Última atualização: 09/10/2017

Capítulo Único

My girlfriend’s bitching ‘cause I always sleep in
She’s always screaming when she’s calling her friends
She’s kinda hot though


Uma vez Liana havia me dito que não tínhamos nada a ver. Que éramos aquele tipo de casal que qualquer um diria “eles são lindos juntos!”, mas quando realmente soubesse o que se passava no nosso relacionamento não teria dúvida de que éramos, na verdade, problemáticos.
Embora parecesse sadio, a gente se atormentava o tempo inteiro, ela gritando no meu ouvido por qualquer motivo, e eu a deixando falar sozinha achando que estava errada. Mas o problema era que nós, exatamente, nos completávamos.
- Você tá me escutando? - ela falou enquanto eu lembrava o que mais tinha que por na minha lista de motivos de não contar pra minha mãe que eu tinha uma banda de fundo de garagem e que queríamos realmente virar algo maior.
- Queria estar te escutando, mas tô nervoso e não consigo pensar em outra coisa a não ser nessas drogas de motivos que eu não devia contar nada pra minha mãe! – falei, querendo jogar os papéis pra cima e passei rapidamente os olhos pelo rosto de Liana, que sorria de lado. Ela adorava me ver irritado, dizia que dava tesão nela. Mulheres…
- Não esquece que sua mãe não é o único problema… Seu pai também não vai levar isso na boa, . - ela falou, me olhando como se fosse minha própria mãe, mas riu depois, mordiscando o lábio. Ela poderia ter me atiçado, se não tivesse me deixado mais irritado ao lembrar daquele pequeno detalhe.
- Ótimo. – falei me levantando, desejando me atacar no sofá do porão da casa dela, onde estávamos, e dormir por uma semana, que aí não teria que encarar meus pais e muito menos a minha ideia de ter uma banda famosa. Às vezes achava que o certo a se fazer era apenas viver a vida como meus pais queriam. - Se não se incomoda, vou dormir aqui porque não posso voltar pra casa agora. Dona Liz resolveu passar a tarde com as colegas no jardim fazendo ioga e disse que eu iria a atrapalhar com a minha guitarra nas alturas… - olhei pra Liana, buscando seu olhar e a vi vidrada no celular. Mesmo assim continuei falando, enquanto me aconchegava no sofá e a via me ignorar por completo, como ela gostava de fazer pra me dar o troco. - Ela disse até que ia tirar minha guitarra se eu continuasse tocando nos horários dela relaxar. Cê acredita? - minha pergunta foi o que a despertou do transe, me olhando e piscando antes de falar uma simples palavra…
- Oi?
- Obrigada por prestar atenção, amor. Boa noite pra você.
Ela rolou os olhos e a última coisa que vi foi ela atendendo uma chamada no celular, antes de fechar os olhos. Meu sono durou exatamente cinco minutos, pois no sexto, ela já havia perdido a delicadeza dela e falava como se tivesse uma pessoa quase surda do outro lado da linha, porque, com certeza, o intuito dela era dar surdez contínua a qualquer que fosse a alma que estivesse falando com ela. Nunca entendi a necessidade de falar gritando no telefone que ela tinha e pelo visto nunca iria entender.
Ela falava algo sobre trabalhos e formatura com um grupo de amigos e berrava cada vez que, aparentemente, o celular passava de mão em mão do outro lado da linha.
Eu perdi minha paciência. Meu corpo estava mole pelo sono e fui me arrastando até a porta… E levei um susto quando vi a mãe dela, dona Penelope, aparecer com uma expressão não muito boa bem na minha frente quando girei a maçaneta. Me acalmei quando percebi que seu olhar de preocupação não se tratava a mim, e sim se direcionava para Liana. Mesmo assim, alguns segundos após ela checar a filha, olhou pra mim e perguntou:
- O que houve com a maluca da minha filha dessa vez?
- Tire suas próprias conclusões, tia… Eu nem entendo mais! - falei e passei por ela, continuando a andar, sem nem ter a perspicácia de explicar para onde estava indo. Ela logo percebeu aquele pequeno deslize de minha parte e ouvi sua voz ressoando, voltada para mim:
- Para onde está indo, ? - me virei o mínimo que pude e me perguntei se ela não percebeu minha feição cansada de quem havia acabado de acordar. Tentei sinalizar com minha sobrancelha o que era óbvio, mas ela entendeu falhamente, me fazendo explicar.
- Pro quarto da Liana. Dormir. Já que não consigo dormir no mesmo ambiente onde essa criatura está berrando. - revirei os olhos só de lembrar e a mulher riu baixinho, balançando a cabeça. Ela acenou pra mim para que eu pudesse ir e eu apenas acatei a decisão dela.
Pareceu que demorou um ano para chegar na cama dela, mas quando cheguei e senti o colchão macio debaixo do meu corpo, não demorou mais que três segundos para eu pegar no sono. Cheguei a sonhar com a minha guitarra, meus amigos e nós quatro em cima de um palco, realizando nosso sonho de ser estrelas mundialmente conhecidas. Quando o show acabou, fomos pro camarim e tinha muita comida, vários celulares mil vezes melhores que os nossos atuais e… mulheres. Loiras, morenas, ruivas! Eu realmente tinha esquecido que essa também era uma coisa que devia ser supostamente boa na vida de um cantor internacional.
Foi na hora que eu peguei um dos celulares e ia desbloquear, que senti uma rajada de vento forte vindo na minha direção e logo após um peso enorme em cima de mim. Caí no chão no sonho e rolei para fora da cama no mesmo momento. Abri meus olhos e vi uma Liana cansada na cama rindo de mim que estava jogado no chão.
Levei minha mão direita a minha testa sentindo uma dor horrível e tendo certeza que ficaria com um galo naquele lugar. E se duvidasse ficaria com dor de cabeça o resto do dia.
- Não teve graça, Liana… Nem dormir eu posso mais! - falei com raiva, levantando e batendo a mão na minha calça que estava suja devido a farelos de biscoito que tinha por todo chão do quarto da minha namorada. - Por Deus…
- Ai, , deixa de ser dramático… - Liana disse, me alcançando pela mão e me puxando para cama, fingindo que estava tudo bem quando na verdade não estava.
- Liana, para. - falei antes de me alterar de vez. Olhei para ela que agora tinha o olhar firme e logo desviei, pensando no quanto a gente lutava por um relacionamento que só destruía a gente. Porque eu realmente não sabia como suportava aquilo. - Você realmente acha que a gente vai fazer sexo e vai ficar tudo bem? Que nosso namoro vai ficar melhor só com isso? – perguntei, dessa vez olhando nos seus olhos e tentando entender o que se passava pela cabeça dela, o que era realmente um desafio.
- Não, , eu nunca pensei isso! - ela falou, me largando e sentando na cama, cruzando os braços na altura de seus peitos e fazendo a mesma coisa que fiz anteriormente: desviando o olhar que a gente tentava manter. Me ignorando.
Bufei e olhei pros meus pés, pensando em algo, para falar.
- Então me explica o que você pensa, porque eu estou farto de não entender porque a gente se trata dessa forma quando tudo que a gente precisa a gente poderia ter. – pedi, buscando seu olhar que sempre fugia do meu.
- E por que você acha que a gente não tem? - dessa vez ela me olhou petulante, me enfrentando.
- Não é óbvio que a gente não consegue manter uma conversa por três minutos sem um duvidar do outro? Sem um não achar que o outro está errado e que precisamos nos provar certos antes que comece uma briga sem razão? Porque, olha, eu tô ficando louco desse jeito e pelo menos achava que não era o único. - dei um passo pra trás na esperança dela ter algum argumento pra concordar comigo, mas ela apenas abaixou a cabeça. - Já entendi. Eu vou embora. Eu cansei. – falei me virando, sentindo meu rosto se tornar rugas, e indo pra porta, mas logo ouvi um barulho bruto e a senti se abraçando as minhas costas.
- Você não vai embora assim! - ela começou a me puxar. - Senta! A gente precisa conversar!
- Não, Li, é sério… - eu pedi, tentando voltar a ficar calmo e também tentando me soltar. - Eu tinha te dito quando cheguei que não poderia ficar até tarde aqui. Minha mãe daqui a pouco vai estar ligando e eu não quero que sua mãe se preocupe comigo…
- . Você não vai embora até a gente se acertar. - ela falou séria, me virando com força e olhando nos meus olhos. Eu vi seu olhar certo, como se tentasse mudar o que eu sentia ou pensava quanto aquilo tudo e toda calma que eu tentava trazer novamente se esvaiu e trouxe de volta a raiva que me consumia minutos atrás.
- Não, Liana, chega! Era sobre isso que eu estava falando! Essa sua mania de achar que sempre está certa! Eu não quero conversar, eu tô cansado! Saturado! Você só sabe gritar e agora sou eu que estou gritando! Satisfeita? Agora tem dois malucos nessa casa! Aliás, não, não tem. Eu tô saindo. Agora! Dessa casa e da sua vida também!
Tudo virou de cabeça pra baixo naquela hora. Eu só a ouvia gritando e pedindo pra eu voltar, soluçando. Lembro também de ter visto a mãe dela na sala quando eu passei direto e abri a porta pra ir embora. E nunca mais pisar lá.
Depois de duas semanas evitando Liana na escola, olhando-a de lado e imaginando como devia estar sua vida, eu percebi que estava atrasando a minha. Eu não consigo fazer nada na minha vida sem pensar mil vezes e tirar alguma lição daquilo. E estava custando pra eu fazer aquilo.
Andei, tentando não olhar muito pros lados e logo notei que já estava de frente a um dos meus únicos amigos naquele lugar mais conhecido como inferno.
- Irmão, você tá bem? - senti a mão de no meu ombro e levei um susto por não esperar aquilo. Não, eu não estava nada bem.
- Tô, . - tentei parecer frio, mas ele, e me conheciam melhor que qualquer pessoa um dia vai me conhecer. Seu olhar pesou duvidoso sobre mim e eu desmoronei. Era a primeira vez que eu tinha feito isso na frente de alguém durante as duas semanas que o fim do meu namoro com Liana me atormentava. Ele sabia que havia acabado e aposto que estava só esperando o momento onde eu ia finalmente falar. - Eu não sei o que vou fazer com a minha vida daqui pra frente. – disse, olhando pra baixo ainda sentindo o olhar dele sobre mim.
- Namoros acabam. - foi a primeira coisa que ele falou e eu tive que levantar meu olhar e rir de lado, desacreditado com aquilo.
- Isso é o melhor que você pode falar? - eu estava a ponto de gargalhar de nervoso com aquela frase e situação que eu estava. Ele rolou os olhos antes de começar o discurso do ano:
- E você vai superar ele. Vai superar a Liana, e sabe como? Com a nossa banda! Você não entende? - eu nunca tinha o visto tão expressivo como naquele momento. - Era isso que faltava! Você se livrar dela, que dizia que era doida, gritava, só sabia reclamar, e vocês não tinham o mínimo de comunicação, - ele enumerava mostrando os dedos. - para agora focar na música! Porque você sabe que foi para isso que a gente nasceu! Para cantar, tocar, e brilhar nos palcos. E a gente vai conseguir, irmão. Custe o que custar, o que, no seu caso, foi o seu namoro. A gente vai chegar lá e, no final, vamos poder dizer que tudo valeu a pena. Nós podemos ser os “losers” agora, mas ainda vamos ser os reis do pedaço! - ele ia se virando, ainda vermelho por ter falado tudo num só fôlego, quando voltou. - Ah, e não se esqueça. Se seu problema é mulher, lá na frente nós vamos estar rodeados por elas! - e saiu, como se não tivesse falado tudo que mudou meus pensamentos.
Por incrível que pareça, ele conseguiu me tirar um sorriso. E foi lembrando dos olhos dele que eu percebi que era exatamente aquilo. Exatamente aquela lição. Às vezes nós temos que abrir mão de uma coisa para outra maior acontecer. E era aquilo que estava prestes a se tornar real diante dos meus olhos.

My shrink is telling me I’ve got crazy dreams
She’s also saying I’ve got low self esteem
[...] She put me on meds
She won’t get out of my head
She’s kinda hot, though


Eu não vou me exceder falando que odiava tudo que eu vivia, porque eu estaria mentindo. Eu realmente amava meus amigos, amava viver cercado de pessoas e amava a nossa banda de fundo de garagem. Mas eu, simplesmente, me odiava.
Também não tenho coragem de dizer que é tudo culpa da minha mãe ou do meu pai, que nos abandonou quando eu era apenas um garoto de 3 anos de idade e ela tinha apenas 25. Ela, mais conhecida pela vizinhança como Joy, sempre trabalhou muito para colocar tudo do bom e do melhor na nossa casa, e eu vivi com uma vida quase de classe A, se não fosse todo fim do mês que nem uma banana tinha naquela casa. Ela simplesmente não media esforços e acabava comprando tudo de uma vez com o salário dela e nada rendia. Sem contar com as coisas que ela gostava de bancar todo fim de semana como se fôssemos ricos.
Ver aquilo diante dos meus olhos se tornou insuportável a partir dos meus 13 anos, quando eu percebi que tinha algo errado. Lembro de perguntar se ela precisava de ajuda, que nós podíamos procurar meu pai e exigir uma pensão, mas ela dizia que conseguia se virar e nunca me deixou ajudá-la. Eu não reclamava, eu era apenas uma criança.
Aos 15 anos eu decidi que não ia deixar aquela situação precária da minha mãe me irritar mais. Eu me sentia um inútil e queria fazer algo pra ajudar. Comecei a trabalhar na oficina do pai de após a escola e ele me pagava 15 dólares por qualquer mínimo reparo, o que eu agradecia muito, pois era mais ou menos 75 dólares por semana que eu ganhava. E todo fim de semana eu colocava o que recebia na minha conta do banco, que eu havia feito sem minha mãe saber, apenas com a ajuda do pai de .
Sempre que ela não estava por perto, eu dava um jeito de pôr algum dinheiro no meio das coisas dela e ela realmente não percebia. Às vezes eu via seu rosto se contorcer ao contar o dinheiro que tinha em sua carteira, mas ela ao menos me perguntava da onde tinha saído aquela quantia a mais.
Aquilo virou frequente e eu percebi que não faria diferença nenhuma pra ela. Acabei voltando a me sentir um total inútil. Nem a minha própria mãe ligava pra mim, pro dinheiro que tinha na carteira dela. Eu a amava, sentia realmente orgulho por ela se auto sustentar, mas me agoniava saber que ela não precisava de nenhuma ajuda, nem vindo de mim.
No ano seguinte, ao ver que eu não era o único que tinha problemas com a família em casa, e meus amigos conversarem comigo, eu resolvi que ia investir aquele dinheiro, que eu voltei a guardar, em outra coisa. Numa psicóloga.
Eu achava que era são e não precisava daquilo, mas eles realmente insistiram e eu não pude dizer não. Eu sabia que eu tinha algum problema por tanta coisa que me afligia e precisava tratar aquilo se eu quisesse mesmo entrar na banda que eles queriam montar.
Foram após cinco sessões que eu descobri que tinha uma coisa chamada baixa auto-estima. Que tudo aquilo que eu vivia se enraizou em mim e eu não conseguia me sentir bem comigo mesmo. Eu também não confiava na minha mãe, tinha medo que ela fizesse o mesmo que meu pai fez e era isso que atrapalhava até meu rendimento escolar. Lembro como se fosse hoje de voltar da sessão a qual eu descobri tudo isso e passar a noite toda chorando achando que eu nunca ia melhorar. Que eu seria assim a vida toda. Eu queria fugir e nunca mais voltar.
O dinheiro serviu pra eu me tratar por um bom tempo, pois resolvi tentar melhorar, por mais que eu achasse que nunca iria ficar 100% melhor. Faltando um mês para completar um ano que eu frequentava o lugar, eu percebi que a beleza de Ollie, minha psicóloga, também era um fator que me influenciava para continuar indo. Ela normalmente dava exemplos sobre a vida dela para eu entender melhor em que área da minha vida eu poderia colocar mais esforços para melhorar, e aquilo me deixava mais confortável, sem contar que foi por isso que eu comecei a olhá-la com outros olhos. Eu realmente era atraído pela minha psicóloga que tinha dez anos a mais que eu e ela acabou se tornando mais próxima de mim do que minha própria mãe. Eu era um problema maior do que eu imaginava.
Ollie até me receitava remédios de homeopatia, que foi um dos motivos do dinheiro ter acabado mais rápido, e era com a ajuda deles que eu melhorava quando tinha alguma crise.
Naquela noite de quinta, após voltar da sessão, fui direto ao banco ver quanto estava meu saldo. Encontrei apenas 12 dólares e eu precisava de no mínimo 30 para conseguir fazer mais um frasco do floral que tinha praticamente acabado. Fui pisando forte para casa pensando que teria de pedir dinheiro a mais para minha mãe mais uma vez, já que estava frequente aquilo. Ficava frustrado, claro, mas eu não tinha muito o que fazer quando eu não tinha mais tanto tempo para ficar na oficina dos , por causa do tempo extraordinário que eu ficava na escola, e também não podia procurar um trabalho nos fins de semana, pois minha mãe o passava em casa e iria suspeitar. Resumindo, eu estava me sentindo um merda quando entrei em casa e fui direto a cozinha, avistando minha mãe no balcão cortando verduras para fazer o que parecia ser uma salada.
Ela me viu de canto de olho e eu joguei minha mochila na sala, pensando qual seria a desculpa que eu daria para pedir aquele dinheiro. Bufei, já em frustração, e passei a mão pelo cabelo, ficando aflito.
- Mãe... – falei, sendo cortado pela mesma.
- Boa noite, filho. - ela sorriu, percebendo que tinha algo errado. - Tudo bom?
- Boa noite. - sorri o mais normal possível, tentando não mostrar como eu estava nervoso, e ela sorriu concordando, voltando a cortar as verduras que ela tinha parado rapidamente para me olhar. Minha linha de pensamento foi pro espaço e, ao notar que eu estava estático no ambiente, ela voltou a falar.
- Tá tudo bem com você, ? Precisa de algo? - mordi minha boca antes de falar e cocei a cabeça mais uma vez. Eu estava prestes a ter uma crise e era justamente porque eu não tinha o remédio. Devia ter meras três gotas e eu precisaria de mais do que aquilo para me acalmar.
- Eu tô bem sim, eu só… - enrolei pra falar, mas peguei fôlego o suficiente para falar qualquer coisa que veio na minha cabeça no momento. - Preciso de dinheiro para fazer impressão de um trabalho que tô fazendo na escola.
Eu quis me bater por ter falado aquilo, porque ela nunca acreditaria que eu precisava de 30 dólares para fazer algo tão simples. Cheguei a olhar para janela do lugar desejando estar saindo por ali para não ter que enfrentar dona Joy.
- E de quanto você precisa? - ela continuou cortando, agora com uma cara melhor, mas ainda parecia desconfiada de algo. - Aliás, é para agora? - parou de cortar novamente e me olhou de lado, não querendo se mexer. No momento seguinte ela já não olhava mais para mim. Ela realmente não fazia muita questão nem da minha presença.
- Sim, é pra agora… - pensei duas vezes antes de pedir 30 dólares e resolvi pedir só 20, ainda um absurdo, que eu podia inteirar com meus 10. - Pode ser 20? - falei como quem não quisesse nada, mas ela deixou a faca cair e se virou. Naquele momento eu sabia que estava terrivelmente frito.
- Vinte, ? Vinte dólares pra imprimir algumas folhas? - ela cruzou o braço e levantou uma sobrancelha. Eu sabia que ela não ia acreditar. Tentei fazer minha voz não falhar, mas foi um pouco difícil.
- É que esse trabalho é pra formatura.... Precisamos imprimir um anuário todo pra termos ideia do modelo e fazer o mesmo com os outros. As cópias são mais baratas, é só o primeiro que é mais caro. - fui me acalmando ao falar coisas que faziam sentido e no final até consegui dar um sorrisinho de orgulho por ter me segurado e até pra passar confiança pra ela. Podia até ser que eu não confiava nela, mas ela tinha que confiar em mim, já que nunca fiz nada de mal para ela. Era o que eu achava. Até aquele momento.
- Você por acaso tem algum papel com o orçamento de quanto vai dar, então? - ela duvidou da minha palavra e aquilo me fez ficar irritado. Mas eu podia me segurar, certo?
- Não tenho aqui. O cara que me atendeu só falou quanto vai ficar, não me deu papel nenhum. - minha voz saía ríspida e eu já não tinha medo de como eu soaria pra ela.
- Então eu posso ir com você lá? Quero ver como vai ficar o anuário antes das outras mães! - ela falou como quem não queria nada, mas eu sabia que ela estava me testando.
- Eu posso te mostrar quando eu chegar em casa! - falei rápido, sem pensar.
- Ótimo, estarei aqui esperando ansiosa o seu anuário. Aliás, você tirou a foto maior que vai ficar na primeira página, né?
Aquela foi a última coisa que ouvi antes da apreensão da mentira me tomar por inteiro. Quando eu percebi, todas as verdades estavam saindo da minha boca com vontade de serem ditas e eu queria sumir.
- Chega, mãe, chega! Você nunca duvidou de mim, nunca! Por que está me testando? Por que acha que eu tô mentindo? E se eu tiver, hein? E se eu quiser comprar remédio pro meu problema psicológico que eu tenho por causa de você? Vai me pôr de castigo? Vai tentar tomar as rédeas como se fosse mãe e pai, quando você não tem o mínimo de autoridade nessa casa, principalmente quando eu passo horas fora daqui e você nem liga? Eu tô cansado disso! Cansado de ser um bom filho e você não me valorizar! Can-sa-do!
A raiva me possuiu de uma forma que até lágrimas saiam dos meus olhos. Ela estava assustada, mas ao mesmo tempo com raiva. Eu conseguia ainda ver o rosto dela, mas a minha visão começava a ficar turva.
- Você pensa que você está falando com quem, mocinho? Abaixa esse tom de voz porque eu não sou seus coleguinhas! E, sim, eu não confio em você justamente por isso! Por sair de casa e não dizer aonde vai! Por não se dar ao luxo de fazer algo por mim nessa casa e só pensar em ficar vagabundeando por aí. - eu fechei os olhos fortemente nessa hora, pensando em todas as vezes que tentei ajudá-la e ela negava. Ódio era o que eu sentia naquele momento. Eu ia retrucá-la, mas ela me impediu. - E cala essa boca! Não fala nada, que eu que sou sua mãe aqui e sou eu quem dita as regras! Sem dinheiro. Não vou te dar um tostão até você me dizer que merda é essa de problema psicológico e remédio! - ela percebeu que aquela ideia dela não fez muito sentido e reformulou o final. - Falando baixo! Me explica. Agora.
Eu não tinha outra opção a não ser dizer. Eu precisava daquele dinheiro. Mesmo que ela não me apoiasse depois, ela precisava saber, também, que era minimamente a causadora daquilo tudo. Ela merecia ouvir o que eu estava passando. Eu nunca tive tanta intenção de magoá-la como naquele momento.
- Mãe, eu sou doente. Eu tenho um problema e preciso de remédio para curá-lo. É por isso que eu quero dinheiro. Todo o meu acabou. - o rosto dela virou várias rugas ao ouvir minha última frase e eu abaixei a cabeça, falando baixo e explicando a ela alguns detalhes sobre a minha vida que ela não sabia. - Eu trabalhei por um tempo. Guardei dinheiro. - olhei pra ela com raiva agora, olhando no fundo dos olhos dela. - Tentei te dar dinheiro! E você nunca percebeu! Nunca perguntou de onde saía aquele dinheiro a mais na sua carteira! Aliás, uma ova que eu nunca tentei te ajudar! Quantas vezes eu não te perguntei se você precisava de ajuda? Hein? E você fingia que estava tudo bem, pegava o dinheiro e ia fazer suas compras! Você não tem noção de nada. NADA!
Eu chorava sem parar, minha voz tinha mudado de tom e eu devia estar vermelho de tanta raiva. Tirar todo aquele peso de cima de mim não estava sendo bom. Eu estava criando uma inimizade com a minha mãe por conta de algo que nenhum de nós dois podíamos evitar.
Ela ficou sem fala por alguns segundos e eu percebi que ela andava de um lado pro outro, sem conseguir ficar parada. Já não me olhava e parecia começar a ceder, mas esse era exatamente o meu medo. Eu queria brigar e mostrar que eu estava certo e pudesse finalmente viver sozinho, ganhar meu próprio dinheiro e não depender dela. Mas eu a vi, ali, naquele momento, e percebi que aquilo estava longe de acontecer.
Como se não tivéssemos acabado de ter a pior briga de toda a nossa relação de mãe e filho, ela chegou perto de mim, pegou a minha mão esquerda entre as suas, as olhando, e depois olhou pra mim. Minhas lágrimas já tinham parado de cair, então pude ver perfeitamente os olhos delas se enchendo de água. Uma angústia e vontade de chorar apareceu totalmente do nada dentro do meu peito. Toda a minha raiva tinha sumido e a sensação de “que merda eu acabei de fazer para minha mãe começar a chorar” apareceu de uma forma que eu nunca a havia sentido.
- , eu não sabia disso tudo! Não sabia que era você que colocava dinheiro na minha carteira, eu achava que era de troco que eu não contava direito das coisas que eu comprava. Eu não sabia que você tinha doença nenhuma, eu… - ela parou de falar e começou a chorar de verdade, com as mãos em cima da boca e se virando de costas pra mim, como se não quisesse que eu a visse daquela forma. Meu coração, que antes estava com um peso, agora parecia amarrado a alguma corda, pois começava a doer vê-la daquela forma. Eu estava muito assustado como nunca estive antes.
- Mãe… - eu cheguei perto dela, receoso, sem saber o que fazer, e coloquei a mão no ombro dela. Ela se virou novamente, tirando a minha mão e saiu pela porta da cozinha, falando.
- Mais tarde a gente termina essa conversa. Eu preciso de um tempo.
Eu fiquei estático ali por uns cinco minutos, tentando absorver tudo que tinha acontecido. Era muita informação em questão de nunca termos brigado tão feio como daquela forma. Aliás, a gente pouco conversava, então nunca nos falamos daquela forma. Essa seria com certeza uma coisa que eu levaria pra minha psicóloga, se é que minha mãe deixaria eu voltar pra lá.
Depois de fazer uma lanche pra mim, que não gostava de jantar, e colocar um copo de suco, me sentei em frente à televisão com minha comida e comecei a ver um jogo de futebol que passava. Nem me importei de ver quais eram os times, o que tinha minha atenção era o jogo em si.
Alguns minutos depois, quando eu já tinha praticamente esquecido da briga, senti algo afundando do outro lado do sofá e reparei que era minha mãe. Ela tinha o rosto claramente inchado de tanto chorar, o que fez a dor voltar pra dentro do meu peito. Me segurei e continuei a comer, esperando ela falar algo, enquanto eu imaginava o que teria acontecido se eu tivesse seguido ela até o quarto. Será que ela teria poupado algumas lágrimas? Só de pensar que eu era o motivo do choro, minha vontade era de me matar.
- Filho… - escutei a voz dela depois que deixei o prato e o copo em cima da mesinha de centro. Meu estômago revirou e me ajeitei no sofá, a olhando. - Toma - ela estendeu a mão com cinquenta dólares nela. - Pega, é pra você comprar o que você quiser. Xerox, remédio, até drogas, se quiser, pode comprar. - ela falou rindo, mas achei exagero. E se eu realmente fosse comprar droga? Tentei relaxar e rir da piada, mas não me contive.
- Eu não quero drogas, mãe… Eu só quero comprar meu floral para não ter minhas crises. - a face dela mostrava que ela não tinha entendido muito bem, o que eu entendi que seria um sinal para eu contar tudo para ela.
Naquela noite nós tivemos uma das melhores noites das nossas vidas. Após contar sobre a minha psicóloga, contei também sobre meus amigos e minha banda e ela, relutantemente, conseguiu entender que era uma coisa importante pra mim. Mesmo que eu sabia que seria uma coisa displicente dela e ela esqueceria, ela disse que me apoiaria a ter a banda e que quando eu quisesse levar meus amigos lá em casa, eu poderia levar. Lembro de perguntar a ela sobre o emprego que ela tinha, e ela também teve um pouco de paciência para me explicar algumas poucas coisas, mas pelo menos algo.
Nossa relação não mudou totalmente, como eu queria, mas fomos progredindo depois desse dia, até o dia que eu contei pra ela que eu e meus amigos queríamos nos tornar profissionais. Dois anos depois, claro, e ela até entendeu, mas brigou falando que eu não sairia de casa nem que eu quisesse. Nós tínhamos nos apegado de uma forma naqueles dois anos que nunca tínhamos nos meus 19 anos de vida.
E foi naquele momento que eu soube que tudo mudaria. Querendo ela ou não.

My friend left college ‘cause it felt like a job
His mum and dad both think he’s a slob
[...] When you’ve got bigger plans
That no one else understands
You’ve got a shot though


Eu conhecia , e desde os meus 9 anos. Nós éramos os quatro encapetados da Rua Jasmine. Meus pais eram bem próximos da família de , o que fez do menino pequeno o meu melhor amigo.
Ambas nossas famílias passavam muito tempo em festas chique e pelo fato de que naquela época éramos meninos que só faziam merda, eles nunca nos levavam as festas. Nossas irmãs e primas iam, e nós ficávamos em casa com a babá brincando de qualquer coisa até duas horas da manhã.
A proximidade nos fez crescer juntos na adolescência também e mostrou que realmente éramos com uma família, não só pra nós dois, mas como pra e também. Eles cresceram com problemas dentro e fora de casa, e eu não era diferente.
Costumo dizer que ainda teve mais coisas para facilitar seu trajeto de vida do que eu, pois meus pais eram rigorosos a nível de eu não poder sair de casa se não fosse pra casa dos meninos. Quando eu tinha que fazer trabalho na casa de alguém que não fosse eles, meus pais pediam o número da casa da pessoa caso eu morresse lá dentro e não soubessem o que fazer com meu cadáver. Pais…
Os meus eram exagerados e eu queria fugir constantemente de casa. Crystal, uma antiga namorada minha, falava que era por causa do meu ascendente. Eu ao menos lembro qual é e nem quero saber! O que acontece é que os senhores queriam me pôr na linha de qualquer jeito, desde meu ensino médio e até a hora que, no caso, eu não queria fazer faculdade.
Eu nunca tive a oportunidade de falar que tinha uma banda e sabia que eles iam reclamar pelo resto da vida se eu falasse aquilo. Ser guitarrista seria uma abominação na vida deles. Lá no futuro, claro, eu sabia que eles ficariam orgulhosos de serem pai e mãe de um artista famoso, ainda torcendo o nariz quando eu falasse algo que os desagradassem, mas, de qualquer forma, o sonho da vida deles era me ver seguindo o caminho do meu pai e me tornando juiz. Sim, juiz de tribunal, que tem que ler vade mecum de trás pra frente todo dia durante cinco anos na faculdade, e essa era a última coisa que eu queria.
Eu tentei agradá-los por muito tempo da minha vida. Até mesmo quanto a isso. Eu tocava na banda nos fins de semana que eu podia escapar do inferno que era a faculdade de direito, e tentava tirar notas boas. O problema só começou a aparecer quando eu percebi que, quando se tratava de coisas que eu não gostava, eu não era esforçado. Então eu comecei a acumular notas negativas no meu boletim e fiquei nessa durante dois períodos. Quando chegou o terceiro, eu recebi um aviso que se eu não me esforçasse mais para aquilo, eu seria jubilado. Queria eu que eu tivesse tido medo, mas tudo que eu fiz na época foi deixar de lado e continuar ferrando tudo.
Como eu morava na faculdade, eu não devia mais satisfações pros meus pais a não ser uma vez no mês, que eu jantava com eles e contava como andava minha vida. Até que aconteceu o impossível.
Estava eu dormindo, pleno, às 8h da manhã de uma sexta-feira que eu não tinha aula, quando ouço batidas na porta. Todos meus colegas de lá sabiam disso, que eu só acordava meio dia às sextas e odiava ser perturbado. Por isso, deixei que batessem bastante até a pessoa desistir, mas o sujeito era insistente e não se moveu de lá até que eu atendesse a porta.
- Pois não? - cocei meus olhos sonolentos enquanto imaginava como devia estar a situação do meu cabelo, lembrando que eu estava apenas com uma samba-canção. Quem estava na minha frente era nada mais nada menos que o diretor da faculdade. Com um papel na mão. E os dois seguranças dele. Até aí tudo bem já que ele vivia por todo lugar com os dois brutamontes. Mas na porta do meu dormitório? Algo estava bem errado.
- ? - a voz do homem ressoou forte e eu levei um susto.
- Eu mesmo. - falei como quem diz que foi na padaria, mesmo sabendo que era coisa séria.
- Vim entregar essa carta pro senhor. Estaremos aqui na porta lhe esperando.
Eu não entendi muito bem, apenas peguei o papel e o rasguei, abrindo a tal carta, apreensivo pelo que estaria ali dentro. Assim que desdobrei o papel e li metade da carta, percebi do que se tratava e quase desmaiei naquele momento. Só não fiz isso porque não queria pagar o mico de ser levado pelos dois brutamontes pra um pronto socorro.
- Eu… Eu… - tentava formular a frase olhando praquela merda de papel, mas as palavras só me vieram quando olhei para cara do homem. - Eu fui expulso?
- Isso mesmo. O senhor poderia, por favor, retirar suas coisas do alojamento? Meus seguranças o levarão para sua casa, já sabem o endereço. Em casos assim, preferimos que os pais saibam de tudo. Caso o senhor queira esconder isso deles também o problema é seu, mas eles não vão deixar de saber que os seguranças de sua antiga faculdade passou por lá.
Na minha cabeça, tinha uma placa brilhante em letras maiúsculas e neon na qual tinha escrita apenas três palavras: puta que pariu. Meus pais iam me matar.
Eu não era do tipo ansioso, era bastante calmo, inclusive. Mas naquele momento eu virei uma pilha de nervos, pois sabia que minha vida tinha acabado. Eles, com certeza, iam acabar com tudo que tinha me restado, como minha vida social e minha banda.
Foi pensando nisso que eu fiz minhas malas a manhã inteira, tomei um banho e entrei no carro do diretor, sendo levado para casa.
Quando cheguei na porta do local onde eu passei toda a minha vida, eu percebi que não queria entrar ali. Não queria ver a cara de reprovação dos meus pais mais uma vez dizendo que eu só dava desgosto a eles. Então eu fiz a coisa mais burra que eu podia fazer. Mesmo sabendo que eu teria de enfrentá-los depois. Eu preferia depois. Mas não naquele momento.
Assim que as portas dos carros foram destravadas, eu abri a que estava mais próxima de mim e saí correndo, sem dar tempo dos seguranças irem atrás de mim.
Eu já estava um pouco longe quando eles começaram a correr atrás de mim e aproveitei pra dar um perdido neles. Rodei o quarteirão umas três vezes e na última fui pra trás da próxima rua. Fiquei lá uns quinze minutos esperando pra saber se eles tinham conseguido me achar, mas eles passaram direto e acabaram desistindo.
Respirei aliviado e resolvi procurar a casa dos meus amigos mais próxima para me enfiar. De longe, vi que a mais próxima era de , então tentei não correr muito para não chamar a atenção e fui bater na casa dele.
- ? - tio Andrew abriu a porta e me olhava com a cara como se estivesse visto um fantasma, o que eu realmente devia estar parecendo naquele momento já que eu tinha corrido muito e devia estar pálido.
- Ei, como vai? - falei rápido, sem tentar dar motivos para ele suspeitar de algo. - O está aí, tio ?
Ele olhou para dentro como se tivesse procurando por alguém e parece que resolveu mentir, pois eu sabia que o sempre estava em casa.
- Ele não está n… - sua fala foi cortada quando um desceu rápido as escadas e me viu parado na porta, correndo até mim e me dando um abraço apertado.
- ! O que está fazendo aqui? - ele sorria abertamente e eu finalmente me senti perto de alguém que se importava comigo.
- A gente pode se falar aqui fora? - eu perguntei, vendo que o pai dele nos encarava. também percebeu e concordou com a cabeça, fechando a porta e lançando um olhar sério pro pai. Assim que ele se virou pra mim, eu tive vontade de beijá-lo de tanta alegria que senti por vê-lo ao pensar que eu o veria todos os dias dali pra frente. Imaginei como eu ficaria só de ver meus outros amigos e quis pular no meu pescoço de .
- Eu fui expulso da faculdade! - falei rindo e o sorriso dele sumiu. Imagino que eu entrei em estado de choque naquele momento, pois eu não parava de rir por um segundo.
- Você tá louco? - ele perguntou, ficando pálido. Eu ri dele e ele continuou a falar. - Seus pais vão te matar, ! Meu Deus, você tá bêbado? - ele se aproximou, sentindo meu bafo de pasta de dente e eu ria cada vez mais de alegria. Livre, livre, livre! Eu estava livre da faculdade! Como eu podia ter ficado tão nervoso antes? Aquilo era um vitória!
- Não, , eu nem vou voltar praquela casa! Eu vou vender minha arte na praia e conseguir o dinheiro pra nossa banda ficar famosa. - naquela hora eu já ria de mim mesmo, porque eu não estava falando nada com nada.
- Quem te drogou? - ele me virava, procurando algum furo no meu corpo e eu caí no chão de tanto rir. - É sério, ! Você tem que falar com seus pais! Eu não posso te bancar, nem o , muito menos o !
Eu revirei os olhos e me levantei, puxando a mão dele que estava estendida, como apoio.
- Depois, . Depois. Agora vamos fazer alguma coisa antes de lembrar que eu tô ferrado. - puxei ele pra fora da frente da casa dele e fomos andando para uma praia que era perto dali. Ficamos andando até que ele teve a ideia de ver se os meninos estavam em casa. estava ajudando o pai na oficina e estava livre, então apenas nosso segundo amigo foi nos encontrar. Depois de passarmos a tarde juntos, percebemos que estávamos morrendo de fome. resolveu me bancar naquela hora e fomos pra uma pizzaria. Ele me dizia que eu estava devendo ele e eu fingia que não escutava.
Assim que nosso momento acabou, resolveu que eu devia encarar a realidade.
- Tá tarde, vai pra casa. Você precisa conversar com seus pais e precisa dormir. - eu fiz cara de quem não queria e ousei pedir pra um deles me acompanhar. - Ninguém vai com você, seu palhaço! - ria e me deu um tapa na cabeça. Às vezes ele era responsável demais e me irritava. Rolei os olhos pra ele e dei o dedo do meio, indo pra nossa rua na frente deles.
Assim que colocamos os pés no meu quarteirão, dobrando a esquina, vimos uma viatura da polícia parada em frente a minha casa. Quando eu achei que nada podia ficar pior, ficou.
- Fudeu! - foi a última coisa que eu escutei antes de voltar a correr com meus amigos. Eu era foragido da polícia ou meus pais me colocaram como perdido? Eu já não sabia de mais nada, eu só queria fugir daquele inferno mais uma vez, já que aquele era, claramente, o pior dia da minha vida.
Paramos na praia de novo e resolveu, finalmente, me ajudar.
- Você pode dormir lá em casa, tá? - ele falava contrariado, mas sabendo que realmente não tinha problema, já que a mãe dele tinha começado a namorar e passava pelo menos três dias fora de casa, agora sabendo que podia confiar nele. - Mas amanhã você volta pra casa! Escutou? - ele tentava dar uma de pai, mas eu só ria dele, pois ele parecia o bebê da banda.
Abracei ele de lado e fomos pra casa dele. Nos despedimos de e entramos.
A madrugada passou rápido já que eu estava exausto de tanto correr e dormi rápido, enquanto meu amigo demorou um pouco mais já que estava com medo da polícia bater na casa dele. Falei pra ele ficar tranquilo, mas imaginei que realmente seria difícil naquela situação, então resolvi deixá-lo. Na manhã seguinte eu iria embora logo e já tinha um plano na cabeça. E foi o que eu fiz.
Assim que ele acordou, comemos apenas um biscoito e ele quase me expulsou da casa dele. Mandou eu procurá-lo apenas quando tudo tivesse resolvido. E eu sabia que claramente era drama da parte dele, então apenas segui meu plano. Talvez desse tudo certo ou eu tivesse a má sorte do dia anterior me perseguindo e me descobririam.
Como era cedo, 8 da manhã de um sábado, peguei meu molho de chave que tinha a do meu carro, a da minha casa e da garagem e abri a garagem, pegando a escada e mirando na janela do meu quarto. Foi um pouco difícil subir sem fazer barulho, ainda mais para abrí-la, mas consegui fazer todo o trajeto. Meu destino? O escritório do meu pai onde tinha a chave da nossa casa de praia do outro lado da cidade. Sim, eu tinha pensado em como conseguiria um carro, já que o meu tinha ficado na faculdade e se eu voltasse lá provavelmente iriam me descobrir, e a única coisa que me veio a mente foi: . Ele teria que me ajudar.
Consegui fazer tudo direito. Quase tudo. Pois quando voltei pro meu quarto, encontrei minha mãe sentada na minha cama.
- Onde você pensa que vai? - ela falou calmamente, mas vi que tinha o semblante pesado.
- Embora. - e não dei tempo dela falar mais nada, pois pulei da janela e quase quebrei meu pé. Ele doía pra cacete enquanto eu corria, mas eu não me importava.
Corri pra casa de , não dando tempo da minha mãe me pegar e dei três batidas na garagem da casa dele. Meu medo era o pai dele aparecer, pois ele também não era muito fácil de lidar, mas a sensação de alívio percorreu pelo meu corpo quando vi que era ele mesmo.
- ! - corri para abraçá-lo e nem reparei que ele estava cheio de graxa.
- ! Eu tô todo sujo, seu doido. - o sorriso do meu amigo era brincalhão, e também de felicidade por me ver, já que seus olhos brilhavam. Ele tinha me dito uma vez que eu era uma inspiração pra ele e eu nunca mais me esqueci daquilo. Eu só fazia merda e ele era o certinho. Como ele achava que eu era boa coisa pra servir de exemplo? Só sei que aquilo marcou minha vida de uma forma que eu nunca quis deixar de ser eu mesmo.
- Eu não me importo! - sorri e comecei a olhar pros lados, vendo que tinha dois carros por ali. - Não quer me emprestar um carro, não? - falei e ri travesso, observando ele gargalhar de mim.
- Você quer pôr a polícia atrás de mim também, cacete? - me retrucou, coçando o nariz e o sujando. Ri e limpei o local que ele sujou, esperando ele me responder. - Meu Deus, você tá imundo, ! - notei que eu realmente estava fedendo e fiz uma cara de nojinho, fazendo ele rir. - Vai tomar um banho, sério. Meus pais foram levar a Lauren e o Harry para o clube, eu não pude sair daqui por conta desses dois carros - ele reclamou olhando pros dois objetos. - Tem toalha no meu quarto, e pode pegar roupa minha também.
- Mas eu quero sair daqui, se eu sair com suas roupas vão saber que você me acobertou - eu falei finalmente percebendo que enfiei todos os meus amigos nas minhas maluquices e notando a merda que eu estava fazendo.
- Deixa. Eu sou muito certinho. Tá na hora de eu entrar numa furada, né? - ele riu e eu balancei minha cabeça. Um plano estava sendo feito na minha cabeça e foi se concretizando enquanto eu ia fazendo as coisas na casa dele. Assim que eu fiquei pronto parecendo uma pessoa normal novamente, me vi no espelho, dando um último retoque, e desci, encontrando um ainda mais sujo na garagem.
- Eu tive uma ideia, - falei pra ele com a minha cara encapetada. Ele me olhou receoso e eu abri meu sorriso de diabo. - E eu vou levar vocês três comigo nessa viagem.

Sometimes I’m feeling like I’m going insane
My neighbour told me that I’ve got bad brains
[...] ‘Cause we’re the kings and the queens
Of the new broken scene
And we’re alright though


Você já viu uma criança atentada? De verdade? Daquelas que não para um minuto quieta e perturba todos os vizinhos fazendo merda o dia todo? Eu era assim. E não, não era como meus outros amigos. Meus pais logo perceberam que eu era o pior da turma e não demoraram para me levar num médico.
Foram várias tentativas até achar um confiável que dei o diagnóstico que eles provavelmente já esperavam: eu tinha déficit de atenção. Foi um dos motivos para meus pais evitarem ter mais filhos, mas a fertilidade deles era incrível e eles conseguiram ter mais duas crianças depois de mim. Meus irmãos eram uns anjos comparados comigo que, mesmo tomando remédio, às vezes continuava a fazer merda.
Com o tempo eu fui melhorando e na adolescência eu estava bem mais controlado. Eu era o melhor da turma e meus amigos viviam enchendo minha paciência para ajudá-los. Eu realmente não me incomodava, então juntei o útil ao agradável e comecei a cobrar pelas aulas particulares que eu dava pros outros alunos sem ser os da minha sala.
Eu até ajudei algumas vezes , um dos meus melhores amigos, quando ele ficava sem dinheiro, mas ele era um pouco orgulhoso e não era sempre que aceitava.
Quando fiquei mais velho e meu pai já não tinha a ajuda de na oficina, eu comecei a ajudá-lo. Ele e minha mãe sabiam da minha banda com meus amigos e eram os que mais apoiavam, por conta de eu ter parado com a dose forte do remédio e precisava extravasar de alguma forma.
O único problema eram meus vizinhos. Como sempre.
Eu acabei ficando viciado em música e passava pelo menos três horas por dia tocando. Eles achavam que eu era louco e um deles, senhor O’Brien, tentou até chamar o SAMU uma vez para me levar da minha casa. Meus pais explicaram a situação para ele, mas mesmo assim, pelo menos uma vez por semana, ele ligava ou batia lá em casa reclamando. Pela frequência, a gente nem ligava mais.
Além disso, eu nunca tive problemas em casa. Meus pais tinham aquelas brigas de casais que qualquer casal tem e nunca afetou eu ou meu irmãos. Eu até passava tempo demais em casa pra cuidar deles que eram menores que eu, mas depois de uma certa fase eles não precisavam mais dos meus cuidados.
Eu já tinha 20 anos quando aconteceu a maior loucura da minha vida. , meu melhor amigo, tinha sido expulso da faculdade e resolveu que queria fazer a maior merda da vida dele. E eu nem iria apoiá-lo de início, mas ele foi me convencendo aos poucos e percebi que estava na hora de parar de ser o cachorro dos meus pais. Eu precisava tomar as rédeas da minha vida. E era o que eu iria fazer.
- O que você quer dizer com levar nós três com você? - perguntei pra um já arrumado e que girava dois molhos de chave com ele.
- Eu vou pra casa de verão dos meus pais. Morar lá. Trabalhar e fugir da polícia. - ele falou tão naturalmente que por um minuto eu achei que estava num filme. - Aliás, - ele parou por um segundo - acho que eu só fui dado como desaparecido, né? Não deve ser exatamente pra me prender que eles estão me procurando…
Eu balancei a cabeça e ri com o pensamento do meu amigo.
- Ok, , mas como você planeja levar a gente para o outro lado da cidade? Porque eu não posso te dar carro de cliente! - falei levantando as mãos para cima.
- Eu não posso ir na faculdade pegar o meu! Vão me achar, ! - ele falou exasperado.
- Eu… - comecei a pensar em alguma forma de ajudá-lo, mas nada me vinha à cabeça. - O não tem um carro? - falei rápido, lembrando que o vi dirigindo um carro novo naquela semana. Não tinha ideia se era do pai dele ou ele tinha comprado.
- O quê? O ? - deixou o queixo cair um pouco e eu ia respondê-lo que sim. Infelizmente meus pais apareceram na hora e eu corri pra abaixar o resto da porta da garagem antes que eles vissem quem era meu convidado ali.
- Sim, o ! - falei abaixando o tom de voz e puxando ele para a outra porta da garagem que ficava na lateral . - E você não pode ficar aqui! Vai falar com o e depois me procura! - a rapidez foi minha aliada naquele momento, pois empurrei ele pela porta no momento em que meu pai apareceu pela frente.
- Tudo bem aí, filho? - perguntou, com uma cara desconfiada.
- T-tudo, pai. - sorri amarelo e ele acreditou em mim, sorrindo também e voltando pra frente da casa. Falei uns três “améns” mentalmente e entrei em casa.
Minha tarde foi calma, tirando a parte que eu não tirava e a ideia mirabolante dele da cabeça. Meus pais repararam que eu estava um pouco inquieto e me deram uma dose do meu remédio por volta do meio da tarde.
Quando deu oito da noite, bateu na porta da minha casa.
- Tudo pronto? - ele perguntou simplesmente e um vinco apareceu na minha testa.
- Ahn? - perguntei sem entender.
- ! - ele retrucou, me puxando pra dentro de casa, na direção do meu quarto. acenou pros meus pais que sorriram pra ele e mandou um beijo pra minha irmã do meio, que riu e mandou o dedo do meio pra ele. Um dia eles ainda iam acabar namorando…
- ! Pra onde você tá me levando? - tentei não falar muito alto, mas quase que meu irmão de 11 anos escutou.
- Pro seu quarto, seu idiota! - ele falou me jogando pra dentro do quarto e falou. - Faz uma mochila, mala, qualquer coisa! Nós vamos hoje! - sorriu de lado a lado com aquela informação e eu despenquei em cima da minha cama.
- Eu não acredito que você concordou com isso! Logo o segundo mais correto da nossa banda! Enlouqueceu também? - eu não sabia se eu ria, me assustava, saía correndo… Mas algo me dizia pra eu escutar antes de fazer qualquer coisa.
- , às vezes a gente tem que arriscar pras melhores coisas das nossas vidas acontecerem. Aprendi isso anos atrás com o e agora tô repassando pra você - piscou e puxou uma alça que ele viu saindo de debaixo da minha cama, me dando meu mochilão. Fiquei meio impressionado com ele, mas não o retruquei mais. Era melhor eu fazer aquela loucura logo antes que uma onda de lucidez me atingisse e eu desistisse.
- Joga pela janela. tá ali embaixo. Ele vai pegar - falou apontando pra minha janela e eu apenas ri, pensando que eles realmente tinham tudo planejado. Tia Joy provavelmente não estava em casa e o filho doido dela, , resolveu fazer essa maluquice também. Eu só rezava para Deus para que desse tudo certo.
Uma onda de saudades precoce bateu em mim e pensei que eu ia deixar meus irmãos e meus pais para trás. sendo que eles nunca tinham feito nada para mim. Eu era um ótimo filho. E ia fazer algo que eu não tinha garantia nenhuma que ia dar certo. E se desse errado, não tinha a mínima ideia se meus pais me aceitariam de volta.
Joguei minha mochila mesmo assim e lembrei de perguntar algo sério para , que eu duvidava algum deles havia lembrado.
- Vocês pegaram dinheiro? - me olhou confirmando com a cabeça, mas antes de sairmos ele falou.
- Mas se quiser levar algum extra, vai ser bom. Não estamos levando muito.
Eu entendi o que ele quis dizer e peguei um bom dinheiro que eu guardava desde o ensino médio e ainda não tinha tocado, já que eram meus pais que pagavam minhas coisas e não quiseram investir em faculdade porque sabiam que meu sonho era ser músico.
Eu não queria deixar óbvio que aquela era uma despedida, mas não me contive em fazer algumas coisas que eles diriam ser incomuns de mim, como por exemplo abraçar minha irmã e der um beijo na minha mãe. Evitei muito contato com meu pai e disse que eu ia ensaia na casa de . Eles sorriram deixando, e um peso caiu sobre meu peito quando eu entrei no carro que eu nem sabia se era realmente de .
- Aliás, de quem é esse carro? - falei percebendo que eles foram muito espertos quando o estacionaram na rua de trás pros meus pais não notarem.
- Da minha irmã. - falou simplesmente e o ligou.
- E ela deixou você pegar? - perguntei ajeitando meu cabelo que já imaginei como ficaria por causa do vento.
- Ela não sabe que eu peguei. - vi o reflexo dele pelo retrovisor e ele riu sacana, enquanto eu arregalava meus olhos com aquela confissão.
A viagem foi o mais conturbada possível. contou pra mim como ele conseguiu dar um perdido nos pais pegando o carro da irmã “emprestado”, explicou que passou a tarde toda escondido no quarto de e apenas disse que não sabia de nada da ideia maluca até o momento que os dois doidos passaram na casa dele o sequestrando também.
Rimos bastante também com tentando contar a história do dia anterior pra mim, que não sabia de nada, e até bateu o famoso medo pensando que exatamente tudo podia dar errado quando chegássemos na casa de praia dos .
Nós todos já tínhamos ido lá, mas nunca para passar tanto tempo.
Quando chegamos no local, deslumbrados com a reforma que os pais ricos de haviam feito, tentamos não fazer muita bagunça e logo fomos pra um drive-in comprar comida para gente.
- Vocês acreditam que a gente vai dar certo? - perguntou quando estávamos já na casa, comendo em cima do tapete caríssimo que a mãe dele havia comprado três meses atrás.
- Bateu o medo agora, ? - perguntou rindo do nosso amigo doido.
- Para te falar a verdade, bateu. - nós todos rimos e ficamos quietos, ouvindo o barulho das árvores que se moviam por conta do vento.
- Sabe, - falou depois de um tempo. - eu percebi uma coisa agora.
- O quê? - perguntou. Eu tinha falado bem pouco porque ainda não acreditava em tudo que estava acontecendo.
- Nós não trouxemos nossos instrumentos.
Houve uma série de “ah, cacete” e nós queríamos nos matar por aquilo. Mas se tínhamos chegado até ali, do outro lado da cidade com o nosso esforço e maluquice, de uma coisa nós tínhamos certeza: conseguiríamos fazer qualquer coisa que quiséssemos. Era questão de tempo e vontade. Apenas.
Tudo que tínhamos que fazer era acordar no dia seguinte e lutar. Porque nada chegaria fácil. Se a vida tinha nos levado até ali, nada mais nos pararia. Namoros, pais, problemas e vizinhos podem ser um grande empecilho, mas o que viria para frente seria muito pior. E iríamos topar de frente, fugir, gritar e brigar pelo que queríamos. Uma hora estaríamos em cima de um palco fazendo o que mais gostávamos naquele mundo. E ninguém iria nos impedir.

They say we’re losers and we’re alright with that
We are the leaders of the not coming backs
We are the kings and the queens
Of the new broken scene
And we’re alright though!


Fim.



Nota da autora: Espero que gostem dessa fanfic porque deu muito trabalho pra deixá-la pronta! A ideia veio rápido, mas quem sabe como é escrever, sabe como é difícil colocar no papel. Foi desafio, galera! E caso tenham gostado muito, tenho mais fanfics e meu grupo no facebook ♥ Sintam-se a vontade para ler mais e entrar lá!





Outras Fanfics:
01. Wild Heart
04. BeFour
05. Anything
06. Nothing To Lose
09. I Would
13. History
15. Room On The Third Floor
30. Disconnected
A Song About Love
Uma Noite de Natal em Alavus
We’re On Fire

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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