Quebrando a porra do protocolo

Última atualização: 21/02/2018

Capítulo 1

PARTE I


Dinheiro não é exatamente o que importa para os homens da família real. Afinal, o William se casou com uma plebeia, não foi? Aliás, ótima escolha a dele! O pai... Bem, o pai fez a burrada de trocar a linda da Lady Di por uma mulher aí que eu nem faço questão de saber quem é, e o Harry... Ah, o Harry... Esse é mais rodado que a roda do meu carro. Como eu sei de tudo isso? Tirando o fato que eu leio os jornais, digamos que a história toda começou quando eu morava em Eton, uma pequena cidade no interior da Inglaterra.
William e Harry estudaram na Universidade de Eton. A única coisa de importante nessa “cidade” é essa tal escola e a ponte. A ponte liga Eton até Windsor, e Windsor é onde fica o castelo de fim de semana/verão da Beth. Só pra quem pode...
Pra começar, a escola era grande, os uniformes eram maravilhosos e ao lado da capelinha tinha um cemitério, o que deixava o prédio deslumbrante, fazendo qualquer pessoa se admirar com a estrutura. Outra coisa que me admirava naquela escola eram os preços. Coisas astronômicas... Não é a toa que muitos príncipes estudaram lá.
Mas você deve estar se perguntando também por que eu estou falando de tudo isso, não é mesmo? Pois vou te contar minha história que não tem nada demais.
Meu nome é Brooke Glover e eu sou ruiva. Eu e minha família temos um negócio. A única padaria na principal rua de Eton nos pertence. Não dá pra tirar um grande dinheiro com isso, mas pelo menos nunca passamos necessidades.
Desde muito pequena eu tinha que ajudar meus pais na organização e vendas. Sou acostumada a atender pessoas, não tenho dificuldade em entender o inglês péssimo que os estrangeiros falam, faço bolos e cookies muito gostosos, e o principal: eu fechava a padaria todas as noites. Meu pai e minha mãe tinham um trato comigo. Eles ficavam no comércio de manhã e de tarde, porque eu estava na escola, e a noite, eu assumia as rédeas.
O bom de trabalhar à noite em Eton é que, como a população é mais velha, eles se acomodam em suas casas bem cedo, então o trabalho a noite não era tão puxado quanto nos outros horários. Por isso eu sempre podia deixar o rádio tocando os CDs que eu queria, e quando aparecia um cliente, ele comprava um cookie ou um pedaço de cheesecake e logo ia embora. E essa era minha rotina diária.
Eu estudava em uma escola particular de Windsor, que é a cidade vizinha. Então todos os dias acordava às sete da manhã, me arrumava e ia a pé para a escola. Antes passava na padaria dos meus pais, tomava um café da manhã e seguia reto na rua. Com dez minutos de caminhada eu estava na ponte. Com cem passos eu já estava do outro lado, em Windsor e aí eram mais dez minutos de caminhada até a escola.
E por volta das quatro da tarde eu voltava pra casa, trocava de roupa, fazia minhas tarefas e as seis em ponto eu estava na padaria. Ouvia as mesmas recordações todos os dias do meu pai.
— Brooke, toma cuidado, não deixa a vitrine aberta, cuidado com o dinheiro, qualquer coisa liga pra gente.
Mas claro que nada nunca aconteceu e eu nunca tive que ligar pra eles. Aquela cidade era tão parada e, pra falar a verdade, não tinha necessidade de ficar trabalhando depois das seis. Quase ninguém ia lá depois desse horário. Mas como dizem... Manda quem pode, obedece quem tem juízo. Eu tinha juízo, e muito.
Só que, com os anos, coisas aconteceram e eu mudei. Eu me lembro como se fosse dias atrás. Eu estava nos últimos anos da escola, com meus 17 anos e torcendo para passar em alguma faculdade em Londres só pra poder sair daquela cidade minúscula. Por isso mesmo levava meus cadernos para a padaria, e, como ainda era um lugar tranquilo, eu podia passar a noite estudando. Com certeza aquilo teria alguma valia nas minhas provas para entrar na faculdade de Londres.
Eu estava estudando literatura, me lembro muito bem, faltava pouco pras 10 horas e eu não via a hora de fechar a padaria quando um cliente chegou. Sozinho, quieto, e olhando para trás freneticamente, como se estivesse fugindo. E eu juro que quase caí da cadeira quando vi que o cliente era o príncipe Harry. Quem espera o príncipe Harry na sua padaria, quase dez horas da noite, naquele dia frio de inverno? Eu nunca esperaria por isso.
Mas assim que ele abriu a boca pra me dar um oi e fazer o pedido, eu já senti que aquilo daria em merda. Tudo aquilo que o The Sun publicava sobre ele ser garanhão, não prestar, matar aulas do colégio de Eton para farrear e ser uma cópia fiel do seu pai, era a mais pura verdade. Hoje vejo o quão esperto ele foi...
Um graduando em Eton que fugia da escola todas as noites para aprontar com uma bobinha de 17 anos que queria morar em Londres... Tão simples pra ele, tão mágico pra mim.
Naquela noite ele pediu cookies. Depois reapareceu duas semanas depois e pediu torta de morango e uma conversa comigo. Depois ele aparecia constantemente, pedia um doce, uma conversa e uma cantada. E ao fim de um mês, eu já sabia algumas coisas sobre ele, e ele já sabia de tudo da minha vida. Afinal, o que eu tinha pra contar, não é mesmo?
Ele com todo aquele charme e eu, encantada por ter o príncipe de Gales na minha padaria, me tornei uma isca fácil demais para ele. Não demorou muito até que ele me usasse e “tirasse minha pureza”. Adeus virgindade! E eu posso dizer que me senti nas nuvens. Mas o inferno é logo embaixo.
Depois da noite que passamos na padaria, depois de eu fechar as portas, é claro, príncipe Harry nunca mais deu as caras. E como eu era ingênua, me deprimi muito. Não queria mais ir trabalhar, minhas notas na escola estavam caindo e caindo e meus pais não me reconheciam.
Foram longas semanas de tristeza, até que resolvi parar de frescura e voltar a dar importância à minha vida escolar e ajudar meus pais nos negócios. No primeiro dia eu ainda ficava olhando a porta de cinco em cinco minutos esperando aquele ser da família real entrar. Mas é claro que isso não aconteceu. Foi só uma semana e meia mais tarde. Eu estava quase cochilando quando a porta se abriu e ele entrou. Minha primeira reação foi não ter reação alguma. Minha segunda reação foi pensar em como matá-lo com os utensílios da cozinha, que ficava logo atrás de mim, depois esconder o corpo e não deixar a família real e muito menos a Scotland Yard1 descobrir onde o corpo estava enterrado. A terceira reação foi perguntar, nada educadamente, o que ele queria. E por ultimo, chorar.
Foi um dos maiores vexames da minha vida. Chorar na frente do príncipe de Gales, aquele cachorro... E o meu ódio só aumentou naquele dia quando ele olhou pra mim e deu uma risadinha fofa, calando meu choro com um beijo. Foi o pior dia da minha vida, definitivamente. Ele me levou no papo e me convenceu de que os trabalhos de fim de ano estavam acabando com ele, e ele estava sem tempo. Pobre de mim que caí na lábia dele mais uma vez...
Tudo voltou ao normal, tudo mesmo. Ele voltou a me usar, voltou a não aparecer nos dias seguintes, mas o principal: ele me ensinou a ser tão cachorra quanto ele. E é por isso que eu sou o que sou hoje em dia.

1.Scotland Yard: Nome que se dá a polícia de Londres.


Capítulo 2

Eu consegui uma vaga na faculdade de Londres no dia que Harry se formou em Eton com a nota escrota de, nada mais, nada menos, que um D em Geografia... É isso que da perder as noites preciosas, que serviriam para estudo, com uma atendente de padaria. Um dia eu ia jogar isso naquela cara linda dele.
Meus pais não me ajudaram com a mudança para Londres porque no fim de semana que me mudei a rainha estava em Windsor. Isso significava que a cidade estava fervendo de turistas, portanto não tinha nem como fechar a padaria, afinal eles precisavam trabalhar pra me bancar na capital pelo menos até eu arrumar um emprego. Por isso mesmo eu fui de ônibus e sozinha, com minhas duas malas gigantes. Assim que cheguei a Londres, fui até o Underground e peguei o metrô que estava anotado no papel.
Demorou quase uma eternidade até eu chegar à residência estudantil e me acomodar no meu quarto. Como era uma escola bem tradicional, os alunos moravam na residência da faculdade mesmo. E isso facilitaria muito as coisas pra mim, pois como tinha conseguido estudar lá com um grande desconto, meu quarto não tinha saído tão caro assim. E ele até que era bem ajeitadinho... Em um dia eu já estava acomodada, tudo do jeito que eu queria, bem no meu estilo.
O primeiro dia de aula foi um pouco aterrorizador. Havia muitos estrangeiros falando idiomas que eu não conhecia e, além de tudo, eu consegui me perder naquele prédio milenar... Mas só me perdi porque me atrasei. Preciso contar que o uniforme especial pro primeiro dia de aula da faculdade era tão ridículo que eu fiquei meia hora tentando descobrir exatamente qual era o lado daquela beca, e depois, como o College Hall ficava na Central London2, eu quase perdi o ônibus que me levaria até o prédio da faculdade.
A primeira aula foi bem tranquila, até... Me lembro bem. Todos quietos, ninguém falava com ninguém porque ainda não nos conhecíamos. A professora, Zoey, era um pouco chata, mas ensinava muito bem e era isso que realmente importava. Mal sabia eu que eu seria o principal alvo de zoações daquela professora por conta do meu “affair” com o príncipe de Gales...
Quando voltei à residência, no fim daquele primeiro dia de aula e vi que o quarto era de fato meu, é que caiu a ficha de que agora era eu e eu nessa cidade enorme e que quase nunca para. Eu teria que me virar para lavar as roupas, eu teria que me virar para arrumar meu almoço, eu teria que trabalhar... E não era emprego na padaria da família, onde a vida era uma moleza de ficar sentada esperando o príncipe dar uns pegas em você. Era um trabalho de verdade, um trabalho corrido e que tivesse alguma coisa em comum com o meu curso escolhido na faculdade.
E foi logo no primeiro dia que eu arreguei e comecei a me desesperar naquele quarto. Como eu ia aguentar ficar tanto tempo longe da minha pacata Eton se eu estava em Londres há menos de uma semana e já não estava dando conta? E para resolver o problema, eu fiz o que vinha fazendo há alguns meses...
— Harry, você pode falar agora?
— Hm... Só um minuto, já te ligo senhor Brandon.
E sempre quando Harry me chamava de Brandon era porque ele estava no meio de alguma confusão ou alguma reunião importante e, o mais provável e comum, tomando uma bronca da vovó Beth por ser tão irresponsável. Beth está idosa, mas ainda sabe dar broncas.
Geralmente Harry demorava no máximo quinze minutos para me ligar de volta, mas naquele dia ele demorou mais de meia hora e eu já estava preocupada com a demora e meu estado de arrego estava piorando. E ouvir o celular tocando com o nome “Devil of Wales3 no visor me animava muito.
— Tava com minha avó.
— Imaginei.
— Você não está bem... Quer que eu vá aí?
— Não estou mais em Eton.
— Eu sei. Eu sou o príncipe de Gales, eu sei de tudo. Você está no College Hall, não é?
— É.
— Daqui a pouco a gente se encontra.
Como ele tinha todos os carros do mundo a sua disposição, ele nunca demorava. E a primeira vez que ele apareceu na residência foi inesquecível. Ele fez o maior esforço para não ser notado, para passar despercebido pela imprensa, o que não deu tão certo assim. Eu digo, minha vizinha de quarto viu o príncipe entrando no meu quarto, e depois daquele dia, Harry teve que suborna-la com dinheiro toda vez que aparecia lá. Odeio aquela indiana.
Naquele primeiro dia de aula, Harry tinha me servido pra muita coisa. Ele pode ser um cachorro, mas sabe ser muito atencioso quando as mulheres do harém dele estão precisando. A conversa que tivemos no meu quarto foi um alívio para mim. Ele havia me contado como fora pra ele morar sozinho em Eton e, ironizando, fez um draminha pela faculdade ser só de meninos.
— Você não sabe o quão difícil é para um homem ficar sem... Você me entende...
Como resposta, eu lhe sorri. E depois dei um soquinho no braço dele, dizendo que ele tinha me transformado em uma ogra. Ele realmente tinha passado apuros em Eton. Deve ser difícil morar sozinho e não ser mimado quando se é um dos meninos dos olhos do Reino Unido. E se ele que é mimado conseguiu sobreviver a uma faculdade sem os pais, porque eu não conseguiria? E eu nem era mimada! Eu trabalhava, passava mais tempo sozinha do que com minha família e sempre fui muito independente. Com isso eu parei de frescuras e encarei minha nova realidade de cabeça erguida. Obvio que às vezes eu tinha algumas recaídas, mas o demônio de Gales estava sempre lá pra me auxiliar.
Em suma, Harry era um grande amigo. Um grande amigo com benefícios, se você me entende. Eu podia contar com ele e, apesar de tudo que o The Sun falava, ele era uma boa pessoa. Aprendi isso com os meses de encontros secretos, com os sumiços que sempre rolavam no dia seguinte, com os bolos que sempre recebia por causa de compromissos reais... Eu mudei completamente com a chegada do Harry. Tanto que hoje em dia eu aprendi a me valorizar e me amar, acima de tudo.

2.Central London: Nome do bairro central de Londres.
3.Devil of Wales: Diabo de Gales, paródia nada inteligente, feita por mim, para Príncipe de Gales.


Capítulo 3

A primeira semana de provas na faculdade foi a personalização do inferno no planeta Terra. Eu sei que eu tinha decidido estudar Francês na faculdade, mas nossa... Na escola esse idioma não era tão complicado quanto agora. Eram tantos artigos, tantas formas de formar o plural, tantos verbos irregulares, tantos tempos verbais... Eu ficava louca! Meu quarto estava “decorado” com folhas de sulfite brancas com escritos coloridos de coisas que eu não poderia esquecer quando se fala Francês. Eu tinha etiquetado todas as coisas do meu cômodo, como “fenêtre” para janela, “parapluie” para guarda chuva e tudo mais que se pode imaginar.
O tempo verbal que cairia na prova era o Passé Composé. Vou te explicar o que é. É um tempo no qual se usa o verbo ser ou ter para indicar passado. Não é uma coisa de louco? A frase está escrito, literalmente “Eu sou fui ao cinema”, mas eu tenho que ler “Eu fui ao cinema”. Se deve estar confuso pra você, imagina pra mim que tinha que decorar a forma irregular de todos os verbos.
E a terrível primeira semana de provas foi o período mais longo que eu fiquei sem ver o príncipe. Ele me ligava todas as madrugadas, porque era o horário que ele tinha disponível para falar comigo, e eu que sofria com essas ligações. Eu repetia muitas vezes que não poderia continuar a conversa, mas mimado como Harry era, ele não me deixava dormir. E o resultado dessa palhaçada foi a primeira nota ruim na minha vida escolar. E a primeira briga entre mim e Harry. Eu não ia deixar isso passar, de jeito nenhum.
Sabe quando você ignora profundamente uma pessoa? Mas muito mesmo, pra ver se ela se toca de que fez coisa errada? Pois foi exatamente isso que eu fiz com o príncipe. Exatamente isso. Não atendia as ligações, não respondia os e-mails, nem os SMS, e nem nada. Isso durou duas semanas, e garanto que foram as piores duas semanas de Harry. Eu sei disso porque eu era a única menina que estava com o príncipe há tanto tempo. As outras ele abandonava porque eram muito pegajosas. Mas como eu era mais do que uma simples menina - eu estava no seleto grupo de bons amigos do príncipe de Gales -, ele sofria com a minha ausência. E eu me aproveitava.
Mas hoje reconheço que essa ignorada que dei em Harry foi o começo do fim do meu sossego.
Como ele era muito impaciente, decidiu vir até o College Hall me fazer uma visita e me pedir desculpas. Teria sido legal, se ele não tivesse sido perseguido por paparazzis. Desde a saída do Palácio de Buckingham até a entrada do meu prédio. Mas é claro que ele não viu. Hoje em dia, esses fotógrafos são bem cuidadosos e você só descobre que foi flagrado quando se vê na capa do jornal do dia seguinte. E foi isso que aconteceu.
Assim que eu botei o pé no colégio, aquela minha professora estranha do primeiro dia de aula, a Zoey, segurava o The Sun na mão, com o príncipe Harry na capa. Ela apontou aquilo para a sala de aula e disse que estava lisonjeada por ter alunos que recebiam a visita do príncipe de Gales, mas que aquilo não era apropriado para uma residência estudantil e blábláblá. Ela deu o maior sermão nos alunos que moravam naquele prédio comigo, e a minha sorte foi que, dessa vez, eu me safei. O paparazzi não tinha me fotografado com Harry, somente ele no meu prédio. E isso já foi o suficiente para me aterrorizar.
“Eu tenho que tomar providencia” foi a única coisa que eu pensei naquele dia de aula, até chegar a minha casa de noite. Já tomada banho, alimentada e razoavelmente de humor controlado, eu peguei meu celular e esperei por uma ligação que eu tinha certeza que ia receber. Ele iria me ligar rindo, dizendo “Nossa, essa foi por pouco heim, Brandon”. Ele adora usar esse nome comigo quando quer me irritar também. Eu odeio o nome Brandon e justamente esse era o meu codinome. Irônico, não?
Como esperado, um pouco antes deu resolver fechar meu livro Le Petit Nicolas, do Sempé, meu celular tocou. Três toques exatos até eu ler no visor que uma longa conversa estava por vir. Atender aquele celular tentando manter minha voz serena foi difícil. Na verdade eu queria gritar com ele para ele ter mais cuidado, que essas irresponsabilidades não fodiam só com a vida dele, mas com a vida de estudantes novatas e ingênuas do interior também. Só que antes deu começar o meu discurso, ele já emendou a frase de chacota.
- Wow, quase fomos pegos ontem, Brandon...
- É mesmo, Harriet?
Eu não estava nem um pouco na vibe de ficar fazendo gracinhas com ele pelo celular, então já o chamava de Harriet logo, porque essa era minha maneira de apelar para Harry parar com as graças e ir direto ao ponto. Ele odeia que seja chamado de Harriet. Mas nem por isso eu deixo de chama-lo assim. É sempre útil quando ele me liga no momento que estou em publico. Para todos os efeitos, na minha sala da faculdade, Harriet é minha prima de Eton.
É claro que ele não ficou nem um pouco preocupado com a aparição na página inicial dos jornais britânicos, só tinha me ligado pra saber se eu vi. Eu lhe contei o episódio que aconteceu na minha sala, e ele riu. Perguntei se a Elizabeth tinha dado outra bronca nele, e ele respondeu que sim, e que ele teria que maneirar com as festas e tudo mais. Ele estava um pouco – bem pouco – preocupado com a intimação da avó dele... Ou ele realmente diminuía as farras, ou consequências piores poderiam acontecer.
- Já já eles esquecem essa minha visita aí. Pode ter certeza.
- É, eles podem esquecer. Mas eu tenho uma vizinha de quarto indiana que já me olhou torto umas três vezes hoje...
- Você está me saindo muito cara, viu?
- Só cobrando os cookies e bolos que você comeu de graça antigamente.
- Brooke, você não presta mesmo!


Capítulo 4

Teria sido um dia normal de aula se meu professor de Literatura não tivesse formado grupos para fazer pesquisas sobre Baudelaire. Eu pedi para Dean fazer o trabalho comigo e ele aceitou. Dean era um menino legal, de Londres mesmo. Estudava Francês e não era gay. Era uma gracinha até.
Passamos aquela tarde inteira na Biblioteca fazendo algumas considerações relevantes sobre vida e obra do autor. Tivemos também que analisar um poema e até que tudo foi bem fácil e divertido. No final, nós resolvemos dar uma passada em alguma cafeteria, um presente de nós para nós, depois do dia inteiro de pesquisas. A gente merecia um descanso.
Só que descanso não era exatamente o que eu teria... Depois de alguns dias, eu e Dean estávamos nos dando muito bem. E estávamos “juntos”.
Era uma noite agradável em Londres, um friozinho e nós estávamos no meu quarto estudando para uma pequena prova que teria no dia seguinte. Eu jogada na poltrona da escrivaninha e Dean deitado de bruços nos pés da cama, segurando um livro e fazendo um teste comigo. Ele perguntava e eu tinha que responder.
Mas foi aí que, inesperadamente, eu ouvi os gritos da indiana no corredor de casa e já imaginei a merda que estava por vir. Assim que nós dois, quase que em sincronia, levantamos a cabeça e olhamos para a porta, a mesma se abriu e a cara de Dean foi impagável ao ver Harry entrando no meu quarto. Eu só fiz uma cara de desanimo, porque sabia que boa coisa não estava por vir.
- Então era você, Brooke! – Dean disse olhando de mim para Harry
Eu tinha a leve impressão de que sabia do que ele estava falando... Harry sair nos jornais por estar aqui, no College Hall. Quer dizer, agora Dean sabia quem Harry vinha visitar.
- Quem é esse aí?
Foi o que o príncipe, com toda sua educação, perguntou primeiro antes mesmo de nos dar um oi. Se bem que naquela hora não cabia ois.
Até eu explicar para Dean que Harry era meu amigo e explicar para Harry que Dean e eu estávamos juntos, demorou bastante tempo. Acho que o Harry percebeu minha confusão, e disse que só tinha ido me informar que sábado ia ter um evento para ir. Eu traduzi “evento” como party hard, mas não precisei verbalizar isso.
A verdade é que Harry e eu não temos nada, só uns pegas de vez em quando. Mas essa situação estranha nunca tinha acontecido antes. E eu me senti mal, porque me senti suja. Sei lá porque, se o Harry tinha mais de milhares de mulheres pra ele e eu nunca tinha me sentindo parte dessa sujeira toda. Mas dessa vez foi diferente. A cachorrona estava sendo eu.
E assim que Dean foi embora, porque já estávamos cansados demais de estudar, eu coloquei meu pijama e deitei na cama. Não sabia se esperava pela ligação ou se fazia a ligação. Resolvi ligar.
Harry demorou muito pra atender, e quando o fez, estava meio bravo, porque não se lembrou de me chamar de Brandon. Foi seco com um “Que foi Brooke?”.
- O que foi isso hoje?
- Eu é que pergunto, Glover – me chamou pelo sobrenome, a coisa tá feia.
- Ué. Eu estava quieta na minha casa e você apareceu do nada.
Eu pensei que ele tinha desligado na minha cara, mas ele só tinha se calado por uns minutos. Quero dizer, ele ficou quase cinco minutos sem falar, e eu o ouvindo respirar. Pensei em xingá-lo, mas me contive. Talvez ele precisasse organizar as ideias.
- Me desculpe, eu... Não esperava encontrar outra pessoa no seu quarto. Eu nem devia ter ficado bravo, vocês estavam só estudando... Quer dizer, vocês estão juntos, mas você não é minha propriedade. Nem eu sou sua propriedade. Desculpe-me, Brooke.
Quando se é da realeza, a educação está no sangue – mesmo que não seja vinte e quatro horas por dia. E pelo menos, os membros da família real tinham a decência de assumir quando estavam errados.
Resolvi explicar para Harry – mas só por desencargo de consciência – como eu e Dean nos conhecemos e como tudo começou. Ele entendeu perfeitamente, e disse que diminuiria o numero de visitas à residência. Agora tínhamos estabelecido que éramos só amigos. Enquanto eu estivesse com Dean, o príncipe de Gales era meu amigo da elite, e só. E pra ser sincera, eu até me assustei quando Harry nos convidou para ir àquele “evento” que ele havia mencionado no quarto.
- Espero vocês lá, Brandon.
- Mil beijinhos, Harriet!
Mesmo que as coisas entre mim e Harry estivessem certas, eu queria me explicar com Dean. E foi exatamente isso que eu fiz no dia seguinte, no horário de almoço. Expliquei que eu e Harry nos conhecíamos há bastante tempo, que éramos amigos e nada mais. Sim, eu omiti a parte dos pegas de vez em quando e de como exatamente nos tornamos amigos, porque considero isso pessoal demais. Ninguém precisa saber dos meus segredos.
Ele levou até que numa boa. Disse que ficava muito orgulhoso por “ter uma menina” que era importante lá na casa real e importante para o príncipe Harry. Eu não o interrompi pra dizer que, na verdade, nunca tinha pisado na casa real e que ninguém lá, além do Harry, sabia da minha existência... Mas me senti tão importante quando ele disse aquilo, que eu só concordei e sorri. Porque de certa forma ele estava certo, eu era importante pro Príncipe de Gales.


Capítulo 5

Uma das coisas que eu mais odeio em Harry é a facilidade que ele tem em estragar tudo, se meter onde não foi chamado, dar uma opinião que não foi pedida e fazer alguma coisa que não foi solicitada. Ele pensa que o mundo gira ao redor daquele umbigo dele. Mas não é assim! Ele não é a única pessoa que importa na minha vida, apesar de ser a mais importante. Se ele não tivesse dado uma de louco, provavelmente eu não estaria onde estou hoje. Eu estaria com Dean. Mas Harry tinha que fazer valer o seu desejo. Às vezes eu queria tanto que Elizabeth desse uma surra naquele moleque... Mas uma surra bem dada mesmo. Uma surra que, na verdade, só eu saberia dar, tamanha era minha raiva.
Ele era o Príncipe de Gales. GALES! Por que diabos ele queria mandar na minha vida, se nem de Gales eu era? E nem que fosse! Às vezes eu não entendia o que se passava na cabeça de Harry e dava graças a Zeus por William ser o sucessor da Beth e por ser o primeiro ministro quem realmente manda. Se dependesse de Harry ele faria a Inglaterra voltar a perseguir puritanos só pra ver sangue rolando. Não duvido nada.
Tudo começou, ou melhor, tudo acabou, quando eu estava no meu quarto com Dean conversando sobre como o ano estava passando rápido. Pedi licença para ir até o banheiro e quando eu voltei, a merda estava toda feita. Harry estava no meu quarto discutindo com Dean e eu sabia que boa coisa não sairia de lá. Eu não pude ouvir muito da conversa, porque assim que Dean me viu, seus olhos faiscaram e ele saiu do meu quarto batendo a porta com muita raiva. Eu só tive tempo de dar um empurrão em Harry e dizer algo como “seu idiota” antes de sair correndo atrás do cara que costumava ser meu namorado por quatro meses.
No fim do corredor trombei com Amit, aquela minha maldita vizinha indiana. Ela me olhou e depois olhou para a porta do meu quarto, dando um escândalo em seguida. Ela estava reclamando porque Harry estava lá e ela poderia contar para a nossa professora Zoey ou até mesmo para o reitor da faculdade que o “príncipe anda lhe fazendo visitinhas mais uma vez”. Eu ignorei aquele pedaço de gente na minha frente e tentei passar, mas ela não deixava. Ficamos nesse impasse até eu perceber que já tinha perdido tempo demais e que Dean, provavelmente, já estaria na estação de metrô, quiçá dentro do próprio trem.
— Menina, você tem merda nessa sua cabeça? – foi o que eu perguntei, dando um empurrão nela, que bateu as costas na parede e sorriu vitoriosa para mim.
Aquela cena teria sido cômica se não fosse tão trágica. Eu desesperada para alcançar Dean e ela desesperada para ganhar o dinheiro de Harry. Só que o que fazia tudo mais engraçado era o significado do nome dela, que eu só fui descobrir anos mais tarde. Amit, na Índia, significa sem limites. E ela realmente não tinha limite algum!
Quando me tranquei no quarto, sentei na cama me preparando psicologicamente para a discussão que estava por vir entre mim e Harry. Ele entrou depois te der “conversado” com Amit e trancou a porta. Sentou-se ao meu lado em silencio. Eu só sentia ele se mover com os fortes suspiros que dava. Fechei meus olhos, morrendo de raiva, antes de tomar coragem e perguntar, definitivamente:
— Qual é o seu grande problema, Henry Charles Albert David?
— Prefiro até que me chame de Harriet do que Henry, por favor, Brooke.
— Responda minha pergunta.
— Vou ficar um tempo fora. Estou indo para a Austrália trabalhar em umas coisas. Provavelmente isso vai levar um ano ou até mais.
Além de ele desconversar, apareceu com essa notícia terrível.
Lembro que, internamente, eu me apavorei. Era muito tempo longe de Harry. Não que eu não fosse sobreviver, mas ele era o cara que tinha estado comigo sempre que eu precisei desde bastante tempo. Mas é claro que eu não podia deixar de manter a postura de mulher brava para desmoronar em lágrimas porque não o veria por doze meses.
— Ótimo! Você vai se divertir com australianas e eu vou me divertir com o Dean... Não, espera. O Dean acabou de sair daqui e provavelmente não vai querer me ver pintada de ouro porque um membro da família real disse alguma bosta pra ele. Nossa, demais. O próximo ano vai ser uma coisa de louco. Mal posso esperar – disse com uma voz monótona, o que o deixou mais assustado.
— Eu não gosto dele, Glover!
— Desculpa, mas não é você quem tem que gostar dele.
— Como não?
— Olha Harry, eu espero do fundo do meu coração que a Austrália te faça bem e que você volte completamente renovado.
Ele me olhou e se levantou, pronto para ir embora. Eu queria chutá-lo de lá para ficar a sós e chorar eternamente por ficar um ano longe do cara que mais causa loucuras na minha vida, porém o cara que eu gosto. Só que ele fez aquela cara de arrependido e eu tive que desviar o olhar para não ceder tão fácil.
— Você vai ficar um ano sem me ver, Brooke. Tem certeza que não vai se despedir de mim e ainda por cima ficar de briga? Quando eu já estiver lá, não tem como voltar atrás. Eu não quero ficar um ano longe de você remoendo uma raiva por termos começado um assunto e não terminado.
E essa era a outra coisa que eu mais odiava em Harry. Eu odiava o fato de que ele conseguia me persuadir tão fácil. Geralmente eu era persuasiva com as pessoas, mas quando estava na frente de Harry, passava de mestre para mera aprendiz. E isso me irritava de uma forma tão banalmente grande que eu tinha vontade de chorar. E foi o que eu fiz. Eu chorei de raiva e depois chorei por que perderia aquele cara por um ano.
Então Harry me abraçou forte e eu o senti soluçar algumas vezes. Ora, ora, ora, o segundo grande cachorro da família real tem sentimentos!
Nós conversamos civilizadamente depois, ele me explicou o motivo da briga – que foi tão idiota que eu prefiro nem comentar – e depois me deu um beijo... Fazia tanto tempo que eu não beijava o Harry, e foi tão bom quando aconteceu. E como eu bem conhecia aquele cara, ele ia tentar algo mais íntimo. Mas acho que ele sabia que eu não ia conseguir fazer aquilo. Eu tinha acabado de perder meu namorado!
Ele se contentou com mais um beijo e um abraço forte, que deixou a camisa dele bem molhada de lágrimas, e depois ele se despediu.
— Te vejo daqui doze meses?
— Com certeza!


Capítulo 6

Já tinham se passado seis meses. Eu já tinha passado as férias da faculdade em Eton com minha família, ficando em tempo integral na padaria, porque só assim poderíamos passar bastante tempo juntos. Já tinha voltado para minha rotina deprimente de estudante de Francês, já tinha voltado a ver Dean todos os dias na minha sala sem, finalmente, sentir remorso ou vontade de dar um abraço nele. Enfim, tudo já estava se normalizando.
O que não se normalizava era minha saudade de Harry e minha necessidade de tê-lo na minha frente a qualquer momento. Tudo bem que ele me ligava todos os dias que possíveis, que eu sempre via notícias dele na televisão e na internet. Tudo bem que nesse estado de carência até desabafei com Amit sobre a saudade que eu sentia dele, mas me arrependi logo em seguida, sabendo que ela poderia cobrar dele assim que Harry pisasse no corredor do College Hall.
Sem distrações da realeza durante as aulas, meu rendimento escolar tinha melhorado muito e eu fecharia o ano com uma nota muito boa. Zoey tinha até me prometido uma vaga de estagiaria em uma empresa renomada de Londres e eu fiquei muito animada. É sempre bom ser independente financeiramente dos pais. E eu ainda não era. E essa era outra coisa que não estava normalizada em mim. Eu não conseguia conviver bem comigo mesma sabendo que ainda dependia dos meus pais para comprar um pacote de Cookies no Tesco4 ou na Sainsbury’s4. Não me sentia bem sabendo que se não fosse por eles, eu não teria casa.
Na verdade eu teria casa sim. Harry já tinha falado que poderia arrumar um lugar pra eu ficar, então eu poderia pegar o dinheiro do aluguel do quarto para gastar em outras coisas. Eu quase aceitei, mas como explicaria para meus pais que o príncipe de Gales tinha me dado uma casa? Como explicar minha relação com ele? E o pior, como contar que tudo começou nas noites em que eu ficava sozinha na padaria? Não tinha como.
E o pior é que o tempo tinha passado tão depressa que eu nem conseguia pensar direito se ia ter condições de conciliar faculdade com trabalho. Quando eu me dei conta, já estava saindo do ultimo dia de aula da faculdade antes da semana de pausa para o Natal e fim de ano. Ficaria três semanas em Eton... Não ia ser bom. Três semanas sem ter assuntos escolares para ocupar minha mente. Três semanas de mente vazia e ociosa que, com certeza, se voltariam para uma pessoa só. Era inevitável. O bom é que trabalhar na padaria com meus pais sempre me fazia recordar dos bons tempos lá.
Justamente no dia que eu tive que reassumir o posto da noite sozinha, meu celular tocou indicando que o demônio de Gales estava me ligando. Eu fiquei tão feliz... Não sei por quê. Talvez por conta da alegria natalina que tinha se espalhado pela cidadezinha e suas ruas cobertas de neve, e todos aqueles turistas vestidos elegantemente, e as crianças que pediam coisas para o Papai Noel etc etc etc.
— Brandon! – foi como ele iniciou a conversa.
Eu duvidava que ele não pudesse falar naquele momento. Ele só estava me chamando de Brandon para irritar mesmo. Afinal, a última ligação que eu tinha recebido dele fora há exatos oito dias. Era mais de uma semana sem ter notícias daquele desmiolado.
— Eu estou na padaria... Sozinha, como nos velhos tempos. Meus pais não puderam ficar aqui hoje. Foram “aproveitar a noite”.
Ele deu aquela risada bonita que eu gosto e disse pra eu aproveitar a noite também. Eu sorri porque era exatamente isso que eu pretendia fazer na semana seguinte, quando retornasse a Londres.
— Só espero que não aproveite a noite com nenhum cliente da padaria, porque aí só eu posso.
Ficamos conversando mais banalidades quando eu disse que li em algum tabloide fofoqueiro sobre ele estar de casinho com uma australiana surfista. Ele não negou, disse que às vezes eles se viam, mas não era sempre.
— O sotaque dela me irrita, na verdade.
Eu disse que ele poderia ter inventado um desculpa melhor e ele gargalhou falando que não era uma desculpa. Ele realmente não suportava o sotaque australiano da moça, chamada Chelsy, porém gostava de outras coisas dela que nem é preciso mencionar.
— O trabalho aqui nem está sendo tão difícil, o mais difícil é ser perseguido por todos os jornalistas dessa ilhota maldita.
— Harry querido, se a Austrália é uma “ilhota maldita”, isso faz da Inglaterra o que?
— Isso faz do Reino Unido um arquipélago extraordinário!
Como ele era idiota, meu Zeus.
Foi impossível não rir com a piadinha mal feita daquele ser. Não ficamos mais muito tempo no telefone, porque logo um cliente chegou e eu tive que atendê-lo. Porém tinha sido bom saber notícias sobre aquele humano. É sempre bom saber coisas dele. Desliguei o celular com um “Feliz Natal, Harriet!”.

4.Tesco e Sainsbury’s: Hipermercados populares da Inglaterra.


Capítulo 7

Eu já tinha fechado as notas da Faculdade há um bom tempo. Isso significava que eu não estava mais indo às aulas e que minhas férias de Verão tinham vindo antecipadamente. Mas eu não estava radiante por estar de férias, porque, de fato, eu não estava.
Professora Zoey tinha conseguido aquela vaga no estágio para mim. E sim, eu teria que trabalhar nas férias. O que foi bom, porque pelo menos eu não ficaria atolada de coisas; seria só o trabalho. E tem coisa melhor do que receber salário nos dois meses de férias de Verão? Não, não tinha.
E essa sou eu, começando mais uma vez um parágrafo sobre meu primeiro dia. Mas esse primeiro dia foi no trabalho.
Não era muito difícil. Eu atendia telefonemas das empresas da França, países da África e Canadá e passava algumas informações. Eu também digitava documentos, corrigia textos entre outras coisas. É... Eu era uma secretária, pode-se dizer assim. Mas pelo menos eu ia ser independente financeiramente dos papais por três meses! E isso merecia uma comemoração.
Na sexta feira combinei de ir a um Pub com a Amit para comemorar, depois de um mês árduo de trabalho, o meu primeiro salário. Sim, eu tinha voltado ao ponto inicial de carência de quando Harry tinha acabado de sair da Inglaterra. Só que apesar de todas as coisas, Amit era uma pessoa legal. Legal e mercenária até por demais. Acho que ela queria ser minha colega para jogar na cara do Harry tudo que eu fazia e cobrar dele depois. Mas eu nem quis pensar nisso naquele momento. Até porque Amit tinha convidado uns amigos dela: duas russas, um russo e um alemão.
Depois de conviver com estrangeiros vocês aprende certas coisas sobre a cultura deles, como, por exemplo, saber que noventa e seis por cento das russas se chamam Anastásia. Mas não Anastásia do desenho da Disney. Anastásia, a filha desaparecida do Czar que encheu de esperança o coração de vários russos até hoje por acreditarem que talvez ainda pudesse existir algum descendente da família real de Nicolau. Outra coisa, ainda sobre os russos, é que provavelmente os milhões de Anastásias se casarão com um dos milhões Alexeys que existem. Se Anastásia é a moda pra mulher, Alexey é a moda para homens.
E sobre os Alemães:como são metidos... Mas aquele até que era legal. Seu nome era Phillip e ele nem era tão chato.
O Pub que decidimos ir ficava no Soho, aquele bairro que eu amo em Londres, cheio de Punks, sexshops, coisas relacionadas a sexo e pessoas alternativas. O nome do local eu nem me lembro mais, só sei que foi uma das noites mais divertidas da minha vida.
Escolhemos uma mesa para ficar, e, quando se senta ao lado de russos e germânicos, é impossível não beber tanto quanto eles. O problema é que eles não ficam bêbados, e já quem não é acostumado, vê tudo turvo no quinto copo de vodca misturada com outras coisas que faziam a bebida brilhar em várias cores. E, claro, tudo regado a muita cerveja, pra não desmerecer Phillip.
Engraçado era ver Amit já falando seu idioma materno de tão alterada que ela estava. Eu ria muito daquela cena e as Anastásias, o Alexey e Phillip riam tanto quanto eu, incentivando ainda mais a minha pobre nem-tão-pobre-assim vizinha de quarto. Teve até um momento que ela me puxou para a pista de dança para dançarmos um Rock que estava tocando lá. Sim! A Amit estava dançando, e eu também estava. Nós estávamos dançando juntas! Que mundo louco...
O pessoal da mesa resolveu se juntar a gente, e ficamos no meio daqueles punks dançando igual a loucos. Mas, de repente, uma movimentação se deu na porta de entrada do Pub e aquele local pareceu pequeno demais pra mim por causa do excesso de gente. Era um tumulto, uma gritaria e flashes. Muitos flashes! Anastásia morena correu até lá pra saber o que estava acontecendo e, quando voltou, seus olhos estavam brilhantes e arregalados.
— É o príncipe! O príncipe!
A primeira coisa que Anastásia loira disse foi “William, seu lindo!” e Alexey, juntamente com Phillip, disse “Será que a Kate também veio?”. Apenas eu e Amit tínhamos sacado a gravidade do problema, pois nossa troca de olhares falou tudo. O príncipe, com certeza, não era William, Duque de Cambridge. Era o príncipe de Gales. Era Harry.
Eu dei de ombros e ela, mesmo meio bêbada, entendeu, então nós voltamos a dançar. Anastásia loira trouxe mais dois copos de vodca pra mim e Amit, enquanto os outros vinham atrás com as mãos cheias de bebidas para eles. Bebemos mais um pouco e começamos a fazer a dança mais escrota do mundo. Só que mais escroto ainda foi quando eu percebi que Harry sabia que eu estava lá, e veio correndo na minha direção. Eu não sabia se ele também cheirava a álcool ou se era meu próprio cheiro que eu estava sentindo. O que interessa foi que ele me abraçou, sem nem mesmo dizer oi, e me deu um beijo, daqueles bem escandalosos, no meio do Pub. O pessoal que veio comigo ficou sem entender, mas desistiram de raciocinar os fatos assim que Amit saiu de perto de nós para dançar em outro lugar, puxando os outros quatro bêbados juntos. Talvez aquela indiana maldita não fosse tão maldita assim.
— Você não sabe a saudades que eu tava de você, Glover!
E então ele me puxou pra parede mais próxima do Pub e o nosso pega foi forte. Foi muito forte. Extremamente forte e, se não fosse meu bom senso que ainda existia, nós teríamos transado ali mesmo. Afastar Harry de mim pra tentar dizer que estávamos em um local publico foi bem difícil e ele se irritou, me puxando pela mão e me levando pra fora do local.
Depois disso eu me senti uma estrela de cinema, porque a quantidade de flashes que atingiram meu rosto assim que pisei na calçada foi enorme. Dava até pra imaginar a manchete do The Sun na manhã seguinte: “O príncipe da putaria achou uma princesa a seu nível”. Não, é obvio que não iriam publicar isso, mas foi assim que eu me senti quando Harry me empurrou para o banco de trás do carro e começou a me agarrar ali mesmo, antes até do motorista dar partida e levar a gente pra onde quer que fosse, me fazendo ter a melhor noite da minha vida, até então.


Capítulo 8

A minha vida tinha virado um inferno depois que eu encontrei Harry no Pub. Fotos de nós dois saindo de lá, andando até o carro, e nos pegando dentro do veículo: tudo isso, em sequencia, logo abaixo de uma foto enorme de mim e Harry agarrados na parede do Pub, com letras enormes da manchete que dizia “Bem-vindo de volta, príncipe Harry!”. Isso estampava a página inicial do The Sun.
Meu celular nunca tinha tocado tanto quanto naquela semana. Meus pais estavam inconformados comigo, alguns colegas de sala me ligavam para me zoar ou até mesmo dizer como eu era sortuda. Mas o pior telefonema que eu recebi foi da minha empresa, pedindo para eu comparecer mais cedo naquele dia.
Eu me vesti adequadamente para o trabalho, porque, apesar de tudo, era um dia normal. Mas tudo foi por água a baixo quando meu superior disse que eu não poderia mais trabalhar na empresa por conta do acontecido com o Príncipe Harry. Segundo ele, depois de uma breve conversa na sala nos chefes, todos chegaram à conclusão que eu estava denegrindo a imagem da empresa. Mundo machista!
Eu resolvi voltar para Eton e ficar longe de toda aquela confusão, pelo menos até as aulas voltarem, mas a única coisa que aconteceu, quando eu cheguei a minha casa, foi um sermão do meu pai, lágrimas da minha mãe por eu “não ter me dado o valor” e uma ordem explícita de volta imediata para Londres, pois eu decepcionava demais minha família. Eu me senti um lixo. Mas não me deixei abalar, afinal, não era como se eu estivesse grávida do príncipe, muito menos dado o golpe do baú nele. Foi só uma noite. Na verdade aquela era uma das noites que eu já tinha passado com ele, mas isso meus pais e nem ninguém precisava saber.
Na semana seguinte ao acontecido, eu tinha me trancado no quarto e só saia de lá para ir ao restaurante que tinha na esquina para poder fazer minhas refeições. Quanto menos eu aparecesse, melhor. Tudo bem que não era como se os paparazzis fossem me perseguir, porque se fossem atrás de todas as meninas de Harry, todas as garotas da Inglaterra seriam famosas.
Porém chegou uma hora que tive que ir ao Tesco comprar algumas besteiras para comer, e quanto mais me aproximava da residência, mais reconhecia aquele carro preto, aquele segurança grande e aquele cara branco de cabelos claros, fumando um cigarro e conversando com alguém ao celular. Assim que ele me viu, largou o cigarro no chão e desligou imediatamente o aparelho. Veio andando até mim, diminuindo a distancia grande entre nós e parou na minha frente, tirando a sacola de meus braços e a colocando no chão, para segurar minhas mãos.
— Eu fiquei sabendo do que aconteceu na sua casa. Me desculpe.
Eu nem fiz questão de saber como ele tinha descoberto a briga na minha casa, e eu nem tinha o culpado por tudo isso. Nós dois estávamos bêbados, nós dois fomos irresponsáveis e nós dois merecíamos aquilo. Eu só sorri e o puxei para entrarmos em casa, e assim que fechei a porta, pude ouvir pela janela o grande segurança de Harry conversando em voz alta com uns paparazzis que tinham surgido ali. Ou nós tínhamos sido fotografados mais uma vez, ou seríamos fotografados mais tarde.
Nossa conversa foi explicativa. Pelo menos da minha parte. Eu lhe contei tudo que meus pais disseram, e fiquei muito feliz por não ter derrubado nenhuma lágrima, pois eu sabia que não tinha culpa alguma. Quando eu disse que Harry tinha me transformado em uma ogra, era exatamente a isso que eu me referia. Eu não importava mais com os outros, só comigo. Nem mesmo meus pais. Mas eu não ficava magoada, eu até gostava. Uma hora a gente sempre se separa dos pais, e eu sabia que a hora deu correr atrás das minhas coisas e começar minha vida estava perto.
Ele me contou que tomou uma bronca colossal da família real – incluindo o William e o Charles – e contou mais algumas coisas que fez naquela semana e que faria mais para frente. Perguntou se eu precisava de alguma coisa e eu disse que não, o meu salário ainda dava pra pelo menos mais um mês. E aí isso me preocupou.
— Como assim você foi despedida do seu estágio só por causa disso?
Ele ficou indignado quando lhe contei que me mandaram embora por conta da nossa comemoração na sexta à noite. Mas indignação era pouco. Ele ficou furioso e me prometeu um emprego bem melhor, porque “como você não aceita minha ajuda, eu te ofereço o emprego. Aí é dever seu se manter lá”. Eu não poderia recusar, e nem tinha graça. Meu estado era crítico e rejeitar ajuda estava fora de cogitação. No próximo dia mesmo ele me ligaria dando uma resposta e, provavelmente, um endereço para eu ir.
Depois que ele foi embora e eu resolvi entrar na internet, vi o que menos gostaria de ter visto. Eu e o Harry conversando na calçada, de mãozinhas dadas. E eu nem nunca tinha xingado Deus, ou seja lá quem for, pra merecer as coisas que estavam acontecendo. Ou eu tomava vergonha na cara, ou eu continuaria me fodendo à custa do Harry.
Mas o pior de tudo era o título da notícia. Sites, jornais e revistas sempre têm seus títulos apelativos. “Príncipe Harry vê a mesma garota em menos de uma semana: um começo ou um final?” Eu nem cliquei para ler a matéria, apenas ignorei e voltei a procurar no Google por alguma coisa que eu não sabia o que era.


O que eu gostava em Harry é que ele sempre cumpria o que prometia, e no outro dia eu tinha acabado de arrumar um emprego novo, não muito melhor que o anterior, pois eu continuava sendo uma secretária, mas meu tratamento era especial porque eu fui “indicada pelo príncipe Harry”. Talvez eu não estivesse em um caminho tão errado.
Depois de chegar a minha casa, saltitando de alegria, e fazer um rápido lanche da mesa do computador mesmo, eu fui para a janela observar o movimento da rua e pensar como seria trabalhar e estudar, porque daqui dois meses eu seria oficialmente uma estudante do segundo ano do curso de Francês. E o segundo ano não é nada fácil, ainda mais trabalhando junto.
Enquanto pensava em como falar para meus pais que eu não precisaria mais da ajuda deles, alguma coisa chamou minha atenção para a calçada, e eu constatei que era um paparazzo com sua câmera apontada para mim. Logo depois o famoso carro virou a rua e eu fiquei ali, parada, admirando ele sair do automóvel, tentando não mostrar o rosto completamente para o homem com a máquina. Depois de alguns minutos ele estava no meu quarto, muito nervoso por conta de alguma coisa que uma garota havia feito pra ele. Nós ficamos lá, conversando, nos beijando e aguardando pela próxima noticia no jornal.
Já estava tudo uma merda mesmo, o que me restava era esperar.


Capítulo 9

Minha mãe tinha me ligado pra se desculpar por causa de todo o rolo que tinha acontecido um tempo atrás. Ela disse que isso não era pra tanta briga, que nem era uma coisa tão banal e me pediu desculpas. Meu pai ainda estava um pouco bravo, mas, mesmo assim, se desculpou. Disse que quando quisesse, eu poderia ir para Eton e visitá-los mais uma vez. E eu, finalmente, tinha tudo sob controle agora.
Nada mais de briga com meus pais, os paparazzi tinham me esquecido, embora sempre surgisse uma notícia quando me pegavam com Harry. Eu tinha contado exatamente quantas vezes tinha aparecido num jornal com o príncipe. Cinco. Cinco vezes. Em três delas eu era a capa: o dia no Pub, Harry segurando minhas mãos na calçada do College Hall e Harry entrando na residência enquanto eu o olhava pela janela. As outras duas vezes foram irrelevantes.
Não era como se eu fosse uma pessoa famosa, porque se Harry morresse, isso nunca de capa de jornal mais aconteceria. Mas ainda assim era chato, pois é como se quanto mais eu me esforçasse pra esconder isso, mais os paparazzi vinham atrás de nós. E foi bem aí que eu decidi ficar um tempo sem ver Harry.
Eu fiquei concentrada no meu novo estágio e concentrada em ir adiantando todas as leituras pendentes da faculdade. Nos fins de semana, eu ia trabalhar na padaria dos meus pais e, com isso, ganhava um dinheirinho a mais. Eles não pararam de pagar a residência, nem a faculdade. Nem pararam de me mandar dinheiro para comida e outras coisas. Eles sabiam que eu estava trabalhando e podia me bancar sozinha agora, mas disseram para eu guardar meu dinheiro em uma poupança que, por enquanto, eles ainda davam conta das coisas. Tentei fazer com que deixassem essa ideia de lado, mas o máximo que consegui foi fazer com que eles me mandassem uma quantia menor, e o restante eu completava com meu salário.
Nesse meio tempo que fiquei sem ver Harry, pedi para ele não me ligar mais. Expliquei que era só para esperar o fogo abaixar, que eu não queria mais confusões pro meu lado. E bem, comigo deu certo. Mas com o príncipe, nem tanto... Ele continuava saindo nos jornais por conta de muitos “eventos” que ele sempre frequentava, e ainda teve uma vez que ele saiu na capa, beijando o pescoço de uma mulher, enquanto segurava os seios dela com as mãos. Eu lia todos esses jornais e noticias dele enquanto estava na padaria. Sempre dava risada e minha mãe ria também perguntando “como você conseguiu se meter com gente desse tipo?”. Eu não tinha contado ainda o começo da nossa história, portanto, ela pensava que só nos conhecemos assim que cheguei a Londres, em uma festa. O que não deixa de ser verdade, porque fui a inúmeras festas com ele assim que cheguei à cidade nova.
Assim que fechei a padaria, às dez horas em ponto, segui para minha casa e o que eu mais queria era dormir. Aquele dia tinha sido bastante movimentado. A rainha estava no castelo, junto com toda a família e isso incluía Harry. Quando me tranquei no quarto e vi o celular apitando em cima da cama, olhei no visor constatando quinze mensagens e vinte chamadas perdidas. A maioria das mensagens e chamadas era de Harry, mas as outras eram de Amit. E é claro que eu liguei pra indiana primeiro, porque ela nunca me ligava, e quando o fazia, era porque a coisa devia ser séria.
Quando atendeu, começou a gritar comigo pensando que eu estava morta, e eu tive que explicar bem devagar que tinha ido cuidar da padaria e tinha esquecido o celular em casa. Ela se acalmou e eu perguntei o que ela queria comigo.
— Ah, nada. É só que o Harry veio aqui perguntar de você. Depois voltou pra Windsor e continuou me ligando pra saber de você. Aí eu entrei em choque e resolvi tentar ajudá-lo a te localizar
A que ponto chegamos... Amit e Harry JUNTOS tentando me encontrar. A vida era uma merda mesmo. Tão merda que eu desliguei o celular na cara da Amit no momento em que minha mãe deu um grito e começou a bater na porta do meu quarto freneticamente, enquanto eu ouvia meu pai soltar uns “meu deus do céu”. Corri até a sala e vi os dois sorrindo, abrindo a porta para ele. É. Para o príncipe. E eu não acreditei quando ouvi minha mãe dizendo que “se você... Quer dizer, se vossa majestade, não... É. Se quiser, pode ir pro quarto dela para conversarem melhor!”. Harry riu e veio até mim, me dando uma leve cutucada pra eu parar de olhar com aquela careta pros meus pais e o levar até o quarto.
— Eu estou fodido!
Foi a primeira coisa que ouvi quando fechei a porta. Virei pra ele, encostada a porta ainda, enquanto o via andar de lá pra cá e, finalmente, se sentar na minha cama olhando para mim. Eu mexi a cabeça indicando que ele poderia continuar.
— A semana tem sete dias. Eu saí nove vezes no jornal. NOVE! Eu sabia que tinha exagerado nas festas e tudo mais. Eu sabia que não podia ir a mais nenhum evento, mas mesmo assim eu fui. Eu fui e me fodi. Caralho, eu nunca fiz tanta merda na minha vida.
Eu continuei olhando boquiaberta pra ele, porque nunca o vi tão nervoso assim antes. Parece que a bronca que eu tanto quis que a Beth desse nele, dessa vez veio. E veio bem forte!
— Tá olhando o que Brooke? Você ainda não entendeu? Eu tô fodido. Completamente, literalmente fodido.
“Tá, e você quer que eu faça o que?” foi a única coisa que eu nunca deveria ter perguntando praquele ser, que então se encontrava na minha frente, me olhando fixamente nos olhos.
— A gente vai fingir que namora.
E se eu achava que minha vida já estava uma bagunça, mal sabia eu que aquilo era só uma prévia.




Capítulo 10

Depois da volta às aulas do meu segundo ano de faculdade, eu só fui ver a professora Zoey numa quarta feira, pois teríamos todas as quatro aulas com ela. E é claro que ela não me poupou de perguntas sobre por que fui despedida do estágio que ela tinha conseguido. Eu expliquei que fora por causa daquela confusão toda com o Harry e então os olhos dela brilharam. Ela me mandou sentar e mostrou seu lado mais extrovertido fazendo milhões de piadinhas por “termos um quase-membro da família real na sala”. E o pior é que ela tinha um The Sun na mão, mostrando uma foto nossa de mãos dadas, sentados em um banco assistindo a um show de uma banda.
A minha rotina era faculdade, trabalho e fazer um social à noite com Harry para sairmos nos jornais e todos pensarem que ele estava namorando e, finalmente, estava na linha. Eu era chamada de miracle girl porque nunca mais viram Harry indo a nenhuma party hard ou orgias naquele mês.
Só que o que ninguém sabia era que o príncipe de Gales continuava sim indo a festas. Mas me levava junto e, lá dentro, sem paparazzi – porque ele tinha contratado dois seguranças só pra inspecionar o local atrás de pessoas com câmeras fotográficas –, me abandonava e entrava com, geralmente, uma loira bem peituda dentro de um quarto. Eu ficava lá, jogada as moscas tentando encontrar um garoto pra mim também. Nem sempre achava. Nunca tinha visto festas com tantas mulheres quanto as festas que Harry ia.
E mesmo indo a todas essas festas para acompanha-lo e me divertir também – nem que fosse com o barman -, eu tinha conseguido uma vaga fixa na empresa e uma mudança de cargo. Eu tinha subido! Eu era a algo como “chefe do primeiro andar”, porque no primeiro andar é que ficavam as secretárias. Ou seja, minha vida até que estava boa...
Muito provavelmente já fazia mais de três meses que eu e Harry estávamos fingindo o namoro. E teve uma época que eu até pensei que o negócio estava ficando sério por parte dele, porque quando íamos às festas, ele não se trancava num cômodo com uma loira peituda. Ele se trancava comigo! E nos fins de semana que eu passava na casa dos meus pais, ele aparecia em Eton, mesmo se a rainha e a família real não estivessem em Windsor. Minha mãe e meu pai ficavam felizes com as idas de Harry até nossa casinha e nossos vizinhos ficavam loucos. Às vezes quando a noticia vazava, eles até fechavam o quarteirão...
Eu não era muito fã daquela onda de popularidade. Eles eram invasivos demais e às vezes o The Sun soltava umas notícias muito sem sentido que eu nem conseguia imaginar como tinham chegado a tal profecia... Claro que tudo isso tinha seu lado bom, mas chegou um dia que Harry não fez as coisas muito bem feitas e foi flagrado beijando uma garota.
Eu tinha achado normal, até então. Porque eu sempre sabia que ele pegava outras garotas, inclusive eu o via fazendo isso. E ele também me via com outros caras. Só que os tabloides fofoqueiros não viram de uma maneira tão irrelevante assim igual eu vi. Eles fizeram o maior escândalo e começaram a me culpar por causa da escapada do Harry! De novo, mundo machista!
Foi óbvio que eu nunca senti tanta raiva assim de um jornal quanto naquele dia, e, não sei por que, sem pensar duas vezes, eu fechei a porta da minha sala do serviço e peguei o celular ligando para Harry.
— Que merda é essa, Henry?
Ele se assustou. Ainda não tinha lido a notícia e não sabia que fora flagrado. O que aconteceu a seguir foi uma longa discussão e uma bronca da parte dele! Veja só se pode! Ele disse que eu estava confundindo nosso namoro de aparências com um namoro de verdade. E aquilo me deixou tão mais irritada que eu disse que eu nunca tinha pedido pra ele ir me visitar em Eton e nem trocar loiras peitudas por mim. Ele ficou quieto e essa foi a brecha pra eu emendar logo que não estava brava por ter sido “traída”, mas sim por ter levado a culpa.
Aproveitei pra pedir mais atenção da parte dele, que, agora, as merdas que ele fazia inconsequentemente não atingiam só a ele, atingiam a mim também e acho que ele também ficou irritado, porque ele desligou na minha cara! Ele nunca tinha feito isso antes, e foi como se minha raiva quadriplicasse de tamanho.
O pior de tudo foi que ele não me ligou depois. Ele não fez nada pra demonstrar que estava mal pelo que tinha feito. Ele nem sequer me mandou uma mensagem falando, pelo menos, um “vai se foder”. Era como se ele estivesse me ignorando profundamente agora. Como se o que eu tivesse falado ou o tivesse atingido ou ele só estivesse ignorando e continuado com a vida pacata de orgias e putarias.
Eu sabia que a situação não se estenderia por muito mais tempo. Ele ainda precisava da namorada para poder aparecer nos tabloides como “o príncipe que encontrou seu caminho” ou “o novo herdeiro-orgulho da família real”. Ele ainda precisava da miracle girl pra fazê-lo estar sempre na linha. Ele ainda precisava de mim pra isso, não é?
Não. Não é. Ele não precisava.
E qual não foi minha surpresa quando Amit apareceu na biblioteca, na hora do intervalo, com uma folha na mão me mostrando uma impressão de uma página da internet que anunciava o fim do meu namoro com Harry. E eles não estavam inventando. Harry realmente tinha dito a frase, porque ela estava entre aspas. Ele tinha dito, em um evento no Hyde Park, que “eu estou cem por cento e oficialmente solteiro”.
A confirmação do que estava em minha mente veio logo quando eu recebi um SMS dele, bem simples, escrito “melhor não nos vermos mais”. Eu achava que estava imaginando demais naquela época, mas hoje eu tenho certeza do porque disso tudo.
Harry, o príncipe de Gales, estava me evitando e dando um fim naquela situação toda porque ele estava começando a ter sentimentos de verdade por mim. E como não queria perder a fama de garanhão, fez tudo o que fez e acabou por evitar contato, pois só assim conseguiria fugir do que ele estava sentindo.
Só que nem ele, nem eu sabíamos que todo esse afastamento não serviria pra nada e que, no futuro, as coisas seriam bem piores.





Continua...



Nota da autora: Oi gente! Espero que estejam gostando da história porque olha só, a primeira parte chegou ao fim! AEEEE Hahaha Agora vem a parte II, mais próxima dos nossos dias. Essa parte I se passou entre 2000 e 2004 e a parte II se passa entre 2011 e 2015 e são altas emoções! Nós vemos na próxima att e, por favor, comentem pra eu saber que não estou sozinha nessa jornada! Qualquer coisa estou no Twitter como @_mesaventures Até a próxima!!





Outras Fanfics:
Garotos não choram — primeira fic no site
My Psycho Killer Girl — segunda fic no site
Em Fogo — terceira fic no site
Uma Estória da Realeza — quarta fic no site (essa é Restrita)
Controlla — quinta fic no site (essa é Restrita)
14. Been You — sexta fic no site (Ficstape Purpose – Justin Bieber)
18. All in it — sétima fic no site (Ficstape Purpose – Justin Bieber)
01. Victorious - nona fic no site
Caminha comigo – décima fic no site (entra nos próximos dias)
04. Be The One – décima primeira fic no site (entra nos próximos meses)
02. All We Ever Do Is Say Goodbye – décima segunda fic no site (entra nos próximos meses)


Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail. Para saber quando a fic vai atualizar, acompanhe aqui.


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