02. Mercy






I'd drive through the night
Just to be near you, baby
Heart old and, testify
Tell me that I'm not crazy


Junho

O relacionamento com estava fora dos trilhos há semanas. Meter os pés pelas mãos para tentar salvá-lo era a nossa rotina, nesses dois últimos meses. Morar junto foi nossa melhor decisão, até começarmos a discordar de diversas coisas e me pedir um pouco de espaço. Eu dei, mas não adiantou. Hoje é aniversário de Mel, prima e melhor amiga de , e aqui estamos nós dois dentro do carro, se distanciando da nossa casa em Barkerville e indo à casa de praia no Gyro Beach, ajudar na festa surpresa de Mel, no mais mortal silêncio em uma viagem que duraria, aproximadamente, sete horas, contando com o trânsito neste feriado de Dia dos Pais.
— Você deveria ligar para o seu pai — sugeri para , querendo sair do silêncio, após ela ter acordado da parte em que dormiu na viagem, e abordando um assunto delicado para ela, que nem sequer me olhou, apenas fazendo uma cara de nojo, que notei ao olhá-la rapidamente. — Ligue ou iremos passar lá pelo caminho — insisti, esperando sua resposta.
— Não, ! — ela esperneou ao mesmo tempo em que resmungava. — Eu não vou ligar e... E... — Fez uma pausa, gaguejando e fechando os olhos com força. — Por que diabos você o defende tanto? Ele nos deixou plantado no restaurante por horas, no meu aniversário, no dia em que iria finalmente te conhecer. ELE TROCOU NÓS DOIS POR UMA REUNIÃO IDIOTA! — Seu grito me assustou um pouco, me fazendo fechar os olhos e buscar um pouco de paciência com o assunto e com ela.
— Já se passaram seis meses, — respondi calmamente e passei a mão sobre seu joelho, lhe oferecendo um carinho reconfortante. O pai dela, certamente, me odiava, e esses meses silenciosos de estavam piorando as coisas, mas, em hipótese alguma, eu a queria longe dele. Isso só aumentaria o seu ódio por mim. — São seis meses que você anda ignorando-o. É seu pai, a única pessoa que você tem.
— O que você quer dizer com isso? — Sua voz saiu longe, mas, ainda assim, firme. — Eu tenho você! — afirmou, parecendo confusa. — Não tenho?
— Não é hora para falarmos disso — informei.
— E quando vamos falar disso, ? Ou não vamos falar e você simplesmente vai embora? — perguntou aflita, e eu sentia seus olhos caírem sobre mim, esperando uma resposta. Permaneci em silêncio. — Para o carro! — ela pediu.
— Eu não posso parar aqui — avisei, e ela sabia que eu não poderia encostar.
— Para o carro, !
, acalme-se. Eu não posso parar aqui — respondi com o pouco de paciência que ainda me restava. O barulho do início do seu choro atingiu os meus ouvidos, e ouvi-lo por pouco, por besteira, estava ficando cada vez mais frequente no último mês.
, por favor! — ela insistiu. — Por favor! — e continuou a insistir pelos próximos dois minutos.
A minha sanidade tinha ido a algum lugar que eu desconhecia e, então, parei e destravei as portas do carro. Ainda estava escuro, apesar de já ser 6:00 A.M. A via estava movimentada, e escutei uns barulhos de carros passando com o típico derrapar de pneus, e os barulhos permanecerem em meus ouvidos como se fosse um apito ensurdecedor. Nada ao meu redor me parecia tão ruim quanto a falta de sentidos que estava tomando conta de mim, naquele momento. Meus olhos pareciam estar vendo luzes brancas piscando no pleno breu, e o apito permaneceu presente, até que o barulho alto de buzina se fez presente, me trazendo de volta, me trazendo à realidade.
! — chamei desnorteado. Meus olhos ainda estavam vendo pontos brancos... Farol? Tateei o banco ao meu lado, e ela não estava lá. Os zumbidos de vozes substituam o apito em meu ouvido, ativando mais o meu corpo para ter um pouco de reação.
— É uma moça. Ainda respira. — Essa frase foi o ápice para me tirar do transe e me pôr em estado de desespero.
A porta ao seu lado estava aberta e, em um ponto não tão distante, estava um carro e ela. Minha pequena .

~*~


Quatro horas, quarenta minutos e sete segundos.
Esse era o tempo exato em que eu estava naquele hospital, intercalando entre sentar, levantar, chorar e não entrar em desespero, para saber de .
Estávamos mais perto de Gyro Beach e havia sido levada ao Kelowna General Hospital. Mel já estava avisada sobre o ocorrido, e não sei por que diabos estava demorando tanto a chegar. O pai de , com toda certeza, deveria entrar pela porta a qualquer minuto, e meu emocional nunca em vida estaria preparado para encontrar aquele homem. Precisava de Mel aqui, para lidar com isso, e precisava de mim, para não estragar tudo. Não saber sobre seu estado de vida estava me deixado louco e possesso a cada segundo. A última visão que tive da minha namorada estava destruindo meu coração e, mesmo que eu pedisse misericórdia por ele, nada adiantava.
Desacordada.
Ensanguentada.
Morta.
Meus pensamentos só recorriam a essas palavras. Olhar o teto, o branco e o relógio não estavam mais me acalmando.
A duas portas da sala de espera se abriram, e eu pouco me importei em olhar para a porta em que não era o médico saindo de lá. Seus olhos, aparentemente, não demonstravam nada. Abri a boca, tentando perguntar por ela, mas não consegui. A resposta sobre a pergunta poderia ser algo que nem meus ouvidos e nem meu coração aguentariam.
— O que você fez com a minha menina? Seu irresponsável filho da puta! — E, então, era Evans quem tinha adentrado a outra porta e, agora, me insultava, junto com empurrões no peito, me tirando do lugar. Ele pouco se importava onde estávamos, nem com o porquê de estarmos ali. Não ligava para o médico que estava parado ali com alguma notícia boa ou ruim sobre a nossa . A minha . — Tirou-a de casa para que? Para matá-la? Assassino!
— Senhores! — A voz do médico se fez presente, e dois seguranças do hospital estavam bem próximos de nós agora. — Precisam manter a calma.
Por , pensei.
— A senhorita Collins passa bem, ainda com efeito da anestesia, mas bem.
Suspirei de alívio, por pouquíssimos segundos, até ouvir a voz de Mel atrás de mim:
— E o bebê?
— Bebê? — Evans e eu perguntamos em uníssono.

5:00 P.M

Havia se passado pouco mais de duzentos e setenta e cinco minutos e digerir toda a situação consumia toda a energia do meu corpo. Minha alma queimava por dentro, exigindo o máximo do meu autocontrole para permanecer entre quatros paredes brancas, zumbidos de vozes, o choro baixo de Mel e o silencioso pedido de desculpas pulando dos seus olhos toda vez que cruzávamos o olhar, fosse por consolo ou pelo barulho da porta se abrindo, esperando que Evans saísse da mesma para que eu pudesse entrar e finalmente ver a minha namorada. Um filme passava pela minha cabeça, trazendo lembranças dos últimos dias, me dando uma enxurrada de situações em que havia tentado me contar e, por algum motivo bobo ou não, ela se manteve calada, e não era um calar de paz ou calmaria, e, sim, de inquietação por não conseguir dividir sua descoberta comigo.
— Ela iria te contar neste final de semana. — Mel chamou minha atenção com suas palavras, e apenas lancei um sorriso terno a mesma. Melanie parecia culpada por saber de algo que ninguém sabia, por ter guardado o segredo de de mim e de todos.
— Eu quero matar você, mas ela quer vê-lo! — Evans irrompeu pela porta com raiva, como sempre, os olhos vermelhos e fuzilantes para mim.
Apenas assenti e segui pelo caminho que me daria dor e paz ao mesmo tempo.
Abri a porta devagar, e seu olhar estava fixo na porta, claramente esperando por mim. sorriu de forma serena e balançou sua mão esquerda para mim, abrindo mais seu sorriso. Seu dedo do meio estava enfaixado e, apesar de tudo, para ela, era engraçado e, então, eu também achei e ri com ela, enquanto me aproximava para lhe dar um beijo na testa, e permanecer ali, até que a voz viesse até mim:
— Nós o perdemos.
E a voz só veio para , com culpa e dor.

Julho

!
Pulei e ri ao mesmo tempo em que escutava o grito estridente de pelo meu nome. No mínimo, ela estava achando um absurdo a minha demora com a lavagem do carro, ou, pelo menos, era isso que eu tinha dito a ela.
— Desça aqui, pequena! Tenho algo para você! — respondi e fiquei à espera da mesma. O Yorkshire Terrier em minhas mãos era tão pequeno que quase sumia. O destaque era um laço rosa em sua pequena cabeça e uma roupa que parecia ser de bailarina, mas, no momento, esses detalhes não estavam sendo importantes para mim. O que importava era a reação da minha namorada.
— O que você está aprontando, ? — Sua voz estava bem próxima, e meu sorriso sacana estava estampado, esperando por ela. — Olha aqui, eu... O que é isso? — Ela parou no degrau que dava para fora de nossa casa e recuou.
— É um presente. — Mexi na cabecinha da cadela e estendi para . — Pega, amor, é sua.
ficou nublada, fechada e com o olhar vazio. Ela sabia exatamente o que eu estava tentando fazer e como. Havia se passado 20 dias desde que tinha saído do hospital, e senti-la vazia ao meu lado ou dentro do meu abraço quando eu punha meus pés em casa era doloroso e amargo, como todo o resto da casa, que se acostumava com o novo clima. precisava voltar a sorrir e se lembrar de viver. Dar um cachorrinho me pareceu a proposta mais correta. Não era uma substituição e, sim, uma maneira de fazê-la sorrir novamente, recomeçar, ter vontade de viver e de amar novamente.
Dos vinte dias que haviam se passado, ficar uma semana com em casa e longe do trabalho para ajudá-la a se recuperar e me recuperar foram poucos. Talvez, nem um ano seria o suficiente, toda vez em que eu estivesse longe dela. A cada dia, me sentir perdido no meu próprio lar tornava-se normal assim como emergir e submergir para não se afogar nas minhas próprias inseguranças e no amor, que, até ontem, eu não sabia que sentia por .
O rompante forte da porta me assustou e despertou, me colocando de prontidão para ir atrás da minha namorada.
, por favor... — Era automático dizer essas palavras, nos últimos dias. — Meu amor, eu só estou tentando ajudar — expliquei ao vê-la andando de um lado ao outro perto da porta da cozinha, segurando uma mão na outra.
Estava com medo e nervosa.
— Você não pode tentar substituí-lo, . — A voz de era um sussurro desesperado, no meio de um choro que nunca saiu.
Desde a saída do hospital, não havíamos sentado para conversar sobre o ocorrido ou sobre nós, e o acumulo de emoções estava pesando.
— Precisamos conversar — decretei e não dei oportunidade para questionamentos, começando o meu monólogo: — Eu sei que está bem mais difícil para você conviver com a dor. Não vou te forçar a sair de casa feliz, fingindo que nada aconteceu. Mas dói em mim, . Dói muito te ver assim e não conseguir fazer nada para ajudar, e pior quando penso que estou indo pelo caminho certo e estou fazendo tudo errado! Droga! — Meu tom de voz estava elevado, e eu percebia isso, na medida das minhas palavras. Contar até dez umas três vezes me acalmou um pouco, antes de continuar: — Sempre que acho que está receptiva ou pronta para nos dar uma chance de conversa, você se fecha para mim e se enche do vazio. Meu coração está doendo por nós, . E eu preciso saber, pois, hoje, estou implorando pela minha resposta. Você quer recomeçar por mim, por você, por nós?
— Só não desiste de mim, tudo bem? — Depois do silêncio mortal, que pareceram horas, essa foi a resposta de , junto com um beijo de recomeço e esperança em nós.

Agosto

, você está gravida! Oh meu Deus! Você tem um neném aí dentro! — Mel gritava com os olhos brilhando à minha frente.
Não esbocei nenhuma reação ao fitá-la daquela forma. Acho que estava em choque, ou, talvez, fosse um sonho que eu apenas tinha que observar. Que seja. Para mim, não era um sonho bom, mesmo vendo Melanie surtar por algo tão mágico.
Peguei-me imaginando a barriga crescendo, o bebe nascendo com o rosto tão lindo como...
?! ?! — Mel me chacoalhou várias vezes, chamando totalmente minha atenção. — Vai ficar com essa cara? Você será mãe, mulher! Avise ao pai!
— Pai? — perguntei automaticamente, fazendo as contas maquinalmente.
Se Mel não estivesse me interrompido, teria concluído minha maldita contagem:
— Liga para o . Liga, liga! — Ela balançava o celular freneticamente com as mãos para cima.
— Melanie! — falei um pouco alto, chamando sua atenção para mim.
— Vai ligar? — ela perguntou com aquela cara de gato de botas e as mãos embaixo do queixo como se fosse rezar ou sei lá o quê, murmurando em seguida: — Hein?
— Eu não sei quem é o pai! — disparei e vi seus olhos se arregalarem e um ponto de interrogação em sua testa. — Eu dormi com aquele carinha... O Pierre... Deve ter quase três meses. Esse filho da puta me deixou bêbada, e eu não me lembro de nada, apenas que acordei com ele na cama, e você já sabe dessa história.
— Você não perguntou o que rolou? — Mel perguntou o que venho me perguntando sempre.
— Não me lembro nem de ter transado com ele! — Minha voz saiu quase inaudível ao ver pelo reflexo do espelho. Encarei-o por ali mesmo, sentindo seu olhar descer completamente para o papel branco com pequenas letras. Fiquei estática, como Mel. Acho que mal respirávamos.
, pelo visto, não olhou o papel direito, abanando-o no ar e esperando uma explicação.
Lancei um olha mortal para Mel, o que não adiantou. Quando era sério, ela sempre abria a porra da boca:
está grávida! — ela disse, saindo do quarto rapidamente.
— Mel! — exclamei, querendo matá-la. Abaixei a cabeça para não encarar os olhos tão intensos, tão castanhos, tão meus, e me perdi, fitando o chão, até sentir uma respiração quente em meu pescoço.
É, ele estava perto demais.
— Por que não está feliz? — perguntou em um fio de voz.
Estremeci e balancei a cabeça em negação.
depositou um beijo em minha nuca, roçando os lábios no local. Suas mãos faziam um carinho gostoso nas laterais da minha barriga. Deixei um sorriso escapar no canto dos lábios, vendo os olhos dele brilharem mais.
— Eu estou feliz! — disse, depositando outro beijo em minha nuca, me abraçando e repousando as mãos sobre minha barriga. — Merecia uma foto. — se pronunciou novamente, voltando a me olhar pelo espelho, e eu? Com os olhos úmidos, prendendo as lágrimas. Ele arqueou uma das sobrancelhas, virando-me rapidamente. — Hey, eu estou aqui. Não vou embora, não, ! Isso tudo é medo? — perguntou confuso, recebendo meu aceno de cabeça em afirmativa. — Por quê? Fale comigo. — Os olhos dele demostravam agonia, mas o que eu falaria? Como explicaria?
, lembra quando estávamos brigados e eu simplesmente meti o louco e fiquei com um carinha qualquer, e eu disse “não foi nada”? Então, foi sim. Esse bebê que está aqui pode ser dele ou pode ser seu”.
Ou melhor:
“Não sei de quem é esse filho”.
Por Deus! Como isso soava tão, tão puta, escroto, por falta de palavra melhor.
Ele parecia tão feliz. Ele disse estar feliz. Droga!
— Eu, eu... — Nunca, na vida, eu conseguiria lhe dizer, e entrar em prantos foi a minha única reação, só de pensar em perdê-lo.

~*~


— Pequena? ? — A voz de estava longe e, ao mesmo tempo, era o que me puxava para abrir os olhos, porém o medo que me apossava era maior e forte o suficiente para mantê-los fechados, nem que fosse para sempre. — Amor, por favor! — Apenas resmunguei, empurrando uma de suas mãos e recebendo seu chiado de silêncio. — Olhe para mim — pediu em uma calma que eu desconhecia, uma calma que parecia real.
Atendi seu pedido, abrindo os olhos e percorrendo o olhar sobre tudo, menos sobre ele, e respirei aliviada ao reconhecer o cenário longe do meu inconsciente.
— Vo-você está aqui — afirmei, apertando um dos seus braços para senti-lo, e perceber que tudo não passava de um pesadelo que me levaria ao fundo do poço outra vez.
— Hey, foi só um sonho ruim. — acariciou meu cabelo, antes de me puxar paro o seu colo. — Não precisa chorar, meu amor. Estou aqui, tudo bem?

Setembro

— Eu não consigo acreditar que você está cozinhando! — A voz risonha e surpresa da minha namorada invadiu a casa, preenchendo o vazio. — De todas as surpresas do mundo, essa, sinceramente, eu não esperava — ela disse enquanto caminhava na minha direção, deixando todos os seus pertences no caminho e, antes de me alcançar, o latido fino da nossa pequena Tiêta nos interrompeu, alongando o tempo do beijo que eu deveria receber.
— Por que a Tiêta sempre vem primeiro? — reclamei, com chamando novamente sua atenção e recebendo meu beijo de forma calorosa. — Eu poderia ficar aqui e esquecer que tenho que cozinhar... O que você acha? — sussurrei, ainda com meus lábios sobre os seus.
— Eu acho que... — deixou a frase morrer, fazendo uma pausa para me beijar, e eu aceitei de bom grado.
Livre da cozinha.
— VOCÊ DEVERIA FAZER ISSO LOGO QUE EU ESTOU COM FOME! — e ela gritou. Ela, literalmente, berrou, e eu me assustei, assim como nossa cadelinha e, depois, comecei a rir, assim como , que já estava com a bochecha avermelhada. — Você precisava ver a sua cara, amor! — ela afirmou, tentando imitar; sendo péssima e perfeita ao mesmo tempo.
— Você imita maravilhosamente bem — eu disse em tom irônico, retirando um cacho caído, que permanecia no caminho entre nossas bocas, para lhe dar um selinho demorado. — Vá tomar um banho, porquinha! — dei a ordem. — Quando voltar, garanto janta e sobremesa.
deu seu melhor sorriso de criança mimada e saiu correndo para tomar banho; vez ou outra, gritando e me chamando de algo parecido como “melhor namorado do mundo” e “, meu maior amor”.
Eu ri com alegria e amor por ela.

~*~


As patinhas de Tiêta entregaram , que descia a escada em silêncio. A mesa encontrava-se arrumada com o prato favorito de , o risoto, e a sobremesa também, a BeaverTails. Seus olhos bateram, primeiramente, no doce, e sua feição de surpresa foi a melhor da noite, até agora. Ajeitei a cadeira para que ela se sentasse ao meu lado e recebi um beijo em agradecimento.
— Jantar especial, uh?
— Tem dias em que você está merecendo. — Dei de ombros, fingindo não ter importância.
— Assim vai acabar com o clima. — riu enquanto colocava a comida para mim e para ela. — Você fez a minha sobremesa favorita, eu vou comer e vai aparecer alguma espécie de anel ali no meio?
— Nossa! Como se atreve a estragar toda a surpresa, sua pestinha?
— Mas oi? É verdade? — minha namorada perguntou um pouco espantada, e minha vontade de gargalhar quase venceu minha vontade de enrolar com aquela história. — Eu vou comer o anel, !
— Fica tranquila, amor, está em um local especifico. — Tranquilizei-a e começamos a comer.
Vez o outra, o olhar de caia sobre mim, na esperança de que eu acabasse logo de comer e partíssemos para a sobremesa, em busca de um anel que não existia. Essa brincadeira de “anel” me assombrava muitas vezes. , aparentemente, estava esperando por isso e, ao mesmo tempo, como eu a conhecia muito bem, era apenas uma maneira de saber o que eu sentia por ela. Certamente, ela não precisava de um anel para saber disso. Não em nosso momento de recuperação ainda.
— Vou partir isto em quatro! — afirmou, cortando e começando a comer devagar. — Não tenho que dividir com você, né? — perguntou com a boca cheia, e apenas assenti, sorrindo para minha namorada, de que não precisava, e esperando pacientemente, enquanto ela mastigava minuciosamente, em busca de algo, do anel, que nunca encontraria naquele pedaço e em nenhum outro.
acabou de comer e olhou para mim, desconfiada, e eu fui entregue pela risada que não contive, levando-a junto comigo em uma gargalhada quase sem fim.
— Eu amo você! — ela me disse em meio às risadas e levantou-se da mesa, vindo para mim. — Foi mais especial do que se tivesse realmente um anel! — afirmou feliz e me beijou calma e serena, como eu costumava me lembrar.
Doce e com amor.
Manhosa e com graça.
Eu estava totalmente sob seu controle.

I'm a puppet on your string


Outubro

— Preparado? — disse, animada, saindo do banheiro e ajeitando seu cabelo, que havia sido cortado. Estava linda em um vestido azul com duas pernas de pau, da qual ela chamava de salto alto, na cor branca.
Hoje é o dia do lugar especial para e o suspense estava total. Não recebi sequer uma única dica durante a semana e nem mesmo hoje; desta vez, era surpresa total e ansiedade, e o mistério estavam esmagando a minha animação. Queria saber o que faríamos e nosso destino.
— Eu já não deveria saber aonde estamos indo? — perguntei, tentando parecer desinteressado, enquanto bagunçava o cabelo para fazer charme e vir para ajeitá-lo quando terminasse sua arrumação. — Você escolheu até a minha roupa... Vai me pedir em casamento?
Não seria má ideia. Eu aceitaria.
— Meu amor... — Ela veio com a voz doce e encostando as duas mãos ao lado do meu rosto como se eu fosse sua pequena criança. — Meu lugar, minhas regras! — disse e sorriu, levando a mão até meu cabelo para colocá-lo do jeito que gostava: igual um nerd desejado.
Beijei-a em agradecimento e quase decretei que ficássemos em casa para não parar de beijá-la, mas o pensamento foi afastado assim como o corpo de . Segundo a mesma, estávamos atrasados e, então, me doou toda a sua correria, sem saber o destino, descendo escada e entrando no carro ao som de ‘Vamos, vamos’ ligado no repeat.
O rádio ligado tocava uma música qualquer da qual sabia toda a letra e cantava extremamente empolgada. Sorri porque era perfeito vê-la feliz com tão pouco e caí em pensamentos sobre o porquê de não saber a letra daquela música para cantar com ela. A introdução de ‘A sky full of stars’ começou, e estourou o limite do volume, começando a se sacudir e a cantar enquanto dirigia. Ofereci minha mão de microfone à mesma e, com a outra, filmei um pedaço para guardar de recordação do nosso começo de noite.
— Vamos a um Karaokê. Pegou bem a dica. — disse, sorrindo, ao terminar a música, e eu ri, gargalhei.
— Sou um péssimo cantor, e você sabe disso! — reclamei com birra, e a minha namorada só poderia estar de sacanagem com a minha cara sobre essa eventualidade.
— Você quem não reconhece que canta bem, — ela cantarolou ao me responder, indicando que logo mais chegaríamos ao nosso destino.
Demorou entre 15 a 20 minutos para chegar e achar um lugar, e, dentro desse tempo, e eu fizemos um acordo, péssimo, por sinal, de cinco músicas; ela, certamente, escolheria três das que eu deveria cantar, e vice-versa.

~*~


— A pergunta que não quer calar é: você conhece a música que eu escolhi? — O sorriso infantil e de molecagem tomava conta do meu rosto, esperando a reação da minha namorada e também esperando a sua vingança quando chegasse sua vez, que, vale lembrar, já era a última. Perdemo-nos cantando The Maine — (Un) Lost, Mcfly — Transylvania, Taylor Swift — 22, Backstreet Boys — Everybody, com direito a coreografia da minha parte, e Spice Girls — Say you'll be there, com direito a 4 integrantes para ajudar .
— Quem diabos canta isso? — perguntou em alto e bom som.
— Drake! Vai me dizer que você nunca escutou essa música dele? — A cara de monstrinho com raiva tomou conta dela, junto com o sorriso diabólico no canto da boca. Ela cantaria, e eu sofreria com a vingança. — Vamos lá, amor! Você consegue! — incentivei, colocando ‘Fake Love’ para ela cantar, e eu iria auxiliá-la para garantir que sua vingança não fosse tão pesada para mim.
Enganado.
sabia a fucking letra toda, apenas não gostava da música; aliás, do cantor! Foi sensacional vê-la cantar e receber aplausos de pessoas não sóbrias, como nós, no lugar, até chegar a minha vez, e aparecer, brilhando, a palavra “MERCY” no Karaokê. Não fazia ideia de quem cantava e nem do ritmo em que se encontrava aquilo. O começo, certamente, foi uma derrota, e todo o resto também, e gargalhando sem parar ao meu lado me fez colocar a mesma música de novo, e eu iria dar um show no estilo ‘10 coisas que eu odeio em você’ para ela.
não entendeu nada quando coloquei a música para repetir e subi no balcão do bar com o microfone e uma cerveja cheia e aberta em mãos. A música começou novamente e, o ritmo, eu já havia pego. Agora, precisava da letra e da performance, e, principalmente, não cair do balcão.
Minha namorada estava com vergonha e feliz, enquanto eu andava para um lado e outro do balcão, fazendo a minha melhor cara de ótimo cantor. Em determinado ponto da música, ela aproximou-se para que eu pudesse lhe entregar a cerveja e, então, eu cantei para minha pequena:

Consuming all the air inside my lungs
Ripping all the skin from off my bones
I'm prepared to sacrifice my life
I would gladly do it twice


Todas as frases não ditas saíram naquele pequeno trecho, e toda aquela música havia feito sentido dentro de mim.

Novembro

, quantos anos você tem? — minha namorada perguntou irritada, após eu questioná-la incontáveis vezes do porquê não poderíamos ter árvore de Natal e todos os enfeites em casa. — Essa sua carinha é de uma bela criança, mas você não tem mais 5 anos, amore.
— Mas meu be...
— Shhh! — me cortou e voltou a zapear os canais da TV, enquanto eu resmungava, vez ou outra, tanto sobre a árvore de Natal quanto a programação de sua escolha.
Eu estava insuportavelmente implicante.
— Você é pior que criança! — afirmou isso, praticamente, uma hora depois que estávamos jogados no sofá, vendo qualquer coisa, e eu? Apenas ri de sua informação perante à minha insistência, que, hoje, já estava completando quatro dias. Minha namorada levantou-se e saiu a passos firmes da sala, voltando com sacolas enormes em mãos. — Era para ser uma surpresa, sabe? — Sacudiu as sacolas, fazendo uma cara emburrada, antes de sentar-se no tapete da sala. — Mas o meu namorado não sabe esperar!
— É mesmo? E quem é o seu namorado? — perguntei, debochando e indo me juntar a , com um sorriso enorme no rosto.
— Quem será ele? Será este que está na minha frente e vai levar uma estrelada na cabeça? — A resposta debochada veio junto com a estrela que, certamente, não me atingiu, e eu ri, segurando-a pelos braços, antes que ela tentasse me acertar com qualquer outro enfeite de Natal que era descoberto na sacola.
— Você me fez implorar por dias! — reclamei, lhe dando beijos pelo rosto todo. — Isso não se faz! Que tipo de namorada é você?
— Hum... — fez sua melhor cara de pensativa, enquanto eu não parava de distribuir beijo em seu rosto. — O tipo de namorada que queria fazer uma surpresa e que, agora, está esperando para ganhar um super beijo, antes de me levantar para montar a tão sonhada árvore de Natal do meu menino .
Atendi seu pedido de imediato e dava para perceber que estávamos sorrindo entre o beijo. Ela estava feliz assim como eu. Talvez, eu estivesse mais, como uma criança de cinco anos.

~*~


— Acho que vamos precisar de uma escada maior. — disse, assim que voltei a subir a escada para colocar os enfeites na parte alta da árvore, e eu não entendia o porquê, já que eu alcançava fácil até o topo.
— Por quê? — perguntei distraído enquanto pendurava a última bolinha vermelha que estava em mãos.
— Para colocar a estrela, ué. — deu de ombros, e eu indiquei para que ela pegasse a estrela e pudesse colocar. Minha namorada não se mexeu, digo, em direção à estrela, que estava pelo sofá, junto com outros enfeites natalinos; do contrário, veio em minha direção. — Você acha mesmo que vai conseguir me colocar lá em cima? Pois a única estrela que eu estou vendo aqui, nesta casa, sou eu!
— Mas é o que? — Eu gargalhei, e minha namorada estava com o olhar sereno e impassível como se ela realmente quisesse estar no topo da nossa árvore de Natal.
— Eu não sei do que você está rindo, . — E nada mudou na sua feição, até que eu a olhasse diretamente nos olhos, ainda rindo, vendo-a se entregar na própria bobeira. — Você é o pior namorado do mundo. — Ela revirou os olhos e subiu dois degraus da escada para ficar, basicamente, na minha altura, já que havia sentado em um dos degraus, acariciou os dois lados da minha bochecha como sempre fazia antes de me beijar e me beijou.
Ternura e inocência.
— Minha criança favorita — ela disse e tirou um papel do bolso, me entregando. Era o ingresso do show do meu cantor favorito e, certamente, eu não poderia estar acreditando naquilo. Olhei de para o papel, inúmeras vezes, até ouvir sua voz me trazendo de volta: — Papai Noel passou mais cedo.
— Obrigado, amor! Nossa! Eu nem sei como agradecer e... — Olhei para o ingresso novamente. — É o Ed Sheeran! Tem noção? — Voltei-me para , abraçando-a e repetindo ‘obrigado’ para ela. — Obrigado, de verdade! Meu melhor presente, depois de você. Eu te amo, sim!

Dezembro

Hoje, definitivamente, saí do trabalho, empolgado para chegar à nossa casa e convencer a encarar o Papai Noel de que ela tanto dizia ter medo e criticar. Era engraçado, mas, este ano, ela estava empenhada em ver a cidade no Natal, assim como se empenhou, arrumando a nossa casa. Os pisca-piscas da porta de entrada ainda estavam apagados e as luzes do hall também.
Estranho.
Abri a porta devagar, esperando por um susto ou bobagem de , e nada aconteceu, apenas o latido de uma Tiêta agitada me invadiu. Ela deveria estar sozinha por bastante tempo, o que era bem estranho. Hoje era folga da minha namorada e, caso saísse, mensagem, ligação e bilhetes eram nossos meios e acordos de sempre para evitar preocupação. Caminhei até a cozinha, enxergando a folha dobrada presa ali. É o bilhete... Ou não. O medo de abrir o pequeno papel, por um milésimo de segundos, quase foi maior que a curiosidade e, então, eu abri o papel e comecei a ler seu conteúdo:

Eu me sinto completamente estranha e sozinha, completamente solitária e, definitivamente, preciso reverter esta situação. Tudo que digo parece vazio e frio, soa falso e não quero que essas palavras machuquem você e nem ninguém.
Toda a dor que eu achava que conhecia aumentou em um determinado ponto e momento, embolado com os meus pensamentos, e eles sempre insistem em me levar a você e o quanto eu não sou o suficiente para merecê-lo. Estamos de volta ao que nunca foi dito, e isso fica dia e noite na minha cabeça, sem que eu saiba lidar. Com toda a paciência, você tentou, insistiu em mim, para que eu não me quebrasse, caísse e me autodestruísse. Não funcionou, , e nunca funcionaria, pois você estava tão quebrado quanto eu para que saíssemos dessa ilesos, felizes e como uma família, e eu juro que tentei por você.
Não guarde mágoas.
Não sinta culpa.
Não sinta raiva.
Tudo isso são palavras suas e vou usá-las contra você agora. Desculpe-me.
Nunca consegui esquecer o acidente, da mesma forma que nunca quis por tudo sobre isso para fora. Talvez eu tenha me jogado na frente do carro, ! Estávamos nos tornando a sombra preta um do o outro e era quase tóxico.
Será que poderíamos criar uma criança juntos? Separados? Já parou para pensar que posso ter pensando em tudo isso apenas para perdê-lo?
Eu já sabia faz semanas e não te contei. EU NÃO TE CONTEI!
Guardei para mim e, aos poucos, me convenci de que eu o queria e, então, contei a Melanie e, juntas, a ideia era te fazer uma surpresa no Dia dos Pais.
Eu estava muito animada, muito feliz e muito segura. Não digo que era uma salvação para nós, mas, talvez fosse a esperança, e era, até você me dizer: “É seu pai, a única pessoa que você tem”.
Eu quebrei e, ao mesmo tempo, quis te contar que eu não queria ter o meu pai, apenas você, sempre você. Perdida, sozinha e confusa.
Desci do carro para morrer e não para conviver com culpa e dor com você.
Estou me libertando e libertando você, meu bem.
, viva e não se culpe, ou jamais ache que errou. Sem sombra de dúvidas, você só acertou e, por acertar demais, que você merece alguém... Alguém que acerte com você.

Com amor e liberdade,
.


Reler não era uma opção, depois de vintes vezes.
Ligar também não, após muito mais que trinta tentativas.
Pedir misericórdia pela minha alma e coração não fazia sentido. Nada fazia sentido; principalmente, .
Ela havia tentando me ensinar sobre amor e nunca consegui entender, até agora.
Amar o outro nunca será deixar ir e, sim, respeitar, amar-se também, colocá-lo em primeiro lugar quando ninguém nunca o fez, não roubar a felicidade. Amar é sacrifício sem ser.
Eu estava com raiva. Muita raiva por ela saber amar e me libertar em um pedido mudo que eu nem sabia que existia dentro de mim.
Remoendo culpa por não ter entendido antes, por perder.
Mágoas pela falta de misericórdia do meu coração.
E amor, por amar .
Na dor, na loucura, na paz, no temporal, no silêncio.
Amar é amar.
Amar pode ser fácil... E em vão.

I need you to set me free
I'm begging you for mercy, mercy
On my heart


Fim



Nota da autora: (26/12/2016)




comments powered by Disqus




Qualquer erro nesta atualização são apenas meus. Para avisos e/ou reclamações, somente no e-mail.
Para saber quando essa linda fic vai atualizar, acompanhe aqui.



TODOS OS DIREITOS RESERVADOS AO SITE FANFIC OBSESSION.