Duas horas atrás. — Morgan respondeu novamente. — E estamos tentando entender como ele passou de homens brancos a uma adolescente.
Reid parou de analisar a pasta.
— Considerando a ligação pessoal da agente com o caso, devemos levar em conta que ele não está seguindo nenhum modus operandi específico. — O doutor sugeriu.
Uma batida leve na porta chamou a atenção. Um dos policiais colocou a cabeça entre a porta, solicitando a presença do delegado em alguma coisa que ninguém prestou muita atenção. Quando o homem pediu licença e saiu logo em seguida, Prentiss foi a primeira a falar.
— Está sugerindo que ele está fazendo isso para chamar a atenção dela? — Ela questionou, observando Reid assentir.
— O comportamento indica isso. — Ele respondeu. — Primeiro, sequestra a irmã dela. E embora esteja sequestrando outras vítimas, Sally é a única que ele mantém viva.
— Ele está provocando você... — Hotchner disse. — É pessoal.
umedeceu os lábios, soltando um suspiro exasperado. Ela deixou os ombros caírem, demonstrando o seu cansaço e recostou-se contra a cadeira que estava sentada, olhando para cada um dos agentes que estavam presentes ali. Ela já sabia daquela informação. Só temia que fosse confirmada, como tinha acabado de ser.
— Eu sei. — Admitiu, recebendo olhares atentos. — Eu soube disso quando descobri que ele trouxe a Sally para o Texas. E pela causa da morte das vítimas.
Ela crispou os lábios, afastando as lembranças indesejadas que estava prestes a invadir os seus pensamentos. Não queria lembrar de nada, não queria ter que lidar com tudo de novo. Os pesadelos tinham acalmado e tudo o que ela menos precisava agora era uma nova crise.
— O que a causa da morte das vítimas tem a ver com você? — Prentiss finalmente perguntou.
franziu o cenho, encarando a mulher. Quando percebeu que os outros — exceto Spencer — estavam a encarando, esperando uma resposta, ela balançou a cabeça.
— Como assim? — inclinou-se sobre a mesa, buscando a pasta maior para si. — Vocês não receberam o arquivo original do caso?
Hotchner e Morgan se entreolharam. começou a folhear as páginas do arquivo, encontrando as informações ali, mas…
— Droga! — A novata murmurou, fechando a pasta com força. — Eu devia imaginar que o FBI esconderia isso.
Não era o ideal, mas era exatamente o tipo de coisa que o FBI fazia. Eles tinham ocultado informações importantes, peças-chaves que ajudariam os agentes compreenderem melhor o caso e com quem estava lidando.
— Agente ... — Aaron chamou, o tom sério. — Pode nos explicar o que está acontecendo?
Ela olhou para Reid, encontrando o olhar do gênio ainda sobre si. Spencer acenou com a cabeça quase imperceptivelmente e a mulher respirou fundo, voltando a encarar o seu chefe temporário, tendo plena consciência que tinha a atenção de Prentiss e Morgan também.
— Eu peço desculpas por isso, mas achei que o diretor tinha entregado todos os detalhes... — ela começou a dizer, entendendo agora que as atitudes da equipe não eram apenas discrição pelo que tinha acontecido com ela, mas sim pela ausência de informações. — Carl Courtner era um agente do FBI.
A expressão de Hotchner fechou totalmente. Se havia algo que o homem não gostava, era aquilo. Ser surpreendido com informações que poderiam ter sido dadas antes.
Prentiss soltou o ar pela boca e Morgan balançou a cabeça. Reid ficou em completo silêncio.
— Por que esconder isso? — Aaron quis saber.
deu de ombros.
— Naquela época, houve muita pressão... — continuou. — Quando o conheci, eu não sabia que ele era a pessoa que estávamos procurando. Me envolvi com ele. Foi por uma noite, mas… — ela balançou a cabeça, meio envergonhada de admitir aquele fato. — Foi a noite que mudou a minha vida.
Os olhos da agente encheram-se de lágrimas e ela piscou rapidamente para afastar. Prentiss, que estava sentada bem ao seu lado, exibiu um sorriso carinhoso e apertou a mão dela.
— Não foi sua culpa. — Garantiu.
assentiu, aceitando o conforto de Emily. Era estranho, mas era bom. Ela não estava acostumada a ser muito confortada.
— E o que aconteceu? — Spencer indagou.
Ela virou o rosto para Reid.
— Nós estávamos caçando um serial killer e, de um dia para o outro, o comportamento dele mudou completamente... — ela explicou, contendo as próprias emoções. Fazia muito que não contava a ninguém sobre o caso. — Passei a receber caixas com partes dos corpos das vítimas. Para ele, era um gesto romântico. Para mim? — Negou com a cabeça. — Eu fiquei horrorizada.
não notou o momento em que Morgan levantou-se da mesa para pegar um copo de água. Somente quando ele estendeu o braço com o copo, foi quando ela notou, aceitando com um agradecimento sussurrado, bebendo um gole para limpar a garganta. Suas mãos tremiam um pouco.
— O caso estava começando a ganhar força e o Diretor estava furioso! — Acrescentou, continuando, ao perceber que eles não iam comentar nada antes que ela terminasse. — Comecei a trabalhar mais. Estava desconfiando que o assassino era alguém entre nós, mas, quando eu descobri, ele me sequestrou. Fiquei presa por semanas, consciente e inconsciente, dependendo da droga que ele me injetava, até ser resgatada. Depois disso, eu não consegui mais trabalhar em campo.
Houve um momento de silêncio. sentia-se constrangida em estar compartilhando o pior momento da sua vida para pessoas que não conhecia há tanto tempo. Ela bebeu mais um pouco de água e tentou conter o tremor das mãos.
— Agente , eu sinto muito que tenha passado por isso! — Prentiss disse. — E sinto mais ainda que você esteja passando por essa situação, de novo, por pura incompetência do diretor.
Morgan sorriu pelo insulto da colega, mas não discordou.
— Com essas novas informações, podemos trabalhar melhor, agora que sabemos o que ele quer. — Aaron informou.
assentiu, pousando o copo na mesa. Estranhamente, ela sentia-se mais aliviada em tirar aquele peso das costas. Ninguém, além da equipe da época que trabalhou com ela, e sua irmã, sabia do que tinha acontecido.
— Sinto muito não ter dito antes... — a agente desculpou-se. — Acho que eu estava em negação. Talvez não quisesse aceitar que a ideia de ele estar obcecado por mim é ainda pior que ele se vingar.
Antes que um deles pudesse dizer mais alguma coisa, a porta foi aberta novamente. JJ entrou, com uma expressão péssima no rosto, andando até a televisão.
— Eu não tenho boas notícias! — A loira avisou, pegando o controle remoto da TV, mudando para um canal de notícias. — Alguém divulgou o caso.



Continua...



Nota da autora: Sem nota.



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