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Última atualização: 22/05/2020

Capítulo Único

– Ok, essas fraturas vão ter que se curar sozinhas enquanto ela estiver aqui. – O médico disse.
– Vamos manter o braço imobilizado até quando, doutor?
– Três semanas. Coloque no prontuário dela que eu quero outra radiografia do úmero quando completarem os vinte e um dias.
– O marido quer vê-la.
– Enrolem.
– Mas doutor...
– Enrolem. – Ele repetiu, sério. – Já chamaram a polícia?
– Doutor , a vítima estava consciente quando os paramédicos chegaram. Ela afirmou que foi um acidente doméstico e negou quando perguntaram sobre o marido.
– Eu não perguntei o que os paramédicos disseram, perguntei se chamaram a polícia.
A enfermeira engoliu em seco a repentina grosseria do médico.
– Parece que a vítima não tem seguro de saúde, precisamos falar com o marido dela sobre os custos...
– Eu pago os custos de internação, se for necessário. Agora você vai lá fora e faz o que eu mandei fazer.
– Doutor , o que está acontecendo aqui? – A diretora do hospital entrou, pronta para chamar a atenção do médico mais insubmisso que tinha.
Quando bateu o olho na paciente desacordada na maca, seu coração palpitou. Olhou então para a enfermeira.
– Por que mandou me chamar?
– O doutor – A jovem começou a falar, incerta sobre as consequências de acusar alguém superior a ela. – insiste em impedir o marido de visitar a paciente.
– Senhorita Blake, devo lembrá-la da existente confidencialidade que deve haver entre paciente e médico ou, no seu caso, paciente e enfermeira?
– É o marido da paciente, senhora Connor.
– Se eu souber que você falou com o marido da paciente além do estritamente necessária, você não só vai estar desempregada como vou pessoalmente garantir que nunca mais exerça a profissão novamente. – Ela foi rígida. – Se pegar outro caso que haja a mínima, mesmo que quase nula, possibilidade de ser violência doméstica, não importa, quero que trate como tal, mesmo que os socorristas ou a própria paciente jure que não é.
– Sim, senhora. – A enfermeira baixou a cabeça.
– Agora faça um favor a todos nós e solicite a presença da polícia aqui. Depois, mande a equipe de segurança ficar de prontidão na porta do quarto.
Ela assentiu e saiu do quarto. Tina Connor se aproximou da imagem da radiografia do rosto da paciente e colocou o óculos no rosto para observar os detalhes com melhor definição.
– Puta merda, ...
– Pelo que ouvi, a Blake é sobrinha do marido da paciente.
– Explicada a relutância dela. Vou pedir que outra enfermeira venha te ajudar. – Tina suspirou. – Qual foi a história inventada dessa vez?
– Estava arrumando coisas na cozinha quando o armário soltou da parede e caiu sobre ela.
– Um armário nunca faria isso. – A diretora apontou para as imagens.
– Vou ficar aqui até que ela acorde, se a senhora não se importar.
– Me avise quando isso acontecer, ok? Vou avisar os outros da situação. E mantenha a porta trancada até a polícia aparecer.

DUAS HORAS ANTES

O homem entrou pela porta da cozinha. Olhou para a mulher ao fogão com o mesmo desgosto de sempre e seguiu para a sala de estar. Ela olhou para o chão onde o marido tinha acabado de pisar, o rastro de terra se formando nos pisos que ela tinha acabado de limpar com afinco. Pensou em dizer para ele tomar mais cuidado da próxima vez, mas retesou. Preferiu cansar-se mais fazendo uma segunda limpeza do que dizer ao marido alguma coisa negativa.
– A janta já está pronta? – Escutou da sala.
– Ficará em, no máximo, trinta minutos.
– Já disse que quero a janta pronta quando chegar em casa, mas você não me escuta, não é mesmo, ? – Ele gritou.
– Jim, por favor, teve um problema com o cano do banheiro hoje, precisei atender o encanador. Foi por isso que eu demorei no...
– Você recebeu um homem sozinha em casa? – O homem saiu de onde estava e foi agressivamente na direção da mulher, que se encolheu com os gritos. – O que eu já te falei sobre isso?
– Jim, eu...
– Não tente se justificar! Deitou com ele na nossa cama também?
– Claro que não, eu...
– Não minta para mim!
O tapa estalou com força em sua bochecha. Não era a primeira vez e duvidava sobre ser a última. Toda vez, ela pedia a Deus, com as forças que lhe restavam, que aquilo acabasse, que Jim mudasse. Ela esperava por aquilo com o fio de esperança que ainda havia em si.
Era uma mulher linda e sentia-se culpada por aquilo, pois Jim dizia com frequência que ela chamava muita atenção para si, acusando-a de fazer isto propositalmente. se perguntava onde estava errando tanto e sempre tentava mudar para agradar o marido.
Conheceram-se na infância e uniram-se na adolescência. Até o casamento, tudo era perfeito. As coisas começaram a complicar depois de selarem os votos matrimoniais. Jim apareceu bêbado um dia e segurou seu braço com tanta força que deixou marca. Depois, implorou por perdão, jurou nunca mais repetir aquele ato, convenceu de que estava devidamente arrependido. Na outra semana, uma crise boba de ciúmes por causa do chefe dela. No outro mês, um comentário indevido, expondo a esposa em frente a amigos durante um jantar na casa deles.
O primeiro tapa foi também em uma situação onde Jim se encontrava fora de si por conta da bebida, o que se tornou constante porque ele saía sempre com os amigos às terças. tentou pedir o divórcio dezenas de vezes mas, sempre que o fazia, ele se declarava, dizia que a amava mais que tudo e que havia sido um erro. , porém, sabia que um erro acontecia uma, duas, três vezes. Dezessete vezes? Não, não era um erro.
O casal havia se mudado para Chicago por conta de um trabalho que Jim havia arrumado. Eram ambos de Nova Iorque e, durante a crise no casamento, chegou a sugerir que voltassem para sua terra natal, que talvez poderiam resolver seus problemas dessa forma. Ela acreditava realmente que ainda havia algo a ser salvo entre eles. Suas amigas alertavam, mas era inocente demais, submissa demais. Precisava de algo além daquilo para se salvar daquela situação.
De dia, era a princesa de Jim. De noite, ela era seu saco de pancadas. Não contou a ele quando descobriu que estava grávida, mas também nem precisaria. Um mês depois, abortou o filho, que desceu pelo cano de descarga. Foi o único dia em que Jim nem sequer foi agressivo com a esposa, pois encontrou em estado deplorável, chorando no chão do banheiro. Apenas ignorou e fingiu que não estava vendo. Ser ignorada, para , era vantajoso.
Quando as amigas de começaram a questionar comportamentos estranhos de Jim – é claro que elas não faziam ideia da violência física envolvida na relação –, ela tentava justificar tudo, dizendo-o que ele a amava mas não sabia como demonstrar. Não convencia ninguém, nem ela mesma. Foram mentiras atrás de mentiras, deixando sua vida ser sugada por um monstro. Foi proibida de trabalhar fora, não podia sair sem a companhia do marido. Estava vivendo por nada, até o dia em que ela viu um comercial na televisão sobre violência doméstica.
Não era de se surpreender que Jim tivesse ficado em fúria ao ouvir a palavra ‘polícia’ sair da boca de . Ele não a bateu naquele dia, mas as palavras feriram mais que tapas. Disse a ela que jamais conseguiria viver longe dele, que ele a bancava por completo e que dependeria dele para tudo. Disse que chamasse a polícia, e ela viveria em miséria extrema caso ficasse longe dele. Que os pais de não a aceitariam de volta a nenhum custo, pois ele inventaria coisas tão sujas que eles teriam nojo dela. nunca havia enfrentado Jim, aquela foi a primeira vez.
Mesmo com tudo apontando para o claro desequilíbrio do marido, estava perdida. Longe de casa e sentindo-se perfeitamente encaixada em toda a descrição deplorável que Jim insistentemente fazia dela, tentou se matar. Jim a levou ao hospital, fez papel de bom marido, atuou muito bem ao fingir ter cuidado com ela. Quando voltaram para casa, mais insultos. não conseguia ver-se fora daquilo, até aquela noite.
Jim não estava bêbado. Jim estava em suas perfeitas faculdades mentais. Mais do que nunca, não havia desculpa para o que estava fazendo. Bêbado, drogado, fosse lá a sua justificativa, nada nunca lhe daria razão em levantar a mão para . Ela pensou que ia ser só mais uma vez, que ia acabar em breve, que ela levantaria no dia seguinte para recomeçar tudo. Mas não era só mais uma vez.
A sorte de foi que os vizinhos escutaram e ligaram para a polícia. Mais sorte ainda foi que havia uma viatura muito perto de onde eles moravam. Jim pensou rápido e montou a cena perfeita. Em seu surto de raiva e descontrole, teve força suficiente para arrancar um dos armários aéreos da parede e jogou no chão da cozinha. Respirou fundo e planejou milimetricamente suas ações. Antes que soubesse de qualquer coisa, pegou o celular e ligou para a emergência. Pediu uma ambulância urgente, dizendo que a esposa havia sofrido um acidente.

DIA SEGUINTE À AGRESSÃO

sentia dor por todo o corpo. Doía tanto que queria estar morta. Não conseguia abrir os olhos, suas pálpebras doíam. Não conseguia falar, sua garganta doía. Os lábios doíam, os dentes doíam. Passou a língua por eles e estranhou, havia algo faltando ali.
– Senhora Kramer, eu sou o doutor . – Ouviu uma voz perto de si.
A mente de entrou em parafuso. Estava em um hospital? Bem, explicava o tanto de dor que sentia. A última coisa da qual conseguia se lembrar era de estar ao lado do marido dentro de uma ambulância. Pensou se ele haveria ultrapassado os limites e enviado-a para o hospital. Mais uma vez.
Sentiu algo em seu braço. Por concluir estar em um hospital, identificou como sendo um acesso. Algo fluiu pelas suas veias e, lentamente, as dores começaram a ceder. Não muito mas um pouco, o suficiente para que agradecesse. Conseguiu abrir o olho direito. O esquerdo parecia estar colado, mas tentou não se desesperar. Segundos depois, sua vista se acostumou com a luminosidade do quarto e ela pôde ver o médico ao lado de onde estava.
– Onde está Jim? – A pergunta doeu para ser feita.
– Senhora Kramer, precisamos conversar sobre seu marido.
– Quero vê-lo.
– Não será possível, senhora Kramer.
– Mas...
– Senhora Kramer, preciso que me escute. – Ela já estava ficando incomodada com escutar tanto o sobrenome vindo do homem ali presente. – Há policiais aqui no hospital para interrogá-la, mas eu não permitirei que façam enquanto a senhora não estiver se sentindo bem para isso. Mas preciso saber o que aconteceu.
respirou fundo e o movimento doeu em suas costelas, em sua traqueia, em seus pulmões... Em tudo.
– Desde quando seu marido lhe agride?
– Ele não...
– O que conversarmos não vai sair dessa sala, eu prometo.
viu o terror nos olhos dela e compadeceu-se mais ainda. Não bastasse a experiência que teve com a própria mãe no passado, tinha que reviver situações que constantemente o lembravam daquilo. Na maioria das vezes, marido e mulher iam embora do hospital juntos. Em diversas dessas vezes, tinha certeza absoluta de que aquelas histórias eram sim desculpas esfarrapadas para cobrir a violência doméstica. Ele fazia o que estava à sua altura para tentar ajudar todas aquelas mulheres, mas falhara até então. Kramer era a primeira mulher que ele conseguia separar do marido porque estava tão claro que apenas a enfermeira Blake, sobrinha de Jim Kramer, não acreditava nos óbvios fatos.
– Foi um acidente. – Ela reafirmou o que Jim havia ordenado no último segundo que tiveram juntos e sozinhos. – O armário...
– Eu já sei que isso é mentira, agora só quero uma palavra da senhora que irei fazer o que for necessário para protegê-la.
respirou fundo de novo. Tentava controlar o nervosismo, mas havia um toque cuja frequência aumentava quanto mais nervosa ela ficava. Imaginou que fosse um monitor de atividade cardíaca. Não era mais como antes. Algo havia mudado dentro dela. sabia, finalmente, que Jim não amava, que aqueles tapas eram muito errados desde o primeiro, bêbado ou não, estressado ou não. A ficha caiu para ela, mas pensou ser tarde demais. Não se preocupou mais com o sentimento, pois sabia que este não mais existia. Seu medo, então, era o conjunto de ameaças que Jim dirigira a ela, tanto as físicas quanto as psicológicas.
– Posso te chamar de ? – perguntou.
– Sim.
, você tem dois pontos de afundamento craniano, seu úmero direito está quebrado e você tem diversas fraturas nas suas costelas. É um milagre estar acordada e consciente. Sua pele está coberta de hematomas, pouquíssimos pontos estão intactos. Contamos três dentes perdidos, dois molares e um canino. – se aproximou e procurou adotar o tom mais delicado que podia. – Sei que você pode não ver esperança no fim do túnel, mas me deixe provar que há. Esse homem nunca mais vai colocar os olhos em você, mas não posso fazer a acusação por conta própria. Preciso que você me permita, preciso que você participe disso. Eu prometo, , que eu vou protegê-la como puder, que vou procurar ajudar em tudo para que você se recupere bem disso e que você estará segura aqui, custe o que custar.
Ela não conseguiu responder, apenas desmanchou em lágrimas. Por mais que houvesse muita dor em todo o seu corpo, doía mais em seu coração estar finalmente se permitindo constatar todo aquele problema. se sentia mais idiota ainda, mais fraca ainda por não ter se livrado dele antes. Mas mal ela sabia que nada daquilo era culpa dela e que tudo ia ficar bem.
entendeu as lágrimas copiosas como uma afirmação. Sorriu para a mulher e permitiu-se fazer um carinho na parte de sua cabeça que não estava coberta pelas faixas. Assistia às lágrimas dela com um sentimento de alívio, sabia que aquelas lágrimas eram de libertação. Ficou ali, consolando-a, até que o ritmo cardíaco de voltou ao normal. Chegou a pensar que, de tão cansada, ela teria dormido, mas permanecia acordada.
– Qual o seu nome de solteira? – perguntou à mulher.
.
– Posso te chamar de senhorita , se me preferir.
apenas assentiu levemente, o tanto que o colar cervical lhe permitia, em resposta ao que o médico tinha oferecido.

DO LADO DE FORA DO QUARTO, NO HOSPITAL

Jim estava nervoso, andava de um lado para o outro da sala de espera privativa compulsoriamente. Saiu da sala diversas vezes para tentar obter notícias. Importunou enfermeiras, médicos que nem sabiam do caso dele, até mesmo seguranças do hospital. Ficava mais nervoso à medida que o tempo passava – e não era no bom sentido. Estava preocupado ao extremo, como jamais havia estado em toda a sua vida. Preocupado com ? Não, de forma alguma. Estava preocupado com ele mesmo.
Mas tinha certeza de que não falaria nada. Ele havia sido bem incisivo nas últimas conversas que tivera com ela sobre o assunto. A esposa estava nas suas mãos, estava certo daquilo. Mas se tinha tanta certeza assim, por que estava tão preocupado? Era a dúvida que persistia na cabeça de Jim.
– Jim Kramer?
– Onde está a minha esposa? – Ele questionou de imediato e, só depois de fazer a pergunta, notou que o homem que lhe havia dirigido a palavra estava portando arma e distintivo no cós de sua calça.
Jim disfarçou, mas engoliu em seco.
– Nós vamos ter uma conversa antes de você saber da sua esposa.
– Eu exijo vê-la agora! – Jim foi firme.
– Você não tem poder de exigir nada. – Hank, o policial, empurrou Jim na direção de uma das poltronas da sala e fez com que ele caísse sentado. – Vai me falar o que fez com ela, e vai fazer isso agora.
– Eu não sei do que você tá falando.
– Para de se fingir de desentendido, Kramer. – Alvin, que estava como parceiro de Hank, se aproximou de Jim. – Corta a falação de besteira e vai direto ao papo.
– Vocês estão falando com a pessoa errada.
– Meu amigo já mandou você parar com a graça, Kramer. É bom você começar a falar agora pras coisas não ficarem mais feias ainda pra você.
– Eu exijo um advogado.
– A única coisa que você vai poder exigir daqui pra frente é seu direito de abrir a boca e falar a verdade sobre o que aconteceu com a sua esposa. Mas é bom se decidir logo sobre isso, antes que eu arranque a informação à força de você.
Com Hank avançando em sua direção agressivamente, Jim finalmente se sentiu desprotegido e desamparado. A única coisa que Jim tremia era outro homem. O azar dele era que o homem que o encurralou era um dos que defenderiam a esposa dele como ela deveria ter sido defendida desde o primeiro instante. Mas Jim ainda queria sair por cima, ele ainda precisava ser superior, nas palavras dele. Era só mais um idiota fazendo idiotices atrás de idiotices.
– Aquela vadiazinha não me serviu nem pra sexo mesmo. – Jim disse e cuspiu em desgosto.
Hank acertou um soco em cheio na bochecha direita dele. Jim sentiu que ao menos um dente havia se quebrado. Encaixou a mão na mandíbula e fez pressão para mascarar a dor. Hank, sem delicadeza alguma, virou o homem de qualquer jeito e algemou suas mãos.
– Vou arrebentar você e não vou parar até você ter, no mínimo, as mesmas lesões que ela tem. – Ele rosnou próximo ao ouvido de Jim.
passou pelo lado de fora da sala de espera privativa. Viu as persianas fechadas e sorriu para si mesmo. Carregando alguns medicamentos que foi pessoalmente buscar na farmácia do hospital, seguiu o caminho para o elevador que levaria até o andar onde o quarto de ficava.
, – A senhora Connor cruzou seu caminho e adotou um tom de voz cauteloso. – chamou Hank Voight para resolver esse caso?
– Ele era a pessoa certa.
– Deveria ter me consultado. Todos nessa cidade sabem muito bem como ele lida com as coisas.
– É o que aquele filho da puta merece. – disse, altivo, e seguiu o seu caminho.

UM MÊS DEPOIS

A fisioterapeuta do hospital estava trabalhando com quando entrou pela porta. Os dois sorriram ao trocarem olhares.
– Como vai, doutor? – Tracy o cumprimentou.
– Bem, e você?
– Bem também. E as crianças?
– Ah... – Tracy riu e riu também, mas da reação dela. – Cansativo, mas nada que Bob não consiga resolver.
– Ele ainda está de licença?
– Sim, até o meio do mês que vem.
– Mande um abraço pra ele.
– Pode deixar, doutor, vou mandar. – A fisioterapeuta soltou a perna de com cuidado na cama e deixou que ela repousasse. – Senhorita , nós nos vemos na quarta, ok?
– Ok, obrigada. – agradeceu.
deu uma checada nos monitores ao lado da cama de antes de se dirigir a ela. Quando fez isso, direcionou-lhe um sorriso amigável.
– Bom dia, senhora .
– Bom dia, doutor . – Ela lhe respondeu enquanto preparava o seu estetoscópio para uso.
– Como estamos hoje?
– Bem. – respirou fundo ao sentir o frio do diafragma contra a sua pele, lembrando-se dos procedimentos padrões com os quais já havia se acostumado. – Minhas costelas pioraram de ontem pra hoje.
riu consigo e decidiu que não guardaria mais aquela dúvida para si. Checou os monitores cardíacos uma última vez. Retirou as olivas do estetoscópio de seus ouvidos e uniu as hastes novamente, pendurando o aparelho em seu pescoço.
– Eu posso não ter muito tempo de profissão, – Ele começou a falar, ainda adotando um tom brincalhão. – mas já vi muitos pacientes aqui inventarem sintomas pra continuarem internados.
tentou disfarçar e colocou uma expressão de ‘não sei do quê você está falando’ no rosto. Com o tempo, havia aprendido bem a atuar ao lado de Jim para evitar maiores problemas.
– Você é uma mulher esperta, senhorita , mas eu sou seu médico, não se esqueça.
Ele saiu de perto dela e pegou, em cima do armário do quarto, algumas radiografias. Acendeu a luz principal do quarto e aproximou-se de novamente, colocando as folhas entre a visão dela e a lâmpada recém-acesa.
– Consegue ver esses pontos aqui? – Ele apontou com uma caneta retirada de seu bolso e fez que sim, mas trocou as folhas imediatamente. – Aquelas fraturas estão completamente curadas, em tempo recorde. E eu até já mandei removerem a imobilização do seu braço. A lesão que você tem no rosto leva meses para curar, não há como acelerar o processo ou imobilizar a área. Então me diga, senhorita ... Por que ainda insiste em ficar aqui?
O monitor cardíaco a entregou antes mesmo da expressão de puro horror. perdeu a postura marota logo que entendeu o que tanto afligia sua paciente. Escolhendo seguir uma conduta que não era exatamente ética vista da sua posição ali – não seria a primeira conduta antiética que tomava naquele caso e ele sabia que não seria a última –, se sentou no pequeno espaço vazio da cama onde a mulher estava.
, ele não pode mais te fazer mal.
– Você não o conhece.
quis dizer, mais uma vez, que não havia a mínima chance. Depois do encontro entre Hank Voight, Alvin Olinsky e Jim Kramer, nenhum dos envolvidos poderia dizer que estava triste em descobrirem que Jim Kramer tinha um problema cardíaco congênito, problema esse que se faria presente durante a tortura de Kramer. Acidentalmente. Juravam por cima dos próprios cadáveres que não tinham como planejar nada daquilo. Kramer é quem foi azarado de ser recebido justamente pelo doutor que, em um surto de herói, propositalmente deixou de usar todos os seus esforços para salvar a vida daquele que havia feito sofrer tanto.
Ele não queria dizer a verdade pois não queria que ficasse com medo de si próprio. Sentia-se um assassino, por mais que aquilo não fosse verdade. ainda havia feito massagem cardíaca! Queria vê-lo morto, sim, não escondia aquilo. Mas ainda tentou, e isso fazia com que ele se isentasse de culpa. A preocupação sobre era porque, em mais uma face de todos os problemas que envolviam aquele caso, estava se apaixonando por ela.
O que mais queria era prová-la que ela jamais havia sido o problema, que ela merecia coisas muito melhores em sua vida. Não se importaria de ser o sortudo a mostrar aquilo, a lhe provar aqueles fatos. Com os dias e as conversas, o cuidado que tinha com se tornou algo a mais. não podia ser culpado por isso também. Era incrível como cada ponto daquela história era cada vez mais inusitada, cada vez mais... Sim, acidental. Mais uma vez, a palavra aparecia, perfeitamente empregada, naquela narrativa.
... – Ela sabia que a chamar pelo primeiro nome queria dizer muito, ainda mais com aquele tom de voz, e queria finalmente tirar aquele peso de seu peito. – Seu ex-marido está morto.
– O quê?!
Não foi fácil de explicar, mas esperava uma reação muito pior. Ao contrário, sentiu que via respirar verdadeiramente aliviada pela primeira vez desde que viu a mulher entrar pelas portas da emergência, acompanhada de gritos ensurdecedores dos paramédicos. Nunca era bom quando paramédicos entravam gritando, mas ali ele conseguia ver uma vantagem: além de ter conhecido uma mulher linda como , tinham tirado das ruas um monstro que nunca nem devia ter nascido. E ele era grato por ter feito parte da iniciativa que tirou das mãos de Jim Kramer. Mesmo depois de tantas agressões, estava viva e pronta para recomeçar sua vida. faria o que estivesse à altura dele para ajudá-la.

SEIS ANOS DEPOIS DA ALTA DO HOSPITAL

– Você deveria trabalhar menos. – comentou, acariciando o cabelo de levemente, a cabeça dele descansando em seu colo.
– Você também. – Ele resmungou e deu mais uma mordida na maçã que estava comendo. – Inclusive estou surpreso que não tenha cancelado nosso encontro de hoje.
, acabei de me formar. Tenho que mostrar serviço. Sou nova demais pra ser associada de um dos maiores escritórios de advocacia de Chicago, preciso provar a eles que fui uma ótima escolha.
– Gosto de como você é determinada. – Ele disse, sorrindo.
– Você está me elogiando muito, doutor ...
– Quando você fala assim, fico parecendo um depravado.
– Eu era sua paciente, querido, você é de fato um depravado. E um baita médico antiético, devo acrescentar.
Os dois riram. levantou e deixou o rosto à altura do rosto de , sorrindo mais uma vez antes de beijá-la.
– Fico feliz que você tenha sido antiético. – acrescentou, sorrindo leve e com o tom de voz suave. – Você foi a melhor coisa que já me aconteceu, em todos os possíveis sentidos.
se sentia completo com aquelas palavras. Ajeitou o cabelo de atrás de sua orelha e fez um carinho delicado em sua bochecha.
– Você sabe que eu te amo, não sabe? Amor de verdade, não o amor que aquele filho da puta dizia ter por você.
não respondeu, apenas fechou os olhos, sorriu e deitou a cabeça na mão de , que ainda estava em seu rosto. O piquenique no Grant Park era uma boa escapatória para a vida corrida dos dois, mas estavam encaixando-se perfeitamente, mesmo com todos os problemas. Eles se completavam de um jeito que jamais esperavam experenciar antes de conhecerem um ao outro.
– Falando nisso...
Ela estranhou quando não teve mais o toque de junto a si. Ele se levantou propriamente, e sentiu a incomum necessidade de imitá-lo.
– Querida, sei que tivemos um começo difícil. Você passou por muitas coisas que não valem a pena serem comentadas. Você viveu muito do que jamais mereceu. Foi corajosa, forte de diversas maneiras. Você é incontáveis vezes mais forte do que eu, e eu te admiro imensamente.
– Você está falando bonito hoje... – sorriu, brincando para disfarçar o nervosismo que aquele discurso havia trazido para si.
– Eu treinei bem. – sorriu também e disfarçou, estava igualmente nervoso. – Mas queria que você soubesse... Ou melhor! Queria reafirmar, mais uma vez, a minha promessa de te fazer uma mulher feliz, completa, de sustentar a sua autoestima sempre no nível mais alto possível e procurar, em tudo, engrandecer a você e ao nosso relacionamento, levando você sempre em consideração para qualquer coisa que eu venha a fazer. Mas, hoje, eu gostaria de impor uma condição para isso.
– E qual é?
, – disse, pronunciando o nome com delicadeza em sua voz firme, e colocou-se com um joelho no chão à frente dela. – você me daria a honra de se tornar a minha mulher pelo resto das nossas vidas?
O mundo de estava girando de cabeça para baixo a partir do momento em que ela colocou os olhos no singelo anel, dentro da caixa de veludo vermelha, exposto por no momento em que ele se ajoelhou. Tinha o coração palpitando em seu peito, uma dificuldade de respirar que era gostosa de sentir. Lembrou-se, em um rápido instante, de todo o seu passado. Entendeu que aquele anel era um ponto final naquele capítulo que deveria ser esquecido permanentemente.
Enquanto deixava lágrimas de felicidade escorrerem pelo seu rosto, encaixou o anel em seu dedo. Levantou-se de novo para estar à altura dela e tomou seu rosto nas mãos, beijando-a profundamente sem perder tempo. Os dois haviam passado por situações infelizes no passado mas, juntos, eles se ajudaram a passarem pelo processo de cicatrização das feridas. sabia que podia confiar incondicionalmente em , devia-lhe a vida. E ele não poderia estar mais determinado a mostrar a como uma mulher – principalmente uma mulher como ela – merecia e deveria ser tratada. Ainda teriam muito a percorrer, mas estariam bem desde que estivessem juntos.


Fim.



Nota da autora: O surto veio! Escrevi essa só pra cumprir tabela e ajudar uma amiga a entrar com o ficstape dela em 100%. Não posso dizer que me arrependo haha espero, como sempre, poder ouvir as críticas que vocês têm pra mim. Não se esqueçam de deixá-las aqui embaixo :)



TODAS AS FANFICS DA AUTORA:

All Roads Lead to You [Supernatural - Em Andamento]
Badges and Guns [Henry Cavill - Em Andamento]
Before She's Gone [BTS - Finalizada] (em breve)
02.Black Swan [BTS - Ficstape BTS: Map of the Soul 7] (em breve)
05.Dare You to Move [Bon Jovi - Ficstape McFLY: The Lost Songs] (em breve)
Don't Tell My Ex [Henry Cavill - Em Andamento]
03.Gorilla [Sebastian Stan - Ficstape Bruno Mars: Unorthodox Jukebox] (em breve)
I Don't Want Somebody Like You (I Only Want You) [McFLY - Em Andamento]
01.I Forgot that You Existed [Original - Ficstape Taylor Swift: Lover] (em breve)
In the Eye of the Hurricane [Bon Jovi - Em andamento]
Just a Heartbeat Away [Louis Tomlinson - Shortfic] (em breve)
Me Peça para Ficar [Clube de Regatas do Flamengo - Em andamento] (em breve)
Move If You Dare [McFLY - Shortfic]
No Angels [Supernatural - Em Andamento]
Para Ter Você nos Meus Braços [Clube de Regatas do Flamengo - Shortic]
Por um Acaso do Destino [Clube de Regatas do Flamengo - Em andamento]
13.Something for the Pain [Sebastian Stan - Ficstape Bon Jovi: One Wild Night] (em breve)
01.The Crown [BTS - Ficstape Super Junior: Time Slip] (em breve)
Traded Nightmares for Dreaming [McFLY - Em Andamento]
Tudo por um Gol [Clube de Regatas do Flamengo - Finalizada]
02.Ultraviolence [John Bongiovi - Ficstape Lana del Rey: Ultraviolence]
06.Walls [Henry Cavill - Ficstape Louis Tomlinson: Walls] (em breve)


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