Escrita por: Naya R.
Betada por: Cocó




CAPÍTULOS: [01] [02] [03] [04] [05] [06] [07] [08] [09] [10]



Dia 01


Abri meus olhos cansados da viagem. Demorei para me acostumar com a luz forte do sol batendo no meu rosto, mas mesmo assim gostei daquilo. Era quente e aconchegante. Passei a mão nos meus cabelos fervendo por causa do sol e soltei um sorriso. Estralei meu pescoço e senti um cheiro gostoso invadir minhas narinas, canela e cheiro de grama recém cortada.
Canela? Grama recém cortada? Pela primeira vez percebi que não estava no meu quarto em LA. Onde estava meu carpete? Onde estava meu espelho? Onde estava Mr. Mulligan? Levantei batendo os pés. Aquele quarto era completamente estranho, meu coração já estava desorientado, batendo forte e minha respiração descompassada tomava conta do ambiente.
— Tem alguém aí? — Perguntei, não em um tom muito alto. Talvez não fosse o certo berrar.
Saí do quarto e andei pelo corredor não muito longo, cheguei à outra porta e tentei abri-la devagar, mas estava trancada. Segui em frente, indo até outra porta, que descobri por ser a do banheiro. O banheiro era pequeno, e todo verde. O piso era verde claro, e as paredes eram cobertas por pastilhas verdes escuro. Era um banheiro fofo.
Tive um mini ataque cardíaco quando ouvi um baque na porta que estava trancada, com o susto acabei por me fechar no banheiro. Ouvi o barulho da maçaneta tentar ser aberta umas dez vezes, e ouvi algumas porradas na porta e um palavrão. Senti uma lágrima no meu rosto: era de medo, esse tipo de pressão não é pra mim. Quem estava lá?
— Tem alguém aí? — Diferente do meu tom de voz, aquilo foi um berro extremamente alto. Meus olhos se arregalaram, eu conhecia aquela voz.
Saí do banheiro enxugando minha lágrima teimosa com a manga da blusa e sorri instintivamente. Me aproximei da porta e respirei fundo, meu coração extremamente aliviado.
? — Perguntei, colocando uma mão na maçaneta e outra na porta, logo sentindo ele dar outro soco na porta. Sua respiração era descompassada, ele estava nervoso. E eu senti a maçaneta mexer, fazendo a minha mão girar junto.
? , é você? — Ele provavelmente estava colado à porta, porque eu ouvia a sua respiração bater na mesma. — Caralho... — A respiração dele estava me deixando fora do sério. — Me tira daqui, você está com as chaves?
— Eu... Eu não tenho as chaves... Vou procurar.
— Rápido! — Ele disse do outro lado, nada de "Tome cuidado nesse lugar estranho, pode ter um estuprador!". Desci as escadas correndo. Encontrei uma porta de correr onde devia ser a cozinha, quando abri, a primeira coisa que vi foi um par de chaves pendurados em um imã na geladeira.
Peguei-as e corri até a porta trancada novamente.
— Achou?
Não respondi, fui logo tentando colocar a chave na fechadura e felizmente abriu. Seus olhos castanhos estavam arregalados, seus lábios entreabertos e a respiração ainda descompassada. Ele passou por mim rapidamente e desceu as escadas. Nada de "Obrigado ". De nada , quando precisar...
Virei os olhos o vendo lá embaixo. Todo melodramático, rondando o lugar sem nem me agradecer, ou se preocupar em saber se eu estava bem.
— Você está bem? — Perguntei no último degrau da escada, ele me olhou de cima abaixo, fuzilando.
— Eu pareço bem? — Eu já havia me acostumado com aquele dia a dia agradável com ele. — Você sabe onde estamos?
— Não. — Respondi descendo o ultimo degrau e girando trezentos e sessenta graus, examinando o ambiente. Resolvi voltar à cozinha. Aquele lugar era completamente estranho, tinha que ter alguma coisa por trás disso tudo. Eram os Jogos Mortais? Balancei a cabeça tentando afastar esses pensamentos idiotas e arrastei a porta, observando , que saiu pela porta da frente.
Abri os armários e a geladeira, estava tudo cheio de comida, mas não ousei encostar em nada. Segui até a grande mesa de madeira, tinha um envelope azul marinho encima da mesa, e logo meu coração deu um pulo novamente. O envelope praticamente voou na minha mão, tamanha foi a velocidade que eu o agarrei, desesperada.

" e ,
Hoje vocês acordaram em uma casa desconhecida, e aí vocês vão ficar durante 10 dias.
Eu sei, POR QUEEEEEE? Porque vocês são as duas pessoas mais opostas que o mundo já viu, ninguém aguenta vocês quando estão juntos. Eu não quero mais saber de brigas.
Nesses 10 dias, eu quero que vocês se entendam. Quero que tudo dê certo e quero-os íntimos, sabendo tudo um sobre o outro e se divertindo.
Essa casa é longe de tudo, nem percam tempo saindo pelo mato, e os seus celulares estão comigo. Vocês têm livros, comida, roupas, água e o que vocês mais gostam: Música. Tratem de agradecer a gente quando voltarem e não se esqueçam de conviver pacificamente.
Com amor, ."


! — Chamei e ele logo veio correndo até mim, esbarrando na porta, mas nem se importando com isso. Agarrou o papel da minha mão e passou os olhos por ele.
— Eu vou matar o . — Ele disse largando o papel em cima da mesa. Indo até a parede e socando-a. Ele não sabia se controlar, ou era oito ou oitenta. Ou estava muito calmo, ou muito bravo. Detestava isso. Já vi que essa semana seria longa.
Fiquei o observando em silêncio, parecia pensar por alguns minutos. Ficamos ali, em silêncio.
— Eu... Nós devíamos tentar sair daqui. — Ele disse simplesmente.
— O quê? Você não leu a carta? disse que é longe de tudo.
é um babaca, ele deve estar aqui por perto dando risada de nós. Ele sabe que eu não gosto desse tipo de coisa.
— Eu também não gosto. Mas acho que essa carta não foi brincadeira.
— Fala sério, . Nós não nos suportamos, eu não aguento ficar no mesmo cômodo que você por mais de cinco minutos. Essa sua falsa felicidade me irrita. Não vou aguentar cinco dias aqui. Então por que a gente não finge que se importa por mais ou menos algumas horas e conseguimos achar algum tipo de civilização? — Não gostei do seu tom seco, nem das suas palavras extremamente grosseiras. A única coisa que me veio à cabeça foi:
— Prefiro ficar 20 dias aqui sozinha, do que passar uma hora com você lá fora. Quer ir? Vai. — Minha voz saiu exatamente como a dele, era essa a voz que eu usava para conseguir controlar quatro garotos dentro de uma sala acústica, mais oito ajudantes, um estagiário e um chefe.
Seu olhar ficou indecifrável. Ele apenas abaixou a cabeça ao passar por mim e saiu pela porta da frente.
Continuei olhando a casa, agora calma, sabendo que era coisa do . Não estava com medo de algo surgir atrás da porta e me degolar. Eu simplesmente suspirei e examinei. Não era uma casa grande, era toda de madeira e por dentro não era pintada, deixando aquele ar pesado de madeira "crua". Eu estava realmente gostando daquela casa, era hipster, e, mesmo eu não sendo uma, achava extremamente lindo tudo aquilo. Os galhos secos do fim do outono, e algumas flores nascendo no quintal vasto. Eu podia sentir a umidade no ar, o que me deixava com uma intuição de que havia um lago por ali. Eu precisava nadar.
Haviam dois quartos e apenas um deles com cama (o que eu acordei), e sabia exatamente o que aquilo significava. Era bom que tivesse saído, e eu esperava fielmente que ele encontrasse alguém e mandasse me buscar. O pequeno banheiro verde com uma janelinha também pequena. Uma sala com um sofá confortável de couro e a cozinha. Parecia mais uma cabana do que uma casa, mas o segundo andar denunciava que era uma casa.
Depois de tanto fuçar, finalmente encontrei outro envelope, estava encima de uma caixa de som, no canto da sala.

" e ,
Se divertindo?
Espero que sim, venho por meio desta esclarecer o porquê desta carta: Apreciação musical. Em algum lugar dessa casa está escondido um pen drive, nele encontram-se 15 músicas. As 10 músicas preferidas de e as 10 preferidas de .
Falem sobre isso, lembrem-se dos momentos que vocês tiveram com estas músicas. Lembrem-se do porquê de estarem aí. E acima de tudo, aproveitem.
Com amor, Hay."


A letra era dela, isso era visível. Percebi que se haviam duas cartas, poderiam ter mais delas espalhadas pela casa, isso era tão e Hayley que chegava a doer.
Até mais ou menos meio dia, consegui juntar 5 cartas. Eu iria ler tudo junto, seria divertido rir um pouco sozinha até eles chegarem ou algo do tipo.
Eu não me importava de ficar ali sozinha, eu realmente confiava na Hay e no . Procurei algo pra comer e por pura e intensa preguiça optei por miojo, afinal nas prateleiras haviam pacotes de miojo pra alimentar a cidade durante um mês.
Nenhum sinal de durante mais ou menos 3 horas, aquilo era extremamente tranquilizante, fiz meu miojo e juntei todas as cartas em cima da mesa.

" e ,
Conversem sobre as músicas e sobre o que elas significam para vocês. Isso vai mostrar que vocês têm mais em comum do que pensam... Eu e Hay, vendo todo esse drama de longe, e conhecendo vocês como conhecemos, acabamos por perceber que vocês não são opostos, e sim tão parecidos que acabam se anulando. TENTEM se conhecer, de verdade. É uma das únicas coisas que eu peço.
P.s. Tem antialérgico na primeira gaveta do banheiro.
Com amor, "


Essa primeira carta estava encima da antiga TV no quarto em que acordou. Eu tinha certeza que aquela TV nem ligava, mas ela dava um ar tão charmoso àquele quarto que eu pensei em tentar ligá-la mais tarde, só pra ter o gostinho de vê-la funcionando em preto e branco (que era provavelmente como ela seria).
A segunda carta tinha meu nome no envelope.

",
Eu sei que tu deves estar adorando isso, eu sei como tu és besta e deve estar aceitando completamente o destino de ter que ficar com durante 10 dias. Mas ele é diferente nesse quesito, eu queria te pedir particularmente que tentasse realmente absorver tudo que ele tem pra oferecer. Ele é muito inteligente, , e é bem cabeça dura, eu sei, mas ele é diferente de tudo que você vai ver. Se eu não fosse completamente e idiotamente apaixonada por , eu provavelmente seria por .
Estou sendo completamente franca contigo, por mim, aproveita esse tempo sem dar bola pras birras dele e as reclamações excessivas, tenta ver um lado dele que tu nunca viu. Usa a imaginação, tu é muito boa nisso!
Te amo mais que tudo,
Da sua melhor amiga
Hayley xx"


Eu adorei essa carta, e vendo como Hay tinha se esforçado para fazer aquilo por mim, eu estava completamente disposta a fazer aquilo por ela.
Antes de pensar em abrir outra carta, ouvi um barulho. Não sabia distinguir se eram passos ou apenas o barulho do vento nas árvores, por isso apenas fiquei em silêncio, aguardando por alguns segundos.
Os segundos mais longos da minha vida. Não tive medo, só fiquei apreensiva. Talvez com o coração palpitando um pouco, mas só.
Eu confiava em e Hay, eu sabia que nada de aterrorizante estaria naquela casa. É... Eu espero.
? — Perguntei indecisa, mordendo o lábio.
— Eu odeio o . É definitivo. — disse jogando-se na cadeira a minha frente e descendo os olhos até o montinho de cartas.
Eu não aguentaria aquilo.

Cinco minutos. Era o que nós tínhamos passado juntos, sem qualquer tipo de alfinetada. Foram os cinco minutos que ele passou lendo a primeira carta.
— Qual é o problema deles? Sério, eu ainda não entendi isso. É... É uma idiotice pura.
— A realidade é que eles não nos suportam, . Eles nos amam quando estamos separados, mas juntos nós somos insuportáveis.
— Eu não me importo com isso... Porra, só quero ter um fim de semana normal. — Ele parou um pouco, provavelmente pensando no que tinha dito. — Eu me importo com eles, eu só não me importo com... você.
— Eu sei disso, e saiba que o sentimento é recíproco. Mas será que não podemos fazer um tratado de paz? Por dez dias? Eu consigo fazer isso, eu consigo te aguentar por dez dias. Você consegue? — Perguntei com uma voz convidativa. Desafiando-o.
Ele levantou a sobrancelha.
— Eu posso fazer isso. Por eles.
— Então temos uma trégua?
— É, temos uma trégua de dez dias.
Estiquei a minha mão até ele, que a apertou forte demais.
Trato feito.

Ficamos o dia inteiro sem trocar palavras, e isso era na verdade um sucesso, sendo que se não trocávamos palavras, não existia briga.
Acabei passando a tarde inteira vasculhando a casa e descobrindo novas coisas, enquanto ele ficou deitado no sofá lendo um livro que estava na velha e pequena estante atrás do sofá.
Encontrei os antialérgicos que estavam escritos na carta, encontrei todo tipo de produto de higiene pessoal, e isso inclui absorventes, gilete, cremes, protetor solar, e uma caixa de camisinhas fechada, o que eu achei extremamente rude da parte deles. Mas ignorei porque sabia que eles era retardados assim mesmo.
Já era noite quando eu fui tomar um banho, o banheiro por ser pequeno acabou todo molhado, mas tenho certeza que nem notaria isso. Deitei na cama do quarto em que acordei, desejando do fundo do meu coração que aquilo fosse só um tipo estranho de pesadelo.
? — Eu estava quase dormindo quando ouvi a voz dele. Me virei para vê-lo. Os cabelos molhados recém lavados, uma blusa branca e uma samba canção xadrez, típico astro do rock indo dormir. — Fiz um sinal com a mão para que ele continuasse a falar. — No meu quarto não tem cama.
— Que interessante, . — Eu disse me virando para o outro lado e fechando os olhos, sabendo que a conversa não acabaria ali.
— O sofá não é sofá-cama, , foi você que começou com esse negócio de nos darmos bem. Eu não estou gritando, estou pedindo. Não quero dormir contigo, mas também não quero dormir no sofá.
— Eu me mexo muito, , eu ronco e babo.
— Eu sei que isso é mentira, deixa de ser idiota e chega pra lá.
Aquilo era mentira mesmo, eu era uma pedra quando dormia. Tudo que eu mexia de dia, eu descansava de noite. Hayley chegava a dizer que assustava.
— Não quero dormir contigo. Esse quarto é meu. — Eu disse, ainda virada de costas pra ele.
Ele pareceu não me escutar, porque logo senti o peso dele no meu lado e o cheiro de canela invadiu as minhas narinas.
— Eu vou respeitar o seu espaço, só quero dormir sem ficar com lordose. — Explicou-se, mexendo um pouco.
Resolvi ignorar, sentindo que se eu falasse algo provavelmente cuspiria fogo.


Dia 02


Pior noite que já passei na minha vida. Levei socos e ponta pés de a noite inteira, isso sem contar as mil vezes que ele jogava os braços pesados em cima de mim, e puxava o cobertor.
— Não dá pra dormir contigo, . Sério. Não tem como tomar um tranquilizante antes de dormir? — Falei, estralando o meu pescoço quando saí da cama. — Temos que resolver isso. — Eu falava tranquila, não queria estragar tudo depois de uma noite “sem tormentas”.
— Resolvemos isso de noite. — Ele foi curto e grosso como o usual. Claro que resolvemos! Seu ignorante, tenho certeza que a tua noite foi maravilhosa.
O cheiro dele estava no quarto inteiro. Segui até o banheiro e fiz minha higiene pessoal. Ainda não havia caído a ficha de que eu passei a noite na mesma cama de ! Progresso? Isso nem se quer pode ser chamado de progresso, nem sei que palavra pode expressar isso! e Hay faziam isso parecer tão fácil. Voltei para o quarto, onde aquele cheiro me arrebatou com tudo, estrelando ainda um sem camisa fechando o zíper da calça jeans rasgada. Eu não podia mentir pra eu mesma e dizer que ele não é atraente. Ele é lindo, mas o seu jeitinho amargo de ser faz com que eu não veja toda essa beleza exterior. Eu realmente gosto do interior.
Abri as janelas para que o ar circulasse antes que eu ficasse entorpecida, e acabei me deparando com uma paisagem perfeita. Havia um lago oval, com a água nitidamente limpa e um cais com duas cadeiras de madeira. Eu suspirei, sentido uma alegria tão grande dentro de mim que corri até a minha mala, atropelando tudo o que vi na minha frente.
— Wow, calma, caralho! — Ele disse, mas ignorei a grosseria. Peguei meu biquíni, um short e um chinelo e corri para o banheiro. Eu já estava sentindo a água gelada no meu corpo, os raios de sol entrando na água quando eu mergulhasse, meus cabelos grudados na testa...
Troquei de roupa, passei protetor solar e desci as escadas correndo. Vi sentado no sofá, dessa vez com um óculos de leitura, resolvi tentar ser agradável mesmo sabendo que receberia uma patada como resposta. Gosto de tentar ser surpreendida, mesmo sabendo que dele eu não receberia nada que não esperasse.
— Não quer ir nadar? — Joguei a toalha que havia separado sobre o ombro e ele apenas subiu o olhar até mim, unindo as sobrancelhas e negando com a cabeça. Nenhuma palavra, muito esperto.
Saí correndo e rindo, eu realmente não queria a companhia dele naquele momento de paz que eu estava prestes a ter. Minha música favorita já tocava em minha cabeça, e ao chegar ao cais acabei por começar a cantarolá-la.

Don't tell me not to fly
I simply got to
If someone takes a spill
It's me and not you
Who told you
You're allowed to rain on my parade?


Vi um bilhete encima de uma das cadeiras que dizia um simples: É seguro.
Eles pensaram em simplesmente tudo! Obrigada, Hayley e , eu amo vocês.
Joguei a toalha em cima da cadeira, tirei meu short fofo e pulei na água cheia de ansiedade. Estava gelada demais, mas mesmo assim estava perfeita. Voltei para a superfície sentindo o sol bater no meu rosto, era bom demais para ser verdade! Nadei de costas, boiei e mergulhei como se não houvesse amanhã. Não fui muito para o centro do lago por segurança, mas ali perto do cais já era ótimo. Aquela paisagem era demais, minha avó iria adorar, ah se ia!

Quando voltei para dentro de casa, senti um cheiro muito bom de comida e a única coisa que me veio na cabeça foi: sabe cozinhar?
Eu não consegui distinguir do que era o cheiro, mas era bom; isso eu sabia. Terminei de secar meus cabelos na toalha antes de entrar e, na cozinha, a primeira coisa que vejo é com uma faca grande na mão, cortando tomates. Minha primeira reação foi ter um pouco de medo, mesmo sabendo que ele não jogaria aquela faca no meio dos meus olhos. Ou será que não?
Ele não cantarolava músicas, apenas estava focado no que fazia, ele tinha habilidade! Eu, sendo a pessoa comunicativa que sou, não consegui conter a minha língua.
— Você é muito bom nisso.
— É. — Ele disse simplesmente, e eu sabia que a conversa havia terminado ali. Por esse motivo, segui até a escada e fui para o banheiro. Mesmo estando com os dedos murchos, eu tinha que tomar um banho decente. Era de um banho quente que eu precisava.
Cantarolei alguma música aleatória do ABBA e deixei a água escorrer pela minha pele, que ainda estava meio fria.
Saí do banheiro e ouvi barulho de talheres batendo nos pratos. Eu não sabia se devia pegar a comida que ele havia feito ou não, então resolvi que se ele oferecesse eu comeria, se não eu faria a minha comida. Eu era aceitável na cozinha.
Quando entrei na cozinha, destemida a fazer alguma comida, vi que ele estava terminando de lavar a sua louça, analisei que ele estava completamente absorto em pensamentos e que nem me viu ali. Minha teoria se concretizou com o susto que ele levou quando fechei o armário, segurando um pacote de macarrão.
— Eu fiz comida para dois. Não sou um babaca. — Ele disse rude, secando as mãos em um pano de prato e arrancando o pacote de macarrão das minhas mãos.
Porque, afinal, eu o odiava? Ele era rude, ignorante e extremamente antipático. Acha que só porque ele não é feliz, ninguém mais pode ser e é sempre ele acima de tudo. Mas admito, isso me deixou surpresa.
Comi o estrogonofe de frango que ele havia feito em silêncio, estava ótimo, mas não dei o gostinho de falar isso para ele. Pelo contrário, fiquei com aquilo matutando na cabeça o tempo todo, e por esse motivo, quando terminei de comer e lavar a louça, segui até a sala, onde ele ainda lia o mesmo livro de ontem, ainda com os óculos de aro médio preto. Sentei-me na sua frente. Ele levantou os olhos do livro, já estava na metade.
— Porque você me odeia?
fechou o livro a sua frente, eu pude ver o título: O Iluminado.
— Eu nunca fui com a sua cara, você é manhosa, sonsa e falsamente alegre. Eu detesto essa máscara de felicidade contante, para com isso! Não sei porque você faz isso. Detesto as músicas que você escuta, aqueles lixos da Broadway, odeio os filmes românticos que você assiste e odeio as roupas idiotas que você veste. Não odeio só você, sabe? É um conjunto de coisas que te constroem que acabam por me fazer odiar você. — Ele disse aquilo calmamente, olhando em meus olhos, eu sentia que aquilo era verdadeiro. Não que eu me importasse, era exatamente o que eu queria ouvir.
— Então quer dizer que se eu fosse um pouco mais arrogante e antipática eu seria menos odiada? — Perguntei, devolvendo o olhar intenso com o qual ele me olhava.
— Não sei, você é assim. Não deve mudar só porque alguém te odeia.
— Eu nunca disse que ia mudar. Se eu mudasse, seria por mim e não por qualquer um.
— Hum, mas e eu?
— Você o quê? — Dei um nó frouxo no meu cabelo, estava pingando água no sofá. Eu ainda estava com a parte de cima do biquíni e o short, apenas coloquei uma calcinha. Mas ele parecia ignorar muito bem a minha nudez, então ignorei também.
— Porque você me odeia?
— O mesmo, só que ao contrário.
— Então não é o mesmo. Explique-se, eu quero saber exatamente o quê você odeia em mim.
— Porque? Pra você fazer com mais vontade ainda?
Deu uma risadinha pelo nariz, e deu de ombros.
— Eu odeio a sua personalidade extremamente grosseira, você nunca se importa com os outros! Odeio essa seriedade toda, esse pessimismo barra realismo, você sonhou alguma vez na vida? Ou melhor, você já sorriu alguma vez? Acho que você não gritasse pra mim, eu nunca teria visto os teus dentes. Detesto a falta de respeito que você tem comigo, e esse teu jeitinho não me toque de ser, sempre se colocando em um pedestal.
— Então quer dizer que se eu usasse uma máscara de felicidade, você me odiaria menos?
— Você não precisa usar uma máscara para ser feliz. Você não é infeliz o tempo todo, porque você é comigo?
— Porque você precisa de um pouco de infelicidade pra apagar toda essa sua felicidade enrustida.
— Eu não sou falsamente feliz, eu sou feliz, eu amo meu trabalho, eu amo a minha vida. Porque eu não seria feliz?
— Eu amo a minha vida, mas não é por isso que eu saio por aí cantarolando e vomitando arco-íris.
Eu estava surpresa por aquela conversa estar sendo tão sincera e tão... normal? Sem gritos e berros. Eu já cheguei a cuspir na cara dele, não fui demitida porque o resto da banda me ama.
— Touché. — Falei me preparando para me levantar, mas antes de fazer isso, acrescentei: — Eu gostei disso. — Mexi o dedo entre nós dois, indicando que eu falava da conversa. — Foi franca e..
— Já terminou? Quero terminar meu livro.
Levantei batendo pé, e suspirei, eu não iria aguentar aquilo.
Percebi que não tinha o que fazer, então fui até a estante e procurei algum livro meu ali. Não havia algum livro meu ali. Pode me chamar de babaca, mas eu amo Nicholas Sparks. Adoro amores impossíveis e rasgação de seda. Infantil, mas simplesmente não posso me segurar.
— Você por algum acaso viu algum livro meu aqui? — Perguntei e ele deu um longo suspiro, tirando o óculos e vindo até o meu lado na estante.
— Não, , eu não vi. Você gosta de melação, né? Não tenho melação, o máximo de romance que tu vai ver aqui é o Clube da Luta.
— Como o Clube da Luta pode ter romance? É um clube... que tem lutas!
— Lê e descobre.
Fiquei lendo a tarde inteira, assim como ele. Fui para o quarto para não ter que ouvir a sua respiração irritante. O pior? O livro era bom, eu não tinha entendido onde estava o romance de verdade, mas tinha alguma leve aspiração de romance entre o principal e a Marla. Eu só tinha que terminar o livro e descobrir.
Eu já estava na metade quando ouvi ele bater na porta.
— Eu... Eu vou tomar banho... — Ele fechou os olhos e suspirou. — Eu preciso deixar a porta aberta, tudo bem pra você?
Ok, aquilo sim era estranho.
Eu ouvia o barulho alto do chuveiro ligado, e aquilo simplesmente não saia da minha cabeça! Primeiro o fato dele querer isso, banheiro aberto? Ele era tão irritante a esse ponto?Inundar a casa inteira? Não duvido. E segundo, saber que ele estava nu ali, no fim do corredor, estava me deixando inquieta, se eu fosse tomar água provavelmente o veria e ele provavelmente me veria e era algo que eu não queria que acontecesse. E eu nunca estive com tanta sede na minha vida. Maldita pressão psicológica.
Parei de ler, estava desconcentrada, ri e reli a mesma linha umas trocentas vezes. Foi aí que ouvi o chuveiro desligar, abri o livro para fingir que estava lendo e logo ele entrou no quarto com a mesma blusa branca de ontem, e uma samba canção também branca.
— Quer conversar sobre isso? — Perguntei por instinto, e acabei por fechar os olhos. Sabendo que vinha bomba.
— Eu posso tentar fazer um muro de travesseiros. É muito idiota essa ideia? — Ele ignorou a minha pergunta, mas a dele foi muito melhor.
— Vamos ter dez dias pra testar todos os tipos de ideias. — Falei me levantando, enquanto ele colocava os vários travesseiros que estavam jogados por cima da cama. Eu nem tinha percebido que haviam tantos. Separei meu pijama e fui até o outro quarto me trocar.
Ele continuava lendo o seu livro com o óculos e o abajur ligado no seu lado da cama, dei a volta e deitei no meu lado, que ficou bem mais apertado graças ao muro de travesseiros. Eu estava mesmo preocupada com ele?
... — Chamei-o, apoiando meu braço no muro e minha cabeça apoiada em meu braço.
— Não. — Ele nem tirou os olhos do livro.
...
— Não, , nem começa com essa compaixão.
— Eu me importo com os outros.
— Não perca o seu tempo se importando comigo, o sentimento não será o mesmo vindo de cá.


Dia 03


Acordei muito bem, estiquei meus braços rindo sozinha de um sonho besta que acabei de ter, algo com bananas e galinhas. Tropecei ainda sozinha por causa do sono e segui até a minha mochila e peguei roupas limpas.
Não notei se estava na cama ou não, apenas segui até a cozinha e fiz uma vitamina de banana, com aveia e linhaça, como eu costumava tomar pelo menos cinco dias por semana. Me assustei quando vi já deitado na sala com seu livro fuçado no rosto. Não era mais O Iluminado, e sim O Guia do Mochileiro das Galáxias.
— Quer vitamina? — Pergunte alto da cozinha mesmo, e ele apenas negou com a cabeça. Eu sabia que essa seria a resposta, mas como ele havia me feito comida ontem, achei que seria simpático da minha parte fazer o "mesmo". — Por favor, é vitamina! De banana! Todo mundo ama vitamina de banana!
— É nojento. — Ele respondeu simplesmente e continuou com o nariz colado em seu livro irritante.
Nada iria abalar o meu humor hoje, se alguém iria se irritar, essa pessoa era ele, e seria por minha causa, disso eu tenho certeza.
Tomei um gole da minha vitamina.
— Me fale alguma coisa sobre você. — Falei, me sentando ao seu lado no sofá, e ele me fitou, levantando as sobrancelhas. — É sério, eles falaram para nos conhecermos... Eu estou tentando.
— Não quero te conhecer... O pouco que já conheço é demais pra minha cabeça.
— Eu quero te conhecer. Hayley disse que posso me surpreender, que você é inteligente e diferente de tudo que eu vou ver.
— Esse sou eu. — Ele disse, dando um leve sorriso e voltando os olhos ao livro.
— Você é alérgico a quê? Eu não tenho alergias, e bom, tem antialérgico no banheiro.
— Você. Eu sou alérgico à .
Eu não iria desistir tão fácil, eu tinha que aproveitar o meu bom humor para desvendar o submundo de .
— Vamos caminhar? — Eu realmente não queria ficar os dez dias ali, enfurnada naquela casa velha.
— Vamos o quê?
— Caminhar, , andar, passear, dar passos... Eu não quero ficar os dez dias aqui dentro, parecendo uma defunta, sentada nesse sofá lendo. Sem ofensas.
— Então vá, eu gosto de ler.
— Não quero ir sozinha, quero te conhecer, lembra?
— Oi, meu nome é , tenho 23 anos e sou de Nashville. Gosto de ler, comer e fazer música. Detesto gatos e gosto de dormir de meias. Minha fruta preferida é morango, e minha cor é cinza. Satisfeita?
— Cinza? Quem diabos gosta de cinza?
— Eu? — Ele perguntou, levantando uma sobrancelha e eu senti que ele estava "se divertindo".
— Adorei saber disso, de verdade. Agora, vamos caminhar?
— Eu não quero caminhar.
— Vamos rastejar.
— Vai chover, está vendo?
— O QUÊ? — Corri até a janela. O sol brilhava no céu, e não havia um sinal qualquer de nuvens. — Você é um babaca.
— Sei disso. — Me virei para ele e ele estava se levantando, e fechando o zíper do seu casaco, como se estivesse muito frio lá fora, devia estar fazendo uns 35º.
Eu usava um short florido e uma regata azul, simples.
Andamos por uma trilha que começava atrás da nossa casa, que seguia pelo mato e dava em algum lugar, era isso que iríamos descobrir.
O silêncio dominou o lugar por alguns bons minutos, eu estava encantada demais com o som e o cheiro úmido daquele lugar, era... surreal.
— Será que dá pra caminhar, ou tu vai ficar muito tempo aí parada? — Só então percebi que eu estava realmente parada, de olhos fechados. Quando abri meus olhos vi ele parado, com as mãos no bolso, me olhando desconfiado.
— Desculpa, eu... — Deixei a frase morrer por ali, ficando sem graça. Segui em frente, de olhos bem abertos para não perder nada. — Você não acha isso lindo?
— É. — Ele respondeu dando de ombros. — Não sou do tipo ligado a natureza, gosto de ficar em casa, gosto de fazer nada...
Aquilo sim era um grande passo! Ele falando por pura vontade? Quem é você e o que você fez com o ?!
— Quando eu finalmente acho que encontramos algo em comum, você vem e destrói. — Falei em um tom divertido, não era uma restrição, era um comentário incentivador. Ele deu uma risada nasal.
— Quando os outros dizem que somos opostos, eles não estão exagerando.
Continuamos andando, aquilo estava sendo agradável até demais. Alguma coisa estava mudando naquela armadura dele, e eu nem pensei mais em forçar nada, talvez as conversas começassem a surgir naturalmente.
Amarrei meus cabelos, analisando como ele ficava bem de jeans surrados, porém logo tirei esse pensamento da minha cabeça, vendo que estávamos indo longe demais.
— Acho melhor voltarmos... — Comentei, olhando pra trás e vendo o reflexo do sol no lago, estávamos bem longe.
— Estamos bem, quero te mostrar uma coisa. — Ele disse seguindo em frente determinado. — É logo ali.
Assim como eu, ele parecia estar de muito bom humor, mesmo tentando ao máximo não me mostrar isso. Não estava bravo, carrancudo e reclamão. Aquele ali, era, sem dúvidas, um que eu jamais tinha visto comigo. Sim, esse eu já tinha visto, mas não direcionando a palavra a mim.
Talvez fosse a minha felicidade que estava o contagiando.
Ele me guiou por uns quinze minutos pela trilha, eu estava ficando cansada e por incrível que pareça ansiava pela minha/nossa cama.
— Vai demorar muito? — Me peguei perguntando, e ouvi uma risadinha pelo nariz.
— Cadê a "senhorita quero caminhar"?
— Cala a boca.
Ele olhou em volta, e seu olhar confuso acabou me deixando com medo. Mesmo assim ele seguiu em frente.
— Eu queria caminhar, não fazer um curso de alpinismo! — Falei de novo, e ele nem se deu ao trabalho de responder, sendo que logo a trilha acabou, dando em um bosque com um mato mais baixo e extremamente verde. No meio dele tinha uma cabana, muito parecida com a que nós estávamos, só que no mínimo a metade do tamanho. Parecia algo como a casa dos sete anões, e eu ri sozinha. Era linda.
— Ela é linda! É a sua casa, Zangado? Cadê o resto dos anões? — Ele sorriu, entendendo a referência. Seu sorriso era lindo, principalmente contra o sol como ele estava.
— Eu que pergunto, Dunga, onde estão os outros? — Eu realmente achei que ele fosse me comparar à Branca de Neve?! Doce ilusão.
Me aproximei da casa e olhei pela janela, era tudo florido, as paredes, as cortinas e o sofá. A coisa mais fofa do universo.
— Achei que tu fosse gostar, essa casa é bem... .
Não sei se foi um elogio, mas achei extremamente amável da parte dele.
— Eu adorei! É lindo. Quando você achou isso?
— No primeiro dia.
— Eu sei que tu não tá gostando disso, . — Eu falei o encarando. — Mas eu sinto como se estivéssemos fazendo um favor pra eles. Como se fosse exatamente isso que eles quisessem que acontecesse. — Suspirei e continuei: — Eu sei que eu falo demais, que vivo cantarolando, e sorrio demais e isso te irrita. E eu sei que disse que não vou mudar por ninguém, mas acho que posso começar te pedindo desculpas.
Ele não falou nada, apenas ficou lendo a minha alma com aqueles olhos fortes e extremamente invasivos.
— Me desculpa por te dar um tapa na cara no meu primeiro dia de trabalho, me desculpa por todas as vezes que te chamei de ignorante, babaca, sádico, filho da puta e entre outros nomes chulos. Tenho certeza que a sua mãe é uma pessoa completamente amável. Me desculpa pela vez que cuspi em você e todas as vezes que coloquei coisas estranhas na sua comida.
continuou me encarando. Comecei a me sentir incomodada, ele não estava perto de mim, por isso fiquei aliviada, porém aqueles olhos estavam me deixando inquieta. Eu não esperava uma resposta daquilo que falei, sabia que não era fácil pra ele como era pra mim, e sabia que ele talvez não se sentisse culpado a ponto de me pedir desculpas.
Quebrei nosso contato visual e segui para trás da casa, querendo explorar. Sentindo seu olhar nas minhas costas, encontrei um pequeno canteiro de flores. Estava visivelmente abandonado, acho que sei o que vou fazer pelos próximos dias! Hahaha.
Me sentei ao lado das flores, em posição de índio, e tirei algumas pragas que estavam no meio delas. Eram silvestres, e bem coloridas. Em outras palavras: Lindas.
Acabei arrancando algumas para colocar em um copo e me levantei, estava mais afastado dali, de pé, olhando pro nada. Me aproximei. Seu olhar caiu em mim de novo.
Cheirei as flores que havia arrancado e dei uma azul a ele.
— É a cor da amizade. — Falei.
Ele virou os olhos, mas não jogou a flor fora antes de dar meia volta e seguir para a trilha.
Em casa coloquei minhas flores na água em um copo. E postei o vaso no meio da mesa. seguiu para o nosso quarto e eu fui caçar comida. Foi um dia divertido.

Flashback In
— Ela é... diferente. — Foi o que Hayley disse. Rindo um pouco. A olhei de cima a baixo: Baixinha, dentuça, magrela, cabelos vermelhos e perfeita. Diferente? Mais diferente do que Hayley Williams? — Não me olha assim! Você vai entender quando vê-la.
— Se você diz... — Dei de ombros cruzando os braços e encostando na parede, estávamos na estação de trem, esperando essa criatura diferenciada. Hay ficou falando dela a semana inteira, mesmo assim eu não estava animado. Não vou mentir. Eu esperava uma fazendeira, talvez com um chapéu de cowboy e um pedacinho de capim na boca. Realmente não sei como as pessoas brasileiras são. Ainda mais as que nascem no Brasil e moram em Dakota do Sul.
Ouvi um grito vindo da boca de Hayley e olhei para as pessoas que saíam do trem que acabara de chegar. Ela correu até a multidão, eu só conseguia ver a pontinha da sua cabeça flamejante; confesso que fiquei desapontado, eu esperava algo... inesperado.
A garota que a abraçou era normal. Tinha cabelos ruivos que se destacaram com os de Hay quando se misturaram no abraço. Ambas sorriam abertamente e falavam sem parar. Hay olhou pra mim e me mostrou pra ela, que abanou a mão abertamente, sorrindo e fazendo escândalo.
Elas se aproximaram, ela era um palmo mais alta que Hayley, tinha olhos azuis e um rosto extremamente pintado de sardas. Linda.
Hay estava emocionada, eu conseguia ver seus olhos brilhando de excitação, esperando que eu falasse algo quando elas chegaram ao meu encontro. Então para não parecer o idiota do ano eu disse:
— Vocês são estranhas.
É claro que foi uma brincadeira, eu sempre fui meio estúpido, fui criado assim. Hayley que já me conhece, deu uma risada pelo nariz, mas a sua amiga ficou tensa.
— Foi uma brincadeira. — Falei e ela finalmente respirou aliviada e me abraçou. Como se fossemos íntimos o bastante para isso. Olhei Williams desesperado e ela deu de ombros, mostrando todos os seus dentes naquele sorriso que eu conhecia.
— Eu sou a , Hay me falou muito de você! É , certo? — Ela era animada demais. Mexia os braços e falava rápido. Eu estava entendendo o porquê da frase "Ela é diferente". Concordei com a cabeça e ela me soltou do abraço.
pareceu se lembrar de algo, e tirou a mochila entreaberta que carregava das costas. Hayley me olhou estranho, como se falasse "Não sei o que ela está fazendo, seja o que for, não ri!". Como se eu fosse pessoa de sair por aí rindo dos outros. E eu era, o pior de todos.
A garota remexeu dentro da mochila, e logo tirou o braço trazendo junto da sua mão um gato branco acinzentado. Um gato! Um gato grande e gordo dentro da mochila. Ele ainda estava de olhos fechados e seu rosto era manso, como se estivesse adorado a viagem. Como se fosse a coisa mais normal do mundo, ela continuou segurando o bichano com uma mão e jogou a mochila aparentemente vazia em um dos ombros.
— Este é o Mister Mulligan. — Ela o ajeitou no colo e depositou um beijo na sua cabeça. O gato continuou dormindo. E eu já sabia qual era a atividade preferida dele.
— Ele é lindo, . — Hay disse, passando a mão nele.
Não gosto de bichos. Não gosto de pêlos. E não tenho responsabilidade o bastante para cuidar de uma vida que não seja a minha. Quando eu tinha uns seis anos, ganhei um hamister em uma quermesse, no segundo dia com ele, coloquei-o no sol e esqueci; algumas horas depois fui buscá-lo e ele estava todo sequinho, com a boca escancarada e a linguinha pra fora. Tenho certeza que com 23 anos, isso não mudou muita coisa.
Em cinco minutos de viajem para a nossa casa, eu descobri que era extremamente irritante. Ela foi chamada pela própria Hayley Nicole Williams para ser a nossa nova empresária, nós precisávamos de uma, e ela precisava de uma banda. era filha do dono da maior produtora de música do litoral. E, bom, não tínhamos como recusar. Hay me contou que, quando elas eram mais novas e a banda estava começando, ela se ofereceu para esse cargo, mas seu pai acabou não deixando. Afinal, ela devia ter uns 17 anos e não sabia o que queria da vida.
Não demorou muito para todo mundo descobrir que eu e não podíamos ficar no mesmo recinto por mais de 15 minutos.
Flashback Out


Dia 04


Abri meus olhos e senti braços me envolvendo.
Ok.
Aquilo era extremamente invasivo e desnecessário, mas seus cabelos jogados sobre o meu peito descoberto me deixaram tonto por alguns segundos. Aquele cheiro de morango, que era pra ser insuportavelmente enjoativo acabava por ser extremamente viciante.
Do que diabos eu estava falando? Empurrei-a para o lado sem delicadeza alguma e me levantei, espreguiçando-me e indo ao banheiro fazer minha higiene pessoal.
O dia estava finalmente perfeito! Três dias nesse inferno até chegar um dia que eu finalmente gostasse, estava nublado e com aquele vento frio e forte que precede uma tempestade. O ar estava úmido, e aquilo me deixou de bom humor. Fui até a cozinha ainda apenas usando minha calça de moletom cinza e preparei um café bem forte. O pseudo-vaso que tinha feito estava encima da mesa, junto com a minha flor azul que eu coloquei ali sem ela ver. Eu não havia mencionado sobre o monólogo dela, mas achei que fosse sensato mostrar que eu tinha dado o mínimo de valor àquela flor besta que ela me deu. Minhas mãos ainda coçavam, mas acho que valeu a intenção.
Pensar no fato de que eu e estávamos nos dando “bem”, me fazia lembrar um pouco da carta que havia escrito pra mim.

,

Acredite em mim quando eu digo que a é uma garota excepcional. Ela é incrivelmente criativa e engraçada. Eu sei que você não gosta dela, mas dê uma chance.
é o tipo de garota que poderia fazer você esquecer um pouco dos seus problemas, não estou falando de vocês casarem e terem filhos, relaxa. Estou falando mesmo de amizade, tem alguma coisa nela, que faz com que eu veja você. Eu sei que é estranho, mas tenta... Aceitar.

Do cara mais lindo do mundo,
.”


Se eu não tivesse a cabeça no lugar, eu poderia pensar que estava realmente gostando dela, mas eu sei que é só porque não tem mais ninguém aqui no raio de uns vinte quilômetros, no mínimo. Não quero ficar louco como Jack Torrence, então é melhor conviver pacificamente com ela.
Quando terminei meu café, a vi descendo as escadas com uma touca cinza de crochê com orelhinhas pretas e um moletom largo do Mickey. Era engraçado vê-la toda encasacada, como se não fosse ela de verdade.
não sabe disfarçar que me acha atraente. Isso era um fato. No momento em que colocou os pés na cozinha, ela fitou meu tronco descoberto e desviou o olhar rapidamente, seguindo até as bananas como de costume. Não consegui segurar meu meio sorriso enquanto lavei minha caneca e coloquei no escorredor.
— Hoje vai ser chato. — Ela disse, pegando a aveia e a linhaça no armário. — Não tem sol, está frio... Não sei o que vou fazer!
— Procura o pendrive. — Eu disse, dando de ombros e cruzando os braços. — Preciso ouvir música.
— Eu também. Acho que vou fazer isso mesmo, mas isso não vai me ocupar o dia inteiro.

Tenho que admitir que não ocupou mesmo, em menos de quinze minutos ela já estava ao meu lado no sofá lendo o Clube da Luta, realmente concentrada. Ela não tinha chego na metade ainda, e eu já estava no fim do Guia do Mochileiro das Galáxias, mas o que valia era a intenção, ela estava focada em terminar aquele livro e isso já era alguma coisa!
— Encontrei um violão. — Ela disse, lá de cima, e eu pude ouvir barulhos dela fingindo tocar alguma coisa.
Dei um pulo. Música! Enfim!
me entregou o violão, me senti completo. Dedilhei algumas notas, estava desafinado.
Fiquei um tempinho afinando-o, enquanto ela andava pelo quarto, tão ansiosa quanto eu para ouvir ou cantar uma música. Se tinha uma coisa que fazia sentido nas nossas vidas, era música. Disso eu tinha certeza.
Toquei o comecinho da minha música preferida, e acabei sentindo um baque no coração quando ouvi a voz de cantando a música.

I took my love and I took it down
I climbed a mountain and I turned around


Parei de tocar imediatamente, vendo que ela me olhava com os olhos extremamente arregalados e brilhantes. Eu sabia que viriam muitas perguntas por causa dessa música, então peguei o violão e fui lá fora. Egoísta, eu sei, mas ela iria entender...

— Quer cantar? — Ouvi a sua voz de repente e a olhei com cara de poucos amigos, como se eu fosse homem de “cantar”. — Vamos! Eu te canto uma música, e você canta outra.
— Não. — Eu não estava nem um pouco confortável com aquilo. Do mesmo jeito que não gosto que saibam pelas coisas que já passei, eu não gosto de saber o que as outras pessoas passaram. Desnecessário e egocêntrico. Músicas contam histórias, e eu sabia que ela iria me ler, tentar desvendar, e isso era uma coisa que eu não queria que soubesse.
— Vamos, , derruba essa barreira que está em volta de você.
— Gosto da minha barreira, impede que gente como você se sinta muito a vontade. Exatamente como você está fazendo agora.
— Ok, mister grosseria.

Já era noite quando uma chuva forte começou a cair, resolvi ficar ali fora sentir aquele cheiro de terra recém molhada que eu amava. Apenas guardei o violão dentro de casa e voltei pra fora. Aquele barulho me deixava em um estado psíquico tão relaxante que eu simplesmente sorri sozinho, me sentindo um retardado. Se havia uma coisa com a qual eu me conectava era a chuva. Não me segurei por muito tempo, e não deu muito tempo até eu me enfiar debaixo das gotas grossas que caíam. Ali estava eu estático, sentindo a chuva — um pouco quente, afinal era verão — escorrer pelo meus cabelos, até os pés; perdi a conta de quanto tempo fiquei ali parado, até ouvir uma trovoada alta. Entrei em casa pingando e não vi sinal da por ali.
Segui até o banheiro e tomei um banho quente, coloquei minha samba canção com estampa de jornal e antes de colocar uma blusa vi todas as luzes da casa se apagarem.
! — Ouvi gritar. Ela realmente gritou, senti por um segundo minha respiração falhar. — ! É... É SÉRIO, E-EU... — Sua voz falhava, como se estivesse prestes a chorar. A luz voltou.
Fui até a escada e a vi encolhida no sofá. Os olhos arregalados e vermelhos, abraçada às pernas.
— Qual é o problema? — A luz apagou de novo. — Mas que merda. — Comentei, ouvindo a chuva extremamente forte do lado de fora da casa.
— TAYLOR, NÃO DESCE. — Ela gritou de novo, como se o escuro acendesse alguma coisa dentro dela e a sua sanidade fugisse.
— Do que você está falando? — Comecei a descer a escada, devagar por causa do escuro, eu não conseguia ver nada além dos repentinos clarões que os trovões faziam lá fora.
— VOCÊ ESTÁ DESCENDO! PARA! — Eu já estava quase no último degrau quando senti os seus braços gelados me agarrarem pela cintura.
Senti minha pele se arrepiar por causa da diferença de temperatura.
— Caralho, , o que foi? — A empurrei até o sofá, mesmo não o enxergando, eu sabia que não estava muito longe, caímos em um baque surdo e eu senti que estava tremendo.
Mesmo com a minha pergunta, ela ficou em silêncio, com a respiração tremendo junto com o seu corpo. E logo depois de uma nova trovoada eu percebi que era aquilo o causador dos problemas, a cada trovoada que dava, ela se encolhia mais e mais no meu colo.
— É a tempestade? — Suas unhas ficaram na minha pele; Outro trovão. — Isso machuca!
Ela respirou fundo, tentando se acalmar, e percebendo que aquilo era a maior criancice do universo, soltou-me do abraço. Mesmo assim eu a sentia tremer ao meu lado, então me levantei para ir pegar uma coberta para ela.
— O que? Onde você vai? ! — Ela segurou meu braço e me puxou de volta para o sofá. — Você não vai a lugar algum.
agarrou meu braço, aquela proximidade não me deixava à vontade. Ter medo de trovões? Esse era o grande segredo de ?
Fiquei ali, sentado em silêncio, sentindo a sua respiração bater no meu ombro e a chuva continuava caindo forte lá fora. De cinco em cinco minutos, aproximadamente, um trovão estourava e ela passava os braços pelo meu pescoço, tremendo, quando passava ela soltava.
— Já está tarde, . Vamos pra cama...
— Eu... Nós... Você pode ir se quiser, eu vou ficar aqui.
— Eu estou aqui do seu lado, garota, vamos, eu te levo... — Me ofereci, não me reconhecendo por um segundo. Mesmo assim ela não cedeu.
— Eu não consigo. É sério, não... Não dá. — Um segundo depois, pude ouvi-la fungar e percebi que estava chorando.
Fiquei sem ação. Em todas as nossas brigas, de todas as merdas que eu já tinha falado pra ela, e que ela havia falado pra mim... Eu nunca me senti tão impotente como agora. Fiquei em silêncio. Não queria simplesmente forçá-la a subir, não na situação em que se encontrava.
— Quando eu tinha dez anos, teve uma tempestade como essa na minha antiga casa. Bom, tempestades são todas iguais, você entendeu... — Ela disse com a voz meio chorosa. Eu ri levemente pelo nariz, para indicar que estava prestando atenção. — Minha mãe e eu estávamos em casa e no momento em que a luz apagou, eu estava no andar de baixo. Minha mãe, preocupada provavelmente ou sei lá, foi descer as escadas correndo para ver como eu estava e caiu. Ela quebrou o pescoço, e a polícia me encontrou só no outro dia, abraçada com ela no pé da escada...
Tudo que eu havia feito pra ela, todas as brigas, todas as vezes que a xinguei e a ameacei passaram correndo pelos meu olhos e um arrependimento involuntário tomou conta de mim, me senti um babaca.
Simplesmente passei meus braços por ela, abraçando-a. Coisa que eu nunca havia feito, e ela pareceu se surpreender, correspondendo ao abraço imediatamente. A única coisa que consegui dizer depois daquela bomba foi:
— Eu tenho claustrofobia.
levou uma das suas mãos até o lado direito do meu rosto e puxou a minha cabeça para o seu lado, até os seus lábios alcançarem o meu rosto. Ela provavelmente queria encontrar a minha bochecha, mas ficou satisfeita em beijar minha mandíbula.


Dia 05


Música para o capítulo: Skinny Genes – Eliza Doolittle
(http://www.youtube.com/watch?v=lDkqTxv6ZRo&hd=1)


Bati de bunda no chão e finalmente acordei, ouvindo a risada alta de de fundo.
Ele estava realmente rindo? Tudo bem que era de mim, mas aquilo era demais! Deitei-me no chão, envergonhada, mas a risada dele me fez rir também. Era alta e gostosa, natural. Eu nunca tinha escutado, era... Deliciosa.
— Não tem graça — falei, sentando-me; meu rosto ficando da altura do dele, que estava deitado no sofá. Nós dormimos ali, lembro-me dele ter deitado no sofá e me puxar para si antes de dormir, eu estava chorando bastante; não conseguia me segurar, toda tempestade é assim e acabei por adormecer, enquanto ele mexia no meu cabelo; não fazendo carinho, mas mexendo.
— Tem... Sim... — ele disse, finalmente conseguindo parar de rir, mas ainda assim dando pequenas risadinhas.
Não me ajudou a levantar, simplesmente se levantou estralando as costas, espreguiçando-se e indo diretamente ao banheiro.
Eu me sentia songa, mole. Por esse motivo, fui até a cozinha fazer a minha vitamina. Peguei as bananas, a aveia, linhaça e o leite.
— Que susto, ! — falei, colocando a mão no peito, suspirando. Ele riu divertido, fazendo seu café.
Tenho que admitir. Eu estava adorando esse jeito de ser. Todos esses sorrisos e verdades. Eu me sentia realmente próxima dele.
Hoje o dia estava quente. Não tinha sol, provavelmente choveria no fim da tarde, mas não creio que venha a ser como ontem. Espero fielmente que não.
Enquanto eu batia a vitamina, abriu uma das portas do armário, tirou de lá uma garrafa de vodca e colocou-a sobre a mesa.
— Eu quero beber hoje — disse.
Apenas dei de ombros. Eu bebia, é claro que bebia, mas nunca fui do tipo de virar o caneco e ficar louca. Sempre fui careta, e nem me arrependo.
Tomei meu copo gigante de vitamina, sentindo-me revigorada. Lavei a louça enquanto se jogava no sofá com seu livro, segui até meu quarto pensando em algo pra fazer.
Estava abafado, mas não o bastante para ir nadar, mesmo assim, achei que era a melhor ideia. Peguei meu biquíni e segui até o lago, sem nem convidar , sabendo que ele não aceitaria.
Sentei-me no cais, com as pernas dentro da água, pensando em como aquela semana tinha sido completamente louca! dormindo na mesma cama que eu? No mesmo sofá? Rindo abertamente pra mim, e me emprestando livros?
Sinto que por algum motivo, eu parecia estar abrindo alguma porta dentro dele; finalmente estava desvendando o seu mistério. E eu estava gostando disso.
Eu sentia saudades da minha avó. Mataria pra saber como ela estava. E o Mr. Mulligan?! Meu bebê devia estar cheio de dengo, dormindo provavelmente na casa chata de , o único que gosta dele. Eu sentia a falta de Hayley também, dos seus abraços ótimos e da sua risada idiota. Eu, , não aguento mais ficar nessa casa.

Tenho certeza que fiquei muito tempo ali pensando em tudo aquilo. Tentando matar a saudades dos meus amores, lembrando deles e rindo sozinha, como sempre faço. Por fim, já era perto do meio dia quando fui mergulhar. Fiquei lá até meus dedos enrugarem. Sequei meus cabelos na toalha que levara comigo e a atirei nas costas, indo almoçar, esperando fielmente que ele tivesse feito algo gostoso. E como de praxe, lá estava ele comendo panquecas. Tenho certeza que meus olhos brilharam quando sentei à mesa, servindo-me. Eu queria conversar com ele, só não sabia como. Por esse motivo, limitei-me a dizer que a comida estava boa. Ele não disse nada, como sempre, e jogou o seu prato na pia, seguindo até o sofá como se já fosse uma parte essencial da vida deitar naquele móvel velho.
Lavei a louça e segui até o banheiro, tomando um banho quente e me preparando para a noite de chuva que estava por vir. Dessa vez ela não me pegaria de surpresa, eu iria ficar a noite inteira na cama, como se nada estivesse acontecendo.
? — perguntei, vendo que o sofá estava vazio, assim como o banheiro e o nosso quarto; que foi de onde eu vim.
— Cozinha — ouvi sua voz responder, e não nego que me surpreendi por ter recebido uma resposta. Segui até a cozinha e ri, vendo-o com limões cortados, um pote de açúcar e a garrafa de vodca aberta. Ele bebia em um copo grande, o líquido com limão socado no fundo.
Ofereceu-me o copo, sem falar nada, e é claro que eu aceitei. A caipirinha estava ótima, e merda! Como eu precisava de álcool! Devolvi o copo a ele e corri para o armário, pegando uma coisa que eu lembrava-me de ter visto por ali: dois copinhos de shot. Ele sorriu com os olhos, cúmplice.
Enchi o copinho e engoli sem pensar muito, se não eu desistiria na hora e senti a bebida descer fervendo minhas entranhas. Ah, como isso era bom! fez o mesmo logo depois de mim, e ficamos ali por um bom tempo, em silêncio, revezando entre caipirinha e vodca pura.
Porém, passada algumas horas, o silêncio já tinha ido embora. Assim como uma garrafa e meia de vodca. (n/a: Dê play na música!)

I really dont like your point of view
(Eu realmente não gosto do seu ponto de vista)
I know you'll never change
(Eu sei que você nunca vai mudar)
Stinging me with your attitude
(Me irritando com a sua atitude)
I've got the mind to walk away
(Eu já pensei em ir embora)

Cantei do nada, vendo-o me analisar com aqueles olhos extremamente penetrantes, como se lesse a minha mente. Ele começou a acompanhar no violão, sim, estávamos cantando. Cantando aqui, lê-se: eu desafinada e extremamente rouca por causa da bebida, e ele fingindo fazer música, já que a bebida falava mais alto.

I really don't like your arrogance
(Eu realmente não gosto da sua arrogância)
Or your policies
(Ou suas fiscalizações)
You're ninety-nine percent an embarrassment
(Você é noventa e nove por cento constrangimento)
And just one qualitiy
(E só uma qualidade)

Eu havia me arrependido de começar essa música. Mas não dava mais pra parar, então juntei forças para cantar o refrão. Enquanto ele tocava violão, desajeitado, por não saber direito a música.

I don't mind it when you [whistles]
(Eu não me importo quando você [assobios])
Brings out the best in me when you [whistles]
(Traz o melhor de mim quando [assobios])
Show your expertise
(Mostre sua perícia)
When the night always ends with a fight I'm excited
(Quando a noite sempre acaba em briga fico animada)
When you wind up next to me
(Quando você acaba ao meu lado)

Meus olhos se arregalaram e minha boca se esticou em um sorriso quando vi que estava assoviando a música comigo. Ele não sorriu, parecia bem concentrado em tocar e assoviar ao mesmo tempo. Então ele conhecia a música! Eliza Dollittle, minha diva.

I like it when you [whistles]
(Eu gosto quando você [assobios])
Can I have some please of that [whistles]
(Pode me dar mais um pouco disso [assobios])
Satisfy my needs
(Satisfaz as minhas necessidades) Sometimes I fake that I hate you and make up
(Às vezes finjo que te odeio e me maquio)
And you wind up next to me
(E você acaba ao meu lado)

Achei mais sensato parar de cantar. Não gostei do que a música se tornou, e apenas dei uma risada, vendo como ele se divertia com a minha cara encabulada.
— Tive uma ideia — ele disse, levantando-se e levando o violão consigo.
Fiquei ali parada feito uma babaca, sentindo-me completamente idiota e retardada por ter cantado aquela música infernal. Mesmo sabendo que a conhecia, mesmo que por cima.

Em menos de um minuto ele estava de volta, com duas canetas em mãos. Pegou o rolo de guardanapo em um dos armários e me deu uma folha.
— Vamos fazer o contrário do que a gente faz sempre — ele disse... Feliz? Era estranho. Eu conhecia aquele , bêbado e espontâneo, mas era diferente sozinho. Ele olhava para os meus olhos constantemente, sorria demais e eu simplesmente não estava acostumada com aquelas sensações arrebatadoras de calor em meu pescoço, quando eu ouvia a sua voz rouca pela bebida.
— Como assim?
— Ah, ao invés de falar o que odiamos um no outro, falar ao contrário.
— Tipo, escrever o que eu mais amo em ti? — perguntei, tendo certeza que não era isso que ele queria dizer. Ele estralou os dedos, expondo o seu nervosismo.
— Não. Amor é muito forte, não é assim — ele riu, fechando os olhos. — Escreve alguma coisa que você goste em mim, alguma coisa que você notou que não odeia em mim, que te deixa feliz, ou legal ou sei lá, excitada — ele deu ênfase na palavra, virando os olhos, mas eu não consegui engolir a brincadeira.
— Excitada?!
- Ah, fala sério ! Eu sei que sou gostoso pra caralho. Pois saiba que você também é.
Fiquei estática. Eu não sabia como agir, nem o que falar. Ele tinha um sorriso sacana nos lábios, e eu percebi que era a minha deixa. Abaixei a minha cabeça e escrevi no guardanapo:

1. Quando você lambe os lábios e respira profundamente para me insultar;


Olhei para ele que ainda sorria, mas agora concentrado no seu pedaço de papel.

2. O seu maldito cheiro delicioso;
3. Quando você toca no estúdio;
4. Suas comidas surpreendentes;
5. Quando você ri pelo nariz, como um porquinho;
6. Quando você acorda, cheio de sono, com o rosto amassado e confuso.


Arrependi-me de escrever aquilo, mas quando soltei a caneta, puxou o papel da mesa, como se aquilo dependesse da vida dele. Puxei o papel que estava na frente dele, tão curiosa quanto. A sua letra era uma grande bosta. Muito torta, muito pequena e escrita com muita força. Mesmo assim eu consegui entender.


1. Você bêbada em qualquer momento;
2. Quando você canta;
3. As suas imitações da Ke$ha;
4. Quando não consegue abrir uma garrafa de cerveja com as mãos e vem me pedir ajuda;
5. Quando eu tenho que falar contigo no trabalho, com aquele estilo sério de empresária.


Aquilo era, no mínimo, interessante.
— Espera aí — falei, sentindo minhas bochechas queimarem. Enchi mais um copinho de vodca e bebi; já nem sentia mais a bebida descer. — Eu canto toda hora!
Ele riu alto, como fez hoje de manhã quando eu caí e deu de ombros. Ainda olhando fascinado para a minha lista. Foi então que percebi outra coisa:
— Minha lista tem seis itens.
— Ótimo — sorriu debochado, dando de ombros novamente.
Fiquei incrédula por ele achar que eu realmente o achava mais sexy do que ele me achava. Fechei meus olhos, fingindo-me de injustiçada; estava idiota e bêbada demais para ficar brava de verdade.
— Então meu cheiro é delicioso?
Ele queria brincar?
Now the party don't stop 'til I walk in — imitei a Ke$ha, e ele sorriu - de novo! Então eu tinha algum poder sobre ele? Eu podia fazer isso? Provar que ele tinha mais itens a escrever naquele pedaço de papel? Sim, eu podia.
E nesse momento de incrível de insanidade e vontade de provar a ele do que eu era capaz, peguei a garrafa de vodca e bebi o líquido na boca, sem me importar com as consequências. pegou a garrafa que eu tinha acabado de por na mesa.
— Você tem que escrever mais um item na sua lista.
— Nem a pau, não foi combinado um número de itens. Você colocou porque me acha mais excitante do que te acho — falou, e em seguida colocou a garrafa na boca.
— Nem se eu te dar uma boa razão pra isso?
Ele se afogou, tirou a garrafa dos lábios e tossiu o líquido na sua boca. Eu apenas ri.
Levantei-me, sentindo um calor subir pela minha espinha e meus ombros pesaram ao ver os olhos dele caírem sobre mim. Seu olhar me arrebatou com tudo, e eu percebi que podia fazer aquilo.
ficou estático. Atravessei a mesa, olhando-o como um felino. Ele não respirava, e pude ver suas mãos tensas, fechadas fortemente. Aquilo era mais do que eu podia esperar. , tenso por minha causa? Deslizei minha mão pela mesa, enquanto me aproximava dele. Continuei deslizando minha mão, chegando ao encontro da sua e passei por seu braço, até chegar ao ombro, onde me depositei atrás dele. Sua pele estava quente e macia, quente até demais. Senti os pelinhos do meu braço se eriçarem; era um tipo gostoso de corrente elétrica, que subiu até a minha nuca, e ele sentiu também, já que vi os pelos do seu braço arrepiados assim como os meus. Era uma sensação única.
Apertei os músculos do seu ombro, fazendo-o relaxar os mesmos.
— Sentiu isso? — falei ao pé do seu ouvido, vendo ele se arrepiar novamente. Essa era a reação que eu causava nele? Entrelacei meus dedos no seu cabelo, puxando-os levemente para trás. Ouvi-o puxar o ar pela boca e céus, eu estava descontrolada! Aproveitei a minha proximidade e passei a minha língua pelo lóbulo da sua orelha. Era tarde demais para me arrepender, então apenas me aconcheguei de braços abertos, àquelas novas sensações que meu corpo me proporcionava. Sua respiração parou repentinamente e aproveitei o momento para morder seu pescoço, enquanto ainda segurava seus cabelos com a mão.
Meu estômago dava voltas, mas não era por causa da bebida, eram... Borboletas? Sua pele até agora quente, na minha boca parecia morna. Seu cheiro me entorpeceu, não consegui conter um chupão, mas antes de eu conseguir subir meus beijos até a sua mandíbula, onde a barba estava por fazer, me puxou para o seu colo. Sua respiração era pesada, como se ele estivesse trancando-a por pelo menos um minuto e me arrebatou como um torpedo. Aquele frescor da canela misturado com o calor da vodca. Fechei meus olhos, tentando guardar aquele cheiro pra sempre em uma caixinha rotulada “vícios – extremamente perigoso” na minha mente.
E aquele minuto de silêncio foi para repensarmos no que estávamos prestes a fazer: iríamos realmente ultrapassar aquela barreira solida que consumiu tanto tempo das nossas vidas para conseguirmos construir?
respondeu a minha pergunta passando a mão pela minha cintura e me erguendo, a ponto de eu conseguir passar a minha perna para o outro lado do seu corpo, fazendo com que eu me sentasse no seu colo e foi o que eu fiz.
Senti meu coração dar um baque surdo quando sua boca encostou-se a meu queixo; suas mãos deslizaram para as minhas costas e não pude evitar arrepios constantes que invadiam minha pele. Sua boca distribuía beijos pelo meu rosto e pescoço - beijos lentos e torturantes, dignos de um belo gemido, o qual eu controlei. Suas mãos firmes começaram a me puxar para mais perto, fazendo meu tronco encostar-se ao dele. Não consegui sentir seu coração, mas o meu parecia uma banda de olodum, será que ele podia senti-lo?
Agarrei seus cabelos, puxando a sua cabeça para trás; meu pescoço com certeza estava vermelho e marcas ficariam ali. Seus olhos se fixaram nos meus, seu hálito quente batia no meu rosto e eu sorri antes dos seus lábios extremamente macios, como eu havia acabado de constar, se moldarem em palavras:
— Isso não sai daqui — Ah, ... Você acabou de ler a minha mente.
— Está com vergonha de que os outros saibam disso? — perguntei, fazendo bico.
— Cala a boca, — nosso pensamento, nesse momento, foi exatamente o mesmo, já que no mesmo instante em que soltei seus cabelos, ele me apertou mais, fazendo nossas bocas se encontrarem. Eu podia sentir claramente as correntes elétricas correndo pelo meu corpo, partindo das nossas bocas; sua língua pediu permissão para entrar em minha boca. Morna, doce e extremamente astuta, logo eu não sabia qual língua se movia mais rápido. Aquele beijo era anos de sentimento reprimido. Eu não estava falando de amor, era uma mistura de sentimentos.
Suas mãos não sabiam se ficavam em minha cintura ou nas minhas costas, e meus dedos enlaçavam seus cabelos, meu coração parecia querer explodir e meus lábios começaram a doer. Eu tinha que partir o beijo para compassar minha respiração. pareceu não entender aquilo, já que quando soltei nossos lábios, ele soltou um muxoxo.
Espalmei minha mão sobre o seu peito, respirando fundo. Eu podia sentir o gosto dele na minha boca, e aquilo era outra coisa que sem dúvidas iria para a minha coleção de vícios. Eu precisava sentir mais daquele gosto de . Por esse motivo, passei a língua pelos meus lábios e olhei para os seus, vermelhos, úmidos e extremamente convidativos. Ele pareceu entender o que eu queria: eu queria/precisava de mais. Parecia tão óbvio agora! Eu precisava daquilo, como consegui viver 26 anos sem aquilo? Sem o seu gosto na minha boca? Só podia ser a bebida. pareceu incomodado com alguma coisa, e só então eu percebi que estava sentada em cima dele; é claro que estava o incomodado. Ele estava ficando excitado? Ou melhor... Eu estava? Outra vez, pareceu-me óbvio. Num salto, saí de cima dele, tonta pela bebida. Saí cambaleando da cozinha, deixando-o sozinho. Corri pro banheiro, passando água pelo meu rosto.
Mas que grande bosta eu acabei de fazer!


Dia 06


Música para o capítulo: McFly – Smile

DOR DE CABEÇA! Eu não conseguia pensar em mais nada que não fosse isso. Saí da cama sem nem notar se o maldito estava ali, ou não. Fiz minha higiene pessoal e corri pra fora de casa, meu corpo estava completamente impregnado de . Cheirei minha blusa esfarrapada e a única coisa que consegui pensar foi , , fucking . Segui até a trilha que ele tinha me mostrado dias atrás e me embrenhei na mata sem olhar pra trás. Eu estava com vergonha, não queria ter que olhar para seu rosto e encarar nada mais que aqueles olhos cheios de palavras.

Aquele cheiro não saía de mim. Tirei a blusa e larguei em algum lugar, estava calor e meu sutiã era decente, então continuei minha luta para encontrar a casa dos anões.
Eu me sentia em um filme perdido de “Pânico na floresta”, daqueles bem previsíveis, onde um grupinho de pessoa se perde na floresta e a família de deformados mata todo mundo com um machado e fazem sopa deles, sério, já assisti uns sete filmes com essa mesma história, todos com a gostosona que fica seminua no meio da floresta, a virgem santa que sobrevive no final, o drogado que quase morre e o pseudo-mocinho que é o primeiro a morrer.
Céus, eu precisava de música. Minha sanidade estava em jogo, meu corpo já não me obedecia direito e eu daria qualquer coisa para poder ouvir a voz da minha musa Barbra Streisand. Tenho certeza que onde quer que esteja esse maldito pendrive, nele vai ter Barbra, se Hayley e me conhecem de verdade , vai ter alguma música do The Rocky Horror Picture Show e quem sabe até ABBA. Eu. Preciso. Disso. Estou ficando doida!
Finalmente depois de andar pelo que me pareceu décadas, cheguei na maldita casa e estava exatamente como antes. Calma e simples. O dono parecia ter esquecido dela por muito tempo, quem sabe até tenha falecido e a alma da casa se foi com ele, ficando apenas a casca vazia. Encostei na madeira seca e descascada da casinha e sorri, sem mais nada de emocionante para fazer, apenas me deixei sorrir feito uma boba sentindo a madeira quente sob meus dedos já que o sol forte esquentava tudo ali num raio de quilômetros.

Flashback In

— Tira essa babaca de perto de mim. É... É sério — eu disse com os dentes serrados, sentindo me segurar pelo braço.
, para de besteira — Hay disse esticando o braço entre nós dois. sorria, um sorriso extremamente babaca, assim como ela, e toda a sua babaquice arrogante.
— Você errou todas as notas, ! A verdade dói pra ti?
— Eu errei as notas porque você fica berrando no meu ouvido! Desliga essa porra de microfone e deixa a gente tocar em paz! Caralho, mulher, eu sei que você gosta de controlar tudo, mas tem vezes que não dá — parei pra respirar. — Tá de TPM, anjo? — ela perguntou, me fazendo espumar. — Meu trabalho é falar pra você o que você deve fazer, se não gosta de seguir ordens, beleza, tô indo embora agora — se virou, fingindo-se de ofendida, minha vontade era de pegar a sua cabeça e arrastar pela parece salpicada de concreto. Era uma pena que aquelas paredes ali eram acolchoadas.
, espera — Hayley disse, indo até ela.
— Para com essa ceninha, sua idiota. Todo mundo sabe que você não vai a lugar nenhum — Cuspi as palavras fervendo, sabendo que Hayley estava sendo envenenada pela maneira idiota que aquela briguinha estava tomando rumo.
— Você sabe que se dependesse só de você essa banda já teria ido pro ralo faz muito tempo, . Então para de prejudicar a banda com todo esse seu drama, para de ficar errando por pouca coisa, ou vocês não vão sair do primeiro álbum. Eu estou tentando ajudar, percebi que você se acha melhor do que todo mundo e não quer ser ajudado. Eu estou aqui pela Hayley e pelos garotos. Se você não quer a minha ajuda ou os meus conselhos, o último que eu te dou é: tira a porra do retorno do ouvido — ela lambeu os lábios e se desvencilhou das mãos da Hayley.
— Pode ter certeza de que vou fazer isso, é o seu primeiro dia de trabalho; não acha que está exagerando, não? Eu não consigo trabalhar com a sua voz no meu ouvido o tempo todo me dizendo o que fazer. Não é meu estilo, se é o seu, acho que teremos um grande problema aqui.
— O problema aqui é você. Eu não ouvi mais ninguém reclamar. Todos aqui estão na liberdade de me dizer se estão sendo atrapalhados, mas o único manhoso aqui é você.
— Eu estou te dizendo agora, porra! Qual é o problema contigo, idiota?
Quando ela se aproximou, se prontificou a se afastar dela, como se tivesse algum tipo de escudo em volta do seu corpo. Vi sua mão seguir caminho até meu rosto e minha bochecha ardeu. — Nunca mais me chama de idiota, se você acha que isso aqui é a garagem em que vocês ensaiavam, é melhor você engolir um pouco das suas palavras. Acho que o respeito pode vir antes de qualquer coisa, isso aqui é o nosso ambiente de trabalho. Eu sou a sua chefe, fora daqui você pode me cortar em pedaços e jogar em um bueiro no fim da esquina. Mas pelo menos aqui dentro desse estúdio eu quero e exijo o mínimo de respeito.
Segui até a porta. Precisando de ar fresco. Ouvi passos atrás de mim.
— Cara...
— Eu não vou conseguir, . É sério. Você sabe que eu sou estourado. Juro que estou tentando.
— É o nosso primeiro dia, ...
— A sala é muito apertada. Ela fica falando o tempo inteiro, caralho, eu estou ficando louco! — eu disse e vi o resto da banda sair da sala, olhando diretamente pra mim. Troféu babaca do ano pra mim.
— Eu vou conversar com ela — se prontificou a dizer antes que eles se aproximassem mais.
— Não conta nada, a última coisa que eu quero dela é falsa compaixão.

Flashback Out

Minhas flores estavam lindas. Sentei-me novamente perto delas e comecei a arrancar o mato ali no meio delas. Vez ou outra eu encontrava uma lesminha ou uma minhoca, nunca foi do meu tipo ter medo desses animais, sou amorosa demais para odiá-los. Perdi a noção do tempo, quando terminei de arrancar todas as pragas que estavam matando minhas flores. Joguei-os longe dali, e parei para analisar os meus esforços. O canteiro estava perfeito, a terra estava fofa e sobrava espaço entre as flores para crescer mais delas. O que eu estava fazendo? Céus, eu estava mesmo parecendo uma idiota! Seminua, com as mãos sujas de terra e provavelmente cheirando a minhoca, seja lá como cheiravam minhocas no meio do nada. E se alguém morasse naquela casa e estivesse esperando para me atacar? Esse pensamento absurdo tomou conta de mim e não demorou mais do que um minuto para eu sentir que estava sendo observada, fazendo minhas pernas andarem sozinhas até a trilha de volta pra casa.
Perdi a conta de quantas vezes tropecei tentando olhar pra trás e andar ao mesmo tempo. Insisto em dizer que aquelas tripas de mato se enroscavam nos meus pés por vontade própria e eu poderia jurar que tinha alguém andando atrás de mim. Eu não ouvia nada, e essa era a pior parte.
E se existisse mesmo uma família de monstros deformados esperando minha carne fresca pra fazer sopa? Eu seria classificada como virgem santa, gostosa seminua, drogada que quase morre ou mocinha que é a primeira a morrer? Acho que mocinha seminua santa que quase morre. Mas que palhaçada, para de pensar nessas coisas, . Foco: correr.
Outra vez, jurei ter ouvido um galho se quebrando logo atrás de mim e quando me viro para dar uma espiada, sinto meu corpo bater em algo sólido. Sólido até demais.
O abracei.
— Não sei se devo perguntar o porquê de você estar sem blusa, ofegante no meio da floresta.
— Não pergunte — falei ainda com a respiração pesada e ainda com os braços envolvendo a sua cintura. — Eu... Meu... — fechei os olhos, inspirando aquele cheiro que lutei pra esquecer esta manhã. — Me peidei de medo.
Ouvi a risada nasal dele, seguida de um ronco, exatamente como ele ria quando não queria rir, aquela risada de porquinho.
— É sério? — ele ainda ria, mas sem roncar dessa vez. Seus braços não me abraçavam de volta, ele ainda esperava eu o soltar, pacientemente. Proximidade demais. Limites.
Soltei-o.
— Foi uma força de expressão.
— Ah...
Só então eu percebi que já estava na nossa cabana, vi o lago atrás dele e suspirei aliviada. O clima não estava tão tenso como eu achei que fosse ficar.
— Eu achei que tinha alguém me seguindo. Fiquei meio nervosa. Resolvi correr — expliquei, ainda um pouco sem ar pela corredeira.
Peguei seus olhos correndo pelo meu corpo e fingi que não percebi, seguindo até “nossa casa”, subindo as escadas rapidamente. Coloquei um vestido branco de bolinhas pretas e chinelos de dedo. No relógio da cozinha marcavam três da tarde. parecia ter acordado a pouquíssimo tempo, então resolvi perguntar:
— Já almoçou?
— Não. Já faço, só preciso de um banho antes.
E subiu as escadas.
Me senti extremamente ofendida com isso. Então ele achava que eu não sabia cozinhar?
Com uma pequena gotinha de irritação, peguei a tábua de cortar carne, uma panela e os ingredientes que eu precisaria. Joguei tudo encima da bancada e comecei a cantar enquanto fazia a comida.

It's gonna happen!
Happen sometime, maybe this time I win.
Maybe this time I wiiiiiiiiiiiiiin!


— Okay — vi escorado no batente da porta. — Seu agudo não é igual do da Hay ou da Liza Minneli ou da Lea Michelle.
— Se fosse, eu seria cantora e não produtora — respondi, prestando atenção no molho. Ouvi uma cadeira sendo arrastada.
— Por que você gosta desse tipo de música? — aquela pergunta me arrebatou como um soco na cara. me fazendo perguntas? Segurei meu sorriso.
— Minha mãe gostava muito desse tipo de música, ela cantava esse tipo de música. Ela conheceu meu pai em um desses concertos no Brasil. Depois que ela morreu, meu pai definhou e resolveu me deixar com a minha avó para não deixar que eu o visse daquele jeito. Fui praticamente criada pela minha avó.
Bom, há alguns anos meu pai morreu e blá blá blá, dessa parte você já sabe. Respondendo a sua pergunta: é por causa da minha mãe.
Ele ficou em silêncio. Então provavelmente ficou com remorso porque respondeu:
— Sou alérgico a pólen — senti-me a pessoa mais estúpida do mundo por ter dado a ele uma flor. — E abelhas.
— Eu não... Me desculpa — eu disse, finalmente o olhando e o que me atingiu foi mais forte do que as suas palavras. de cabelos úmidos e sem camisa, estrelando abdômen sarado, pintinhas nos ombros e calça jeans skinny escura.
A primeira reação do meu corpo foi: VOCÊ PRECISA ABRAÇÁ-LO. Mas o pouco de dignidade que me restava enlaçava meu orgulho perto do fogão, onde o meu molho cheiroso borbulhava junto da panela de macarrão.
— Você não sabia. Relaxa — se levantou, aproximando-se de mim, com aquele cheiro maravilhoso de sabonete.
Ele tirou a panela de macarrão que borbulhava do fogão e escorreu na pia, enquanto eu desligava o molho. Aquilo era surreal demais.
A qualquer momento eu sinto que vou acordar de um sonho, exatamente como eu acordei aqui no primeiro dia. era uma pessoa completamente diferente. Hayley tinha toda a razão naquela carta. Eu estava mesmo me surpreendendo.

Eu não queria ler, mas ele parecia estar muito à vontade sentado no sofá com aquela bosta de livro no meio do focinho.
Bufei entediada pela milésima vez, deitada no chão com as pernas encima do sofá, enquanto estava do outro lado do mesmo, lendo com seus óculos de descanso.
Quando dei a milésima primeira bufada, baixou o livro e olhou pra mim, puxou o ar para falar alguma coisa, mas parou no meio do caminho. Apoiei meu tronco pelos cotovelos, para que ele conseguisse ver meu rosto e encorajá-lo a falar, até uma briga seria mais divertida do que ficar ali deitada no chão. Depois de um pequeno conflito interno ele resolveu falar:
— Vai ficar soltando muito ar ainda? Tá me atrapalhando — o título do seu livro agora era Morte Súbita.
— Vish, já vi que está de TPM — levantei-me para evitar conflitos, e subi as escadas. Eu precisava fazer alguma coisa!

Deitei-me na cama completamente tomada pelo ócio, e olhei pela janela, onde grossas nuvens cinza vinham na nossa direção.
Blerg, dia chato!
Comecei a bater palmas e acabei tomada por um ritmo. Dei uma risada alta, isso iria irritar até os fios de cabelo.

You don't have to have money
(Você não precisa ter dinheiro)
To make it in this world
(Pra ser algo nesse mundo)

Cantei com uma repentina felicidade que se instalou em mim. Eu ria sozinha, cantando alto o bastante para ele ouvir lá embaixo.

You don't have to be skinny baby
(Você não precisa ser magra, baby)
If you wanna be my girl
(Se você quiser ser minha garota)
Oh you just got to be happy
(Oh, só precisa ser feliz )
But sometimes that's hard
(Mas às vezes isso é difícil)

Levantei-me da cama e segui até o batente da porta, ainda batendo palmas no ritmo da música, consegui ver lá de cima, com as sobrancelhas unidas em uma careta de concentração.

So just remember to smile, smile, smile
(Então só lembre de sorrir, sorrir, sorrir)
And that's a good enough start
(E esse é um ótimo começo!)
Quase gritei essa parte, descendo os degraus devagar. continuava firmando seu olhar no livro, mas eu já iria acabar com a alegria dele. Ah, se ia.

So if you ain't good looking
(Então se você não tem uma ótima aparência)
Don't you let it get you down
(Não deixe isso te magoar)
And if your love life ain't cooking baby
(E se sua vida amorosa não está cozinhando, baby)
There will be more fish around
(Haverá mais peixe por aí!)

Cheguei ao fim da escada, agora estando a uns oito passos dele. Era impossível ele não estar me escutando, então apenas dei mais uma risada, batendo palmas firmemente no ritmo e o olhando, esperando o momento em que ele iria desistir de tentar se concentrar.

Oh you just got to stay happy
(Oh, você só precisa ficar feliz )
So put away that frown, yeah
(E sumir com essa cara feia, yeah)

Ele finalmente desistiu. Fechando os olhos, suspirando e abrindo-os em minha direção. Abri um sorriso provavelmente do tamanho do mundo e ele continuou sério, com uma tromba do tamanho do universo.

Just remember to smile, smile, smile
(Só lembre-se de sorrir, sorrir, sorrir)
And turn the world around
(E faça o mundo girar!)
Dei um giro e me aproximei dele, fazendo sinal com o dedo para cantar comigo, mas eu já esperava que ele não soubesse a letra. Peguei a sua mão, tentando fazer ele se levantar. continuou negando, ficando completamente encabulado e sem graça. Eu pulava e cantava, parecendo uma louca.
So just remember to smile, smile, smile
(Então só lembre-se de sorrir, sorrir, sorrir)
Smile, smile, smile
(Sorrir, sorrir, sorrir)
Smile, smile, smile
(Sorrir, sorrir, sorrir)
Come on and show out your teeth
(Vamos lá, mostre seus dentes)
And what you've got underneath
(E o que você esconde aí!)

Gritei, brinquei, cantei, bati palmas, dancei e tentei persuadi-lo a dançar comigo. Ele entrou na brincadeira, riu, e até bateu palmas, mas sentado no sofá.
— Vamos dançar — fiz meu melhor biquinho, coisa que eu nunca havia usado com ele. — É rapidinho — minha voz era algo tipo criança mimada com cachorrinho pidão.
mordeu os lábios, e eu via nos seus olhos a completa indecisão, como se ele estivesse escolhendo entre um zilhão dólares e a paz mundial. Virei os olhos e puxei a sua mão uma última vez e para a minha surpresa, ele se levantou.

'Cause everyone's got troubles
(Porque todo mundo tem problemas)
That's the way the story goes
(É assim que as coisas acontecem)
You don't need to get in trouble baby
(Você não precisa entrar em apuros, baby)
To see whats underneath your nose
(Pra ver o que tem debaixo do seu nariz)
Oh 'cause if you’re feeling happy
(Oh, porque se você está se sentindo feliz)
That's the place to let it show
(Este é o lugar pra mostrar isso)

Ele sabia a letra.
Ele cantou comigo.
Ele dançou comigo.
Aquilo era simplesmente surpreendente.
Subi no sofá, pulando feito uma louca varrida e ele me acompanhou, os dois completamente insanos.
Cantamos/berramos o fim da música, a todo pulmão. E quando acabamos, nos jogamos no sofá, soltando gargalhadas. Típico filme cliché adolescente que eu amava. Ficamos recuperando o fôlego e rindo aleatoriamente. Fechei os olhos, absorvendo aquele momento. pulando comigo em um sofá, rindo abertamente e cantando. Estamos mudando? Sim!
Abri meus olhos quando minha respiração finalmente ficou normal, e o rosto de estava perto demais. Demais! Seus grandes olhos me deixaram sem fala. Então eu consegui ouvir meu subconsciente, aquele cheiro, o toque e gosto. Pude sentir meus hormônios dando saltos triplos carpados dentro do meu corpo. Aqueles lábios! Por que ele fazia aquilo comigo? Tão carnudos e chamativos.
. Foco.
Seus olhos alternavam entre meus olhos e a minha boca, e eu sabia muito bem o que viria a seguir. Ele umedeceu os lábios e a sua mão correu da lateral do seu corpo para o meu pescoço, onde ele tirou uma mecha do meu cabelo e colocou atrás da minha orelha.
. Foco: Dei um pulo.
... Caralho, o que a gente tá fazendo? Isso não tá certo. Não tá — levantei-me, envergonhada. Eu não queria encarar os seus olhos.


Dia 07


Música para o capítulo: Aqualung – Brighter Than Sunshine

O que tinha feito comigo foi o estopim para que meu cérebro desse um salto do tamanho do universo: eu não posso estar atraído por ela. É claro que ela é linda, eu nunca neguei isso a ninguém... Mas estar atraído era algo diferente de achá-la linda. Eu sentia meus músculos clamarem pelo toque dela, e porra! Isso não é nada bom. Eu não costumo ficar tanto tempo sem sexo. Não sou ninfomaníaco nem nada, porém, eu sou homem e homens têm necessidades, convenhamos, assim como as mulheres. Não é também como se eu não aguentasse dez dias sem sexo, é só que no último mês, a banda tem ficado bastante tempo nos estúdios terminando as gravações; as faixas estavam prontas, apenas faltavam os efeitos sonoros, como palmas no fundo da música, ou o apoio que eu e os garotos fazíamos para Hayley. E isso tomava bastante tempo, cansei de vir pra casa duas horas da manhã completamente exausto... Eu não tinha tempo para pessoas, para sair, beber uma cerveja ou até fumar. Lutei por muito tempo contra a nicotina e finalmente havia conseguido tirá-la da minha vida. Mas, tenho que admitir que esses dias torturantes com a garota que eu odeio odiar, deixava-me louco por uma tragada. E lá estava ela de novo, nadando naquele lago maldito, com aquele biquíni maldito, com aqueles cabelos cheirosos colados no seu pescoço delicioso por causa da água.
O que ela havia feito comigo? Ela provavelmente deve ter recebido uma carta de Hogwarts aos onze anos, porque não existe outra explicação para eu estar agindo desse modo. Eu não sou assim. ESSE CARA QUE VOS FALA NÃO É !É provavelmente um alter-ego estranho e fora de controle que me consome quando eu estou dormindo. , a bruxa. , o alter-ego.
Tentei focar em “O Pacto”, o livro vermelho que estava em minha frente, mas a única coisa que passava pelos meus olhos eram palavras vazias que não faziam sentido. Suspirei pesadamente, ouvindo os passos dela lá no cais, e lá vinha mais uma dose dolorosa de e seu corpo fucking awesome.
Suas pernas, que há alguns dias eu ignorava completamente, estavam úmidas e completamente à mostra; nos pés o conhecido chinelo com a bandeira do Brasil, o seu país de origem. O que cobria o resto do seu corpo era uma blusa vintage de ombros caídos, com o rosto de uma dessas cantoras que ela adorava – nota mental: perguntar quem era aquela mais tarde –, seus cabelos compridos ainda pingavam água, mas ela não se importava, ou fingia não se importar, e a blusa era comprida o bastante para cobrir a parte de baixo do seu biquíni, o que me deixou surpreendentemente satisfeito.
— Você devia ter ido, a água estava mágica — ouvi a sua voz e a vi passar a toalha que estava em suas mãos pelo seu cabelo, secando-o um pouco mais.
Limitei-me a levantar minhas sobrancelhas para mostrar que tinha ouvido a sua afirmação e voltei a minha atenção para Joe Hill em minhas mãos, antes que meu olhar arrancasse pedaços. Ela não sabia que eu não sei nadar, e era uma coisa que ela não precisava saber; nunca tive alguém que me ensinasse, e se eu contasse, ia ser o tipo de coisa que iria desencadear um monte de perguntas invasivas que eu não estava pronto para responder. Algumas delas apenas saberia, e talvez nem ele soubesse.

Continuei tentando ler meu livro, mas eu estava na página 79 há mais ou menos uma meia hora. cantava a todo pulmão no banheiro, ela não cantava bem e isso era um fato, mas a voz dela se transformava em um tom completamente sensual no meu ouvido. Era rouca e esganiçada, saindo totalmente do tom na hora dos agudos, e mesmo assim, soava como um apelo sexua aos meus tímpanos. Eu havia escrito naquele pedaço de papel que a sua cantoria me excitava e isso estava se tornando impossível de negar.
Eu não fazia ideia de que música era aquela, parecia algo pop, mas prestei atenção na letra.

You think I speak too much
(Você pensa que eu falo demais)
I don’t care, don’t care
(Eu não me importo, não me importo)
You think I tweet too much
(Você pensa que eu tuíto - pio- muito)
I don’t care, don’t care
(Eu não me importo, não me importo)
You think my clothes are crazy
(Você pensa que minhas roupas são loucas)
I don’t care, don’t care
(Eu não me importo, não me importo)
Well, maybe I’m crazy
(Bem, talvez eu seja louca)

Você não é louca , eu sou. Eu sou o babaca que faz as burradas, eu sou o retardado que não sabe o que quer. Mas nesse momento, quando ouvi o chuveiro desligar, eu sabia exatamente o que eu queria, eu queria um pedaço de , um pedaço bom e suculento.
Vi minhas pernas me guiarem pela escada, eu não parecia estar ali naquele corpo, parecia que havia uma força naquele recinto, puxando-me diretamente para aquele banheiro minúsculo. O cheiro do xampu de morango dela estava no ar e fechei meus olhos; eu conseguia ouvir o som da guitarra de “Angus Young” tocando nos meus ouvidos – meu subconsciente é uma merda.

Cause I'm T.N.T. I'm dynamite
and I'll win the fight
I'm a power load
watch me explode!

Pensar que havia apenas uma porta me separando dela, completamente nua, fazia-me admitir que eu era um babaca. Eu. Sou. Um. Babaca.
Não sei quanto tempo fiquei ali parado em frente à porta, ouvindo a sua cantoria se misturar com a cantoria da minha cabeça; bati na porta e a sua voz morreu.
? — foi como se ela ainda estivesse cantando, pois sua voz soou calma e rouca.
— E-eu preciso usar o banheiro — não foi uma gagueira completa, foi só um momento de “acabei de acordar de um transe momentâneo, ignore”.
— Ah, espera, deixa só eu colocar a blusa... — por favor, faça isso para eu conseguir recuperar minha sanidade! Salve-me disso, .
Ouvi o barulho da chave sendo virada e a porta se abriu, revelando-me a mesma roupa que ela estava antes de entrar no banheiro, a blusa/vestido da cantora famosa que ela amava. Todo o meu autocontrole foi por água abaixo.
Antes que ela pudesse fazer alguma coisa, entrei no banheiro e a empurrei com minhas mãos até a parede. Sua respiração falhou contra o meu rosto, aquele cheiro me deixou dormente. Levei minhas mãos até o seu rosto, para que ela pudesse me olhar sem qualquer interrupção.
— O que diabos você fez comigo? — perguntei, inspirando calmamente o pouco de ar que parecia ter naquele ambiente úmido.
Devia ter cinco centímetros separando nossas bocas, e a pele dela estava fria – provavelmente havia tomado um banho gelado –, em contraste com a minha, que parecia ferver com aquela aproximação. Cada vez que o ar saía da sua boca e batia no meu rosto, eu sentia minha nuca desenhar um arrepio que descia pela minha espinha. Ficamos alguns minutos nos olhando, absorvendo aquele momento.
— Você também sente isso? — perguntei, referindo-me aos pelinhos no meu braço, que estavam arrepiados. E ela fechou os olhos, mordendo os lábios; suas mãos, que até agora estavam encostadas na parede, agarraram a barra da minha blusa do Strokes. Puxei o ar entre os dentes, sentindo a sua mão gelada encostar a minha pele – caralho, ela me deixaria louca. Umedeci os lábios e colei nossas bocas; seus lábios eram a minha parte favorita do seu corpo, disso, eu tenho certeza. Pousei uma das minhas mãos na sua nuca, e a outra, desci para seu ombro descoberto por causa da blusa caída. Sua língua, ao contrário de todo o corpo, era quente e deliciosa. Fechei meus olhos, sentindo aquele turbilhão de sensações que eu só havia presenciado na cozinha daquela mesma casa, alguns dias atrás. Ficamos naquele estado inebriante onde as nossas línguas mexiam-se conectadas, senti a necessidade de colar meus lábios no seu pescoço e foi exatamente o que fiz; ouvi-a soltar um suspiro rouco no meu ouvido e meu corpo inteiro soltou um aviso claro de excitação. Minha mão desceu do ombro para a sua perna descoberta; a pele fria em contato com a minha mão, novamente me deixou arrepiado. Puxei sua perna para cima, e em um ato surpreendente, pulou no meu colo, enrolando suas pernas na minha cintura, deixando-me pressioná-la contra a parede. Suas mãos me assustaram –estavamna minha nuca; como elas foram parar ali? Ela puxou meu cabelo, descolando minha boca do seu pescoço. agora tinha o mesmo olhar de psicopata que eu tinha alguns minutos atrás. Puxou meu lábio inferior com os dentes, arrancando-me um suspiro pesado e passou a língua pelo meu queixo, descendo até meu pescoço, onde ela começou a chupar, sem qualquer tipo de vergonha. Espalmei minhas mãos nas suas pernas macias, o que me causou severos arrepios, mexendo com meu psicológico, deixando-me completamente insano.
Como eu estava precisando daquilo, um pedacinho de para alimentar meu vício, ah, se me falasse aquilo uma semana antes, eu o internaria em um manicômio.
Subi minhas mãos das suas pernas para o seu abdômen, levantando a sua camisa junto; eu não sabia se aquilo era permitido na nossa pseudo-pegação, mas eu precisava sentir mais da sua pele. Ela mordeu meu pescoço e eu soltei um gemido. Fuck, essa garota estava me deixando completamente submisso ao seu toque. Suas unhas compridas e coloridas arranharam minha nuca, fazendo-me soltar palavras sem nexo, e, enquanto ela deu uma risada gostosa, aproveitei que tinha descolado a boca do meu pescoço para puxar a sua camisa para cima.
Logo, eu podia ver as nossas roupas jogadas pelo banheiro, a sua pele agora tão quente quanto a minha, deixava-me completamente à mercê de todo o seu contato.
— Tem... — tentou dizer, tentando separar nosso beijo. Mas não deixei, eu queria a língua dela na minha, e ela não fez questão de separar. Sua boca, assim como o seu corpo, estava em perfeita sincronia com o meu, talvez não fosse aquele negócio de “encaixe perfeito”, mas com certeza era algo muito próximo disso.
— Camisinha... — ela disse novamente e eu entendi o recado; eu tinha visto uma caixa de camisinha perto do meu antialérgico. No momento, achei extremamente rude da parte de , mas agora, eu me sentia abençoado. Passei meus braços por baixo das pernas dela e a tirei da parede, sentando-a sobre a pia. Tateei pelas gavetas cegamente sem desgrudar as nossas bocas e senti me dar um tapa em meu ombro descoberto.
— Caralho, , não consegue ser mais devagar? — dei uma risada, descolando nossos corpos por um instante e indo até a porcaria da gaveta.
Encontrei a caixinha e a olhei, ela parecia ansiosa, e estava completamente perfeita. era perfeita. E naquele momento, eu percebi que era o cara mais sortudo do universo. Abri a caixinha e no meio de umas quinze camisinhas, eu encontro o maldito do pen drive. Tirei-o da caixa e encarei seu rosto.
Ela abriu a boca várias vezes, sem falar nada. E então uma vergonha se instalou em mim. Aquele arrependimento completo tomou conta do meu consciente. Eu ainda estava com a minha samba canção azul com estrelas amarelas, mas estava nua, perfeita e completamente maravilhosa, porém nua.
— Eu... — como ela, abri a boca para falar alguma coisa mas nada saía.
, sai — ela cobriu seu corpo perfeito com as mãos e braços, e passei por ela de cabeça baixa. Envergonhado e derrotado.

Sentei-me na nossa cama, ainda completamente entorpecido. Fixei minha visão em algum ponto do quarto e fiquei ali, estático, por vários minutos. Eu era tão fraco, tão egoísta... Eu não pensei em nenhum momento no que viria depois disso. O que aconteceria depois que fizéssemos sexo em cima da pia do banheiro? Eu não estou apaixonado por ela, e sei que ela não está por mim. O que temos aqui é necessidade, um conjunto de afetos por estarmos trancados juntos. não merecia estar ali, não comigo.
Respirei fundo. Fui até o quarto em que eu acordei no primeiro dia, abri um armário velho que fedia a mofo, e de lá tirei um pequeno aparelho de som portátil que eu havia visto no primeiro dia. Ele tinha uma entrada USB. Acho que eu podia me redimir deixando-a ouvir um pouco da sua música.
Passei pelo banheiro e ela não estava mais lá, aproveitei para colocar a minha calça que se encontrava atrás da porta, e minha blusa dos Strokes, que estava pendurada no chuveiro, e soltei uma risada pelo nariz, seguida de um gelo na nuca por lembrar de a tirando, e lambendo meu abdômen, arranhando suas unhas coloridas em meu oblíquo, que iam até a minha samba canção.
Peguei o pendrive que ainda se encontrava em cima da pia e fui para a sala, atrás de uma tomada para ligar o aparelho de som. Vi na cozinha, de relance, e simplesmente a ignorei; liguei o rádio e conectei o pendrive. Senti meu coração dar alguns baques loucos ansiando por música de verdade.
? — perguntei receoso, e ela colocou o rosto na porta, suas bochechas estavam extremamente coradas. Seus olhos emanavam vergonha. Perdi a fala.
— Eu.. É... P-peguei o rádio. Q-quer ouvir a-as músicas? — meus parabéns mestre da gagueira! Se ela te achava idiota, agora ela tem certeza disso.
saiu da cozinha, com a mesma blusa de antes e um short jeans rasgado, que aparecia um pouquinho abaixo da blusa (amém). Ela ficou completamente sem graça ao meu lado no sofá, eu podia sentir que ela iria desatar a falar a qualquer minuto, mas estava esperando algum sinal.
Puxei o ar para falar qualquer coisa, apenas para quebrar aquele silêncio constrangedor que se instalou entre nós, mas ela conseguiu falar primeiro.
— Eu não sei o que está acontecendo com a gente, . Mas eu sei que está destruindo o pouco que nós conseguimos avançar nesses dias. Eu sei que foi culpa minha, fui eu que comecei todo esse negócio, e o que eu tenho pra te dizer é “me desculpa”. Quero continuar como era antes, será que dá pra fingir que nós nunca quase transamos no banheiro?
Dei uma risada baixa, querendo mostrar que estava tudo bem.
— Eu adoraria fingir que nós nunca quase transamos na pia do banheiro.
— Na pia, claro... Você tinha que se lembrar disso — ela riu.
Foi como se um caminhão de carga estivesse saindo das minhas costas, e como se o sorriso dela me afetasse, eu sorri também.

Decidimos primeiro reconhecer as músicas do pendrive, ouvir o começo só pra saber quais eram. E assim como a carta de e Hayley, existiam realmente dez músicas preferidas minhas e dez músicas preferidas dela, totalizando quinze músicas. Estranho? Eu nunca achei que conhecesse aquelas músicas.

1. Don’t Rain On My Parade – Barbra Streisand ();
2. She’s A Genius – Jet (Eu);
3. Something ‘s Got A Hold On Me – Etta James ();
4. T.N.T. – AC/DC (Eu);
5. Time Warp – The Rocky Horror Picture Show ();
6. You Only Live Once – The Strokes (Eu);
7. Come See About Me – Glee Cast ();
8. Why Don’t You Get A Job? – The Offspring (Eu);
9. Voulez-Vous – ABBA ();
10. The Pretender – Foo Fighters (Eu);
11. You Only Get What You Give – New Radicals (Nós!)
12. I Want To Break Free – Queen (Nós!!)
13. Open Your Eyes – Snow Patrol (Nós!!!)
14. Brighter Than Sunshine – Aqualung (Nós!!!!)
15. Landslide – Fleetwood Mac (Nós!!!!!)

Eu não sei se estava psicologicamente preparado para ouvir as três últimas músicas, mas, mesmo assim, eram elas que faziam tudo na minha vida fazer sentido. Cada momento bom que tive, foi narrado por essas músicas, e eu nunca tinha passado tanto tempo sem ouvi-las. Meu coração sambava no meu peito, sabendo que talvez pudesse estar sentindo o mesmo. Isso era estranho demais.

Ouvimos as músicas, eu respeitei as músicas completamente estranhas e desnecessárias dela, com aquelas mulheres gritando feito loucas, enquanto ela respeitou quando eu dedilhava uma guitarra imaginária nas minhas músicas.
Até que na música número sete, já estava feliz e completamente “sem vergonha” para dançar passinhos na minha frente.
A porcaria da dança não era sensual, era algo combinado, como se ela tivesse visto um filme que tinha aquela dança ou algo do tipo... Tranquei a respiração, como se aquilo fosse me ajudar a não morrer ou, quem sabe, ter uma ereção. Porra ! Eu te odeio. A única coisa que eu consegui pensar era em como as suas pernas eram bonitas e completamente apalpáveis. Merda!
E pela segunda vez no dia, conseguiu arrancar suspiros do meu amigo de baixo. Meus parabéns, garota. Sabe o que me deixa mais enfurecido? É que a bosta da dança não tinha nem um pingo de sensualidade para eu poder usar como desculpa. Cruzei minhas pernas, completamente focado em como seu corpo se mexia com naturalidade, e pareceu esquecer completamente que eu estava no sofá, sem camisa, observando a sua bunda perfeita. E também parecia que ela havia esquecido o que nós tínhamos feito há uma hora. A música estava acabando e minha cabeça entrou em conflito: aquilo era bom ou ruim? Era ótimo, afinal, eu estava começando a ceder aos arrepios constantes que meu corpo me proporcionava. Eu sou fraco. Eu sou muito fraco.

Ela se sentou ao meu lado novamente, rindo sozinha, e eu apenas disfarcei minha excitação, indo até a cozinha tomar um copo de água gelada. , FOCO. Se eu focar não vai ser pior ainda?
Deixei a voz de Dexter Holland entrar na minha cabeça, e respirei fundo antes de voltar para a sala. Continuamos ali, ouvindo as músicas, e cantamos juntos – gritamos – em “You Only Get What You Give” do New Radicals. Na realidade, eu não sou fã dessa banda, mas essa música, em especial, tem uma representação fiel de quando eu fui para um hospital de câncer. Hay me levou lá, e eu cantei essa música pra eles, já que foi a única coisa que me passou pela minha cabeça quando vi aquelas crianças entre dois e onze anos, todas felizes e satisfeitas, mesmo estando em um hospital... Minha vida mudou nesse dia, e eu não estou falando da boca pra fora.
Continuamos nossa lista, completamente absortos nas nossas músicas preferidas, quando eu escuto aquele início que eu conhecia muito bem (n/a: coloquem pra tocar!).

I never understood before
(Eu nunca compreendi antes)
I never knew what love was for
(Eu nunca soube para que servia o amor)
My heart was broke my head was sore
(Meu coração estava partido, minha cabeça estava doendo)
What a feeling
(Que sensação!)

Fiquei estático ouvindo aquela música que eu conhecia até de trás pra frente, fiquei completamente sem saber o que fazer ouvindo aquelas palavras que estavam começando a me incomodar.

Tied up in ancient history
(Amarrado à história antiga)
I didn't believe in destiny
(Eu não acreditava em destino)
I look up you're standing next to me
(Eu procuro e você está ao meu lado)
What a feeling
(Que sensação!)

Conseguia sentir o olhar dela encima de mim, e esse foi mais um motivo para ficar sério, eu não a queria me lendo como era do seu costume.

What a feeling in my soul
(Que sensação em minha alma)
Love burns brighter than sunshine
(Esse amor é mais brilhante que a luz do Sol)
It's brighter than sunshine
(Mais brilhante que a luz do Sol)
Let the rain fall I don't care
(Deixe a chuva cair, eu não me importo)
I'm yours and suddenly you're mine
(Eu sou seu, e de repente você é minha)
Suddenly you're mine
(De repente você é minha)
And it's brighter than sunshine
(E é mais brilhante que a luz do Sol)

Senti-me na obrigação de sair dali. A atmosfera ficou pesada, e engoli seco saindo de casa.
Eu não podia.
Eu não posso.
Eu não posso.
Não posso!
Eu não posso estar apaixonado por .
É só uma atração sexual, não é? Um apelo completamente profissional; ela é gostosa e eu estou com vontade.
Estava escuro na rua, o céu extremamente limpo, e a lua redonda refletia no lago, parecia paisagem cinematográfica, e aquela grande bosta de música continuou tocando dentro da casa.

I never saw it happening
(Eu nunca vi isso acontecer)
I'd given up and given in
(Eu desistiria e cederia)
I just couldn't take the hurt again
(Eu simplesmente não podia me machucar outra vez)
What a feeling
(Que sensação!)
I didn't have the strength to fight
(Eu não tive forças para lutar)
But suddenly yet it seemed so right
(De repente você pareceu tão certa)
Me and you
(Eu e você)
What a feeling
(Que sensação!)

Ouvi a música acabar e respirei fundo, sentindo-me um grande pedaço de merda. Eu não estava apaixonado por ela, eu a odeio. Detesto todo o seu jeito idiota e absurdo. Detesto a sua voz e aquele maldito cabelo cheiroso.
E em um momento, eu senti meu braço latejar, ouvi um zunido no ouvido e caralho! Corri pra dentro de casa, só podia ser brincadeira. continuava sentada no sofá, a música estava dando suas últimas notas e senti tudo girar.
? — ela se levantou e veio até mim. — você está pálido! O que aconteceu?
— Alguma porra me picou — xinguei mesmo, falando rápido. — Eu vou deitar na cama, não se desespere. Pega gelo, uma toalha de rosto, álcool, alguma coisa pra amarrar no meu braço e algodão. Pega a epinefrina no banheiro. Rápido.
Eu sei que fui grosso, mas eu já estava sentindo meu braço queimar. Só podia ser coisa do destino mesmo! Fazia bastante tempo que eu não sentia aquela dor maldita. Nem mesmo ou Hayley poderiam imaginar que isso iria acontecer. Segurei com a mão esquerda no corrimão e tentei subir, mas tudo começou a girar, senti que ia desmaiar, e passou o braço pela minha cintura, então consegui firmar a perna. Joguei-me na cama e ouvi os passos dela correndo pela casa. Eu sentia todo o meu corpo formigando, como se tivesse realmente um monte de formiguinhas andando por cima de mim. Não consegui respirar direito, e tive que abrir a boca para fazer isso. Eu ainda estava consciente, mas se demorasse muito mais, eu não conseguiria lhe dar as instruções e provavelmente teria um choque anafilático. E seria o fim do maior babaca de todos.
Ouvi os seus passos e senti sua mão suada em meu peito descoberto.
! , eu peguei tudo — a sua voz estava alterada, mas a minha visão estava embaçada, então não consegui ver se ela estava realmente chorando.
— Não se desespera — repeti. Minha respiração era pesada e meu braço coçava tanto que dava vontade de esfregar uma esponja de aço ali. Minha voz estava seca, rouca, completamente estranha aos meus ouvidos. — Passa o álcool aqui, e vê se tem um ferrão. Se tiver, tire — ela fez isso, rapidamente, o álcool ardeu e refrescou ao mesmo tempo, ela provavelmente assoprou.
— Sem ferrão — a voz chorosa dela foi como uma facada.
— Ok, amarra o fio três dedos acima do machucado. E pressiona um cubo de gelo em cima, ou melhor, me dá o gelo que eu pressiono — ela o fez e eu tentei ao máximo fazer aquela pequena tarefa. Minha barriga doía como se eu tivesse tentado várias e várias vezes vomitar, aquela dor abdominal cansativa.
— Agora pega a epinefrina. Tira o lacre, tira a tampa, pega o algodão, coloca um pouco de álcool e... limpa — senti uma dor sufocante no peito. Gemi. — Braço.. Aplicar...


Dia 07 —

? — encostei em sua pele fria, o que me deixou desesperada. Ainda tinha pulso, muito rápido por sinal. Fiz o que ele pediu, passei o algodão com álcool na injeção e coloquei seu braço esquerdo ao lado do corpo (ainda estava segurando o gelo), passei álcool ali também, e apliquei a injeção.
Senti as lágrimas grossas descerem pelo meu rosto. Aquela brincadeira de e Hayley havia ido longe demais. Eu precisava de uma ambulância!
Peguei outra pedrinha de gelo, e pressionei onde o inseto o havia picado. Passei minha mão em seus cabelos e depositei um beijinho em sua testa, fungando, deitei ao seu lado. estava pálido e com a boca entreaberta, seus olhos tremiam, como se estivesse tendo um ótimo sonho, ou como se estivesse fingindo dormir.

Meu coração parecia querer sair pela boca, e respirei fundo. Estava tudo certo; em uma hora acordaria faminto, e eu faria a ele uma boa canja de galinha, e amanhã estaríamos rindo disso, não estaríamos?
Por um momento insano, eu senti como se estivesse voltado no tempo, deitada ali com ele, aninhada em seu corpo frio. Os vultos daquela noite maldita me atingiram como um canhão, e não consegui conter um choro alto. Não sei dizer por quanto tempo fiquei ali deitada ao lado dele, chorando feito um bebê. Meu cérebro parecia não aguentar mais de cansaço, mas eu não conseguia dormir sem saber se ele estava bem ou não.
Passei a mão por seus cabelos de novo e senti que a sua pele estava mais quente. Soltei um suspiro aliviado e corri até o armário, atrás de um edredom para cobri-lo, e só nesse momento que eu percebi que eu poderia ter feito isso antes, afinal, ele estava sem camisa. Continuei passando a mão pelos seus cabelos, vendo que a suas bochechas estavam voltando a corar; ele provavelmente estava só dormindo agora. Espiei seu braço e a picada era agora apenas uma bolinha inchada. Como quando um mosquito ou uma formiga me picava. Sorri sozinha, e percebi que o sol surgia lá fora.

All this feels strange and untrue
And I won't waste a minute without you
My bones ache, my skin feels cold
And I'm getting so tired and so old



Dia 08


Já passava do meio dia quando vi se mexer, resmungando palavras desconexas. Não sai do lado dele, desde ontem à noite. Não conseguia pensar na possibilidade de deixá-lo sozinho do jeito que ele estava: completamente vulnerável.
? — perguntei suavemente, não querendo acordá-lo, mas sim querendo saber se já estava acordado.
—Hay? — ouvi a sua voz perguntar, leve como um sopro.
— Não, não — falei soltando um sorriso. Ele parecia ser a coisa mais fofa do mundo, todo enrolado no edredom, e encolhido como se fosse o dia mais frio do ano. Seus olhos estavam fechados e suas bochechas completamente rosadas. — .
Ele não abriu os olhos ao ouvir meu nome. Pelo contrário, fechou-os com força. — Então não foi um sonho?
, você está bem? — perguntei, ignorando a sua pergunta. Ele deu um gemido preguiçoso, e abriu os olhos. Estavam vermelhos e pareciam exaustos. — Obrigado , você salvou a minha vida.
— Isso não foi nada sério, foi? — perguntei, mordendo o lábio. — Quero dizer, não era grave... Ou... Era?
— Se eu poderia ter morrido ontem? — ele parou para pensar na resposta, seus olhos pousaram nos meus. — Acho que sim.
Ele disse aquilo com tanta naturalidade que eu quase pensei que fosse mentira.
— Eu já tive ataques piores. A primeira vez foi quando eu tinha dois anos. Minha mãe ainda era viva. Ela ficou comigo no hospital, fiquei internado uns vinte dias. Eu sei que parece impossível, mas eu me lembro dela do meu lado, segurando a minha mão. É uma das lembranças mais nítidas que eu tenho dela — ele se ajeitou na cama.
— O que aconteceu com ela?
— Minha mãe? Ela morreu atropelada, pouco depois do meu tratamento alérgico. Eu... — suspirou. — Meu pai era um babaca de primeira, bebia, cheirava cocaína e me batia sempre que tinha chance. Acabei desenvolvendo claustrofobia por me enfiar dentro do armário da cozinha, cada vez que ele bebia e tentava me bater. Era horrível. Eu ouvia os berros dele atrás de mim pela casa inteira, quebrando móveis e chutando tudo. Isso continuou até eu ter uns sete anos, quando minha vizinha o denunciou por poluição sonora e a polícia acabou me encontrando — ele parou para respirar. — Fui levado pra um hospital, onde visitei uma psiquiatra e acabei indo para um colégio interno até ser emancipado com 16 anos, a pedido do meu próprio pai que provavelmente não queria mais pagar pensão. Comecei a trabalhar enquanto fazia o ensino médio, nesse meio tempo encontrei a Hayley. Ah, eu tive aulas de música no colégio interno, minha terapeuta disse que eu precisava encontrar algo que “libertasse os fantasmas do meu passado”.
As palavras simplesmente não saíam da minha boca. Nunca achei que aquela seria a história por trás de todo o mau humor, das caras feias e grosserias. Senti-me a pessoa mais ignorante do universo.
... Eu...
— Nada de falsa compaixão, lembra? — ele sorriu torto. A compaixão não era falsa, mas eu entendi o que ele quis dizer com aquilo. Todos aqueles anos em que eu briguei com ele me pareceram incompreensivelmente errados. Senti-me um monstro.
— Lembro. Não é falsa, mas tudo bem — falei, devolvendo seu sorriso. — Você sabe que vou ter que matar o e a Hayley por isso, não sabe?
— Sei. Eu te ajudo, quero matá-los devagar e com bastante sofrimento — ele disse, sentando-se.
— Ei, ei, ei — falei, empurrando seus ombros para baixo, indicando que era pra ele continuar deitado. – Você vai ficar de cama hoje.
— Eu só quero escovar os dentes! Fico agoniado se não escovar, é sério, prometo que volto correndo pra cá. Aliás, quero uma sopa.
— Okay. Só porque você está doentinho — falei, apertando as suas bochechas e riu. — Gosto disso — deixei escapar, esperando levar um grande corte dele, mas o que recebi foi:
— É melhor do que cuspes na cara.
—O que diabos você fez com ?
— O que diabos você fez com ?
Pisquei algumas vezes e dei de ombros sorrindo, como se falasse “Não foi minha culpa, sou um anjo”.
Ele soltou uma risadinha nasal e se levantou meio abobado, tropeçando.
— Eu tô bem — falou, lendo meus pensamentos e eu fiquei ali sentada na cama. — Vou aproveitar pra tomar banho, não se esquece da minha sopa.

Okay, eu não era a rainha da cozinha, mas eu podia fazer uma sopa, certo? Certo! Por esse motivo, desci as escadas, passando pela porta do banheiro aberta onde escovava os dentes. Peguei o aparelho de som que estava na sala, e levei à cozinha. Liguei na Time Warp e fiquei cantando aleatoriamente enquanto cortava alguns legumes que estavam dentro da geladeira.
Batatas, cenouras, cebola, chuchu, arroz, macarrão e frango. Apenas uma sopa básica, que cheirava muito bem, aliás. Eu já gritava junto com Freddy Mercury quando a sopa ficou pronta. Enchi um prato com a mesma, peguei um pacote de torradas no armário e subi as escadas. Encontrei um deitado na cama com uma boxer preta deixando bem claro o quão bonitas suas pernas eram. Eu sou apaixonada por pernas, seja de mulheres ou homens.
Sua blusa era de alguma banda que eu não conhecia.
— Hey baby, hora da sopinha — fiz uma voz extremamente mimosa, eu tinha jeito com crianças.
— Menos, por favor — ele virou os olhos, esticando os braços para pegar o prato. Entreguei-o. estava radiante, sorria sempre que podia e os seus dentes eram a coisa mais linda que eu já havia visto. Sempre fui fissurada por dentes, pelo fato de ter que usar todo tipo de aparelhos dentários imagináveis.
— Está se sentindo bem? — perguntei, sentando-me na beirada da nossa cama.
— Estou ótimo, e caralho, essa merda está boa — ele disse, referindo-se à minha sopa. Peguei uma das torradinhas que ele havia colocado no seu prato, molhada com sopa e comi, estava ótima. Levantei-me da cama, sabendo que ele já estava bem e segui para o banheiro. Tomei um banho extremamente rápido, ainda suspeita de que ele não podia ficar muito tempo sozinho. Voltei pra o quarto, onde ele ainda comia minha sopa, provavelmente no segundo prato.
Suspirei tomada pelo cansaço, me joguei na cama.
? — ele perguntou com a boca cheia. E parecia que ele havia percebido algo. – , você dormiu?
Fiquei completamente sem graça, eu não podia dar o braço a torcer.
— Claro que dormi, , deixa de ser besta.
— Não parece.
— Claro que não parece, eu dormi preocupada contigo. Você sabe que eu sou assim.
Ele pareceu engolir aquela história e continuou comendo a sopa enquanto eu desmaiava na cama.

Flashback In

Era uma festa à fantasia. Havia alguns “famosos” lá, como a Miley Cyrus e o Justin Long. Gente aleatória de todos os lugares, e havia duas coisas que me deixavam realmente feliz: tequila grátis e nada de .
Eu estava fantasiado de (rufem os tambores): Coringa! A fantasia mais balaio da história das festas a fantasia, exceto talvez pelo Mário Bros.
estava de Batman, e Hayley de Mulher-Gato. Então ficou tudo mais divertido. Minha “maquiagem” era do coringa Jack Nicholson, então me limitei a ficar com garotas apenas no fim da festa para não estragar. Eu sei, detalhe desnecessário.
Enquanto eu não achava alguém decente para levar pra casa, acabei me deparando com uma peça única: uma garota vestida de Harley Quinn.
Juro que meu coração parou, a roupa era toda de couro, deixando todo o seu corpo completamente bem desenhado e atraente. Ela bebia alguma coisa no bar, conversando com algumas pessoas desconhecidas por mim.
Tive que me aproximar; eu tinha que me aproximar!
— Why so serious? — perguntei, me aproximando dela.
A garota deu toda a atenção pra mim, a boca pintada de preto se contorceu em um sorriso sem dentes.
— It’s not about the Money — eu entendi a referência. “Why so serious”, além de ser a famosa frase do Jocker (Heath Ledger), ainda era uma das frases da música “Price Tag” da Jessie J, assim como a frase “It’s not about the Money”, que também pertencia à música, e era, na verdade, o foco do Jocker.
Não sei dizer o certo, mas naquele momento, eu senti uma conexão com aquela garota, eu tinha que conhecê-la!
— Posso... — comecei a falar, mas Hayley veio ao meu lado e me puxou.
, eu preciso que você me leve na casa da !
— O quê?! Por quê? — perguntei, inclinando a minha cabeça, para que ela visse que eu estava “acompanhado”.
— Ela precisa de mim... Me ligou chorando, e o não está em condições de dirigir. — Hayley gritou por causa do som alto e eu virei os olhos. Até não estando presente, ela me incomodava.
Fui até a garota que eu estava conversando e falei um:
— Não saia daí.

Levei Hay até a casa de , onde antes de sair do carro, Hay pediu para eu esperar para o caso dela não estar bem e termos que levá-la a algum lugar ou algo do tipo. Esperei contra a minha vontade. Mas okay, esperei.
Fiquei mais ou menos uns quinze minutos, até que não aguentei e desci do carro para ver o que estava acontecendo.
Entrei, já que a porta estava aberta e andei pelo corredor até encontrá-las na sala. estava encolhida em um canto do sofá, e Hayley estava ao seu lado, passando a mão nos seus cabelos. Sua máscara de Mulher-Gato estava no chão e limpou as lágrimas do rosto antes que eu a visse “chorar” de verdade.
— Que merda, , não sabe bater? — ela gritou, e me assustei pela agressividade. Geralmente eu era o agressivo da vez.
— Eu só vim ver se estava tudo bem — falei, no mesmo tom gentil dela.
— Já viu, agora tchau — seu tom era tão ignorante que me senti ofendido.
— Baixa a bola, mulher. Só estou tentando ajudar.
— Como se você se importasse comigo — ela disse sem nenhum sinal de que estava realmente chorando. Como se fosse aquela pessoa falsa que eu desconfiava que ela fosse. — Você nunca sequer levantou um dedo para me ajudar, me incentivar ou se preocupar comigo, , sai.
Apontou para a porta como se eu fosse um cachorro. Olhei Hayley e ela estava com as mãos agarradas nos próprios cabelos, e os cotovelos apoiados nas pernas. Apenas esperando a nossa festinha acabar. Ela já estava acostumada com aquele clima desordeiro.
— Pessoal, por favor — ela disse, sem a menor vontade de nos impedir de bater boca.
— Como você sabe, não estou aqui por sua causa, estou aqui por causa da Hayley — falei, ignorando a sua ignorância que por sinal estava me dando náuseas. se levantou.
— Então sai logo.
— Hayley, posso ir? Ou você quer que eu espere você terminar de ouvir o teatrinho da moça pra chamar a atenção? Afinal, os famosos somos nós, e ela não foi convidada para a festa... — Falei apenas para irritá-la na mesma proporção que ela já havia me irritado.
— Me poupe você dos seus teatrinhos, .
— Me poupe você das suas lágrimas falsas — suguei minha baba que já queria escorrer pela boca, de tanta raiva que eu falava aquilo. – “Ai, estou sozinha em casa e quero um pouco de atenção, pra quem eu ligo? Acho que o não vai atender o celular, vou ligar pra Hayley”...
... — Hayley me reprimiu.
— Você pensa que sabe de tudo, não é?
— Eu não sei de tudo, mas sei que você é uma falsa — eu disse, e ela engoliu em seco e se aproximou de mim.
Seus olhos estavam marejados, mas ela não ousou deixar aquelas lágrimas escorrerem pelo seu rosto, não na minha frente. Dessa vez, se ela viesse me dar um tapa, eu estaria pronto. Dito e feito, ela ergueu a mão para me dar um tapa e consegui segurar seu braço antes que ela acertasse meu rosto.
— Já acabou o showzinho? — perguntei, na verdade, gritei e antes que eu pudesse falar qualquer outra coisa vi cuspir em mim.
— QUAL É O SEU PROBLEMA? SUA IDIOTA! — gritei a todo pulmão, e senti seus dedos da mão livre puxarem meus cabelos.
Consegui ver Hayley pular do sofá gritando o seu nome, enquanto ela arrancava pelo menos um tufo dos meus cabelos.
— EU TE ODEIO! — ela gritou exatamente como eu havia gritado, e Hayley conseguiu afastá-la de mim, provavelmente porque ela já estava satisfeita em cuspir em mim e arrancar meus cabelos.
Hayley a empurrou para o sofá, onde ela caiu com o olhar perdido e as lágrimas correndo pelo seu rosto como se tivessem sido implantadas ali, e não como se ela estivesse mesmo chorando.
— O que tem de errado com ela? — perguntei, limpando seu cuspe com a manga do meu paletó roxo, vendo que metade da minha maquiagem de coringa saiu junto. Maldita.
, vai embora — Hay me empurrou porta à fora. — Avise ao que a gente se fala amanhã. Vou ficar com a hoje.
— Okay, mas o que aconteceu? O namorado dela terminou com ela, ou o quê?
— O pai dela morreu . Morreu.
Não fui ao funeral.

Flashback Out

Acordei ouvindo um barulho de trovoada.
Meus olhos se arregalaram e vi que já era noite. não estava ao meu lado e um medo tomou conta de mim.
? — gritei, sem vergonha.
— Estou chegando — ele disse, sua voz estava perto, isso queria dizer que ele não estava no andar de baixo e já era uma vitória.
— Por favor — falei, com a voz meio chorosa. Nunca consegui me controlar em momentos como este. Era a minha trinca na armadura, eu era uma pessoa completamente feliz, enquanto não existia uma chuva.
— Tô aqui, já. Nada de choro — ele disse sorrindo, ainda havia luz e ele se prontificou de acender — Trouxe morangos.
deitou-se na cama ao meu lado e cruzou os braços atrás da cabeça, suspirando. Peguei um morango e ele outro.
— Você já percebeu o quanto nós evoluímos nesses dias? — perguntou, olhando o teto e eu mordi os lábios. — Eu não consigo entender.
— Entender o quê?
— Nós! O que nós nos tornamos. Eu te odiava, de verdade. Não tem ideia de quantas vezes eu desejei que você fosse atropelada por um caminhão — deu uma risadinha, virei-me de lado para encará-lo. — Agora aqui estou eu, deitado na mesma cama que você, fazendo o papel que você deveria estar fazendo: falando sobre os sentimentos.
— Eu gosto de te ouvir falar.
— Eu sei disso, e é por esse motivo que sempre ficava calado na sua presença. Nunca quis que você soubesse alguma coisa sobre mim. Você tem esse negócio de ler as pessoas, de querer cuidar delas e ajudar. Detesto isso. Detesto porque a maioria das pessoas que tentaram me ajudar foram obrigados a isso. Policiais, psicólogos, psiquiatras... Nunca foi alguém que pensasse “ele precisa de ajuda”, era sempre “ele tem problemas”.
Ouvi-lo dizer aquilo, era tudo o que eu queria ouvir. Era o que eu sempre me perguntei desde que o vi pela primeira vez. Minha intuição dizia que aquele era o verdadeiro , o cara que nunca aparecia pra mim, eu sabia que aquele momento devia ser gravado na minha mente pra sempre.
Outro trovão roncou alto do lado de fora da janela e apertei os lençóis.
— Me sinto especial de saber que você me escolheu pra saber disso.
— Achei que depois de tanto tempo... Depois de tantas brigas...
— Depois de uns dias enjaulados no meio do nada... — completei, sorrindo e analisando seu semblante tranquilo naquela chuva horrorosa. Ele amava chuva.
estava certo — ele disse, espiando-me de lado e voltando a olhar o teto.
? Sobre o quê?
— Pensei alto — ele disse rindo, sabendo que eu ficaria completamente curiosa.
— Fala logo. Jogou na roda, tem que falar!
— Ah, é a nova regra da casa? Não sabia que existiam regras! — ele começou a rir.
— Conta!
— Não vou contar! Era a minha carta, ele escreveu pra mim — Chato! Fez isso de propósito.
Outro trovão. Fechei os olhos com força.
— Conta — eu disse, sem qualquer resquício de ameaça na minha voz. — Se não... — continuei de olhos fechados.
— O quê?
— Vou fazer cócegas em você.
— Eu não sinto cócegas — ele disse rindo de mim.
— Meu Deus, você é um chato!
— Você que é.
— Conta, vai! — abri meus olhos e dei de cara com ele virado de lado pra mim, comendo um morango e rindo com a boca suja de vermelho.
— Ele disse que você podia me ajudar a esquecer dos meus problemas.
Fiquei sem fala, como de costume. Eu, a pessoa que sempre tinha o que falar.
— Isso foi inesperado.
Ele sorriu. Peguei outro morango da caixinha que ele trouxe.
— Por isso eu não quis falar.
Percebi que não tinha o que dizer, pela milésima vez em alguns minutos. tinha o poder de me deixar sem palavras. Na realidade ele não tinha, mas nos últimos dias ele acabou me deixando assim. Tinha algum nome para isso?
Outro trovão. Senti a mão dele segurar a minha. Sorri.
— Obrigado.
Seus olhos estavam focados nos meus, tão brilhantes e intensos que continuei olhando como se nada mais existisse.
— O que aconteceu com a gente? — perguntei quebrando o silêncio. desviou o olhar, virando-se novamente pra cima, mas ainda segurando a minha mão.
— Acho que nós finalmente entendemos o que somos.
— Nós finalmente nos conhecemos, isso que você quis dizer?
— É — ele se virou novamente pra mim, colando seus lábios no meu nariz. Soltei uma risada.
Passei minha mão livre pelos seus cabelos, descendo pela lateral do seu rosto. Seus lábios esticaram-se em um sorriso de boca fechada e se movimentaram em uma pergunta:
— Se você morresse hoje, do que você se arrependeria por não ter feito?
Aquilo era difícil de responder.
Não que eu já tivesse feito tudo na minha vida, mas era o tipo de coisa que não se pode simplesmente responder sem pensar. Meus olhos rodaram o quarto em busca da resposta, senti seus olhos em cima de mim e acabei suspirando.
— Nunca ter cantado em público — antes que ele falasse algo eu acrescentei. — Eu sei que não tenho voz pra isso, mas minha mãe tinha e foi uma coisa que sempre me perseguiu, eu sempre quis ter um público me aplaudindo.
— Ah, falando nisso... Quem era naquela na sua blusa?
— Barbra Streisand. Tenho umas quinze blusas dela — admiti rindo de mim mesma. — Mas e você?
— Acho que nunca ter aprendido a nadar.
— O QUÊ?! Você não sabe nadar?
— Não — ele disse simplesmente.
— Meu Deus, ! É a coisa mais simples do mundo!
— Eu sei, mas não aprendi... Não sei andar de bicicleta, não sei nadar e aprendi a amarrar os sapatos com 15 anos. Não sei fazer coisas de crianças.
Outro trovão. Apertei sua mão involuntariamente.
— É só um comentário, sabe? Não quer dizer que vá realmente mudar a minha vida.
— Vou te ensinar a nadar — falei sem nem perguntar se ele queria ou não, era a minha meta até o fim do décimo dia. Percebi que a minha mão ainda repousava ao lado do seu rosto, fiz um carinho levando minha mão à sua nuca e mexendo no seu cabelo. fechou os olhos e eu sorri me aproximando dele.
Nossos corpos estavam quase se encostando, afundei meu rosto na curva do seu pescoço, ele soltou nossas mãos e passou a sua por baixo de mim, abraçando-me e fazendo nossos corpos se encostarem. Seu cheiro era tão delicioso que eu simplesmente não conseguia fazer mais nada a não ser encostar meu nariz em seu pescoço e sugar o máximo que conseguisse daquele cheiro.
Meus pés encostavam-se aos pés frios dele e ele entrelaçou nossas pernas, sua mão livre ficou mexendo no meu cabelo, parecia que ele estava enrolando-os no seu dedo.
Ficamos nessa posição por bastante tempo.
Se alguém me perguntasse o que se passava ali, eu simplesmente não saberia o que rotular.
A muralha de travesseiros já não existia há alguns dias, e eu nem sequer havia notado, desejei que aquilo durasse mais do que somente os próximos dias.
Eu estava apaixonada pelo meu oposto.


Dia 09


Abri meus olhos e notei que ainda estava dormindo, não estávamos abraçados, mas próximos o bastante para seu braço estar sobre as minhas costas. Levantei a manga da sua blusa e vi que haviam apenas dois pontinhos vermelhinhos, do da picada e o da injeção que eu dei. Depositei ali um beijinho e me levantei.
Fiz minha vitamina, e percebi que não havia terminado de ler o Clube da Luta, sentei-me no sofá e tratei de continuar lendo até ele acordar. Mesmo não tendo feito nada ontem, tenho certeza de que ele estava cansado, sua noite havia sido difícil, e aposto que o braço estava completamente dolorido ainda. Li por bastante tempo até ouvir alguns barulhos no andar de cima. O livro estava interessante, por isso me levantei interessada:
— O que acontece com a Marla e o Tyler? O Tyler é meio idiota, você não acha? — ele mal tinha chegado na escada quando perguntei, e segurou um sorriso presunçoso.
— Leia até o fim. Você vai se surpreender — seguiu até a cozinha. — E o Tyler não é idiota, ele é um gênio. Ele não é um cara apaixonado, ele vê muito além disso, ele quer mudar o mundo.
— Uuuh. Vejo que toquei no ponto fraco de alguém. Está apaixonado por Tyler Durden? – brinquei indo até a cozinha, segurando o livro.
— Não estou apaixonado por ele, mas você tem que admitir que ele é foda! Ele... Meu, não tenho nem palavras para descrever a engenhosidade de Tyler Durden – ele disse elétrico. Ele falava com amor, e foi nesse momento que eu percebi que amava livros, que todos os mundos que ele lia, os personagens que ele conhecia... Tudo ali fazia com que ele se sentisse em casa.
Exatamente como eu era em relação à música.
— Ele é.. Diferente — concordei e ele se calou. Então aproveitei: — Você pode me emprestar? Não vou conseguir ler tudo aqui... A não ser que tu queiras me contar o fim.
— Eu não empresto meus livros — ele disse naquele tom amável de , mas completou: — Mas eu posso comprar um novo pra você.
— Não precisa — falei, sem graça. — Eu sei onde se compram livros...
— Cala a boca — ele disse, terminando de fazer o seu café e tomando o primeiro gole, apoiando-se na pia e olhando pra mim. — O que vamos fazer hoje?
— Nadar! — eu disse erguendo os braços e sorrindo.
— Eu achei que você estivesse brincando...
— Nada disso, quero pelo menos que você saiba como é, caso algum dia você caia na água não se desespere e morra afogado.
Mesmo que eu já tivesse desejado isso algumas vezes, agora me parecia completamente ignorante da minha parte.
— Ok. Acho que eu aguento isso.
— E o seu braço? Se estiver ruim podemos fazer outra coisa... Posso terminar o livro, e você ler outro em cinco minutos — falei, e ele rolou os olhos, tomando outro gole de café.
— Vamos nadar — ele disse simplesmente, e eu não consegui conter a minha felicidade, dando um pulo ali mesmo, e dei-lhe as costas, indo escovar os dentes e os cabelos, e colocar um biquíni.
Desci novamente as escadas e estava lendo, já havia terminado “O Pacto”, e agora estava lendo “A Revolução dos Bichos”. Ele não se cansa nunca?! E eu tinha que comentar como ele ficava adorável com aqueles óculos de leitura?
— Pronto, Patrick? — fiz a voz anasalada do Bob Esponja, e ele me olhou estranho. Ah, sério que ele não conhece Bob Esponja...
— Não entendi a referência.
— Esquece, deheheheh — dei a risadinha do Bob e ele continuou não achando graça. Chato! se levantou e seguiu para o nosso quarto, provavelmente para trocar de roupa.
Enquanto isso fui para fora; o dia estava lindo, exceto por algumas nuvens escuras que estavam perto do horizonte, provavelmente as da tempestade de ontem.
Sentei-me no cais, e coloquei os pés na água. Estava um gelo, mas do jeito que eu gostava. iria reclamar.
se aproximou de mim, apenas usando um calção de banho preto com azul marinho.
Me levantei.
— Bom. Eu vou entrar na água, e você desce pela escada — apontei pra escadinha que tinha ao lado do cais.
Ele concordou com a cabeça, e eu mergulhei. Me enganei, a água não estava gelada, estava congelante. Apenas sorri, enquanto ele descia a escadinha, completamente sem graça.
— Caralho, essa merda está congelando!
— Está ótima, você já vai se acostumar.
Ele entrou na água, mas continuou se segurando na escada. Dei uma risada.
— Bom, acho que o primeiro segredo da água é que a sua densidade é menor do que a dela, então se você souber o que fazer, você boia. O que você deve fazer? Relaxar. Se você estiver tenso, seus músculos estarão tensionados e a sua densidade vai teoricamente aumentar. E com isso você afunda.
— Ok. Relaxar — ele disse, fechando os olhos e respirando fundo.
— Não fica com medo.
— Não tenho medo de água, meu problema é não saber realmente o que fazer — ele disse, meio preocupado, e eu sorri tentando passar um pouco de tranquilidade à ele.
— Por isso eu estou aqui. Primeiro eu quero te ensinar a boiar — falei, aproximando-me dele. – Pode continuar segurando na escada se quiser, não vou me ofender se você não confiar em mim — ele continuou em silêncio, então falei: — Eu quero que você se deite, relaxe completamente os músculos e deite.
continuou segurando a escada de madeira e deitou-se na água, pelo menos tentou já que nas duas primeiras tentativas o seu corpo afundou.
Coloquei um dos meus braços embaixo das suas pernas e o outro embaixo do seu tronco, segurando-o. Ali perto do cais, eu conseguia encostar a ponta dos pés no chão.
— Você precisa relaxar, é só água. Respira bem fundo, e solta devagar. Lembre-se que eu estou te segurando — ele fez o que eu pedi. E eu sorri vendo como ele era um pedaço de mal caminho, com o cabelo fora do rosto, o corpo definido porém magricela a mostra e molhado... Ó céus.
Dessa vez ele conseguiu ficar, então fui tirando os braços de baixo dele e deixando-o sozinho. O que deu certo, e depois de algum tempinho boiando, ele soltou a mão da escada, deixando-a boiar junto com o corpo.
— Isso é... — ele disse com a voz calma, e os olhos fechados. – Bom demais.
— Eu sei — falei simplesmente, e mergulhei para arrumar meus cabelos. O sol estava forte, então me lembrei: — , você passou protetor solar?
— Não — ele abriu os olhos e se segurou na escada. Parou de boiar na hora.
— Vou lá pegar, você se sente seguro ficando aqui sozinho ou prefere ir lá você?
— Eu fico. Vou treinar — disse ele, sem qualquer risco de brincadeira nos olhos.
Assenti com a cabeça e subi a escada, indo em direção a cabana para pegar o protetor solar. Eu passava aquilo direto, era praticamente normal pra mim.
Aquilo era loucura! Eu não conseguia mais me lembrar de como nós éramos no início da semana. O que nós nos tornamos eu não sei, mas gostei demais desse novo “nós”. Havia realmente um “nós”?
Voltei ao lago com o creme em mãos, e o vi boiando novamente com o semblante tranquilo e os olhos fechados.
— Hey — chamei.
Ele abriu os olhos e parou de boiar, subindo as escadas em seguida.
Peguei a toalha que havia levado comigo e entreguei a ele, que enxugou o rosto e o tronco.
me devolveu a toalha e entreguei a ele o protetor.
— Ah, vai. Isso é sacanagem.
— O que?
— Você fazendo isso comigo!
— Isso o quê homem? – perguntei arregalando os olhos.
— Essa merda de sol, essa merda de água gelada, essa merda de lago, essa merda de biquíni e você ainda quer que eu passe protetor solar em mim mesmo? — ele disse enumerando com os dedos, e a única coisa que consegui fazer foi rir.
Ele estava sério, com as sobrancelhas unidas e os lábios retraídos.
— Passa em mim. Esse protetor. Agora — disse ele pausadamente.
— Se não o quê? — perguntei, ainda rindo.
— Cala a boca e passa logo.
Dei outra risada e abri o protetor solar, vendo-o sorrir e fechar os olhos. Quem diria que era essa doçura toda? Nem mesmo os céus.
Coloquei o produto nas mãos, e espalhei pelo seu rosto mesmo onde a barba já crescia, não muito grande, só... a fazer. Seu rosto estava sereno, seus olhos fechados, os cílios compridos chegavam a me deixar com inveja. O nariz que eu sempre achei exagerado para o seu rosto agora me parecia um desenho bem definido que se encaixava perfeitamente com todo o resto e a boca, ah, a boca... Tão atraente e bem delineada que eu podia simplesmente beijá-lo agora. Podia, não podia? Estava tão perto da minha, tão agradavelmente perto. Nesse momento, ele lambeu os lábios. Maldito. Estava fazendo de propósito!
Tirei minhas mãos do seu rosto e apliquei mais produto.
Passei minhas mãos pelo seu ombro e peito, sem querer prestar muita atenção em como ele tinha o corpo bonito, e como o meu era fisicamente atraído pelo dele. Quando terminei de espalhar o produto pelo seu peito, percebi que as suas duas mãos já estavam na minha cintura. Ele as guiou até o centro das costas e me puxou para perto. Aquele choque entre os nossos corpos seminus, davam-me arrepios e me faziam lembrar do sétimo dia, na pseudo-pegação no banheiro. E eu não podia mentir. Eu queria muito que aquilo se repetisse.
Meu corpo estava pingando água, assim como o dele, e mesmo assim estávamos quentes, meu coração parecia algum tipo estranho de bateria de carnaval e meus olhos não sabiam se olhavam para o seu rosto ou especificamente para a sua boca.
Resista .
Ele só é lindo, charmoso, inteligente, misterioso, carinhoso, apaixonante, extremamente grosseiro, amável, e claro, um astro do rock. Você pode resistir à tudo isso.
Por esse motivo, desvencilhei-me dos seus braços deliciosos e peguei mais protetor solar, indo para as suas costas, deixando-o sorrir de lado, enquanto eu espalhava o produto nas suas costas. Suas costas eram largas e com várias pintinhas. Um amor. Passei pelos ombros largos e no pescoço, desci minhas mãos pelas laterais e espalhei até o centro das costas, ele tinha aquelas duas covinhas que se localizavam antes das suas nádegas.
Mordi o lábio, completamente anestesiada. Aquilo era demais para mim. De-ma-is.
Eu precisava me controlar. Não podia simplesmente ceder cada vez que meu corpo gritava pelo dele! Terminei de passar o protetor nas suas costas e segui para o lago, pulando na água sem qualquer piedade. Emergi e o vi me olhando com os olhos apertados por causa do sol.
— Vem logo! — falei, e ele entrou na água pela escadinha, como antes.
Ficamos na água quase o dia inteiro. , é claro, não havia aprendido a nadar, mas havia aprendido a não morrer caso algum dia caísse de algum barco ou algo do tipo.
— Sinto falta dos berros, sabia? Eu adoro, barra adorava, te fazer ficar com raiva— ele admitiu depois de tomarmos banho e estarmos com os corpos murchos no fim da tarde, sentados no chão da sala comendo sorvete com pipoca.
— Eu sempre senti isso, “só pode ser de propósito”.
— Eu te via toda babaca e pensava “tenho que acabar com isso, como ela tem a audácia de estar feliz na minha frente?” — ele disse, sem qualquer vestígio de vergonha nos olhos.
— Eu nunca fiz algo de propósito só pra te incomodar... Na realidade esse é o meu jeitinho de ser. Aliás, pra não dizer que estou mentindo, no nosso primeiro dia de trabalho, não fui com a sua cara e acabei te irritando de propósito. Não que você não estivesse péssimo mesmo...
— Bom saber disso, vou reclamar com meu supervisor. Ou alguém que não me irrite por natureza — brincou ele.
— Você acha que vamos voltar a ser o que éramos quando voltarmos? — perguntei, pegando uma colherada de sorvete e colocando na boca.
Ele parou para pensar.
— Não sei, talvez sim. Talvez não. Acho que só vendo pra saber — deu de ombros e deitou a cabeça no sofá, já que ele estava com o tronco encostado nele. – O que você acha?
— Nesse momento, com a gente trancado aqui, eu sinto como se fosse fácil nós continuarmos aqui. Mas não garanto nada quando voltarmos. Isso depende muito das nossas atitudes.
— Tá me chamando de imaturo? — perguntou ele, unindo as sobrancelhas e seguindo seu olhar até mim.
— Talvez... Qual é , você tem 23 anos!
— E você 24, grande diferença, srta. Matura — ironizou, comendo uma pipoca.
— Tenho 26 — falei, fingindo-me de ofendida por ele não saber a minha idade e ele riu.
— Que seja! O que interessa é que mesmo com anos de diferença ou não, sou tão maduro quanto você. Maturo, inteligente, agradável e notável como pessoa.
— E eu sou animada, inteligente, bonita e maravilhosa.
— Animada demais da conta – virou os olhos e sorriu.
— Cala a boca. Você que é chato demais da conta — dei um tapa no seu braço bom.
— Sou mesmo, e admito. Gosto de ser chato, alguém sempre faz o papel de chato em um grupo de amigos, e esse sou eu. Você é a irritante. Hayley é a desastrada... E assim vai.
— Entendi. E todos juntos são o grupo completo. Gosto de ser a irritante.
— Viu? E eu gosto de ser o chato — ele disse, enfiando uma colher de sorvete na boca.
— Sim, entendi o seu ponto de vista.
Acabamos dormindo por ali mesmo, sem medo. Sem vergonha. Apenas duas pessoas se encaixando um no outro jogados no chão.


Dia 10


Acordei ouvindo o barulho de chaves. Abri os olhos e vi dormindo ao meu lado, desmaiado.
Estávamos na nossa cama, então acabei deduzindo que ele me trouxe no colo.
Levantei, e na ponta dos pés, fui até a porta, espiei lá embaixo e vi a cabecinha flamejante de Hayley e os cabelos de . Dei um grito correndo pelos degraus da escada. Pulei no pescoço dela, que deu aquela risada gostosa de sempre.
— Não sei se fico feliz ou com raiva, seus malditos! — exclamei, soltando-a para abraçar .
— Também estávamos com saudades — disse, com ironia demais na voz e dei um tapinha no seu ombro.
Ouvi passos lá em cima e virei meu corpo, conseguindo ver descer com o rosto completamente amassado.
— Vou matar vocês — o tom de voz dele era tão ameaçador quanto o meu, e nós três demos risadas enquanto ele abraçava Hayley, tirando-a do chão e apertando a mão de .
Seguimos para a cozinha, onde fez café e eu segui para a minha vitamina. Hayley e nos seguiam com os olhos, estranhando aquela paz toda.
— Então deu certo? — foi ela que cortou o silêncio, sorrindo de orelha a orelha. Eu não sabia o que dizer. Havia dado certo? Olhei para , pedindo ajuda e vi que ele me olhava do mesmo jeito “O que eu falo?”.
— Digam vocês. Deu certo?
— Precisamos de mais provas. Isso pode ser um complô contra nós — respondeu, rindo, passando o braço pelo ombro de Hay.
— Uma vingança? — perguntei, levantando as sobrancelhas, fingindo-me de espantada.
— Na verdade, nós tínhamos pensado nisso, mas vocês pegaram a gente de surpresa, pelas nossas contas vocês viriam amanhã! — disse, entregando uma caneca pra cada um, enquanto eu colocava as bananas no liquidificador.
Terminei minha vitamina e me juntei a eles na mesa. Hayley e insistiam em ficar um olhando pro outro com aquele sorrisinho sacana no rosto, enquanto eu e agíamos tranquilamente, assim como estávamos agindo há dias. Comecei a rir.
— Parem de ficar se olhando assim! Nós mudamos, é, parabéns. Agora parem! — falei rindo, e eles riram junto.
— É que é estranho! Estamos acostumados com os gritos e reclamações.
— E vão prender a gente mais dez dias pra voltarmos a ser como éramos? Não estão satisfeitos assim? — perguntou, sério.
— Shhh, besta — Hayley disse, levantando as mãos, como se dissesse “Viemos em paz”. — Estamos satisfeitos com o resultado, por enquanto. Foi uma brincadeira com um fundinho de verdade que deu certo.
Continuamos ali na mesa, conversando sobre como aquilo pareceu surreal, e que parecia que a qualquer momento iríamos acordar de um sonho confuso.
— Caralho! — exclamou e se levantou da mesa, correndo para fora de casa. Hayley levou as mãos à boca, provavelmente se lembrando do que havia se lembrado.
Uni as sobrancelhas, esticando o pescoço para ver voltando com nada mais nada menos do que Mr. Mulligan nos braços!
— Bebê! — exclamei, correndo até ele. Peguei-o no colo, cheirando-o e beijando. Seu ronronado era como música aos meus ouvidos. — Mamãe estava com tantas saudades! — falei pra ele, fazendo carinho atrás das suas orelhas e olhando seus olhinhos com as pupilas dilatadas. — Cuidaram de ti? Te deram comida? Te levaram pra tomar banho? Trocaram a areia da sua caixinha?
— Sim, sim, sim, sim, sim — ia respondendo as minhas perguntas, e eu comecei a rir, apertando o bicho no meu colo, como se não houvesse amanhã.
- Vocês querem ir pra casa ou preferem almoçar aqui? — Hay perguntou, passando a mão pelo bichano.
— Isso lá é pergunta que se faça Williams! — disse, subindo as escadas provavelmente indo juntar as suas coisas.
— É verdade Hay, isso foi maldade — eu disse subindo as escadas tranquilamente, com Mr. M no braço. O gato parecia realmente estar com saudades de mim. Geralmente quando o pegava no colo, ele tentava fugir dos meus amassos.
Depois de alguns minutos, estávamos os dois ao pé da escada, com as malas prontas e muitas lembranças para trás. O dia estava brilhante, o sol estava perfeito lá fora e uma brisa calma e quente aconchegava-se em nossos cabelos.
— Eu queria nadar mais uma vez, mas acho melhor ficar quieta antes que me soque — falei brincando, enquanto levava minha mala para o carro deles.
— Você nadou feito uma louca a semana inteira! Se for nadar mais uma vez vai começar a ter escamas.
— Como uma sereia? — perguntei, sorrindo e abrindo a porta do carro.
— Eu ia dizer piranha, mas acho que sereia entra mais no mundo encantado da , onde as fadas voam por canteiros de flores infinitas e duendes brincam de amarelinha junto dos ursos de pelúcia — disse forçando um sorriso e eu ri.
Hayley e se olharam estranho, entrando no carro e eu dei de ombros olhando como ficava lindo com aquele moletom do Red Hot Chili Peppers e os cabelos bagunçados.
Seguimos pelo meio do mato com o carro de por longas horas. No caminho, ele contou que a cabana era do seu avô, que o deu em um testamento quando ele soube que estava com câncer. A cabana era oficialmente dele e foi ideia da Hayley nos abandonar ali (houve uma pausa de uns cinco minutos de xingamentos) e ele concordou plenamente, pelo fato de se livrar de nós por dez dias e ainda tentar nos ajudar.
Contamos à eles sobre o ocorrido com (houve uma pausa de cinco minutos de “me desculpa”), contamos como eu tentei o ensinar a nadar, contamos sobre a outra cabana ali perto e de como aquelas músicas fritaram os nossos cérebros depois de tanto tempo sem ouvi-las (inventei que eu havia achado o pen drive pois estava fuçando tudo).
Chegamos à cidade em exatas duas horas.
— Onde vamos comer, crianças? — Hayley perguntou feliz, com os pés no painel. — Burger King.
— Subway — e eu falamos junto, demos uma risada juntos e nos olhamos de olhos arregalados, ainda rindo.
— Okay. E em qual dia vocês ficaram mesmo? — perguntou nos olhando pelo retrovisor. Aquele olhar cheio de segundas intenções;
— Vocês colocaram a gente lá, não me venha com essas conversinhas — eu disse cruzando os braços.
— Eu coloquei vocês lá, eu não disse que era para copular.
— Vocês colocaram o pen drive dentro do pacote de camisinhas! — disse alto.
— E vocês acharam! Meu deus, vocês transaram? — Hayley olhou para nós com a boca aberta e segurando um sorriso.
— Eu já disse que fui mexer nas coisas e acabei encontrando! — eu gritei desesperada. Mesmo que tivesse uma mentirinha ali, nós não havíamos realmente transado.
— Como vocês são safados — exclamou, estacionando o carro na frente do Burger King.
— Vocês falam como se não transassem — disse, rolando os olhos e abrindo a porta do carro.
! — exclamei. – Nós não transamos.
— Eu sei, mas eles estão dizendo que sim.
— Eu sei — eu disse saindo do carro também. e Hayley riam como duas crianças felizes. E eu fiquei de cara emburrada.
Eles fizeram seus pedidos, o Subway ficava do outro lado da rua, então me despedi deles e fui até lá. Nós geralmente fazíamos isso, eles comiam ali e eu fazia meu pedido no Subway e voltava ali para comer com eles.
O Subway estava vazio, como de costume, então escolhi meu sanduíche sem pressa: 15 centímetros, salame, queijo cheddar, adicional de cream cheese, tomate, alface, picles, pimentão, molho de mostarda e mel.
Pedi embalado para viagem e segui para a rua.
O que aconteceu ali foi extremamente rápido. Me distraí vendo Mr. Mulligan dentro do carro, dormindo no painel onde Hayley tinha os pés alguns minutos antes e ouvi um ciclista gritar comigo, já que eu estava no meio da ciclovia, por esse motivo dei um passo à frente e ouvi uma buzina.


Dia 10


Ouvi um barulho de pneu cantando e algumas pessoas murmurarem coisas. Olhei pela janela, percebendo algumas pessoas apreensivas no meio da rua, logo o cheiro de pneu queimado tomou conta do lugar.
Nós três nos entreolhamos e meu coração deu um pulo. Corri para fora da lanchonete.
Vi vários carros parados no meio do trânsito e segui para o amontoado de pessoas, meus olhos já começaram a marejar. Senti uma bola no meu pescoço, não consegui engolir o choro e nem respirar direito, minha visão já estava turva quando comecei a empurrar as pessoas para trás, tentando chegar ao meu destino.
estava no chão, uma das suas pernas estava com um grande corte vertical (ela estava de short), seu braço estava completamente torto e seu rosto, sua boca perfeita escorria sangue.
As lágrimas correram pelo meu rosto, aquela bola no meu pescoço subiu, deixando-me completamente sem ar. Me ajoelhei ao seu lado.
, por favor, fala comigo.
? — ela se engasgou com o próprio sangue.
— Eu estou aqui — falei, tirando um pouco de cabelo do seu rosto.
, canta... canta pra mim... , canta — ela disse, com lágrimas descendo pelos olhos. Hayley gritou, ajoelhando-se do outro lado dela, e segurando a mão do seu braço bom.
Eu não tinha condições de cantar, eu mal consegui vê-la por causa das lágrimas! Ouvi gritar “Alguém chame uma ambulância”.
Fechei os olhos, deixando as lágrimas correrem pelo meu rosto e suspirei fundo, tomando controle das minhas ações.
Seu rosto estava contorcido de dor, seus lábios estavam entreabertos e saía sangue do seu nariz também. Ver Hayley chorar me partia o coração, algumas pessoas olhavam para mim, outras até choravam comigo, todos me esperando cantar.
— Você consegue, . É seu maior sonho!
Ela suspirou, fechando os olhos e sua voz saiu fina e completamente sem força, mas consegui ouvir.
Oh, espelho no céu, o que é amor? Pode a criança no meu coração crescer mais ainda? Posso navegar através da transformação das ondas no oceano? Posso lidar com as estações da minha vida? — disse ela, praticamente sem o ritmo da música, mas eu reconheci a música. Nossa música. Suguei a saliva, não conseguindo respirar pelo nariz. — Bem, eu tive medo de mudar, porque construí minha vida ao seu redor. Mas o tempo traz coragem até mesmo crianças envelhecem, e eu envelheço também — cantei com a voz completamente afetada, junto com ela e mal consegui respirar direito. — Pegue esse amor e leve-o com você, se você subir uma montanha e voltar você verá meu reflexo nas colinas cobertas de neve. Bem, a avalanche o trará para baixo — minha voz acabou se transformando em um choro alto, bem ali, no meio da rua. A maioria das pessoas que estavam a nossa volta choravam. Aquele nó no meio da minha garganta não me deixava chorar em silêncio.
— Hayley — sua voz era mais baixa do que um sussurro, mesmo quebrada e completamente machucada, emanava luz. Era a pessoa mais perfeita que eu já havia conhecido. — Hay, eu te amo mais do que tudo.
— Eu também te amo, , você é a minha vida — Hay disse com a voz tão afetada que até se abaixou para passar a mão nos seus cabelos.
, cuida do Mister Mulligan — ela disse, com as lágrimas correndo dos olhos. — Cuida da Hayley e da banda, você é o único certo.
— Eu vou sim, — ele disse. Seus olhos viraram para mim, ela contorceu a boca em um sorriso.
— Somos tão opostos que um vive e um morre.
— Você não vai morrer, — falei sério, passando a mão pelo seu rosto e fechou os olhos. — , olha pra mim.
Ela tornou a abri-los, transbordando lágrimas, completamente vulnerável.
— Você me salvou, quando ninguém mais quis fazer isso — respirei fundo, preparando-me para falar algo que jamais falei a ninguém.
, eu estou apaixonado por você, acho que eu sempre estive. Por favor, não me deixe.
Aquelas palavras me arrebataram e a todos a nossa volta como um furacão.
Aquela mulher ali na minha frente era a pessoa que eu queria passar o resto da minha vida, e eu estava a perdendo. Eu não me importava que ela não sentisse o mesmo desde que permanecesse viva!
— Precisamos de uma ambulância! — alguém gritou.
, permaneça forte — ela me disse e fechou os olhos. Meu coração parou.
Ouvi o barulho da sirene da ambulância, mas parecia completamente distante. Eu simplesmente não conseguia associar as coisas. Senti Hayley me chamar, e puxar meu braço, mas não consegui acordar daquele sonho. já não estava mais no chão, e eu já não estava mais no meio da rua, mas eu não conseguia ligar os pontos e perceber que o tempo estava rodando normalmente enquanto eu estava em câmera lenta. Senti o olhar preocupado de Hayley em cima de mim várias vezes, mas não consegui olhá-la. Meu coração não batia mais. Meus olhos não piscavam. Meus pulmões queimavam.
Vi se aproximando de mim e dando um tchau na frente do meu rosto, acordei, mas não foi realmente efetivo.
, eu não sei como te dizer isso, mas ela não resistiu... As costelas perfuraram os pulmões.


Dia 01


Acordei sentindo meu coração dar pulos. Eu conhecia aquele quarto. Levantei do chão e tentei abrir a porta, estava trancada!
Dei um soco nela sem qualquer medo, sentindo minhas mãos suarem. Não consegui conter um sorriso. Fechei meus olhos suspirando calmamente, porém com angústia.
— Tem alguém aí? – gritei a todo pulmões, esperando que aquilo fosse a realidade. Eu precisava ouvi-la. Eu precisava da minha vida de volta.
? — ouvi a sua doce voz assustada no outro lado da porta e passei a mão pelos cabelos, completamente entorpecido por saber que ela estava ali comigo de volta.
Eu sabia exatamente como seria a minha semana. E sabia que no fim tudo daria certo.

I took my love and I took it down
I climbed a mountain and I turned around
And I saw my reflection in the snow-covered hills
And the landslide brought me down


Fim.



Nota da autora: Eu tinha esse final na minha cabeça desde que escrevi a primeira palavra. Sempre pensando “Ela morre”. Ok. Chorei escrevendo a sua morte. Levantei, respirei. Ela não podia simplesmente morrer, podia? Então na minha última fungada chorosa achei melhor escrever o “Capítulo 01” na versão dele.
Ainda não sei se ficou bom ou ruim... Mas eu não queria simplesmente matá-la. Não sou um John Green, e muito menos um George R. R. Martin. Não sei matar personagens e eternizá-los. Então fica aqui os meus sinceros: Muito obrigada! Muito obrigada por ler, por gostar, por ter paciência, e por acompanhar. <3
Obs: Leiam minha nova fic restrita “Beaver” (Andamento).



comments powered by Disqus




Qualquer erro nessa atualização e reclamações somente no e-mail.
Para saber quando essa fic vai atualizar, acompanhe aqui.



TODOS OS DIREITOS RESERVADOS AO SITE FANFIC OBSESSION.