Capítulo Único

Observava meu reflexo no espelho, enquanto ouvia o barulho da arena começando a tomar conta de todo o ambiente. Sabia que elas estavam gritando por mim, pelo amor que tinham e sentiam tão forte.

Por muitos anos, isso me deu todo o incentivo que precisava para ser feliz; ver meu sonho crescer dia após dia. E hoje, ser um dos maiores astros da música significava não apenas muito trabalho, mas também, muito suor, horas sem dormir e, ultimamente, muitas lágrimas.

As pessoas a minha volta latiam ordens para todos os lados, mas não me pergunte o que estavam dizendo, meus headphones estavam tão altos que mal conseguia ouvir meus próprios pensamentos. Parecia que alguém tinha apertado o pause, enquanto o resto do mundo estava em fastforward.

Não sei ao certo quando foi que tudo começou a ficar diferente para mim, talvez sempre tenha sido, mas estive tão preso na parte boa da fama que não me importei com o resto. Mas o que eu realmente tinha curiosidade era saber quando foi que eu deixei de ser um ser humano aos olhos do mundo e me tornei apenas um animal preso em sua jaula, daqueles que vamos ao zoológico para ver. As pessoas param para encarar minha tristeza, e ainda tiram foto do momento, para depois me marcar na foto e eu ver o quão sozinho realmente estou.

Apesar de me perder em dias da semana, mês, e algumas vezes até em que cidade estou, consigo lembrar com exatidão qual foi a última vez que me olharam apenas como um ser humano. Foi no dia 17 de fevereiro de 2016, às 11.26 da manhã, eu estava em East Hampton, New York. Esse foi o dia que ganhei a chave para escapar de minha prisão.

***

Eu caminhava na praia, em pleno inverno. Jurava estar sozinho. Afinal quem vai caminhar na praia naquele frio? Pedi e implorei aos meus seguranças e equipe que me deixassem passear sozinho por umas horas. Estava com meu celular no bolso como pediram, mas o tinha desligado no momento que sai do hotel.

Como sempre, eu estava lá não a passeio, mas para um photoshoot da Calvin Klein no dia seguinte. Apesar de decepcionado, confesso que não me surpreendi ao ouvir de longe aquele click distinto disparando como se fosse uma metralhadora. Mais de 100 fotos tiradas em menos de um minuto do pobre animal enclausurado. Faria tanta diferença assim na vida das pessoas terem mais uma foto minha na praia? Já poderia prever as notícias:

visto andando na praia, sozinho, em pleno inverno”
usacasaco camuflado em caminhada na praia"

Sabe como é, aquele tipo de reportagem que vai mudar o mundo. Me deem o Nobel da Paz depois dessa.

Disfarçadamente, consegui identificar onde eles estavam e era o suficiente. Comecei a correr num passo leve, apenas para ganhar um pouco de distância, enquanto pensava no que fazer para despistá-los sem ter que voltar pro meu hotel.

Ouvi um latido e automaticamente olhei com curiosidade de onde o som vinha, me deparando com uma mulher acenando para mim. Mesmo sabendo que estava sozinho, olhei em volta para saber se era realmente comigo. Era, pois quando a encarei novamente a vi dar uma risada da minha cara, gritar um “Bom dia” e me dar as costas.

Não precisei pensar duas vezes antes de fazer o caminho para a sua casa, mas, ao invés de entrar pela porta do quintal que estava aberta, dei a volta, dessa forma, os paparazzi que me seguiam pensariam que eu tinha apenas usado aquela rota para fugir, quando na verdade, eu usaria aquela casa como meu escape. Bati na porta da frente com certa insistência, até que a mulher que eu tinha visto alguns segundos atrás, a abrisse com um semblante curioso:

- Oi?
- Oi, me desculpa incomodar, mas, eu preciso muito ir ao banheiro e estou bem longe do meu hotel, não vou aguentar voltar e sou totalmente contra usar a natureza para isso, ainda mais nesse frio. - disse da minha forma mais convincente, achando que aquilo fosse suficiente.
- Hm, tudo bem – ela me encarou em dúvida, olhando para dentro de sua casa por um minuto antes de abrir a porta por completo, me convidando a entrar.
- Eu prometo que sou inofensivo.
- Não tem problema – ela sorriu de forma doce – Eu sou faixa preta em jiu jitsu.
- Você está falando sério?
- Não - e aquele sorriso novamente às minhas custas apareceram em seu rosto – O banheiro fica lá em cima, primeira porta à esquerda.
- Obrigado – respondi indo em direção a escada, pronto para enrolar alguns minutos.
- Ou se só quiser sentar no sofá, enquanto espera os paparazzi sumirem de vista, você também pode fazer isso.
- Co... como - perguntei chocado, ainda com o pé parado no ar – Como você sabe?
- Que você é o ? Quem não sabe?

Nesse momento eu devo ter feito uma careta involuntária, porque logo ela acrescentou:

- Desculpe. Você preferiria que eu fingisse que não? Eu posso fazer isso também.
- Não, tudo bem. Você está me ajudando, mesmo sabendo que eu usei uma desculpa bem ruim para você me deixar entrar, obrigado.
- Não tem problema, eu só fiz a conexão quando abri a porta ao mesmo tempo que o Hendrix rosnou para algo ali na praia, vi as lentes e bem... juntei dois mais dois.
- Obrigado de novo, eu só estou tentando ter um dia de paz.
- Somos dois, quer um chá?
- Adoraria! O Hendrix – perguntei encarando o cão à minha frente, que parecia ter cara de poucos amigos – É bonzinho?
- Se eu quero que ele seja, sim – mesmo não a vendo, sabia que ela estava rindo de mim, de novo – Ele tem alguns... traumas, então não faça nenhum gesto inesperado e estaremos todos bem.

Depois do que ela disse, decidi não tentar contato com o cachorro e segui para o sofá, observando as diversas fotos em preto e branco que se espalhavam pelo ambiente. Franzi o cenho ao notar na mesa de centro, um livro de fotografias aberto. Curioso, o peguei e comecei a folhear algumas páginas, vendo uma foto mais triste e angustiante do que a anterior. Eram fotos de guerra.

- Você gosta disso, de... de olhar essa coisas? - perguntei ao vê-la se aproximar com a bandeja, sentindo um nó se formar dentro de mim, ainda maior do que o que estava sentindo quando acordei.

Ela nada me disse, apenas sentou-se ao meu lado e me passou a xícara, ao mesmo tempo que tirou os livros da minha mão, indo ao prefácio:

- "Há um trabalho a ser feito, que é o de retratar a verdade. Eu quero acordar as pessoas para a realidade", James Nachtwey.

Ao terminar de ler a frase, fechou o livro e me mostrou a contracapa, onde pude ver uma foto em preto e branco do rosto dela, toda suja e com um curativo ensanguentado na cabeça, logo ao lado pude ler Campbell – fotógrafa de paz.

A encarei ainda mais atônito, não deixando de notar a cicatriz que tinha na testa, no mesmo local do ferimento da foto.

- Prazer, , mas todos me chamam de .
- Por que fotógrafa de “paz”? – perguntei, enquanto nos cumprimentávamos oficialmente.
- Você acha que eu vou a esses lugares para ver a guerra e pessoas morrendo? Nossa missão não é tirar essas fotos para ganharmos dinheiro, meu maior sonho é não ter trabalho algum a fazer. Eu tiro essas fotos porque eu quero... e preciso que o mundo as veja e entenda que elas não devem existir.

Depois que me recuperei do susto, me contou sobre sua profissão e como tinha passado os últimos cinco anos de sua vida entre Kosovo, Libéria, Iraque e diversos outros países dominados pela guerra. A olhava e não entendia como uma mulher tão delicada e frágil tinha coragem de colocar a vida em risco para tirar aquelas fotos. Aquele livro na minha frente era apenas um protótipo do que ela lançaria no final do ano. Tinha acabado de receber também o contrato para escrever um livro sobre suas viagens e principalmente a viagem que a fez dar uma pausa na carreira, quando perdeu três grandes amigos e dois dos maiores fotógrafos de guerra atuais.

O grupo de soldados e fotógrafos havia sido cercados por terroristas, alguns sobreviveram e muitos morreram. Desde então, voltou para os EUA, e lançou uma campanha na internet para trazer Hendrix pra casa, o dono dele era de um dos soldados que estavam no grupo que acabou não sobrevivendo. Seu último pedido tinha sido para que não deixassem o seu melhor amigo para trás.

O cão sofria de transtorno de estresse pós-traumático e os dois tinham se mudado para Hamptons em busca de paz e silêncio, para que ambos pudessem se curar de suas feridas invisíveis juntos.

Ao terminar de contar sua história, perguntou sobre mim, o que eu estava fazendo ali e, sem perceber, já estava me abrindo sobre as batalhas internas que vinha tendo comigo mesmo, em como era difícil ser famoso, ter o mundo aos seus pés, mas viver numa constante paranoia que as pessoas que se aproximam só querem ser seu amigo pelos benefícios que isso pode trazer. Contei como as consequências e a solidão estavam superando as coisas boas há algum tempo e que eu estava com muita vontade de desistir da minha carreira.

Em nenhum momento riu de mim, muito pelo contrário. Apesar de ter vivido no inferno, e meus problemas serem provavelmente idiotas comparado com os quais ela estava acostumada a lidar, fez parecer que eles eram tão importantes quanto de todo o mundo e me senti como há muito tempo não me sentia; eu finalmente me sentia acolhido por alguém que não queria nada de mim.

Enquanto contava tudo isso, reparei que ela olhava em meus olhos, sem desviar por um segundo. Isso é algo tão raro de se ver no meu meio, que me fez perceber que fazia muito tempo que não me sentia tão em paz com uma pessoa nova.

Sua casa era pequena e simples, mas eu trocaria todas as mansões que eu tinha para ter um lugar assim.

Mantivemos o contato por mensagens e ligações por dois longos meses; não havia chance de eu sequer tentar esquecê-la. Depois daquele dia eu parecia uma menininha apaixonada, passávamos todos os nossos momentos livres conversando e eu ficava ainda mais encantado por tudo o que ela era. era simples, vivia simples e o que eu mais gostava nisso tudo, era que ela não tinha a menor preocupação em tentar me impressionar. Até quando ela me mandava uma selfie, ela vinha completamente despida de interesse, mostrava não só o rosto, mas a alma em suas fotos e para mim isso a fazia ser a mulher mais linda do mundo.

Apesar do meu interesse, nunca achei que pudesse ter chances, tinha 27 anos e eu ainda era um moleque de 22. Quando tinha alguma folga, sempre dava um jeito de visitá-la e em nenhuma dessas visitas ela deu a entender que tinha algum interesse por mim. Mas tudo mudou entre nós em Agosto, quando, do nada, recebi uma mensagem perguntando se poderia ir ao meu show que aconteceria em New York, naquele dia. Ao abri-la, fiquei encarando o telefone que nem um idiota.

Naquela noite me senti inseguro como há muito tempo não me sentia. Era vendo o meu show! Pedi aos meus assistentes que a buscassem aonde ela estivesse e que fosse tratada como se fosse a Rainha da Inglaterra:

- Então é ela? - Mark, um dos meus melhores amigos e assistente, me perguntou assim que atendi sua ligação.
- Ela quem?
- A garota misteriosa que você tem em seu contato como “Hendrix” .
- Não sei do que você está falando.
- Ah, , por favor! Desde aquele dia que você sumiu por horas em Hamptons você fica babando pelos cantos, olhando pro celular que nem um idiota. Sem contar que, não estou reclamando, você parece mais...
- Feliz? – abri um sorriso que só notei estar em mim quando me olhei no espelho.
- Isso. Não queria soar tão depressivo, eu não tô nem ai se você tá amando, cara, eu só quero saber se essa que você me mandou buscar é a tal da Hendrix.
- Sim, ok, é ela – disse irritado – Por favor, tudo que eu mais peço nesse mundo é que não a vejam, eu jamais me perdoaria se a mídia descobrisse sobre ela, ela não merece esse mundo em que eu vivo.
- Pode deixar irmaozinh... Puta que pariu!!
- O QUÊ? Que foi? - perguntei assustado.
- Ela é ?
- Sim. Por quê?
- Estatura média, sorriso de derrubar o quarteirão e umas pernas q...
- MARK! - gritei irritado, chamando a atenção das pessoas no camarim.
- Que avião, meu garoto! Ela tá vindo na minha direção, com um vestido que eu acho melhor você não a ver antes do show, senão não vai conseguir se concentrar. Ela tá com mais duas amigas, são solteiras?

nunca havia me contato muitas coisas de sua vida antes de se tornar fotógrafa; enquanto eu lhe contava tudo sobre minha vida, ela era mais na dela. Nunca foi um problema para nós, a gente sempre encontrava sobre algo a falar, até os momentos de silêncio eram bons. gostava de achar as notícias mais estapafúrdias que escreviam sobre mim, fazer uma montagem no photoshop e me mandar, para que ao invés de me chatear, eu acabasse dando risada da situação.

Apesar do que Mark tinha falado no telefone, não tinha a menor chance de não vê-la antes do show; ficamos sem nos ver por quase um mês e a saudade que eu estava era demais para esperar um show inteiro. Queria fazer o meu melhor para ela se orgulhar de mim.

Ouvi sua voz antes de vê-la, e nada poderia ter me preparado para a mulher que tinha acabado de entrar em meu campo de visão. Estava tão acostumado com seus agasalhos e zero maquiagem que acho que nunca me dei conta de como ela era absurdamente linda. E então eu sabia que se antes eu tinha interesse nela, agora poderia afirmar que estava completamente apaixonado por alguém que provavelmente nunca iria me querer.

- Oi? – começou a falar, mas parecia decepcionada e eu não entendi muito bem o motivo – Está tudo bem? – perguntou me olhando receosa.
- Claro que sim. Por que a pergunta? – me aproximei dela para que ninguém ouvisse nossa conversa, apesar de saber que não tinha uma pessoa naquele camarim que não estivesse nos olhando.
- Você não queria que eu tivesse vindo? Eu...
- O quê? Mas de onde você tirou essa ideia? – a abracei da forma que eu sabia que ela amava, envolvendo meus braços por todo o seu corpo, como se pudesse protegê-la de todo o mal que tinha vivido – Eu estou super feliz que finalmente você veio ver meu show. Eu estava com saudades, muita.
- Eu também – ouvi sua voz abafada em meu pescoço e meu corpo reagiu, como sempre, a qualquer toque dela – Você estava com uma cara estranha quando entrei, achei que você não estivesse feliz em me ver.
- Eu só estava tentando me recuperar do choque de te ver assim, você está linda - me afastei um pouco de seu abraço para que pudesse olhar em seus olhos.
- Obrigada! – e então eu a vi corar pela primeira vez desde que a conheci. A encarei curioso e ela tratou de desviar do meu olhar rapidinho – Deixa eu te apresentar minhas amigas, Nicole e Maggie, nós estudamos juntas e eu finalmente as contatei; vim passar o dia com elas.

Ouvi-la falar sobre como tinha tido coragem de contatar seus antigos amigos me fez ficar tão feliz por ela. tinha receio de rever pessoas de seu passado, com medo de que após tudo que tinha vivido estragasse a percepção que tinha das pessoas que amava e que eles a achassem muito depressiva. Sabia que ela fazia terapia e cada atitude, por mais pequena que fosse, era um passo enorme em busca de sua paz.

me pediu para ver o show de frente, não ao lado do palco como era costumeiro. A coloquei junto com a imprensa e pedi a um de meus seguranças que ficasse com ela e suas amigas durante todo o show. Apesar de dar atenção ao meu público, não tinha um momento que não me voltava para ela, para tentar descobrir o que ela estava achando; parecia estar se divertindo bastante. Vê-la ali, no meu mundo, me fez perceber o quanto eu queria ela para mim.

dizia que era impossível escolher uma música favorita, mas sempre me pedia para cantar Purpose quando estava triste. Não pude fazer diferente e a cantei olhando em seus olhos.

Ver suas lágrimas fizeram com que eu também me emocionasse, e finalizei a música, misturando duas letras diferentes.

“You're the only reason why, oh
I don't wanna live a lie.
You give me purpose...”

Naquela noite, fomos todos para o meu hotel e fizemos uma festa com meus amigos e as duas amigas dela, que pareciam estar realmente se divertindo, mas nós mesmo, passamos a maior parte da noite no terraço da mesma forma de sempre, só nos dois.

- O que te deu para me ligar tão em cima da hora? Porque não me disse antes que estava vindo? Poderíamos ter passado o dia juntos – tomei coragem para perguntar o que vinha me incomodando desde cedo.
- Eu estava com medo de que nossa amizade fosse algo que você quisesse manter em Hamptons , eu precisei de coragem pra te ligar.
- Por que isso agora? Achei que não éramos assim.
- Por que você é o , e eu sou só eu, e não sei em que parte da sua vida me encaixo.
- Não fala meu nome desse jeito – murmurei um pouco chateado - Eu sou o que você conhece, e você, , se encaixa na melhor parte de mim, a única em que posso ser eu mesmo, sem ter medo de ser chamado de - usei o mesmo tom que ela.
- Desculpa, eu não quis te ofender.

se aproximou do sofá em que eu estava deitado e segurou em minha mão, em seu pedido mudo de desculpas. Foi impossível não olhar para suas pernas quando o vestido que ela usava subiu consideravelmente ao sentar-se ao meu lado.

- Você tem em partes razão, eu quis te manter em Hamptons , mas não porque você não se encaixa na minha vida. O que eu mais quero é te ter todos os dias perto de mim – respondi olhando em seus olhos e entrelacei meus dedos com os dela, vendo como sua mão parecia pequena junto a minha - Mas você mais do que ninguém sabe o que eu passo e eu jamais me perdoaria se a mídia soubesse quem é a do .
- Eu sou sua agora, é? - ela me perguntou encarando nossas mãos juntas e eu percebi que tinha deixado escapar as palavras que há muito sentia.
- ... - me sentei apressado com medo de ter estragado tudo - Me desculpa, eu...
- – Ela continuava com a mesma expressão calma de antes, o sorriso nunca saindo de seu rosto - Eu amaria ser sua.

Eu só percebi que devia estar paralisado com uma expressão de choque, quando ouvi gargalhar na minha frente. Com medo de ser apenas um sonho, decidi não deixá-lo se transformar em pesadelo, levei uma de minhas mãos para seu rosto e em sincronia, aproximei meu rosto do dela, na mesma velocidade em que ela se aproximou do meu. Quando ela fechou os olhos, repeti o ato, sem ainda acreditar o que estava prestes a acontecer.

Meus lábios tocaram os dela, sentindo todo o meu corpo se aquecer. Coloquei um dos meus pés no chão para trazê-la para mais perto de mim, a envolvendo com todo meu corpo, e pedi passagem para o beijo que eu mais quis dar em toda minha vida. Beijá-la era ainda melhor do que eu tinha imaginado e eu queria saber como faria no dia seguinte, quando eu teria que ir para mais uma cidade e ela voltaria para casa.

- Eu nunca achei que fosse ter chances com você – confessei depois de um tempo. estava agora deitada no sofá comigo, seu rosto em meu peito e meus braços ao seu redor.
- Eu nunca achei que fosse ter chances com você – ela repetiu minhas palavras e soltou uma risada leve; acabei a acompanhando - Pensei que você me visse como uma espécie de irmã mais velha.
- Eu precisaria repensar o significado de incesto nesse caso, ainda mais com esse seu vestido.
- Comprei ele hoje, fazia tanto tempo que eu não usava roupas assim, estava me sentindo insegura. E quando seu amigo nos buscou, parece que finalmente caiu a ficha de quem você é, só pra chegar ao camarim passei por umas 30 pessoas. E você me olhou de um jeito tão estranho, me senti de volta aos meus 15 anos.
- Me dá um desconto também, nunca te vi assim. Se antes eu já te achava linda, agora posso acrescentar também, muito gostosa – sussurrei o final em seu ouvido, vendo os pelos de seu braço se arrepiarem e sorri sozinho – Quando foi que um garoto como eu, ganhou uma chance com uma mulher como você?
- O dia que ela viu isso aqui – disse brincalhona, enquanto levantava um pouco da minha camiseta acariciando as minhas entradas com delicadeza, mas que foi o suficiente para que todo meu corpo reagisse ao seu toque e eu a apertasse um pouco mais contra mim – Eu estou brincando, claro que te ver sem camiseta é um bônus, mas um dia você me disse que ia estar na Ellen e ela fez alguma pergunta sobre namoradas e eu meio que fiquei com ciúmes.
- Você disse que não tinha visto! - a acusei, me deitando de forma que ficássemos lado a lado para que pudesse ver seu rosto enquanto ela falava.
- Eu menti, não queria conversar sobre o assunto. Lembra que disse que ia passar o dia fora e a gente se falava no dia seguinte? – balancei a cabeça em concordância – Eu tava em casa mesmo, demorei pra aceitar que tinha interesse em você, nós temos cinco anos de diferença e, bem, você é você, nossas vidas não poderiam ser mais diferentes. Eu confesso que tinha certo preconceito com isso também.
- E o que mudou agora? Porque não sei se você sabe, mas eu sou louco por você há muito tempo - confessei ao fazer um carinho de leve com as costas dos meus dedos em seu rosto.

fechou os olhos e abriu um sorriso tão cheio de paz, como se finalmente se permitisse demonstrar seus sentimentos por mim, que até então eu não sabia que existiam. Eu tinha percebido ela estranha na época, mas se eu soubesse que esse era o motivo, teria tomado uma atitude há muito tempo.

- Eu não sabia, só percebi agora pouco, quando você olhou descaradamente para minhas coxas, aí tive a certeza.
- Não pode culpar um homem, pode? Fica difícil resistir a isso – contornei seu corpo apenas com um dedo, deslizando pelo tecido fino do vestido que ela usava, até chegar a suas coxas, onde fiz um carinho por baixo da barra, sentindo sua respiração falhar, e sabia que a minha não estava muito diferente.
- Eu sei – imitou meu gesto e um de seus dedos brincavam com o elástico de minha boxer, que aparecia por cima da calça, e eu já até podia sentir meu amigo dando sinais de vida lá embaixo – Pensei muito e decidi que não sabemos o dia de amanhã, se essa amizade que temos hoje um dia acabar, eu pelo menos te tive só meu, nem que seja uma única vez.
- Você acha que vou me contentar em ter você só por hoje? Acho que preciso te contar todas as vezes que te olhei descaradamente e você não percebeu, ou então o que algumas das fotos que você me manda fazem comigo.
- E o que seria? - perguntou de uma forma tão sexy que minhas pernas chegaram a tremer, mas quando sua mão entrou por baixo de minha boxer, não pude responder pelos meus atos.

Aquele foi o dia que a minha vida pareceu finalmente entrar nos eixos, ter para mim era tudo o que eu mais queria, e agora que eu a tinha por inteiro faria de tudo para que ela fosse feliz, da mesma forma que me fazia. Eu já tinha amado algumas vezes, mas era diferente, ela era pura, corajosa, inteligente e, apesar de tudo o que passou, ainda enxergava amor em todo lugar, não deixava que o pessimismo tomasse conta de quem ela era em sua essência.

Nossos primeiros três meses juntos ficariam em minha memória para sempre, sabia que amaria pelo resto da minha vida . A cumplicidade, amizade e respeito que tínhamos um pelo outro refletiu em todos os aspectos da minha vida, e até minha carreira, que estava me consumindo, não parecia mais tão ruim assim.

Quando eu tinha certeza que não tinha chances, conseguia focar no trabalho, mas agora que a tinha para mim, confesso que não estava lidando muito bem com a distância. Seu beijo e seu gosto eram mais deliciosos do que qualquer coisa que eu já tenha provado na vida, eu a queria perto de mim a todo tempo.

ainda tinha seus medos, ela e seu companheiro precisavam de cuidados, e por mais que ela tivesse ido ao meu encontro algumas vezes quando mandei um avião buscá-la para que Hendrix pudesse vir junto, toda vez que ela voltava para casa ficava estranha. Até o dia que ela disse que não queria mais ir ao meu encontro e que caso eu realmente quisesse ficar com ela, faríamos da forma de sempre, quando eu pudesse, iria passar alguns dias em East Hampton .

Nós conversamos, e apesar de ter dito que o maior problema era como Hendrix regredia em seu tratamento na volta para casa, eu sabia que tinha algo a mais, e no dia que ela me disse que não via problemas se eu ficasse com outras pessoas nos longos períodos de tempo que passávamos separados, eu tive a confirmação de meus medos.

Precisar e não poder olhar no olho da pessoa que se ama e conversar sobre o que está acontecendo é uma das piores sensações que um ser humano pode sentir. Pensar que poderia ter finalmente percebido que não sou bom o suficiente, estava criando um buraco horrível em meu estômago, a dor que sentia chegava a ser física.

Era dezembro, e eu estava mais uma vez em sua casa, tinha conseguido dois dias livres e a primeira coisa que fiz, foi entrar em um avião, Hendrix latia bravo do outro lado da porta, mas assim que ouviu a minha voz logo parou.

- O que você está fazendo aqui? - perguntou assustada, sem abrir a porta por completo ou me cumprimentar da forma que o fazia sempre.
- Você trocou a fechadura? - retruquei irritado – O que está acontecendo com você? Se você não quer mais nada comigo poderia ao menos me fala, ao invés de praticamente me cortar da sua vida, nem teria vindo até aqui - disse completamente esgotado de uma semana repleta de trabalho, para chegar no meu lugar favorito do mundo e ser recebido dessa forma.
- Eu não fiz isso.

Seu rosto se contorceu em dor e quando Hendrix fez um esforço maior para abrir a porta e vir me cumprimentar, notei que estava mais magra desde a última vez que a vi. Ela finalmente abriu a porta por completo e nunca me senti tão sufocado naquele local, tinha tantas coisas para falar, mas no momento não sabia o que dizer. vinha com o chocolate quente que sempre fazia quando eu chegava tarde da noite.

- Desculpa por ter sido grossa - falou ao colocar as canecas na mesinha a nossa frente e sentou-se em meu colo, para minha surpresa – Eu me esqueci de como você é tão mais lindo pessoalmente – suas mãos seguraram o meu rosto e logo seus lábios estavam nos meus.

O alívio que eu senti, quando vi que a minha ainda estava ali, diferente, mas ainda a mulher que eu amava, minha melhor amiga, minha melhor pessoa, não poderia ser descrito.

- Linda é você. O que aconteceu? - segurei suas mãos na minha, observando a faixa no local.
- Surf! Fui com Josh há umas duas semanas e acabei me machucando - fez uma careta, provavelmente relembrando o acontecido.
- Não sabia que ele tinha vindo – comentei incomodado com um dos vizinhos dela que apareciam de vez em quando – Vocês... vocês estão juntos?
- ! - sua voz saiu mais alta que o normal, e acho que pela primeira vez, vi furiosa comigo – Como você pode me perguntar uma coisa dessa? É claro que não! - com pressa saiu do meu colo e pegou seu chocolate quente, me ignorando.
- Você mudou pra caramba, primeiro fala que não quer mais encontrar comigo quando não posso vir até aqui, depois me diz que posso ficar com quem eu quiser... o que você acha que vou pensar? Você sempre me contava quando saía pra surfar e até me mandava fotos, agora mal sei o que você faz.
- Você tem razão, a culpa é toda minha, eu tenho sido uma idiota. Nem parece que tecnicamente eu sou a mais velha da relação, eu não tinha a intenção de deixar as coisas ficarem assim entre nós dois.
- Eu não sei se aguento mais isso, , nem quando ficamos um mês sem nos ver, foi tão insuportável, quanto a distância que estou sentindo estando aqui, ao seu lado. Você vai me contar o que está acontecendo?
- Vou, eu prometo, mas amanhã, agora eu só queria ter você, , eu estava com tanta saudades.

Como eu poderia negar dar amor, quando eu queria e precisava da mesma coisa? me amava de uma forma indescritível. Seu corpo parecia moldado para caber no meu, ela tinha apenas uma pequena tatuagem de uma câmera fotográfica em sua costela esquerda, e eu amava ver quando estávamos juntos, o contraste de sua pele lisa, contra a minha toda rabiscada.

A intensidade de nossos momentos eram tão fortes, que mesmo sem trocarmos palavras, sabíamos tudo o que um queria dizer ao outro. Nosso relacionamento parecia transcender a um outro nível quando estávamos entregues aos nossos desejos.

Na manhã seguinte, após ficarmos a noite inteira grudados um no outro, preparei um enorme café da manhã e me deitei com na cama.

- Eu nunca seria capaz de te trair – começou a falar enquanto tomava seu chá - Por tudo o que passamos e conversamos, eu nunca vou te trair. Não como pessoa, não como meu amigo e não como seja lá isso o que nós temos. Você é a pessoa mais importante que eu tenho no mundo e eu nunca vou intencionalmente te machucar. O problema sou eu.
- Ah não, você não vai vir com o "o problema sou eu, não você", eu me recuso, , somos mais do que isso.
- Eu não vou – ela deu uma risada gostosa e acabei rindo junto com ela – Eu, eu nem sei como começar a falar isso pra você, sem te magoar, mas acho que devo a nós a verdade e eu espero que você me entenda e não se sinta pior... - seu olhar caiu no meu e pude sentir o ar escapar de meus pulmões.
- , você está me deixando com medo, dá pra falar logo?
- Eu não consigo me acostumar com o seu mundo, todas aquelas pessoas que trabalham com você, os olhares que recebo, a paranoia de que alguém vai descobrir que sou seu "affair" e meu nome vai aparecer nos jornais. Aposto que vão encontrar umas fotos horríveis minhas para postar nos maiores tablóides... Ainda bem que nunca mandei um nude, porque se tivesse, com certeza apareceria por aí, e tem minha carreira também, eu não sei que impacto isso teria, entende?
- Acho que agora você quem me entende, né? - comentei dando uma risada fraca, pois apesar dos avisos contrários, já sabia que a tinha perdido.

tirou a bandeja de cima da cama e sentou-se em mim, colocando uma perna de cada lado do meu corpo, trazendo suas mãos para o meu rosto, para que eu ouvisse suas próximas palavras sem distrações. Tomou tudo o que eu tinha dentro de mim, para focar apenas em suas palavras, e não no fato de ela estar nua sob mim.

- Eu acho que nunca tive mais orgulho de você, do que tenho agora, desde que comecei a ir a alguns de seus shows e ficar com você nos hotéis, que finalmente entendi tudo o que você vinha me dizendo há dez meses. Você não é um menino, você é um homem de apenas 22 anos, e agora eu sei o porquê eu te amo tanto, e não estou falando isso como apenas meu amigo.
- Você tá falando sério? – estava tão confuso com essa conversa, não sabia se ia sair daqui com uma namorada ou solteiro.
- Eu queria esperar você falar primeiro, mas acho que estou em falta com você.

Minhas mãos que descansavam em sua cintura, fecharam-se contra suas costas, a trazendo para perto de mim, para que eu pudesse beijá-la com força, antes de me afastar para responder.

- , eu nunca disse antes porque eu achei que era mais do que óbvio que eu te amo desde o nosso primeiro beijo. Eu quis dizer algumas vezes, mas com tudo isso acontecendo, acho que eu quis me proteger, eu não quero te perder, eu te amo tanto – finalmente confessei algo que ficava preso em minha garganta toda vez que a via – Mesmo sabendo que provavelmente essa vai ser a última vez que vou ter você assim, nua, dizendo que me ama, sendo só minha.
- Eu não quero isso – seus olhos estavam cheios d'Água e logo, lágrimas começaram a cair em seu rosto – Mas eu não sei como podemos fazer dar certo, nossos mundos são tão diferentes, eu não sei se você ficou com outras garotas, nós nunca combinamos de ser exclusivos, mas eu acho que éramos. Porém, todo dia aparece uma foto nova sua com uma menina mais linda que a outra, hoje em dia parece que todas já saem de fábrica parecendo a Kylie Jenner , fica difícil competir e manter a sanidade; ainda mais que elas estão lá ao seu lado, e eu estou aqui, no meio do nada, escrevendo um livro que revive todos os meus pesadelos. Eu não gosto de me sentir insegura assim e acho que estar com você dessa forma, significa exatamente isso.
- , está tudo muito errado, vem aqui – pedi me movendo para que ela saísse de cima de mim e a puxei para o banheiro, onde tinha um espelho de corpo inteiro. A coloquei em frente ao objeto e a abracei por trás – Você está vendo essa mulher aí no espelho? Ela é a mulher mais linda, maravilhosa e gostosa que eu já tive em toda minha vida. Eu sou tão loucamente apaixonado por ela que não tem uma única mulher em todo o mundo que eu ache mais bonita, e eu nem estou falando desse corpo que me deixa maluco só de pensar nele - pressionei meu quadril contra o dela, apenas para ela saber que cinco segundos de contato entre nossas peles, eram mais do que suficiente para que meu corpo reagisse ao seu - Eu estou falando de como meu coração bate mais forte quando vejo que tem uma mensagem nova sua no meu telefone, como eu só penso em você quando estou compondo uma música, como posso estar rodeado de todas as mulheres do mundo e até a própria Kylie, que nenhuma vai me satisfazer como homem, como pessoa, como amigo, da forma que você faz. Eu fiz uma coisa...
- O quê? – apesar de seu rosto estar marcado pelas lágrimas, podia ver um sorriso tímido querendo sair, quando se virou para mim curiosa.
- Isso – levantei meu antebraço onde encontrei um espaço para tatuar Hamptons – Não importa o que aconteça com nós dois, claro que eu quero ter você ao meu lado pra sempre, mas se isso não acontecer, eu vou me lembrar de você e desse lugar pro resto da minha vida. Eu sei que não posso fazer muito pra que você acredite em mim, mas nunca menti pra você, minhas palavras são tudo que eu tenho, e eu quero te dar tudo de mim de todas as formas que conseguir, não sei como você ainda não se tocou que você é o único motivo pelo qual eu não quero viver uma mentira , você me mantém verdadeiro com você, comigo mesmo, e meus princípios. Eu só consigo viver no mundo lá fora, porque eu sei que dentro dessas quatro paredes, eu tenho você. Eu sei que não é fácil ver as fotos sugestivas que postam por ai, mas me dá uma chance? Confia em mim, por favor?

***

Passamos o Natal juntos, apenas nós dois e Hendrix . Combinamos de passar a semana anterior com nossas famílias e no dia 25 de manhã nos encontramos para seguirmos juntos para o nosso local. Meus pais sabiam da existência de e me davam todo o apoio; minha mãe estava doida para conhecê-la, já tinha mostrado algumas fotos nossas para ela, e até tiveram uma conversa no telefone quando a velha conseguiu roubar meu telefone e sair correndo.

Por mim esse encontro já teria acontecido, mas ainda tinha seus medos em relação a conviver com a minha fama e apesar de estar disposto a assumi-la em público e fazer o que fosse necessário para que ela fosse poupada do caos, ela precisava de mais tempo, e eu estava disposto a esperar por isso.

No meu aniversário de 23 anos, a intenção era passarmos juntos, mas tive compromissos de trabalho e, embora irritado, conversei com e ela pareceu entender. Estava em Miami e Mark alugou um iate para passarmos o dia em grande estilo, longe de tudo e todos. Quando já estávamos em alto mar, meu assistente disse que tinha um presente da no quarto principal. Desci apressado e quando abri a porta, quase tive um ataque cardíaco: estava ajoelhada na cama, apenas com um biquíni branco, um laço nos cabelos e o quarto inteiro recheado de balões dourados.

- Feliz Aniversário, !!! - o mesmo tom que ela usava para rir da minha cara estava presente em sua voz – Você me disse que não queria nada nesse aniversário além de mim embrulhada pra presente e eu adoro realizar os seus desejos, .

Eu devia estar com a maior cara de otário da história. Já fazia mais de meia hora que tínhamos saído e todo esse tempo em que nos falávamos por mensagem ela estava há poucos metros de mim, vestida deliciosamente com o biquíni mais sexy que já tinha visto em toda minha vida.

- Não vai abrir o seu presente? - me tirou de meus próprios pensamentos e tranquei a porta antes de correr pra cama para aproveitar o meu presente pelo resto do dia.

Apesar de já ter conhecido Mark e algumas das pessoas que estavam comigo no iate, conversava com todos que se aproximavam dela e tirava fotos a todo o momento. Era a primeira vez que estávamos juntos, como um casal, em público, e o orgulho que eu estava da minha garota era indescritível. Ela parecia estar lidando bem com toda a atenção voltada pra ela. Era meu aniversário, mas ver as pessoas que eu mais confiava no mundo, a fazendo se sentir em casa, era o melhor presente que eu poderia ganhar.

***

passou os próximos dois dias comigo e, como o destino era engraçado, não foi até ela chegar em casa que as notificações começaram a aparecer. Claro que eu não tinha como saber, já que meu Instagram era desabilitado para isso, mas primeiro foi a forma que Mark me acordou, com cuidado, ele nunca fora bonzinho antes. Desconfiado, apenas peguei o celular que ele oferecia, vi uma montagem com duas fotos no dia do meu aniversário, em uma estava abraçando por trás, enquanto beijava seu pescoço e ela dava o sorriso mais lindo do mundo, a segunda era logo depois, quando ela se virou para me beijar e suas mãos faziam carinho na minha nuca e eu a abraçava pela cintura.

As fotos eram lindas, mas eu só conseguia sentir o buraco se formando em meu peito, metade de mim era dor e a outra metade era puro ódio.

- , man , desculpa, cara, a gente não sabe quem vazou essas fotos, mas o grupo já está tentando descobrir, seja quem for, está fora – eu confiava minha vida naquele grupo e saber que um deles tinha traído minha confiança só me fazia me sentir mais decepcionado com tudo que a minha fama trazia. O que a pessoa ganhava com isso? – Eu posso falar com a se você quiser, aliviar sua barra.
- Essa eu preciso fazer sozinho, irmão, valeu!

Mark era um dos meus doze amigos que faziam parte do meu entourage. O conheci há alguns anos e de cara nos demos bem, ele sempre teve minhas costas em todos os momentos que precisei e ajudava a passar despercebida quando ela vinha me encontrar; muitas pessoas acreditavam que ela era de fato, namorada dele.

- Até que a minha bunda saiu bonitinha, não acha? - foi a primeira coisa que ouvi, quando atendeu o telefone – Acho que se derem um zoom vão ver a marca da mordida que você me deu.
- Como você tá? Eu... eu sei que não tem nada que eu possa dizer para que você me perdoe, mas, amor, eu sinto muito, mesmo, me diga o que você quer que eu faça, que eu faço, qualquer coisa.
- , relaxa, eu, sei que não é sua culpa, eu estou na verdade triste por você, sei o quanto aquelas pessoas eram para ser de confiança, eu queria saber como você está primeiro.
- Decepcionado, cansado... sei que você sempre me pede para continuar buscando forças, que se eu desistir de tudo vou me arrepender, mas, quando alguém que é para ser de confiança, me trai dessa forma... e eles mexeram com você, – fechei minha mão em punho, tentando controlar a raiva que eu sentia - Se fosse qualquer pessoa no mundo, se fosse eu mesmo, não teria problemas, mas mexeu com minha família ou você, eu não respondo por mim.
- Não fala assim, , pelo que entendi não sabem quem eu sou, talvez seja só isso, mais um caso do que vai a público. Podemos esperar uns dias e ver no que dá?
- Você é incrível, já te disse isso? - fechei os olhos e sorri ao saber que tudo estava bem.
- Não me importo que você repita isso algumas vezes – ela me respondeu e eu podia ver seu sorriso enquanto falava comigo.
- Sua bunda realmente saiu bonita na foto. Eu deixei uma marca mesmo? Fica difícil me controlar ao seu lado e eu achei que como era meu aniversário eu podia aproveitar todo o meu presente... - Deus, como eu queria aquela mulher ao meu lado naquele momento.
- Está uma marca roxa ainda, mas logo deve sair, eu te fiz um presente na verdade, mas tá aqui em casa, para a próxima vez que você vier.
- Eu te amo, – foram as únicas palavras que encontrei em minha mente para lhe dizer.
- Eu te amo, sorria ao repetir minhas palavras, provavelmente imaginando o porquê de eu ter dito isso nesse momento.

***

Dizem que depois da tempestade sempre vem a calmaria, mas no meu caso eu devia ter previsto que sempre que há um longo tempo de calmaria, logo chega a tempestade.

Esperar uns dias tinha sido um erro, logo os fazem nada de plantão encontraram várias fotos da próxima a mim e, conforme ela tinha previsto, essas fotos agora faziam parte de uma montagem, e todos os sites de fofoca decidiram postá-la em sua primeira página. Agora era questão de horas para que descobrissem o seu nome.

Eu até que estava de certa forma tranquilo com tudo isso, poderia ser uma forma de se ver obrigada a sair de seu casulo e talvez, mas só talvez, descobrisse que era possível sim sermos namorados de verdade, para todo o mundo. Eu já tinha perdido as contas de quantas vezes pedi para ela ser minha namorada, em todas ouvi um "ainda não".

As minhas chances diminuíram consideravelmente, quando recebi a seguinte mensagem dela:

, lembre-se que eu te amo, muito, mas eu preciso de um tempo para entender o que isso tudo significa para mim -pessoalmente e profissionalmente. Meus pais me ligaram, se isso chegou a eles, não vai demorar para chegar ao mundo. Deletei minhas redes sociais por precaução, não me procure, eu... prometo que vou te procurar assim que colocar minhas ideias no lugar. Fica bem, estarei pensando em você.

Eu liguei, todos os dias, e ela realmente não me atendeu. Sabia que não estava em Hamptons, pois pedi para que um amigo em comum fosse visitá-la, mas a casa estava fechada. Recebia uma mensagem sua a cada três dias, apenas para me garantir que estava bem e pensava em mim. Eu já não sabia o que era não pensar nela. Chorei, chorei como há muito tempo não fazia, de raiva, saudade, medo. Se eu a perdesse por conta da minha fama e de suas consequências, não sei o que seria capaz de fazer.

Não demorou para o nome e sobrenome dela estarem nas páginas de todos os jornais. Mais fotos começaram a surgir, estava linda em todas elas. Seu trabalho também veio a tona e muitas pessoas se perguntavam o que ela poderia ter visto em mim. Eu entendia, eu também não sabia.

Pareceu quase um mês, mas, menos de duas semanas depois ela me ligou:

- Me fala que você está bem, por favor? - supliquei ao atender sua ligação, sem nem me dar conta que uma lágrima caia de meu rosto.
- Eu estou, e você? - ela respondeu em um sussurro e logo ouvi um soluço do outro lado da linha – Eu estava com saudade da sua voz.
- Eu estou com saudade de você inteira. Onde você está?
- Na casa dos pais do Jeff.
- O dono do Hendrix? - perguntei curioso, mas aliviado por saber que ela estava bem e em um lugar seguro.
- Ele mesmo, os pais dele queriam conhecer o Hendrix há tanto tempo, quando as notícias começaram a aumentar, eu entrei em contato com eles e aqui estou.
- Quando eu posso te ver?
- Não por um tempo , eu... preciso fazer algo por mim e gostaria que você entendesse.
- Eu posso tentar... Isso envolve você terminar comigo?
- Não sei – sua voz hesitou um instante – Eu estou indo para a Síria, amanhã.
- Por quê? - foi a única coisa que consegui pronunciar depois de um longo silêncio, meu coração se contorceu em meu peito - Você disse que não queria mais voltar.
- Eu não queria quando não sabia que eu nunca mais poderia ir, mas agora, com tudo isso, eu não sei como vai ser. Conversei com a agência, é a minha última chance. Eles disseram que ou eu vou agora, que ainda está no começo do meu nome e rosto estarem na mídia sensacionalista, ou não vou nunca mais, e essa é a minha missão , eu preciso fazer isso, nem que seja a última vez. Essa é a profissão que eu escolhi pra mim, o que eu amo fazer, mas que nunca mais vou poder exercer pelo que nós somos e eu tenho que aceitar isso, mas não sem essa última luta.
- Mas e se acontecer alguma coisa com você? - perguntei o óbvio. Estava no quarto do meu hotel, não sei se teria condições de ter uma conversa dessa num estúdio ou no meio da rua, o nó em minha garganta crescia a cada segundo.
- Amor, se for minha hora, pode ser na Síria ou atravessando a rua. Eu sei que se for lá pode acontecer de eu ser estuprada e torturada antes, mas é algo que eu aceitei quando decidi seguir essa missão cinco anos atrás. Eu só preciso que você não se culpe, não nos culpe, se algo realmente acontecer, só saiba que você será a última pessoa que eu vou ver. O seu sorriso, estarei pensando no seu sorriso.
- Não fala isso, , nem de brincadeira. Quanto tempo você vai ficar? - as luzes estavam apagadas, eu estava sentado no chão, com as costas apoiadas na cama. Sabia que quando desligasse essa ligação, eu não saberia como, nem quando, me levantaria desse lugar.
- Eu não sei muito bem, acho que dois meses, depende dos conflitos, se for seguro eu me movimentar entre as regiões, tudo depende do que estiver acontecendo.
- E o Hendrix?
- Os pais do Jeff vão ficar com ele. Me parte o coração, mas acho que os pais dele encontraram no Hen uma forma de suprir a saudade do Jeff. Mesmo eu voltando, não vou buscá-lo, eles se merecem; o Hendrix precisa de alguém que possa ficar com ele o tempo todo, e a Martha e o George são aposentados. Quando eu voltar, eu pensei que talvez pudesse ficar um tempo com você?
- Você está falando sério, ? - eu queria sorrir, mas não tinha forças, tudo que eu conseguia pensar era que ali estávamos dizendo nosso adeus e que eu nunca mais a veria.
- Por que você nunca acredita em mim? Eu estou falando sério, estou indo por nós dois, , eu, eu quero tentar, quero ver se nós podemos dar certo, mesmo você sendo o fez sua voz de sempre e eu acabei não conseguindo segurar mais e comecei a chorar o mais silencioso que eu consegui, para que ela não percebesse. Eu sentiria sua falta dia sim e o outro também - Você sacrificou um ano inteiro por mim, viajando de todos os lugares inimagináveis para me ver, eu acho que posso sacrificar um ano inteiro por nós. Não foi você quem me disse que se pode escrever um livro de qualquer lugar do mundo?
- Eu vou estar aqui, esperando. Promete que volta logo?
- Sobre isso, não me espere, eu estou terminando tudo o que nós temos, não quero que se sinta preso ou culpado, se o pior acontecer. Continue vivendo, meu amor, e eu prometo que vou dar tudo de mim para voltar, tudo bem? E nós continuaremos de onde paramos. Me promete que vai ficar bem e que não vai me esperar?
- , não me pede isso, por favor! - não consegui segurar meu soluço, já não me importava mais que ela soubesse o quão desesperado eu estava para que ela não fosse.
- , você precisa me deixar ir, senão isso vai te corroer por dentro. Só promete pra mim que vai ficar bem e vai se cuidar? - Eu prometo, , eu te amo e sempre vou te amar.
- Eu também te amo, muito, não esqueça disso – e então ela desligou o telefone e eu finalmente me permiti soltar tudo que estava preso dentro de mim.

***

Eu não conseguia imaginar como era viver a vida esperando a pessoa que se ama voltar da guerra como muitas esposas e maridos faziam todos os anos. Nesses dois meses, eu sentia falta de todos os segundos do meu dia. Minha mãe, que era uma das poucas pessoas que sabiam onde ela estava, ficava de olho nas notícias para mim. Para sua segurança, estava usando um pseudônimo durante a viagem e meus publicitários estavam soltando pequenas informações inúteis, apenas para acalmar a imprensa e meus fãs. Eu me recusei a responder qualquer coisa que fosse ligado a ela.

Apesar de todo esse cuidado, não nos falamos uma vez se quer, se não fossem as fotos e mensagens que eu tinha guardado, podia até jurar que a tinha inventado.

Certo dia, eu estava com tanta saudade que fui para Hamptons passar o dia. Precisava de um pouco de normalidade, da paz que eu encontrava somente lá.

A casa estava da forma que eu me lembrava, até a cama de Hendrix estava no mesmo lugar. Arrumei as flores, mesmo sabendo que ela não as veria, reparei que em cima da mesa de centro tinha um pacote embrulhado com minhas iniciais, me lembrei que ela tinha dito que tinha um presente pra mim em casa, e o abri.

Eram fotos minhas em preto e branco que ela havia tirado ao longo de nossa amizade e relacionamento. Ela sempre me disse que eu precisava começar a me ver pelos olhos dela e agora eu sabia o porque, em todas eu estava sorrindo, em paz, livre e feliz. Ver aquelas fotos me fazia querer continuar a me sentir assim o tempo todo. Na última página, era uma foto dela que eu tinha tirado na varanda, tinha apenas um cobertor envolta do corpo e seus cabelos estavam soltos; bati a foto no momento que ela sorriu ao me ouvir dizer que a amava. Dizia para ela que se um dia ficasse cego, era aquela imagem que gostaria de me lembrar dela pro resto da minha vida.

Quando voltei pro trabalho, Mark me entregou um envelope com a maior cara de quem estava aprontando.

- Eu sei que você vai querer me matar por isso, mas a antes de viajar, me pediu um endereço para caso ela conseguisse te mandar notícias, nunca comentei porque nunca recebi nada, mas minha mãe me mandou isso via FEDEX ontem a noite.

Abri o envelope desesperado. O conteúdo era apenas uma foto, uma única foto, mas que me fez suspirar aliviado e chorar que nem uma criança. Era a foto de uma criança humilde, que parecia passar necessidades básicas, usando uma camiseta enorme com meu rosto estampado, uma que eu sabia que usava de vez em quando. Sorri ao notar que atrás da criança tinha o vidro de uma loja todo quebrado, mas em alguns pontos dava para ver a fotógrafa. Eu sabia que aquela foto tinha sido pensada com todo cuidado para que eu a visse, não havia nada escrito no verso, era uma artista, e sua mensagem estava ali na foto: "Eu estou bem e continuo pensando em você".

Mark me abraçou enquanto eu ainda encarava aquela foto, renovado de esperança.

***

Fora no exato dia que completavam quatro meses da nossa última conversa, que meu celular tocou. Eu estava em estúdio gravando uma colaboração, quando Mark me passou a ligação:

- , ei, cara, aqui é o Tommy, irmão mais velho da , nos conhecemos em um de seus shows no ano passado.
- Ei, claro que lembro! – eu até queria ser simpático, mas não conseguiria até ter certeza do que ele queria me falar - Está... tudo bem? A está bem?
- Ela está viva, bem eu já não sei, está voltando pra casa nesse final de semana.
- Como assim? O que aconteceu? - fiz sinal para que interrompessem a gravação e sai do estúdio para um local isolado. Mark foi atrás de mim com um olhar de interrogação e preocupação, não o impedi.
- A agência tinha perdido contato com ela há um mês, mas a encontraram faz uma semana em um hospital em Safed, Israel. Eu não sei o que aconteceu, os relatórios que eles receberam do hospital eram muito precários, mas ela passou por algumas cirurgias e quando acordou conseguiu contatar a embaixada. Ela tá vindo em um avião do exército e pediu para ir para Hamptons, pediu para não te avisar, mas sei lá, cara, achei isso errado e você tinha me dado seu telefone aquele dia.
- Por, por quê? - perguntei atordoado, mil motivos inundando minha mente do porque ela não queria que eu soubesse que ela estava viva.
- Pelo que eu conheço da minha irmã, ela deve ter se machucado bem feio, ela não gosta que as pessoa a vejam enquanto ela não está 100% bem de novo. Não contei pros meus pais que ela está voltando, porque eles já tem problema de pressão por conta da profissão dela, vou esperar para vê-la antes de falar alguma coisa, só falei que ela está viva, mas acho que sua saúde tá em dia para saber a verdade.
- Está sim – sorri fraco – Valeu, cara, quando ela chega?
- Eu vou com a nossa irmã pegá-la na sexta a noite. Talvez fosse bom você aparecer sábado de manhã?
- Estarei lá! Obrigado, Tommy, de verdade – desliguei o telefone e apesar de Mark estar do meu lado, gritei o mais alto que pude – Ela está vindo pra casa!!!

***

Passei pela porta da varanda e pude ver de costas para mim, ela estava com Sara, sua irmã mais velha, gêmea de Tommy. Sara apenas sorriu ao me ver e apertou a mão da irmã, enquanto se levantava para nos deixar a sós. Eu nunca a tinha conhecido, mas ela me deu um leve apertão no ombro antes de passar por mim e eu imaginei que era para me preparar para o pior.

Meu coração parecia querer sair pela boca. Me aproximei com calma e a primeira coisa que vi foram os olhos cansados e sem vida de , seu rosto estava um pouco inchado, com alguns arranhões e marcas, mas essas já eram quase imperceptíveis. Ela pareceu finalmente me ver e seus olhos se encheram de água, antes de virar o rosto para o lado aposto.

- , por favor, olha pra mim – me agachei a sua frente, segurando uma de suas mãos na minha e com a outra, toquei em seu queixo para que ela se virasse - Não faz isso comigo.
- Eu vou matar o Tommy – ouvi ela dizer baixinho, parecia fazer um esforço maior do que o normal para falar – Eu não queria que você me visse assim – disse, finalmente me encarando, e as lágrimas caindo sob seu rosto.
- Assim como? Será que algum dia você vai acreditar que eu não consigo achar outro adjetivo para você que não seja linda? Eu sei que você se machucou, está frágil, emagreceu, mas você ainda continua igual aqui dentro, não? - apenas assentiu.
- Eu senti tanto a sua falta. Eu tinha isso comigo o tempo todo – tirou a mão debaixo da leve coberta que estava sob seu corpo e me mostrou uma foto dobrada em quatro nossa, já completamente destruída – Lembra quando eu disse que o seu sorriso seria a última coisa que eu veria? Eu estava certa, você estava lá, eu te vi. - seus olhos se fecharam e seu corpo todo tremeu, provavelmente se lembrando do ocorrido.
- O que aconteceu? Você quer me contar? Se não se sentir pronta, eu posso esperar.
- Foi em Aleppo, você talvez tenha ouvido falar nos jornais. Eu estava brincando com algumas crianças com uma bola furada que encontrei e tirando fotos, quando tudo explodiu. Eu não lembro de nada, apenas do som e de acordar no hospital.
- O que aconteceu aqui? - perguntei tocando de leve em seu pescoço onde tinha uma cicatriz grande e vermelha.
- Os médicos disseram que provavelmente um debri da explosão fez o corte, tive sorte, mas ainda dói para falar, preciso fazer pausas ao longo do dia.
- Aonde mais dói? Eu quero muito te abraçar, , nem acredito que você está aqui, na minha frente.
- Pode abraçar, , eu acho que estou precisando - ela respondeu com um sorriso fofo e não aguentei ouvi-la dizer meu nome, depois de tantos meses sem sequer ouvir sua voz.

Com cuidado, a envolvi em meus braços e foi então que chorou, chorou como nunca tinha visto. A peguei com todo o cuidado do mundo no colo e me sentei no sofá maior que ficava ali, fazendo carinho em suas costas, enquanto ouvia a mulher da minha vida tirar de dentro de si, tudo que lhe fazia mal. Logo, seus irmãos se juntaram a nós e esperamos que ela se acalmasse para contar o que tinha acontecido.

Quando ela acordou no hospital, descobriu que quase perdeu metade do pé, os médicos conseguiram reconectá-lo ao restante de seu corpo, mas ela precisaria de provavelmente mais algumas cirurgias antes de ter certeza que tudo estava bem. Parte de sua perna tinha uma queimadura enorme de terceiro grau e pelo seu corpo era possível ver outras queimaduras de menor intensidade, mas, graças a Deus, todo o resto era superficial e com o tempo seriam apenas lembranças. Apesar de relutante, e após uma discussão onde seus dois irmãos me apoiaram, concordou em me deixar pagar por todo seu tratamento. Eu gastaria o que fosse necessário para que ela tivesse acesso aos melhores especialistas do mundo.

Por conta das dores, dormia a maior parte do dia, mas eu não me importava, por mim a olharia dormir, ali ao meu lado, viva, pro resto da minha vida.

- Eu amo o seu cheiro – ouvi sua voz e me virei para ela na cama, abrindo um sorriso.
- E eu amo você. Está com dor?
- Sempre – ela abriu os olhos e um sorriso doce apareceu, não pude evitar em colar meus lábios nos seus – , eu nunca mais quero voltar. Eu não sei como o mundo pode dar as costas para o que acontece e eu não estou desistindo da causa, mas não vou voltar.
- Eu fico feliz em saber, eu sei que é sua profissão, mas eu nunca mais quero te ver assim.
- Eu já tinha visto muita coisa, mas aquelas crianças... Eu só consigo me lembrar de seus sorrisos, das gargalhadas enquanto jogávamos bola e saber que provavelmente estão todas mortas ou machucadas em algum lugar... Eu não consigo parar de pensar nelas.
- Nós podemos tentar descobrir? Eu posso fazer uma doação para o tratamento deles, o que for, só me falar, que é seu.
- Lindo! - ela me deu um beijo e se contorceu em dor – Acho que estraguei meus planos de te seguir por aí, com esse pé walking dead não vou poder te acompanhar. Você me perdoa?
- Eu não tenho o que te perdoar, você está viva, era tudo o que eu queria, você prometeu que ia fazer de tudo para voltar pra mim e você voltou. O que é mais um ano distantes, se isso significa ter você? Ainda mais que você aceitou se tratar na Califórnia, você vai até se cansar do tanto que vai me ver.
- Você manteve sua promessa?
- ... - fiz uma careta
- Eu quero saber, , por favor
- Mantive – abaixei os olhos com vergonha de encará-la – Mas foram casos de uma única noite, não tem ninguém além de você aqui – indiquei o meu coração.
- Que bom, porque você é só meu a partir de agora.

***

- Hey !! – Mark passava a mão na minha frente, então tirei meus headphones para ouvir o que ele me dizia – Aonde você tava? Num certo quarto de hospital na Califórnia? - encarei o local ao meu redor e me vi de volta ao meu camarim em Austin, Texas.
- Mark, eu preciso de um favor.
- Se eu puder resolver em 10 minutos, precisamos ir pro palco – ele me encarou enquanto eu me levantava.
- Um vôo amanhã para LA e um espaço no programa da Ellen.
- Ma...
- Mark, eu não vou repetir, faça acontecer – e pelo meu olhar ele sabia que a conversa estava encerrada e não tinha nada que ele pudesse me dizer para me convencer do contrário.

estava no hospital há duas semanas, se recuperando da segunda cirurgia no pé e uma plástica em sua perna, ela seria liberada no dia seguinte para se recuperar em casa e eu sabia que precisava fazer isso, senão jamais me perdoaria.

No dia seguinte, conforme sabia que Mark faria acontecer, estava sentado na poltrona que eu mais amava. Ellen era uma verdadeira amiga e não se importou em trocar todo seu roteiro para me atender.

- Você me pediu esse espaço hoje, não é verdade? - concordei - Confesso que estou bastante curiosa para saber que anúncio é esse que você quer fazer.
- Obrigado, Ellen, eu sei que posso contar com você sempre. Acho que você e todo mundo sabe sobre a minha namorada, Campbell...
- Namorada? Então é oficial?
- Sim, finalmente é - sorri imaginando que estaria me xingando de todas as formas possíveis no hospital - Como todos já devem ter visto por aí, é fotógrafa de guerra e esse tempo que ela esteve sumida, ela estava em Aleppo cobrindo os atentados – o telão atrás de mim mostrava uma foto nossa que eu havia dado para a produção.
- Isso é incrível, . Estava comentando com a Portia outro dia, ela deve ser uma pessoa incrível de se conhecer e conversar.
- Ela é realmente incrível, ainda me pergunto aonde foi que acertei – sorri para Ellen – A se machucou bastante nessa última viagem e vai passar por um tratamento longo e doloroso até se recuperar. Então ontem eu me lembrei que um dia eu prometi a ela que minhas palavras eram tudo que eu tinha e que eu iria dar tudo de mim de todas as formas que conseguisse para vê-la feliz. Por minha causa, não é seguro que ela volte a cobrir os conflitos, algo que ela tem como missão de vida, para mostrar pra gente aqui que há pessoas e crianças, como nós, morrendo dia após dia e que isso não deveria acontecer. A me ama o suficiente para aceitar que essa fase da vida dela não vai ser mais a mesma, mas eu continuo aqui, tendo a mesma vida de antes, sendo que ela é a única que sofre todas as consequências e eu não vou me permitir perdê-la, não depois de tudo que passamos juntos. Hoje eu vim aqui por mim e por ela, para finalmente agir, ao invés de ficar somente nas palavras. Apartir do mês que vem, estou dando um tempo na minha carreira por um ano, para cuidar da mulher que eu amo e que cuida de mim também.

Meu celular não parava um minuto sequer de tocar, Mark estava com a maior cara de pânico do mundo e eu nunca me senti tão livre como me sentia naquele momento. Eu estava indo direto pro hospital, com um presente para . Nada nem ninguém me faria mudar de opinião, ela era definitiva.

Eu amava meus fãs, a música, mas já fazia tempo que eu precisava de um tempo só meu e foi a chama que faltava para fazer essa vontade acontecer. Eu voltaria, jamais seria capaz de deixar de lado o que eu mais amava fazer no mundo, mas só daqui um ano.

- Eu vou te matar! - foi a primeira coisa que falou quando eu abri a porta de seu quarto – Como você não me avisa uma coisa dessas? - reclamou fazendo uma careta.
- Eu também te amo, linda – ri de sua cara feia e lhe dei um beijo, ignorando seus resmungos – Eu trouxe um presente para você, acho que para nós.
- O quê? - perguntou curiosa e eu terminei de abrir a minha mochila de onde tirei um pacotinho preto e peludo.
- Meu Deus!!! - o sorriso que ela abriu era ainda maior do que eu imaginei, já com os braços abertos para que eu lhe desse o filhote - É um Lulu da Pomerânia? Como você entrou com ele aqui?
- Escondido? - ri da cara que ela fez – Pensei que ele poderia se chamar Jimmy sabe, como Hendrix? E um cão pequeno seria mais fácil de levar em um avião do que um pastor alemão.
- Eu amei, vai me fazer bastante companhia enquanto me recupero. Mas, , você tem certeza disso? Você sabe que nunca te pediria para fazer algo assim, desistir de tudo, por minha causa.
- É exatamente por você nunca ter me pedido nada em troca que eu estou fazendo isso por nós. Você sempre me incentivou a continuar minha carreira, mesmo sabendo como uma parte dela me machuca, você me olha e me respeita como um ser humano, você me ama por quem eu sou, me amou o suficiente para me deixar livre quando você achou que não fosse voltar para mim. Eu não sei se conseguiria ser altruísta o suficiente para te deixar livre para conhecer outros caras, desde aquele 17 de fevereiro que eu te considero minha e pretendo fazer de tudo para que voce nunca se arrependa de ter feito essa escolha.
- Eu te amo, sorriu da cara que eu fiz ao pronunciar meu nome daquela forma de sempre e caímos na gargalhada.

É, eu realmente tinha feito a escolha certa.

I won't let me lose you And I won't let us just fade away





Fim.




Nota da autora:

Meu Deus, essa era para ser uma shortfic de apenas 15 páginas, que planejei escrever em 2 dias, mas me apaixonei tanto pela história que estou terminando ela uma semana depois com 40.

Eu fiquei MUITO apaixonada por essa história e os personagens, espero que tenham gostado.

Beijos, Carol







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