Finalizada em: 04/10/2020

Prólogo

PRESENTE

O som extremamente alto da música me ensurdecia e as luzes vacilantes, coloridas e irrequietas me cegavam, mas eu ainda não podia ir embora. Olhei em volta, não conseguindo ver nada além de fumaça, mas então senti um corpo se colando ao meu.
Que merda?
Contudo, eu nem precisei me virar para saber quem era o dono de tal corpo, pois os efeitos que aquela proximidade causou em mim foram o bastante para confirmar que eu sabia quem estava ali.
– Você por aqui?
– Te pergunto o mesmo – sua voz rouca, grave e absoluta e inegavelmente sexy atravessou todo meu corpo, deixando minha pele toda arrepiada.
Ele sabia bem o efeito que sua voz exercia sobre mim e meu corpo.
Filho da puta. – Sempre achei que essas boates eram livres. Não preciso de motivo algum para vir para cá, ao contrário de você.
– Você sabe o porquê.
– E que culpa tenho eu se você acreditou em mim? – sorri de lado, bebendo um gole do que estava em meu copo.
– E suponho que você ache que eu vá deixar as coisas assim?
– E não vai?
– Claro. É muito fácil ignorar o fato de que você me roubou.
– Não é como se eu fosse a única que estava roubando. – Revirei os olhos
– Ok, você está certa. Mas nós dois fizemos aquilo juntos, eu te ajudei e você me prometeu uma parte nos lucros.
Certo de novo, mas ao mesmo tempo tão errado.
– Fala como se não tivesse feito o mesmo comigo em Berlim.
– Isso é passado.
– Se você quer ver desse jeito, vá em frente. Seguindo pela lógica, ontem também é passado. – Sorri cínica em sua direção.
Tomei um gole da minha bebida, sentindo o álcool queimar minha garganta conforme eu ia engolindo-o. Tentei me concentrar apenas nessa queimação, que já me era tão familiar, mas seu calor, sua presença, continuava ali, me impedindo de fazer ou pensar em qualquer outra coisa que não fosse ele.
Já pode ir embora, agora. Não vai conseguir nada de mim.
– Você literalmente me fodeu, . Jogou comigo para que fizesse esse trabalho sujo para você e quando eu baixei minha guarda um pouco você aproveitou para bancar a filha da puta que é e foi embora com tudo que nós roubamos. Eu tinha direito à uma parte! Você me prometeu, porra!
– Para de agir como uma criança mimada, caralho. Eu também tinha direito à uma parte daquela grana preta que descolamos no semestre passado e o que foi que recebi mesmo? Ah, claro. Uma transa seguida por um grande nada, já que foi embora antes mesmo que eu acordasse. Portanto, espero que você se sinta exatamente do jeito que me senti, seu idiota. – Cuspi as palavras na sua cara em tom baixo o bastante para que as pessoas à nossa volta não ouvissem. Afinal, mesmo que estivesse puta com ele eu não queria que nos descobrissem.
– Tudo bem, . Dessa vez você venceu. – Ele ergueu as mãos para o alto, como se estivesse se rendendo. – Mas saiba que essa não será a última vez que nos veremos. Isso eu te garanto.
– Eu sei disse. Mais do que ninguém. – Fiz uma careta.
Ele não disse mais nada, apenas foi embora daquela boate com a promessa de que não muito tardar nos veríamos novamente. E eu acreditava em suas palavras porque o destino tinha um jeito engraçado de rir da nossa cara e nos levar a ciclos viciosos sem fim.
Olhei para o líquido de coloração marrom alaranjada dentro de meu copo, não conseguindo evitar a lembrança de seus olhos castanhos e, sem que percebesse, minha mente estava se transportando para outro momento. Um que havia ocorrido à alguns dias atrás e nos levou até aquela discussão.

Capítulo Um

7 dias antes

Era um dia extremamente quente, eu havia acabado de retornar de um roubo bem sucedido no Japão e tudo que queria era aproveitar ao menos alguns dias do verão nos Estados Unidos para descansar. Acreditava que merecia alguns mimos mediante o caráter da minha profissão então me hospedei em um Hotel Resort na Flórida, que era onde estava naquele exato momento. Deitada em uma espreguiçadeira com os olhos fechados e untada com protetor solar, sentia o toque delicado dos raios solares em minha pele, como se literalmente estivesse recebendo um beijo do Sol. Seu brilho era intenso e olhar diretamente em sua direção era quase impossível, o que me levou a colocar chapéu e óculos escuros.
Subitamente senti como se uma sombra houvesse se formado à minha frente, tapando minha visão até então privilegiada do Astro-rei. Abri os olhos, imaginando que havia sido uma nuvem ou algo do tipo, mas tudo que encontrei foi um dos garçons parado à minha frente com uma bandeja em mãos e me olhando descaradamente, como se me comesse com os olhos. Revirei os olhos instintivamente.
– Está tapando meu Sol – o olhei e tirei os óculos, ficando apenas com o chapéu. – O que quer? – E-eu... Te deixaram u-um recado. – Ele gaguejou, evitando me olhar diretamente nos olhos. Deixei que um sorriso escapasse para o meu rosto. Ele pegou um cartão na bandeja que estava aparentemente vazia e me entregou o mesmo. Parecia que era um cartão de visitas.
Virei a frente e verso do mesmo em busca de algum indício de quem pudesse ter enviado, mas não tinha nada escrito e literalmente estava em branco. Fiz uma careta e o garçom se retirou antes que eu pudesse dizer qualquer coisa.
Dei uma última olhada em volta, me certificando que estava sozinha e peguei minha bolsa, retirando de dentro dela um isqueiro. Se aquele fosse um cartão de quem eu estava imaginando, com certeza teria alguma mensagem escondida para que só eu conseguisse vê-la. Acendi o fogo e coloquei a chama na parte de trás do cartão para que o calor revelasse a mensagem. Não demorou muito para que as letras surgissem, formando uma mensagem.

"Sala de conferências. – D."


Droga! Eles não me davam um dia de descanso sequer.
Bufei alto o bastante para que alguém pudesse me ouvir e levantei, amarrando a canga na cintura para que parecesse levemente apresentada mesmo que estivesse em minha folga. Coloquei fogo no cartão até que ele estivesse todo transformado em cinzas para não sobrarem pistas e segui em direção à sala de conferências do hotel.


💎


Não pensei nem mesmo em bater na porta e apenas fui entrando no cômodo de uma vez, assustando todos os presentes. Eles provavelmente esperavam que eu me anunciasse ou algo do tipo, mas eu preferi entrar daquela forma. Lancei um olhar em volta daquele local, notando que não estávamos sozinhos.
fucking .
Logo que o vi foi como se de repente meu sangue esquentasse no corpo, me fazendo perder a razão totalmente.
Bâtard¹. – Estreitei meus olhos na direção em que ele estava, sentindo como se fosse explodir a qualquer momento. – O que ele está fazendo aqui? – Rangi os dentes, finalmente partindo para cima do mesmo com uma raiva que eu nem sabia sentir. Estiquei os braços para que pudesse fechar minhas mãos em torno daquele lindo pescocinho, mas era óbvio que meu chefe não deixou que eu o fizesse.
– É bom te ver também, . – Um sorrisinho sacana brincava em seus lábios, como se ele estivesse me provocando de propósito. Na verdade, ele realmente estava. – E, aliás, está ainda mais gostosa do que me lembro. – Lançou-me uma piscadela que só fez com que eu revirasse os olhos e lhe devolvesse uma careta.
– E você está ainda mais insuportável. Se é que isso seja possível.
– Bom perceber que ainda me ama, gata.
– Apenas nos seus melhores sonhos, mon cherié².
– Parem! Os dois. – D. ou Dionísio, como ele gostava de ser chamado, falou com o tom de voz mais elevado que o usual, se colocando entre nós. – Sei o quanto vocês amam esse joguinho de provocações, mas guardem isso para outra hora. Não chamaria os dois aqui se não precisasse realmente.
– Quer que trabalhemos juntos? Isso é loucura. – O olhei como se estivesse louco e talvez ele realmente estivesse.
– Preciso dos dois para um roubo. Sei que aquela história em Berlin não foi a melhor das experiências e que vocês tiveram diversos desentendimentos, mas eu realmente preciso dos dois. – Ele nos olhava e, devido à sua expressão facial, eu imaginei que estava dizendo a verdade.
Parei de tentar atacar e respirei fundo. Repetia para mim mesma que eu era profissional o bastante para trabalhar com ele sem que nos matássemos, mas definitivamente não poderia falar por ele.
– Qual o trabalho?
– Preciso que roubem um diamante.
– Ah não. Sério mesmo que você nos chamou apenas para roubar um diamante? – arqueou a sobrancelha, achando muita graça do que D. dizia. Não queria concordar com ele, mas sabia que estava certo no fundo.
– Você sabe que provavelmente eu vou me matar por estar concordando com esse idiota, mas um diamante? Você jura? Já roubei mais desses do que posso me lembrar, então não vejo motivo para que isso seja visto como algo tão importante e muito menos para que tenha que chamá-lo. Poderia fazer isso de olhos fechados e com as mãos atadas. – Cruzei meus braços na frente do corpo, olhando-o.
– Não precisava me desmerecer. – me lança um olhar de repreensão, mas não via necessidade para aquilo.
– Certo. Admito que ambos estão certos, mas não é apenas um diamante que vocês precisarão roubar. É simplesmente O diamante. – Como assim? – Sentei-me na poltrona à sua frente, genuinamente confusa.
– É bem simples na verdade – Se virou, ficando de frente para a janela composta inteiramente de vidro daquela sala. Permaneceu daquele jeito por alguns vários segundos até que um de nós se pronunciasse, mas como nos mantivemos em silêncio absoluto ele finalmente voltou a se comunicar. – Vocês irão roubar o diamante Grand Sancy do Museu do Louvre.
– É o quê? – Me levantei de um pulo, com os olhos vidrados. – Es-tu devenu fou³?
– Meu anjo, fala a minha língua, por favor. Não entendi nada do que você falou.
– Foda-se. Nem estou falando contigo, mesmo.
– Parou com essa discussão. Os dois – D. apontou o dedo para nós, claramente cansado de ouvir a mesma coisa. Não o julgava. – Se não for para dizer algo pertinente à missão, por favor, nem falem nada, mas eu não quero ouvir desculpas porque vocês partem amanhã para Paris, querendo ou não. E agora essa reunião está acabada. – dizendo isso, ele se levantou e saiu da sala, me deixando sozinha com .
Uma coisa que não podíamos negar era que entre nós havia muita tensão, fosse ela sexual ou não. Sim, eventualmente nós acabávamos nos pegando, principalmente após as reuniões, mas isso não fazia com que eu passasse a aturá-lo mais. Porém, quando Dionísio nos deixou sozinhos naquela sala não rolou nenhum tipo de ofensa, agressão e muito menos nos pegamos. Só aquele silêncio matador e assustador.
Nem precisei erguer o olhar para me certificar, mas eu sentia que seu olhar estava em mim.
– Mano, nós estamos muito fodidos.
E lá se vai a minha folga e meu descanso.

e eu havíamos pegado voos em horários diferentes por algum motivo que eu ainda não sabia qual era, mas desconfiava que esse motivo tivesse pernas longas e um buraco entre elas. Era muito típico dele mesmo que estivéssemos ocupados e praticamente fodidos. Acho que ele entendeu aquele termo em seu sentido literal.

Glossário:
¹Bâtard: Desgraçado.
²Mon cherié: Meu querido.
³Es-tu devenu fou: Você ficou maluco?

Capítulo Dois

6 dias antes

Enquanto esperava o irresponsável chegar, já havia conseguido reunir o máximo de informações possíveis para compartilhar com ele depois. Internamente eu me sentia completamente apavorada, porque era muito pouco tempo para organizar tudo e colocar em prática, ainda mais sendo uma missão tão importante. Dionísio tinha me fodido e eu não via a hora de tudo acabar para que pudesse voltar a dormir tranquila e tirar minha folga – dessa vez estendida já que haviam atrapalhado ela no começo.
Ao menos ele me hospedou em um hotel de luxo.
Retirei de dentro da minha bolsa o maço de cigarros e peguei um, rapidamente colocando o filtro entre meus lábios e acendendo o mesmo. Apesar de ser uma criminosa eu gostava de seguir a maioria das leis da sociedade, uma delas sendo a de não fumar dentro do quarto. E foi exatamente por isso que segui até a sacada, onde liberei uma quantidade relativamente grande de fumaça no ar parisiense.
A nicotina era uma droga – literalmente – e um dos vícios dos quais não conseguia me livrar, mas na realidade eu não havia verdadeiramente tentado parar de fumar. E nem queria. Devolvi meu cigarro aos lábios, tragando mais um pouco daquela substância e foi quando ouvi o som de batidas na porta.
Só podia ser .
Elegantemente atrasado
.
– Pode entrar.
Nem me virei para olhar se era ele realmente. Eu não precisava daquilo porque ele mesmo se denunciava.
– Fumando, ?
– Sim. Melhor do que me embebedar ou sair para ficar com alguém. – Me virei apenas o suficiente para que ele pudesse ver meu rosto.
– Hm... Estou sentindo um cheirinho estranho aqui. Acho que está com ciúmes porque eu, ao contrário de você, estava transando. Se você queria um pouco do aqui era só ter me avisado, querida.
– Awn! Répugnant¹! Você é nojento. O único cheiro aqui no ar é o desse seu ego inflado, mas ainda bem que tenho meu cigarro para dar uma purificada no ambiente. Eu não estou nem aí para o que você anda fazendo com seu pau ou no que está metendo ele, mas presta atenção no que vou te dizer agora – apontei para ele com meu cigarro que já estava pela metade – Se der alguma merda e alguém tiver visto seu rosto por mais tempo do que deveria, essa pessoa pode fazer o reconhecimento facial e então você está fodido. Consegue ver a diferença entre nós? Vou te ajudar: eu tenho profissionalismo.
– Vai se foder. – Ele se jogou na cama, olhando para o teto.
– O sentimento é recíproco, querido. – Devolvi sua ironia e acabei meu cigarro, colocando a bituca em um cinzeiro que havia por perto. – Agora, se já cansou de brincar por aí eu gostaria de conversar sério. Preciso te mostrar o que descobri a respeito dessa joia e também temos que discutir como faremos o trabalho.
– Certo. Vamos logo com isso. – Sentou-se na cama, me olhando meio a contragosto, mas ele tinha consciência de que aquilo era necessário.
– Ok. Resumidamente falando, esse diamante tem cerca de uns 550 anos e passou por várias pessoas importantes, a maioria delas sendo portugueses e franceses. Em um determinado momento a família ao qual ele pertencia no momento teve de vendê-lo e, de alguma forma, ele foi parar nas posses de um cardeal, que o inseriu junto a outras joias para fazerem parte dos adornos de uma coroa que seria herdada por Luís XIV. Hoje esta coroa fica em exposição no Museu do Louvre para o público e o Grand Sancy ainda está inserido nela.* – peguei uma foto que estava na mesinha ali perto, entregando-a para que ele pudesse olhar.
– Essa é a coroa?
– Ela mesma. E adivinha só? – Apontei para uma pedra grande no topo dela que ajudava a compor a flor de lis decorativa. – Esse é o nosso alvo.
– É realmente uma joia muito linda. – Ele sorriu de lado, me devolvendo a foto. Como pretende fazer isso?
– Tenho algumas ideias em mente, mas acho que antes de tudo precisamos ir até o museu conferir de perto os detalhes tanto da exposição quanto da segurança.
– Concordo. Então se prepare, porque amanhã iremos fazer um pouco de turismo, minha cara . – Um sorriso se formou em seu rosto.
E naquele momento não consegui deixar de retribuir seu sorriso.
Aquela era uma missão perigosa, mas tinha de assumir que ela era muito animadora e até mesmo excitante. Sem dúvidas de que seria uma das mais memoráveis que já tive e mal podia esperar para que colocássemos tudo em prática e estivesse com aquela gema em minhas mãos.

Glossário
¹Répugnant: Que nojo!
*Os eventos narrados estão parcialmente corretos e contados pela metade de maneira basal. Se quiser saber mais a respeito pode conferir em sites ou publicações na internet.

Capítulo Três

1 dia antes

Entrei no museu de mãos dadas com . Havíamos decidido bancar o casal apaixonado que estava passando as férias em Paris e decidira visitar o Louvre. Mal sabiam eles.
Estávamos junto com uma turma que fazia excursão e o guia nos apresentava a escultura Psyché ranimée par le baiser de l'Amour¹ no térreo. Eu precisava admitir que a história daquela estátua fosse incrível mesmo que não sendo fã daquele tipo de arte. se mantinha ao meu lado, tão comovido com aquelas obras quanto uma pedra poderia estar. Revirei os olhos apenas ao pensar naquilo.
– Será que isso não poderia ser mais chato e monótono? – Ouvi sua voz ecoando baixo em meu ouvido.
– Não poderia adquirir um pouco de cultura, pelo menos?
– Cultura? Hahaha. Prefiro ver um filme ou ouvir música, que é mais fácil.
Tu es un idiot² – falei baixo para que somente eu ouvisse. – Fica quieto e observa. Falta quanto tempo para que chegue a nossa deixa?
– Uns vinte minutos mais ou menos.
Logo que ele fechou a boca, a guia foi seguindo em direção ao próximo andar, seguida por todas aquelas pessoas e inclusive por nós dois. Estava chegando a hora e nós quase estávamos no local correto. Não demorou muito e logo estávamos no primeiro andar. Ao longe era possível observar a coroa com todas as suas joias, majestosa. Mordi os lábios de leve.
– E aqui estamos. Na Galerie d'Apollon³. Aqui neste local ficam guardados todos os objetos decorativos e, como podem ver até mesmo o teto é todo ornamentado. – Ela andava para frente, sem conferir se estávamos seguindo-a ou não.
– Já consigo vê-la – sussurrei para que meu parceiro me ouvisse.
– Eu também.
E lá estava ela, imponente e majestosa debaixo de uma redoma de vidro, suas joias brilhando sob a luz das lâmpadas. A guia dizia alguma coisa a respeito dela e de sua origem da qual eu já conhecia bem por conta das pesquisas. Até que um barulho fez com que ela parasse de falar.
Tiros.
Começou apenas com os barulhos isolados dos tiros, mas logo vozes começaram a soar em alto tom, fazendo com que as pessoas entrassem em desespero, gritando e atraindo a atenção de quem quer que estivesse no andar de baixo. Como num passe de mágica a ponta dos rifles e das pistolas surgiram na escada, anunciando que os bandidos, ou seja lá quem fossem, já haviam descoberto onde estavam. Todos eles apontaram as armas para as pessoas que ali estavam.
– TODOS PARA O CHÃO, AGORA! – Eles ergueram as armas, apontando para todos os visitantes. A guia se encontrava em choque e jogada no chão, com as mãos na cabeça.
Ela arriscou um último olhar para seu parceiro , que coincidentemente também estava olhando em sua direção.
– Eu quero todo mundo caladinho aqui e sem mover um músculo.
Eles estavam totalmente cobertos, deixando apenas seus olhos para fora da máscara. Não dava nem mesmo para pensar em quem poderiam ser as pessoas por trás da máscara. Enquanto um deles falava, outro se antecipou e seguindo até onde estava a coroa. Um golpe certeiro do rifle no vidro foi o bastante para fazê-lo se estilhaçar por completo, expondo a coroa ao ar que circulava pelo ambiente. Aqueles que estavam próximos gritaram de desespero e até mesmo alguns que se encontravam mais distantes.
– EU DISSE SILÊNCIO! – Outro cara disse com a voz alta, apontando a arma para a cabeça de uma das mulheres que estava mais próxima. Imediatamente a mesma começou a se debulhar em lágrimas.
Não se importava com o que estava acontecendo com ela e só o que olhava era aquela coroa linda e chamativa que estava à sua frente. Tão perto, mas ao mesmo tempo tão longe. Um pouco mais e ela poderia até mesmo pegá-lo. Se ela pudesse apostar, diria que seus olhos estavam brilhando naquele exato momento.
Tão fácil quanto havia quebrado o vidro o homem pegou o diamante do topo e o puxou, arrancando a pedra que ali estava. Ela rangeu os dentes, esperando não fazer nenhum sinal que a denunciasse.
– Já conseguimos, agora vamos dar o fora daqui antes que a polícia chegue ou que um deles grave nossas feições, imbecil. – O homem que estava segurando a pistola apertou-a mais em direção à cabeça da mulher, esperando que alguém se pronunciasse.
Fazendo um sinal afirmativo, todos eles recolheram as armas e logo saíram correndo em direção às escadas, saindo do museu. Demorou alguns minutos para que todo mundo voltasse ao normal, mas logo que isso aconteceu todo mundo saiu correndo em disparada antes que eles pudessem pensar em retornar.
Ela conseguiu observar quando se levantou e foi saindo do local, seguindo-o. Ambos se encontraram na escadaria e, trocando um sorriso cúmplice, correram para a saída do museu. O sorriso em seus rostos dizia tudo: eles haviam conseguido, porra!

Glossário
¹Psyché ranimée par le baiser de l'Amour: Psiquê reanimada pelo beijo do amor (Eros). Título em português da escultura retratada pelo italiano Antônio Canova (1757 -1822), exposta no Museu do Louvre, em Paris.
²Tu es un idiot: Você é um idiota.
³Galerie d'Apollon: Galeria de Apolo.

Capítulo Quatro

2 dias antes

– Certo, eu acho que todo mundo já foi embora. Podemos entrar – sussurrei para , observando pelo binóculo que todo o prédio estava escuro e silencioso.
– Pronta? – Ele me olhou, analisando-me.
– Nasci pronta. – Sorri e me levantei, arrumando a roupa preta que usava. Por fim coloquei o capuz na cabeça, escondendo o mesmo.
Seguimos em silêncio e cautelosamente pela porta dos fundos para que não fôssemos pegos. Seria impossível entrar pela porta da frente, então pensamos que nossa melhor estratégia era a porta dos fundos. Paramos perto dela e logo pegou a gazua no bolso de sua calça e tratou de arrombar a porta. Não demorou muito e logo ela estava aberta, então os dois entraram e fecharam a porta atrás de si.
– Certo. Agora vamos revisar o plano: eu vou com você para a sala de segurança onde eles cuidam das câmeras. Provavelmente deve ter alguém lá cuidando de tudo, então nós damos um jeito de apagá-lo sem que sejamos vistos. Depois disso eu sigo para onde a coroa está e você fica na sala cuidando de tudo para o caso de aparecer alguém. Alguma pergunta?
– Acho que por enquanto não. Vamos lá.
Dizendo isso, descemos as escadas até o andar inferior, onde diziam haver as câmaras de Napoleão Bonaparte. Tivemos todo o cuidado do mundo para não fazer barulho, seguindo para debaixo de uma escadaria onde havia uma sala e sua porta possuía um aviso de "Apenas pessoal autorizado".
fez um sinal com a mão para mim, indicando para que eu me escondesse e pegou um objeto em seu bolso que era parecido com uma carteira.
– Tampa o nariz – ele sussurrou fazendo o mesmo que eu e abriu o objeto que começou a fumaçar, rapidamente empurrando-o para dentro da sala por debaixo da porta.
Foi apenas uma questão de segundos até que o homem desmaiasse por conta do gás do sono e eles aproveitaram para entrar na sala. Era o momento de fazer sua mágica, sua parte naquele plano.
– Coloca pra gravar. – sussurrou para ele, olhando os vários monitores que havia ali.
– Não vem querer me ensinar a fazer meu trabalho. Um coroinha não ensina um padre a rezar a missa então, por favor, me deixa fazer o que sei.
– Beleza! – Ergui meus braços, me rendendo à ele. – Só me avisa quando puder sair dessa sala.
– Só uns dois segundos. – Ele e abaixou próximo às várias telas que havia naquela sala e digitou algo, mas por fim acabou acenando para que ela entendesse que poderia sair dali.
Não demorou muito e logo a garota aqui chego ao corredor da coroa, no primeiro andar. Era muito claro onde eles a guardavam porque era em um lugar extremamente visível para todos que por ali passassem. Seguiu em passos longos até a redoma de vidro que a guardava. Com toda certeza era praticamente impossível passar por aquilo, mas ela sabia de um jeito.
Retirou de seu bolso uma colher decorativa de porcelana e treinou, com o olhar, a rota que a mesma percorreria até alcançar o vidro. Aquele tipo em específico era bem resistente, mas ela sabia que porcelana era uma das únicas coisas que o combatiam justamente pelo fato de ser um material fino e por isso ultrapassá-lo com facilidade.
E então, o joguei.
Aquela colher atravessou o material como se fosse água corrente e não vidro blindado, fazendo com que o mesmo rachasse por completo até se desfazer no chão, em cacos. Tratei de recolhê-los com cuidado para que não ficasse nenhum para trás e voltei a me colocar de pé, analisando aquela coroa magnífica. Era grande a tentação de colocá-la na cabeça, afinal, sempre foi seu sonho, mas não tinham tempo para brincadeiras.
Peguei um canivete no bolso da roupa e expus a lâmina. Coloquei a mesma no ponto em que colava o diamante ao material da coroa e fiz pressão para que o mesmo se soltasse. Um pequeno barulho quase inaudível ecoou, sinalizando que o mesmo havia se soltado e rapidamente o guardei em uma sacola específica para joias. Em seguida aproveitei e tratei de colar uma joia falsa no local em que o verdadeiro estava para não levantar suspeitas. Aquilo daria conta do recado.
Já havia conseguido o que fui buscar, mas imaginei que poderia obter lucro extra em cima daquele trabalhinho e foi por isso que peguei uma nova sacola de joias e tratei de retirar mais alguns diamantes da coroa que estavam em locais não tão expostos. Era uma ousadia, mas valeria a pena.
E então corri de volta para onde me esperava.
Obviamente ele se assustou assim que viu, apontando uma arma em minha direção.
– Sou eu, seu imbecil. Abaixa essa porra.
– Desculpe, mas todo cuidado é pouco.
– Aham, sei. Termina logo isso para podermos sair logo daqui. – Fechei a porta e segui até a cadeira em que ele estava. – Conseguiu tempo o suficiente para que pareça uma filmagem genuína?
– Minha querida, você está falando com o melhor. – Ele deu um sorriso travesso e apertou a tecla enter do teclado, o que fez com que um CD fosse cuspido pela máquina.
Não consegui segurar um sorriso de lado, tamanha a satisfação.
– Eu gravei um pouco dos corredores vazios e coloquei para redar em looping como se fosse uma imagem ao vivo. Eles nem vão desconfiar. – O sorriso continuava brincando em seus lábios. – E aqui... – Ergueu o CD que segurava em sua mão. – É a gravação verdadeira desses corredores. A única prova que poderiam usar contra nós.
– Aprecio muito o que está fazendo, mas prefiro darmos o fora daqui o quanto antes. – Ergui uma sobrancelha, olhando-o.
– Tem razão. Vamos logo, mas não pense que eu não te vi pegando aqueles diamantes extras. – Apontou para a região da minha cintura, onde eu havia guardado a bolsa com os diamantes. – Quero uma parte depois que vendê-los.
– Por que eu faria isso?
– Porque se não eu posso dar um jeito de armar para você. Sou bom nisso.
– Ei, relaxa. Estamos juntos nesse trabalho ou não? – falei mais para ele do que para mim, porque não tinha a menor intenção de dividir algo com ele. Em Berlim ele havia ficado com toda a grana, mesmo eu tendo feito quase todo o trabalho e ainda ter saído ferida, tudo que sobrou para mim foi a maldita conta do hospital. Era óbvio que eu daria o troco, mas ele não precisava saber daquilo por enquanto.
– Claro que estamos. – Sorriu e se levantou, arrumando o guarda na cadeira na qual ele estivera sentado antes, para que ele achasse que havia dormido. Aproveitando a deixa, saímos do museu pelo mesmo caminho pelo qual entramos.
No dia seguinte seríamos os maiores atores que os visitantes daquele lugar teriam visto. Os atores falsos que contratamos iriam realizar uma espécie de assalto muito convincente e, dessa forma, qualquer chance que houvesse de sermos incriminados seria falsa porque estaríamos ali no chão, como reféns daqueles assaltantes.
A missão era impossível, mas éramos espertos o bastante para fazer com que aquilo tudo pudesse realmente acontecer. Não era à toa que contrataram a ambos.
E no final daquele trabalho, eu seria a verdadeira responsável pelo sucesso da missão.


FIM!



Nota da autora: Sem nota.





Outras Fanfics:
Ficstapes:
09. Sad [Ficstape #176: Maroon 5 - Overexposed]
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Shortfics:
Um Amor Impossível [Originais]
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Em Andamento:
Duplo Acordo [Restritas - Originais]


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