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Sabemos o que fomos, não o que nos tornamos.


Prefácio


Eu me sentia presa em um terrível pesadelo, daqueles que você sabe que está dormindo e não consegue acordar; onde você precisa correr mais do que seus próprios pés aguentam, até sentir seus pulmões explodirem e o coração estourar em batimentos acelerados. E depois, quando você acha que conseguiu escapar do que estava fugindo, a coisa te encontra, e você se sente vulnerável e fraca por não ter aguentado mais, embora seu corpo fosse incapaz de se mover mais rápido.
Eu particularmente tenho uma habilidade muito boa de conseguir me manter longe do perigo, mas ele corre em minhas veias e me persegue aonde quer que eu vá, me deixando sem ter para onde correr ou me esconder.
Quando você ama algo ou alguém que está te matando, não lhe restam opções senão escolher entre si próprio e ela. Como eu poderia correr ou me esconder se ele, no fim, me encontraria? E como ficar e lutar se nós dois acabaríamos sendo machucados? No final das contas, a pessoa que você mais ama acabará sendo a que mais te machuca. E não lhe restará escolha senão aceitar o sofrimento ou machucá-la de volta.


Capítulo 1


294 dias antes


Já fazia algumas horas que eu estava sentada em minha cama mal feita, massageando as têmporas pelas costumeiras dores de cabeça por conta das músicas altas que , minha colega de quarto e também melhor amiga, andava escutando ultimamente.
As pernas longas e magras dela não paravam de correr para um lado e depois para o outro, sempre mantendo as mãos ocupadas com algo.
Era mais um final de semana frio em Cambridge, uma histórica cidade inglesa onde a grande parte da civilização é composta por estudantes universitários. Não havia muitas estrelas no céu negro daquela noite, somente o embaçado das nuvens cinzentas e outra possível tempestade de neve à vista.
Eu me esforcei para levantar e caminhar até o espelho vitoriano que acabara de ser deixado para trás por . Embora o meu vestido fosse de mangas compridas e as janelas estivessem fechadas, o ar gélido não foi impedido de me abranger, fazendo com que eu precisasse vasculhar o meu armário em busca de uma jaqueta, ao menos para impedir que eu morresse congelada.
As madeixas de meu cabelo castanho, que antes presos em um coque, se desmanchou quando eu puxei o elástico que havia posto nele. Uma última olhada em meu reflexo já era o suficiente para eu saber que estava mais do que pronta.
— Já estou terminando, só falta… — analisou o cômodo com os olhos cautelosos de como quem acabara de perder algo.
— Está procurando isso? — Peguei o par de brincos dourados em cima da mesinha e a entreguei, vendo-a colocá-los. — Você está indo para assistir a corrida ou para ver alguém?
— Você vai até um fast food para observar o logotipo ou para comer aquela porcaria de comida?
— Isso não faz o menor sentindo, .
— É, eu sei… Tanto faz. Mas imagine a corrida sendo o logotipo e esse tal alguém sendo a comida. Viu? Bem mais explicativo. — Ela disse. Até quando queria ser sarcástica, ela conseguia ser doce. — E se você está pensando em arranjar alguma desculpa esfarrapada para não ir, é bom nem tentar.
— Eu não ia dizer nada, só que não vejo graça em um bando de garotos metidos a pilotos correndo em seus carrinhos turbinados comprados pelos pais enquanto um monte de mulher interesseira os idolatram.
Encarei meus pés pelo o que me pareceu uma eternidade e então marchei em direção à porta, que de madeira só possuía a cor. Eu querendo ou não, iria à aquele maldito lugar. Fosse para ver a corrida, ou para ver quem quer que fosse. E de qualquer maneira, eu não poderia deixá-la ir sozinha.
— Vamos, antes que a minha sanidade volte.
atravessou o quarto dando alguns saltos, mostrando seu entusiasmo aguçado. Seguimos sentido às escadas, parando somente no subsolo, onde o carro dela estava estacionado. Pela nevasca recente, as ruas ainda escorregadias e por ser milhões de vezes uma melhor motorista, era ela quem iria dirigir.
Não que eu não soubesse dirigir e tal. Mas minha coordenação motora já nunca foi lá essas coisas, na neve então, sem comentários.
O céu acima de nós estava escuro e sem qualquer fecho de luz senão o da lua minguante. Seriam longos minutos numa estrada vazia de asfalto até chegar à pista de corrida Alkerman, conhecida e frequentada pelos jovens e desocupados estudantes de Cambridge e das cidades vizinhas.
Ainda que não tivéssemos chegado, há aproximadamente quinhentos metros o barulho dos motores potentes e as pessoas gritando já eram audíveis. A noite parecia ainda mais sinistra ali, como se algo ruim viesse a acontecer em qualquer instante, todavia que aquilo não parecia preocupar ninguém.
O pavimento do chão era liso e aparentava ser recém-reformado, quase dando para sentir o cheiro de cimento.
As demasiadas garotas que estavam ali vestiam roupas justas como uma segunda pele, ou simplesmente não vestiam nada, já que falando politicamente correto, um fiapo de pano não é sinônimo de roupa. A maioria andava em pequenos grupos uniformizados de acordo para quem torcia. Os carros que iriam competir encontravam-se estacionados lado a lado, separados por míseros centímetros.
Os universitários e pessoas aleatórias estavam ocupadas demais em seus respectivos assuntos para notar quando nós finalmente decidimos sair do cooper azul. estava com um sorriso estampado nos lábios, como se estivesse conhecendo o mundo das maravilhas, embora não passasse de puro fingimento e somente eu soubesse daquilo, apenas por conhecê-la bem demais. E não demorou muito para que entendesse o porquê.
Eu bufei ao ver atravessando todo aquele espaço e indo ao nosso encontro.
Se havia alguém que eu odiasse tanto naquele momento quanto , esse alguém era .
— O que acham que estão fazendo aqui? — Ele perguntou no plural, mas seus olhos estão apenas na garota de cabelos cor de ouro. — Está pensando que isso aqui é um parque de diversões para garotinhas, ?
— Alguém já te disse hoje que você é um grande babaca? — remexeu os lábios para dizer algo, mas pareceu desistir no último momento. — Não se preocupe, eu não preciso mais de babá.
Ele bufou e riu desinteressado.
— Não estou preocupado, você faz o que você quiser, só não precisa arrastar a com você. — e me encaram por um breve momento. — Porque está meio evidente que ela não quer estar aqui.
Eu cogitei em ficar quieta e deixar que os dois se resolvessem ou se matassem, mas a última coisa que iria fazer seria deixa-lo falar daquela maneira com , como se tê-lo aguentado durante três anos já não lhe fosse o bastante.
— Escuta, você é um idiota, e… — Havia uma garota passando com alguns copos de um líquido transparente na mão, o mesmo que peguei e engoli sem hesitar. Eu não pensei que fosse água, mas torcia profundamente para que sim, até sentir o álcool rasgando minha garganta. — eu estou muito animada, então se você não se importa, prefiro não perder meu ânimo aqui ouvindo o que você tem para dizer, certo?
Eu consegui ouvir a risada de assim que me afastei dos dois, logo então sendo seguida por ela. ainda estava me observando, não parecia pasmo, mas de longe esperava tal reação. Com um balançar de ombros como quem diz que não quer nada, seguimos em direção aos primeiros assentos da arquibancada; a visão do campo era mais clara dali. Havia pouco barulho em comparação de onde estávamos, senão por um numeroso grupo de jovens que irradiavam êxtase.
Estavam todos aglomerados em uma espécie de círculo, onde um garoto de incontroláveis cabelos de um intenso tom de mel parecia o centro. Sua postura era firme e confiante, como de quem tem o mundo na palma das mãos. Tudo o que eu conseguia ouvir da distância em que me encontrava eram os gritos frenéticos das garotas que o tietavam e os amigos dele, que já gritavam vitória sem a corrida ao menos ter começado.
— Ora, ora. Veja só quem voltou às pistas. … — Um homem mais velho, ainda distante, caminhou até o garoto com a mão estendida, esperando por um cumprimento que não foi efetuado.
— O que você quer? — Os olhos dele eram dominados por desprezo e um pouco de impaciência. Sua voz fumegava desdém.
Eu conhecia aquele sobrenome de algum lugar. Não da fama que ele tinha e nem nada, parecia algo mais pessoal.
O sujeito colocou uma das mãos sobre o ombro do mais jovem, o conduzindo para longe do grupo em que se encontrava. Os dois conversaram por poucos minutos, antes do garoto lhe virar as costas com um sorriso debochado preso nos lábios rosados. Seus dentes são brancos e alinhados, as covinhas ao lado de sua boca estão totalmente expostas.
A direção de seus cristalinos olhos verdes se moveu para a arquibancada, para os amigos e depois para as arquibancadas novamente, como se algo tivesse roubado sua atenção. A forma astuta como ele me olhava me fez ter de engolir seco, fazendo com que eu me esforçasse para não me sentir intimidada.
De longe, consegui ver se aproximar do sujeito até então, só nomeado de “”. Ele deu um leve tapa em suas costas, sussurrando algo no seu ouvido logo em seguida. A expressão dele mudou repentinamente de curioso para enfadado. Seus olhos voltaram a correr para mim, que apenas fingi não percebê-lo mais, a fim de não querer passar por tamanho constrangimento novamente.
— Você acha que ele ficou afetado? — perguntou entre um riso baixo, me fazendo ter de virar para ela. — Digo, o .
Óbvio que ela está falando de , quem mais poderia ser?
— Por você estar aqui? Talvez. Eu acho que sim.
— Hum, ótimo. — Ela ergueu sua cabeça, abrindo um grandioso sorriso. — O show vai começar, pegue logo o seu celular.
— Por quê? — Perguntei, lhe entregando o aparelho. Ela estava ocupada demais colocando vários códigos em uma página em branco para me responder. Aparentemente, aquela gente presente naquele local estava fazendo aquilo. — O que está acontecendo?
— A corrida é transmitida por câmeras nesse site. me disse que é por aqui que o pessoal vê o que acontece depois que os pilotos somem pelas pistas.
— E ninguém pensou no fato de que isso é arriscado demais? Colocar imagens de uma corrida ilegal na internet é a mesma coisa que você mandar o seu currículo de assassino para uma delegacia.
, é claro que eles pensam em tudo. É tudo ao vivo, nada fica salvo. E nem todo mundo tem acesso, o código muda de acordo com a corrida. Eles nunca usam a mesma senha duas vezes.
Eu realmente estava curiosa para saber como a conseguiu, mas eu sabia que não seria uma boa história, então preferi manter a dúvida no ar.
Em alguns instantes, toda a arquibancada estava ocupada, embora algumas pessoas ainda estivessem em um canto da pista, junto a alguns automóveis turbinados que não iriam competir; era quase como um camarote improvisado.
Dentre os cinco veículos que estavam a espera de seus comandantes, se pôs para dentro de um Lotus Evora, de uma luminosa cor prateada. Ele era o que estava mais próximo da primeira fileira, tão perto que estava fácil de enxergar as ligeiras pintinhas em seu rosto.
— É com isso que você vai competir, ? — O garoto de dentro do Maserati riu. — Você vai engolir poeira.
— Acho bom você não cantar vitória antes da hora, dizem que dá azar.
Ele ainda ri. Seu tom é sarcástico e seguro.
— E por acaso não era isso o que você estava fazendo?
— Mas ao contrário de você, eu não estou acostumado a perder.
— É muito mais fácil ganhar trapaceando.
— Guarde suas acusações para mais tarde, .
” parecia estar pronto para respondê-lo, mas foi brutalmente interrompido pelo ronco dos motores ao seu lado. O GPS personalizado que havia dentro de cada carro acionou um modelo de rota, embora que do meu lugar, eu apenas conseguia ver linhas amarelas e vermelhas.
Uma mulher — entre seus vinte ou vinte e cinco anos — subiu no palanque vestindo nada mais do que um macacão curto de zíper frontal e botas que iam até a metade de suas coxas torneadas.
O sorriso de para a garota não passou despercebido. Era perceptivo que os dois passavam de apenas meros conhecidos.
— Silêncio! — Ela gritou, fazendo todos olharem, em especial, os homens. — Aqui é a Inglaterra, meu bem. Não deem bobeira e tomem cuidado. Atenção… — A garota disse, levantando seu braço para o lado direto. Seus lábios predominados por um batom vinho se moveram em um sorriso.
— Sabe por que eu vou vencer essa corrida, ? — disse, as mãos se prendendo ao volante com firmeza. Eu me esquivei para frente a fim de ouvir melhor o que ele tinha a declarar. — Porque além de eu ser o melhor, eu não coloco meus problemas no jogo. É isso o que está te consumindo. Para você, parou de ser apenas esportivo e passou a ser pessoal.
Os pneus aqueceram sob o asfalto, provocando uma enorme nuvem de fumaça.
— Preparar… — O braço esquerdo da garota foi erguido. O canto dos motores era o único barulho efetuado. não o respondeu, embora não parecesse esperar por tal ato. Ele fechou as janelas lentamente, assim como todos os seus outros adversários. Rapidamente, colocou o cinto de segurança antes que a largada fosse concedida.
Um silêncio moribundo ponderou o lugar pelo o que pareceu milênios.
— Já!
O cabelo cor de cobre da garota voou para trás quando os carros aceleraram, desaparecendo na curva em uma curtíssima fração de segundos. De repente, não restava mais nada senão a poeira voando aos ares e um numeroso grupo de pessoas sentadas em seus lugares, observando atentamente seus telefones, a espera de quem fosse o primeiro a ultrapassar a linha de chegada e também de partida.
Pela imagem transmitida através do celular, conseguimos ter uma visão completamente ampla das pistas na qual eles passavam. Era uma estrada domada por pedras e areia, o que certamente dificultava a passagem de quer quem que fosse por ali. Havia um Nissan GR-T ao lado de , quase tão rápido quanto ele. O nitro aumentava a potência das máquinas, embora ele, e o cara do Nissan estivessem empatados em questão a velocidade. A pista de terra ficou mais estreita, o que provocou a quase queda de , já que não haviam barreiras de proteção naquela parte. O Nissan colidia freneticamente com o Lotus de , fazendo com que ele se desequilibrasse por alguns instantes.
Os outros dois automóveis haviam ficado numa distância grande demais para que pudesse ser avistados. A disputa estava apenas entre os três, agora, mais perto da vitória.
Apesar de veloz, o Nissan não era nem um pouco resistente. Foi preciso nada mais do que uma batida com a BMW de para que o carro deslizasse morro a baixo, deixando apenas ele e na reta final.
As golpeadas propositais que os dois veículos davam um ao outro resultaram em ambos carros amassados, o que traria grande prejuízo às suas equipes, mas não era o preço que importava no momento. Quando saíram da estreita estrada de areia e pedra para entrarem novamente nos limites de Cambridge, fechou a rota de , ocasionando-o uma freada brusca. O tráfego intenso de uma das avenidas principais da cidade e as buzinas parecem fazer com que ele tenha de se concentrar para não perder os sentidos.
Pelo impacto de sua cabeça contra o volante, ele provavelmente havia machucado alguma parte do rosto. Àquela altura, já estava perto o bastante para se dizer vencedor, entretanto, em seu momento de oportunidade, cortou o cruzamento de dois caminhões, resvalando como água pela avenida. Não foi preciso muito mais do que poucos segundos até que os dois ficassem lado a lado novamente.
E aquele seria um empate triunfal, se não se mostrasse um péssimo perdedor ao bater sua dianteira na BMW do garoto, o promovendo uma forte pancada que lhe fez ficar para trás. E, então, o Lotus Exore atravessou a marcação de tinta branca, formando um círculo escuro ao redor do carro pelas borrachas quentes do pneu.
O público vai a loucura — literalmente.
— Vem, vamos descer. — murmurou, me puxando para fora da arquibancada antes que eu tivesse tempo de respondê-la. Sair do alto de onde estávamos e ir para a terra firme me provocou certa tontura, mas nada que não passasse de imediato. Mentalmente, me crucifiquei por não ter comido no almoço e no jantar.
Caminhamos em destino ao cooper, a fim de irmos embora. E de fato teríamos ido, caso uma voz notoriamente masculina não clamasse por nossos nomes.
— Para onde estão indo? — está andando atrás de nós. Está particularmente nervoso e aquilo é evidente.
— Aonde você acha?
— Nós precisamos conversar, — Ele olhou em volta de forma cauteloso, como se ninguém pudesse vê-los. — mas não aqui. Haverá uma festa de comemoração na Memphis, se você aparecer, podemos conversar. Se não, que fique por isso mesmo.
Ele deu de costas antes que pensasse em algo para dizer. sabia que seu tom havia soado como um desafio e que ela não duvidaria em aceitá-lo.

Memphis é uma fraternidade no sul da cidade, bem mais afastada do que pretendíamos ir. Mas lá estava eu, deixando relutantemente o conforto do pequeno carro de para trás, em frente à enorme casa de tijolos cinzas com milhares de janelas. O cheiro de cigarro que percorria por todo o local invadiu minhas narinas assim que eu e nos aproximamos mais do portão de entrada. A música estava alta, ainda que abafada pelo barulho e as gargalhadas. A julgar pelo estado que a maioria das pessoas se encontrava, e o tumulto, eles haviam começado aquela festa muito antes da corrida.
Não foi preciso de muito esforço para que fosse avistado parado ao lado da porta, como se esperasse por alguém. Assim que ele nos viu, um meio sorriso em seus lábios foi formado. Ele nos puxou para dentro, mas subiu as escadas segurando a mão de , que apenas consentiu em segui-lo.
Eu caminhei até o bar, onde puxei uma banqueta para me sentar. Ele estava relativamente vazio em comparação ao resto daquele local. As pessoas não pareciam preocupadas em beber, somente em conversar e curtir. Aquele não era de fato o tipo de lugar que eu frequentava. Não que festa fosse uma coisa proibida no meu dicionário, bem pelo contrário, porém não me era conveniente naquela época do ano, quando os exames de final de trimestre estão chegando e a única coisa que eu deveria estar preocupada em fazer é estudar.
Não que eu também fosse uma pessoa estudiosa, e é por isso mesmo que eu precisava me esforçava tanto para ir bem às provas.
Do outro lado daquela enorme sala, avistei o renomado com seus respectivos amigos e algumas mulheres ao seu redor. Ele parecia entediado com seja lá qual conversa estavam tendo, e um tanto quanto pensativo também. Ao ver pelo lado bom: ao menos ele pensa.
E então seu olhar foi erguido em minha direção como um imã, totalmente fixo em mim. Eu tentei de forma imediata disfarçar, embora soubesse que seria em vão. Ele ainda estava me olhando quando eu voltei minha atenção a ele. Sorri, não exatamente como uma saudação, era apenas um péssimo costume que eu tinha quando ficava constrangida com algo.
Ele também estava sorrindo. Um sorriso que propõem diversão e perigo.
Meu estômago grunhiu pela sensação do vazio pela milionésima vez naquela mesma noite, fazendo com que eu desfocasse do garoto por alguns segundos. Quando voltei meu olhar para o canto da sala, ele já não estava mais lá.
— Ei, gracinha. — Eu ouvi, virando-me em para trás. O garoto que prestava serviço de barman deslizou um copo até mim, fazendo o líquido azulado que havia dentro dele respingar na madeira do balcão. — Ninguém fica sem bebida aqui. É quase uma regra.
Eu assenti com a cabeça em demonstração de agradecimento.
Enquanto a degustava, comecei a imaginar que talvez não fosse bom ingerir álcool de estômago vazio, mas àquela altura, já era tarde demais. De repente, me enturmar com as pessoas ao meu lado já não era mais uma má ideia, e quando a consciência caiu em mim por uma breve fração de instante, eu me vi conversando animadamente com um grupo que estava de pé em minha frente.
As luzes se tornavam mais intensa na medida em que eu bebericava o meu quinto coquetel a base de tequila. Eu recitava a música que estava tocando de forma embaralhada; sabia disso porque Damen, o garoto que cuidava do bar, ria sem parar enquanto as palavras saiam de minha boca.
Foi então que eu ouvi claramente quando a banqueta ao meu lado rastejou o piso, meu corpo repleto de curiosidade me traindo, movendo-se em direção a quem acabara de sentar-se próximo a mim.
— Parece que você tem um péssimo gosto para bebidas. — Ele disse, sua voz soando lenta e calma como se estivesse desejando “bom dia” a alguém. Meus olhos olhavam diretamente para os dele. Era uma provável consequência da minha embriaguez precoce: a falta de timidez. Se eu estivesse em meu estado normal, não sei nem se estaria respirando. Não que aquilo fosse fácil, mesmo com a bebida e tudo mais. Ainda assim, a presença dele era intimidadora, porém, menos desconfortante. Seu perfume vinha constante de encontro às minhas narinas, principalmente quando ele se debruçou em minha direção, cortando os poucos centímetros que nos separava.
— …E para músicas também. — Ele continuou dizendo.
— Você está brincando, né? Porque isso é The Strokes. — Eu tentei argumentar, extraindo um sorriso dele que durou nada mais do que três segundos.
— Talvez eu esteja. — Eu insisti em me perguntar mentalmente porque ele ainda estava me olhando daquele jeito avaliativo. — Sou , e você, quem é? Os músculos da minha barriga se apertaram repentinamente. Eu me contraí na cadeira.
.
? É tudo? — Ele ergueu uma das sobrancelhas e franziu a testa. Sua expressão continuava indiferente, o que estava passando a ser o motivo da minha irritação. — Diferente.
— Diferente é ruim?
— Diferente é bom.
— Cara, — Um garoto de cabelos cor de cobre coloca suas mãos no ombro de . Ele está acompanhando por uma garota alta que mais parece ter saído de alguma capa de revista, loira e aparentemente bêbada demais para andar em uma linha reta. — Estamos voltando para Stamford, você vem?
— Não, estou ocupado. Podem ir vocês.
O sujeito me olha, parece um pouco surpreso e parcialmente perdido. E então ele nos dá as costas, sumindo no meio das demasiadas pessoas.
— É uma viagem longa até Stamford. — Eu digo, saindo do meu estado de hipnose. — Você é de lá?
— Mais ou menos. — Ele murmurou, parecendo divertido.
— Então você mais ou menos não deveria demorar aqui. A menos que queira enfrentar a escuridão que é aquela estrada de madrugada.
— Você está duvidando da minha capacidade de dirigir? — Ele deu um pequeno gole do restante da minha bebida, fazendo uma careta ao engoli-la. — Como você conseguiu tomar tantos copos dessa droga?
— Então quer dizer que você estava me espionando? — Eu ergui uma sobrancelha, rindo para mim mesma.
Ele me olhou, mas não parecia pretender me responder, embora eu estivesse ansiando por alguma resposta.
Um sentimento de mau estar percorreu meus ossos, me levando rapidamente a um estado de semiconsciência. Eu ouvi quando perguntou se eu estava passando bem, mas sua voz soou impotente de mim; eu não conseguia mover os lábios para lhe responder.
Minhas pernas se movimentaram involuntariamente para fora daquela região, tomando um rumo que eu nem ao menos sabia aonde me levaria. Quando senti o ar gélido da noite colidindo contra a minha temperatura aquecida, encolhi meu corpo, precisando ter de me apoiar em um telefone público na medida em que minha respiração se descontrolava.
Eu sabia que estava me seguindo porque ouvi os passos dele atrás de mim, como se minha audição estivesse anormalmente boa. Não queria que ele estivesse lá para caso eu vomitasse ou algo parecido, mas pelo jeito que seus olhos me examinavam, não parecia querer ir embora tão fácil quanto eu contava.
Era um profundo silêncio que mais parecia ser movido por preocupação.
Quando enfim senti perda da inconsciência ofuscar minha visão, minhas pernas cambalearam pela falta do equilíbrio. Sabia que iria desmaiar e particularmente, me preparei para sentir o impacto do asfalto contra meus ossos, mas a dor não veio. Ao invés disso, uma mão grande e quente tocou a minha nuca, enquanto a outra me segurava pelas costas, não permitindo que eu caísse.
O choque de sua pele em contato com a minha foi como um raio de eletricidade que percorreu minhas artérias. Obriguei minhas pálpebras a se levantaram para depois fechá-las novamente, mas não antes que eu pudesse enxergar o rosto de .
A última coisa que vi antes de tudo se afundar em escuridão foi o verde cristalino dos olhos dele e sua voz rouca sussurrando:
— Que merda!


Capítulo 2


293 dias antes


A dor era entorpecente.
Eu senti como se meus cílios houvessem sido costurados uns aos outros. Gemi pela torturante ardência quando eles se levantaram, fazendo com que eu piscasse pela primeira vez em horas.
Tudo estava em um afundado silêncio, as luzes quase todas apagadas. Meu olhar foi de imediato ao encontro de uma mesinha do lado da cama que, até então, era onde eu dormia confortavelmente. Havia um meio copo de água sobre o móvel e, apenas de olhá-lo, percebi minha garganta secando. Me reboquei em uma posição sentada, sentindo cada parte da minha cabeça latejar.
Eu estava com o líquido em mãos, preparada para bebê-lo, mas fui drasticamente assustada pelo baixo som de algo se movendo, algo que me lembrava vagamente páginas de papel pólen.
soergueu seu olhar, passou a língua graciosamente em seus lábios rosados e fechou o livro, deixando-o de lado. Ele estava sentado em uma espaçosa poltrona reclinável, distante o suficiente para que eu pudesse cogitar a ideia de que aquilo não era apenas fruto de sua imaginação.
— Bom… Agora pelo menos eu sei que você não está morta. — Ele diz, acompanhado de um leve sarcasmo. — Como se sente?
Meu coração hesitou em um batimento, tornando a respiração difícil de ser acompanhada. Minha voz parecia não querer sair, embora ainda esperasse por uma resposta.
— Acho que bem. — Murmurei. Seus olhos verdes acinzentados estavam fixos em mim. — Como eu vim parar aqui?
Ele levantou e caminhou em direção à ponta da cama, onde se sentou.
— Você desmaiou e eu não achei a sua amiga ou alguém que pudesse lhe ajudar. Ou você é nova na cidade, ou nunca frequentou uma de nossas festas. — O timbre dele era cauteloso e aparentava preocupação, mas, ao mesmo tempo, não parecia significar nada. — Ninguém te conhecia.
Por um milésimo de instante, eu me esqueci completamente da dor que eu sentia crescer pelo meu corpo para dar espaço ao constrangimento. Como se desmaiar nos braços dele já não fosse o bastante, eu ainda havia vindo parar em sua cama.
— Esse é o seu quarto? — Questionei enquanto olhava em volta. Havia muitos livros espalhados, pôsteres e mais pôsteres de filmes e bandas antigas. Atrás da cama, diversas prateleiras com milhares de CDs e discos. As paredes são escuras, uma cor que me lembrava do céu durante a noite. O chão estava coberto por um tapete de veludo cinza que refletia a sombra do nascer-do-sol por conta da enorme janela ao lado de uma porta que eu julgava ser seu armário. Aquele parecia ser o típico quarto de um adolescente de dezesseis anos.
— Era. — Ele deu uma curta risada como se estivesse relembrando algo. — Eu não faço mais parte desse campus, mas a fraternidade me deixa vir aqui de vez em quando.
— Você ficou aqui a noite toda?
— Sim. — Respondeu impassível. — Só Deus sabe o que um cara bêbado faria com você caso a encontrasse desmaiada na minha cama, e eu não podia ir embora e te deixar trancada aqui.
— Mas você era o anfitrião, deveria ter ficado na festa.
— Anotado. Faço isso da próxima vez. — Ele a responde secamente. Seu humor parecia frágil como vidro, ora inteiro, ora quebrado.
— Não vai haver uma próxima vez. — Ele me olhou curioso. — Essa não é minha… Praia.
— Não é difícil de adivinhar. Bem, de qualquer forma, prefiro ficar aqui lendo uma boa história, do que uma festa infestada de pessoas vazias.
Eu o fitei com uma expressão carrancuda, demorando a digerir o que ele acabara de dizer. Aqueles eram os amigos dele, com qual finalidade os chamaria de vazios? Ele não é muito diferente dos outros. É como diz o ditado: diga com quem tu andas e eu direi quem tu és.
Mas antes que possa pensar em falar algo, observei se levantando, iniciando um conjunto de passos até seu armário. Ele tirou a camiseta que usava enquanto ainda me olhava. Ele jogou a peça em cima da poltrona e virou para escolher outra, deixando suas costas visíveis. De repente, não sinto mais vontade de nada, senão de olhar para ele.
Sei que há tatuagens em seu braço esquerdo porque consigo ver o rastro da tinta, mas não se vira o suficiente para que eu possa identifica-las. Ele vestiu uma blusa de lã marrom e uma jaqueta preta por cima; havia um suéter bege em suas mãos quando ele voltou para a ponta da cama.
— Veste isso, — ele me jogou a peça, mas sem me olhar. — está amanhecendo e está fazendo frio lá fora.
— Aonde vamos? — Perguntei enquanto enfiava as mãos para dentro das mangas que ficaram absurdamente largas em mim. O suéter me caía até metade das coxas, fazendo com que eu desse, pela primeira vez, razão a por dizer que sou muito pequena.
— Preciso voltar para Stamford, mas vou te deixar no seu alojamento primeiro. — Eu me levantei, colocando as botas que ele provavelmente havia tirado na noite anterior e, ainda que sem jeito, o encarei, notando que ele já estava me encarando antes. — Nada mal.
Ele apontou para a roupa.
É claro que estava falando dela, o que mais poderia ser?
Harry abriu a porta do quarto quando eu terminei de colocar os meus sapatos; cumprimentou alguém no corredor e fez um gesto com a cabeça para que eu fosse ao encontro dele. Nós descemos os longos lances de escada que havia logo em frente. Mentalmente, eu apenas conseguia me perguntar como ele havia subido tantos degraus comigo em seus braços. As poucas pessoas que estavam no andar de baixo nos olharam, mas sequer ousaram sussurrar algo umas com as outras enquanto ele ainda estivesse ali.
Do lado de fora da casa, o Alfa Romeo Spinder de estava estacionado sobre a grama recém aparada, onde haviam inúmeras placas indicando que ali era um local proibido, embora aquilo parecesse agradá-lo ainda mais. Ele destravou as portas e eu me ajeitei no banco do passageiro, e ele, no de motorista. Quando deixamos os limites daquela fraternidade para trás, o silêncio ainda estava ponderado e totalmente constrangedor dentro do veículo, ao menos da minha parte, que torcia intensamente para que não notasse minha respiração descompassada.
Ele dirigia atento à estrada de asfalto e arbustos altos que havia para chegar até meu prédio residencial da universidade, as mãos firmes segurando o volante. Eu continuava me fingindo interessada pela música que tocava. Não que Iron & Wine não fosse interessante, principalmente quando estava tocando “Flightless Bird, American Mouth”, mas tudo aquilo era superficial no momento. Eu estava distraída demais para cantar uma das minhas músicas preferidas. Ocupada, fazendo da ausência de barulho uma ferramenta que me ajudasse a vasculhar os meus pensamentos em relação à noite passada, senti-me tola e envergonhada pelo o que aconteceu. Eu nunca mais ia deixar de comer antes de ingerir alguma coisa alcoólica.
Por sorte, não estudava perto e a partir de então, eu iria me manter longe dessas corridas, então a chance de nos vermos novamente era equivalente às chances de Londres passar um ano sem chuva: ou seja, completamente nula.
Um arrepio recorrente percorreu minha espinha quando ele me olhou. Eu sabia que seus olhos estavam me avaliando porque quase conseguia senti-los queimar minha pele.
— No que você está pensando?
— Nada importante.
— Então você não deveria se importar de eu saber. — Sua voz soou calma. Sua mandíbula havia se contraído, mas ele sorria forçadamente.
Eu mexi a cabeça, sem saber se conseguiria respondê-lo. Pigarreei um pouco, tentando me concentrar em não gaguejar ou parecer nervosa com a presença dele.
— Estou somente pensando nos exames do trimestre. — Sussurrei encarando a paisagem colorida que era deixada para trás à medida que o automóvel se distanciava.
— O que você estuda?
— Jornalismo. — Meu olhar foi erguido para ele, que possuía a sombra de um sorriso no rosto.
diminuiu a velocidade do carro, mas sem sair da casa dos 100 km/h.
— Jornalismo, hum? — Ele disse — Não era você quem deveria estar me fazendo perguntas então?
— Eu sei que você não vai respondê-las… — Ele balançou a cabeça com condescendência enquanto eu dizia; seus dentes todos alinhados em um arco perfeitamente emoldurado e o som baixo de sua risada querendo passar despercebida. Era a primeira vez que eu o via sorrir daquela maneira, como se ele realmente quisesse fazer aquilo. — Você nasceu em Stamford?
— Talvez. Depende de como você interpreta.
— Talvez… Isso nem sequer é considerado uma resposta.
— Só se for para você. — franziu a testa. — Mas… Bom… — Ele hesitou. — Eu sou de Londres.
É, claro que é. Só faltava ele ter um adesivo de autenticação londrina colado no rosto. Ele riu, nitidamente achando graça naquela discussão.
— E o que você estuda? — Eu perguntei quando pude, percebendo depois de um profundo silêncio da parte dele que nenhuma informação a mais sobre sua vida me seria concedida. Aquilo deixou minha mente transtornada. Eu não conseguia suportar a ideia de não saber nada a mais sobre ele.
Pensei em perguntar se ele tinha alguma desordem de múltipla personalidade, mas aquilo não ajudaria em nada. Me reconstituí no banco, cruzando os braços como uma garotinha birrenta. Ele acariciou seu queixo com uma das mãos enquanto a outra continuava sobre o volante. Estava pensativo, ou ao menos fingia estar.
— Por que você… — Eu comecei a dizer, recebendo um olhar perspicaz dele. — não estuda mais em Cambridge?
Ele suspirou. Alguns segundos correram sem que nenhum de nós dissesse algo antes que ele voltasse a me olhar. Parecia estar querendo ser cauteloso com as palavras que iria usar.
— Acho que você já sabe mais do que deveria.
Meu estômago formigou de nervoso. Cogitei a ideia de lhe dizer algo, entretanto o clima entre nós já não era dos melhores, e novamente o silêncio confirmou aquilo.
Suas covinhas estavam expostas em um breve sorriso de escanteio, mas que tão logo se desfez. Depois daquilo, não me restava dúvidas que ele estava se divertindo com a situação.
As mãos dele giram no volante quando, enfim, chegamos em frente ao campus. Não havia muita gente nas ruas, todavia, não eram nem 7h30min da manhã. No céu, tons claros de azul, laranja e um lilás não muito definido estavam pregados ao lado de um sol ofuscado pelas demasiadas nuvens cinzas, carregadas de chuva. Não seria nenhuma surpresa se aquele fosse mais um dia chuvoso numa cidade chuvosa.
O carro foi estacionado perto da entrada principal, onde, ao passar dos quase setenta degraus da escadaria, eu já estaria dentro do prédio dos dormitórios. Era um edifício vitoriano alto e cinzento, com algumas sacadas e muitas janelas. No final do quarteirão, eram onde ficavam todas as enormes casas de fraternidade, das quais nunca me interessei. Não era nada parecido como retratado nos filmes American Pie, Pelas Garotas e Pela Glória, A Casa das Coelhinhas ou similar — senão as festas.
Mas para entrar em uma delas, ou você precisaria ter parentesco com antigos integrantes, ou estar disposta a fazer tudo o que eles ordenarem e, se você for uma pessoa de sorte, depois de muitos meses de escravidão, eles te aceitam. Felizmente, eu não possuía nenhum dos dois requisitos.
— A salvo. — anunciou.
— É, depende da forma como você interpreta. — Eu sussurrei mais para mim mesma do que para ele, mas que provavelmente havia ouvido. Ele esfregou sua testa com o dedo indicador e o polegar enquanto contemplava a minha resposta. — Obrigada.
— Não por isso.
Nossos olhares se encontram pelo o que pareceu uma década de segundos. Eu tentei não parecer muito intimidada, embora ele já devesse estar acostumado com aquilo. Eu ouvi o som das portas sendo destravadas e me virei para abri-la, sentindo o ar gélido de a manhã ruborizar minhas têmporas. Eu não queria fechar a porta, pois sabia que depois daquilo, não haveria mais nada. Eu não deveria me sentir daquela forma, atraída de algum modo por . Mas era inevitável; algo muito mais forte do que o pressentimento de que aquilo não acabaria bem.
Eu me apressei em sair e caminhar para longe daquele carro, mas o chamado dele fez com que eu me virasse para trás.
— Ei, — Sua voz soa como a brisa de fim de tarde: lenta e levemente suave. — tente não morrer.
— Vou fazer o possível. — Argumentei, e então ele fechou os vidros e eu ouvi o motor sendo ligado, o carro se afastando rapidamente da minha visão, até que eu não pudesse mais vê-lo.
Eu usei um pouco mais de tempo do que o normal para subir as escadas, tentando ignorar as estranhas borboletas que perambulavam o meu estômago. Quando cheguei ao meu corredor, fiquei surpresa de ouvir a voz de ainda do lado de fora do quarto. Ela jamais acordaria àquela hora da manhã por espontânea vontade. Na maioria das vezes, era eu quem precisava atirá-la para fora da cama. Girei a maçaneta devagar, a fim de não assusta-la, mas ela estava virada diretamente para mim quando fechei a porta com as costas. Seu aspecto fisionômico era predominado por cansaço e preocupação, aparentando ter passado a noite em claro. Eu não duvido que ela realmente não tenha dormindo.
Apesar da expressão pavorosa, seu rosto se iluminou de alívio. Ela suspirou lentamente, tirando o telefone do ouvido e o jogando em cima do sofá. Eu estava literalmente sem entender coisa alguma. — Graças a Deus você está bem. — Ela me abraçou apertado. — Aonde é que você esteve? Eu estava tão preocupada, .
Eu não queria dizer que dormi com . Ou melhor, no quarto dele. Aquilo soaria estranho demais e até um pouco difícil de acreditar, mas antes que eu possa dizer algo, seus lábios se movem em demonstração de espanto. — Talvez você soubesse se não tivesse sumido e me deixado sozinha.
Os olhos dela foram alagados por lágrimas de culpa.
— Eu. Sinto. Muito. — Disse, conseguindo incrivelmente dizer todas as letras das três palavras. — Eu juro que nunca mais vou te levar a lugar nenhum forçadamente. Isso nunca vai acontecer novamente, nunca…
Ela estava olhando para o suéter que eu vestia.
— Por que diabos você está usando o suéter de ?
Merda. Merda. Mil vezes merda.
— É uma longa história. — Expliquei despreparada. Eu não esperava que ela fosse notar. — Como você sabe que é dele?
— Não sei, será que é por que está quase sempre com ele? — Eu abri minha boca para me defender, mas fui interrompida pela voz histérica dela. — Eu não acredito que você passou a noite com . Você sabe o que isso quer dizer? Não… Calma! Eu esperava mais de você. Olha, se você está passando por uma fase rebelde, é só me dizer, okay? Não precisa sair com um dos piores caras da Inglaterra inteira. — Para de falar o nome dessa forma, como se ele fosse um Deus ou algo assim. E eu não dormi com ele, não desse jeito que você está pensando. — Disse enquanto tirava a blusa dele. — E mesmo se eu tivesse, o que isso significaria?
— Que até você se rendeu a ele. Fala sério…
— Ele não é tão ruim quanto você faz parecer. Na verdade, eu acho que você deveria pensar melhor antes de julgá-lo, até porque, você namorou um dos melhores amigos dele. me olhou incrédula, como se eu houvesse dito a um religioso ortodoxo que Deus não existe.
— Eu não acredito que estou ouvindo isso de você. O que aconteceu com “não vejo graça nesses garotos” e tudo mais?
, não estou dizendo que gosto do . Mas ele me ajudou, o mínimo que eu posso ter é um pouco de gratidão. Isso não muda nada sobre o que eu penso dele ou de quem esteja envolvido nessas corridas ridículas.
— Você me conhece melhor do que ninguém, sabe que eu jamais gostaria de alguém como… Ele.
Sentei-me ao lado dela no sofá, notando sua fisionomia amenizar. Eu esperava encarecidamente que ela acreditasse tanto naquelas minhas últimas palavras quanto eu estava me forçando a acreditar.
— É só que… Eu fiquei preocupada com você e me senti culpada por ter te levado lá. Você ficou sem dar notícias e eu já estava quase ligando para a polícia. — realmente teria ligado se eu não houvesse chegado naquele momento. Não precisa a conhecer muito para saber que ela é uma das pessoas mais dramáticas que essa população já viu.
Ela pareceu menos preocupada depois de eu ter lhe contado a história completa, porém, ainda assim, um pouco desconfiada. Enquanto eu explicava o que havia acontecido, notei o quanto tudo o que eu a dizia tangia estranho quando falado em voz alta. Aquilo não tinha me passado tanta suspeita antes como agora. Não que eu achasse que havia feito algo comigo enquanto eu estava inconsciente, apenas não parecia normal, principalmente vindo de alguém que possuía a fama dele.
Mas o fato era que, o que aconteceu naquela noite, morreu naquela noite. Ele nunca mais me veria e se caso visse, não se lembraria. Era irrelevante pensar em alguém que naquele momento não deveria nem mais lembrar meu nome.
Com um balançar de cabeça, eu me coloquei de pé, de frente para o meu armário. Apesar do sono que insistia em me abranger, eu recolhi uma roupa limpa e me rastejei em direção ao banheiro ao som da risada de , até que ela parou para atender a uma ligação, provavelmente dos seus pais que estavam do outro lado do planeta explorando a África do Sul. Eu me encolhi para dentro do chuveiro, deixando que a água quente escorresse pelas curvas do meu corpo enquanto eu tentava me convencer de que não havia terapia ou sensação melhor do que aquela.


Capítulo 3


262 dias antes

.

Eu me acomodei em cima do capô do meu carro, deixando que as gotas da recente chuva fossem enxugadas pela minha roupa. O céu acima de mim estava limpo agora, iluminado por uma fina linha da lua. Eu particularmente não gostava da ideia de precisar correr com as pistas molhadas, mas a aquela altura, eu já não havia muitas opções, principalmente nessa parte do Reino Unido, onde, eu queira ou não, não sou eu quem dito as regras.
Edimburgo não é só a capital da Escócia, como também é o passaporte para pilotos amadores que pensam em se tornar algo mais do que peões. Gosto de nos nomear assim. Enquanto eu não chegar à altura de pilotar em alguma corrida na Alemanha, sempre serei um peão, independente da fama ou do dinheiro que eu ganhe. Alemanha é o troféu. Escócia é a medalha. E Inglaterra… Bem, é quase lá.
Mas não era aquela questão que martelava a minha cabeça no momento.
— Eu estou te dizendo cara, olha só para ele. — Eu ouvi a voz de atrás de mim. Sabia que ele estava conversando com alguém, mas antes de ter de me virar, os dois se posicionaram em minha frente. — Ele parece um zumbi.
— O que deu em você, ? — O garoto negro me perguntou. Eu sempre me esquecia de seu nome. Algo a ver com M… Miles, Marcus, Max…
— Só estou tentando me concentrar. — Argumentei um tanto irritado pela importunação. Não era uma completa mentira. Eu estava mesmo tentando me concentrar. — O mês inteiro? — riu sem vontade.
Eu me reboquei de pé.
— Vamos ver se você vai achar graça depois que eu sumir com esses teus dentes.
— Acho que esse seu “bom humor” tem nome. — Eu pisquei e então seus olhos estavam fixos em mim. Acho que ele esperava alguma resposta negativa de imediato, mas ao invés disso, eu apenas fiquei o encarando de volta, esperando que ele não citasse o nome dela. — Que merda, .
Não há qualquer vestígio de brincadeira em sua voz. Ele parece até um pouco zangado.
Antes que aquela conversa tomasse outro rumo, Susan — a garota que dá a partida nessa região — veio nos avisar que a competição iria começar. Agradeci mentalmente a quem comanda os horários aqui na Escócia, pois se estivéssemos na Inglaterra, ainda teríamos mais quinze infelizes minutos antes da corrida ser iniciada.
Eu caminhei em direção ao Aston Martin prateado e me ajeitei no banco. Ao meu redor, o restante dos competidores ainda não havia entrado em seus determinados carros. Eu gostava de ser o primeiro a entrar, pois era sempre mais fácil de avaliar os meus oponentes. Por exemplo: sei que Jules McGouth vai ser um dos últimos apenas pelo modo que ele anda: exageradamente confiante. Confiança demais nunca é bom. Ele provavelmente ficará frustrado em ver que está perdendo e tentará acelerar mais do que seu luminoso Mustang vermelho aguenta e acabará capotando em algum momento do circuito.
Também sei que Mike Capollie é um perigoso adversário porque, nesse exato momento, enquanto os outros se engrandecem para os patrocinadores e cantam vitória antes da hora, ele está fazendo a mesma coisa que eu: observando — conhecendo o território inimigo.
Não sou hipócrita. Também gosto de cantar vitória antes da corrida começar. Mas ao contrário deles, eu sempre ganho.
Apesar de ter perdido a conta de quantos rachas eu já participei, ainda lembro claramente do primeiro. Eram altas horas da madrugada de uma sexta-feira e eu estava perambulando por Chelsea com uma Mitsubishi Starion, meu melhor amigo no banco ao lado e uma garrafa de balkan que havíamos roubado da adega particular da minha mãe. Foi num antigo terreno escuro perto de Sloane St que eu os vi pela primeira vez; todos aqueles carros que eu conhecia tão bem através de meu pai, as demasiadas pessoas de diversas culturas com seus rostos iluminados por uma fraca luz amarela que vinha das poucas luminárias e todo aquele calor da adrenalina que tomou rapidamente o meu corpo.
Com a mente dominada pelo êxtase e os neurônios pelo álcool, eu me misturei com os outros carros um pouco antes de ser dada a largada. Eu pedi para que saísse do veículo; eu estava embriagado e não queria ser responsável pela morte de ninguém além da minha, afinal, o que eu tinha a perder? Minha mãe vivia em função do seu trabalho — milagre seria quando ela notasse que ainda tinha um filho; meu pai havia morrido há poucos meses em um acidente e eu estava prestes a ser reprovado no primeiro ano do colegial, o que atrasaria a minha vida e me faria ter de passar mais um ano ao lado de toda aquela gente que eu precisava suportar. O bom de chegar ao fundo do poço é que não dá para afundar mais. Não havia como ficar pior.
O sol estava nascendo quando cruzei a linha final. Fui um dos últimos a chegar; já estava dormindo com a cabeça encostada na lataria de um Cadillac antigo. Eu passei o braço dele por cima do meu ombro e o carreguei até o Starion. Antes de adentrar o carro e voltar para casa, uma mão bateu no vidro da janela. Era um homem idoso com uma barba grande e grisalha. Havia em volta dele um ar de autoridade que de certo modo, me intimidava. Estava acompanhado de mais dois sujeitos quase tão velhos quanto ele. Toda a minha embriagues já havia ido para os ares e eu estava consideravelmente sã quando ele começou a falar, embora tenha sido tamanha falta de lucidez aceitar a oferta que ele havia acabado de oferecer.
Eu o perguntaria hoje em dia o que foi que ele viu em mim para me querer em sua equipe, todavia, ele morreu há alguns anos. De qualquer forma, eu não ganhei aquela corrida, mas ganhei a porta para um novo mundo, e não havia um sequer dia em que eu não me perguntasse o que eu estava fazendo ali.
O canto dos pneus do carro ao lado me livrou da nostalgia, fazendo com que eu fechasse os vidros e me concentrasse nos movimentos de meus adversários. Com o tempo, descobri algumas coisas que todo piloto deve aprender sozinho. Primeiro: preste atenção aos movimentos. Grande parte das pessoas se inclinam para frente logo antes de soltar a embreagem. Segundo: esteja preparado psicologicamente. Meu pai sempre me dizia que um dos maiores obstáculos que um corredor pode enfrentar é sua própria mente. Estar com ela limpa já é uma grande vantagem. E terceiro: não é o carro que faz o competidor, e sim o competidor que faz o carro. Não importa se você dirige uma LaFerrari de 963 CV ou uma BMW de 300 CV. O segredo está no modo como você manuseia o veículo e não na quantidade de cavalos que ele tem. É claro que a potência ajuda, mas não é apenas com ela que você irá ganhar.
E para finalizar, o mais importante: o que acontece nas pistas, deverá sempre morrer nas pistas.

A tensão era grande quando me retiraram do Aston Martin que havia acabado de ser completamente destruído pela emborcação. Havia muitas pessoas falando juntas; as vozes estavam sendo embaralhadas em minha cabeça. Eu não conseguia de fato compreendê-las, mas fiz um sinal com a mão para mostrar que estava vivo. Suas expressões estavam todas tomadas por pânico, preocupação e curiosidade. Também estava sendo complicado para mim entender toda aquela situação.
— Eu disse que ele estava aéreo, que não era para ele correr. — Eu assimilei a voz aguda de quem falava com . — Ele consegue se levantar? Não acham que é melhor chamar alguém?
— Eu já sou médico. — Disse o novato da turma do McGouth.
— Ele precisa de alguém profissional e não de um estudante de medicina. — retrucou, tentando me colocar de pé.
Eu tossi indiferente.
— Estou bem, ninguém precisa de médicos aqui. — Murmurei, checando em qual estado de danos estava o carro, ou naquele caso, o que sobrou dele. — Vai ser um prejuízo e tanto.
já havia me soltado, mas estava em alerta ao meu lado para se caso houvesse alguma recaída. Tirando alguns arranhões e a minha camiseta rasgada e suja por óleo de motor, nem parecia que eu havia acabado de sofrer um acidente e pior: perdido uma das competições mais importantes do ano.
Eu saí do gramado e caminhei lentamente até o asfalto, sendo concebido por olhares de alívio e algumas saudações amistosas — ou nem tanto. Felizmente, aquela era uma corrida fechada para o público em geral. As pessoas que estavam ali eram contadas a dedo. Em comparação, o número de pessoas presentes não chegava nem perto da metade de pessoas que costumavam ir às corridas regulares da Inglaterra. A plateia era menor, sendo assim, a notícia não iria se espalhar tão rapidamente quanto em outro lugar.
Josh Schwarzer — o sortudo da vez — acenou para mim com um sorriso vitorioso entre os lábios. Estou certo de que se eu tivesse morrido, ele estaria brindando em algum lugar clandestino com alguma vagabunda, que geralmente era resto de outros competidores. Apesar de ser muito bom nas pistas, ele não passava de uma grande merda na vida. Facilmente comprado e facilmente descartado — nada a mais e nada a menos do que um simples e insignificante peão.
… — Eu reconheceria aquela voz grossa e o cheiro do charuto importado até no inferno. Rocco Carmone. Se estivéssemos em um jogo de xadrez, ele seria o rei dessa partida. Eu encostei-me a um velho poste e me preparei para ouvir o que ele tinha a dizer. — Eu apostei minhas fichas em você.
Havia uma pontada de desgosto em seu timbre.
— Isso é o problema seu, — murmurei, recebendo uma cotovelada de direto no estômago. O ato me fez querer vomitar e eu cogitei a ideia de fazer aquilo em cima dele. — senhor. — completei, por fim.
— Gosto da sua ousadia, garoto. — Ele apontou para mim de forma animada. — É por isso e muitos outros motivos que eu quero que você vá para a Irlanda mês que vem.
— O quê? Para correr? — Indaguei um tanto desacreditado. Ele acenou afirmativo com cabeça. — Simples assim? Mesmo que eu tenha perdido a corrida hoje?
Ele riu, colocando a mão em meu ombro machucado. Apesar da ardência, aquilo não me incomodou. Nós caminhamos um pouco para o lado, nos afastando de e de seus dois seguranças.
— Franco chegou a te dizer o porquê de ele ter te escolhido mesmo tendo muitos competidores mais velhos e experientes? — Eu neguei. — É, mas ele me disse. E quem sabe se um dia você parar de se achar tão superior a tudo, eu não te conte, hum?
Rocco deu um tapa de leve em minhas costas, me guiando de volta para onde estávamos.
— Não me decepcione na Irlanda, irei apostar em você. — E aquelas foram suas últimas palavras antes de virar-se e ir embora, mas não antes de acender um gordo charuto black dragon entre os dentes amarelados pelo vício em nicotina.
Apesar de estar ganhando uma nova oportunidade, eu não deixei que o entusiasmo se acumulasse em mim. Aquilo não era um pedido típico de Rocco Carmone, embora eu já houvesse tomado conhecimento de seus pilotos favoritos — e eu estivesse misteriosamente em sua lista — aquilo era no mínimo, suspeito.
— Vai ver que o Franco, antes de morrer, pediu para que ele cuidasse das suas corridas. — disse enquanto despejava o líquido do galão de combustível reserva para o tanque do meu Jeep Grand Cherokee. Eu particularmente não gostava de trazer um dos meus carros de uso pessoal para esse tipo de lugar, mas já que não havíamos muitas opções de viajem, eu tive de abrir uma pequena e única exceção.
— Mas… — Jasper, nosso melhor mecânico, arqueou as sobrancelhas. — Franco morreu há dois anos e Carmone só foi aparecer na sua vida nos últimos meses. Se ele estivesse envolvido nessa história, Carmone haveria aparecido muito antes.
Eu levava a opinião de Jasper em conta, já que se havia alguém tão sensato quanto eu ali, era ele.
— Isso não importa agora. Precisamos ir para um hotel e dormir, antes que eu desmaie aqui mesmo. E você precisa de alguns curativos. — resmungou, apontando para mim. — Vamos?
— Na verdade, — Eu iniciei. — eu vou voltar para a Inglaterra.
— O quê? Hoje? Você está maluco? São cinco horas daqui à Stamford. Você acabou de sofrer um acidente.
— Eu não planejo ir para Stamford, e sim Cambridge.
— que já estava prestes a entrar no carro — parou e me olhou abismado, como se eu houvesse dito algo absurdo. Era visível de que ele queria dizer algo, mas estava relutando com sua vontade. Certamente, ele tinha consciência de que o quer que fosse, iria me irritar.
— Ótimo. Então reformulando a minha frase: são seis horas daqui à Cambridge. — Seu tom estava afetado.
— Escute, — Murmuro num tom baixo, deixando Jasper de lado e caminhando em sua direção. — te agradeço pela preocupação, mas a última coisa que eu estou te pedindo é qualquer tipo de permissão. Você trabalha para mim e não ao contrário. — Eu o lembrei.
abriu a boca para dizer algo, mas eu o impedi com um gesto. Ele curvou os lábios em um sorriso curto e forçado e ergueu as mãos em sinal de rendição.
— Dirija com cuidado, .
— Não se preocupe. — Eu disse, já me colocando para dentro do veículo.
— Estou falando sério. Me ligue caso precisar ou se achar que não aguenta mais dirigir.
, por Deuses, relaxa. — Eu sorri antes de dar partida, deixando todo aquele cenário para trás e pegando a saída A19 em direção à Inglaterra.

Após cinco exaustivas horas e trinta dolorosos minutos, eu estava adentrando em Cambridge. Havia finos raios solares iluminando o céu, entretanto que a sensação térmica fosse congelante. Eu me sentia desconfortável depois de tanto tempo na mesma posição; os meus braços doíam pelo acidente e uma forte dor de cabeça me pegou desprevenido quando eu ainda saía da Escócia. E como se já não fosse o suficiente, grande parte da chuva desse mês decidiu cair somente em uma madrugada.
Eu estacionei o Jeep em frente ao alto prédio de tijolos, observando o escasso de pessoas que estavam presente no campus. Senti-me estranho por estar ali, esperando por alguma coisa que nem eu sabia o que era. Eu estava com raiva de mim mesmo por estar me sentindo daquela forma, tão clichê e desnecessário; eu não conseguia tirar seu rosto de minha mente, era como se ele estivesse se agarrado em minha alma e estivesse sugando todas as minhas energias.
Eu simplesmente deveria ligar o meu carro e dirigir para o mais longe possível antes que eu fosse visto, mas todas as minhas dúvidas entre ficar e partir foram queimadas quando eu a vi descendo aquela demasiada quantidade de degraus da escadaria. Tão sonolenta e frágil que chegava a dar pena. Sua pele estava ainda mais translúcida pelo sol, o que gerou uma sensação muito convidativa, dificilmente de ser recusada, principalmente quando ela se aproximou do último lance da escada, onde eu já podia notar suas bochechas naturalmente rosadas e os lábios pressionados.
Eu engatei o veículo e me soltei do cinto de seguranças deixando-o para trás e atravessando a calçada. Era um alívio respirar sem aquela fita sintética que cruzava o meu corpo, sentir o ar puro da manhã e o cheiro suave do perfume de que a brisa levava até minhas narinas.
Ela estava a poucos metros de mim e com um envelope branco em mãos. Parecia ligeiramente distraída enquanto pegava o celular de seu bolso e discava alguns números que, na distância em que estávamos, se tornavam invisíveis para mim.
. — Exclamei. Eu sabia que ela havia ouvido, mas não se virou. — Aonde você vai? — Não quis que aquilo houvesse soado tão grosseiro e invasivo quanto soou. E então seu corpo foi redirecionado para mim e os olhos presos aos meus — o choque era notável em sua fisionomia. Suas têmporas coraram.
— O que você está fazendo aqui?
Eu não a diria que estava esperando por ela. Se aquilo era louco quando dito em mente, imagine em voz alta.
— Você não respondeu a minha pergunta. — Tentei desviar o assunto, me sentindo desafiado quando a vi cruzar os braços.
— Então estamos quites já que você não responde nenhuma das minhas. — Ela gaguejou um pouco.
Tive de pensar em algo útil para dizer, algo que ela fosse acreditar. Não poderia ser qualquer coisa; eu costumo subestimar as pessoas, mas sei que não deveria subestimá-la.
— Há uma oficina de um amigo meu por aqui.
— Oficina? — riu. Ela é mais inteligente do que isso. — Você veio até aqui para ir numa oficina em pleno sábado às 07:45 da manhã? Ok…
Havia um fraco vestígio de humor em suas palavras, e apesar de ainda estar nitidamente intimidada com a minha presença — sei disso pelo modo relutante que ela se movimenta —, ela me dá as costas.
— Você ainda não me respondeu. — Foi um sussurro alto o bastante para que ela escutasse. Eu encostei-me à traseira do Jeep, observando-a. Eu poderia fazer aquilo por horas sem me cansar.
— Preciso ir para um hospital em Londres pegar os resultados dos exames de .
— Ela não pode fazer isso?
— Tenho certeza de que ela adoraria caso não estivesse tão doente a ponto de não conseguir se levantar da cama.
Entramos em uma perigosa área de ironia e sarcasmos.
— Outra pessoa não pode fazer isso? — Pergunto, recendo um olhar reprovativo da parte dela.
— Sabe o que acontece, Grande e Poderoso ? É que nem todos têm tantas pessoas te idolatrando e fazendo tudo o que você quiser, como você. — Ela disse, discando o mesmo número de telefone mais vezes do que eu consegui acompanhar.
— Não quero ser intrometido e nem nada, mas acho que tem alguém que não quer falar com você. — Eu me aproximei o suficiente para identificar a quem aquela sequência se referia, permitindo que um riso escapasse. — Pode ligar quantas vezes quiser, não vai te atender. Ele está… Fora da região.
Ela me olhou um tanto quanto decepcionada.
— Que ótimo! — Seus grandes olhos castanhos encararam suas mãos como se houvessem coisas escritas nelas.
— O que você queria com ele?
Ela suspirou.
— Que ele me levasse, já que as chaves do carro de estão com ele desde o dia daquela… Festa. — Havia uma pequena ruga entre seus olhos que ela parecia não tomar conhecimento.
— Bem… Posso te dar uma carona até lá.
Eu assisti o espanto ganhando vida em seus olhos. Ela manteve os braços cruzados sobre o corpo rígido em minha frente. Não sei se estava esperando que eu anunciasse que aquilo era uma brincadeira ou algo semelhante, mas esperou um longo tempo antes de parecer acreditar no que eu havia acabado de sugerir.
— Por quê?
— Porque você não tem um carro. — Disse, lentamente.
— Sou perfeitamente capaz de dar um jeito. — É claro que ela era. Eu que não seria capaz de deixá-la fazer isso.
Eu caminhei em direção à porta do motorista, lançando-lhe um olhar incontestável.
— Sem contar que, não estou falando por mal, mas você está péssimo. Alguém tentou te bater e depois tentou te enterrar vivo?
— Entra no carro, . — Murmurei enquanto já me colocava para dentro.
Pelo retrovisor, eu pude vê-la imóvel no mesmo lugar, pensativa e um pouco duvidosa.
Eu movi o meu braço até a porta do passageiro e a destravei, vendo-a caminhar resistente até ela. Eu esperei paciente que se ajeitasse no banco para tomar partida. Ela não estava relutando contra a minha oferta, estava relutando contra mim, e aquilo só tornou as coisas ainda mais divertidas.


Capítulo 4


261 dias antes



— Se você vai ficar de cara feia, eu posso parar no meio da estrada e deixar que você se vire para arrumar carona. — digo, colocando um pouco mais de arrogância em meu tom de voz do que pretendia.
— Eu não… — ela bufa parecendo impaciente — Não sei como seus amigos são… Seus amigos.
Eu suspiro, inalando o cheiro de baunilha que vinha do cabelo dela. A música no rádio fez com que eu me esquecesse da presença de por algum tempo e me concentrasse apenas na letra. Algumas gotas de chuva apedrejaram os vidros enquanto o céu escurecia pelas nuvens carregadas. Seria um dia daqueles.
Eu estava cantarolando ritmicamente James Morrison quando ouvi o aparelho sendo desligado, trazendo um silencioso eco para dentro do carro. Havia uma quase imperceptível curva nos lábios de ; ela estava se esforçando para não sorrir.
— Não gosto dele.
— Para dizer a verdade, eu adoraria saber do que você gosta. — Eu digo sinceramente. Não preciso olhá-la para saber que ela está me encarando, talvez incrédula ou talvez com raiva por aquilo ter soado tão reprovativo.
Mas para a minha surpresa, ela não briga ou franze a testa como se estivesse brava, apenas liga novamente o rádio e se vira para frente de forma pacífica. Um raio cortou o céu, mas o sol continuava firme e brilhante.
— Você está realmente péssimo. — disse alguns minutos depois de um silêncio profundo. Será que não podíamos apenas deixar que aquela ausência de vozes tomasse conta do ambiente?
Eu não estava péssimo. Meus olhos estavam apenas inchados pela exaustão, havia uma fina linha de sangue seco em minha testa e meus braços estavam um pouco ralados. Mas péssimo não.
— Não se preocupe, eu não vou nos matar — sei que é isso o que ela está pensando, ou acho saber. — Posso parecer cansado, mas ainda sou um ótimo motorista.
— Eu sei que é — Ela sussurra, para minha total surpresa. Eu a olho por míseros segundos, descobrindo que ela fazia o mesmo. — O que aconteceu para você estar assim?
— Assim como?
Vi suas sobrancelhas sendo arqueadas.
— Assim… — Ela apontou para a minha testa, mais especificamente para a ferida — Todo machucado.
— Todo machucado? — Eu repeti com um pouco de graça. Havia algo que eu não conseguia desvendar em sua expressão. — São apenas alguns arranhões, nada demais e nem que você tenha que se preocupar.
— Há uma imensa diferença entre preocupação e… Curiosidade. — Sinto que ela não estava certa se deveria dizer aquilo, mas disse, mesmo que estivesse olhando para a palma das mãos como uma criança assustada. Então era isso que eu provocava nela? Curiosidade? Medo? Ou os dois?
Eu suspirei.
— Sofri um acidente ontem à noite. — Disse sem nenhum rodeio. me encarou perplexa, como se eu não estivesse acostumado com um machucadinho aqui e outro ali. — Não foi grave. Não para mim pelo menos, mas já o carro…
— Por isso você estava em uma oficina mecânica?
Eu a olhei sem entender.
— Claro.
Seus olhos sorriram junto com os lábios. Ela obviamente só acreditava na história do acidente, mas pareceu não dar importância se eu estava mentindo sobre o restante ou não. A luz do sol iluminava parte de seu rosto, transformando seus olhos castanhos em mel. As têmporas estavam encovadas e o lábio inferior sendo mordido pelo dente incisivo central. As pernas estavam cruzadas, igualmente aos braços, como se aquele fosse um modo de defesa particular.
— Onde fica esse hospital em que estamos indo? — Perguntei quando atravessamos a London Bridge.
Ela abriu o envelope e retirou um papel com bordas prateadas de dentro dele. Havia um elegante e chamativo brasão no topo da folha. Eu conhecia bem aquele emblema.
— Em Paddington, que é na próxima rua — Comentou após uma breve pesquisa pela localização, como se eu já não soubesse.
Eu dobrei o quarteirão em uma velocidade acima do permitido e em alguns poucos minutos, estava estacionando em frente ao enorme portão de ferro em forma de arco. Atrás dele, havia um majestoso prédio de tijolos clássicos e colunas gregas de ordem coríntia.
— Está aberta. — Eu murmurei mais para mim mesmo, mas sabendo que ela iria ouvir.
— Você não vem? — Ela perguntou, tirando o cinto de segurança.
— Não, eu te espero aqui. — Minha voz soou como uma promessa, e eu a assisti deixar o carro para trás enquanto se aproximava da entrada do hospital.
Antes de eu conseguir pensar em qualquer coisa, ouvi meu celular vibrar dentro do porta luvas. Eu identifiquei pelo visor; já estava demorando.
— Pelo menos agora eu sei que você não está morto — A voz dele surgiu nasalada do outro lado da linha. — Eu te liguei a manhã toda.
— Ainda é de manhã, . E eu não ouvi. — Disse com minha seriedade constante.
— Ok, cara, tanto faz. — Ele fica em silêncio por um instante — Que barulho todo é esse? Onde você está?
Passei uma das mãos no rosto enquanto a outra segurava o telefone contra o ouvido.
— Não que eu te deva satisfações, mas vim trazer em Londres.
— O que a foi fazer em Londres?
Eu revirei meus olhos, impaciente.
— Ela veio pegar os exames da .
E novamente o silêncio ponderou a ligação. Eu sabia o que ele estava pensando.
— No Edwards Family Hospital? — Não precisei responder — Você vai contar para ela?
— Eu não sei… Se vier ao caso.
— Se vier ao caso? — Houve uma risada sarcástica da parte dele — Isso não é o tipo de coisa que você sai dizendo por aí. Imagina se isso se espalha?
— Você a conhece desde criança, — digo — deveria confiar mais nela.
— É claro que eu confio na , ela é como uma irmã pra mim. É só que… Você mal a conhece. Isso não é normal.
— Normalidade nunca foi meu forte — Murmurei, vendo-a retornar em direção ao jipe com uma expressão de desapontamento. — Eu preciso ir, falo com você mais tarde.
Não esperei pela resposta para desligar o aparelho e jogá-lo para dentro do bolso da calça, onde eu ouviria caso alguém tentasse falar comigo novamente.
— O que aconteceu? — Perguntei enquanto ela ainda contornava o carro.
— Eles não podem me entregar os exames porque não há nenhum documento que comprove que eu sou amiga dela, e como eu não sou da família… Foi uma viagem perdida. — Ela se acomodou ao meu lado no banco do passageiro e me olhou de forma avaliadora, como se estivesse me perguntando mentalmente o porquê de eu ainda não ter dado marcha e saído dali. Havia uma pressão avassaladora crescendo em volta de mim. — Qual o problema?
— É muito importante você tê-los? — Perguntei, me ferindo aos exames.
Ela piscou confusa.
— Bem… É, mas…
— Então fique aqui. — Eu indaguei antes de sair do veículo, não deixando-a terminar de falar. De relance, pude ver sua fisionomia passar de confusa para curiosa.
Minhas pálpebras pesaram quando o ar gélido colidiu com meu rosto, deixando os sintomas de uma noite de sono perdida visíveis. Eu passei a mão pelo meu cabelo a fim de que os cachos caíssem em minha testa e o ferimento se tornasse menos notório. A jaqueta que eu vestia tampava os arranhões em meu braço e apesar da dor na costela, eu estava conseguindo disfarçar muito bem.
Atravessei o portão de ferro da portaria e subi os poucos degraus da escada, esperando por uma fração de segundos para que as portas automáticas se abrissem e eu pudesse adentrar a recepção. Atrás do balcão curvo, uma atraente mulher loira me encarou com um olhar solícito.
— Posso ajudá-lo? — Seu tom de voz foi cordial demais para ser usado em trabalho.
— Preciso ir ao laboratório buscar os resultados de um exame — eu disse ríspido, ainda que educado.
— Vou precisar de alguns documentos seus e que preencha…
Eu retirei minha carteira de dentro da jaqueta e lhe entreguei minha identidade antes mesmo de deixá-la terminar — interromper as pessoas já estava se tornando um hábito. Ela provavelmente era nova ali, mas seu espanto ao ler meu nome sugeriu que ela já o conhecia.
— Eu vou pedir para que alguém acompanhe o senhor — Ela sussurrou um tanto sem jeito.
— Não precisa, eu sei onde fica.
— Claro, me desculpe. A garota está com o senhor? — Perguntou, olhando fixamente para algo acima de meus ombros.
Eu encontrei o rosto tomado por desentendimento de atrás de mim, não muito longe e nem muito perto, o suficiente para ela ver e ouvir o que acabara de acontecer.
— Está sim.
Virei-me lentamente em direção a ela, conduzindo seu corpo para o elevador. Apertei o botão do sétimo andar enquanto pressionava suas costas contra uma das paredes de aço, seus olhos castanhos ainda mais escuros do que o comum.
— Senhor … — Ela grunhiu — O que isso quer dizer?
Eu tomei uma respiração profunda, esperando ansioso o momento em que aquele quadrado se estabilizasse no andar.
Quando as portas se abriram, um cheiro forte de desinfetante e desespero invadiram minhas narinas — apesar do aromatizante amenizar o odor. Atrás do balcão acoplável, estava Irina com seus cabelos grisalhos presos em um coque alto no topo da cabeça e o óculos de grau retangular na ponta do nariz, como de costume. Havia outra mulher junto com ela, uma provável aprendiz, já que Irina parecia levemente irritada enquanto ensinava algo no computador para a mais jovem.
Eu limpei a garganta para chamar atenção, fazendo com que os olhos igualmente azuis das duas fossem levados até mim.
, que surpresa boa, querido — Irina disse enquanto um sorriso honesto ia se abrindo em seus lábios. Ela olhou para o meu rosto de forma estranha, talvez se perguntando o porquê de eu estar machucado. — Luce, esse é , o herdeiro do hospital; , essa é Luce, nossa balconista recém contratada — ela se curvou para mais perto de mim, cochichando — Não sei o que sua mãe viu nela, para ser bem sincera.
— Bem, se foi a minha mãe que a contratou, é porque alguma coisa de bom ela faz — Eu a respondi seco. Os olhos claros de Irina passaram por , claramente esperando que eu a apresentasse, mas não o fiz. De relance, pude ver a perplexidade estampada em seu rosto pálido, possivelmente pela forma que Irina me apresentou a tal Luce. Não é todos os dias que você encontra o legatário de um dos mais prestigiados hospitais de toda a Inglaterra. Eu quase a compreendia.
— Pois bem, no que posso ser útil?
Eu conduzi Irina pelo olhar até o outro canto do balcão, já que não seria nem um pouco profissional o que eu a mandaria fazer, e ela certamente obedeceria.
— Eu vim buscar os resultados dos exames de uma paciente… Uma amiga. — Murmurei, pegando o envelope das mãos de e depositando os papéis de dentro dele em cima do mármore.
— Oh, … Você sabe que eu não posso fazer isso — Ela disse repreensiva enquanto lia os dados de — vocês não tem parentesco algum, é contra a lei.
— Isso não é um pedido — Franzi o cenho, vendo-a chocar-se com minha resposta — Ninguém irá descobrir, eu prometo. — terminei, tentando ao máximo diminuir a empáfia em minhas palavras.
— Está bem, espere aqui. — Ela suspirou em derrota, sumindo atrás das portas duplas que havia ao lado, onde guardava todos os resultados e arquivos de pacientes.
Eu olhei em volta, encontrando um garoto sentado de frente para uma moça, provavelmente a mãe, ambos com um olhar longínquo, vazios. Eu entendia aquele sofrimento em sua fisionomia; ele estava sentado na cadeira-do-paciente-condenado, como eu costumava chamar quando vinha frequentemente aqui. As enfermeiras só te põem naquele canto se você está gravemente doente — condenado — ou quando há alguma notícia para lhe dar. Independente de qual seja, nunca é boa.
Eu me lembro da primeira vez em que me sentei ali. Fazia frio, as janelas estavam embaçadas pelo nevoeiro e o hospital ainda cheirava a desinfetante e desespero como normalmente está, mas havia algo diferente no ar. Todos me olhavam como se sentissem a pior das penas, como se eu estivesse condenado. Foi ali, sentado exatamente como o garoto, com a cabeça enterrada nas mãos e o corpo curvo como quem está com dor, que me contaram da morte do meu pai.
Eu acompanhei o andar de uma médica até os dois, aquele andar de receio e a expressão de dor, de quem gostaria de poder fazer alguma coisa por eles, mas não pode. Ela sentou-se ao lado da mãe e segurou a mão dela de modo benevolente. Sussurrou alguma coisa apenas para que ela pudesse ouvir e então a mulher caiu em prantos — um choro esmorecido e lancinante.
Como eu disse, seja lá qual for a notícia, nunca é boa.
— Aqui está — A voz de Irina me puxou para ela — que isso não se repita.
— Obrigado. — Eu disse, recolhendo os papéis e me afastando do balcão.
, — eu virei minha cabeça para a esquerda com o som de meu nome sendo chamado — sua mãe sabe que você está aqui? — fiz um gesto negativo para Irina — Você deveria ir vê-la.
— Deveria. Mas não vou. — Havia algo estranho em minha voz que nem eu conseguia identificar. Foi só depois, já dentro do elevador silencioso, que eu consegui entender. Era ódio. Ódio pela minha própria mãe.
O térreo nunca pareceu tão longe e eu respirei aliviado quando, enfim, chegamos; o que significava que em poucos passos, eu estaria fora daquela área e de volta à minha zona de conforto. Eu e minha mãe não nos falávamos ou nos víamos há quase dois anos. Eu não queria mudar aquilo. Não ainda.
Eu contornei o carro e entrei no jipe, vendo fazer o mesmo, embora um pouco relutante. Ela provavelmente está pensando se não poderia sair por aí, voltar para Cambridge de trem ou algo assim, mas por algum motivo, ainda está aqui, comigo.
Liguei o aquecedor antes de tomar partida. Eu já estava acostumado com o frio daqui, mas pela maneira que ela se encolheu no banco, parecia desconfortável.
— Qual o seu nome? — perguntou, me deixando surpreso. Suas bochechas estavam coradas e havia um ar de braveza em seu olhar.
.
— Seu nome inteiro.
Nós nos olhamos por uma fração de segundos.
— Você sabe qual é — Eu a disse, mas não parecia o suficiente. Ela ainda esperava me ouvir dizer aquele maldito nome do meio que eu era obrigado carregar. — Edwards .
Sua expressão estava indiferente.
Eu dei um cavalo de pau antes de adentrar a Winsland St, tomando o caminho mais próximo para a via A1 em direção à Cambridge. estava me olhando com aqueles olhos semicerrados, como se estivéssemos em um tribunal e eu fosse o acusado. Seus lábios se moveram para dizer algo, mas ao invés disso, ela se calou e olhou para as mãos. Eu nunca desejei tanto ler a mente de alguém quanto à dela naquele momento, já que eu não conseguia arrancar qualquer informação de seu semblante. Aquilo era muito mais do que frustrante.
— Se… — Ela pensou antes de dizer — Se você tem tudo isso, por que arrisca sua vida praticando essas corridas ilegais? Eu achava que era pelo dinheiro, mas… Ficou evidente que você não precisa disso.
— O fato de eu ser o herdeiro daquele hospital não significa que eu tenha direito às ações dele… Não enquanto minha mãe estiver no controle. — Eu a respondo — Mas ainda assim, não é pelo dinheiro. É a emoção, , a adrenalina. Dinheiro nenhum compra o que eu sinto quando estou correndo.
Ficamos em silêncio pelo o que pareceu uma eternidade. Ela estava tentando processar o que eu estava lhe dizendo e eu estava tentando processar que eu estava revelando — finalmente — aquilo a alguém.
— Quem sabe? — Meus olhos foram redirecionados a ela.
— Só o . Só Deus sabe o que certas pessoas fariam com a minha família caso tomassem conhecimento disso. — Algo parecia errado no modo como ela me encarava — Não que eu me importe.
— Você não se importa com os seus próprios pais? — Seu tom mudou para indignação.
provavelmente era uma daquelas garotas que cresceu em uma bela casa, com um cachorro pastor alemão, estudou no melhor colégio da cidade, seu pai era um empresário bem sucedido e a mãe uma encantadora dona de casa que deixou o emprego para cuidar dos filhos. Ainda assim, eu sentia que não podia julgá-la de tal maneira.
— Bom, meu pai está morto e quanto a minha mãe… Eu particularmente preferiria ser órfão.
— Ela é tão ruim assim? — Sua voz estava mais piedosa agora, tranquilizante.
— Se ela fosse ruim, estaria bom. — Eu apertei as mãos no volante, aumentando a velocidade do carro. — Ela era uma boa pessoa até os meus dez anos.
— E o que houve?
Por algum motivo, era fácil falar com ela. Quase involuntário.
— Eu não sei. Acordei em uma manhã e o mordomo estava aprontando minhas malas… Ela me despachou para um internato na Alemanha, onde eu fiquei até completar dezesseis anos. — Eu ri sem humor — Sabe o que foi pior? O sorriso dela quando eu voltei para casa. Aquele sorriso de como quem não fez nada que não fosse para o seu próprio bem, como se ela de fato se importasse com alguém além de si mesma. E então, apenas um mês depois, o meu pai morreu em um acidente e pela primeira vez em seis anos, ela me abraçou, mas estava diferente. Algo morreu dentro dela. Eu já não a reconhecia.
— Eu sinto muito.
— Não sinta. — Eu disse perversamente, me sentindo logo então culpado pelo meu tom. Ela estava sendo honesta quando dizia que sentia muito, dava para ver na forma como seus olhos estavam brilhando enquanto ela me examinava. — Por que fez esse exame aqui? — Perguntei, mudando o foco da conversa.
— Ahn… — Ela ficou sem saber o que responder, foi então que eu me dei conta de que ela não fazia a menor ideia do que fazer exames no Edwards Family Hospital significava — Eu não sei, ela apenas pediu para que eu viesse buscá-los. Eu nem sabia que ela os havia feito.
— Hum — Murmurei, ficando pensativo em seguida. Eu não podia afirmar com toda a certeza de que o hospital da minha família era especializado em doenças e acidentes graves porque eu não ia até lá desde que me deram a notícia de que meu pai havia falecido, mas havia 80% de chances de eu estar certo, embora torcesse para que não. Aquilo seria um assunto a discutir com mais tarde.


Capítulo 5


261 dias antes



Eu estava escorada à porta enquanto tentava me distrair com as imagens borradas que iam sendo deixadas para trás na estrada. A respiração de estava pesada ao meu lado, o que me fazia constantemente me lembrar de sua presença.
Sua expressão era indecifrável e os olhos brilhavam enquanto sua atenção era totalmente depositada na pista. Pelo menos eu podia observá-lo sem que ele percebesse. Ele não era difícil de entender, apenas muito trancado em seu mundo particular. Estava sempre de cara fechada porque possuía um humor inteligente; introvertido, grosso e aparentemente muito egoísta. Não é improvável que faça isso a fim de se defender, e talvez de si mesmo.
Mas ainda assim, havia algo estranho nele, algo que não só me atraía, como também quem estivesse ao seu redor — como um verdadeiro predador.
Eu vi suas mãos comprimirem o volante, sabia que eu o estava observando — para o meu desgosto. Eu não queria que ele achasse que eu estava pensando nele enquanto poderia pensar em coisas melhores. Mas, pior do que isso, é que eu não queria admitir a mim mesma que eu não conseguia pensar em algo melhor que não fosse ele.
Felizmente, estávamos chegando e eu não queria ver até que ponto minha mente poderia ir quanto à .
— Você poderia parar um quarteirão antes do alojamento? — Eu perguntei, quebrando o silêncio imposto há horas.
— Tem medo de ser vista comigo? — Pela primeira vez depois de tanto tempo, seus olhos estão em mim. O ato me deixou nervosa, só não mais do que o mistério ininteligível que há nele.
— Não, é só que…
— Por Deuses, me poupe de desculpas esfarrapadas, . — Disse, estacionando em frente uma pequena praça deserta no final da rua.
O modo como ele pronuncia meu nome é rude, sem nenhuma demonstração de afeição — não que eu esperasse que ele tivesse, mas é óbvio que seu orgulho foi ferido.
— Eu não quis te ofender. — Indaguei, com toda a minha honestidade.
Uma curta e — muito — sarcástica risada é ecoada de suas cordas vocais. Eu já me sinto mal antes mesmo dele começar a me responder.
— A única coisa que me ofende é você achar que causa esse tipo de sentimento em mim. Vai precisar de muito mais do que isso para me ofender.
Ele não estava mais me olhando enquanto dizia, e assim que finalizou, destravou as portas com um rosto impaciente, como se eu fosse um fardo. Independente se era verdade ou não, suas mudanças de personalidade estavam acabando comigo.
— Vai pro inferno, .
— Acredite, eu já estive lá. — Murmurou assim que eu desci do carro, batendo a porta e torcendo para que ele acelerasse e saísse dali o mais rápido possível. Mas ele não o fez. Apenas ficou lá parado, com a sombra de um sorriso divertido nos lábios enquanto eu marchava raivosamente para longe. De alguma forma, consigo chegar ao meu quarto sem ter matado ninguém, embora eu esteja guardando minha raiva especialmente para .
não estava lá, então decidi tomar um banho para tirar o cheiro do hospital impregnado em meu corpo. O banheiro estava nebuloso e abafado pelo vapor da corrente de água que enchia a banheira. O cheiro de chá de camomila e vela de alfazema estava saturando o ar, como todo bom britânico gosta. Não consigo evitar me questionar se ele gostava disso também. Eu fiquei submersa a fim de tirá-lo de meus pensamentos.
Como alguém poderia infestar sua vida tão rapidamente daquela maneira? Era maluquice — e apesar de adorar uma boa dose de loucura, aquela ia muito além de mim. não era só um amante de rachas, como também era o dono de uns mais prestigiados hospitais de toda a Inglaterra; era aquele convencido e arrogante que todos conheciam; e também o discreto e atencioso que tão pouco se mostrava.
Ao mesmo tempo, ele não era nada daquilo. E eu era a mais recente integrante de um grande grupo de pessoas que achavam que o conheciam. Fiquei me perguntando se alguém sabia quem ele era de fato — não apenas seu nome completo, sua história de vida ou a data de seu aniversário, mas sim suas matérias preferidas no colégio, a comida que ele gostava de comer de madrugada ou até a primeira música de sua playlist durante o banho. Mentalmente, eu torço para que ele não seja vazio como parece. Porque a ideia dele ser tão solitário daquela maneira, mesmo estando incessantemente rodeado de pessoas, não era uma coisa prazenteira. No fundo, ele não passava de um garoto rancoroso com o orgulho constantemente golpeado. Sabia que qualquer um seria mais ou menos daquele jeito se houvesse passado pelo o que ele passou, mas até que ponto os fins justificam os meios?
Eu voltei para a superfície quando a porta do quarto sendo batida fez com que a água vibrasse. Fiquei sugestivamente contente pela interrupção, ao menos eu estaria distraída o bastante com outra pessoa para não pensar em .
Enrolei-me em uma toalha e deixei que a água da banheira fosse aspirada pelo sugador. Eu abri a porta já sentindo a corrente de ar frio colidindo com minha pele quente e os fios de meu cabelo molhado. estava deitada de bruços em sua cama com seus barulhentos headphones nos ouvidos. Consegui identificar a música que ela estava ouvindo sem qualquer dificuldade, apesar da distância em que estávamos. Ela levantou o olhar para mim e retirou o aparelho da orelha, os largando de lado.
— Não sabia que você já havia chegado.
— É, eu fui… Rápido — Eu disse, vestindo uma roupa qualquer.
— Certo. — Ela estava me encarando de banda, nitidamente desconfiada. — E você conseguiu pegar os exames?
— Sim, eles… — Eu revirei o quarto com os olhos, procurando a pasta que o hospital entregou a… .
— Eles…? — fez um sinal com as mãos para que eu continuasse.
Eu suspirei derrotada. Ela não aceitaria qualquer coisa. Meus planos de manter minha manhã com em sigilo foram por água à baixo.
— Ficaram com . — Sussurrei, vendo seus cinzentos par de olhos serem elevados para mim com um ar de repreensão, surpresa e estranhamento. Ela sempre tinha aquela reação quando o assunto era eu e na mesma frase.
— U-hum. E por que ficaram com ?
— Bem, você disse que as chaves do seu carro estavam com e ele não me atendeu quando eu liguei. Por coincidência, estava passando pelo campus e me ofereceu uma carona até Londres — Tentei argumentar. — E você não pensou duas vezes antes de aceitar, não é? — Ela trovejou de volta.
Eu revirei os olhos.
— Está querendo insinuar algo? Por que se estiver, apenas saiba que…
— Claro que não, . Só… Acho um pouco estranho esse comportamento do . Ele não é assim, só quando quer alguma coisa. — Seu tom parecia mais compreensível agora, como se ela estivesse tentando cuidar de mim.
— Ele foi apenas solidário, nada que outra pessoa qualquer não seria. E o que ele iria querer de mim, ? Eu não tenho nada que possa interessá-lo.
— Talvez tenha — Ela sussurrou, mas pareceu se arrepender no mesmo instante em que o fez.
— Do que você está falando?
Ela se levantou antes de me responder, passou a mão nos jeans amassados e deu uma volta de frente para o espelho, como se estivesse pronta para sair.
— Nada. Só quis dizer que talvez ele goste… Ahn… Do seu jeito. Você é diferente das garotas que ele costuma sair. — sorriu, abrindo a porta — Os universitários da Whistmore estão aqui e eles são super gatos, então vamos parar de perder tempo aqui e descer, certo?
Fiz que sim com a cabeça. Ela sabia como contornar uma situação, mas não como me convencer de sua desculpa. Se existia algo que estivesse me escondendo, eu iria descobrir. No fundo, ela própria tinha noção disso. Eu a acompanhei até o corredor antes dela descer as escadas correndo e se atirar para fora do prédio dos alojamentos, cortando o jardim e adentrando o edifício de aulas, onde os universitários da cidade vizinha estavam.
— Eu exclamei, tentando alcançá-la enquanto ela sumia no meio de tantos rostos desconhecidos. — , espere por mim — Disse, um pouco mais alto do que o normal, mas ela continuava se movendo rapidamente como se não tivesse me ouvido. Eu estava preparada para chamá-la novamente, mas minha cabeça colidiu com algo rígido e que cheirava a perfume francês.
Eu olhei para cima, encontrando um par de olhos azuis cobalto me olhando de volta. Ele estava encostado no vão de uma porta, com o corpo relaxado e a cabeça encostada na madeira. Eu o conhecia de algum lugar.
— Me desculpe — Sussurrei, só então notando que minhas mãos estavam em seu abdome — Por isso também…
— Para quê tanta pressa? — Ele perguntou. Sua voz era grossa como a de , mas não tão intimidante, apesar dos olhos serem um tanto quanto. — Eu sou . . Posso saber seu nome?
— Ah — Eu consegui dizer de início. Então era daí que vinha sua familiaridade. Ele também praticava rachas e estava competindo com na primeira vez em que o vi. — Eu me chamo .
Ele me encarou por um tempo com os olhos estreitos, como se quisesse se lembrar de algo e então sorriu.
… Interessante. — se recompôs em uma posição ereta, ficando ainda mais alto do que já estava. — Eu estava indo para a mesma direção que você, mas parei para esperar que o movimento diminuísse. Posso te acompanhar?
Não tive tempo para pensar no que responder antes dele se posicionar ao meu lado e colocar uma de suas mãos em minhas costas, me guiando para frente. A impressão que me passou era que ele queria que fôssemos vistos daquela forma, mas não tinha certeza se havia motivos para aquilo.
— Eu te vi em uma das minhas corridas no mês passado — Ele comentou, ainda sorrindo — Mas depois… Nunca mais.
Suspiro enquanto penso no que dizer.
— Bom… Não faz meu estilo.
Ele me olhou da cabeça aos pés com o canto dos olhos.
— Notei — Exclamou, achando graça. — Mas você pelo visto gostou da festa, não é? Fiquei sabendo que te levou para casa apenas no dia seguinte.
Eu sorri envergonhada e igualmente incomodada.
— Não é o que você está pensando — Admiti, pressupondo que ele estava tirando conclusões precipitadas sobre o que de fato aconteceu. — não faz o meu… Tipo.
— Seria um exagero dizer que eu estou completamente curioso para descobrir o seu “tipo”? — Ele fez as aspas com os dedos sem tirar os olhos de mim.
— Não tenho certeza se “exagero” é a palavra certa.
Ele riu confortavelmente. Eu diria que era um riso até divertido.
— Tudo bem, então talvez você possa me ensinar algumas palavras certas na festa de sexta-feira. Se você quiser, claro.
Não que eu soubesse de que festa ele estava falando, mas me fiz de pensativa, como se estivesse analisando as chances de aceitar o convite dele. Eu estava preparando uma bela desculpa para recusar, mas quando levantei meu rosto para olhar no dele, um aroma forte de café invadiu minha narinas. Eu sentia a presença dele atrás de mim, mas não me virei para checar.
— Ela não vai a lugar nenhum com você. — Disse. Sua voz grossa e ríspida como normalmente.
— Não sabia que você estava trabalhando como guarda-costas — riu, porém menos confortável do que antes. Era evidente que o intimidava, nem que fosse uma mísera porcentagem.
Posicionei-me de uma forma que eu pudesse ficar de frente para os dois, encontrando a rivalidade nos olhos de ambos.
— Fica longe dela, . — ordenou em tom de ameaça, seu rosto ganhando uma cor avermelhada; raiva, eu suponho. Estava notório que aquilo não se tratava apenas de uma garota. Era algo muito maior do que eu e muito mais sério do que um simples convite. — Espero não te ver a menos de quinhentos metros dessa garota, ou nossa situação vai passar de um nível profissional para pessoal.
— Nossa situação já é pessoal, irmãozinho. — sorriu sarcasticamente — Mas, de qualquer forma, eu vou pagar para ver.
Ele passou por nós dando leves tapas nas costas de e me lançando uma piscadela, que propositalmente foi flagrada por todos que estavam em nossa volta, inclusive .
Irmãozinho? Eles eram irmãos?
— Qual é o seu problema? — Eu o perguntei, notando seu olhar aborrecido e irônico ao mesmo tempo.
— O meu nenhum. Já você parece irritada demais. — Ele levou o copo de isopor até a boca e deu um gole em seu café, e só então eu percebi que era dali que vinha o aroma. — Nossa, — ele fez um careta desagradável — esse definitivamente não é o melhor café que eu já tomei. Você quer?
— A única coisa que eu quero é que você suma daqui — Resmunguei, começando a caminhar para frente.
— Eu já havia notado isso, mas está um pouco difícil ficar… Longe. — Senti meu corpo querer parar de andar, parar de fugir dele, mas obriguei cada músculo a continuar se movimentando, embora seus passos sejam maiores e ele consiga me alcançar facilmente. — Eu gosto de ficar perto de você — Disse, apesar de aparentar ser sincero, ainda havia aquele tom de zombaria em seu timbre.
Eu continuei andando até chegar ao campus, onde o sol estava irradiando cada pedaço da grama e o ar estava fresco, parecendo clarear meus pensamentos.
— Você está brava por que eu atrapalhei sua conversinha com o ? — Ele perguntou. Praticamente gritou. Estava mais irritado agora e nem se esforçava para esconder aquilo. — Me poupe, . Eu te fiz um favor.
Por um instante, achei que ele fosse cuspir aquelas palavras, principalmente quando pronunciou o sobrenome de . Havia nojo e muito ódio envolvido — e eu estava começando a ficar curiosa pela história deles.
— Então não me faça favores — Eu gritei de volta para ele — O que você veio fazer aqui, afinal? Por que em cada canto que eu olho, você aparece?
Seus enigmáticos olhos verdes estavam estranhamente divertidos. Aquilo fez com que minha indignação aumentasse um pouco mais.
— Bom, — Ele colocou as mãos dentro da jaqueta e tirou o envelope do hospital de dentro dela — eu talvez teria poupado meus olhos de te ver conversando com se você não houvesse deixado isso aqui no meu carro. Quase de propósito, se posso dizer.
Eu suspirei, deixando um riso escapar.
— E eu posso saber qual a sua fascinante teoria para eu ter deixado isso no seu carro “de propósito”? — Eu fiz as aspas com a mão, causando uma curta gargalhada nele.
— É claro que pode — Ele murmurou, se aproximando muito mais do que outra pessoa se aproximaria. — Você sabia que eu ia vir aqui, como um verdadeiro cavalheiro que sou, lhe devolver. E essa seria uma ótima desculpa para me ver novamente, porque você pode até não querer admitir, mas você também gosta de me ter por perto. — Ele colocou uma das mechas de meu cabelo para trás, causando-me um arrepio involuntário. — Pelo menos é o que seu corpo mostra — disse, deslizando sua mão do meu ombro até chegar à palma da mão — Se voltar a te preocupar, diga não à ele. Diga que você não pode e não quer ir à festa com ele, porque você vai comigo.
— Isso é uma ordem?
— Claro que não, baby — respondeu. Sua voz calma, mas de autoridade. — Porém, se você aceitar ir comigo, eu te deixo chamar do que quiser.
Eu apenas movi meus lábios sem saber o que sairia dali, mas não antes das caixas amplificadoras de som anunciarem o meu nome, me tirando daquele transe e até então, me salvando de qualquer resposta que eu daria sem pensar duas vezes.
Eu vi ignorar o primeiro chamado, mas soltar minha mão em sinal de derrota quando eu fui chamada na segunda vez, no que presumo, pelo diretor. Eu voltei para dentro do edifício com as pernas um pouco bambas, tentando trazer a tona cada vez em que fui envolvida em alguma confusão no campus. Eu nunca havia visto o diretor, nem mesmo na minha entrevista de admissão, já que ele estava supostamente ausente naquela tarde.
O que eu sabia sobre ele eram apenas alguns boatos que ouvi no corredor, como quando Margaret Schwarzer cochichava para mim e para seu fascinante encontro com o misterioso diretor. “Ele é mais velho do que todos esses prédios juntos” ela disse, também comentando sobre suas rugas e o cabelo e a barba branca. Por um minuto, eu cheguei a me questionar se ela não estava descrevendo ou o confundindo com o papai Noel.
“Ele nunca aparece para nenhum estudante porque na verdade está morto”, comentou Abdul Abhammed, o aluno estrangeiro do terceiro ano, gerando a tal polêmica sobre o nosso diretor ser um fantasma. No final das contas, éramos só um bando de jovens que ainda acreditavam em histórias de terror, e eu tive a confirmação daquilo depois que passei pela secretaria da escola e adentrei ao grandioso escritório dele. A cadeira estava virada em direção às janelas, fazendo a sombra dos galhos das árvores refletirem seu rosto. Ele não era velho, não tinha barba e tampouco cabelos brancos.
Eu tossi para mostrar que estava lá e ele imediatamente se colocou de pé, abotoando seu terno azul marinho. Tinha esfíngicos olhos cor de ambar, uma pele bronzeada e o cabelo castanho. Parecia estar no auge de seus quarenta e cinco anos e sorria largamente para mim.
— É um prazer revê-la novamente, senhorita Hillebrand. — Disse, estendendo o braço.
— Não sabia que nos conhecíamos — Eu murmurei depois de apertar a mão ossuda dele.
— Digamos que eu seja um grande amigo da sua família. Eu praticamente a vi crescer.
— Engraçado… Você não me parece familiar.
— Crianças tem uma memória falha — Ele veio até mim e me guiou para uma poltrona, sentando-se em outra de uma forma que ficássemos de frente um para o outro. — E como vai as provas?
— Bem… — Respondo, sentindo que ele não está nem um pouco interessado em falar sobre aquilo — Mas não foi para isso que você chamou.
Ele sorriu malevolente.
— Você sempre foi muito esperta… Mas eu tenho lhe avaliado nas últimas semanas e… Tenho visto que você está um pouco afastada de seus objetivos.
— O quê? — Perguntei, notando sua profunda expressão de embaraçamento. — Eu não faço a mínima ideia do que o senhor esteja falando.
— Pois bem, me permita ser mais direto — Ele diz, se levantando e caminhando em direção às prateleiras repletas de livros e arquivos estudantis. — Eu não quero mais te ver com .
Eu engasguei com minha própria saliva, deixando a surpresa ser esbanjada em meu rosto.
— Como é que é? Eu não vejo onde isso lhe diz respeito. A escola não pode determinar com quem eu me relaciono.
— Não estou falando como o diretor e sim como seu amigo, Charlie. Nós dois sabemos o que esse garoto é e o que ele faz. Seu pai não ficaria contente de saber que você… Bem, anda passando tempo demais com ele.
— Meu pai não tem a nada a ver com isso — Retruquei, abismada pelo rumo que aquela conversa estava levando.
O diretor Charlie me observou por um minuto e então contornou a mesa, sentando-se na sua enorme cadeira de frente para a janela, mas com os olhos presos em meus movimentos.
— É claro que tem, querida — Ele exclamou, como se tivéssemos aquele tipo de intimidade — Seu pai, sendo um excelente policial da Scotland Yard¹, adoraria investigar a vida completa de quem quer que esteja no caminho da filha dele. E eu tenho a absoluta certeza que a vida de é… Muito agitada.
— Tudo bem, eu acho que entendi. — Falei, meu espanto não permitindo que eu dissesse algo mais elaborado. Eu me levantei para ir embora com as pernas mais bambas do que quando vim, me perguntando mentalmente se aquela conversa havia acabado de acontecer ou se era um truque da minha mente para me afastar de . Seja lá o que fosse, era loucura.
Eu fechei a porta da sala atrás de mim e caminhei olhando para a ponta dos meus pés até chegar de volta ao campus. Havia um estranho pressentimento em minha volta; uma sensação ruim de impotência e raiva. Algo que eu não sabia descrever e tampouco sentir, mas sabia que estava lá.
Eu ouvi chamarem meu nome atrás de mim, mas não me virei. Não queria ver ninguém ou conversar, só refletir sobre tudo aquilo que acabara de acontecer. Eu sabia que aquilo não se tratava apenas de , não pela forma que o diretor Charlie me olhou… Como se eu houvesse cometido pior dos crimes, seus olhos me cruciando, me queimando; era algo que ia muito além de mim e dele. Algo que ia muito além de todos que estavam envolvidos com ele. Quantos segredos uma pessoa é capaz de guardar?
— O que houve?
Eu pulei para frente, assustada.
— O que? — Sussurrei, ofegante — Ah, nada. Você me assustou.
— É, eu percebi. — pronunciou em voz baixa, mas sem perder sua pose autoritária — Eu te chamei várias vezes, mas… Você parecia estar em transe ou algo assim.
Eu me recompus em uma postura ereta, ajeitando os fios de cabelo que havia fora do lugar.
— Eu estava… — Meus olhos foram redirecionados para as câmeras de seguranças acima de nós, fazendo com que minha mente não consiga esquecer a voz do diretor Charlie. — Apenas pensando — Finalizei, voltando a andar.
Eu sabia que ele não iria cair naquela. é mais inteligente do que parece, e mesmo quando eu olho para trás e vejo seu olhar de desconfiança me avaliando, não consigo dizer uma só palavra que seja verdade.
— Então está bem. — Ele se manifestou, me alcançando — Vou passar às 21:00 para te pegar na sexta.
Antes que eu o perguntasse o que foi que nós marcamos para sexta-feira, minha memória fez com que eu me recordasse da festa. Embora grande parte do meu corpo estivesse implorando para que eu aceitasse, meu cérebro sabia que eu precisava recusar. E digamos que vê-lo irritado até me fornecia um pouco de divertimento.
— Sobre a festa… — Eu inicio dizendo, mas não sem antes olhar o gramado atrás de mim, encontrando cercado por alguns amigos da Whistmore University. Faço com que acompanhe o meu olhar até o garoto de olhos azuis, que apenas devolveu o gesto com um aceno. — Eu com certeza irei… Mas não com você.
Xeque mate, .

OBS: Scotland Yard é o maior departamento de polícia da Inglaterra. É igual ao FBI, mas britânico.


Capítulo 6


255 dias antes
A sra. Mitchell, professora de filosofia, perambulava pela sala de aula enquanto lia alguns trechos do livro que estávamos estudando naquele semestre. Eu estava particularmente apreciando a leitura, já que se tratava de uma das minhas obras preferidas, mas não parecia compartilhar o mesmo interesse que eu. Ela se remexia desconfortável na mesa ao lado e estava ocupada demais mandando mensagens para prestar atenção em qualquer outra coisa.
Do meu outro lado, estava , sorrindo largamente para o pedaço de papel que ele rabiscava distraído. não era como qualquer aluno, ele era mais bonito do que a maioria; mais atleta do que a maioria, mais engraçado do que a maioria e só Deus sabe o quanto, mais estúpido do que a maioria. Ainda assim, era um de meus melhores amigos e nós nos conhecíamos desde o terceiro ano do ensino médio. Mesmo que eu quisesse, eu não conseguiria me livrar dele.
Vi seus escuros olhos castanhos tirarem o foco do desenho aleatório e me encarem de forma descontraída. Ele levantou as mãos como quem pergunta “o que foi?” e sorriu com seus dentes perfeitamente alinhados. Não consegui ter outra reação senão sorrir de volta.
A professora iniciou uma sequência de slides com relação à filosofia e escreveu os detalhes sobre o seminário que iríamos fazer sobre “O mundo de Sofia”. Fora a leitura, passamos o restante da aula discutindo sobre o trabalho e nossas teorias sobre as tais cartas que Sofia recebia. Para quem ainda não havia lido, ficava o mistério no ar. Para pessoas como eu, que terminou a leitura de quinhentos e quarenta páginas em um pouco menos do que cinco dias, nada do que a sra. Mitchell dizia era uma total novidade, a não ser sua curiosa experiência o lendo.
— Então eu vou pedir o seguinte: quero que vocês se questionem quem são vocês, como Sofia, ainda no princípio da história. Escrevam sobre isso e reflitam se a criança que vocês foram um dia, gostaria de ser o adulto que vocês se tornaram, está bem? — A classe consentiu enquanto ela juntava as palmas da mão empolgada. — Os que questionam são sempre os mais perigosos. Responder não é perigoso. Uma única pergunta pode ser mais explosiva do que mil respostas. Pensem nisso.
O sinal dando fim àquela aula cortou a empolgação da professora, fazendo com que a maioria dos alunos se levantassem e saíssem dali quase que correndo.
Eu juntei minhas anotações e as coloquei debaixo do braço, vendo e se aproximarem.
— Então você vai à festa hoje à noite com o ? — O garoto de cabelo castanho claro perguntou, evidentemente notando a minha surpresa — Ah, todo mundo já sabe. — Todo mundo, quem? — Eu o questionei, com certo receio de sua resposta.
— Todo mundo que conhece ele — ou seja, o campus inteiro praticamente.
riu sem humor.
— Pelo menos estão falando dele, e não do .
— Qual o problema com ele? — murmurou quando deixamos a sala de filosofia para trás.
— Com ele, nenhum. Mas pelo menos o não é conhecido por ser um canalha, egocêntrico e mimado.
Eu visualizei sua expressão impulsiva enquanto ela ainda falava. Seus olhos dourados se prenderam em mim de repente, como se ela estivesse torcendo para que eu não dissesse nada, para que eu deixasse o que ela havia dito para trás. Notou que falou mais do que deveria no exato momento em que terminou.
— Mimado? — Suas pupilas ficaram dilatadas e sua respiração passou a correr mais rápido quando perguntou — O que você sabe sobre ele para julgá-lo dessa forma?
engoliu seco.
— É uma ótima pergunta — Indaguei, vendo-a suspirar.
— Eu não sei absolutamente nada sobre ele, só o que me contava. Foi apenas uma… Maneira de falar.
analisou por um tempo menor que eu e ficamos em silêncio por algum tempo, caminhando para as nossas respectivas salas.
— Fiquei sabendo que um dos jogadores do seu time quebrou a perna — Comentei com , atraindo sua atenção — Isso vai complicar para vocês nas semifinais, não?
— Talvez. É claro que um jogador a menos faz falta, mas temos os melhores de Cambridge; estou confiante — Ele disse, parando em frente à porta com uma grande e metalizada placa escrita “álgebra avançada”. quebrava o estereotipo de que atletas não eram inteligentes. — Eu vejo vocês na festa… Bom, se eu não estiver bêbado demais para reconhecê-las.
Eu e rimos e seguimos em direção à sala de sociologia, onde iria acontecer nossa última aula da semana. Atravessamos o pátio principal em silêncio, mas eu estava agradecida de não precisar dizer nada, pois sei que nossa conversa possivelmente não iria acabar bem. As coisas estavam estranhas entre a gente ultimamente. Não se tratava apenas do caso dela com , até porque aquilo já não era mais novidade para ninguém, mas sim de suas atitudes e como ela parecia estar sempre omitindo algo. Então para evitar mais problemas do que os que já estávamos tendo, era mais simples deixar o silêncio nos dominar.

Mais tarde no mesmo dia, eu estava dando voltas pelos cinquenta metros quadrados que tinha meu quarto, esperando pelo telefona que eu recebia todas as sextas naquele horário. estava terminando de se arrumar no banheiro que cheirava a incenso e tequila por conta do famoso “esquenta” que ela costumava fazer toda vez que ia à alguma festa. Perdi a conta de quantas vezes já tremi de medo achando que algum inspetor iria entrar ali e nos expulsar quando visse aquilo; felizmente, era mestre em cobrir seus rastros.
O som agudo do telefone ecoou pelo dormitório e eu corri até o aparelho que estava assentado sobre a mesa.
— Oi querida — A voz do meu pai do outro lado da linha soou com afeição — como vão as coisas?
— Bem — Respondi, me segurando para não citar o nome de , por mais que eu quisesse.
— De verdade? Você parece meio distante.
— Estou um pouco cansada, foi uma semana corrida. — Menti, ouvindo-o suspirar — Você já está na Inglaterra?
— Sim. Cheguei ontem de tarde. — Eu consegui ouvir a voz da minha mãe murmurar algo para ele, mas não identificar o que era — Sua mãe quer que você venha para casa nesse feriado, sentimos sua falta.
— Eu… Vou tentar — Sussurrei, querendo dar fim a aquela conversa. Eu não estava sendo honesta. Eu não iria tentar. Se possível, não iria pisar naquela casa nunca mais a não ser em datas comemorativas, daquelas que toda a família é obrigada a comparecer. Se eu não me sentia a vontade perto dos meus pais mesmo com todos os nossos familiares em volta, imagine com eles sozinhos.
Eu não os culpo por nada, e tão pouco posso reclamar da criação que eu tive. Não era um problema com eles, era comigo. É como se toda vez que eu olhasse para o meu pai, não sentisse coisa alguma que não fosse um vazio e um estranhamento curioso. Quem eram aquelas pessoas que viviam debaixo do mesmo teto que eu e que eu mal conhecia?
— Está bem — Ele disse, sua voz derretida como um pedaço de manteiga em brasa.
— Preciso ir, tenho umas coisas para estudar.
— Como quiser, meu bem. — Seu tom era amoroso, mas ainda sim vácuo. Era forçado. — Nós te amamos.
Eu não respondi antes de encerrar a chamada e jogar meu peso na parede da frente, deixando que a parte de trás da minha cabeça colidisse com o revestimento. Eu vi sair do banheiro com uma expressão confusa, como quem pergunta “o que foi que aconteceu?”. Fiquei grata por ela não ter perguntando, porque aquilo seria algo que eu não saberia responder. Talvez pelo fato de que nada havia acontecido — e eu me sentia com tanta raiva e indignação por saber que algo estava errado e não conseguir fazer nada para mudar aquela situação. Como eu poderia consertar uma coisa que não estava quebrada?
Eu passei por para chegar até o banheiro, onde abri a torneira para enxaguar meu rosto com água fria, deixando que meus pensamentos fossem lavados junto com minha pele.
Recuei de volta ao quarto e retorci o vestido por cima de minha cabeça, só então notando o quão curto e apertado ele era. Ao menos as mangas cumpridas ajudava a não ficar tão vulgar. Fiz uma careta em frente ao espelho e me sentei na cama para calçar minhas botas.
voltou da sacada com um sorriso um tanto quanto malicioso em seus lábios vermelhos, que combinava inteiramente com as pedras do vestido sutil que estava usando.
— Seu acompanhante está te esperando lá embaixo — Ela cantarolou, caminhando na direção de seu armário, de onde tirou um par de sapatos de salto agulha.
— Você me fez parecer uma garota de programa falando “acompanhante”.
Ela riu achando graça.
— Então, reformulando, Branca de Neve, seu príncipe encantado está esperando vossa majestade lá embaixo.
Eu assenti, deixando que ela desse um último retoque de blush com uma esponja em minhas têmporas. Agradeci por já ter chegado, pois caso ao contrário, ficaria ali o resto da noite tentando me convencer a usar um batom mais escuro do que minha boa vontade permitiria. Os corredores do alojamento estavam vazios e silenciosos; não porque estavam todos dormindo, mas sim porque todos daquele andar já estavam na festa. Eu tentei induzir a ir comigo e com , mas ela insistiu em esperar , que até então, mal havia dado sinal de vida.
Quando cheguei ao gramado, perto o bastante para me ver, ele saltou para fora do conversível branco e abriu a porta do lado esquerdo para eu entrar. Os bancos eram cobertos por couro bege e o interior do veículo cheirava à aromatizante, apesar do cheiro estar misturado com o perfume de .
— Você está incrível — Ele disse, se endireitando no banco do passageiro.
— Obrigada — Murmurei assim que ele deu partida no carro, pegando a 43-45 Hobson St em direção à King St.
Eu pensei em elogiá-lo de volta, mas eu particularmente não queria dar abertura para termos aquele tipo de conversa. Suas mãos seguravam o volante com leveza, deixando a mostra seus anos de prática com corridas, principalmente com as pistas molhadas pela chuva no final de tarde. Eu queria saber a história dele; como chegou até aqui e porque arrisca sua vida quase todas as noites por dez minutos de pura adrenalina. Ele não parecia ter nascido em um berço banhado a ouro ou ser tão egocêntrico quanto , mas a única coisa que eu tenho aprendido muito bem nas últimas semanas é que as aparências enganam.
— Você é sempre observadora assim? — Eu deixei meu devaneio para trás quando perguntou, sorridente. Eu fiquei em silêncio, sem saber exatamente o que responder, e ele pareceu entender meu desconforto — É isso que você está fazendo, não é? Está me investigando. Não é isso que jornalistas fazem?
Eu sorri um tanto sem graça. Ele era muito mais direto do que eu imaginava.
— Me desculpa, eu não quis te deixar incomodado.
tirou seus intensos olhos azuis da pista e os levou até mim por míseros segundos, fazendo com que minha pele ganhasse um tom avermelhado de vergonha.
— Não estou incomodado, . Faça isso o quanto quiser, por tanto que suas conclusões ao meu respeito sejam boas, é claro. — Ele disse, voltando sua atenção na estrada — Mas sinta-se à vontade para me perguntar o que quiser saber. Eu sou um livro aberto, ao contrário de certas pessoas.
— Já que é assim… Primeiro eu gostaria de saber como é que você sabe que eu faço jornalismo.
— Bem, isso foi um palpite, para ser sincero — Ele olhou para mim e sorriu.
Eu sorri de volta, não totalmente convencida, mas o bastante para esquecer aquilo.
— Você corre por diversão? — Pergunto, vendo-o franzir a testa.
— Mais ou menos. Eu vim de uma família humilde e na época que fui aceito na Whistmore, meus pais não tinham condições de pagar metade da minha bolsa, então…
— Você entrou para o mundo das rachas — Eu presumi, recebendo uma gargalhada dele.
— Não, . — indagou, parando o carro em um farol vermelho — Eu fui trabalhar em um café numa cidade aqui perto, mas não era o suficiente para eu conseguir me sustentar e ainda por cima, pagar meus estudos. Foi quando eu encontrei o .
Eu estreitei meus olhos e me inclinei para frente, ficando mais interessada no que ele tinha para dizer.
— Na verdade, o me encontrou. — Ele virou a cabeça rapidamente — Ele era meu melhor amigo. Meu irmão.
— E o que houve?
Ele fez uma careta, provavelmente se perguntando até que ponto deveria levar aquela conversa. Por favor, , não pare agora. Chegamos exatamente aonde eu queria chegar — na parte onde eu descubro quem é de verdade.
— É melhor deixar isso enterrado. — Ele exalou — Você quer um conselho? Seja esperta e fique longe dele. causa destruição em qualquer lugar que passa. Mas, de qualquer forma, ele não tem muito tempo.
— O que você quer dizer com isso? — perguntei, vendo suas palavras enviarem um arrepio até minha coluna vertebral.
Suas pupilas dilatam com a minha pergunta, fazendo-o perceber que seu discurso de ódio foi totalmente impensado.
— Nada demais, sério — Ele sorriu forçado, estacionando em frente à casa que parecia tremer com a música altíssima e a quantidade de pessoas. — Deixa isso para lá, está bem?
Eu concordei brevemente, o assistindo descer do carro e abrir a porta para mim, estendendo sua musculosa mão. Eu não conseguia identificar quem estava cantando, mas sabia que era alguma música que estava fazendo sucesso ultimamente. O jardim estava cheio de copos descartáveis e havia algumas pessoas deitadas sobre a grama, bem provável que estivessem bêbadas demais para se levantarem e irem embora.
Meus tímpanos vibraram quando adentramos na república por conta de todas aquelas pessoas que gritavam e pelas batidas sonoras. Eu me senti observada quando agarrou meus dedos e me puxou para um lugar onde não estivesse tão cheio quanto à entrada. Algumas pessoas nos olharam, mas a maioria pareceu nem notar minha presença ao lado dele. Mesmo com as botas acrescentado uns seis centímetros a mais na minha estatura, era muito mais alto do que eu — não o suficiente para ser considerado bizarro, mas ainda assim, consideravelmente maior, quase fazendo com que eu desaparecesse ao seu lado.
Eu parei de me sentir tão mal por usar um vestido que cobria só o início das minhas coxas quando vi a roupa que grande parte das garotas estavam usando. Se é que aquilo poderia ser chamado de roupa e não de um pedaço de pano rasgado. Mas nem aquilo já me surpreendia tanto.
A neblina produzida pela máquina de fumaça fazia com que as luzes fluorescentes se destacassem no meio de tanto cinza. Todas aquelas cores, sons e gargalhadas me deixaram tonta. Eu agarrei a manga da camiseta de para evitar cair caso minhas pernas falhassem, e ele pareceu entender o que estava acontecendo porquê se virou rapidamente e me segurou com as duas mãos, mantendo-me em pé.
— Acho que sou anti festas — Eu gritei no ouvido dele, fazendo sorrir.
Passamos pelo corredor em direção à cozinha, onde todas as bebidas estavam sobre um balcão americano. Haviam dois triângulos formados por copos em cima da mesa, e dois grupos separados jogando beer pong. Eles estavam muito ocupados com o jogo para notar que estávamos ali, até mesmo quem eu conhecia, como o próprio . Eu pensei em cumprimentá-lo, mas preferi não atrapalhar sua espetacular jogada. Aquele era um jogo relativamente importante para quem frequentava esse tipo de festa. caminhou até a bancada e misturou algumas bebidas estranhas, até passarem de uma coloração transparente para azulada. Ele me entregou o copo e me guiou de volta para a lobby lotado, parecendo muito mais cheio agora do que antes.
De repente, todas as pessoas que estavam dançando ou que estavam simplesmente paradas, olharam para a porta disfarçadamente, mas não capaz do ato passar despercebido. Eu não consegui evitar olhar também, já sabendo o que iria encontrar. estava com seu habitual cabelo bagunçado e vestia roupas escuras, entretanto que a blusa fosse de uma tonalidade que eu não conseguia identificar bem na distância em que estávamos. Ele mal colocou os pés para dentro da casa e já lhe entregaram dois copos de bebida, e eu mentalmente tentei entender o porquê daquilo. Foi então que eu vi os dedos de sua mão entrelaçadas com as de uma garota morena; os olhos tão verdes quanto os dele. Se não fosse pelo tom de pele um pouco mais escuro e os cabelos mais negros, eu poderia afirmar com toda a certeza que eram gêmeos.
Ela sorriu com seus dentes perfeitamente alinhados e brilhantes para o garoto que os entregou as bebidas e virou-se para , cochichando algo em seu ouvido que o fez sorrir maliciosamente.
Eu preferiria não ter visto aquilo.
E então seus olhos trilharam um caminho até mim, e eu me virei tão depressa que senti os ossos de meu pescoço estalarem com o gesto brusco. Pela fresta que havia entre as pessoas que tampavam nossa visão um do outro, eu consegui ver sua atenção redirecionada para os próprios pés; a testa enrugada, o olhar distante, notoriamente pensativo. Eu degluti todo o líquido de dentro do copo em um só gole, sentindo de imediato o álcool se espalhar por minhas veias, alcançando meu cérebro e chegando ao organismo. — Você sabe dançar? — gritou, mas eu só consegui ouvir fragmentos.
— O que? Dançar? De forma alguma — Eu tentei argumentar, mas ele já estava me puxando para o meio da pista. Aquilo era injusto se colocasse em pauta a minha força com a dele.
Não estávamos dançando no ritmo da música, mas sim no nosso próprio ritmo, como se não houvesse ninguém ali senão apenas nós dois. Por um instante, eu obtive sucesso na minha missão particular de não pensar em ou algo que meus pensamentos relacionassem com ele. Senti-me particularmente vitoriosa.
apertou meu corpo contra o dele, muito mais do que deveria. Mas eu não reclamei, até porque, não estava necessariamente ruim. Pelo menos eu não sentia que tudo o que ele contava era uma mentira. Mas aquele não era o tipo de pensamento que eu queria ter quando estivesse com ele, então bloqueei minha mente de pensar naquilo.
Eu ri com a minha imaginação recriando a cena onde eu cairia se ele não estivesse me segurando tão firme quanto estava, fazendo com que sua expressão passasse de suave para curioso.
— O que foi? — Ele perguntou próximo ao meu ouvido.
— Tenho certeza de que se você não estivesse me segurando, eu já estaria estilhada no chão com todos me olhando. Eu realmente não sou boa com dança.
Ele sorriu largamente.
— Se te conforta, eu não te deixaria cair e tão menos que os outros rissem de você. E você não dança tão mal assim.
Eu inclinei meu rosto para baixo, encarando a ponta de meus sapatos por alguns segundos, até que a cor corada de meu rosto desaparecesse um pouco. Com o canto dos olhos, eu notei que a garota que veio com estava me analisando descaradamente, mas àquela altura, toda a mistura de bebidas que havia feito estava fazendo efeito e eu não me sentia nem um pouco intimidada com seu olhar ameaçador, mesmo que seu grande par de olhos verdes-oliva estivessem soltando farpas e que ela parecesse querer me jogar no meio de uma fogueira para oferecer meu corpo às bruxas de salem.
Talvez ela só estivesse irritada porque havia a deixado de lado, mas eu também estava, porque naquele momento, eu me senti mais observada do que antes e a ideia de ele estar me assistindo de algum lugar e eu não estar o vendo também me desagradou.
— Acho que preciso de outra bebida — disse, me conduzindo até a escada de mármore, onde eu sentei no terceiro degrau. — e você também. Eu já volto, me espere aqui.
Eu assenti, o vendo caminhar com passos largos até o cômodo ao lado. Eu encostei a cabeça no corrimão e fechei os olhos, sentindo meu estômago queimar na medida em que eu o apertava com a mão. Um som diferente dos outros dividiu minhas orelhas ao meio, mas eu não parecia ser a única a ter ouvido, porque as pessoas começaram a evacuar a casa rapidamente, todas correndo em direção à porta e às janelas. O som ficou mais alto e só então eu consegui raciocinar. Era a sirene de um carro de polícia, e pela altura, não parecia estar muito longe.
Pela velocidade que toda aquela gente corria para longe, se algum policial encontrasse alguém aqui, o resultado não iria ser nada bom. Eu me levantei e mesmo que cambaleando e com a visão um pouco turva, caminhei em direção à saída, que já estava quase completamente vazia. Eu consegui descer a escadinha sem nenhum problema, mas o salto de uma das minhas botas afundou na grama, fazendo com que eu caísse e molhasse meus joelhos de orvalho.
Eu fechei meus olhos, imaginando quão encrencada eu estaria se me achassem daquele jeito e ainda por cima, em uma festa banhada a bebidas e drogas, mas antes que eu conseguisse pensar em todas as consequências, senti duas mãos me puxarem, me forçando a ficar de pé. Eu nem precisei me virar para trás para saber que não era . Mesmo não o conhecendo, ele seria incapaz de me pegar com tanta rispidez quanto . Mas eu não podia nem reclamar, não naquele momento, pelo menos.
Ele me puxou até o carro e me colocou no banco do passageiro, prendendo os cintos de segurança de quatro pontos, como se eu tivesse dez anos de idade e precisasse de tudo aquilo. E então contornou seu Jeep e adentrou o veículo, saindo disparado e sem direção, adentrando qualquer rua que nos levasse para longe daquele bairro.
— Você tem algum problema com álcool? — Ele perguntou sem me olhar — Porque está meio claro que você é bem fraca para bebidas.
— Não que eu te deva algum tipo de satisfação, mas eu virei um copo cheio de coisas misturadas — Eu tentei me defender, mas ele apenas deu um riso curto, como se aquilo não significasse nada. Talvez — só talvez — ele estivesse certo e eu fosse realmente muito fraca para bebidas.
— E a sua namorada? — Eu balancei a cabeça, minhas palavras saindo em forma de tosse. Eu choraminguei quando fez uma curva na Trumpington St, me causando náuseas. — Você a deixou lá?
— Primeiro, meu único amor sou eu, ou seja, eu não namoro. Segundo, se você não está a vendo aqui, é obvio que eu a deixei lá. E antes que você me pergunte, não, ela não está sozinha nesse exato momento. E sim, ela sabe perfeitamente como agir em situações como essa, diferente de você.
— Está bem — Eu disse, sem me alterar.
Ele me olhou por um breve segundo e soltou um suspiro um tanto que derrotado.
— Eu não quis ser rude, . Sinto muito.
O encarei surpresa. Era uma daquelas milagrosas vezes em que parecia estar sendo sincero.
— Por que as pessoas fugiram daquele jeito?
— Bem, — ele franziu a testa — sempre há muitas drogas nesse tipo de festa e havia muitos rachadores lá, a polícia com certeza iria reconhecer algum rosto e isso acabaria complicando todo mundo.
— Inclusive você?
— É. Inclusive eu.
— Por que você nunca foi pego?
me encarou com uma condescendência divertida.
— Sabe que eu me faço essa pergunta quase todos os dias? — Ele sorriu. Não o bastante para suas covinhas ficarem à mostra ou ele expor seus dentes, mas ainda assim, um sorriso. — Não sei. Acho que tenho sorte.
— Não acredito em sorte.
— Eu também não acreditava — Admitiu, sua voz quase sumindo com o barulho alto do motor.
— E o que te fez mudar de ideia? — Perguntei, o vendo ficar meditabundo.
— Acho que, ás vezes, quando nos sentimentos em desespero ou vazios, a gente começa a acreditar em coisas que sobrepõe nossas crenças.
me falou de você — Eu anunciei sem pensar, me arrependendo no exato instante em que disse. Será que eu não conseguia, uma vez na vida, não causar problema algum?
tirou a atenção da passarela que estávamos passando e me olhou confuso.
— Ele disse que… — Eu engoli seco, quase o vendo dar meia volta no primeiro contorno e voltando para tirar satisfações com antes mesmo de eu começar a falar — Ele disse para eu ser inteligente e ficar longe de você.
Ele murmurou algo para si mesmo e riu baixinho.
— E você é inteligente, ? — seu tom sussurrando meu nome me soou como um convite. Para o que exatamente, eu não sabia.
— Eu acho que sim.
— Inteligente o bastante para se afastar de mim?
Eu não disse nada a princípio sobre isso. A lua acima de nós estava iluminando o rosto dele, fazendo seus olhos parecem azuis ao invés de verdes. Eu não podia dizer que não conseguia desviar meu olhar do dele, porque eu conseguia. Apenas não queria.
— Não. Eu acho que não. — Respondi finalmente, vendo um sorriso satisfeito surgir em seus lábios naturalmente rosados.
Ele dirigiu por mais alguns quilômetros em silêncio até chegarmos a uma lanchonete de estrada, que me lembrava daquelas dos anos sessenta. Fiquei feliz em ver que não éramos os únicos clientes, assim os riscos de sermos sequestrados e largados no meio de um matagal diminuíam para 0,5%.
Eu desci do carro e o olhei curiosa, o vendo retirar uma jaqueta azul marinho de couro e jogar sobre minhas costas. Ela era pesada e grande o bastante para que sobrasse alguns quartos nas mangas, mas ainda assim, cortava o um pouco da sensação gélida do frio.
Ele colocou o braço em torno de mim antes de adentrarmos na lanchonete, que fez um agudo barulhinho de sinos batendo quando a porta abriu e fechou. Nós nos sentamos em uma mesa com uma grande janela com vista para o estacionamento, mas de frente para o céu estrelado e a lua cheia.
Uma garçonete de uniforme cor-de-rosa caminhou em nossa direção com um bloquinho de papel em mãos e um sorriso forçado entre os lábios borrados com um batom da mesma tonalidade que sua roupa.
pediu um café puro e sem adição de açúcar, enquanto para mim, era um chá com leite bem doce e com canela. Assim que a garota saiu — praticamente devorando com os olhos, apenas para adicionar… — ele olhou para as chaves do carro e depois para mim, movendo seus lábios como se quisesse dizer alguma coisa.
— Pode ser que tenha razão — Ele sussurrou em tom de alerta, seu lábio superior se curvando lentamente. — Você deveria se afastar de mim… Ou melhor, eu deveria me afastar de você.
— E se eu não quiser? — Retruquei, minhas mãos entrelaçadas uma na outra.
Ele colocou o cotovelo sobre a mesa jogou o cabelo para trás, sorrindo de forma dolorosa.
— Você não entende.
— Então me mostra. — Eu supliquei — Me faça entender.
Seus olhos se estreitaram. Ele estava pensativo de novo, decidindo o que deveria fazer.
— Eu sou um caos. Tenho algo ruim dentro de mim… Eu estrago as coisas. Eu estrago tudo. Sempre.
— Felizmente, eu sou boa em consertos.
Suas sobrancelhas se juntaram, a expressão um pouco surpresa e divertida. Ele moveu novamente os lábios para dizer algo, mas foi cortado pela presença da garçonete com os nossos pedidos; ela colocou as duas xícaras na mesa e foi embora sem dizer uma palavra.
— Eu tenho algumas perguntas para lhe fazer — Eu disse, dando um gole do meu chá com leite.
— O que te faz pensar que eu as responderia? — Ele perguntou.
Olhei para cima até encontrar seus olhos por baixo de seus longos cílios. Ele me deixava muito frustrada com aquela bipolaridade.
— Suas mudanças de temperamento estão… Me matando.
— Então vamos lá, pergunte o que quiser — se redimiu, relaxando os ombros na cadeira estofada.
— Se a garota da festa não era sua namorada, por que você a levou?
— Não há nenhuma lei que me proíba de sair com outras pessoas, mesmo que elas não sejam minhas namoradas.
— Isso inclui eu e ? Então eu posso sair com ele sem nenhum problema?
— Faça o que você quiser, . — Ele parou, rangendo seus dentes com um desprezo repentino.
— Você nunca gostou de ninguém?
Ele exalou o ar antes de me responder, passando a mão no rosto.
— É claro que sim. Que tipo de ser humano você acha que eu sou?
Acho que você não gostaria de saber.
— Não, eu digo… Você nunca amou ninguém? — Perguntei, ficando curiosa pelos seus olhos que estavam ganhando um brilho estranho.
Seu rosto ficou frio, sem expressão — nostálgico.
— Já.
— O que aconteceu?
— Ela morreu, há muito tempo atrás. — Sua voz estava difícil de ouvir. Eu olhei para ele, mas ele estava olhando para o lado de fora da janela.
— Sinto muito — Murmurei, tentando manter minha voz neutra.
— Eu tinha nove anos, … Já passou. — Havia um traço de mágoa em sua voz e mais alguma coisa que eu não sabia identificar. Ele ergueu uma sobrancelha e bebericou seu café forte. — Foi melhor assim. Eu a amava demais, e tudo que é demais estraga.
Eu não tinha certeza do que responder, então me calei, sem fazer mais nenhuma pergunta, porque é geralmente no silêncio que encontramos as respostas.
Depois de terminarmos nossas bebidas, deixou uma nota de cinquenta libras sob o copo e se levantou, me chamando com um gesto para fazer o mesmo.
Ele saiu andando na frente e eu logo atrás, embora que não parecesse que estávamos juntos. Eu entrei no carro em seguida dele, que me olhou com uma fisionomia estranha, seus olhos enigmáticos e frios.
Ele se curvou cautelosamente em minha direção, o bastante para que se afundássemos em um silêncio nunca visto antes; um que eu até escutaria as batidas de seu coração. Sua respiração estava ofegante e ele parecia estar fazendo esforço para conseguir dizer algo.
— Se você for inteligente, ficará longe de mim. — Disse, olhando para a ponta dos dedos e depois para mim novamente — Eu sou uma má ideia.
— Está bem. — Eu murmurei, me ajeitando no banco.
Eu gostaria de ter dito mais, mas eu não conseguia. soltou um longo suspiro e deu partida no veículo, deixando aquele cenário de lanchonete dos anos sessenta para trás. A casinha de palha que até então estávamos construindo foi soprada aos ares pelo lobo mau, e naquele momento eu me senti uma completa estranha — mais do que eu realmente era — ao lado dele. Era como se tudo o que havíamos conversado não fizesse mais sentido, e eu estava com um desconhecido numa estrada escura e inabitável.
Sua postura era frígida e reflexiva. Os olhos estavam presos ao caminho, mas a mente parecia vagar.
Ele levou seu polegar até o botão redondo do aparelho de rádio, o ligando. O chiado da caixa do som era incomodante, mas ao menos não ficava um silêncio tão desconfortável naquele pequeno espaço.
Eu gostava da música que estava tocando — ou os trechos que eu conseguia entender pelo mau sinal. Felizmente, eu a conhecia quase de cor e não precisava ouvi-la para cantarolá-la em pensamentos. A letra não era tão animada se comparada com a melodia, já que se tratava de um homem que estava morrendo por consequência de um amor não correspondido. Trágico; mas a tragédia faz a arte.
Estudar a letra da composição me distraía.
Nada nos salva da morte, ela é irremediável; pelo menos o amor nos salva da vida. Quando a pessoa não o tem, não é culpa dela de se sentir vazia. Um ser humano pode viver trinta dias sem comida, mas quanto tempo ele consegue viver completamente solitário, isolado com ninguém mais do que sua alma vácua e a solidão lhe devastando?
Eu trinquei meus dentes pelo frio, provavelmente mais alto do que o normal, já que me olhou curioso mesmo com alguns bons centímetros nos distanciando. Ele mexeu nos controles do volante, diminuindo o volume do rádio e aumentando o aquecedor pelo o que eu imaginei ser o máximo.
Uma gota de água pingou no para-brisas, seguida de mais milhares delas. A chuva transformou toda a visão em nossa frente em bruma, com um céu tão nebuloso quanto a cerração pelo lugar em que passávamos. Um raio lilás e silencioso cortou as nuvens.
— O que é essa corrente? — Ele perguntou de repente, apontando com os olhos para o colar que estava para dentro do meu vestido.
— Foi um presente do meu pai — Respondi, tentando puxar o acessório. E teria sido uma tentativa bem sucedida se o fecho não tivesse agarrado em uma linha da roupa.
— Como são os seus pais?
Eu não entendi bem o porquê, mas estremeci com a pergunta. Mesmo contra a minha vontade, meus pensamentos voaram para as lembranças que eu havia da época em que morava com os meus pais na capital inglesa. Eu não tinha do que reclamar, isso era verdade. Tive a oportunidade de ter uma ótima educação em colégios privados, viagens caras nos finais de ano e todas as melhores coisas que o dinheiro pode oferecer. Mas ainda assim, havia algo que nunca havia se encaixado. Era como se eu os olhasse e não visse nenhum sentimento ali, como se meus pais fossem dois atores de uma peça de teatro e eu estivesse interpretando o papel de outra pessoa. E tudo só piorou depois da morte do meu avô, o único que não falava como se tivesse acabado de decorar o texto de um roteiro.
Eu ainda me lembrava de que um pouco antes dele falecer, estávamos em uma espaçosa sala de espera na UTI. Minha mãe estava quieta, os olhos olivas marejados de lágrimas e o rosto vermelho e inchado como de quem havia chorado por horas. Eu sentia pena dela porque sabia que ele era o único que havia sobrado de sua pequena família. Mas o meu pai mantinha sua estatura esbelta, os olhos verdes intimidantes e a fisionomia relaxada. Ele nem estava se esforçando para fingir que se importava.
— Não chore, . — Ele disse, tirando um lenço de dentro de seu terno chique demais para ser usado em um hospital e me entregando. Sua voz era rígida e severa. — Todos irão te deixar um dia, ficar chorando não irá trazer ninguém de volta.
Eu sabia que a vida ia acabar em algum dia e que esse dia poderia ser daqui a dez minutos, dez meses ou dez anos. Mas nós nunca estamos preparados para perder alguém. — Entende como é estar em casa, mas sentir que não está de verdade em casa? Como se… — Eu olhei para , me detendo em sua expressão indecifrável.
— Como se o quê? — Perguntou com a voz suave, quase convidativa. — Como se eles não fossem seus pais? Como se você não passasse de um estranho entre mais dois estranhos? — Eu franzi a testa e sem dizer mais nada, assenti. — É, eu entendo.
E então ficamos em silêncio novamente, apenas com o barulho quase inaudível do chiado do rádio. Ele virou em uma estradinha estreita e de repente estávamos cercados pelos prédios e construções antigas de Cambridge novamente. O carro estava em uma velocidade muito mais alta do que a permitida, pois em pouquíssimos minutos, ele estava estacionando em frente ao alojamento.
— A salvo. — Ele disse, me olhando — Pense duas vezes da próxima vez que aceitar um convite de . Nunca se sabe quando vai estar lá para te salvar.
Havia uma sombra de humor em suas palavras.
— Não vai haver próxima vez — Disparei, ganhando outro sorriso. Eu estava começando a gostar daquilo.
— Assim espero — sussurrou, fazendo uma careta e só então destravando as portas.


Capítulo 7


254 dias antes

Harry


Não deveria ter sido tão difícil deixar sair do meu carro e, posteriormente, sair do meu campo de visão também. Mas foi. E Muito. Eu não queria deixá-la ir; queria contornar aquele quarteirão e levá-la para longe dali, onde eu poderia ouvir somente o som de sua respiração e a sua voz entrecortada, hesitante. Mas aquilo não era certo, e eu já estava agindo muito mais como um psicopata rastreador do que pretendia.
Assim que seu corpo passou da porta para dentro do alojamento, eu dei partida e segui até o fim da rua, adentrando o caminho em direção à cidade de Stamford. Eu não estava de fato cansado para dirigir quase oitenta quilômetros, entretanto, quanto mais eu me afastava de Cambridge, mais os meus músculos iam sentindo o peso de outra noite mal dormida.
Meu braço ainda doía quando eu fazia certos movimentos pelo acidente da semana passada, mas nada que alguns comprimidos não ajudassem. Em compensação, eles me faziam ficar acordado durante a noite por conta da cafeína.
Stamford não era uma cidade tão grande quanto parecia. Seus trinta mil habitantes era composto basicamente por pessoas da terceira idade, o que me favorecia, já que durante a madrugada, quando fazíamos algum racha para passar o tempo, não haviam muitos jovens saindo de bares ou caminhando pelas ruas. Era um bom lugar para manter as aparências, mas principalmente para esconder o meu nome do meio.
Se estivéssemos em Londres, as chances de me reconhecerem como um Edwards seriam muito grandes. E eu também não ficaria nem um pouco contente de ter minha mãe vigiando cada passo que eu desse. A última coisa que iriam imaginar é que um jovem de vinte e dois anos, milionário e festeiro, estaria morando em uma cidade cujo local mais quente às sextas e sábados é o bingo e o restaurante mexicano do Hernandez.
Eu acionei o botão da garagem, adentrando o subsolo tão rapidamente que julguei nem ter sido visto pelas câmeras de segurança do edifício. Estacionei na minha determinada vaga e caminhei em direção ao elevador particular de uso exclusivo para quem morava na cobertura, no caso, eu.
Aquele era o melhor e mais caro apartamento da cidade, mas se colocado em pauta com o meu na capital britânica, seria facilmente taxado como uma espelunca.
Retirei os sapatos antes de entrar e coloquei meu polegar sob o discreto codificador na parede, destravando a porta. Do lado de dentro, o mesmo processo, porém, para reativar a tranca. Todo cuidado ainda era pouco.
Joguei o casaco e os sapatos de lado e acendi a lareira elétrica, fazendo com que a minha espaçosa sala de estar fosse aquecida. Enquanto a televisão suspensa ligava, me deitei no meu macio sofá de veludo alemão, observando a cena do filme que passavam no aparelho. Não havia som, somente a imagem. Eu gostava de imaginar o que os personagens iriam dizer, não de ouvir aquilo que eles já — provavelmente — haviam ensaiado diversas vezes.
Fiquei feliz de ter adormecido na mesma rapidez com que fechei meus olhos.

Algo estava tocando. Eu sabia daquilo porque sentia meus tímpanos vibrarem desconfortáveis com o som estrídulo e, ao mesmo tempo, familiar. Minhas pálpebras se levantaram involuntárias, me causando certa dormência no osso do supercílio. Eu demorei alguns segundos para identificar de onde vinha aquele barulho, só então percebendo que meu interfone tremia na base da bancada. Com nenhuma pressa, eu me coloquei de pé e caminhei até o objeto, atendendo-o sem qualquer vestígio de simpatia.
— Alô.
— Boa tarde, senhor . Desculpe-me pelo incomodo…— eu consegui reconhecer a voz do porteiro facilmente; meus olhos foram erguidos até o relógio digital pregado à parede, que até então, era quase sempre inútil para mim. Fiquei um tanto quanto surpreso pelo quão tarde era. Eu nunca dormia tanto assim. — O senhor Dante está aqui, acompanhado do senhor .
Tentei me lembrar se havíamos combinado algo, mas nada me veio em mente. Eu não gostava de receber pessoas na minha casa, principalmente as que eu não havia tanta intimidade, como Dante, que até onde eu tinha conhecimento, não passava de um mísero aprendiz de mecânico bajulador. Eu não consegui achar um motivo coerente para ele estar me procurando às quatro horas da tarde e ainda mais com .
— Deixe-os subir. — Eu disse por fim, desligando sem ouvir a resposta.
Não demorou mais do que um minuto para que os dois estivessem parados em minha porta marrom-tabaco de um alto nível e exclusivo sistema de blindagem. Eu a abri e me virei, caminhando para a sala sem nem sequer olhá-los.
— Bom te ver também, irmão. — disse, seu tom naturalmente humorado. Ele sentou-se na poltrona em minha frente, enquanto Dante permanecia em pé no canto da parede.
— Está esperando um convite formal para sentar? — Perguntei.
— Você parece um pouco mal-humorado — Dante retrucou enquanto andava com passos de tartaruga até o sofá ao lado.
Eu apenas o dei uma rápida olhada, sem nenhuma expressão ou sem querer dizer alguma coisa. Eu apenas não gostava de estranhos pisando no meu tapete Belgravia Denim de três mil libras, havia algum problema nisso? 
— O que rolou na festa ontem para o Pat ter me ligado quando, só para deixar nítido, eu já estava na metade do caminho, dizendo que não era mais para ir? — perguntou, se levantando e caminhando até a cozinha. Eu ouvi o som de copos de vidro sendo colocados sob o balcão de mármore e algum líquido os enchendo. De repente, ele estava voltando com três copos On The Rocks de — a julgar pela tonalidade — Black Russian.
— A polícia resolveu dar as caras por lá. Você foi com a ? — Ele me encarou antes de me entregar a bebida, parecendo um pouco surpreso com a minha pergunta.
— A gente acabou discutindo pelo telefone porque eu estava atrasado e ela disse que não iria mais.
— Você sabia que ela está doente? — moveu os lábios para dizer algo, mas nenhuma sombra de voz foi emitida. — Eu precisei levar até Londres para buscar os exames da sua namorada, já que você não apareceu. E até onde eu sei, o hospital em que fomos é especializado em pronto-socorro de pacientes com um estado grave e em pessoas com doenças terminais.
Ele estava paralisado. Em seus olhos havia uma névoa de dúvida e espanto que eu nunca tinha visto antes. Ali estava a resposta para a minha pergunta: era evidente que ele não sabia.
— Ela não… Não está doente. Eu saberia se estivesse. — Disse, seu timbre na defensiva. Eu não tinha tanta certeza se ele mesmo acreditava no que estava dizendo, mas também não conseguia culpá-lo por aquilo. Nos conhecíamos há anos e eu sabia o quanto o namoro dele com havia sido conturbado. Pensar no tempo me fez questionar o porquê de eu só ter descoberto a existência de agora.
Enquanto pensava em algumas hipóteses, minha atenção foi redirecionada para Dante, que continuava em silêncio e de postura curvada, o copo da bebida já vazio. Eu quase havia me esquecido dele.
— E então… — Eu disse, atraindo sua atenção. — Posso saber o porquê de você estar aqui ou vamos brincar de adivinhação? 
Antes que ele dissesse algo, se levantou, engoliu a mistura em um só gole e suspirou um tanto quanto irritado.
— Eu… Preciso fazer uma ligação. — Murmurou, olhando para os próprios pés enquanto se afastava da sala e subia as escadas para o andar dos quartos.
— Sei que isso vai parecer bem inusitado e eu não sei até que ponto vai interessá-lo, mas eu achei que deveria lhe contar uma coisa — O garoto com cabelo cor de laranja e sardento iniciou, me deixando um pouco curioso com o que ele tinha para dizer — , alguns dias atrás, pediu para que eu fizesse uma pesquisa sobre… Bem, essa garota que você anda encontrando ultimamente.
? — Sussurrei em tom de pergunta, vendo-o assentir. — E o que você encontrou? 
— Bem, ela nasceu em Brighton, mas cresceu em Londres; Egerton Crescent, para ser mais específico. Estudou na James Brush até os nove anos e depois se mudou para o norte. Só voltou a morar na capital quando fez quinze anos. A mãe dela era residente em situado hospital, mas parece que não gostou muito de lá porque três meses depois, ela desapareceu.
— Desapareceu? — Eu perguntei em tom de ironia — Ninguém desaparece assim.
— Eu sei. E sabe o que é mais estranho? Não existe nenhuma sombra do pai dela. Nada. É como se ele não existisse, assim como o restante da família dela. Não há nenhum registro, absolutamente ninguém. E agora a mãe dela…
— Me avise antes se você for dizer que ela deu um sumiço nos próprios pais, aí nós iremos precisar de uma bebida um pouco mais forte do que esta.
— Não foi o que eu quis insinuar. Mas você tem que admitir que é, no mínimo, estranho. Talvez signifique algo.
— Talvez sim, talvez não. — Decretei, me sentindo desconfortável com o rumo que aquela conversa estava tendo. Eu o dei as costas quando me levantei, caminhando até a lareira ainda acesa. — Eu e você não estamos nem próximos de sermos amigos, então por que está tão preocupado com isso? 
— Posso não te conhecer muito bem, mas eu conheço o e quando eu entreguei a pasta de para ele… Aquela expressão que ele fez… — Ele deu uma breve pausa, olhando para a palma das mãos
— O que havia na pasta? — Perguntei apreensivo.
— Apenas algumas fotografias antigas, desenhos de mãos pintadas com tintas de quando ela era criança e coisas assim. Nada que fosse deixá-lo daquela forma.
Ele estava me olhando cautelosamente, bem provável que esperasse uma reação não-tão-calma quanto a minha naquele momento.
— Está bem. Obrigado por… Avisar — Agradeci, vendo-o franzir a testa de forma que sua confusão ficasse exposta. Ele colocou pequeno copo sob a mesa e se levantou, olhando para o chão e depois voltando seus olhos cinzentos para mim.
— Escute, … — Disse, quase que hesitando — Eu não sei quem é essa garota ou o que ela fez para ser tão importante para você, mas tem algo de muito errado com ela. Se eu fosse você, eu me afastaria.
Eu ri mentalmente quando ele me deu as costas, sumindo pelo corredor atrás da porta. Me sentindo quente e confuso, eu encarei a lareira em brasa, começando a questionar tudo o que eu achava saber.
Havia sim algo estranho com ela, era inegável. Mas quanto mais perigoso fosse aquele sentimento que eu não conseguia rejeitar, mais tentado a ela eu ficava, como uma droga altamente viciante.
— Conseguiu falar com ela? — Perguntei quando meus reflexos aguçados conseguiram captar um vulto passar atrás de mim, minha voz soando mais baixa e calma do que o costume.
Eu me virei de frente para , o encontrando encostado no batente da porta que ligava a sala com o corredor. Ele parecia estar um pouco surpreso pela minha pergunta ao mesmo tempo que tentava se mostrar indiferente. Eu o conhecia bem o suficiente para saber que sua testa estava enrugada porque ele estava preocupado e os braços cruzados na defensiva por não querer mostrar que ele se importava com alguém, principalmente na minha frente, já que toda a sua energia era gasta com as tentativas dele de ser igual a mim e de me fazer enxergar o quão bom ele era para andar comigo. Mal sabia ele a sorte que tinha por não sermos iguais.
— Não, foi direto para a caixa postal.
— Então vamos até lá. — As palavras saíram de uma forma estranha da minha boca, como se não fosse eu quem as dissesse.
me olhou abismado, como se eu estivesse dizendo que havia uma bomba nuclear dentro do meu forno. Eu contrariei minha mandíbula, tentando não rir com o pensamento.
— Você não acha que tem ido muito à Cambridge nos últimos tempos? Quer dizer… Você nem pisava lá antes…
— Antes do que? — Minha voz pingou irritação quando ele hesitou em terminar o que estava dizendo. Nunca consegui entender o porquê das pessoas começarem algo se não pretendem termina-lo.
— Antes do quê não, . Antes de quem.
Ao contrário do que pensei, seu julgamento não teve nenhum efeito em mim. Talvez porque meu senso de justiça era muito grande e eu sabia que em partes, ele estava certo. Nunca persegui alguém antes, muito menos uma mulher, já que para alguém com a minha aparência, o meu dinheiro e a minha fama, o simples ato de estalar os dedos e ver as mais belas garotas da região caindo aos seus pés era normal e bem mais fácil — tanto que chegava a ser entediante.
Não que eu estivesse a perseguindo, mas era algo muito próximo disso.
— Bom, mas é claro que isso não é do respeito de ninguém, senão o seu — Ele disse por fim, baixando a guarda. Eu não gostava de quando ele baixava a cabeça para mim, como se eu fosse superior a ele ou algo assim, mas naquele momento eu o agradeci por não ter de me fazer respondê-lo.
Por mais irritante que fosse, ele era o que eu tinha mais próximo de família agora.
Sem dizer nada, eu caminhei até o chaveiro ao lado da porta e balancei as chaves do Jeep, chamando sua atenção.
— Vamos, antes que eu mude de ideia. — Murmurei, tentando parecer compreensível.
Enquanto ele dramatizava aquele momento como se fosse a decisão mais importante de sua vida, eu me encostei nas paredes gélidas do elevador, sentindo o frio do metal causar arrepios em minha pele mesmo que coberta.
Ele surgiu momentos depois, seus olhos azuis celeste mesclando com tons mais escuros, como quando ele fica irritado.
Havia uma estranha sensação de que seria outro dia daqueles.

Eu estava tamborilando meus dedos no volante, impaciente. Já havia pouco mais de meia hora que eu estava estacionado ali, de frente para a grande árvore que e estavam discutindo; não que eu estivesse interessado no que eles falavam, mas aquele estava sendo o meu único passatempo — e mesmo que não fosse nada divertido, ainda era melhor do que ficar vagando por aí.
Enquanto estávamos na estrada em direção à Cambridge, eu concordei em não sair do carro, tão menos se fosse para procurar . tinha razão quanto ao ponto de estarmos andando muito juntos; aquilo não iria ser nada bom para ambas partes, e a última coisa que eu pretendia era prejudicá-la.
O som estridente do sinal soou quase perfurando os meus tímpanos, fazendo-me lembrar que aquele foi um dos motivos que me fizeram desistir da universidade. O campus, antes cheio, se transformou em um aglomerado de veteranos e calouros. Alguns rostos me eram familiares, principalmente os femininos. Outros me interessaram, mas nenhum que prendesse minha atenção por mais do que cinco segundos.
Eles tinham uma certa emoção no olhar, como se estar ali fosse a melhor coisa do mundo; como se eles não fossem todos praticamente iguais, manipuláveis e hipócritas. Mas eu também era, mais do que qualquer um. E no fundo, eu apenas sentia inveja por não ser um deles, cuja maior preocupação é quantas pessoas vão pegar na próxima festa ou se serão aceitos nas repúblicas mais disputadas.
Eu estava sentindo falta de quem eu era antes de me tornar quem eu sou.
A porta do passageiro ao meu lado sendo aberta me despertou dos meus devaneios. Eu estava ciente de que era quem estava se sentando a, apenas, alguns centímetros de mim. Seu longo cabelo escuro todo preso para trás em um penteado que parece não ter dado muito certo.
Minha voz prometendo ao há algumas horas atrás que eu manteria distância dessa garota surgiu em meu subconsciente, mas em minha defesa, foi ela quem entrou voluntariamente no Jeep.
— O que você está fazendo aqui? — Perguntou assim que fechou a porta, excluindo o barulho que havia lá fora.
— Quem invadiu meu carro foi você. Eu quem deveria estar fazendo as perguntas.
Ela cruzou os braços e olhou na direção contrária como se estivesse constrangida, provavelmente pensando no quão irritante era o fato de eu estar certo.
— Mas você não me respondeu… Por que veio? 
— Bom dia para você também — Respondi, me divertindo com sua expressão raivosa — Só vim acompanhar o .
— Acho que a conversa deles não está sendo das melhores. — Sussurrou, me fazendo tirar os olhos dela por alguns instantes para observar que rumo aquela conversa estava ganhando.
— Bem, — Eu observei apontando para o peitoral de como se ele houvesse dito algo absurdo — seja lá o que eles estejam falando, isso não é problema meu e acredito que também não seja seu.
se fez de ofendida pelo meu tom de voz.
— Sempre egocêntrico.
Eu a encarei sorrindo e, por mais que admirasse seus esforços para não retribuir o gesto, me senti vitorioso quando ela devolveu o sorriso.
virou a cabeça para o lado oposto, a princípio, me fazendo acreditar que ela estava tentando observar a conversa de com , mas havia algo de preocupante em seus olhos. Ela parecia estar em constante alerta. — Isso não é um reality show, — Eu disse, fazendo sua atenção ser redirecionada a mim — ninguém está te observando.
— Ah… É, eu sei — Gaguejou, me deixando ainda mais intrigado — É coisa da minha cabeça.
— O que é coisa da sua cabeça? 
— Nada. — Ela respondeu, entortando o nariz.
Eu queria comentar com ela sobre o que havia ocorrido naquela manhã, mas parecia que algo já estava atormentando-a e falar sobre as suspeitas de Dante e a respeito dela só iriam deixá-la pior.
Permanecemos em silêncio por um bom tempo; tempo o suficiente para eu me questionar quem era aquela garota que estava sentada ao meu lado e o motivo de haver uma espécie de corrente invisível — literalmente patética — que a puxava sempre para o meu caminho.
Eu queria que ela me olhasse, assim, eu poderia avaliar o que ela estava pensando.
— Quer sair daqui? — Eu perguntei, sem pensar ou hesitar.
Ela finalmente levantou a cabeça.
— Eu acho que… Estamos passando tempo demais juntos. Mais do que deveríamos.
— E qual é o seu medo? Eu sou um bom motorista, não sou? — Disse, fazendo-a rir. Eu gostava do som da risada dela e do que aquele riso provocava em mim. Gostava muito mais do que julgava certo. Eu não era aquele tipo de cara.
— É, se estivéssemos… Sei lá, na Alemanha, talvez eu te diria que é um bom motorista.
— Você já esteve lá?
— Na Alemanha? — Ela enfatizou — Não, mas está em segundo lugar na minha lista secreta de viagens que ainda irei fazer.
Eu ri enquanto ela falava, imaginando quais os possíveis lugares que ela havia colocado nessa tal lista. Pelo seu jeito imprevisível, não me surpreenderia se no primeiro lugar estivesse Neft Daslari.
— E de quem é a honra de estar em primeiríssimo lugar em sua lista nem-tão-secreta de viagens? 
— Paris… — Ela sussurrou para a minha total surpresa e perplexidade por ela estar a menos de três horas da França e nunca ter estado lá.
— Essa é a hora que você me conta o quão difícil foi sua infância a ponto de você nunca ter estado em um lugar que é praticamente aqui do lado?  — Ela riu sem jeito, me deixando um pouco constrangido por ter sido tão rude sem ao menos ter realmente intensão de ser. — Bem… Posso dirigir um pouco rápido demais, mas sou uma ótima companhia.
— Companhia para o que? 
— Se você quiser, qualquer hora eu posso te acompanhar até Paris. Eu conheço bem a cidade e juro que sou um bom guia turístico.
deu uma risadinha que fez transparecer sua exaltada surpresa.
— Você está me zoando? 
Eu a olhei sério.
— Não faço o tipo brincalhão, .
— E por qual motivo eu deveria aceitar seu convite? — Ela perguntou, sua voz soando singela e ao mesmo tempo provocante.
— Porque você quer aceitar tanto quanto eu quero que você aceite.
Ela riu e puxou o ar para me responder, mas um estalo no vidro a assustou, nos fazendo tirar a atenção um do outro e encarar a janela ao seu lado, que agora, estava sendo rebaixada.
a olhou primeiro e depois redirecionou o seu olhar mais hostil para mim, como se fosse eu quem a estivesse obrigando estar ali. Mas eu não me importei com a raiva que estava espantada em seu semblante porque sabia que eu não era o culpado dela — e mesmo que fosse, continuaria não me importando. — Não sabia que você estava aqui. — Ele sussurrou para , mas com os olhos ainda em mim.
— Já estava de saída mesmo — Ela resmungou enquanto abria a porta. Antes de sair, olhou para trás, seus olhos castanhos puros, intensos e nômades. — Eu aceito — Murmurou baixo, quase que inaudível.
Antes que eu pudesse responder, ela já estava de pé, dando passagem para um furioso tomar seu lugar. Ele bateu a porta e fechou o vidro, cortando a visão dela para dentro do carro. Eu conseguia vê-la, mas ela não. Depois de alguns segundos, nos deu as costas, desaparecendo além das árvores do campus.
Eu olhei para , só então notando que ele já estava me olhando.
— Como foi a conversa? — Perguntei.
Ele não respondeu.
A falta de resposta dizia tudo.
Liguei o motor do Jeep e ajeitei o retrovisor interno, começando a me sentir levemente desconfortável pelas constantes olhadas de para mim. Eu quase conseguia sentir algo queimando sob minha pele.
— Se você quiser dizer algo, então diga de uma vez.
Ele bufou como se fosse uma criança de dez anos e cruzou os braços. Algo me dizia que naquele instante, nossa conversa não se tratava mais da relação dele com .
— Tem certeza que quer fazer isso? — Perguntou. Não precisava ser mais especifico para eu saber que ele estava falando de . A pergunta dele não era uma que eu estava preparado para responder de imediato. Eu senti a espécie de máscara que eu usava escorregar pelo meu rosto e eu não conseguir fazer nada para colocá-la de volta no lugar.
— Sim — Indaguei, sincero. — Eu nunca tive tanta certeza de algo assim como tenho certeza dela.
— Espero que esteja certo disso, porque depois não vai ter mais volta. Ela não pertence ao nosso mundo e uma vez que você assumi-la, estará estampando o nome dela à todos. As consequências disso não afetarão só você ou até mesmo nossa equipe, mas afetarão ela também — Rosnou por entre dentes — Você está preparado para envolvê-la em algo assim?


Capítulo 8


253 dias antes


Minha mesa preferida do almoço estava preenchida por rostos desconhecidos. Eu me sentei de frente para e , ambos pensativos demais para notar minha recém chegada. Os outros assentos estavam ocupados por duas meninas com camisetas de uma das fraternidades locais e alguns dos rapazes do time de lacrosse. Eu não fazia a menor ideia do motivo deles estarem ali, mas a última coisa que eu pretendia era dar abertura para eles iniciarem uma conversa comigo.
— Oi sumida — Disse , tocando minhas costas com a ponta dos dedos e sentando-se ao meu lado. Estava com uma touca enterrada na testa e um sorriso alegre entre os lábios. De alguma forma, a presença dele me trouxe uma estranha sensação conforto.
— Não nos vemos a o quê, dois dias? — Comentei sorrindo, causando um curto riso nele.
— O suficiente para me deixar sentindo sua falta. Está vendo o que você provoca nas pessoas? — Eu ri e ele também. — Me dói na alma saber que daqui a uma semana os jogos irão acabar e eu terei que voltar para a minha cidade.
— Parece que você gostou de Cambridge.
— Não foi de Cambridge que eu gostei. — Ele pegou uma batata da minha bandeja e a levou até a boca, mastigando com certo ar de arrogância, assim como faz, mas de forma mais sutil. Por um instante, me crucifiquei mentalmente por tê-lo comparando ao e, ainda pior, por pensar nele em todos os momentos do dia. — Sabe… Eu ainda não me desculpei pela sexta passada. Sinto muito por ter te perdido na festa.
Eu ergui meu olhar direto para seus olhos azuis, concordando com a cabeça porque sabia que ele estava sendo sincero.
— Tudo bem, não se preocupe com isso. Já passou.
— Não, sério. Eu sinto muito mesmo. — Ele se aproximou mais do que deveria, quase mesclando seu corpo com o meu no banco. Eu olhei de soslaio para o restante da mesa, notando que algumas pessoas nos olhavam disfarçadamente, ou ao menos tentavam ser discretas. — Quero te recompensar por aquilo, e apesar de te conhecer tão pouco, vou arriscar dizer que abriu um parque de diversões incrível em Huntingdon, acho que você iria gostar. Tem até um circo e tudo mais.
Eu encarei minhas mãos, pensativa e um pouco sem graça em dizer não. Ele era um cara legal, mas eu estava envolvida em muita coisa; se as pessoas já estavam começando a comentar sobre meus constantes encontros e desencontros com , não imagino o que falariam se me vissem daquela mesma forma com . Não era aquele tipo de reputação que eu queria ter logo no meu primeiro ano.
— Está tudo bem se você não quiser me responder agora — Ele sussurrou, exibindo um sorriso tímido e suave — Mas promete que ao menos irá pensar no assunto?
— Eu prometo. — Sussurrei de volta.
E então se levantou, me deu uma piscadela e sibilou algo de despedida. A porta do refeitório rangeu quando foi aberta, fazendo alguns estudantes olharem com curiosidade para ele, que não deu nenhuma importância, sumiu atrás da porta de duas folhas.
— Parece que agora o meu novo emprego será de assessora de imprensa — disse quando eu me virei, pegando uma das batatas já frias. Ela provavelmente percebeu o meu desentendimento, pois fez questão de explicar — Você está começando a ficar… Comentada.
— Comentada como?
Vi sua sobrancelha sendo erguida e, então, não precisava mais de resposta.
Olhei para a pilha de comida intacta na bandeja de , que parecia muito distante para sentir vontade de comer. Preocupar-me com o que ele estava pensando tirava a minha atenção sobre o que as pessoas estavam “comentando” de mim.
— Aconteceu alguma coisa? — Perguntei a ele, provocando a atenção de para a conversa também.
Ele parou de olhar para o chão e levantou a cabeça.
— O que? Ah… Não. Só estou pensando no que farei esse feriado. — respondeu num tom meio duvidoso de se acreditar.
— É véspera de natal, você não vai passar com sua família?
— Não, não vou… É complicado. — Ele deu um sorriso fraco. — Eu nunca vou para casa.
Eu não conseguia imaginar como era a família de porque nunca havia ouvido falar dela. Sabia que ele ficava na universidade sozinho durante os feriados, mas até então, não sabia que nem no natal ele não voltava para casa.
se calou, mas sabia que ela estava se sentindo tão mal por ele quanto eu.
— Bem, pode ser que você prefira ficar aqui, mas se você quiser, a casa dos meus pais tem um quarto de hóspedes fantástico. — Eu comentei, vendo um sorriso ser estampado em seus lábios finos.
— Seria ótimo. — Ele murmurou.
Senti-me levemente aliviada pela sua presença em casa no final de semana; ao menos, meus pais iriam ter que manter as aparências de casal feliz ao invés de ficarem discutindo e quebrando metade dos objetos que há lá dentro em pleno natal. Eles odiaram que alguém descobrisse que não há um pingo de amor e compaixão naquele casamento aleivoso.
Quando o sinal tocou, todos os estudantes se levantaram, pegando seus livros sobre as mesas e seguindo em direção aos corredores. se despediu de mim e com um aceno, saindo junto com o time de lacrosse do qual fazia parte.
Enquanto caminhávamos pelo corredor para a aula de sociologia em silêncio, eu notei que ainda não havíamos tocado no assunto da conversa que ela teve com ontem à tarde. Quando cheguei ao nosso quarto, ela não estava lá, e quando ela voltou, eu já estava dormindo. Hoje de manhã parecia estressada demais, então preferi deixá-la em paz até que se acalmasse. Mas, no fundo, eu sabia que ela estava arrumando desculpas para não falar sobre aquilo comigo.
— Você ainda não me disse o que aconteceu entre você e ontem. — Indaguei, recebendo um olhar repressivo dela.
— É que… Ora, ora, ora… Veja quem nos deu o ar da graça… De novo! — Ela sussurrou, já atravessando a porta da aula de sociologia.
— Pronunciei com a voz baixa, me virando para trás de uma forma nada discreta. De repente, uma onda de adrenalina passou pelo meu corpo, tomando conta de mim e fazendo com que meus pés parecessem estar galgando por uma corda bamba.
Pela primeira vez, eu senti o tão famoso frio na boca do estômago, e não gostei da sensação. Eu queria vomitar ali mesmo, sem me importar se o lugar era apropriado para tal ato ou não, mas fiquei sem reação, eu nem ao menos podia me mexer. E aquilo era tão patético que minha interna indignação me causou falta de ar.
O termo “borboletas no estômago” nada mais é do que uma forma poética do seu corpo dizer o quanto você está intensamente e incontrolavelmente fodido.
Charlie, nosso diretor, estava ao seu lado com um semblante sério e arriscadamente raivoso, mas parecia querer esconder aquelas emoções por debaixo de seu sorriso forçado. Ele passava despercebido porque a maioria dos estudantes que ainda circulavam pelos corredores mal sabiam que o diretor estava vivo e menos ainda que ele fosse um homem com menos de quarenta e cinco anos que mais parecia ter saído de um catálogo da Calvin Klein.
Pensar daquela forma me fez questionar se ele apenas não obedecia alguém ao invés de realmente mandar. Ele parecia ser mais uma fiel peça de xadrez do que o verdadeiro rei.
Os olhos de encontraram os meus por um milésimo de segundo e então foram desviados, como se eu fosse um objeto qualquer esquecido no fundo da gaveta. Ele nem sequer se preocupou em olhar para trás quando me deu as costas, sumindo nas curvas dos pilares, assim como Charlie, que o seguia cautelosamente.
Eu respirei fundo e dei um passo para trás, abrindo a porta da sala de sociologia com o calcanhar e depois me virando para todos que já estavam em seus devidos lugares. Atravessei aquele espaço até chegar ao fundo da sala, onde joguei minha bolsa no chão, retirei meu laptop de uma das divisórias e naufraguei na cadeira, agradecendo aos deuses por aquela ser uma aula menos fatigante do que as outras que eu já havia tido no dia.
— Por que você está assim? — Eu ouvi um sussurro ecoar atrás de meu ouvido esquerdo, fazendo com que eu olhasse de relance para trás.
— Não é nada, só estou um pouco cansada — Murmurei de volta para , juntando todas as madeixas de meu cabelo em uma mão e o prendendo no topo da minha cabeça.
— Eu conheço o seu nada e ele quase sempre significa tudo. — Ela disse, visivelmente insatisfeita de saber que eu estava escondendo algo dela. Agora ela ao menos sabe como eu tenho me sentido diariamente.
— A gente pode conversar mais tarde? Quero prestar atenção. — Eu falei, dando fim àquela conversa. Eu ouvi suas costas batendo na madeira da cadeira e o seu suspiro pesado. sempre odiou quando eu mudava de assunto assim, quando eu preferia guardar o que estava sentindo para mim ao invés de compartilhar com ela. Acho que era isso o que nos distanciava, os segredos que escondíamos uma da outra. O medo de mostrar quem somos e o que sentimos faz com que a distância se transforme em um abismo.
Quando aquela aula chegou ao fim, eu recolhi o meu material e o joguei dentro da bolsa semi-aberta sem me preocupar de fechá-la já que meu próximo destino seria a sala de aula ao lado, leitura e produção de textos.
não me seguiu dessa vez, já que agora seria geometria descritiva para ela.
Como já era de costume, eu caminhei para a minha carteira e desabei no assento, começando a sentir meu corpo inerte e sonolento. Eu deitei a cabeça sobre meu braço direto em sentido à janela e a última coisa da qual me lembro foi dos constantes passos e vozes das pessoas que estavam chegando.

Fui forçada a acordar pela formigamento doloroso que havia acabado de começar; primeiro na ponta dos dedos e depois seguindo para o resto do meu braço. Minha visão estava meio turva e o ar gélido deixou minhas narinas fechadas. Eu estava particularmente desnorteada.
— Em que aula estamos? — Perguntei baixo para a garota de cabelos azuis em minha frente. Ela quase nunca falava com ninguém e estava sempre sozinha, embora parecesse uma pessoa muito mais legal do que muitos a julgavam.
— Leitura e produção de texto — Respondeu em um tom sarcástico, como se aquilo não fosse óbvio. Talvez ela não fosse tão legal assim.
Eu me ajeitei na cadeira e encarei a lousa digital lotada por citações filosóficas dos mais variados poetas, sentindo uma leve preguiça de precisar copiar tudo aquilo numa folha. Seria muito mais fácil se o Dr. Konnough deixassem os alunos colocar em prática a tecnologia moderna e copiar tudo o que ele passava em blocos de notas online.
Eu bufei enquanto jogava todo o meu cabelo para um lado, virando a cabeça para a direção oposta. Meu coração deu um pulo inesperado quando fui aturdida por um sorriso exageradamente sedutor e pretensioso.
Meu horror estava tão claro que, mesclado com a minha falta de jeito, deixei todos os livros que eu havia posto em cima da mesa caírem, provocando um barulho estrondoso que incentivou todos os estudantes — inclusive o professor — a tirarem a atenção da aula para me olhar.
— Surpresa? — perguntou, se curvando para pegar os livros. Eu me concentrei bem o bastante para não, acidentalmente, tocar em suas mãos na hora de pegá-los de volta.
— O que você está fazendo aqui? — Questionei em voz baixa, notando um ligeiro sorrisinho ser aberto no canto de seus lábios. Ele parecia estar achando graça da minha reação. Eu também acharia se estivesse no lugar dele.
— Você nunca vai parar de responder minhas perguntas com mais perguntas? — Disse, ainda sorrindo. — É um desperdício gastar todo o meu QI assistindo filmes da década de setenta, ouvindo Death Cab For Cutie e comendo frango frito todos os dias.
Eu tentei imaginá-lo fazendo tudo aquilo, mas tudo o que me vinha em mente eram muitas mulheres, as mais diversas drogas e bebidas e um chapado demais para se auto reconhecer na frente do espelho.
Era óbvio que ele estava tirando sarro de mim.
— E eu também sinto falta da comida da cafeteria. — Completou depois de alguns segundos em silêncio. — E queria ficar mais perto de você.
Precisei de muito esforço mental e físico para não sorrir. Obviamente que ele estava tentando estimular alguma atitude minha, o que não estava lá para impossível, considerando que eu quase nunca sabia quando ele estava sendo irônico ou sendo sincero.
— E pra isso você precisava se matricular na universidade de novo?
Ele se inclinou para o lado, ficando mais próximo.
— Em primeiro lugar, eu não me matriculei, apenas destranquei minha matrícula. Em segundo, ainda não é permanente. Vou ficar essa semana para ver se quero voltar a frequentar as aulas, mas não tenho nada garantido, senão a compaixão de Charlie em me deixar retomar de onde parei.
Assim que ele terminou de falar, eu desliguei. As lembranças de um diretor nada simpático me vieram à tona. Charlie deixou bem exposta sua aversão por , por que ele o deixaria voltar com tal facilidade?
— E você precisava sentar justamente aqui? — Tentei colocar um pouco de indiferença em minha voz, enquanto apontava com o olhar para a cadeira ao meu lado ocupada por ele.
— Na verdade, não. Mas eu não gosto de ser bajulado às 14:00 da tarde. — Comentou, jogando a cabeça para trás. De uma maneira mais discreta, eu acompanhei o gesto, encontrando um grupo de garotas acenando para ele, que ficaram exageradamente felizes quando retribuiu com um sorriso sem mostrar os dentes. E então ele se voltou para mim, que me recompus rapidamente na carteira. — Melhor deixar pra depois.
Eu me inclinei para frente, fingindo interesse na leitura que o Dr. Konnough fazia sobre alguma citação de Antoine de Saint-Exupéry, mas havia um silêncio enigmático que não me deixava prestar atenção em nada senão em meus pensamentos irracionais que me auto-desafiavam a ver até onde eu conseguia ir com . É claro que havia uma parte minha que queria distância dele, provavelmente a responsável. Mas eu não conseguia decidir qual dos dois lados tinham mais abundância sobre mim.
Eu enlouquecia quando estava perto dele, e enlouquecia duplamente estando longe.
— Quais são os seus planos para o feriado? — Ele queria saber. Estava me olhando fixamente, com atenção, mas um pouco pensativo.
— Vou jantar com os meus pais e no sábado e depois talvez eu volte para o Campus. — Disse, querendo me bater por ter dito aquilo tão facilmente.
— Por que está incluso no seu jantar em família? — Perguntou.
— Somos amigos e eu não quero deixá-lo sozinho aqui.
Um sorriso sarcástico se espalhou por seu rosto.
Antes que eu pudesse pensar em mais alguma coisa para dizer, o sinal anunciando o final das aulas soou, o que fez se levantar de imediato e caminhar para fora da sala. Com toda a lentidão provocada pelo meu sono de outra noite mal dormida, eu guardei meus livros dentro da bolsa e arrumei minha cadeira e a dele, que estava atrapalhando a passagem de outros alunos.
Segui em direção a porta depois que quase todos já haviam ido embora, sendo uma das últimas a sair. Quando cheguei ao corredor, fiquei surpresa de ver que me esperava encostado em um dos armários, olhando para a sala em que estávamos.
Ele sorriu quando me viu passar, começando a caminhar ao meu lado.
— Não gosto de ser seguida. — Murmurei, vendo um genuíno ar de divertimento ser estampado em seu riso baixo.
— Estou apegado, anjo.
Ele deu um passo para mais perto, fazendo nossos braços se tocarem. O toque fez meu corpo tremelicar. Eu odiava o efeito que ele tinha sobre mim, e odiava mais ainda a cogitação da ideia dele saber que conseguia provocar aquilo.
Eu o olhei de relance, notando que seu semblante agora estava sério. Sua postura mudou de descontraída para ereta, com um ar de imponência muito maior do que antes e, só quando eu levantei o olhar para explorar o corredor, avistei reclinado na parede, conversando distraído com um garoto do quarto ano, mas que parecia ter acabado de sair do ensino médio.
Seus olhos azuis foram imediatamente conduzidos para nós, e assim que passamos por ele eu senti a tensão gravosa que havia entre os dois.
Continuei andando por uns cinco metros, só então notando que estava sozinha. Olhei para trás, ligeiramente preocupada com o que iria encontrar. estava parado na frente de um raivoso, que segurava seu antebraço de uma forma bruta. Eles estavam, provavelmente, criando diversas situações aleatórias onde um matava o outro em seus pensamentos de ódio.
Eu me posicionei ao lado dos dois, notando que apertava o braço de tão forte que as veias deles estavam saltadas e roxas.
— O que você está fazendo aqui? — perguntou baixo. Havia muito mais do que ódio nas palavras dele. Havia ira, uma repulsa e um rancor grande o bastante para que me deixassem assustada.
sorriu, mas não pareceu divertido.
— Eu ia te perguntar o mesmo, mas estou pacífico hoje. — Ele deu uma leve piscadela na minha direção, atraindo o olhar de para mim. — Fica longe dela.
— Não vamos fingir que você só quer estar com ela para me provocar.
O garoto do quarto ano, que antes conversava com , saiu quando percebeu que aquela não era uma simples discussão. E e eu deveria ter feito o mesmo, mas fiquei lá, na espera de que acontecesse alguma coisa e na esperança de que não acontecesse nada.
— Acho melhor você se afastar dele, . é uma pessoa perigosa. Ele já te contou que o melhor amigo morreu há dois anos por…
. — pronunciou, quase cuspindo o nome dele de tanta raiva e nojo.
— Conte pra ela, . Conte o que você fez. Explica como seu melhor amigo morreu naquele acidente por sua causa.
Eu tremi, dando um passo para trás. percebeu que eu recuei, pois sua expressão mudou de raivosa para preocupada.
— O melhor amigo dele é o . — Eu cacarejei.
— O outro melhor amigo… — disse, sorrindo, contente pelo o que estava conseguindo promover. — .
Eu nunca tinha ouvido falar dele, mas vi os olhos de oscilarem quando o citou. Eu não queria acreditar no que estava ouvindo; não conseguia imaginar que , mesmo com seu temperamento difícil, fosse capaz de machucar alguém. Entretanto, parecia tão convicto no que dizia que ficava custoso não crer nele.
— Eu não… — começou, mas respirou fundo e soltou o ar pelo nariz, fechando os olhos por míseros segundos. Ele estava fazendo um enorme esforço para se controlar, aquilo estava evidente. — Eu não sabotei o carro dele.
deu uma risadinha para dentro, erguendo as sobrancelhas.
— Isso é o que você diz. Parece que ser mentiroso é de família, né?
— Do que você está falando? — perguntou, novamente, parecendo prestes a perder a cabeça.
riu, dessa vez, mais alto.
— Pergunta para a sua mãe, ela deve saber. — Disse, e então olhou para mim. — Cuidado, , ele não…
Deixa-a fora disso! exaltou, dando um soco no metal do armário com seu punho. Os nós de seus dedos estavam brancos e o barulho foi tão alto que até mesmo aqueles que estavam em aula saíram de suas salas para ver o que havia acontecido.
deu uma rápida checada em mim e em todas as pessoas que estavam olhando e sorriu de canto.
— Você sempre adorou plateia, não foi?
tirou o punho do armário e olhou para trás, encarando todas as pessoas que o encaravam. Ele deu uma rápida olhada para e saiu andando em direção a saída, onde alguns estudantes estavam aglomerados.
deu um passo a frente, mas eu hesitei para trás, mantendo uma distância boa entre nós dois. Ele sibilou um pedido de desculpas que eu não dei muita atenção, pois a essa altura, estava mais preocupada em achar , que havia sumido no meio de tanta gente.
Eu dei as costas para , ignorando o que ele tinha para dizer. Do lado de fora do monumento, ainda que longe, eu vi encostado em uma macieira. Os raios solares deixavam sua pele translúcida e os olhos verdes ficarem ainda mais claros. Suas bochechas estavam vermelhas, provavelmente porque a raiva ainda presente em seu cérebro, fazendo todo o seu rosto ganhar um tom rosado.
A camiseta preta que vestia não conseguia exibir direito todas as tatuagens que ele tinha, mas era a primeira vez que eu as via tão expostas. Seus lábios estavam descascados e secos, e ele ainda conseguia piorar a situação os mordendo, como uma criança irritadiça de dez anos de idade.
Foi a primeira vez que eu quis, mais do que qualquer outra coisa, beija-lo.
— Tudo bem? — Eu perguntei, me aproximando.
Ele tirou a atenção das maçãs presas aos galhos e me olhou.
— Você acredita nele?
Não precisava ser mais específico para eu saber que se tratava do que havia contado a poucos minutos atrás.
— Eu não… Sei. — Anunciei, recebendo um sorriso afetado dele. — Não quero acreditar, mas você também não negou.
— É uma longa história. — Ele argumentou, recolhendo algumas pedrinhas do gramado e depois as jogando longe, uma por uma.
— Tenho tempo.
Ele deu uma curta e baixa risada sarcástica.
— Não é assim que as coisas funcionam, amor.
— Então me mostre como funciona. — Eu murmurei tão confiante quanto pude, diante a tudo que estava acontecendo. Uma das pedrinhas que ele jogou quase acertou uma menina que passava desatenta por ali. Por sorte, a pedra quicou no chão e rachou ao meio. — Você precisa se acalmar.
O rosto de sempre foi uma máscara. Eu nunca conseguia nem de perto imaginar o que ele estava pensando, mas experimentei um misto de confusão e desejo quando ele segurou minha cintura com as duas mãos, fazendo nossos lugares se inverterem. Eu senti o tronco da árvore se chocar contra as minhas costas, mas não liguei para a dor e nem para o formigamento que logo iniciou. Eu não ligava para mais nada e tão pouco conseguia pensar em algo que não fosse nele e em como estávamos perto um do outro.
— Tem razão, preciso mesmo. — Ele disse, olhando de relance para a minha boca e depois para os meus olhos.
Eu não queria que ele parasse, mas não podíamos nos expor daquela forma na frente de todos. Todas as minhas promessas de sempre resistir ao charme de estavam indo por água a baixo, e eu sequer me importava com aquilo no momento.
— Vou te levar em um lugar no domingo. — Sussurrou, sorrindo.
— Que lugar? — Minha pergunta o fez rir. Agradeci mentalmente pelo humor dele estar melhorando.
— Não vai ter mais graça se eu te contar. — Ele disse, e então abaixou a cabeça, ficando pensativo por alguns instantes. Seus braços estavam fazendo uma espécie de barreira que não me deixava sair da posição que eu estava, mas não que eu quisesse também. Algo que ele pensou fez seus olhos perderem o recente brilho que haviam ganhado. — … Não posso confiar em você se você não confiar em mim também.
— Confiar em mim para quê? — Questionei, recebendo um olhar estranho dele.
Eu fiquei quieta. ficou quieto. Naquele instante, eu tive a confirmação do que ele estava escondendo alguma coisa; algo que ia muito além do que eu imaginava e que só aumentava o meu desejo de saber o que era.


Capítulo 9


248 dias antes


Quando estacionou o carro de frente para a minha casa, numa cidade a pouco menos de vinte minutos de Londres, fomos imediatamente recebidos pelo Sr. Patrick, nosso mordomo e leal amigo de minha mãe, que nos esperava na varanda com um sorriso cordial nos lábios. Assim que passamos pela porta de entrada, uma sensação de déjà-vu invadiu meus sensores. Talvez fosse o cheiro dos móveis ou os milhares de quadros que haviam espalhados pelas paredes cautelosamente decoradas pelas mãos dos arquitetos mais famosos que o dinheiro pode oferecer.
A escadaria de granito levava ao corredor dos quartos, por onde minha mãe saiu vestindo um vestido vermelho justo até um pouco acima de sua canela e saltos do Christian Louboutin. Seu cabelo estava preso no topo da cabeça, deixando a mostra suas orelhas esculpidas por um par de brincos de rubi que ela havia ganhado de aniversário do meu pai há alguns anos e desde então, o usava em quase todas as datas comemorativas possíveis.
Seus sapatos faziam um eco no piso de porcelanato na medida em que ela se aproximava, parando no último degrau, acrescentando alguns centímetros à sua baixa estatura.
— Oi meu amor, — Ela sussurrou, puxando minha cabeça para os braços dela e me afagando — eu senti tanto a sua falta. Que bom que você está aqui.
Eu me afastei depois de alguns instantes e sorri, mostrando um pouco de afeição.
Minha mãe não era uma pessoa ruim. Ela quase sempre era carinhosa daquele jeito e muito aplicada para dar o melhor de si em qualquer situação, mas os últimos anos ao lado dos meus pais, convivendo com todas as constantes brigas e discussões por meros detalhes me fizeram duvidar se eu os conhecia de verdade. Desde então, tudo o que eu pudesse fazer para me manter afastada da hostilidade daquela casa, eu faria.
— E você deve ser o . — Ela disse, o abraçando brevemente. — Seja muitíssimo bem-vindo, querido. Mi casa es su casa. — Comentou, sorrindo ao recitar as palavras estrangeiras e exibir seu mais perfeito espanhol.
— Muito obrigado, Senhora.
— Senhora não, eu me sinto velha assim. Pode me chamar apenas de Isabelle. — Disse, e então chamou o mordomo com um aceno elegante — Patrick, por favor, mostre ao onde fica o quarto de hóspedes. O idoso apenas confirmou com a cabeça e conduziu até o andar de cima, fazendo com que ele sumisse do meu ponto de vista. Eu teria os acompanhado se meu pai não tivesse me obrigado a mudar de quarto aos dezesseis anos, quando ele descobriu que para eu chegar da minha sacada até o solo do jardim não era preciso de muito senão uma pequena árvore e uma boa coordenação motora para me equilibrar nos galhos secos. Depois de todo esse percurso, ficava fácil fugir, já que os seguranças do nosso condomínio passavam mais tempo conversando do que fazendo vigia. Eu nem precisava me esforçar muito e aquilo tornava tudo até um pouco menos interessante, mas minhas saídas noturnas se tornaram costumeiras e não demorou muito para eu ser pega em flagrante.
Eu abri a porta do meu antigo quarto e inalei o cheiro de flores, baunilha e citros que o ambiente carregava. As janelas estavam fechadas, impedindo que o ar puro entrasse. Minha cama parecia menor e nada ali era muito familiar, apesar de eu conhecer cada centímetro daquele espaço.
— Fizemos uma pequena reforma aqui, queríamos que você se sentisse em um espaço mais adulto. — Minha mãe murmurou, colocando suas mãos pequenas em meus ombros e me conduzindo para o meio do quarto. As milhares de fotos que antes estavam espalhadas pelas minhas paredes azuis-grisáceo agora se encontravam guardadas em uma caixa de papelão no fundo do armário, e tudo o que havia de colorido no meu quarto foi substituído por móveis contemporâneos de cores neutras e intimistas. — Mas você pode redecorar-lo do jeito que quiser.
— Não precisa, não ficarei por muito tempo.
… — Ela se aproximou, tocando em meus ombros e deixando suas mãos escorrerem até a ponta dos meus dedos. — Filha, você não pode vir aqui uma vez por ano e achar que está tudo bem. Isso não é justo comigo.
E não era, de fato. Eu via o sofrimento em seus olhos avelã, e de repente, uma onda de culpa caiu sobre mim como um véu.
— Mas eu não venho aqui uma vez por ano. Vocês trocam mais de endereço do que trocam de roupa. Parecem até que estão tentando fugir de alguma coisa.
Sua expressão subitamente mudou de serena para agastada; ela ajeitou sua postura de maneira ereta e fechou por vez o meio sorriso que antes emoldurava seus lábios vermelhos.
— Se vista de forma adequada, seu pai está chegando e iremos jantar em meia-hora. Sem atrasos. — Ela me deu as costas e saiu do cômodo, deixando que a porta fizesse um barulho espalhafatoso quando colidiu com o batente.

Quando eu cheguei à sala de jantar, já estava sentado em uma cadeira ao lado da minha mãe, e os dois conversam animadamente enquanto o meu pai, no outro canto da mesa, encarava atento o celular em suas mãos. O som dos meus sapatos fez com que ele levantasse seus olhos verdes e me encarasse por alguns instantes, antes de se levantar e vir me abraçar. Seu cabelo estava mais grisalho desde a última vez em que nos vimos, e a barba também parecia maior, porém, muito bem aparada. Possuía uma estatura alta, ombros largos e músculos notáveis pelo intenso treinamento militar, o que não o impedia de praticamente me esmagar em seus braços.
— Olha só como você cresceu. — Ele disse ao pé do meu ouvido, só então me soltando. — Que bom que você está aqui, .
— Oi pai… — Eu disse, retribuindo o afeto com meu melhor sorriso. Aquela era a minha parte preferida de quando nos encontrávamos, quando minha presença era tão importante para os meus pais que eles se esqueciam de brigar e estragar todo o nosso momento de Família Feliz.
estava me contando sobre os testes para os estágios de verão. Você já pensou em tentar? — Minha mãe me perguntou enquanto eu me sentava no meio daquela enorme mesa de madeira comprida. Nas louças de porcelana dinamarquesas haviam alguns petiscos de entrada e uma xícara pequena de chá de hortelã, tradição de família.
— Ela não precisa de estágios, Isabelle. — Meu pai a respondeu antes que eu conseguisse pensar em algo para dizer. — Se ela quiser algum trabalho, podemos conseguir para ela. É muito melhor do que ficar estagiando.
— Agradeço a preocupação, mas eu quero conquistar as coisas na minha vida com meu esforço e não com a influência do nosso sobrenome. Já não basta vocês não terem me proibido de fazer medicina.
Minha mãe estremeceu levemente na cadeira, e teria passado despercebido se meus olhos não estivessem focados nela. Aquele era um assunto quase que banido de casa. Eu não podia falar ou sequer pensar em fazer medicina, principalmente quando eu disse que queria trabalhar no St. Edwards, o hospital da família de . Ainda parecia loucura ser herdeiro de um dos centros médicos mais prestigiados do país e quase ninguém saber quem ele era de verdade.
Eu fiz vários testes para diversas universidades de medicina, e consegui passar em três. Na época, algo me dizia que eu deveria ter ficado de boca fechada, mas corri para contar para os meus pais sobre minha conquista, e a única coisa que recebi foi um olhar de reprovação e espanto do meu pai e um meio sorriso da minha mãe. Eu procurei deixar isso de lado, culpando o mau gesto pelo estresse que eles estavam tendo ultimamente, mas percebi que havia algo errado quando recebi um email de cada faculdade dizendo que minha vaga estava sendo retirada e concebida à outra pessoa. Eu não precisava nem me dar ao trabalho de saber o porquê, pois sabia que meu pai estava trabalhando para que eu não fosse aceita em nenhum lugar que tivesse medicina.
— Como quiser. — Ele respondeu ríspido, bebericando seu chá.
Eu revirei os olhos antes de ouvir meu celular apitar na mesinha de café ao lado da porta. Era uma mensagem nova. De .
Meia hora. — Ele enviou, parecendo tão autoritário quando pessoalmente.
Ok! — Eu respondi, voltando para a minha cadeira.
— Será que poderíamos comer logo? — Eu murmurei, fazendo todos me olharem. — Tenho um compromisso.
— Na véspera de natal?
— É rápido. Vocês nem vão notar que eu saí. — Menti, porque não sabia nem sequer onde me levaria.
Os olhos castanhos de estavam em mim. Ele parecia um pouco confuso e ao mesmo tempo preocupando, uma preocupação que também caiu sobre mim. Eu enviei à o endereço, mas não pensei nas consequências que teria caso meu pai o visse. Rachas e drift estavam se tornando assuntos polêmicos e de preocupação por toda a Inglaterra, e já não era mais tão difícil descobrir quem praticava esse tipo de esporte ilegal.
Eu estremeci ao pensar que poderia estar sendo procurado.
— Que compromisso é esse?
Meu pai não era qualquer policial. Ele trabalhava como detetive para a Scotland Yard, e eu precisaria de uma ótima desculpa para poder despistá-lo.
— Ah… Eu tenho…
— Uma entrevista. — completou, muito mais devoto no que dizia do que eu.
— É. Uma entrevista.
— Uma entrevista? — Meu pai perguntou, murmurando um riso irônico.
— Uma… Entrevista. — Confirmei, fazendo um sinal positivo com a cabeça.
— Uma entrevista… — Ele repetiu. Eu já havia perdido a conta de quantas vezes havíamos dito a palavra “entrevista”. — No natal?
— Tecnicamente ainda não é natal e o meu futuro chefe é… Peculiar.
Papai bebeu todo o seu chá com um só gole e arqueou as sobrancelhas.
— Peculiar… — Ele sussurrou, levantando-se lentamente. — Então eu te levo até esse seu compromisso.
Eu quase caí da cadeira.
— Não. — Disse, mais alto e suspeito do que pretendia. — Não precisa. Vamos nos encontrar em um café perto daqui, posso ir andando.
— Querida, já está escuro, não é bom você ficar saindo sozinha. — Minha mãe resolveu abrir a boca para novamente me contrariar, uma coisa que ela adorava. — Sem contar que vai começar a nevar logo e sabe lá quanto tempo você irá demorar.
— Nunca tive vocês para cuidar mim quando eu era menor e não vai ser agora que eu irei querer ter. — Comentei baixo, mas sabendo que todos iriam escutar. Eu sabia que no fundo, aquelas palavras afetavam mais o meu pai do que qualquer outra pessoa dentro daquela casa. — Sem contar que… Sou o tipo de pessoa notívago. A noite me atrai.
Algumas pessoas acreditam que a memória humana só registra acontecimentos a partir dos sete anos, mas eu me lembro claramente de passar metade da minha infância sofrendo pela ausência do meu pai, que só me visitava uma vez por ano, sempre dando a desculpa de que o trabalho ocupava tempo demais em sua vida. E então, quando eu fiz quinze anos, ele misteriosamente voltou a morar com a gente.
Eu fiz minha lição de casa; sabia que ele não tinha recebido uma promoção porque estava no cargo mais alto de sua carreira. Pensei em constatar alguns amigos dele, mas não havia ninguém. Nenhuma pessoa sequer em sua vida que não fosse minha mãe. Nenhum vínculo, quanto menos algum parente vivo.
Ele não tinha um passado ou uma história de vida. Eu o olhava e tudo o que conseguia ver era um completo desconhecido.
— Já que vão todos ficar olhando pra mim como se eu fosse uma aberração, acho que já vou indo. — Eu disse, me levantando.
vai com você. — Meu pai ordenou.
Eu olhei brevemente para , notando que ele e meu pai se encaravam com respeito e cautela, até demais para duas pessoas que haviam acabado de se conhecer. Eu não iria contestar sua ordem porque sabia que se eu não saísse na companhia de , seria na companhia dele. E honestamente, eu não queria piorar algo que já estava para lá de ruim.

Ao lado de fora, eu já me sentia mais calma e a tensão antes presente em meu corpo ia sumindo aos poucos. estava ao meu lado enquanto atravessávamos o jardim, caminhando para o portão eletrônico.
— Sua casa parece uma prisão — Ele disse e então me olhou, notando meu desconforto. — Não desse jeito que você está pensando. É só que… É muito segurança para um lugar só.
Eu segui o rastro do seu olhar, encontrando as câmeras de vigilância que haviam espalhadas por toda a propriedade. Se algum convidado indesejado passasse pela porta, o alarme seria acionado diretamente na Scotland Yard, e em pouco menos de cinco minutos, nosso quarteirão estaria lotado por viaturas e cães policiais. Isso tudo caso a pessoa não morresse de descarga elétrica pela cerca de quase doze mil volts.
— Está mais para uma fortaleza.
— Pelo menos seu pai demitiu os seguranças. — Balbuciou, revirando os olhos. Ele definitivamente não queria ter dito aquilo.
Eu o olhei de forma duvidosa, hesitando meus passos, mas sem parar de andar. Não tinha como ele saber daquilo já que até onde eu sabia, ele nunca havia estado em minha casa antes.
— E como você sabe disso? — Perguntei, encarando meus pés sobre a grama molhada de orvalho.
— Ahn… Sua mãe comentou algumas coisas. — Sussurrou, não parecendo tão convicto no que estava falando. Ele queria acreditar naquilo tanto quanto eu. — Sabe que precisa tomar cuidado, não sabe?
Eu sabia o que ele estava fazendo. Sua tentativa súbita de mudar o rumo daquela conversa só me fez ficar ainda mais desconfiada.
— Com relação ao que, exatamente?
— À . Você está se expondo demais e metade dos estudantes de Cambridge sabe quem ele é e o que ele faz. Se o pegarem, e acredite, não sei como ainda não pegaram, você pode ser envolvida.
Eu disquei o código de segurança no porteiro eletrônico, causando a abertura do portão de ferro à nossa frente.
— Metade desses alunos que sabem sobre ele estão envolvidos em coisa muito pior. Ninguém é limpo o bastante para julgar alguém, . — Eu pausei, pensando na futura desculpa que eu iria dar para dispensá-lo dali. — Olha, você não precisa mais me acompanhar, pode voltar.
Ele encarou o asfalto da calçada pela qual caminhávamos e depois me olhou, um pouco intrigado.
— Sei que você vai se encontrar com ele, não precisa tentar esconder isso de mim.
— Não sei do que você está falando.
Minha mentira era tão óbvia que ele riu de imediato.
— Você pode passar a noite toda tentando me persuadir que não vai encontrá-lo ou pode me dizer onde fica a cafeteria mais próxima, porque estou morto de fome.

— Não se preocupe, . — Ele disse assim que viramos a esquina. Minha casa já havia sumido atrás de nós. — Eu vou ficar bem, principalmente se o café dessa cidade for tão bom quanto dizem.
— Não quero que passe a véspera do natal sozinho, principalmente em uma cafeteria. Você pode voltar para a minha casa e…
Ele me abraçou pelo ombro e sorriu, trazendo uma iminente sensação de conforto e familiaridade.
— E dizer o quê? Que você foi sequestrada? — Ele riu — São somente algumas horas, não são?
— É… Eu acho. — Comentei o mais baixo que pude.
— Aliás, só por precaução, posso saber onde você vai?
— Na verdade, essa é uma ótima pergunta. — Disse, parando de frente a uma starbucks local. Para um dia especial como aquele, até que havia pessoas demais ali dentro. parecia um pouco apreensivo com a minha resposta. — Mas não há com o que se preocupar, ele não vai me fazer mal.
— Sei que não. — Ele disse, colocando as mãos nos bolsos de seu jeans e então olhando para dentro do local através do vidro. Ele iria dizer mais alguma coisa quando algo chamou sua atenção. Vi seu rosto ser iluminado por uma luz branca e chamativa, que fez minha cabeça ser automaticamente induzida para trás.
Um G-Class preto estacionou próximo do meio-fio ao meu lado e diminuiu a intensidade dos faróis; a película dos vidros eram tão escuras que não dava para enxergar o interior do carro, mas eu sabia que apesar disso, ele estava nos vendo e provavelmente nos ouvindo.
— Parece que essa é sua deixa. — comentou, tirando as mãos do bolso e me dando um abraço inesperado. — Te vejo daqui a pouco. Me avisa se precisar de resgate.
Uma alta buzina percutiu pela rua, e por causa do silêncio, provocou um resistente eco. Eu queria matar o quando todos que estavam dentro da cafeteria pararam o que estavam fazendo para nos observar.
Despedi-me de com um aceno e caminhei para o veículo, ouvindo a porta ser destravada. Ao ser aberta, um forte cheiro de menta e couro novo invadiu minhas narinas, mas não era ruim.
não parecia muito contente, mas vi seu esforço para sorrir quando entrei e me acomodei no banco do carona. Por dentro, tudo era revestido de couro bege e a visão da rua era clara e limpa, quase me fazendo esquecer que aquele era, provavelmente, o vidro fume mais escuro já produzido.
— Precisava disso? — Eu perguntei, colocando o cinto de segurança.
— Sim, precisava. Mas na próxima vez eu espero milênios para você deixar de abraçar seu amiguinho. — Ele torceu o nariz, virando a chave na ignição.
A ideia de que eu conseguia afeta-lo daquela maneira me fez querer sorrir. Ele podia provocar milhares de sentimentos em mim com uma só frase ou gesto; eu finalmente me sentia um pouco mais vitoriosa de saber que, ao menos, havia lhe deixado com ciúme.
— Eu estava me referindo ao carro, mas obrigada pelo ciúme, me sinto lisonjeada — Comentei, sarcástica.
Ele negou com a cabeça, sorrindo.
— Anjo, se fosse ciúme, você provavelmente estaria chamando uma ambulância para o seu amiguinho ao invés de estar falando comigo.
— O nome dele é , e não “amiguinho”.
— Eu sei o nome dele, . — Disse, e então deu partida no carro, saindo daquele estado de ponto morto. Em poucos minutos, já estávamos na estrada principal da cidade, passando pela placa de boas-vindas e de despedida. — O que tem de errado com o meu carro?
Eu demorei um pouco para raciocinar sua pergunta, recordando a conversa que havíamos tido pouco tempo atrás.
— Bom, tirando o fato que a rainha da Inglaterra parece estar aqui dentro, nada! — Murmurei, observando sua atenção pelo caminho de pedra por qual passávamos. — Eu me refiro às janelas super escuras.
— Eu entendi o que você quis dizer. — Ele me respondeu de imediato. — Pode não ser a rainha da Inglaterra, mas sou Edwards , o herdeiro de um dos hospitais mais prestigiados e ricos da Europa e também, de certa forma, um criminoso, já que pratico corridas ilegais. É como matar dois coelhos com uma cajadada só.
— Que amistoso.
Ele me lançou um breve sorriso e voltamos a ficar em silêncio. Aquilo era algo que acontecia com muita frequência entre a gente.
— Olha… Eu ainda não tive a chance de me desculpar pelo o que aconteceu aquele dia no corredor com . — Eu não sabia o que dizer sobre esse assunto que começou de repente, mas parecia genuíno e até um pouco decepcionado. — Eu e ele temos uma… Relação conturbada.
— É agora que você me conta a outra parte da sua vida que eu desconheço?
— Tudo o que você precisa saber é que deve manter distância dele.
Eu ri, mas sem emitir nenhum som.
— Engraçado, já que ele diz o mesmo sobre você. — Ele se virou para me olhar, mas sem tirar completamente a atenção do volante. Avaliava cada centímetro do meu rosto com uma expressão tensa. Eu não queria atrapalhar aquela relação que estávamos construindo por causa dos meus comentários provocativos, mas eu não estava acostumada a ver de baixa guarda, não retrucando algo que eu dissesse ou deixando seu sarcasmo de lado. Eu não sabia como agir com aquela outra versão — melhorada — dele. — E então, para onde estamos indo? — Indaguei, vendo-o abrir um sorriso torto que dava a impressão de que ele estava rindo internamente de mim.
— Se eu te contar, deixa de ser surpresa.
O frio na barriga que eu senti quando ele disse aquilo era o motivo de eu odiar surpresas. Ou então, porque as surpresas que eu já recebi até agora não foram de fato uma surpresa. Nunca era algo bom o bastante para me deixar sem palavras.
— Devo avisar meus pais que não voltarei essa noite? — Perguntei, tirando o celular do bolso da minha jaqueta. Diversos pretextos para eu dormir fora de casa surgiram em minha mente, mas a maioria deles meu pai descobriria com um só telefonema.
Olhei para de relance, mas ainda assim notando um sorriso patife em seu rosto. Ele umedeceu os lábios e me encarou.
— Na verdade, você deve dizer a eles que não voltará o feriado inteiro.


Capítulo 10


— Você pode pelo menos me dizer para onde está me levando? — Eu perguntei, cruzando os braços enquanto via a imagem das árvores completamente distorcidas pela velocidade em que dirigia.
— Se eu te contasse, acabaria com a surpresa.
— Eu odeio surpresas, .
— Dessa você vai gostar, .
— isso é considerado sequestro, sabia?
— Pelo amor de Jesus, Maria e José... Dá para confia em mim? — Ele suplicou, me olhando de relance.
A chuva que caía lá fora havia transformado tudo em neblina e, mesmo com as pistas molhadas e a dificuldade para enxergar, insistia em manter o carro rodando acima de cem por hora. Eu estava desarmada; sem nenhuma defesa. Ele me tinha na palma da mão e sabia disso. Estava me levando para um lugar onde eu nem sequer imaginava qual fosse, sem qualquer testemunha ou sinal de vida e dirigindo feito um louco por uma estrada cercada de neblina enquanto o maior dilúvio caia lá fora.
E mesmo assim, eu continuava confiando nele de corpo, alma e coração.
— Ok. — Eu concordei, observando seu rosto suavizar, provavelmente um pouco mais aliviado de saber que eu calaria minha boca.
Eu decidi que deveria deixá-lo dirigir em paz enquanto me perco em meus pensamentos e acredito que sou realmente boa nisso, quase inigualável. The Script continuava tocando na rádio e isso era bom porque ao menos não ficaríamos totalmente presos em um silêncio desconfortável. Aquela nova música da banda nos servia como distração, e depois de ouvi-la várias vezes seguidas por estar no modo repetitivo, eu acabei pegando no sono.

Tudo estava silencioso e calmo. As luzes estavam apagadas, mas ainda sentia algo claro iluminando meu rosto. Eu me sentia acomodada e aquecida naquele lugar. Sabia que estava deitada sobre lençóis de seda porque sentia o aspecto fresco de seu tecido, mas talvez pelo sono, minha cabeça não conseguia se preocupar com aquilo no momento e nem com qualquer outra coisa também. Eu só queria aproveitar aquela sensação de paz que eu tinha tão pouco em minha vida nos últimos tempos.
Quando estava pronta para dormir novamente, ouvi três batidas constantes na porta e, então, abrir meus olhos foi inevitável. Eu olhei em minha volta tentando reconhecer aquele lugar, mas nada semelhante me vinha em mente.
Outra batida ecoou por aquele enorme espaço luxuosamente decorado em diferentes tons de bege e dourado. Eu me coloquei para fora da cama em um pulo assustado, caminhando em direção à grandiosa porta que havia bem no meio do quarto e, ainda que duvidosa, a abri, sendo cumprimentada por um homem na média dos trinta anos que vestia um uniforme inteiramente branco e estampava um sorriso condizente em seus lábios pálidos.
— Bom dia, senhorita. — Ele disse, passando com um carrinho ao meu lado e atravessando o quarto.
— O que é isso?
— Seu namorado pediu que lhe trouxessem seu café caso você acordasse um pouco mais tarde. — Ele continuou dizendo, mas sem me olhar. Primeiro arrumou os travesseiros na cama, esticou o lençol e depois foi em direção às cortinas, abrindo-as com só puxão, deixando o quarto todo claro pela luz do dia.
— Que horas são? — Perguntei ainda desorientada e sem entender o que estava acontecendo.
— 10:30, senhorita.
— 10:30? — Eu dei um riso sem jeito — Da manhã?
— Sim… Senhora. — Me olhou, como se aquilo não fosse óbvio. Eu estava parecendo uma drogada e, provavelmente, deveria estar com algo estranho no sangue, porque aquilo só poderia ser uma alucinação. — Aproveite o café e tenha um bom dia.
— Não, espera! — Eu gritei, quase como se ele ainda não estivesse na minha frente. — Ah… Onde estamos, mesmo?
— Não é óbvio? — Ele apontou para as janelas, provocando toda a minha atenção e curiosidade para a vista. — Estamos em Paris.
Uma parte de mim não acreditou, mas eu estava vendo com meus próprios olhos a torre Eiffel bem em minha frente, enorme como um arranha-céu. O camareiro saiu rapidamente da suíte, me deixando sozinha com meus pensamentos atordoados.
Eu caminhei em direção a sacada, quase que precisando segurar nas paredes para não desmaiar ali mesmo.
— Isso só pode ser alguma brincadeira. — Murmurei, mais alto do que pretendia. Seja lá onde é que eu estivesse pisando, era alto, muito alto. O último andar de um enorme edifício, bem de frente para o jardim do Trocadéro.
— Eu tenho cara de quem brinca? — Ouvi uma voz sussurrar bem atrás de mim e muito mais perto do que deveria.
Eu me virei de imediato, encontrando os olhos verdes de fixos no meu. Estava com a expressão relaxada, como eu jamais havia visto antes. Ele parecia contente de estar ali.
— Como é que viemos parar aqui? Você está maluco? Leve-me de volta, agora!
— Bem… Achei que você fosse gostar.
E então, aquele relaxamento antes presente se transformou em decepção. Ele estava afetado e, de repente, uma tenebrosa sensação de culpa caiu sobre mim.
— Eu… Gostei. É só que, … Meu pai deve ter colado a Inglaterra toda atrás de mim. Se ele por algum motivo descobrir que eu estou aqui, ele vai te ver e… — Eu não sabia se deveria dizer que meu pai faz parte da polícia mais importante do país e provavelmente iria prendê-lo.
— E o quê?
— E… Nada. Só tenho que voltar, está bem?
— Mas não vai. — Ele disse suavemente, como se estivesse me dando bom dia. — Você irá ligar para os seus pais, desejá-los feliz natal, inventar alguma boa desculpa e ficar aqui… Comigo. — Sussurrou, percorrendo o caminho dos meus ombros até minhas mãos com a ponta dos dedos.
Quando ele me soltou, ainda se manteve perto, seus olhos fixados nos meus. Eu não conseguia tirar minha atenção dele e, tão menos, me afastar. Não tinha ideia do que estávamos fazendo, mas sabia que não queria parar.
— Quero que você fique.
— Então peça. — Eu murmurei.
— Por favor, … Fica. — Ele suplicou, tão baixo que eu me aproximei ainda mais de seu rosto, se é que ainda era possível.
De repente, me deparei com um conflito interno entre minhas emoções e o pouco de bom senso que ainda me restava. Era inevitável e, quando aceitei a derrota, vi minhas emoções ficarem a flor da pele em questões de segundos.
Eu levei meus lábios até os deles, mas não sem antes ver um meio sorriso emoldurar seu rosto. Não sei se ele já esperava por aquilo ou se estava se preparando para fazer o mesmo, mas não parecia surpreso. Minha mente não estava no controle; era como se eu estivesse em uma espécie de transe e não conseguisse sair — não que quisesse também.
Era real. Aquilo estava acontecendo e eu só me dei conta quando senti o gosto dos chicletes de menta que ele sempre carregava no bolso passar para a minha boca também. Ele me cercou com seus braços como se fosse me abraçar, mas, ao invés disso, me levantou e me colocou sentada sobre as grades de ferro ornamentais da sacada. Não havia nenhuma rede de proteção; a única coisa que me impedia de ter uma queda livre a mais de cinquenta metros do chão era , que agora me segurava firmemente.
Não sabia se eu estava embriagada ou dopada com algum tipo de remédio, mas sei que quando ele me colocou de volta no chão e se afastou, me olhando com aqueles olhos azuis esverdeados inigualáveis, eu desejei que ele simplesmente recomeçasse tudo outra vez. Ao invés disso, ele se afastou mais ainda, entrando dentro do quarto com uma expressão confusa e ao mesmo tempo preocupada.
Ele caminhou até uma mala de couro envelhecida e retirou um sobretudo de lá, substituindo a jaqueta que antes vestia pela nova peça.
— Vamos sair. — Aquilo soou como uma ordem e, mesmo que eu adorasse confrontá-lo, não consegui sequer abrir a boca.
Arrumei o meu cabelo de frente para o espelho vitoriano no banheiro e ajeitei a roupa amassada, já que era a única coisa que eu tinha para usar no momento. Tentei pensar em algum penteado diferente para fazer, mas era tão habitual que eu ficasse de cabelo solto que se eu decidisse prendê-lo, acabaria me sentindo um ET.
Do lado de fora do quarto, descobri que tínhamos um elevador privado, pelo qual eu e descemos até o saguão. Na rua, havia um Chrysler 300C a nossa espera e, para a minha surpresa, não seria quem iria dirigi-lo, já que, aparentemente, também tínhamos um motorista executivo.
O motorista perguntou algo em francês e o respondeu de imediato; as únicas palavras que consegui entender foram Museu do Louvre.
Aquela foi uma boa hora para me arrepender de ter matado todas as minhas aulas de francês.
— Eu preciso falar com os meus pais.
— Relaxa. O pior que pode acontecer é eles acharem que você foi sequestrada. — respondeu em tom de ironia.
— O pior que pode acontecer é, de alguma forma, meu pai nos encontrar e te jogar na cadeia pelo o resto da sua vida sem nem saber o seu nome, porque essa vai ser a última coisa que ele irá querer saber caso nos achasse. Aliás, você por acaso sabe quem ele é? — Eu disse, me arrependendo instantaneamente de ter dito aquilo no exato momento em que o fiz.
É claro que ele não sabia, caso soubesse, não estaríamos nem sentados um ao lado do outro naquele instante. Por sorte — e mesmo que suspeito — ele não me questionou sobre aquilo; nem bem chegou a responder, somente deu uma curta e vaga risada debochada e se virou para o lado da janela, fingindo estar admirado com o que via através do vidro.
— Para onde estamos indo? — Perguntei, tentando quebrar o silêncio imposto entre nós dois.
— Museu do Louvre. Você não ouviu quando eu disse ao motorista?
— Não falo francês, gênio.
— Ah, não? — Ele me olhou, arqueando a sobrancelha — Você é apaixonada por Paris e não entende uma palavra da língua local? Por que será que não estou surpreso?
Sua arrogância estava de volta e, para o meu total desprazer, mais afiada do que nunca.
Quando finalmente chegamos à praça central do Museu do Louvre, o engravatado motorista abriu a porta e me ofereceu sua mão para me ajudar a sair.
— Merci. — Sorri para ele, que me retribuiu com um sorriso maior ainda. Pelo menos “obrigada” eu sabia dizer. E essa história de que franceses são mal educados é puro mito… Até agora.
saiu pelo outro lado, abotoando seu fino sobretudo. Se alguém de Cambridge o visse vestido daquela forma, pouco provável o reconheceria. Ele estava elegante como um típico jovem burguês de Londres e aparentemente, inteligente como alguém formado em Oxford.
— Gostou? — Ele riu, exibindo sua roupa em uma voltinha. — É da alfaiateria do Tom Ford.
— Está diferente.
— Aposto cem euros que você achava que eu era mais um rebelde contra a lei, alcoólatra, mulherengo e drogado.
Eu tentei não rir enquanto ele atravessava o carro e ia para o meu lado, colocando a mão em minha cintura e me conduzindo em direção à praça.
— Não… Drogado não.
Ele me olhou com um sorriso sarcástico e divertido entre os lábios e se calou enquanto caminhávamos um ao lado do outro, como muitos casais e amigos faziam ali. Eu e não nos encaixávamos em nenhum dos dois: não éramos um casal, mas tão menos apenas amigos.
Mesmo longe, dava para perceber que havia uma grande movimentação por ali. As pessoas formavam uma espécie de ciranda em volta de alguém, e só quando nos aproximamos, eu consegui perceber que era uma mulher sentada sobre um baú de madeira, com muitos anéis nas duas mãos e uma roupa indiana.
— Vou buscar algo para bebermos — disse, já se afastando.
Eu aproveitei para chegar ainda mais perto da senhora de cabelos grisalhos e pele envelhecida. Ela me causava arrepios, mas eu queria entender o motivo de tanta gente ao seu redor.
Infelizmente, aquele foi mais um momento para eu me lamentar das vezes em que matei aula de francês, porque eu não entendia uma sequer palavra que saía de sua boca e todo o barulho que estava naquele local também não ajudava. Entretanto, mesmo que não entendesse nada, eu continuei ali, observando-a e no momento que ela se levantou e depois abaixou, como sinal de condolência, eu a aplaudi, achando que todos fariam o mesmo, mas ao invés disso, a praça ficou em um silêncio absoluto.
— Você não entendeu nada, não é? — Alguém sussurrou ao meu lado. Era um homem ruivo, de olhos escuros e rosto sardendo.
— Eu achei que ela estivesse agradecendo pela presença de todos. — Murmurei de volta, aliviada da atenção das pessoas não estar mais em mim depois daquele pequeno incidente.
— As pessoas fazem esse sinal de condolência aqui na França quando a morte está próxima.
Um calafrio percorreu minha espinha.
— Isso não faz o menor sentido.
— Para eles fazem. — O cara sorriu, me erguendo sua mão — Sou Will.
. Você é dos…
— Estados Unidos? Sim, eu sou. Mas vim à Paris para estudar Arte.
— Quer ser um pintor?
— Quero ser um artista. Pretendo revolucionar o mundo com minhas ideias.
Eu sorri, porque não sabia mais o que responder.
— Essa senhora é muito famosa por aqui? Reparei que as pessoas pareciam se entreter muito com o que ela dizia.
— Depende do bairro em que você está. Aqui no centro, sim. Ela é conhecida por “adivinhar o futuro” e ler sua mão, mesmo sendo cega.
Então estava explicado o motivo de seus olhos serem tão brancos.
— Interessante.
— Acho tudo uma bobagem, para ser bem honesto. Sou um cético quanto a isso. — Ele disse, sorrindo. — Bem… Foi um prazer te conhecer, . Talvez a gente se esbarre por ai.
— Talvez.
Eu o observei indo embora, até que ele sumisse entre os demais que estavam ali. Olhei em volta para ver se achava , mas ao invés disso, encontrei um par de olhos me observando de muito longe, quase invisíveis para alguém que não estivesse muito atento. Eu deveria ter desviado o olhar, fingindo que não havia visto e ignorado aquilo, mas eu não conseguia; eu queria saber o porquê de aquela senhora que, até onde eu sabia, era cega, estava me olhando tão fixamente como se ela pudesse me ver.
Ela acenou com a cabeça para mim e eu rapidamente fui ao seu encontro, notando que ela me deu as costas, mas olhando para trás, vendo se eu a seguia.
A idosa atravessou uma ruazinha sem movimento até chegar em um beco e eu logo atrás, não medindo as consequências do meu ato. Ela entrou dentro de uma pequena loja que cheirava a incenso e deixou a porta aberta, por onde eu entrei também.
— Não será longo. — Ela disse. Agora eu conseguia entendê-la. Ela falava inglês tão bem quanto algum nativo.
— O que não será longo?
— Sentir dor… Sentir pena… — Ela dizia, sua voz falhando a cada palavra. — Algo ruim se aproxima de você, criança de alma pura. — Ela se aproximou de mim como um vulto, segurando meus ombros com firmeza. — Você não pode deixar… Não pode deixar… Precisa se afastar antes que…
— Antes que…? — Eu a pergunto num sussurro, fazendo o máximo de força para continuar ali e não sair correndo de medo.
— Antes que a morte venha lhe buscar, garota.
Meu estômago caiu em um abismo.
— Você vai morrer no lugar daquele que ama. Você vai sangrar… Vai doer… Vai ser entorpecente… Você vai desejar nunca tê-lo conhecido.
— Conhecido quem? — Havia lágrimas em meus olhos e um choro preso em minha garganta.
— O homem que está mudando a sua vida. O garoto dos os olhos verdes como oliva.
— Você deve estar se enganando de pessoa.
— Madame Castrin nunca se engana, garotinha. — Ela largou meus ombros e olhou para o meu pescoço, retirando uma corrente que havia por debaixo da minha blusa. — Deixe assim, à vista.
— Isso muda alguma coisa?
— Não vejo nada a respeito desse colar, mas sinto uma energia muito forte vindo dele. Se o amor for maior do que o rancor, então seu destino será diferente. Caso contrário, só existe a escuridão para a sua alma, e tudo o que você foi um dia se perderá em meio a tanta raiva, ódio e sede de vingança.
Eu dei de ombros, deixando-a para trás. Eu não queria mais ouvir nada daquilo.
— Lembre-se, , — ela gritou antes que eu fechasse a porta. Um arrepio involuntário me fez tremer quando ela disse meu nome. — há várias formas de morrer.
E então a porta se fechou, selando nosso contato. Eu atravessei a ruazinha que me levaria até a praça e quando me preparei para correr até onde eu estava antes, senti uma mão me segurando pelo braço, o que impediu que eu saísse do lugar.
— Onde você estava? — Felizmente, era e não aquela mulher novamente. — Eu achei que… ONDE VOCÊ ESTAVA?
— Me perdi. — me olhou confuso, mas então pareceu respirar aliviado. Eu vi que havia um copo de suco espalhado pelo chão e outro em sua mão. — O que aconteceu?
— Ou eu segurava essa droga ou eu te segurava. — Argumentou, entregando o copo cheio. — É limonada rosa. Típico…
Minhas mãos estavam tremendo quando eu toquei no recipiente de plástico, e ele pareceu notar isso, pois me olhou imediatamente de forma suspeita, como se conseguisse ler meus pensamentos alucinados, que insistiam em passar e repassar o que aquela velhinha havia dito minutos antes.
— Você está…
— Sim. — Eu não deixei que ele terminasse. Dei um gole daquela limonada e o entreguei, passando por ele e caminhando lentamente até o centro da praça.
— Aqui está um pouco movimentado, pensei que poderíamos ir em outro lugar e talvez voltarmos quando escurecer — Ele disse, me seguindo.
Eu apenas confirmei com a cabeça, aceitando ser conduzida por ele até seja lá onde estávamos indo. Depois dele me dizer que nosso próximo destino não ficava tão longe dali, não trocamos uma só palavra. Ele caminhava com a postura ereta e autoconfiante, enquanto eu estava curvada e muito presa nas minhas preocupações para desfazer aquele silêncio.
Havia um sentimento forte dentro de mim me dizendo para esquecer tudo aquilo e agir naturalmente, mas uma pequena parte do meu cérebro insistia em me fazer lembrar. E eu não conseguia nem ao menos disfarçar aquilo.
Eu notei que parou de andar e automaticamente parei também. Meu olhar foi erguido e então eu percebi que estávamos na Le Pont des Arts, ou, como é mais conhecida popularmente: a ponte dos cadeados.
— Meus pais gravaram os nomes deles em um cadeado e o jogaram no rio, mas deixaram a chave presa nas correntes da ponte.
— Não deveria ser ao contrário? Jogar as chaves no rio e deixar o cadeado na grade?
deu um sorriso sarcástico e voltou a caminhar, ficando de costas para mim.
— Eles diziam que isso era muito clichê, que o amor que um sentia pelo o outro era algo diferente e puro demais para ser comparado a outros amores, que a história deles não deveria ser misturada com as milhares que existem aqui.
— Você sente falta dele? — Eu perguntei, o vendo se apoiar na grade de proteção da ponte.
— Eu me sinto culpado… Foi minha culpa que ele saiu naquela madrugada, se eu não… — Ele hesitou, gemendo como se sentisse alguma dor. Havia muita angustia e magoa em sua expressão agora.
— Não foi sua culpa, . — Murmurei, tocando em seu ombro e descendo a mão até seu antebraço.
Ele me olhou seriamente por alguns instantes e colocou seus dedos em minha nuca, me puxando para mais perto. Nossos lábios se encontraram e nossas línguas se tocaram. Finalmente um beijo de verdade. Havia carinho no toque dele, não só desejo, como hoje mais cedo. Um formigamento rapidamente se espalhou e tomou conta da minha pele gelada. Eu sentia o calor do corpo dele chegando até as extremidades do meu. Era uma sensação diferente das outras. Aquilo não era normal; eu não tinha me sentido daquela forma com ninguém antes.
Quando ele se afastou e abriu seus olhos, algo dentro de mim passou de anseio para agitação. Eu não queria mais detê-lo, pelo contrário, eu queria que ele continuasse. Eu o fitei, sabendo que, por mais que eu tentasse, eu não tinha mais força para ficar longe de .


2 dias e 14 horas depois.


— Ele está acordando ou é impressão minha? — Eu ouvi uma voz familiar dizer, um pouco afastada de seja lá onde é que estivesse.
— Deve ser reflexo. Dizem que mortos fazem isso nas primeiras horas.
não está morto. — A mesma voz disse, mas não muito convincente. Eu sabia que estava vivo porque sentia dor, fora isso, poderia muito bem ser uma alma penada escutando a conversa de dois vivos.
— Você é muito positivo, .
— E você é muito negativo. Não vê que ele está respirando?
Então uma das vozes familiares era de e pelo tom de zombação da outra eu poderia jurar que era , mas certamente que se estivéssemos no mesmo lugar por mais do que trinta segundos, um de nós não estaria vivo.
— Não adianta estar respirando e estar em coma. Nós deveríamos levá-lo para o hospital.
Eu não estava em coma, caso contrário, não estaria ouvindo aquele papo furado idiota. Mas também não conseguia abrir meus olhos, por assim dizer, muito menos mexer meu corpo. A última coisa da qual me lembro antes de desmaiar de novo foi de ouvir um celular tocando.
Algumas horas depois, quando eu acordei e finalmente consegui abrir meus olhos, a primeira coisa que vi foi o teto branco de gesso. Sabia que estávamos na casa de ; não só porque só ele tinha o teto todo decorado daquela forma bem patética, mas também pelo cheiro de frango frito impregnado nos móveis, já que ele comia mais aquilo do que bebia água por dia.
Eu me retirei da minha posição deitada e me coloquei sentado, só então notando que dois pares de olhos me observavam atentamente no sofá da frente.
— O que você está fazendo aqui? — Perguntei de imediato. Minha boca ardeu quando eu a abri e só ao tocá-la que eu pude perceber o enorme corte que havia em meu lábio.
— Bela forma de agradecer quem te salvou. — exclamou, cruzando os braços.
— Não consigo me lembrar do que aconteceu.
pareceu hesitar em dizer alguma coisa, por isso, era sempre quem acabava me respondendo.
— Você… Bom… Sofreu um acidente. Seu carro capotou. Eu que te encontrei na estrada… Deveria ter te deixado pra morrer, mas minha parte humanitária falou mais alta. Sem contar que vaso ruim não quebra. Por isso você está vivo até agora.
— E por que você me encontrou?
— Porque Deus quis assim, idiota. Se não gostou, vai reclamar com Jesus Cristo.
Eu preferi ignorá-lo. Aquela não era a hora e nem o lugar para começarmos nossos costumeiras discussões.
— Achei que fosse passar o feriado inteiro em Paris com a . — Foi a vez de abrir a boca.
me olhou incrédulo.
— Vocês só podem estar brincando. Onde ela está agora? Não havia ninguém com você no carro, que aliás, está destruído.
— Eu a deixei em casa antes de vir… Houve um contratempo.
— Contratempo? — indagou com desdém — Que tipo de contratempo?
— É complicado dizer.
Mais do que ele imaginava.
— Você a machucou? — me questionou.
— Eu jamais encostaria em um sequer fio de cabelo dela. E você nem ouse chegar a menos de cem metros dessa garota ou eu juro que vou fazer com que você se arrependa de ter me salvado. — Já estou bem arrependido.
Com a ajuda do braço do sofá, eu consegui me levantar. Minha calça estava rasgada no joelho e a minha camiseta manchada de sangue e algo que tinha um tom preto. Eu deveria ter rolado pelo acostamento, porque meus braços estavam cheios de arranhões. O enorme espelho na sala de me fez ver o quão exagerado ele e conseguiam ser. É claro que eu não estava na minha melhor situação, mas não era um caso de morte. Só um raspão aqui e outro corte ali. Ninguém morreria por isso.
— Quanto tempo eu dormi?
— Dois dias e mais algumas horas. — Meu queixo caiu quando respondeu. Em nenhum outro acidente eu havia dormido tanto assim e esse era de longe o mais grave que já havia sofrido. — Eu comprei uma sopa de batata enlatada. Eu li na internet que faz bem para quem está se recuperando. É melhor você ficar sentado e eu busco a sopa para você. Só foi ele tocar no assunto de comida para o meu estômago roncar. Eu estava com tanta fome que não conseguia ao menos caminhar até a cozinha.
Voltei para o mesmo lugar onde estava sentado antes e esperei até que voltasse com uma tigela enorme e uma colher maior ainda.
— Foi sério, não foi? — murmurou, atraindo minha atenção. Eu fiz uma expressão de desentendido e, então, ele continuou. — O que aconteceu em Paris para você sair correndo de lá e vir para cá… Foi sério, né?
Eu assenti.
— Mas acho que você já sabe o que é. — Esbravejei de volta, observando seus movimentos atentamente. se auto-denunciava por isso; ele não sabia esconder nada e quando mentia, sofria de um inconstante tique no olho.
Achei que ele ia negar ou simplesmente ignorar, mas ao invés disso, ele confirmou com a cabeça. Uma onda de calor, raiva, desprezo, angústia, revolta e todos os outros piores sentimentos que um ser humano poderia sentir foram passados por mim de uma vez só. Ele estava tendo um dia de sorte por eu não conseguir me levantar e bater tanto em sua cara que ele precisaria de uma cirurgia plástica para ficar mais ou menos normal outra vez.
— A quanto tempo você sabia? — Meus dentes estavam cerrados.
— Desde que Dante foi te procurar. Eu achei estranho não haver nada sobre a família dela e fiz minhas pesquisas.
— Que tipo de pesquisa? — Perguntei. Ele pareceu hesitar em me responder. — É meu direito saber, .
Ele olhou para a palma das mãos e depois subiu o olhar novamente. Ao fazer isso, eu sabia que coisa boa não vinha por aí.
— Fui até a casa dela.
Eu engoli em seco. Agradeci mentalmente por estar sentado.
— Você… O viu? — Segurei involuntariamente minha respiração pela resposta. Eu sentia meu coração bater cada vez mais rápido. Por um instante, julguei estar tendo uma parada cardiorrespiratória. outra vez, não respondeu. Mas eu conhecia aquele olhar. Já fomos melhores amigos, eu sabia que ele queria dizer que sim, que ele o viu. — Que merda.
— Isso é muito… Sinistro. Como você… Descobriu?
— Pelo pingente no pescoço dela. Meu pai me deu um igual no meu aniversário de dez anos. Tinha uma frase em italiano escrita no meu… Era algo como “L’Amor que che muove il sole e l’atre stelle”. — Eu disse, e então o encarei. — Pelos nossos anos de amizade, você poderia ter me contado isso antes.
— E você acreditaria? O que acha que eu poderia dizer? “Oi , sei que nos odiamos, mas olha, descobri que o seu pai está vivo E AH…, a propósito, você provavelmente é irmão da , porque seu pai é o pai dela também.”
— Mas que porra… — parou no batente da porta, deixando a tigela de comida que estava em sua mão cair e ser quebrada em várias micropedaços.
E lá se foi toda a minha comida.

— Com tanta coisa acontecendo, até esqueci de te desejar feliz natal. — Eu disse. Melhor do que vê-la sorrindo, é saber que o motivo daquele sorriso era eu.
— Nada te impede de me desejar agora.
Eu movi meus lábios, esperando que saísse alguma coisa, mas algo me paralisou. A geada em nossa direção fez cada parte do meu corpo se arrepiar e sofrer de calafrios. Meus olhos pareciam estar girando, embora que eles tivessem um só foco. E ele estava bem no meio do pescoço de .
Aquele pingente.
Era impossível que ela o tivesse.
Mas estava lá, no pescoço dela, pendente para que todos vissem. Eu não conseguia tirar minha atenção dele, nem sequer disfarçar. Nem o pior dos piores déjà vu que já tive em minha vida até aquele instante havia sido tão ruim quanto aquele.
— Qual o problema? Você ficou estranho… — resmungou, tocando em meu ombro. Aquele toque fez eu tirar meus olhos do colar e olhar para os olhos dela.
Eu tomei uma profunda respiração e segurei o ar, tentando fazer minha expressão ficar o mais leve que podia. Mas eu não conseguia fazer aquilo; não dava para agir como se algo não estivesse me afetando, me despertando uma raiva que eu não sentia há muito tempo e uma dúvida que, em questão de segundos, começou a dilacerar cada órgão do meu corpo.
— Precisamos ir embora. — Murmurei, rangendo os dentes. Eu passei na frente dela, caminhando depressa. Forcei minhas mãos a segurarem as dela, mas meus músculos não me obedeceram. Eu estava chocado demais para fazer qualquer outra coisa que não fosse ir para a casa de , alguém que entenderia exatamente o que está acontecendo.
— O que? Por quê? O que houve? — Ela gritou atrás de mim, mas sem parar de andar. Eu sabia disso porque ainda ouvia seus passos logo atrás de mim. — Não vamos ver os fogos?
— NÃO, NÃO VAMOS! — Eu gritei, fazendo com que algumas pessoas parassem para nos olhar. pulou de susto, sua fisionomia completamente assustada e confusa. Sem mais contestações, ela entrou no carro e fechou a porta com certo receio, como se eu fosse brigar caso ela batesse. O que eu menos pretendia era assustá-la. Não queria que ela me visse como uma pessoa agressiva, mas no momento, tudo o que eu precisava era afastá-la o mais rapidamente de mim. Toda vez que eu a olhava de relance, aquele colar reluzia nos meus olhos, não me deixando nem sequer por um minuto que eu esquecesse do que aquilo poderia significar.


— Isso é impossível. O corpo do seu pai foi enterrado. Você estava lá… Eu estava lá. — sussurrou a mesma coisa pela milionésima vez. A palavra que ele mais havia dito nas últimas duas horas em que passamos olhando um para o outro foi “impossível”.
— Todos nós estávamos.
— Então… Não era ele no caixão. — continuou, provocando uma risada irônica da parte de . — Jura, Sherlock? Descobriu sozinho ou com uma carta mágica do reino dos duendes?
— Eu só estou confuso. Não sei como vocês não estão pirando, principalmente você, … É o seu pai. E a é a sua… — Não termina essa frase. — Eu exigi, meu tom soando rude como de costume. — Não temos certeza de nada ainda.
— A menos que seu pai tenha mantido um irmão-gêmeo escondido, eu tenho certeza sim. Não que a seja sua… Você sabe o quê… Mas que o seu pai está vivo, rico e ainda mais ameaçador, isso está.
Eu encarei . Meu coração batia rápido demais. A dor que eu sentia em meu corpo pareceu ser completamente distribuída para a minha cabeça e minhas costelas, que pareciam querer se quebrar a qualquer momento. Eu me sentia tenso, me sentia em transe, dopado. Era como se estivesse caindo em um limbo ou preso em um sonho ruim. Memórias do falso funeral do meu pai passaram a me assombrar de repente. Eu não conseguia de fato acreditar que aquilo estava acontecendo. Ele não poderia ter feito aquilo comigo… Éramos inseparáveis.
— É o meu pai… — Eu disse, tentando me segurar ao máximo no ódio que eu sentia, porque se eu o deixasse ir, só sobraria dor e tristeza. Eu não queria me sentir vulnerável. — Ele não pode ter feito isso comigo.
— Não é você que sempre diz que não podemos confiar em ninguém? Nem em nós mesmos? Essa é a prova de que você está certo.
— Eu passei todo esse tempo me culpando… — Comecei dizendo — A minha mãe nem olha mais na minha cara… Tudo por causa desse… Não dá… É muita informação… Até pra mim.
— Acho que alguém vai precisar beber essa noite.
— Ele acabou de sofrer um acidente, imbecil. Eu li na internet que…
— FODA-SE A INTERNET — berrou, se levantando. — Primeiro, eu vou buscar outra sopa pra ele comer, e depois a gente vai estrear aquelas suas garrafas de Scott. — Ele tirou os olhos de e me encarou. — E não pense que estou te ajudando porque ainda te considero um amigo. Eu só quero ver no que essa novela mexicana toda vai dar. E já que agora você é meio que… irmão da , ela está livre para mim.
Meu sangue ferveu. Meu rosto estava vermelho e eu nem precisava me olhar em algum espelho para saber disso.
— Você tem muita sorte que eu não consigo me mexer direito. Muita mesmo.
— Vou aproveitar esse momento — Ele disse, atravessando a sala e sumindo atrás da porta de entrada.
Quando eu olhei para , ele estava boquiaberto, olhando para o nada.
— Isso é muito bizarro.
— Se você acha bizarro, imagine eu.
— Como está conseguindo ficar tão… Calmo?
— Você acha que se eu pudesse, eu já não estaria lá, quebrando a casa dele inteira?
— Bom, eu estava pensando em vocês conversarem… Mas quebrar a casa dele também é uma opção a se considerar.
me veio à cabeça de repente. Acho que eu só não havia pirado ainda por causa dela. Minha maior preocupação era ela e somente ela. Como eu diria a ela tudo aquilo? Não havia forma certa de dizer “olha, existe uma grande possibilidade de sermos irmãos, por isso eu te coloquei dentro do carro em Paris e dirigi feito um louco para ficar o mais longe de você o possível”.
— Você havia dito que só descobriu tudo isso por causa do colar. Mas podem haver mais iguais.
— Não, é exclusivo. Eu lembro que meu pai me levou na loja para que eles pudessem medir o tamanho do cordão. Ele disse que… Era uma herança de família que ele estava começando, que seria dado ao primogênito dele e que era para ser passado de geração em geração.
Eu não conseguia mais sustentar meu olhar com o dele. Sentia-me envergonhado, triste, enganado, vazio.
— E mesmo que não fosse exclusivo… afirmou ter ido na casa da … Na casa dele. o viu.
— E você está enxergando pelos olhos dele, precisa ver pelos seus. Até então, nada está provado. Eles nem chegaram a se conhecer oficialmente, só se viram uma vez. pode ter se confundido.
— Ainda que fosse, , há muitas coisas sem explicações. Você não acha estranho essa ligação que eu tenho com a ? Esse desejo repentino… É como se eu já a conhecesse.
— Amor a primeira vista.
— Isso não acontece com gente como eu. Não me apaixono por ninguém. Só por mim.
— Que bom que você não perde seu egocentrismo até em situações como essa — sussurrou, me provocando um breve riso, quase sem humor. — Você tem que contar para ela.
— Eu sei, e eu vou, só preciso achar um jeito de tudo isso parecer ser menos pior do que de fato é. Não quero machucá-la. Ela não merece isso.
— Você também não, cara. Eu sei o quanto você sofreu com a morte-não-morte do seu pai. Ele não tinha o direito de fazer isso.
Eu observei a ponta dos meus pés, ficando pensativo. Eu já não sabia se alguma coisa era real. Na verdade, eu não sabia distinguir o que era inventado e o que era realidade. Eu nem ao menos conseguia entender o que estava de fato acontecendo; minha cabeça parecia girar muito rápido para a minha concepção. Eu sentia dores em lugares que nem imaginava existir; meu estômago estava sofrendo de pontadas que vinham e passavam constantemente. Eu queria vomitar, mesmo de barriga vazia.
Sentia-me pesado. Cansado. Exausto de tudo aquilo. Esgotado da vida que eu levava. Fadigado do progressivo sentimento de decepção ao ver meu reflexo no espelho e não conseguir reconhecer seja lá o que eu tenha me tornado.
Eu só precisava vê-lo.


Continua...



Nota da autora: (10/07/2016) Se quiserem falar comigo, me xingar ou qualquer coisa, podem me encontrar no meu twitter @histylz okay? É isso. Beijooooss!



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