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Prólogo - You can check out any time you like, but you can never leave.


Is this the real life? Is this just fantasy?

Olhei para cima e alguns anjos vinham em minha direção cantando esse pedaço de Bohemian Rhapsody da banda Queen. Olhei ao meu redor e notei que estava deitada no meio de uma clareira numa floresta tipicamente temperada. Então é isso, eu morri após o meu primeiro show? De repente, e James estavam ao meu lado, eles sustentavam o olhar fixo em mim, mas eu tinha essa sensação de que apesar de estarem me encarando tão veemente eles não conseguiam me enxergar ali.

Caught in a landslide, no escape from reality.


E então tudo mudou. Eu não estava mais na clareira de momentos antes, dessa vez eu afundava rapidamente na areia movediça, e o pior de tudo é que ninguém me ajudava. Entrei em um desespero que não cabia dentro de mim, gritava por ajuda e não entendia o porquê não havia ninguém ali para me socorrer. Por que não havia ninguém aqui? Tentei gritar ou James, o que acabou dando certo, pois eles apareceram no topo do buraco ao qual eu estava afundado, mas eles simplesmente viraram as costas ao perceber onde eu estava. Um pedaço de madeira entrou no meu campo de visão e então o agarrei com todas as minhas forças, quando cheguei em terra firme vi Emma, Adam, , e Kaya sorrindo para mim. Eu estava me sentindo em casa novamente, a sensação de desespero havia passado e eu podia respirar tranquilamente.

Open your eyes look up to the skies and see.


A sensação de tranquilidade não durou muito. Tudo ficou escuro, um monstro gigante apareceu. Era preto, tinha garras e dentes afiados e levou Kaya consigo. Os outros que restaram continuaram ao meu lado e começamos a correr, entramos em uma floresta densa, grandiosa, tropical, mas ainda assim estava à noite e não conseguíamos ver um palmo diante de nós, até que depois de corrermos muito, vimos um rio enorme. Seria o Tâmisa? Não, nem um pouco tropical. Talvez o Amazonas, quem sabe? Afinal o Brasil é minha terra natal. A luz da lua cheia refletia no rio e em sua borda estava um homem, não consegui identificá-lo de imediato, seu rosto não era definido, era como se fosse um borrão. O homem sem rosto nos seguiu nessa tentativa desesperada de escapar do monstro que nos caçava. Ficamos abraçados ali juntamente com o homem sem rosto, apenas observando a luz da lua refletida no rio, a luz era boa, nos dava aconchego e esperança. Até o momento em que escutamos um barulho dentro da floresta, ele começou calmo, como um rastejar, mas depois o rastejar se tornou frenético e notamos que o monstro havia voltado, então começamos a correr novamente. Dessa vez ele estava atrás de mim, POR QUE EU? Os anjos começaram a cantar mais alto e mais forte do que a suave aparência deles permitia.

Beelzebub has a devil put aside for me for me, for me.


E como se eu tivesse entrado em contato com uma corrente elétrica de mil volts, eu acordei de forma repentina e assustadora com o toque do meu celular. Quando fui alcançá-lo ele parou de tocar. Olhei ao meu redor, e a sensação de desespero do meu pesadelo se transferiu para a realidade. Eu estava em um quarto completamente sujo, as paredes eram de um tom amarelado, os móveis estavam postos de maneira totalmente desproporcional no cômodo, havia roupas e objetos espalhados no chão, no sofá. Havia resquícios de um pó branco na mesa que ficava no centro da sala, seringas do lado do sofá e elásticos relativamente usados ao lado delas. Como num piscar de olhos a noite passada havia retornado, eu me lembrava de tudo, ou quase tudo. Mas uma coisa era certa, eu sentia medo, um medo imensurável dentro de mim. Eu não sabia onde estava, não sabia com quem eu poderia ter feito as coisas que fiz. Eu precisava sair dali. Peguei meu celular e li no visor “37 chamadas perdidas”, metade das ligações eram de e a outra metade de . Eu estava ferrada. O que me restava a fazer era retornar as ligações, o que não foi preciso porque assim que a ideia veio à minha cabeça eu recebia a minha trigésima oitava ligação.
- ? – ele dizia do outro lado.
- , eu posso explicar.
- , onde você está? – eu podia sentir a mandíbula de apertar de raiva a cada palavra que ele pronunciava.
- Eu não sei. ... Você pode me buscar? – falei segurando meu choro.
- O que você fez dessa vez, ?
- Só me busque. Por favor.
- Estou indo.
Após aproximadamente uma hora e meia de espera e desalento, chegou para me tirar desse lugar terrível. Assim que avistei seu carro na rua corri o mais rápido que pude e entrei nele. O que talvez tivesse sido um erro, entrar no carro de e ter que o encarar depois dos últimos acontecimentos da minha vida me dava um frio na espinha que transmitia sentimentos variados que iam de alívio à dor.
- Ei. – falei sem graça – Eu... Muito obrigada, .
Não recebi nada além do silêncio como resposta. Durante todo o caminho até nosso apartamento ficamos em silêncio, vez ou outra observava e sua feição tensa. Quando paramos no estacionamento, Hotel California tocava no rádio, muitas vezes a vida gosta de adicionar uma pitada de ironia em alguns momentos, e era exatamente isso o que ela estava fazendo comigo agora, adicionando pitadas e mais pitadas de ironia. Tudo o que eu precisava ouvir agora era uma música que com toda sua abstração tem como um dos significados o consumo de drogas. Tendo como referência os últimos meses que vivi o verso “you can check out any time you like, but you can never leave¹ nunca pareceu tão verdadeiro quanto agora. estacionou o carro, girou a chave na ignição e assim como havia desligado o carro, o som também se cessou no meio do solo de Don Felder². Ele me encarou por um tempo e apenas disse:
- Vamos subir.
Eu o segui até o elevador e de lá até nosso apartamento, sua postura era rígida, beirando a imobilidade. Quando chegamos em nosso apartamento ele se sentou no sofá e me direcionou um olhar que eu interpretei como um “precisamos conversar”.
- ... Eu não consigo mais. – ele disparou olhando para o nada.
- , eu prometo...
- Eu não aguento mais viver de promessas, . Você sabe disso. – ele aumentou o tom de voz – Eu não tenho mais dedos nas mãos para contar todas as vezes que tive que te buscar de lugares que eu não conheço, tirar você de perto de pessoas estranhas e...
Ele perdeu a fala e me encarou novamente, eu comecei a andar até parar na sua frente e depois me ajoelhei para ficar da mesma altura que ele.
- Eu não consigo, não tenho mais forças. – ele olhava para mim e pude perceber que ele estava com uma aparência deplorável – Eu te amo, . Eu te amo tanto que chega a doer, mas eu preciso me amar também. Eu preciso sentir por mim o amor que sinto por você.
Era dilacerante ver o que eu havia causado à , a dor que era para ser emocional era tão grande que parecia ser física. Eu podia sentir meu coração ser esmagado, e pelo jeito o dele estava mais amassado que o meu.
- , eu não posso te prometer nada, mas eu vou tentar, eu juro que vou tentar sair dessa. Eu gostaria de ter uma segunda chance.
- , o problema não é esse! Você já teve sua segunda, terceira, quarta chances! Eu sei que esse momento é complicado, mas eu não posso viver assim, você se autodestrói e como efeito colateral eu sou destruído também. Nós temos que terminar com isso.
Eu não podia fazer mais nada, ele estava completamente certo.
- Eu vou ligar para a e ver seu eu posso ficar na casa dela.
- Não, eu liguei pro ontem. – ele disse mordendo os lábios – Eu vou pra lá hoje, você pode ficar com o apartamento, amanhã eu volto para buscar minhas coisas.
Ficamos nos encarando durante um tempo, até que ele beijou minha testa e saiu.
Ele foi embora e eu fiquei aqui.
Sozinha.

Notas do Prólogo:
¹: "You can check out any time you like, but you can never leave" é um trecho da música Hotel California da banda Eagles, a tradução é "Você pode assinar a saída quantas vezes quiser, mas você nunca poderá sair".
²: Don Felder foi o guitarrista e vocalista da banda Eagles.




Capítulo 1 - Mais dis-moi adieu demain.


Amiens, França. Junho de 2010.

A vista da janela nunca tinha parecido tão interessante para mim como nessas últimas semanas, mas a realidade é que você dá mais valor às coisas à sua volta quando está prestes a perdê-las. Eu podia ver claramente quase toda a cidade, todas aquelas casinhas típicas francesas com seus telhados em forma de V invertido, o rio Somme cortando os bairros da cidade como uma grande cicatriz e ao fundo podia ver o topo da Catedral de Amiens. Tudo tão perto, tão bonito, e ao mesmo tempo tão longe.
As caixas de mudanças enchiam o jardim da minha casa, e eu já não conseguia mais suportar isso. Outra mudança, e com ela novos hábitos. Ao longo da minha vida eu já perdi as contas de quantas amizades se desfizeram ao longo do tempo, mas também de quantas novas amizades eu fui capaz de construir. Mas suponho que isso é igual para todo mundo, independente das circunstâncias. Mas o meu problema não é aquilo que me une com todos, mas a circunstância que me diferencia das outras pessoas.
Os meus 16 anos de vida foram significantemente marcados por idas e vindas de pessoas e lugares, o que continuo supondo que seja natural, mas como já disse, são as minhas circunstâncias que me afetam. E a circunstância determinante da minha vida é o emprego do meu pai em uma grande multinacional especializada em petróleo. Por causa do meu pai, nossa família se mudou para o Rio Grande do Norte e eu acabei nascendo lá e passando grande parte da minha infância naquele estado maravilhoso. Aos 6 anos meu pai foi deslocado do Brasil para o Catar, o que foi um grande choque para todos nós, pela nova língua, nova cultura, novo ambiente muito mais quente e árido. Para o meu pai isso significou um grande aumento no seu salário, principalmente pelo grande crescimento que o país passou a ter nesse setor, mas para mim, uma pequena criança de 6 anos, isso significou um novo mundo a ser descoberto, mas infelizmente esse descobrimento foi uma fase que passei sozinha.
Quando completei 9 anos recebi a notícia de que iríamos nos mudar novamente, dessa vez para um país com uma cultura mais parecida com a nossa, o que deduzi que seria muito mais fácil para mim. Quando dei por mim estava em um avião só de ida para a Noruega. Não foi exatamente mais fácil como haviam me prometido, havia uma nova língua a ser aprendida, mas pelo menos dessa vez eu tinha o suporte do inglês, se em um lugar o meu maior obstáculo era o calor, dessa vez o meu maior vilão seria o frio congelante. Meu caminho por esse país foi menos solitário, e nesse sentido a promessa foi cumprida, as amizades que fiz tornaram a minha estadia mais tolerável.
Então aos meus 11 anos eu enfrentei pela primeira vez na minha vida a dor do adeus, e infelizmente isso se repetiu aos meus 12 anos na Nigéria, aos meus 13 anos no Canadá, e agora aqui na França. Já estou acostumada a essa cena, mas o fato disso ter se tornado um costume não torna a situação toda menos dolorosa, a dor do adeus é tão ruim e devastadora que eu não desejaria ela nem para o meu pior inimigo. Parece que fiquei perdida em meus devaneios por muito tempo quando finalmente reparei uma figura encostada no vão da porta me observando.
- Vocês já estão empacotando tudo. – Chloe observou com os olhos marejados e eu acenei com a cabeça – Você não ia se despedir de mim.
- Chloe, eu não consigo mais...
- Não é uma questão de capacidade, , é uma questão de consideração.
- Você sabe que eu te adoro, Chloe, mas a questão não é essa. A questão é que eu não consigo mais me despedir das pessoas que são importantes pra mim, dói demais deixar tudo pra trás e ser forçada a construir tudo de novo. – disse com minha voz falha.
- Eu sei disso, por isso eu vim. – ela disse com um sorriso fraco no rosto.
Era isso que eu mais odiava, essa despedida, esse sentimento de nunca mais rever quem eu amo.
- Obrigada por vir, você sabe que eu te amo, né? – disse enquanto as primeiras lágrimas escorriam do meu rosto.
- Eu sei disso. – ela disse passando as mãos no meu rosto e limpando minhas lágrimas – Você sabe também que eu te amo muito, e que você é a melhor amiga que alguém pode ter. E eu vou te visitar na Escócia, todas as férias.
Eu admirava, e com certeza sentiria muita falta dessa capacidade da Chloe de por um segundo se esquecer de todos os seus problemas e se concentrar no problema dos outros, eu gostaria de ter isso, mas um por uma razão não conseguia, sou egoísta demais pra isso.
- Eu acho bom mesmo. Caso contrário eu volto aqui pra cortar seus peitos fora. – falei rindo.
- Vou fazer de tudo pra evitar que isso aconteça. – ela disse me dando um forte abraço.
- Porque você vai morrer de saudades de mim.
- Não, é porque eu amo meus peitos mesmo. – ela disse rindo.
E por um segundo tudo parecia estar bem, estar ali com Chloe rindo como se nada pudesse nos atingir, mas aí eu o avistei. Aquele pequeno envelope que continha toda a minha covardia, todo meu egoísmo. E de repente o meu sorriso se transformou em tristeza novamente.
- Posso te pedir um favor? – falei com a cara mais séria que consegui.
- Claro.
- Pode entregar essa carta pro Theo pra mim? – falei enquanto ela retorcia a cara – Se você não quiser entregar está tudo bem...
- Você sabe que eu entrego, eu só acho que em primeiro lugar, uma carta? Sério mesmo isso, ?
- Muito romântico?
- Muito idoso, isso sim. Ninguém mais perde seu tempo escrevendo uma carta. – eu comecei a encará-la e então ela se deu conta – Tudo bem, você perdeu seu tempo escrevendo uma carta para ele, para demonstrar seu amor por ele...
- Minha consideração.
- Essa doeu, , agradeça a Deus que só eu estou aqui pra ouvir isso e eu tenho que acrescentar depois dessa que eu quero morrer sua amiga.
- Deixa de ser besta.
- Em segundo lugar, eu acho que você mesma deveria entregar essa carta a ele, até o Mr. Darcy fez isso pra Elizabeth.
- Você não pode me comparar com o Mr. Darcy, nós duas sabemos que ele é um ser superior a todos que já pisaram nessa Terra.
- Ça m'est égal, . Só acho que ele merece mais do que isso.
- Eu sou covarde.
- Não foi covarde quando ele tirou sua virgindade.
- CLHOE!
- Você sabe que eu estou certa. – ela disse e eu respondi revirando meus olhos – Liga pra ele, manda uma mensagem, qualquer coisa do tipo, .
Mas eu estava irredutível.
- Você tem certeza disso? – ela disse seriamente.
- Tenho, me despedir de você já é difícil demais, não quero nem pensar em como vai ser difícil me despedir dele.
Ficamos nos encarando por mais um tempo quando minha mãe chegou no quarto.
- Chloe! Não vi você entrar! – ela disse sorrindo
- Só vim me despedir da .
Assim que Chloe disse isso pude ver o sorriso da minha mãe se desfazer enquanto ela se virava para o outro lado. Se tinha alguém que conhecia bem essa situação que eu estava passando, essa pessoa era minha mãe.
- Saiba que nossas portas sempre estarão abertas pra você, Chloe.
- Eu sei disso, e já falei com a que eu vou ir visitar vocês sempre que puder.
- Pelo próprio bem dela. – disse sorrindo fazendo um gesto de tesoura com minhas mãos.
- Bem, eu já vou indo. – Chloe disse me olhando e me abraçando pela última vez – Eu vou sentir sua falta, .
- Eu também. Te amo, ok?
- Eu também. – ela disse enquanto eu a via sair do meu quarto.
- ?
- Sim, mãe.
- Tudo pronto?
- Quase lá. – respondi vagamente.
Minha mãe era esperta demais para não notar a frieza do meu tom, ela ficou me encarando durante um bom tempo.
- Eu sei o que você vai falar, querida, mas pense bem...
- É uma nova oportunidade de fazer amigos e conhecer outra cultura, principalmente para mim, que provavelmente vai fazer Relações Internacionais, eu sei, eu sei. Eu já ouvi isso tanto de você como do papai diversas vezes, mãe. O que acontece é que... Eu estou começando a ficar cansada disso, sabe? Eu nunca me apego a ninguém justamente pelo medo de me mudar novamente, eu nunca sei quando que o papai vai ser transferido de novo e já estou ficando farta de dizer “adeus” para os meus amigos.
- , você tem a nós. Ainda vamos passar as férias de verão em Manchester com seus tios, vai ser bom pra você, vai estar lá e pode te apresentar para os amigos dela. Não estrague essa oportunidade antes mesmo de chegar lá.
- Não importa mãe. – eu disse saindo de perto da janela e pegando a última caixa que restava em meu quarto – Vamos embora.
E assim Amiens estava ficando para trás enquanto a Escócia ficava cada vez mais próxima ao meu toque.

Capítulo 2 - I've become so numb I can't feel you there.


Londres, Inglaterra. Junho de 2014.

As últimas duas semanas passaram como um borrão na minha cabeça. Ter a cena de pegando suas coisas e indo embora do apartamento presa na minha cabeça era nada mais do que torturante. No final das contas eu percebi que tudo o que estava acontecendo comigo nesse momento era pura e somente minha culpa, consequências dos meus atos imprudentes. Ver saindo pela porta do nosso apartamento foi o momento em que me dei conta de que realmente atingi o fundo do poço.
Nesse momento eu não tinha nenhum conforto, nenhum reforço. E quando eu me sentia assim, só havia uma coisa que eu podia fazer, me render novamente à tentação de sentir entorpecida, de esquecer completamente todos os meus problemas, mesmo que por alguns minutos. Mas o pior de tudo era a sensação de devastação que vinha após o entorpecimento, uma vivência no inferno depois do toque do paraíso. Eu já havia causado devastação demais nos últimos dias, então a única solução que me restava era procurar alguém que eu pudesse conversar.
- Você está parecendo um trapo. – disse ao abrir a porta.
- , você é sempre tão amável. – falei entrando em seu apartamento.
- , você acha que eu estou brincando, mas eu estou falando sério, muito sério. Você está extremamente magra e... Que cabelo é esse?
Eu a encarei para demonstrar que eu estava ali para ter uma conversa séria. além de minha prima, também é minha melhor amiga, ela tem um jeito bem de ser, mas é isso que eu amo nela. Não importa o quão ruim você esteja ela sempre está lá para levantar seu astral.
Bem, é assim na maioria das vezes.
- Há quanto tempo você não conversa com ele? – ela perguntou fazendo carinho na minha mão.
- Desde quando ele saiu de casa.
- Se isso te ajudar de alguma forma, eu posso te garantir que ele também está tendo um tempo difícil.
- Isso não ajuda em nada, , só mostra o quão grande é a minha capacidade de machucar as pessoas. Aparentemente todos ao meu redor estão tendo um tempo difícil.
Ter o silêncio como resposta nunca foi algo que me torturasse, o silêncio pode te dizer tantas coisas, mas nessas últimas semanas o silêncio que eu recebia era apenas uma abreviação da decepção que eu estava causando. E o que me torturava mais não era notar a decepção em si, mas notá-la em e em , duas das pessoas que eu mais amo na vida, isso sim me machucava.
- O que eu vou dizer agora pode parecer um disco arranhado, mas eu realmente quero parar, . Eu não quero ver as pessoas se afastando de mim mais, eu não quero ser um mau exemplo.
- Eu sei disso, . – ela disse com um sorriso discreto no rosto – Eu sei que você está tentando, mas você precisa ter força de vontade, você precisa buscar ajuda, . Não estou falando de vir aqui conversar comigo ou com qualquer outra pessoa...
- Eu não vou para uma clínica de reabilitação.
- É a sua melhor opção, , imagina se você tiver uma recaída e, Deus me livre, uma overdose? Você deveria encarar a sua saúde mais seriamente.
- Eu não estou suportando, . Eu não quero ver o que saiu nos tabloides, eu não quero conversar com ninguém, além de você. Eu só quero ficar sozinha por um tempo, para colocar meus pensamentos no lugar e tudo mais.
- Eu posso imaginar.
- Mas e Kaya?
- Não muito melhor do que você. – ela disse me fuzilando com o olhar.
- O que nós viramos?
- Eu tenho que te dizer isso. No início toda essa ideia de ter uma banda de rock era fabulosa, um sonho sendo realizado. Você e sua aura de predestinada, seu encanto ao falar de música. – ela disse sorrindo – Você sempre teve um brilho no olhar quando falava de música. Acho que todas nós pensamos que seguir esse caminho era apenas andar em uma estrada de tijolos amarelos cheia de felicidade e sem desafios. No final das contas nossa estrada teve e tem muito mais desafios do que pensávamos. Você e Kaya se deixaram levar e agora sabe no que deu...
- Você pode me perdoar? – olhei para ela buscando algum conforto.
- Você não tem que pedir perdão pra mim, .
- Isso tem que ser tão difícil assim?
- Só se você quiser, há quanto tempo está limpa?
- Desde o dia que saiu de casa, mas é difícil. Sempre tem aquela sensação de vazio, e esse vazio pode ser preenchido por alguns minutos ou horas se eu apenas desistir e ser fraca. O problema é que o vazio sempre volta mais forte e mais devastador.
- Já te disse isso várias vezes e vou repetir, não é vergonha pedir ajuda, . Na verdade todos nós precisamos de ajuda em algum momento de nossas vidas, e esse momento que você está vivendo, você não pode enfrentá-lo sozinha. Só se lembre de que nenhum homem é uma ilha, .
- Eu não quero recorrer a clínicas de reabilitação ou psicólogos, . É humilhante eu ter chegado a esse ponto.
- Não é humilhante, , significa que você quer melhorar, e além do mais, você sabe que nós estaremos ao seu lado. E eu tenho certeza que mesmo de longe também estará.
- Eu realmente espero que você esteja certa.
- Eu sei que estou. – ela completou a frase com um sorriso.
- ...
- Sim?
- Você não acha que é loucura começarmos a turnê na próxima semana?
- Não. – ela disse tentando mostrar segurança em sua voz, mas eu pude sentir a dúvida em sua falsa convicção.
- Com toda essa situação de Kaya e eu estarmos envolvidas com... Você sabe. – a vergonha passou a integrar a minha vida de vez.
- Eu acho que vai ser bom para vocês viajarem pela Inglaterra, vocês vão ficar longe de tudo. Então eu acho que vai dar certo.
Eu, acima de qualquer pessoa, sabia que quando se tem um vício sempre se pode encontrar um meio de saciá-lo.
E eu tinha medo de encontrá-lo.

- QUEENS OF THE JUNGLE! QUEENS OF THE JUNGLE! QUEENS OF THE JUNGLE! QUEENS OF THE JUNGLE! - aproximadamente 18.000 pessoas estavam na O2 Arena gritando pelo nome de nossa banda. Eu estava maravilhada, há cerca de dois anos e meio atrás eu não poderia imaginar que tudo isso iria acontecer na minha vida, mas aconteceu, e devo ser grata às minhas amigas por trilharem esse caminho comigo.
Mas ainda faltava algo aqui dentro de mim.
E eu não podia suportar tê-lo perdido da maneira que perdi. Eu iria recuperar , mas naquele momento eu tinha que engolir meus sentimentos, ou melhor, fingir que não os tinha e continuar com o show. Afinal, ninguém precisava saber do meu vazio além de mim.
- Vocês estão prontos para a próxima? – eu gritei no microfone.
- YEAH! – recebi a resposta calorosa da multidão.
- Vocês estão prontos para a próxima? – gritei novamente.
- YEAH!
- Então esta é Bright Blue Eyes! - assim que terminei a frase começou uma gritaria de aprovação da multidão e meu solo de guitarra começou a ecoar pela O2 Arena.

- Mandaram bem garotas! – Jeremy Winshaw, nosso empresário, dizia enquanto entrávamos na festa de comemoração de encerramento da nossa turnê.
Já havia dois meses que estávamos viajando pelo Reino Unido realizando shows e outros eventos. Havia dois meses e duas semanas que não falava com , e consequentemente, dois meses e duas semanas que eu estava limpa, e isso era um alívio agridoce que eu carregava no peito.
- Aproveitem a festa, vocês merecem, garotas! – Jeremy disse e depois se virou para mim – , preciso falar com você, me encontre lá em cima quando terminar de cumprimentar os convidados.
- Tudo bem.
Eu sabia que a conversa com Jeremy não ia ser fácil, então me apressei ao máximo para terminá-la logo. Subi as escadas correndo e bati na porta.
- . – Jeremy disse apontando para o sofá que estava em sua frente – Não se preocupe, isso não é uma bronca, muito pelo contrário.
Assim que ele terminou de dizer isso eu me sentei tranquilamente no sofá.
- Primeiramente eu gostaria de dizer que eu tenho uma admiração absurda por você, , você sabe que isso não é novidade. – ele dizia cada palavra me encarando – Você vive para a música e pela música, sempre com um brilho no olhar e uma genialidade de dar inveja a muitos instrumentistas. Você é uma inspiração para diversos jovens ao redor do país e isso é inegável. Em segundo lugar, sendo sincero com você, eu devo admitir que a maior decepção da minha vida foi quando soube do seu envolvimento com drogas.
- Eu tenho plena certeza disso. – falei sustentando o olhar.
- E quando eu soube que você e tinham terminado, eu não tinha o mínimo de confiança em você, para falar a verdade eu achava que você ia piorar bastante e que o seu caminho já estava sem volta. Eu jurava que você ia ser o maior prejuízo da minha vida, eu fiquei a um fio de cancelar essa turnê e devolver o dinheiro para os fãs. Ainda bem que pode ser bem convincente quando quer.
Eu não posso negar que naquele breve momento eu experimentei o céu e o inferno ao mesmo tempo.
- Parabéns pela responsabilidade. – ele disse esticando a mão para um aperto, e retribuí o gesto – Não me decepcione.
- Não irei. – conclui com um sorriso no rosto.
- Pode ir agora. – ele disse e eu me direcionei para a porta. – .
- Sim?
- Chame Kaya, por favor.
- Tudo bem.
Desci as escadas novamente e voltei para a festa do nosso pós-show, conhecia todos os rostos que estavam ali com a palma da minha mão, sabia exatamente o que cada rosto poderia me oferecer, para o lado bom e para o lado mau. Nesse mar de rostos comecei a procurar por Kaya e assim que a avistei corri para chamá-la.
- Kaya!
- Oi, . – ela deu um sorriso amarelo que eu já sabia muito bem o significado – Estou indo com o Eric em um lugar aí, você vem?
- Você sabe que não, Kaya. – falei séria.
- Ops, esqueci que você está “limpa”. – ela disse com um sorriso sarcástico.
O clima entre Kaya e eu, ou melhor, entre Kaya e a banda, ficou mais pesado quando eu decidi ficar limpa. Ela me julgava fraca, enquanto eu e os outros a minha volta estávamos orgulhosos de mim, queríamos dar apoio para ela sair dessa, mas ela simplesmente recusava.
- Estou sim, muito obrigada. Jeremy está te chamando e se eu fosse você eu iria o mais rápido possível. – falei seca e saí o mais rápido possível de seu alcance.
Já era para eu estar acostumada a esses olhares penetrantes e julgadores que as pessoas me direcionavam, mas de alguma forma, de alguma forma...
Eu não me acostumaria nunca.
A parte engraçada de se ter uma vida pública é que as pessoas começam a pensar que sabem tudo sobre você, e acabam por te julgar sem conhecimento de causa. A verdade é que ninguém sabe pelo o que eu passei, pelo o que eu passo, pela sede de vício que eu tenho diariamente, ninguém sabe do meu sufoco, só eu.
E ainda assim... Ainda assim havia alguma coisa errada com esses olhares que me encaravam. Eram olhares julgadores, como sempre, mas havia neles um toque de... Pena?
Para me afastar desses olhares fui direto para o bar, não que eu fosse beber nada, afinal, até o álcool está fora da minha lista.
- Um copo de água, por favor. – falei para o garçom.
E assim como um piscar de olhos, estava ao meu lado.
- Conselho para uma noite tranquila: não cheque internet, twitter ou qualquer coisa do tipo. – ela disse séria.
- Por quê? , se você sabe de alguma coisa me fale agora, você sabe o tanto que eu odeio essa brincadeira de me contar uma coisa pela metade e depois sair, era melhor que não tivesse falado nada...
- Não precisa se preocupar com nada, só me prometa uma coisa.
- Ok, não vou olhar nada. Prometo. – falei colocando um fim na história enquanto ela saía de perto de mim.
- Aqui sua água. – o garçom disse me entregando o copo com um sorriso – E posso acrescentar que eu sou apaixonado pelo álbum II, eu acho que vocês fizeram um trabalho perfeito nele. E essa matéria que saiu no E! é balela, não acredite em nada do que eles falaram.
- Primeiramente muito obrigada. – falei sorrindo, e então o clique veio à minha cabeça, era alguma coisa relacionada a mim que havia saído no E!, eu precisava descobrir o que era – Será que você poderia me emprestar o seu celular por um segundo?
- Claro. – ele disse com o maior sorriso me entregando o aparelho.
Corri diretamente para o site da emissora e li a manchete que ocupava o maior espaço da página. “ e : as drogas, a decadência e o término segundo fontes confiáveis.” Bem, pelo menos eu sabia agora o motivo das pessoas estarem com aquele olhar de pena para mim. A curiosidade crescia dentro do meu peito, eu sabia que o certo a fazer era esperar chegar em casa e aí sim ler a notícia, mas eu não iria conseguir, e com o maior aperto no coração abri a notícia e comecei a lê-la.
Nessa sexta-feira, 22, a E! Online recebeu fortes babados de um amigo do cantor da banda One Direction, . Segundo a fonte, nossa queridinha cantora brasileira, , está envolvida com drogas desde o fim do ano passado, o que convenhamos, não é nenhuma novidade para o mundo. A questão é a frequência e a intensidade do uso das drogas aumentaram bastante. Isso seria o maior motivo que teria motivado o fim do relacionamento dos pombinhos junto com o cansaço que a cantora estaria proporcionando ao integrante da 1D, segundo o amigo do cantor, já não suportava mais as recaídas da garota, suas novas e perigosas amizades, e o sofrimento que ela causava à ele e já queria há um tempo terminar com tudo. Tudo o que sabemos é que há mais de dois meses os dois não são vistos juntos, está na pista procurando por alguém que o faça bem e pelo jeito nossa querida realmente está indo de mal a pior.
A sensação que eu não sentia com tamanha imensidade havia voltado novamente. A secura na boca, o aperto no peito, minha imensa tristeza, meus olhos ardiam novamente. Eu era realmente digna de pena. Entreguei o celular para o garçom que já havia passado a me olhar com preocupação. Eu era um estorvo na vida de todos, tinha consciência disso, mas era muito diferente EU ter consciência de algo e o MUNDO ter um breve conhecimento disso. Eu estava sendo sufocada novamente, a festa inteira girava a minha volta, ardência, tudo o que eu podia sentir era ardência, agonia, tristeza, aperto no peito, minhas ideias já não estavam mais claras. E tudo clareou quando Kaya saiu de supetão da sala de Jeremy, então gritei por ela que logo se virou para mim e puxou o meu braço.
O caminho para o apartamento de Eric nunca tinha sido tão longo e devastador, as lágrimas saltavam dos meus olhos sem controle. NINGUÉM sabia o que eu passava, NINGUÉM tinha o direito de se meter na minha e com certeza NINGUÉM tinha o direito de espalhar os meus problemas para o mundo. Eu era miserável, eu sabia disso, EU. EU. EU. EU. EU SABIA DISSO.
Kaya e Eric me arrastaram para cima, já estava no ponto de não saber mais mover os meus pés, então eu o avistei novamente. Aquele velho conhecido organizado em fileira capaz de cessar toda minha agonia. Aquele velho conhecido que iria me fazer melhor. Então sem dúvidas eu peguei o canudo da mão de Kaya e cheirei pela minha cura.
Então tudo estava mais leve, o mundo podia explodir a minha volta que eu não iria me importar.
Nada mais importava.

Capítulo 3 - And you'll never see your home again. Oh Manchester, so much to answer for.


Paris, França. Junho de 2010.

- Você tem alguma preferência pela janela ou pelo corredor? – a mulher da companhia aérea disse com o seu sorriso plástico e incrivelmente falso. Se tinha um mistério no mundo que eu tinha a infinita vontade de desvendar era o porquê pessoas que trabalham em companhias aéreas e hotéis sempre apresentam esse mesmo sorriso, não importava a situação. É humanamente impossível alguém sorrir 24 horas por dia, não sei se isso é efeito de alguma droga louca e feita exclusivamente para eles ou simplesmente o resultado de uma cirurgia plástica que esticou de vez todos os músculos do rosto e congelou esse sorriso ridículo ali.
- Pode ser a janela. – disse seca. Era melhor mesmo ver a vista do meu país pela última vez, já ia me sentar separada dos meus pais e por algum azar, ou sorte, do destino não trabalho em nenhuma dessas profissões que exigem que eu me torne uma boneca de cera que sorri todo o tempo, então não tinha a menor obrigação de ser gentil e amigável com a mulher. Não com esse humor.
E eu não sou o tipo de pessoa que nega o humor para agradar aos outros.
Nunca.
- Assento 26A, o embarque começará às 09h45 pelo portão 07. – ela disse com o seu sorriso que me dava vontade de vomitar.
Peguei as passagens de sua mão e saí dali o mais rápido que pude em direção aos meus pais. Ainda faltavam quase 40 minutos para o embarque começar então fiz a única coisa que sabia que faria o tempo passar mais rápido que o de costume, tirei da minha bolsa meu iPod e meu exemplar de A Tormenta de Espadas e deixei G. R. R. Martin me levar para o seu mundo mágico, esquecendo assim da minha realidade esmagadora.
Sansa Stark, 12 anos e refém em Porto Real. , 17 anos e refém dos aeroportos. Não sei se faço isso porque me convém, ou se é realmente uma coincidência desagradável e irônica que estava ali na minha frente, mas é incrível a maneira como a arte muitas vezes pode se misturar de uma forma tão esquisita com a vida. Ou não. Afinal, Sansa ainda tinha a esperança de fugir dali com Sor Dontos. E eu não tenho nem sequer um projeto de bobo as corte pra me ajudar a escapar da minha própria vida. Acho que minha mãe estava certa, às vezes eu era egoísta demais.
Minha mãe me cutucou no ombro, me tirando dos meus devaneios, e me indicou que já era hora de embarcar. Peguei minha mala de mão e comecei a segui-la pelos corredores do aeroporto até entrar na aeronave. Meus olhos já ardiam pela minha luta contra as lágrimas que queriam descer pelo meu rosto.
A aeromoça me dirige um “bom dia” com seu sorriso plástico. Você não pode chorar, penso.
1, 2, 3, 4, 5...
Assento A fica para o lado direito.
6, 7, 8, 9, 10.
Você não pode chorar.
11, 12, 13.
Meus pais se assentam longe de mim.
14, 15.
Você não pode chorar.
16, 17, 18, 19, 20.
A Escócia também será boa para você.
21, 22, 23, 24, 25.
Mas não tanto quando a França.
26.
Me assento. E não posso chorar.
Um senhor de mais ou menos cinquenta anos se assenta na poltrona do corredor, deixando a poltrona do meio vazia. Ele pega de forma desajeitada os fones de ouvido, rompe o plástico que os envolve e completamente sem jeito começa a procurar onde irá conectá-los.
- Você pode ligá-los aqui. – disse apontando o lugar.
- Obrigado. – ele disse com um sorriso verdadeiro no rosto e eu fiquei agradecida pelo calor humano transmitido naquele simples ato. Aprendam com esse senhor, aeromoças!
O comandante da aeronave começou a se apresentar para os passageiros e eu já tinha me decidido que não ia prestar atenção nesses filhos da puta que facilitavam a minha partida. E então eu notei o contraste entre eu e meu companheiro de viagem. O senhor, completamente maravilhado, prestava atenção ao anúncio do homem.
- É a primeira vez que eu viajo de avião. – ele disse entre risos – E a primeira vez que estou saindo da França.
Eu não sabia o que responder, então simplesmente sorri em resposta e voltei o meu rosto para a janela, e me dei conta que ele fez o mesmo. E novamente o contraste entre as nossas situações atacava, ele sorria abertamente e as lágrimas voltaram a teimar em lutar contra a minha vontade de não chorar enquanto o avião se dirigia para a pista de decolagem, e então eu permiti que uma lágrima cabeça-dura caísse. Tudo então estava se tornando realidade, eu estava perdendo a minha casa.
De novo.
O avião ganhava velocidade e o maior erro que eu podia ter cometido foi deixar aquela única lágrima cair, porque agora todo o sentimento de perda vinha como uma avalanche para cima de mim e eu, literalmente, podia sentir o meu coração sendo arrancado do meu peito, e tudo tinha começado com uma lágrima. Uma pequena lágrima, que agora havia se transformado em duas, quatro, oito, uma completa avalanche de lágrimas em meu rosto.
Eu virava minha cara cada vez mais em direção à janela para evitar que o senhor visse o meu choro, mas ele estava entretido demais na ideia do avião estar saindo do chão que não ligava muito para mim. Ele ria, eu chorava. Ele ficava impressionado com a visão de Paris vista de cima, eu nostálgica. Ele lutava contra o cinto para se levantar da poltrona e ver a cidade diminuindo conforme o avião subia, eu lutava contra o tempo implorando para voltar alguns dias atrás. Era o contraste mais agridoce que eu tinha sentido na minha vida, e eu não sabia se me sentia agradecida ou miserável por presenciar um momento desses. O contraste estava dentro do avião, estava dentro do meu coração, estava por todas as partes.

O avião começava a fazer o seu movimento de pouso em solo inglês e quanto mais próximo da terra ele ficava, maior era o meu enjoo. Já estava começando a pensar que o meu corpo reagia involuntariamente por meio do enjoo e da náusea a essa minha nova mudança, e eu como uma tonta achando que já estava acostumada a essas situações. O piloto já anunciava o pouso para toda a aeronave e eu só conseguia pensar no movimento que ela fazia ao descer em direção à terra. O enjoo aumenta.
Assim como o meu medo.
Outra descida, outro frio na barriga. Mais uma descida e maior o frio na minha barriga. E essa situação continuou até o momento que o avião pousou em Manchester e parou para o desembarque. Já estava preparando para pegar a minha mala de mão quando minha mãe me segura pelos pulsos, ignorando alguns olhares pouco amigáveis dos outros passageiros.
- , por favor, se comporte.
- Mas eu sempre me comporto.
- Como uma adolescente de 13 anos quando está insatisfeita com algo, sim eu sei.
- Mãe!
- Sorria, , por favor.
Eu sempre odiei todas essas pessoas com a necessidade de ver todo mundo sorrindo ou de fazer todos sorrirem, eu não sou uma hater ou nada relacionado a isso, mas para mim o riso sempre deveria ser algo espontâneo, fruto do calor do momento e dos sentimentos envolvidos na situação. Nesse momento não tinha nenhuma vontade de sorrir, e eu não iria bancar a líder de torcida e ficar com um sorriso plastificado na cara. Essa não sou eu. E minha mãe estava ali, na minha frente, pedindo pra eu ser alguém que eu não era. E muito provavelmente eu cederia à sua vontade.
- Mãe... Eu só estou cansada.
- Sim, você está cansada e eu vou fingir que acredito nisso, vamos.
Peguei minha mala de mão e saí da aeronave atrás da minha mãe. De relance vi o senhor francês descer todo saltitante. Sim, o doce contraste. Assim que peguei minhas outras malas e saí da sala de desembarque já podia ver meus tios e minha prima acenando freneticamente com um imenso sorriso no rosto no saguão do aeroporto. Pelo menos alguém ali sorria com vontade. Meu pai saiu na frente e abraçou o meu tio com a maior força do mundo, e aí eu percebi que apesar de eu sofrer com todas essas mudanças, meu pai também sofre, afinal, seu irmão mudou de país ainda na faixa dos 20 anos, se distanciando completamente da família e depois foi a vez do meu pai ser um nômade pelo mundo. Ficava tão presa em meus próprios problemas que simplesmente não percebia que as pessoas ao meu redor também os tinham. Eu e meu egoísmo.
- Mas olha como essa menininha cresceu! – meu tio falou mais alto quando chegou perto de mim e me abraçou tão forte que pensei que fosse perder todo o ar do meu corpo. Olhei para como se estivesse pedindo ajuda e ela fez uma cara de como “não posso fazer nada” – Quanto tempo não a via, está uma moçona!
- Pai, pelo amor de Deus! – disse vermelha de vergonha.
- Ah, , me poupe! Não ligue para ela, , está naquela fase da adolescência que sente vergonha de tudo que eu faço, mas então... E os namoradinhos?
Eu devia estar parecendo uma retardada abrindo e fechando a boca sem emitir som algum ao tentar responder essa pergunta. Não podia entender como em todos os lugares do mundo essa praga chamada família iria sempre fazer a pergunta fatal “E os namoradinhos?”. Só podia existir algum tipo de roteiro universal de comportamento da família que eu ainda não tinha lido, porque isso está fora do meu entendimento.
- Eu disse pra você não fazer essa pergunta pra ela! Francamente, pai, ninguém gosta de responder a essas coisas, melhor uma sessão de tortura do que responder essa pergunta. – disse brava passando seus braços pelos meus e caminhando mais rápido, abrindo uma boa distância de nossos pais – Mas então, , e os namoradinhos?
- Você está falando sério?
- Sim, eu quero saber de tudo! Pode começar falando tudo.
Eu realmente não me lembro de ter dado toda essa liberdade à . Espaço. Preciso do MEU ESPAÇO! E ninguém nessa joça parecia ter compreendido isso.
- Bem, é uma longa história e eu realmente preciso descansar...
- Ah, não! – ela disse fazendo uma cara triste – Eu conheço esse tom de voz... Uma amiga minha, , você vai conhecê-la logo, fez um intercâmbio pro México e conheceu um garoto mexicano. Bem, claro que ele é mexicano, já que ela estava no México. – já vi que ela não ia calar a boca nunca – Enfim, ela conheceu esse menino, Alfredo, se apaixonou por ele e tal, sabe como são os garotos latinos, mas quando teve que voltar pra Inglaterra tinha esse mesmo tom de voz que você tem agora. Então, pequena , posso te chamar assim, né? – CADÊ MEU ESPAAAAAAÇO??!! – Pode começar a soltar tudo, porque eu sei o que você está passando.
- Bem... O nome dele é Theo, Theo Fonteneau. Estudamos juntos na mesma escola, bem... Estudávamos.
- Oh. – ela disse num tom estranho.
- E ele é, quero dizer, foi o meu primeiro amor, primeiro beijo, primeiro tudo e agora eu o deixei pra trás.
- Não é ele o problema então. – ela disse mais pra si mesma e eu a encarei – É a mudança.
Sempre me disseram que o silêncio em algumas ocasiões é a melhor resposta, então eu deixei o meu silêncio falar por mim. Mas eu não sabia o quão grande meu silêncio era, quantos sentimentos e dúvidas ele guardava, também não sabia se podia captar tudo o que eu queria dizer no meu silêncio. E pra falar a verdade não me importava muito com isso.
Eu queria voltar no tempo, eu queria Amiens de volta, eu queria a risada de Chloe e a minha ecoando juntas nos corredores da minha escola, eu queria os beijos de Theo, eu queria segurar suas mãos quentes novamente, eu queria minha casa de porta azul. Eu só queria minha casa, meu quarto, minha cama. Eu tenho medo do novo.
- Sabe, o lado de cá do Canal da Mancha não é ruim de todo. – disse com um sorriso simpático – Você vai ver com o tempo, é só uma questão de...
- Costume, eu sei.
- Vamos, você ainda tem um mês e meio fantástico antes de ir pra Escócia, mas...
- Mas...
- Você antes tem que se permitir viver esse lado fantástico desse verão, não adianta nada fazer coisas incríveis com esse astral super baixo que você está agora, sinceramente a sua bad vibe está me fazendo querer cortar meus pulsos.
- Ah, por favor, não quero ser a culpada pelas cicatrizes feias que vão marcar o seu pulso delicado. – disse mais como ironia, mas soou mais rude do que eu esperava e não sei se ela havia captado isso.
Mas de novo, não me importava muito com isso.

Rosa.
Muito rosa, muito abafado e com muitos papéis. Assim era o quarto de , a mistura mais louca que eu já vi na minha vida. As quatro paredes eram de um tom muito forte de rosa, mas isso era a única coisa uniforme em seu quarto, a parede da direita era quase toda coberta por fotos, bilhetes e anotações de seus amigos e tenho que confessar que aquilo aqueceu um pouco meu coração, talvez esse lado do Canal da Macha realmente não fosse ruim de todo. A parede da frente era onde a sua cama ficava encostada junto com muitas luzes de natal que decoravam o entorno da cama e da janela que ficava ao fundo, a parede da esquerda era coberta por mapas de todo o mundo, e em cada lugar que ela já havia viajado havia um pequeno pin marcando sua presença, e por fim quando eu adentrei o seu quarto e olhei para trás, na parede onde ficava a porta quase não se via o rosa, estava completamente coberta com diversos pôsteres de bandas. Mas o que me surpreendia era que ia desde o rock clássico ao jazz, desde a bossa nova brasileira ao pop dos anos 90, encontrei ali Janis Joplin, Jimi Hendrix, Louis Armstrong, Rolling Stones, Amy Winehouse, Spice Girls, Carlos Gardel, Backstreet Boys, Vinícius de Moraes junto com Frank Sinatra, Beatles, McFly, Busted, Green Day, Blink 182, e só podia pensar como que uma pessoa podia ser tão eclética assim.
Era impossível.
- Sim, eu gosto muito de música. – ela disse fazendo uma cara estranha a me ver encarar aquela parede.
- Eu também amo música, mas como você consegue ser tão eclética assim? Digo, Carlos Gardel, o rei do tango, junto com Jimi Hendrix, o rei da guitarra, junto com Backstreet Boys, os príncipes do pop. COMO? COOOMO?
- Não sei, eu vou escutando conforme o meu humor, nunca tive um estilo definido. Na verdade eu acho que pessoas que têm um estilo definido de música não são nada interessantes, afinal, cada som tem a sua particularidade, cada som é único e faz do seu estilo único, o que adianta escutar só Rock e nunca escutar a calmaria da Bossa Nova, ou o trompete do Jazz, ou a batida animada do Pop? Não gosto de pessoas engessadas.
- Essa é uma ótima justificativa.
- Eu tenho meus momentos brilhantes. – ela disse rindo – Meu pai disse que você toca alguns instrumentos.
- Bem, não alguns, isso soa como se eu tocasse quatrocentos mil instrumentos. – falei dando de ombros – Eu toco piano, guitarra e estava aprendendo a tocar baixo, mas o baixo não é pra mim.
- Do caralho! – ela exclamou muito alto – Eu toco baixo e violino, apesar de que meu lance mesmo é o baixo. Eu canto também.
- Eu tento cantar, meu chuveiro é meu fã favorito, apesar de acreditar que se ele pudesse falar não seria tão meu fã assim.
- Meu pai disse que você canta muito bem. – ela observou pegando uma pasta de cima do seu criado.
- Como ele sabe disso?
- Seu pai enviou um vídeo de uma apresentação que você fez na escola, e pra falar a verdade foi incrível.
- Ah... Aquilo... Não acredito que ele enviou aquele vídeo pra vocês.
Eu ia matar o meu pai.
- Quem sabe no futuro montamos uma dupla. – ela disse rindo abrindo a pasta e tirando de lá algumas partituras.
- Ah sim, claro, podemos ir pro Brasil e montar uma dupla sertaneja lá. Sucesso garantido.
- De qualquer maneira, lembra que eu te disse em viver alguns momentos incríveis aqui?
- Sim.
- Tecnicamente é um momento incrível pra mim, mas eu quero que você vá lá torcer por mim nessa minha audição, não como prima, mas como amante da música também.
- Ok... Ir aonde?
- Ah, é um programa de TV que nós temos aqui, para pessoas que querem cantar.
- Pessoas que querem ser famosas cantando.
- Dá quase na mesma.
- Não, , não dá.
- Enfim. – ela disse me encarando com raiva – Eu gostaria muito que você fosse.
- Sim, claro, mas que programa é esse?
- Se chama X Factor, vocês têm isso na França também, não?
- É claro que sim! É a França, não Papua Nova Guiné! Mas lá não é tão popular como é aqui, vocês quase morrem por esse programa.
- Sim, quase morremos por esse programa, quase morremos com o Simon. É a nossa febre nacional. Então... Conto com você lá, sim?
- Sim, claro. X Factor is the way to go! – falei com o tom mais entusiasmado e plástico que eu consegui, mas acabou soando mais falso do que tudo.
Mas já não podia dizer que não tinha sido intencional.
E de novo, não me importava muito com isso.

Capítulo 4 - When your day is done and you wanna run, cocaine!


Londres, Inglaterra. Agosto de 2014.

Meus olhos continuavam fechados, mas eu podia perceber a luz do dia entrando dentro do aposento. Senti que estava deitada no chão frio e resolvi ficar ali tentando me convencer que tudo o que tinha acontecido era apenas um sonho, que quando eu abrisse meus olhos eu estaria dentro do meu quarto, no meu apartamento, e nada do que tinha acontecido ontem teria sido real. Mas eu sabia que quando finalmente abrisse meus olhos a realidade iria se revelar bem menos doce do que eu tinha imaginado. Uma hora eu ia ter que encarar a minha fraqueza e os meus fantasmas.
Mas, por favor, não agora. Eu só quero ficar aqui, quietinha e longe do mundo.
Fiquei encolhida onde estava, quase como uma criança amedrontada esperando que seus pais viesse lhe acalmar. Meus pais... Eu poderia muito bem usar um abraço deles agora. Ou de . Eles eram a minha casa, e de alguma maneira consegui afastar todos eles. Isso graças ao meu vício corrosivo que tira de mim as melhores coisas da minha vida. Acabei perdendo a noção do tempo e o que me trouxe de volta foi o toque do meu celular.
Então, contra a minha vontade, finalmente abri meus olhos.
A claridade tomava conta do velho aposento desarrumado, o que fez os meus olhos arderem por um momento. Minhas costas doíam, minha cabeça pesava e o celular continuava a tocar, mas isso não parecia incomodar os meus companheiros. Kaya estava jogada no chão perto da mesa onde ainda se encontrava restos da cocaína que havíamos usado ontem, enquanto Eric dormia pesadamente no sofá. O celular parou de tocar e eu comecei a tomar coragem para poder me levantar.
Eu sabia que o primeiro passo para me levantar era tomar consciência do meu corpo, e fui me esticando aos poucos, movimentei primeiro minhas pernas, depois meus braços, e finalmente me sentei no chão. Estalei meu pescoço, girei minha cabeça para um lado e para o outro e comecei a olhar ao meu redor para aquele lugar destruído que eu estava. Meu corpo todo pesava e doía, mas eu não sabia se isso era decorrente do meu lado emocional sádico que insistia em escolher a pior opção de todas ou de um cansaço físico, na verdade eu não sabia se tinha diferença entre essas duas dores. Meu celular começou a tocar de novo e dessa vez resolvi conferir quem me chamava e a surpresa foi maior do que o meu choque de realidade.
Era ele.
Meu coração começou a acelerar mais do que o normal, minhas mãos suavam e eu parecia novamente aquela menininha idiota que morria de vergonha de dizer uma só palavra para ele. Segurei meu aparelho com toda a força que tinha em meu corpo, tomei coragem e toquei na tela para atender à chamada.
- Alô? – disse, mas a minha voz me traiu ao soar mais estranha do que o normal.
- Então minhas suspeitas se confirmaram. – ele disse seco.
- ...
- Puta que pariu, . – ele disse desligando o telefone em seguida.
Dois meses sem escutar a sua voz, e quando finalmente a escuto eram palavras condenatórias. Eu devia ter aberto meus olhos mais cedo, eu devia ter ido embora desse lugar antes, eu não deveria ter atendido a merda desse telefone, eu não deveria ter vindo aqui com Kaya ontem, eu nunca deveria ter começado a mexer com drogas. Eu nunca deveria ter perdido . O desespero começou a tomar conta de mim novamente, e ultimamente era muito difícil controlar minhas emoções e meus ataques de histeria. Pensamento racional sequer era uma cogitação quando eu entrava nesse estado, eu precisava me acalmar, eu precisava agir. Não podia começar a chorar, não aqui, porque se eu derramasse uma lágrima sequer eu não iria parar.
Inspira, expira. Inspira, expira. Devagar. Inspira, expira. Inspira, expira. Se concentra.
Meus pensamentos ficaram restritos a essas ordens de comando até que eu finalmente consegui me acalmar. O primeiro passo era me levantar, e isso você consegue fazer desde os 9 meses, , um pé depois do outro e um impulso pra cima, pensei comigo. Inspira, expira. Em pé. Ok, segundo passo era me arrumar para sair na rua, não podia ser vista assim, principalmente depois da ligação do . Fui ao banheiro e me olhei no espelho, e o meu choque de realidade só aumentava.
A pessoa que eu via no reflexo não era eu. Bem, era eu, mas não a melhor versão de mim mesma. Era a versão com olheiras, ar cansado, cabelo desgrenhado e uma moral baixa. Abri a torneira e logo lavei o meu rosto, passei um pouco de água na nuca e nos cabelos para ver se dava um jeito nessa juba, mas a situação não ficou muito melhor. Enxuguei meu rosto com a toalha, me olhei de novo no espelho e tentei pela última vez dar um jeito no meu cabelo o penteando com os dedos, mas como a merda já estava formada simplesmente o joguei de lado.
Terceiro passo: sair dali sem ser vista. Ajustei minhas roupas no corpo e saí do banheiro na ponta dos pés, passei ao lado de Kaya e fui à cozinha tomar um copo de água. Eric ainda estava dormindo, mas parecia ser um sono menos pesado do que antes, e com todo o cuidado do mundo depositei o copo na pia. Já estava me sentindo mal demais sozinha, não precisava de ninguém para me lembrar a merda ambulante que eu era. Então me dirigi para a porta para sair dali, e quando fui girar a maçaneta...
Trancada.
Obrigada vida por fazer tudo dar errado, e obrigada Murphy por fazer uma lei que se aplica tanto a mim. Vocês são 10. Meu estômago revirava e cada vez mais o desespero subia a minha cabeça, e eu já não era capaz mais de controlá-lo. O desespero era o meu melhor amigo, o meu confidente, e meu inseparável tormento. Eu não era assim antes, e coloco isso na conta das drogas novamente. Bati minha cabeça levemente no batente da porta, uma, duas, três, quatro, cinco vezes. E o ritmo continuou surdo e contínuo.
Toc. Toc. Toc. Toc. Toc.
- Bater a cabeça não vai fazer a porta se abrir magicamente. – Eric disse com sua voz rouca.
Da mesma maneira que Chefes de Estado falam que não negociam com terroristas, eu não ia conversar com aquele que era o responsável por ativar a granada da minha vida.
- Você vai precisar disso pra sair daqui. – ele disse se aproximando fazendo com que as chaves se chocassem entre si, mas eu não me virei e nem saí do lugar, só alguns segundos depois que senti suas mãos me envolverem e seu nariz e sua boca se encostarem no topo da minha cabeça – ...
- Não me toque. – respondi me encolhendo o máximo que pude.
Eric soltou um som de diversão misturado com indignação, mas continuou a falar com sua voz calma e rouca no meu ouvido.
- Você tem capacidade de pensar por si mesma, você sempre teve uma escolha e escolheu esse caminho. A culpa não é toda minha, portanto, não se faça de vítima, você sempre foi muito boa em fazer esse papel.
Me mantendo encolhida fui virando o meu corpo para poder encará-lo. Eu não ia ser a fraca agora. Levantei o meu olhar e encarei seus olhos azuis profundamente, minha raiva crescia dentro de mim em uma velocidade gigantesca e minha vontade era de encher a sua cara de tapas, de arranhar o seu rosto, puxar os seus cabelos até sair tufos em minhas mãos. Mas engoli em seco, sustentei o olhar.
- Abre. Agora, Eric.
- Sempre à sua disposição. – ele disse destrancando a porta.
Comecei a andar devagar, controlando os meus passos e quando escutei o barulho da porta sendo trancada acelerei meu ritmo e desci as escadas correndo e abri a porta de entrada do prédio. A rua já estava movimentada e esperei um táxi passar. Talvez essa tenha sido a opção errada a se fazer, as pessoas passavam na rua e me encaravam com uma cara de “eu te conheço de algum lugar”. Era nesse momento que eu desejava ser uma desconhecida completa, ou ter um boné para me esconder, mas já que tinha feito a minha cama, era melhor me deitar nela.
Estava com essa atitude até ouvir um click baixo.
Não podia ser. Não agora. Não hoje.
Um táxi se aproximava do fim da rua, e fiz o sinal para ele parar, mas o desespero ainda estava colado em mim e aquele click tinha piorado tudo. Então pulei na rua para chamar a atenção do táxi e escutei de novo o mesmo barulho. Entrei dentro do veículo o mais rápido que pude e disse o endereço da minha casa ao motorista, que me fitou por um longo tempo como se buscasse minhas feições em sua memória.
Eu rezava baixinho esperando que o barulho não tivesse sido o que eu pensava. Mas ultimamente a sorte não parecia estar ao meu lado.
- Você é a ? – ele disse num tom que não pude definir.
- Sim, sou eu. – respondi com um pequeno sorriso.
- Minha filha é fã da sua banda.
- Obri...
- Não agradeça ainda. – ah o jeitinho inglês simpático de ser – Eu não disse que isso era uma coisa boa. Como um pai eu sinto que tenho o dever de te perguntar, em nome de todos os pais que têm filhos que são seus fãs, o que aconteceu com você?
Mil respostas passaram na minha cabeça, desde um “vai tomar no seu cú” até a probabilidade de contar toda a minha história pra ele. Mas, ao mesmo tempo, eu não tinha nenhuma resposta. Lágrimas formaram no meu rosto e deixei meu silêncio falar por mim, como já era de costume. Passaram-se uns 15 minutos que eu deixei a completa falta de som falar por mim, até que interrompi aquele estado que parecia incorruptível e simplesmente falei.
- Eu não sei.
- Como um pai, eu não quero que minhas filhas se espelhem em você.
- Obrigada pela parte que me toca. – falei sarcasticamente e ele respirou fundo.
- Como um pai, eu espero que você saia dessa situação e melhore a sua vida.
Então eu realmente fiquei sem palavras.
- São 28 libras. – ele disse após encostar o carro.
Procurei nos bolsos da minha calça alguma nota e finalmente achei 30 libras e entreguei a ele, abri a porta do carro e quando ia descer disse um “obrigada” tão baixo que acho que nem eu mesma pude escutar.
Só esperava que barulho não fosse real, só esperava que a sorte estivesse comigo. Só hoje. Mas do que adiantava tudo isso se já sabia da verdade. Justamente ele.
Cumprimentei o porteiro do meu prédio e esperei o elevador chegar, assim que abriu a porta apertei o número 7 e subi para o meu apartamento. Quando cheguei ao meu andar comecei a procurar pelas chaves, mas achar dinheiro no meu bolso já tinha sido bom demais, achar as chaves ali seria como ganhar na loteria. Olhei para a porta e vi que não precisaria delas, já que a porta estava entreaberta. A única coisa que eu conseguia pensar era “MERDA”.
MERDA. MERDA. MERDA. MERDA. MERDA.
SUPER MERDA. SUPER GRANDE E FODIDA MERDA.

Andei devagar tentando encontrar coragem, mas não sabia de onde, empurrei a porta e entrei no apartamento. estava sentada no sofá com o tablet na mão e com a cara mais séria que tinha visto na vida.
O click era exatamente o que eu pensava. Papparazzi era uma raça ruim que não merecia viver. Mas ela ainda podia ter descoberto tudo por , o que não era melhor do que a primeira opção. Era muito pior.
- Eu vou falar, e você vai escutar. – ela disse com a voz baixa.
Eu estava fudida.
- ...
- NÃO! – ela gritou, mas depois se recompôs e me direcionou um olhar duro – Não me venha com essa vozinha chamando pelo meu nome, porque no momento eu não consigo escutar a sua voz, . Eu não consigo e não quero escutar a sua voz e suas desculpas, eu quero escutar o seu silêncio, pra ter certeza que você vai entender tudo o que eu falar.
Eu estava muito fudida.
- Algumas semanas atrás eu te perguntei se você tinha condições de entrar em uma turnê agora, nessa situação. Você me garantiu que tinha condições de voltar, que estava limpa e bem. Eu realmente tinha acreditado. Eu queria acreditar em você, afinal você é minha prima e minha melhor amiga. Eu sempre quis o seu bem, porra.
Ela desbloqueou o tablet e o virou para mim. E lá estava a foto, no auge de sua queda, que visão linda. Senti minha garganta secar e um aperto crescer em meu estômago. Eu sabia que ela tinha razão em estar brava comigo, e não podia fazer nada além de concordar com ela.
- Ontem eu tinha te falado para não entrar na internet de maneira alguma.
- Muito gentil da sua parte, afinal. – não sabia de onde vinha minha voz e meu atrevimento, mas eles saíam em torrente – É a mesma coisa que colocar um marshmellow na frente de uma criança e falar “não come”. É claro que eu comi o marshmellow.
- Você está colocando isso nas minhas costas agora? – ela me encarou indignada.
- Já me disseram que eu tenho a capacidade de pensar por mim mesma, pode ficar tranquila que eu sei o que eu fiz. – falei fazendo questão de colocar ironia em todas as sílabas possíveis.
- Você tem alguma ideia do desespero que eu e passamos ontem? – seu manto de frieza caía e a raiva passava a dominar a sua voz. Eu tinha passado dos limites, meu atrevimento e minha ironia não estavam servindo de nada, apenas pioravam as coisas – Você disse que ia voltar com a gente pra casa, ficamos te esperando naquela merda de festa até às 3 da manhã e você não chegava. Chamamos o Jeremy para saber onde você tinha ido...
- Vocês chamaram o Jeremy? – falei com a voz sufocada.
Todo mundo menos o Jeremy, não depois do voto de confiança que ele me deu. Não depois de tudo.
- Sim, o Jeremy. Na hora não queríamos causar uma cena no lugar e ele foi a primeira pessoa que veio na cabeça. – ela disse me olhando fixamente – Você tem ideia do tanto que ele está desapontado? , ele foi a pessoa que esteve do seu lado o tempo inteiro, desde o início da banda até hoje. Bem, até ontem.
- O que você quer dizer com isso? – já sentia as forças das minhas pernas irem embora.
- O Jeremy pediu demissão, só vai ficar até o final da turnê, mas tecnicamente estamos sem empresário. Agora você sabe a gravidade do problema?
Então escorreguei em direção ao chão, meu corpo estava entorpecido, com exceção da minha garganta e meus olhos que queimavam, ardiam. Tudo doía, meu corpo, minha cabeça, minha dignidade, meu coração. Se Hazel Grace era uma granada por causa do seu câncer, eu era uma granada por minhas escolhas, que atingiam e machucavam a todos ao meu redor.
- Quando o Jeremy viu que você e a Kaya tinham sumido da festa ele começou a desconfiar de que tinham ido a algum lugar com o Eric. Começamos a perguntar para todas as pessoas se haviam visto vocês. Até que encontramos um garçom no bar.
O mundo girava ao meu redor, a tristeza e o vazio me atingiam como um caminhão a mil por hora. Eu escutava a voz de a distância, como se ela estivesse em outro cômodo, ou em outra dimensão. Eu estava no meu mundo, meu pequeno e miserável mundo, onde eu estava sozinha, vulnerável e destroçada.
- Ele disse que você tinha pedido o seu celular emprestado, e leu alguma coisa que tinha aparentemente te incomodado muito, e que depois te viu saindo da festa com Kaya e Eric. Eu pedi o celular dele emprestado e fui procurar no histórico do navegador dele o que você tinha lido. Você tinha me prometido, .
- ... Eu sinto muito, mas você não tem ideia de como é. – falei chorando.
- Eu acho que às vezes você se esquece de que estou nessa banda também, assim como a e a Kaya.
- Mas eles não massacram vocês, não do jeito como me massacram.
- E você fala isso por quê? Porque se acha a pessoa mais importante dessa banda?
- Que merda, ... – o mundo já estava confuso o bastante pra eu ter que ficar lidando com a merda de baixa autoestima e inveja dos outros.
- Me responde, !
E o mundo girava, e girava. Absolutamente nada a meu alcance.
- Eu estou esperando, .
Então eu explodi.
- PAAAARA!
Eu gritei e ela me olhou como seu eu fosse uma louca.
- , não grite comi...
- PARA! – falei apoiando minhas mãos nas minhas têmporas – PARA DE JOGAR TUDO NAS MINHAS COSTAS, PARA DE PENSAR QUE EU SOU A LÍDER DA BANDA, QUE EU SOU MELHOR QUE VOCÊS! VOCÊ ESCUTOU O QUE ACABOU DE FALAR?? PORQUE EU ESCUTEI, E PARECE QUE VOCÊ FICA LOUCA DE INVEJA DE MIM!
- O QUÊ?
- SIM! ESSA PORRA DESSA SUA BAIXA AUTO-ESTIMA, ESSA NECESSIDADE DE SEMPRE SE AFIRMAR PIOR DO QUE EU! DE MENDIGAR POR ELOGIOS DOS OUTROS. - gritei me levantando.
- VOCÊ ESTÁ LOUCA? VOCÊ ESTÁ ESCUTANDO O QUE ESTÁ FALANDO? – ela levantou de onde estava sentada e veio em minha direção.
- PELA PRIMEIRA VEZ NA VIDA EU TENHO PLENA CONSCIÊNCIA DO QUE ESTOU FALANDO! PELA PRIMEIRA VEZ NA VIDA EU VEJO TUDO CLARAMENTE, VOCÊ QUER SER EU, VOCÊ, TODAS ESSAS VADIAS DE MERDA QUE INTEGRAM ESSA BANDA, TODO MUNDO QUER SER EU.
- VOCÊ TEM MERDA NA CABEÇA, SUA DROGADA DE MERDA.
E então tudo passou num instante. Eu senti a mão de se chocar contra a minha bochecha, a minha mão voou em direção ao seu peito e senti o pano da sua blusa se rasgar com a minha força. Minha cabeça foi puxada pra trás com o puxão que ela deu em meu cabelo e nós duas caímos no sofá, eu por baixo e ela por cima. A cólera que controlava o meu corpo começou a dar murros na coxa de com uma força descomunal. O barulho dominava a sala e eu não sabia quando terminava o meu grito e onde começava o dela. Senti seus dentes abocanharem o meu ombro e de repente tudo parou.
O porteiro de nosso prédio segurava no ar com uma das mãos e ela se debatia contra o seu corpo como um animal. pulou em cima de mim no sofá e segurou as minhas mãos juntas para que eu não pudesse fazer nada contra ela. Eu podia escutar vagamente os dois falarem, mas eu não estava ali, para falar a verdade, tampouco estava, a raiva, a cólera, o ressentimento, a ira e a inveja tomaram conta de nossos seres.
- Que merda está acontecendo aqui? – gritava a mesma frase diversas vezes tão perto do meu rosto, mas eu quase não a escutava.
Minha respiração acelerada fazia o meu peito subir e descer descontroladamente, e então eu voltei à realidade. Uma frase, vinda de uma voz abafada e descompassada, proferida no menor volume possível, mas cheia dos mais diversos sentimentos me fez voltar.
- Depois que a tour acabar, faça o favor de nunca mais olhar na minha cara. Porque é isso que eu vou fazer com você daqui pra frente.
O porteiro a soltou, ela ajeitou suas roupas e seu cabelo e saiu do meu apartamento batendo a porta enquanto o fazia.
A minha melhor amiga.

Capítulo 5 - With all these things I wait for revelation.


(Coloquem para carregar a música Medicine da banda Daughter!)

Manchester, Inglaterra. Julho de 2010.

- É por essas e outras que eu digo que Deus tem sexo. – falei olhando o meu cabelo, que mais parecia uma juba, no espelho do quarto de – E é o masculino.
Já havia quase um mês que eu tinha chegado à Inglaterra, e nesse período pude ter a certeza de uma coisa, e provavelmente a única coisa que eu teria certeza em toda a minha vida: o meu cabelo nunca mais seria o mesmo.
- Tenta viver nesse lugar a sua vida toda. – respondeu sorrindo enrolando mais uma mecha de seu cabelo no babyliss.
- Eu estou falando sério, acho que Ele não levou em consideração que as mulheres também iam morar nesse país quando decidiu que essa região do globo ia ficar coberta por nuvens de chuva 364 dias do ano.
- 364? – me encarava divertidamente por entre os fios de cabelo que cobriam o seu rosto.
- Estou dando um desconto porque às vezes dá pra ver que existe um azul debaixo do cinza. – respondi tentando pela última vez ajeitar o cabelo – Sabe Friends?
- Ah! O episódio que eles vão pra Barbados e a Mônica fica com o cabelo gigante por causa da umidade?! – disse rindo e eu a encarei séria.
- Não. Definitivamente não era isso que eu ia falar, mas quer saber? Vou tomar um banho, umidade por umidade melhor deixar tudo molhado mesmo.
- Se você quiser, eu posso fazer qualquer coisa no seu cabelo depois.
- Não, não precisa. – falei sorrindo para mostrar que estava tudo bem – Hoje é o seu dia, e eu não quero te atrasar.

Enquanto eu deixava a água quente cair e escorrer pelo meu corpo eu pensava em uma passagem do livro Quem é você, Alasca? do John Green. Ao se deparar com a pergunta dos pais de qual seria o motivo de sair de casa, Miles Halter responde: “François Rabelais. Era poeta. Suas últimas palavras foram ‘Saio em busca de um Grande Talvez.’ É por isso que estou indo embora. Para não ter de esperar a morte para procurar o Grande Talvez.” E quando me deparei com esse pensamento, o que eu mais achava engraçado era perceber que um livro, escrito com a predominante intenção de mostrar como algumas pessoas afetam e influenciam a vida das outras, era o objeto que no momento me afetava e me influenciava. Com certeza essa fora a intenção de Green ao escrever, tocar os sentimentos das outras pessoas. Bem, ele estaria completamente orgulhoso de ver como havia sido 100% eficaz.
Uma vez mencionaram para mim a expressão alemã “gespannt wie ein Flitzebogen¹, que significa “estar sentado no limite da cadeira” ou algo relacionado à curiosidade e os efeitos que ela gera naquele que a tem. Na verdade, eu não sabia se o verdadeiro significado da frase seria esse, já que eu não falava alemão, e não pretendia sequer cogitar aprender esse idioma elaborado com tanto carinho e amor por nada mais e nada menos que o próprio Capeta, então o que me restava era confiar na pessoa que tinha mencionado essa frase para mim.
O que me importa é saber que, nesse sentido, essa frase descreve perfeitamente a natureza humana em relação ao desconhecido. Isso se levado ao lado positivo, que não produza algum tipo de aversão, claro. E é justamente desse lado positivo que eu me refiro, a curiosidade boa, que incentiva, que gera ambição, que movimenta montanhas, que tira o ser humano da sua zona de conforto e que ocasionalmente mata o gato, por que não? O tipo de curiosidade em relação ao desconhecido que faz com que o corpo de alguém, sentado confortavelmente em sua cadeira, se encha com uma torrente de adrenalina, sendo automaticamente empurrado para o limite de seu assento. O limite entre tudo o que lhe é familiar e o que é desconhecido. O limite entre a segurança e a instabilidade. O limite entre a mesmice e a possibilidade de realização dos sonhos e desejos mais profundos. Até chegar o ponto em que a zona de conforto já não é mais tão confortável assim, incomoda, e muito. E não resta nada a fazer além de pular a mesa e se sentar no colo da vida e desfrutar dela ao máximo, nessa mesa eternamente posta para dois.
Só basta responder ao seu chamado e saltar.
Napoleão havia respondido o seu chamado caminhando e conquistando todos os cantos possíveis da Europa, até chegar à Rússia, mas a humanidade nesse ponto já deve ter aprendido que simplesmente não se pode invadir a Rússia. Querendo ou não, ele gravou o seu nome a ferro quente na história mundial. Madonna respondeu o seu chamado saindo da cidadezinha de Bay City no estado do Michigan e indo em direção à cidade de Nova York, com apenas 35 dólares no bolso, para se tornar a Rainha do Pop.
Hoje era o dia de sair e responder o seu chamado. Mesmo que nesse processo ela tenha que esperar em uma fila quilométrica com mais um zilhão de futuros participantes do X Factor, em um tempo que não poderia ser classificado como nada diferente de cinza-cor-da-depressão com 140% de possibilidade de chuva. Além disso, ser aprovada pelos quatro jurados, dentre eles Simon Cowell, passar pela fase do bootcamp, da casa dos jurados e entrar nos live shows, conquistar o coração do Reino Unido e ganhar a competição.
Eu não conseguia imaginar outro motivo e combustível para tais ações a não ser a curiosidade e a vontade de desvendá-la nos mais ínfimos detalhes. A curiosidade pela vida e o que ela pode proporcionar que moveu e continua a mover as pessoas. E nesse momento eu me encontrava sentada na ponta da cadeira de um lado da mesa, e do outro, a vida e todas as possibilidades que ela me oferecia. Eu estava mais do que sentada apenas na beirada, eu projetava o meu corpo para frente e esticava os meus braços o máximo que podia para então, como Miles Halter, alcançar o meu Grande Talvez antes que fosse tarde demais.
Mas ao contrário de todos, eu não ia me mover.
Ah não.
Eu ia ficar inerte no espaço.
Eu ficaria.
Escutei uma leve batida na porta do banheiro. Era minha mãe gritando pela fresta, avisando que sairíamos em aproximadamente 40 minutos. E ia por ralo abaixo a minha mais pura e boa intenção de não atrasar . Era enquanto eu tomava banho que me tornava a verdadeira filósofa e escritora motivacional, e como consequência acabava por esquecer tudo ao meu redor.
Tudo, principalmente o tempo.

O carro chacoalhava consideravelmente no caminho em direção ao Manchester Central e o meu café da manhã comido, ou melhor, engolido sem mastigar, começava a fazer um efeito estranho no meu estômago. E por um estranho momento eu pensei como estaria o estômago de , dado todo o nervosismo que ela ia enfrentar em algumas horas. Quanto mais nos aproximávamos do local, mais intenso ficava o trânsito, e então foi quando vimos. A grande estrutura do centro de convenções cheia de placas com um grande X vermelho do programa e abarrotada de pessoas. segurou minha mão e a apertou, de forma involuntária eu apertei a dela de volta como uma maneira de encorajamento, mas acho que ela não entendeu o meu gesto e apertou ainda mais a minha.
- , vai ficar tudo bem. – falei tentando transmitir o tom de voz mais calmo que consegui, o que não deu muito certo por causa da dor que sentia na minha mão.
Ela olhou para as nossas mãos unidas e notou as pontas dos meus dedos levemente roxas, soltou uma risadinha sem graça e depois a minha mão, fazendo um carinho nela segundos depois.
- Vai ficar tudo bem. – ela repetiu.

Apesar de termos saído de casa bem cedo, todo o arredor do Manchester Central já estava lotado, e meu tio e o restante da família que nos acompanhava em carros diferentes foram forçados a estacionar alguns quarteirões de distância do prédio, o que nos fez caminhar até lá. Era estranho ver toda a família reunida para torcer por , mas o mais estranho era ver que nós não havíamos sido os únicos a pensar nisso. Após passarmos na mesa que entregava o número de cada participante fomos direcionados à fila de espera que ficava no exterior do complexo, e a fila era, no mínimo, quilométrica. Eu nunca tinha visto esse tanto de gente em um mesmo lugar na vida.
- Será que o O’Leary vai vir aqui entrevistar a gente? – disse nervosa olhando para o apresentador que estava entrevistando uma menina morena com uma calça tão rasgada que eu chegava a duvidar que tivesse algum pano ali.
- Não, ele só está entrevistando os mais bonitos. – Nick, o primo de pelo lado da mãe, respondeu.
- Obrigada, Sr. Engraçado. – ela respondeu.
- De nada, Srta. Sarcasmo-futura-vencedora-dessa-bosta.
- Só passando por essa audição eu já estou feliz. – respondeu esfregando uma mão na outra.

- O O’Leary parece estar entrevistando só os mais bonitos mesmo. – falei quando o apresentador passou por nós direcionando um “Vamos lá... Tire esse nervosismo desse seu rosto bonitinho, já está quase na hora” para .
E depois de quase 2 horas parada no mesmo lugar, a fila começou a andar. O ciclo para se apresentar consistia num grupo de 40 participantes entrando no complexo, sendo acompanhados por um de seus familiares ou amigos enquanto o restante era direcionado para outra sala, esses seriam reunidos novamente minutos antes da apresentação, quando a sala se esvaziava outros 40 entrava e começava tudo de novo.
Quando percebeu que a fila estava andando, começou a respirar rapidamente pela boca e a balançar as mãos na frente do rosto.
- Você está parecendo um bagre maluco fazendo isso, . E o pior de tudo é que as pessoas podem te ver assim. – falei segurando o seu braço.
- Eu to nervosa pra porra, . Você não está entendendo.
Olhei à nossa volta e vi que a maioria dos nossos familiares estava entretida em uma conversa, então tirei da minha bolsa uma garrafinha de uma dose de tequila e a coloquei nas mãos de .
- O que é isso? – ela sussurrou e eu movimentei a boca, sem fazer barulho, um “tequila” – VOCÊ ESTÁ DOIDA???
- Grita mais alto, acho que ninguém te escutou lá do fim da fila. – respondi o mais baixo possível enquanto empurrava a garrafa, que no momento estava sendo colocada novamente em minhas mãos, para o lado de – Para de ser viadinha, , é pra você relaxar e parar de ser tão neurótica, até o O’Leary disse que você está nervosa.
- Isso é ilegal na sua idade nesse país, . – ela disse empurrando a garrafa para o meu lado.
- Então tira esse espírito de franga desse corpo e vira logo essa porra goela abaixo, ! – falei empurrando novamente para o seu lado.
A mão de Nick apareceu no caminho e retirou a garrafinha do nosso meio e a destampou, guardando a tampa no bolso, escondendo o pequeno recipiente com a mão e tampando o bocal com o dedão. Então, com a mão que segurava a garrafinha, tocou de leve a cintura da prima, e com a mão livre segurou a mão de , começando a dançar gentilmente com ela NO MEIO DA FILA DO X FACTOR. Depois de, do que eu acho ter sido, uns dois minutos, e muitos olhares questionadores, como se estivesse em uma cena de uma comédia romântica, ele a inclinou em direção ao chão, passou a mão que segurava a garrafinha pelo seu rosto e quando chegou na altura da boca, derramou a bebida lá dentro. Não satisfeito com o que tinha feito, ele levantou a prima rapidamente e a girou no lugar, e assim que acabou de fazer essa cena incrível NO MEIO DA FILA DO X FACTOR, se curvou agradecendo ao público e sussurrou para mim “é assim que se faz” e me deu um fist bump.
E eu só consegui rir daquela cena.

A fila já havia andado mais duas vezes, ou seja, 120 candidatos já tinham passado, ou não, pela aprovação dos quatro jurados. já não aprecia mais um bagre maluco abrindo e fechando a boca a cada meio segundo, estava relaxada, respirava calmamente e sem a ajuda de aparelhos, muito bem, obrigada. E isso continuou até o momento que a fila andou pela quarta vez, e ela, sabendo que dessa vez entraria no complexo, segurou a minha mão e me olhou profundamente. Foi um olhar estranho, que ela nunca tinha me dirigido em algum momento desse um mês que passamos juntas, eu queria saber o significado por trás daquilo tudo, mas ela não disse nada, então eu apenas entrelacei nossos dedos. Continuamos todos caminhando juntos, quando o nosso grupo foi parado na porta.
- Boa tarde, senhorita... . – o rapaz com uma camiseta preta com um grande X vermelho disse o sobrenome de com dificuldade quando olhava a sua prancheta – Você pode escolher uma pessoa para ficar com você na sala de espera.
E foi nesse momento que eu entendi o olhar de . Ela se virou para a sua mãe, com os olhos mais pidões e culpados do mundo.
- Mãe, não é que eu esteja te dispensando, mas eu gostaria que a ficasse lá dentro comigo.
NÃO! NÃO! NÃO! Isso era definitivamente uma péssima ideia!
Sim, eu fui a pessoa que – parcialmente – conseguiu acalmar ela, mas com uma GRANDE ajuda de uma coisa chamada TEQUILA. TEM ÁLCOOL NISSO! EU ENVENENEI A MENINA PRA ELA PARAR DE FICAR NERVOSA! Nesse momento eu era uma mãe dando um bico pra uma criança de um ano que não parava de chorar, só que em um nível muito pior, no nível “eu acabei de cometer um crime”. Um crime pequeno e insignificante se comprado aos outros crimes existentes no mundo, mas ainda assim, eu era uma subversiva, fora-da-lei com o rabo preso.
Mas é claro que eu não ia falar nada disso na frente de nenhum de nossos parentes, então sorri. Um sorriso bem falso, mas que aparentemente apresentava todo o meu caráter travesso e culposo, e apresentava esse caráter tão bem que chegou a fazer a minha mãe ter aquela cara de “o que você fez agora, ?”.
- Oh, está tudo bem, querida. – minha tia disse passando a mão nos cabelos de – Eu entendo que você precise alguém da sua idade do seu lado. Te vejo antes da apresentação.
- Obrigada, mãe. – ela respondeu dando um beijo na bochecha da minha tia.
- Está decidido então. – o rapaz disse com um sorriso plástico na cara – Meu nome é Tom, e vocês duas podem me acompanhar, enquanto o restante pode seguir a Lizzie. – ele disse sorrindo indicando a mulher ruiva que estava atrás de si.
Assim que começamos a seguir Tom outro homem assumiu o seu lugar e logo começou a conversar com o participante que estava atrás de na fila. Ele nos guiou pelos corredores cinzentos do Manchester Central, até que chegamos a uma sala enorme e completamente iluminada, já que as três das quatro paredes, com a exceção daquela que tinha a porta, eram feitas de vidro, possibilitando ter uma vista incrível da cidade de Manchester. Várias fileiras de cadeiras estofadas estavam dispostas pelo local, e todas ficavam de frente para um grande telão que mostrava a audição dos outros participantes em tempo real, em duas extremidades da sala havia uma máquina de refil de refrigerante da Pepsi e uma máquina de doces e salgadinhos, e o melhor era que tudo isso era DE GRAÇA.
- Se tem alguém que vai voltar com os bolsos e o sutiã cheio de Snickers, esse alguém sou eu. – falei sorrindo quando Tom nos deixou na sala e retornou para o seu posto.
- Seu bolso, meu bolso, seu sutiã, meu sutiã e sua bolsa. Temos estoque de Snickers pro resto do ano. – disse erguendo a mão para um high five que eu logo completei.
- Já falei que você é a melhor prima do mundo?
- Já, mas é sempre bom ouvir isso de novo. – ela disse se sentando em uma das fileiras enquanto o lugar se enchia e eu me sentei ao seu lado.

- ... – eu disse depois de um tempo.
- Sim.
- Obrigada.
- Por?
- Por me trazer aqui dentro com você, quero dizer, você poderia ter trazido qualquer um, mas me escolheu e sei lá, isso de alguma maneira importa, né?
- É claro. – ela respondeu – Você chegou aqui muito pra baixo, , e qualquer um podia perceber isso. Nos últimos dias você esteve mais feliz e mais leve, e eu gosto de fazer parte disso, de ser, mesmo que só um pouquinho, responsável pelo desaparecimento daquela sua ruguinha de preocupação e tristeza entre as sobrancelhas.
As palavras de tinham me aquecido por dentro, como uma xícara de chá num dia frio. Deliberadamente resolvi esquecer o fato de que em menos de um mês eu estaria partindo em direção à Escócia, deitei minha cabeça em seu ombro e entrelacei nossos dedos novamente.
- Obrigada. – falei de novo com a voz um pouco embargada enquanto descansava a sua cabeça no topo da minha – ?
- Sim?
- Eu preciso te falar algo. – disse querendo contar para ela parte do meu maravilhoso plano de fuga.
- Sim, mas olha aquele menino maravilhoso olhando pra gente no outro lado da sala. – ela disse baixinho enquanto eu direcionava o meu olhar para o ser que ela se referia, e ele era realmente muito bonitinho, mas não maravilhoso como ela tinha dito. Usava uma roupa bem básica, blusa branca larga, calça jeans e uma touca de lã verde no cabelo, que deixava alguns fios rebeldes pro lado de fora. Tá, ele era realmente lindo.
- Talvez ele ache que nós somos lésbicas. – falei brincando enquanto ele desviava o olhar.
- A gente tá realmente parecendo um casal in love. – ela respondeu rindo enquanto eu ainda estava, não tão discretamente assim, encarando o garoto e reparando em todos os seus pequenos detalhes.
- Quanto tempo você acha que é o normal de se encarar uma pessoa?
- Pessoas normais não encaram outras pessoas, , mas se você está se referindo àquele pãozinho ali, eu não sei. Até porque estou encarando ele desde o momento que o vi.
- Vou ignorar o “pãozinho”, porque foi muito ridículo da sua parte, mas então somos duas encarando esse ser.
- Se depender de mim eu fico aqui encarando ele pelo resto da minha vida.
E foi nesse momento que ele nos encarou de volta.
No desespero de tentar disfarçar a não-tão-discreta encarada eu fiz um impulso pra cima, tentando tirar minha cabeça do ombro de . O problema foi que ela também queria disfarçar a não-tão-discreta encarada e fez um impulso pra baixo, tentando esconder o rosto entre os joelhos. O resultado?
- ÁAAAI FILHA DA MÃE! – ela exclamou enquanto colocava a mão na região da testa que eu tinha batido.
- Aaaaai caralho, caralho, caralho. – falei esfregando a parte de trás da minha cabeça – Desculpa! Ele está rindo da nossa cara, não está?
- Eu tenho CERTEZA que sim, mas não tenho a cara de pau de verificar se é verdade.
Eu tentei da forma mais discreta possível, e quando eu digo isso depois desse mico que a gente tinha pagado é verdade, ver a reação dele. E bem, ele estava VERMELHO DE RIR e olhava o celular.
- É... Ele definitivamente está rindo da nossa cara. Ele também está olhando no celular, o que eu poderia concluir que ele filmou ou fotografou esse momento, mas eu vou ser otimista o bastante e dizer que ele não pode ter sido tão rápido assim.
- Você tá me zuando?!
- Não. Não mesmo. Ele está definitivamente conferindo o celular.
- Eu não sei se eu me mato ou se eu o mato. – ela disse.
- Melhor se matar mesmo, porque até pra matar ele a gente vai ter que o encarar de novo. – falei rindo.

As audições já haviam começado a passar no telão, e era uma mistura de crueldade e diversão ver como o Simon tratava os participantes, ia de frases como “Você cantando parece a Dolly Parton com a voz alterada por gás hélio” a “Sua apresentação foi como se um chihuahua estivesse tentando ser um tigre”. Eu não conseguia entender como o povo britânico gostava desse homem. Na verdade eu não conseguia entender como eu estava começando a gostar desse homem.
- Para de esfregar essas mãos na calça. – falei pra – Se eu torcer ela vai pingar suor. E isso é nojento!
- To nervosa, !
- Tá parecendo um jacu do mato, isso sim. Anda, levanta.
- Pra quê? – ela disse apontando para o telão indicando que queria continuar assistindo.
- Pegar uma Pepsi pra refrescar suas preciosas cordas vocais e pra transformar esse seu nervosismo em gás, que aí ele sai desse seu bendito corpo em forma de pum.
- Credo, . – ela disse se levantando – Quem está sendo a nojenta agora?
- Eu sempre fui bem clara que eu era estranha, você que decidiu embarcar no Grande Navio da Doideira da , agora aguenta, senhorita.
Enquanto caminhávamos em direção à máquina de refil da Pepsi em um lado da sala, sussurrou para mim um “disfarça” que em um primeiro momento eu não tinha entendido, mas depois que vi que para pegar o refrigerante a gente iria passar na frente do garoto com a touca. Eu sabia que não devia ser tão cara de pau e encará-lo novamente, mas a vontade foi maior do que minha razão e disfarçadamente, e repito que quando digo que depois daquele episódio vergonhoso foi realmente de forma disfarçada, olhei para ele. Ao seu lado sentava um garoto que também aparentava ter a nossa idade, e como ele parecia bem nervoso, e o meu amigo de touca parecia tentar acalmá-lo.
- Tem outro menino tão bonitinho quanto ele sentado bem ao lado dele.
- ! Você ainda teve coragem de olhar pra ele de novo? – ela aumentou o tom de voz quando viu que havíamos chegado à máquina de refil e já estávamos longe dele.
- É claro, o que é bonito é pra ser visto mesmo. – disse retirando os copos dos lugares e posicionando na máquina.
- Visto, não encarado obsessivamente ao ponto do ridículo, o que eu faço com você? – ela disse enchendo os copos.
- Eu te disse, você que quis embarcar no meu Grande Navio.
E assim nos viramos para retornar aos nossos assentos e ficar ali até que fosse chamada para enfim poder se apresentar. Se não fosse a mão que apareceu no meio do caminho e tirou o meu copo da minha mão e o entregou para uma outra pessoa ao seu lado.
- HEY!
- O seu também vai ter grande utilidade. – o dono da mão pegou o copo de também.
- HEY! – e foi a vez dela reclamar.
Até o momento que nós duas engolimos em seco quando vimos quem era o dono da mão que agora virava o copo de em um gole só. Ao que parece, ele também não tinha percebido que tinha acabado de tirar os copos das duas retardadas que nunca tinham visto um garoto bonito na vida, mas assim que se deu conta que nós duas éramos na verdade essas duas retardadas um sorriso de lado começou a surgir no seu rosto enquanto ele pousava o copo no descanso do braço da cadeira.
- Merda. – sussurrei.
- Oi! – ele disse disfarçando a risada.
- Oi. – respondeu com o rosto super vermelho. E eu não podia falar nada, já que não deveria eu não deveria estar muito diferente daquilo.
Ah como eu estava invejando os avestruzes e sua incrível capacidade de esconder a cabeça num buraco embaixo da terra. Eu tinha duas opções: virar um avestruz e me esconder embaixo da terra ou sair daqui. Como a primeira opção era humanamente impossível, só me restou a alternativa “ralar peito desse lugar”.
- Eu vou emb...
- Eu sou o . . – o filho da mãe disse interrompendo o meu plano de fuga – E esse é o ... o que mesmo?
- . – ele disse finalmente desviando o olhar do copo. Do MEU copo.
- E vocês são?
- . – respondi.
- .
- Vocês são irmãs? – perguntou.
- Ah não. – respondeu – Somos primas, nossos pais são irmãos, então o sobrenome ficou em nós duas.
- Sobrenome interessante. – observou.
- Nossos pais e eu somos do Brasil. – respondi – nasceu aqui em Manchester mesmo.
- Brasil... Maneiro, sempre tive vontade de viajar pra lá. – ele respondeu ajeitando a touca no cabelo – De qualquer maneira, desculpa por “roubar” de vocês o seu precioso refrigerante, mas o que acontece é que o estava, bem... – ele olhou para o companheiro – Ainda está muito nervoso por causa da audição. Ele foi ao banheiro jogar uma água no rosto e foi quando eu esbarrei nele.
Até que ele é bem bonitinho, eu pensava.
- Mas não foi a esbarrada do tipo que deixa o sabonete cair no banheiro de um presídio masculino.
Ele continuou a falar e eu pensava o quanto ele era estranho.
- Foi uma esbarrada de macho. Enfim, isso tá estanho. – disse olhando para o colega – Minha família veio comigo, mas resolvi ficar aqui sozinho para não ficar tão nervoso assim, enquanto ele veio sozinho de todo.
- Tecnicamente isso é pra ser uma surpresa pra minha família. – disse se ajeitando na cadeira.
- Então eu resolvi ajudar o cara, conversar com ele e tal. – continuou falando. – O problema é que o nervosismo dele passou pra mim, e agora somos dois nervosos.
- E agora eu tenho três nervosos. – falei.
- Você vai se apresentar? – ele perguntou.
- Não! – respondeu indignada por mim.
- Então não fica irritada, porque tá ocorrendo uma grande pressão aqui no momento em nós três... De qualquer jeito, foi por isso que eu peguei o refrigerante de vocês, pra ver se dava uma diluída no nervosismo.
- Isso é uma maneira delicada de se descrever a situação. – disse me dando uma encarada feia.
- Diluído, gás, odeio química do mesmo jeito. O que importa é a figura de linguagem. – falei e notei um sorriso travesso brotar nos lábios de .
- Uma ideia acabou de surgir na minha mente. – ele disse olhando pra e do garoto pra gente – Acho que a melhor estratégia pra você, meu caro , é uma boa psicologia reversa, se é isso que se chama o que eu vou fazer agora.
Ele realmente era muito estranho.
- O quê? – disse ao seu lado o encarando como se fosse um doido, o que nesse momento eu também acreditava ser a conclusão mais correta a se fazer.
- Eu não vou tentar te acalmar, ou me acalmar. – ele ponderou e nos olhou de novo – Eu vou deixar nós dois mais nervosos, mas tão nervosos ao ponto de achar que enfrentar Simon Cowell nessa audição não vai ser nada.
- Isso não se chama psicologia reversa. – eu disse – Isso é mais fantasiar uma situação, mas como você vai fazer isso, espertinho?
- Fácil, vou mostrar pra ele, o que está na cara dele e ele ainda não viu, e que deixa todos os homens da face da Terra nervosos, sem exceção.
- E o que seria isso? – falou.
- Conversar com garotas bonitas. – ele disse com um sorriso de lado.
Ok, ok, ok, , não fique vermelha pelo amor de Deus, de Jesus, Maria e José, não fique vermelha. Faça qualquer coisa, MAS NÃO FIQUE VERMELHA!!!!
- Cara, isso definitivamente não está ajudando. – , que estava vermelho, disse.
- Pra nenhum de nós. – , que também estava vermelha, nos sinalizou indicando , ela e eu.
- E de qualquer forma, porque a aprovação de quatro pessoas significa tanto assim pra vocês? – falei dando outro rumo para o assunto.
- Porque é importante. – disse.
- E por que é importante? – insisti.
- Porque nós queremos ser cantores, e fazer uma carreira disso. – disse – A opinião dessas pessoas importa pra poder nos guiar no caminho certo, para sermos aceitos e notados nesse ramo. E aceitação e notoriedade são importantes.
- Não, você está me dizendo que quer ser famoso cantando. – conclui.
- Dá no mesmo. – disse.
- Não, não dá no mesmo. – e foi a vez de concordar comigo.
- Se vocês amam a música e vivem por ela, e quando eu digo viver por ela significa dar cada gota do seu sangue e dedicar cada respiração a ela, e não apenas fazer uma carreira dela por causa do dinheiro que proporciona. Se vocês amam e vivem pela música, não precisam ficar nervosos por causa de quatro pessoas. Mesmo que essas quatro pessoas sejam influentes pra cacete. – falei distribuindo o meu olhar entre os três pra ter certeza que eles estavam me ouvindo – Ramones, Sex Pistols, Nirvana, The Runaways, vocês acham que algum desses caras estava ligando para o que quatro bostas falavam deles? Eles se juntavam por causa da música, e só por causa dela. Escreviam a letra de suas músicas pra falar do que sentiam, pra falar de suas revoltas contra o sistema, de suas paixões, de suas aventuras. Escreviam e compunham porque tinham vontade, a emoção estava no primeiro plano, a venda e o dinheiro no segundo.
- Pra ser justo, você acabou de fazer uma comparação de peso com esses nomes, eu sou um bostinha perto deles. – disse.
- Todos nós somos bostinhas até que o momento que paramos de ser bostinhas e viramos gênios, entendeu? – falei.
- Quando foi que a gente perdeu essa poesia? – disse me encarando.
- Em algum momento entre Britney Spears e Lady Gaga. – respondi rindo e logo acrescentei – Eu gosto das duas, é só uma pequena crítica, nada mais. Mas enfim pessoal, não fiquem tão nervosos assim, eu nunca ouvi vocês dois cantarem, só a , mas eu sei que vocês vão se dar bem. Não precisa ter medo, a vida é muito mais do que quatro pessoas prontas pra te julgar.
Nós quatro ficamos conversando ali por mais um tempo, até que um dos funcionários do X Factor chamou para a sua apresentação. Desejamos boa sorte pra ele, e assim que ele se levantou da poltrona ao lado de eu apressei para me sentar ali. Desculpa, , mas sim, sou egoísta a esse ponto. Shame on me. Alguns minutos depois, já estava no palco conversando com os jurados e logo depois começou a cantar I Want You Back do Jackson 5. Ele realmente era bom, estava nervoso e dava pra ver isso, mas no total a apresentação correu bem, tão bem que foi aprovado por 3 dos 4 jurados.²
Mais duas audições passaram no telão enquanto nós as assistíamos, até que outro funcionário do X Factor chamou o número e o nome de . Nos levantamos e nos despedimos de .
- Até agora não te perguntei, mas que música você vai cantar? – falei enquanto seguíamos o funcionário do X Factor até a região na lateral do palco que iríamos encontrar com o restante do nosso grupo.
- Ainda não sei. To decidindo. – respondeu e o funcionário do X Factor se virou pra ela fazendo uma cara de choque, e eu tinha certeza que eu também a tinha no meu semblante.
- VOCÊ É LOUCA??
- Relaxa, . Eu sei o que eu estou fazendo. – ela disse com um sorriso no rosto – Nervosa, mas sei o que estou fazendo.
Eu não sabia se o que ela tinha era muita coragem ou muita insensatez, mas eu acredito que exista uma linha tênue entre essas duas características. Só queria saber de qual lado da linha ela estava, mas sabia que em outro diagrama, ela definitivamente estava do lado da loucura. E até a admirava por isso, afinal, era uma das qualidades que ela tinha e eu não. Nesse ponto ela me completava.
O funcionário parou diante de uma porta preta de metal que parecia ser muito pesada e a abriu, a sala tinha uma decoração com as cores do X Factor, e tinha 6 televisões para mostrar a audição dos participantes em ângulos diferentes, no canto da sala tinha uma pequena escada que fazia conexão com um corredor que ia em direção ao palco. Nosso grupo já estava lá dentro, e quando minha tia viu correu para abraçá-la.
- Eu to bem, mãe. – ela disse lutando pra sair do abraço apertado.
- Senhorita, você é a próxima. – outro funcionário do X Factor disse indicando a escada.
- Arrase com todos eles, campeã. – meu tio disse dando um empurrãozinho no ombro de enquanto ela se virava novamente pra mim.
- Preste atenção, ok? – ela disse e eu respondi com um aceno de cabeça.
- Boa sorte. – falei e todos os outros também repetiram a minha frase.
Cerca de cinco minutos depois, aparecia na televisão entrando no palco e caminhando em direção ao seu centro onde havia um pequeno X desenhado, e tudo isso sob os aplausos de todo o Manchester Central.
- Olá! – Nicole Scherzinger disse com um sorriso no rosto – Qual é o seu nome e sua idade?
- Boa tarde, Manchester Central. – disse segurando o microfone – Meu nome é e eu tenho 16 anos.
- ? Sobrenome interessante pra uma inglesa. – Louis Walsh disse após anotar algo em um papel qualquer.
- Todo mundo fala isso. – disse depois de ter dado uma risada abafada, eu já notava que a mão que segurava o microfone tremia – Meu pai é brasileiro e minha mãe inglesa, e eu nasci aqui, então pela ordem das coisas o sobrenome que fica é o dele.
- E você fala português? – Cheryl Cole perguntou com um sorriso que mostrava suas covinhas.
- Um pouquinho só, e horrivelmente mal.
- E quais são as suas intenções nesse programa? – Simon perguntou.
engoliu em seco, claramente nervosa.
- Alguém me lembrou que devemos viver para a música, e não da música, e eu estou aqui tentando fazer isso.
- Boa resposta. – Nicole disse com um sorriso zombado para Simon – Me diz uma coisa, , você está nervosa?
- Bastante. – ela respondeu e notei novamente a mão do microfone tremer de forma quase descontrolada.
- Nós podemos perceber isso daqui. – Nicole disse com um tom compreensivo – Faça o seguinte, dá uma sacudida nesse corpo, tenta afastar o nervosismo. – então começou a sacudir timidamente o corpo – Não, sacuda mais, mais mesmo, como aqueles bonecos infláveis de posto. – Nicole levantou de sua cadeira e começou a fazer gestos para que pudesse repetir enquanto todos, literalmente todos, riam da cara dela – Isso! Melhor, não?
- Mais ou menos. – disse rindo com a cara completamente vermelha de vergonha.
- Pronta pra se apresentar? – Nicole perguntou.
- Sim. – respondeu segurando o microfone com as duas mãos em frente ao rosto.
Ela baixou as mãos e as sacudiu novamente ao lado do corpo e as voltou em direção ao rosto novamente. Sem música de fundo e sem mais firulas ela começou a cantar.

Pick it up, pick it all up
(Pegue isso, pegue tudo isso)
And start again
(E comece de novo)

Sua voz leve e quase angelical combinada com o silêncio do lugar e a falta de música de fundo ecoava por todo o Manchester Central, Louis trocou olhares com Cheryl, o que só podia significar algo bom.

You've got a second chance
(Você tem uma segunda chance)
You could go home
(Você poderia ir pra casa)
Escape it all
(Escapar de tudo isso)
It's just irrelevant
(É simplesmente irrelevante)

Ela ainda segurava o microfone com ambas as mãos em frente ao rosto, mantinha os olhos fechados, colocando sentimento em cada palavra cantada. Simon girava a caneta entre os dedos, enquanto Nicole olhava para com um sorriso leve no rosto.

It's just medicine
(É apenas medicamento)
It's just medicine
(É apenas medicamento)

abriu os olhos e começou a direcionar o olhar para cada canto do lugar, como se estivesse tentado mostrar que cantava intimamente para cada indivíduo daquele lugar.

You could still be
(Você ainda pode ser)
What you want to
(O que você quer)

Mas o indivíduo para quem ela cantava era eu.
What you said you were
(O que você disse que era)
When I met you
(Quando te conheci)

Era verdade que eu sofria muito com as minhas mudanças constantes de lugar. Era verdade que eu odiava dizer “adeus” a um grupo de pessoas, a uma cidade, a uma vida que construí. Era verdade que eu tinha um grande medo de recomeçar em um novo lugar. Era verdade que eu não queria me mudar para a Escócia. Era verdade que eu não queria passar o verão com a família do meu pai, com .

You've got a warm heart
(Você tem um coração quente)
You've got a beautiful brain
(Você tem um lindo cérebro)

Era verdade que ela havia se tornado uma grande amiga para mim nesses últimos dias. Era verdade que ela tinha uma grande empatia comigo, ela sentia o meu medo, ela via o temor nos meus olhos e agora ela tentava me acalmar do jeito que ela podia. Era verdade que apesar de não saber o que eu pretendia fazer ela me dava forças. Era verdade que ela era minha prima e que com certeza tinha muito carinho por mim, mas também era verdade que nesse momento eu descobri que a amava.

But it's desintegrating
(Mas está se desintegrando)
From all the medicine
(De todos os medicamentos)

Ela continuou a cantar com sua voz angelical dirigindo olhares a cada um dos jurados. Meus tios se abraçavam e tinham lágrimas em seus olhos e todos os presentes na sala tinham sorriso nos lábios.

You could still be
(Você ainda pode ser)
What you want to be
(O que você quiser ser)
What you said you were
(O que você disse que era)
When you met me
(Quando você me conheceu)

Simon então levantou a mão indicando para que ela pudesse parar de cantar. Toda a arena aplaudia de pé, algumas pessoas gritavam e os jurados tinham em seus semblantes uma mistura de calma, satisfação e alegria. sorria e timidamente escondia o rosto em suas mãos.
- UAU! – Nicole disse – Vou deixar o Louis ir primeiro.
- UAU UAU UAU UAU! – Louis disse rindo – , eu tenho que te dizer que o que você fez foi uma das coisas mais raras que podia acontecer nesse palco.
- Sim. – Simon concordava baixinho.
- Você simplesmente cantou. Você deixou a sua voz ser projetada por todo esse lugar claramente. Você poderia ter optado por toda aquela firula de ter sons de fundo, todo aquele peso atrás de si, mas optou pela limpidez. – Cheryl e Nicole balançavam a cabeça em concordância – E QUE VOZ! Definitivamente um sim para mim.
- Cheryl. – Nicole disse em meio ao som da plateia aplaudindo.
- Eu concordo em tudo que o Louis disse. – ela disse com um sorriso cheio de covinhas – Você fez a coisa mais difícil, você se mostrou pra todo o Reino Unido aqui hoje, você nos deu a claridade da sua voz. É um sim e eu espero muito ser mentora das garotas esse ano.
- Simon.
- Desde o momento que você entrou nesse palco eu sabia que algo muito bom ia acontecer. – ele disse rindo – O que você fez foi genial, quem dera se os outros seguissem o seu exemplo. Um grande, gordo e imenso sim para mim.
- Querida, a primeira coisa. – Nicole disse em meio aos gritos – Você é maravilhosa! Pode jogar esse nervosismo todo fora! Sua voz é tão clara, tão angelical, parecia que eu estava no céu. E se manter no tom da música sem nenhum instrumento de apoio?! Meus parabéns! Você foi sensacional. Você tem quatro “sins”.
Todo o Manchester Central aplaudia . Ela pulava, sorria e agradecia aos jurados ao mesmo tempo.
Naquele momento, ela era a verdadeira definição da felicidade.

Depois de um dia bastante exaustivo, eu finalmente estava deitada na cama de , naquela imensidão de rosa que ela chamava de quarto. Encarava fixamente um pôster da Edith Piaf ³ que ela tinha na sua parede-pôster.
- Obrigada. – falei.
- Você está me agradecendo muito hoje. – ela respondeu com um sorriso se deitando ao meu lado.
- Você está merecendo mais do que o normal hoje.
- Eu achei que você estava precisando de uma ajuda.
- Estava mesmo.
- Eu não sou muito boa pra falar dos meus sentimentos com os outros. – ela disse e eu a encarei de maneira irônica – Eu reconheço que eu falo demais, mas falar demais não é a mesma coisa que falar alguma coisa, . De qualquer jeito, eu queria te dizer que estou aqui por você, e que em qualquer momento da sua vida que você precisar de mim pra qualquer coisa, eu vou estar aqui. Sempre.
Eu ainda não sabia o que responder, continuei encarando Edith Piaf e seu olhar eternamente distante, eternamente virado para o infinito, para alguma coisa maravilhosa e incrível que somente ela podia ver, mas que eu também queria ver.
- Eu tenho um plano. – falei finalmente.
- Hm.
- E eu preciso da sua ajuda.

Notas do Capítulo 5:

¹: Essa expressão alemã, gespannt wie ein Flitzebogen, foi retirada do filme The Grand Budapest Hotel, um dos meus filmes favoritos. De alguma maneira eu queria mencioná-la aqui na fic, mas devido à data do lançamento do filme, 2014, e o tempo desse capítulo, 2010, ficaria um pouco (muito, diga-se de passagem) fora de contexto, então foi essa a maneira ~estranha~ que eu consegui encaixá-la aqui. Se alguém aqui fala alemão e notar que a frase, ou sua utilização, está errada não me culpe, culpe o Wes Anderson que fez o roteiro desse filme M-A-R-A-V-I-L-H-O-S-O.
²: Gente, como essa fanfic é uma fic que quem está lendo tem a opção de escolher o ídolo, eu não selecionei a música exata da apresentação de um dos meninos, optando então por escolher por uma música diferente para que não ficasse fixado na imagem de um só. Ocorreu a mesma coisa com o número de jurados, em relação à apresentação dos meninos a maioria ocorreu com 3 jurados, enquanto ~acho~ que somente a do Niall teve 4 jurados. Mas como o número padrão do X Factor é de 4 jurados deixei esse número mesmo.
³: Cantora ~ foda ~ francesa de meados do século passado, uma das minhas favoritas, e grande inpiração pra personagem principal.



Capítulo 6 - Cuando los ángeles lloran, lloverá.


Glasgow, Escócia. Agosto de 2014.

A ponte Clyde Arc brilhava ao fundo em tons de rosa claro, mais ao fundo da paisagem a SSE Hydro Arena brilhava em tons de verde e azul. As cores chamativas contrastavam com o céu crepuscular opaco da Escócia, e de uma maneira muito estranha eu gostava daquilo. Há alguns anos atrás a normal, saudável e no começo de um relacionamento vinha à Glasgow com suas três melhores amigas para começar uma carreira com sua banda. Para colocar o seu nome no Reino Unido e depois no mundo. A de alguns anos atrás que ficava em albergues com chuveiros de água fria no inverno, mas que era indubitavelmente feliz.
Mas não sabia disso, mas era ingrata, e acima de tudo, era cega.
A de agora se lembrava da de antes com tristeza e nostalgia. Eu, que tinha o nome reconhecido mundialmente, especialmente na Europa, que agora ficava em hotéis de luxo com banheiras de água quente e hidromassagem, recebia apenas mensagens dos pais de vez em quando, não tinha companhias em seu quarto de hotel, e era terrivelmente só.
E tinha o conhecimento desse fato, de olhos bem abertos, mas a mente turva.
A mente sempre turva.
Saí da janela no momento em que escutei uma batida na porta, e sem surpresa vi o camareiro com minhas malas assim que a abri. Ele retirou a minha bagagem do carrinho do hotel e a colocou num canto dentro do quarto.
- Obrigada – disse entregando uma nota de 20 libras, por um instante ele me direcionou um olhar agradecido, que mudou para uma mistura diferente, e antes que a curiosidade me fizesse perguntar quais eram os sentimentos que ele tentava transmitir naquele olhar eu fechei a porta na cara dele. Eu não queria saber e eu não iria saber. Simples assim.
A cama parecia tão confortável e tão fofa, mas a vista do tardio anoitecer de verão era mais atrativa do que a ideia de me deitar. O que era um milagre, já que nos últimos dias eu só tinha energia para fazer três coisas: comer, ficar deitada e o meu favorito de todos os tempos, comer enquanto estava deitada. Voltei à janela e ali continuei a observar as pessoas que transitavam nas ruas.
Uma mulher de vestido vermelho atravessava a avenida e ia em direção à outra mulher com um macacão cinza que sorria abertamente com dentes assustadoramente brancos. Um velho e encurvado senhor de kilt andava calmamente com o seu border collie. Uma criancinha empurrava o sorvete da outra no chão a fazendo chorar. E eu me lembrava de , lembrava da sua eterna busca pela poesia. Uma poesia perdida, uma poesia que para todos os 7 bilhões de pessoas do mundo era desconhecida, mas ele a conhecia muito bem.
É melhor você parar de pensar nele, dizia uma voz aguda muito parecida com a de na minha cabeça. É melhor eu parar de pensar nele, eu concordava. Preciso redirecionar os meus pensamentos, a voz da razão ecoava em minha mente, preciso redirecionar... REDIRECIONAR PRA ONDE? Uma voz cheia de raiva respondia à voz da razão. Pensa, , pensa.
E se existisse uma lâmpada posicionada permanentemente em cima da minha cabeça, esse era um dos momentos em que ela teria se acendido.
Uma caneta e um papel!
Caminhei pelo quarto a procura dos dois materiais que me seriam úteis, acabei terminando com uma caneta permanente azul de tampa mordida por um ser que com certeza não era humano, encontrada no fundo da última gaveta de um dos cômodos do quarto, e um rolo de papel higiênico, encontrado no banheiro mesmo. Posicionei a caneta e o rolo em cima da cama e me sentei em frente a eles, sempre com a frase “a que ponto cheguei?” ecoando pela minha cabeça. Desenrolei o papel em cima da minha perna até a beirada do meu short jeans, prendendo uma das pontas do papel ali entre o tecido do short e a minha pele. Olhei para a caneta permanente com a tampa quase sem forma, notei que apesar de estar toda destruída e feia, a tampa ainda tinha serventia para a caneta, afinal, sem ela a tinta já há muito teria se secado e a caneta não teria utilidade nenhuma mais, não pertencendo a outro lugar que não seja o lixo. Sacudi a cabeça afastando esses pensamentos sem sentido, destampei a caneta e passei a escrever no papel higiênico todas as minhas atividades desse fim de semana na Escócia. A lista, que cabia no espaço de três quadradinhos de papel higiênico, terminou assim:
Quinta-Feira (hoje):
1 – Chegar ao hotel
2 – Dormir (claro que entre os tópicos “chegar ao hotel” e “dormir” eu posso fazer diversas atividades, como comer, assistir séries no Netflix e fazer essa lista ridícula)

Sexta-Feira:
1 – Acordar cedo e encontrar o ânimo pra viver
2 – Falhar em encontrar o ânimo pra viver e tomar café da manhã
3 – Fazer a passagem de som do show na SSE Hydro Arena
4 – Almoçar
5 – Show da banda (entre item “almoço” e “show da banda”, que será às 21h, vou ter tempo para fazer muitas atividades, não pensar no , aturar a ignorada da , comer e assistir séries no Netflix, Netflix eu te amo)
6 – Dormir

Sábado:
1 – Acordar cedo e mal humorada porque acordei cedo
2 – Superar o fato de que acordei cedo e de que estarei mal humorada e ir comer alguma coisa
3 – Viajar para Edimburgo
4 – Chegar ao hotel
5 – Repetir o processo descrito no tópico “Sexta-Feira”
- Que. Bosta. – falei olhando para a o papel higiênico preso em minha perna – A minha vida se resumiu a 13 tópicos escritos na merda de um rolo de papel higiênico, com a bosta de uma caneta mordida.
Alguém mais está notando a ironia disso? Porque eu estou conseguindo tocar na ironia.
Literalmente.
Tampei a caneta novamente e tirei o papel da minha perna jogando ambos no chão ao lado da cama. Voltei o meu olhar para a minha coxa e vi claramente a lista impressa na minha perna em tons de azul. Molhei o dedão com um pouco de saliva e esfreguei na minha perna para tentar apagar um pouco do escrito, mas sem sucesso, claro. Maldita caneta permanente. Maldito papel higiênico. Chupa essa 50 Tons de Cinza, eu tenho 13 Tons de Fracasso marcados na minha pele para me lembrar do tanto que a Lei de Murphy é obcecada por mim.
Escutei uma leve batida na porta. Olhei ao meu redor e tudo o que poderia estar no meu quarto já estava presente no dito recinto, então não poderia ser do hotel. Saí da cama em direção à porta e para a minha surpresa não era ninguém do hotel que estava do outro lado dela.
- Ela te mandou vir aqui? – perguntei assim que nossos olhos se encontraram.
- , eu não sei se você notou ainda, mas eu não sou uma putinha barata à serviço da . – respondeu me tirando do caminho, entrando no meu quarto e se deitando em minha cama.
- Você quer alguma coisa? – falei fechando a porta.
- Tão direta ao ponto assim? Sem preliminares? – ela disse com um sorriso malicioso no rosto.
- Sua pervertida.
- Você nunca deixou de me amar por isso.
Ela retirou os sapatos e se ajeitou na minha cama, em seguida ela olhou para o outro lado da cama e para mim novamente, me chamando para acompanhá-la com dois tapas de leve sobre as cobertas. Me arrastei pelo quarto e me sentei ao seu lado, assim que fiz isso senti os seus olhos percorrerem a minha coxa e em seguida as suas mãos fizeram o mesmo, sublinhando cada item da minha Lista do Fracasso.
- Por que você faz isso? – ela disse apontando o item 2 de Sexta-Feira.
- Eu precisava manter a minha mente ocupada por um momento.
- Isso não está certo. – ela disse com uma cara estranha e logo em seguida começou a fazer um carinho de leve em minha coxa.
- Você sabe como eu sou debochada e irônica, não deveria levar isso muito a sério.
- Se você fosse qualquer outra pessoa no mundo talvez eu realmente não levasse tanto a sério assim, mas eu te conheço muito bem e por isso eu me importo, nada mais natural do que o meu comportamento de levar muito a sério tudo que se remete a você, . – ela parou por um momento e me encarou profundamente – Mas é claro que eu não escolhi isso.
- Está tudo bem. – falei retirando sua mão de minha coxa e a entrelacei com a minha – Eu sei que não tivemos muitas chances de conversar depois do que aconteceu lá em casa, mas obrigada por ajudar a me separar de . E me desculpa por ter feito você presenciar aquilo.
- Não precisa se desculpar.
- De qualquer jeito... – comecei a falar, mas ela me interrompeu.
- Você se lembra das primeiras semanas depois de que a gente se conheceu, e que eu entrei na minha fase de extrema crise existencial e em um momento eu simplesmente explodi?
- Sim. – respondi entre risadas me lembrando da fase "Britney Spears 2007 breakdown" de .
- Eu me lembro de estar puta da vida, e você em um dos seus momentos Indiana Jones me obrigou a sentar no chão do seu lado e começou a me falar da definição de amor de um filósofo doido francês.
- Gilles Deleuze.
- Deve ser esse homem mesmo. – ela disse rindo – Você me disse que concordava com a visão dele de que uma pessoa não pode dizer que conhece, que gosta ou que ama outro alguém sem conhecer o ponto de loucura desse alguém, “o verdadeiro charme das pessoas reside em quando elas perdem as estribeiras”.
- E você realmente acredita nisso?
- Claro que não, só estava tentando te fazer sentir melhor.
- , sua idiota!
- Eu sou inglesa, você sabe muito bem como nós nos sentimos em relação aos franceses, não somos tão passionais como eles e por isso não entendemos metade do que eles falam. – ela disse rindo soltando a sua mão da minha – O que importa é que naquele momento, com palavras bonitas e filosóficas ou não, você me entendeu e você me aceitou, e acabei me acalmando. Do meu jeito estranho e desengonçado de organizar as minhas palavras, eu estou fazendo o mesmo por você. Então não se preocupe pelo o que aconteceu naquele dia, agora eu sei o seu ponto de loucura.
- Obrigada. – falei sentindo as lágrimas encherem os meus olhos, mas pela primeira vez em muito tempo não era por motivos e sensações ruins, e sim pelo simples sentimento de ter me sentido acolhida, como em um abraço quente em uma noite de inverno.
- Mas não pense que estou apoiando os seus atos. – ela fez uma expressão séria – Porque eu não aprovo, mas eu reconheço que me afastar de você não vai te curar imediatamente, da mesma maneira que te pressionar ou te agredir não vai resultar em nada, isso só vai te fazer sentir pior e te afundar mais ainda nesse buraco. Mas eu quero te ajudar da melhor maneira que eu posso, mesmo que você não peça, mesmo que você tente me repelir. Eu quero te ajudar até que você queira se ajudar, porque é isso que você tem que fazer por aqueles que se ama.
Era melhor que um abraço numa noite de inverno, era um abraço apertado E uma caneca de chocolate quente com marshmellow e canela numa noite de inverno. Eu sabia que não teria condições de expressar claramente tudo o que ela me fez sentir, então com toda a força que tinha em meu corpo pulei em cima dela e a abracei.
- Hmmm... Eu devia falar mais coisas assim pra você.
- Não estraga o momento, sua pervertida!
- Ah, mas você nunca deixou de me amar por isso.

Já fazia uns 10 minutos que eu rolava sem sucesso na cama tentando achar o meu sono perdido, e aparentemente eu não o acharia tão cedo. Olhei para os ponteiros do relógio do quarto do hotel tentando decifrar as horas, 20 anos nas costas e ainda não conseguia ver as horas direito em um relógio analógico. Parabéns, , é assim mesmo que se faz. Finalmente lembrei que estava no século 21 e olhei o meu celular, que indicava que já haviam passados 47 minutos depois das 5 da manhã.
A escolha de me levantar da cama era uma bem difícil a se fazer, já que a partir do momento que eu saísse desse reino quentinho e confortável onde todos os meus problemas simplesmente desaparecem por cerca de 8 horas seguidas era a mesma coisa que começar a ser o saco de pancadas da Vida pelas 16 horas restantes do dia, e isso com direito a socos na boca do estômago e bicudas depois de já estar caída no chão. E OLHA QUE BELEZA! Eu não tinha dormido nem 6 horas direito, o que significava que eu tinha mais 2 horas extra apanhando no ringue.
Eu queria ligar para o saguão do hotel e pedir o meu café da manhã, mas imaginava que às 05h47 da madrugada ele viria com alguns brindes especiais como cuspe ou até um pentelho alheio, isso por fazer o recepcionista e o cozinheiro atenderem uma fedelha que não consegue segurar o sono por algumas horas a mais como todo o resto da humanidade. Não, eu não seria esse tipo de pessoa, eu esperaria mais um pouquinho como todos os seres normais.
Caminhei em direção à janela, a ponte Clyde Arc continuava com o seu brilho rosa e a SSE Hydro Arena continuava a bruxulear os seus tons de verde e azul, mas agora esses tons não se destacavam mais. Sempre acreditei que somente um idiota perderia o seu precioso e esgotável tempo olhando para os prédios e para tudo o que é terreno ao invés de olhar para o céu, e como eu não era nenhuma idiota, levantei o meu olhar para aquela imensidão misteriosa e inalcançável. A aurora tomava conta do céu com seus dedos longos nas cores de laranja, roxo e rosa. Em outro ponto do céu Vênus ainda se apresentava como a estrela mais brilhante, mas logo seria substituída por outra maior, mais fogosa e mais brilhante. A mais brilhante. A relação entre Vênus e o Sol era bem parecida com a relação de todos os seres humanos da Terra, o que a meu ver, nesse momento, era a mais cruel comédia.
Voltei o meu olhar para as ruas da ainda adormecida Glasgow. Pouco a pouco a cidade acordava, alguns ônibus já começavam a sua rota diária e pela distância eu podia escutar as portas de aço de enrolar de algumas lojas sendo abertas. Meus olhos passavam correndo pelo labirinto de ruas e prédios, até que se depararam com um morador de rua e seu cachorro. O homem esticou cada membro do corpo enquanto o cachorro, ainda sonolento e por incrível que pareça coberto com um lenço, a seu lado virava de lado como se não quisesse acordar. O dono do animal dobrava o seu cobertor com cuidado, era como uma peça preciosa, depois empurrou levemente o cão para o lado, que não pareceu gostar do ato, mas acabou se levantando e se sacudiu para acordar, e também dobrou o lenço do animal com o maior cuidado do mundo. O morador de rua caminhou em direção a um bueiro, levantou a sua tampa e depositou as cobertas ali dentro, em troca recebeu lambidas de carinho do seu cachorro.
E durante todo esse processo eu só conseguia me lembrar de uma coisa. Ou melhor, de um alguém.
Dele.

olhava cuidadosamente para todos os cantos da rua enquanto andávamos ombro a ombro, chocando-os de vez em quando de propósito.
- Você tem olhos de um bebê. – falei o observando em todos os detalhes e recebendo uma levantada de sobrancelha em resposta – Olhando tudo como se fosse pela primeira vez.
- E não é?
- Claro que não! Ou você vai me dizer que nunca viu um homem gordo comprando um cachorro-quente de outro homem gordo com uma baita pizza debaixo do sovaco? – disse apontando para onde o seu olhar estava virado.
- Claro que sim, mas não aqueles dois em particular. – ele disse com um sorriso de lado e eu, contra todas as leis da física, química e biologia juntas, fiz uma cara feia para um dos seres mais adoráveis do mundo.
Continuamos andando devagar chocando nossos ombros, olhei para o céu de outono de Londres enquanto sentia o vento refrescante no meu rosto. Esbarrei a minha mão na dele. De propósito, claro. Quem não faria isso?
- Já você... – ele disse e eu voltei meu olhar para os seus olhos – Você tem olhos de sonhadora.
- Isso é incrivelmente ingênuo de sua parte, .
- Não sou eu que fico parecendo incrivelmente ingênuo olhando para as estrelas, . – ele deu uma ênfase no meu nome.
- Pelo menos eu olho para algo que vale a pena ser olhado.
- As estrelas aparecem todos os dias no céu após o pôr do sol e continuam ali até o amanhecer.
- Mas elas mudam de lugar conforme as estações do ano passam.
- Sim, elas mudam de lugar, somente para 365 dias depois estarem no mesmo lugar onde estavam no dia primeiro de janeiro do ano anterior.
- Elas são maravilhosas! Quem no mundo escolheria não olhar para as estrelas?
- Eu. – ele disse com um sorriso gigante no rosto.
- Você é doido, eu juro que tento entender o seu ponto de vista, mas simplesmente não consigo.
Ele soltou uma risada abafada e esbarrou a sua mão na minha.
- Eu acho dois gordinhos realizando uma transação comercial de um pão com uma salsicha cozida por dentro a coisa mais linda do mundo.
- Eu vou fingir que não escutei isso. – falei rindo.
- É a poesia, . – ele disse entrelaçando nossas mãos.
Um choque correu por todo o meu corpo, era a primeira vez que ele segurava a minha mão, era a primeira vez que ele me tocava com carinho daquele jeito.
- Se você for olhar, - ele disse calmamente brincando com meus dedos e eu tentava não direcionar o meu olhar para as nossas mãos juntas, eu tentava ao máximo manter a minha calma – todos nós estamos caminhando em direção à nossa ruína ou em direção à morte.
- Essa é uma visão muito pessimista para alguém tão jovem, .
- Mas é a verdade. E o que me encanta em todos esses atos terrivelmente mundanos é que os mortos não podem comprar cachorro-quente de um gordinho, sair pra passear com o cachorro, beber cerveja num pub, assistir a um jogo de rugby, sorrir ou apenas olhar as estrelas. Eu sei que parece idiota o que eu estou falando, mas tudo isso é privilégio apenas dos vivos, daqueles que têm um coração pulsante e sangue quente correndo dentro das veias. É banal, eu sei, mas pra mim é uma poesia linda, 7 bilhões de pessoas vivendo o dia a sua maneira. 7 bilhões de pontos de vista diferentes, 7 bilhões de jeitos diferentes de comer cachorro-quente, 7 bilhões de possibilidades de seres humanos que saíram do branco e se desenvolveram para formar o que são agora, 7 bilhões de conjuntos e características minuciosas que faz cada indivíduo excepcional e único. Me entende?
Finalmente baixei o meu olhar para as nossas mãos unidas absorvendo tudo o que ele tinha acabado de dizer.
- Você devia falar desse jeito com mais frequência. – disse sorrindo calmamente pra ele.
- Tá brincando? Eu tenho 17 anos e uma reputação de adolescente estúpido a zelar. – ele disse rindo e parou de repente na calçada e me olhou seriamente – Então, você quer realizar uma transação comercial com um gordinho com uma baita pizza no sovaco por dois pães com salsicha cozida dentro?


Senti as lágrimas encherem os meus olhos e me afastei imediatamente da janela. Foda-se o privilégio dos vivos. Foda-se você, , que me deixou quando eu mais precisava de você. Foda-se a minha memória por ser tão inconveniente e trazer lembranças assim, me fazendo lidar com o meu passado e o meu presente. Foda-se tudo. Olhei o relógio do meu celular e já indicava 06h20 da manhã. Os raios de sol já entravam no quarto e eu resolvi ligar a televisão do quarto enquanto começava um jornal local chamado Good morning, Scotland. Me deitei na cama e tirei o telefone do gancho enquanto via a apresentadora ruiva e de cabelos encaracolados à la Merida e o apresentador careca apresentarem as primeiras notícias do dia com um sotaque escocês pesado. Se havia uma boa hora de me empanturrar de comida, essa hora era agora.
- Skydale Hotel, bom dia. – uma voz grossa dizia do outro lado.
- Bom dia. Aqui é a ...
- AH! Bom dia, senhorita , deseja alguma coisa? – a voz do outro lado se tornou automaticamente mais amigável.
É claro que eu desejo alguma coisa, oras, eu não ia ligar pro recepcionista simplesmente para jogar conversa fora.
- Será que vocês poderiam enviar o café da manhã aqui para o meu quarto? Algumas frutas, bolo, suco, biscoito, o que tiver aí embaixo, eu estou morrendo de fome.
- Claro, em alguns minutos estará aí no seu quarto, senhorita . Tenha um bom dia.
- Obrigada, e pra você também.
Peguei o controle e aumentei o volume da televisão e em seguida me estiquei na cama.
- E agora passando para o entretenimento, quais são as novidades do fim de semana, Amelia? – o homem careca se direcionava à ruiva.
- Bem, Matthew, parece que a Escócia vai ferver esse fim de semana, tem muita coisa boa pela frente.
- É mesmo?
- Bem, temos a One Direction se apresentado hoje em Edimburgo no Murrayfield Stadium às 19h e amanhã em Glasgow no Glasgow Green também nesse horário...
OI? QUE PORRA É ESSA? COMO EU NÃO ESTOU SABENDO DISSO? -... E bem, colocando mais gasolina nessa fogueira – a ruiva continuava a falar – a Queens of the Jungle vai se apresentar hoje em Glasgow na SSE Hydro Arena às 21h e estarão amanhã aqui em Edimburgo no Meadowbank Stadium no mesmo horário.
- Amelia, eu não acredito em coincidências, mas se isso não foi obra do destino eu não sei mais o que é. – Matthew, o careca, disse.
- Pois é, Matthew, obra do destino ou de agentes e empresários bastante espertos para esperarem que mais um novo episódio da Guerra dos Galeses¹ do século 21 ocorra, para que possam lucrar com isso.
“Mais nova Guerra dos Galeses”? Quem esses filhos da puta acham que são? Eles acham que podem tornar o meu relacionamento com em um show de aberrações igual fizeram com Charles e Diana?
- Ah, mas se eles estão pensando que esses dois vão se encontrar novamente, eu acho que eles estão bem enganados. – Matthew disse gesticulando fortemente com as mãos – Apesar de ainda se apresentar como uma garota problema...
GAROTA PROBLEMA? O QUÊ? O QUE ESSE MERDA ESTÁ FALANDO?
- Como vimos, depois que soubemos da briga que ela teve com a própria prima e companheira de banda, Caldwell. – Matthew disse enquanto apareciam fotos minhas e de com alguns hematomas nos shows que fizemos depois da briga – Aliás, Amelia, o que foi aquilo? Ela simplesmente deixou a fúria brasileira dela tomar conta, como se fosse uma versão feminina do Blanka² ou o quê?
O filho da puta ria enquanto falava de mim daquele jeito. Eu era uma aberração, um objeto de especulação e deboche para os desconhecidos. O meu fracasso vendia, e as pessoas o comprava cada vez mais.
- Olha, Matthew, eu não sei o que deu nessas duas, mas sei que essa banda está com problemas suficientes e não precisam de mais. As duas principais integrantes saíram no tapa, o empresário já anunciou que vai deixar de trabalhar com elas, e isso não só pela , mas por causa da Kaya também, acho válido lembrar que não é só a com problemas ali. E agora essas duas bandas tão perto uma da outra assim... Se isso for uma estratégia de marketing por parte dos empresários, eu acho que isso pode acabar mal, viu?
- Continuo achando que eles não vão se encontrar, já vimos que seguiu em frente e está saindo com aquela modelo comportadíssima, tão comportada que eu até me esqueci do nome dela, mas talvez seja melhor assim. O garoto precisa de paz. – o careca disse com uma risada e se virou para outra câmera - E no próximo bloco vamos falar de como o time de rugby da Escócia está se preparando para a Copa do Mundo de Rugby do ano que vem na Inglaterra, não saiam daí.
FILHO. DA. PUTA. FILHO. DA. PUTA. FILHO. DA. PUTA. FILHO. DA. PUTA. EU VOU ACABAR COM A VIDA DESSE FILHO. DA. PUTA.
Retirei o telefone do gancho novamente.
- Skydale Hotel, bom dia. Em que posso ajudar? – a mesma voz grossa e escocesa falava do outro lado da linha.
- Olá. Aqui é a senhorita .
- Senhorita , o seu pedido já está subindo. – a voz novamente se tornou mais amigável e suave.
- Ah que ótimo! Você poderia adicionar uma garrafa do melhor whisky escocês que vocês tiverem no menu?
- Hm, senhorita, você tem certeza de que...
- Pode parar por aí, é claro que eu tenho certeza que eu quero essa garrafa agora, e eu disse AGORA aqui em cima, está me escutando?
- Perdão se lhe fui rude, senhorita, seu pedido já está subindo. – disse a voz, agora seca.
Bati com o telefone no gancho. A cama não parecia mais confortável, ela fincava, o meu corpo queimava e eu tinha que manter ele em movimento. Passei a andar em círculos pelo quarto, da janela para a porta, da porta pra janela. E o meu humor de 8 a 80. E a minha secura agonizante na boca, na cabeça. A necessidade de apagar tudo, a necessidade de sumir do mundo. Escutei o barulho na porta e assim que a abri vi o mesmo camareiro que havia subido com as minhas malas ontem, mas dessa vez com um grande carrinho de café da manhã e nele a minha garrafa de whisky, o meu escape.
- Obrigada. – falei para ele assim que ele deixou o carrinho perto da minha cama e lhe indiquei a porta e ele seguiu para sair do quarto.
- Eu não ia falar nada... – ele começou a falar com sua voz surpreendentemente grossa pra sua aparência.
- Então não fale nada. Você não é meu pai, você não é meu amigo e você nem sequer é meu conhecido. É simplesmente um camareiro que é pago para fazer a vontade dos outros. Você não opina na minha vida, você não opina em ABSOLUTAMENTE NADA DO QUE SE DIZ RESPEITO A MIM, ESTÁ ENTENDENDO? EU JÁ TENHO GENTE DEMAIS FAZENDO ISSO POR MIM E NÃO PRECISO QUE ALGUÉM IRRELEVANTE COMO VOCÊ TAMBÉM O FAÇA.
Minha respiração estava acelerada e eu podia sentir o meu coração descompassado dentro do meu peito, como se quisesse fugir da gaiola que eram as minhas costelas. O camareiro me direcionava um olhar de quebrar o coração de qualquer um. O que eu fiz? Ele não tem nada a ver com isso.
- Ah meu Deus, me perdoa, pelo amor de Deus, me perdoa. – eu falei me ajoelhando no chão enquanto ele se afastava de mim e seguia em direção ao corredor.
Ainda ajoelhada no chão fechei a porta e comecei a chorar. Peguei a garrafa de whisky e a abri chorando ainda mais. Tomei o líquido escuro como se ele fosse a cura para o grande vazio dentro de mim.

O relógio marcava 18h30. Como eu conseguia ler o horário eu não sabia, mas em algum ponto da minha cabeça, algum ponto que não estava completamente bêbado como o resto do meu corpo, eu sabia que eram 18h30 da noite. Eu repassava a minha Lista do Fracasso na cabeça. Não, eu não tinha encontrado o ânimo para viver, ao contrário, eu tinha encontrado o ânimo para me suicidar, mas eu sou narcisista e inteligente demais pra fazer isso. Sim, eu fiz a passagem de som da banda. Completamente bêbada e com olhares de reprovação de durante todo o processo. O que mais me irritou ainda. Almoçar. Sim, eu almocei. Whisky! Na realidade eu almocei whisky a tarde inteira, e agora precisava me preparar para o show.
E eu tinha a leve impressão de que eu fedia a álcool.
Ou que eu era feita de álcool, sim, isso faz mais sentido.
Eu estava escornada em baixo da janela e o quarto todo girava a minha volta. Aos poucos fui levantando, um passo depois do outro, beeeem devagar até chegar ao banheiro. O que para o meu estado foi uma grande vitória. YEY PRA MINHA VERSÃO BÊBADA! Retirei toda a minha roupa, esbarrando em todas as quinas possíveis e impossíveis, abri o chuveiro e entrei debaixo da água fria. O banheiro inteiro, como o quarto, girava ao meu redor, e eu sabia que devia fazer somente uma única coisa pra poder subir no palco em condições razoáveis.
Juntei os dedos indicador e médio e os enfiei bem fundo na minha garganta. Nada na primeira e na segunda tentativa. Até que na terceira todo o líquido que estava em meu estômago desceu ralo abaixo, como um reflexo involuntário eu caí em posição fetal e continuei a vomitar no chuveiro. E aquele era o ponto que eu tinha chegado, um ser digno de dó e completamente coberto com o próprio vômito embaixo da água fria. Deixei que toda a água levasse embora o que restava da minha própria sujeira, depois peguei o sabonete e comecei a o passar por todo o meu corpo. Lavei o meu cabelo e ainda um pouco zonza fechei o chuveiro e saí do banho. Ainda tinha aproximadamente duas horas para aparecer apresentável para o público.
Afinal, o show tem que continuar.

As luzes do semáforo eram fortes e mais brilhantes que o normal e as buzinas dos carros tocavam sem parar atrás de mim como se fossem uma orquestra particular. Eu achava tudo muito lindo, a química nas minhas veias fazia com que tudo ficasse mais bonito, mais brilhante, preenchia o vazio. E AS LUZES! O SOM! ELES SE MOVIAM! HÁ!
- Eí, garota, você quer morrer atropelada?? – uma voz escocesa gritava tão distante de mim.
E eu flutuava. AAAAAAH EU ESTAVA FLU-TU-AN-DO!
As buzinas, o verde, o amarelo e o vermelho me faziam voar, e eu girava, girava e girava no asfalto.
- , pega ela por aquele lado. – uma voz parecida com a de dizia a quilômetros de distância de mim, em Edimburgo, talvez.
- Ela ta muito ruim, cara. – o sósia do falava do meu lado direito enquanto eu girava no meio da rua e uma fila incrível de carros estava alinhada atrás de mim.
- Que horas era o show delas mesmo? – o falso dizia me segurando de leve pelo lado esquerdo.
- Nove, deve ter terminado quase às onze horas, o que significa que ela deve estar assim há umas duas horas.
- Mas que bosta, , por que você faz isso comigo?
- Falso-, pare de falar assim comigo. Veja, o verdadeiro está em Edimburgo com a nova namorada dele. A porra da modelo sem nome. E EU ESTOU MUITO CHAPADA NO MOMENTO PRA ME IMPORTAR COM ELA. EU QUERO SER FELIZ. EU MEREÇOOOOO!
- , abaixa esse tom de voz!
- E você não é o !!!
- Ok, eu não sou o , e ele não é o , agora vem com a gente.
- Mas por que eu iria com vocês, se vocês não são os meus meninos?
- Porque a gente vai te levar aonde você vai ser feliz. Pra sempre.
- Você promete, Falso-?
- Prometo.
- Pra sempre?
- Pra sempre. Vem, entra nesse carro.
O banco traseiro do carro veio em câmera lenta em minha direção, mas me acertou com uma força descomunal.
- Isso vai estar em todos os lugares amanhã. – a voz do sósia do dizia longe de mim.
- Eu não quero me importar muito com isso agora, cara.
- Você sabe pra onde a gente vai?
- Eu liguei pra .
- AINDA BEM QUE É ELA E NÃO AQUELA VADIA QUE ME IGNORA TODOS OS DIAS. – gritei para que eles me escutassem de Edimburgo.
O carro sacudia como um barco, me embalando de um lado para o outro, e as luzes da rua. AS LUZES!
- Será que ela pode parar de gritar que o iceberg ta chegando? ISSO NÃO É O TITANIC, PORRA!
- , não fala assim com ela! – Falso- disse puxando a marcha do carro – Chegamos. , eu preciso que você fique muito calada agora, está me entendendo?
- Você realmente não é o verdadeiro , o seu rosto está derretendo, cara, você devia ir ao hospital. Não ta doendo isso?
- Sim, está doendo bastante, . Você não tem ideia.
Senti uma mão me puxando para fora do carro, e fui cuspida pra rua. Flutuava novamente, sósia do de um lado e Falso- do outro. Eles me levavam pro meu lugar feliz, mas...
- PÁRA!
- , silêncio.
- Falso-, esse é o meu hotel, eu não vou ser feliz aqui.
- , a chave do quarto, pega ela logo. , fica quieta. Pro elevador, anda.
Sósia do vinha correndo em câmera lenta em nossa direção. Mas como isso era possível?
- Você é um super-herói, sósia do !
O elevador subia e subia, a porta do meu quarto foi aberta e fui de encontro à cama. Comecei a me aninhar nela.
- , eu cuido dela a partir daqui, vai descansar, cara. E obrigado.
- Se cuida, cara. Qualquer coisa me liga.
Senti a uma mão levantar a minha cabeça, e de repente eu estava deitada no colo do Falso-, que me envolvia em seus braços.
- Sabe, você é um Falso- muito parecido com o verdadeiro, sabia?
- Talvez eu seja o verdadeiro.
- Não, isso é impossível.
- Edimburgo está à uma hora de distância de Glasgow, sabia?
- Hm, mas não é a distância o problema. Ele está bem melhor sem mim, sabe? Eu sou destrutiva, pra todo mundo. Ele é a pessoa que eu mais amo nesse mundo e eu quero que ele seja feliz, mesmo que isso signifique a minha exclusão de sua vida. Ele devia ficar longe de mim. Mas é bom ter você aqui, Falso-, dá a impressão de que ele está aqui comigo, que ele ainda se importa, que ele ainda me ama.
- Eu tenho certeza que ele ainda te ama.
- Eu não tenho tanta certeza assim, afinal, como ele poderia me amar depois de toda a dor que eu lhe causei? Eu não faço isso por mal, sabe? Eu só quero ser feliz, eu sou feliz quando estou assim, é pecado buscar a felicidade? Eu só queria ser a tampa mastigada da caneta dele!
Suas mãos corriam pelo meu cabelo, me acariciava gentilmente e era bom me sentir assim. Então uma sensação estranha começou a encher o quarto. Começou a chover. Chover dentro do quarto.
- Mas olha que coisa mais louca, está chovendo dentro do quarto!
- Isso não é chuva.
- É sim! Eu posso sentir as gotas caindo em mim!
- Isso não é chuva, .
- Se não é chuva, é um tipo diferente de choro.
- Suponho que sim.
- Afinal, a chuva é quando os anjos do Céu choram.
- Isso aqui é a Terra, querida, não existe anjos do Céu por aqui, e muito menos dos que choram.
- Então o que é essa chuva??
- Lágrimas de um anjo caído, suponho.
- Você sabia que dois dos nove anjos caídos foram expulsos do Céu por amarem?
- Eu sou um deles.
- A chuva está piorando, Falso-.
- Ela vai melhorar, meu amor, o sol vai aparecer. Eventualmente.
Eu sentia as gotas de chuva caindo no meu rosto, escorrendo por ele e pelo meu couro cabeludo. Eu me sentia bem debaixo da chuva.
- Eu preciso fazer uma ligação. – ele disse beijando minha cabeça – Pra um lugar que será bom pra você. Eles vão cuidar de você, até que esteja curada dessa escuridão que encobre a sua beleza dourada e brilhante. Eu quero ver você brilhando novamente, você quer brilhar novamente?
- Sim, eu quero brilhar.
- Tudo bem, você vai brilhar e a chuva vai parar.
- O céu vai se abrir então?
- Sim, o sol vai sair e clarear tudo, meu amor, você vai ver.




Notas do Capítulo 6:

¹: Guerra dos Galeses era como a mídia descrevia os conflitos de relacionamento entre o Príncipe Charles e a Princesa Diana nas décadas de 1980 e 1990.
²: Pra quem não conhece, Blanka é um personagem de um jogo bem velho de videogame chamado Street Fighter, e é basicamente um homem gigante, verde e bruto que luta capoeira e vivia na Floresta Amazônica.

Capítulo 7 - London, London, London is calling you!


Manchester, Inglaterra. Julho de 2010.

- O tempo está passando. – dizia olhando pela janela a chuva de verão cair no quintal da casa.
- Eu sei. – respondi trincando meus dentes.
- A gente ainda não tem um plano concreto.
- Tecnicamente eu tinha um plano, mas você o ferrou todo.
- Eu não ferrei o seu plano, senhorita. – ela disse se virando pra mim com raiva – Você tem que entender que uma menina de 16 anos simplesmente não brota do chão em Londres e consegue sobreviver por mais de 15 dias lá sem a ajuda de ninguém, sem dinheiro ou casa. Milagres não acontecem, meu amor, isso é coisa de filmes que passam às quartas-feiras pela tarde quando você não tem mais nada pra fazer da vida e sua única outra opção é arrumar a casa, mas você está morrendo de preguiça.
- Madonna brotou em Nova York com 35 dólares no bolso.
- Querida, eu não fico me comparando o tempo todo com a Alessandra Ambrósio pra não me sentir mal, então não fica se comparando com a Madonna, porque você vai se decepcionar. Além do mais, aquela mulher foi predestinada pra virar tudo o que é hoje.
- Ainda assim, eu tinha um plano. – falei indo em sua direção.
- Não, você tinha 2% de um plano.
- É mais do que nós temos agora. – embacei o vidro da janela com o ar quente da minha boca e desenhei um “0%” ali.
- Você sonha demais e não sabe como concretizar nada. É por isso que precisa de mim. – disse apagando o meu desenho de bafo da janela.
começou a caminhar pelo quarto com a determinação de uma verdadeira inglesa, o tipo de determinação que poderia construir outro império em que o Sol nunca se punha novamente. Até que ela parou de repente e foi em direção à parede de pôsteres e começou a tirar um por um de um dos cantos, aparecendo ali um quadro branco.
- Ok... – eu disse me aproximando dela devagar tentado assimilar o que tinha acabado de acontecer – Eu não posso simplesmente brotar em Londres, mas as coisas podem simplesmente brotar aqui nesse quarto.
- É bagunçado, eu sei, mas é cheio de coisas úteis. – ela disse fazendo uma cara séria – E nesse momento eu sou o Batman, e esse quarto é meu Batcinto.
- Você está definitivamente mais louca que o Batman.
- Pode ser, mas essa loucura vai ajudar você. – ela correu até o armário tirando de lá um porta-lápis cheio de canetas coloridas – E tudo começa com o primeiro passo.
- E qual seria ele, Sherlock?
- Pode parar com a ironia. – disse destampando uma caneta roxa e escreveu no topo do quadro “Passo 1: Onde?” – A primeira coisa que você tem que se decidir é onde quer morar em definitivo. Escócia ou Inglaterra?
- Inglaterra, sem dúvida alguma. – respondi de imediato.
- Tem certeza?
Qual a parte de sem dúvida alguma ela não tinha entendido?
- Quiz time! – falei fazendo uma voz meio mecânica – Cite três bandas escocesas reconhecidas no cenário mundial.
- Franz Ferdinand... Travis... – ela disse fazendo uma cara de dor.
- Eu disse “reconhecidas no cenário mundial” e não “reconhecidas por todos os hipsters e alternativos do mundo”. Entendeu o que eu queria dizer agora? Eu não quero ficar isolada do mundo da música, e sim estar no meio dele. Eu quero o agito, os contatos, a ferveção.
escreveu “Inglaterra” com a mesma caneta roxa embaixo do "Passo 1”.
- Isso, , isso é 2% de um plano. – ela disse sorrindo pegando uma caneta rosa – Isso era o que você tinha.
Ela destampou a caneta rosa e escreveu “Passo 2: Em qual cidade inglesa?”.
- Isso é óbvio. – respondi – Londres.
- Ok, senhora esperta. Eu sei que teoricamente parece óbvio pra você e que o bichinho da teimosia está soprando o nome “Londres” na sua cabeça, mas eu tenho que te lembrar que estamos na Inglaterra.
- E?
- E que a nossa água é benta quando se trata de música, em cada cidade desse país nasce uma banda nova, e o mais importante é que sempre, em todos os casos essas bandas são excelentes!
- Mas Londres...
- ARCTIC MONKEYS! – ela gritou apontando o pôster da banda – Criada em Sheffield.
- ADELE! – gritei apontando para o pôster – De Londres.
- Radiohead, de Abingdon. – ela apontou novamente pra outro pôster.
- Amy FUCKING Winehouse, de Londres. – sorri apontando para um dos maiores pôsteres na parede.
- The Kooks, de Brighton!
- BUSTEEEED É DE LONDRES.
- Busted, sério, ? – ela disse com uma cara incrédula – Enfim, Gorillaz, de Essex.
- Tinie Tempah, de Londres.
- Beatles e The Wombats de Liverpool, Alt-J de Leeds, Kasabian de Leicester, Joy Division, Foghat, The 1975 e OASIS DE MANCHESTER!
- ROLLING STONES, LED ZEPPELIN, THE CLASH, MCFLY, COLDPLAY, FLEETWOOD MAC, THE WHO, THE XX, LILY ALLEN E QUEEN DE LONDRES, LONDRES, LONDREEEEEES.
- Sua cabeça dura! – ela disse desistindo – O que eu estava tentando te dizer é que não importa qual cidade você escolha, você vai ter um suporte muito grande nesse quesito.
- Mas Londres é maior.
- E o cenário é bem mais concorrido, já parou pra pensar nisso? Fora que aqui em Manchester você tem uma vantagem.
- E qual é?
- Você poderia ficar aqui com a gente. – ela disse com um sorriso pequeno.
- Isso é muito fofo da sua parte, mas eu realmente quero ir pra Londres. Eu preciso te falar que eu não queria me mudar pra Escócia e não estava muito a fim de passar o verão aqui com você...
- Obrigada pela parte que me toca.
- Escuta, . Mas agora eu estou gostando daqui, e eu tenho o sentimento que o meu lugar está lá, é o meu destino, me entende? Eu preciso ir pra Londres, e mais nenhum outro lugar.
Ela sorriu e escreveu “Londres” em rosa embaixo do “Passo 2”.
- Acho que isso dá uns 8% de plano. – ela analisava o quadro – Mas é agora que o problema começa.
- Não vejo problema nenhum. – falei sorrindo pra ela.
ergueu a sobrancelha como se estivesse falando “você realmente quer me desafiar?”, então tampou a caneta rosa e pegou uma verde, destampou essa caneta e escreveu no quadro “Passo 3: Onde morar/acomodação”.
- Oh. Eu vejo um puta problema agora. – falei coçando a cabeça.
- É sério que você não tinha pensado nisso? – ela disse e eu balancei a cabeça em negativa – Em nenhum momento, ?
- NÃO!
- Você é muito burra, só pode.
- Fodeu, .
- Você pode morar na rua.
- Pode perder essa ironia, , só é legal quando eu uso. E eu sou muito parcial à teto e comida, obrigada.
Me sentei na cama de olhando para aquela frase que parecia rir da minha ingenuidade. Meu olhar ia da maldita frase para mordendo a caneta ferozmente, provavelmente pensando em uma alternativa, e voltava para a maldita frase. E o pior de tudo é que eu simplesmente não conseguia pensar em nenhum plano, nenhuma ideia. Eu tinha certeza de duas coisas nesse momento: de que eu iria pra Londres a qualquer custo, mas esse “qualquer custo” não incluía morar na rua. deixou a caneta cair no chão e foi aí que reparei nas suas botas horrendas.
Mas espera aí... Bota... Boot... BOOT!
- BOOT CAMP! O BOOT CAMP CARALHO! VAI SER EM LONDRES! – gritei pulando fora da cama.
- Já tinha pensado nisso. – ela disse com uma cara triste – Mas você vai ver apartamentos pra alugar e depois? Os aluguéis mais baratos de um apartamento de 2 quartos são de mais ou menos 400 libras por SEMANA.
- Eu te odeio. – falei me sentando novamente na cama.
- Não, você não... – então ela parou de falar, ergueu a postura e fez uma cara de quem tinha acabado de ter a melhor ideia de todas – !
- Quem?
- ! Lembra que eu te falei de uma amiga minha que foi pro México e namorava um mexicano?
- Pensei que ela morava aqui em Manchester.
- Não, ela é de Londres.
- Como você a conhece?
- Pelo Tumblr.
- Tá me zoando? Você vai me mandar pra uma menina que conheceu na internet e nunca viu na vida?
- É claro que eu a conheço! A gente se encontra sempre que pode. Enfim, faltam duas semanas pro Boot Camp, e em setembro suas aulas na Escócia começam, então temos um total de um mês e duas semanas pra mudar a sua vida.
- Sim, senhora.
- O que significa que temos que economizar ao máximo o tempo que nós temos.
- Exatamente.
- Nós vamos nesse fim de semana pra Londres. – ela disse tampando a caneta – E assim que esse tópico estiver solucionado voltamos aos outros e completamos esse quadro.
- Eu vou querer saber dos outros?
- Se você não tinha pensado nesse que é o mais essencial de todos, é claro que você vai querer saber dos outros. Vou avisar pros nossos pais que vamos visitar a esse fim de semana.
- Simples assim?
- Ela mora em Londres, , não na China.

A viagem de trem entre Manchester e Londres durou pouco mais de duas horas, e variava entre a típica paisagem rural e bucólica, mas maravilhosa dos filmes de época, e algumas cidades médias da Inglaterra. Durante essas duas horas eu direcionava minha atenção ora para a vista da janela, o meu mundo novo que estava sendo descoberto no ritmo do trem pelos meus olhos de criança, e ora para a manga da minha blusa que de meia em meia hora ficava completamente encharcada com uma leva nova de baba da . Uns 20 minutos antes de chegarmos a Londres um apito seguido por um anúncio a acordou, ela coçou os olhos, levantou a cabeça do meu ombro e direcionou o olhar para a minha manga.
- Ai meu Deus, ! Por que você não me acordou?? – ela disse com uma expressão de pura culpa misturada com sono.
- Tá de boa, . – falei terminando o assunto com um gesto de “deixa pra lá”.
- Eu meio que babo enquanto durmo.
- Percebi isso. – falei soltando uma risada abafada – Já estamos chegando, ela vai encontrar com a gente aqui ou na outra estação?
- Hmm... – ela disse coçando os olhos – Ela vai nos encontrar aqui, depois vamos pegar o tube¹ pra casa dela.
Meu coração começou a bater tão forte dentro do meu peito que eu pensava que podia escutar o seu compasso acelerado de onde ela estava. se levantou e pegou sua mochila no compartimento do teto do trem e em seguida pegou a minha, eu continuava sentada tentando controlar o meu nervosismo, minhas mãos suavam e eu as esfregava na calça para poder tirar um pouco do suor. Sua mão que segurava a minha mochila entrou no meu campo de visão e eu finalmente me levantei do lugar e tirei minha mochila de suas mãos.
- Nervosa? – ela disse.
- Sim. – falei passando os meus braços pelas alças enquanto esperávamos os outros passageiros descer – E para falar a verdade, eu não sei muito bem o porquê.
- Inspira. – ela disse apoiando uma mão no meu ombro e me olhando profundamente – Sabe, a minha avó por parte de mãe era escocesa, e eles... Expira. Eles têm muitas tradições folclóricas lá no Norte. Inspira. Acreditam em toda essa porcaria de magia, duendes e tudo mais... Expira. E eu me lembro uma vez quando eu era bem pequena. Inspira... Eu devia ter uns 6 anos e toda a família foi passar o Natal em Inverness. Expira. E uma prima minha tinha na época uns 20 anos. Inspira. Ela passou a ter uma sensação de nervosismo, tipo essa que você está tendo agora e ela... Expira, desculpa. Ela disse isso pra nossa avó. Inspira. Agora você pode fazer isso sozinha, sim? – ela disse e eu acenei - Enfim, minha avó disse que quando o seu corpo começa a ter essas sensações estranhas de nervosismo sem um motivo aparente, é porque algo grande está para acontecer e a terra passa essas energias para o seu corpo, a energia do seu destino que está pra chegar, é uma forma de aviso. Bom ou mau. Pouco tempo depois minha prima recebeu uma chamada de uma amiga dela para ir para Lochend, uma cidadezinha perto de Inverness. E umas 3 horas depois a gente recebeu outra ligação em casa.
- E o que aconteceu? – perguntei com curiosidade.
- Ela caiu no Lago Ness na noite de Natal, no inverno escocês em que a temperatura estava a quase 1ºC, teve uma crise de hipotermia e foi para o hospital. Quase morreu, coitada.
- Se você acha que isso está me ajudando de alguma maneira...
- No hospital – ela continuou como se não tivesse me escutado – ela conheceu um médico ruivo de quase 2 metros de altura. Homem maravilhoso, louco por ela.
- Está me ajudando demais, pode continuar.
- Eles se casaram dois anos depois e têm três filhos, Hamish, William e a pequena Elsie. – ela terminou me dando dois tapas no ombro e começou a caminhar para sair do trem.
Saímos do trem para a plataforma, no meio de uma multidão de pessoas caminhava se esquivando de todo mundo como se fosse uma profissional em caminhar no meio de tanta gente, e eu, completamente desengonçada, caminhava rapidamente em seu encalço como uma criança com medo de se perder da mãe no supermercado.
- já deve estar aqui... – disse por cima do ombro enquanto se esquivava de mais pessoas – Vamos nos encontrar...
- ! – alguém gritou alguns metros atrás de mim e nos viramos.
As duas se avistaram e correram no meio do povo todo e deram o abraço mais apertado que eu tinha visto na vida. Elas tinham se conhecido pela internet, mas a amizade delas, pelo o que eu pude perceber somente por esse abraço, parecia ser muito mais calorosa e afetuosa do que de muita gente que se conhecia normalmente no dia-a-dia. Todos na estação olhavam para as duas, e eu queria fingir que não conhecia nenhuma delas. Bem, uma das duas.
- Eu estava indo pra estátua te encontrar! Como você me achou aqui? – perguntou para ela me sinalizando para me aproximar – , essa é a minha prima . , essa é a .
- Oi! – ela disse me cumprimentando com um aperto de mão... Ah, esses ingleses! – Eu estava indo pra lá, até que vi uma pessoa com uma manga mais escura que a outra.
Olhei para a minha blusa. Um lado babado, o outro não.
- Você realmente a deixou babar em você o caminho todo? – disse sorrindo abertamente, mas ainda assim tinha algo de estranho em seu sorriso – Eu teria acordado essa preguiçosa há muito tempo!
- Eu tento ser uma boa pessoa para o Papai Noel me dar presentes no Natal. – falei e as duas me olharam de um jeito estranho – Eu me torno uma completa idiota em frente de gente que eu não conheço direito.
- A gente acabou de perceber isso. – disse.
- Você é uma idiota e nós duas somos estranhas, nos conhecemos no Tumblr, fala sério. – disse fazendo uma cara engraçada – E graças a Deus estamos na cidade apropriada para todo o tipo de gente. Agora vamos andando porque temos somente esse fim de semana para você conhecer Londres.

já havia comentado com do nosso plano superficialmente, então durante o curto caminho entre a transição do trem para o tube acabamos de explicar para ela qual era o objetivo principal da nossa visita: fazer surgir um lugar para eu morar à la Grimmauld Place em Harry Potter e a Ordem da Fênix.
- Acho que isso não vai ser um problema muito grande. – disse aumentando o tom de voz gradualmente conforme o tube chegava.
- Como assim? – disse com um tom preocupado enquanto o metrô finalmente parava e suas portas abriam.
- Talvez eu saiba de alguém que possa vir a alugar um apartamento e que, se esse for o caso, vai precisar de alguém pra dividir o valor do aluguel e das contas em geral. – ela disse fazendo uma careta entrando e se sentando, sendo acompanhada por mim e .
- Isso é ótimo, !
- Mas eu nem conheço a pessoa, . – falei a olhando com seriedade – Não posso simplesmente ir morar com alguém que eu não conheça.
- Ela realmente é nova nisso! – disse sorrindo. – Normalmente nas faculdades aqui do Reino Unido você tem que dividir as acomodações com alguém que nunca viu na vida, e também é mais ou menos assim quando sai da faculdade e precisa de alguém pra ajudar nas despesas, já que o início da vida profissional não é um dos melhores. Você passa a conhecer a pessoa com o passar do tempo. E além do mais, - ela disse se virando para – a pessoa ainda não se decidiu se vai ou não passar a morar sozinha.
- E essa pessoa é alguém que você conheça? – ela respondeu.
- Intimamente. – disse desviando o olhar para as mãos – Vocês querem passar em casa antes para deixar as mochilas, ou já estão prontas pra sair?
- Pra sair? – falei.
- Claro! Você nunca esteve em Londres antes, então e eu decidimos que vamos fazer um programa super turístico com você hoje.
- Super turístico e vergonhoso.
- E como os pontos turísticos são perto da minha casa...
- Porque ela é super rica e mora na Cidade²...
- Porque meus pais são super ricos, e tecnicamente eu não moro na Cidade, mas em Westminster. – disse a repreendendo com o olhar – Continuando... Como os pontos turísticos são perto da minha casa, nós podemos ir caminhando, sem pressa, discutindo os melhores lugares da cidade pra se viver.
- Eu poderia agradecer a vocês duas com toda a falsa modéstia do mundo, e dizer que não precisavam passar por todo esse trabalho por mim, mas que se foda! – falei rindo – Obrigada, de verdade.
- Você merece, . – disse.
- Falsa modéstia? – falei.
- É óbvio.
- Então? – disse – Para onde vamos?
- Casa e depois rua. – disse de imediato e nós a olhamos – O que foi? To pouco me lixando para as mochilas, mas estou com fome.
- Sinceramente... – comecei a falar até que me interrompeu.
- Já estou acostumada com essa lombriga, .

Se o quarto de era o ambiente mais rosa e bagunçado que eu já tinha visto em toda a minha vida, a casa de era completamente o oposto. A parte exterior do prédio vitoriano predominava o azul-claro, o bege e o marrom, já o apartamento parecia ter por regra somente a utilização dos tons branco e preto, e tudo na mais completa e perfeita ordem. Eu com certeza não me admiraria se alguém enlouquecesse ali dentro.
- Eu sei... – falou abrindo os braços como se mostrasse a evidência do ambiente ao seu redor – Todo dia eu acho que meus pais ficaram travados dentro de um filme do Charles Chaplin, enfim... Mi casa, su casa, seja bem-vinda.
- Não... É bonita. – falei olhando ao redor – Olha um verdinho ali!
- É o Dean, meu cacto e provavelmente a única coisa com cor nesse piso.
- Estou tentando comprar um Sam pra ela, mas acho que vai ser uma overdose de cor para essa família. – disse indo para a cozinha do estilo americano e com todos, TODOS os eletrodomésticos pretos. Será que esse povo não sabe o que é cor?
- Oh! ! Você chegou, não sabia que estaria em casa à essa hora! – uma voz feminina e suave surgiu de cima e foi acompanhada por passos na escada.
Assim que o barulho parou uma mulher alta, de quarenta e alguns anos, com cabelos curtos e postura impecável parou diante de nós. Ela vestia um tailleur preto que realçava sua altura e sua postura, e seu olhar, um tanto quanto inquisidor, ia de que nesse momento segurava uma torta com ambas as mãos e tinha três colheres na boca, para mim, e de mim para , refazendo o trajeto diversas vezes. Ela parecia ter pifado, e notava isso.
- Oi, mãe. Eu achei que tinha te falado que a e a prima dela, , iam passar o fim de semana aqui. – disse e sua mãe depois de ter travado por bastante tempo recobrou sua postura.
Estranho.
- Ah! Sim, claro, querida! Claro que me lembro. Olá, ! – a mãe de disse com uma cara de desgosto para o som estranho emitido por em resposta, em seguida esticou a mão para mim e eu retribuí o gesto – Olá, , meu nome é Addison, prazer.
- Igualmente. – respondi um pouco sufocada com toda a presença daquela mulher.
- Mãe... – disse se virando pra , falhando em esconder um gesto enquanto falhava em entender, o que seria cômico em outra situação, mas por algum motivo o ambiente estava pesado demais para graça – Estamos subindo para o quarto, daqui a pouco vamos sair para mostrar a cidade para , é a primeira vez dela em Londres.
- Ah sim. – Addison disse e começamos a subir a escada – Amigas amigas, sim?
parou no lugar por um instante e se virou para a mãe, que tinha um ar apreensivo que não combinava nem um pouco com sua aparência. Quando respondeu um “sim” quase inaudível, a postura da mãe, antes rígida e completamente ereta, relaxou como se um grande peso tivesse sido tirado de cima dela.
Continuamos a subir a escada até terminarmos no início de um corredor bastante comprido e monocromático, nos conduziu até uma grande porta branca e a abriu, e bem... Parecia que a Índia, China e todos os países orientais tinham vomitado naquele lugar. Um forte cheiro de incenso pairava no ar, diversos panos indianos estavam fixados nas paredes, e na estante o espaço era disputado por livros, CDs e pequenas estátuas de Budas gordinhos. se sentou na cama de colocando a torta na sua frente e por fim entregando as colheres para cada uma de nós, pegou a sua colher e a olhou por um instante, depois a arremessou para um lado do quarto.
- Você tem certeza...
Então me interrompeu com um olhar feio. abriu seu armário e tirou de lá uma grande caixa, abriu e começou a tirar todo o material dentro dela, fui em direção à e me sentei ao seu lado, nós a olhávamos montar todo aquele equipamento enquanto comíamos a torta. O resultado que apareceu depois de todo o trabalho de nossa anfitriã foi uma bateria eletrônica, ela arregaçou a manga de sua blusa, ligou o instrumento na tomada, conectou o grande fone de ouvido à ele e depois começou a batucar. Nós não escutávamos nada além de batidas ocas, mas eu tinha certeza que dentro daquele fone de ouvido o som era muito mais rebelde e irado do que se fazia parecer no exterior.
- Ela não tem um bom relacionamento com a mãe. – disse quando teve certeza que a amiga não podia nos escutar.
- Eu notei isso.
- E quando ela fica bastante nervosa, ela começa a tocar bateria.
- Também notei isso.
- O terapeuta dela disse que seria uma melhor alternativa, ela fazia boxe antes e bem... A agressividade ressaltava bastante e acabou sendo um problema.
- Isso seria tão trágico se não fosse tão cômico. – falei rindo da imagem que se formava na minha cabeça de em calções e luvas de boxe dando na cara de todo mundo – Sabe... Se tudo desse errado, a gente podia formar um power trio.
- Como? – disse limpando um sujo de torta do queixo.
- Você é muito desleixada, .
- Ah, você jura??? Então... Um power trio você diz...
- Temos a guitarrista, que seria eu, a baixista, que seria você e bem...
- Uma nanica chamada bem furiosa na bateria.
- Isso! – falei rindo – Se você não ganhar o X Factor já sabe o que vamos fazer, e se ficar em dúvida eu tenho um meio de te convencer.
- E qual seria ele?
- Muse, The Jimi Hendrix Experience, Green Day, Blink-182 e The Police.
- Mulher, suas técnicas da arte de convencimento são épicas.
- Eu sei – falei rindo e tirando mais um pedaço de torta – E só pra constar, eu estou sendo completamente séria aqui.
Já havia se passado aproximadamente uma hora e meia desde que havíamos chegado à casa de . e eu continuávamos sentadas na cama conversando, a torta já havia acabado e continuava a batucar na sua bateria, ela estava completamente ensopada de suor, e o cheiro deste misturado com o cheiro do incenso não era lá das coisas mais agradáveis de inalar. Ela passou a diminuir o ritmo das batidas, levantou o seu rosto corado, abaixou os fones sobre seus ombros.
- Estou pronta. – ela disse se levantando da banqueta.
- Não está não! – falei em um supetão e depois fui notar o quão rude eu tinha sido, afinal, eu estava na casa dela – Desculpaaaaa.
- Não se desculpe! – disse – Não saímos de casa enquanto você não tomar um banho.
- Sim, senhora. – disse indo em direção à porta, de repente virou o seu corpo e veio correndo em direção à , pulou na cama em cima dela e a abraçou, mas ao mesmo tempo se esfregava o suficiente nela para poder espalhar o seu suor em .
- PORRA! VOCÊ ESTÁ SUADA PRA CARALHO! SAI DE CIMA DE MIM! – gritava rindo e eu me sentia como uma estranha vendo uma cena mais estranha ainda.
- Você praticamente disse que eu era uma porca dentro da minha própria casa!
- Mas a também praticamente disse isso.
- Ela é visita e ainda não é brother o suficiente, não posso fazer isso com ela.
- Sai de miiiiiiiiiiiim. – disse finalmente saindo debaixo de – Eu só saio depois que eu tomar um banho.
E ela pegou sua mochila e saiu correndo para o que eu pensava ser o banheiro.

- Fato super ultra power interessante de Londres. – dizia enquanto fechava o portão do seu prédio.
- Que provavelmente também se aplica a Manchester e não é novidade nenhuma.
- Todo o sistema de ônibus é completamente programado. – disse andando em nossa direção e olhando muito feio para – Então se, por exemplo, uma linha se atrasar, o motorista vai deixar todos os passageiros no ponto mais próximo para pegar o próximo ônibus que está dentro do tempo “cronometrado”, assim não atrasa o passageiro e nem o resto do dia da frota.
- Queeee novidade. – disse andando mais rápido do que a gente.
- Se eu fosse você não andaria tão rápido assim. – disse e se virou levantando a sobrancelha – Meu nome é Blythe e sou guia por um dia, e vamos começar andando de ônibus.
- Pensei que fôssemos a pé. – falei.
- Sim, nós íamos. – disse andando na frente – Mas lembrei que você ainda não tinha andado de double-decker³ antes.
- Manchesteeer.
- Em Londres é outra vibe. – falei recebendo uma cotovelada de – É verdade! E gente, probleminha... Eu não tenho o cartão de transporte daqui.
- Eu pago pra você. – disse tirando o dela do bolso.
- E pra mim também? – disse fazendo a carinha do Gato de Botas.
- Claro que não, sua prima é visita, você é macaca velha na minha vida. Segura sua onda aí.
- Ela fala assim, mas no fundo me ama.
- Tenho certeza que sim. – respondi rindo.
- Falando em cartão... – disse tateando os bolsos de sua calça tirando dois cartões de lá de dentro – São pra você.
- Como você fez isso??? – falei assim que peguei os cartões, um era uma carteira de identidade britânica, e outro era um cartão da Camden School For Girls, ambos me identificando como Christie Thompsom, e a data de nascimento constava que eu era dois anos mais velha do que na realidade. E o pior de tudo, os dois cartões tinham uma foto 3x4 minha. MINHA!
- Eu scaneei a sua identidade do Brasil e enviei pra , aí o resto é com ela. – disse enquanto chegávamos ao ponto de ônibus.
- Um... amigo... – ela disse hesitando – a gente vai conhecer ele hoje, ele faz essas gambiarras pros outros por alguns trocados. De qualquer maneira, você ainda vai me agradecer por isso.
O ônibus chegou e nos conduziu até o segundo andar para podermos sentar bem em frente ao vidro que fornecia uma vista privilegiada. Eu não podia negar que havia toda uma magia, um charme em ver a cidade daquele assento, Londres sempre teve o seu próprio eletromagnetismo, e em mim a sua força atrativa era gigantesca.
- Então, para onde estamos indo? – falei animada.
- Visitar a Vó Betinha. – disse pondo seu cartão no bolso de trás da calça.
- Ou seja, Palácio de Buckingham. – disse.
Durante o curto espaço de tempo entre o ponto de ônibus e o Memorial da Rainha Victoria onde saímos do ônibus, me explicou rapidamente como era a estrutura de Londres. Basicamente era uma grande bagunça, um grande conjunto de 32 pequenas cidades com suas respectivas “pequenas prefeituras” formando uma grande cidade chamada Londres. E, além disso, essas 32 “pequenas cidades” ainda estavam agrupadas em áreas dependendo da sua localização geográfica, Norte, Sul, Leste, Oeste, Centro e por aí vai. Claire me explicou que o lugar que você mora em Londres diz muito sobre você, os descolados/alternativos ficavam mais em Camden, os ricos na Cidade, ou em Westminster e Kensington, e os super família do estilo “eu, você, dois filhos e um cachorro” em Richmond. Eu só me perguntava onde ficavam os pobres adolescentes sozinhos na vida: na calçada ou no bueiro?
- Vamos! A gente está um pouquinho atrasada. – disse dando o sinal e logo depois o ônibus parou perto do Memorial da Rainha Victória e descemos correndo.
- Atrasadas pra quê? – falei enquanto corríamos em direção à arquitetura monumental e magnífica do palácio – Eu queria ver o Memorial, é lindo!
- A troca da guarda. – respondeu com uma cara de tédio – Eu disse que ia ser super turístico e vergonhoso...
- E o Memorial vai estar aí pra sempre, . Fala sério! Já vai dar 11:30! – começou a correr mais ainda na nossa frente e se juntou à um mundo de turistas com suas câmeras gigantes em frente aos portões do Palácio.
E quando nossos relógios marcaram 11h30min da manhã um som de marcha acompanhado por trompetes, tambores e outros tipos de instrumentos começou a surgir e todas as câmeras começaram à apontar em uma direção. Um mar de bolinhas fofas começou a vir em nossa direção, e quanto mais alto a música ficava, mais próximo esse mar de bolinhas ficava. Então notei que o mar de bolinhas fofinhas era na verdade uma multidão de soldados com aqueles super chapéus4 marchando do Palácio de Saint James em direção ao Palácio de Buckingham. Os soldados do Palácio de Buckingham, por sua vez, ficaram esperando até que os companheiros do outro palácio chegassem até o ponto onde estavam. Todo esse espetáculo durou cerca de 30 minutos ao som da banda militar, que variava o repertório entre marchas do exército, músicas clássicas e populares, e temas de filmes. Tudo terminou quando a velha guarda do Palácio de Buckingham entregou a chave do Palácio para a nova guarda. Os celulares e as câmeras se abaixaram e o povo começou a dispersar pouco a pouco.
Senti a pressão de pessoas e o calor humano diminuírem conforme a multidão se afastava, a mão de me puxou de um lado e eu automaticamente puxei a mão de com minha mão livre. Começamos a caminhar em direção à uma enorme fila de turistas e acabei descobrindo que a próxima parte do passeio era dentro da casa da Rainha. Enquanto esperávamos até a nossa hora de comprar o ticket para entrar no Palácio e depois formar um grupo de visita, me falou a respeito do aluguel que tinha dois sistemas, o de pagar por semana, e o menos usado que era de pagar por mês. Os preços variavam conforme a área do apartamento, número de quartos e banheiros, idade do prédio e outros fatores, mas a média geral era de umas 500 a 600 libras por semana. A cada informação nova que ela me passava a respeito da vida londrina, mais eu achava que o meu sonho, já bastante impossível de trabalhar com música em Londres, estava mais distante do que parecia. Eu estava sendo tão ingênua e nem tinha percebido isso antes, e eu sabia que deveria agradecer horrores à por ter me feito sair da bolha em que eu me encontrava, mas naquele momento tudo o que eu podia sentir era raiva da minha ingenuidade.
Enquanto eu divagava entre minha ingenuidade e a completa impossibilidade de eu pagar 500 libras por semana em aluguel, meu piloto automático ligou. Não percebi quando havíamos chegado à ponta da fila para comprar o ticket de entrada, somente depois de alguns segundos percebi que tinha pagado quase 21 libras por ele. Uma voz ecoava no fundo da minha consciência “Sabe, são 21 libras a menos pro seu aluguel”, e logo uma voz muito mais racional respondia à ela “Claro, porque nós realmente temos um apartamento para pagar o aluguel. Pode parar com esses sonhos de menininha de 12 anos!” Às vezes eu fico impressionada com a capacidade da minha mente em criar diálogos consigo mesma em algumas situações, mas nesse momento eu só conseguia pensar que eu tinha pagado quase 21 libras em um pequeno pedaço de PAPEL que permitia a minha entrada em UMA CASA MUITO GRANDE E MUITO VELHA. Eu podia pressentir que em algum momento futuro eu teria 479 libras na mão pra pagar o aluguel, precisando de mais 21 libras e a ponto de ser despejada, mas eu poderia falar “AAAAH NÃO! MAS EU VI ONDE A RAINHA CAGA!”.
Não notei direito o tour pelos zilhões de cômodos do Palácio, apesar de saber que muito provavelmente eu estava perdendo uma grande oportunidade ali. Meus olhos se fecharam só um pouco no momento que saímos do interior agradável do prédio para o sol forte dos jardins e eu só fui acordar mesmo quando paramos em uma tenda que vendia o super sorvete real. E eu falo isso na maior ironia possível, porque paguei 7, S E T E libras por ele. Incrível como em questão de uma manhã eu tinha passado de alguém normal à Tio Patinhas. Economia do lar, galera, recomendo muito!
- Então, o que você achou? – , mais conhecida como a assistente da Destruidora de Sonhos, me perguntou animada.
Sim, ela estava ANIMADA! Com um sorriso gigantesco no rosto!
- Eu não me importaria nem um pouco de trocar de lugar com a Rainha. – menti como se tivesse prestado atenção em todo o caminho.
- Eu não trocaria de lugar com ela por causa do Palácio. – disse dando uma colherada no sorvete – Imagina estar com uma puta dor de barriga nesse lugar, imagina o inferno que deve ser isso. Eu trocaria de lugar com ela só por causa desse sorvete. É o melhor sorvete do mundo.
olhou para do mesmo jeito que a mãe dela tinha feito horas antes e começou a andar para a saída do jardim.
- Então... Terminamos por aqui a visita ao Palácio, agora vamos almoçar, depois ficamos de boa no Saint James’ Park, que é aqui do lado... E depois ainda temos mais surpresas. – disse com um sorriso bastante travesso no rosto e parte de mim não queria saber o porquê daquele sorriso, mas a outra parte estava doida pra descobrir.

- Para de rodar, menina! – disse me segurando no lugar.
Estávamos na Blue Bridge, no coração do Saint James’ Park, e a parte mais incrível de todas era que a vista de um lado da ponte dava para o maravilhoso prédio da Horse Guards com a London Eye e outros prédios de época no fundo, e do outro lado da ponte a vista era do Palácio de Buckingham. E o melhor de tudo, se é que esse lugar podia melhorar mais ainda, era que toda essa visão era ornamentada pelo lago e as árvores do parque. Eu não sabia qual lado era mais bonito que o outro. E acabei chegando à conclusão de que estava completamente encantada com tudo aquilo, de que eu estava me apaixonando por Londres.
- Nós temos que falar sério, e se você ficar andando igual a uma barata tonta não vai dar. – disse me virando para o lado da Horse Guards – Fora que, nós somos garotinhas de 16 e 17 anos planejando uma fuga de casa, pra fazer isso tem que ser beeem planejado pra não acontecer o pior no futuro. Vai ser uma vida de adulto, , sem os seus pais para segurarem a sua mão. Isso não é brincadeira.
- Isso não é bem uma fuga. – falei brincando com uma flor de cerejeira que havia pousado na beirada da ponte – Eu vou contar para os meus pais que vou mudar pra cá. Bem, se isso for humanamente possível de acontecer.
- Não tem nenhum jeito de eles te bancarem aqui, né?
- Claro que não, . Eles não vão se sustentar na Escócia e ainda me mandarem dinheiro pra viver aqui, principalmente com esse custo de vida caro.
- Você trabalha. – concluiu.
- Mas que trabalho, ? Ela não é britânica, ou na melhor das hipóteses tem uma cidadania européia pra conseguir um trabalho aqui.
- , você já ouviu falar de trabalho informal??
- Não, , não vou ser faxineira, babá ou pedreira de ninguém. – interrompi as duas – Não tenho paciência pra isso, e sou muito nova pra me desgastar desse jeito.
- Mas se você quer ficar aqui você vai ter que trabalhar, e do jeito que a sua situação está você não tem o luxo de escolher, vai ter que ser o que encontrar primeiro. Suas aulas começam em setembro, esqueceu?
- Eu sei que estou sem tempo, mas tem que ter outra coisa.
- Se a Madonna conseguiu chegar e triunfar em Nova York com 35 dólares no bolso... – disse olhando para mim – Você também consegue.
- OBRIGADA! Isso que é amiga, ! To falando da Madonna há anos e ela não me escuta!
- Ela não é uma sonhadora. – disse fazendo um gesto de desdém para .
- Posso não ser uma sonhadora, mas tenho mais juízo que vocês duas juntas. Eu tenho senso de realidade, coisa que vocês não têm! E com certeza ela deve ter rodado MUITO a bolsinha dela pra poder sobreviver em NOVA YORK, uma das cidades mais caras do mundo. E eu tenho certeza de que você não vai querer seguir por esse caminho, certo?
Apesar de toda a brincadeira, a gente sabia que estava certa, no quesito “realidade” ela ganhava de qualquer uma de nós duas. Ficamos ali na ponte caladas por bastante tempo tentando achar uma solução para o meu problema.
- Você disse que passou a vida inteira morando fora, certo? – disse quebrando o silêncio e olhando fixamente para a flor que eu brincava.
- Sim, meu pai trabalha com estudos de controle de qualidade de petróleo, nos mudamos muito por causa disso.
- E quantas línguas você fala? – ela perguntou.
- Português, norueguês, mas está bastante enferrujado porque me mudei de lá faz muito tempo, francês e inglês, claro.
- Ela fala norueguês? – cochichou pra .
- Tenta ser prima dela e ter os pais sempre te comparando com esse ser. – ela respondeu.
- E, além disso, você ainda toca guitarra... – continuou.
- E piano. – falei.
- Pronto! – disse com um sorriso no rosto – Resolvemos o assunto, você pode ser tutora de línguas e ainda dar aula de piano e guitarra.
- Como a gente não tinha pensado nisso antes? – disse incrédula – Você coloca anúncios na internet, nas escolas e nas faculdades falando que é tutora dessas línguas. Geralmente alguém formado na faculdade de línguas que vira tutor cobra umas 35 libras por hora da aula!
- Sim, mas eu tenho 16 anos e nem sequer passei pelas portas de uma faculdade, imagina me formar em uma pra poder ser tutora de uma língua!
- Ok, mas você morou nesses lugares. – disse aumentando o tom de voz – Você escutava essas línguas o tempo todo, pensava nessas línguas, lia tudo nessas línguas, você vivenciou todas essas línguas! Fora que você é nativa em português, quem pode discutir com isso? Tudo bem que não é formada em faculdade, mas tudo isso se transforma em uma grande vantagem pra você. Não precisa cobrar 35 libras a hora da aula, mas vamos colocar aí umas 20 libras a hora pra línguas e umas 15 pra guitarra e piano.
- Tenta balancear uns 4 a 5 estudantes por dia pra conciliar a escola e o trabalho e pronto, já garantiu o dinheiro do aluguel, das contas de casa e dependendo ainda sobra um pouquinho pra você comprar suas coisinhas e tudo mais. – disse e eu estava até muito empolgada até ela falar “escola” – Não é o ideaaal, mas você consegue se virar até, quem sabe, conseguir uma cidadania britânica.
- Que cara é essa? – disse me olhando e um apito começou a soar de seu celular – MERDA!
- O que foi? – falei.
- Já são quase 15 horas! – disse saindo correndo pela ponte e começou a gritar por cima do ombro para e eu, que saímos em disparada atrás dela – NÓS TEMOS QUE CORRER! TEMOS QUE CHEGAR CEDO PRA ENTRAR NA FILA!
- QUE FILA? – gritou enquanto me ultrapassava e coloquei mais força na minha corrida.
- TEM UMA RAZÃO PRA CARTEIRA FALSA, SOMENTE CIDADÃOS BRITÂNICOS PODEM ENTRAR NO PALÁCIO DE WESTMINSTER PRA VER O BIG BEN TOCAR DE DENTRO DA TORRE.
- E VOCÊ ACHA QUE VAI DRIBLAR A SEGURANÇA DO PALÁCIO DE WESTMINSTER? – gritei lutando contra o cansaço e o ardor que começava a tomar conta dos meus pulmões.
- QUERIDAAA! FOI UM SEGURANÇA DO PALÁCIO QUE FEZ A FALSIFICAÇÃO! – finalmente estacou na entrada do parque apoiando as mãos nos joelhos e respirando rapidamente – PORRA! Aaaacho que não deveria ter gritado essa última parte pra todo mundo. Só acho.
- O que foi, sua louca? – disse exausta entre respirações.
- Vou explicar muito rápido pra gente poder sair daqui correndo o mais rápido possível, sim? – disse me olhando profundamente – Durante todo o ano o Parlamento disponibiliza visitas ao prédio pra ver os discursos dos políticos durante as sessões, e três vezes ao dia o ano inteiro, tirando no verão que são quatro, um dos parlamentares acompanha um grupo de britânicos, e somente britânicos pra ir dentro da torre onde o Big Ben está e o ver badalar.
- Calma aí, o Big Ben não é, tipo, o relógio? – falei.
- NÃO! – e gritaram ao mesmo tempo.
- É o sino dentro da torre, ele toca de hora em hora, e às 16h nós temos que estar lá dentro pra escutar ele tocar dentro da torre. – disse já endireitando a postura – Nós estamos perto de lá, mas tem que chegar antes pra encontrar o parlamentar designado pra essa hora, além de checar nossos nomes da lista. Ouviu, Christie Thompson?
- Pode deixar! – falei e voltamos a correr.
E naquele momento preciso, em que eu, e estávamos correndo pelas ruas de Londres feito loucas, eu me senti completamente viva. Era como se toda a alegria e toda a adrenalina do mundo tinham sido injetadas em minhas veias, eu sabia que estava fazendo a coisa certa, se aquele era o começo, eu mal podia esperar pelo o que estava por vir. Eu me sentia livre.
E aí a abriu a merda daquela boca.
- E VOCÊ VAI ME FALAR O QUE FOI AQUELA CARA HÁ ALGUNS MINUTOS ATRÁS?
- PORRA! FALARAM A PALAVRA “ESCOLA” E EU PIREI! PIREI PORQUE AINDA NÃO SEI O QUE FAZER SOBRE ISSO.
- VOCÊ PODE PEDIR TRANSFERÊNCIA DEPOIS QUE TUDO ESTIVER PRONTO! – gritou atrás de mim.
- TÁ DOIDA? ELA PRECISA RESOLVER ISSO LOGO PRA CHEGAR COM TUDO CERTO PROS PAIS DELA!
- SIM, MAS COMO EU SIMPLESMENTE TROCO DE ESCOLA DESSE JEITO?
- BEM, EXISTEM ESCOLAS PÚBLICAS... – começou a gritar, mas eu a interrompi logo em seguida.
- NEM PENSAR!
- VOCÊ VAI TER QUE CEDER EM ALGUMA COISA!
- MAS NÃO NA MINHA EDUCAÇÃO! – rebati – EU PRECISO DE UM PLANO B CASO A MÚSICA NÃO DÊ CERTO!
- A EMELI SANDÉ FEZ ISSO. – gritou na nossa frente.
- QUEM? – gritei de volta.
- EMELI SANDÉ, ELA É CANTORA, OFERECERAM UM CONTRATO PRA ELA QUANDO ERA MAIS NOVA, MAS AO INVÉS DE IR GRAVANDO DE UMA VEZ E INVESTIR NA CARREIRA MUSICAL, ELA FOI PRA FACULDADE E SE GRADUOU EM MEDICINA E SE ESPECIALIZOU EM NEUROCIÊNCIA.
O que dizer dessa pessoa que conheci há umas 6 horas e já me apoia mais do que qualquer outra pessoa do mundo?
- NÃO PRECISA IR TÃO LONGE ASSIM! – soltou um bafo pelo nariz, como se tivesse com ciúmes de – Literalmente.
E o choque foi gigante pro meu coração de turista. Na nossa frente, à apenas alguns metros de distância, estava o Palácio de Westminster, a sede do Parlamento Britânico e símbolo indiscutível da Inglaterra para o mundo, se estendendo pela margem do Tâmisa. Paramos de correr e ficamos ali olhando para aquele monumento enquanto recuperávamos nosso fôlego. Naquele momento, vendo aquele prédio eu senti que realmente estava em Londres, coisa que nem o Palácio de Buckingham e nem o Saint James’ Park conseguiu fazer.
Eu estava em Londres. Eu estava em Londres correndo atrás do meu sonho. E com duas doidas ao meu lado. Tudo estava perfeito.
- Não, chora, ! – disse me abraçando por trás.
- Eu não vou chorar! Só estou emocionada, é uma das coisas mais bonitas que eu já vi em toda a minha vida! – eu podia sentir as lágrimas se formarem nos meus olhos.
- Cara, você está chorando! – disse com um tom de indignação – Você está me fazendo passar vergonha!
- Vocês não entendem! Isso é quase o todo dia de vocês, mas pra mim não! Eu estou tentando tirar da cartola um jeito de tornar isso o meu todo dia!
- Continuo com vergonha alheia por você. – disse dando uma risada – Agora vamos! Antes que o tour comece sem a gente!
Seguimos nosso caminho, cada vez mais próximo do Palácio de Westminster. Cada passo que eu dava era como se a minha frequência cardíaca aumentasse mais um pouco, e sentia que em qualquer minuto poderia sofrer taquicardia. Chegamos à entrada do Parlamento e começou a conversar com a recepcionista, ela conferiu nossas identidades, registrou nossos nomes no computador, imprimiu um pequeno adesivo com os nossos nomes e os colou em pequenos crachás que nos foram entregues em seguida. Depois de todo esse processo ela nos guiou até uma sala ao encontro do resto do nosso grupo de visitantes.
Por todo o trajeto no interior do prédio entre a recepção e a sala em que estávamos notei que tinha perdido o controle sobre os meus olhos, eles corriam todo o espaço e notavam cada detalhe da decoração, misturando elementos góticos, vitorianos e modernos. Passamos por diversos corredores e um deles estava a Câmara dos Comuns, onde ocorria uma sessão dos parlamentares e eu pude jurar que tinha escutado a voz de David Cameron, o recente eleito Primeiro-Ministro. Calafrios subiam pela minha espinha e seguia por toda a extensão de meus braços. Era magia. Eu não queria sair dali, era maravilhoso demais pra ser verdade, e o que mais me doía era saber que eu tinha que passar por Christie Thompson para poder ver toda aquela beleza de perto. Algumas belezas definitivamente não eram acessíveis à todos, e não existe injustiça maior que essa.
Nos juntamos ao restante do pessoal, que não chegava a 20 pessoas, em seguida a parlamentar que nos acompanharia adentrou a sala e se apresentou como Kate Fincher, do Partido Conservador. Ela teve toda a atenção de cumprimentar um a um até nos levar à entrada da Torre, passando por todo aquele labirinto entre os quase 5 quilômetros de corredor do Parlamento. Uma pequena porta se abriu e um homem de aproximadamente 25 anos apareceu.
- Boa tarde, meu nome é Sergei Karkaroff e os acompanharei pelo resto do caminho.
Sergei era magro, alto e de bastos cabelos negros. Uma barba da mesma cor dos seus cabelos cobria grande parte de seu rosto, e ele era branco, mas tão branco que parecia que nunca tinha visto sol na vida. Se existia uma personificação do termo “nerd”, essa personificação era ele. Ele conferiu cada crachá e quando chegou ao meu e leu “Christie Thompson”, levantou uma sobrancelha e começou a procurar um rosto entre os visitantes. Mas o rosto que ele procurava, o de , estava logo atrás de , que estava atrás de mim. Ele fez uma cara de mau para e depois para mim, e eu sorri descaradamente. Não sabia onde eu tinha achado o par de bolas para sorrir descaradamente na cara do segurança do Parlamento que tinha feito a minha identidade falsa, que me permitiu estar ali naquele momento, mas eu o tinha achado de alguma forma.
Ele nos direcionou até um patamar, que eu acreditava ser um pouco acima da metade da torre e nos deixou ali. Todo o grupo estava calado, apreciando aquela oportunidade única. Faltava menos de um minuto para as 16h e todos nós olhávamos para cima, havia cinco sinos pendurados, um gigantesco e quatro menores. O gigantesco era o Big Ben, com 13 toneladas, e era ele o grande astro ali.
E então quatro badaladas que ecoaram por toda a Torre e por todo o meu corpo.
Para muitos que estão de fora devem pensar “mas só isso?” sim, só isso, mas durou uma eternidade, para mim pelo menos que estava ali dentro do maior símbolo do Reino Unido. Confesso que pensava que seria de outra maneira, mas assim, naquele momento com todo aquele som ressoando em todo o meu ser foi melhor do que eu esperava e estava perfeito. Quando as badaladas acabaram todos nós ficamos ainda algum tempo respirando, absorvendo tudo o que tinha acabado de acontecer. Meus olhos lacrimejavam.
Eu não havia vivido muitos momentos com , e muito menos com e nem preciso mencionar as outras quase 20 pessoas que ali estavam, mas juntos ali, presenciando aquela magia notei que o amor era muito mais do que o amor romântico. Mas poderia ser amor amigo, amor querendo ser amigo, amor de desconhecidos vivendo algo juntos, algo tão incrível que nos deixava sem palavras, imersos naquele momento tão efêmero que qualquer um de nós tinha medo de desfazer. Amor era também amor-próprio, era amor pelo mundo, e pelo novo.

- E agora esperamos? – falei me sentando de frente ao rio.
- Sim, esperamos. – disse entregando um ticketzinho para cada uma de nós.
- Quanto tempo? – disse se sentando no chão.
- Como você sabe, querida – ela ironizou bastante o “querida” – estamos na Inglaterra e o pôr-do-sol é lá pelas 21h, mas vamos subir às 20:30, então temos muito tempo para fofocar.
- É... Três horas de fofoca... UHUL!
- Cala a boca, . – disse jogando uma bolinha de papel nela depois.
Durante essas horas ficamos literalmente vendo a vida passar daquele lado do rio, filas e mais filas de turistas, barcos cortando as águas a uma velocidade de tartaruga, flashes de câmeras, e uma roda gigante rodando e rodando ao nosso lado. E claro, falamos, de nossas vidas, de corações partidos, de celebridades, de música, de aluguel e apartamentos. conferiu o relógio e se levantou do banco em que estávamos.
- Está na hora.
O céu já tinha tons de laranja e rosa e o sol brilhava em uma ponta do rio. Nos levantamos e caminhamos em direção à fila. Entramos em nossa pequena cabine oval e finalmente estávamos dentro da London Eye. O passeio era padrão, com duração de 30 minutos, mas tinha contado muito bem esses 30 minutos. Começamos a subir vagarosamente, e a cada minuto íamos mais e mais alto. E então atingimos o topo da London Eye.
Era o pôr-do-sol e todo o cinza, verde e marrom da cidade contrastava com o céu alaranjado e rosa. O sol se punha um uma ponta do rio e dedos de sua luz cortavam o céu em tons de amarelo forte que lutavam contra as nuvens fazendo o céu, e logicamente a cidade inteira, ter um visual magnífico. Pessoas pareciam formiguinhas lá de cima, os carros eram como brinquedos em uma cidade montada por aqueles blocos pintados de madeira de criança, que era estranhamente igual ao Palácio de Westminster. Dali de cima eu podia ver o Palácio de Buckingham, Saint James’ Park, Palácio de Westminster e tantos outros lugares que eu ainda iria ver.
A vista era espetacular ali do alto, e eu mal podia esperar o momento que seria eu desbravando todo aquele labirinto que eu via de cima. Eu estava tendo a visão dos pássaros, mas logo eu teria a minha visão, o meu ponto de vista de toda aquela magnificência. Porque aquela cidade agora era minha, e nem Jesus na Terra poderia me dizer o contrário. Eu iria conquistar esse novo desconhecido.
Porque eu já tinha sido conquistada.
E estava perdidamente apaixonada por Londres.




Notas do Capítulo 7:

¹: Tube é como os ingleses, especialmente os londrinos, chamam o sistema de metrô da cidade.
²: A Cidade ou The City é o bairro central, mais antigo e um dos mais caros de Londres onde se concentra todo o centro financeiro e grande parte do centro histórico.
³: Ônibus vermelho de dois andares padrão do sistema britânico de transportes.
4: O nome oficial não é bolinhas fofas ou super chapéu, e sim bearskin. Só a título de curiosidade mesmo.



Capítulo 8 - Sweetheart, what have you done to us?


Glasgow, Escócia. Agosto de 2014.

Do colchão eu senti um peso se levantar do outro lado da minha cama. Escutei passos abafados pela falta de calçado indo em direção à algum lugar, e minha cabeça doía. Acima de tudo a minha cabeça doía. Um gosto de bile dominava o meu paladar e tudo o que eu mais queria era vomitar, mas com toda certeza eu já tinha feito isso antes, porque o cheiro que vinha do um ponto bem próximo a mim não era um dos melhores. E era fato que se eu fosse vomitar seria mais bile e mais álcool, tanto álcool que eu poderia incendiar aquele quarto.

Sweetheart, what have you done to us?


A porta se fechou e então abri meus olhos, eu estava no meu quarto do hotel, completamente no escuro. Virei para o lado e vi o relógio marcar 3:49 da manhã. Virei para o outro lado da cama, o lado que um peso tinha sido aliviado, havia marcas no travesseiro, o cobertor estava revirado, alguém estava dormindo ali. Lutando contra a dor de cabeça, a vontade de vomitar e a vertigem que me consumia fui em direção ao travesseiro e o cheirei. Um arrepio correu por toda a minha espinha, notei que o que eu mais sentia era temor e não o que eu mais esperava quando esse momento chegasse. O que era engraçado, porque eu não sabia exatamente o que esperar desse momento, mas sabia com toda a certeza que não seria temor.
Ele estava ali.
O que eu vou fazer? O que eu vou fazer? O QUE EU VOU FAZER?
Minha mente foi a mil por hora. Ele estava no banheiro e não iria demorar muito.
O que eu vou fazer?
Voltei rapidamente para a posição que estava antes de ele sair, o que foi um grande erro, já que todo o meu corpo resolveu responder à vertigem. A porta se abriu, eu escutei o barulho de uma passada, eu soltei um gemido me entregando à tonteira e me mexi na cama, ele parou no lugar. Nenhuma passada.
Pensa, pensa, PENSA! O poder da mente sobre o corpo, isso, , ISSO!
Iria brincar de “Hoje não” com a vertigem e controlar o meu corpo. Dei um suspiro e continuei imóvel como se ainda estivesse dormindo. Seus passos foram retomados, senti o seu peso ser transferido para a cama levemente, ele havia se sentado, soltou um grande suspiro e finalmente se deitou. A coberta foi puxada para cima, ele se ajeitou na cama e seu pé extremamente gelado tocou minha panturrilha, em um contexto normal eu me recuaria por causa do frio, como sempre fazia antes, mas fazia tanto tempo que eu não sentia esse pé de pedra de gelo em mim, que o meu impulso foi de aquecê-lo ao invés de rejeitar sua friagem.

I turned my back and you turned to dust.


Então me lembrei do meu Ensino Médio, das minhas aulas de biologia e de física, e achei irônico como agora as duas se conectavam e complementavam na minha lógica. O medo e a adrenalina. A ação e a reação. A Terceira Lei de Newton dizia “A toda ação há sempre uma reação oposta e de igual intensidade: as ações mútuas de dois corpos um sobre o outro são sempre iguais e dirigidas em sentidos opostos.” Quando confrontado com algo ameaçador, o organismo dos seres humanos libera na corrente sanguínea diversos hormônios, dentre eles a adrenalina. A adrenalina é responsável pela dilatação das pupilas, aumento da frequência cardíaca, contração dos vasos sanguíneos e diversos outros mecanismos que têm somente um objetivo: a sobrevivência. Nesse sentido, a adrenalina permite à um homem ter não apenas uma, mas duas reações em resposta a uma determinada ação amedrontadora. Enfrentar a desventura, ou fugir dela.
Em um hotel alheio na paisagem de Glasgow, eu estava deitada na cama com ao meu lado. E das duas opções disponíveis face ao medo, enfrentar ou fugir, eu tinha escolhido a mais fácil e mais covarde delas.
Eu fugi.
Por tanto tempo eu tinha esperado por esse momento, por uma mísera oportunidade de o ver, e me envergonhava o fato de que eu tive de estar completamente bêbada pra isso acontecer. E agora eu tinha gosto de vômito na minha boca, cheiro de vômito ao meu lado, uma puta ressaca física E moral, e o dia ainda nem tinha amanhecido. Eu estava acordada e ele estava acordado, quando descobri que quem estava comigo era ele, corri para me esconder, como se fosse uma coelha se escondendo na toca porque o lobo estava à solta. Ele estava acordado e eu estava acordada, e quando ele percebeu ao menor sinal de que eu poderia estar acordada, ele empacou e cheirou o ar como se fosse um antílope na savana sentindo a presença de uma leoa, depois voltando a comer a porra do capim quando tinha percebido que a presença era só um falso alarme.

Follow my words to the end of our love.


Mas agora ele tinha se deitado, e o instinto de fugir para se salvar nos tinha privado do enfrentamento clarificador. Afinal, no enfrentamento é matar ou morrer, e apesar do nosso término alguns meses atrás eu ainda não sentia que tudo estava terminado, ainda havia um resíduo ali, era claro. E eu já pensava que chegaria um momento para nós dois que seria realmente isso. Matar ou morrer. Era sobrevivência.
Ele estava deitado, não sabia se seguia acordado, mas eu ainda estava. Minha cabeça rodando e meus pensamentos vagando, pensando somente no fato de que eu tinha fugido, de que eu tinha sido a covarde. Mas ele também tinha escolhido de alguma maneira fugir, então eu não era a única covarde, certo?
Mas se ele era covarde também, o que ele ainda estava fazendo ali?
Eu ainda estava acordada, e ele provavelmente também estava. Mas eu não ia conferir isso descaradamente, e muito provavelmente ele não faria o mesmo. Então eu fiz o que me restava, me virei para o seu lado e com os olhos parcialmente cerrados conferi para que lado ele estava virado. Então encarei as suas costas nuas, aquelas costas que tanto me excitavam. A razão e o desejo lutavam em minha mente. E o desejo ganhou. Estiquei a palma da minha mão e corri a extensão de suas costas, da base de sua espinha até o espaço entre as omoplatas. Ele nem sequer havia se mexido, o que significava que ele estava acordado. Rejeição. Recuei a minha mão e fiquei deitada olhando para suas costas, ironicamente a parte que eu mais gostava dele. E o silêncio nos dominou, até que eu caí no sono.

Eu reconhecia aquele interior amadeirado, rústico, a mistura de tons de verde-escuro e madeira. Eu sempre brincava com Spike, o dono do The Duke, que o pub tinha sido construído por um lumberjack na Era Vitoriana e ele soltava aquela risada com vontade que eu tanto amava. Mas estranhamente aquela parecia ser a primeira vez que eu entrava naquele lugar, estava sentada em um dos bancos em frente à bancada do barman, aqueles bancos usados somente pelos solitários, e pelos forasteiros. Eu ainda não sabia em qual categoria me encaixava, ou se me encaixava nas duas.
Sim, aquela parecia ser a primeira vez que estava ali, a primeira vez que buscava pubs perdidos em Londres para que eu, e pudéssemos nos apresentar. Estava com 17 anos e buscando bicos em lugares que minha entrada só seria permitida daqui a um ano, e agradecia à Christie Thompson por isso. Pedi um Martini ao barman, afinal essa era a bebida do James Bond e naquele momento eu queria ser durona como ele. Uma banda cover de The Doors tocava e o som do baixo deixava o lugar muito intimista, mais intimista do que eu podia acreditar, já que o estabelecimento era bem mais sujo que o normal. E talvez fosse por isso mesmo.
Com o pé eu acompanhava a música, era Riders on the Storm, olhei para o meu drink que acabava de chegar. Nunca tinha tomado um Martini na vida, e pra falar a verdade nunca tinha passado do nível “cerveja e batidas com vodka”, mas meu objetivo era ser a durona da noite. Não sei o porquê, mas eu tinha que passar a imagem de durona. Era essencial. As três azeitonas flutuavam me encarando como se zombassem de mim, a criancinha perdida naquele lugar, peguei a taça e dei um bom gole no líquido transparente. Parecia que eu tinha engolido gasolina, álcool para carro e um rolo de arame farpado de uma vez, meus olhos lacrimejaram e subitamente a coisa que eu mais queria fazer no mundo era tossir.
Seja durona, , durona. É o objetivo. Você é rock’n’roll.
Repousei a taça na bancada de madeira e fechei a mão em frente a minha boca e tossi devagar, controlando cada movimento dos meus músculos, porque se eu cedesse à vontade eu iria morrer de tossir naquele lugar. Desajeitada e vergonhosa, era isso que eu era.
- Algo me diz que você não pertence à esse lugar.
Uma voz baixa, rouca e cheia de nuances disse ao pé do meu ouvido, arrepios correram por toda a extensão do meu corpo e tive que me inclinar um pouco para frente para que conseguisse recuperar a minha razão.
- E eu iria mais longe ainda. – ele continuou entorpecendo meus sentidos ao pé do meu ouvido – Diria que você nem deveria estar aqui.
Eu me virei para ver quem falava comigo e dei de cara com dois olhos azuis enormes. Ao contrário da primeira vez que os tinha visto, quero dizer, da primeira vez real que os tinha visto, pois eu sentia que de alguma maneira aquilo não era real, eu tive a impressão de que sim, seus olhos eram intensos. Mas não intensos do tipo “venha para a cama comigo”, eram intensos do tipo armadilhas de ursos no chão cobertas por camadas e mais camadas de folhas secas ao ponto de ficarem camufladas, até o momento que prendiam a perna do animal entre os dois semicírculos cheios de espetos. Era um intenso sorrateiro, eu com certeza não tinha tido essa impressão da primeira vez que o tinha visto. O que tinha mudado ali? Eu ou ele?
- Mas não se preocupe, o seu segredo está seguro comigo. – ele disse enquanto repousava o seu copo ao lado da minha taça de Martini e depois se sentou ao meu lado. Eu tinha lido em algum lugar que existiam dois tipos de educação: a positiva, que as pessoas de uma determinada cultura eram mais abertas à amizades e mais espaçosas, e a negativa, que as pessoas demonstravam respeito para com outra, mas sem se intrometer no seu espaço pessoal. A cultura britânica se encaixava na educação negativa, mas com certeza esse cara era a exceção. Apesar de ele não estar me prensando literalmente, eu sentia sua presença sufocante por todos os lados, me pressionando e me diminuindo.
O que mudou?
- O que você está bebendo? – ele disse com um sorriso irônico.
- Martini. – respondi baixo.
- Bebida de velha.
- E o que você está bebendo?
- Whisky escocês, 18 anos. – ele disse como se estivesse orgulhoso de si mesmo e então abaixou o tom – Provavelmente mais velho do que você.
Eu sentia o meu rosto se avermelhar. Eu devia ser a durona hoje! E onde fica o poder de ser durona quando o rosto está vermelho? Eu devia estar parecendo um coelhinho fofinho fazendo coisas fofas.
- Eric. – ele disse.
- . – respondi.
- Então, , o que te traz aqui?
- Eu tenho uma banda. – sua patética, pensei.
Ele arqueou a sobrancelha e pareceu olhar com mais interesse.
- Não é uma banda mesmo, quero dizer, é uma banda. Mas...
- Vocês ainda não tocaram em lugar nenhum.
- E não temos músicas autorais. – completei.
- E nem mesmo sabem se vão continuar com o negócio da banda. Porque vamos ser realistas, não é uma vida pra qualquer um.
- Exatamente. – disse tomando um gole do meu Martini ainda sentindo o fogo do inferno descer pela minha garganta.
Como as pessoas bebem?
- Sei mais disso do que você possa imaginar. – ele disse me encarando com os seus olhos extremamente azuis e intensos – Mas não acho que seja o tipo de conversa para esse momento.
- E que momento seria esse? – falei.
- Hm. Está sendo mais divertido do que eu pensei que seria.
Ele sorriu e voltou a sua atenção para a banda. Ele parecia um anjo, cabelos loiros e grandes o suficiente para notar que se crescessem mais um pouco enrolariam, ombros largos e eu sabia que sob a blusa eles levariam às costas, que com certeza seriam sexy. Aaah meu fetiche por costas.
Parei o meu olhar em suas costas, imaginando como seriam. E então entendi que momento era aquele, e eu realmente me envergonhei por não ter notado isso quando ele tinha falado, afinal, tudo parecia se resumir à isso. Para ele eu devia parecer a criatura mais ingênua do mundo, e por mais engraçado que parecesse, pois eu tinha acabado de o conhecer, eu não queria deixar essa impressão nele.
As suas costas. O momento. Mordi o lábio e pensei no movimento de seus quadris, para cima e para baixo, a barba loira por fazer raspando em meu rosto, na minha nuca. Senti meu rosto enrubescer. Apesar de sua aparência, seu efeito não era nem um pouco angelical.
está na Austrália. está na Austrália. está na Austrália. Se controla, , por tudo o que é mais sagrado!
- Eu não sei se fico preocupado com o fato de você provavelmente ser uma pervertida, ou curioso e um pouco lisonjeado com todas as coisas que estão passando na sua mente agora.
Eu não sabia por quanto tempo me perdi em suas costas, e muito menos por quanto tempo ele me notou olhando para ele. Mas eu tinha certeza que agora eu o fitava com a surpresa de quem estava olhando algo que sentia que não devia. Ele pegou o seu copo de whisky e o colocou em minhas mãos.
- Você deveria experimentar. – ele se inclinou em minha direção, ficando perto demais ao ponto de sentir o calor de seu hálito em meu nariz – Está muito tensa, isso vai te ajudar a desinibir e tornar realidade tudo que está em sua mente. Nunca se sabe aonde a curiosidade pode te levar.
está na Austrália. está na Austrália. ...
- ! , volta AQUI! – gritou do lado de fora do quarto.
O grito me fez acordar. Eu estava completamente suada, respirava rapidamente, e minha cabeça doía. A luz do dia machucava meus olhos e demorou bastante tempo para eu me acostumar com o ambiente. O outro lado da cama estava arrumado e minha cabeça ainda doía, muito. E eu não sabia o que era pior, a dor de cabeça insana, a vertigem, a vontade de vomitar, a minha respiração completamente acelerada inalando o odor horroroso do meu vômito de ontem, o meu coração batendo tão forte que parecia querer quebrar as grades que eram minhas costelas, ou o arrependimento de ter sonhado com Eric. Talvez o meu corpo tivesse reagindo ao efeito dele, e não de .
- O que a gente vai fazer? – escutei a voz de soar abafada no corredor.
- Nem ideia. – respondeu.
Eu podia escutar as suas vozes pela porta, eu sabia que falavam de mim. E de Kaya também. Nós tínhamos nos tornado um problema, um peso morto na vida das duas, e analisando a situação ali naquele momento, eu não tinha como tirar a razão das duas. Nesse momento eu me sentia arrependida sim, eu me sentia um lixo, eu queria melhorar. Mas não podia dizer isso, com toda a certeza do mundo, mais tarde quando a minha mente já tivesse migrado para um lugar mais sombrio. Eu tinha certeza que as duas sentiam muito por mim e por Kaya, mas o que eu não podia fazer era aturar as duas falando de mim e de um assunto que compete à minha pessoa sem a minha presença, sem o meu consentimento. É muito fácil falar de outra pessoa sem saber o que se passa dentro dela, sem saber das suas lutas internas.
Decidi me levantar. Coloquei meus pés no chão e senti que um pisava em alguma coisa bastante nojenta. Meu vômito. Não olhei pra baixo porque sabia que se eu o visse ia colocar mais ainda pra fora. Olá, fundo do poço, estou aqui de novo com você. Fui em direção às janelas e as abri mais ainda, deixando o vento entrar e varrer os odores do quarto. Sem sucesso, claro. Com todo o silêncio do mundo liguei para a recepção do hotel e pedi que alguém viesse limpar o quarto. Olhei para o relógio, eram quase 10 da manhã, à essa hora já deveria estar em Edimburgo. Ainda podia escutar as duas do outro lado cochichando, aquilo me irritava de uma maneira inimaginável. Caminhei até a porta e a abri em seguida, as duas me olharam com surpresa, fechou a cara e fez menção de sair.
- Indo a algum lugar? – falei com a maior acidez que pude encontrar.
Ela abriu a boca como se fosse falar alguma coisa e depois a fechou. Eu continuei a encarando.
- Se vocês quiserem ser úteis, ao invés de parecer duas donas de casa que precisam de uma pilha de roupas e vasilhas pra lavar, por favor, acordem Kaya para a gente poder conversar, daqui a 20 minutos encontro vocês.
- Eu não acho que a gente precise conversar. – disse.
- Não, realmente. Você está certa, não acho que a gente precise conversar, afinal, onde você esteve nessas últimas semanas? Ao meu lado não foi, nem um pingo de suporte da sua parte foi dirigido a mim.
- Suporte? Mais do que eu já te dei?
- Obrigada pela caridade, não sabia que ela era tão custosa assim para você. Agora vá chamar a Kaya, porque eu não aguento mais ver gente discutindo da minha vida sem o meu conhecimento.
- Para a sua informação ela já está acordada...
- ENTÃO VÁ!
Ela se encolheu, virou as costas e saiu em direção ao quarto de Kaya. , que tinha permanecido muda o tempo todo me olhava estranhamente.
- Isso foi um pouco injusto, .
- Faça-me o favor, . – falei me virando e batendo a porta na sua cara.
Peguei minhas roupas íntimas, um short e uma blusa e fui em direção ao banheiro. Liguei o chuveiro na temperatura mais fria que consegui e deixei a água cair pelo meu corpo. Enfiei minha cabeça embaixo da água fria e o choque percorreu meu corpo todo, me fazendo acordar e respirar mais rápido. Meus pulmões estavam desesperados por mais ar e eu sentia o meu corpo tremer todo. Senti lágrimas se formarem, não sabia se elas surgiram como reflexo do meu corpo ao choque da água fria, não sabia se eram por , e , não sabia se eram por minha vida, ou se eram por mim. Talvez fosse por tudo isso e mais um pouco, meus pais, o resto da minha família, pelas filhas de estranhos que me têm como exemplo.
Escutei a porta do quarto se abrir e um carrinho entrar, era o serviço de quarto. Senti mais lágrimas escorrerem pelo meu rosto, mas não queria que ninguém me escutasse chorar. Passei o shampoo, soluçando baixinho e tampando a boca quando sentia que a qualquer momento poderia soltar um soluço muito alto. Meu choro aumentava cada vez mais até o momento que não podia mais conter os barulhos.
Então eu me descarreguei.
Soluçava alto, chorava alto, me curvava em direção aos meus joelhos e me endireitava novamente. Tremia, sentia a água do chuveiro e a água das minhas emoções varrerem o meu corpo. Sentia muito, por tudo, e todo o peso do meu sentimento e meu fracasso me fez ajoelhar, repousei minha mão na minha barriga sentido os meus soluços, que agora pareciam mais gritos. Escutei batidas na porta. Finalmente me deitei no chão, encolhida, como uma bolinha humana. Pequena, que era como eu me sentia agora. E a água continuava a cair em cima de mim. E as batidas na porta continuavam.
- Senhorita , você está bem? Precisa de ajuda? – a faxineira com um sotaque polaco disse do outro lado da porta. Parecia desesperada, o que fazia duas de nós.
- NÃO – gritei e então comecei a sussurrar – Não estou bem, nem um pouco bem. Sim, eu preciso muito de ajuda, mas afastei todas as pessoas que poderiam me ajudar. Eu preciso de ajuda. Eu preciso de ajuda. Eu não estou bem.
- Você está falando alguma coisa? – seu sotaque pôde ser ouvido novamente enquanto ela batia na porta.
- EU PRECISO QUE VOCÊ LIMPE AQUELE VÔMITO! SÓ ISSO. – gritei e ela parou de bater.
Me imaginei sendo vista de cima. Uma bola de carne mortal que se autodestruía, encolhida como um feto no chão de um banheiro.
Eu preciso de ajuda. Desesperadamente.

- Você está bem? – Kaya disse quando eu entrei no seu quarto.
Meu rosto devia estar me entregando. Devia não, estava. Era um fato. Kaya estava sentada em sua cama lendo a setlist do show que deveríamos fazer hoje em Edimburgo. estava sentada na beirada da cama e olhava pela janela ignorando a minha presença. Nada de que eu já não estivesse acostumada.
- Estou perfeitamente bem. – menti e escutei suspirar – Precisamos pegar o primeiro trem pra Edimburgo.
- O quê? – disse e vi se virar para mim, mas não a encarei.
- Vamos encarar a verdade, Kaya e eu temos um problema. Sim, nós temos. – completei assim que a vi abrir a boca para falar algo – Não é fácil encarar isso, nunca foi. E vocês não entendem. Uns fogem, outros ignoram, outros acolhem. Mas pra falar a verdade, não acho que exista uma maneira certa para abordar esse assunto com alguém que é usuário de drogas.
- ... – Kaya começou a falar.
- Não é fácil. – senti minha voz tremer. – Só quem passa por isso sabe, tem um vazio e ele só é preenchido com a droga. Quando acaba, o vazio é maior ainda, ele só cresce. É questão de química corporal, o seu cérebro muda, você muda. Mas não é justo. Com ninguém. Eu tenho vontade de melhorar, mas eu não sei como, a minha mente muda assim como o meu humor. E não é por causa de mim ou de Kaya que nós vamos privar nossos fãs dessa noite. Eles olham por nós, nós somos de alguma maneira a inspiração deles, o que eles querem ser. Nossos fãs nos apoiam, nós não podemos simplesmente cancelar o show em cima da hora porque eu resolvi dar a louca e beber até cair.
Senti meus olhos arderem, outras lágrimas se formavam, mas essas eu consegui conter.
- Nossos fãs nos amam, e nós devemos amar eles também. – falei – Então por hoje e pelo resto da tour vamos deixar essas merdas de lado, e fazer o que temos que fazer por eles.
- E o que você acha que estamos fazendo até agora? – disse.
- Eu não sei. E por favor, para de brigar comigo! – respondi e respirei fundo – Vamos pegar o próximo trem pra Edimburgo e fazer o melhor show que podemos fazer. E faremos a mesma coisa em Gales e nas Irlandas, terminando em Londres. E depois eu e Kaya damos um jeito.
- Você não pode falar por mim, . – Kaya disse me encarando fortemente.
- Não é possível que você não entende a gravidade disso, Kaya... Nós temos que tentar, e vamos!
- Nós vamos para Edimburgo, então. – começou a falar e a interrompeu.
- Com uma condição.
- E qual é? – Kaya perguntou.
olhou para de um jeito nada agradável e ela respondeu o olhar. E então eu entendi o que era.
- Eu sei que ele esteve aqui. – falei – Eu me lembro de alguns flashes de ontem, quando eu acordei de madrugada e ele estava do meu lado, e quando você gritou por ele hoje de manhã eu percebi que ele esteve do meu lado a noite toda.
- Não é só isso. – disse – disse que tem uma ex-namorada em Edimburgo que trabalha em um grupo de apoio a pessoas portadoras de doenças mentais...
- O QUÊ? – Kaya gritou assim que ouviu o nome “doenças mentais” – QUEM É ELE PRA ACHAR QUE EU SOU DOIDA? QUEM VOCÊS PENSAM QUE SÃO?
- É o que a disse, Kaya, a droga muda a estrutura do seu cérebro, gera dependência. É uma doença mental! – disse tentando suavizar a situação. Eu encarava e ela me encarava.
- Ele ligou pra ela ontem, perguntou se vocês podiam comparecer ao grupo hoje antes do show até ele achar um lugar melhor e mais perto de vocês. Se vocês concordarem em ir hoje, nós subimos no palco, caso contrário, cancelamos o show e devolvemos o dinheiro de volta.
- EU NÃO SOU DOENTE MENTAL! EU NÃO TENHO PROBLEMAS. – Kaya gritava e batia com as mãos no colchão. Seus olhos estavam cheios de lágrimas e ela tremia. Eu entendia o que ela estava passando, e era aterrorizante. A minha ficha tinha caído, mas a dela ainda não.
- É o certo a fazer, Kaya. – sussurrei e ela me encarou – A gente tenta hoje. Eu vou tentar e você também vai, se não por você, tente pelas milhares de pessoas que compraram um ingresso pra cantar nossas músicas.
- Eu não sou doente. – ela disse se abraçando.
- Sim, nós somos. – falei.

O Mini Cooper excessivamente laranja cortava as ruas estreitas de Edimburgo pela tarde, e Holly Ashbrook o pilotava. Eu, como uma intocável, estava sentada no banco da frente enquanto , Kaya e estavam no banco de trás. Holly tagarelava à respeito desse grupo que ela liderava e eu observava o seu perfil. Ela era uma mistura estranha, tinha o cabelo bastante escocês, alguma coisa entre o loiro e o ruivo. Sardas salpicavam o seu rosto, principalmente nas bochechas, os cílios e as sobrancelhas eram quase inexistentes de tão claros e os dentões eram um pouco separados. Não era feia, não era maravilhosa, acho que sua beleza vinha mais da sua aura de aceitação de si mesma. Ela parecia bastante segura de quem era.
- O doutor Faulkner criou esse grupo com o objetivo de montar um sistema de apoio para seus pacientes que sofrem de, nas palavras dele, “transtornos mentais em fase branda à média”. – Holly disse e eu escutei Kaya bufar – Eu também era assim no início quando ele me falou do grupo, mas conforme fui frequentando as reuniões percebi que a ajuda é realmente muito grande. Nós formamos uma família, bem fodida mentalmente, mas ainda assim, uma família.
- Calma aí... Você era parte desse grupo? – quase gritou de surpresa no banco de trás do carro – Tipo... Você é normal, cara isso saiu muito ruim, mas você me entendeu, sim?
- Sim! – Holly disse rindo enquanto manobrava o carro entre outros dois – Era e ainda sou parte do grupo. Mas, bem, doença mental não tem uma cara para ser facilmente identificável.
- Mas convenhamos tem gente que tem cara de doido. – disse.
- Hmmm... Eu entendi o seu ponto, mas, por favor, evite falar assim lá dentro.
- Ok.
- O tratamento é sempre contínuo, eu realmente pareço “normal” agora, mas alguns anos atrás eu não era assim. Sempre fui muito reclusa. – ela disse tirando a chave da ignição – Isso que está acontecendo agora jamais seria possível sem a ajuda dessas pessoas, elas são muito especiais para mim, cada um do seu jeito. Por isso estou na defensiva no momento.
- Tudo bem. – respondeu – E me desculpe.
- Então, por que você faz parte do grupo? – perguntei enquanto saía do carro.
- Depressão.
O único som que foi emitido em seguida foi o das quatro portas do carro se batendo. E um raro momento nosso aconteceu, nós quatro nos entreolhamos sem graça e sem ação. Foi rápido e cúmplice, algo que não acontecia há muito tempo, e que eu achava que não iria acontecer tão cedo assim.
- É... Geralmente a reação é essa mesmo, estou acostumada. – ela soltou uma risadinha – foi de grande ajuda na época também.
- E por que vocês dois terminaram? – falei.
- A vida aconteceu. – ela respondeu com um sorriso tranquilo no rosto – Ele passou no X Factor e foi ser quem ele é hoje, e eu tive que continuar com o meu tratamento, foi bem maduro para a nossa idade. Espero que ele esteja bem.
- Acredito que sim.
- Você ainda tem muito contato com ele?
- Não.
- Que pena... Eu realmente espero que ele esteja bem, onde quer que ele esteja, sempre vou me importar com o bem-estar dele.
Será que sempre era assim? Os antigos amores sempre seriam lembrados e de alguma forma cativados e bem quistos? Eu com certeza não me importava com o bem-estar de Theo Fonteneau, o francês que eu deixei em Amiens, mas isso já fazia tanto tempo que parecia ter acontecido em outra vida. Por outro lado, Holly e pareciam ter sido algo de séculos atrás também, e mesmo assim ela se importava com ele. Qual era a diferença entre Holly Ashbrook e ? O que fazia dela humana e de mim um cubo de gelo?
- Bem, é aqui. – ela disse depois de termos andado um pouco.
Ela parou em frente à uma vitrine de pães, bolos e outros produtos de confeitaria. começou a rir freneticamente, o que eu achei estranho por 1) não ouvir a risada dela há muito tempo 2) ela evitava emitir qualquer tipo de som perto de mim, especialmente uma risada e 3) não tinha nada de engraçado em uma vitrine de bolos.
Isso era uma brincadeira? Holly e tinham combinado alguma coisa antes?
Até que Holly apontou para cima e então nós vimos. Em uma placa de madeira aparentemente bastante velha e com estilo vintage estava escrito “WE SELL F*CKING CAKES!!” com dois pontos de exclamação, muito importante enfatizar isso, em azul claro. Embaixo com letras menores estava escrito “How awesome is that?” em rosa claro, e embaixo disso ainda em rosa, estava marcado a data 1876. Todas nós começamos a rir muito.
- A sociedade do século 19 deve ter sofrido um grande abalo com isso. – falei entre risos.
- Você não tem ideia! Na prefeitura tem pelo menos uns 80 abaixo-assinados contra a família do senhor Faulkner, todos do fim do século 19 até a metade do século 20. Por fim acho que eles acostumaram. – Holly parou antes de entrar na padaria e nos disse - Hmm, não se importem com o estado do lugar, ok?
- Jamais! Já estou adorando esse lugar. – disse enquanto eu tirava uma foto da placa. Aquilo definitivamente ia pro meu Instagram mais tarde.
Adentramos a padaria atrás de Holly, todos olhavam para a gente com surpresa, mas nada que já não estivéssemos acostumadas, seguimos até o fundo e passamos por uma porta pesada de madeira. Descemos alguns degraus ao som de máquinas de fazer pão e risadas dos confeiteiros, que também estavam embasbacados com nossa presença. No meio do porão tinha uma grande parede de vidro com uma cortina verde, separando o que seria a reunião, do lugar de trabalho dos confeiteiros e padeiros. Holly abriu a porta de vidro e entrou na sala sendo seguida por nós quatro. Havia 20 cadeiras formando um círculo naquela metade do porão, 15 desconhecidos, Holly, , Kaya, e eu.
Holly se sentou na “cadeira do comandante” e eu a chamei assim só porque tinha assento almofadado, ao contrário de todas as outras. se sentou ao seu lado, ao lado de , Kaya ao lado de , e eu entre Kaya e uma menina estranha. Todos estavam sentados e Holly se levantou, foi em direção à um armário pequeno que ficava em um dos cantos da sala e tirou de lá uma caixa laranja. À esse ponto eu já tinha presumido que essa era a sua cor favorita.
O que era engraçado, porque a de também era.
- Boa tarde, pessoal. – ela disse e todos nós respondemos com um “boa tarde” – Não sei se vocês sabem, o doutor Faulkner está em um Congresso em Londres e não estará conosco essa noite, então ele me pediu para liderar o encontro de hoje. Mas primeiro vamos à surpresa da noite, nós temos algumas visitantes aqui.
- SIM! – uma menina de uns 15 anos gritou de um ponto do círculo.
Vi se encolher na cadeira e entendi isso como um sinal “cara de doida e com certeza é doida”. A menina tinha cabelos completamente negros e lisos, quase grudados à cabeça, era pálida e usava uma blusa de manga comprida, apesar de ser verão. Seus olhos estavam arregalados enquanto olhava para a gente.
- As Queens of the Jungle! – ela falava com uma rapidez inacreditável – Caldwell, , Blythe e Kaya Fraser. É um prazer ter vocês aqui conosco hoje. Quero dizer... Não é um prazer vocês terem problemas... Digo, algumas de vocês terem problemas. Ainda não é isso. EU AMO VOCÊS! E estou adorando estar na mesma sala que vocês! O álbum I é o meu favorito! Vocês poderiam tirar um foto comigo depois que o encontro acabar? – ela disse com os olhos arregalados e nós três acenamos que sim vagarosamente com a cabeça tentando assimilar aquilo, já estava fundida à cadeira.
- Doidona essa daí. – a menina que estava do meu lado cochichou no meu ouvido e dei uma risada abafada. – Eu sou Aila.
- .
- Eu sei. – ela sorriu.
- Bem, muito gentil da sua parte, Leslie. – Holly disse com um sorriso genuíno no rosto – Vamos começar o encontro, o doutor Faulkner já me colocou a par de tudo.
Ela retirou uma medalha pequena dourada presa numa corda verde clara.
- Angus, hoje completa um mês que você comparece às nossas reuniões e dá continuidade ao seu tratamento de desintoxicação, nós não poderíamos estar mais orgulhosos. Meus parabéns!
Um rapaz de aproximadamente 26 anos, bastante magro e pálido, com tatuagens cobrindo os dois braços foi em direção à Holly e pegou sua medalha. Ela retirou outra medalha do mesmo tamanho, porém presa numa corda vermelha da caixa.
- Ailsa, nós sabemos da sua luta, e da sua grande dor interna depois da perda de seu filho no Afeganistão. Nenhuma mãe deveria passar por essa dor, e você sabe que aqui tem uma família, tem um suporte, e sempre que você precisar estamos aqui por você. Essa medalha representa sua luta contra os tranquilizantes, você escolheu vivenciar sua dor e aprender viver com ela, ao invés de se entorpecer.
Uma mulher de uns 60 anos, baixinha, gordinha, com toda a aparência que seria uma excelente avó se levantou, e com os olhos marejados pegou a medalha, olhou o objeto e disse com a voz baixa que o filho também tinha ganhado uma depois que morreu na guerra. Holly a abraçou e em seguida tirou uma medalha presa numa corda rosa claro, um pouco maior que as outras.
- Leslie. – ela disse com o mesmo sorriso genuíno de momentos antes – Essa é por ter escolhido, há 5 meses atrás, a vida, depois de você sabe...
Ela não era doida, estranha sim, mas não doida. E ela tinha tentado se matar. Ela não precisava da nossa rejeição, ela precisava do nosso carinho e nossa atenção. Ela precisava saber que era especial e que pertencia à esse mundo, que o futuro, apesar de imprevisível, seria bom, que as coisas mudariam e seriam melhores. Leslie era nova, e precisava ter fé na vida, ao invés de recorrer à outra alternativa. Ela se levantou e foi em direção à Holly, e foi aí que me surpreendi. se levantou, tirou a medalha das mãos de Holly e entregou para Leslie e lhe deu um abraço seguido por um beijo na testa, depois pegou sua cadeira e a colocou do lado da cadeira dela do outro lado do círculo. As duas se sentaram e segurou sua mão, e continuou assim até o fim do encontro. Holly então tirou uma grande medalha presa a uma corda de bronze.
- E essa vai para esse magnífico senhor que está há cinco anos sem tomar nenhuma bebida alcoólica. Esse senhor que pegou o alcoolismo e fez dele a sua putinha! – ela disse fazendo todos rirem – Vem cá, Robert! Você merece muito!
Um senhor entre 50 e 60 anos se levantou e foi pulando em direção à Holly com o maior sorriso do mundo. Assim que ele pegou a medalha, ele a ergueu para o alto.
- SAORSA!!! – ele soltou um grito do fundo da garganta rindo.
Todos se levantaram e aplaudiram e gritaram “faodail” em resposta.
- O que significa? – perguntei a Aila.
- Saorsa significa “liberdade” em gaélico. – ela respondeu sorrindo e assoviando em seguida – E faodail significa “um achado de sorte”.
- Ok, pessoal, vamos nos acalmar. – Holly disse ainda rindo e se sentou – Alguém gostaria de começar com os depoimentos?
E então cada pessoa, uma seguida da outra, foi fazendo seu depoimento. Aila, a garota que estava ao meu lado, relatou da sua luta contra a anorexia e como andava a sua aceitação pessoal e rejeição dos padrões de beleza. Ailsa falou mais a respeito de seu filho que foi lutar no Afeganistão. Um homem de 30 anos, com aparência de nerd chamado Seamus contou de seu TOC e o que fazia para melhorar o seu transtorno, já que sua noiva o tinha deixado por causa dele.
- Meu nome é Angus MacDonald e eu tenho 28 anos. – o homem extremamente magro com tatuagens pelos braços disse, sendo seguido por um “Olá, Angus” de todos e Kaya, como havia feito em todos os depoimentos anteriores, soltou uma risada abafada – Hoje completa um mês que eu não injeto heroína na minha veia – ele olhou para a medalha e ficou vermelho – Eu ainda não estou pronto para me abrir com ninguém, mas eu sei que quando estiver, serão vocês as pessoas que vão escutar a minha história. E quando esse dia chegar, eu irei gritar “seanchaí”...
- Significa “o contador de histórias”. – Aila disse rapidamente para mim.
- Porque a partir desse momento, eu estarei contando o meu passado. E é isso que a história vai ser, o meu passado, algo que eu não vivencio mais e que está longe de mim. Até lá, cada dia é minha vitória pessoal.
- De todos nós. – Holly disse.
- De todos nós. – ele repetiu.
Mais algumas pessoas continuaram a dar os seus depoimentos até que Robert, o ex-alcoólatra, se levantou e começou a falar.
- Meu nome é Robert Sheehy e eu tenho 53 anos. – ele disse com um forte sotaque escocês sendo seguido por um “Olá, Robert” de todos, eu dei uma cotovelada em Kaya antes mesmo de ela ter a chance de soltar seu riso – Para as senhoritas que não me conhecem, eu sou um antigo alcoólatra. Vou tentar resumir a minha vida aqui. Há 11 anos, minha filha única de 9 anos foi diagnosticada com leucemia, ela morreu 2 anos depois. Não preciso nem comentar que esses anos que ela estava no tratamento foram os piores da minha vida. Depois que ela morreu eu fiquei bastante dividido, aliviado porque ela parou de sofrer, e ao mesmo tempo perdido porque ela não estaria mais ao meu lado. Eu não mais a veria, eu perdi sua risada, suas mãozinhas pequenas e sempre meladas, perdi meu anjinho. Perdi minha alegria de viver e comecei a beber. Bebia o dia inteiro.
Ele olhou para as mãos e para a medalha apoiada nelas. Kaya ao meu lado se remexia na cadeira, parecendo bastante desconfortável. Eu a entendia.
- Depois de um ano da morte dela, perdi meu emprego. Nem notava a minha mulher, não pensava que ela também tinha a mesma dor que eu tinha. Talvez fosse até maior do que a minha, acho que a relação entre uma mãe e seus filhos é bem mais intensa e complexa do que entre o pai e os filhos. Nós éramos estranhos vivendo na mesma casa e com hábitos condenáveis. Eu bebia para não enfrentar a minha realidade, e minha mulher se entupia de remédios tranquilizantes. Era bastante desagradável, não vou entrar em detalhes aqui. No aniversário de 2 anos da morte dela eu bebi tanto que não sei como cheguei em casa, ou como eu não entrei em coma alcoólico. Minha mulher e eu brigamos feio, não sei com que condições liguei o carro e saí. Naquela noite, ao invés dos tranquilizantes normais ela tomou um alucinógeno. Ela estava na rua gritando por nossa filha e um homem bêbado e dirigindo em alta velocidade a atropelou.
Escutei Kaya fungar do meu lado e segurei a sua mão.
- Poderia ter sido eu a pessoa que a atropelou, ou eu poderia ter atropelado qualquer outra pessoa naquele dia. Eu poderia ter sido a causa da morte de alguém, e não conseguia suportar isso. Ela morreu na hora, e eu notei que dessa vez eu realmente não tinha absolutamente nada. Eu acordei naquela situação e decidi procurar ajuda, foi difícil me abrir, porque sempre acreditei que ninguém poderia me ajudar, afinal, ninguém poderia saber como era a minha dor. Minha dor era só minha. Só falava com o doutor Faulkner, e se não me engano demorei quase um ano para começar a falar aqui no grupo, vinha às reuniões, mas não emitia um pio. Eles até brincavam que eu era o “Sr. Misterioso” por causa do meu sobrenome. Sheehy significa “misterioso” em gaélico. Mas o que eu quero dizer é que se abrir para alguém pode ser a melhor coisa a se fazer em momentos difíceis, pedir ajuda e se deixar ser ajudado é um presente imenso. E hoje eu olho essa medalha e vejo que apesar de toda a escuridão do meu passado, eu estou aqui, eu estou lutando. Eu respiro, eu rio, eu vivo. Busquei a minha vida de volta. Quero ser um exemplo pro bem e não pro mal. Quero ser um instrumento para a construção de um futuro, e não para a destruição.
As palavras de Robert Sheehy ecoaram dentro de mim. Senti meus olhos arderem e minha garganta queimar. Eu tinha que melhorar, e tinha que começar esclarecendo muitas coisas, mesmo que isso fizesse as pessoas que eu mais amo nesse mundo me odiarem mais um pouco. Robert se sentou e, num impulso, soltei a mão de Kaya e me levantei. Todas as pessoas olhavam para mim, mas não no sentido de “você é famosa” e sim “estamos aqui por você, te escutando”.
- Vocês sabem quem eu sou. – falei na esperança de escapar a vergonha de fazer toda a cena ridícula, mas Holly me olhou feio e Kaya soltou um irônico “Tony Stark” ao meu lado – Meu nome é e eu tenho 20 anos, quase 21. Eu sou usuária de drogas. Ainda. – olhei para como se pedisse desculpas – Eu não sei muito bem como tudo começou, não lembro exatamente os motivos, na verdade nem sei se tiveram motivos para eu começar a me autodestruir desse jeito. Talvez fosse todas as perdas que eu sofri antes, talvez fossem as más companhias, talvez fosse a minha vontade de ser alguém que eu não nunca fui, talvez fosse a minha mente facilmente influenciável. Não sei. E uma vez que eu comecei eu não consegui parar, a droga te muda, literalmente. Você precisa daquilo, é como se sua vida não fosse completa sem ela. E isso cria um vazio, eu gosto de falar nesse vazio porque é a melhor metáfora que eu tenho, é um vazio enorme dentro de mim, quando eu me drogo esse vazio vai embora. Eu não tenho noção do que ocorre ao meu lado, eu fico entorpecida, não sinto nada a não ser o prazer. E é um prazer imenso!
Encarei novamente. Ela não me entendia e esse era o momento que eu tinha para poder fazê-la entender tudo o que acontecia comigo.
- Esse prazer te preenche, cara, você vai ao paraíso e volta. É melhor do que qualquer orgasmo que eu já tive. E então acaba. Seus sentidos e sua noção voltam, e você é uma merda de novo. E o vazio fica maior ainda. Sua bolha estoura e o mundo não é mais o seu lugar isolado. Eu já experimentei maconha, o que é bastante leve para falar a verdade, cocaína, heroína e haxixe, mas sempre volto para a cocaína. E quando não encontro nenhum desses, eu simplesmente bebo, meu objetivo é escapar da vida. Usar droga para mim não é uma escolha, isso foi no início. Agora se tornou uma necessidade, e é difícil fazer as pessoas entenderem isso, elas não sentem essa urgência dentro de si. E convenhamos, é muito fácil julgar uma pessoa quando se está de fora. Meus pais sempre falam que “pimenta nos olhos dos outros é refresco” e estou começando a entender isso. O que eu mais queria nesse mundo é fazer as pessoas próximas a mim entenderem o que acontece dentro da cabeça de uma pessoa que usa drogas, mas por algum motivo bastante injusto eu sempre falho. Eu me tornei um problema para mim mesma e para os outros. Aos poucos fui afastando minha família e meus amigos, e me perdi um pouco nesse processo.
Minhas mãos suavam e eu as esfregava na calça para tentar controlar isso um pouco. Meu coração batia rápido dentro do meu peito, e eu não tinha coragem para encarar ou , eu sentia que tinha falhado com elas.
- Meu namorado me deixou há quase quatro meses atrás, e depois disso eu literalmente me tranquei no meu apartamento por quase duas semanas. Eu estoquei comida e água para esse período, eu queria ficar limpa de uma vez. Quando você encontra alguém que está limpo, a pessoa te diz que é uma tarefa difícil, mas você nunca imagina o quão difícil é. Seu corpo tem uma resposta absurdamente forte, a abstinência dói, e muito! Eu tinha delírios, suava, tinha febre, alucinações, meu corpo inteiro doía, fiquei depressiva, não conseguia dormir e quando conseguia tinha pesadelos. Sentia muito frio, e era início do verão, meu humor variava e meu apetite também, podia ir de um nível que tinha tanta fome que poderia sangrar um leão no dente para absoluta intolerância a qualquer coisa comestível. Eu emagreci muito. Mas no fim eu não consegui porque a dor era imensa, eu não conseguia suportar aquela dor e então voltei a usar droga. Nunca excedi aos níveis anteriores, mas usava o suficiente pro meu organismo saber que o vazio ia ser preenchido, que eu não tinha parado de vez, era um aviso pro meu sistema de “dor torturante de abstinência” não ser ligado. Eu menti para as minhas amigas falando que estava limpa quando eu não estava. Nunca estive além daquelas duas semanas que meu namorado foi embora, e não estou agora. Eu simplesmente engano minhas amigas, meu organismo e a mim mesma. Eu consegui afastar todas as pessoas que me são queridas da minha vida, eu não quero ser solitária, estou acostumada a ser sozinha, mas não solitária. É muito ruim. Eu quero melhorar, eu sei que tenho um problema e que eu preciso de ajuda. Eu reconheço isso, e reconheço que não é fácil, e para conseguir me curar eu preciso de apoio, eu preciso de pessoas que saibam que não é fácil para mim, porque não é. Eu preciso de alguém do meu lado que entenda que a dependência química é coisa séria, não é capricho, não é escolha, é necessidade, é dependência. Eu preciso de alguém que me motive a sair dessa e que não desista de mim, porque eu sei que no meio do caminho a minha consciência vai falhar e eu vou querer usar de novo. Eu sei que eu vou desistir de mim mesma, porque isso já aconteceu antes. Eu só preciso de alguém ao meu lado, porque eu estou completamente solitária, e isso é horrível.
Assim que acabei o meu desabafo senti a sala inteira me olhando. Eu realmente esperava que todos, mas principalmente , houvessem entendido o que se passava dentro de mim. Eu queria que estivesse ali para me escutar. Eu descarreguei tudo o que estava dentro de mim, ou quase tudo.
E ali estava eu, em uma sala com outras 19 pessoas, me sentindo mais sozinha do que nunca e acima de tudo, me sentindo completamente nua.

Continua...



Nota da autora (30/03/16): Oi, galera. ~a homenagem pro cabeça de teia aqui~ Espero de verdade que vocês tenham gostado do capítulo novo, e de como a fanfic está indo so far. Nem acredito que atualizei tão rápido assim! É um feito inédito na minha vida! (HÁ) Quero continuar enviando mais capítulos com mais frequência. Muito obrigada a todxs vocês, principalmente a Anny! Até a próxima!
Carols xx

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Nota da Beta: Eu fico uma beta muito babona porque Carol é a autora que mais me agradece e isso é tipo um Grammy pra uma Beta hahaha Você é muito linda, Carols, obrigada você por escrever essa estória maravilhosa. Eu to torcendo TANTO para que agora a pp consiga 💜 Veremos! Até a próxima att rapidíssima ;) xx-A




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