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Última atualização: 14/04/2017




- Maria, eu não acredito que você fez isso comigo!
- , deixa de besteira. Você sabe como eles são importantes para mim. E eu achei uma ótima ideia. Nada melhor para animar uma festa do que uma banda como a deles.
deixou a amiga falando sozinha e foi atrás de alguém que não gostasse deles também.
Era mais ELE do que eles. até gostava dos outros, o problema era ele. . E Maria, querendo ou não, também era melhor amiga deles. Não tinha como deixar de convidá-los para sua festa de aniversário. O que não entendia era por que Maria também tinha que fazer questão que eles tocassem na festa. Sim, tinha uma banda com seus amigos, o All Time Low.
O ódio a consumia só de pensar no nome daquele ser. Era mais do que um castigo ter que ouvir a voz de cantando aquelas músicas idiotas dele.
- Porra, eu venho numa festa para me divertir e tenho que ouvir essa bicha. – se postou ao lado de outra amiga, .
- Ah, . Não fala assim, você sabe que eu gosto do e adoro vê-lo tocando. Ele e os meninos.
rolou os olhos mais uma vez, por que ela tinha que arranjar amigas que conviviam com o garoto que ela detestava mesmo? Por que simplesmente não podia encontrar novas pessoas legais para sair?
- Preciso de amigas novas. E de preferência que nem conheçam ou ou ou .
- As pessoas legais gostam deles. – cutucou a amiga.
- As pessoas legais não fazem ideia de quem eles são. – piscou de volta.
- Então acho melhor você mudar de cidade. Ou até de estado... Hum... É melhor você se mudar logo para o Canadá.
- Ah, , vai se ferrar. Fica olhando pro seu namoradinho vai, eu vou lá dentro.
Maria tinha que ser uma ótima amiga mesmo. Só assim para conseguir suportar olhar nos olhos de .
devia sua vida a Maria. Ela era a melhor pessoa que alguém poderia encontrar! Não era uma amizade de infância, mas elas consideravam de berço. Elas se conheceram na oitava série, havia um ano que tinha se mudado para Maryland, foi de cara que a amizade fluiu, bastou apenas que fossem apresentadas para nunca mais pararem de se falar.
Maria tinha um coração enorme e a ajudara a passar pelos seus momentos mais sombrios, foi ela, inclusive, que suportou toda a fase pós- de , com seus conselhos muito bem colocados. duvidava que teria conseguido sobreviver àquele tempo sem a ajuda de Maria.
A história das duas se misturou ao do All time low quando entraram no colegial. De um lado, duas garotas que chamavam a atenção, do outro, quatro garotos simpáticos e talentosos. Era quase impossível que o encontro dos dois grupos não acontecesse, mas para isso foi preciso uma pessoa.
se tornou amiga de Maria nos ensaios das líderes de torcida. Maria já era cotada para a vaga antes mesmo de se matricular na escola, ela era linda, cabelos pretos – o que chamava atenção, já que grande parte das líderes eram loiras – com cachos nas pontas que davam um charme especial, olhos castanhos, lábios bem desenhados e para completar: sabia dançar e fazer aquelas coisas todas que uma líder faz. Isso a fez o sonho de cada garoto daquela escola e Maria sabia tê-los nas suas mãos.
Então, começou a namorar , o da banda e logo, também entrou na patota.
Mas ao contrário de Maria e , era preguiçosa demais para ser líder de torcida. Ela preferia ficar na arquibancada comendo cachorro-quente e pipoca do que estar lá embaixo animando. Além disso, todo o talento que tinha para dançar foi substituído pelo talento para as artes. Gostava mais do trabalho feito no basckstage do que no palco. Sua atividade no colégio era voltada para o jornal, onde escrevia artigos e publicava suas fotos.
Eles formaram um grupo coeso, de sucesso, até o começo do último ano... Quando algo mal explicado aconteceu nas férias e não conseguia mais olhar na cara de .
E agora estava ali na festa da sua melhor amiga, tendo que aguentar o seu ‘arquiinimigo’. Que afronta!
Se jogou no sofá aproveitando que estava vazio e ficou morgando, esperando a sua festa recomeçar, tomando coca batizada com vodka.
- Ai, que menina sem graça! – Maria sentou de um lado, enquanto sentou do outro. – Não acredito que você vai ficar aí toda desenxabida só por que os meninos tão tocando!
- Animação, ! – tentou – Não é todo dia que uma amiga sua traz vários gatinhos para dentro de casa assim.
- Talvez eu esteja precisando arrumar um namorado para curar minhas mágoas. – riu de si ao lembrar que desde , não havia ficado com mais ninguém.
- Então conte-me quem é, que eu trarei para você! – Maria deu o palpite.
- O Mitch não seria de todo mal, hein.
- Ele me lembra o . – gargalhou tomando um gole da sua também coca batizada.
- Então esquece ele. O Blake veio?
Maria piscou para a amiga e puxou para ir com ela. Mas não adiantava, ainda ressoava pelas paredes de toda a casa aquelas notas tão conhecidas.

“I should have known better than to call you out
(On a night like this, a night like this)
If not for you, I know I'd tear this place to the ground
(But I'm all right like this, all right like this)
I'm gonna roll the dice
Before you sober up and get gone
I'm always in over my head”




Depois dos parabéns poucas pessoas lembrariam de alguma coisa do aniversário. Mas seria o suficiente para na segunda-feira o colégio todo estar comentando da festa, foi um acontecimento. Qualquer evento que Maria estivesse à frente se tornava um acontecimento.
- Bem, o que eu ouvi por aí foi que o pessoal achou a festa empolgante, ainda mais com o show da ATL. – colocava as outras a par das fofocas do colégio na hora do almoço. – Muito mais pontos para você, Maria!
- Bom dia, flores do dia. – chegou dando um selinho da namorada – Do que falam?!
Os outros o seguiram e sentaram sem pedir licença. Era sempre assim, eles sentavam, falava com todos menos com , que também tentava ignorar a presença da garota. No começo era complicado para os outros lidarem com essa situação, nada podia ser dito a um ou a outro que a terceira guerra mundial acontecia, mas resolveram que o que não tem remédio, remediado está e começaram a ignorar a briga dos dois.
Tudo o que faziam em grupo, incluíam os dois, sem dar preferência. Se eles quisessem se matar, se matariam sem destruir a forte amizade que existia entre todos eles.
- A gente ta falando das fofocas da festa. Se continuarem desse jeito, eu vou ter que me preocupar com as groupies de vocês.
- Ah, não. Se preocupe só com as groupies do seu namorado, . – comentou rindo.
- O que é, ? Ta tirando onda de garanhão agora? – Maria debochou dele – Pois os mosquitinhos andam falando por aí que você saiu zerado sábado!
não perderia a chance de rir da cara daquele idiota.
- Quem come quieto, come duas vezes. – ele tirou onda – Ao contrário de quem prefere ser notícia todo dia. - disse olhando para . Outra coisa que nunca mudava, sempre procurava irritar apesar do acordo implícito de paz... Às vezes ela respondia, às vezes não. Tudo dependia do seu estado de espírito.
- Convenhamos também. – sorriu irônica – Não é todo dia que um gato como aquele vem dar em cima da gente. Quero mais é que todo mundo saiba mesmo que eu fiquei com o Blake. Ele dá de dez a zero num monte de garotinho que se acha por aí.
Todos esconderam seu riso e ficou vermelho de raiva.
- Ok, chega. – Maria se intrometeu ao ver que ia se descontrolar. – Vamos falar de outra coisa.
- Poxa, Maria. Você tinha que acabar com a hora da discórdia? – fez piada da briguinha.
deu língua para ele.
- Pára com isso, . – Maria deu um tapa no ombro dele. – Daqui a duas semanas é a abertura do campeonato regional de futebol, vocês vão lá me ver, né?
Os olhos de Maria brilhavam quando ela falava em se apresentar para o público, era uma coisa natural, ter todos os olhares masculinos voltados para si. Ela podia, ela tinha encanto e malícia para isso.
- Como perder um jogo daquele? – olhou discretamente para o decote de Maria. Ele não estava nenhum pouco interessado no jogo, só ia para ver as duas equipes de líderes de torcida jogando pompons para cima e mostrando as pernas bem torneadas para todo mundo.
chamou para um high five. Os dois iam pelo mesmo motivo. rolou os olhos.
- Se meus melhores amigos falam isso na minha frente, eu vou deixar minha namorada sozinha lá? De jeito nenhum!
estava esperando decidir o que fazer, se ela fosse, ele não iria.
- Me liguem depois, ok? – não estava nenhum pouco interessada no jogo, nas líderes ou na pessoa que ela iria ter que suportar os 90 minutos do jogo, fora o intervalo.
- Eu apareço por lá, qualquer coisa. – se decidiu por fim.
- Ótimo, vai ser exatamente quando minha casa vai estar vazia, depois vocês podem aparecer pra beber, ver filme, sei lá. Vocês inventam. – convidou.
- Poxa, amor! Você devia ter me falado isso primeiro, cara. Temos uma casa vazia durante um fim de semana inteiro e você convida todo mundo pra lá!
- Cala a boca, . A casa é minha, eu convido quem eu quiser.
ficou com cara de cachorro sem dono, que fez dar um monte de beijinhos nele.
Assim que o sinal tocou, levantou-se logo em direção à sala. Teria a mesma aula que e preferia se sentar num lugar bem afastado dele, para não ter problemas depois.

- Ué, Maria, o que ta fazendo aí na porta? – tomou um susto ao ver a amiga escorada na porta da sala em que ela estava.
O sinal para ir embora havia tocado e todos os estudantes estavam afoitos.
- Ah, oi. To só esperando o . Nós vamos sair agora.
- Pode-se saber para onde?
- Nenhum lugar especial. – sentiu Maria ficar nervosa. – Vamos só dar um passeio e conversar.
- Tudo bem. – sorriu, presumindo que a amiga ficara dessa maneira, pois se tratava de e resolveu brincar – Mas se o falar de mim-
- Eu não vou falar de você, . - o dito cujo a interrompeu.
- Então, MARIA. – continuou mesmo assim - Se ele falar de mim, diz que eu mandei ele tomar banho... No esgoto.
caminhou a passos fortes para a saída, mas ainda deu tempo de ouvir perguntando para Maria por que cargas d’água ela tinha que ser tão infantil de vez em quando.
- Por que vocês continuam nessas briguinhas idiotas? – Maria perguntou, ao ver sumir do horizonte.
- Não sei... A não superou o nosso fim e eu não a superei. – ele deu de ombros seguindo para o estacionamento.
- Isso não diz nada. Vocês poderiam pelo menos se tratar como conhecidos, não como inimigos. Isso vai acabar com a história de vocês... E to falando das memórias legais do relacionamento. Que eu sei que os dois têm! – Maria tentou segui-lo, mas só suspirou e entrou no carro.
Ele sabia que não devia deixar essa confusão se prolongar, mas era essa maneira que ele teve de não esquecer . Ele não queria. Sabia que se levasse tudo numa boa seria mais fácil se afastarem e se esquecerem e aquilo era a última coisa que queria no mundo.

O que ninguém percebeu, além de , é que a cena dos dois saindo depois do colégio se repetiu algumas vezes durante as semanas seguintes.




Sexta-feira. Os garotos, e Maria passaram boa parte daquela tarde ensaiando. Eles para a banda, elas para a abertura que aconteceria já no sábado que vem. ... Era em dias como esses que sentia falta de alguém ao seu lado. Tentava não pensar no que aconteceu, mas quando se via assim... Sozinha, se lembrava que ela poderia estar rindo e atrapalhando os caras se não fosse por um detalhe: . Eram tantas as perguntas que a incomodavam e que nunca conseguira obter nenhuma resposta, pois os dois simplesmente se calaram diante dos acontecimentos. Aceitar que algo não tinha explicação era a coisa mais difícil para ela, mas estava tentando organizar esses seus sentimentos. Uma hora ou outra seu coração acabaria por aceitar que nunca ouviria uma palavra sequer da boca de .
Precisava arranjar alguma coisa para parar de pensar no que passou, no que poderia ter sido e no que é. E quase sempre essa coisa era passar o tempo na Internet, mas hoje ela resolveu fazer diferente. Já que estava querendo comprar um livro, essa era uma ótima hora de ir ao shopping fazer uma visita à livraria, se tivesse alguma coisa interessante no cinema, ia também. Ir sozinha não era o problema dela.
Algum tempo depois da escola, lá estava nas prateleiras procurando qualquer livro interessante. Sem preferências. Um livro grande ou que tomasse bastante do seu tempo era uma ótima pedida, comprou 'Ele simplesmente não está afim de você'. Não era muito grande, mas era o que precisava ler naquele momento.
Até iria ao cinema, se não tivesse passado tanto tempo por entre os livros. Agora, se fosse assistir filme ia ficar tarde para voltar de ônibus sozinha para casa.
Ia passando pela praça de alimentação e um casal a chamou atenção.
- e Maria?! – não segurou as palavras apenas em sua boca e exclamou ao ver pegar na mão de Maria por cima da mesa, enquanto ela baixava a cabeça sorrindo envergonhada.
Ela ia lá! Ah, ela ia... Ela iria se outro cara não tivesse chegado e se sentado ao lado deles.
assistia à cena de longe, mas tentou ignorar a imagem que vira. Seguiria com seu plano de passar aquele tempo sozinha, fingindo que não havia encontrado ninguém, nem mesmo a sua melhor amiga com seu ex-namorado.
Entrou na fila do fast-food, se perguntando o que diabos eles estavam fazendo, pois deveriam estar em um lugar completamente diferente. Enquanto estava na fila, volta e meia olhava para os três. Maria sorrindo enquanto fitava era uma cena perturbadora! No mesmo instante imaginou os dois juntos, como um casal. Só poderia ser. O modo como os dois pareciam cúmplices!
Lembrou ainda da cena que presenciou mais de uma vez no colégio: os dois indo embora juntos. Então era aquilo, Maria poderia ao menos ter tido a coragem de contá-la sobre o que estava acontecendo, mas não. A apunhalou pelas costas do modo mais covarde que podia. Ela nunca imaginou que sua melhor amiga estivesse afim... Dele! Não dele, não de , o cara com quem havia namorado e que Maria sabia que odiava.
- Qual o seu pedido, senhorita? - o atendente interrompeu os pensamentos rápidos de .
- Um número um, por favor. – olhou de novo para eles e mais gente havia se juntado. Quem eram aquelas pessoas? Três garotas chegaram, sorridentes, e ... Olhava descaradamente para o decote de uma delas. O que fez rolar os olhos. Ele nunca ia mudar.
- Senhora... – o atendente a cutucou – Senhora, são 12 reais e 50 centavos.
pagou e pegou o lanche o mais rápido possível, precisava mostrar a eles que havia visto aquela cena deprimente, que sabia muito bem o que estava acontecendo, mas não foi rápida o suficiente. Quando ela retornou a olhar, eles já estavam saindo da praça de alimentação, em direção à saída.
Se sentou, sentindo a solidão mais profundamente. Que depressão! Aquilo não podia continuar assim. Para o inferno sua confusão com . Tinha que aceitar que as coisas já eram!
Mas não conseguiria fazer isso perto dele.

A semana passara estranha, decidiu guardar para si a cena que havia visto, mas isso não a impediu de ficar mais distante.
- Terra para ! - balançou as mãos na frente do rosto de , fazendo-a voltar para a terra.
a olhou curioso.
- Nunca me viu, não? - fez careta ao ver que ele estava a olhando.
Era mais um intervalo com todos juntos, em corpo, pois estava literalmente em outro mundo.
- Estamos querendo saber quais são as novidades do incrível mundo da . - Maria comentou.
a encarou, levantando as sobrancelhas, como se Maria já soubesse no que ela estava pensando.
- Nada, sabe. Só pensando nas ironias da vida. - deu de ombros e se levantou da mesa - To indo para a sala, beijos.
Deu as costas antes que qualquer um pudesse dizer alguma coisa. Precisava de um tempo sozinha, sem que ninguém atrapalhasse os seus pensamentos, para tentar entender o que estava acontecendo consigo mesma. Não podia contar com sua melhor amiga nessa tarefa e isso já estava sendo difícil o suficiente para conseguir lidar, sentar ao lado de definitivamente não estava ajudando.
Respirou fundo ao chegar no escritório do jornal da escola. Ficaria bem ali, só ela, as palavras, o cheiro peculiar de jornal que impregnava a sala. Estava confortável, por ora.
Até Maria e invadirem o seu espaço, perturbando seu encontro com a paz interior.
- Por favor, precisamos de explicações. - Maria apontou para si e para .
- Não tenho. - pareceu ser sincera.
- Tem certeza? - pediu uma confirmação.
- Sim, senhor.
Os dois a fitaram por alguns segundos, tentando achar alguma mentira em sua expressão, mas se deram por convencidos.
- Ok, mas lembre-se, estamos aqui para o que der e vier. - Maria abriu um sorriso aconchegante.


Outro dia havia nascido, sua cabeça borbulhava com as ideias que vinha alimentando desde que terminara seu namoro e completando isso, ainda pensava bastante em e Maria e tomou uma decisão: seria uma nova fase da sua vida, não ia mais deixar se sentir daquela maneira. Não podia mais sentir pena de si mesma, tinha que ser a mulher da sua vida. Precisava começar uma mudança profunda. Decidiu ir à abertura do campeonato, ver seus amigos, antes de tomar os próximos passos.
tinha uma hora para se vestir e chegar a tempo de ver suas amigas entrando com o time do colégio. Na verdade, só 40 minutos, os outros vinte seriam para ela chegar até o colégio. Já que ia a pé e andar com uma plataforma por aí requer uns minutinhos extras... Colocou uma mini-saia e uma babylook arrumadinha e foi à luta, ou melhor, ao jogo.
O colégio ficava a quatro quadras de sua casa, mas ela não tinha virado a esquina da segunda ainda, quando a brisa da noite passou por ela e arrepiou os seus pêlos. A cidade que morava não era do tamanho da capital do seu Estado, mas era cosmopolita o suficiente. Não dava medo passar pela rua, mas nunca era legal andar sozinha. Um carro ou outro passava esporadicamente, assim como a pessoas andando.
viu outro carro passar e virar a esquina, torcia para ser alguém conhecido, mas dificilmente seria. A essa hora já tava todo mundo no colégio. Fez o mesmo caminho que o carro, mas se assustou ao ver que o carro preto tinha encostado na rua, ainda com faróis acesos.
Seu coração acelerou. Não, não era por que era um carro suspeito, era por que já tinha visto aquele carro antes. E não era só por que era um carro popular...
Verificou a placa e se odiou por ter a mania idiota de decorar as placas dos carros que achava diferente ou se fosse de alguém próximo. Mas o dono da placa não se encaixava em mais nenhuma das opções.
- Não achei que você fosse ao jogo. – comentou ao ver passar.
- E eu não achava que te interessava aonde eu decido ir, . – respondeu seca, sem parar de andar.
- Já passei dessa fase. – sorriu com deboche que fez se arrepiar, mas ainda assim parar no mesmo instante sem acreditar no que ele tinha dito. Por que ele fazia parecer mais fácil?! – Mas eu ainda quero meu lugar ao céu, quer uma carona?
Virou-se para encará-lo. Por que ele tinha que ter feito aquilo? Era a única coisa que passava pela mente de naqueles instantes em que olhara para os olhos, a boca, o nariz, o cabelo de . Suspirou e sentiu de novo a brisa fria da noite. Existia uma energia tão forte dentro dela, que a fazia desejar voltar naquele tempo que tudo parecia tão tranquilo, em que eles pareciam ser felizes, mas o para sempre não é para todo mundo. não era feliz, ele não estava satisfeito.
- Como se isso fosse te salvar de tudo o que já fez... – comentou só para si.
Pensou em todas as consequências de aceitar aquela carona.
- , uma trégua.
Mas aceitou.

Eles não ousaram trocar uma palavra. Se restringiram a apenas ouvir a música que começava.
Ah, não! Era tudo o que precisavam, ouvir a música deles tocando no rádio. não ia conseguir segurar as lágrimas. Ainda mais ouvindo aquela música e sentindo o perfume de tão perto... O mais perto que ela conseguiu chegar novamente em dois meses. Eles nem sequer deixaram os dedos mindinhos se tocarem nesse tempo.
Eram boas lembranças, mas com a pessoa que não queriam lembrar.
percebeu a mudança de e esticou a mão pára mudar a estação.
- Não, não muda não. Eu ainda gosto dessa música. – ela o impediu.
se concentrou na rua e na calçada. A cada palavra cantada os dois não podiam negar que uma tensão crescia dentro daquele carro. O caminho para o colégio nunca foi tão longo. O perigo só aumentava.
Algo estava subentendido naquela música e os dois viraram os rostos na mesma hora, fazendo seus olhares se encontrarem. Por um segundo, tudo ao redor dos dois ficou turvo, todas as lembranças da história deles dois passou como um flash em suas cabeças, os momentos bons, as brigas... O término.
O fim. Foi isso que fez voltar seu olhar para o caminho a tempo de frear antes de bater no carro da frente. Por um segundo ele se sentiu atordoado, mas respirou fundo tentando manter o controle. prendeu a respiração e voltou-se cautelosamente para o carro à sua frente. Então, relaxou de vez encostando cabeça ao banco. Isso não poderia voltar a acontecer. Não num lugar fechado como esse.



- Desculpe.
Novamente fez parar no meio do caminho.
Eles já estavam no colégio, indo para o campo, quando cortou o silêncio entre eles.
não entendeu as desculpas. Ele devia tantas que poderia servir para qualquer coisa. Principalmente pelo o que ele fez.
- Por que, necessariamente?
hesitou ao olhar para ela, mas respondeu.
- Por quase te envolver numa batida de carro agora há pouco. – mas não era só por isso. nunca conseguia completar a frase.
- Por mim... Não era eu que ia pagar o conserto, mesmo. – deu de ombros.
respirou fundo e eles voltaram a andar, se sentiu mal. Ela tinha dito que ia aceitar as coisas, não disse?
Fez menção de tocar nos ombros de , mas se conteve.
- Tudo bem, . A culpa não foi sua.
Ele olhou para trás e deu um meio sorriso fazendo ter que ignorar o arrepio e os dois continuaram o caminho até o gramado.
Chegando lá, tiveram que tentar achar os outros, o que não foi difícil. Eles estavam sentados na segunda fileira, atrás do banco de reserva do time da casa. O campo era separado da arquibancada por uma grade.
Como tinha imaginado... O jogo já havia começado.
- ! Pensei que não viesse. – estranhou em vê-la ali.
- Nada pra fazer em casa além de pensar na vida. – respondeu sorrindo, mas não sentou.
- Legal, veio pensar em músculos também... – apontou para o campo, no qual os 20 jogadores corriam atrás da bola, enquanto os outros dois faziam de tudo para elas não entrarem no gol.
- Em coxas, especificamente. – ela gargalhou.
- Não vai sentar? – perguntou.
- Nah, primeiro vou ver as meninas como estão...
observou descer as escadas e parar na grade. Aquela saia era muito curta, ainda mais com ela de salto, e aquelas pernas... Eram extremamente traiçoeiras! A vontade de tê-las em volta do seu quadril, fez com que se incomodasse com os olhares que ela recebia no caminho. Cerrou os dentes, para controlar-se, pedindo aos Deuses do Olimpo que fizessem aquela vontade passar.
Maria e ouviram a chamar e foram lá ver o que ela estava fazendo ali. viu tentar passar pelo portão que dava acesso ao campo, mas o treinador a impediu. Ela deu de ombros, falou mais alguma coisa com as amigas e voltou.
- O que foi? – perguntou, vendo-a sentar ao lado de , no corredor.
- O treinador chato me impediu de ficar lá com as líderes.
- E...?! - balançou as mãos como se dissesse ‘isso eu sei, quero saber o porquê’.
- Ele disse que eu ia atrapalhar se ficasse lá. Porque eu ia querer conversar com as meninas e com os jogadores e blá, blá, blá. Somente pessoas autorizadas. – fez cara feia. – Acho que perdi o encanto.
- Pelo amor de Deus, vocês vieram assistir a essa bosta ou conversar? – reclamou apontando pro campo, fazendo e se resumirem as suas insignificâncias.
- Ui, a biba ta de TPM. – zuou o amigo.
- Lá em casa a gente se resolve. – não conseguiu ficar sério.
- UIIIIII! – Até entrou no coral.
O jogo passava na sua tranquila inquietação, pelo menos para e . Ela não abriu a boca um segundo, a não ser quando um dos garotos a perguntava algo. a inibia, ao máximo. Principalmente estando tão perto e tão longe... Ele não estava muito diferente, mas conseguia disfarçar melhor, fazendo uma piada de vez em quando, reclamando do juiz e comemorando quando as líderes iam comemorar mais um gol, a hora mais esperada para grande parte masculina da arquibancada.
assistia novamente, pelo canto do olho, rir, mostrando os dentes. E seus pêlos se arrepiaram mais uma vez.
- ! – alguém que estava sentado na fileira de cima a chamou colocando as mãos nos braços dela. - Não tinha te visto aqui!
- Blake?! – ela o olhou surpresa, sentindo a mão quente de Blake passar pelos seus braços arrepiados. – Desde quando você está aqui?
olhou para trás.
- Cara, isso tudo é frio? – Blake esfregou suas mãos nos braços de .
- Um pouco. – ela disse sem graça.
- Hey, cara. De boa? – Blake viu o olhando.
- Ah, sim, beleza. – respondeu rápido se virando novamente para o jogo, mas com os ouvidos bem atentos.
- Sério mesmo, você não tava aí desde o começo, tava? – começou a achar que esse garoto tinha poderes paranormais.
- Nada, tem uns quinze minutos no máximo!
- Ah, sim. Achei que tivesse ficando maluca já.
- Já?! – ele brincou e riu também. – Mas eu pensei que você não se interessasse por futebol, o que veio fazer aqui?
- Cheerleaders.
- Mas como assim, em tão pouco tempo você já mudou de time?! – Blake se fingiu assustado.
- Ai, que bobo! – Ela deu um tapa leve na mão dele. – Maria e gostam de plateia.
E foi só lembrar delas que a música de intervalo começou a tocar. Chamando a atenção de todo mundo para aquelas garotas e garotos de uniformes vermelhos no centro do campo.
- Falando nelas...
- Ô Blake, vai lá na lanchonete comprar alguma coisa pra gente beber! – um dos amigos dele pediu.
- Porra, cara. To aqui no maior papo com a garota, ‘cê vem atrapalhar... – era o jeito de Blake, levar tudo na brincadeira.
- Ih, que nada. A não se importa, não é?
- Longe de mim! – ela abriu os braços.
- Ta vendo, já ta na tua, gatxenho. – o amigo de Blake jogou um beijo.
- E é assim fácil, é? – se fingiu ofendida e riu depois.
- Você quer alguma coisa? – Blake a perguntou se levantando. – Aproveite que eu to bonzinho!
- Droga, só por que eu não quero nada!
- Nem um beijinho? – Blake fez biquinho.
contraiu o pulso, sem olhar para trás.
- Vai logo, Blake. – o empurrou rindo.
Enquanto Maria arrancava suspiros e gritos da arquibancada.
- O que a Maria faz pra ficar cada dia mais gos... – parou ao se lembrar de ali - mais bonita?!
- A mãozinha de Deus foi bem generosa com ela... – , segundo , olhou interessado para Maria. – Além disso, ela ta fazendo o que gosta, qualquer uma fica bonita quando ta feliz.
se perguntou o que a fez vir aqui e ouvir falar da sua melhor amiga com tanto orgulho e interesse. Será que ele também tinha essa mesma animação quando falava dela? Não pôde deixar de imaginar.
Ciúmes? Raiva. Dos dois. Maria estava a enganando e não tinha o direito de ficar com sua amiga. Podia ser qualquer uma, menos sua melhor amiga.
Entediada e com raiva dos arrepios, apoiou o cotovelo na perna e o queixo na mão.
- Se tava com frio era só pedir o casaco. – ofereceu o seu moletom, que deveria caber duas de .
- Quem disse que eu to com frio? – ela o olhou.
- Os pêlos do seu braço e da sua perna. – ele colocou seu casaco nas costas de . – Não sei por que você insiste em usar essas mini-saias.
- Obrigado pela preocupação, , mas eu não preciso dela. – ela jogou o moletom no colo dele.
- Não é preocupação. – ele levantou a sobrancelha – É a consciência. Se você ficar doente, quando eu for pro céu vão ter uma acusação contra mim.
- Não vai fazer diferença, eu tenho certeza que você não vai pro céu.
- Aceita logo e deixa de história. - ele rolou os olhos.
não tava a fim de discutir. Aceitou sem falar mais nada, mesmo com tudo o que aconteceu, com o ressentimento, era bom saber que se importava com ela.
Mas era péssimo ter que sentir aquele cheiro que a levou do céu ao inferno, tão de perto, tão intenso de novo.



— Vai lá, , o vai me pegar na porrada daqui a pouco. E de graça! Antes, eu tivesse te pegado. — Blake riu, olhando para o grupo de amigos de . — Levei a fama e nem aproveitei... Já basta de ter que receber essas ondas de ódio vindas dele.
lembrou-se do papelão que fez na frente de Blake.
Como, pelo amor de Deus, poderia ter desistido no último momento? O que passava pela sua cabeça infantil em não ter ficado com aquele cara tão gente boa, educado e que se importava com ela?

Maria o chamou para juntar-se as três no sofá, no dia da festa, e, não tão delicadamente assim, as outras duas os deixaram sozinhos. Blake e conversaram por algum tempo, enquanto trocavam olhares intensos, e foi quando a mão de Blake escorregou, parando nas coxas de .
— Você não quer ir a um lugar mais reservado? — ele perguntou, já levantando do sofá e estendendo a mão.
O que poderia estar perdendo em aceitar? Blake era bonito, com mãos firmes, e apostava que sabia beijar muito bem. Não havia o porquê em recusar e, inclusive, estava precisando de alguém que balançasse o seu mundo.
Aceitou o convite, sem pensar duas vezes.
Não parecia existir qualquer espaço reservado naquela casa, mas tinha um lugar em que ninguém iria achá-los.
— Vem, eu sei aonde a gente pode ir. — guiou Blake. Atravessaram uma cozinha “virada de cabeça para baixo” e, ao invés de virarem para ir ao quintal, onde a maioria das pessoas concentravam-se, ela entrou numa porta discreta, quase despercebida: a dispensa.
Ela sorriu, tímida, e então, colocou uma de suas mãos na nuca de Blake, pronta para puxá-lo, fazendo suas bocas encontrarem-se, mas, antes que qualquer troca rolasse, a porta se escancarou, fazendo-os ficarem momentaneamente cegos pela luz que entrava sem permissão.
— Ôpa! Desculpa. — reconheceu a voz ao mesmo tempo que seus olhos voltavam a enxergar. . — Eu só vim pegar uma coisa aqui.
Com olhar intimidador, ele meteu-se entre os dois, ficando de frente para e de costas para Blake. Era ele não perdendo a oportunidade de provocá-la. Encararam-se por longos segundos, fazendo-a segurar o ar para controlar todas as suas emoções. Queria muito bater naquela cara linda, mas sabia que nada bom aconteceria depois. Ele esticou-se, para pegar um pote na última prateleira, e desviou a atenção para os seus pés. Que merda aquele garoto estava fazendo ali, justo naquela hora? O que tinha feito para os céus? Que pecado tão grande cometera para ser castigada daquela forma?
— Podem continuar agora. O espaço é todo de vocês. — ironizou e saiu tão rápido quanto entrou, batendo fortemente a porta atrás de si.
Ela soltou todo o ar guardado em seus pulmões de uma vez só. De repente, não queria mais ficar ali, tudo estava muito perto e apertado. Sentia-se sufocada e sem direção.
— Eu preciso de um minuto.
— Ih, , você vai me desculpar, mas nisso, eu não vou me meter, não. — Blake abriu a porta. — Vamos ficar ali com meus amigos, vem.
Ele passou o braço pela cintura de , que se aconchegou em seus braços.

O jogo já havia acabado, e ficou conversando com Blake, enquanto esperavam as meninas irem trocar de roupa. Os meninos foram conversar com outro grupinho, mas e Maria já estavam prontas, e agora, só estavam esperando para poderem ir embora todos juntos.
— Grande pessoa é o . — Ela rolou os olhos.
— Para você, é.
— Cala a boca, Blake. — cruzou os braços, emburrada. — Quer saber, é melhor eu ir mesmo.
— Não sem antes me dar um beijo. — Blake a puxou, fazendo contrair seus músculos ao pensar que ele iria beijá-la. Mas era só mais uma brincadeirinha de Blake. Ele beijou a bochecha de . — Para o , você também é uma grande pessoa.
Blake a fez olhar curiosa para , que virou-se imediatamente para os amigos, sem deixá-la perceber a irritação que transparecia em sua expressão, porém não deixaria a esperança crescer novamente. Sabia onde tudo aquilo desaguaria e não podia se dar o luxo de estar naquela posição novamente.
— Não para o que eu passei a conhecer... — suspirou fundo, como se carregasse um grande peso nas costas.
— Eu ainda vou descobrir como vocês passaram de casal chiclete a casal água e óleo.
deu língua, parecendo uma criança mimada, e deixou Blake rindo sozinho. Lá estava ela, indo à alcova dos inimigos. Como tudo mudou assim tão drasticamente? Até sua melhor amiga tinha se bandeado para o lado de lá... O que ela ainda fazia andando com eles? Era a pergunta que ecoava na mente de a cada passo que dava ao encontro dos amigos. Não havia mais motivos coerentes para isso. Os dois principais motivos para ela estar ali a apunhalaram pelas costas. Convenceu-se de que era por causa de que iria. Ela, sim, era uma amiga de verdade. Também tinha , que era o mais próximo dos garotos agora.
— Dez horas depois... — reclamou. — Será que dá para ir ou alguém ainda vai parar para falar com o namorado?
— Esperou porque quis. Eu tenho pernas e sei usá-las. — A raiva foi aumentando à medida que via e Maria cada vez mais perto, até que Maria segurou a mão de para evitar que uma discussão começasse.
— Ok, esta é a hora de ir embora. — Maria determinou.
Enquanto os outros seguiam o casal, não conseguiu levantar o pé do chão. Tinha alguma coisa errada dentro dela e só piorava ao ver reclamando e Maria o acariciando para acalmá-lo.
! — percebeu que a amiga não se mexeu e a chamou.
Ah, claro. A coisa errada dentro dela era o seu cérebro, que não conseguia ser racional o suficiente para aceitar que acabou tudo.

— Tá tudo bem? — preocupou-se ao ver encolher-se no banco de trás, com um olhar distante, cheia de pensamentos. dirigia o carro, enquanto , e Maria estavam no carro de . Pareceu uma reivindicação geral e implícita não deixar e no mesmo carro.
Ela encolheu-se mais ainda, cobrindo-se com o casaco de , que ainda estava em suas mãos. Aquele cheiro... Fechou os olhos, para não deixar as lágrimas caírem, mas, inevitavelmente, algumas escaparam.
— Não, mas vai passar. — esfregou os olhos, borrando o lápis de olho. — É idiotice minha.
— Você sabe que não é só sua.
— Mas parece. Sempre sou eu a infantil, a egoísta, a culpada pelo mundo ser do jeito que é. — tapou os olhos com as mãos. — Por que não podia ser diferente?
— Bem... Eu acho que as prioridades mudam com o tempo. — tentou ser o mais cauteloso possível; ainda assim, o reprovou com o olhar. — É só uma questão de tempo, até se acostumar.
— E se o tempo resolver não passar para mim? — sentiu algo o atingir quando , com os olhos brilhantes por causa das lágrimas, o olhou. — É isso que eu sinto. Já faz tempo, não é? Para vocês, esses meses não parecem que aconteceram há muito tempo?
apenas afirmou com a cabeça.
— E para mim? Cada dia em que eu acordo, parece que foi ontem que tudo aconteceu. Sempre. Eu ando tão cansada de esperar uma desculpa. Às vezes, eu sinto que estou só tentando exigir que uma palavra saia da boca dele, mas isso é algo que não se pode obrigar. E eu sinto que estou errada por isso, ao mesmo tempo, sei que estou certa. — respirou o mais fundo que podia. — Enfim, acho que estou mesmo é cansada.
Os garotos calaram-se. Parecia besteira dizer que o tempo curaria quando não se está envolvido no problema. E, com certeza, não adiantaria falar isso para . Eles nem sabiam ao certo o que dizer. Nunca tinham visto esse problema pela perspectiva dela... E, pelo seu ponto de vista, parecia bem mais doloroso. Talvez, porque quem decidiu tudo, do nada.
apertou a boca, na tentativa de controlar suas palavras. Sabia que seu melhor amigo o mataria por estar falando isso, porém, ele não poderia deixar uma amiga sua sofrer deste jeito, não na sua frente.
— Hum... — saiu quase como um suspiro. Ele não tinha certeza se falaria isso, no entanto, alguém tinha que fazer alguma coisa para ajudar, certo? — Talvez, eu esteja errado... E, também, não é isso que nenhum de nós queremos, só que... Bem, você não acha que seria melhor se afastar por um tempo? Talvez, quando voltar, tudo possa estar diferente.
E com Maria, era só o que conseguia pensar.
olhou para os pés de . Ele não conseguiria olhar nos olhos dela. Com certeza, ela estaria chorando. balançou a cabeça, sem acreditar no que o amigo tinha dito, apesar que, no fundo, ele também achava que era o mais certo a se fazer.
— Tipo, não precisa esquecer da gente também, só do . — tentou fazer alguém rir e conseguiu arrancar um meio sorriso de .
Refletiu as palavras de , preocupada com a sua decisão.
— Eu preciso de um abraço. — Agora, ela não conseguia mais segurar o choro.
— Isso, eu faço de graça! — , num pulo, foi para o banco de trás e recebeu um abraço muito apertado de , que, incontrolavelmente, derramou litros de lágrimas.
Os amigos não estavam errados. Ela mesma já tinha pensado em se afastar. Mas isso os tiraria dela... E não havia nada mais importante. Eram sua segunda família, o seu porto seguro, sua fonte inesgotável de diversão. Porém, não parecia ter outra saída. Até sua melhor amiga, ela já havia perdido para .
...
— Diga, senhora.
— Será que você pode me deixar em casa?
— Você é quem manda, eu só sou o choffer.
O caminho para casa foi renovador. Era bom sentir que estaria ao lado dela. Pelo menos, com alguém ela poderia contar sempre.
— Ai, droga. Tô sem a chave. — suspirou fundo ao ver que as únicas coisas que havia em seu bolso eram o celular e algum dinheiro.
— Seus pais não estão em casa? — perguntou.
— Não. Eles saíram. Vou ligar. — Não era possível que justo hoje que a filha queria estar em casa, seus pais tivessem saído. Tudo o que queria agora era a sua cama, o seu quarto, as suas coisas. — Na caixa.
Ela suspirou fundo. O jeito era ir à casa de mesmo.
— Tudo bem, vamos pra lá. Eu vou deixar um recado no celular da minha mãe para ela ir me buscar quando tiver voltando.
ligou o carro e dirigiu em direção ao destino inicial. até tentou ajeitar-se, para fingir que nada tinha acontecido, mas seus olhos inchados e seu lápis borrado não deixaram.
— Hum... — parou para olhar o modelito que ela vestia ao saírem do carro. — Sexy. Ainda mais com esse casaco masculino.
não teve como não rir e foi abraçada com ele até lá dentro.
— Chegou quem faltava! — anunciou a chegada deles. — Alguma coisa errada, ?
Logo, os outros três apareceram atrás. Maria pareceu mais preocupada que os outros, o que deixou magoada. Para ela, preocupação excessiva sempre significava outra coisa.
— Nada, , eu só tô com dor de cabeça... — disfarçou. — , tem remédio aí?
— Vamos lá em cima comigo — ela disse, subindo as escadas.
— Quer ajuda pra subir também, ? — brincou.
— Para quê? Ela tem pernas e sabe usá-las. — intrometeu-se, jogando-se no sofá e abrindo uma cerveja.
— O aprende as coisas rápido. — Ela piscou para , abrindo um sorriso forçado, e seguiu , assim como Maria.

— Você estava chorando. — Maria cantarolou quando sentou-se na cama.
— Eu sei que está escrito na minha cara.
— E pode-se saber o motivo?
— Para quê? Só quem pode resolver sou eu. — Ela foi grossa, mas não aguentou. Por mais que acontecesse qualquer coisa, a raiva de por Maria seria sempre passageira. — Ainda é a mesma questão sem solução aparente.
— Ow, . — Maria sentou-se na cama também, já imaginando o motivo. — Dói te ver assim. Mas você já pensou que essa história está se prolongando muito e acabando contigo?
A raiva era passageira, mas sempre voltava. sentiu que daria um tapa na cara de Maria, naquele instante. Ela só estava falando aquilo para deixar o espaço livre. Como podia ser tão ousada àquele ponto?
— Tudo bem que vocês se amavam, só que o foi babaca o bastante para terminar tudo. — resolveu opinar. — Isso significa que ele não te merece, .
— Ou que eu não o mereço. — achou que ia começar a chorar de novo.
— Não, nem vem! Amiga minha não fica por baixo, não! — Maria tentou aliviar o clima, mas não estava para brincadeiras hoje.
— Gente... Eu sei que vocês têm sempre as melhores intenções, mas eu só preciso ficar sozinha e pensar em algumas coisas. Eu tô meio cansada, sabe? Não se preocupem comigo, vão lá pra baixo, salvem o sábado de vocês! — abriu um meio sorriso, esforçando-se para parecer brincalhona. — A amiga carente, descontrolada e que não consegue esquecer as pessoas vai deitar nesta caminha e não vai atrapalhar.
Maria e entreolharam-se.
— Abraço! — As duas gritaram, agarrando , que não pôde não rir com a cena.
— Amiga, eu quero você de volta regueando com a gente! — Maria beijou a bochecha da amiga e soltou-se do abraço. a imitou.
— Dorme com os anjinhos — disse, encostando a porta ao sair do quarto.
E lá se encontrava de novo, sozinha. Contudo, fazendo o que ela tinha fugido por um bom tempo: pensando nela e em , no que o futuro poderia se tornar. Isso a deixava inquieta, com a sensação de desconforto, que só aumentava à medida que mexia-se na cama, sem encontrar uma posição. Mandou uma mensagem para a mãe. Ela precisava ir para casa com urgência.
Não conseguiu evitar o pensamento de que estava sempre esperando uma desculpa, como havia dito a . Toda vez que dera a chance de colocar as coisas no lugar foi indo atrás de um perdão, um sentimento de arrependimento que fosse, o que gerava mais uma confusão, outro motivo para mais uma desculpa necessária surgir. Estava errada em exigi-las, não seriam verdadeiras. Foi assim... Elas foram acumulando-se. Havia uma caixa inteira com os motivos que ele teria que pedir desculpas e nunca disse.
Ela as guardava, com algum tipo de esperança, porém precisava se dar conta de que não eram necessárias. Se havia tantas assim para receber, talvez, a errada fosse si em correr atrás delas.
Deixá-lo para trás parecia uma boa saída, pois, assim, nunca mais precisaria esperar a desculpa de ninguém.
Acabou adormecendo, pensando nas palavras de . Não podia ter um talvez.

, o que está fazendo? — abriu os olhos, assustada, ao ouvir a voz de Maria vindo do outro lado da porta. — O que você quer aqui, hein?
— Eu... Só... — Ele parecia não saber o que falar. — Eu só queria saber se ela tava bem.
— Está muito bem, obrigada. — Maria parecia estar zangada. Talvez, com ciúmes. — Será possível que você não se cansa? Se você ainda gosta um pouquinho dela, deveria fazer algo a respeito, não só assistir de camarote enquanto vê alguém afundar de vez.
— Eu não... — cochichou mais umas centenas de palavras que não conseguiu ouvir e quase levantou-se para ouvir por detrás da porta.
— Hum... Você acha que alguém desconfiou? — Maria suspirou.
— Acredito que alguém tenha percebido que nós estamos escondendo alguma coisa.
Aquelas palavras de foram suficientes para ter certeza: eles estavam tendo um caso. Ela sentiu uma dor no seu interior, como se as borboletas que a fazia sentir tivessem se transformado em monstros carnívoros que estavam a devorando por dentro. Se tinha alguma dúvida do que faria, tinha virado certeza.
— Mas, , eu não sei se eu quero que eles descubram agora. Ainda é muito cedo. — Maria continuava a falar, o que fazia de tudo para não escutar. Mas o travesseiro não era suficiente para fazer calar aquela voz.
— Maria! — tentou controlar o tom da sua voz. — Eles são seus amigos, precisam saber. Se você não contar, eu conto. Ninguém precisa ter vergonha do que está fazendo. Essa certeza do que você quer não é suficiente? Além disso, se eles descobrirem de outra forma, talvez seja mais difícil.
— Calma, calma, um passo de cada vez, ok? EU vou contar. Quando eu achar que for a hora certa.
ouviu apenas passos afastando-se.
Não, não, não, precisava sair o mais rápido possível dali, não dava mais para se imaginar no mesmo lugar que e Maria. De repente, veio uma cena dos dois beijando-se, que fez abafar um grito com o travesseiro.
Tremendo, pegou o celular e ligou insistentemente para a mãe. Alguém tinha que tirá-la dali. Deu graças a Deus quando atendeu e, chorando, pediu para que viesse lhe pegar. A mãe disse que estava a caminho, já que tinha acabado de sair do jantar.
Quem iria acabar com tudo era ela, desta vez. Precisava se libertar desse sentimento que a apertava, a diminuía.
Penteou seu cabelo, limpou o rosto, calçou a sandália, olhou uma ultima vez para o quarto, antes de fechar a porta, e desceu.
, ... — chamou a atenção, parando ao lado do sofá. Só estavam os dois lá, assistindo um filme qualquer. Os outros estavam fazendo alguma bagunça na cozinha. — Eu tô indo embora.
levantou. Não era qualquer “ir embora”.
— Já? Tá cedo. — disse. — Você ainda nem desceu para beber nada.
— Nem quero, . Valeu. — sorriu.
— Tem certeza que quer ir? — abraçou a amiga impulsivamente.
— Absoluta, .
estava feliz por ter tomado uma decisão. Principalmente, por ser a que ela achava a mais certa.
— Vou lá dentro falar com o povo. — saiu de perto e entrou silenciosamente na cozinha. — Eu não acredito que tão jogando Uno e não me convidaram!
Mesmo com todo aquele sorriso, todo mundo sentia que havia alguma coisa errada.
— Melhorou? — Maria levantou-se para ver a amiga mais de perto.
— Bem melhor agora. — sorriu, apertando os olhos, para não deixar transparecer sua vontade de derramar umas boas lágrimas. — Eu tô indo embora. Minha mãe tá vindo me pegar.
— Agora? — Maria questionou, entortando a boca, e apenas acenou com a cabeça.
Ela precisava dar um último abraço na pessoa que foi sua amiga e companheira para todas as horas. Então, foi com todas as forças no pescoço do Maria. Ela passaria muito tempo sem fazer isso de novo.
— UOU, calma aí, . Eu ainda preciso estar inteira. — Maria brincou, abraçando a amiga com a mesma intensidade.
— Eu já sei de tudo. — cochichou à amiga. — Espero que seja o que você realmente quer, Maria.
Soltou-se e deu um meio sorriso de incentivo, engolindo todo o seu orgulho e vendo Maria sorrir, assustada com o que acabara de dizer.
— Tchau, biba. — deu tchau a , de longe, e abaixou a cabeça. — Tchau, .
levantou-se com a intenção de ir abraçá-la, mas o parou.
— Você vem comigo até lá fora, eu preciso falar contigo.
Todos continuaram nos seus lugares ao verem e passarem pela porta em silêncio. ia olhando a sua unha do pé, até passarem pela porta de entrada.
... — Ela parou de frente a ele.
Mas a porta abriu de vez, revelando um meio desesperado.
... E-eu só preciso... A Maria... Não tem problema, tem? — O seu desespero misturado com nervosismo o impediu de formular uma frase inteira.
sentiu vontade de xingar de todos os nomes feios e sujos existentes em todas as línguas da face da Terra, e do Universo também. O que ele tinha na cabeça para vir perguntá-la aquilo? Faria diferença o que ela achava ou não? A resposta dela acabaria com a relação deles? Não, ela tinha certeza que não. Então, por que ele tinha que vir e fazer uma pergunta dessa?
... O que eu tenho a ver com isso? Faria diferença a minha resposta? — sorriu, deixando uma lágrima cair. — Eu prometo tentar levar isso numa boa, mas não posso ficar aqui.
a olhou, constrangido. ... Era a pessoa mais compreensível do mundo, não tinha como. Ele não segurou-se e a puxou para um abraço. Não pôde deixar de notar: era a primeira vez, em muito tempo, que o chamava pelo nome novamente. ainda lembrava-se quando foi a última vez que isso aconteceu: quando eles terminaram.
Não, . Você não deveria ter feito isso. tentou resistir, mas sua vontade era maior que sua resistência. Há tanto tempo ela queria isto, queria-o perto deste jeito, só com as suas roupas distanciando-o; às vezes, até sem isso. Seus corações batiam no mesmo ritmo, então, percebeu que esse foi o seu maior erro.
Nenhum dos dois conseguiria separar-se novamente. Era assim que queriam ficar, era assim que deveriam ficar. desejou que alguém jogasse cimento, ou, talvez, uma super cola entre eles para não precisarem nunca mais sair de perto do outro. A vida não valia a pena longe dele. A vida não era a mesma longe dela.
Estava tudo tão bem na última vez que se abraçaram, desafiando as leis da física. não adivinharia que, apenas algumas horas depois, estariam os dois dizendo coisas que nunca imaginaram dizer um ao outro.
Contudo, , sempre , beijou o topo da sua cabeça e separou-se. Entrando, sem olhar para trás, sem deixar ver seus olhos brilhando de emoção.
Ninguém podia adivinhar quando seria a última vez que veria uma pessoa, mas, cada dia mais, a certeza do fim parecia crescer em proporções nunca antes imaginadas.
ficou parada, olhando para a porta de madeira à sua frente. E mais uma vez, ele a havia abandonado.
... — Ela voltou a chamá-lo, encarando-o. — Eu vou fazer o que você disse.
fitou o chão, limpando as lágrimas, e ficou séria.
— Tudo bem, . — Ele deu um passo e a abraçou. — Eu vou ficar com saudades.
— Só não conta para ninguém e pede para ninguém me ligar, principalmente a Maria. Eu não vou conseguir falar com ela.
— Por quê? — Ele estranhou toda essa resistência dela para com Maria.
— Ela e o estão juntos. — suspirou, olhando a expressão chocada de .



— E essa ressaca toda, rapaz? — sentou-se ao lado de , dando dois tapinhas nas costas do amigo. — Ô homi frouxo, viu?
— Deixe-me, ! — levantou-se de vez, deixando sozinho, enquanto a turminha vinha do outro lado.
— Mas o que foi isso? — Maria perguntou, sem entender.
Todos olhavam muito surpresos, enquanto já ia bem longe, provavelmente, indo a algum canto obscuro da escola, onde ninguém pudesse perturbá-lo. Arrependeu-se amargamente pelo que fez no sábado. Ele estava tão bem sem , por que tinha que abraçá-la e relembrar tudo aquilo que não o pertencia mais? Além disso, por que tinha que ter bebido feito um louco? Ele não podia se arrepender por tudo o que fez. Era o que queria, certo?
Não. Agora, ele tinha dúvidas sobre a escolha certa. Era um estúpido; isso, sim.
Um estúpido com olheiras.
— Relaxa, cara. Você também já fez isso. — foi checar como o amigo estava.
— Da próxima vez, me lembra de parar. Porra, isso é chato pra cacete!
— Ah, tá bom. — rolou os olhos. Até parece que se daria ao trabalho de escutá-lo numa próxima vez.
Eles ficaram em silêncio por alguns segundos, até abrir a boca.
— Ela não veio hoje, não é?
Sabia bem de quem estava perguntando. Por um mísero segundo, odiou ser amigo dos dois. Ele estava encurralado. Se um ficava triste em estar perto do outro, o outro ficava triste em estar longe do um. Aquele casal seria cômico, se não fosse tão trágico.
— Hum... Não. — coçou o nariz, de nervoso.
— E eu, provavelmente, nunca mais sentarei na mesma mesa que ela, não é?
— Veja bem, se ela fizer exatamente o que nós conversamos, você está com razão. — resolveu ser sincero. — Mas também tem a opção mais radical, que é você não vê-la nem em outra mesa.
olhou, desconfiado, para . Era muita sinceridade.
— O que você disse a ela, ?
— Nada que eu não diria a você.
— As palavras, , eu preciso das palavras!
— Veja bem... — ficava mais irritado a cada instante. — Eu só disse que era melhor ela se afastar por um tempo.
— O quê? — Não foi só quem indagou. também ouviu a voz de Maria atrás de si e lembrou-se que aquele casal era a principal motivação da ida de .
— Por favor! — alterou a voz. — O que vocês queriam? Que a passasse mais dez anos sofrendo por ver o todos os dias na mesma roda de amigos, na mesma sala de aula?! Você, , deveria ter feito de tudo para se tornar amigo dela! Você sempre soube que ela te amava incondicionalmente! Mas não! Nunca perdeu a oportunidade de provocar e pegar no pé dela! — ele disse, apontando para , e, então, apontou para Maria. — E você, Maria, deveria ter sido a primeira a falar o que eu disse. Você sabia que a não aguentaria ficar em paz, na dela, por ter descoberto tudo. Será possível? Vocês dois não tinham o direito de fazer isso com ela!
E saiu, sem esperar a reação de ninguém. sentiu-se mais aliviado ao falar tudo aquilo. Também precisava desabafar de alguma maneira. Teve que digerir sozinho as últimas palavras que havia lhe dito e aquilo estava o incomodando.
e Maria fitaram-se por uma eternidade, até ela se jogar em um abraço dele.
olhou mais uma vez para trás e viu os dois se amparando, sentindo a mesma dor que provavelmente sentira.



Nem segunda, nem terça, nem quarta.
não havia aparecido no colégio, Maria sentia-se culpada pelo sumiço dela e, como passou o que havia dito sobre não procurá-la, respeitou o desejo da amiga e não ligou. Precisava mesmo daquele espaço. Conhecia a amiga e nunca houve segredos entre elas, não até aquele momento. Deveria estar sendo extremamente difícil para suportar.
não falava direito com , mas tinham que continuar com a banda e era por esse motivo que estavam todos na casa de , ensaiando. Apesar dos últimos acontecimentos, eles precisavam ser maduros quanto ao sonho em comum.
, você que não tá fazendo nada, atende lá pra mim. — pediu enquanto arrumava o porão com a ajuda de , e o telefone tocava insistentemente.
Mesmo mal humorado, arrastou-se até o telefone, que, por um toque, não caia na secretária eletrônica.
— Aff, , se o mundo dependesse de você, estaríamos perdidos. — assustou-se ao ouvir a voz divertida do outro lado da linha.
?! Onde você tá? — ele questionou em um só fôlego, tremendo ao falar aquele nome, e não obteve resposta. — Alô?
suspirou do outro lado da linha, controlando todas as suas emoções e segurando as lágrimas ao ouvir aquela voz que trazia tantas emoções.
— Você poderia chamar o , por favor, ? — ela fez a voz mais compenetrada e educada que pôde.
— Só um segundo — ele respondeu decepcionado. Pensou em falar mais alguma coisa, quem sabe, fazê-la voltar de onde quer que ela estivesse, mas simplesmente levou o telefone até .

— Finalmente! Podemos começar o ensaio agora? — se dirigiu ao seu lugar e olhou o relógio. — Uma hora e meia esperando... Onde você foi, hein?
olhou, curioso, para o amigo. Sabia que havia ido se encontrar com , mas queria saber mais do que apenas isso. Queria saber o que falaram, por que ela desapareceu, o que ela pensava que estava fazendo, todo e qualquer detalhe que pudesse mantê-la por perto.
coçou o nariz. As coisas realmente iriam mudar.
— Eu só precisava falar com a .
Os outros dois olharam para , já que não desviara sua atenção um segundo.
— O que aconteceu de tão urgente? — preocupou-se.
— Bem... Ela queria se despedir.
— Por quê? — não conseguiu ficar calado. — O que ela vai fazer? Para onde ela vai?
— Calma, , calma. — Então, explicou: — disse que precisava passar um tempo fora, então, achou melhor ir à casa da tia no Canadá.
— Mas e o colégio? Ela não pode abandonar!
— E não vai. Não é como se ela estivesse se mudando, só vai passar uns dias.
decidiu omitir a parte que dias poderiam tornar-se algumas semanas, que poderiam até tornar-se meses, pois não havia deixado claro quando voltaria e se voltaria sequer a frequentar a mesma escola em que eles estudavam. sentiu uma vontade imensa de ir atrás dela.
— Não adianta. Há essa hora, está colocando-a no avião. — interrompeu, adivinhando os seus pensamentos.
— A Maria sabe?
— Acho que nem imagina.
— Por que, hein? — perguntava-se em voz alta, mesmo que olhando para . — Ela disse que não se importava, mas ela se importava, sim! Eu achei que ela não ligaria e continuaria a ser amiga da Maria... Então, por que ela foi embora?
— Ah, vai encher o saco de outro. — disse impaciente. — Até parece que tinha como entender uma coisa dessas!
— A te contou? — ficou boquiaberto.
— Não foi como se ela estivesse fazendo fofoca, mas ela precisava contar para alguém o que a perturbava tanto. — Os outros dois estavam viajando na história, não conseguiam nem imaginar o que eles estavam falando. — E qual é?! A garota que mais te amou e vai te amar na sua vida inteira está, agora, num avião, para tentar te esquecer de vez, engolir essa história da melhor amiga, e você vem se preocupar se ela me contou os motivos ou não?! É cada uma que eu tenho que presenciar, viu?
largou o ensaio e foi à cozinha, tomar um copo de água. Às vezes dava vontade de socar certas pessoas por serem tão estúpidas.

O clima para tocar já tinha ido embora. não parava de passar a mão pelo rosto, desesperado, como se tudo estivesse perdido. Tentando pensar em alguma coisa que poderia fazer. Não acreditava que estivesse indo embora assim, mas, ao mesmo tempo, perguntando-se se deveria mesmo fazer alguma coisa para impedi-la, se é que havia tempo de fazer qualquer coisa. não voltou à garagem, e os outros dois conversavam entre si, com medo de perguntar qualquer coisa que fosse.
De repente, a porta abriu de vez, revelando uma chorosa.
— Eu fiz a ir embora! — E desabou em lágrimas. — A culpa é toda minha.
Todos se assustaram com a entrada repentina da menina, porém, levantou para abraçar a namorada.
— Não, meu amor. A culpa não é sua.
— Então vamos dividi-la em duas partes iguais, que eu sei que também tenho culpa nisso. — Maria entrou cabisbaixa, seguida de .
— Mas eu que falei pra ela ir ao Canadá! — desesperou-se. — Se eu nunca tivesse dito isso, ela nunca iria lembrar que tem uma tia lá e nunca iria ficar longe de mim. De nós.
se remoeu por dentro. O pior não era se sentir culpado pela viagem de e, sim, por sentir que a perdeu para sempre.
— A culpa é de vocês! — não conseguia mais controlar-se. — De todos vocês! A culpa é sua, , por ser um idiota! Mas eu que a fiz conhecê-lo...
E mais uma vez, começava a chorar.
— Se eu não tivesse começado a namorar o ...
— Ah, não, amor. Agora vai dizer que se arrependeu de ter me conhecido também? Assim eu não aguento! — tentou dar um toque de humor naquela situação. — Como que eu iria viver sem você?
— Vocês não vão sentir falta dela? — perguntou com a voz embargada. Acreditava que tudo poderia ser diferente, se seus amigos tivessem tentado convencê-la que partir não era a melhor ideia.
— Eu já vou. — levantou. Ele não queria ficar ali, ouvindo todo aquele drama sem sentido.
— Vá mesmo, seu frouxo! Eu perdi minha melhor amiga por sua culpa! — gritou com ele, enquanto o via bater a porta. — E vocês não estão nem chorando, vocês não vão mesmo sentir falta dela?
saiu de fininho, sem deixar as palavras de passarem perto do seu ouvido. Ele não tinha culpa. Ele queria se convencer que não tinha culpa de nada.
Porém, esta era a ordem das coisas: ninguém esquece e um sofre mais que o outro.
— Não é assim, . — resolveu se pronunciar. — Todos nós amamos a igual ou mais que você.
— O que tá em questão, meu bem, é o que é melhor para ela.
olhou nos olhos da namorada, tentando fazê-la parar de chorar e de lamentar tanto por isso.
— E, além disso, ela vai voltar. — continuou.
— Não para nós. — suspirou, sentando-se ao lado de Maria. Todos o olharam, questionando. — Ela me disse que não se sentiria bem em sentar junto conosco no almoço, nem sair por aí com a gente.
— Ela não pode fazer isso comigo. — voltou a chorar, abraçando-se a .
, vamos para casa? — perguntou gentilmente e levantou-se, puxando junto. — Assim, você se acalma, vai.
Sem falar nada, aceitou e foi embora.
— Bem, acho que essa é minha deixa, não é? — também levantou-se e foi embora.
Agora, só restavam e Maria, sentados um ao lado do outro.
— Isso não tem nada a ver com , não é? — Maria falou, de cabeça baixa, deixando a tristeza transparecer. Queria poder voltar no tempo e fazer tudo certo desta vez. — Tem a ver comigo.
— Eu diria que tem mais a ver com .
— Ela te contou, não contou? Sobre por que parou de falar comigo?
— Contou... — a olhou.
— Será que seria diferente, se eu tivesse contado a ela? Ao invés de ela ter descoberto sozinha? — Maria também o olhou.
— Ah, Maria... A história da é complicada. Talvez, tivesse sido menos impactante, se você tivesse aberto o jogo, mas, de qualquer maneira, não acho que continuaria a falar com você.
Maria jogou-se em um abraço de .
— Eu desistiria de tudo, se voltasse a falar comigo! Ela sempre foi minha melhor amiga, sempre me ouviu... Sempre contou tudo pra mim. E eu? Deixei isso escapar...
— Eu não diria isso, se realmente achasse que tivesse volta, mas não acho que vá voltar atrás tão fácil assim. Eu a vi chorando quando decidiu se afastar da gente. Eu vi a decisão transparecendo no olhar dela. Não vai ser fácil vê-la de longe, mas a gente temos que aceitar, não é? — Ele sentiu o cheiro gostoso que emanava do cabelo da amiga e voltou a olhá-la nos olhos. — Não tinha como terminar de outro jeito. Você sabia o quanto ela estava tentando ser forte e superar, mas gosta muito de , ela nunca esperava que isso fosse acontecer.
— Eu me odeio. E odeio ainda mais o .



— Eu vou à biblioteca. — deu dois tapinhas em ao saírem da sala, antes que o amigo pudesse sequer abrir a boca para questionar aquela atitude estranha, que estava repetindo-se mais uma vez. O sinal do intervalo acabara de tocar, e todos os alunos desesperados corriam por um lugar ao sol.
Exatamente ao contrário de . Que, quanto mais os dias passavam, mais se escondia das pessoas. Não tinha mais paciência para ter que lidar com qualquer ser que se encaixava como 'humano'.
O que era extremamente difícil de se fazer naquele colégio. Nem o armário de vassouras, nem em um box trancado no banheiro, ele tinha sossego. Sempre aparecia alguém para perguntar o que tinha acontecido a ele, se estava tudo bem, o que havia acontecido... Não sabia mais como fugir de tantas perguntas. Estava odiando sempre ser rodeado de pessoas esses dias.
A biblioteca tornou-se o lugar em que menos o incomodavam. Lá, ele assistia alguns NERDS discutindo sobre a física quântica, teorizando sobre as milhares de dimensões do universo. Foi até numas discussões que o fim do mundo começou a preocupá-lo. Depois que ele ouviu aquele grupinho estranho falando sobre uma tal experiência que estavam fazendo para tentar recriar o big bang e encontrar as partículas que deram origem ao universo, e que, se aquilo tivesse dado errado, formaria um buraco negro que nos engoliria.
até chegou a conversar sobre isso com eles, mas os NERDS não tinham muita paciência de explicar todos os termos científicos para , e acabou desistindo de manter uma conversa trivial. Os NERDS nunca se acostumavam quando alguém potencialmente famoso chegava para conversar.
Na biblioteca, também via o pessoal do xadrez, já que aquele recinto era o lugar menos barulhento de todo o colégio. Chegava a impressionar a concentração que aqueles garotos e garotas tinham na hora do jogo. Houve uma vez em que ele passou quatro dias observando uma dupla. A mesma dupla, no mesmo jogo, ou, pelo menos, ele imaginava, já que, quando o sinal batia, a dupla saia, falando as posições de cada peça do tabuleiro, e, no outro dia, lá estavam os dois de novo jogando. até comemorou quando um dos garotos deu um xeque-mate. Era enervante assistir aquilo.
Existiam aquelas pessoas que apareciam com frequência na biblioteca para ler um livro ou estudar.
Porém, existia uma garota que sempre sentava-se à mesa mais afastada e sempre estava escrevendo em seu caderno. tinha certeza que ela não estudava, só ficava ali, escrevendo e escrevendo sobre sabe-se-lá-o-quê.
Ele chegava a sentir-se incomodado, tamanha era a sua curiosidade. Precisava fazer alguma coisa para desvendar aquele mistério de vez.

— Tá tudo tão estranho, né? — encostou a cabeça no ombro de .
O casal estava num canto, sozinhos, no pátio do colégio. Lá, eles conseguiam ver tudo o que acontecia ao redor e sem serem incomodados. Todo mundo sabia que, quando os dois resolviam ir lá, era porque queriam conversar, ou, simplesmente, passar um tempo a sós.
— Estranho de que jeito? — Ele acariciou o cabelo dela.
— Desde que a resolveu viajar, sabe? Ninguém se fala direito... E olha só! — afastou-se para olhá-lo nos olhos, apontando para o lugar em que eles costumavam sentar. — Cadê a Maria? Ninguém sabe! Todo dia, ela inventa um problema pra resolver. E foi a primeira vez, desde que eu a conheci, que eu passei um final de semana inteiro sem vê-la! Aliás, sem ver a turma toda junta. Cada um foi pra um canto diferente... , então, nem se fala!
— Isso é o mais estranho. O cara nunca mais saiu da biblioteca. E olha que, antes, ele nem sabia onde ficava! — estava começando a se preocupar com a integridade dos seus amigos.
— POIS É! Ainda tem o , que não fala mais direito com o . Todo mundo anda tão cabisbaixo... — Ela abaixou a cabeça. — Isso acaba comigo. Eu achei que nada poderia nos afastar desse jeito, mas... Parece que eu errei. Eu não entendo como tudo aconteceu, não entendo.
puxou para um abraço.
— Quem consegue entender? Eu só queria saber o porquê a brigou com a Maria... Tinha algum motivo, amor?
— Sabe o que é pior, Bililico? Eu não faço ideia. só me disse que a gente iria descobrir mais cedo ou mais tarde e que era melhor que Maria contasse... Só que Maria não quer contar. Então, a gente tem que ficar na curiosidade.
— Nenhum palpite?
— Nem de longe. — Ela suspirou fundo. — Sério.
— Mas o e o sabem.
— Eu daria muita coisa pra descobrir... Não sei mais o que fazer para arrancar a verdade dela.
deu um selinho no namorado e tornou a encostar a cabeça nele. Já havia quase uma semana que tinha viajado e parecia que nada voltaria a ser como era antes. Não para eles.
— Mas não fiquemos tristes! — levantou o astral. —Tudo na vida passa, até uva passa!
não conseguiu segurar o riso.

— Oi. Com licença. — chegou perto da menina. — Você tem um papel pra me emprestar? Ou me dar, no caso.
Ele passou as primeiras aulas decidindo se falaria ou não com aquela menina. E decidiu que verificaria o que ela fazia de um jeito sutil... Aquela foi a pergunta mais cabível que ele conseguiu encontrar, porém agora que tinha entrado em ação, pareceu muito estúpido o que estava fazendo.
— E uma caneta também, se não for muito incomodo. — Claro, ele não tinha o que fazer com o papel, se não tivesse uma caneta.
— Tudo bem, toma. — Ela entregou a folha de papel e a caneta, que estava em suas mãos.
— Mas você tava escrevendo, eu não quero incomodar. — , de vez em quando, sabia ser muito educado e recusou a caneta.
— Eu tenho outras aqui, pode ficar — a garota sorriu com simpatia, e retribuiu com outro sorriso.
Ele voltou à mesa que ocupara e não tinha ideia do que iria fingir que escreveria... Até que passou pela sua cabeça e, quando percebeu, estava escrevendo para ela.
Escrevia sem parar, pensando desde o dia em que a conheceu, até hoje, e, quando estava terminando o verso da folha, largou a caneta em cima do papel. Não podia se torturar assim.
Aquilo era idiotice. Que ideia imbecil! Para que ele estava escrevendo aquilo? Ela nem mesmo iria ler uma linha daquelas palavras que ali estavam, então qual era o motivo daquilo? Nenhum.
De repente, ficou irritado, levantou-se bruscamente da mesa e foi devolver a caneta. Se pudesse, devolveria até o papel, mas já havia um destino especial para ele: a lata do lixo.
— Obrigado. — Ele tentou manter a simpatia no rosto e saiu rápido. Não conseguiria fingir por muito tempo.
E quando passou pela primeira lixeira da biblioteca, atirou o papel amassado com raiva, sem olhar se havia acertado ou não.



— Você não parece muito interessado em economia. — A garota da biblioteca sentou-se à mesma mesa em que fingia ler a revista ‘negócios’ e ajeitou os óculos que usava.
Ele ficou meio surpreso em vê-la ali. Mas o fato de ele ter ido falar com ela ontem, mesmo que tenha sido apenas para pedir emprestada uma caneta, a deu coragem para ir atrás dele.
— Que nada, cuidar de negócios é o meu futuro. — jogou a revista do outro lado da mesa, interessado na conversa que teria. A verdade é que já estava entediado naquela biblioteca também. Não sabia o que faria dali para frente e sentiu-se aliviado quando a garota apareceu. Não queria voltar a andar com seus amigos tão cedo. Estava tentando ainda digerir tudo o que estava acontecendo.
— Não queria parecer intrometida, então, me desculpe pela pergunta, mas... O que está fazendo há dias na biblioteca? Acreditava que gente que nem você não sabia nem onde esta parte do colégio ficava!
Não, não achou que ela estava sendo intrometida... Só um pouco curiosa, como ele mesmo era para saber o que tanto aquela garota escrevia.
O que o incomodou mesmo foi ela saber o seu sobrenome! Porém, ela parecia uma pessoa legal e deu uma chance.
— Para te dizer a verdade, eu demorei um pouco a chegar aqui na sexta — ele riu ao se lembrar que teve que pedir informação à auxiliar de disciplina para chegar até aqui. Riu ainda mais ao lembrar-se do olhar que recebeu dela como se falasse: “O menino que sempre está na detenção tentando chegar à biblioteca?”
— Imaginei — ela sorriu.
— Hum... — , de repente, fez um cara de quem tinha feito alguma coisa errada. — Er..., eu ainda não sei seu nome.
.
não tinha certeza, mas foi uma das poucas vezes que sentiu-se envergonhado por não saber o nome de alguém que já o conhecia. Era normal para ele, mas aquilo, de vez em quando, ainda o surpreendia!
— Não precisa se importar com isso, aposto que nem mesmo a bibliotecária saiba meu nome. — sorriu desconcertada, adivinhando os pensamentos de . — Além disso, eu ainda tô no 1° ano.
— Ah, mas eu conheço um pessoal lá da sua série.
— Claro, claro — ela disse como se fosse óbvio. — A Sarah, a Brianna, a Stacey... Ou melhor, as cheerleaders... E alguns meninos tipo vocês.
— “Tipo vocês” como? — Ele franziu a testa, mas rindo por dentro. De certo modo era engraçado ouvir aquilo.
— Você sabe... — Era como se não esperasse por essa pergunta. Ela ficou vermelha de repente. — Caras estilosinhos, alternativos, que muitas vezes têm uma banda para ficar com uma groupie, ou algo assim...
não conseguiu segurar a risada. Ele explodiu numa gargalhada que fez quem estava na biblioteca olhar e mandá-lo calar a boca.
— Desculpa, desculpa. — Ele olhou em volta, segurando-se para não rir. — Eu não aguentei, você é muito boa!
— Eu falei alguma mentira?! — Ela suspendeu a sobrancelha.
— Várias! — ele ainda ria dela, mas se recuperou ao vê-la matá-lo com os olhos. — Eu sou alternativo?
— Não, não. Não alternativo no modo literal da palavra, mas é que você é todo, hum... Vou parecer minha mãe falando agora, não ria de mim! — Ela fez uma pausa. — Todo antenado, sabe? Mas a história da banda é, sim.
De repente, ficou sério. A pior parte de estar numa banda era aquela: todo mundo pensava que você fazia aquilo simplesmente para pegar mulher, mas estavam sempre todos muito enganados.
— Aí é que está, minha cara. Você sabia que as pessoas têm bandas porque gostam de música também? É... Pois é. Essa foi a minha principal razão de ter uma banda, muito obrigado. — Sim, ele estava ofendido. — Além do mais, do que adianta pegar todas as garotas, se a única que me satisfaz não quer nem me ver pintado de ouro?
se ressentiu à sua insignificância, mas não conseguiu ficar calada:
— Eu pensava que você que tinha terminado com a .
assustou-se ao ouvi-la falar o nome de . E o que ele queria contando assim da sua vida a uma estranha?
— Até que, pra alguém que não sai da biblioteca, você tá sabendo bastante coisa do colégio.
— Oh, não! — Ela ficou envergonhada. — Eu estou parecendo uma daquelas fofoqueiras que não sabem cuidar da própria vida enquanto sabe tudo sobre os outros! Não foi a minha intenção, mas é que, quando se tem uma parceira de laboratório que nem a minha, é impossível não saber do que acontece aqui no colégio... — Ela levantou-se. — Ok, comecei muito mal. Acho melhor deixar você terminar de ler sua revista.
Por um segundo quase deixou mesmo ir, mas voltou atrás. Ela não parecia uma daquelas garotas que cuidavam da vida dos outros. Ela aspirava confiança. não sabia explicar muito bem o porquê, mas desde a primeira vez que a vira, tinha certeza que seria uma pessoa que o ajudaria a enfrentar essa situação.
— Não, . Fica. Eu sei lá o que me deu... Desculpa se eu fui grosso. É que eu odeio quando falam da perto de mim. Porque me lembra da maior estupidez que eu já fiz na vida.
— Nem sempre a gente pode acertar. — sentiu o pesar nas palavras de e tentou consolá-lo. — Mas não tem volta?
— Não posso. Não tenho coragem. — Ele a olhou. — Eu fui um fraco idiota. E eu que escolhi, não é? Tenho que aceitar.
— Mas, poxa, sempre haverá segundas chances. E, tudo bem, também sei que ela te odiava... Quer dizer, aposto que ela simplesmente não conseguiu aceitar que você terminou com ela. Mas que ela te ama, ama.
— Eu não tenho dúvidas disso. — deu um risinho tímido e apoiou a mão na bochecha. — Só que ela está começando a me superar, sabe? Depois que tudo aconteceu, eu comecei a implicar com ela, numa tentativa de sempre tê-la falando comigo, mesmo que fosse pra me ofender ou tirar uma com a minha cara — ele riu, lembrando-se de algumas cenas estúpidas dos dois. — Eu sabia que, se tivesse deixado as coisas se levarem, iria me tratar apenas como mais um. E isso era a pior coisa que poderia acontecer, só que aconteceu — ele suspirou, lembrando-se do bendito dia. — Ela nunca tinha dito meu nome depois da briga, sempre me chamava de , e admito que até achava graça. Ninguém consegue falar meu sobrenome de um jeito tão único. Ela até errava, de vez em quando, só para me encher o saco... Mas quando ela foi embora e disse “tchau, ”, eu tive certeza que eu nunca mais falaria com ela.
Sentiu o alívio do peso das palavras irem embora, e ouviu com atenção.
— E onde ela tá agora?
— No Canadá.
— Mudou-se? — parecia chocada. O negócio foi mesmo sério.
— Não... Pelo que eu soube, né. viajou sem dizer nada... Só disse ao que era só por um tempo, mas ninguém sabe sequer se ela vai voltar a frequentar a mesma escola.
— Mas não pode ter sido só por você. — achou tudo aquilo muito estranho. —Tudo bem, ela gostava muito de você, porém, ela parecia bem ao estar ao seu lado, não era? Mesmo que brigando sempre.
— Também teve um probleminha com a Maria. — Ele coçou o nariz e tirou de repente. estava andando demais com .
— A líder de torcida?
— Exatamente.
— Agora é a minha vez de fazer perguntas! — desconversou. — Chega de falar de mim. Posso saber o que a senhora tanto escreve nesse caderno?
— São só umas fanfics do Blink-182 — ela sorriu envergonhada, sentindo-se idiota em dizer aquilo em voz alta.
ficou satisfeito em saber que tinham a mesma banda favorita e, lá, eles ficaram conversando até o sinal bater. Não só naquele, como nos outros dias também. Os dois criaram um laço de confiança inigualável e impensável. Um fazendo companhia ao outro, conhecendo-se cada vez mais.

Maria, mais uma vez, dispensara com uma desculpa esfarrapada qualquer, o que fez a outra líder de torcida quase ter uma síncope. Aquela distância não estava sendo nenhum pouco saudável para as unhas de , que, pela primeira vez em toda a vida, estavam descascando de tanto nervosismo.
Não sabia exatamente o que fazer, mas precisava bolar um plano rápido, se não quisesse ser vista com aquelas unhas horríveis pelos corredores do colégio.



tinha um plano em mente; absurdo, mas válido. Seu desespero chegou a um lugar que não tinha mais como aumentar, só iria explodir.
Treze dias. A contagem era involuntária. Treze dias desde que tinha deixado no avião. Treze dias desde que seus melhores amigos não eram mais os seus melhores amigos. Treze dias, ou melhor, dois finais de semanas sem sair com sua melhor amiga. Era de enlouquecer qualquer um!
Era difícil, era complicado e era infantil subir as escadas para fazer o que ela estava fazendo, mas não havia outra solução. Só alguém de fora poderia ajudá-los.
Parou em frente à porta, encarando a placa. É, ela realmente faria aquilo.
— Com licença, Carly. Posso entrar? — perguntou com receio.
Carly era psicóloga e supervisionava os alunos do último ano, já que a maioria deles acabavam tendo muitos problemas com a pressão de sair do colégio, entrar na faculdade... E, como toda psicóloga deveria ser, Carly era bem comunicativa e conversava com todos, o que a fez decorar o nome de cada um.
— Entra, . — Carly afastou-se do computador e ofereceu o sofá para sentar. — A quem devo a honra desta visita?
— Eu não sabia mais a quem recorrer e vim aqui pedir ajuda.
“Atenção, alunos , , , e Maria Stern, do 3ª ano, por favor, Carly Simmons espera vocês na sala do SOE”.
— O que aquela louca quer? — perguntou a , já que os dois estavam juntos na mesa.
— Louca? Ela é gostosa. Isso, sim.
Os dois levantaram-se, ainda com imaginando aquela psicóloga de 27 anos em um vestido de enfermeira.
— Gostosa, mas louca. Fica achando que tem intimidade com todo mundo... É cada uma! Outro dia, ela veio falar de mim e de , achando que já me conhecia há 10 mil anos. É cada uma que eu tive que aguentar, viu? Em estados de animação totalmente opostos, foram atrás de Jack, que já subia as escadas também.
— O que nós fizemos desta vez? — achou que, talvez, soubesse a resposta. — Por que ela não chamou ?
— Não faço ideia. Será que ela tá achando que nós que esvaziamos os extintores?
— Não, não. — ficou pensativo. — Ela não chamaria a Maria, se esse fosse o motivo...

? — a bibliotecária chamou, desligando o telefone.
— Aqui?! — respondeu incerto.
olhou curiosa para ele.
— Carly está te esperando na sala dela.
— Eu? — Ele apontou para si, achando que estava metido em mais uma confusão. Era tipo um dom dele se meter em confusão. Até quando só estava respirando.
— Sim, você.
— Vai lá, . Depois, você me conta o que aconteceu. — riu da cara de confuso dele. Ele deu de ombros e saiu. Só poderia descobrir se fosse lá em cima, né? Porém, ao sair, acabou esbarrando em alguma garota que usava o uniforme de líder de torcida.
— Maria! — Surpreendeu-se com o fato da amiga estar andando por esses lados.
! — Ela assustou-se e deu um passo para trás. — Vim aqui te chamar, achei que não ouviria a chamada para ver a Carly...
— Ligaram avisando. Por que será, hein?
— É que... — Maria coçou o nariz.
— Andar com o não faz bem a ninguém. Todo mundo se entrega com essa mãozinha no nariz! — ele riu, fazendo-se sorrir também. — Algum problema? — Nah... Nah... — ela grunhiu, balançando as mãos. Maria estava mesmo nervosa. — Eu queria que alguém me ouvisse, e você é o único que sabe do meu problema, fora o , mas não acho que ele conseguiria me compreender tão bem.
Maria sorriu, procurando algum apoio no rosto de .
e Maria Stern, por favor, Carly Simmons esperam vocês em sua sala”.
Eles ouviram a voz chamando-os.
— Será que dá para ouvir a história toda no caminho? — sorriu, abraçou Maria, deu um beijo no topo de sua cabeça e andaram assim, abraçados.

— Se você já se decidiu, eu não tenho muito que fazer. — mostrou todos os dentes, tentando passar a segurança que Maria estava procurando. — Eu só posso te apoiar e te dar a certeza que você pode contar comigo no que precisar.
Ele abriu a porta da sala, e cinco pares de olhares curiosos o atingiram. Pela primeira vez, sentiu-se envergonhado do que tinha feito. Privou seus melhores amigos de sua vida.
Maria sentou-se ao lado de .
— Bem, acho que, agora, estamos todos aqui, então podemos ir ao ponto principal. — Carly anunciou de um modo simpático. — Devem estar todos confusos, mas não fiquem apreensivos, ninguém vai levar uma advertência para casa... A menos que não se entendam. Aí, sim, vão levar logo é uma suspensão, para ficarem trancados numa casa por 2 dias, porque nem acredito que vocês estão aqui, na minha sala, por isso. Porém, vejo que é necessária a interseção de alguém de fora para por ordem na casa! Que é isso, gente?! O que aconteceu com meu grupo de amigos preferidos? A minha esperança de aparecer no arquivo confidencial do programa da Oprah?! — Todos abriram um sorriso tímido com a brincadeira. — Alguém quer começar a falar? ?!
— Não, eu preciso abrir meu coração primeiro. — tomou a palavra, fazendo caras e bocas e batendo no peito, sofrendo. — Tem uma coisa que tá me incomodando desde... Eu juro que tentei entender vocês nesse meio tempo, mas não deu, ficou difícil, e eu não posso mais guardar isso só para mim. — Ele coçou o nariz e olhou para , e Maria, que estava desesperada com o que o amigo falaria.
— Não, , por favor! — suplicou, fechando os olhos.
Todos esperavam ansiosos pelo que falaria.
— Desculpa, Maria, mas eu preciso. Vocês realmente pretendem esconder o namoro de vocês até quando?
E não houve uma boca, naquela sala, que não ficou aberta com a pergunta.




Aquela pergunta pegou todos desprevenidos. Todos se entreolharam, principalmente, e Maria, que levantaram a sobrancelhas em visível surpresa. Tudo pareceu se encaixar para . Para e ainda era muito confuso.
— V-Vocês? — gaguejou, tentando formar uma frase que fizesse algum sentido. — Estão juntos?!
— Juntos?! — e Maria exclamaram em uníssono. AQUILO, sim, era loucura! De onde tirou uma ideia dessa? Parecia uma piada.
E era tão engraçada que não conseguiu segurar a risada. Aquela risada gostosa que se dá quando se está nervoso e sua única saída é... Rir.
— Juntos?! — repetiu mais uma vez, ainda sem acreditar naquela ideia maluca.
— Vocês não fizeram isso! — acusou. — Maria! A ... Como você fez isso? !
— Eu não fiz nada! — Maria tentou se defender.
— De onde você tirou essa loucura, seu louco? — gritou com .
Carly sentiu-se na obrigação de intervir:
— Ok. Por favor, não se alterem.
— Pera aí, gente! — manifestou-se. — Pera aí, pera aí... Eu não entendo mais nada. Maria?! ?! ?! Quem quer começar, por favor?
— Sério, cara, quem foi que te disse isso? — perguntou em um tom mais educado.
— Esse foi o motivo dela ter ido ao Canadá, não foi, ? — respondeu ironicamente.
— Então foi por isso que ela viajou? — Maria deixou sua boca abrir e seu queixo quase tocou o chão. — Foi isso que ela te disse?
assentiu com a cabeça.
— Por qual outro motivo seria?
Uma esperança surgiu no fundo do coração de Maria, o esboço do seu sorriso surgiu inconscientemente. Iluminou-se, sabendo que tudo não passava de um mal entendido.
— Quem iria imaginar, hein. — pensou alto. — e Maria...
Cada um começou a falar uma coisa diferente ao mesmo tempo. Tinha virado uma feira. As reclamações eram geral e não havia possibilidade de entendimento, no meio daquele pandemônio.
— GENTE! — Carly alterou a voz, e todos prestaram atenção nela. — Desse jeito, vocês nunca vão se entender. E pelo que eu vejo, o motivo de toda discussão é a viagem da . Ela nos disse que passaria a semana indo à entrevistas em algumas universidades no Canadá...
— E ela não mentiu. — tomou a palavra. — O problema é o motivo que a fez ir à essas entrevistas.
— Você a de convir que duas semanas é muito para ir a algumas faculdades em Toronto! — parecia estar irritada.
— Ela tá pensando em se mudar para o Canadá mesmo? — Era a vez de parecer irritado.
prometera que nunca se afastaria dele. Eles tinham feitos planos juntos, eles tinham se preocupado como iria ser quando estivesse viajando com a banda quando estivesse trabalhando. E nunca tinha passado pela cabeça de nenhum dos dois fazer uma faculdade tão longe, não até agora. Ele sabia que queria se formar, fazer uma faculdade, porém o combinado era que ela ficaria por perto.
— Diga, , o que perdeu por aqui?
Aquela questão lhe acordou. Ele sabia muito bem o que responder a . Ela o perdeu. Se viesse o procurá-lo, não seria nenhum problema.
— Nada. — simplesmente suspirou. E nada mais do que tinham planejado era válido.
— Mas, pera aí, ! Conta essa história a qual eu estou namorando o direito! — Agora, Maria estava achando graça em toda a situação. — Quem foi que inventou esse absurdo? Isso nunca iria acontecer!
— Nunca? — ainda parecia não acreditar.
— Desculpa, . — Ela o olhou. — Mas nem se o mundo acabasse amanhã. — E olhou para . — Porra, será que não dá para ver que ele é como um irmão para mim?
Maria conseguiu deixar constrangido ao olhá-lo daquela maneira tão... Efusiva.
?! Foi por isso que a afastou-se de vocês? — Carly procurou esclarecer as coisas.
— Foi o que ela me disse.
— Só isso? — Maria ficou feliz. — Aquela vaca! Como ela pôde pensar isso? Que A.C.R. viajado foi esse que ela teve?
— A.C.R? — Carly cochichou para .
— Ataques de criatividade repentina — esclareceu.
sentiu alguma coisa incomodar. Isso poderia ser pior do que ele imaginava. Sabia como era... Difícil. E não era tão fácil assim entender que toda aquela história era mentira.
Afinal, existia coisa pior que você ser traída pela sua melhor amiga? A pessoa que você contou todos os seus segredos mais secretos? Não existe.
Mas o que era de ? Nada. Ele não tinha nada a explicar ou ficar incomodado em estar sofrendo achando que Maria estava com ele. Porém, ele estava.
— Gente, a precisa canalizar essa criatividade em algo que dê dinheiro. — tentou brincar.
— Eu ainda tenho dúvidas! — prontificou-se. — Por que vocês estão tão distantes? Parece que tudo desmoronou de vez, sabe? Foi só a viajar, que Maria também nunca mais quis saber da gente... O , depois que descobriu que, na escola, existia uma biblioteca, só vê a gente quando vai tocar com os meninos. O não fala mais direito com o ... Vocês três tão pirando! E pirando todo mundo!
Uma reflexão pairou sobre aquela sala. Cada um refletiu sobre o que aconteceu com eles. Estava tudo errado.
— Não dá pra continuar assim, certo? — falou o que todo mundo estava pensando. — Então, já que a gente vai ter que ir a Nova Cintra no próximo fim de semana, por que não vamos todos juntos? Nova Cintra é mara!
As meninas ficaram animadas. Os meninos sempre tocavam em algumas cidades próximas, mas elas nem sempre podiam ir, por conta dos treinos, mas, desta vez, era uma exceção válida para todos.
— Seria maravilhoso! — deu um gritinho de alegria. — Nós iríamos ficar perambulando pelo festival e eu iria jogar na cara daquelas groupies idiotas que o baixista da melhor banda daquela noite era MEU namorado! E a gente sairia depois e conheceria gente legal como a gente fez naquele Summer festival no ano passado, e chegaríamos em casa só depois das 5 horas da tarde do outro dia...
— Tá, , a gente entendeu. — cortou os pensamentos dela.
Então, parecia que estava tudo sob controle naquele dia. Mas parecia não ter se convencido.
Eles iriam viajar no sábado de manhã, já que Nova Cintra ficava a apenas 3 horas de Lutherville. As garotas não estavam preocupadas com os pais, pois eles não costumavam negar nada quando todos estavam envolvidos. Eles nunca se metiam em confusão, pelo menos, não que os pais soubessem.
Em mais alguns minutos, toda a confusão foi desfeita. Poderiam ser aquele grupo unido novamente.
— Mas vocês nunca se pegaram?
! — todo mundo o repreendeu.
— Ande você tá indo, ? — perguntou assim que viu desviando do caminho para o pátio.
á era um novo dia e, como a trupe tinha se “acertado”, estava subentendido que iriam retomar a rotina de sempre, de se juntarem na hora do intervalo. Só que tinha mais uma surpresinha.
— Vou ali rapidinho e já volto. Eu prometo!

E, mais uma vez, adentrava a biblioteca. Já procurando uma pessoa em especial: .

— Não, não é possível. Deve ter algum motivo maior para o estar na biblioteca todos os dias. Ele nem gosta muito de ler, nem de estudar. — tentava encontrar uma resposta cabível para aquela situação.
— Mas ele disse que já voltava! — Maria amenizou.
— Nós deveríamos ir lá descobrir. — procurou apoio em , para a sua curiosidade.
— Vamos? — guiou a turma.
— Por mim, tudo bem. — e deram de ombros, seguindo-o.
A única coisa que restava a Maria era segui-los também.

— E aí, o que aconteceu ontem? — perguntou a assim que ele aproximou-se.
— Qual foi a bronca da vez?
— Meus amigos... E não foi bem uma bronca, foi mais... — Passou alguns segundos pensando no que melhor encaixava a situação do dia anterior. — Uma DR — e riu. Era engraçado falar aquilo. Quando que pensou em ter uma discussão de relação com seus amigos? Isso era coisa para um casal fazer.
— Sabe qual foi a coisa mais louca que eu já ouvi em toda a minha vida?
— Que você tem juízo? Porque, sabe, eu discordo com quem falou...
— Ô, idiota! Rá, rá! — ele riu com sarcasmo. — Falando sério. Eles estavam achando que eu estava namorando a Maria! Dá pra acreditar numa coisa absurda dessa?
— Você e a Maria? — ficou boquiaberta. — ! Mas ela é sua melhor amiga!
— AH, NÃO! — colocou as mãos na cabeça. — Você também, ?
— Nah. — Ela balançou a mão. E riu. — Foi só pra fazer uma pegadinha.
fuzilou com o olhar.
— Idiota...

— Quem é aquela? — Maria cochichou, surpresa ao ver com outra garota.
É, eles tinham ido à biblioteca espionar o amigo.
Quando você entrava na biblioteca havia uma “antessala” com armários para as pessoas colocarem os seus pertences e, do lado direito, ficava o balcão. Atrás da parede com armários ficavam as mesas, os armários eram baixos e a parede era de vidro, fazendo com que qualquer pessoa que entrasse na biblioteca tivesse visão panorâmica do seu interior. Então, eles se esconderam, para poder observar onde estava.
Se fosse um desenho ou um filme, eles pareceriam algo relacionado a espiões que tentava desvendar um crime.
Quem visse de fora acharia que eles estavam malucos.
— Eu já a vi em algum lugar... — lembrava-se do rosto dela, mas não imaginava de onde.
— Não é de todo mal. — Maria elogiou. Ou quase elogiou. Ela tentou enxergar a essência da menina. A verdade é que nenhuma das duas gostou de vê-lo com uma garota estranha, desarrumada e com óculos que a deixava com cara de nerd.
— É interessante. — comentou.
— E é muito gata! — disse.
— Que porra, ! — controlou o grito e afastou-se do bando, fazendo os quatro o olharem. Ele passava a mão em seu braço. — Eu nem falei nada!
— Mas pensou. E pensar é pior que falar, mereceu o beliscão.
— Ó. — Ele mostrou o braço vermelho devido ao beliscão que levou da namorada. — Tá vermelho. Eu vou perder meu braço!
Quando eles voltaram a prestar atenção de novo em , Maria levantou rápida e rasteira.
— Corre que o tá vindo aí!
Os cinco, pegos de surpresa, foram correndo e atropelando-se, passando um por cima do outro, até chegarem à mesa em que estavam.

Todos ainda estavam ajeitando-se, tentando fazer a respiração voltar ao normal, quando aproximou-se da mesa.
— Nossa senhora! Por onde vocês andaram que estão assim, hein?
— A gente? — Maria fez a cara mais cínica que alguém na Terra poderia ter feito. — Não, nada...
— Tá bebendo, ?! Estávamos o tempo todo aqui! — não conseguiu deixar a coisa mais convincente.
— Fala aí, cara. O que tu foi fazer? — mudou o foco da conversa. Se as garotas tentassem dar uma desculpa mais uma vez, iria tudo por água a baixo.
até percebeu que eles estavam tentando disfarçar alguma coisa, mas não deu muita importância. Qualquer coisa que estivessem fazendo não era muito importante para o que ele faria agora.
— Ah, eu fui buscar alguém para apresentar a vocês.
Foi só aí que prestou atenção ao seu redor e percebeu que quem não olhava descaradamente na direção em que estavam, disfarçava.
, esses são meus amigos. — saiu da frente dela, revelando uma toda vermelha, envergonhada até o ultimo fio de cabelo, e apontou para cada um enquanto os apresentava. — , , , e Maria.
deu um tchauzinho simpático. e sorriram. Maria sorriu, sem vontade. E ... Continuou séria, pensando “que da roça” em qualquer movimento que fazia.
— Oi. — deu um tchauzinho tímido e ajeitou o óculos.
— Senta aí, . — tentou deixá-la mais à vontade.
Maria olhou cúmplice para . É, não foi bem recebida pela ala feminina daquela mesa. Era um ultraje aquele ser tão desarrumado vir sentar com as duas das garotas mais bonitas do colégio. Ninguém mais tinha respeito neste mundo?
— Aqui. Foi ela quem aguentou minhas crises na biblioteca. — descontraiu o ambiente, abraçando , que estava sentada ao seu lado.
Parecia que, a cada movimento, ficava ainda mais vermelha e quente. Aquilo era novo para ela. Não era todo dia que você iria sentar com a turma de pessoas que sua parceira de laboratório não se cansava de falar e que a maioria das pessoas queriam estar.
— Não eram crises, . Eram só... Dúvidas passageiras.
não conseguiu resistir a careta ao ouvir a voz da garota. Por sorte, só percebeu e deu um beliscão de leve para alertá-la.
— Ei, quem faz isso aqui sou eu! — não se segurou e deu outro beliscão, mas bem mais forte que o dele.
— Será possível que você só vai parar com isso quando eu cortar sua mão? — , mais uma vez, tentou aliviar a dor esfregando a mão no braço. — O que minha mãe vai achar quando eu chegar em casa cheio de marcas?
Ele fez todo mundo rir, mas as coisas estavam ficando sérias.
— Mas, , conta mais sobre você. Tá em que série? — Maria puxou papo, acompanhado de um “outch” por ter levado uma pisada de , mas, que, rapidamente, disfarçou com um sorriso.
— Não vamos nos misturar com o inimigo. — cochichou só para Maria.
— Eu tô no primeiro ano ainda.
— Sério? — continuou. — Achei que você já tivesse no segundo.
— Não tenho tanta pressa assim, sabe...
— Deveria. Escolas são sempre um saco! — reclamou.
— Não deve tá sendo tão chato assim, não é, ? — levantou uma sobrancelha, olhando para os lados, fazendo todo mundo perceber que ela tinha virado o centro das atenções. A novata sentiu os olhares em cima, pressionando de uma forma que era bem pior que apresentar um trabalho na frente da classe. Talvez, não devesse estar ali.
— Não liga, eles são geralmente indiscretos assim mesmo. — amenizou o comentário maldoso da namorada. — Ainda mais quando enxergam o óbvio.
— Que óbvio? — ficou curioso.
— Vocês sabem... Quando pessoas interessantes... — Ele fez um movimento indicando todos da mesa. — Juntam-se com mais uma pessoa interessante.
sorriu com a gentileza e o eufemismo de para dizer que ela era uma loser. O que fez soltar um “RÁ!” mais alto do que pretendia, fazendo todo mundo ficar constrangido por um momento.
— Que nada! — tentou tornar o ambiente descontraído. — Ela tá acostumada com tantos olhos em cima dela. Cada pessoa naquela biblioteca tem quatro. Imagine, eu me sentia um ET lá dentro… Era o único com dois olhos.
— Olha... — Com a intimidade adquirida, ajeitou o óculos, de forma divertida, olhando para o novo amigo. — Ofendeu, tá?
Ela fez todo mundo rir e retomaram a conversa de um modo mais aberto, principalmente, com os garotos, que a fizeram se sentir muito confortável, enquanto continuava impondo barreiras do tamanho da muralha da China para ela, e Maria ainda estava com o pé atrás.




— Por que ela vive andando com aquele caderno embaixo do braço? E ela não sabe o que são lentes de contato? — não tinha conseguido parar de falar daquela estranha por um segundo. Tudo o que tinha era um defeito que via. — Ninguém disse que os únicos óculos bonitos são os óculos de sol?
Era um novo dia, mas o assunto ainda era o do dia anterior. O sinal havia tocado, e todos os alunos se encaminharam para um novo intervalo.
— Talvez, ninguém tenha lhe apresentado ainda. — Maria riu. — Será que nós vamos ser as salvadoras dessa alma?
— Nem vem querer dar uma de Deus, porque só um milagre pra deixar aquela apresentável. Aliás, que nome é esse? “”... Horrível! Tomara que ela tenha visto que o lugar dela é na biblioteca e desista de passar o intervalo com a gente. O que o tinha na cabeça, pra trazer uma besta como ela pra sentar com a gente?
— Hum... Parece que os garotos gostaram dela. — Maria apontou com a cabeça para a mesa deles, fazendo tremer de raiva quando viu dando muitas risadas com os meninos, principalmente, com seu namorado.
— O que ela quer, hein? — apontava com as mãos abertas para eles. — O que ela tá achando que é? Queria ver se a tivesse aqui...
— Ah, mas, com certeza, ela não iria tá nessas intimidades todas, principalmente com o .
— O que o tem na cabeça para deixar ela andar com a gente? — reclamou indignada. — Era para a gente estar voltando ao normal, e ele me vem com essa!
— Você sabe que o nunca bateu muito bem da bola, né? Eu não me surpreendo com mais nada.
— Maria... — parou no meio do caminho e abaixou a cabeça, já meio chorosa. — E se... Odeio pensar nessa possibilidade, mas... E se ela tiver achando que vai ser tipo uma nova no nosso grupo? E se ela roubar o da ?
— Espero que ela nem esteja cogitando essa possibilidade. — Maria ficou cabisbaixa ao se lembrar da amiga, mas voltou ao ânimo. — Qual é, ! A é insubstituível! Ninguém nunca vai conseguir roubar o lugarzinho dela ao nosso lado... Muito menos uma recém-chegada.

— Aquele vídeo, Mark Hoppus jus for kids, é o melhor de todos! — e Maria chegaram bem na hora em que fazia um comentário, sem atrapalhar a conversa animada que estavam tendo.
sentia uma mistura de sentimentos que nem ela mesma conseguiria explicar. Era raiva de , saudade de , ciúme de . Sentou-se ao lado do seu namorado, com uma cara de tédio que dava tédio só em ver.
Maria sentou-se de frente para , mas tentando disfarçar a saudade que fazia ali. Maldita hora que a fez lembrar da sua melhor amiga!
— Oh-oh. — chamou a atenção para alguma coisa errada. — Uma senhora e uma senhorita chegaram cabisbaixas no recinto. O que aconteceu?
— Eu tô bem. — disse séria, o que a fez parecer um pouco grossa, e encostou-se bruscamente na cadeira.
— Eu estou com saudade. Quando que a volta, hein? Eu preciso explicar a ela tudo o que aconteceu...
— A pergunta que vale um milhão! — fez uma voz engraçada.
Enquanto isso, e entraram numa conversa paralela.
— No fim, eu ainda acho graça nessa ideia dela de eu e o estarmos namorando. — Maria abriu um sorriso.
— Imagino que ela vá rir muito quando tudo se esclarecer. — mostrou todos os seus dentes à Maria.
— Quem sabe, né? — Maria deu de ombros.
— É, né, afinal, estamos falando da ! Ela pode ser bem imprevisível, de vez em quando. Tipo quando ela “roubou” o carro da mãe e passou lá em casa pra gente ir a Baltimore assistir o show do Fall Out Boy. — fez todo mundo se lembrar daquele dia.
— E faltavam menos de cinco horas para o show... — balançou a cabeça, rindo. — Íamos os 7 apertados num carro...
— Nós nem ao menos tínhamos os ingressos! — Maria deu uma risada gostosa, lembrando-se da situação.
— Foi um dos melhores shows que eu já fui. — riu, mexendo em qualquer imperfeição da mesa. A verdade era que ele se lembrava mais de estar beijando que qualquer coisa que o Pete e o Patrick tenham feito ou falado, ou, ainda, cantado.
— Ai, eu gostaria tanto de ter ido... — sonhou. — Da próxima vez, lembrem-se de mim!
E sua risada foi interrompida por e , que saíram a passos largos, sem falar com ninguém, para algum lugar longe o bastante para ninguém ficar de olho.
— Que seres estranhos... O que será que teve? — era o mais curioso da turma.
— Espero que não tenha sido nada demais. — Maria os seguiu com os olhos, já imaginando o que poderia ser, e voltou a olhar a mesa, mas, desta vez, encarando , que já a olhava, deixando bem claro que ela era a culpada disso tudo.

O intervalo estava passando muito devagar, e Maria ficava cada fez mais curiosa, e preocupada, com . Elas se conheciam bem e só eram tão amigas assim por serem muito parecidas... Por isso, àquela hora, provavelmente, estava tentando convencer a namorada que era uma boa garota, mas poderia não se convencer tão fácil. E isso poderia se transformar numa discussão catastrófica.
Desta vez, Maria olhou para com um olhar de pena. era bem cruel, de vez em quando...

— Custa alguma coisa ser educada, pelo menos? — fazia mesmo o que Maria pensou: tentar convencer .
— Agora, EU sou a mal-educada? Tá bom, , tá bom.
— Eu não sei qual é o seu problema. A nunca fez nada para nós!
— E você quer MESMO que eu espere ela fazer? — respirou fundo, controlando a raiva. — Aliás, vocês nem tão percebendo, mas ela já começou a fazer, !
— A fazer o quê? Porque eu não consigo ver nada de errado nela...
— Amorzinho... De algum jeito, ela já sabia que eu não gostava dela, sei lá. Nós já estamos brigando. Quem garante que não foi ela quem contou à que a Maria e o estavam namorando, para tirá-la do caminho? No fim, vão descobrir que nem loser ela era. Vai que é uma prima/amiga/irmã/conhecida que tá devendo um favor a alguma daquelas garotas malucas que tanto adoram vocês e tá tentando nos destruir?!
riu das palavras de .
— Isso é paranoia, sabia?
— Não é, não! — Ela bateu o pé. — É precaução! O já contou tu-do sobre ele. Agora, você, o e o a tratam como se já a conhecessem desde que seus pais se conheceram!!! Quero ver quando ela tiver conseguido alcançar o seu objetivo principal... O que vocês vão fazer?!
. — Ele ficou sério. — Para com essa coisa, ok? A não conhece ninguém neste colégio, além de umas poucas pessoas da sala dela. Ela abomina esse mundo dos populares...
— E o que ela tá fazendo com a gente, então? — Ela o interrompeu.
— Para, tá certo? Eu não quero mais te ver sendo mal-educada e dando respostas grossas a ela. Por nós.
E deu as costas, indo em direção aos seus amigos. Ele não tinha gostado nenhum pouco de como estava agindo.
Ela correu atrás dele.
— Se você ACHA que eu vou ficar assistindo sem reclamar, tá muito enganado.
Ele rolou os olhos e continuaram andando um ao lado do outro.
estava com vontade de chorar, mas estava com muita raiva para isso. Então era assim? Nem bem dois dias aquela garota tinha passado com eles, e os garotos já a tratavam como se ela sempre estivesse ali. ainda estava com muita, muita, muita raiva do seu namorado. Ele tinha ficado do lado da outra?! E não deu nenhum crédito para ela?!

Maria estava certa. A cara de denunciou tudo, mesmo antes de ela se sentar ao seu lado e deixar sozinho do outro lado.
— Parece que os pombinhos brigaram... — riu ao ver com os braços cruzados.
— Brigamos? — perguntou, cínico, a ela.
— Chame do que quiser. — deu língua para ele, fazendo-o rir. — Eu não quero conversa com você.
— Tá bom... — continuou rindo.
Droga! Por que ele tinha que ficar tão bonito rindo? se segurou para manter os braços cruzados. Mais um pouquinho olhando com aqueles olhos apaixonados, e desistiria de tudo e pularia no namorado. Mas ela se segurou ainda mais. Sabia que era joguinho dele, só que, desta vez, não iria funcionar.
— Sim, ... — continuou como se nada tivesse acontecido. — Vai fazer alguma coisa amanhã à tarde?
— Hum... Nada demais. — estava com vergonha de admitir que iria estudar. Ninguém estudava dia de sábado. Pelo menos, ninguém daquela roda.
Maria estava se sentindo a mãe Diná. Já imaginava para onde iria convidá-la, por isso estava mais relaxada, ao contrário de , que assistia a cena, perplexa.
— Não quer ir lá pra casa do assistir a um dos nossos ensaios?
Era a gota d’água.
saiu, fazendo muito barulho, com raiva de , com raiva do mundo.
— Acho melhor eu ir atrás dela. — Maria levantou-se, correndo, para alcançar a amiga.

! ! — Maria caminhou rápido, pegando no ombro da amiga, que já estava quase dentro do corredor do colégio. — Calma! Espera aí!
— Eu preciso ir ao banheiro — ela disse entre dentes. — Senão, eu vou começar a chorar aqui mesmo.
Elas foram andando, em silêncio, até chegar lá dentro.
— Você viu? — mal tinha dito uma palavra, e as lágrimas já haviam começado a cair. — O brigou comigo por causa dela. E você viu? O está apaixonado por ela!
— Calma, respira. — Maria a puxou para dentro do banheiro para deficientes ao perceber que algumas garotas pararam para ouvir a conversa delas.
sentou-se na privada, e Maria encostou-se na pia que havia ali.
— Conta, o que aconteceu? Começa do , que é mais rápido.
— Você não viu?! O jeito que ele a chamou pra ir ao ensaio deles amanhã foi ridículo!
— Vai ver, é só admiração, . Não se preocupa muito com isso. E você conhece o ... Ele só quer alguém para acabar com a carência dele.
— E não poderia ficar jogando charminho pra outra? Com tanta guria dando em cima dele, vai logo na errada?
— Ai, não fica gastando seus neurônios com isso. Mesmo que ele chegue a ficar com ela algum dia... Aposto que não será mais que um dia.
— Assim eu espero... — ficou em silêncio.
Maria percebeu que a amiga só estava esperando ela perguntar sobre .
— E sobre o nosso querido , qual foi a da vez?
— Ahhh, ele é um idiota. — Ela chorou ainda mais. — Fica do lado daquela lá... Dizendo que eu sou paranoica...

— Eu acho melhor não. — respondeu, olhando e Maria se afastarem. Esperava que houvesse alguma resistência, mas tinha garantido que as meninas não iriam se opor a ter mais alguém andando com elas.
Mas elas eram diferente, sabia. Como não imaginaria que elas não iriam gostar de ter uma loser como ela andando com os seus melhores amigos? Vivia recebendo olhares de desprezo de pessoas como elas. Onde estava com a cabeça que andar com eles seria legal?
— Nem pense nisso. — não aceitou a resposta. — Ela também tem que aprender que o mundo não gira ao redor dos pompons delas.
— Deixa para lá. — disse. — Quem perde são elas de não dar oportunidade de conhecer uma pessoa como você.
sorriu com as tentativas de levantar seu ânimo.




, passa aqui, antes de ir ao ensaio?
— Sim, senhora. Mais algum desejo que possa realizar?
Era sábado de manhã e Maria ligou para . Era a vez de ela contar a o que tinha em mente. O que iria fazer. Ela não sabia ao certo como a amiga reagiria, mas precisava tirar, pelo menos, um peso de suas costas.
Deitou na sua cama, pensando no que tinha acontecido ontem. estava morrendo de ciúme da nova amiga dos garotos. Com certa razão, pensou, ela nos pegou num péssimo momento.
Ficou olhando o teto, por alguns segundos. Um teto tão branco que a irritava. Odiava coisas totalmente brancas. Precisava colocar alguma coisa naquele teto. Em compensação, seu quarto tinha paredes rosas, daqueles fechados, que combinavam com preto, que, aliás, eram as cores das suas prateleiras e da escrivaninha em que ficava o computador. O seu guarda-roupa era feito de vidro esfumaçado, em acabamento preto, e ficava em frente à cama. Como o quarto era bem espaçoso, havia alguns puffs coloridos no canto, ao lado da escrivaninha, e uma janela com cortinas de desenhos variados, bem fofinhos. Do outro lado do quarto, os mais desavisados veriam apenas um espelho enorme, mas que era uma porta de correr que dava para o seu banheiro. Era um quarto bem menininha, porém era de dar inveja em qualquer pessoa que odiasse rosa.
E a última coisa que a fez ficar olhando fixamente para um ponto no resto da parede ao lado do espelho/porta do banheiro: um mural de fotos, que não tomava a parede toda, mas ocupava um bom espaço. Tinha fotos de todas as épocas da vida de Maria. De um ultrassom de quando sua mãe estava grávida, vestida de coelhinho numa festa da pré-escola, com os amiguinhos do infantil, várias fotos dos seus aniversários, sorrindo com a janelinha aparecendo e, à medida que ela ia crescendo, fotos de festas iam aparecendo. Dos quinze anos, luais, dos primeiros shows que viu do All Time Low, vestida de líder com a equipe… E uma recente em que ainda aparecia sorrindo, abraçada a . Estavam todos na foto.
Mas, ao ver , Maria se lembrou de que também precisava falar com ele. estava estranho, como se ainda não tivesse cem por cento certo sobre e ela. O que ela achava uma tremenda idiotice porque só se ela estivesse se encontrando às escondidas com num lugar muito secreto. E riu ao imaginar uma história dessas.
Ah, também precisava ligar para . Ele tinha que ir com ela encontrar Francesco ainda nesta semana.
Maria respirou fundo. Eram tantas coisas que aconteciam ao mesmo tempo para alguém que só tinha 18 anos.
Não o bastante. Ainda havia , que não dava notícias, com seu celular sempre na caixa e sem responder seus e-mails.
Sem pensar, ligou para a casa dos pais dela...
— Alô? — gritou desesperada quando atenderam.
“Oi! Pois é, nós não estamos. E se você sabe pra quem ligou, pode deixar recado que a gente retorna. Se não, deixa recado que a gente retorna também, só pra dizer que você ligou errado!”
Maria riu do recado. Só poderia ser a doida da mesmo.
E não foi desta vez que ela conseguiu. Largou o telefone em cima da cama e correu para tomar banho. Precisava estar muito relaxada para conversar com .

Wazzap, dude? — apareceu no quarto, imitando alguém do gueto.
Yo, man! — Maria riu e levantou a mão para a amiga fazer um high five.
— Besta. E aí, como tá? O que me conta? Já terminou de se arrumar?
— Calma, aí! Uma pergunta de cada vez, por favor!
deu de ombros e sentou com todo cuidado na cama, para não se desarrumar muito.
— Falou com o , depois de ontem? — Maria perguntou enquanto terminava de arrumar o cabelo num “rabo de cavalo”.
— Acredita que ele não teve nem a ousadia de me ligar? Agora, sim, eu estou realmente muito furiosa com ele! — Ela se olhou no espelho, tentando fazer um fio rebelde voltar ao seu lugar.
— Hum… É… — Maria parou o que estava fazendo e ficou pensativa, encarando pelo espelho.
— Fala logo o que houve, Maria. Você tá tentando me falar alguma coisa e isso já tem um tempo, não é?
— É.
Maria se jogou com tudo em cima da cama, sentando de frente para .
— É que… Sabe, , eu decidi… — Ela estava começando a tremer de nervosismo. Era muito difícil falar, porque sempre foi uma coisa que ela gostou. Sempre foi o que a fez feliz durante um bom tempo. E muitos veriam como se Maria estivesse desistindo. — Eu pensei muito sobre isso, pensei bastante mesmo, mas… Eu vou sair da equipe.
Foi o suspiro mais longo que Maria deu em toda a sua vida.
— Como assim? Por quê? — ficou sem entender.
— Eu preciso pôr algumas ideias em dia, sabe? Quem sabe, arranjar outra coisa pra fazer, escolher outro público, crescer. E estar na equipe só iria atrapalhar os meus planos. E, desculpa se eu não posso contar a você agora, mas, depois, eu te prometo que você será uma das primeiras pessoas a saber o que eu vou fazer. Da minha boca.
— O que está acontecendo com o mundo? — não resistiu. — De repente, tudo ficou maluco!
— Eu sei. Parece inesperado. — Maria explicou. — Mas não é, eu juro. Eu já, há um bom tempo, penso nisso e não queria dizer nada, antes que fosse uma certeza para mim. Quero ter meus amigos ao meu lado, porém preciso pensar no meu futuro, na minha vida.
Seja lá o que Maria estivesse armando, ela precisava de apoio. E, , apesar de ter ficado surpresa com a decisão da amiga, não poderia deixá-la de lado nesta hora.
— Se você tiver certeza do que tá fazendo, eu te apoio. Não importa com o que seja. Mesmo que seja roubar um banco. — sorriu e involuntariamente abraçou Maria. — Você vai contar para todo mundo quando?
— Hoje.
— E SÓ AGORA VOCÊ ESTÁ ME CONTANDO? — cruzou os braços, chateada, mas desfez rápido a expressão, imaginando o que viria a seguir. — Você sabe que as meninas vão te matar, não é?
Maria riu alto.
— Se sei! Mas acho que nós podemos vencer o mal, não é?
— Claro! Ninguém é páreo para nós! — Elas trocaram um high five de novo. — Agora, vamos, que a tarde será muito longa!

— Vocês deveriam ir com mais cuidado, sabe?
sugeriu, ajeitando seu instrumento. Os quatro entraram numa conversa aleatória, enquanto se ajeitavam para o ensaio, e acabaram entrando num assunto muito polêmico: .
— Ah, não! Não me diga que você também não foi com a cara da ! — mostrou impaciência na sua voz.
— Não, caras, não é isso. Não tem nada de errado com ela. Ela é super legal e tal... Só que não dá pra ignorar o fato de que Maria e não conseguiram assimilar essa nova realidade.
— Nossa! Como o falou bonito agora. — o olhou espantado e repetiu o “assimilar essa nova realidade”.
— Depois elas se acostumam, rapaz.
— Você sabe que não é assim, . Eu, apesar de não aceitar, entendo essa resistência das meninas. Faz 3 semanas que estamos sem a , e ela era um tipo de cola invisível entre as duas. Não é pedir muito para irmos com mais cuidado.
— Veja bem, , acho que a palavra certa nem é cuidado. As meninas, quer dizer, a , pelo menos, tá doida. — disse descontraído. — Mania de perseguição ou, talvez, só paranoia mesmo. Mas ela acha, de verdade, que a tem alguma segunda intenção ou qualquer coisa do tipo...
— Falando nisso... Tu ainda nem falou com ela depois de ontem, né? — quis saber das fofocas.
— Não...
— Ai, meu Deus! — fingiu uma preocupação muito afetada. — e há mais de 12 horas sem se falarem... O mundo vai acabar!
— Nah... Quando a gente acabar aqui, eu ligo pra ela.
— A gente vai ao “Êxodus” depois daqui, né? — perguntou.
— Ô, tanto tempo que a gente não vai lá que, se a galera já não mudou totalmente, já não se lembram mais quem é a gente. Rimou! — riu. — Eu sou um poeta! Mas... A vem e vai?
— Vem e vai, né? RUUUUUMMM! — Os outros três zoaram com a cara do amigo.
— Tá danado!
— Quem tá danado desse jeito?
apareceu no porão, fazendo ficar sem graça até o último pelo do seu dedão do pé, enquanto os três quase tinham uma síncope de tanto que riam.

— Ok, gente, vocês já se aqueceram demais! — A treinadora bateu palmas, chamando a atenção. — Venham aqui, que a gente precisa conversar.
Um bando de garotos e garotas (ok, nem tantos garotos assim. Só havia dois) com roupas de ginástica sentaram-se de frente para a treinadora, esperando a conversa começar. Maria se postou ao lado da treinadora.
— Pronto, gente?! Agora, silêncio, que Maria vai dar um recado.
Os olhos curiosos fitaram Maria, em busca de esclarecimentos. Aquilo seria difícil. Um frio na espinha percorreu o corpo dela enquanto tentava fazer com que as palavras saíssem da sua boca.
Quinze pessoas estavam sentadas à sua frente. Companheiros de equipe. Ela tinha prometido que não choraria, mas, com a situação na sua cara, Maria percebeu que as promessas não levam em conta na hora de encarar o problema. Droga.
— A coordenação pediu para fazer surpresa, mas eles não se tocaram que os nossos uniformes são feitos sob medida...
— Mentira! — uma das garotas falou mais alto do que deveria, animada, já prevendo o que Maria iria falar.
— Verdade, Britanny. A direção aprovou o pedido para mudar as cores e o modelo do uniforme! — Ela sorriu com a animação que as outras demonstraram. — Chega de vermelho para a gente. Agora, todos os jogadores, atletas e líderes de torcida se vestirão de azul!
As vozes foram aumentando a um ponto que todos falaram juntos e ninguém entendia nada.
— Pera, gente! Pera! — Maria tentou por alguma ordem. — Nós vamos fazer tudo esta semana, para, daqui a quinze dias, estarem prontos para a abertura do campeonato intercolegial de futebol americano, que, como todo mundo já sabe, será aqui no nosso colégio. Mas não é só por isso que a nossa série tem que ser a melhor de todos os tempos... — Agora, sim, Maria teria que deixar de enrolar e ir direto ao ponto. Então, abaixou o tom de voz. — É que... Linzy, você ainda tem a lista das meninas que foram reprovadas no nosso teste?
— Tenho, sim, Maria.
— Pois chame a próxima da lista. — Ela respirou fundo e continuou de vez. Era agora ou nunca: — Eu deixarei a equipe.
— VOCÊ O QUÊ? — Linzy gritou, sem querer. — Você não pode! É a nossa capitã! É a estrela principal!
Linzy era uma das “fãs” de Maria. Achava que todo o “sucesso” e os últimos dois títulos que eles tinham ganhado de “melhor equipe de líderes de torcida do Estado” deviam só, e somente, à Maria.
— Por quê? — Linzy perguntou, agora, com um ar tristonho em sua voz.
Bem que falou que as meninas iriam matá-la.
— Lin... Eu tive que decidir entre a minha rotina de cheerleader ou dar um passo à frente. Deu para perceber o que eu escolhi, né? — Maria tremeu a voz e seus olhos encheram de lágrimas, mas nenhuma ousou se mostrar. — Além disso, eu só estou antecipando o que iria acontecer no fim do ano, pessoal! Vocês sabem que eu estou no último ano. De qualquer forma, vocês não me teriam mais aqui por muito tempo.
— Você só tá se esquecendo de que nós ainda nem entramos no 2° bimestre, Maria... Ainda tinha muito tempo para você ser nossa companheira. — outra líder, que parecia mais compreensiva, lembrou-se e sorriu, querendo demonstrar o carinho que sentia.
— Com tanta gente querendo estar entre nós, ela vai e desiste assim, do nada — alguém comentou alto, sem intenção de ser ouvida, mas com intenção de alfinetar.
— Pera aí! Eu não estou largando “do nada”. Vocês sabem que eu amo isto aqui, que nos apresentar para o pessoal é a coisa que eu mais amo neste mundo. Então, não venham me dizer que eu não dou importância, pois me dediquei 100% nisso. E vocês são testemunhas. Eu vou sentir muita saudade de treinar com vocês, de me sentir bem em um grupo, de reclamar porque tinha festa na sexta, mas tinha treino no sábado, e eu não poderia aparecer toda desmantelada... Apesar de eu ter aparecido meio anormal umas duas ou três vezes... — Maria fez todo mundo rir. — De comemorar nossos títulos, nossos jogadores. Cada momento aqui foi MUITO especial, nem tem como descrever. Ninguém sente a felicidade que eu sinto ao me apresentar... Ninguém. Então, por favor, não falem que eu estou desistindo quando eu não estou. Vamos fazer o melhor na abertura dos jogos. E, além disso, eu ainda estudarei aqui. Vou ajudá-los sempre que precisarem.
Ela sorriu e depois do “UHUL, essa é minha amiga!” de , todos começaram a dar gritinhos e bater palmas.
Eles estavam perdendo uma líder, mas precisavam ganhar um jogo, não é verdade?
— AH, sim! Uma última coisa, ok? — Maria riu e passou o dedo pelo canto do olho, sem deixar a lágrima aparecer. — Vamos deixar os torcedores se surpreenderem, certo? Não contem nada do que foi dito aqui. Vamos deixar todo mundo de boca aberta naquele jogo!
O acordo foi feito. Só restava esperar que ninguém abrisse a boca.

Não foi a falta de tentativa que fez ficar sem falar com após o ensaio, foi a falta de vontade da parte de , que quase cansou de ignorar as chamadas do namorado.
— Eu posso matar o ? Muito obrigada — ela reclamava dentro do carro enquanto ignorava mais uma ligação dele.
— Que desperdício! — Brianna brincou.
estava com Maria e mais três garotas no banco de trás do seu carro. Essa história de Maria sair da equipe deu um fôlego para mais uma comemoração. Eles estavam indo a um bar, passar a noite de sábado.
— Ei! — brigou com ela. — Eu tô com raiva dele, mas ele ainda é meu. Resuma-se à sua insignificância, tá?
— Que absurdo, ! — Lee, a oriental da galera, comentou. — Só porque você tem um namorado HOT!
— É hot, mas é meu. — deu língua pelo retrovisor. — Agora, deixem de falar da beleza do meu namorado, que eu estou começando a ficar com ciúme.
— Ciúme da gente falando dele e não de você? — Maria riu.
— É, mais ou menos por aí...
E o carro era só gargalhadas de 5 garotas.

— Bem, vocês são testemunhas. Eu liguei. Ela quem não quer atender. — fitou o celular enquanto entrava no carro de . — Não vou ligar mais também.
— Que menino birrento, mamãe! — apertou as bochechas do amigo, que deu um tapa, para se afastar do beliscão.
— Relaxa. Amanhã, você manda um buquê de flores e fica tudo bem. — estava zoando com .
— Até parece que eu vou fazer isso... — Ele rolou os olhos.
— Mas deveria. — se imaginou no lugar de . Alias, de qualquer garota. Toda garota devia ganhar um buquê de algum garoto.
— Mas não vou. Ela que começou com as idiotices dela. — bateu o pé, mas depois abriu um sorriso. — Quem deveria ganhar um buquê de rosas vermelhas era eu.
— Que romântico! — pôs as duas mãos na bochecha, fazendo-se de fofo.
— Olha ali! — apontou para rua, de surpresa, rindo. — Olha a comprando as rosas do zusko dela!
— Oh, idiota! — os passageiros gritaram em uníssono, e , aproveitando que estava atrás do banco de motorista, deu um belo tapa na cabeleira de .

— Fa-le sé-rio. — falou pausadamente, aparentemente, olhando o nada.
— Sério, mesmo, aqueles sapatos lindos da Gucci estão vendendo na Zara. Não é original, mas é i-gual-zinho.
As garotas já tinham se acomodado em uma das mesas do bar e conversavam sobre roupas, e acessórios, e afins. O bar não estava tão cheio quanto costumava ficar. Nem precisaram pegar fila para entrar, mas também ainda estava cedo. Ainda não tinha dado 8 horas direito e só começava a lotar quando davam umas 10 horas da noite.
— Não é disso que eu tô falando... — O ponto fixo em que olhava criou uma curiosidade imensa em Maria, que, até, ela virou para trás para olhar, já que estava de frente para a amiga. — É daquilo.
não conseguia nem ao menos se fazer ouvir com aquela cena. Foi o seu dedo apontando para a cena, que fizeram todas as garotas ao seu redor olhar e instantaneamente abrir as bocas, sem acreditar no que seus olhos estavam vendo.
— O que aquela bisca loser tá fazendo com seu namorado? — Molly perguntou indiscreta.
fingiu que não estava ouvindo e ficou prestando atenção nas cinco pessoas que entravam no “Êxodus”.
Não tinha nenhum problema apontar para uma mesa do outro lado, nem conversar qualquer coisa que fosse com . Esse não era o problema. A questão eram as duas pessoas que iam seguindo os outros três, rindo alegres e felizes, sem perceberem que existiam mais pessoas no local, além dos dois. Até pareciam eles dois, no começo do namoro, quando tudo eram só flores e risadas apaixonadas.
sabia que era importante na vida de , que era o protagonista da sua história. Então, por que estava tão próximo, tão perto de ?
— Agora, essa garota pegou pesado. — levantou com raiva, sem pensar no que iria fazer. Iria lá, arrancar o cabelo dela, se precisasse, mas não ficaria quieta.
— Calma aí! — Maria levantou, impedindo-a e fazendo-a sentar de novo.
— Calma o que, Maria? VOCÊ TÁ VENDO ISSO? — Ela não estava ligando para a discrição e apontava abertamente para eles. Que, por uma questão de arquitetura, não conseguiam ver quem estava do outro lado do bar. — TÁ VENDO? Eu disse! Eu disse, desde o primeiro momento que eu vi essa daí. Ela não tinha boas intenções, nunca teve.
— Eu conheço aquela menina! — Brianna comentou. — Ela é da minha sala de laboratório. Meu Deus! Eu sempre a vejo andando com uma das maiores fofoqueiras que eu já conheci!
— Tá vendo de novo? Eu disse que já tinha visto-a em algum lugar! — apontou para Brianna, encarando Maria. — ESSE SAFADO! O que o quer, dando espaço para essa biscate? Eu sabia que ela não tinha nada de quietinha. Maria, me segura! Se ninguém me segurar... Alguém vai morrer e não sou eu!
— Pera aí, gente. Vamos manter a pose. — Lee se manifestou. — , você não vai até lá fazer escândalo.
— Você devia chegar lá de mansinho, fingindo que não aconteceu nada. — Maria tentava não criar confusão. — E dizer só oi, e voltar.
— Ou, então, sentar com aquele cara bonitão que está sozinho no balcão do bar. — Brianna queria ver o circo pegar fogo.
— Ou isso. — Maria concordou. — Um pouquinho de ciúme nunca fez mal a ninguém. Mas sem exageros, ok?
refletiu, por alguns minutos. Se bem ela não estava, mal é que não ficaria.
— É, vocês têm razão. Que mal há em conhecer gente nova, né?
E lá foi ela em direção ao loiro de olhos azuis chamativos, que, provavelmente, deveria ter não mais que 20 anos. O que já era bom demais para uma garota de 17 anos que queria impressionar o namorado de 18.
Ela não estaria traindo o namorado, só causando ciúme. precisava se sentir ameaçado um pouquinho, afinal, estava se sentindo.

— Eu iria fácil para o Big Brother! E ainda ganharia. — falou.
— Ganharia uma banana! Em uma semana, o povo iria te mandar embora, porque, cara... Tu, de vez em quando, é chato pra caralho. — riu.
— Que nada, eu seria bem legal. Eu sou uma pessoa fácil de lidar.
— Eu que não iria! — comentou. — Se bem que ganhar um dinheirinho fácil assim é até bom!
— Fácil é. Difícil é entrar lá!
— Acredite, , ele sabe... — cochichou, mas com a intenção de todo mundo na mesa ouvir. — já se inscreveu, mas não conseguiu entrar.
— MENTIRA! — não aguentou e explodiu em risadas.
— Ah, qual é! Eu juro que queria estar lá, mas parece que não sou homem suficiente. Bobocas da TV.
— Talvez, ano que vem, cara. — deu dois tapinhas de consolação nas costas de .
se manteve calado, parecendo divagar com seus próprios pensamentos ou, talvez, só dando uma olhada no ‘material’ do bar. No entanto, estava bem mais perto que os seus pensamentos queriam estar e olhando o que não queria ver.
— Que golpe do destino, não? — falou a si, escondendo os dentes num sorriso.
— O quê? — , que estava ao seu lado, ouviu.
. — disse simplesmente e apontou com a cabeça na direção em que ela estava. — Acho que ela não imagina que você conhece o Kellan.
franziu o cenho, confuso com o que estava dizendo, até olhar para o balcão. estava em pé ao lado de Kellan, o loiro dos olhos azuis, e pareciam estar numa conversa muito interessante, já que ele conversava, pegando na mão da sua namorada. A expressão de saiu de confusa para uma mistura de raiva e incredulidade. Apesar de saber, lá no fundo, que queria só causar ciúme nele, ela escolheu o cara errado para aquilo. Não que odiasse Kellan, ao contrário, ele até o achava bem legal, mas Kellan tinha o charme que nenhum outro cara tinha e conseguia deixar a mais insensível das mulheres virar um poço profundo de sentimentos. Era o cara mais Don Juan que poderia existir na face da terra e usava todas as artimanhas possíveis para ter a mulher que estava de olho... Só que ele poderia escolher qualquer uma, menos a sua .
Foi quando ela sentou no banco ao lado do dele.
— Que coisa estúpida! — Ele balançou a cabeça, olhando a cena e, então, abriu um sorriso que poderia ser descrito como sádico. — Se é ciúme que ela tá tentando causar, vamos lá.
Ele levantou, deixando rindo e os outros três se perguntando aonde ele iria.
— Eu também não faço ideia.
Foi só o que conseguiu responder, enquanto via se aproximar do balcão.



assistia, achando um pouco de graça, sentar ao lado de , enquanto ela não se dava conta de quem estava ao seu lado. Ele conseguia se imaginar na posição de , lembrando-se de como era com , nas várias tentativas frustradas e não frustradas dela fazer ciúme nele.
E o celular de tocou.
Involuntariamente, ouviu a conversa:
— Não é uma boa hora pra essa ligação... — ficou constrangido e diminuiu o tom de voz, quase sussurrando: — Hum... É, exatamente isso. E parece que nós vamos ter que nos preparar para uma briga entre e Kellan... Um amigo nosso... Tem, sim... ... É, você tá bem perspicaz... — Ele riu. — Fala sério! Juro. Tá, vai logo... Eu tô dizendo que eu vou contar! Si, si, como no... Agora, chega, né? Amanhã à tarde, ok? Tá. Beijo. Tchau!
— Namorada nova? — olhou desconfiado para .
— É só uma amiga...
Aquela resposta não pareceu ser o suficiente. A probabilidade de continuar em contato com era muito maior que as que ele imaginava e a paranoia estava batendo. E se continuava a falar com ? E se ele sabia quando ela voltava? O que estava acontecendo com ela? Se ela estava mal?
tentou afastar esses pensamentos e focar nos acontecimentos daquele instante, mas estava difícil.
— Não era a , . Eu nunca mais falei com ela. — esclareceu.
O incrível era que essas palavras não foram o suficiente para convencê-lo.

— Você tem mesmo só 18 anos? Não parece. — jogou charminho para Kellan.
— Nem você... — Ele foi aproximando-se. — Digo, você é bonita demais, para ter só 17 anos.
Ela ajeitou o cabelo. Como era bom ouvir aquilo de outro homem! Não que não a enchesse de elogios e mimos, mas era outra pessoa, alguém desconhecido que nunca havia falado com ela antes. Contava mais, de certa forma.
Kellan era realmente muito encantador e sabia prender a atenção das mulheres, mas, mesmo assim, não deixou de perceber a mão de alguém, que estava sentada ao lado dela, chamar o barman. Esse movimento pareceu despertar Kellan para sua volta.
— Cara! O que tá fazendo aqui, irmão? — Ele levantou e bateu a mão na de .
O mais devagar que pôde e com o máximo cuidado que alguém poderia ter, olhou no fundo dos olhos de e fugiu, no mesmo instante, olhando para as manchas do balcão.
Era a vergonha que havia aparecido.
Besteira, idiotice e estupidez tentar fazer ciúme em . Ela confiava nele, não precisava desses testes para provar uma coisa que ele deixava claro todos os dias. Não havia, não houve e nunca haverá outra, se não .
Mas, ao olhar o namorado, ela sentiu algo diferente, um incômodo no olhar, uma decepção aparente. Ela estava começando a se martirizar.
— Vim com os caras ver o movimento aí.
— E aquela ali, na mesa, namorada nova do ? — Kellan tentava ser discreto, não querendo que ouvisse a conversa, mas os ouvidos dela estavam bem atentos.
— Não... Só uma amiga. — não dizia nada mais do que deveria. Ele estava com muita raiva, para ser simpático e fingir que estava tudo bem.
— E a sua namorada, onde tá? Eu nunca tive a oportunidade de conhecê-la!
— Você já a conhece.
— Conheço?
balançou a cabeça, afirmando, e prendeu o olhar em , esperando alguma reação da parte dela.
Ela sentiu o olhar dele e virou-se devagarzinho, sorrindo ironicamente.
— Namorado!
— Namorada! — Ele sorriu do mesmo jeito cínico. — Achei que você queria sair comigo hoje e conhecer o meu amigo Kellan. — apontou para o amigo. — Mas já vi que, mesmo não atendendo meus telefonemas, você o conheceu.
— Achei que você estaria ocupado, rindo de alguma piadinha da sua nova amiguinha. — não conseguiu segurar seu tom sarcástico.
— Ela é sua namorada?! — Kellan assustou-se.
— Kellan, , minha namorada. , Kellan, meu amigo. Mas acho que vocês já tiveram o prazer de se conhecer.
— Puts... — Kellan bateu a mão na testa. — Que mole, cara! Eu não sabia... E ela...
— Tá bom, Kellan. Daqui pra frente, é só comigo. Mas não se preocupe, eu gostei mesmo de te conhecer. — tomou a palavra, evitando tornar a situação ainda mais constrangedora, fazendo Kellan sair de fininho, sem graça com a situação. — Ok...
— Ok. — olhou no fundo dos olhos de . O que a fez se sentir culpada do que havia acontecido. Culpada pela raiva dele. — AGORA, você pegou muito pesado.
— Claro. EU peguei pesado?
— Eu estava com algum desconhecido, conversando na maior intimidade? Hum... Acho que não! E eu não atendi nenhuma ligação do meu namorado e vim a um bar sozinha? Hum... Acho que também não. Mas, olha, VOCÊ fez tudo isso!
— Primeiro, VOCÊ deveria ter me ligado ontem mesmo. Segundo, eu não estou sozinha, as meninas estão do outro lado. Terceiro, EU NÃO TENHO QUE AGUENTAR VER O MEU AMOR SAINDO COM UMA DESCONHECIDA, QUE ELE ACHA QUE É AMIGA! — se descontrolou e falou mais alto do que deveria. — ! Você acha que eu não vi vocês dois agarradinhos quando entraram? Rindo, parecendo... Felizes!
— E isso é motivo pra sair se fretando pra qualquer um? Você nem conhecia o cara. Ele é o maior Don Juan, ! Você acha que eu fiquei feliz em te ver conversando com ele? Você sabe que isso não é coisa que se faça... E se ele tivesse te convencido a sair daqui? Você se lembraria de mim? Lembraria que, mesmo não ligando ontem, morri de ligar hoje?
— Eu não iria a lugar nenhum com ele! — franziu a testa, sentindo-se muito ofendida.
— Eu não entendo por que você duvida tanto de mim!
O coração dela se apertou.
— Não é de você que eu duvido, . É dela. — Ela abaixou o tom e a cabeça. Os dois sabiam que ela se referia a .
— Piorou! Felizmente, ela não tem nada de . O jeito de falar, se expressar, se vestir... NA-DA da pessoa que eu amo. O que significa que ela não me chama nenhum pouco a atenção, mas você continua com esse ciúme idiota! Para de complicar e de misturar as coisas!
se segurou para não pular no pescoço de e arrancar inúmeros beijos.
— Mas o que eu vou fazer se o meu santo não bate com o dela? Aliás, meu santo QUER bater no dela, isso sim. Não, , não dá. Eu não aguento pensar nem na possibilidade de ela estar no mesmo lugar que eu.
— Só que ela estará. O , o , o ... Todos eles gostam muito dela.
— É a PRIMEIRA vez que vocês se encontram fora do colégio e você está me dizendo que gosta dela?
— Sim, ela é uma ótima amiga. — disse simplesmente.
— Uma ÓTIMA amiga. Ok. Então, vai lá ficar com sua ótima amiga, que eu vou sentar com as minhas ótimas amigas também. Tudo bem. Acho que eu posso aceitar sua escolha. Você prefere a mim.
— Mas nem fodendo eu caio nessa. Eu odeio quando você me dá essas escolhas. Sabe disso! E sabe mais ainda que não dá pra escolher pessoas, . Você será sempre você, e ela será sempre ela.
— As coisas não são assim, . — Ela tornou a se enfurecer. — Eu não suportei todas aquelas garotinhas em seus shows, na escola, no shopping, quando a gente saia, nas festas, olhando você, paquerando você descaradamente para uma qualquer chegar e roubar você de mim.
— As coisas são assim, sim. E deixe de criar confusão. Você nem ao menos deu a chance da menina se apresentar.
— Nem nunca vou deixar. Fala sério! Olha só como ela é! Aposto que é a primeira vez que ela sai com alguém que não seja os pais dela. Eu vivo num mundo comunicativo, onde as pessoas têm mais amigos que seus hamsters ou sapos, ou caixa de formiga. Sei lá o que uma pessoa como essa pode querer de estimação. Ela não deve nem saber onde fica o shopping!
— Não é só por que ela não lê revista de moda, que ela deixa de ser legal, . Deixa de ser cabeça dura! — já se mostrava mais impaciente ainda. — Só por que ela não é que nem suas amiguinhas fúteis, que vivem todo o dia no salão de beleza e sabem da vida de cada celebridade deste planeta, que ela não tem do que falar.
— Você tá me chamando de fútil? Pois bem. VOCÊ NÃO QUER IR LÁ FICAR COM ELA? POIS QUE VÁ! E APROVEITE E VÁ AO INFERNO JUNTO COM ELA, seu idiota!
fez menção de sair da cadeira, mas a impediu. Aquela conversa não poderia terminar assim, pois ele sabia que havia mais do que a namorada estava tentando dizer.
— Não é só por isso, é? Não pode ser! Essa confusão toda há dias não pode ser só por eu ter arranjado uma nova amiga! — Ele fez de tudo para parecer mais calmo. — Me diz, . PELO AMOR DE DEUS, me diga qual é o seu problema! Você tá assim, mais mandona, mais chata, mais briguenta não é de hoje. O que você quer? Desse jeito, nós não vamos acabar bem. Eu não vou aguentar ouvir você reclamar todo dia!
Ela abriu os olhos, inconformada com as palavras dele.
— Vo-cê acabou de dizer o que acabou de dizer mesmo? — não conseguiu raciocinar direito. — Você tá me dizendo que não me aguenta mais?! Que eu reclamo demais?! , eu te odeio.
, , , por favor. Escuta, não só ouve! Você tá entendendo da maneira que quer!
— Eu não quero mais saber, . Se eu me tornei um estorvo pra você, por que ainda continua aqui?
— Porque eu te amo! E você nunca foi um estorvo, nem nunca será! Merda! Só me diga o que você realmente quer!
Ela parou por um segundo, suspirando pesarosa.
— Eu não sei, . Eu não sei. Tudo o que você disse me deixou confusa... — passou a mão no rosto, tentando desanuviar os pensamentos. Tentando se acalmar. — Eu preciso parar para pensar.
— Você quer dar um tempo, é isso? — ele perguntou duvidoso. Ela não poderia querer aquilo, mas era a única coisa que passava pela cabeça de . Havia outra explicação para todo esse mau humor e briga? — Porque, se for, acabe logo com isso.
— Eu não quero, mas acho que nós estamos precisando, não é?
— Você acha isso?
não iria responder àquela pergunta. Se respondesse, ficaria gravado na memória e esse fantasma iria atormentá-la.
...
— Não, não precisa falar nada! — Ele levantou-se com todos os seus músculos contraídos. — Depois que você pensar e tiver certeza do que quer... E começar a confiar em mim de novo, me procure.
voltou à mesa dos seus amigos, irritado e mal-humorado, enquanto o seguia com o olhar. Ela acordou, de repente, e levantou.
É, para ela, a noite tinha terminado.




pegou o violão, sem nenhum objetivo. Era domingo e estava tudo tão depressivo, tão monótono... Que sua única diversão era tirar alguns acordes no seu velho companheiro de tardes vazias.
Ele até tinha tentado preencher sua tarde, mas estava fazendo uma limpeza em seus instrumentos e, depois, iria com a mãe à casa da tia, ver os primos. Mas o modo que disse deixou com uma pulga atrás da orelha. Desde que foi embora, que ele e o amigo não conversavam direito. Todo dia aparecia uma desculpa diferente, da parte de , para não falar com ele. Era como se o amigo ainda duvidasse de tudo o que disse, como se não acreditasse que ele nunca teve nada com Maria.
disse que só sairia se fosse fazer uma coisa interessante e que, naquele momento, sair com não era uma coisa interessante e preferia ficar vadiando na internet. Maria estava na casa de , logo, sem condições para ele ir também, ficar ouvindo o que ele julgava ser baboseiras da boca de . precisava fazer um trabalho que entregaria no outro dia... E , mas estava com uma voz cansada e foi exatamente essa desculpa que deu. Estava muito cansado para poder ir a qualquer lugar que fosse e estava a fim de passar o dia inteiro em casa.
Lógico que não insistiu tanto quanto com . Ele entendia o amigo, ou, pelo menos, parte da tristeza dele.
tinha problemas sérios, era o que achava. Depois que voltou à mesa e contou o que havia acontecido, o clima se foi. Só a cara e a animação dele denunciavam que ele não estava satisfeito com a situação.
Mais um que tinha entrado para o clube.
Nem a viagem que faria com sua banda, daqui a, praticamente, uma semana, conseguia deixá-lo ocupado o bastante. Odiou ter organizado tudo direitinho ou achar que tinha organizado tudo. Pelo menos, teria alguma coisa para fazer.
Refletiu um segundo no tanto de coisa que tinha acontecido em tão pouco tempo. Ainda lembrava claramente, no tempo que tinha namorada, que seu melhor amigo não desconfiava dele, que ninguém escondia nada de ninguém... Parecia que tudo tinha se embaralhado num pequeno espaço de tempo!
Agora, estava ali, sentado em sua cama, dedilhando qualquer música que viesse à sua mente. Uma animada, que o fizesse esquecer que a tarde estava com um clima tão triste, mas as únicas que vinham à sua mente eram exatamente as mais lentas, dramáticas e românticas do mundo.
Começou com Eric Clapton, mas, no refrão de ‘Tears In Heaven’, já havia desistido e passado para outra. Como se tivesse jeito. Blink-182 ecoou na sua mente, mas só conseguia pensar em uma música deles: ‘I’m lost without you’.
De todas do mundo, tinha que escolher aquela que mais o faz se lembrar de . Porque aquela música mostrava exatamente tudo o que ele estava sentindo.
Era como se, a partir do momento em que se separaram, vivesse em um eterno dia ruim e, se ele encontrasse com ela novamente, seu dia ruim acabaria e, desta vez, faria tudo certo. Não a deixaria escapulir, como aconteceu. Exatamente como na música. Com um beijo, tudo começaria...
tinha medo de ficar só, de que as noites com acabassem, mas acabaram. E, agora, ele estava perdido sem ela.
O quarto sempre estaria aberto. E, desta vez, com uma certeza que parecia vir de outro mundo, cumpriria suas promessas e manteria seus olhos pacientemente focados nela.
tinha se tornado um sonho em que, se ele fechasse os olhos, poderia ouvir os passos dela vindo em direção a ele. E ela não o deixaria acordar, porque estava tão longe dele!
E a única coisa que ecoava naquele quarto era repetindo ‘I’m lost without you...’.

A semana passou muito lenta e desmotivada para a galerinha do mal, mesmo que uma parte estivesse extremamente animada para que o sábado chegasse logo e pudessem viajar para Nova Cintra, a outra — lê-se e — não estava acompanhando o ritmo dos amigos. Maria não havia esquecido que ainda precisava conversar com , mas parecia que ficar a sós com ele por 10 minutos era uma missão quase impossível. Isso só iria acontecer se fosse pela madrugada! Toda vez que ela ia procurá-lo, ele estava ocupado, ou alguém a atrapalhava, ou alguma coisa acontecia.
— Ei! Psiu! — cutucou , no meio da aula.
— Hum... Oi. Que foi? — Ele despertou, virando para trás.
— Tá ouvindo esse barulho?
Os dois pararam, tentando se concentrar só no barulho estranho que ouvia.
— Parecem naves espaciais alienígenas. — sentiu seu coração disparar. O barulho parecia mesmo igual àquele que se ouvia em filmes, dos sistemas das naves espaciais. Parecia quando o robô dos power rangers (alfa, não é?) mexia na mesa de comando. — Será que eles vieram nos pegar?
— Não acredito. — disse cético e reclamou: — Cara, para de balançar a perna.
— Eu não tô balançando! — Os dois se olharam com medo, e bateu a mão na testa. — Idiota. É só meu celular tocando.
— Eu? Idiota? — rolou os olhos enquanto o observava pegar o celular na mochila.
olhou da tela do celular para , de para a tela do celular. E fingiu que tinha derrubado os livros no chão para atender.
— Porra, me liga daqui a dois segundos que eu tô na sala — ele disse o mais rápido e baixo que pôde.
— Quem era? — o viu levantar.
coçou o nariz, o que o acusou imediatamente que ele estava nervoso ou desconfortável com a situação. Não era de hoje que ele estava recebendo essas ligações estranhas. Isso só deixou cada vez mais desconfiado.
— Minha tia. Ou meu primo. Não sei. Foi da casa deles. — Ele saiu rápido, sem querer dar mais explicações. — Professora, eu preciso ir ao banheiro.

Numa sala ao lado, Maria e não paravam de conversar:
— Eu não tenho certeza se vou viajar com vocês.
— Por que não?
disfarçou seu próprio desapontamento, escrevendo o que estava no quadro, em seu caderno, assim como Maria estava fazendo, porém Maria largou a caneta e prestou atenção em .
— Você era a mais animada pra ir. Por que isso agora?
— Maria... — rolou os olhos e virou-se para a amiga. — O que eu vou fazer lá? Sabe, o não gosta tanto de mim assim. Provavelmente, a estará lá... E o também.
Ela estava com tanta vergonha de si que não tinha coragem nem de pronunciar o nome do namorado direito. não tinha conseguido olhar nos olhos de , desde que brigaram, nem conseguia ficar no mesmo espaço que ele, pois sentia que devia desculpas, mas seu constrangimento era maior do que poderia suportar. Preferia, então, ficar afastada.
— Deixa de história! O gosta de você, sim, a não vai estar lá, e pode ser uma ótima oportunidade de você conversar com o .
— Eu só iria atrapalhar e desconcentrá-lo.
— Mas, amiga, você precisa conversar com ele. — Maria insistiu. — Você sabe que isso não passa de um grande mal entendido. Eu me sinto tão culpada de ter deixado você ir lá falar com aquele tal Kellan. Não é a mesma coisa ver os dias passando sem e . Vocês são as razões das nossas vidas! Sabe que é até pecado vocês dois ficarem separados tanto tempo assim, hein?
— Não exagera, menina! Não tem nem 3 dias que a gente não se fala. — Ela riu, sem graça. — Pecado por pecado, eu não vou ao céu mesmo. E eu nunca fiz falta em show nenhum.
— Até parece... O QUÊ? Vai deixar os meninos perderam as groupies principais deles?
Groupie é só você... — riu. — Que não tem nada sério com nenhum deles. — Ela parou, de repente, ficando séria. — É, talvez, eu tenha sido rebaixada à groupie.
— OFENDEU!!! — Maria riu mais alto do que deveria, chamando a atenção da sala. E riu, sem graça, pedindo desculpa ao professor. Depois, voltou-se para . — Rebaixada, né? Pego você na esquina, neném.

Faltava só um dia para eles, finalmente, tocarem no festival de Nova Cintra, que não era um grande e famoso festival, mas era uma coisa grande, para eles. Haveria um grande público por lá, e eles tocariam ao lado do palco principal, que tinham, como atrações principais, o Good Charlotte e Yellowcard. Eles ainda estavam no palco de bandas novas, mas desejavam estar no palco principal e, um dia, seria a banda principal, não só desse festival, mas de uma Warped Tour.
— Cara, tô tão nervoso pra amanhã! — Rian disse inquieto, na sua bateria.
— É tão engraçado ver que você nunca vai se acostumar com isso, Rian! — Jack riu do amigo.
— É, mas, pelo menos, eu não fico tremendo no backstage ao ouvir o barulho da galera. — Rian deu o troco na mesma moeda.
Apesar de Rian ser o único que externava as suas emoções, naquele momento, os outros disfarçavam melhor o que estavam sentindo.
, você gravou as nossas músicas no CD? — perguntou.
Eles tinham combinado de deixar algumas cópias com outras bandas e, se aparecesse, o que sempre acontece, algum olheiro de alguma gravadora, já estaria tudo pronto.
— Puta merda! Sabia que estava esquecendo alguma coisa!
— Imprestável! — deu um pedala em .
— Ah, qual é! Isso é fácil e rápido! Dá pra fazer agora mesmo...
— Não, deixa que eu vou lá. — interrompeu , que deu de ombros e deixou o amigo subir até seu quarto.
Uma bagunça. Era a primeira coisa que qualquer pessoa em sã consciência pensava ao entrar no quarto de . Quartos são bagunçados naturalmente, mas o de chegava ao cúmulo. Pratos ao lado do computador, copos em cada canto, cueca pendurada na cabeceira da cama, papéis espalhados pelo criado-mudo... Tudo um caos.
jogou as roupas, que estavam na cadeira, no chão e ligou o monitor do computador. Distraiu-se com alguns livros que estavam ao lado, achando até interessante um ou outro, mas o traço laranja no meio do azul da barra de ferramentas chamou mais atenção.
tinha a mania idiota, segundo , de deixar o MSN aberto, mesmo estando a quilômetros de casa. Isso o confundia bastante, porque ele nunca sabia realmente se estava ou não. Para , se você não está no computador, saia do seu MSN.
Mas aquela janela... Aquele espaço depois do ‘-‘, que não dava para saber quem era que estava falando, só poderia ser de uma pessoa: .
A curiosidade falou mais alto e não conseguiu ignorar aquele laranja que o chamava. Sem pensar duas vezes, abriu a janela da conversa.
As frases eram confusas, sem coerência, bem do jeito de ser. Ele leu com calma o que ela tinha mandando:

yeah! Diz:
Como tá tudo por aí?
yeah! Diz:
Você nem saaabe...
yeah! Diz:
, vc tá aí?
yeah! Diz:
, seu monstrengo, me responda!
yeah! Diz:
!!!!
yeah! Diz:
Te odeio, tá? :D
yeah! Diz:
Por que você desabilitou as chamadas de atenção? Elas são úteis, sabia?
yeah! Diz:
Droga! Vai ficar sem saber, então...
yeah! Diz:
Não tá mesmo? ;;
yeah! Diz:
Você é um gay, alguém já disse isso? :D:D:D
yeah! Diz:
Mas, bem, você não tá mesmo aí ><, e eu não vou te encontrar mais :\ Estou indo a um lugar beeem longe daqui, e vocês vão viajar amanhã...
yeah! Diz:
Alias, vai também? :]
yeah! Diz:
Droga, como eu sou estúpida, tô falando sozinha...
yeah! Diz:
Eu preciso ir, só vim dizer que, semana que vem, você terá uma surpresinha :X Não segunda, porque é muito obvio. Nem terça, porque é um dia chato... Talvez, quarta. TALVEZ. Até sexta, tá? Se nada acontecer, venha me procurar aqui :D


abriu um sorriso, por ter podido se lembrar do jeito como era ansiosa por respostas no MSN. E como ela fez todo mundo desabilitar as chamadas de atenção por ela abusar tanto dessa ferramenta, exceto a dele, pois não adiantava. Todo dia em que ela aparecia no seu quarto, ela mexia nas configurações, até que ele desistiu e aceitou a tremedeira na sua tela.
Porém, a felicidade deu lugar a confusão. Então, havia mentido! Ele ainda falava com ! E que surpresa era essa que ela iria fazer para ele?
— Cara, os CDs virgens estão aqui dentro. — entrou, no susto, no quarto, indo direto para uma gaveta do lado da sua cama, fazendo o coração de acelerar e fechar a janela de , sem nem ao menos perceber. — Que foi, cara?
estava fitando-o, estático, sem reação alguma, como se tivesse se perdido em pensamentos. sabia de tudo o que estava acontecendo por aqui.
? — foi aproximando-se. — Alô?! Tem alguém na linha?
— Cara... — “acordou”.
— Que susto, rapaz!
viu levantar e se jogar na cama.
— Por um segundo, acreditei em abdução...
... — Ele nem prestou atenção no que o amigo estava falando.
— Conte. — sentou na cadeira em que estava.
— É um problema, velho, sem solução aparente. — suspirou, tentando achar as palavras mais certas.
.
— É, eu tô tão previsível assim?
— Na maioria das vezes, principalmente, quando fala dela.
, eu preciso ter certeza. Quando foi a última vez que você falou com ela?
— Defina “falar”. — Ele coçou o nariz.
— Argh... — trancou os dentes. — Você tem sorte por eu ainda não ter te dado um soco!
respirou fundo, tentando se acalmar, para ele mesmo não dar um soco em .
— Eu não iria fazer isso com ela, .
— Fazer o quê? Eu só quero notícias! Não é como se eu estivesse indo ao Canadá atrás dela. — sentou-se com raiva.
— Esse é o problema... A ... Ainda tem esperanças que você vá atrás dela lá. E se eu contasse do e-mail era capaz de você ir.
— E-mail? Então foi um só?
— Dois, pra dizer a verdade... — coçou o nariz mais uma vez, o que quase atrapalhou para entender o que ele disse. — E alguns telefonemas...
— Eu sabia! Aquele dia no Êxodus era ela, não era??? — tinha um tom de acusação na voz. Ele sentia que tinha sido traído por seu amigo. Como se ele tivesse a obrigação de saber quando seus amigos falaram com e qual tinha sido a conversa. — Aquele dia, na sala, também era ela! E você nem ao menos se indignou a falar comigo que ela havia ligado!
— Era, sim, mas calma aí. — se defendeu. — Entenda que a está tentando acabar com essa rixa entre você e ela... Quer que vocês dois consigam ficar no mesmo espaço, sem se alfinetar por um segundo, e eu estava pensando no bem dela.
— Que seja. Você me enganou esse tempo todo!
— Como você é cabeça dura!
— Que seja também. O que ela disse? Quando ela volta?
— Isso ela nunca deixou claro... Das primeiras vezes, ela disse que não aguentava ficar lá, sozinha, mas, depois, ela começou a se dar bem com a prima e nunca mais tocou no assunto de ficar ou voltar. Aliás, nunca mais voltou a falar dela... Nossas conversas eram basicamente como nós estávamos.
— Até eu? — Queria manter a esperança de que ainda importava para ela.
— Indiretamente...
tentou arrancar o máximo de informações que pôde. Se estava escondendo sua ligação com , ele também esconderia o que acabou de ler na internet e descobriria sozinho que surpresa era essa que estava preparando para ele. E que lugar tão longe era esse que ela estava indo agora.
— Nossa! Que cena pavorosa. — apareceu na porta do quarto de , rindo. — Parece que tão num analista.
tinha voltado a se deitar, e ainda estava na cadeira ao lado da cama.
— Só faltou o segurar o caderninho.
— Quer participar também? — abriu um sorriso safado.
— Surubas não são meu tipo de sexo preferido, eu passo essa. — Ele riu mais alto. — Ô, suas bichas! Vocês vão ficar aí conversando ou se lembram de que nós estamos aqui pra ensaiar?
— Cansei de ficar lá embaixo sozinho. — passou por , fazendo cara de cachorro sem dono.
— Oh meu Deus! Sua mãe te troca por um quilo de farinha? — levantou só para apertar as bochechas dele.
sorriu, sem vontade, e sentou.
— Do que falam?
— Eu estava perguntando quando eles iriam resolver descer. — já tinha desistido do ensaio. Tinha percebido que nada mais rolaria e sentou na cama.
— E eu estava conversando com o sobre...
— A . — disse simplesmente. — Está escrito na sua cara.
— Cara, você sempre foi péssimo em relação a ela. — deu dois tapinhas nas costas dele, enquanto ele respirava fundo, aceitando sua posição de bobo. — Acho que é mal de artista.
— Como assim? — não entendeu.
— Ter relações complicadas. Todos nós aqui temos um problema na vida amorosa.
— Menos o . — pontuou.
— Sortudo.
levantou as duas sobrancelhas, achando engraçado os amigos o acharem sortudo por isso.
— Não é? — ficou na dúvida, depois de ver a expressão dele.
— Sim e não. Sim, porque eu sou solteiro, sem limites e pego quem eu quiser. — Ele deu uma risada safada. — E não, porque... É complicado.
— Pera aí! Antes disso... ?! — atrapalhou, achando um absurdo. — Explica essa história direito. Você tá gostando de alguém?
— É...
— O mundo está perdido! — riu da cara de quem não sabia o que fazer de .
— Não que eu esteja apaixonado e não pense em mais nada, mas eu gostei dela.
— Dela quem? — perguntou curioso.
Foi impossível para controlar a gargalhada. E os outros também. ficou vermelho, parecendo um pimentão, o que o acusou de cara.
— Ele tá apaixonado pela nerd do primeiro ano! — jogou um travesseiro na cara dele.
— Como vocês são malas! Parecem umas bichinhas falando nisso.
— A ?! — riu ainda mais. — Não acredito!
— Ei! Qual é o problema? Vocês também a acham legal!
— Mas a ? — balançou a cabeça negativamente, rindo. — Tudo bem, ela é legal, engraçada e gente boa... Mas eu nunca achei que você gostasse das nerds...
— E o apoio, onde fica?
— Desculpa, , só que... A não dá. Ela é meio... — estava sem saber como falar. Ele achava super legal, mas não era o tipo de garota que um deles fossem pegar. — Desengonçada demais... É minha amiga e tal, a conversa é ótima... Mas ela é meio sei lá, não? As roupas que ela usa são tão... Sem graça.
— Eu sei, eu sei. Ela parece menina criada pela avó, só que tem alguma coisa nela que chama a atenção, sabe?
— Peitos. — se intrometeu.
— O quê?! — os outros três gritaram.
— Pelo amor de Deus, até parece que vocês não viram que ela é bem servida. — rolou os olhos.
— É... Dá pra perceber, mesmo ela escondendo naquelas blusas sem decote. — admitiu.
arregalou os olhos, assustado com os amigos, e riu.
— É por isso que terminou com você, hein? Ficou olhando pra nerd do primeiro ano! — zoou com ele.
— Eu juro que nunca tinha percebido. — ficou pensativo.
— LOGO VOCÊ?! — exaltou-se, rindo. — Você deve estar apaixonado mesmo. Olhou para os olhos ao invés dos peitos!
— Não enche!
— Sim... Eu ainda não vejo nada de complicado entre você e ela. — voltou ao assunto inicial. — O que tá pegando?
— Ou o que não está pegando... — escondeu o riso.
— Ela vai me dar um toco se eu chegar nela.
— Provavelmente. — não conseguia não rir com essa situação. — Acho que ela nunca nem deu o primeiro beijo!
— Aí é que tá. Ela tem uma “paixonitezinha” por um idiota da série dela.
, como é que você sabe essas coisas todas, hein?
— A Lucy do jornal é minha brother, pô!
— Uau! — espantou-se. — Preciso ter umas conversinhas com ela.
— MAS, me deixando de lado... — cansou de ser o centro da conversa. — Você, , o que há de tão complicado com sua garota?
— Simples, eu sou só um amigo pra ela. — Mas ele desconversou: — Deixa isso pra lá, gente! Levantem essas bundas gordas de cima da minha cama e desçam, agora!
— Só porque o papo estava bom. — levantou.
foi empurrando até a porta, pois ele já tinha desistido de ensaiar, mas olhou para trás ao ver que não tinha se movido.
— Desistiu também?
— Estava só pensando. Tô indo. — levantou-se e viu ir embora.
É, ele estava pensando no que havia dito. “Eu sou só um amigo para ela”. Quais eram as possibilidades de ele estar falando de naquela frase?





O dia estava lindo! O sol já mostrava para o que veio, deixando tudo mais iluminado. O colorido da primavera dava para ser sentido até no ar da cidade. Algumas pessoas caminhavam alegres na rua, sorrindo com o novo dia.
— Como é que essas pessoas conseguem ficar com essa cara de comercial de margarina às 6 da manhã? — Maria falou, bocejando, sentada em frente à casa de , o ponto de encontro.
— É uma boa pergunta. — coçou os olhos.
só resmungou, encostando-se, para dormir, em Maria.
Eles eram os únicos destoantes da paisagem tão viva que os cercava.
— Cadê o , hein? — acordou. — Ele disse que iria estar aqui às seis em ponto, pra chegar cedo, não atrasar e blá blá blá. E deixa a gente esperando. Já vai dar 7 horas!
— Deve ter acontecido alguma coisa...

Eles ouviram um barulho de buzina anunciando a chegada de .
— VAMOS LÁ, GALERINHA! — ele gritou animado, de dentro do carro, e desceu.
— Ô, né. Agora, eu vou porque vou fugir das reclamações dos vizinhos, seu escandaloso. Por que demorou, imbecil? — reclamou enquanto pegava as coisas para levar a van.
— Eu precisei parar no caminho para pegar uma convidada.
A porta do carona da van azul abriu, revelando uma surpresa.
?! — deixou suas coisas caírem no chão e se apressou para pegá-las. — Eu pensei que você não viesse.
— E não vinha mesmo. — Ela foi ajudá-lo.
Os outros olhavam a cena, achando graça.
— Se o poder de persuasão do não fosse tão bom.
ficou cheio de si.
— Beijos! Me liga, baby! — E mandou beijinhos para , e mexeu a boca num “tá me devendo essa” para que só o amigo visse.
— Menos, cabeça. — Maria deu um tapa na cabeça dele, ouvindo um ‘outch’ de .
— Ele conversou com meus pais, antes e, hoje, novamente... E cá estou eu! — sorriu, super alegre. Era a primeira vez que ela viajaria sozinha com os amigos em toda a sua vida.
Em cinco minutos, todos haviam colocado suas mochilas, instrumentos e coisas no fundo da van que o pai de pediu emprestada a um amigo. Agora, só faltavam se acomodarem.
— Eu vou na frente, nem vem. — Maria correu para o banco ao lado do motorista.
— Ah, não! Você vai ficar colocando toda hora pra gente ouvir Britney, Rihanna e vadias do gênero. — foi atrás dela e a carregou no colo.
— Solta, ! — Ela riu, batendo nele.
— Você fica aqui. — Jogou-a no banco de trás e fechou a porta, fingindo limpar as mãos. — Pronto, menos um problema.
— Eu vou lá, sem problemas. — prontificou-se.
Então, todos estavam nos seus devidos lugares. dirigiria até Nova Cintra.
Quando ele estava preste a ligar o carro, fez uma ótima pergunta.
— E ? Eu achei que ela viesse...
Maria entortou a boca.
— Ela me disse que não estava com clima para viajar.
De repente, a porta de trás da van abriu de vez, e pulou dentro do carro.
— SURPRESA! — ela disse toda feliz, bem no clima da primavera. — Para onde vocês achavam que iriam sem mim?
— Amiga! — Maria pulou por cima de para abraçá-la. — Que bom que você veio! Esses monstrinhos iriam me matar antes de amanhã!
— Pode me chamar de salvadora da pátria agora.
— Tá bom, né, gente? — cutucou Maria para avisá-la que ele ainda estava ali, embaixo dela. — Por favor, voltem aos seus lugares...
, que ainda estava em pé, analisou rápido suas condições:
Um: ir no último banco sozinha.
Dois: ir no banco do meio, ao lado de , com na janela.
Três: ir ao lado de , fazendo-o ouvir todas as fofocas que ela contaria a Maria.
Ponderar é para os fracos. Sentou-se onde estava, ao lado de .
— Prontíssimo. Podemos ir.
Let the fun begin! disse, ligando o carro, fazendo todo mundo fazer um batuque confuso e gritarem animados.
Seria apenas um dia. Amanhã, eles voltariam. Mas aquele seria O dia.

escolhera um péssimo lugar. Um lugar muito ruim. Um lugar muito, muito, muito ruim. O pior lugar que ela poderia ter escolhido.
Nem dez minutos haviam passado da viagem, mas se cansara de ouvir Maria e falando sem parar, pareciam dois gravadores. E era difícil até de acompanhar. Uma hora estavam no motivo de ter decidido vir e, no outro, já estavam discutindo o sorriso torto do menino do segundo ano. Precisava ter muita percepção para entendê-las. Por isso, logo de cara, resolveu que seu sono era mais importante e foi ao último banco, se esparramar e ter o sono dos justos.
O que deu espaço para . Agora, ela tinha ficado no banco do meio. Mas aquele ângulo não a favorecia. Nenhum pouco.
Dava para ver o sorriso de , os olhos de , as expressões de .
Era difícil não olhar para aquele reflexo no espelho do retrovisor. Ela passou a viagem inteira, tentando se controlar e se concentrar apenas na conversa que estava tendo com Maria.
Mas ver cochilando era tão bonito. Vez ou outra, acabava se perdendo em pensamentos... Por que tudo tinha que ser assim? Eles simplesmente não podiam ficar juntos para sempre, sem ninguém de fora para atrapalhar?! Ela estava cansada de ter que ver todas aquelas outras garotas olhando para o seu namorado, tendo pensamentos absurdos sobre ele e ter que mostrar a essas mesmas garotas com quem ele estava, quem era a garota que ele amava e que estava sempre ao seu lado.
Pode até ser fácil, na teoria, mas, na prática... Era disso que tinha se enchido. Ela confiava em , mas eram muitas garotas... Ela sabia que, mais dia ou menos dia, cairia em tentação e nem lembraria que existia. E pensar nessa situação era ainda pior! Seu namorado, o cara que você ama, tinha te esquecido, mesmo que, por um momento, mas tinha esquecido... Não existe dor maior neste mundo, existe?

, pega o CD do Bowling For Soup aí. — cutucou , acordando-o.
Como se aquilo o chamasse, ele olhou para o retrovisor e deu de cara com o olhar compenetrado de . Ela tomou um susto e fugiu, tentando ainda pegar a conversa de Maria, mas a curiosidade era muito grande.
E, de vez em quando, os olhares sempre se cruzavam, mesmo com o medo de que isso acontecesse. precisava de um tempo, mas ele não sabia se conseguiria olhá-la sem querer beijá-la ou tocá-la.
— Onde é que tá?
— No porta-luvas.
abaixou os olhos, sorrindo, tímido, com essas trocas de olhares.

, por acaso, você já esteve num desses festivais? — gritou, lá da frente.
— É minha primeira vez...
— Tudo bem, não tem nada de muito diferente... — Maria assegurou. — Não precisa se preocupar.
— Tem certeza? — perguntou debochada.
E deu uma risada maligna, só para por mais medo na menina indefesa.

Três horas depois, eles avistaram de longe uma placa azul enorme com letras brancas que estava escrito: bem-vindo à Nova Cintra. e Maria, que cantavam a música de Alladin, aquela, ‘Um mundo ideal’, super animados, pararam na hora, e todo mundo começou a comemorar a chegada da turma ao tão ansiado destino.
— E agora? — parou o carro duas ruas depois de ter entrado na cidade.
— Agora o quê? — perguntou preocupado.
— Para onde a gente vai?
, amor, que tal ir ao hotel? — Maria colocou sua cabeça entre os bancos.
— Hum... Pode ser. Vamos perguntar a alguém onde tem um.
Maria viu sua boca abrir instantaneamente.
— QUE? — se enfiou no meio também, indignada.
— Como assim? — também querendo ter entendido errado o que ela entendeu certo.
— Sabia que isso não daria certo. — comentou alto.
As três garotas se jogaram ao mesmo tempo no banco, suspirando fundo.
— Como eu não adivinhei que isso iria acontecer? — rolou os olhos.
— A gente deveria ter perguntado se o hotel estava incluído no ‘tudo certo’. — coçou a cabeça, incerta do que aconteceria a seguir. odiou, mas tinha falado uma coisa totalmente condizente.
— Se a gente parar num posto, é capaz de eles indicarem algum lugar bom pra gente dormir. — sugeriu.
— A sorte de vocês é que ainda é cedo! — Maria falou entre dentes com os braços cruzados.
ligou o carro, em direção a um posto de gasolina. Mas a grande questão era: onde havia um posto?
Nova Cintra era uma cidade pequena, onde as ruas perto da saída da cidade não eram das mais movimentadas. Mas, sem precisar se perder mais, eles viram um cara passando pela rua e ele explicou como chegava lá.
Não devia ser difícil virar à esquerda e, quando encontrasse uma rotatória, virasse à direita.

Ou não. Nem todo mundo tem um motorista teimoso como o .
— A gente deveria ter virado naquela direita. — , o co-piloto, disse.
— É tão difícil achar um hotel qualquer espalhado pela cidade? — já estava cheia da viagem.
— O cara só falou direita, como que eu iria saber que teriam duas direitas pra entrar? — se explicava, fazendo a volta.
— CADÊ AS PESSOAS DESTA CIDADE??? — Maria, de repente, gritou chateada, batendo no vidro.
— Não precisa quebrar meu vidro também, né, Maria?!
... — Ela sorriu, sem vontade, e gritou: — VAI ACHAR MEU HOTEL, VAI!
— Tá, calma. — Ele se encolheu. — Tô indo, tô indo.
Depois de errarem mais umas dúzias de ruas, encontrarem mais umas pessoas, que não sabiam dar informação, pelo caminho, chegaram ao tão esperado, e caindo aos pedaços, posto.
O frentista vinha diretamente de um filme de Hollywood. Nem acreditou que pediria sugestão de um hotel limpinho e cheiroso àquele cara que parecia não ver banho há uns 6 meses. Desceu do carro, indo em direção ao cara.
— Com licença, senhor. — Ele chegou perto do cara meio careca.
— Gasolina?
Não faltou nem o palitinho no canto da boca para o personagem. discretamente olhou para as mãos sujas de graxa do homem e seu estômago embrulhou. E aquela barriga nojenta dele, pulando para fora do uniforme, era... Asquerosa.
— É que... — pensou novamente se devia perguntar a ele. — Eu e meus amigos estamos meio perdidos.
— Ah, cês vieram para esse festival que tá tendo aí, né?
— É...
iria perguntar, mas o homem pareceu querer bater um papo:
— A cidade tá cheia de jovem desde ontem. — Vê-lo mexer o palito enquanto falava não melhorava a imagem dele. — Uma confusão, só vendo. Não sei por que escolheram para isso acontecer aqui... A gente num tem sossego nesses dias de festa.
— Será que o senhor... — só queria sair logo dali, no entanto, seria uma missão impossível.
— E eu num tô reclamando, não, porque também é os dias em que a gente ganha mais dinheiro aqui no posto, né? Se num fosse isso, eu nem teria o que dar de comer aos meus meninos.
balançava a cabeça, concordando e esperando até a hora em que ele calaria a boca.
— Ô, Eric! — Outro magrinho, mais limpinho, quer dizer, menos sujo, saiu de dentro do que achou que era o escritório. — O telefone era para você. Parece que o Joshua fugiu de casa de novo.
— Inferno! Esse menino só me dá trabalho, caramba! — O da barriga saliente foi batendo o pé até lá.
O magrinho veio ao encontro de .
— Posso ajudar?
— Eu só queria uma informação. — O alívio transpareceu na voz de . — É que eu e meus amigos estamos meio perdidos. A gente queria encontrar um hotel, pensão, albergue pra gente se instalar.
— Vixe! — O cara fez uma cara de desaprovação. — Vocês vieram sem fazer reserva?
Por um segundo, sentiu-se muito arrependido por achar que, na hora, encontraria um hotel.
— Aqui num tem muito hotel e os melhores já estão lotados... — Ele estava achando um maluco. — Mas nem tudo tá perdido para vocês, não. Meu primo tem um hotel que tem vaga ainda. Eu posso te explicar onde fica.
Podia ser a única esperança deles e, além do mais, era só um dia, não mataria ninguém se, no pior das hipóteses, o colchão não fosse lá essas coisas todas.

— Não é longe e não tem errada! — O cara bateu duas vezes na porta de .
Ele tinha o levado para perto dos outros, para não ficar com toda a responsabilidade de acertar o caminho. E o cara tinha explicado o caminho certinho e minuciosamente. O nome do hotel do primo se chamava 'Pirâmide' e, segundo ele, era fácil de achar e ficava logo no começo da rua que ele havia falado.
— Valeu, cara! — agradeceu.
E assim que eles estavam longe o suficiente, colocou o ar todo para fora e arfou.
— Meu Deus, EU PRECISO DE AR PURO! — E colocou a cabeça para fora da janela e voltou. — Eu acho que vou vomitar.
Fez cara feia só de se lembrar da imagem dos dois caras.
— O que aquele cara come? Tem alguma coisa em decomposição na boca dele! E aquele gordo! AHH!
Os outros riram da desgraça dele.
— Bem feito! — Maria foi a primeira a jogar pedra. — Não faz as coisas direito, tem que sofrer.
— Mas essa foi sacanagem. Aquele gordo nunca viu água na vida! Será que os perfumes não chegam aqui?
‘Ew’ . fez careta.
— Que nojinho, hein?! — Não diferente de . — Ainda bem que eu não desci.
— E ele não parava de falar nunca!
— Coitado! Queria um ombro amigo! — ria.
— Pelo amor de Deus, eu é que não vou ficar no hotel que ele indicou. Nunca. — balançou a cabeça negativamente, convicto.
— Vamos chegar lá primeiro. — deu a opinião. — A gente vê e, depois, procura outro. A gente não sabe se ainda tem lugar vazio.
— Eu voto na gente dormir na van. — levantou a mão.
— Deixa de coisa! — riu do desespero do amigo. — Seja homem, rapaz!
— Até sou, mas... Tem coisas, meu amigo, que não dá!

Desta vez, eles seguiram as instruções direitinho. Não tinha nenhuma rotatória para se confundir ou caminhos bifurcados. Então, eles avistaram uma grande avenida e ficaram boquiabertos.
— Por que o cara não avisou que a gente iria passar por uma rua dessas? — Maria colou seu rosto no vidro, achando que tinha encontrado a solução dos seus problemas.
— Um... Dois... Três... — ia contando enquanto iam passando pela avenida. — Quatro... Cinco... É, acho que é um número considerável...
Esse foi o número de hotéis que contou. Nenhum deles se chamava pirâmide e todos eles tinham cara de ajeitadinhos, “dormíveis”, pelo menos. Mas, também, eles não esperavam encontrar nenhum Hilton ou Marriot por aqui, não é mesmo?
— Não é possível que nenhum desses hotéis tenham dois quartinhos pra gente! — estacionou rápido numa das poucas vagas que ele avistara.
— Eu vou com o àqueles dois ali. — apontou para os primeiros. — Enquanto e vão àqueles dois... E, garotas, será que vocês podem ir àquele?
Maria logo criou todas as esperanças do mundo. Era o mais bonitinho dos 5 hotéis. Agora era uma questão de honra conseguir um lugar lá! Arrumou o cabelo, colocou um gloss nos lábios e partiu.
a seguiu, arrumando o decote e a saia, e ... Arrumou o óculos, insegura se devia ir com elas ou não.

— Oh meu Deus, por que escreve tão certo por linhas tortas? Por favor, eu nunca pedi nada! Mas, por favor, tenha umas vaguinhas para nós, pobres indefesos adolescentes que não sabem nada da vida... — choramingou enquanto partiu para o seu primeiro desafio: o primeiro hotel.
— Deixa de ser chorão, idiota. — deu um tapa na cabeça dele.
— Como que eu iria saber que, numa cidade tão pequenininha desta, e com esse festival fubenga, todos os hotéis iriam lotar?
— Exatamente por ser uma cidade pequena, você deveria imaginar que não teria tanto hotel para o número de pessoas que vêm. Ainda tô achando muito ter cinco hotéis!
O hotel era bem arrumado, nada muito grande, mas acolhedor nas horas precisas. Havia um sofá e duas poltronas, logo quando você entrava e, ao lado, num nível acima, a recepção.
Subiram os três degraus que davam acesso a recepção do hotel e viram uma mulher e um homem no balcão.
assobiou, achando aquela mulher beeeeeeem interessante.
— Com licença. — falou com o cara. — Vocês têm algum quarto disponível?
— Um segundo. — O recepcionista mexeu no computador.
— Você é daqui mesmo? — perguntou a recepcionista.
— Sou — ela respondeu mal-humorada.
— Nossa! Não sabia que aqui tinham mulheres tão lindas.
Ela riu forçado, sem achar nenhuma graça nele.
— Eu estou procurando um lugar pra ficar... — Ele colocou os dois cotovelos apoiados no balcão, com uma cara de vem-ni-mim-que-eu-to-facim. — O que você acha de eu dormir no seu quarto essa noite?
— Senhor, nós temos um quarto duplo disponível. — O cara segurava uma chave e respondeu a , achando bem idiota.
— Que acabou de ser reservado para... Ninguém. — A mulher pegou a chave da mão do colega e guardou.
quase pulou em cima dela, para garantir seu quarto.
— É uma pena. — deu de ombros. — Vejo você na próxima, gata.
E virou-se para ir embora, deixando um furioso para trás, tendo que correr para alcançá-lo.
— Cara, você é um idiota!
— Eu, hein. Ela era muito gostosa, mas me esnobou, não quero mais. Depois, ela vai ver que perdeu o papito aqui e vai vir correndo atrás.
— Deixa de ser estúpido! Nós perdemos um precioso quarto por sua culpa!
— Minha nada! Culpa daquela mulher que não sabe o quanto eu posso ser bom para ela. — virou-se para , levantando uma sobrancelha.
— Argh! — o empurrou, sem querer falar com ele mais. — Atravessa a rua e cala a boca, vai!

e mal tinham passado pela porta do hotel.
— Não temos mais vagas — o recepcionista avisou, sem nem se dar ao trabalho de ouvir o que eles estavam procurando.
— Desculpa! — levantou os ombros como se tivesse ofendido alguém e deu meia volta.

— Nem vou entrar. — deu meia volta, a poucos passos da porta.
— O que tem de errado? — olhou confuso do hotel para o amigo.
— A placa ali do lado.
Só então se deu conta de uma placa enorme que anunciava que não havia mais quartos disponíveis no lugar.
— Espero que o e o , e as meninas, tenham mais sorte que nós.
Então, e voltaram cabisbaixos à van.

Do outro lado da rua, estufou o peito.
— Agora é uma questão de honra! — E seguiu determinado.
A porta de vidro fumê foi a primeira coisa que deu sinal de vida naquele lugar. Logo que a abriu, fez um barulho de quem não sabia o que era óleo desde... Que foi colocada.
não queria que a primeira impressão dele atrapalhasse as buscas, mas que ele estava achando que aquele lugar era mal assombrado, isso com certeza. O hotel nem tinha seu nome estampado na porta ou em algum lugar visível. o olhou, segurando a risada, quando viu uma velhinha cochilando numa cadeira ao lado da recepção, enquanto a TV estava ligada em um programa de auditório.
— Meu Deus! Este lugar parece ter vindo diretamente do túnel do tempo! — cochichou baixinho.
— E não vê uma faxina há alguns... Anos! — escondeu a risada e passou dois dedos em cima do balcão, e mostrou o dedo imundo a .
— Desculpe a bagunça, meninos. — A velhinha, que cochilava, apareceu de frente para eles, fazendo-os levar um susto. E limpar as mãos discretamente na bermuda. — É que o faxineiro morreu e, até hoje, eu não encontrei ninguém para me ajudar.
Aquilo já estava ficando estranho...
— Oh, tudo bem. Nós queríamos saber se a senhora não tem dois quartos para a gente ficar. — tentou não se apegar aos detalhes.
— Só para vocês dois?
— Na verdade, são sete pessoas ao todo. — completou.
A velhinha parou por dois segundos, encarando-os.
— Oi, queridos! O que vocês estão procurando?
e entreolharam-se, sem entender nada.
— Como eu disse, eu e meus amigos estamos querendo um lugar para dormir.
— Oh, sim, nós só temos um quarto com duas beliches.
— Hum... Mas é que são sete pessoas. — explicou de novo.
— Acho que podemos dar um jeito. Um momento, por favor.
E a velhinha entrou por uma porta que havia ali do lado.
deu de ombros, e apoiou um cotovelo no balcão enquanto tamborilavam os dedos com a outra, o que fez a poeira levantar e espirrar. Aqueles dois segundos não foram tão rápidos assim...



O mundo parecia ter parado para ver aquelas três garotas passando pela porta giratória. Os homens pararam de ler os jornais, os empregados pararam de carregar as malas, e o recepcionista deixou a pessoa com quem estava ao telefone falando sozinha. Era mágica pura.
Maria parou, avaliando o espaço e adorando ser olhada daquela maneira. parou ao lado direito, sorrindo e achando que ali era o lugar certo para ficarem. parou ao lado esquerdo de Maria, ficou vermelha e ajeitou o óculos.
— Vamos lá, garotas! É aqui que nós vamos ficar. — Maria anunciou, começando o desfile.
a seguiu com a mesma pose “eu-sou-a-melhor”, distribuindo sorrisos simpáticos.
A única estranha no ninho era , que não estava vestida para conseguir um quarto num hotel, nem tinha pose de top model, mas ela tinha peitos e os estufou. Ela era mulher também. Era bonita e estava com duas cheerleaders de respeito, não é?
Oh! Mas ela não contava com a lei de Murphy, que a fez tropeçar nos próprios pés e cair feito uma jaca madura no chão.
Ok. A cena em câmera lenta tinha acabado neste momento.
— Ai, meu Deus! — reclamou para si, rolando os olhos, mas, como era a mais próxima de , deu a mão para ajudá-la.
— Segura, senão, cai! — Um cara ruivo, de cabelo liso, em um estilo parecido com o dos meninos, apoiou também.
Com já de pé, se deu ao prazer de encarar aquele gato à sua frente, sem nenhum remorso. Parece que a nerd lhe trouxe um presente.

Maria nem percebeu o que tinha acontecido e encostou-se no balcão, ao lado de um loiro oxigenado que parecia ter perdido o tempo da tinta e ficou com o cabelo mais descolorido impossível.
— Oi. — Maria sorriu, chamando ainda mais a atenção do recepcionista e do loiro. — Será que você não tem dois quartos disponíveis?
Ela olhava dentro dos olhos do cara, deixando-o hipnotizado e sem reação.
— E-espera aí — foi a única coisa que ele conseguiu falar, antes de ver se tinha um quarto ou não.
— Você não é daqui — o loiro afirmou para puxar conversa. — Veio ver o festival?
Ela o olhou, sem dar muita importância, e voltou sua atenção ao que o recepcionista estava fazendo.
— É... — sibilou, sem dar muita importância e nem querendo dar continuidade àquela conversinha.
— Então não esquece de ver o show da minha banda, Forever the sickest kids, e aproveita, e dá uma passada no meu backstage. Você tem passe livre lá. — Ele piscou um olho.
— Com você ou sem você, eu tenho passe livre — ela disse, olhando-o da cabeça aos pés de um jeito esnobe e se perguntando quem ele pensava que era.
— Você vai tocar? — O loiro pareceu surpreso.
— Claro que não. — Maria continuava com seu tom arrogante. — Mas meus amigos vão.
— Nossa! Que legal! E quem são?
Para a surpresa de Maria, quem voltou não foi o recepcionista hipnotizado e, sim, uma mulher. Ela deixou o loiro falando só e prestou atenção nela.
— Desculpe-me, senhorita, mas nosso hotel está lotado — a moça falou calmamente, forçando-se a ser educada.
— Hum... Tudo bem. Eu estava falando com o mocinho ali. — Maria apontou para o cara com quem tinha falado. Ela tinha certeza que ele daria um jeito de acomodá-las em algum lugar daquele hotel.
— É que ele acabou de entrar no horário de almoço. — A mulher encarou-o feio.
— Mas são 11 da manhã! — Maria segurou-se no balcão, indignada. Qual era o problema daquela lambisgoia?
— Nossa! Bom saber que você aprendeu a olhar no relógio!
Maria ficou boquiaberta.
Mas lá atrás o cara levantou a mão direita, mostrando um anel enooorme no dedo anelar, o que fez Maria imediatamente olhar para a mão direita da moça. É... Ela tinha se deparado com mais um típico caso de ciúme.
— Querida... — Ela sorriu cinicamente e explicou pausadamente: — Você sabia que existe uma linha tênue entre o ciúme e a insegurança? Pois é, meu bem. É uma pena que nem toda mulher saiba esconder essa insegurança e sempre deixa transparecer que a outra é melhor que ela. — Maria piscou um olho para a mulher e saiu cheia de si.
— UAU! Beijos! Me liga! — O loiro oxigenado encostou-se no balcão, impressionado, seguindo Maria com o olhar. — Fica no meu quarto, se quiser.
— Vaca! — A recepcionista se segurou para não falar mais nada alto.
Maria fingiu que não ouviu nenhum dos dois.

— Vamos embora! Este lugar não é para gente. — Maria chegou, arrastando e , que conversavam animadas com o ruivo que tinha as ajudado e mais outro estranho de cabelo comprido.
— Calma, calma. — tirou a mão de Maria do seu braço. — O que aconteceu com o ‘é aqui que nós vamos ficar’?
— Ué... Não é mais aqui que nós vamos ficar!
— Por quê? — questionou inocente.
— Porque eles não têm boas instalações a oferecer.
— Hum... Claro que não. — rolou os olhos ironicamente. O hotel era quase cinco estrelas. — E mais o que?
— Ai, tá! — Maria a fez vir ao seu lado, que, por um acaso, dava de cara com a recepção, e apontou para lá. — Tá vendo aquela mulher?
tentou ignorar o loiro, que olhava para elas, e focou no olhar de ódio da mulher.
— Ela é uma ridícula, mal vestida, que acha que eu nem sei olhar as horas. Ciumenta idiota.
— Aaaah! Agora, já entendi. Por um acaso, o recepcionista trabalhava com a namorada e que, por outro acaso, é essa mulher, que, por mais outro acaso, resolveu ter uma crise de ciúme...
— Mais ou menos. Eles são noivos.
— Só uma dúvida. — virou-se para Maria, colocando o dedo indicador na bochecha. — O loiro ali não teve nada a ver nessa escolha?
— Vamos dizer que ele contribuiu...
Ninguém percebeu, mas o cara de cabelo cumprido e o ruivo fingiram estar tossindo enquanto se acabavam de rir do que as garotas falavam: o loiro.
— Cá entre nós... — Maria puxou para falar alguma coisa no ouvido de . — Quem é esse ruivo gato?
— Caleb. — riu. — O resto da história eu conto depois. Só digo que me serviu para alguma coisa!
As duas deram risada juntas.
Elas se despediram dos dois garotos e quase tiveram que arrastar para ela se desgrudar de Caleb.

— Eu posso perguntar uma coisa? — falou de vez, assustando , que estava distraído com o som do fone no seu ouvido.
— Vai em frente, ué!
— A ... — Ele pensou se deveria falar ou não. não teve muito tempo para pensar sobre isso, mas não saber o incomodava muito mais. Era mais que curiosidade: era necessidade. — Não disse se viajaria para um lugar mais longe ou algo assim?
— Como eu disse, , a gente, eu e ela, só conversávamos sobre a gente, ou seja, nós todos. Por quê?
— E será que ela não tinha planos para te fazer uma surpresa?
— Bem, é surpresa. Eu não deveria saber, né? — respondeu como se fosse óbvio.
— Sei lá! Tem gente que gosta de fazer suspense.
— Não a . Até porque, você sabe, se a gente insistir mais um pouquinho, ela conta tudo. Mas, de novo, por quê?
— Sei lá. Já que ela decidiu mudar tanto. Talvez, ela tenha aprendido. — , de repente, achou que tivesse tido uma boa ideia. — Ei! Você não tem o número dela de lá, não? Talvez, você devesse ligar e perguntar se não tem nenhuma surpresa.
— Rá! — apontou para com um sorriso malicioso no rosto. — Espertinho. Acha que eu vou cair numa besteira dessas? Claro que não! Depois, você vai mexer no meu celular e procurar o número, e mexer com ela.
— EU?! — respondeu cínico, até porque tinha adivinhado mesmo. Talvez ele ligasse só para poder ouvir a voz dela e pegasse no pé por alguma coisa que ela fez ou deixou de fazer, só para ouvi-la reclamar e brigar com ele. — Nunca pensei nisso! Eu só acho que ela tem uma surpresa para você.
— Sim, mestre dos magos. Mesmo que tenha, pode parecer meio desligada, mas não é. Ela não me deu o número dela e, quando liga para o meu celular, é número confidencial. Acho que ela também sabia que você poderia roubar o número, vai saber. Mas como que você tem tanta certeza que ela vai fazer uma surpresa pra mim?
— Eu?! — Ele apontou cínico para si de novo, deixando um pouco desconfiado. — Nada. Não tenho certeza nenhuma.
— Uhum. Tá bom, . E eu nasci ontem. Você viu alguma coisa ontem no meu computador, não foi?
— Não, não...
— Tá certo.
não insistiria mais. Uma hora ou outra, falaria, mesmo sem querer. Era só fingir que não estava curioso e que nada tinha acontecido, e, pimba!, ele diria. Era a mesma coisa que . O mesmo jeito de não aguentar guardar segredos tão facilmente. Nisso, os dois pareciam as mesmas pessoas.
deu de ombros e voltou a cantarolar baixinho alguma música que rolava no seu iPod.
acabou de se recostar no banco, para tirar um cochilo, quando a porta de trás da van abriu de vez, fazendo-os levar um susto enorme.
— Vocês querem me matar! — colocou a mão no coração, por ter levado outro susto em menos de 30 minutos.
— Eu odeio este festival! Odeio as pessoas desta cidade! Odeio AQUELA mulher! — Maria entrou, reclamando.
— Mas eu adorei o Caleb. — pensou alto, fazendo todos a olharem estranho. — É... Pois é... Vocês conseguiram algum hotel? — ela desconversou.
— Olha a cara deles! É óbvio que não! — se jogou de qualquer jeito no banco.
Os dois se encararam, pensando a mesma coisa: “Ela nos chamou de losers?!”.
— Todos lotados. — respondeu, ainda pensando na frase anterior de .
— Todos lotados não! — levantou a voz e com um olhar de acusação para cima de . — Se não fosse esse espertão aqui, a gente conseguiríamos, pelo menos, um quarto duplo pra dois de nós dormirem.
, pelo seu bem, torça para e terem achado um hotel para nós. — Maria continuou de mau humor.
— Falando neles, por que será que tá demorando tanto? — ficou preocupada.

— Cara, tem alguma coisa de errado com essa velha. — cochichou com , ao ver a velhinha entrar novamente na recepção e sentar na cadeira, sem se importar com a presença dos dois.
deu de ombros e foi falar com ela:
— Ei, senhora! — Ele deu um cutucão nela.
— Seus moleques insolentes! — Ela levantou, gritando, e apanhou um guarda-chuva que estava perto. — O que vocês querem desta pobre velhinha indefesa? Não tem vergonha na cara, não?!
Só assim os meninos descobriram para que ela queria o guarda-chuva. Em meio aos palavrões e lições de vida, ela ia dando um monte de “guarda-chuvada” nos meninos, que, sem saber mais o que fazer, só se defendiam dos ataques daquela velha doida.
— O que está acontecendo aqui? — Um senhor grisalho apareceu sabe-se lá da onde.
A velhinha parou no meio de outro ataque para cima de e , que continuavam sem saber o que fazer naquela hora. Ela abaixou o guarda-chuva, como se não estivesse acontecendo nada, e perguntou:
— Novos hóspedes, filho?



— Desculpem-me, garotos. Minha mãe não machucou vocês, machucou? — O senhor olhou com piedade. — Ela sofreu um acidente há alguns anos e, desde então, sua memória nunca mais foi a mesma.
— Não, senhor. Não foi nada. — foi sutilmente sarcástico.
— Então no que posso ser útil?
— É que nós queremos saber se há dois quartos disponíveis para 7 pessoas. — respondeu.
— Para 7 pessoas... — O senhor pensou alto. — Nós temos um para quatro, mas, se não se incomodarem, podemos colocar um colchão de casal no chão. E sem cobrar nenhum adicional! — O senhor sorriu, feliz e muito satisfeito em ter aqueles dois ali.
— Eu acho que... — já achava aquele hotel muito suspeito e, depois daquele armengue que iriam fazer, confirmou sua ideia.
— O colchão é um super king. — O senhor o interrompeu. — Cabem perfeitamente três pessoas e o quarto é enorme. Se duvidar, cabem mais dois colchões daquele. São duas beliches, então acho que ficaria perfeito para vocês. Posso até dar um desconto, como forma de desculpa.
— Mas é que... — também tentou falar alguma coisa.
— Nós ainda temos frigobar e TV no quarto. Onde estão as malas de vocês?
— Senhor, me desculpe, mas vamos falar com nossos amigos primeiro, ok? Voltamos depois. — disse rápido, puxando para a saída.
Se eles não fizessem isso, o cara nunca mais os deixariam sair de lá.
— Esperamos vocês, rapazes! — o senhor ainda completou, sem sair do lugar.

— Velho, este lugar é um tanto...
— Estranho? Desarrumado? Suspeito? — andava rápido, querendo sair o mais rápido possível de perto daquele lugar.
— Diferente também.
— Diferente, ? ‘Diferente’ é elogio! E aquela velha doida lá... Você gostou de tomar “guarda-chuvada”? Eu não!
Os dois foram discutindo se deveriam voltar lá ou não. parecia tranquilo e sem nenhuma ressalva quanto ao hotel tããããão estranho. Já era mais “realista”. Era um caso de última escolha, depois de considerar até dormir na van, como sugerido mais cedo.
— Digam que nós temos um lugar. — , que estava com o vidro aberto, suplicou, antes dos dois entrarem no carro.
— Por favor! — Maria abriu a porta de vez.
— Tudo bem, tudo bem. — Eles foram entrando e se acomodando.
— Então isso significa que vocês não conseguiram lugar nenhum?
— Nem me fala nisso, . Nem fala! — Maria falou com a mão levantada, indicando sua indignação.
— O que aconteceu?
e Maria foram os responsáveis por contar as histórias do que tinha acontecido, mesmo com se intrometendo, para dar sua versão, sempre que podia. e até tentaram, mas quando um falava por cima do outro, e ia dando palpites do que eles deveriam ter feito, e só conseguia falar o quanto o tal Caleb era bonito, ficava meio difícil de se concentrar. O importante foi que o essencial eles conseguiram entender.
— No fim, ninguém sabe realmente se tem vaga ou não no hotel. — riu.
— E vocês, o que aconteceu? — perguntou.
— O primeiro estava lotado, e o segundo...
— Por que vocês não voltam aos hotéis, para ter certeza que não tem um quarto, pelo menos? — interrompeu inteligentemente o amigo. — Assim, vocês três ficam em paz. E nós quatro nos ajeitamos depois. e vão ao hotel que as meninas foram, e , Maria e vão ao hotel que os dois foram rejeitados.
Ok. Parecia que alguém tinha tido uma ideia sensata. Se todos eles não se deram bem na caça por um quarto, se trocassem os grupos, talvez, a mulher que negou um quarto ao abriria uma exceção para as meninas, e a mulher ciumenta conseguiria um quarto para os meninos.
E a ideia foi muito bem aceita. Em menos de um segundo depois de falar, os cinco saíram correndo.
— Cara, me orgulho de ter um amigo tão inteligente quanto você. — deu dois tapinhas emocionados no amigo, ajeitando-se confortavelmente no carro.

— Ok. Eu admito! — parou no meio do caminho, fazendo dar dois passos para trás, a fim de ouvir o amigo.
Sentiu-se orgulhoso por conhecer tão bem as pessoas ao seu redor.
— Eu vi falando com você no MSN! Dizendo que tinha uma surpresa, que chegaria nesta semana e que, se não chegasse até sexta, era para você procurá-la.
Ele disse de uma vez só, respirando fundo no final.
— UAU! — disse boquiaberto, querendo compreender tudo o que dissera, mas ela realmente não tinha falado nada sobre viagem ou surpresa. — Muitas novidades numa frase só.

— Eu tenho uma melhor, se liga. — colocou a cabeça do lado de fora da janela, enquanto passavam duas garotas de saia do outro lado da rua, e gritou: — A de calça é a mais gostosa!
As duas olharam para as pernas para ver quem estava de calça, e os dois dentro do carro rolaram de rir delas. Bem, eles tinham que arranjar alguma coisa para passar o tempo, não é?
— Essa foi boa! — entrou no carro, dando risada também. — Vou usar mais vezes.
— E aí? — perguntou animado.
— Nada. — entrou logo depois. — Com crise de ciúme ou não, lá não tinha onde ficar.
Os quatro pararam um pouco para refletir, parecendo quatro pessoas sérias e compenetradas. No entanto, assim que olharam um para o outro, começaram a rir. E riam escandalosamente, até o ponto que suas barrigas começaram a doer.
Eles nem sabiam ao certo por que estavam rindo. Talvez, só o fato dos quatro estarem juntos ali, a poucas horas de tocar num festival, já fosse importante o bastante para todos estarem tão felizes.
— Pelo menos, nós temos uma van. — disse com alguma dificuldade.
— E três das garotas mais bonitas da cidade. — fez sua melhor cara de cafetão, fazendo os outros rirem mais e levantarem dois dedos. — Ok. Duas das mais bonitas da cidade e uma das mais bonitas das nerds do primeiro ano!
— Temos dinheiro para comida... — continuou.
— É, podemos entrar para a galera do HIP HOP. — fez os movimentos que os “mano” fazem com as mãos. — Ya know, nigga. We have car. Girls n money!
Eles gargalharam ainda mais alto.
— Acho que temos tudo. — concluiu, fazendo os outros três concordarem, rindo.
Mas não. não tinha tudo. Nem . Nem . Nem .

Os garotos ainda ficaram algum tempo jogando conversa, até as garotas voltarem com humores muito diferentes. e pareciam querer segurar o riso, enquanto Maria sentou no seu lugar, cada vez mais emburrada.
— O que aconteceu?
Essa simples pergunta de fez e não conseguirem mais se segurar e quase morrerem de rir, enquanto Maria jogava uma olhar mortífero para as duas. sorriu junto com elas.
Parecia que havia repensado suas atitudes.
— Eu vou matar aquele garoto. O quarto era nosso! Loiro aguado dos infernos!
— Ai, ai. — enxugou as lágrimas, que caiam de tanto ela rir, e explicou: — Maria encontrou o mesmo idiota do hotel anterior nesse hotel que estávamos e “roubou” a chave do último quarto disponível.
— E pior... — Maria se intrometeu revoltada. — Ainda perguntou se eu não queria dividir a cama de casal com ele! Pela segunda vez! Isso é perseguição!
— Pior nada, amiga. Pior foi você disputando a chave com ele no meio do pessoal. — continuou a história. — Vê-lo te fazendo de bobinha foi a cena mais impagável da minha vida.
— Ele fez isso mesmo?! — deu uma risada escandalosa.
— Não se mete, ! — Maria gritou com ele. — O que nós vamos fazer agora?
— Almoçar. — decidiu, ao ouvir o grito de socorro da sua barriga.
— É, lá, com calma, a gente vê o que faz. — voltou ao seu lugar de motorista e ligou o carro.
Em menos de cinco minutos e sem virar rua nenhuma, eles encontraram um típico restaurante americano que servia hambúrguer com fritas.

Os sete estavam sentados numa mesa, compenetrados e pensativos sobre a situação na qual se encontravam.
— E agora? — A simples pergunta de pareceu bem complicada.
— Que horas vocês têm que estar lá no festival? — Maria se preocupou.
— Às quatro e às cinco e meia a gente sobe no palco.
respondeu e fez todo mundo retornar aos seus pensamentos. e se entreolharam, discutindo pelo olhar se deviam ou não contar sobre o hotel maluco.
... — percebeu a troca e o chamou. — O que houve no segundo hotel?
Ela perguntaria isso a , se não fosse tão difícil assim voltar a olhar nos olhos dele, de tanta vergonha que ainda sentia. Mas fingiu que a pergunta tinha sido feito a ele e respondeu:
— Não acho que vocês gostariam muito do que encontrariam.
— Lá é um lugar sinistro... — completou.
— É só pra caso de última opção, mesmo!
não ligou para o que eles disseram, estava mais concentrada em segurar a imensa vontade de pular por cima daquela mesa e arrancar inúmeros beijos de , que, propositadamente ou não, estava muito mais bonito naquele dia. Notar aquilo, imediatamente, fez sentir ciúme. Não aguentaria ver aquelas groupies dando em cima de seu... De .
— Velho! Vocês só não são mais lerdos porque só são seis! — bateu na testa. — Ainda temos uma salvação!
Todos se entreolharam com um pouco de medo.
— Temos?! — disse cético.
— Claro! A gente nem procurou o hotel que o frentista indicou!
— É mesmo! — Maria se animou.
— Ah, não! — fez objeção. — Eu não fico lá de jeito nenhum, gente... Por que vocês não cogitam a possibilidade de dormir na van?
— Deixa de loucura, . Não vai doer ir lá ver, vai? — respondeu.
Eles começaram a discutir e, mesmo a contra gosto, teve que aceitar, até porque era ele contra todos os outros. Havia certa desvantagem aí.
Quando estavam a caminho da van, o celular de começou a tocar desesperadamente, ainda era aquele toque dos et’s, mas, ainda assim... Ao ouvir isso, correu para o lado de , quase arrancando o telefone das mãos dele e atendendo-o.
— Oi, MÃE! — frisou para ouvir e deixá-lo em paz, mas não foi o suficiente. só relaxou quando finalmente desligou o celular. — Vai ficar ouvindo minhas conversas agora?
— Só as que eu achar necessário. — deu de ombros, aumentando os passos e passando na frente de , deixando-o irritado com aquela atitude.



— Aconteceu alguma coisa, ? — Maria perguntou baixinho, já dentro do carro.
— Nada, não — ele respondeu com cara de poucos amigos.
— Tem certeza?
— Ah, Maria, vai ver se eu tô na esquina!
Ela ficou magoada com o jeito com que a tratou e, no mesmo instante, calou-se. Não levaria a sério. Achou que ele só estava ansioso para o show, mas doeu, de qualquer forma.

— Ué! — não estava entendendo. Não era para eles terem voltado à mesma rua de antes, a rua com os vários hotéis. O moço no restaurante só podia ter dado a informação errada. — Por que voltamos aonde viemos?
balançou a cabeça, já perdendo a paciência com aquela história.
— Segundo o cara, era o terceiro hotel do lado esquerdo da rua, vindo pela direita. — analisou a rua. — Ok.
À medida que passava pelos hotéis, as meninas faziam um pequeno coro de “um... Dois...”.
— TRÊS?! — e se assustaram. — Impossível!
— Tem que ter alguma coisa errada. — colocou a cabeça para fora da janela, como se aquilo fosse fazê-lo enxergar um possível hotel que eles tinham pulado. Aquele simplesmente NÃO poderia ser o número três! — Ou, talvez, uma coisa muito certa.
— Hey, cara! — gritou para um homem com cara de morador da cidade, que passava pela calçada. — Será que o senhor saberia informar onde é o hotel Pirâmide?
— Vocês estão com sorte, crianças.
Lá dentro, e Maria rolaram os olhos. Se soubesse do que eram capazes, ‘crianças’ seria a última coisa do que as chamariam.
— É aqui mesmo. — O cara apontou para o fatídico hotel atrás de si, fazendo olhar para trás e encarar .
— Eu acho que aceito dormir na van. — se encolheu no banco.
— Ah, qual é?! Não me parece tão ruim assim... — já foi abrindo a porta para sair.
— Eu não diria isso, antes de entrar lá...
Todos o olharam, pedindo uma explicação. Mas foi quem abriu a boca:
— Sabe a nossa última opção? Acho que chegamos a ela. — Ele viu o choque no rosto das meninas e abrir os olhos, surpreso.
— É... Quanta coincidência. As nossas duas últimas opções são o mesmo lugar... — comentou, tomando a iniciativa de sair do carro.

Os sete pararam em frente ao hotel, olhando sua fachada, sem saber direito o que fazer.
— Ele é mal assombrado? — perguntou, ainda analisando a frente do hotel.
— Aposto que sim. — balançou a cabeça, sem deixar de encarar a porta.
— Não tem funcionários, fora os próprios donos? — Maria colocou a mão na boca, comendo a pele ao redor da unha.
— É... Acho que não. — respondeu receoso.
— Tem alguma velha assustadora tomando conta? — perguntou assustada, enrolando compulsivamente as pontas do seu cabelo.
— Tem — os dois responderam em uníssono, fazendo a base das meninas tremerem.
— Tem quarto para a gente ficar? — perguntou, rolando os olhos para o medo das garotas.
— Ah, isso tem. Ele disse que iria fazer um armengue doido lá e conseguiria 7 num quarto só. — explicou.
— Então... — pareceu todo cuidadoso e assustado, fazendo drama e, depois, perguntou todo tranquilo: — O que nós ainda estamos fazendo aqui fora mesmo?
e seguiram em direção à entrada, seguidos das garotas, que tremiam de medo, e , que queria, mas não queria, ir. ficou parado no mesmo lugar.
— Vocês estão ignorando um sinal dos deuses!!! — ele gritou. — Jesus está tentando nos avisar alguma coisa! Chuck Norris vai nos castigar com um Roundhouse Kick, que nos mandará direto ao Inferno!!!
Mesmo dando aqueles avisos, foi ignorado e obrigado a seguir a turminha do mal.

— Aqui não parece tão ruim, só meio desarrumadinho e descuidado... — Maria deu uma olhada ao seu redor.
Mas ela nem precisou terminar a frase direito, pois começou a entender o que havia de tão estranho ali.
— Querem doces, crianças?
e deram um pulo, de susto, ao ver aquela velhinha com cara de simpática oferecendo doces a eles, e se esconderam atrás da galera.
— Você está muito magrinha, minha filha! — Ela deu um beliscão no braço de Maria. — Precisa comer mais um pouquinho!
E enfiou um brownie enorme na boca de Maria, quase fazendo-a engasgar. Sua única reação foi sorrir e mastigar o bolinho com má vontade. a olhou, tentando transmitir um “eu te avisei!”. Querendo ser sutilmente educada, Maria colocou o outro pedaço do brownie, que estava na sua mão, em cima do balcão, sem querer parecer desagradável com a velhinha, mas mal sabia que não deveria fazer movimentos suspeitos de frente para ela.
— Você roubou os bolinhos do meu netinho!!! — A velhinha foi para cima da garota, lhe dando um monte de tapas. E a mão da velha não era macia, não, hein!
— Para, sua doida! — Maria se desvencilhou dos tapas com um certo insucesso.
— Menina mal criada!
— Pera aí! Pera aí! — se meteu no meio, levando, agora, os tapas.
A mulher parou, no mesmo instante, olhando para , e só levou dois segundos para ela mudar de comportamento.
— Oh, meu filho! — A velha o abraçou. — Você nunca mais veio visitar sua tia querida!
retribuiu o abraço, fazendo sinal de que aquela mulher era maluca e, assim como os outros, não estava entendendo nada do que estava acontecendo.
— É ela quem cuida do hotel?! — perguntou abismada.
— E a van? Agora entra em pauta? — foi saindo de perto.
— Garotos, vocês voltaram! — O senhor colocou a mão nas costas de , deixando-o transparecer certa decepção. — Eu sabia que vocês voltariam. Então, podemos assinar a entrada de vocês? Mamãe, ele não é o Kyle. Para de apertar as bochechas dele.
A velhinha pareceu obedecer e ofereceu os brownies; desta vez, a , que, educadamente, recusou, sem querer causar nenhuma situação constrangedora... O que não adiantou muito, pois, logo, a velha comentou:
— Desse jeito, seu namorado vai te largar, não é, filho? — disse, olhando para e deixando-o extremamente constrangido, e voltou-se para . — Os homens odeiam mulheres magricelas. Coma um, querida.
Aquela velha estava lembrando alguém, para ... Alguém que quase todo mundo conhecia... Ah, claro! A bruxa de João e Maria, de tanta insistência que aquela mulher tinha em dar esses bolinhos a eles.
— Vocês vão querer o quarto para 7 pessoas mesmo? — o senhor perguntou a com um certo tom de repreensão na voz. — Vão ficar todos no mesmo quarto?
— Elas são nossas amigas, não precisa se preocupar. Não vamos fazer nada de errado...
— Filho... — A velhinha se intrometeu com uma cara fofa. — Olha a cara desses garotos... Tão inocentes.
O filho ponderou e chegou a concordar com a mãe, mas a velhinha não parou aí:
— Crianças... — Ela balançou a cabeça negativamente. — Vocês deveriam arranjar namoradinhas que combinassem mais com vocês. São tão bonitinhos, tão simpáticos... Precisam de garotas boas.
assinou rápido o papel que o senhor lhe deu e puxou rápido a chave da mão dele. Se aquela senhora falasse mais alguma coisinha, poderia acontecer um terremoto em poucos segundos e ele sabia disso só por olhar a cara de Maria, e até , que não era de confusão, mas aquela velhinha estava pedindo para ser assassinada!
— Eu levo vocês até o quarto. — O senhor fez menção de acompanhá-los.
— Não... Não precisa. — ia empurrando as meninas com a ajuda de . — A gente se vira.
— Ok. É só subir a escada. É o quarto no fim do corredor. Já, já, eu levo o colchão.

— É impressão minha ou essa velha maluca me chamou de magrela, feia, chata, má e pervertida? — ia reclamando no caminho.
— Pior! Me chamou de ladra! — Maria acompanhou. — Onde vocês arranjaram este hotel?
— Isto é Nova Cintra!
ajeitou a mochila nos ombros, animado.
Se, do lado de fora, o hotel era simples, por dentro, ele era muito pequeno. No corredor só havia três quartos e sem vestígios de um andar acima.
— Bem-vindos ao nosso cafofo! — abriu a porta.
Logo as mochilas estavam jogadas num canto e os caras resolveram deitar um pouco para descansar.
— A gente sai daqui às 4 horas. Vocês ouviram? — avisou enquanto subia a escada do beliche.
— Ainda faltam duas horas. — disse como se fosse tempo o bastante para se arrumar umas três vezes.
— Hum... Eu acho que vou tomar banho primeiro. — Maria pegou sutilmente sua mochila e correu para o banheiro.
— Vaca! — rolou os olhos, tão preparada quanto Maria para se arrumar.
olhou assustada, imaginando o porquê de elas demorarem tanto.

Trinta minutos depois, ouviu-se o barulho da porta do banheiro abrindo e fazendo e olharem imediatamente na direção dela.
— A próxima pode vir. — Maria anunciou e fechou de novo a porta.
As duas se encararam. olhou para trás e certificou-se de que todos estavam dormindo, menos e , que estavam em cima, e ela não era gigante para poder ver se eles estavam acordados ou não, mas com certeza estava dormindo.
— Pode ir, . Eu espero...
Por um segundo, achou que estava ficando maluca. Mas estava na cara que a outra estava apenas tentando ser educada.
— Nada, . Você pode ir primeiro. Eu não me importo de ser a última... Até porque eu me arrumo em quinze minutos. — Depois, diminui o tom de voz: — E eu aposto que o adoraria te ver bem bonita.
Os olhinhos de brilharam o mais forte possível. tinha a ganhado com uma simples frase.
Na outra cama, escondeu o riso para não deixar ninguém ver que ele tinha escutado tudo.

— O que é isso? — espantou-se ao entrar no banheiro e vê-lo inundado.
— Hum... Única opção: erro de engenharia. — Maria respondeu enquanto se maquiava de frente para o espelho. — Eu tentei enxugar, mas só piorou a situação. Parece que tem algum vazamento nessa pia, e o box do chuveiro não escoa a água para dentro, escoa para fora!
— Ótimo! — reclamou com sarcasmos e entrou para tomar banho. — AI!
— Também me esqueci de falar... — Maria avisou com atraso. — O chuveiro dá choque.
Muito agradecida, pegou a toalha para abrir o chuveiro e continuou seu banho.

Quanto mais se aproximava a hora do show, mais tenso ficava o ar naquele quarto. Já estavam todos sentados pelo quarto, batucando, viajando, olhando a unha, esperando pelas duas princesas, que nunca terminavam de se arrumar: e Maria.
— Puta que pariu! Vocês podem adiantar aí, por favor? — resmungou, já impaciente por ter esperado tanto.
Faltavam 20 minutos para as quatro horas e as duas ainda brigavam por um lugar ao espelho.
— Por que todas as mulheres não podem simplesmente ser que nem a ? — reclamou. — É tão simples ser simples!
o olhou sem expressão, mas, no fundo, estava decepcionada por ouvi-lo. Ela não queria ser simples. Ela queria ser especial.
— Vocês deixem de agonia! — saiu do banheiro com um ar superior. — Não é só porque nós não vamos subir no palco que temos que ir de qualquer jeito.
— Além disso, o amor da minha vida pode estar em qualquer lugar. — Maria completou. — Eu não quero que ele tenha uma péssima primeira impressão, ok?
— Mas, se é o amor da sua vida, deveria te aceitar assim, como você é, não acha? — lançou seu olhar no fundo dos olhos de Maria, fazendo-a sentir um arrepio repentino.
O que ela poderia dizer? a deixou intimidada.
Whatever!
Parando para pensar, estava mesmo certo. A pessoa com quem Maria queria passar o resto da vida não podia querer mudá-la, até porque não dá para ser bonita sempre. A pessoa teria que se acostumar com os dias de preguiça, que se arrumar é a última coisa que qualquer mulher quer fazer na vida, aquela semana que não dá para ir fazer a unha e que o cabelo está todo bagunçado. Esta era a graça: não ser perfeita o tempo todo. Como todos lá foram a viam. A verdade era que ela queria encontrar alguém que não se importasse apenas com sua aparência, mas com seus sentimentos também, que compreendesse as suas escolhas, por mais difíceis que parecessem ser.
Enfim, aceitar quem ela é.



— UOU! Aqui tem mais gente do que eu imaginei, cara! — comentou boquiaberto ao ver o público pela grade que separava o estacionamento das vans do espaço para as pessoas ficarem.
— Isso vai ser muito legal! — bagunçou o cabelo do amigo e passou na frente.

Os meninos ficaram trancados no backstage, antes do show. Eles poderiam, mas preferiam não sair de lá antes de tocar, para evitar confusões, atrasos e essas coisas. Mas as meninas? Elas eram livres para ir e vir aonde bem entenderem, e ficar naquela sala, esperando-os subirem no palco, era a última coisa que queriam, então aquela era a hora de passear pela floresta.
— Para que lado nós vamos? — ponderou.
— Para o lado negro da força.
Maria esboçou um sorriso maldoso ao avistar alguns garotos do outro lado do corredor.
— É muito errado eu achar alguém bonito? — enrubesceu.
— Não, se for o Caleb. — respirou profundamente ao vê-lo no meio daqueles garotos.
Maria suspirou ainda mais fundo. Guiou as garotas até o fim do corredor. Não iria perder a oportunidade de se mostrar para aquele cara lindo que estava à sua frente.
— Não sabia que você vai tocar aqui hoje. — Maria se pôs de frente para ele, atrapalhando a conversa que estava tendo.
Caleb não pôde segurar o queixo quando viu aquela garota linda falando consigo.
— Pois é. Depois da próxima banda, subimos no palco. Espero que possa nos assistir...
— Não perco por nada! — Maria falou animada.
Só então, Caleb se deu conta de que outras duas garotas estavam junto com ela.
— Espero que vocês também nos façam companhia! — ele disse, deixando com o coração disparado.
Todas estavam encantada com Caleb e não se deram conta de que outros garotos prestavam atenção nelas, até que um deles abraçou Maria.
— Não vou deixar você se arrepender por ter ficado, doçura — o loiro aguado sussurrou no ouvido dela, fazendo todo seu sangue subir à cabeça.
Maria afastou-se o máximo que pôde, fazendo cara de nojo.
— Sério. — Levantou as mãos para o céu. — Sério. Por que, meu Deus?
— Para, Kyle. — Caleb interveio. — Não querem dar uma volta com a gente por aí, não?
— Ótimo! — Maria se postou ao lado dele, satisfeita com o convite.
relaxou os ombros, decepcionada. Se Maria entrasse na parada, não teria a menor chance.

Os quatro estavam tensos dentro do camarim. Faltavam menos de 30 minutos para subirem no palco. Os corações estavam batendo desesperados.
— Cadê as garotas? — perguntou preocupado. — Achei que elas estariam aqui, antes da gente se apresentar.
— Boa pergunta. Tô tentando ligar para a Maria, mas ela não atende. — respondeu, fitando o celular com o nome de Maria na tela.
— Vou dar uma volta, procurando. — comunicou, indo em direção à saída e dando tempo apenas de ouvir gritar para ele não se atrasar.
Havia muitas pessoas apressadas passando pelo corredor, naquela euforia da produção para fazer o festival ocorrer tudo bem. procurava os rostos conhecidos, sem muito sucesso. Já perto da saída para o público, avistou uma silhueta conhecida, que há tempo não era vista. Ele se recusou a acreditar.
não conseguia ver o rosto, mas estava certo de que se tratava de . Ele jamais confundiria aquele cabelo grande e preto, nem o jeito de conversar com outra pessoa. Era ela. Mas o que ela faria ali? Por que estaria acompanhada de um cara mais velho?
Hesitou em chegar perto e, como uma epifania decisiva, lembrou-se de todo o sofrimento que a fez passar. Era realmente a hora de seguir em frente?! Não conseguia ter certeza. Ficava ainda mais apreensivo ao pensar que, talvez, nunca tivesse. Tudo o que sentia era cruel a um nível desumano.
Será que ela havia voltado para eles novamente? Será que voltaria a ver aquele rosto suave diariamente?
Ficou imóvel, sentindo o coração tentar sair do peito, enquanto a silhueta se perdia pelo público.

— De todos os lugares do mundo, eu tinha que enfiar meu burrico justo aqui? — Maria rolou os olhos com toda a insatisfação em estar ao lado daquele loiro aguado.
e dividiam a atenção de Caleb, numa conversa super animada. Apesar de relutante, tinha que admitir: Caleb estava interessado mesmo era em . Não seria tão fácil, mas toda vez que ele olhava a amiga, não conseguia disfarçar seu olhar interessado e via que era recíproco. Não conseguia evitar as lembranças do seu eterno-em-conflito-ex-atual-namorado . Sentia saudade de conversar com ele, de participar da sua vida, ainda mais deste momento tão especial que estavam passando: esta experiência inesquecível de tocar em um festival para uma multidão. E a troca de olhares de Caleb e significava muita coisa para ela. Significava que não precisava se preocupar com a questão /, não precisava mais sentir ciúme... Significava, ainda, que era realmente o que falara: uma amiga. Querida e inocente. Talvez fosse sua missão torná-la mais “apresentável”.
Foi aí que a luzinha se acendeu.
— Eu tive uma ótima ideia! — chamou a atenção de todos. — Por que, depois do show, não saímos para comemorar?
Maria ficou boquiaberta com a proposta.
— Tá doida?! Eu não fico ao lado desta coisa branca aguada nem mais 5 minutos! — exclamou, afastando-o.
— Ah, qual é, gatinha?! Você me adora! — o loiro disse, tentando abraçá-la.
Caleb e se olharam, complacentes, adorando a sugestão.
— Então... — puxou as duas garotas para si. — Encontramo-nos depois do show, ok?
O mais rápido que pôde, levou as duas de volta ao camarim, onde os meninos, incluindo um confuso e pensativo, esperavam.

— Acho que estou apaixonada! — suspirou.
— Também quem não estaria? Até eu, que acho o o suprassumo da beleza, tive que rever minhas concepções depois de Caleb. — comentou.
— Pena que eu nunca teria uma chance com ele. Eu não tenho chance alguma perto de vocês.
e Maria concordaram mentalmente.
— Mas não é assim também. — refletiu a melhor forma de falar aquilo que estava pensando: — Até porque tem aquela história de que não existe mulher feia, só mulher mal cuidada. A gente já nasceu linda, é verdade, mas a produção ajuda também.
— Aposto que, se você se arrumasse um pouquinho mais, faria uma grande diferença. — Maria aconselhou.
— Gente, por favor! Só Deus operando um milagre para eu conseguir chegar perto do que vocês são!
e Maria, mais uma vez, concordaram mentalmente.
— Maria... — cochichou no ouvido da amiga: — Eu tenho uma ideia!
Esta era a hora de colocar seu plano em prática.

— Cara, o que é que essas meninas estão aprontando? — tentava escutar atrás da porta, sem sucesso. — Nós temos que ir!
— O jeito será deixá-las aí. — sugeriu, dando de ombros, indiferente com qualquer coisa que acontecesse ao seu redor.
Ele sabia que deveria estar animado com a situação e estava, até encontrar aquela silhueta conhecida, e ficava cada vez mais difícil levantar o humor, lembrando-se toda hora de e afundando-se com a possibilidade de ela estar tão perto novamente.
Os outros três não se opuseram a ideia de ir sem elas e quando o primeiro quase passava pela porta, saltitou para fora do banheiro.
— Esperem! Esperem! Eu tenho uma surpresa e preciso da opinião de vocês!
Os quatro se entreolharam. Talvez tivesse surtado de vez.
— O que foi desta vez? — perguntou.
— Prometam que não desmaiarão, se assustarão ou terão nenhuma reação que atrapalhem vocês depois, neste dia tão importante para todos, pois vão presenciar o nascimento de um novo mito e...
— É pra hoje? — impacientou-se com o discurso.
não desanimou pelo jeito rude pelo qual foi interrompida.
— Maria, , podem vir!
Assim que as duas pisaram para fora do banheiro, só foi possível ver os queixos caindo.
Era inacreditável, espantoso, surpreendente, extraordinário, incrível, inimaginável.
Faltavam palavras para descrever aquilo. Os quatro olharam boquiabertos para aquela pessoa nova que estava de frente para eles. Irreconhecível. Essa era a palavra que melhor se encaixava para , naquele momento. Era quase impossível de acreditar que aquela nerd desarrumada que só usava roupas bregas estivesse ali. Não era possível.
— Quem é essa? — Uma fagulha de ânimo acendeu em , que sorriu, indo abraçá-la.
— UAU! — ainda tentou formar uma frase, mas nada seria o suficiente para demonstrar toda a sua admiração. estava estonteante. — O que fizeram com a que eu conhecia?
Maria lhe emprestara uma roupa que trouxe de reserva, caso alguma coisa acontecesse, que consistia em uma blusa preta de musselina, um tecido leve, com pequenas caveirinhas ao redor do pescoço e do braço, com um corte que levantava seu busto e mostrava seu decote, que caiu muito bem por ter uma comissão de frente muito bem servida, mas que só andava coberta, e um short jeans cintura alta, simples, com alguns rasgados. e Maria ainda tentaram convencê-la de usar uma sapatilha, mas não largou mão do seu converse.
Pela primeira vez, havia passado uma sombra, o que fez as meninas optarem por um estilo básico, uma maquiagem para o dia, para não causar um estranhamento tão grande por parte de . Ela precisava entrar nesse mundo do rímel, esfumador e curvex aos poucos.
E, por fim, o cabelo. Que não deu tanto trabalho. tinha um cabelo bonito, mas que só andava amarrado, então, quando o soltou, fez toda a diferença no visual. Além de terem desaparecido com o óculos que usava. Ela não morreria se ficasse sem enxergar por poucas horas.
— O quê? Você não gostou? — ela perguntou receosa. Estava se sentindo bem, mas tinha medo das reações que as pessoas teriam; principalmente, vindas dos seus amigos. Ainda havia o fator , que, apenas de olhar para , não poderia esquecer. E se achassem o que pensava no começo? Que roubaria o lugar da amiga deles? — Eu disse que não era uma boa ideia!
— Ih! Para, ! — Maria se intrometeu. — Não tá vendo que eles adoraram?
Os garotos ainda ficaram paralisados por mais alguns segundos, apreciando a beleza que estava escondida em , até a produção os chamarem para subir no palco. Aquela era a hora.
— Por que você fez isso? — parou .
precisava da minha ajuda, então... Fiz o que pude. — Ela sorriu.
— Bom trabalho, amor. — Puxou-a para um abraço, finalizando com um beijo em sua bochecha.
Era a vez de ficar paralisada, com uma cara de boba, segurando sua bochecha, com medo de que aquele beijo fugisse dali.
Respirou fundo. Precisava pedir desculpas e deixar de ser boba, mas era tarde. já havia alcançado o seu grupo de amigos.



A possibilidade de ter ali, vendo-o novamente, fez se lembrar de uma das músicas que havia escrito há pouco tempo. Sentiu uma necessidade urgente de tocá-la e, assim, pediu aos colegas de banda, e eles não se opuseram.
No meio do show, puxou as primeiras notas, já se arrepiando por antecipação:

I said I'd never forget your face (Eu disse que nunca esqueceria o seu rosto)
Vaulted away inside my head (abaixado dentro de minha cabeça)
And memories never seem to fade (E lembranças nunca parecem desaparecer)
You were the best part of my life: my last regret (Você foi a melhor parte da minha vida: meu último arrependimento)


Lembrar-se do fatídico dia em que terminou com foi inevitável.
Queria que tivesse sido tudo diferente, mas não teve outra opção. Precisava fazer o que fez. Ela sairia ainda mais magoada se estivessem juntos até hoje. Não dava para entender, mas rezava para que o tempo fosse bom o bastante com ele, e ela pudesse, ao menos, voltar a ser sua amiga.

Now I've walked this line a thousand times before (Agora eu andei essa linha mil vezes antes)
It hurts too much to bear (Dói demais para suportar)
For you (por você)
I'd tear out my own heart (Eu rasgaria meu próprio coração)
And write our names together (e escreveria nossos nomes juntos)


Deixou a música levá-lo a outra dimensão, numa em que gostava menos de , ou uma em que fosse possível para ele ter feito as coisas diferentes e não tivesse sido preciso tomar aquela decisão que transformou tudo em caos.

(...)
And in the end we're turning on and off again (E no final nós voltamos e terminamos de novo)
There's a look in your eye (há um olhar em seus olhos)
And it's screaming goodbye (E está gritando adeus)
I'd hate to watch you cry (eu odiaria te ver chorar)

(...)
There's a look in your eye and its screaming goodbye (Há um olhar em seus olhos e está gritando adeus)
Now it tears me apart just to look at the sky (agora me despedaça só de olhar para o céu)
And id hate to watch you cry (e eu odiaria ver você chorar)
I'd hate to watch you cry (e eu odiaria ver você chorar)


O modo como havia largado sozinha, após a última discussão, ainda o assombrava. Não queria, mas sabia que, se olhasse para trás, não teria coragem de deixá-la. Nunca fez parte dos seus planos fazê-la chorar.

Your love is the barrel of a gun (seu amor é o cano de uma arma)
So tell me am I on the right end (Então me diga, eu estou no fim certo?)
I could be nothing but a memory to you (Eu poderia ser nada além de uma lembrança para você)
Don't let this memory fade away (Não deixe esta lembrança desaparecer)


esperava não estar pedindo muito.


O show foi excelente, e o público rapidamente entrou no clima da banda. Até quem não os conhecia, cantava junto. Os quatro saíram, ainda muito animados, do palco, contagiados com a energia da plateia.
— WOW! Que show foi esse? — Maria abraçou um molhado de suor, esquecendo por um segundo a péssima atitude que ele teve com ela mais cedo. — Vocês nunca tocaram desse jeito!
— Você acha que eles gostaram? — apontou para o público.
— Tenho certeza!
Sem muito tempo para continuarem se abraçando, os meninos voltaram para ajudar os técnicos a desmontarem seus equipamentos.
— Então vocês são as groupies do All Time Low?! — O loiro agarrou Maria por trás.
O que a fez lhe dar alguns tapas, tentando afastá-lo.
— Só a e a Maria. — sorriu.
— Você não? — Caleb perguntou curioso.
— É complicado.
Caleb ficou sem entender, mas levantou os ombros, indicando que não entendia, mas estava tudo bem.
Passado alguns poucos minutos, os meninos retornaram.
— Vamos indo nessa? — se intrometeu no meio de e .
— Graças a Deus. — Maria empurrou e se agarrou a , cochichando: — Hoje, nós somos um só. Apenas não discuta.
— É seu namorado, gata? — O loiro murchou.
— Na.. — Maria deu um beliscão em quando ele abriu a boca para negar, fazendo-o se contorcer em dor.
Caleb apresentou-se e apresentou o loiro ao grupo, pedindo para que ficassem e assistissem o show da sua banda, comemorando todos juntos depois.
viu piscar para Maria.
— Claro, vamos ficar.
— Como assim ‘vamos ficar’? E que piscadela foi aquela para a Maria, ? — a puxou com uma cara muita séria.
O que estava aprontando agora?
, não se preocupe. Você vai saber logo, logo. — Ela retribuiu o beijo na bochecha de mais cedo, animada com a reaproximação com o namorado.
O grupo seguiu para o camarim, para se arrumarem, e logo voltariam para curtir o show da banda.

— Nossa! Adorei o show de vocês! — disse animada ao Caleb. — Muito bom!
Caleb e o loiro se juntaram ao grupo no backstage e desceram para o festival. Estavam todos ali, curtindo como se não houvesse amanhã.
— Que bom que você gostou.
havia se aproximado de Caleb para colocar seu plano em prática. Tomou o desejo de em ficar com o bonitinho como meta pessoal, e tudo estava caminhando muito bem.
— Quem gostou também foi aquela ali. — Apontou para . — Mas ela é muito tímida para dizer qualquer coisa a você. — Sorriu, deixando um Caleb um pouco vermelho de vergonha.
— Você acha?
Acenou afirmativamente com a cabeça.
— Ela está linda. Quase não a reconheci mais cedo. O que vocês fizeram com ela?
resolveu se intrometer na conversa:
— O que está se passando por aqui? — Abraçou , fazendo-a relaxar em seus braços.
— Eu estou aqui contando ao Caleb que a , aquela moça bonita logo ali, mais à frente, adorou o show dele — disse e cochichou no seu ouvido: — Estou tentando fazê-lo ficar com ela.
a abraçou com mais força e lhe deu um cheiro no pescoço, feliz ao entender toda a situação.
— Ah, sim. É verdade, é verdade. — Ele chamou a amiga ao longe para se juntar à conversa. — , qual foi aquela música que você disse que gostou mesmo?
E os quatro se envolveram num momento descontraído.

Bem pertinho deles, Maria insistia em se manter ao lado de , para fugir do loiro aguado, porém estava um pouco difícil, pois e entraram numa conversa prolongada com ele.
, eu precisava que você se afastasse ele, não o chamasse para conversar! — reclamou baixinho para que ninguém mais ouvisse.
— Eu te ajudei! Só que foi do meu jeito. Ele não tá mais te importunando, não é?
Maria refletiu um pouco. É, tinha razão. Pelo menos, agora, o loiro conversava como um ser humano normal.
— Vou pegar umas cervejas! Quem quer? — viu outras 2 mãos levantando e seguiu o rumo para o bar.
— Eu vou ajudá-lo. — Maria sorriu, já dando as costas para o grupo, mas foi impedida por .
— Não, Maria. Eu vou. — fez cara de desculpa. — Eu realmente preciso falar uma coisa com o .
Maria bateu o pé, sem acreditar que havia a deixado sozinha ali, com aquele pote de água oxigenada ambulante.
O loiro sorriu ao vê-la com uma cara emburrada.
— Não se preocupe, eu me manterei comportado aqui. — Fez posição de sentido. — Não te importunarei mais.
Maria ficou boquiaberta. Onde ele aprendera a ser tão educado assim?
— Aconteceu alguma coisa? — Não conseguiu evitar a pergunta.
Ele riu.
— Não. Você tem amigos bem legais. Parei de fingir que sou um babaca, prometo.
— Muito obrigada. — Ela sorriu de volta, aliviada pelas palavras.
— Então, como uma trégua, comecemos do zero, ok? Prazer, meu nome é Kyle. — Estendeu sua mão, cumprimentando-a.
Maria gostou da ideia e retribuiu o cumprimento.

e se afastaram um pouco da turma, tentando se harmonizar novamente.
— Então, parece que a conquistou todo mundo mesmo, hein? — comentou.
— Ela é uma pessoa bem legal, diferente das que eu conheço.
— Ixi! Parece que alguém aqui está encantada! Devo eu começar a ter ciúme dela também?
deu um empurrãozinho de brincadeira, rindo dele.
não faz muito bem o meu tipo, sabe? Gosto mais de pessoas altas, de olhos miúdos, que têm o sorriso mais cativante do mundo, com cabelo meio rebelde e que toque um instrumento... De preferência, um baixista.
— Muito exigente você. Deve ser bem difícil encontrar um desses, hoje em dia.
— É verdade. Até hoje, só encontrei um.
— Quem é o miserável? — Ele franziu o cenho, fingindo raiva, e abraçou .
— Desculpe-me?! — ela pediu carinhosamente, fazendo carinho nas bochechas dele.
— Tudo bem. Eu não deveria ter forçado a barra também.
Os dois sorriram para o outro e se abraçaram com toda saudade do mundo.

— Olha, , se você veio comigo para saber o que está acontecendo, vou logo avisando que, desta boca, não vai sair nada! — cortou o amigo, antes de ele pensar em se expressar. — Basta a invasão de privacidade que eu sofri!
— Tudo bem, . Tudo bem mesmo. Eu entendi a e te entendo também. Ela fez o que achava melhor, e você está apenas tentando protegê-la. E eu não posso exigir nada mais porque quem fez a estupidez de abandoná-la fui eu, mas queria que você soubesse que ainda tenho um carinho enorme por ela. Não sei o que fazer, de verdade.
olhou relutante para .
— Que bagunça, hein?!
— Deixe-me aumentar isso ainda mais? — passou a mão pelo cabelo; parecia incerto do que faria.
— Fala, cara — disse, pegando as cerveja dos outros. — Parece que viu um fantasma.
— Mais ou menos. Tenho certeza que vi a hoje.
arregalou os olhos, quase se engasgando com aquela frase do amigo. não poderia estar ali.
— Tá louco, ? Ela está no Canadá.
— É sério. Eu a vi mais cedo. Nunca iria confundi-la. — pegou nos ombros de para fazê-lo acreditar em suas palavras. Não havia como provar, então precisava fazer com que entendesse aquela verdade. — Era a . Acho que ela voltou para a gente.
O outro ficou fitando-o, sem saber como reagir.



abriu de vez a porta da van, fazendo o sol invadir, sem pedir licença, atingindo o rosto de e, com isso, fazendo-o se afogar num mar de cabelo quando tentou limpar os olhos para acordar, sentindo o peso de uma pessoa em cima dele.
Aquele não era seu cabelo, não tinha condições de ser. Ele podia estar um pouco bêbado ainda, mas não tinha feito um implante da noite para o dia, fora que estava sentindo um peso anormal em cima de si.
Seu coração começou a acelerar, pois não se lembrava de nenhuma coisa sequer de ontem à noite, mas, então, começou a gargalhar alto.
— MEU DEUS DO CÉU! O QUE VOCÊS ESTÃO FAZENDO AQUI?
Os dois sonolentos abriram com dificuldade os olhos, encarando-se no meio daquele tumulto. Quando conseguiram que a visão focasse, por conta da dor de cabeça da ressaca e de terem sido recém-acordados, levantaram-se num pulo.
?! — ela gritou surpreendentemente assustada.
— MARIA?! — ele retribuiu igualmente incrédulo.
Os dois começaram a gritar desesperados quando se olharam e viram que só estavam com roupas íntimas, enquanto ainda ria descontroladamente.
— Quem diria que e Maria... Hein? E eu desconfiando que você estivesse a fim da ... Quão inocente sou?! — Ria descontroladamente com a cena.
— CALA A BOCA, ! — os outros dois o repreenderam em uníssono e Maria aproveitou para jogar um de seus sapatos na cara de , que conseguiu desviar.
O casal se entreolhou novamente.
— A gente... — sussurrou boquiaberto.
— Não, . — Maria negava descrente, balançando a cabeça nervosamente enquanto ia colocando sua saia com toda a pressa do mundo. — Não faríamos isso. Faríamos?
negou, sem certeza e sem fazer ideia do que pensar naquele momento.
— Uau, gata! Belo sutiã! — Kyle colocou a cabeça para dentro da van, tentando entender o porquê ria tanto.
— AI, JESUS! — Foi a vez de se assustar com a cena.
Sem esperar mais nenhuma reação, Maria bateu a porta na cara de todos os outros que estavam lá fora, tentando entender a cena.
— A gente faz esse casal tão tenebroso? Mesmo? — riu, apesar de sentir a cabeça latejando de dor, passando a blusa de Maria, que ainda sustentava uma expressão inacreditável.

Pouco tempo depois, seguiram viagem de volta para casa, cada um sustentando um sentimento peculiar sobre tudo o que acontecera na noite anterior:
estava com a cara mais fechada do mundo;
ainda sonhava com a noite anterior, com o momento em que havia ficado com Caleb;
e permanecia com aquela energia tranquila e apaixonada de início de namoro;
Maria ainda tentava se lembrar do que aconteceu;
ia igualmente cheio de dúvidas, incomodado com a dor de cabeça da ressaca e começando a se questionar se Maria tinha odiado tanto a possibilidade de eles estarem juntos;
dirigia o olho a todos do banco de trás, escondendo o riso quando olhava para os amigos. Mal podia acreditar na noite anterior!
— Para este carro! — exigiu mal-humorado, dando um susto em todos os passageiros e, inclusive, no motorista.
prontamente estacionou no acostamento.
— O que foi, cara? — perguntou preocupado.
saiu de trás e abriu a porta do carona.
— Você vai lá para trás agora. — Puxou , que estava no banco da frente, para fora do carro, colocando-se no lugar dele.
— Calma, moço! — estava devagar e conseguiu se opor. — Que diabo aconteceu de tão ruim?
Parecia que havia dito as palavras mágicas para que , e literalmente chorassem de rir.
— Vão se foder. Você, , entra logo nessa bagaça, e você, , adianta o passo! — reclamou autoritário.
Todos se acomodaram nos seus novos e antigos lugares.
— Alguém pode me dizer o que aconteceu ontem? — Maria pediu encarecida, encostando-se cada vez mais à janela ao ver que sentara ao seu lado. Não que ficar com fosse uma péssima situação, mas não estava se sentindo confortável com a possibilidade de ter ficado com seu amigo e não passar nenhum flash em sua memória. A-MI-GO. Nunca o vira como nada, além disso, e aquela situação tinha realmente a apavorado. — Eu não consigo lembrar nada!
— Ai, amiga... — limpou as lágrimas, de tanto que riu. — Como assim você se esqueceu da sua noite de amor com o lindo do ?
Maria o encarou aterrorizada.
— A gente não fizemos nada! — ele esclareceu, tentando acalmá-la.
— Tem certeza? — perguntou maroto, colocando pilha. — Porque eu vi hoje de manhã, e esse “nada” parecia bastante coisa.
, você é um poço de mentira. Não acredito em nada do que você diz. — Maria fez careta para o retrovisor, garantindo que o motorista visse.
explodiu novamente numa gargalhada que preencheu o carro por inteiro.
— O QUE EU FIZ? — Maria deixou o desespero tomar conta.
A amiga não daria aquela risada se algo não tivesse acontecido.
— E por que o tá com essa raiva toda? — perguntou curioso, ouvindo o amigo bufar no banco da frente.
— Já que vocês estão pedindo com tanta educação, vou começar do início, ok? — endireitou-se no banco para começar a história.

[FLASHBACK ON]

Tudo começou de verdade quando Caleb e Kyle convidaram para saírem dali, pois estava programado uma after party na casa do tio do Kyle. Ali foi que as coisas começaram a desandar, para o bem ou para o mal, vocês decidem.
— Você vai sozinha com eles, ? — perguntou, tentando parecer tranquilo com aquilo.

— Mas era perigoso para ela. Vocês se responsabilizam pela garota e não ligam de ela sair com um estranho!
— Ei! Eu tô bem aqui atrás, tá, ? E eu sei muito bem cuidar de mim, pai!


— Não, a Maria vai também! — ela respondeu, apontando para a mais nova amiga, que já estava bem animadinha, né, dona?
— E vocês? Por que não vão com a gente? — Maria perguntou.
— A gente ainda tem o que fazer aqui. — respondeu por todos nós, sem esperar nenhuma reação. E como ele estava naquele clima de pura amizade e descontração, a gente resolveu não contrariar.
Vai que é doença!
Vocês seguiram, e nós continuamos por lá, passeando pelo festival. Passou só uns minutos de normalidade, até que meu lindo observou alguém agindo de forma bem peculiar.
Peculiar até para a própria pessoa.
— Acho que o pirou de vez. — estranhou o fato de olhar de um lado para outro como se tivesse à procura de alguém.
— Eu tenho certeza disso. — virou o copo com cerveja. — E ele nem está bebendo.

— Pois é! Bastante atenção neste ponto: ELE NÃO ESTAVA BEBENDO! E começou a ver várias coisas.
— Ei! Não foram várias coisas! Foi uma só! E eu ainda posso estar certo! Loucos são vocês, que não querem enxergar a verdade!


— O que você fez com ele, ? — perguntou preocupado.
— Nada. Ele quem veio com uma história maluca... — Deu de ombros.
— Eu só peço que vocês deem uma voltinha comigo. — interrompeu. — Só uma.
— E para que? — eu perguntei curiosa, tentando entender que tipo de droga ilícita esse menino estava usando.
— Para nada. — se meteu, cansado daquela conversa. — , quieta essa bunda magrela aí! Você exagerou no chazinho de pêssego e, agora, quer que a gente faça os doidos, atrás de alguém que não está aqui. Eu já disse: E-LA NÃO ES-TÁ A-QUI.
segurou as orelhas de para repetir cada sílaba daquela frase.
Vocês estavam inspirados ontem.
— E como você pode ter tanta certeza?
— Ai, meu Deus! Eu preciso beber! — perdeu a paciência e roubou o copo com cerveja da mão de , dando uma golada. — Esse ser estúpido tem toda convicção do mundo que apareceu hoje aqui.
Todos nós arregalamos os olhos. Era bem louco pensar nisso, se você for parar um pouco, mas não tinha como. podia estar querendo um espaço, mas ela não era de mentir. E, se ela estivesse lá, o coçaria esse nariz e entregaria toda a história, porque, se tem alguém aqui que sabe o que nossa amiga anda aprontando, esse alguém é você.

— Nem me olhe com essa cara de quem comeu e não gostou.

Só para afastar essa possibilidade improvável, decidimos dar uma voltinha para cansar nossa criancinha mimada que larga a mulher da sua vida e fica vendo-a em todos os lugares, cabeção!
Mas não encontramos nada. E já que não havia mais o que fazer por ali…
— Por que não vamos ver a Maria e a ? — sugeriu, vendo dar de ombros, derrotado, e levantar a mão para um righ-five.
A partir daí, eu duvido que ele lembre alguma coisa, pois virava os copos de quem estava na frente numa velocidade recorde, sem nem perguntar o que a pessoa estava tomando.

—Você é quase a voz da razão, . Eu estava para game, ué. Tenho flashes bacanas do que aconteceu a partir daí. Se a dor de cabeça ajudasse, eu me lembraria de muito mais.

A gente tentou falar com uma das duas pelo celular, mas ninguém nos respondeu.
— Bom, se não temos uma ideia melhor, por que não passamos a alguma loja de conveniência e compramos algumas bebidas, e destruímos um quarto de hotel como verdadeiros rockstars que nós somos? — saiu com essa ideia de não sei onde.
— Eu topo! — levantou a mão, animado, e nem pensou uma vez.
— Parece que seu namorado gostou de apanhar, hein. — disse a mim, fazendo graça ao se lembrar da velhinha violenta. — Tá aí uma dica para o próximo aniversário de namoro.
Idiota, eu sei. Como se a gente precisasse esperar tanto tempo para apanhar.
Sem dar bola àquele comentário boboca do , a gente encontramos o nosso lugar com as duas coisas que gostamos mais: vinho barato e tequila!

— Agora, tá explicado o porquê eu tô com essa ressaca infernal.


— Na hora, , acho que dava para ver o brilho nos nossos olhos de cada com aquele achado. correu para o hotel, pensando em, finalmente, dar um gole em alguma coisa que disfarçasse sua estranheza.

Agora é que as coisas ficam bem interessantes!
A gente conseguiu ouvir a batida da música ecoando bem forte da entrada do hotel.
— A velhinha é louca e animada, hein! — comentou. — De que quarto será que tá vindo? Também quero.
Nós descaradamente fomos seguindo a música do New Found Glory, que tocava bem alto, e, à medida que chegávamos mais perto, sentíamos as paredes pulsarem. Aposto que, se fossem um pouco mais finas, cairiam.
Descobrimos que, no final do corredor em que estávamos, havia uma escada para um outro andar. E mais outro. E mais outro, até que abrimos a porta e... TCHARAM!
Nosso queixo bateu no chão, pois, basicamente, os meninos todos do FTSK estavam lá, junto com uma super risonha e uma Maria atrevida, entre outros desconhecidos qualquer.
No topo da cadeia de estranheza desse fim de semana, conseguimos colocar a cereja no bolo.
Era um espaço bem bacana, né? Com aquele jardim bem cuidado e uma área coberta.
Mas a pergunta que não queria calar era: QUE DIABO ESTAVAM FAZENDO TODOS ALI?
— Eu sei! Eu também fiquei com essa cara quando descobri que a casa do tio do Kyle era o hotel meia boca que a gente estava! — Maria disse divertida e olhou para a mão de . — TEQUILA! — gritou, virando o conteúdo da garrafa.
— Ei! Não tem nada de meia boca aqui, docinho! — Kyle fingiu que estava chateado, mas, depois, mandou a gente ficarmos à vontade. — Podem fazer o barulho que quiserem. Eu quem mando aqui!
— Ô, seu bocó! — Não resisti ao ver a cara lava que ele fazia. Quer dizer, ele tinha um hotel inteiro e ficou enchendo nosso saco quando a gente tentávamos encontrar um lugar ao sol neste bendito lugar?! Brincadeira. — Por que diabo você estava procurando quartos nos outros hotéis se tinha este aqui?
— Só para perturbar a Maria aqui. — Ele riu, abraçando Maria, e eu fiquei vermelha de raiva. — Brincadeira. Calma, ! Eu trabalho numa agência de viagens e precisava de quartos naqueles hotéis. Meu chefe foi muito específico.
— Não sei se acredito em você — comentei desconfiada.
— Ah, que é isso?! — Ele tocou minha bochecha. — Aqui é beeem melhor! Muito mais divertido!
— É verdade, ó, ! — Maria correu para uma das estruturas que suportavam a cobertura, que era uma barra de ferro pouco grossa. — Dá até para fazer pole dance!
E, nisso, todo mundo ficou boquiaberto, porque, com toda a elegância, Maria mostrou que, apesar de bem alta por conta da bebida, tinha habilidades escondidas na manga. Enroscou os pés na barra e foi subindo até onde conseguiu. Os movimentos eram tão lindos e sensuais que, por breves momentos, ninguém conseguia se mexer, apenas observar, enquanto Maria se revirava graciosamente, mostrando o porquê de ser a capitã das líderes de torcida.
Inclusive, quero umas aulinhas, sabe comé.

— Pode aprender, amor, eu vou gostar.
— É pensando em você mesmo que eu falei, lindo.
—Será que dá para voltar à história agora?
— Vixe! tá precisando de alguém que dance pole para ele. , você também não quer umas aulas?
— Hã? Eu? O quê? Ai, gente! Tô aqui viajando. Não chamem meu nome em vão.
— Vai se foder, .
— Tenha modos, . Tá, então.


Por breves momentos, a gente nos distraímos com os movimentos hipnotizantes de Maria, até que, bem em câmera lenta, a gente a vimos se estatelar no chão, quase colocando aquele prédio inteiro a baixo.

— Juro que achei que você tinha quebrado alguma coisa.

Todos correram para ajudar.
— Pelo menos, sabemos que, se nada der certo, como stripper, você não leva nenhum jeito para ser. — ria mais que ajudava.
deu um tapa na cabeça de , mandando-o se comportar.

— Agora, tenho explicação para essa dor na costela. Achei que era por causa da dormida de mau jeito.
— Pensando bem, amor, é melhor você não aprender essa coisa de pole, não. Muito perigoso.
— Que nada, baby. Será bem legal. Eu tomo cuidado. Mas, enfim, Maria começou a chorar, toda triste, pelo que havia dito, aparentemente.


— Você não vai com a minha cara? — Maria perguntou com o rosto já vermelho. — O que foi que eu te fiz, hein, ?
Ele olhava, mais desentendido que tudo, não fazendo a menor ideia do porquê Maria ter aquele pequeno surto.
Maria correu para o outro lado e, claro, como sempre, não haveria de ser diferente desta vez, né, pessoal? foi atrás dela.

Eu só estava sendo o amigo que sou. Vocês falam como se isso fosse ruim!
— Achei que tivéssemos passado da fase da desconfiança.
— Já passamos, Maria, até porque você tá aí, de romance com o !
— Cuidado, ! Daqui a pouco, você é o próximo da lista. Maria, você nem coloque meu nesse meio. Tô de olho!
!
— Ô! Sei lá! Depois do , né? Tenho que cuidar do que é meu. Mas parem de me interromper, por favor! Estamos chegando a melhor parte.


Então Maria e estavam sei lá onde, encontrou um povo jogando beerpong e quis provar que era o campeão dos campeões, vimos e Caleb sentadinhos, bem animados, perto do cooler, e correu para onde ela estava.

Ei! Não corri nada! Nós todos fomos andando juntos! Se não for contar a história direito, não conta.
— Ai, calma, estressado! Tá bem. Fomos ANDANDO, encontrá-los. Conversa vai, conversa vem, bebida só entrando...


— Acho que tive uma ideia para animar essa galera! — Caleb chamou a atenção de todos, já anunciando o que viria a seguir. — Vamos de Strip Poker!
— Ôpa! Alguém disse Strip? — Maria apareceu do nada.
— Não, ninguém disse nada. — colocou-se na frente dela. Alguém ainda estava em dúvida que Maria já tinha passado da conta? — Você fica bem quietinha aí.
também correu quando ouviu a palavra “strip”.
— Quem diria... Maria obedecendo ?! — provocou. — Você não era assim.
— É, né? — ela respondeu, parecendo que a ficha tinha caído, e sentou-se junto com a gente, ignorando os pedidos de , que continuaram.
— Vocês acordarão muito arrependidos amanhã. — fechou a cara, na sua melhor “bitch face”. — Se alguém dizer que tá com ressaca moral, eu vou matar de peteleco. Já avisando!
— CARAMBA, ! — gritou, puxou e saiu, reclamando, para não sei onde. — Você é um bebê chorão, viu? Mas eu sei exatamente como aquietar essa bunda foguenta.
A gente viu os dois reclamando um com o outro ao longe, mas não prestamos muita atenção, já que o que estava para acontecer era muito mais importante.
— Bom, agora que tudo se acalmou, podemos começar? — Caleb perguntou.
Maria deu pulinhos de alegria e sentou-se no chão, junto com e .

— Meu Deus! Vocês me deixaram jogar Strip Poker!
— Calma que piora, Maria.
— Como assim?
— Bem assim: sentaram você, , Caleb e para brincar. Óbvio que eu e não cairíamos nessa armadilha do tinhoso, bem quando acabamos de voltar. E, no início, as coisas não iam nada bem para você e . Ia muito pior para você, na verdade. Por isso, aconselho a senhora aprender a jogar poker com certa urgência, já imaginando as besteiras que você fará na faculdade.
Por umas boas rodadas, sempre quem perdia era uma das duas. Eu estava ficando com pena.


— Tô curtindo. — Caleb quase babou, enquanto Maria tirava a blusa.
— Hey! — correu de volta de onde quer que estivesse com , parecendo que repreenderia a todos por estarem observando Maria daquele jeito. — Por que começaram sem mim?
Mas estávamos falando de , né, pessoas? Ele não faria isso. Eu ainda tinha algumas esperanças depositadas em , no entanto, logo depois, ele voltou com um sorriso de orelha a orelha, parecendo estar em outra dimensão.
— Você não vai parar isso? — perguntei a ele, apontando para Maria, que ainda tirava a blusa de forma devagar e sexy.
— Parar o que? — foi o que ele me respondeu, rindo, com um olhar bem distante, de quem tinha tomado o chazinho da Alice.

— Aí vimos tirar todas as suas roupas, ficando só com a cueca e explicando que precisava entrar no jogo de forma justa. Como se a gente não soubesse que ele adora ficar sem roupa em público.
— Não tenho culpa se sou extremamente sexy!
— Sério! Você precisa parar de acreditar nessas meninas que se dizem suas fãs. Elas fazem um mal retado, mentindo para você assim.


— Alguém está por um triz aqui. — comentou misterioso, mostrando um flush na mesa.
— Ainda bem que não sou eu! — sorriu vitorioso, mostrando um royal flush.
— Sortudos. — mostrou uma trinca.
, por que você me odeia? — Maria perguntou, olhando para as cartas.
— Eu vou fazer você tirar sua saia? — ficou confuso.
— Não, não é isso. Você sabe. — Ela balançou os braços, abrindo as mãos no ar, como se fosse uma coisa óbvia.
— Não, não sei. — Ele a imitou.
Enquanto isso, a gente assistíamos, sem entender onde aquilo pararia.
— Ah, , por favor. Não é a saia. Você sabe que eu vou perder, mesmo. — Maria levantou-se, jogando as cartas na mesa. E, bem, ela não iria perder, tinha as cartas para ganhar o jogo muito facilmente. Pena que o timming foi terrível. Daí, do nada, você falou: — Tá faltando um show nesta festa!
E, antes que alguém pudesse te parar, você estava subindo em cima da mesa, fazendo todos os caras daquela festa babar em cima.

— Miga, se eu posso dizer uma coisa, é que aquelas vezes em que eu te peguei dançando Britney de frente para o espelho deram resultado, porque...

Enfim, apesar de eu e parecermos os únicos com algum senso e pedir encarecidamente para você sair de lá, você continuou desabotoando a saia e mostrando sua calcinha fofinha de ursinho.
! — eu gritei. — Faça alguma coisa!
Só aí nosso queridíssimo amigo pareceu sair da terra dos pôneis encantados e ficou tentando te puxar para baixo.
percebeu que aquilo não adiantaria porque você estava muito focada em ficar nua e, para acabar de vez, subiu em cima da mesa, só com cueca, e te colocou nos ombros, enquanto você estapeava-o pelas costas, gritando aos quatro ventos que ele te odiava.
— Maria! Tenha respeito! — ele ia reclamando com você numa língua embolada. — Que coisa feia! Até parece que você precisa fazer isso...

— Foi a cena mais hilária da minha vida. Por favor, façam isso mais vezes.

Depois disso, só vocês sabem o que aconteceu e como chegaram à van.

— Minha nossa senhora da bad reputation!
— É, Maria, não foi fácil assistir, mas não para por aí. Quando tudo parecia ter se acalmado, nos viramos a tempo de ver quem se beijando? Quem?
E !
— Sim, nós todos ficamos com essa cara de assustados que vocês estão fazendo.


[Flashback OFF]

— Não, eu não fiquei com o . — afirmou indignada. — Eu fiquei com o Caleb!
— Você me empresta sua carteira, ? — pediu.
— Aqui! — disse, entregando-lhe. — Para que você quer?
Sem tirar os olhos da estrada, pegou a carteira de identidade de e passou para trás.
— Pode verificar aí, ó. Diz e não Caleb.
Mais vermelha do que quando a pessoa dorme no sol, delicadamente devolveu o documento ao amigo.
— Assim que você abriu os olhos, a primeira coisa que você fez foi dizer “Ai, Caleb, como você beija bem!”. — afinou ainda mais a voz, tentando imitar uma garota apaixonada. — E, depois, vomitou nos pés dele.
— É, cara, ontem não era seu dia. — deu dois tapinhas por trás do banco de .
Todos gargalharam, menos e , que se encolheram em seus bancos, mortos de vergonha com a situação. não acreditava que havia feito aquilo, pois conseguia jurar que era Caleb a quem havia beijado. Como podia ter feito aquilo? Nunca mais queria ver a cara daquele garoto na sua frente! Já estava planejando mil maneiras de se afastar. Não havia nada que pudesse diminuir aquela coisa que chamavam de constrangimento.
— Cala a boca, pau mandado! — cruzou os braços, respondendo grosseiramente a .
— Ok, gente. No hard feelings! — interveio. — O que importa é que fomos bem, voltamos ótimos e a vida vai passando firme, forte e feliz.
— Você só tá se esquecendo de uma coisinha, Sr. ... — Maria levantou a sobrancelha. — De contar o que foi que o disse de tão importante que te deixou assim... Estabanado.
— Amanhã vocês descobrirão.



Apesar da forma defensiva com que Maria estava tratando , ele não se deixou intimidar pelo clima e não pensou duas vezes quando a mãe de Maria o convidou para jantar, depois que os deixou na casa dela, já que moravam perto um do outro.
Além do mais, pizza está acima de qualquer intriga que poderia acontecer.
— Você não está com saudade da sua casa, não? — Maria perguntou, roubando o controle da mão do amigo, que já se encontrava esparramado no sofá. — Você sabe que esta é minha casa, né?
— Agora, eu estou muito bem alerta sobre onde estou e o que estou fazendo. — Riu, lembrando-se de como acordaram naquela manhã.
Eles se entreolharam com um misto de desconfiança e vergonha, deixando um silêncio constrangedor crescer.
— Hum... Você realmente não se lembra de nada do que aconteceu? — Maria o quebrou, tentando evitar que seu embaraço tomasse conta.
Nem podia acreditar que estava se sentindo daquela maneira logo com . Ele era um dos seus melhores amigos. Que diabo de ruim aconteceria?
— Nenhum flash — ele respondeu com bastante convicção.
Maria permanecia tensa com o fato de não lembrar nada da noite anterior. Tinha feito uma loucura na frente de todos e estava em dúvida se era possível não ter feito uma insensatez sozinha com também.
Eles se calaram por mais alguns segundos, antes de retomar a conversa:
— Maria, larga essa cara. Na-da aconteceu! — explicou mais uma vez, tentando trazer a menina de volta à Terra. — Seria tão ruim assim?
Ele a fez rir com a graça.
— Não, bestão! Não é isso... — ela respondeu de forma divertida e tentou explicar: — Não sei o que é. É essa sensação de amnesia que é horrível, além da ressaca moral... Você não se lembra de eu ter te falado algo?
— Se a não tivesse contado o que aconteceu, eu, possivelmente, nem acreditaria no que você fez. Tirar a roupa em público é muito além de qualquer coisa que você teria feito. Ainda bem que você não tem namorado, porque, nossa, se fosse minha namorada, seria ex. — Ele riu, mas estava falando sério. — Mas tinha alguma coisa para falar?
Ela respirou fundo, soltando de vez o ar. No fundo, preferia que tivesse dito tudo enquanto estava bêbada, pois seria mais fácil; pelo menos, já saberia o que esperar dos amigos quando contasse toda a verdade. Era muito ruim esconder alguma coisa. Deixava-a pesada, ansiosa e preocupada.
— Na verdade, tinha, sim. — Ajeitou-se no sofá, ficando de frente para o amigo. — A gente nunca conversou sobre essa história toda com a porque parece que você já escolheu seu lado.
— Sinceramente? — ele perguntou retoricamente, vendo Maria assentir. — Eu não tenho nada a ver com isso. A precisava tomar essa decisão, e eu só a apoiei. E acredito em você, Maria. Confio, com todo o meu coração, na pessoa boa que você é. Ainda não consigo acreditar é no , porque, obviamente, alguma coisa aconteceu, e pode não ter sido com você, mas, ainda assim, sabe o que é.
— Só quero que você tenha toda a certeza do mundo de que eu não faria nada para magoar a ou qualquer um de vocês. Eu sinto muita falta do que nós éramos. levou uma parte importante de nós como grupo. — Maria abaixou a cabeça, sentindo-se tristonha. — Só não estava bem com você agindo como se eu tivesse algum tipo de envolvimento nessa história.
— Foi por isso que você gritou, perguntando se eu te odiava? — sorriu com o canto da boca. Maria só fez uma careta, querendo mostrar que tinha sido estúpida com sua atitude. — Meu Deus! Que boboca! Se eu soubesse que era isso que você achava, não deixaria você sair, tirando a roupa, assim, para todo mundo. Apesar de que você fez a alegria de muito marmanjo ontem.
— Idiota! — Maria jogou uma almofada na cara de , que gargalhou alto com a falta de mira da amiga.
— Deixa disso e vem cá.
Eles se abraçaram, sorridentes e bem mais leves, depois daquela conversa. envolveu Maria com cada parte do seu corpo, enquanto ela apoiou sua cabeça no ombro dele, fazendo-a sentir seu perfume, e enquanto ele tinha leve arrepios ao sentir o ar saindo das narinas dela.
Maria deu um beijo no pescoço de , que fechou os olhos imediatamente, apenas querendo sentir aquela sensação exclusiva invadi-lo. Beijou a bochecha dela em retribuição, quase fazendo suas bocas se encostarem, alertando os corpos sobre o desejo repentino.
No exato segundo, a mãe de Maria gritou, na cozinha, avisando que o jantar estava na mesa.
Os dois se levantaram, no susto.
— Que bom! Achei que sua mãe estivesse tentando me matar de fome. — brincou e os dois foram à cozinha, ignorando o que acabara de suceder.

não sabia como chegar tranquilamente e sentar à mesa dos amigos, fingindo que não havia feito nada demais no fim de semana, por isso teve a ideia de esperar na porta da sala de para ter algum apoio moral e saber o que devia fazer em seguida.
Quando o sinal bateu, tudo o que viu foi sair correndo da sua sala de aula e invadir a sala de , parecendo extremamente ansioso e desesperado.
Mesmo com dificuldade de entrar também na sala, devido à quantidade de alunos querendo aproveitar sua hora do “banho de sol”, ainda conseguiu se esgueirar, dando de cara com um , que parecia procurar alguém na frente da sala.
— Tá tudo bem? — Maria perguntou, caminhando em direção a ele, seguida por .
Ninguém conseguiu compreender o que fazia; talvez a bebida do fim de semana tenha batido apenas agora.
— Nada novo? Nada diferente hoje? — Ele fazia muitos gestos, deixando todos ainda mais confusos.
As meninas negaram. , no mesmo segundo, suspirou fundo e saiu em direção ao pátio.
— Não acredito que você voltou a usar essas roupas, ! — brigou ao ver o estado em que a garota se encontrava. — Já marcou seu oftalmologista? Precisa largar o óculos!
— Pelo menos, ela colocou uma maquiagem. — Maria comentou como se a mais nova nem estivesse por ali.
— Concentra, pessoal. — estralou os dedos, trazendo as duas líderes à realidade. — Meu problema é maior que minhas roupas.
— Duvido!
! — a repreendeu. — Eu tô falando do .
— O que tem ele? — Maria perguntou como se nada demais tivesse ocorrido.
— É sério que vocês não acham nenhum pouco estranho o que aconteceu? — disse, cochichando, como se tivesse cometido o pior crime do mundo.
— Ai, para. É besteira. Ele nem deve lembrar mais disso.
queria acreditar nas palavras de Maria, mas só o fato de ela ter dito como se fosse um acontecimento insignificante a deixava nervosa; ainda mais ao lembrar o quanto ficou irritado no outro dia.
— O que eu faço? — perguntou desesperada.
— Respira fundo e vamos nessa. — a pegou pelo braço de forma carinhosa, apesar de rolar os olhos.
Estava com muita pressa de ver seu namorado, para aguentar mais um minuto de ataques sem sentido.
Apesar da falta de paciência e importância, Maria e encontraram algumas palavras de apoio e foram o caminho todo tentando acalmá-la, até avistarem os quatro garotos na mesa de sempre.
— Não quero ir! — choramingou enquanto era arrastada. — Por que vocês não vão conhecer a biblioteca comigo hoje?
— Tá louca? Você acha que essa beleza aqui... — Maria apontou para si. — Pode ficar escondida? Seria um crime contra a humanidade!
— Aquieta essa periquita, menina! — beliscou , já a poucos metros da mesa.
Apesar do pequeno surto de , ele ainda mantinha o sorriso do dia anterior no rosto, o que fazia, cada vez mais, menos sentido para os outros. E, apesar da insistência dos amigos, continuava a repetir que, logo, logo, todos saberiam do que se tratava.
O intervalo passou com uma que quase não abria a boca, mas quando se levantaram para voltar à sala quando o sinal tocou, interrompeu a caminhada da menina, deixando os outros irem na frente.
— Tá tudo bem. — disse num tom mais maduro que o normal. — Não precisa ficar vermelha assim. Acontece. Era uma festa e estávamos bebendo.
— Eu não tô vermelha! — levou as mãos ao rosto, que queimava.
— Eu tô vendo!
riu, deixando com raiva de si por sua vergonha lhe causar ainda mais vergonha.

Pelos próximos dias, Maria e continuaram a ver passar curioso pelas salas do último ano, sem querer contar o que procurava. Mas era visível que, a cada dia que passava, seu sorriso diminuía mais.
Até que ele estava novamente ali, com a cara emburrada.
— O que foi que aconteceu com esse aí? — perguntou como se o amigo não pudesse escutar.
— Deve ter a ver com essa história de que alguma coisa vai acontecer... — Maria respondeu, dando de ombros.
— Não se faça de desentendido, . Você sabe muito bem por que eu tô assim.
— Porra! Mas eu já falei com a professora. A gente pode entregar o trabalho semana que vem! — também cruzou os braços.
— Você sabe que não é isso. Por mim, se exploda trabalho.
Antes que aquela discussãozinha tomasse outros rumos, interrompeu, querendo mudar de assunto:
— Abriu uma vaga no jornal. — Só depois de abrir a boca, surgiu a dúvida se deveria comentar aquilo. — Vocês viram?
— Como assim? — Maria queria explicações. Não poderia ser o que estava pensando. — Substituirão alguém?
— Eu vi no mural, hoje cedo.
— Aí, ! Se quiser, eu falo com a Lucy, do jornal, para você começar a trabalhar lá. — sugeriu.
— Você faria isso? — perguntou sorridente.
— Claro, não tem problema.
— NINGUÉM VAI ENTRAR NO JORNAL! — gritou, levantando-se, espalmando a mão na mesa e assustando de leve os amigos.
O colégio parou para ver a cena.
costumava ser uma pessoa muito simpática. Ninguém esperava vê-lo dessa maneira.
— Calma, menino. Senta aqui. — Maria o pegou pelos ombros, mas ele imediatamente a afastou.
— É A VAGA DA ! VOCÊS NÃO ESTÃO VENDO? , você precisa fazer alguma coisa! Você me disse que ela voltaria ontem ao colégio e, agora, surge essa notícia. Nós não podemos ficar aqui, enquanto ela vai embora.
— Senta aí, cara. — apontou para o banco. — Eu nunca disse nada disso.
— Disse, sim, durante a festa! Você disse que essa era a surpresa da qual estava falando nas mensagens que eu vi.
— É por isso que ele estava com essa cara de felicidade. Só podia ser isso! — apontou como se fosse óbvio.
— Ela te disse quando voltava, ? — Maria levantou-se, ficando ao lado de . — E não nos avisou?
— Ela tá bem? — também perguntou.
De repente, se viu rodeado de perguntas dos amigos, deixando-o sufocado, até se dar por vencido:
— Ok! — disse com o tom de voz mais elevado. — Podem parar agora?! Foi isso que ela me disse? Foi. já deveria ter dado as caras, mas, agora, estou tão perdido quanto vocês! O festival foi o último dia que nos falamos e, agora, por mais que eu tente entrar em contato, ela simplesmente desapareceu!
Os amigos se olharam, se perguntando em silêncio o que deveriam fazer agora.

Ninguém havia conseguido pensar em algo relevante para solucionar o “caso ”. Todas as ideias pareciam não dar em lugar nenhum, até que se deram por vencidos, deixando o sentimento de esperança ir embora de uma vez. Mesmo começava a achar que estava sendo injusta com ele por, desta vez, ter realmente desaparecido, sem deixar qualquer rastro.

O tempo foi passando e, quando menos esperavam, já era o dia da abertura do campeonato intercolegial.
Maria dificilmente conseguia esconder seu nervosismo. Havia escondido muito bem sua saída, apesar dos rumores terem invadido os corredores do colégio, mas foi tudo por água abaixo, naquela manhã, quando recebeu um buquê de crisântemos de .
O cartão que veio junto a trouxe todas aquelas sensações de ansiedade. Foi muito lindo perceber que ele se importava com o que estava fazendo.
Arrumando-se, desejou ter mais tempo no seu time de líderes de torcida. Era difícil acreditar que o dia da sua saída havia chegado e que, dali para frente, não teria mais retorno. Estava tão certa da sua decisão, mas por que ainda sentia que seu coração sairia a qualquer momento pela sua boca?
— Tô nervosa. — Maria se contorcia, de frente para o espelho do seu quarto, sendo assistida por . — Acho que vou ter um treco hoje.
— Maria tá nervosa antes de um show? — a amiga debochou. — UAU! Quem diria, hein?
— Não é qualquer apresentação, tá? — Deu língua. — É a última do colégio, e eu não sei como o resto das pessoas encararão isso.
— Você está mesmo preocupada com isso, né?
fez a amiga suspirar fundo. Não é que estivesse preocupada com o fato das pessoas falarem sobre si, mas o quão fundo elas poderiam ir, até aceitarem que simplesmente não podia mais fazer parte das líderes. Apenas não queria mais. E elas, mais que ninguém, sabiam o quão longe poderia chegar uma história que se espalhava pelos corredores de uma escola.
— Você sabe que, até hoje, as pessoas falam que eu namoro o . E ninguém ainda aceita a andando com a gente. Olha o tanto de reclamação que a gente ouviu das meninas da equipe. Aposto que não se darão por satisfeito com a minha justificativa.
— Eu acho que ninguém vai ter escolha. A vida é sua! — As palavras de saíram mais dura do que ela esperava. — Você sabe o que está fazendo.
Maria olhou confiante, mas será que sabia mesmo o que estava fazendo?
— Não é justo eu sair justo agora que nossos uniformes estão neste azul tão lindo que combina tão melhor comigo! — Brincou, antes de passar batom e saírem em direção ao colégio.

As arquibancadas estavam lotadas com adolescentes animados com o início do intercolegial, pois não significava apenas assistir aos jogos, mas ir às festas que sempre tinham na casa de um jogador ou outro. Era quando eles, finalmente, poderiam se enturmar com as pessoas “legais” que ditavam as tendências daquele lugar. Também era quando os alunos das outras escolas podiam se conhecer e aproveitar a troca de experiências, se é que você me entende.
Vez ou outra, os garotos da ATL eram quem davam as festas ou iam a uma delas só para tocar.
Estavam todos já acomodados na arquibancada, com exceção de , conversando entre eles, enquanto o tempo passava.
— Tem alguma coisa acontecendo hoje? — perguntou desconfiada ao observar as pessoas passarem, olhando-os.
— Não que eu saiba. Por quê? — devolveu a pergunta.
— O pessoal... — Ela olhou ao redor, tentando descobrir o que estava acontecendo. — Eles estão olhando para gente.
— Corro o risco de parecer arrogante, mas não estão todos sempre olhando a vida alheia?
— Não. Não é desse jeito. Eu já ando com vocês há bastante tempo, para saber disso, no entanto, eles estão diferentes. Parecem curiosos demais. Como se aguardassem alguma reação.
— Deve ser por conta do segredo da Maria. — respondeu.
— Segredo? — se intrometeu receoso. — Que segredo ela tem?
— Sério. Você precisa parar com as drogas. — deu dois tapinhas nas costas do amigo, que, em seguida, cochichou: — Esqueceu que ninguém saber que a Maria sairá hoje?
abriu a boca, suspirando um “ah!” prolongado de quem acabara de lembrar o que estava acontecendo ali. Continuaram conversando aleatoriamente, quando Blake parou no meio da fileira abaixo dos garotos e garotas e os cumprimentou:
— Estão sabendo que a festa hoje é na minha casa?
— Recebemos o memorando. — respondeu indiferente.
Não ia muito com a cara dele desde que o pegara na dispensa com na casa de Maria. Era involuntário o desprezo que sentia quando o via passar.
— Será bem divertido. Espero encontrar todos lá.
Todos deram sorrisos condescendentes. Óbvio que estariam lá! Não havia mais o que fazer, depois do jogo, a não ser para as festas, mas, antes que Blake se afastasse completamente, ainda conseguiu ouvi-lo dizer: “Mal sabe a surpresa que espera esse babaca hoje à noite”, que fez se morder de curiosidade.
Antes que pudesse comentar qualquer coisa, apareceu esbaforido ao lado deles, parando no corredor com as mãos no joelho, para recuperar o fôlego, com a cara culpada de quem havia acabado de atropelar um cachorro e fugido sem prestar socorro.
— Meu Deus, ! Você tá bem? — perguntou, preocupada com a falta de cor do garoto.
— Parece que viu um fantasma.
— Eu vi... — tentou dizer entre suspiros profundos, tentando fazer o ar chegar aos pulmões. — Eu vi...
puxou o amigo para se sentar ao seu lado. sentia o choque em seu olhar, enquanto o outro procurava as exatas palavras para dizer, mas não sabia se expressar. E, como se houvesse uma troca de mensagens telepáticas, se consertou na cadeira, arregalando os olhos e entendendo exatamente o que acontecia naquele momento: finalmente, a hora tinha chegado. O coração acelerou com o futuro incerto que o aguardava.
Simultaneamente, a banda da escola começou a música de abertura, fazendo todos levantarem animados, enquanto uma grande caixa envolta em papel branco era colocada no centro do campo.
De forma sincronizada, no momento em que a última nota da música foi tocada, o refletor iluminou a caixa, revelando na parte de dentro a silhueta de uma pessoa que usava o cabelo preso num “rabo de cavalo alto”.
Mais rápido que o cérebro pudesse passar qualquer mensagem racional, a garota rasgou o papel, revelando de forma triunfal quem era.
Vários queixos na arquibancada caíram ao ver a garota num uniforme de líder de torcida. Principalmente, , que limpou os olhos, sem acreditar que via aquela garota levar o microfone à boca e cumprimentar a todos com toda animação do mundo:
— BOA NOITE, LUTHERVILLE HIGH!
estava de volta.



estava ali, reluzente e tão bonita quanto sempre fora. Seu sorriso enorme estava de volta ao lugar que nunca deveria ter saído, assim como o brilho no olhar. Então aquele tempo, fazendo sabe-se lá o que, longe de todos, realmente trouxera mudanças visíveis. sentiu um gosto amargo em sua boca, sentindo-se culpado por ter roubado o melhor dela, mas sentiu-se feliz ao vê-la ali, finalmente, em sua frente, dando a volta por cima.
O murmúrio foi geral.
voltou a contrair a mandíbula ao ver Blake assobiar, enquanto sua turma a ovacionava, gritando palavras de elogio. Parte da arquibancada, os jogadores e as líderes de torcida também batiam palmas, comemorando a volta da garota. Não era novidade que era querida por todos.
Maria segurou o braço de , sem acreditar. De alguma forma, estava apreensiva com esse reencontro e com medo de ter perdido a melhor amiga para sempre.
— Parem com essa bagunça! — pediu, rindo e esperando alguns segundos de silêncio se formarem para continuar a falar: — Eu tenho alguns avisos importantes, antes de darmos início ao campeonato. — Alguém aproveitou a pausa para gritar “GO WILD BEAVERS!”. — Tá louco? Aqui é “GO RAVENS”! — Fez a plateia rir. Aquele seria seu tom pelo resto dos avisos: o mais divertido possível. — Primeiro, eu queria saber de vocês... Eu estou linda, não estou? Hoje, estreamos nossos novos uniformes! Não combinaram com meus olhos? — Deu uma voltinha. — Acho que, agora, sim, eu posso me juntar àquela equipe maravilhosa. Como todos sabem, não entrei antes, pois esse vermelho nunca me valorizou muito. E, por favor, é muito desperdício, né? Em segundo lugar, obrigada pelas inscrições para serem parte do jornal! Vocês querem mesmo que eu mande em vocês? A Lucy ficou louca, com tanta gente para analisar, mas, no final, só tinha uma vaga, e ela ficou com , do 1ª ano.
— O quê? — agarrou o braço do e do , que estavam ao seu lado. — Eu ouvi certo?
— Eu disse que não tinha como não te escolherem. — a abraçou de lado, enquanto os outros 3 bagunçavam seu cabelo carinhosamente, parabenizando-a pela notícia.
— Parabéns! Você já vai começar trabalhando! Quero um texto sobre o jogo de hoje, para segunda-feira! — avisou, sem saber ao certo para onde olhar, mas contando com a presença da garota. — Bom, por último, queríamos fazer uma homenagem especial a uma pessoa que não mais continuará nos representando, mas, para isso, eu chamo a treinadora Érica.
Maria sentiu o abraço apertado da equipe, mantendo-se atenta a quem segurava o microfone.
apenas mirava atenta para Érica, ignorando os olhares alheios.
A treinadora limpou a garganta, antes de começar seu discurso:
— Eu poderia fazer uma coisa simples, no entanto, não acredito que existirá uma capitã mais dedicada que você, Maria... — A arquibancada pareceu surpresa quando o nome foi citado. Ninguém esperava a saída precoce de nenhuma das participantes, menos ainda da capitã. — Que dedicou seu tempo a nós. Seu senso de liderança nos trouxe troféus e fortificou nossos laços como equipe. Hoje, nos despedimos de você, enquanto capitã, mas saiba que sempre terá seu lugar reservado, caso queira retornar. Desejamos muito sucesso nessa sua nova jornada!
Uma salva de palmas foi ouvida, enquanto Maria tentava disfarçar as lágrimas tímidas que caíram.
A treinadora a chamou para ficar no meio do campo.
Olhou para , que, ao encontrar o olhar, desviou, ignorando-a.
Maria respirou fundo, dando um abraço longo na treinadora.
— Apenas como forma de marcar este dia e demonstrar minimamente nosso agradecimento, damos a você um pequeno presente.
Com um sorriso inevitavelmente forçado, pegou um quadro embrulhado em papel de presente, que estava dentro da caixa em que havia saído, e ofereceu a Maria, que não sabia se a cumprimentava ou entraria em seu jogo e a ignoraria também. Como decisão rápida a ser tomada, apenas pegou o embrulho das mãos de , retornando ao seu lugar ao lado da treinadora. Rasgou-o emocionada, vendo uma pequena mensagem de agradecimento, junto com uma foto, assinada por todos os companheiros de equipe.
Mil lembranças passaram pela sua mente ao ler a mensagem. Não imaginaria que seria tão emocionante assim, sair do time, até porque, há pouco tempo, não pensaria nisso, de verdade, não até ter puxado conversa com uma mulher na academia que frequentava, encontrado, sem querer, seu destino e sentir que aquilo era exatamente o que queria fazer da sua vida.
Pegou o microfone da mão de Érica, que o ofereceu à garota.
— Obrigada. Eu nem sei o que dizer a vocês, pois tudo o que sinto é difícil de ser colocado em palavras. Vocês sempre estarão em meu coração, como parte importante da minha vida. Foi aqui que eu cresci, de verdade. Como pessoa, líder, amiga. E espero que o trabalho apenas continue melhorando. O nosso colégio merece. — Maria fez uma pausa breve, fechando os olhos e tentando formar as frases que falaria, sem se perder: — Eu sei que não estou saindo do colégio, mas, talvez, nunca tenha outra oportunidade de deixar claro para todos vocês que devo grande parte de quem sou aos meus amigos. Este colégio me trouxe pessoas que significam a minha vida, minhas melhores amigas, meus melhores amigos. Isso não é coisa que vá se esquecer em um, dois meses, é para marcar para sempre. Sem eles entendendo quem sou, talvez eu não tivesse chegado tão longe. Além disso, se, hoje, não está sendo um dia tão terrível quanto imaginei que fosse, só posso agradecê-los por tirarem o peso dessa minha decisão. Enfim, muito obrigada a todos! E vamos lá fazer o que eu sei de melhor: torcer pelo nosso time!
abaixou a cabeça, desinteressada no discurso que claramente era endereçado a ela, apenas levantando ao ver que todas as líderes haviam invadido o campo para se juntarem a elas, iniciando uma onda de abraços, beijos e cumprimentos para as duas novidades que estavam ali no meio.
seguiu direto para , sorridente por vê-la novamente e abraçando-a com todo o carinho que possuía. Queria fazer isso há tanto tempo!
— Que bom que você voltou, amiga! Estávamos com muita saudade, de verdade!
Mas não retribuíra o gesto, sustentando uma expressão misturada entre desprezo e indiferença, imediatamente sentidos por , que nada mais pôde fazer, a não ser se afastar, sentindo uma tristeza diferente crescer no peito. Não queria acreditar que seria tão mesquinha a ponto de ignorar todos os anos de amizade por algo que nem teve culpa.
— Com licença! — disse, afastando-se, e voltou a chamar a atenção das pessoas pelo microfone. — Calma, gente! Vocês acham que vai terminar nessa tristeza assim? Não, né? A comissão de formatura deste ano resolveu arrecadar fundos para a nossa festa e, para dar o chute inicial (pegaram o trocadilho?), faremos uma festa à fantasia. Os ingressos estarão à venda, a partir de segunda, então não deixem de participar! Chamem os amigos!

, pera aí! — Maria o alcançou, ao término do jogo, e ele estava mais à frente, liderando o grupo, rumo ao estacionamento.
Depois da entrada triunfal de e dos anúncios, tudo se tornou uma confusão enorme de pessoas vindo cumprimentá-las, lágrimas de despedida e um juiz que apitava para que todo mundo deixasse o campo para dar início a partida. Não houve tempo para uma aproximação.
Ele a obedeceu, deixando as pessoas passarem, enquanto a aguardava se aproximar. Caminhava radiante e emocionada naquele uniforme novo, que, muito provavelmente, seria a última vez que a veria daquele jeito.
— Tem certeza que vai aposentar esse uniforme? — Fez uma cara engraçada, olhando descaradamente para o decote dela.
— Palhaço! — Maria deu um leve tapa no braço dele, fazendo os dois rirem.
— O que aconteceu? — perguntou, ao final.
— Ainda não te vi hoje. — Abraçou-o com todo o carinho do mundo. — Queria te agradecer pelas flores... Foi muito sensível da sua parte. Não sabia que você era esse tipo de cara.
— Não foi nada — ele disse, sem graça e sem conseguir pensar em nenhuma piadinha para sair daquela situação. — Grande dia. Você merece.
Ela deu um beijo na bochecha dele e saiu saltitante ao encontro de e .
Logo atrás, parou, agarrando o amigo pelo pescoço.
— Mandando flores para a Maria, né? — Gargalhou, fazendo sentir o vermelho de vergonha invadir suas bochechas. — É dela que você gosta, né, safado?
— Deixa de história, cara. Só achei que fosse legal... — respondeu, levando imediatamente o dedo ao nariz.
esfregou as juntas dos dedos na cabeça do amigo, ao ver o gesto, rindo muito. não conseguiria mentir para si por muito tempo.

Ninguém pôde deixar de notar a cara confusa, abalada e incrédula que os 6 amigos faziam quando passava com seu jeito descontraído, cheio de gargalhadas, ao lado deles na festa da casa de Blake. Seriam 7, se não tivesse ficado tão ansiosa para escrever sua primeira matéria.
— Ela não disse uma palavra a ninguém? — perguntava, visualmente encucado com a atitude da ex-namorada. — Nem a você, ?
— Nada. — respondeu, balançando negativamente a cabeça, seguido por um gole do conteúdo do seu copo. — Eu só soube que ela estava lá porque a Cynthia me parou, na entrada do colégio, querendo saber se eu já havia me encontrado com a .
— Fofoqueira miserável! — Maria se irritou. — Aposto que só te perguntou para poder espalhar mentiras depois.
— Daremos um tempo, gente! — pediu compreensão. — acabou de voltar! Imagina tudo o que ela deve ter passado para, finalmente, voltar a ver nosso amigo aqui.
Era óbvio. falava de , que fechou a cara numa expressão carrancuda ao ouvir as verdades nuas e cruas.
— Foda-se. — disse com toda a sinceridade que podia ao sentir a frustração do encontro se transformar em mágoa. — Agora, quem não quer falar com ela sou eu!
— Nem acredito que ela vai organizar uma festa sem mim. — Maria comentou, chateada. — Quem ela tá pensando que é?
observava a nova conversar animadamente com os jogadores, sempre com Blake a tiracolo, sempre comemorando sua volta com um shot de tequila, mas, ao vê-la furar a cerveja e bebê-la de uma só vez, teve uma certeza: naquele momento, ela não era quem pensava ser.

Maria chegou de mansinho ao lado de . Ele passara a noite toda evitando contato humano, pois não estava sabendo lidar tão bem assim com a volta da ex-namorada. Tudo bem. Sabia que nada seria como antes, mas ainda mantinha o desejo secreto de poder implicar com seu jeito atrevido.
Ser completamente ignorado nunca esteve em seus planos. Bem, não estava nos planos ela ignorar todos os seus “antigos” amigos, mas, aparentemente, essa era a realidade agora.
— Diz que não há nada o que fazer. — Maria perguntou, olhando em direção onde olhava.
Era rodeada de sugadores de popularidade, como costumava descrever.
— Eu não tenho o que fazer — admitiu a derrota. — Talvez seja melhor assim.
Maria rolou os olhos.
Loser!
— Ei! — sentiu-se ofendido.
— Nós dois erramos em relação a , babaca. Começamos essa história toda errada. Não era, nem ao menos, para eu deixar você ir em frente com essa loucura de terminar com ela. Extremamente desnecessário o que você fez, e eu era a única que podia impedir, mas me mantive impassível, pensando em mim. — Maria dizia duramente. — O segredo era só meu, e vocês se envolveram, mas dá para resolver isso.
A morena estufou o peito, porém, antes de caminhar em direção a , a interrompeu, pegando em seu ombro.
— Você vai contar? — perguntou apreensivo.
— Vou fazer o que nós deveríamos ter feito antes.
A passos largos e decididos, chegou perto da amiga (ou ex-amiga?), parando de frente para ela, sem chances para ignorá-la.
— Você não acha que deveria dizer alguma coisa, não?
— Hã? — Fez-se de desentendida. — Por quê? Pelo que eu me lembre, não tenho nada a falar.
— Tem certeza?
— Ah! Como eu esqueci! — bateu a mão na testa com o copo que segurava, rindo por derrubar um pouco do líquido que estava nele. — Maria Stern. Eu tenho bastante coisa para falar. Infelizmente, sou eu quem fará sua entrevista para o jornal. Parece que você é meio popular, não?
Na mesma hora, a boca de Maria se abriu, e seu cenho se franziu com o ultraje de ouvir aquelas palavras saindo daquela boca que, um dia, foi conhecida.
— Meu Deus, . O que fizeram com você?
Alguém chamou para mais uma rodada de shot.
— Olha, desculpa se eu não te conheço, mas, um dia, você supera esse ressentimento por eu ter roubado sua festa. Deve ser mesmo difícil ver que sua grande despedida foi ofuscada por eu ter chegado com tantas novidades para o colégio.
largou as palavras e saiu, depois de dar 2 tapinhas no ombro da líder de torcida, deixando Maria louca de raiva e com vontade de socar alguma coisa.
Principalmente, se essa coisa fosse a cara daquela garota petulante.



O ar do colégio havia mudado mais uma vez, mas, agora, parecia que o sol apenas brilhava na mesa em que sentava-se. Desde que havia retornado, só existia ela. Todas as atenções eram voltadas para ela. Todos os olhares eram sobre ela.
avistou os amigos sentados num dos bancos que ficavam embaixo de uma árvore no pátio e caminhou apressada.
— Acho que vou chorar! — Ela se jogou ao lado de , escondendo seu rosto e levantando logo em seguida, vendo o rosto confuso dos amigos. — Sério. Minha vida é um inferno! Não sei por que eu inventei de participar do jornal, não sei por que foi pedir para a Lucy me colocar lá... Onde é que eu estava com a cabeça?
— Ei! Eu pensei que estivesse fazendo uma coisa boa! — se defendeu.
— Tá, mas o que aconteceu? — Maria foi a mais rápida ao perguntar.
— disse simplesmente, como se fosse óbvio.
— O que tem ela? — Desta fez, foi quem perguntou.
— O que tem? Eu achei que ela fosse uma pessoa legal! Por tudo o que ouvi antes e vocês contaram, mas, aparentemente, conheci uma pessoa totalmente diferente. — desembestou a reclamar. — Não vejo um traço de bondade naquela pessoa. Tudo sou eu. Tudo sou eu naquele lugar. Principalmente, se sai alguma coisa errada. E sempre sai alguma coisa errada, acreditem. Separar-se dela foi a melhor coisa que você fez, . Aquela garota é uma bruxa!
suspirou. Aquela não era a que ele conhecia e, talvez, por isso, significasse que se separar foi a pior coisa que ele poderia ter feito.
Eles não conseguiam acreditar nas palavras de . Nunca que imaginariam que a amiga pudesse ser uma má pessoa, especialmente com um deles, mas quem era , afinal? Há muito tempo que nenhum deles a conhecia de verdade.
Todos olharam para , esperando que ele desse alguma explicação, afinal, era o único que ainda tinha o mínimo de abertura com a garota.
— Nem olhem para mim. tornou-se um poço de incertezas, para mim, também. Vocês sabem que ela sequer me olhou desde que chegou.
— Ela não pode tratar assim a só porque é nossa amiga, ! — disse indignado.
— Eu concordo, mas o que vocês querem que eu faça? Eu não vou falar com ela! Ela, agora, só anda com o Blake e a turma dele, que só falta me bater quando eu chego perto. — tranquilamente deu de ombros.
— A gente precisa fazer alguma coisa! — esbravejou.
— É, veremos. — respondeu, sem querer continuar muito nesse assunto. — Vocês já estão pensando em suas fantasias?
— Nossa, cara, que ansiedade é essa? — riu, zombando da cara do amigo.
— Melhor falar sobre roupa que passar o dia inteiro sentindo a faca ser enfiada nas costas.
‘Outch’ foi o som que fizeram, antes de rirem da situação.
— Talvez eu vá de cheerleader só para fazer uma gracinha com a situação... — Maria partilhou sua grande sacada, dando uma gargalhada depois.
Com certeza, todo mundo riria da cara dela quando chegasse fantasiada daquele jeito.
— Que ótima ideia! — se animou com o lampejo que passou pela cabeça.
Maria acabara de fazê-lo ter a melhor das ideias sobre a festa.
— O quê? Vai me dizer que você quer ir de integrante de banda também. — tapou a boca, escondendo o sorriso. — Vocês têm uma autoestima invejável.
— Não é isso, idiota. — respondeu divertido. — Vou amadurecê-la e, depois, conto a vocês!
— E ideia dá em árvore, agora, para precisar amadurecer? Conta logo. — ficou curioso.
Mas , primeiro, queria ter a certeza que daria certo, antes de deixar crescer a expectativa.
Enquanto as mais diversas e absurdas sugestões de fantasia empolgavam a turma, como irem todos vestidos de peças de tetris, cada um vestido de uma fase diferente da Britney Spears, ou, ainda, de um ex-namorado da Taylor Swift, não viram alguém se aproximar da mesa.
limpou a garganta, para mostrar que estava ali.
Imediatamente, todos pararam de conversar, sem ousarem dizer uma palavra, sustentando uma cara de interrogação.
— Parece que a cota de pessoas que trabalham no jornal foi alcançada com sucesso neste grupo, hein! — ironizou, claramente falando de , então olhou diretamente para Maria. — Se você quiser, a entrevista pode ser feita hoje à tarde. Se não quiser, paciência. Duvido que, daqui a uma semana, alguém ainda lembre quem você é.
e seguraram Maria e disfarçadamente, pois ambas já estavam prontas para partir para uma briga.
— Não vale a pena. — aconselhou as meninas.
— Muito bem! — disse, batendo palmas. — O amor é lindo, não?
não esperou nenhuma reação e voltou ao encontro de Blake, lhe dando um selinho assistido por um com uma cara de nojo. Não acreditava que estava ficando com um babaca daquele. Era extremamente ofensivo.
— Ela deveria ir fantasiada de bruxa do 71. Cai muito bem para essa nova fase dela. — sugeriu com raiva, mas fazendo todos à mesa rirem.

Depois do almoço, se ofereceu para ficar no jornal, junto com , afinal, estava curiosa para conhecer todo o trabalho que era feito ali, apesar do tratamento terrível que estava recebendo e, inconscientemente, para diminuir a tensão do encontro que se iniciaria a qualquer hora.
E mal pensou nisso, Maria entrou no escritório com o peito erguido. Não deixaria atingi-la tão facilmente. Tentaria manter a calma o máximo possível, além de esclarecer as coisas devidamente. Era óbvio que estava jogando com eles e, se dependesse dela, isso acabaria o mais rápido possível.
— Pronto. Podemos começar! — disse impetuosa, sentando-se à mesa em que estava.
A outra garota olhou com o canto do olho e se ajeitou na cadeira.
— Tudo bem — foi tudo o que disse, antes de procurar o gravador, colocando-o em cima da mesa e procurando calmamente seu bloco de notas.
— Posso ajudar em alguma coisa, ? — perguntou, tentando não parecer intrometida.
— Essa daqui é minha — respondeu como uma verdadeira caçadora prestes a atingir sua vítima. — Então, Maria, desde quanto você é líder de torcida?
— Você sabe bem... Desde o 1ª ano.
apenas rolou os olhos e continuou:
— Por que você decidiu fazer o teste?
— Organizei um grupo de dança na escola em que eu estudava, antes de ir a Lutherville High, então não precisei fazer o teste. A treinadora me convidou, e eu sabia que aceitá-lo era a coisa certa a se fazer — resumiu. Não entendia as perguntas. Mais do que ninguém, sabia todas as respostas e, em outros tempos, apenas escreveria uma entrevista fake, a enviaria para ela ler e pronto.
— Você sempre sabe qual a coisa certa a fazer, não é mesmo? — perguntou com ironia.
— Isso não foi uma pergunta.
— Você está certa — continuou com aquele tom. — Mas, afinal, o que te levou a sair do time? Esse não era seu maior orgulho?
— Sempre foi e sempre será, mas eu precisava seguir em frente e deixar algumas coisas para trás na vida. O time era uma delas.
— A melhor amiga também. — soltou para provocá-la.
— Não, minhas melhores amigas continuam sendo minhas melhores amigas, mesmo que estejam passando por uma fase complicada e não acreditem quando eu falo isso. Se há uma coisa que é importante, para mim, é a amizade.
— Bom, você fala tanto de amizade, mas isso não te impediu de abandonar uma delas.
Maria se alterou, levantando-se da cadeira e colocando em alerta.
— Foi você quem foi embora, ! — Maria desabafou, apertando os punhos, na tentativa de se controlar. — Que não deixou a gente te ajudar, que fugiu, sem deixar rastro e sem se importar com quem ficava aqui! A gente que teve que lidar com seu desaparecimento repentino. A egoísta foi você, que, nem ao menos, quis se despedir de mim, como se eu tivesse feito alguma coisa! Eu nunca fiquei com ! Pelo amor de Deus!
passou pelo corredor, vindo da sala de Carly, de onde havia discutido sua ideia para a festa à fantasia dos alunos, e pôde ver pelo vidro a movimentação das duas. Até estourar, fazendo sua voz ressoar pelos 4 cantos do colégio:
— MAS FOI VOCÊ QUEM O ACOBERTOU, ENQUANTO ELE ME TRAÍA!
Maria franziu o cenho, sem entender do que ela estava falando.
— Tá louca? — Confrontou-a, chegando cada vez mais perto, para defender o amigo. Seu amigo nunca faria isso e, se tivesse feito, ela nunca teria falado com ele de novo. — nunca te traiu, e eu nunca o deixaria fazer isso!
— Deixa de ser cínica! — deu outro passo, fazendo com que ficassem a apenas alguns centímetros de distância. — Eu nunca esperei isso. Até me conformei com o fato de vocês namorarem. Eu precisava de um choque de realidade para mudar, por isso fui embora, mas quando o disse que vocês negaram, procurei saber, e EU descobrir que minha melhor amiga escondia o relacionamento do MEU namorado com outra acabou de vez comigo. Esse tempo todo não era escondendo um segredo de mim, era você!
— PARA, ! — interrompeu a discussão, entrando na sala. — Deixa a Maria fora da nossa briga. Ela não tem nada a ver com isso, porra!
— Não tem? — Agora, se virou para , furiosa com a intromissão, com as mãos na cintura e com os olhos possessos. — Como não tem? A culpa é dela também!
— Do que ela tá falando, ? — Maria pedia uma explicação. Estava perdida no meio daquela confusão.
— EU QUEM DECIDI ISSO! EU QUEM QUIS ME SEPARAR! — Ele a pegou pelos braços, sentindo o peso de tê-la perto novamente. Como conseguiria soltá-la mais uma vez? — POR QUE VOCÊ NÃO ACEITA DE UMA VEZ?
— TUDO POR CAUSA DA AMIGA DA MARIA! — esbravejou, soltando-se de uma vez e colocando o dedo na cara de . — Nunca mais. Tá ouvindo? Nunca mais ouse me pegar desse jeito. Eu não sou nada sua para você me tratar dessa maneira, seu imbecil!
— Não posso — ele respondeu, respirando fundo, acalmando-se e achando um pouco de graça em como estavam tão perto um do outro. — Porque eu vou te pegar desse jeito novamente.
A expressão de confusão no rosto de alterou imediatamente para a de surpresa quando o viu agarrá-la, roubando um beijo nervoso e agoniado, acalmando seus ânimos de forma mais eficaz que qualquer sessão de massagem ou meditação.
Não podia acreditar que estava novamente naqueles braços, beijando aqueles lábios.
Tinha o gosto agridoce da saudade, desilusão e carinho, que a fez se esquecer completamente de quem era por alguns segundos e se entregar ao desejo ardido de estar novamente com .



! — A mãe dela bateu na porta do seu quarto. — Tem visita para você.
Já estava de pijamas e em casa, então não esperava ninguém. Inclusive, não queria ver ninguém. Ainda mais depois do que aconteceu mais cedo. Naquele momento, preferia morrer que encontrar qualquer pessoa que fosse. Como se não bastasse ter tanta coisa na cabeça, com a organização da porcaria da festa à fantasia, ainda tinha recebido esse presente.
Depois que caiu em si, separou-se de e saiu correndo daquele lugar, sem olhar para trás, e trancou-se no quarto, querendo sumir do mundo por algumas horas.
Seus pensamentos a confundiam cada vez mais à medida que refletia sobre aquela tarde e, quando chegava à parte do beijo, acreditava que explodiria. Quem pensava que era para brincar assim com alguém que nem ela? Ele podia simplesmente desaparecer de uma vez. Seria um bem para a humanidade.
Aquilo não estava nos planos. Aquele beijo, daquela forma. Sentir que ele ainda a queria. Era tudo o que estava tentando esquecer nos últimos meses e, de repente, lá estava novamente. Tudo era uma enorme confusão. Não entendia qual motivo levaria a machucá-la, para, depois, sair beijando-a como se ainda gostasse dela. Que babaca sem coração!
Imaginar vê-lo, no outro dia, andando pelos corredores do colégio, como se nada acontecesse, lhe trazia ainda mais raiva. Agora, entendia um pouco mais essas pessoas psicopatas que sentem vontade de matar, vão lá e fazem.
Se estivesse sozinha com , sabia muito bem que alguém sairia machucado e, desta vez, de verdade.
— Não, mãe! Diz que eu já tô dormindo! Não quero ver ninguém e já estou de pijama! — respondeu, deitando-se na cama e colocando a mão no rosto, em um claro sinal de impaciência.
A porta se abriu, uma voz ecoou pelo espaço do quarto, fazendo com que se sentasse em um pulo só.
— Não precisa. Até parece que já não te vi em situação pior.
— O que você veio fazer aqui, ? — Bufou, jogando-se novamente na cama.
— Vou fingir que você não tá se escondendo atrás dessa péssima atitude, te perdoar por me ignorar e perguntar: você está bem? — Ele sentou-se no “pé” da cama, encarando-a. — me contou o que aconteceu, e eu não acreditei. Por que você escondeu esse tempo todo o que o fez com você?
Ela suspirou profundamente, escondendo seu rosto com o travesseiro, enquanto abafava suas palavras. Não era para ter falado no calor do momento, mas aquele garoto a tirou do sério de verdade. Era bem difícil admitir que fora traída em voz alta e era ridículo que tenha feito isso com ela.
Até sentir afastando o objeto, deixando-a livre para falar claramente:
— Ele nunca te contou isso? — Deu-se por vencida, sentando-se de frente para o amigo, que negou com a cabeça. — Esperava que ele tivesse te falado, mas eu nunca disse nada a ninguém. Nem mesmo a Maria ou a . Não queria essa minha humilhação pessoal sendo espalhada, ainda mais que continuamos andando com as mesmas pessoas, vendo-se todos os dias, em todos os lugares. Só imaginava as pessoas falando: “Olha a corna iludida ali!”. Era muito para mim, .
Fechou os olhos, imaginando a cena. Seria um pesadelo passar por aquilo.
— Você sabe que nós teríamos feito tudo diferente, não é?
— Eu sei — disse, fitando as unhas enquanto as mexia. — Mas ninguém voltaria no tempo, e a dor, talvez, fosse pior. Guardar pareceu a melhor solução.
— A melhor? — negou com a cabeça. — Olha no que resultou! Não existe uma pessoa que não esteja magoada. Estamos todos no mesmo barco, zinha.
— Eu sei que não está certo o que tô fazendo, mas só quero espaço, até aprender a lidar com tudo isso. Com a bipolaridade do , com as atitudes incompreensivas de Maria. Você sabe o que é perder as pessoas mais importantes da sua vida de uma só vez?
— Eu sei o que é ser ignorado por uma delas — ele respondeu, deixando sentir o constrangimento esquentar suas bochechas.
— Desculpe-me! — disse, abaixando o rosto e sentindo todos os nervos se contraindo em arrependimento.
— Tá tudo bem. Eu sei que você precisa disso, mas será que poderíamos deixar tudo isso para trás?
está muito magoada?
— Não será muito fácil você conseguir alguma coisa dela…
bufou, chateada.
— Eu tô bem perdida, sabe? — admitiu. — Ainda não conseguir achar uma maneira em que consiga voltar, sem ter o por perto. Ele sempre está por perto.
— Podemos ir devagar. Ninguém tá com pressa.
Eles dividiram um abraço apertado, em nome dos velhos tempos.

— Sente-se aí e conte-me direito que história é essa de você ter ficado com uma amiga minha. — Maria empurrou na cadeira da cozinha, assim que chegaram à casa dele.
Ele rolou os olhos.
— Você me disse que vocês tinham brigado por uma história que você inventou, mas era tudo mentira, porque você precisava afastar a do que estávamos aprontando. Eu já achava absurdo terminar o relacionamento e, agora, descubro que foi porque VOCÊ TRAIU a . Então quer dizer que você acabou ME usando como desculpa. — Ela continuou seu esporro: — O que você tinha na cabeça para fazer isso? Por que ninguém me contou? E eu quem tinha um segredo, não é? Com quem diabos foi?
— Foi com a Candy. — disse em um suspiro.
— COM A CANDY? Você é um idiota, sabia? — Ela deu um tapa no braço dele, deixando o local vermelho. — Como é que você pôde fazer isso, seu canalha?
— Eu sei, ok? — Ele se esquivou de outro tapa que vinha em sua direção. — Eu sou mesmo um babaca, mas tá feito. Pode voltar no tempo? Não pode. Então é seguir em frente.
Maria pôde ver o brilho de arrependimento nos olhos de , então parou por um segundo, apenas observando-o. Não fazia sentido algum. Não era o tipo de comportamento que o amigo teria. Ele gostava tanto da amiga. Qualquer um duvidaria daquelas palavras, inclusive ela, que esteve presente durante todo o relacionamento deles. Não era só estranho, era impossível aquilo acontecer!
— Por que a acha que eu tenho a ver com isso tudo?
cruzou os braços, cansado de toda aquela conversa.
— Três semanas atrás, Maria — disse num tom sério —, nós tiramos uma foto que Candy postou na internet e nos marcou. Eu, você e ela vendendo sorrisos. Inclusive, eu estava com meus braços ao redor dela. E vocês adoram curtir uma coisa da outra desde o início. viu. Só pode ser por isso.
— Vocês ainda ficam, mesmo? — perguntou, se referindo a ele e Candy.
— Maria! — a repreendeu com muita ênfase. — Deixa isso para lá.
— Você precisa explicar a que eu não tenho nada a ver com isso e que sequer sabia!
— Não posso — disse, descruzando os braços. — Tudo o que precisamos é abafar a história e viver com as consequências, se não, logo, logo, saberão ONDE eu conheci a Candy.
Eles trocaram olhares de forma cúmplice, imaginando se podiam sair ilesos daquela situação.

No outro dia, viu, ao longe, aproximar-se de com a cara mais raivosa que sabia fazer, lhe dando um tabefe estrondoso na cara. Escondeu o riso ao vê-lo apoiar a mão no rosto, com dor.
Os olhares das duas se encontraram ao longe, dividindo uma solidariedade gratuita, mas desviou com raiva.
— É porque é minha amiga e sua namorada, . — Viu-o comentar para o amigo, enquanto passava a mão no local. — Se não, ouviria umas boas aqui.
— É melhor você ficar na sua, pois a coisa não tá boa para o seu lado.
Ouviu a resposta do , ainda rindo da cena.
Foi recompensador. Mesmo que não tenha sido ela a dar esse tapa merecido, agradeceu mentalmente a atitude da amiga.
— O que minha gata está olhando? — Blake colocou os braços em volta dos ombros de , acompanhando a direção do olhar da garota. — Não sei o que você viu nesse otário. Sinceramente.
Ela rolou os olhos. Não dava para explicar, muito menos fazer qualquer pessoa entender.
— Não tem mesmo nada para ver. — Juntou as mãos dos dois, caminhando em direção à sala. — O presente é o que importa.

As semanas que antecederam a festa passaram tão rápido que mal se tocou que já era o grande dia da festa à fantasia que estava ajudando a organizar. Olhou-se uma última vez no espelho, sentindo-se engraçada.
Desde quando era previsível dessa forma na escolha de uma fantasia? Maldita hora em que ficou tão focada na organização que esqueceu completamente que sua cidade só tinha uma loja de aluguel de fantasia e todas as pessoas já deveriam ter alugado as suas, como, de fato, aconteceu.
Até pensou em fazer a própria, mas era muito trabalho e ela não teria tempo para pensar nisso.
Então teve que se contentar com aquela roupa de Wendy, clichê e nenhum pouco criativa. Já até podia imaginar as pessoas comentando nos corredores como ela foi chata e sem graça, como esperavam mais dela, uma fantasia sexy e provocativa. Deu de ombros. Teria que sobreviver com esse problemão.
Viu a mensagem de Blake, dizendo que estava na porta, esperando-a, e olhou-se uma última vez, garantindo que nada estava fora do lugar.
Seguiram para o espaço em que aconteceria a festa. Como foi organizada por parte da comissão de formatura e outras pessoas poderiam ir, tiveram que arranjar um local fora da escola para o evento, mas ninguém fez cara feia, pois seria muito mais fácil colocar bebidas alcoólicas para dentro de um evento particular de jovens em seu último ano de colégio.
O estacionamento era grande, com jardins bem cuidados por todo o perímetro. Lá dentro era um grande espaço aberto com um pequeno palco ao fundo. Os alunos haviam colocado algumas mesas aos lados, deixando a frente e o meio vazio para quem quisesse se movimentar.
Ao chegar, se orgulhou de ver tudo em seu lugar. A decoração divertida e minuciosamente preparada deu um ar perfeito ao local. Estava bastante contente com o resultado.
Bom, “estava” era o verbo correto, porque, no momento em que viu os instrumentos em cima do palco, reconheceu de imediato a quem pertenciam, e lá se foi o sorriso de satisfação que havia em seu rosto.
— Lucy! — Puxou a colega de jornal para mais perto, apontando para o palco. — Eu estou mesmo vendo o que estou vendo?
— Achei que você soubesse! Carly conversou comigo para convidá-los a tocar, e devo dizer... — Ela deu dois tapinhas no ombro de , em comemoração. — Melhor sugestão. Isto aqui vai lotar!
A garota rolou os olhos, descontente com a confirmação. Era isto: finalmente, havia chegado o dia em que veria novamente em cima dos palcos.
Pior dia. Com alguma sorte, alguns dos amigos de Blake trariam alguma coisa forte para misturar ao refrigerante, fazendo-a se esquecer daquele momento.
Porém, nada seria tão fácil assim.
O refletor iluminou o palco, voltando a atenção de todos, enquanto os garotos subiam para começar o show.
Sentiu-se boba ao imaginar que a deixaria em paz, sem fazer nada estúpido para lhe provocar. Era óbvio que ele agiria de alguma forma, só não esperava que fosse aquela. Nem que seus amigos resolvessem entrar naquela onda também. Como que deixou isso acontecer?
— Parece que você recebeu o memorando, não é mesmo? — provocou .
A líder estava com uma roupa verde, colada, com asas brilhantes e uma varinha, imitando perfeitamente a Sininho, ao lado de , vestida de uma das sereias que tentaram afogar a Wendy. Muito sutil.
Em cima do palco, era o capitão gancho, quase irreconhecivelmente brilhava por todos os lados, dos pés a cabeça, com várias onomatopeias “pir”, “lim”, “pim”, “pim” espalhadas pelo corpo, indicando que ele era o pó mágico que a fada Sininho possuía; o pó de pirlimpimpim. usava uma roupa completamente preta e, inclusive, tapando o rosto, que, se não fosse pelo chapéu idêntico ao do Peter Pan, provavelmente, nunca adivinharia que ele estaria de sombra.
riu inconscientemente. Seus amigos eram criativos, não podia negar.
E, por fim, aquele cara estúpido, maldoso e extremamente ardiloso, conhecido como , se exibia em sua fantasia de Peter Pan.
Ela fechou a cara quando o viu.
Com suas batidas animadas, que não deixavam ninguém parado, tocaram suas músicas, até que pararam por um momento e aquele cara chamou a atenção:
— Vocês acreditam em destino? — perguntou, junto ao microfone, enquanto ouvia a galera gritar em resposta, fazendo-o dar um meio sorriso de canto. — Eu não. Escrevi essa música, recentemente, poucos dias atrás, e espero que gostem. Chama-se ‘Somewhere in Neverland’. Não é nada pessoal.
Os primeiros acordes fizeram os ouvidos de permanecerem atentos, mas quase se matarem quando chegou ao refrão. Todo mundo, agora, sabia o que havia acontecido entre eles, então não era nenhum pouco sensato o que ele estava fazendo.
O beijo que dividiram ainda estava guardado na memória recente e podia senti-lo em sua boca neste momento.

So here we go again
Wishin’ we could start again

Wendy run away with me
I know I sound crazy
Don’t you see what you do to me?
I wanna be a lost boy
Last chance, a better reality


Os olhos de se fixaram nos dela, atingindo-a em cheio, de uma forma que a hipnotizava. De tudo o que podia ser feito, por que, justo agora, seu ex-namorado vinha com toda essa história? Será que ele era tão egoísta ao ponto de achar que tudo poderia voltar ao normal, como se nada tivesse acontecido? Será que ele não pensava no quanto ela sofreu?

Wendy, we can get away
I promise if you’re with me, we'll say the word and we’ll find a way
I can be your lost boy, your last chance
You’re everything better plan
Oh, somewhere in Neverland


— No final, parece que alguém ainda está apaixonado... — um dos amigos de Blake comentou para o grupo em que estava também. — Alguém avisa que ele perdeu.
— Eu vou matar esse babaca. — Blake trincou os dentes.

We’ll start a life of the plain and the simple
Of great times with far better people
And weekends with our friends
Laughing bout the wine that stains their teeth
We’ll, talk about how your parents separated and
How you don’t wanna make the same mistakes as them
I’ll say it’s all about sticking it out
And trying to feel forever young


fechou os olhos, lembrando-se do dia em que os pais de se separaram e como ele foi capaz de cometer o mesmo erro. Era demais, para ela, rasgar as feridas já cicatrizadas dessa forma.
Enquanto a voz de ecoava ao cantar, foi ao fundo do lugar para fugir da multidão, que não disfarçava os olhares em sua direção.
Por acaso, ele não estava pensando que isso era um tipo de desculpa. Era?

Continua...



Nota da autora: (14/04/2017) Poucas palavras, três capítulos para vocês perdoarem a falta de atualização pelos próximos meses! To tendo um problema serissimo com a parte do segredo da Maria. Não ta ficando boa, na sinceridade. To procurando inspiração, mas ao invés disso, me envolvi em 2 ficstape. Assim que terminá—las, prometo nunca mais entrar em nenhuma até finalizar Show Girl!!!!!! Com todo meu coração, fiquem em paz <3

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