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Quem matou Sofia?


Última atualização: 09/06/2017

Prólogo


Em um prédio escuro
No meio de uma cidade caótica
Jazia uma menina morta
De corpo e alma.

Muitas pessoas se perguntaram por que Sofia Spilman se matou. Mas a resposta, muitas vezes, não era agradável.
Alguns diziam que fora um coração partido, outros, que a menina estava bêbada e, alguns, arriscavam proferir que ela tinha sido assassinada. O caso, porém, nunca foi resolvido. A única resposta viável era a que todas as 12 garrafas de bebida alcoólicas vazias diziam: uma grande depressão a matou. A janela foi só uma desculpa. Sofia estava morta há muito tempo, presa dentro de seu próprio corpo, abandonada pelo amor de sua vida e por sua família. A única coisa que ela tinha era a pequena faca prateada que, hora ou outra, resolvia enfiar nos pulsos pálidos, mesmo que nunca tivesse conseguido a coragem necessária para aprofundar o corte.
Sofia era problemática, tinha 18 anos e cabelos laranja como o amanhecer. Seu sorriso era colossal, como uma brisa de verão, e seus olhos de um verde profundo. Tinha um corpo esbelto, repleto de curvas certas e perfeitamente modeladas, e a voz calma como uma música de Jazz. O tipo de garota que ninguém nunca suspeitaria que existisse, dentro daquele exemplo de beleza, uma guerra tão feia como a que se passava em sua cabeça.
Sofia era aquele velho clichê; escondendo emoções, sendo a vítima solitária. Ela era a única que se importava realmente com as pessoas, que se esforçava para ajudar e mantinha um sorriso esplendido no rosto, mesmo que, no final, ela sempre voltasse sozinha para casa. Ela amarrava os próprios cabelos e tirava o próprio lixo; ela sempre se deitava sozinha, à noite, em sua própria cama gelada.
Era sempre solitária.
Solitária como em sua morte. O corpo, escancarado contra o asfalto e coberto por um plástico negro, tinha uma multidão aglomerada ao seu redor, e apesar das faixas policiais amarelas que a rodeavam, Sofia continuava sozinha, no centro, afogada em seu próprio sangue.
"Sofia Spilman morreu", era o que todos diziam. Mas, provavelmente, a frase certa seria "Sofia Spilman parou de respirar". Pois era o que tinha acontecido.
abriu caminho por entre os curiosos, e a baderna era tanta que ele não se surpreendeu ao encontrar senhoras ainda vestindo hobbies e camisolas. Era aquela famosa cena de vizinhos fuxiqueiros que realmente não se importavam, mas queriam saber do ocorrido, e aquilo o fazia querer voltar para casa e se trancar no quarto.
Mas, bem... Talvez nem mesmo ele se importasse.
jogou o cigarro meio aceso no asfalto e o amassou com a sola de seu sapato. A noite era fria, agitada e sufocante, fazendo todas as luzes e sirenes das viaturas parecerem tapas contra o seu rosto.
Não era segredo algum que o policial, , era um bêbado. Na verdade, todos sabiam daquilo, até mesmo quem não era da polícia. Mas ele não se importava. Enquanto tivesse um emprego que o pagasse suficientemente bem para sustentar o seu vício e deixá-lo se divertir em clubes de strip aos sábados à noite, estava tudo certo.
Ver pessoas mortas e tentar achar os culpados pelos assassinatos não era o que ele queria fazer desde pequeno, mas, apesar do trabalho não ser dos melhores, o homem até que gostava. Quando criança, sempre pensou que acabaria sendo um piloto de corrida ou um Power Ranger. Talvez, agora, fosse um pouco dos dois.
- O que temos aqui? - Perguntou ao rapaz de uniforme azul parado do lado de fora da faixa.
Dali, ele podia ver a pequena mão da garota, esquecida no asfalto. Ninguém se lembrara de cobri-la, pois, aparentemente, a única coisa que se importava em esconder era a cabeça estourada pelo impacto.
- Possível suicídio. Mulher, dezoito anos, branca, ruiva e solteira.
, já sem paciência, arrancou a prancheta da mão do rapaz e passou pela faixa.
Não era aquilo o que ele queria saber. Ele não estava interessado no estado civil da garota, ou se ela era branca ou não. Seu interesse era em sua morte. Posição do corpo, horários, pessoas... Coisas relevantes.
Aproximou-se do corpo, ignorando o seu nome sendo chamado pelo chefe, e abaixou ao lado da poça de sangue que varria o asfalto. Seu sobretudo teve a ponta manchada de vermelho e o cheiro do corpo da garota incomodou as suas narinas, mas ele não se moveu. Apenas puxou o saco negro que cobria o corpo morto e prendeu a respiração quando o rosto pálido apareceu em seu campo de visão. As pessoas que circulavam a fita amarela emitiram sons de espanto, nojo e reprovação pela cena que viram.
se esqueceu delas e continuou observando-a. Seus olhos estavam abertos, vermelhos de sangue, e seu crânio devastadoramente amassado pela queda. Vinte e três andares era uma longa distância para uma garota de porte físico tão frágil, e aquilo quase a deixou irreconhecível. Teriam de fechar o caixão no velório, ele pensou.
- , o que está fazendo?
O policial levantou o rosto para , seu chefe, que corria em sua direção.
- Estou olhando. - respondeu.
respirou fundo, sem paciência para naquela noite.
- A mãe da garota está bem ali. - disse , olhando para uma mulher atrás da faixa amarela, amparada por um homem mais velho. - Você pode ver o corpo no necrotério.
logo entendeu que, provavelmente, ver a filha com o crânio esmagado não era muito agradável, mas não pôde deixar de contestar.
- Então a tire daqui. Preciso fazer o meu trabalho.
bufou, impaciente, e voltou para a ponta da faixa amarela. observou enquanto ele dizia algo para os policiais e sorriu quando viu o homem se movimentando, mandando todos os cidadãos parados nas extremidades das faixas irem para suas devidas casas. , então, deixou o restante da organização para os outros policiais e foi conversar com a mãe de Sofia, que nunca parava de chorar, e a mulher logo foi posta dentro de uma ambulância.
- Espero que valha a pena. - comentou , já de volta ao lado de . - Aquela mulher te odeia.
- É, eu sei. Denegri a imagem de sua filha morta. Mas veja só a ironia: as fotos dela estarão na internet amanhã pela manhã e isso não fará mais diferença.
já estava impaciente. Amava o seu trabalho, mas ter que lidar com todos os dramas que a morte causava na raça humana era odioso. Gostava de ir atrás, de procurar, de descobrir... Mas o luto e a perda sempre pareciam acompanhar as características de sua profissão, e aquilo era desmotivador. Ali mesmo, por exemplo, ele já tinha encontrado algo relevante, mas teve de passar pelo drama de uma mãe em prantos para poder, finalmente, abordar o descoberto.
- São duas pancadas. - disse, casualmente, fazendo aguçar a atenção. - Em pontos diferentes da cabeça. Se você olhar bem, pode ver.
apontou para uma parte ainda sangrenta do crânio de Sofia. Ali, o vermelho chamativo era dominante, mas ainda pode ver do que o outro policial falava. Ele se abaixou ao lado de para enxergar melhor, tirando suas próprias conclusões.
- Merda - pestanejou.
riu ao seu lado, comovido pelo fato de que era suficientemente ingênuo para achar que aquele caso seria um simples suicídio.
- Ela foi assassinada. - confirmou , só para ver o outro suspirar. - É melhor abrir um novo caso, amigo. - olhou para , decidido. - Temos que achar quem matou Sofia.

Capítulo 1


, apesar de geralmente ser um homem paciente, sentia o sangue ferver dentro das próprias veias. Ele simplesmente não entendia como alguém podia ganhar a vida importunando os outros. Não entendia como algumas pessoas podiam ser tão frias, sem demonstrar empatia pelo próximo.
Até ele, que era policial e, teoricamente, deveria ser imparcial a certas situações, sentia a cabeça doer ao observar a multidão de repórteres que cercava a família Spilman perto da cena do crime.
Aquele, percebeu, devia ser o preço a se pagar por ter nascido em um berço de ouro. Bernardo, Constance e Marie Spilman eram os membros oficiais da segunda família mais poderosa de toda a Londres — perdendo, claro, para a família real.
Sem exageros, eles começaram como donos de uma pequena imobiliária e acabaram se tornando proprietários dos maiores prédios, edifícios e estabelecimentos da região. Praticamente todos os lotes eram deles. As mais antigas casas de família, passadas de geração em geração, foram vendidas aos Spilman por valores absurdos, mas eles conseguiram a dominação quase absoluta da maioria dos bairros. E então, tornaram-se poderosos. O que significava que eles não tinham paz.
, propriamente dito, nunca teve a oportunidade de conhecer os Spilman. O que ele não lamentava, avaliando bem o perfil da família. Sempre ouvira falar que tão grande quanto o seu poder, era a arrogância que reinava nas personalidades de cada um dos cinco — agora quatro — integrantes.
Eram acostumados a ter tudo o que queriam e, por causa daquilo, — a não ser que você fosse membro do Parlamento ou algo tipo — não se esforçavam em parecer simpáticos. Não precisavam, na verdade. Eram praticamente donos de Londres.
Mesmo um tanto afastado, viu o esforço que os seguranças dos Spilman faziam para manter os jornalistas longe. Constance, a mãe, permanecia perto da ambulância, com os braços cruzados na frente do corpo e óculos escuros no rosto. Talvez ela não quisesse ser vista chorando, não entendia muito bem, mas o modo como a mulher soava fria e imparcial à situação da filha morta diante de seus olhos, causou arrepios no homem. Claro, pouco tempo atrás ela estava chorando, mas acalmara-se com uma rapidez extraordinária em relação às outras mães com quem já teve que lidar em sua carreira. Marie, que era a irmã de Sofia, chorava agarrada aos braços da psicóloga da família, . A mais nova dos Spilman era uma garota de porte pequeno e rosto delicado, e parecia extremamente frágil enquanto os flashes das câmeras batiam contra o seu rosto. Mais uma vez, não conseguiu entender como as pessoas podiam importunar uma família em uma hora daquelas, mas não gastou muito do seu tempo com aquilo.
A psicóloga e amiga da família, , era uma mulher jovem e realmente bonita, mas seu rosto parecia abatido como o de todos os outros ali. A morte derrubava qualquer um, era um fato, mas parecia ser forte, e apesar de aparentar transtorno, mantinha a calma e o controle enquanto apoiava a pequena Spilman em seus braços.
Por último, estava Bernardo Spilman. O homem vestia um terno esverdeado e tinha os cabelos acinzentados bagunçados. Não parecia se esforçar muito para parecer indiferente, como a sua mulher fazia, e deixava lágrimas penderem nos cantos dos olhos, mas sem, de fato, permitir que caíssem. Talvez ele quisesse ser forte por Marie. também não entendia.
Os quatro estavam em uma área isolada, em frente a uma ambulância, e observavam tudo o que era feito. tentou conversar com eles e explicar que o caso aparentava ser um suicídio, mas tudo o que recebera como respostas foram o choro de Marie Spilman e a indiferença de um Bernardo completamente enfurecido. Ao que parece, eles eram de uma família muito religiosa e não acreditavam que a filha pudesse ter feito algo daquele tipo. A única pessoa que parecera imparcial e, até onde era possível, controlada, fora Constance Spilman. Mas não a admirava por aquilo; na verdade, a mulher se mostrava cada vez mais suspeita.
Depois que desistiu de tentar convencê-los a qualquer coisa, regressou ao centro da cena do crime.
tinha pedido alguns minutos para avaliar melhor o corpo de Sofia Spilman antes que ele fosse levado ao necrotério, e concedeu. Enquanto isso, tentou evacuar a cena do crime, mas era praticamente impossível. Os moradores de toda a vizinhança já estavam ali, cumprindo os seus papéis de cidadãos curiosos que nasceram em bairros tranquilos, e provavelmente não sairiam até que o corpo fosse retirado do local. Os jornalistas, por sua vez, mesmo com a tenda já montada, começavam a aparecer em demandas, como urubus, e achou melhor acabar logo com toda aquela situação.
Depois de pedir para que a família Spilman e sua psicóloga deixassem o local, ele recorreu à equipe médica para que levassem o corpo de Sofia para o necrotério. Já bastava de fotos, mesmo longínquas, sendo tiradas da pobre menina enquanto ela estava morta. certamente não queria arcar com as consequências de cada uma daquelas fotografias quando elas fossem parar na internet, pela manhã.
Voltou para o lado de e bateu com dois dedos em seu ombro, pedindo para que o homem levantasse. Ele, meio contrariado por ter que tirar sua atenção da marca da silhueta de Sofia desenhada a giz, ergueu-se sobre os joelhos e olhou com certa relutância.
— Conseguiu descobrir alguma coisa relevante? — perguntou.
entregou-lhe um pequeno saco plástico. Dentro dele, um pedaço de papel dobrado estava manchado de sangue, mas pôde ver a curvatura fina de uma caligrafia no meio das linhas.
— Estava no bolso do casaco dela — informou. — E há marcas por todo o corpo. Parece que esteve em uma briga.
passou os dedos pelo plástico até que ele ficasse liso o suficiente, revelando o que estava escrito no papel. observou enquanto as sobrancelhas do homem se juntavam, dando de ombros quando o chefe o olhou em busca de respostas.
— Sei tanto quanto você — argumentou.
Houve um momento de tensão ali, algo que se intensificou com os ralos pingos de uma chuva fraca caindo sobre os ombros dos policiais. Com a leitura do conteúdo do bilhete os dois sentiram que havia algo errado com aquele caso, como se previssem, antes mesmo de tudo acontecer, que a densidade do mistério era absurda.
— O apartamento da vítima é o 273. — Anderson apareceu de repente, assustando-os ao parar desajeitadamente ao lado dos dois. Depois de perceber que tinha atrapalhado uma conversa, porém, o garoto tentou se redimir e baixou o tom de voz: — O porteiro disse que Sofia chegou em casa por volta das 21:00 horas. Depois ele saiu para jantar e só voltou às 22:00, não vendo se mais alguém entrou no prédio.
tentou ignorar a afobação mal controlada que existia na voz de Anderson. O rapaz era seu sobrinho e um sonhador precoce. Seu maior desejo sempre fora tornar-se um policial e, agora que tinha conseguido, parecia uma criança patética brincando com seu carrinho novo. o demitiria se aquilo não fosse gerar desavenças familiares entre ele e o seu irmão, mas até o pai de Anderson deveria notar que ele não tinha condição psicológica e muito menos física para aquele emprego. , porém, esperava que o garoto desistisse algum dia, então apenas o deixou ficar ali como uma espécie de braço direito.
— E quem ficou na portaria quando ele saiu? — perguntou.
— Ninguém. O prédio tem interfone, então qualquer morador poderia abrir o portão do próprio apartamento. O porteiro disse que sai todos os dias no mesmo horário para jantar, mas que dá para ouvir a campainha de sua casa, no térreo, então ele teria escutado se alguém entrasse.
— Certo, Anderson. Vamos dar uma olhada no apartamento de Sofia. — parecia cansado, talvez até indignado com a história do porteiro incompetente.
Então olhou para os lados e notou que não estava mais por perto. O sangue automaticamente esquentou dentro de suas veias e ele se sentiu completamente cansado. Definitivamente, estava velho demais para aquela profissão.
— Onde, diabos, está ? E Angelina? — esbravejou, de repente notando que Angelina, principalmente, não aparecia desde o começo da investigação.
— Eu acho que o subiu, senhor. — Anderson parecia contente em estar sendo útil. — Ah! Angelina ligou e disse que chega logo.
, que já tinha começado a caminhar para a entrada do prédio, parou subitamente e encarou o sobrinho. O homem, que era chefe de polícia e consideráveis anos mais velho que todos os outros dali, parecia um personagem fatídico saído direto de um seriado de TV: tinha cabelos brancos, pele negra, olhos visivelmente experientes e gostava muito de usar um sobretudo marrom escuro que servia apenas para dar mais ênfase ao ar sábio que o homem cultivava naturalmente.
Ele era um ótimo líder e mantinha o time junto há mais de quinze anos, o que lhe dava inúmeros créditos, mas já estava ficando velho e cansado, tão impaciente quanto qualquer outro homem de maior idade, em sua profissão. Por aquele motivo, talvez, teve de se esforçar muito para manter o tom de voz calmo:
— Viu que estava subindo e deixou que ele fosse sozinho?
Anderson quase gelou.
— A perícia está lá em cima. O apartamento está cheio de gente, aliás — acrescentou. — Mas eu pensei que ele fosse detetive, senhor. Achei que ele tinha permissão para entrar na cena do crime.
suspirou, notando que Anderson não tinha culpa de nada. Se era um ser completamente inconfiável que não podia passar dez minutos sozinho sem fazer besteira, na verdade, não era culpa de ninguém.
— Permissão é exatamente o problema de .

Capítulo 2


Quando entrou no apartamento de Sofia, foi pego pela atmosfera já tão conhecida, composta de policiais, flashes de câmera e tensão, misturada à pressa. Um fato que, mesmo com as paredes pintadas de branco, deixava o apartamento em um tipo de energia cinzenta; como se a vida do lugar tivesse se esvaído junto com a própria Sofia.
Avistou parado no centro do lugar, com a atenção presa na sacada pela qual Sofia teria se jogado. Ele mantinha as mãos dentro dos bolsos, e, mesmo de costas, sabia que o homem estava com aquele já conhecido olhar conspiratório no rosto. Coisa que adquiria, geralmente, quando trabalhava em teorias e planos — algo que podia, ou não, ser bom quando se tratava de .
— Dave, o que ele está fazendo? — O chefe perguntou ao homem parado em frente ao interruptor de luz, perto da porta. Tinha sangue ali, até onde pode entender, mas julgou que , naquele momento, fosse mais importante que aquilo.
Dave era da sua equipe, e , obviamente, preferia perguntar à ele do que ao próprio . Aquilo manteria a sua sanidade segura. Além do mais, Dave era completamente confiável, já que, por ser burro como uma porta, se esforçava para compensar a falta de neurônios com esforço físico e favores ao chefe. Dentre esses favores, aliás, estava colocar na linha e fazê-lo ficar fora de problemas.
— Eu não sei, senhor. Faz alguns minutos que ele está ali, parado. Mas é só isso. Não fez nada demais — respondeu Dave.
— Certo. — continuava cético, semicerrando os olhos e apurando os sentidos para tentar captar qualquer sinal.
Sim, era exagero. Mas qualquer cuidado era pouco. precisava apenas de meio segundo para se enfiar em alguma encrenca, e sabia muito bem que era no sentido literal da expressão.
— Acharam alguma coisa aqui? — Resolveu mudar de assunto. Talvez fosse paranoia sua com . O homem até que tinha melhorado muito nas últimas semanas.
Na verdade, havia melhorado muito desde o Caso Ryan. Mas não gostava de pensar naquilo.
— Mais ou menos — o outro confessou. — Até agora temos um copo quebrado sobre o tapete da sala. A porta da sacada também estava fechada quando chegamos aqui, mas não sei qual a importância disso. disse que é algo estranho; eu não entendi muito bem.
Por algum motivo, não se surpreendeu com o fato de Dave não ter entendido alguma coisa. Sempre tinha algo que fugia de sua compreensão.
— A porta estava trancada por dentro ou por fora? — perguntou pacientemente.
— Acho que por dentro — o outro respondeu, fazendo um esforço visível para pensar. — Por que é tão importante, senhor?
— Tem certeza de que não teria como trancar a porta por fora? Não tem fechadura?
— É, não tem. — Dave concordou. — Parece que o assassino empurrou Sofia e então trancou a porta da sacada. O motivo é desconhecido. Não tem digitais na porta, nem nos cacos do copo quebrado. Estamos procurando mais pela casa.
refletiu, percebendo o quanto tudo naquele caso indicava que o assassino queria que o crime parecesse um suicídio; mas, se era mesmo aquilo, por que ele trancaria a porta e eliminaria aquela alternativa? Afinal, não teriam chances de Sofia se trancar por dentro sendo que ela estava lá fora, jogando-se da sacada.
suspirou, concordando com a cabeça. Precisavam achar algo rápido.
— Fique aqui e veja se ele consegue achar alguma coisa com os seus poderes mágicos. — Apontou com a cabeça para . — Vou procurar Angelina.
saiu do apartamento em passos rápidos, mas Dave ainda conseguiu pará-lo para pestanejar:
— Sério? — ele olhava de para o chefe com uma espécie de súplica no olhar. — Eu não posso ficar aqui; tenho que interrogar os vizinhos.
— Eu faço isso. — respondeu um tanto apressado, e já estava quase completamente fora de vista quando recuou alguns passos e acrescentou: — Se ele fizer alguma besteira, a culpa será sua.

...


David Smith — ou Dave — sinceramente não achava que precisasse de supervisão. era ótimo em arrumar confusão, sim, mas todos os que estavam na sala eram policiais ou algo do gênero. Além do mais, não era briguento. Ele só falava a verdade. O problema era que muitas pessoas não sabiam ouvi-la. Ele, na verdade, era um homem extremamente inteligente e capaz de resolver qualquer caso.
A equipe perdera as contas de quantas vezes resolvera um caso ali mesmo, na cena do crime. Com observação e paciência, ele conseguia montar qualquer quebra-cabeça que encontrasse. Existiam inúmeros exemplos para isso.
Um deles — o favorito de Dave, na verdade —, era o de um grupo de amigos que assassinara uma colega, em Stockwell. O corpo da menina não tinha sido encontrado, mas todos sabiam que ela estava morta, de um jeito ou de outro. Seu nome era Susan, e todos os conhecidos e parentes dela voluntariaram-se para ajudar a fazer uma busca. Os melhores amigos, não. Eles alegaram que a perda da amiga tinha sido traumatizante, e que eles queriam muito encontrá-la, mas não sabiam se aguentariam vê-la morta por alguma viela de Londres. Ofereceram-se para colar cartazes e fazer mutirões nas escolas e hospitais, e passaram até mesmo a serem vistos como corajosos por toda a dedicação que prestavam à amiga desaparecida. foi o único que notou que algo estava errado.
Uma noite antes do dia marcado para a busca coletiva, e sua parceira, Angelina, pegaram o carro e seguiram o grupo de adolescentes por todo o dia e toda a tarde, até que a noite chegou. Quando uma das meninas do grupo pulou a janela do quarto de sua casa, no segundo andar, e correu por entre as casas cinzentas e discretas do bairro, contatou Angelina e ela alegou que o outro adolescente que seguia fizera o mesmo.
Os dois parceiros, então, cada um com o seu carro, seguiram os adolescentes por todo o trajeto que fizeram até a Estação de metrô de Stockwell, e não ficaram nem um pouco surpresos quando, assim que chegaram lá, viram que o resto do grupo estava esperando os últimos dois membros chegarem.
Dali, basicamente, os viu levar o corpo da amiga morta, antes escondida entre os trilhos de uma parte abandonada da ferrovia, até uma floresta fora da cidade. Angelina disse para prendê-los ali, na hora, mas sabia que todos eles eram filhos de homens muito ricos. De uma maneira ou de outra, todos acabariam conseguindo se livrar da punição. sabia que o único jeito de fazer com que aquelas pessoas pagassem pelo que fizeram era se elas confessassem. Nenhum advogado do universo conseguiria livrar a cara de alguém que diz ter cometido um crime.
Angelina negou participar do que quer que ele estivesse prestes a fazer, o que foi a única coisa que salvou o seu emprego, e apenas ajudou a tirar o corpo da menina da floresta e levar para um armazém abandonado perto da estação.
, então, foi até a sala de evidências e tirou de dentro da caixa de papelão com o nome Susan o celular que antes pertencera a ela, e enviou uma mensagem de texto aos seus amigos com os seguintes dizeres: Vocês vão pagar.
Quando, no dia seguinte, nenhum dos que receberam a mensagem foi até a polícia dar a informação de que estabeleceram contato com a amiga desaparecida, ele convenceu Angelina de que precisava de sua ajuda, e a mulher, sempre persuadida pelo charme barato do parceiro, aceitou.
Naquela mesma noite, os dois repetiram a experiência de vigiar os adolescentes, e viram quando eles pularam a janela de novo.
Eles foram até a floresta na qual tinham abandonado o corpo de Susan, e doentiamente se divertiu vendo a cena de desespero deles ao não encontrar o corpo no lugar onde haviam deixado. Angelina revirava os olhos e não acreditava que estava participando daquilo. tinha um pacote de salgadinhos que usou para assustar os garotos quando amassou, produzindo um barulho alto demais para o medo frágil deles.
Nenhum dos adolescentes viu ou Angelina. A única coisa que viram, na verdade, fora o corpo de Susan sobre o banco do passageiro do carro no qual tinham ido até ali. dera um jeito de fazer com que o rosto dela não aparecesse completamente, fazendo com que os adolescentes corressem para o lado contrário do carro, achando que Susan era um fantasma ou algo do tipo.
e Angelina armaram algumas armadilhas para que eles tropeçassem — claro que para o divertimento deles mesmos. E quando ligou do celular de Susan para um dos garotos, o menino, após ver o número no identificador de chamadas, atendeu o telefone já suplicando desculpas por ter matado a amiga.
gravou todo o discurso e depois saiu de seu esconderijo.
Quando viram que eram policiais, alguns deles tentaram correr, mas nenhum foi muito longe. Eram no total, se Dave bem lembrava, cinco. Dois caíram no meio do caminho, um já estava no chão e os outros dois foram pegos por Angelina e , que nunca tinham se divertido tanto na vida, mas precisavam se manter sérios para que os adolescentes não percebessem a pegadinha.
Todos eles, burros do jeito que eram, acabaram confessando à polícia que tinham matado a amiga, e alegavam que precisavam de proteção contra... O fantasma dela. , por sua vez, apesar de ter rido muito por anônimo, nunca contou nada do que aconteceu a ninguém. Ele apenas colocou o corpo de Susan de volta no local da floresta em que os adolescentes tinham o posto pela primeira vez e os fez acreditar que o corpo nunca saíra de lá. O telefone voltou para a caixa de evidências, já que ele nem ao menos precisou usar sua gravação, e ele e Angelina teriam uma bela história para contar aos seus netos.
O problema, claro, era que conhecia muito bem a sua equipe, e não ficou nem um pouco feliz quando escutou a história do fantasma de Susan.
— Vocês dois são malucos?! — Ele gritava. — Usaram o corpo de uma vítima! O que vocês tinham na cabeça?!
Na opinião de , não fazia diferença. Susan estava morta de qualquer jeito. Usar ou não seu corpo para resolver o caso não afetava o fato de que ela não voltaria a respirar. Mas quando disse aquilo, foi suspenso por três meses do cargo de detetive. Angelina só ficou porque jurou com todas as suas forças que ela não sabia o que estava acontecendo. E apesar de aquela ser a mentira mais ridícula que ouvira, fingiu acreditar e deixou que a mulher passasse impune.
Felizmente, a história nunca chegou aos ouvidos da família da vítima, nem aos jornais, então a única fúria que tiveram que enfrentar fora a do chefe. O problema era que nem sempre era assim. Muitas vezes o público ficava sabendo das artimanhas de , o que rendia boas dores de cabeça para e o resto da equipe.
E era exatamente por causa daquele tipo de problema que decidiu não deixar mais sozinho. Decidiu que era uma criança curiosa e que a polícia era somente mais uma de suas brincadeiras preferidas. Que cada caso era uma desculpa para exercitar seu dom em dominar jogos mentais e desafios, não um trabalho. Ele era cínico, frio e completamente desprovido de uma coisa que policiais deveriam ter: noção. Mas ele era um bom investigador e, por isso, nunca o demitiram.
— Dave, venha aqui um minuto — a voz do demônio, mais conhecido como , chamou.
Dave respirou fundo e começou a andar em direção a ele. Quando parou ao seu lado, levou uma das mãos ao próprio queixo, mas não olhou para o amigo. Apenas continuou centrado na sacada e na porta de madeira que o impedia de ver os policiais que trabalhavam do outro lado.
— Quanto você pesa? — perguntou.
Dave deixou as sobrancelhas aproximarem-se, de uma maneira confusa, e então respondeu:
— Eu não sei. Por quê?
— Acha que, se eu te empurrasse contra aquela parede, você recuaria? — Questionou. — Provavelmente não, porque é muito pesado. Mas Sofia poderia facilmente sofrer esse efeito! Ela era uma garotra magra.
— Sim... — David concordou, curioso.
— Acho que alguém a empurrou contra a parede, e então, enquanto estava desnorteada, foi induzida a entrar na sacada.
Para exemplificar a sua teoria, apontou um filete de sangue manchando a parede. Então fez uma pequena e quase ridícula interpretação, simulando o momento em que Sofia supostamente havia batido contra o local, e logo se dirigiu para a sacada, ainda encenando as reações da vítima.
Quando acabou, todos da perícia observavam curiosos o que viria a seguir. apenas fez uma reverência mal-humorada e disse:
— De nada! Acabei de fazer o trabalho de vocês.
Em seguida, Dave o seguiu pelo apartamento enquanto desviava de provas e de policiais.
Ele foi até a cozinha, parando por um minuto para observar atentamente cada um dos armários sem abri-los. Dave não entendia por que ele simplesmente não abria a droga dos armários, mas não argumentou. Qualquer palavra dita a que fosse interpretada como um encorajamento para algum plano doido colocaria o seu emprego em jogo.
Além do mais, Dave ainda se lembrava de uma ocasião na qual encontraram o assassino dentro do armário. O maluco não tinha conseguido escapar e se escondeu quando a polícia chegou. sabia desde o início onde o homem estava, mas não disse nada a ninguém e, além de "proteger" o armário para garantir que ninguém o abriria, deixou que todos continuassem coletando provas e interrogando pessoas durante oito horas, até que abriu a porta do guarda-roupa por si mesmo e viu o homem cair, sonolento, para fora.
Quando perguntaram a ele o porquê de ele não ter contado antes, apenas deu de ombros e disse que foi divertido pensar em um assassino sanguinário preso dentro de um armário, em meio a saltos e vestidos, com medo de sair.
A partir daquele dia, Dave começou a pensar que pudesse ser um pouco psicopata também. E apesar de ter rido de Dave quando o homem afirmou aquilo, disse que todos os seres humanos tinham um lado psicopata. Alguns só descobriam isso mais cedo.
Ali, enquanto não abria nenhum dos armários, Dave começou a imaginar qual deles conteria um assassino, um corpo, ou provas. Começou a pensar se já sabia quem tinha feito aquilo; se já catalogara suspeitos ou se, simplesmente, estava curioso.
Andaram, então, de volta para a sala. Dali, desviando de um rapaz que fotografava o monte de vidros no chão, seguiu para o lado do apartamento onde ficava o banheiro e o quarto de Sofia.
Passaram por um corredor de paredes extremamente brancas e luminárias que deveriam custar um ano de seu salário, Dave pensou. Algumas pareciam até lustres, com suas pedras delicadas e o ar elegante. Mais à frente, também existiam três ou quatro portas; quadros por todas as paredes, um piso de linóleo em tom pastel cobrindo o chão e mais policiais correndo para lá e para cá. As portas dos três quartos eram todas idênticas, mas reconheceu a de Sofia pela maçaneta dourada e gasta de uma em especial.
girou a maçaneta e deixou que o rangido inconveniente preenchesse o quarto antes mesmo que ele entrasse. A silhueta dos dois policiais ficou marcada pela luz do corredor que ultrapassava o limite da porta, deixando que as sombras de e Dave Smith ocupassem o quarto de Sofia.
deu o primeiro passo, e mesmo sabendo que a perícia já tinha passado por ali para coletar provas, o lugar parecia completamente abandonado. Talvez fosse a escuridão, mas nada adiantou quando ele ascendeu a luz. O lugar era repleto de decorações rosa, a cama cheia de ursos de pelúcia e as paredes tinham alguns pôsteres. Era como o quarto de uma adolescente qualquer, mas a solidão ainda era presente.
Dave entrou logo atrás de , e por algum motivo parecia extremamente desconfortável estando dentro do quarto da falecida garota. O cheiro dela ainda ocupava cada parte e cada centímetro do ambiente, o que poderia ser assustador, mas para somente mostrava o quanto de tempo ela devia ter passado ali dentro, sozinha.
era um perito em comportamento humano. Estudou, mesmo que anonimamente, sem ir a faculdades, todos os aspectos do cérebro e do comportamento do homem. Aquele era um dos motivos dele ser tão bom no que fazia: conhecia as pessoas. Conhecia pessoas, aliás, como Sofia.
Ela era jovem e bonita, mas filha de um magnata. Pelas fotos espalhadas pela casa da garota, onde só se encontravam retratos da própria família e da psicóloga, a menina não tinha muitos amigos. Não confiava em ninguém, porque provavelmente tinha sido educada para ser daquele jeito. Era solitária, por isso tinha tantos ursos de pelúcia em sua cama. E havia altas chances de ela ter tido problemas com bebida, a julgar pelo leve odor de álcool que se misturava ao perfume de morango que rondava o ar.
continuava parado ali, observando o ambiente, e Dave começou a se perguntar por que ele sempre fazia aquilo. nunca agia sem antes analisar cada parte do campo que estava prestes a entrar, o que não era errado, mas sim engraçado. O homem sempre pareceu não ligar para regras, mas nunca deixava de se prevenir. Era como um falso rebelde que se arriscava a pular do segundo andar de um prédio, mas usava capacete e pedia para que colocassem um colchão onde ele iria cair.
, ainda em silêncio, andou até o que parecia ser o armário de Sofia e colocou a mão no puxador. E ele abriria sem ao menos hesitar, mas notou que Dave tinha dado alguns passos para trás, olhando-o com demasiada atenção. virou por um segundo, sem entender momentaneamente, mas riu assim que se lembrou do incidente com o assassino no armário. Não o alertou de que não havia ninguém ali; seria divertido apenas observá-lo perceber que tinha agido de modo ridículo, para variar.
Quando abriu o armário não havia nenhum assassino escondido, claro. Somente uma grande bagunça de roupas jogadas para todos os lados e alguns cabides vazios. esqueceu-se de rir do parceiro envergonhado e estreitou os olhos, alternando a atenção do quarto absurdamente organizado para o guarda-roupa que, se fosse usar uma comparação acessível, diria que parecia um buraco negro.
— Dave — ele chamou. — Diga para procurarem uma mala. — não tirava os olhos do armário, notando a falta de roupas casuais e a fartura de vestidos de festas e roupas de noite. — E peça as imagens das câmeras de segurança.
— Não existem câmeras na entrada principal, . Estão quebradas. Nós já tentamos.
— Não as da portaria. As do estacionamento — disse e, fechando o armário, completou: — Sofia planejava fugir esta noite.

Capítulo 3


David Smith deixou no quarto de Sofia e correu para encontrar . Achou o homem parado no meio do corredor, falando com um vizinho da vítima, e esperou que ele terminasse as perguntas para entregar as informações:
— Chefe — chamou, o que era desnecessário: já prestava atenção nele. — disse que Sofia estava fugindo.
levantou os olhos para Dave, sem muito entusiasmo, e perguntou:
— Fugindo?
— É, fugindo. — apareceu no fim do corredor, interrompendo a explicação que Dave estava prestes a dar. — Faltam roupas no armário e fotos no mural da mesa do computador. Precisamos achar a mala, ou um carro; se ela tiver um carro, a mala estará lá dentro, então tanto faz.
Se. enfatizou a sua constante descrença nas teorias de . — Ela estivesse fugindo mesmo... Do que seria?
— Eu não sei, . Não sou médium. Mas se acharmos a mala, provavelmente acharemos a resposta para a sua pergunta.
— Então vamos procurar. — suspirou, e então se virou para Dave. — Encontre o porteiro e veja se ele tem acesso às gravações do estacionamento. Se ele souber qual é o carro de Sofia, ótimo. Se não souber, procure nos vídeos todos os carros que entraram no prédio entre as 21:00 e as 22:00 horas.
— Procure um Porsche preto ou algo do tipo — aconselhou.
Dave olhou desconfiado para , não entendendo muito bem qual era a intenção do homem com aquela frase. Mas ao invés de tentar descobrir se era algum tipo de pegadinha ou piada interna, Dave murmurou um 'entendido' e saiu apressado. começou a acompanhar pelo corredor alaranjado do prédio de Sofia, tentando não se irritar com os vizinhos que olhavam por entre brechas nas portas.
— Já tem algum plano, gênio? — perguntou.
olhou para o chefe e respondeu com casualidade:
— Não.
lançou a o seu melhor olhar desconfiado. Algo que dizia 'Eu não nasci ontem, , pode parar de mentir'. Mas ao invés de confessar o plano, como sempre acontecia, o detetive apenas deu de ombros.
— Não faço mais isso, . A partir de agora vou ser um policial normal, ou sei lá.
riu.
— Você? Estou ansioso para ver quanto tempo isso vai durar.
Apesar de rir, até que acreditava no homem. Como tinha percebido antes, fazia algumas semanas que se comportava melhor. Era quase como se ele fosse um ser humano descente outra vez. O último caso que resolveram, onde um homem assassinara a namorada por ciúmes, a coisa mais estrondosa que fez foi... Bem, nada. não fizera nada demais no último caso. E isso era um grande avanço quando se tratava de .
e , então, escutaram alguém chamando. Viraram no momento em que Steven, o quarto membro da equipe, fazia a curva do corredor com um garoto em seu encalço. Steven sempre fora o mais dedicado e certinho de todos, de modo que usava o terno proposto pela Scotland Yard seguindo todas as recomendações à risca. Claro que aquilo acabava dando ao homem um ar mais profissional do que o do próprio , que era o chefe, e muita gente acabava confundindo o cargo dos dois.
— Ele é vizinho da vítima — disse quando alcançou e , referindo-se ao garoto que trazia consigo. — Diz ter algumas informações.
olhou de Steven para o garoto com uma expressão de impaciência que até estranhou. devia ter interrogado muitos vizinhos naquela noite, e, claro, todos tinham muita coisa inútil para contar. Eles sempre gostavam de se sentir úteis e acabavam tomando todo o precioso tempo de com coisas aleatórias. Muitas vezes nem eram verdades.
— Eu sou do prédio da frente, na verdade — o menino explicou. — Eu saí pra fumar um cigarro na sacada e vi quando Sofia surgiu. Ela parecia assustada. Quando me viu começou a gritar por ajuda. Eu desci para ajudá-la, mas assim que cheguei lá embaixo...
O rosto do garoto se contorceu. Ele fechou os olhos, algumas veias de sua testa saltaram sob a pele e suas bochechas ficaram vermelhas. Em pouco tempo, pôde ver algumas lágrimas acumulando-se no canto dos seus olhos.
— Qual o seu nome, rapaz? — perguntou.
— Matt. Matthew Horan.
— Tudo bem, Matthew. Conte-nos o que aconteceu quando você chegou lá embaixo. — encorajou.
Mais um momento se passou até que Matthew tivesse coragem de terminar.
— Ela já tinha caído — disse, lamentando-se. — Fui eu quem ligou para a polícia, aliás. Depois fui pra casa vomitar e tentar não desmaiar. Agora estou aqui.
encarou o garoto dos pés à cabeça. Os olhos acusadores do policial eram intensos, apesar da situação deprimente de Matthew, e mesmo que fosse denominado o impaciente da noite, sentiu certa compaixão pelo rapaz com a cena que se seguiu.
— Matthew — pronunciou o nome como se fosse um mantra. — O que nos garante que você não é o assassino tentando se acobertar?
Matthew entreabriu os lábios, completamente confuso, e olhou de Steven para . O chefe, por sua vez, permaneceu parado, de repente verdadeiramente intrigado com Matthew e todas as suas informações detalhadas. até esperou um momento, dando uma chance para o rapaz tentar se defender, mas quando o ato demorou muito ele simplesmente deu a ordem:
— Levem-no para a delegacia.
Steven suspirou e começou a se aproximar de Matthew. Ao que parecia, ele se lamentava pelo rapaz. Mas era sempre assim; Steven era uma boa alma e confiava demais nas pessoas. Provavelmente tinha confiado em Matthew para ser um bom informante, mas acabara decepcionado.
balançou a cabeça e colocou a mão sobre o ombro de Steven, fazendo-o parar.
— Não, ele não é o assassino — disse. — Mas sabe de mais alguma coisa, não sabe, Matthew? — olhou para o rapaz. — Posso ver que está suando demais. O seu nervosismo é quase contagioso. O que mais você viu?
Matthew olhou para o rosto dos três policiais, procurando uma saída. Os segundos pareciam se arrastar ali, com a tensão de um quase interrogatório sufocando o pobre rapaz. Mas, no final, ele apenas respirou fundo e, com o suor escorrendo pelos lados de seu rosto, passou umas das mãos na outra e disse:
— Sofia me procurou alguns dias antes de sua morte — confessou. — Eu estranhei porque, apesar de sempre nos falarmos por sermos vizinhos, não tínhamos intimidade; nem ao menos éramos amigos, e ela era muito bonita e...
— Seja breve, por favor — cortou o outro, impaciente. Recebeu um olhar de , algo que deveria intimidá-lo e fazê-lo pedir desculpas. apenas revirou os olhos e voltou a escutar Matthew.
— Enfim... — ele parecia intimidado por . — Ela disse que precisava da minha ajuda. Parecia muito preocupada.
— No que ela precisava de ajuda? — pressionou.
— Eu... Eu não sei — ele deu de ombros. — Quando eu concordei ela disse que me procuraria assim que o momento certo chegasse, mas isso nunca aconteceu. Só estou contando porque acho que pode ser importante.
— Obrigado por contar. — fez um sinal para que Steven buscasse um bloco de notas ou algo do tipo. — Quando foi isso? — voltou a Matthew. — Quando ela pediu ajuda?
— Há umas duas semanas.
— Tudo bem — suspirou. — Se isso for tudo, você já pode ir. Qualquer coisa, entraremos em contato.
Steven concordou com a cabeça e, lentamente, começou a se retirar do pequeno corredor. Olhou uma ou duas vezes para trás, talvez receoso de sair sem respostas para as perguntas que certamente tinha. podia ver que o garoto obviamente gostava de Sofia. O que era triste, na verdade, pois até mesmo , que não conhecia a garota, sabia que Matthew nunca teria uma chance com ela.
O que quer que fosse que Sofia Spilman quisesse com Matthew Horan, não era uma desculpa para flerte adolescente ou aproximações. Era algo sério, e eles teriam que descobrir.
Steven estava de volta, anotando tudo em um rascunho de relatório. e se entreolharam, vendo que aquilo seria mais difícil do que pensaram.
— Matthew disse que Sofia estava sozinha na sacada. — ressaltou. — Como podemos provar que isso foi um assassinato?
— Ele não a viu cair. — rebateu, esperançoso. — E ainda disse que ela estava assustada.
— Seja como for, não poderemos conter os rumores. Todos viram o corpo de Sofia Spilman atirado contra o asfalto daquela avenida, . Amanhã todas as manchetes dirão que ela se matou, e você sabe que, quando os Spilman virem isso, não serão nos repórteres que eles colocarão a culpa.
sabia que tinha razão. Até Steven, que era o mais calmo e sensato de todos, parou de escrever para olhar os dois colegas com preocupação. Os três, na verdade, sabiam que, qualquer que fosse o caminho que as coisas levariam, não acabaria bem para eles. Os Spilman com certeza não ficariam felizes em ver uma matéria sobre sua própria filha ter cometido suicídio em todos os jornais. Mas também, claramente, não gostariam de saber que a filha tinha sido assassinada e que em mais de três horas de investigação eles não tinham conseguido coletar uma única prova ou evidência da cena do crime.
Precisavam se preparar para os surtos e os processos, porque eles certamente viriam.
— Lidaremos com a fúria dos Spilman depois. — de repente pareceu decidido. — Precisamos trabalhar! Qualquer pista é uma vanta...
— ACHAMOS O CARRO DA VÍTIMA!
, e Steven se viraram para observar Anderson — afobado, como sempre — aparecer correndo pela curva do corredor. Dave o acompanhava passos atrás, alheio ao vexame que o mais novo passava ao derrubar alguns dos papéis que carregava nas mãos. pode ver o que era assim que o rapaz os recolheu e entregou o material a , que estava ao seu lado.
— O carro da vítima era um Porsche preto. — Dave afirmou, finalmente os alcançando e parando ao lado de Anderson. Seu tom de voz era uma mistura de descrença disfarçada e ceticismo. Então, se tornou sério e até desesperado. — Certo, , como você fez isso? Como você sabia qual era o carro de Sofia?
deu de ombros.
— É tudo uma questão de prestar atenção nas coisas. É bem fácil, na verdade.
observou enquanto Dave apurava os ouvidos, louco para saber qual era o truque, como se fosse um mágico e ele uma criança no meio de um grande espetáculo. Notou que Anderson também havia feito o mesmo e que até , tentando disfarçar, esperou pela resposta.
— Há a probabilidade de cores escuras para bairros do interior. Com certeza também seria um Porsche, afinal ele foi o carro luxuoso mais vendido do ano. Mas o mais importante, rapazes, é o principal detalhe da dedução... — fez suspense, provocando-os. Estavam vidrados.
, por sua vez, cansou da brincadeira e apenas disse:
— Eu encontrei a chave do carro!
se divertiu vendo a expressão de Dave murchar. O homem adotou um semblante emburrado, o que só tornou tudo mais hilário, pelo menos na cabeça de .
— Seu filho da puta. — Dave xingou.
— Tem o logotipo da marca na chave. — explicou, mais para os outros do que para o próprio Dave. Então tirou o objeto do bolso e o colocou em uma das mãos de Smith, que ainda parecia guardar uma espécie de mágoa pela brincadeira, e sorriu. — A cor, eu chutei. Levando em consideração que estamos em Londres, seria um carro preto, com certeza. Mas nada relacionado ao bairro no interior! — Zombou.
Dave olhou para a chave em suas mãos e então para . , notando que ele era burro o suficiente para não entender o porquê de ter lhe entregado a chave, disse:
— É melhor você a levar lá para baixo antes que quebrem o vidro do carro ou algo do tipo.
Dave deu um pulo, entendendo, mas não chegou a sair do lugar.
— Não. — o interrompeu. — Nós vamos abrir esse carro.

...


O estacionamento do prédio Saturday Diamond era como o de qualquer outro: frio, vazio, silencioso e com um clima escuro e azulado, quase como se alguém tivesse colocado uma película sobre o ambiente, fazendo-o ser tão diferente do corredor alaranjado do prédio que chegava a ser surreal. Mas os policiais, de um modo ou de outro, já estavam acostumados. Cada cena de crime tinha um clima diferente; cada local e cada vítima pareciam deixar certa ponta de personalidade em suas mortes e respectivas cenas. Às vezes as marcas das vítimas eram mais fortes que as dos próprios assassinos, e apreciava aquilo.
Os quatro — , Steven, e Dave — chegaram ao Porsche preto, estacionado de uma forma torta no corredor H, número 2, em uma vaga para deficientes, e se entreolharam.
— Por que ela estacionou no lugar errado? — Steven questionou-se.
deu de ombros. continuou olhando para o carro. Dave parecia cético em relação ao automóvel, e pela primeira vez, o compreendia. Havia alguma coisa sobre aquele carro que dava arrepios no homem. O modo como o estacionamento estava silencioso também não ajudava. Era possível escutar o barulho das respirações dos quatro homens parados ali, ao redor do veículo de luxo, perfeitamente, e nenhum deles se atreveu a violar aquela falta de comunicação tão necessária.
— Vamos abri-lo? — Dave, enfim, perguntou.
fez que não com a cabeça.
— Temos que ter certeza de que esse é o carro da vítima — afirmou. — A única coisa que temos até agora é uma gravação desse carro entrando no estacionamento ao mesmo tempo que Sofia Spilman.
— Pra mim é o bastante. — deu de ombros.
— Temos dúzias de repórteres lá fora, — o homem parecia se controlar para não surtar. — Não podemos abrir um carro qualquer; se esse não for o de Sofia Spilman, além de tudo, teremos uma manchete dizendo que a polícia viola carros aleatórios. Parece exagero, mas, querendo ou não, somos tão cobiçados pela imprensa quanto os próprios Spilman — depois ele suspirou e acrescentou, desanimado. — Se não, até mais.
— Então o que fazemos? — Steven perguntou. — Ficamos aqui, parados, a noite toda?
— Pedi para Anderson ligar para a central e fazer uma busca com a placa do carro — disse o chefe. — Vamos ver em nome de quem o veículo está.
— Mas e a chave? — Dave perguntou. — Ainda achamos a chave do carro no apartamento de Sofia.
colocou as mãos na cintura e deu de ombros.
— Vamos esperar os resultados da busca chegarem. Só então decidimos como vamos agir.
— Eu ainda acho bem mais fácil abrir o carro. Se não for o de Sofia; uma pena. Fechamos de novo e fingimos que nada aconteceu. — parecia realmente achar o plano perfeito.
, porém, se irritou com o leve tom de cinismo em sua voz.
— De novo: existem repórteres por todo o lugar! Se o dono não gostar, nós podemos ser...
— Eu saio por alguns minutos e as crianças já brigam.
parou de falar.
Todos se viraram para observar o sorriso cínico de Angelina Devens. Ela tinha uma mala negra nas mãos, com itens da perícia, e se aproximou do grupo com o andar calmo e a postura ereta, ouvindo o barulho dos seus passos fugirem pelas entradas de ar do estacionamento.
Apesar de ninguém ali precisar se sentir ameaçado por ela, Angelina causava aquele efeito nas pessoas. Uma reação tão negativa quanto positiva que fazia sua imagem ser moldada em inúmeras impressões alheias, como um eterno emaranhado de suposições que colegas homens gostavam de fazer a seu respeito.
Foram muitas as vezes em que vira Angelina ter sua capacidade questionada. Foram mais frequentes ainda as vezes em que observou a mulher provar que estavam todos errados. Afinal ela era uma ótima policial. Tão competente quanto e os outros — talvez até melhor do que eles.
Angelina tinha cabelos escuros e longos, um pouco abaixo dos ombros. Seus lábios eram cheios, os olhos claros e a pele lisa. Os braços moldavam músculos invejáveis e as pernas apresentavam uma resistência que saberia nunca ser capaz de ter, já que havia mais nicotina do que sangue em suas veias.
Angelina poderia facilmente ser a paixão de todos os policiais daquele pequeno escritório no qual trabalhava, mas só se a relação deles não fosse profundamente mais densa do que aquilo. Ela era uma peça rara.
está paranoico e está... Sendo o . — Dave explicou e Angelina riu. Sua risada era alta e bem articulada, daquele tipo que te fazia ter inveja e querer rir junto a ela.
— Quem ele odeia dessa vez? — perguntou.
— Acho que o cara que inventou as regras.
— A família do cara, na verdade. Sempre é culpa da família. — retrucou, mas não estava se defendendo de verdade. Sabia que, não importava o que dissesse, ninguém entenderia o seu ponto de vista, então ele só entrou na brincadeira.
— E quem você não odeia? — Angelina perguntou ironicamente, começando a prender os cabelos em um rabo de cavalo.
— Você. — respondeu, e seria um momento constrangedor para todos os que assistiam, se eles já não estivessem acostumados com aquele tipo de coisa.
Angelina e eram um tipo raro de parceiro e parceira. era casado e Angelina obviamente não queria nada com , mas os dois viviam buscando maneiras novas de se provocar das maneiras mais sujas. Ninguém nunca entendeu qual era o verdadeiro propósito, mas por ser realmente divertido assistir um tentando vencer o outro com cantadas ruins e provocações baratas, nunca perguntaram nada a respeito.
— Quem sabe outro dia. Hoje prefiro ver a garota morta — ela terminou de prender os cabelos e olhou para o grupo. — Anderson me disse que ela é uma Spilman — a mulher fez uma careta. — O que mais eu perdi?
— Caiu do 23° andar do prédio. Achávamos que era suicídio, mas um segundo ferimento na cabeça indica que ela passou por uma luta, ou algo do tipo. Um vizinho também a viu um pouco antes da morte e disse que ela parecia assustada. — informou. — Aliás, onde você estava esse tempo todo?
— Tive uns problemas. — Angelina deu de ombros. — O que mais vocês têm?
— Só temos isso. — Dave suspirou.
— Na verdade, temos mais coisas, sim. — se intrometeu. Angelina olhou para ele, e então o homem continuou: — Faltavam roupas no armário dela, o que indica que a vítima poderia estar se preparando para fugir com ou de alguém.
pode ver um brilho nos olhos da parceira. Angelina sempre era a única que acreditava nele e levava o que o homem falava a sério. Não que os outros não levassem, na verdade, mas eram preocupados demais com regras para confiar casos às teorias conspiratórias de . Principalmente aquele, em especial, onde toda aquela história dos Spilman os assombrava.
— O que ainda não é confirmado — ressaltou, estranhando a teoria de . — Não sabemos se o carro em questão é dela ou não e não podemos abrir o porta-malas para checar. Estamos esperando uma confirmação.
— Vocês acham que ela podia estar fugindo do assassino? — Angelina pareceu começar a refletir. Seu cérebro era quase tão preciso quanto o de . A única diferença é que Angelina podia ser mais sensível. — E como chegaram nesse carro?
— Talvez. — parecia teimoso. — Achamos a chave de um Porshe no apartamento de Sofia, e um vídeo do estacionamento mostra esse carro — apontou para o luxuoso à sua esquerda — chegando ao prédio no mesmo horário que a vítima.
— E qual é o problema? Por que não abrem logo?
— Porque pode ser o carro de qualquer pessoa. Um vizinho com quem ela pegou carona, ou sei lá. Estamos esperando o resultado da busca da placa.
— Acha que mais alguém nesse prédio teria um carro desses a não ser Sofia Spilman? — Angelina, por um minuto, contemplou a beleza do automóvel e todo o seu luxo, mesmo que externo. — Acho difícil. Além do mais, somos da polícia, podemos fazer qualquer coisa.
— Angelina, nós na...
— Chefe. — Anderson chegou, interrompendo-o. Parecia que o rapaz tinha o dom de atrapalhar o tio em suas melhores falas. — Conseguimos localizar o dono do veiculo.
suspirou. Parecia que todos queriam interrompê-lo naquela noite. Talvez fosse um sinal, ele pensou. Ou talvez ele simplesmente estivesse perdendo o respeito dentro daquele grupo. De uma maneira ou de outra, cansado e querendo acabar logo com aquela noite infernal, ele virou para Anderson, esquecendo-se da afobação sempre presente do rapaz, e pegou o papel que ele trazia nas mãos.
— A central mandou por FAX — ele ofegava. — Ainda usam isso, sabia? — riu. — O porteiro tinha um e me deixou usar.
— E sobre o carro, Anderson? — tentou agilizar as coisas. Queria ir para casa e beber uma garrafa inteira de whisky.
, porém, já olhava para os papéis trazidos por Anderson e tinha todas as respostas. Impresso e ainda com a tinha molhada, o papel carregava a foto e a ficha criminal de um homem chamado Jared Norton.
— A carro pertence a Jared Norton — Anderson limpou a garganta, tentando adquirir um ar sério enquanto passava as informações para os outros policiais. — Já foi preso duas vezes por brigas e porte ilegal de armas e drogas, mas nada além disso. Ele mora do outro lado da cidade, o que é estranho, e o carro está repleto de multas por ultrapassar limites de velocidade.
— O que Sofia estava fazendo com a chave do carro desse cara? — Angelina se perguntou, meio alarmada. Obviamente, tanto ela quanto os outros se surpreenderam em saber que Sofia Spilman, a filha perfeita da família mais perfeita de Londres, andava em má companhia. — Será que Norton é o assassino?
— Ele seria tão burro de deixar a chave cair no apartamento? — Steven refletiu. — Aliás, como ele iria embora? A pé?
— A chave não estava jogada, rapazes. — lembrou, recebendo um olhar repreensivo de Angelina por conta do "rapazes". — Estava sobre a mesa de Sofia.
— Então não foi acidental. — Dave finalmente raciocinou. O grupo olhou para ele com expressões cansadas de indiferença. Amavam Dave, mas sabiam que ele não ajudaria muito. — Talvez Sofia tenha roubado esse carro... — acrescentou.
— Por que Sofia Spilman roubaria um carro que, se quisesse, era só pedir ao pai? — Steven não parecia disposto a aceitar que Sofia fosse uma criminosa. Mais uma vez, seu coração provava ser daquele tipo raro que não vê maldade em nada, o que levava a se perguntar como, por deus, ele tinha se tornado policial.
— Hm... Gente? — Anderson chamou, um tanto sem graça por atrapalhar o raciocino coletivo dos cinco policiais. — Também conseguiram um endereço e um número de telefone — disse quando todos prestaram atenção em si. — Podemos tentar estabelecer contato com Jared antes de enviar um mandato de prisão.
— Ninguém vai ser preso, Anderson. — se irritou. — Não temos nem provas suficientes para isso!
— Já que o carro não é de Sofia e pertence a um, até onde parece, encrenqueiro, acho que podemos abri-lo agora. — Angelina deu a ideia. apoiou a mulher fazendo um gesto com as mãos, como se dissesse 'Ela tem razão, pessoal, a escutem já que a mim vocês ignoram'.
— Não. — parecia ter adotado aquela palavra como um mantra. — Seja quem for Jared Norton, comprou esse carro em dinheiro, e, pela foto, não parece ser um bandido. É um mauricinho, assim como Sofia era, e, assim como Sofia tinha uma família rica e influente, ele também deve ter. Vamos esperar contato.
bufou, rolou os olhos e buscou, dentro do próprio casaco, seus cigarros. Decepcionou-se, então, ao perceber que seu maço estava no sobretudo — que ele despiu assim que entrou no prédio e o frio já não era tão incomodo. Angelina, conhecendo o parceiro como conhecia, tirou o próprio maço e o isqueiro dos bolsos e entregou a .
— Eu não entendo qual é o grande problema com essa família, os Spilman, ou sei lá. — Dave confessou.
, por algum motivo, não se surpreendeu com o fato de David ser burro o suficiente para não saber quem eram os Spilman. Nunca esperou muito dele, na verdade. até mesmo gostaria de estar no lugar do homem e não saber quem eram os Spilman. Aquilo tiraria metade da sua dor de cabeça.
— São os donos da porra da cidade toda, Smith. — explicou, acendendo o cigarro. — Desse prédio, dos hospitais, das praças...
— Das chaminés também? — perguntou, satirizando o vício de em cigarros e o modo como, todos sabiam, ele não pararia até ter terminado com o maço inteiro.
— Sim, eles são os donos dos nossos rabos. — retrucou. — Aposto que sua casa pertence a eles, David. — voltou ao colega, ainda perdido quanto aos Spilman e a troca de farpas entre e . — E a da sua mãe; e as das suas irmãs, e...
— Tá, nós entendemos. — cortou , percebendo o tom de ironia transformando-se em algo mais raivoso. — Droga, , o que há de errado com você?
Antes que pudesse responder, porém, Anderson — que eles nem ao menos tinham notado sair — havia voltado com os seus já típicos passos apressados nos pés. Ele parou ao lado dos outros policiais, tendo que olhar para cima por conta dos poucos centímetros a menos que o desfavorecia de todos os outros, e disse:
— Estão ligando para Jared Norton da central. Tentaram o telefone fixo, mas ninguém atende.
— Diga para ligarem no celular, então — massageou as têmporas.
— Já estão fazendo isso.
concordou com a cabeça e, quando ia parabenizar o sobrinho pela eficiência de seus serviços, algo o fez parar.
Todos os policiais, na verdade, pararam. Até deixou o cigarro pender dos lábios, de um modo que as cinzas caíram sob seus sapatos, e olhou para os parceiros. Os cinco trocaram um certo tipo de medo com o que escutaram, mas todos estavam dispostos a não falar sobre aquilo; como um acordo mudo para ficarem em silêncio.
O leve farfalhar era significativo. O som era baixo, porém constante, e todos sabiam que estava por perto. Ao reconhecerem, talvez, o que seria o toque baixo de um telefone, a tensão se dissipou e aquela pequena equipe de detetives soltou um suspiro em conjunto.
Todos olhavam para o porta malas agora barulhento do carro de Jared. tentou não surtar diante do sorriso triunfante de , e então fez um sinal com a cabeça para que prosseguissem. Dave foi o que se movimentou, colocando a chave na fechadura do porta-malas.
Quando a tampa se abriu, porém, o que encontraram não foi uma mala cheia de roupas. Ao invés disso; ao invés de sapatos e escovas de cabelo, o corpo de um homem morto encarava o vazio como se pedisse ajuda.
— É. — estava mais longe do carro que os outros, de modo que não precisou franzir o nariz em resposta ao cheiro do cadáver.
Furtou o isqueiro de Angelina do bolso do blazer da mulher, ascendendo outro cigarro e deixando-o entre os lábios de um modo que as palavras saíssem um pouco abafadas quando ele acrescentou:
— Parece que é mesmo o carro certo.

Capítulo 4


— O senhor não pode fumar aqui, senhor .
olhou para o garoto à sua frente. Ele tinha cabelos castanhos e olhos escuros, mas apesar disso, não emanava nenhum tipo de seriedade. Aparentava ter, no máximo, vinte e dois anos — um fato que faria o detetive duvidar que ele trabalhava para a perícia se não fosse algo tão óbvio. sabia daquilo com toda a certeza! Recentemente, descobrira que todo mundo da perícia era um tanto chato. Suspeitava até que aquela característica fosse um requisito para a profissão.
— Apagar o cigarro vai fazer você encontrar vestígios do assassino mais rápido? — perguntou, como uma criança de cinco anos fazendo birra.
A chuva antes fina agora era constante, e havia esperado horas para conseguir finalmente acessar a sacada do apartamento de Sofia para fumar um cigarro. Todo o tempo que a perícia passara tirando fotos daquela parte do apartamento, porém, não parecia ter sido o suficiente e eles tinham que encher a paciência de enquanto o homem tentava, pelo menos uma vez naquela noite, ter paz.
— Não — o rapaz pareceu confuso. — Mas...
Antes que ele pudesse completar a frase, já havia desistido. Saíra do estacionamento para ter um tempo antes de todo o processo de procura começar de novo. Sabia que, mesmo em um ambiente pequeno como um carro, não seria fácil achar evidências. Nunca era, afinal. E enquanto a perícia recolhia digitais e todos esses afins, os detetives esperavam. , por sua vez, precisava se preparar psicologicamente para voltar àquele velho processo onde, sempre que possível, ele ditava teorias e as pessoas as recusavam.
O problema era que a única maneira de conseguir paz interna, infelizmente, era fumando. E já que, se saísse do prédio, seria atacado por repórteres, pela chuva e pelo frio noturno da Inglaterra, optou pela sacada aberta e arejada do apartamento de Sofia. Só não imaginava que aquilo lhe traria mais raiva do que, de fato, paz.
O rapaz ainda o encarava, e sabia que, com aquela prancheta tão rente ao corpo, ele devia ser algum bajulador do chefe, ou até mesmo alguém novo no trabalho. O olhou mais uma vez dos pés à cabeça, suspirando ao perceber que ele não desistiria. Apagou o cigarro na parte marrom da prancheta que o jovem carregava e jogou o resto da bituca sacada abaixo.
— Você nem é policial — resmungou ao passar por ele e entrar de novo no apartamento. — Quando cientistas começaram a ser considerados policiais? — perguntou à Dave, que estava parado ao lado da porta da sacada, fingindo que não seguia enquanto olhava uma mancha de sangue na parede.
David, porém, não entendeu o comentário e apenas deu de ombros, começando a andar junto a pelo apartamento. Os dois policiais passaram pelo mesmo caminho de antes, entrando no corredor e chegando ao quarto de Sofia. Dave não sabia o porquê de estar voltando lá — talvez o homem pensasse ter deixado escapar alguma coisa —, mas preferiu não perguntar.
andou até a cama de Sofia, mexendo nos ursos de pelúcia espalhados por praticamente todo o colchão. Eram tantas espécies de animais diferentes que Dave pensou, por um segundo, que Sofia pudesse querer ser veterinária ou algo do tipo.
— Então, te pediu pra ficar no meu pé? — perguntou enquanto observava uma pequena joaninha.
Dave engoliu em seco e fez que não com a cabeça. lançou-lhe seu melhor olhar de que não era idiota, devolvendo a joaninha e pegando um tubarão. Dave suspirou.
— Ele pediu, sim — confessou.
riu. Achava realmente divertido o modo como tentava evitar tragédias. Mal sabia ele que, agora, aquele tipo de conduta desesperada não era mais necessária. estava limpo; determinado a ser um exemplo de policial para a sociedade, mesmo que aquilo fosse só mais uma mentira que contava a si mesmo.
De qualquer jeito, desde o que acontecera no Caso Ryan, ele precisava tentar ser mais racional e responsável.
— Não acha que ele te subestima, Dave? — perguntou casualmente, entregando o tubarão e pegando um urso polar quase tão grande quanto ele mesmo. — Digo... Você é detetive, não babá.
Dave franziu o cenho, pensando no assunto. riu internamente de como era fácil manipular pessoas como Dave. Não o culpava, no entanto, de ser alguém tão fraco. A maioria das pessoas era.
uma vez ouviu falar que mentes fortes dominavam mentes fracas. Certa vez, no meio de um caso, repetiu aquilo para uma pequena garotinha que morava em Lamberth. Ela pareceu pensar e então perguntou se, já que era daquele jeito, ela poderia dominar um peixe. Afinal, seu cérebro era maior que o dele. , não muito disposto a explicar que a frase não era no sentido literal, apenas confirmou a teoria da pequena garotinha e observou-a se afastar, contente por descobrir que era forte, afinal.
Alguns dias depois, quando voltou para interrogar uma segunda vez a mãe da criança — que era uma testemunha em potencial —, entrou na casa e, quando sentou-se no sofá e recusou o café que a senhora ofereceu, viu que a garotinha estava ajoelhada de frente para um pequeno aquário. Ela tinha os olhos fixos no peixe dourado ali dentro, entretida, e nem ao menos viu quando soltou uma singela risada.
Dave era como aquela garotinha. Um tipo esperto de gente burra que precisava de alguns toques para perceber como as coisas realmente funcionavam. tinha certeza que, se falasse para a garotinha que ela não podia dominar o peixe, ela tentaria fazer aquilo com o irmão mais novo ou algo do tipo. Afinal, ela era esforçada. Dave também era, mas não sabia mesclar esforço com inteligência, e acabava, muitas vezes, passando por alguém estúpido demais; sendo usado e manipulado.
— É um trabalho — Dave respondeu, apesar de parecer em dúvida. — Se avaliarmos bem, mesmo não sendo um assassino, você também é perigoso.
sorriu. Ali estava a prova de que David, no fundo, tinha potencial.
— É um bom ponto de vista — comentou, devolvendo o urso polar e pegando uma boneca de cabelos vermelhos feitos de pano.
David respondeu alguma coisa, dando continuidade à conversa, mas não ouviu. Distraiu-se com a boneca que estava em suas mãos, notando-a mais pesada do que seria normal para um objeto de pelúcia. apalpou-a, sentindo seu interior duro. Girou-a procurando alguma abertura ou zíper, encontrando algo escondido no topo da cabeça, entre os cabelos mal feitos. puxou o zíper, tirando de dentro da boneca uma garrafa de vidro.
— O que é isso? — Dave perguntou, curioso, aproximando-se de para enxergar melhor.
sorriu ao olhar para a garrafa, segurando-a em uma das mãos enquanto mantinha a boneca na outra. O rótulo estava gasto, mas qualquer pessoa que olhasse poderia dizer que era, de fato, uma garrafa de bebida alcoólica.
— A prova de que Sofia Spilman não era a garota perfeita que todos achavam que ela fosse.

...


— Tá, ela bebia... E daí? — estava no canto do estacionamento, com e Angelina ao seu redor.
Quando soube o que iria acontecer, Dave resolveu não se meter na discussão, enquanto Steven ainda cuidava do carro e do corpo encontrados no estacionamento. Angelina e , então, por serem os mais persistentes, juntaram-se na tarefa árdua de convencer de que tinha alguma coisa errada com aquele caso.
— Existe uma grande diferença entre beber e esconder garrafas de bebida dentro de ursos de pelúcia, . Sofia tinha problemas — argumentou .
— O que isso muda no caso? — Ele questionou.
— Tudo! Se Sofia bebia, podia muito bem ter depressão.
— Podia usar drogas! — Completou Angelina. — Ter dívidas com gente errada.
olhou para os lados. O modo como claramente se esforçava para controlar o volume de todas as vozes na discussão denunciava o quanto ele tinha medo de que alguém ouvisse a conversa. Os três estavam longe do resto do grupo, mas, mesmo assim, não parecia ser o suficiente para que ficasse tranquilo.
— Ela era a adolescente mais rica da cidade. Por que teria dívidas?! — O chefe questionou. Parecia querer acabar logo com a discussão.
— Por que ela moraria em um prédio no centro da cidade, longe dos bairros nobres? — rebateu. — Talvez as coisas não estivessem muito boas entre ela e a família. Talvez Sofia estivesse com problemas financeiros...
— Vou pensar sobre o assunto. — resolveu ceder, cortando-o antes que o homem falasse mais alguma coisa.
— Terminaremos de recolher evidências do carro e juntaremos todas as provas no escritório. Até lá, nada está declarado — ele olhou de Angelina para . — E nenhuma teoria sai desse círculo, entenderam?
Os dois confirmaram com a cabeça e saiu. O medo do chefe de que informações vazassem era quase assustadora. estava começando a ficar realmente paranóico com aquela coisa de repórteres e imprensa; era quase como se ele achasse que existissem espiões escutando as conversas. Precisava urgentemente de um descanso.
— Mas e aí, qual a sua teoria? — A voz de Angelina fez virar o rosto para ela, abandonando a imagem de caminhando em direção a Steven, que estava no meio do estacionamento, ao lado do carro encontrado.
— O quê?
— A sua teoria — ela repetiu. — Sobre o caso.
— Nenhuma — deu de ombros.
— Vamos, . não está mais aqui, pode falar comigo — ela colocou uma mão na cintura, encarando-o com seus grandes olhos azuis. Angelina sabia muito bem como ser convincente quando queria, mas o fato era que não havia nada para se convencer ali.
— Estou falando sério, Angie, não tenho teorias. Parei com isso e agora trabalho do jeito tradicional.
— Eu te beijaria se não soubesse que está mentindo.
— Não estou.
— Se não está mentindo para mim, está mentindo para si mesmo — ela suspirou, de repente adotando uma expressão séria e um tom de voz preocupado. — É o melhor detetive da cidade por um motivo, , e não é por trabalhar do jeito tradicional — então deu um longo suspiro. — Não importa o que aconteceu no Caso Ryan, não é culpa sua. Nessa profissão muitas coisas dão errado, você sabe disso. Não se torture.
estreitou os olhos. Era ironicamente maravilhoso o modo como tanto Angelina quanto qualquer outra pessoa daquele escritório gostava de lembrá-lo do que tinha ocorrido há um ano. Não importava quanto tempo já havia se passado; quantas coisas já haviam acontecido... As pessoas sempre acabavam voltando para aquele assunto.
E muitos diriam que era fraqueza o fato de odiar lembrar o que acontecera naquela noite, quando finalmente solucionaram o Caso Ryan. Ele, na verdade, encarava aquilo como autopreservação. Se mantivesse a mente longe dos últimos acontecimentos, provavelmente conseguiria proteger a própria sanidade.
— Andou lendo livros de autoajuda, Angel? — Zombou, notando que o tom sério daquela conversa estava tomando um rumo indesejado. — Precisa melhorar os seus discursos.
— Eu deveria, mesmo — ela suspirou de maneira divertida. — E você também — acabou acrescentando.
se deixou rir, começando a andar ao lado da parceira pelo estacionamento. Alguns metros à frente estava, como sempre, com o humor péssimo enquanto dava ordens ao pobre Anderson. O garoto anotava tudo o que tinha que fazer em um bloco, pacientemente, com uma dedicação que admitia invejar. Se fosse ele já teria mandado o tio para o inferno há tempos.
— Já tiraram o corpo do porta-malas e a família já foi avisada. — Steven apareceu do lado dos dois, informando-os. — O carro é todo seu, caso queira olhar — virou para . — Mas aconselho que não abra o porta-malas. O cheiro é insuportável. Podemos analisá-lo depois que estiver melhor.
concordou com a cabeça e se aproximou do carro. Angelina, ignorando os avisos de Steven, foi até o porta-malas e olhou em seu interior. A mulher, impassível referente a todos os homens daquele lugar, não se alterou quanto ao odor do local e usou todo o tempo preciso para inspecioná-lo. Seus olhos claros moviam-se com calma, conhecidos por serem quase como os de uma águia. Não deixavam passar nada.
, na parte da frente do carro, sentou no banco do motorista e inspecionou cada detalhe do painel, do volante, do espelho retrovisor, e de tudo o que era possível ser notado. Percebeu o banco acolchoado, o porta-luvas repleto de CDs e papéis, e o som com marcas de dedo nos botões.
— Choveu ontem à noite? — perguntou para Steven, que esperava o homem terminar sua inspeção, pacientemente, do lado de fora.
— Acho que não — respondeu. — Por quê?
— Porque há gotas secas de chuva no para-brisa.
Steven voltou a atenção para o vidro do para-brisa, notando as marcas arrastadas de água e terra seca. Ele chamou um fotógrafo com os dedos e pediu para que ele tirasse uma foto, caso pudesse ser importante.
— Isso é curioso — comentou .
— O quê?
— Esse carro... — mordeu o lábio inferior. — Há algo de errado nele.
, ainda dentro do carro, tinha agora a atenção presa no pequeno som de cor escura. Ele passou os dedos pelos botões até achar o que ligava o aparelho, não se assustando como todos os outros se assustaram quando a música alta começou a tocar.
Angelina, que ainda estava olhando o porta-malas onde, para o seu azar, a caixa de som estava instalada, levou o maior dos sustos ao dar dois passos para trás. fez uma careta em solidariedade a parceira, que levou as mãos aos ouvidos. A música que tocava era algum tipo de punk rock moderno, com gritos e guitarras exageradas, mas não desligou. Deixou que ecoasse por todo o estacionamento, fazendo , que conversava com alguém da perícia do outro lado do estacionamento, olhar em sua direção e suspirar cansado.
Dave apareceu no banco do passageiro e desligou o rádio com certa afobação. O ambiente voltou a ser quase silencioso e todos voltaram aos seus trabalhos, murmurando algumas ofensas desnecessárias a e toda a sua quase falta de noção.
Descobriu alguma coisa? — perguntou David, como se quisesse achar uma justificativa para o ato.
— Bem, esse carro era mesmo de Jared? — ignorou o desespero quase divertido do outro homem. — O banco está ajustado muito para trás, a música não combina e o espelho está torto.
— O que essas coisas têm de tão importante?
suspirou. Odiava o fato de que sempre tinha que explicar alguma coisa a alguém. Chegou a desejar que todos ali fossem como Angelina e usassem o cérebro de vez em quando.
— Jared devia ter, o que... 1,65m de altura? Ele nem ao menos alcançaria o pedal com o banco tão afastado. Quem dirigiu esse carro pela última vez era bem mais alto. A rádio sintonizada é uma que só toca música punk, enquanto no porta-luvas só há CDs de Rock Clássico. O que nos leva à uma música que também não era a dele. O espelho, bem... É óbvio que Jared amava esse carro. Os bancos todos têm capas e o volante nem ao menos está desgastado. Ele ajustaria o espelho para evitar um acidente.
Dave continuou o encarando com aquela expressão confusa e orgulhosa de alguém que não entendeu uma única palavra, mas não quer admitir. suspirou e saiu do carro, apoiando os braços no teto do veículo e olhando David, que, também depois de sair do carro, encarou-o do outro lado.
— Quem quer que tenha dirigido esse carro pela ultima vez, não era nem Sofia, nem Jared — explicou.
— Então quem era? — O outro perguntou.
— É o que precisamos descobrir.

Capítulo 5


Algumas horas depois, saiu, junto com Angelina e Steven, pela passagem de carros do estacionamento, esperando que os repórteres e curiosos estivessem distraídos com , que, por sua vez, saiu pela porta principal do prédio. O homem não fugia do inevitável e, apesar de aquilo ser admirável, achava bem engraçado.
Angelina fez alguma brincadeira sobre gritar com o primeiro repórter que disparasse um único flash, fazendo Steven arregalar os olhos e rir. O fato era que a mulher podia ser bem impaciente quando queria, mas não a julgava por causa de seu pavio curto. Era preciso muita paciência para ser uma policial mulher, e ele sabia daquilo porque, como parceiro de Angelina, testemunhara situações nas quais ele próprio quis acertar um soco em alguém.
— Você não vai gritar de verdade, vai? — Steven perguntou quando viu a primeira câmera aparecer, como se para confirmar que a mulher não seria tão imprudente.
Angelina apenas olhou-o com certo tom de divertimento e riu. acendeu mais um cigarro, sabendo que devia estar parecendo um perfeito viciado naquela noite. Ele realmente não sabia se conseguiria continuar estável caso fizessem perguntas, e ele não tivesse algo nos lábios para impedi-lo de falar o que bem entendesse. Apesar de achar serem apenas respostas superficiais, dizia que tudo o que ele falava era prejudicial à imagem da polícia. E por ser óbvio que ele preferiria tragar ao invés de responder, aquele cigarro era quase uma garantia de que nada sairia de sua boca.
Separou-se de Angelina e Steven, que tinham estacionado seus carros em um ponto diferente do quarteirão. Eles optaram por deixar seus veículos perto do local, enquanto fez questão de ter, no mínimo, quatro residências separando seu precioso Dodge Charger da cena do crime e toda a confusão que dela emanava. Os repórteres seguiram os outros dois, por algum motivo, deixando em paz. Ele agradeceu internamente por aquilo.
Chegou ao carro, procurando as chaves nos bolsos. A fumaça do cigarro preso em seus lábios atrapalhou momentaneamente sua visão, e ele deixou que a chave caísse. Buscou-a no chão, praguejando sobre como deveria colocá-la em um cordão, e levantou-se. O pequeno susto que levou assim que voltou a olhar para a porta do carro o teria feito ficar enfurecido, mas, por sorte, a imagem da pessoa atrás dele o surpreendeu mais do que o próprio susto.
O vidro do carro estava sujo, já que ele provavelmente nunca tinha nem ao menos lavado o veículo, mas ele pode ver, de um jeito ou de outro, o reflexo perfeito de Constance Spilman, parada atrás dele.
— Senhora Spilman? — ele se virou com calma.
Constance tinha retirado os óculos escuros, mostrando claramente o tom verde oliva de seus olhos. Ela encarou-o por alguns segundos antes de mover-se lentamente para mais perto do carro, parando bem ao lado de ao dizer:
— Você deve ser — sua voz saiu vasta, quase casual. Era como se ela não tivesse acabado de perder uma filha.
, pela primeira vez em muito tempo, não soube bem o que fazer.
— Sou eu.
— É o policial do caso Ryan, não é? — perguntou, medindo-o mais uma vez.
Constance, percebeu, tinha o tom verde mais bonito que ele já vira na vida estampando-lhe o olhar, mas, de algum modo, o brilho parecia cansado. Apesar da voz casual, ela tinha a expressão e as marcas de alguém que chorou uma noite inteira. O cansaço era iminente até mesmo em sua postura altamente respeitável e intimidadora. Era óbvio, no entanto, o quanto ela parecia se esforçar para esconder todos os traços de vulnerabilidade.
A citação do caso Ryan, porém, fez o homem perder todo e qualquer traço de compaixão que poderia sentir pela mulher.
— Sou parte de uma equipe inteira que trabalhou no caso, senhora. Qual o motivo da pergunta?
Ela deu de ombros.
— Vi sobre o caso na TV. Achei o que fez muito corajoso, senhor . Mas devo dizer que lamento pelo resultado final da investigação.
— O que isso tem a ver com a sua filha? — Ele resolveu cortar o assunto, indo direto ao ponto.
estava na profissão há tempo suficiente para saber que existia um padrão, então parara de se importar em se iria parecer rude ou não. Estava cansado e queria ir para casa, tomar uma garrafa inteira de whisky e dormir. Não tinha tempo para o luto alheio, e Constance o estava atrasando. Era melhor que ela fizesse logo o seu discurso de mãe perdida; que pedisse para que ele encontrasse o assassino de sua filha acima de qualquer custo. Era melhor apressar as coisas antes que ele perdesse a paciência por completo.
— Eu só queria saber se o caso de Sofia estava em boas mãos — ela respondeu imparcial. — Sei da sua reputação. Ficarei mais tranquila em saber que estará cuidando das investigações.
estreitou os olhos. Toda aquela carga de elogios disfarçados era suspeita demais para sair da boca de uma mulher como Constance Spilman. Era óbvio que ela queria alguma coisa, mas o problema era que não estava disposto a saber o que, exatamente, ela podia desejar. Não naquele momento, pelo menos. Ele só queria ir para casa.
— Fico lisonjeado em ouvir isso — soltou alguma piada interna. — Mas tenho que ir agora. Se eu puder ajudar em mais alguma coisa, pode me ligar — retirou um cartão do bolso do sobretudo e entregou à ela.
Constance olhou para o cartão enquanto abria a porta o carro. A fechadura sempre precisou de certos truques para ser aberta, mas até mesmo ela cooperou naquela noite, abrindo sem pestanejar.
— Na verdade, há algo no que você pode ajudar, sim — a voz dela soou no meio da noite fria, causando uma sensação estranha em . — Eu quero que você encontre o assassino da minha filha, senhor .
Ele se virou de novo para ela, um tanto intimidado pelo tom de voz que a mulher usara. Era algo extremamente diferente da súplica que ele esperava. Sua voz, na verdade, estava carregada de uma confiança e de uma intensidade quase assustadora.
— É o meu trabalho, caso não tenha notado. Sou pago pra isso.
— Não — ela riu miseravelmente do sarcasmo do homem. — Eu quero que encontre o assassino para mim; não para eles — olhou para os repórteres amontoados na porta do prédio, ao longe, como se zombasse e, ao mesmo tempo, temesse eles. — Quero que me traga a pessoa que tirou a minha filha de mim.
— Desculpe, eu não estou entendendo... — ele estava realmente confuso.
— Vou explicar para você, senhor ... — ela sorriu de verdade, dessa vez, e todos os pelos do corpo de se eriçaram.
Constance tinha um sorriso frio e cheio de dentes extremamente brancos. Sua voz se tornou mais baixa e ela colocou o cartão de volta no bolso exterior do sobretudo do detetive.
— Eu vou te pagar o que for preciso para que você ache o assassino de Sofia — disse. — E quando você fizer isso, não o mandará para a cadeia. Você o trará direto para mim.

— Não posso fazer isso, senhora. Meu trabalho é levar o suspeito à julgamento.
— Acho que você não está entendendo... — ela se aproximou mais. Seus olhos transformam-se em fendas, ameaçadores. não recuou, mas também não fez nada para impedir que ela continuasse falando. — Estou oferecendo um acordo amigável. Mas se não aceitar, vou ter que apelar para medidas drásticas.
Ela tirou o próprio cartão da bolsa que trazia embaixo do braço. Os cabelos ruivos brilhavam pela luz pálida da lua, fazendo com que sua imagem fosse mais macabra do que assustadora. Ela era muito parecida com a filha.
— Fique com o meu cartão — ela entregou o objeto ao homem, que aceitou de maneira desconfiada. — E me ligue quando pensar melhor — a mulher começou a se afastar com certa calma. Como se apreciasse a noite, o frio e a lua. — E sugiro que pense bem nisso, senhor — virou-se novamente para ele, acrescentando: — Caso contrário, farei o que for possível para que todos saibam o que realmente aconteceu no caso Ryan.
deixou o cigarro cair de seus dedos. A chama insignificante bateu contra o concreto da calçada e Constance pisou sobre ela, apagando o pequeno traço alaranjado. Olhou para e quase sorriu, como se quisesse parecer amigável. Mas todas as chances de algo pacifico começar entre os dois tinha acabado assim que ela ditou sua última frase.
tentou falar, mas sua garganta seca e sedenta por qualquer tipo de líquido alcoólico impossibilitou-o de emitir uma palavra sequer. Constance disse algum "boa noite" extremamente casual para a situação e, então, saiu em passos tranquilos, perdendo-se alguns metros adiante, dentro da escuridão causada pela falta de postes de luz. Deixando para trás a cabeça confusa de um policial cansado demais para lidar com uma situação como aquela.
segurava o cartão frio de Constance entre os dedos levemente trêmulos. Seu coração batia em um ritmo não muito aconselhável para quem bebia tanto quanto ele. Seus olhos estavam presos no número escrito em letras douradas no fundo branco, e então, ele finalmente começou a se perguntar: Como Constance Spilman, no meio de todas as pessoas das quais ele escondeu a verdade, poderia saber o que realmente acontecera no Caso Ryan?

...


Quando chegou em casa, naquela noite, não conseguiu pregar os olhos nem por um único segundo. Tudo o que a sua mente fazia era girar ao redor das palavras de Constance Spilman, o teor ameaçador tirando cada pequeno fragmento do sono que o homem poderia vir a ter.
Ao seu lado, Natallie , a mulher com quem era casado, dormia tranquilamente. Sua respiração se espalhava pelo quarto e praticamente se infiltrava nas sombras projetadas ao redor do cômodo, deixando silhuetas que chamaram a atenção de por motivos irrelevantes e nada absolutos.
Por fim, decidira levantar e descer as escadas, vendo que ficar ali encarando os móveis não era uma solução. Foi até a cozinha, pegou uma garrafa de água na geladeira e então usou o celular de Natallie, que estava sobre o balcão, para fazer algumas pesquisas que o seu próprio telefone da Era das Cavernas não era capaz de fazer.
Quando desbloqueou a tela, uma foto com quase vinte anos de idade apareceu, mostrando um e uma Natallie jovens demais, os dois sentados sobre a mureta do colégio público que estudavam, se abraçando e rindo como se uma piada realmente boa tivesse sido contada.
lembrava daquele dia: fora a primeira vez que a fizera matar aula. Natallie estava linda com a sua saia de pregas branca e o laço na cabeça. O homem, que naquela época era apenas um garoto, não resistiu em chamá-la para sair, dizendo que, ao longo da sua vida, ela nunca precisaria saber a árvore genealógica da família real de cor.
O mais irônico fora que, na semana seguinte, os dois perderam uma aposta envolvendo aquele assunto, e, até os dias atuais, Natallie fazia questão de lembrar daquilo.
O celular vibrou, fazendo acordar. Era uma mensagem no Whatsapp de um colega de trabalho de Natallie. não abriu o texto, mas o começo da notificação falava sobre a contagem de seringas da ala sul do hospital em que trabalhavam. Algo muito chato e muito irrelevante para que o homem acordasse a esposa.
bocejou e arrastou a notificação para o lado, abrindo o google para digitar o nome da família Spilman, depois de quase trinta tentativas de acertar os botões pequenos com os dedos grossos.
A primeira coisa que apareceu foi a notícia sobre a morte de Sofia Spilman. Havia fotos também, mas censuradas, e fez questão de mandar todos os links para que Angelina mostrasse a um advogado depois. Então continuou fuçando em outras informações, ficando cada vez mais bravo por ver seu nome no meio dos destaques das notícias.
" , detetive prodígio da Scotland Yard, está no comando das investigações junto com a sua equipe composta por nomes como Angelina Devens e . Os dois acompanhando há mais de quinze anos, quando o detetive entrou na Divisão de Homicídios e participou do seu Primeiro Grande Cas..."
"Puta que pariu, , são quatro da manhã!" a mensagem de Angelina invadiu a tela, interrompendo a leitura de . O homem, que percebeu que a amiga ainda digitava, esperou cerca de dez segundos até a próxima mensagem aparecer: "Eu sei que isso é uma merda, mas nós vamos cuidar do assunto amanhã. Vá dormir." e então ficou offline, provavelmente voltando ao seu sono profundo.
sinceramente a invejava. Queria dormir bem como Angelina ou Natallie. Infelizmente, desde o encerramento do Caso Ryan, tudo o que vinha tendo era um acumulado sem fim de pesadelos e insônia. Tudo cada vez pior.
Então, não, não seguiu o conselho da amiga. Ao invés de dormir, ficou no celular pesquisando sobre os Spilman, ficando cada vez mais alarmado pela quantidade de dinheiro que eles tinham. O homem checou até mesmo a árvore genealógica deles — já que da última vez não fazer aquilo lhe deu azar — e descobriu que havia Spilmans por todo o globo! Parecia uma infestação.
Por fim, quase quando estava amanhecendo, caiu no sono. De novo, teve um pesadelo, mas dessa vez não foi com o Caso Ryan.
Foi com Sofia Spilman.

Capítulo 6


Os olhos de eram conhecidos por serem verdadeiros instrumentos de inspeção. Não havia nada que passasse despercebido por aqueles dois globos castanhos, o tom marrom beirando ao negro profundo. Muita gente chegava a dizer que era hipnotizante; quase impossível desviar a atenção uma vez que o contato era estabelecido.
Angelina Devens, porém, sabia que tudo não passavam de histórias contadas para justificar o poder que exercia em algumas pessoas. A maior parte dessas pessoas, ela diria, mulheres solitárias que eram instigadas pelo charme natural do homem; pelo seu jeito reservado e, para muitos, até misterioso. Porém, Angelina sabia que não era nada daquilo. não era misterioso e muito menos tinha olhos mágicos. Ele era apenas alguém que viajava para os cantos mais distantes da própria mente e da mente de qualquer outra pessoa. Era o tipo de homem que conseguia ver todos os seus defeitos; todos os seus medos e suas inseguranças. Conseguia te deixar desconfortável, com medo ou qualquer outra sensação ruim; mas ele também poderia fazer você sentir borboletas no estômago, conforto e felicidade. Era um manipulador da pior espécie.
Vendo-o jogado contra o banco do passageiro, Angelina riu. Se os repórteres que escreviam sobre o misterioso, rude e charmoso melhor detetive de Londres vissem o estado em que o homem se encontrava naquele momento, provavelmente abandonariam as suas carreiras e correriam para lados opostos, se perguntando o que aconteceu com a pose indestrutível de .
A resposta, claro, era bem simples: álcool.
— Já pensou em parar de beber? — Angelina perguntou, tentando segurar a risada quando o carro passou por alguma pedra e o solavanco fez se assustar.
As ressacas do homem eram as piores. Angelina sinceramente não sabia se era ele que bebia demais ou se, simplesmente, o álcool que o detonava naturalmente. Nunca ousou perguntar, no entanto, quantas garrafas de vodca ele costumava misturar com outra bebida qualquer antes de dormir. Sabia que a resposta não seria mais educada do que a que se seguiu:
— Já pensou em cuidar da sua vida?
Angelina riu, fazendo uma curva leve à direita. Ela sabia que costumava beber sempre que um caso novo aparecia, geralmente porque o homem simplesmente odiava ver corpos sem vida. Ele, claro, nunca admitia; nem ao menos aparentava ter essa fraqueza. Ninguém que o visse inspecionar uma vítima no meio de uma cena de crime diria que ele tinha esse trauma, na verdade. Alguns até pensavam que era um homem frio, indiferente a tudo e todos. Angelina não os culpava: se não conhecesse o policial, diria o mesmo.
Mas o fato era que era humano. Ele sentia e sofria psicologicamente por cada cena de crime que visitava, assim como qualquer outro policial, novato ou experiente. A diferença é que ele achava uma saída em cigarros e bebidas, afogando-se na embriaguez. E provavelmente ele tinha feito aquilo na noite passada, quando chegou em casa ainda com a imagem do corpo de Sofia morto em sua mente.
— Estou cuidando, meu amor — ela forçou um tom de voz quase fofo. — Você é a minha vida.
usava óculos escuros, coisa que o ajudava a enfrentar a claridade quase mortal daquele raro dia ensolarado em Londres. Ele arrumou o corpo no banco, pestanejando sobre o desconforto, e então respondeu quase incrédulo:
— Chegamos ao nível mortal de intimidade — era como se ele falasse consigo mesmo. — Aquele no qual eu desejo nunca ter te conhecido.
— Ah, não foi tão ruim! — Ela rebateu, divertida. — Foi fofo! Não é você que me diz que, como uma dama, eu tenho que ser mais fofa?
— É. Mas você sempre manda eu ir pro inferno.
— Agora você sabe o porquê — ela riu.
abriu o porta-luvas, tentando achar algum analgésico ou remédio para dor de cabeça. Os cantos de seu cérebro latejavam como se alguém estivesse batendo em seu crânio com um martelo. Cada nota da voz de Angelina soava como tiros sendo disparados rente ao seu ouvido. Um gosto horrível infernizava o fundo de sua garganta, mas ele sabia que não tinha vomitado; era apenas algum resíduo de álcool que resistiu às três escovadas consecutivas que dera em seus dentes, naquela manhã.
— Estamos chegando? — perguntou, desanimado por não ter achado nada que pudesse ajudar o seu estado físico e psicológico.
Angelina olhou o GPS preso no para-brisa do carro, dizendo logo em seguida que não iria demorar muito para estarem na casa dos Spilman. afundou no banco, não se importando mais com o cinto de segurança e todos esses afins. Seu estômago reclamava pela falta de café da manhã, o carro parecia quente demais. Tudo estava um perfeito desastre, e ele sabia que a maior parte de toda aquela tensão era porque ele havia ficado responsável pelo maldito Caso Spilman.
Sua vida estava pior do que nunca e ele havia ficado responsável pelo Caso Spilman; fazia sol em Londres e ele havia ficado responsável pelo Caso Spilman. Angelina cantarolava no volante, ele havia ficado responsável pelo Caso Spilman.Tudo era a droga do Caso Spilman!
— Melhore essa cara — Angelina aconselhou, fazendo-o acordar do transe depressivo que entrara. — Ou os Spilman vão acabar confirmando a suspeita que todo mundo tem: você é um ser humano horrível.
revirou os olhos, sem disposição nenhuma para as piadinhas de Angelina. Chegou a achar aquela situação irônica, levando em conta que, geralmente, era ele quem tirava a mulher do sério. Realmente, o mundo dava voltas.
— Pensei que isso já tinha passado de suspeita para certeza.
— Estou tentando te dar um crédito aqui, — ela brincou.
Angelina fez outra curva, dessa vez menor e mais rápida. O carro parou e tirou os óculos escuros, tentando enxergar melhor o cenário à sua frente. A luz machucava sua visão sensível demais para alguém como ele, que gostava de ver detalhes, e o homem se sentiu completamente inútil e incapacitado quando nem ao menos conseguiu ler o que estava entalhado no ferro do portão à sua frente.
— Chegamos — Angelina anunciou.
Ela deixou o motor ligado enquanto se inclinava na direção do interfone pregado em uma parede de tijolos brancos, que parecia contornar todo o terreno. esticou o pescoço para tentar enxergar até onde, de fato, aquela pequena muralha ia, mas uma dor aguda o fez voltar para a posição anterior, xingando um Deus que ele nem ao menos acreditava e fazendo Angelina ter que segurar o riso enquanto respondia um homem de voz robótica do outro lado do aparelho.
parou para observar a entrada da casa dos Spilman, finalmente reconhecendo o grande S perdido por entre o ferro que compunha o desenho gótico do portão. Era belo, ele admitia, mas causava arrepios. Parecia a entrada de algum cemitério. O que ele podia ver de dentro da casa, mesmo ao longe, também não agradava nem um pouco
O jardim parecia bem cuidado, a grama bem aparada, as flores bem regadas... Mas era tudo, de uma forma ou de outra, morto.
Então o portão se abriu de uma forma lenta e dramática demais, um bip no interfone indicou que a linha tinha sido cortada e Angelina mudou a marcha do carro, acelerando e entrando na grande residência dos Spilman.

...


Quando os dois policiais passaram pela porta de madeira escura, imediatamente sentiu vontade de voltar para o carro e tentar achar alguma garrafa de bebida que pudesse fazê-lo se distrair por cinco minutos. Toda a casa, o jardim e até mesmo a varanda da frente da casa dos Spilman era ridiculamente extravagante. Vasos, lustres, luzes, pisos brilhosos... não conseguia suportar tudo aquilo. Era exagerado demais para os seus costumeiros apartamentos de subúrbio, sua simplicidade natural e, principalmente, a sua ideologia atrasada de que ele tinha que odiar gente rica.
— Por favor, me acompanhem — a empregada que abriu a porta foi educada. — Vou levá-los até o senhor e a senhora Spilman.
e Angelina se entreolharam. Não comentaram nada, porém. Não era preciso palavras para que eles entendessem que, de fato, era estranho o tom exageradamente simpático que a mulher usou para falar com os dois. Policiais geralmente não eram bem tratados uma vez que sempre havia luto ou raiva por trás das pessoas que conduziam uma conversa com eles. Eram raras as situações em que os dois ou qualquer outro membro da equipe presenciavam bons modos.
Seguiram a mulher para dentro da casa. O ambiente era escuro, silencioso e frio. O barulho dos três pares de sapatos era incômodo e fazia se contorcer de dor internamente. Queria pôr os óculos; queria voltar para o carro e escutar apenas as provocações de Angelina. Queria ser uma planta e não precisar lidar com seres humanos. Ele queria muita coisa.
Aos poucos, pode notar o ambiente se iluminar. Era quase como se uma janela tivesse sido aberta. Uma divisória em forma de arco passou por cima de sua cabeça e então ele se viu entrando em um cômodo extremamente grande, com quatro pessoas espalhadas por ele. O cérebro de começou, a partir daí, a processar tudo mais lentamente. A ressaca e os traços de álcool em seu sangue faziam-no mais lento que o normal, mas Angelina, ao seu lado, conduzia tudo com tanta eficácia que ele nem ao menos precisou disfarçar seu estado deplorável. Então o homem apenas concordou com a cabeça quando a parceira se apresentou, dizendo que eram policiais e que precisavam fazer algumas perguntas rotineiras para ajudar nas investigações.
deixou a voz de Angelina sumir aos poucos, acostumado com aquilo, sabendo todas as palavras que a mulher dizia de cor. Observou as quatro pessoas na sala, a empregada que deixara o cômodo com pressa, as portas de vidro que davam para um jardim extenso e claro. Observou Constance sentada no sofá da esquerda, com uma xícara bege nas mãos, tomando o tão famoso chá Londrino. Bernardo estava em pé, aparentemente inquieto demais para conseguir ficar parado, e mantinha as mãos cruzadas atrás do corpo, usando um terno cinza perfeitamente passado e os cabelos negros e meio grisalhos penteados pra trás. Marie estava no sofá da direita, com a psicóloga ao lado. E , como um déjà vù da noite passada, apenas acolhia a menina em seus braços.
— Sentem-se. — Constance falou depois de um gole de chá.
A voz da mulher fez a pele de se arrepiar, toda a cena da noite anterior aparecendo para assombrar a sua mente. Ele manteve os olhos fixos nela durante todo o trajeto que fez até o sofá do meio, entre o da direita e o da esquerda, sentando-se ao lado de Angelina e tentando ameaçá-la quase tanto quanto ela o ameaçava apenas com a sua presença. Constance, porém, parecia inatingível. Ela nem ao menos se importou em olhá-lo, mantendo toda a sua atenção e todo o seu foco na xícara agora vazia em suas mãos.
— Traga um chá para os convidados — ela pediu para empregada, que milagrosamente estava de volta na sala. — E um para mim.
A mulher saiu tão rápido que nem teve a chance de dizer que não bebia chá. Angelina acomodou-se no sofá, sentando-se no extremo do acolchoado, tentando ficar mais perto de Constance. permaneceu jogado contra o encosto, mesmo que de um modo quase educado, e não fez muita questão de iniciar o processo de perguntas e respostas. Angelina era melhor com aquilo, então ele a deixaria comandar. Interviria apenas quando necessário.
— Marie — Constance pegou a xícara que a empregada entregava a ela sem ao menos olhar a moça, mantendo o foco completo na filha mais nova. — Vá para o seu quarto.
A menina pensou em pestanejar. Seus olhos castanhos suplicaram pela chance de permanecer na sala, mas a postura de Constance não cedeu, e Marie suspirou; os ombros rendendo-se à decepção. passou os dedos pelo cabelo da moça, como um consolo, e então murmurou algum incentivo que fez a menina se levantar, mesmo que relutante, e atravessar o tapete que ficava entre os três sofás, sumindo por algum corredor.
— Espero que não seja necessário que ela fique aqui — Constance comentou, apesar de já ter se livrado da menina. — Ela é apenas uma criança.
quis alertar que 16 já era uma idade intermediária, mas manteve-se quieto. Angelina disse que estava tudo bem, que conversariam com ela depois, de um jeito mais apropriado, e Constance concordou com a cabeça. Sua postura, enquanto tomava mais uma xícara de chá, era inabalável, enquanto Bernardo continuava em pé, com os braços cruzados e o olhar pensativo. parecia pesar por Marie, deixando as mãos sobre o colo e sentando-se numa posição formal e curiosa, a blusa horizontalmente listrada não ajudando em nada o ar profissional que ela queria tomar.
Olhando-a mais de perto, podia tirar algumas conclusões: altura mediana, pele bronzeada demais para alguém que mora em Londres, tipo físico de curvas fartas e cabelos cheios e pigmentados de um castanho quase raro. Ela certamente não era de Londres. Ele só precisava saber de onde, exatamente, ela tinha vindo.
perdeu muitos segundos inspecionando a mulher. Se ela percebera ou não, ele não sabia, mas deixou seus olhos avaliarem cada detalhe da moça sentada à sua direita, e, por algum motivo, não simpatizou com ela. Alguma coisa em o incomodava.
— Senhor ?
virou na direção da voz da empregada. Ela falava baixo para que só o homem pudesse escutar, trazendo consigo um bule branco de porcelana visivelmente delicado demais para estar perto de alguém como .
— O senhor quer mais chá? — perguntou, recebendo um não como resposta.
A mulher saiu enquanto Angelina ainda fazia perguntas aos Spilman. ouviu uma ou duas das respostas, conseguindo guardar algumas informações úteis em seu subconsciente. As palavras eram fáceis demais, o tom era triste demais, o tremor não existia. Só havia dor ali. A dor de uma família em luto. E talvez mais alguma coisa que ele quase começava a identificar.
Notou que ainda olhava inconscientemente. Agora, porém, ela o olhava de volta. E aconteceu algo ali que fez sorrir de lado, quase imperceptivelmente, quando notou o ar de provocação misturado à timidez que reinava nos olhos dela. Como se a mulher o desafiasse, como se estivesse curiosa para saber qual era a fixação do homem em sua pessoa.
Ela tinha olhos grandes e escuros, aparentemente providos de algum tipo de inocência rara. Sua expressão diante da conversa entre Angelina e os Spilman era curiosa, interessada e alerta. Parecia atenta a cada detalhe, cada palavra e cada pausa. Acompanhava tudo em alta definição, como se achasse importante, e não confiou nela naquele momento. Não confiou na postura ousada de profissional contradizendo com o jeito tímido de suas mãos brincando com o tecido da blusa. Ele não confiou no modo como ela parecia extremamente interessada, mas não abria a boca para opinar. Não confiou em nenhuma das contradições dela.
podia sentir que sabia de alguma coisa. Podia praticamente ouvir as palavras trêmulas saindo dos lábios mentirosos dela.
— Acho que ela não tinha inimigos na faculdade... — a voz de Bernardo surgiu ao fundo de sua mente, como se ele estivesse em outra dimensão.
Era assim que as coisas aconteciam quando tinha uma ideia. Os movimentos ficavam lentos, quase em câmera lenta; os sons sumiam e as imagens borravam-se como num quadro manchado. Tudo era devagar e calculado, só sua mente trabalhava em alta velocidade. Mas naquele momento, com os olhos estreitos de encarando-o com aquele misto irresistivelmente curioso de dúvida e provocação, tudo em sua mente parecia trabalhar três vezes mais rápido.
— Senhor Spilman... — decidiu que era a hora de falar. Cortar aquela fixação e acabar de vez com a monotonia que Angelina insistia em conduzir. — Posso fazer uma pergunta?
transferiu a atenção lentamente para Bernardo, como se não quisesse abandonar a imagem de tão facilmente. Angelina estranhou o ato, e o tempo perdido em tentar perceber a situação fez com que ela não conseguisse impedir quando Bernardo Spilman fez que sim com a cabeça. Antes que a mulher pudesse falar qualquer coisa, porém, o fato ocorreu, e talvez aquele tivesse sido o pior dos limites ultrapassados por .
— O senhor matou a sua filha?
A pergunta ficou no ar por alguns segundos, provavelmente porque nenhum dos presentes quis acreditar que tal coisa tinha sido dita. Constance Spilman, sentada sobre o seu sofá caro protótipo de um trono de rainha, deixou a xícara bege que tinha nas mãos cair quando levantou o rosto para olhar com desprezo. O policial permaneceu imóvel, sem desviar sua atenção de Bernardo, enquanto Angelina Devens continha o impulso de levar a mão ao rosto e se esconder de vergonha e indignação.
— O... O quê? — Bernardo partiu o silêncio. Era quase como se sua voz estivesse acompanhando o barulho agudo da xícara quebrada ao chão, cada tom de seu timbre fazia o coração de Angelina doer.
— Eu perguntei se o senhor matou Sofia. — repetiu com paciência. Uma espécie de brincadeira queimando o seu olhar enquanto ele falava. — Ou se a estuprou durante a sua adolescência. Qualquer um dos dois.
Até a empregada participou da cena que se seguiu, onde todos olharam , desacreditados. Bernardo, e, até mesmo, a fria senhora Spilman não deixaram de checar se o que tinham ouvido era mesmo verídico. Mas foi só quando Bernardo cruzou a sala e pegou pelo colarinho de sua camiseta que a situação realmente se concretizou.
Uma ou duas lágrimas escorreram pelo rosto de Constance Spilman quando gritou, assustada com o sangue que escorreu do nariz de quando Bernardo acertou-o com um soco. O homem batia o policial contra a parede e gritava coisas desconexas enquanto chorava, completamente transtornado, e permanecia imóvel enquanto Angelina tentava, à todo custo, separar os dois homens.
Quando, com a ajuda de Louisie, a policial finalmente conseguiu tirar Bernardo Spilman de cima de seu parceiro, o sangue ainda pingava do nariz de e todas as pessoas da casa, incluindo empregados, jardineiros e seguranças, estavam paradas em volta do tapete de camurça claro, observando a cena.
Angelina ordenou que os seguranças se afastassem quando fizeram menção de se aproximar. Bernardo respirava com dificuldade, ainda encarando com uma fúria quase sobre-humana no olhar, e tudo ficou em silêncio mais uma vez antes que balbuciasse algo.
O som abafado da voz de fez a empregada correr para fora do lugar, provavelmente achando que a cena anterior iria se repetir, e Bernardo começou a gritar com os empregados que permaneceram, mandando-os fazerem as suas devidas tarefas. Naquele pouco tempo de esquecimento, enquanto Constance Spilman limpava as lágrimas do rosto e Bernardo dava ordens aos seguranças para que tirassem da residência, Angelina pode virar-se para o seu parceiro e olhá-lo com fúria.
Então, com o próprio sangue manchando os dentes, repetiu o que antes não passaram de palavras manchadas pela confusão que ele mesmo causou:
— Acho que ele é inocente.
Angelina conteve o impulso de soltar um riso irônico. Estava brava demais para fazer aquilo. Queria ela mesma acertar um soco em e descontar a indignação que sentia. O que ela fez, porém, foi perguntar em um tom raivoso demais, mesmo para ela:
— Ah, você acha, é?

Capítulo 7


Do outro lado da cidade, David Smith e Steven Hemmings prestavam uma visita à família de Jared Norton, o rapaz encontrado no porta-malas do carro estacionado no prédio de Sofia Spilman.
Diferentemente de e Angelina, os dois foram recebidos de uma maneira um tanto peculiar. A casa de Jared era uma mansão imensa e branca de paredes lustradas e jardim bem podado, o que não foi a coisa que os intrigou. Até ali era tudo muito normal. Excentricidades em geral que já esperavam encontrar em uma casa tão grande como aquela.
O que os intrigou, na verdade, foi o pequeno interfone preso ao lado da grande porta de entrada — um artefato polido e branco, como todo o resto —, porque já haviam se apresentado para o guarda no portão da entrada da casa, quando chegaram ali. Era como se o lugar precisasse de segurança excessiva, mais do que alarmes de segurança e homens fardados pudessem proporcionar.
De qualquer jeito, os detetives se apresentaram outra vez, logo sendo convidados para entrar. David retirou os sapatos quando percebeu a pilha de pares em uma sapateira ao lado da porta, assustando-se com a empregada que havia surgido do nada para pegá-los e colocá-los junto aos outros. O mesmo aconteceu com Steven, e os dois se entreolharam em trocas silenciosas de constatações, coisa que só os anos de parceria que tinham poderia transcrever.
— Oh, vocês chegaram!
Junto com a voz calejada veio um senhor de pelo menos sessenta anos. Ele se aproximou dos dois detetives e os cumprimentou com apertos de mãos apressados, dizendo que seu nome era Aidan Norton e que ele era pai de Jared.
— Por favor, me acompanhem — disse, conduzindo-os para dentro.
Passaram por duas salas amplas e claras, incrivelmente arejadas. Havia móveis vazios por todos os lados e poucos objetos nas estantes. Parecia que não havia ninguém morando ali, mas tudo mudou quando entraram em um cômodo que rapidamente notaram ser o escritório de Aidan.
Havia paredes com estantes repletas de livros, uma mesa de madeira no centro, luminárias de tom laranja e quadros visivelmente caros. Os detetives sentiram que o cômodo era mais que um escritório; soava, na verdade, como um santuário ou uma biblioteca. A mini geladeira e a quantidade de itens pessoais ao redor indicavam o quanto de tempo que Aidan passava ali.
O anfitrião ofereceu lugares para que eles se sentassem, e tanto Steven quando David não recusaram o conforto de duas poltronas de couro legítimo. Aidan também colocou whisky em três copos, mas este os policiais tiveram que recusar.
— Onde está a sua esposa? — perguntou David quando Aidan sentou na poltrona em frente a eles e os dois perceberam que ela não viria.
O velho deu um longo e pesado suspiro.
— Greta sofre de uma doença degenerativa que a paralisou e afetou os seus músculos — disse com calma. — Ela toma muitos remédios para que aguente a dor, então fica a maior parte do tempo dopada. Agora está dormindo, mas, se quiserem, podem voltar quando ela estiver acordada.
Steven limpou a garganta, sentindo-se um pouco mal. Então disse que não era necessário e que poderiam fazer todas as perguntas a ele.
— Então, o senhor sabe nos dizer qual a ligação exata entre Jared e Sofia Spilman? — foi a primeira pergunta de Steven. — Eles eram namorados?
Aidan franziu o cenho como se estivesse buscando respostas. Então, depois de um tempo, soltou um "oh!" de reconhecimento e disse:
— Sofia Spilman! Ah, aquela família! Não consigo imaginar o que os dois estariam fazendo juntos. A menina não era o tipo de garota por quem Jared costumava se interessar — comentou, pensativo. — Meu filho gostava das encrenqueiras! — riu. — Era como o pai!
Steven e David riram também. Aidan parecia um avô doce e gentil comentando pequenos fragmentos de sua trajetória. Aquilo fez Steven pensar em algo:
— Jared tinha um irmão? Alguém a quem pudesse contar sobre a sua relação com Sofia Spilman?
Aidan balançou a cabeça.
— Ele era filho único — respondeu, de repente mais sério. — Greta e eu nunca conseguimos ter filhos até Jared vir. Tentamos por anos e falhamos, por isso somos pais velhos — brincou de maneira triste. — Depois de seu nascimento, a minha mulher ficou mais fraca e as chances de uma segunda criança diminuíram. Jared era o único herdeiro dessa família.
Steven e David concordaram com a cabeça. De repente tudo pareceu mais triste, como se até aquele momento Aidan não tivesse notado que tudo era real. Seu menino estava morto.
— Um melhor amigo, talvez? – David arriscou, quebrando o silêncio.
O velho Norton levantou o rosto como se tivesse levado um susto, então balançou a cabeça positivamente e disse:
— Há um rapaz que andava com Jared e com Sofia de vez em quando. Vocês querem conversar com ele? Acho que tenho o nome por aqui — disse, levantando-se. Andou até a mesa de madeira escura no centro da sala e pegou uma agenda. — Charlie — recitou, logo lamentando: — Desculpe, mas só tenho o primeiro nome.
— Faz alguma ideia de onde esse garoto pode morar? — perguntou Steven. — Tem qualquer outra informação?
— Não — se desculpou Aidan. — Eu só tenho o primeiro nome porque os ouvi conversando uma vez. Jared era bem reservado quanto às suas amizades. Sempre se esquivava do assunto.
David e Steven concordaram com a cabeça em silêncio. Estavam pensando sobre como aquele tal de Charlie poderia ter alguma relação com a morte de Sofia e de Jared. Era muito estranho que Norton não quisesse falar sobre o amigo quando questionado pelo pai. Por que esconderia a identidade de alguém? Teria Charlie alguma coisa a ver com a morte dos dois? Na verdade, seria ele um inimigo? O assassino?
Steven e David terminaram de fazer as perguntas, sempre vendo Aidan ser bastante prestativo. Então agradeceram, foram embora e voltaram para a Scotland Yard, onde fizeram relatórios e perceberam que e Angelina estavam muito atrasados.

...


De volta à casa dos Spilman, havia superado a confusão com Bernardo. Àquela altura segurava um pedaço de pano perto dos lábios, estancando o sangue que insistia em escorrer pelo seu nariz. Andava com tranquilidade pelo corredor do segundo andar da casa de Constance, observando com calma todos os pequenos detalhes que transformavam aquele lugar em algo tão naturalmente dramático — não porque gostava da decoração dos Spilman, mas porque tentava fazer o tempo passar mais rápido.
Angelina ainda estava no andar debaixo pedindo desculpas pelo comportamento do parceiro e tentando continuar as perguntas de onde parou. Com certeza estava se esforçando muito para reconquistar a confiança de Constance e Bernardo, contando com a cooperação de para não fazer mais nenhuma besteira enquanto ela não estava por perto.
Claro que, para garantir a falta do caos, ela tinha mandado esperar no carro, mas o homem obviamente não a obedeceria. Preferia enfrentar a fúria de Angelina a ficar mais um minuto dentro daquele carro que, àquela altura, parado no sol há tanto tempo, deveria estar um forno.
Sair e passear pela casa dos Spilman, procurando problemas, aparentava ser uma alternativa bem melhor. sabia que sempre que encontrava dificuldades e escândalos automaticamente encontrava respostas. Era como um círculo vicioso. O único e real impedimento para os seus planos era o fato de que Angelina estava realmente brava com os últimos acontecimentos. O detetive desconfiava que qualquer deslize faria com que ela mesma terminasse de quebrar o seu nariz.
não a culpava por estar tão desacreditada. Os dois sabiam que poderia ter arrumado um jeito menos estrondoso de conseguir sair daquela sala, se livrando das partes chatas do interrogatório — que ele odiava quando notava que não renderia nada produtivo — de uma forma pacífica. Mas ele não faria aquilo, claro que não.
sempre gostou do drama. Preferia deixar, mesmo que inconscientemente, uma marca. Algo que fizesse com que os outros lembrassem dele — e não por ego, simplesmente, mas porque sabia que, uma vez que os Spilman o odiassem, passariam a confiar em Angelina. Você sempre simpatiza com alguém que está do seu lado, mesmo que indiretamente, e tanto Bernardo quanto Constance deveriam ter percebido o modo como Angelina odiara no momento em que toda a confusão havia se instalado. Devens, então, faria o resto do trabalho por si só: pedindo desculpas, sendo simpática em dobro... Todos aqueles artifícios que sabia que a mulher seguiria, mesmo que não estivesse por dentro de seus planos, simplesmente por ser uma pessoa sensível e compreensiva por natureza.
E enquanto ela fazia a sua parte, fora gentilmente escoltado para fora da casa, uma empregada em seu encalço oferecendo algum tratamento para o ferimento no rosto do homem e recebendo um não como resposta. apenas pediu algo para estancar o sangue, e quando a mulher se virou para ir em busca do requisito, o policial voltou a adentrar a casa, subindo as escadas furtiva e silenciosamente, rasgando alguma cortina para conseguir por si só o pedaço de pano que o ajudaria com o problema do ferimento. Os Spilman certamente não sentiriam falta de um pedaço de cortina, não é?
Agora estava ali, andando pelo corredor largo, amplo e alto, observando os móveis com flores sempre do mesmo tom; os quadros nas paredes e o chão que mostrava o seu reflexo. As portas passavam à sua direta e esquerda, todas tão iguais e entediantes que, se não fosse pela dor em seu nariz, teria dado meia-volta para sofrer com o quase calor do carro, enquanto tirava algum cochilo.
Só não fez aquilo, na verdade, porque uma porta entreaberta chamou a sua atenção. Um rastro de luz esbranquiçada escorregou pelo corredor e atiçou sua curiosidade sempre muito perigosa. andou até a porta, parando à sua frente antes de encostar as pontas dos dedos contra a madeira e empurrá-la com cuidado. Ele não escutou nenhum rangido, como seria normal nas casas mais antigas de Londres, mas não era preciso muita movimentação para ser notado em uma casa como aquela.
Assim que a porta se moveu e ele pôde ver o interior do cômodo, Marie Spilman levantou o rosto bruscamente, como quem leva um susto, e olhou na direção de . O homem permaneceu parado, percebendo o cenário à sua volta apenas para confirmar o seu palpite de que tinha chegado ao quarto da mais jovem dos Spilman.
Olhou-a mais uma vez, a garota estava sentada em uma cama de casal extremamente grande, tão alta que seus pés não tocavam o chão e suas sapatilhas pendiam nas pontas de seus dedos. esperou que ela gritasse; que ela saísse correndo ou que o empurrasse e então batesse a porta em sua cara, mas a única coisa que aconteceu foi o som baixo, porém firme, de sua voz tomando o ambiente:
— Você está sangrando — ela estreitando os olhos.
olhou para o pano ensanguentado em suas mãos, depois para ela, e então deu de ombros.
— Seu pai — foi o que ele disse, esperando que não tivesse de explicar.
Uma ruga se formou entre as sobrancelhas de Marie enquanto ela deixava a cabeça pender levemente para o lado, observando-o.
— Você deve ter merecido. Meu pai não costuma perder o controle.
adentrou o quarto. Um ou dois passos que achou ser o suficiente para demonstrar que não pretendia sair dali agora que tinham iniciado uma suposta conversa. Marie não pareceu se incomodar e apenas continuou sentada, com as mãos sobre o colo, brincando com os próprios dedos.
— Ele é um bom homem. — disse.
Ela pareceu intrigada.
— Você não ficou com raiva? — perguntou. — Digo, por... — e apontou para o próprio nariz.
riu.
— Se eu fosse ficar com raiva de todo mundo que já me deu um soco, querida, não sobraria uma única pessoa para gostar.
Marie sorriu fraco, curiosa com o homem. se aproximou mais ainda, sentando-se no chão, sobre o tapete felpudo rosa que a menina tinha na frente da cama. Cruzou as pernas e olhou para a mais nova dos Spilman, estabelecendo aquele contato visual que muitos julgariam perigoso se, o que ele quisesse, na verdade, não fosse simplesmente fazer uma pergunta.
— Vocês eram próximas?
Marie desviou o olhar, voltando a encarar as próprias mãos. Parecia tão pequena e tão frágil no meio daquele quarto enorme que cogitou, por um momento, simplesmente deixá-la em paz. Mas ele sabia que não podia fazer aquilo. Ignorar Marie como Angelina ignorara era um erro. A menina obviamente seria uma das chaves para achar o assassino de Sofia, caso ele não fosse um sádico maluco e sim alguém conhecido. Ela era exatamente a pessoa que eles procuravam: quem conhecia Sofia melhor do que ninguém. Marie quase era a própria Sofia.
A menina fez que sim com a cabeça.
— Marie, eu vou ser sincero com você — o homem mudou o tom de voz, antes perto do delicado. Agora havia seriedade e tensão, tentando transparecer o que acontecia. — Nós não temos muita coisa sobre o assassino da sua irmã — observou enquanto ela levantava os olhos, motivada pelo desespero e pelo sentimento de injustiça.
Ele a entendia, afinal. Ter o que muitos diziam ser o melhor policial de Londres sentado à sua frente, praticamente dizendo que seria difícil achar quem matou a sua irmã mais velha, podia, sim, ser revoltante. Muitas pessoas gritariam com ele; exigiriam justiça e esforço. Marie apenas apurou os ouvidos.
— Vou precisar da sua ajuda. — confessou. — Você entende?
— Eu não sou burra — ela não usou um tom de voz malcriado, mas parecia irritada diante da postura do homem. — E não me trate como uma criança, policial. Não haja como se eu não entendesse tudo o que está acontecendo ou como se eu fosse algum tipo de objeto.
sorriu. Estava começando a realmente gostar dela. Podia ver um brilho diferente em seu olhar; uma espécie de chama movida por ódio e mágoa. Marie não gostava dele, mas acima de tudo, tinha esperanças para depositar no homem e certamente o admirava pelo seu trabalho.
— Se é assim, posso fazer uma pergunta? — ele levantou uma sobrancelha.
Ela deu de ombros, indicando indiferença. apurou os lábios em um sorriso quase inexistente, perto de conspiratório.
— Você matou a sua irmã?
Marie não se alterou, e apesar do brilho magoado no olhar cheio de luto, a menina não vacilou nem por um segundo ao responder:
— Eu a amava.
Aquilo foi o suficiente. se levantou, animado com a resposta de Marie. Limpou as calças, mesmo sabendo que aquele tapete deveria ser mais limpo que suas próprias mãos, e olhou o quarto em que estava. As fotos dela com Sofia dominavam todos os quadros; havia pôsteres de bandas, cantores e de filmes nas paredes. Ursos de pelúcia, CDs de astros teens... Nada muito diferente do que ele esperava encontrar no quarto de uma garota de 16 anos.
A não ser, é claro, a própria garota. Ela, sim, passou longe de todas as suas expectativas. Principalmente quando ele perguntou:
— Se eu te pedisse ajuda para encontrar o assassino de Sofia, você se disponibilizaria? Mesmo que tivesse que mentir para os seus pais?
Marie pareceu levar algum tipo de choque. Ela ficou paralisada por alguns segundos, visivelmente em guerra consigo mesma. Deveria ela confiar no policial estranho? O que ele queria dizer com ter de mentir para os seus pais?
Ela pensou em sua irmã; no quanto a amava. Pensou na curiosidade que começava a corroer seus ossos, querendo saber o que a aguardava caso aceitasse a proposta. Tentou imaginar quais seriam as consequências de seus atos, mesmo que ela nem ao menos soubesse o que teria de fazer.
No final, chegou à conclusão de que já não tinha mais nada a perder.
— Sim.

Continua...



Nota da autora: Espero que tenham gostado. Caso sim, não esqueçam de comentar (sua opinião é MUITO importante pra mim) <33
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Beijão, <33




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