Contador:

Finalizada em: 04/06/2020

Prólogo

5 de maio de 2015

Querido diário,
A cada dia que escrevo uma nova passagem aqui, me sinto mais idiota.
Me desculpe por isso… mas é a mais pura verdade. Você já deve saber disso, mas religiosamente registro minhas frustrações e alegrias (mais frustrações que alegrias…) aqui há cinco anos.
Pois é. Que fracassada. Provavelmente sou a única menina mantendo um diário escondido embaixo da cama.
É engraçado que a primeira coisa que escrevi aqui, há tantos anos, tenha sido que eu esperava encontrar um príncipe encantado.
Ideias infantis são estúpidas.
Faço quinze anos hoje. Se eu quisesse, poderia ter um namorado. Qualquer um que fosse. Oportunidade eu já tive.
Todo mundo na escola está namorando.
Inclusive a Marisa, a minha melhor amiga. Ela mesma, baixinha, nerd, muito míope e complexada com o próprio peso. A Marisa.
O namorado dela é legal, mas sinto que ela merece mais. Sempre sinto que todo mundo merece mais.
Principalmente eu.
Talvez esteja sendo egoísta e mesquinha… Na verdade, tenho certeza disso.
É por isso que, hoje, aos quinze anos, declaro oficialmente encerrada a busca pelo príncipe encantado.
Ele não existe.
Isso é a maior cilada.
E eu não sou obrigada a nada.
É só isso por hoje.
Não posso prometer voltar amanhã.
Sempre sua,
.



UM

— É exatamente o que estou dizendo. — Paco diz, sugando o último gole de seu milk-shake de frutas vermelhas. — E você não pode me negar isso, você sabe. Tipo… Nem por um cara…
— Eu entendi. — atira uma bola de guardanapo nele. — Já entendi. Mas é ridículo.
Paco rola os olhos, impaciente.
— É ridículo. Tudo é ridículo, faz parte da existência humana. Acho que aprendi isso numa aula de filosofia, inclusive.
— Não aprendeu, não. — faz uma careta, abismada. — Você só está divagando para me convencer.
— Eu te amo, você sabe. Não sabe? — ele pergunta, antes de fechar a cara em uma careta ameaçadora. — Mas você é muito burra, muito burra mesmo, se não aceitar viajar comigo. Porque, não sei se você entendeu direito essa parte, mas é uma ilha privativa, e você não teria que pagar nem um centavo. Totalmente zero-oitocentos.
— Eu não posso ir para o México assim, Paco. Usa o cérebro de gente normal, não o de gente rica. Eu tenho que ir para faculdade, tenho que trab…
— Você tem que escovar poodles. Sim, eu sei. E te amo por isso, porque você escova o meu poodle, e isso é uma missão muito abençoada. Eu reconheço, é claro que reconheço. Mas estou te convidando para o melhor, maior e mais fabuloso rolê da sua vida.
franze as sobrancelhas, mordiscando com desinteresse a última batata frita da porção, quase carbonizada.
— Rolê é ir à Liberdade no sábado, ou na Paulista aos domingos, eu sei lá. Ir para uma ilha de ricaços não é rolê, é loucura. Principalmente se você é… — ela aponta para si mesma. — Euzinha aqui.
Paco bate as duas mãos sobre a mesa.
— Tá certo. Nada te convence, não é? Então preste bem atenção nas seguintes palavras. — ela a encara fixamente, para ter certeza que tem sua atenção. — Preciso que você finja ser minha namorada.
— Mas que porr…
— Sem palavrão. A gente combinou.
Os olhos de estão arregalados enquanto ela procura o copo de refrigerante e engole uma porção esquisita de gelo com resto de refrigerante de máquina.
Por quê?
— Porque eu não me assumi, . E eu não posso chegar no rolê dos ricaços fazendo o Christian Chavez e dizer para o meu pai “Não sei se você sabe, mas eu sou viado”. É suicídio. Não posso fazer isso. E eu sei que você consegue convencer sua mãe a te liberar do trabalho no pet shop. Na verdade, eu mesmo consigo convencer. E estou disposto a fazer isso sozinho, contra a sua vontade, se você não aceitar meu convite.
— Tá bom, Paco. — responde, fazendo outra careta. — Eu vou. É loucura, mas eu vou. O que é que você não me pede sorrindo que eu não faço chorando?
Paco estende a mão direita e a mantém no ar até receber de volta um high five de sua melhor amiga e, atualmente, namorada de mentirinha.



DOIS

— Fingir que o Paco é hétero é uma coisa muito irônica para se fazer. — a mãe de diz, entre risos, enquanto ajeita um lacinho na cabeça de uma yorkshire. — É só por isso que eu vou permitir que você vá. Só por isso mesmo. E porque uma ilha privativa em outro país é muito chique, na verdade.
— E eu não sei? — retruca, escovando os pelos alvos de um maltês idoso. — O Paco é riquíssimo, e a gente sempre soube disso, mas esse é, definitivamente, o auge do auge.
A mãe de gargalha, puxando da prateleira o spray fixador para o penteado da cadelinha.
— Mas será mesmo que os pais dele nem desconfiam de que ele seja gay?

***

fecha a mala com a ansiedade já dominando todo seu corpo. Os batimentos cardíacos acelerados, as mãos transpirando, as pernas tremendo…
Está indo sozinha para o México.
Ok, não completamente sozinha. Está indo com Paco, mas Paco não tem juízo nenhum.
Tem vinte anos, muito dinheiro, casas em três países e nenhum minuto de curtição a perder.
É preocupante.
checa se está com seus remédios todos na bolsinha em sua mala de mão, pela milésima vez. Está, sim.
Se as coisas apertarem, um comprimidinho embaixo da língua deve resolver. Ou dois.
Ela arrasta a mala até a sala, onde senta desconfortavelmente no sofá de couro, à espera de seu amigo maluco e atual namorado de mentira.
Os sacrifícios que fazemos pela amizade…



TRÊS

— Esse é nosso quarto, mi amor. — Paco diz, abrindo a imensa porta de madeira entalhada com padrões de flores e revelando um quarto maior que a casa inteira de .
O cômodo é rústico, mas muito mais chique que qualquer coisa que ela já viu na vida. Uma cama imensa está apoiada em uma base de madeira com os mesmos entalhes da porta, tudo tão delicado que parece beirar a perfeição.
Uau. — é tudo que consegue dizer, varrendo o quarto com os olhos encantados. É tudo lindo.
O banheiro anexo ao quarto é adornado por plantas incríveis e tão verdes que parecem de mentira. A banheira tem uma torneira dourada que prefere pensar que só imita ouro, mas duvida um pouco por causa de tanto brilho.
— Só para eu saber… Quão rico você é?! — ela pergunta, encarando Paco com os olhos arregalados.
— Bem rico. — ele dá de ombros. — Mas fala sério, você teria se perdoado por perder essa vista?
olha pelas portas balcão, admirada pela beleza e imensidão azul logo à sua frente.
— Não. — ela responde. — Não teria me perdoado nunca.
Paco sorri, satisfeito.
— Isso é viver, mi amor. — ele exclama, puxando-a para um abraço.
— Você vai me chamar assim o tempo inteiro? — olha torto para o amigo.
— Sim. Acho bem hétero. Bem Don Juan, né?
não consegue segurar o riso.
— E quando meus sogros chegam? — ela pergunta.
Dessa vez, quem ri é Paco.



QUATRO

— Então, só para repassar… — Paco diz, gesticulando exageradamente para garantir que absorva a história inteira… Pela milésima vez.
— Nos conhecemos na faculdade, há dois anos, e começamos nosso relacionamento sem rótulos logo no começo do ano, porque você queria um relacionamento aberto, mas, esse ano, descobrimos que nos amamos o suficiente para um namoro sério e completamente monogâmico.
— Isso. Exatamente isso. — ele dá um gole no champanhe borbulhante em sua taça de cristal entregue por um mordomo que aparece e desaparece como em um passe de mágica. — Você está pronta, mi amor.
assente, mas ainda está muito ansiosa.
— Minha mãe disse que o avião já pousou. — Paco diz, sorrindo para ela. — Eles devem chegar daqui a pouco. — ele percebe a expressão no rosto da amiga. — Fique tranquila. É só ser você mesma. Eles vão todos te adorar.



CINCO

Quando os pais de Paco descem do carro, um Mercedes de modelo que ela nem consegue identificar, ela sente que vai vomitar.
Já viu fotos dos dois antes, mas, de perto, são ainda mais intimidadores.
A mãe, Maria Antônia, tem um ar de aristocracia que dá para sentir de longe. Os sapatos de salto finos, de sola vermelha, tilintam no chão em frente à entrada da mansão. Ela carrega uma mini bolsa Chanel a tiracolo, e óculos Dolce & Gabbana imensos, emoldurando o rosto anguloso, bronzeado na medida e beirando a perfeição estética.
O pai, Manuel, tem os cabelos grisalhos meticulosamente penteados, sem nenhuma falha, e veste roupas casuais, mas que também devem custar uma fortuna. Os sapatos mocassim tem uma insígnia de alguma grife cujo nome ela não consegue lembrar…
já se sente mal por tanto analisar, quando nota a terceira pessoa descendo do carro.
O irmão.
Por um momento, que se passa em câmera lenta e parece levar uma eternidade, ela se perde na visão.



SEIS

5 de maio de 2010

Querido diário,
Hoje é a primeira vez que a gente se fala! É muito legal conhecer você.
Sei que seremos grandes amigos. Foi o que minha mãe me disse.
Ouvi um papo estranho entre ela e a minha tia, sobre eu precisar desabafar.
Eu sei que elas acham que não estou sabendo lidar com a morte do meu pai, mas estou. Já faz um tempão.
Seis meses é um tempão.
E eu já sabia que ele ia morrer. Ele estava com câncer, só para você saber.
E já fazia um tempão também. Ele já estava ficando bem fraco, e muito branco, e eu podia perceber que ele não estava nada bem. Nada bem mesmo.
Ele não estava conseguindo comer. Nem andar. Às vezes ele não conseguia falar direito, e eu sei que ele ficava chateado.
Todo mundo achava que ele não estava mais lá. Lá dentro do corpo dele. Então ninguém falava com ele, mas eu sempre falava. Às vezes ele até sorria.
É claro que estou triste por ele ter morrido. Mas vai ficar tudo bem.
Tenho muitas outras coisas para te contar… Ontem à noite sonhei que meu pai me apresentava um príncipe encantado.
É engraçado, né? Eu estava na praia, e meu pai aparecia montado num cavalo preto, com um príncipe encantado chegando em um cavalo branco.
Ele era tão bonito! Sério mesmo.
E eu não lembro o que acontecia depois, mas eu estava caída no chão, e ele me ajudava a levantar.
Bem como um príncipe encantado, né?
Eu sei.
Espero que ele exista.

— Você está bem? — ele pergunta, oferecendo a mão para ajudá-la a levantar.
— O quê? — ela olha em volta, completamente perdida. O que aconteceu?
está jogada no chão, e o irmão de Paco está logo à sua frente, demonstrando uma dose grandiosa de cavalheirismo, enquanto o próprio Paco observa tudo, boquiaberto, mas se segurando para não rir.
aceita a ajuda e, assim que se coloca de pé, analisa melhor tudo ao seu redor.
A mãe e o pai de Paco, seus sogros, olham para ela com curiosidade, mas cuidadosamente afastados da cena.
Péssimo jeito para começar. Péssimo.



SETE

— Deve ter sido uma queda de pressão. — Maria Antônia diz, sentando-se de pernas cruzadas no mesmo sofá em que está, com Paco segurando uma bolsa de gelo em sua cabeça, mesmo que ela não entenda o porquê. — É o calor, querida. Faz parte. — ela dá um sorrisinho, tentando confortar a menina, que está claramente envergonhada.
, o irmão de Paco, está recostado à soleira da porta, encarando a cena com curiosidade.
Ele se parece muito com Paco, observa. Mas é bonito do próprio jeito.
Bonito não. Rojas Suárez é lindo.
— Com certeza. — Paco responde, sorrindo para a mãe. — Você precisa descansar, mi amor. — ele aperta a mão de . — Vamos, eu te ajudo a ir para o quarto.
Desnorteada, aceita a ajuda de Paco, e os dois vão direto para o imenso quarto de casal que precisam dividir.
— Que porra aconteceu, ? — Paco pergunta, assim que fecha a porta atrás deles.
— E eu sei lá?! Acho que foi uma tontura, não sei. Caí. Eu nem percebi.
— Você sabe o que eles vão dizer, né? — Paco olha para ela com cautela.
— Que eu sou desastrada? Que eu preciso voltar para casa?
— Não, bobinha. Eles vão suspeitar de que você esteja grávida!
arregala os olhos, e fica ainda mais surpresa quando nota que Paco está sorrindo.
— É perfeito! — ele exclama. — Nada consagra mais um jovem hétero do que uma possível gravidez inesperada.
— Paco, isso é absurdo…
— Eu conheço minha mãe. — ele diz. — Vai ser a primeira coisa que ela vai me perguntar quando eu sair desse quarto.
balança a cabeça nervosamente.
— Não, não, não. Nem pense nisso.
— Se já está na chuva, é para se molhar. E, até o final das férias, a gente já vai ter negado isso e descartado a ideia com um lindo teste de gravidez.
— Paco, você é louco.
Ele dá um sorrisinho.
— Me diz se eu não sou o melhor namorado do mundo?!



OITO

— Você vai comprar um teste hoje mesmo, Paco. — a mãe dele diz, olhando-o com seriedade. — Está me ouvindo? Se essa menina estiver grávida, vão precisar começar o pré-natal, e talvez esse não seja o melhor lugar para ela ficar nesse comecinho da gestação e…
— Mãe, ela não deve estar grávida. Tá bom? A gente sempre se protege. Sempre!
— Mas essas coisas podem falhar, Paco! E eu não estou falando que tem algum problema, embora tenha, de fato, mas, se existir uma gravidez, é preciso ter uma porção de cuidados!
Paco sorri.
— Prometo que vou à cidade comprar um teste de gravidez amanhã, logo cedo, está bem?
Maria Antônia assente.
— Um neto… a esta altura da minha vida. — ela murmura, deixando a sala.

***

— Então… — começa, dando um empurrão no irmão com o ombro. — Eu descubro que você tem uma namorada há dois anos e que ela pode estar grávida. Tudo assim, em cima da hora?
Paco faz uma careta, enquanto coloca o teste no balcão da farmácia.
— Pensei que você me contaria uma coisa assim. — diz, dando de ombros. — Mas tudo bem. Fico feliz também, se você estiver feliz.
Estou feliz.
assente.
— Ela parece ser uma boa pessoa. — comenta. — A sua namorada.
Paco sorri para ele.
— A é a melhor pessoa. — responde, pegando a sacolinha de papel da mão da moça do caixa e deixando a farmácia.



NOVE

— Essa é a coisa mais vergonhosa pela qual eu já passei em toda minha vida. — murmura, sentada desconfortavelmente no vaso sanitário extremo e desnecessariamente elegante do lavabo da mansão.
— Mija nesse negócio, . Não vai dar nada, mas eles precisam dessa confirmação. Eles não sabem do que a gente sabe!
— Que eu não tenho como estar grávida porque você é gay e a gente não namora porra nenhuma?
— Pensei que tínhamos parado com os palavrões. — ele franze as sobrancelhas.
— Você disse primeiro. — faz uma careta, balançando a cabeça em sinal de incredulidade.
O auge do auge está indo cada vez mais longe, e ainda é o segundo dia de viagem.
— Pelo amor de Deus, Paco, sai daqui! Eu não consigo mijar com você me olhando! — ela quase berra, o rosto vermelho de nervosismo.
Paco faz uma careta e ergue as mãos em sinal de rendição, enquanto se dirige para esperar do outro lado do biombo adornado.
espera mais alguns minutos, até conseguir fazer algumas gotas de xixi inútil. Depois, espera o resultado sair no teste.
Não grávida”. Obviamente.
— E aí, mi amor? — Paco grita do outro lado.
revira os olhos, irritada, enquanto se veste e vai até ele, segurando o teste na mão.
— Toma aqui meu mijo. — ela diz, atirando o teste no ar para ele. — Parece que não vai ser dessa vez que vamos ser papais, mi amor.

***

A mãe de Paco não consegue disfarçar o alívio quando e ele contam que o teste deu negativo.
Ainda é o segundo dia, e já está surtando.
Onde estava com a cabeça quando aceitou ser parte dessa maluquice?
Ainda não conseguiu sequer aproveitar a paisagem, e a tensão se une ao medo de serem descobertos.
Ela precisa respirar fundo algumas — muitas — vezes antes de se juntar à família de Paco para o almoço.
Por sorte, não precisará passar por isso novamente à noite, já que eles estarão em um jantar com outros milionários no deque.
— Paco, esqueci de te contar! — o pai de Paco diz, parecendo ter algum tipo de epifania.
Todos olham para ele, com expectativa.
— Aquele seu amigo, Pedro, voltou para cá. Já está trabalhando de novo.
fica boquiaberta, e Paco perde a cor. Pálido como papel sulfite, ele engole em seco.
Pedro é, simplesmente, o amor da vida de Paco.
Os dois tiveram um breve romance de férias quando Paco era adolescente e, desde então, o melhor amigo de nunca o superara.
— Que bom, pai. Legal. — é tudo que Paco consegue dizer.
— Ele vai estar trabalhando no deque hoje, não é? — pergunta.
Paco arregala os olhos.
— Sim, sim. — o pai responde, distraído, enquanto continua seu jantar, sem ter a menor ideia do que se passa ao seu redor. — Vocês dois vão comigo? — ele pergunta, se referindo aos filhos.
— Não, pai. Eu dispenso. — diz, dando de ombros.
— Paco?
sabe que Paco está prestes a ter um ataque cardíaco.
— Vá com o seu pai, Paco. — Maria Antônia diz, servindo seu copo com mais água vitaminada.
E é isso. Paco nem pode dizer qualquer coisa.
Ele continua estático, quase transparente e prestes a desfalecer.
suspira antes de tomar uma atitude para salvar o amigo. Ela puxa ligeiramente a toalha da mesa, virando a taça de vinho em cima da própria roupa.
Paco suspira, aliviado, e se levanta para ajudar.
— O que aconteceu, mi amor?



DEZ

— Puta que pariu, ! — Paco consegue gritar num sussurro, assim que fecha a porta do quarto.
— O negócio dos palavrões já era mesmo? — ela provoca.
— Sim, porra! Completamente! Você não tá vendo o que tá rolando aqui? O Pedro tá aqui, !
se senta na cama, encarando o melhor amigo com expectativa e apreensão.
— Fala alguma coisa! — Paco praticamente berra, atirando uma nécessaire nela, que se estica para pegá-la no ar.
— Se você quebrar meu pó da MAC, eu vou quebrar a sua cara. — ameaça, apontando o dedo indicador para ele antes de abrir a bolsinha e checar a integridade de suas maquiagens.
— O que eu vou fazer? — só pelo tom de voz, sabe que Paco está prestes a arrancar os cabelos de tanto nervosismo.
— Vai fazer o que você quiser fazer! Deixe de ser idiota, Paco. Não precisa acontecer nada. Talvez você nem sinta mais nada por ele, e perceba isso assim que olhar para ele.
Paco suspira e balança a cabeça, parecendo ligeiramente convencido.
— Você pode ter razão, não é?
assente.
— Tudo bem… acho que eu posso sobreviver a isso.



ONZE

Depois que Paco sai com o pai para o jantar de negócios e Maria Antônia vai às compras na cidade, fica vagando pela mansão, admirando cada canto ricamente decorado com enfeites e adornos que deviam custar mais do que todo o dinheiro que ela movimentaria na vida.
Um quadro no corredor entre a sala de estar e a sala de televisão lhe chama a atenção por mais tempo.
O contorno de diversas mãos em 3D forma um imenso coração multicolorido atrás de um vidro.
É uma dessas obras de arte que parecem, ao mesmo tempo, terem sido extremamente fáceis de fazer, e absurdamente complexas.
— Gostou? — ouve a voz atrás de si quando já está muito perto.
, o irmão de Paco, está parado ao lado dela, encarando o quadro também.
— É incrível. — ela diz.
— Eu fiz com a minha avó. — comenta. — Uns dois anos antes de ela morrer.
sente uma pontada de tristeza.
Paco mencionara a avó algumas vezes, e sempre ficava extremamente melancólico. Não para menos. A avó era uma presença marcante em sua vida, uma mulher de personalidade forte e saudável, que falecera repentinamente depois de um derrame agressivo.
— Acho que você gostaria dela. — diz, sorrindo para . — Ela era minha pessoa favorita no mundo. E do Paco também.
assente.
— Ele sempre fala muito dela.
— Você não imagina a falta que ela faz… — suspira. — Não consegui mais entrar no ateliê onde ela pintava depois que ela se foi.
O clima fica pesado demais e, para variar, não sabe o que dizer.
— Você quer ver os outros quadros dela? — o cunhado fake pergunta, parecendo um pouco mais animado.
— Com certeza.
Ele assente, e o segue pelos corredores e cômodos da mansão, completamente fascinada, e não só pelo quadro.



DOZE

— Ela estudou artes em Paris. — explica, enquanto observam um quadro pequeno, pintado em tons prateados, representando a Torre Eiffel em um dia de chuva. — Morava sozinha, e viveu uma vida boêmia por lá. — ele dá uma risada quando parece se lembrar de alguma coisa específica. — Ela vivia provocando o meu avô. Falava que tinha conhecido um francês maravilhoso e, sempre que meu avô não fazia alguma coisa, ela dizia que esse tal francês fazia ou faria.
se vira para ele, prestando atenção na história.
— Até que, um dia, ela me contou que o tal francês não existia. Ela tinha inventado só para provocar o meu avô. E era nosso segredo. — ele ri, mas depois para, olhando fixamente para . — E seu também.
— Que responsabilidade… — ela brinca.
— Eu precisava dividir esse fardo, . É um fardo muito pesado. — ele sorri.
tem os dentes mais bonitos que já viu na vida. Que coisa bizarra.
Estou ficando maluca., ela pensa. Completamente maluca. É o irmão do Paco.



TREZE

— Você não tinha razão. — Paco diz, assim que bate a porta atrás de si. — Você definitivamente não tinha razão.
Um pouco confusa, larga o livro que está lendo sobre a cama.
São duas da manhã, mas ela ainda não conseguiu dormir. E não conseguiria mesmo, de forma alguma. Não enquanto não soubesse notícias de seu namorado de mentirinha, que não respondera sequer uma mensagem durante toda a noite.
— O que aconteceu? — ela pergunta.
Paco está vermelho, trêmulo e desesperado, quase como se estivesse passando mal.
— Eu nunca vou superá-lo, . Nunca! — ele leva as duas mãos ao rosto e suspira.
se levanta da cama, envolvendo-o em um abraço.
— Você quer me contar o que aconteceu?
Ele balança a cabeça, concordando.
— Eu o amo, . Foi isso que aconteceu.

***

— Nós andamos na praia por duas horas… conversando sobre as coisas. Ele foi para os Estados Unidos estudar… conseguiu até um estágio, mas não um emprego de verdade. E voltou porque a mãe dele está doente… câncer na garganta. — Paco está arrasado enquanto conta a história de sua noite para a melhor amiga. — Tudo deu certo, mas agora tudo está dando errado. Para ele… e para mim. Como eu sou egoísta!
— Não, Paco. Isso não é verdade. Você não é egoísta! Não tem nada de errado em reconhecer que você está sofrendo… e que você tem o direito de sofrer. Não é porque alguém tem um problema mais grave que o seu sofrimento é inválido.
Paco já tem lágrimas nos olhos quando a amiga termina de falar.
— Eu não consigo. Preciso sair daqui. — ele diz, abrindo a porta do quarto desesperadamente. — Preciso ir embora.
Ele sai porta afora, e vai atrás dele, os dois quase correndo.
— Preciso sair daqui, . Não vai dar certo. A gente nunca devia ter inventado essa história. Eu nunca devia ter inventado essa história.
Paco abre a porta e parte pela varanda da mansão, para a imensidão da madrugada.
fica parada ali, em frente à porta aberta, estática, até ouvir os passos se aproximando.
está parado atrás dela, encarando a cena toda com curiosidade e muito confuso, com um olhar quase conspiratório.



CATORZE

— Está tudo bem? — pergunta. Seu cenho está crispado e seus lábios, comprimidos. — Ele está bem?
simplesmente não sabe o que dizer. Está tudo bem? Paco está bem?
— Vai ficar. — ela responde, forçando um sorrisinho que sai horrivelmente falso.
assente, e limpa as mãos em uma toalha que só então percebe pendurada em seu ombro.
está coberto de tinta vermelha e preta.
– Quer conhecer o ateliê? — ele pergunta, quando nota o olhar dela sobre as manchas de tinta.
só assente, seguindo-o em silêncio pelos longos corredores da mansão.
Eles descem uma escada atrás da lavanderia, e puxa uma cordinha para acender a luz.
Um clássico porão de classe média alta se estende diante deles, revelando móveis antigos, quadros e até um piano.
Nos fundos, uma salinha muito bem iluminada abriga quadros e pequenas esculturas sobre bancadas espaçosas.
nota em um cavalete o quadro que está pintando. Um coração humano encontra-se no meio de um deserto ao pôr do sol, com uma espécie de purgatório morando em seu interior.
É assustador. E lindo.
— E aí? — pergunta, parando ao seu lado e cruzando os braços para encarar sua obra-prima.
— É perfeito. — ela diz, assentindo para ele, que retribui com um sorriso.
Seus olhos correm pelos outros quadros pintados expostos no salão.
— Perfeito. — ela repete, baixo demais para que ele possa ouvir.



QUINZE

Pela primeira vez desde quando começou a ter, esporadicamente, esse mesmo sonho, o sol está se pondo.
observa, de longe, seu pai montado em um cavalo branco, quase prateado. Ele se aproxima, cavalgando, e o vento sopra os cabelos de em todas as direções.
Logo ao lado de seu pai, vê o Príncipe Encantado em seu cavalo preto.
É a primeira vez que ela consegue reconhecê-lo.
Quando abre os olhos, está embrenhada nos lençóis de luxo de seu quarto com Paco, que não está lá.
No entanto, ela sabe que o Príncipe Encantado está. Mais perto do que ela nunca imaginou encontrar.



DEZESSEIS

Quando acorda e se junta à sua família postiça falsa, Paco já está à mesa, bebendo um suco de maracujá e postergando na mastigação de uma torrada com ovos mexidos.
Está desanimado assim há dias, desde o fatídico jantar quando encontrara Pedro outra vez.
Ele mantém os olhos baixos, e não encara a namorada de mentirinha. Os pais não parecem perceber, mas percebe. sabe que ele percebe.
— Como passou a noite, ? — Manuel pergunta, segurando com requinte uma xícara de porcelana de café, mas parece pouco interessado na noite de .
— Muito bem, senhor. Obrigada.
Ele assente. A resposta curta felizmente é satisfatória.
— Vamos sair com o barco hoje. — Maria Antônia anuncia, parecendo animada.
— Vamos usar o Dolores? — pergunta, enfiando na boca um imenso pedaço de bolo de chocolate.
O pai assente, checando rapidamente alguma coisa em seu Apple Watch antes de continuar bebendo seu café como um passarinho.
— Sairemos ao meio-dia. — ele complementa, ao que todos concordam, menos Paco. — Paco?
Ele ainda não diz nada, então todo mundo o fita com curiosidade, depois correndo os olhares para .
Ela engole em seco, virando-se de volta para ele.
Mi amor? — chama, e ele finalmente parece sair de seu transe. “Você está bem?”, pergunta para ele, através de seu olhar. “Não”, ele responde, também com os olhos.
— Desculpe. — ele diz, apoiando a mão sobre a dela. — Não estou me sentindo muito bem.
Maria Antônia se estica por sobre a mesa, levando os dedos à testa do filho mais novo.
— Não está com febre. — ela diz, subitamente muito preocupada.
— Acho que foi alguma coisa que eu comi ontem. — Paco diz, dando de ombros. — Só preciso descansar um pouco. — acrescenta.
— Podemos remarcar o passeio de barco para amanhã. — Maria Antônia diz, tentando sorrir para ele de um jeito que lhe ofereça conforto.
— Não precisa. Vão vocês. — ele oferece de volta o mesmo sorriso.
— Eu cuido dele. — garante, entrelaçando seus dedos nos dele.
— Não, mi amor. — ele diz, firme. — Aproveite a viagem. Você vai amar o passeio de barco. Tenho certeza.
pensa em protestar, mas o olhar que Paco lança a ela diz para nem tentar.
Para , apesar da paisagem paradisíaca, a viagem está sendo uma merda.



DEZESSETE

— Você tem certeza de que não quer que eu fique? — pergunta uma última vez.
Paco está sentado à mesa do quarto, rolando tristemente o feed do Instagram.
— Tenho. Preciso desse tempo sozinho hoje.
suspira, derrotada, e deixa o quarto sem falar mais nada.
Tudo que quer fazer é fugir daquele lugar e voltar para casa, longe das mentiras e do clima tenso, e onde Paco, seu melhor amigo, pode ser quem realmente é. No entanto, fez uma promessa a ele, e não pode simplesmente ignorar quão grande deve ser seu sofrimento por justamente não poder ser quem ele é.
Ela encontra no corredor, jogando uma mochila de lona verde nas costas. Nenhum dos dois diz nada, mas seguem lado a lado até o carro da família de Paco.
É estranho, mas sente-se menos desconfortável ao lado do irmão de Paco do que com seu próprio melhor amigo.



DEZOITO

Sentada sobre sua toalha cor-de-rosa na proa do barco, se perde na imensidão azul de céu e mar à sua frente.
Sente-se infinitamente grata a Paco por ter a oportunidade de encarar de perto tanta beleza.
Mas ela não consegue sentir plenamente o prazer da nova aventura. Não quando sabe que Paco está sozinho, lamentando-se pela injustiça de ter que se esconder na própria vida.
se aproxima dela, entregando-lhe uma taça de champanhe. Quantos litros de champanhe esse povo bebe?, se pergunta.
— Vocês brigaram? — ela pode perceber que a pergunta escapa. está mesmo muito curioso. E desconfiado. — Desculpe… pela indiscrição. Mas… o Paco não parece bem. Aquele não é meu irmão.
gela. Mas não é sua história para contar. Não é seu segredo para entregar.
— Tudo bem. — ele diz, observando seu silêncio. — Eu entendo que você não queira me contar. Mas, se for alguma coisa séria, não vou conseguir perdoar vocês por estarem escondendo.
morde o lábio inferior, tensa, quase coagida.
— Não é nada sério. — mente. O que pode ser mais sério do que o que Paco está sentindo?



DEZENOVE

Quando se aproximam da costa, a primeira coisa que vê é a luz vermelha oscilante de uma ambulância parada em frente a uma casa conjugada amarela.
Por algum motivo, ela sente um calafrio na espinha, e se encolhe, puxando a toalha rosa por sobre os ombros.
, Manuel e Maria Antônia parecem também ter percebido as luzes, mas ninguém diz nada.
Por instinto, pega o celular e checa a tela por alguns segundos. É em vão. Ela nem tem sinal.
E a sensação ruim continua enquanto tomam o caminho de volta.



VINTE

— Nós podemos comprar uma massa para o jantar com a Lourdes. — Manuel sugere, enquanto dirige de volta para a mansão.
Maria Antônia concorda com ele, e comemora como uma criança. não tem ideia de quem é Lourdes ou de como são as massas dela, então permanece quieta.
— Vou ligar para adiantar. — o pai de Paco usa a assistente pessoal digital para ligar para a tal Lourdes sem tirar as mãos do volante.
Uma voz masculina soa do outro lado da linha, pelos alto-falantes do carro.
Pois não? — o homem parece aflito.
— A Lourdes está? — Manuel pergunta, enquanto manobra o carro para estacionar.
O homem suspira.
Ela foi para o hospital.
Assim que ouve a resposta do homem, nota Paco sentado em frente à porta.
Ela abre a porta do carro e solta o ar, que nem chegou a perceber estar segurando.
Paco percebe em seu olhar que tem alguma coisa errada, mas espera se aproximar o suficiente dele para que ninguém mais ouça.
— A mãe do Pedro está no hospital. — ela diz, e espera em silêncio alguma reação. Paco está cabisbaixo.
— A gente tem que ir. — Paco murmura, erguendo os olhos para a amiga. — Por favor.
assente.
— Pai, você me empresta o carro, por favor? — Paco faz o possível para controlar o nervosismo em sua voz.
Manuel simplesmente joga a chave para ele e, com uma piscadela, entra na casa, sem perceber nada de errado no ar.
— Aonde eles vão? — ouve perguntar para a mãe.
— Não consigo. — Paco diz, entregando a chave do carro para .
Ela concorda e toma o assento do motorista.



VINTE E UM

No hospital, Paco sai correndo à frente de pelos corredores que ela não conhece, logo depois que ela pergunta por Lourdes na recepção.
Sentindo-se sufocada e de mãos atadas, se encolhe contra uma das paredes.
Mais do que nunca, quer ir embora. Mas também, mais do que nunca, sabe que Paco precisa dela.
Parece que está prestes a explodir. O medo e a ansiedade já tomaram conta de si, e precisa respirar fundo várias vezes.
Uma enfermeira para ao seu lado e lhe toca no ombro.
— Você está bem?
assente, mas fecha os olhos.
Os hospitais nem se parecem muito, mas são hospitais. É tudo a mesma coisa. Ela consegue ouvir claramente quando a médica diz que seu pai não resistiu.
— Senhorita? Você precisa de ajuda? — ao seu lado, a enfermeira insiste.
Isso nunca mais tinha acontecido. Ela nunca mais tinha enfrentado nenhuma crise como aquela.
? — é a voz de . — , o que aconteceu?
Só então ela consegue desabar.



VINTE E DOIS

Quando consegue recompor a própria respiração, está estranhamente apoiada no ombro de , seu cunhado de mentirinha.
— Está melhor agora? — ele pergunta, ainda segurando-a de lado. só assente.
não fala nada sobre a crise de ansiedade. Só espera.
Ele também não pergunta sobre Paco, embora tenha a impressão de tê-lo ouvido perguntar à enfermeira sobre Lourdes.
— Você quer me contar o que está havendo?
nega com a cabeça.
Não sabe explicar o porquê, mas prefere ficar calada a mentir para . Por algum motivo, sente-se como uma traidora. Uma dupla traidora.
— Vamos buscar alguma coisa para você comer. Procuramos o Paco depois. — ele oferece uma mão para ajudá-la a se levantar e sorri de leve para ela, ainda claramente incomodado.
se pergunta se ele já sabe de tudo e está apenas esperando uma confirmação.



VINTE E TRÊS

se sente como uma criança quando a deixa sentada na cantina do hospital e vai até o balcão pedir um lanche para ela.
Ela checa o celular outra vez. Paco não mandou nenhuma mensagem.
se senta à mesa novamente, entregando um sanduíche de peito de peru e um copo de suco de laranja para .
— Obrigada. — só assente. O clima está mais estranho do que nunca.
come em silêncio, enquanto ele digita no celular.
— Meus pais estão no hospital… estão vindo para cá.
Ela gela. Por quê?
Não demora nem cinco minutos para Manuel e Maria Antônia chegarem à cantina do hospital.
Os dois parecem muito deslocados ali. Quase como se tivessem sido jogados no lugar.
Eles cumprimentam a falsa nora e começam a conversar com o filho mais velho sobre a situação de Lourdes, uma mulher que nunca sequer viu na vida, mas por quem estão todos no hospital.
— Não é o Paco ali? — Maria Antônia pergunta, apontando para o outro lado do vidro à sua frente.
Todos se viram para olhar.
Paco e Pedro parecem estar em uma discussão acalorada.
— O que é que está acontecendo? — pergunta Manuel, parando em frente à porta automática, que se abre no mesmo instante.
não tem muito tempo para fazer qualquer coisa. Ela só se levanta e tenta pensar em alguma coisa para impedir que a família de Paco vá até lá.
Mas já estão os três — e ela — parados do lado de fora quando Paco, desesperado, grita:
— Porque eu passei a vida inteira amando você, Pedro! — e o puxa para um beijo.



VINTE E QUATRO

sente o chão sob seus pés desaparecendo e o ar fugindo de seus pulmões.
— O que é que está acontecendo? — Manuel repete, dessa vez em um tom mais elevado.
Paco se afasta de Pedro, os olhos arregalados e a pele vermelha de susto e desespero.
Não podia ser pior. Simplesmente não podia.
Paco não consegue dizer nada. Seus olhos se enchem de lágrimas, e ele ergue uma mão, como se pudesse espantar tudo aquilo para longe como a uma mosca irritante.
Manuel é o primeiro a dar as costas e ir embora.
Em poucos segundos, Maria Antônia faz o mesmo.
é o único que permanece.
Ninguém discutiu. Ninguém disse uma só palavra.



VINTE E CINCO

Depois que também vai embora, escolhe uma das cadeiras na recepção para se esconder.
Não tem como voltar para a mansão. Não tem para onde ir. Precisa esperar.
Às cinco da manhã, Paco aparece na recepção com os olhos inchados e o rosto todo molhado de lágrimas.
— Ela morreu. — diz, sentando-se na cadeira ao lado de , que, a princípio, não diz nada.
— Como ele está? — ela finalmente pergunta.
— Atordoado. Precisa resolver as coisas do funeral… — Paco puxa os cabelos para cima, em sinal de nervosismo. — Eu me ofereci para ajudar, mas ele me mandou ir para casa e… resolver a situação.
— E você vai?
Paco solta um risinho nervoso.
— Preciso fazer isso. Depois volto para cuidar dele.
assente, e segura a mão do amigo com força.
— Estou com você, tá?
Ele assente.
— Sinto muito por ter enfiado você nessa bagunça. De verdade. Você não merece isso. — Paco a puxa para um abraço. — Me desculpa.



VINTE E SEIS

Quando chegam à mansão, olha para Paco uma última vez para se certificar de que ele está pronto.
Mas não tem outra saída. Ele tem que estar.
Já adiou demais, e agora foi engolido pela verdade, exposta contra sua vontade.
Ela segura a mão dele, e ele não solta. Entram assim em casa.
Estão todos na sala. A mãe, o pai, o irmão. Todos esperando.
O que ele pode dizer agora?, se pergunta. Não há muito a ser dito. Há?
— Me desculpem. — Paco diz. Sua voz não vacila, mas percebe, pelas mãos unidas, que ele está tremendo. — Eu simplesmente… não sabia como contar.
Estão todos olhando para ele. Mas ninguém diz nada.
se levanta, e encurta a distância até o irmão, aproximando-se o suficiente para dar um tapinha em seu ombro. Ele também não diz nada.
Maria Antônia começa a chorar. Chora de soluçar.
Seus lindos olhos ficam vermelhos rapidamente, e ela enxuga o rosto com as costas da mão.
— Eu não sei o que fizemos de errado… — ela murmura. fica em choque. — Para você não confiar em nós. Na sua própria família.
solta o ar que nem percebeu estar prendendo. Então é isso.
— Sempre achamos que criamos vocês dois como nossos amigos. — Manuel disse, levantando-se de sua poltrona. — Que vocês se sentiriam seguros para nos contar qualquer coisa.
Paco parece chocado. Seus olhos estão marejados e sua boca, semiaberta, como se ele quisesse falar alguma coisa, mas não conseguisse pensar o quê.
— Sinto muito que você tenha pensado o contrário. — Manuel diz. — Que tenha achado que não podia confiar na gente o suficiente para contar. Talvez não tenhamos sido tão eficientes quanto eu pensava. — ele completa, puxando o filho para um abraço apertado.
também começa a chorar.
Todos estão chorando.
Maria Antônia também envolve o filho em seus braços.
Talvez seja hora de ir embora.
Ela olha para a família de Paco um pouco mais antes de seguir pelo corredor até o quarto onde está hospedada.
Precisa pegar suas coisas e ir embora, sem pensar demais. Se pensar muito, pode acabar fazendo uma besteira.

Ela está colocando as roupas de volta na mala quando ouve a batida à porta.
Inicialmente, pensa ser Paco, mas sabe que ele não bateria.
— Então… era esse o segredo. — é .
não consegue olhar para ele.
— Sinto muito. Eu não podia… não era meu segredo e…
— Obrigado. — a interrompe. — Ele merece alguém em quem confiar tanto assim.
Surpresa, só consegue assentir.
— Então acho que o namoro era falso. — ela pode perceber o tom brincalhão na voz dele, e sorri.
— Pois é…
sorri.
— E acho que você vai embora agora…? — está mais para uma pergunta.
— Acertou também.
parece pensar por um momento.
— Eu posso… posso te dar uma coisa?
franze o cenho, curiosa, mas concorda.
— Só um instante. — ele desaparece no corredor, e demora mais que um instante para retornar.
Quando volta, está segurando um quadro.
O quadro do coração.
— Não, não. — murmura. — Não posso aceitar.
— Na verdade, você não pode recusar. É falta de educação. — ele sorri, esticando a tela para ela, que hesita um pouco antes de pegar.
— Eu não… eu não sei o que dizer.
— Diga que vai comprar uma boa moldura para ele. — sugere.
— Prometo. — ela diz, sorrindo para ele.



VINTE E SETE

Paco tenta convencer a ficar, sua família tenta convencer a ficar, mas é inútil.
Ela sabe que está na hora de se retirar.
Eles precisam ficar todos juntos, precisam se conhecer outra vez. Precisam construir a confiança que sempre sonharam em ter.
Ela manda Paco ficar com Pedro, e pede um táxi para o aeroporto.
Paco fez questão de pagar pela passagem de última hora, e pela bagagem extra. Ela vai viajar na primeira classe, beber champanhe até ficar bêbada e apagar no voo. Só isso.
— O senhor se incomoda de parar só um pouquinho? — ela pergunta, se esticando para o taxista. Ele sinaliza e para o carro em uma das vagas mais próximas da areia da praia.
Uma cerca branca isola uma parte, cujo chão é coberto por escadas, túneis e pequenos obstáculos coloridos.
Não faz muito sentido, mas ignora. Só precisa olhar um pouco mais para aquela praia…
Então ela ouve. Um barulho que só ouviu em seus sonhos. Cascos se afundando na areia, se aproximando dela e…
Ela olha para o lado.
Montado em um cavalo branco, seguindo em sua direção, está .
sorri, divertindo-se com a situação.
desmonta, caminhando o resto do caminho até a cerca que os separa.
— Achei que você já tivesse ido. — ele diz.
— Eu estou. Indo. — ela responde. assente.
— Isso vai ser estranho… vai soar muito estranho, mas eu vou falar mesmo assim. E você pode fingir que eu nunca disse... depois.
franze o cenho, curiosa. O que é que aquele cara faz com ela?
— Você pode ficar. — diz. — Você deve ficar. — ele corrige. — Sempre vai ter um lugar para você na nossa casa. Na nossa família. E… — ele suspira, parecendo derrotado. — No meu coração.
sente o próprio coração bater mais rápido, quase pulando para fora do peito.
— Desculpa. Eu não devia ter falado nada… por isso eu não falei antes! Mas é que… quando eu vi você aqui, achei que não podia te deixar ir embora sem dizer que… Merda, , você mexeu comigo desde o primeiro momento, quando você estava… caída no chão que nem sei lá o quê… e eu me senti tão mal por esses sentimentos estarem sequer passando pela minha cabeça quando você era namorada do meu irmão, mas agora eu sei que… eu sei que você não é, nunca foi, e… é o que eu sinto. Mesmo que seja idiota.
Ele espera um pouco. E mais um pouco.
não diz nada. Só olha para ele, e para o mar, e para ele outra vez.
— Você não vai dizer nada?
Ela balança a cabeça, se aproximando da cerca, se apoiando nela e subindo.
— O que você…? — começa a perguntar, mas, quando percebe, está com os braços ao redor de seu pescoço, e os lábios nos dele.
hesita por um momento, mas fecha os olhos e a puxa para si.
Ao seu redor, o sol se põe. Dentro deles, seus corações palpitam uma revolução.





FIM.



Nota da autora: Sem nota.



Nota da beta: Lembrando que qualquer erro nessa atualização e reclamações somente no e-mail.


comments powered by Disqus