CAPÍTULOS: [Único]









Único


I wanna get you by yourself
Yeah, have you to myself
I don't need nobody else
Don't want nobody else
He's special, I know
His smile, it glows
He's perfect, it shows
Let's go!


— Eu não permitirei que você desça assim. — repreendeu assim que me viu na porta de seu quarto. Eu tinha ido até lá para avisá-la que estava pronta há algum tempo e que poderíamos descer.
A festa já rolava livremente lá embaixo, como qualquer outra vez que nossos pais viajavam a negócios, mas ela gostava de chegar um pouco depois para causar impacto, então sempre nos atrasávamos.
— Assim como? — perguntei apenas para não deixá-la no vácuo, pois a resposta eu sabia muito bem.
— Olha pra isso! Ai meu deus! Suas roupas! — ela levou as mãos até as têmporas e as massageou. Eu sabia que ela já estava farta em lidar comigo naquele assunto.
Eu particularmente não via problema algum em usar uma calça jeans com uma blusa floral de manga comprida, mas já minha irmã gêmea via todo o problema naquela combinação.
— Não vejo nada de errado. — dei de ombros e desviei o rosto de seu olhar, incomodada.
— Não há nada de errado na combinação, e sim na ocasião! Nada a ver, ! Tem uma festa lá embaixo nos aguardando e, como anfitriã, não posso deixar com que isso, — ela indicou minhas roupas — ocorra. Ainda mais que vivem me confundindo com você.
Nós duas tirávamos muitas vantagens por sermos idênticas. Provavelmente só havia três pessoas no planeta que sabiam nos diferenciar perfeitamente; Nossos pais - apenas quando eles estavam muito a fim de diferenciar - e , o namorado dela, que sempre sabia qual era a e qual era a , pois passava muito tempo estudando a anatomia e personalidade dela.
Ela me puxou pelo braço, determinada em mudar aquilo colocando suas roupas em mim. Eu amava suas roupas, porém quando ela as usava. Não fazia o meu estilo.
Sentei-me em sua cama de frente para a porta do seu closet, enquanto ela trancou a porta do quarto. Resmungando palavras que eu preferi ignorar, ela adentrou o closet, onde eu sabia que ela ficaria no mínimo sete minutos escolhendo possíveis opções para mim.
Como éramos idênticas, vivíamos trocando de lugar para tirar proveito das situações. Às vezes era ruim para uma das duas, por exemplo; quando inventava de dormir na casa do namorado enquanto deveria estar estudando. Ela ia super mal na escola, e vivia me colocando em seu quarto para fingir que estava centrada em seus estudos enquanto eu supostamente dormiria na casa de uma amiga, mas quem saía de casa era ela. Desvantagens em ser a irmã nerd da família.
falava que nerd não era um bom termo para me definir, e sim geek, porque eu não era tão anti social quanto os nerds. Pra mim dava na mesma, mas quem era eu para discordar? Graças a ela e sua turma eu não fazia parte dos introvertidos bulinados. Minha irmã reinava a Stratford High School e todos praticamente lambiam o chão que ela pisava. Às vezes faziam o mesmo comigo, achando que eu era ela. Mas aí bastava perceberem que eu não ligava para aquela babação toda, que já desconfiavam que haviam feito confusão novamente. Era divertido. Eu tirava notas boas e passava cola para o resto do nosso grupo e eles me idolatravam ainda mais, me chamando de cérebro dos descolados.
Mas a cada vez que eu ouvia aquilo, rolava os olhos e me lembrava da vez em que uma patricinha de outra escola fez isso ao me ver junto a eles. Ela me “ofendeu” de todas as formas possíveis, mas, no final, falou para ela que talvez quando ela rolasse os olhos novamente, encontraria um cérebro em sua cabeça. Como se ele fizesse bom uso do dele. Mas enfim, eu gostei.
Perdida em meus pensamentos, mal percebi voltar com várias roupas jogadas em seu braço. Eu estava ferrada. Seria no mínimo mais meia hora experimentando aquilo tudo, e talvez no final ela ainda inventasse em me maquiar. Contanto que ela não quisesse que eu usasse um salto, eu até aceitaria aquilo calada, porque no fundo eu adorava ser a bonequinha da minha irmã.
— Toma, tenta esse aqui. — ela jogou a trouxa de roupas em sua cama e me entregou um tubinho preto.
— Sem chances. — respondi cética. Aquilo mostraria partes demais do meu corpo.
— Qual é, ! Ele é lindo! — ela bateu o pé no chão e eu notei a frustração que ela sentiu. Sua sobrancelha e boca se tencionaram, talvez aquele vestido fosse sua maior aposta.
— Concordo, mas em você. Não me sinto confortável em roupas assim. — dei de ombros e ela bufou.
— Ok, ok... — ela rolou os olhos e pegou a próxima opção no topo da pilha de roupas. — Tente este. — estendeu um vestido azul marinho com a saia rodada em minha frente. Era um pouco mais comprido que o outro e não valorizada as curvas que ela insistia que eu tinha.
Se bem que nossos corpos eram idênticos. O físico dela era realmente bonito e aqueles vestidos o valorizava ainda mais. Eu apenas não me sentia confortável em me imaginar usando aquilo.
Aceitei o vestido, me levantando de sua cama e tirando as roupas que usava anteriormente. Eu e ela éramos unha e carne, portanto tínhamos intimidade para aquilo. Bastava uma olhar para a outra e já saberia o que passava em sua cabeça.
Somente quando o vesti, notei que não havia alças.
— É tomara que caia. — ergui uma sobrancelha.
— Não se preocupe, ele não caíra de verdade. — ela respondeu, referindo-se exatamente ao meu maior medo. Nunca se sabe se aquilo me deixaria ou não na mão.
— Não me sinto bem!
! — ela deixou seus ombros caírem. Eu ri, sabia que lhe daria trabalho. Tirei o vestido antes mesmo que ela pudesse dizer mais alguma coisa. Ela bufou e voltou sua atenção para as roupas.
— Já sei. Vista seus amados jeans. — eu nem esperei ela falar novamente para vesti-lo, vai que ela mudava de ideia. — Tome. Por deus, eu amo essa blusa e ela fica bem com tudo. Se você não gostar eu desisto. — eu ri e aceitei a blusa sem sequer olhá-la.
— Desistir? , pelo tanto de roupa que você trouxe, eu diria que você está bem longe disso. — ela riu e eu olhei para a blusa em minhas mãos. Ela era mesmo linda. Totalmente coberta por lantejoulas douradas e com uma barra levemente rodada. Roubou meu coração, e talvez eu a roubaria e a levaria para o meu guarda-roupa, caso ficasse bem em mim. Não hesitei em vestir e logo escutei a aprovação de minha irmã.
, eu te mato caso você não goste. — ela grunhiu. — Só não digo que ficou melhor em você porque ela fica bem em mim do mesmo jeito. — completou naquela maneira descontraída característica dela. Corri para o espelho enorme de seu quarto e me admirei. Por um momento cheguei a pensar que fosse . — Mas ainda falta algo. — ela chegou por trás de mim trazendo uma jaqueta em seus braços, e ainda de frente para o espelho ela me auxiliou a colocá-la.
Voilà, eu estava digna de ser realmente confundida com ela e ainda me sentia confortável.
— Está perfeito! Apenas não me mande usar saltos! — grunhi na esperança de que ela atendesse o meu pedido.
— Argh, tudo bem. Só vou deixar que você fique com sua sapatilha, pois ela é neutra e combina. E não vou te maquiar, pois quero descer logo e... — ela foi interrompida por breves batidas na porta do quarto. A festa mal havia começado e aquele povo já queria o quarto para ensaiar como procriar a espécie? Era por isso que eu trancava o meu e escondia a chave em todas as festas. Me dava nojo em pensar que algum casal aleatório estaria fazendo sexo na minha cama, no meu quarto, no meu paraíso particular. Queria que a aura da minha fortaleza permanecesse pura e intacta que nem eu, por favor e obrigada.
correu para a porta e abriu apenas uma pequena brecha para espiar quem era. Vi do outro lado e ele sorriu.
— Andei a casa toda atrás de você por quinze minutos e ninguém havia te visto! Achei que tivesse sido abduzida ou... — minha irmã nem deu tempo para que o namorado terminasse sua frase, logo ela já havia o calado com um beijo.
Só Deus sabia como eu fiquei envergonhada.
Deus e o garoto que estava na porta nos observando. Olá? Privacidade mandou abraços! , safado como era, logo a pressionou contra a parede do lado da porta. Eu não sabia se estava boquiaberta por presenciar aquilo ou se estava indignada com o rapaz que também observava encabulado do lado de fora.
Ora essa, se estava tão envergonhado, por que ficou assistindo?
— Calma lá... Tenho uma surpresa. — interrompeu o amasso dos dois ofegante. Minha irmã estava do mesmo jeito.
— Adoro surpresas. — ela completou com uma voz totalmente oferecida e eu fiz questão de lembrá-la de que estava ali. Raspei minha garganta e se afastou assustado.
— Oh, olá ! — ele respondeu sem perder a postura. — não te vi aí. Foi mal.
— Não era para menos, certo? Estava muito ocupado passando testosterona para minha irmã.
Entre suas sobrancelhas se formou um vale, de tanto que ele as uniu. Claro que jamais entenderia aquilo. Se ele prestou atenção em uma aula de biologia em toda a sua vida, foi muito. Portanto, ele jamais saberia que um homem passa hormônios para a mulher durante um beijo. Após classificar que aquela afirmação minha não mudaria nada em sua vida, ele decidiu apenas ignorar aquilo e me dar um abraço.
— Minha nossa, ela é realmente inteligente assim como você disse. — uma voz masculina que definitivamente não era a de exclamou e eu me levantei na ponta dos pés para ver por cima dos ombros dele.
Era o maldito enxerido curioso. De novo.
— Respeito com a privacidade alheia mandou abraços, não é? — exclamei sarcástica. Nem eu sabia de onde tirei coragem para falar aquilo sem me sentir totalmente intimidada, julgando que ele vestia uma daquelas jaquetas de couro preta característica dos bad boys. Acho que talvez foi devido ao fato que estava bem escondida pelo abraço de . Papai do céu, por favor, ajude para que eu não tenha me metido em encrenca alguma.
Só depois de algum tempo que me toquei e me questionei como ele sabia que eu era inteligente.
— Você já foi mais educada, . — me repreendeu.
— E o respeito com a privacidade de vocês, ? — rebati apenas porque continuava na minha frente, rindo. Como ele era capaz de achar graça naquilo?
— Somos que nem um livro aberto, . Acho que todo mundo já viu a gente se pegar ou... — ah, senhor. Interrompi antes mesmo que ele pudesse mencionar aquilo. A simples ideia me causava náuseas.
— Não! — exclamei determinada. — Não precisa entrar em detalhes. — completei um pouco menos rígida e saí de trás dele, decidida a dar uma conferida no andar debaixo. Não que fosse estar muito diferente, aposto que bebidas e drogas já rolavam à solta. Pelo menos não teria que argumentar com meus amigos.
— Eu trouxe meu irmão na maior expectativa que vocês iam gostar dele e você o recebe assim? — falou assim que eu alcancei a porta. Só me lembrei do cara que causou aquela discórdia quando quase me esbarrei nele, que ainda estava ali.
Irmão?
Ergui a cabeça e quis chorar. Correr para meu quarto e fingir ser um burrito. Um burrito fofo feito de edredom e .
A semelhança entre os dois era tanta! Como fui capaz de não notar?
E acho que passei tempo demais notando... Porque, caramba, ele era muito bonito.
Tão bonito que dava vontade de fazer uma pintura e emoldurar para pendurar na parede de frente à minha cama para poder observar antes de dormir e depois de acordar.
não era bonito - na minha humilde opinião - mas por outro lado, o seu irmão era digo de posar do lado de um Sean O’Pry da vida. E eu arrumaria pôsteres dos dois para colocar no meu quarto todo tranquilamente.
— Ah, então você é o irmão que tanto mencionou que estava para chegar? — minha irmã disse, tirando-me dos meus devaneios proibidos com o irmão de . Olhei perplexa para ela que caminhou graciosamente até nós. — Prazer, . — ela estendeu a mão para cumprimentá-lo, e ele a recebeu com um sorriso muito belo.
Onde eu podia cavar um buraco para enfiar minha cabeça?
Irmão que tanto mencionou? Onde estive nos últimos dias?
— Olá, . Meu irmão falou bastante de você. É um prazer finalmente conhecê-la. Sou . — ele correspondeu o cumprimento dela ainda sorrindo. Eu queria me matar.
Desde quando se tornou popular no colégio e eu comecei a andar com eles, me prometi que jamais acharia um bad boy bonito. JAMAIS.
E claramente, era um. Só por ser irmão de quem era, eu já tinha aquela certeza.
Se bem que eu não podia pensar daquela maneira, caso contrário eu também seria totalmente “descolada” feito .
Mas o jeito que ele agia o denunciava. Eu era capaz de reconhecê-los de longe.
Eu estava ferrada. Queria espernear feito uma criancinha para ser capaz de voltar minutos atrás e não ter agido tão estupidamente. Eu só cometia burradas. E eu não podia cometer burradas em frente aos rapazes bonitos.
! Ele não era bonito!
— Você pode me chamar de . — minha irmã disse, enquanto eu continuava ao seu lado com uma cara de vaso. Adoraria ser a Kitty Pride para poder atravessar pela parede e sair no meu quarto sem ter que passar por . — E esta é minha irmã, . — ela me indicou com o ombro, sem necessidade alguma. Era tão óbvio que éramos irmãs.
— Olá! — ele estendeu a mão para me cumprimentar. Eu tremia feito uma vara verde, e me repreendi mentalmente por não ter secado discretamente o suor que brotava em minha mão antes de responder ao seu cumprimento. — É um prazer, . — merda, . Não te permiti dizer o meu apelido a ninguém, ainda mais que ele ficava absurdamente bem na voz de . — E vocês podem me chamar de . me disse que vocês eram idênticas e que a única forma de diferenciá-las seria pela inteligência e...
, eu te castro. — rosnou interrompendo . Virou-se para de uma vez, e eu jurava que se fosse ele, me esconderia o mais breve possível. Ninguém jamais queira ver brava. — Você me chamou de burra!
— O quê? — também virei-me para observar e ri. — Eu não te chamei de burra em momento algum! Eu só disse que a era a gêmea inteligente e...
— Você acabou de dizer! — ela bateu o pé no chão, e eu decidi que aquele era um bom momento para checar o andar debaixo, definitivamente.
Dei meia volta e saí tão rápido que não entendi nada que usou como argumento para defender-se de minha irmã. Dei um esbarrão de leve em , mas quando me atinei para desculpar-me, já estava descendo as escadas.
Assim que cheguei ao primeiro andar, fui logo atingida pelo cheiro da maconha. Não era possível que aqueles delinquentes já haviam começado a fumar. Não devia ser mais do que onze horas da noite.
Como se eles fossem seguir um horário para aquilo.
Senti-me tonta. O cheiro estava mais forte do que o “normal” e, somente em senti-lo, minhas vias nasais e garganta queimavam. Merda. Imagina se eu fumasse aquilo.
Por sorte achei algo para me apoiar; o corrimão. Escorei meu corpo nele e respirei fundo para ver se ajudaria, mas aquilo só piorou minha situação.
Nos velhos tempos, eu ficaria na casa de alguma colega do clube de matemática, mas já que eu não mantive contato com elas devido a turma descolada considerar que eu era a única nerd que merecia a atenção deles, e como eu era da turma, deveria seguir aquilo. As pobres imaginariam que eu poderia estar dando uma brecha para elas, enquanto eu só queria me livrar daquela droga, literalmente. Odiava usá-las daquele jeito, mas eu não via outro lugar apto para me acolher durante as festas loucas da galera.
— Você está bem?
Abri os olhos para poder identificar quem se dirigia a mim, e reconheci .
Ótimo. Os descolados não sabiam que a alegria deles me fazia mal, mas agora saberiam, pois me pegou no flagra. Eles respeitavam o fato que eu era a única que não fumava, mas não sei se aceitariam aquilo sem me zombar. Eu odiava ser zombada, graças aos céus o bullying comigo acabou quando minha irmã se tornou a popular.
encarou o meu silêncio como uma afirmativa e me pegou pelo braço, me arrastando para algum lugar. Eu não protestei, talvez ele fizesse aquilo para meu próprio bem.
Ou talvez ele achasse que eu estava mal por abstinência e me ofereceria um cigarro. Suei frio.
Ele não era da nossa escola, era o irmão de que vinha de outra cidade, logo não me conhecia.
Puxei meu braço, mas ele não me soltou. Apenas me segurou ainda mais firme, passando o braço pelo meu ombro. Ele sabia que eu estava fraca. Merda, merda, merda.

I've been staring at ya
And I could do it all night
You're looking like an angel
With that kind of body needs a spotlight


Ah, a claridade. A linda e velha claridade que me acorda a cada manhã. Mas aquela não era a luz do sol que batia em meu rosto. Definitivamente não.
Olhando ao redor, reconheci a cozinha. Eu estava deitada no chão com as pernas para cima, apoiadas na bancada, enquanto uma festa rolava à solta lá fora. Que maravilha.
— Abre a boca. — alguém mandou. Procurei pela voz e encontrei agachado atrás de minha cabeça.
— O quê? — Que merda era aquela?
— Sal. — Ele me mostrou o saleiro. — Ajuda a aumentar sua pressão.
— Ah sim, o sódio.
— É... Alguns dizem que ajuda na hora, mas na verdade só faz efeito mesmo uns dois dias depois. Mas é bom para evitar uma provável crise que venha acontecer.
Peguei o saleiro de suas mãos e joguei um pouco debaixo da língua.
Então aquele desmaio foi devido a uma queda de pressão? Ah, que lindo. Pelo menos não era da maconha e eu continuaria de boa com os colegas de . E não, eu não conseguia chamá-los de meus colegas.
pegou o saleiro de minhas mãos e o colocou em algum lugar. Depois, voltou sua atenção ao meu braço e foi medir meu pulso. Profissional demais para o meu gosto.
— Você parece ter um bom conhecimento sobre o assunto. — constatei. Ele ficou em silêncio, encarando seu relógio de pulso. Aguardando os sessenta segundos para ver meus batimentos.
— Sessenta e dois. Um pouco baixo para sua idade, daqui a pouco deve se normalizar. — colocou meu braço sob minha barriga. Eu curvava levemente a cabeça para trás para observá-lo. Senhor, ele era lindo. Não me importaria nem um pouco em ter meu primeiro beijo com ele. — Eu estudo medicina. — Eu quase infartei.
O burro daquele jeito, que só era aprovado pois colava de mim, tinha um irmão lindo, deus grego E inteligente, que estudava medicina! Eu morria de vontade de estudar medicina!
— Você está pálida. Está se sentindo pior?
Eu devo ter ficado com a cara mais chocada de todas para ele fazer aquela observação.
— Na-não... Estou até melhor. — claro que eu estava melhor.
Em qual mundo eu conversava com um bonitão desses sem sair correndo de vergonha? Aliás, até dos feiosos eu corria. Fugia de qualquer garoto que viesse conversar comigo. O que era raro, claro. A não ser quando me confundiam com a ou quando precisavam de alguma cola ou ajuda em certa matéria. Portanto, eu não podia desperdiçar aquilo. Apenas não sabia o que fazer.
— Tudo bem, ficarei aqui até que você esteja com a pressão de volta ao normal. — sorriu.
Eu estava toda contorcida para vê-lo, que estava sentado atrás de mim escorado em um armário. Valia à pena, claro. E eu devo ter ficado vermelha, já que meu rosto se aqueceu rápido demais. Voltei para a posição correta e respirei fundo.
E aquele silêncio estava me matando. Entre nós, claro, já que o mundo caía casa afora devido à festa. Eu preferia ficar calada, tinha medo de dizer algo errado.
Vez ou outra alguém entrava ali e pegava uma garrafa na adega ao meu lado, ou então cervejas na geladeira. Se não tivesse tirado os vinhos velhos de trocentos anos atrás do papai dali, estaríamos ferradas.
Fui salva daquele silêncio quando ela chegou para buscar cervejas e me viu ali. Sequer perguntou por que eu estava daquele jeito, ficou conversando de longe comigo até ver ali, sentado no corredor.
— Vocês estavam se pegando? — perguntou para ele, passando a ignorar minha existência.
Eu quis levantar e sair correndo, mas meu corpo não estava apto para aquilo. Então, levei as mãos até o rosto, em uma tentativa falha e infantil de me esconder.
— Não. — ele nem hesitou em responder. Claro, porque eu era nerd e não fazia o tipo dele.
Definitivamente eu não era pra ele. E não negaria que fiquei chateada com aquilo. Eu até estava cogitando a possibilidade de abrir uma exceção para ele quanto à minha regra número um para bad boys; jamais ficar com um deles.
— Pois deviam. — ela completou e saiu dali.
Eu quis chorar.
Por mais que eu estivesse muito atraída por ele, queria enfiar minha cabeça em um buraco dentro da terra. estava me matando de vergonha propositalmente, só por causa daquilo que fiz em seu quarto com ele, e eu tinha certeza que ela ainda não estava bêbada.
Assim que ficamos a sós, ele voltou a checar meu pulso. Enquanto isso, eu aproveitei a deixa para olhar para aquele rosto que parecia uma escultura renascentista. Tirei coragem sabe-se lá de onde.
Ele estava o oposto de mim. Não parecia ter se incomodado nem um pouco com o comentário de . Típico. Ele devia pegar qualquer uma mesmo. Menos nerds que nem eu, que não davam conta nem de conversar direito. Eu precisava tomar umas dicas com o mais rápido possível.
Segurei para não bufar e nem rolar os olhos. Por que eu estava perdendo tempo com ele mesmo?
— Oitenta e dois. Já está boa. — ainda bem que minha pressão tinha normalizado, logo, eu poderia dar o fora dali.
Será que Caitlyn da turma de matemática me deixaria dormir em sua casa? Se bem que já deveria ser quase onze horas ou mais, ela já estaria dormindo, assim como todas as outras opções.
Quando percebi que não me restava alternativas a não ser ficar ali, fui me levantar, decidida em ir para meu quarto e ficar isolada por lá. Eu odiava ficar sozinha, mas enfim...
já estava em pé ao meu lado estendendo a mão, oferecendo-a de apoio para me erguer. Aceitei, afinal, não era mal educada. Só sabia que ele não era para mim.
Agradeci e fui até a sala, procurando pela minha irmã. Pedi aos céus para que não estivesse em qualquer canto se fundindo com . Ela era minha única opção.
E graças às divindades, ela estava no sofá com o namorado, compartilhando uma garrafa de sabe-se lá o quê. Sentei em cima da mesinha de centro, virada para eles.
— Quer? — estendeu a garrafa para mim.
— Não, obrigada.
— Ah, qual é, maninha! Já está na hora de você começar a beber. Pelo menos nas minhas festas. — fez um biquinho, tomou a garrafa do namorado e a pôs em meu colo. — Beba, vai. Quem sabe assim você não se solta um pouquinho e pega o ? — e sentou ao meu lado.
Aquilo era tentador. Muito tentador. E ela me conhecia tão bem que sabia que eu não resistiria. Ela sabia o que eu pensava sobre , por mais que eu não quisesse dar o braço a torcer.
— Vamos lá! Último ano escolar... Daqui a pouco você vai para a faculdade e lá é inevitável. Bom que você já chega lá sabendo como é! — eu ri. Ela havia me convencido. Passou o high school todo tentando aquilo, aí me aparecia um garoto bonito e ela o usava para me dobrar.
Maldita.
Levei a garrafa até a boca e dei um pequeno gole para provar.
— E aí? Como se sente? — aproximou-se de nós.
— Estou me perguntando por qual motivo esperei por tanto tempo. — aquilo tinha um gosto diferente... minha garganta ardeu... no sentido bom.
Virei a garrafa na boca novamente, mas a puxou e me mandou ir com calma. Depois disso, eu só me lembrava de que se juntou a nós.

Ain't nobody know your name
But looking like you do could be famous
I could see us making ways
From the back of the club
To a bed in the shade


Acordei com a claridade invadindo meus olhos e quis me bater por não ter fechado as cortinas ontem à noite. Virei para o outro lado, fugindo da luz, e me deparei com uma parede azul.
Definitivamente não era meu quarto. Ele não tinha parede azul, ou minha cama sequer ficava perto de uma, e sim no meio do quarto.
Entrei em pânico, mas este diminuiu quando constatei que estava em uma cama de solteiro.
Sozinha.
Sem nenhum garoto.
Ainda bem.
Atrevi a me virar novamente, mas me esqueci do sol e quase fiquei cega. Naquele instante, uma dor de cabeça insuportável se mostrou presente. Eu sentia meu cérebro pulsar como se estivesse saindo algo de dentro dele. Xinguei todas as futuras gerações da minha irmã por ter me feito ingerir bebida alcoólica na noite anterior.
Levantei da cama devagar, para não piorar a situação, mas dava quase na mesma. Eu precisava descobrir onde estava e quieta ali não chegaria a conclusão alguma. Lógico que preferia ficar na cama gostosa debaixo das cobertas esperando a dor passar, mas eu precisava urgentemente saber onde estava. Fechei a cortina e arrumei a cama, e fiquei ainda mais contente ao notar as roupas da noite passada intactas em meu corpo. Limpíssimas, sem vestígio algum de vômito.
Abri a porta do quarto, e saí em um corredor amplo. Um aroma magnífico invadiu minhas narinas, fazendo meu sistema nervoso pirar. Reconheceria aquele cheiro em qualquer lugar; Waffles. Minha refeição predileta para o café da manhã.
Desci as escadas seguindo o cheiro pela casa. Cheguei à cozinha, e me deparei com uma mulher de costas para mim, mexendo em uma máquina de waffles.
Ela se virou e me observou brevemente. Eu a conhecia de algum lugar, só não me recordava de onde.
— Oh, , querida! Bom dia!
? — Ah, ótimo. Ela conhecia minha irmã e achava que eu era ela. — Não! Sou a ! — esclareci rindo. Eu ainda não sabia quem ela era. Ela ergueu uma sobrancelha — Somos irmãs gêmeas. — completei.
— Ah! É mesmo, querida. Perdoe-me, ela já havia me contado isso antes. — sorriu. — Prazer, sou Susan. — ela me estendeu a mão, eu ainda estava um pouco perdida. — Sou mãe do . — ah.
Tomei sua mão e a cumprimentei devidamente.
— Estou fazendo waffles, você gosta?
— Eu amo! — exclamei feito uma criancinha, ela deve ter pensado que eu era retardada, mas sorriu e me indicou uma cadeira de frente à bancada que ela cozinhava.
Assim que me sentei, ela colocou um prato na minha frente com três waffles. Três lindos waffles. Tudo que eu precisava para minha dor de cabeça passar.
Na verdade, eu precisava era de aspirina. Mas ela continuou colocando toppings na minha frente e eu simplesmente esqueci que estava sentido dor. Ela me mandou ficar à vontade. Estava perdida.
Maple syrup, blueberry, chantilly, geléia, morango, cubinhos de chocolate, nutella... Era o paraíso. Somente naquela refeição eu já ingeriria todas as calorias diárias necessárias para meu organismo.
— Ah, , querido. Bom dia. Junte-se a nós! — ela exclamou assim que eu comecei a decorar meus waffles. Eu quase morri.
Por algum motivo, eu não havia raciocinado como tinha parado na casa do namorado da minha irmã, mas aquele apelido me causou arrepios em partes que eu sequer imaginava que fosse capaz de sentir. Tive vontade de chorar.
Mas minha única saída era pedir aos céus para que eu não tivesse feito nada demais com . Eu apenas precisava ficar a sós com ele para descobrir o porquê de eu estar ali.
Fiquei disfarçadamente o observando de soslaio. Ele respondeu a mãe e deu um beijo em sua bochecha, e se sentou ao meu lado.
Para minha situação ter ficado ainda melhor, o garoto tinha um cheiro incrível. Ainda melhor do que os waffles e todos aqueles toppings. Eu quis pular em suas costas apenas para afundar meu rosto em seu pescoço e passar o resto do dia ali, o cheirando, mas fiquei quietinha na minha cadeira e continuei acrescentando coisas à minha refeição, como se aquele pensamento impróprio tivesse sequer passado pela minha cabeça.
Ele me deu bom dia e eu esqueci que tinha voz. A porra do garoto estava com o rosto todo amassado, o cabelo inteiramente bagunçado, a sua voz estava um pouco rouca devido à sonolência e estava mais lindo do que ontem na festa. Abri a boca e fiquei inutilmente esperando por algum manifesto da minha voz, mas eu estava totalmente perdida em seus olhos.
— B-bo-bom dia. — gaguejei após um tempão.
Meu deus, que vergonha. Eu queria me esconder debaixo da bancada e ficar ali até que ele terminasse seu lanche. Mas não rolou, porque naquele momento sua mãe colocou uma jarra de suco de laranja e copos na bancada, e se sentou de frente pra nós. Comecei a servir todos os três copos, eu era bem educada.
— Por que não me disse que estava namorando a irmã gêmea da , ?
Porra.
Meu queixo caiu. Ela tinha entendido muita coisa errada.
Quando percebi, já havia derramado suco. O copo estava transbordando.
— Ah! Me desculpe! — coloquei a jarra em um canto limpo e levei as mãos à boca. Eu só servia para fazer desastres.
— Não se preocupe, meu bem! — se levantou e voltou com um pano. Eu ainda estava meio em choque por ter pagado mico, mas quando começou a levantar as coisas para sua mãe passar o pano, eu me toquei e os ajudei.
Depois de tudo limpo, eu pedi desculpa outras várias vezes e os dois insistiam que não era nada e que eu devia ficar tranquila.
— E então, ? — ela retornou à pergunta anterior e eu preferi me distrair com os morangos, pois se eu os derramasse seria algo mais fácil de limpar.
— Porque não estamos. — ele disse, meio questionador, como se aquilo fosse óbvio.
Não sei o porquê, mas senti uma leve dor em meu coração. Naquele momento, eu quis ser a namorada dele. Eu era muito otária.
Ela pediu desculpas e mudou de assunto. Cortei meu primeiro pedaço do lanche.
— Sabe me dizer por que não voltou para casa?
Como assim, não voltou para casa? Eu tinha ido parar ali sozinha com o deus grego?
P-u-t-a q-u-e p-a-r-i-u. Só me faltava essa.
Eu quase engasguei com a comida.
Papai do céu, se você realmente existisse, por favor, permitisse que meu hímen ainda estivesse intacto, obrigada. Eu não planejava perder minha virgindade bêbada, e se eu tinha ido parar ali somente com , a chance era meio alta que aquilo tivesse acontecido.
não estava muito bem, mamãe. — mamãe. Ai que fofo! E como assim, “ não estava muito bem”? Quando eu ia intrometer na conversa e questionar aquilo, ele continuou. — Ela pediu para que ficasse com ela, e ele dormiria no quarto da , — ele me indicou. ? Que intimidade era aquela que eu não permiti? Não que eu me lembrasse. Meu apelido era como um santuário pra mim, eu só permitia amigos íntimos me chamarem por ele — Por isso eu a trouxe para cá. E como o quarto dele parece um chiqueiro, eu a deixei no meu e fui para lá.
Meu deus. Até eu acreditaria naquilo. O rapaz contava mentira muito bem. Devia atuar ao invés de estudar medicina.
Mas a parte em que eu dormi no seu quarto parecia verdade, já que o quarto em que eu acordei estava muito bem organizado.
Eu dormi na cama do ! Eu dormi na cama do deus grego!
Sorri, e Susan achou que fosse para ela. Eu parecia uma boba alegre, mas nenhuma de nós duas sequer sabia o porquê que eu havia gostado tanto de dormir ali.
— E ela já está melhor, ? — opa. Aí já não era comigo, dona. Seu filho quem inventou essa história, não tinha como você perguntar para ele não?
Sorri amarelo e ele veio me salvar.
me mandou uma mensagem dizendo que sim. — aumentei meu sorriso. Eu estava agindo muito retardadamente.
E era por esse motivo que eu precisava passar longe dos bad boys. Porque eles mentiam incrivelmente bem e afetavam todo o meu organismo com aquela beleza grega.
Seu celular começou a tocar em cima da bancada, e eu era meio curiosa, espichei o pescoço para ver se eu conseguia ver quem era. Ele atendeu antes que eu conseguisse, e disfarcei levando mais um pedaço de waffle à boca.
Tentei não prestar atenção na conversa, e Susan começou a bater um papo descontraído comigo, me ajudando a não focar em seu filho gostoso ao meu lado. Ela disse que seria legal e blá blá blá caso os dois filhos dela ficassem com as duas irmãs e blá blá blá. Eu apenas sorria amarelo e concordava internamente, pensando que se ele não fosse do tipo proibido, até que eu podia pensar no caso. Se eu não fosse a nerd estabanada e desastrada também, claro.
Ela percebeu que eu estava meio desconfortável com o assunto sendo uma provável relação entre nós dois e começou a falar o quão eu era parecida com , até mesmo na meiguice.
Quis rir. Ela literalmente não conhecia direito, porque de doce e meiga ela não tinha nada.
desligou o celular e interrompeu nossa conversa. Eu perdi a conta de quantas vezes ele tinha me salvado.
— Sua irmã está me pedindo para levá-la.
— Ela deve estar querendo ajuda para arrumar as coisas. — deixei meus ombros caírem. Eu não queria arrumar bagunça de festa, ainda mais porque eu não tinha nada a ver com aquilo e a ideia foi única e exclusiva dela.
— Que coisas? — ele e Susan perguntaram ao mesmo tempo.
Ah, droga.
Ela por curiosidade. E ele para me lembrar de que a mãe não sabia e nem poderia saber da festa.
— Err... É... Uns remédios, acho — sussurrei. De onde aquilo saiu?
— É porque ontem eu preparei alguns chás e medicamentos caseiros para ela melhorar, mãe. Devo ter deixado uma bagunça na cozinha.
— Isso! Era isso aí! — completei.
— Ah, que feio, ! Já te disse para não deixar bagunça na casa dos outros! — ela repreendeu. Eu ri discretamente, aquele puxão de orelha era retardado demais por um motivo inexistente. Ele pediu desculpas e disse que ele mesmo iria até lá para arrumar.

Now I don't know who you are
But you look like a star
And everybody here be thinking
Who's that boy?


— Você me deve respostas. — perguntei assim que coloquei o cinto. Gostei do seu carro. Mas não sabia qual era. Era grande e preto. Bonito como o dono.
— Devo, é? — ele riu. Tive vontade de apertar suas bochechas, mas como sempre, fiquei quieta em meu canto.
Ele não riu com deboche ou algo do tipo, como eu esperava. Riu naturalmente.
Deu partida no carro e eu voltei a falar.
— Sim! Começando por: por que dormi na sua casa?
— Porque você bebeu como se não houvesse amanhã e cismou que iria dormir. Mas seu quarto estava trancado e sua irmã disse que você havia escondido a chave, mas não se lembrou onde.
— Mas por que sua casa? Tinha o quarto dela, o dos nossos pais...
— Bem, — ele riu, e duas covinhas se formaram em sua face, que me olhava curiosamente. — como você mesma disse, os quartos estavam trancados, pois tinha alguém lá dentro cometendo atos pecaminosos. — riu.
Meu queixo caiu. Eu não acreditava que havia dito aquilo na frente dele.
— E... — pedi para continuar. Seria melhor ouvir toda a bomba de uma só vez. Nota mental de nunca mais beber e ficar louquinha.
— E aí, eu estava louco para ir embora. Parece que perdi o jeito para essas festas... — suspirou. Eu não acreditava que era possível alguém como ele perder o costume de frequentar festas loucas tipo as da minha irmã. — Sua irmã estava mais sóbria que você. Na verdade, eu era o único sóbrio e...
— Você não bebeu? — interrompi. Meio chocada, talvez, porque ele riu demais da minha cara. Eu vi pelo retrovisor que fiquei vermelha feito pimentão.
— Não. — e parou de rir. — Posso continuar?
— Sim! Por favor! — de onde saiu aquele por favor? Parecia que eu estava desesperada para saber de tudo.
E eu realmente estava. Só não havia necessidade alguma de transparecer aquilo.
— Sua irmã me mandou levar você pra lá. — engoli seco. Até bêbada, a praga da minha irmã estava tentando nos juntar. Parecia que isso havia se tornado uma espécie de desafio pessoal dela. — Eu não achei que ela estava falando sério, mas concordou, disseram que você nunca dormia lá nas festas e tal, então eu acabei achando melhor realmente te trazer.
— Ah... — falei após algum pequeno intervalo. Não queria que o assunto acabasse, mas não sabia o que dizer. — E por que fiquei em seu quarto?
— Como eu disse, o de é um chiqueiro. Não achei justo levar uma garota pra lá. Não sei como sua irmã aguenta. — completou e rimos. — Mas você dormiu no carro durante o trajeto e eu tive que te carregar.
— Teve, é?
— Sim. — e por que eu não estava acordada para ver isso?
Era, sem um pingo de dúvidas, a cena mais bela da noite, com certeza. Exceto pelo fato que eu estava bêbada, então devo ter dado trabalho.
Eles não moravam longe, pois logo em seguida, ele parou o carro em frente minha casa. Eu ia agradecer a carona e tudo, mas ele desceu do carro e foi abrir a porta pra mim.
Oi? Há quanto tempo não se fabricava homens assim?
— Obrigada. — sussurrei e desci. Eu precisava urgentemente parar de ficar envergonhada na frente dele.
— Ah! Finalmente vocês chegaram! — surgiu do nada, gritando. Qual era o problema em me deixar ter um tempinho a sós com ?
Mais tempo a sós com ele, ? Bad boy, lembra?
Ah, talvez não.
— Quer começar arrumando onde? — ela me perguntou. — Aliás, fiquem com a cozinha ou com a sala. Estão uma zona. — disse para mim e . Olhei de soslaio para ele, que apenas concordou. A este sinal, piscou pra mim e deu as costas, voltando a fazer o que quer que fosse sua ocupação.
Não esperei uma reação de , afinal, a casa era minha, eu quem deveria providenciar as coisas.
Passei por sua frente e entrei em casa.
Estava uma carniça. Fedia cerveja, maconha e urina. Os amigos da minha irmã pareciam gambás. Tampei o nariz e fui até a cozinha, ver se o ambiente estava menos fedorento.
Para minha sorte, só senti cheiro de bebida alcoólica. Falei para que arrumaríamos a cozinha e ele agradeceu, pois não estava aguentando o odor da sala também. Fui até a área de serviço e peguei todos os materiais que fossemos precisar.
De volta ao local, coloquei o material no canto e comecei a catar as latas, copos e tudo que fosse descartável que estivesse no chão. pegou um pano com desinfetante e foi limpar as bancadas, que estavam impregnadas com bebidas que haviam sido derramadas.
Uma mancha preta horrorosa apareceu do nada no chão. Parecia que alguém entornou algo e sapateou em cima, pois havia marcas de sapato.
Eu precisava limpar aquilo logo. Estava morrendo de nojo. E ela fedia.
, me passa o pano, por favor? — pedi. Ele parou de limpar e me ficou me encarando, como se eu fosse um ET. — o que foi? — perguntei impaciente.
— Você me chamou de . — chamei, foi? Não era a intenção. Escapou.
Ele deu de ombros e riu fraco, e trouxe o pano até mim.
. — corrigi — Opa, escapou. Me desculpe.
— Não se preocupe. Prefiro assim. — ele sorriu, e eu fui contagiada. Qualquer pessoa que visse aquele sorriso, sorriria também. — Só quero saber quando poderei chamá-la pelo apelido, pois notei que você não gosta quando eu o faço. — desviou o olhar.
— Um dia, talvez eu deixe. — ele riu e voltou para seu posto anterior. Passei o resto do dia me perguntando de onde tirei aquela resposta mais ousada do que o normal.

Wanna take you home
And get you all alone
And everybody here is thinking
Who's that boy?


Ficamos até às cinco da tarde arrumando aquela casa.
Eu jurei que jamais participaria de outra festa de novamente. Nem mesmo se eu não tivesse que limpar nada.
Paramos apenas meio-dia para o almoço, que foi apenas um lanche de fast-food, porque a maioria estava sem dinheiro. Portanto, precisávamos de comida barata, e ninguém quis cozinhar.
Uma vaquinha e uma passadinha rápida minha e do no drive-thru do McDonald’s resolveu o problema, e compramos lanches para umas dez pessoas que estavam lá em casa ajudando a arrumar tudo.
Eu descobri que ficava muito mais confortável falando apenas do que . E ele gostava, então estava ótimo. Pelo jeito, eu era a única fresca quanto ao uso de apelidos. Se eu não tivesse intimidade com a pessoa ou ela comigo, nada feito.
Mas ele era legal.
E eu estava doidinha por ele, por mais que aquilo fosse mil por cento errado. Teria que dar um jeito de acabar com aquela pequena atração urgentemente.
Às cinco, quando acabamos de arrumar, todos foram embora, exceto os irmãos.
colocou um filme de terror e escureceu a sala. Parecia que era de madrugada. Nós duas passamos o filme inteiro gritando feito garotinhas de seis anos. Ela ao menos tinha a quem agarrar, e eu não duvidava muito de que ela escolheu aquele filme apenas para dar ao namorado um motivo para agarrá-la. Não que eles precisassem, pois faziam aquilo sempre e do nada.
disse que se eu quisesse, poderia segurar sua mão. Eu o fiz, e praticamente deixei-a roxa, de tão forte que apertei. Por fim ele me perguntou se eu queria um abraço, e eu achei melhor negar. Acabou que eu fiquei sem sua mão e sem seus abraços.
Quando o filme acabou, resolveu pôr outro, mas daquela vez, não caiu na bobagem de colocar um filme doentio. Era uma comédia meio romântica e eu jurava que e mal aguentavam assistir aquilo. Por fim, minha irmã começou a dar uns amassos no namorado e eu me retirei da sala, até porque o filme estava um tédio.
foi atrás de mim e ficamos na cozinha comendo cereal. Por um milagre divino eu não derramei nada. Nem leite, nem cereal, nada mesmo. Palmas pra mim!
Pouco depois, o casal chegou à cozinha dizendo que o filme havia acabado. O que era mentira, já que ele mal havia começado quando eu saí de lá.
resolveu ir embora e levou consigo. Minha irmã foi tomar banho e eu os acompanhei até a saída.
Enquanto eles caminhavam até o carro, eu senti uma necessidade enorme de falar algo para ; agradecer pela atenção, pela companhia ou sei lá o quê. Mas acabou saindo algo completamente inesperado. Eu devia estar doente.
? — ele se virou. — Você pode me chamar de , ok? — sorriu e se foi. Voltei para dentro de casa saltitando.

Oh, he got me
No, I've never seen,
No one like him
Damn, he's everything
Girls, they want him
Guys, they wanna be
Who's that boy, who's that boy


— E então...
— E então o quê, ? — marquei a página do livro e o fechei. Ela terminou de invadir meu quarto e se jogou em minha cama, ao meu lado. Havia acabado de sair do banho.
— O que você achou do Theo? — ela ergueu uma sobrancelha e eu engoli seco.
O que eu achei do ? Maravilindo era uma boa resposta?
Não para , mas eu podia guardar aquele segredo só para mim.
— O que eu achei do ... O que eu achei do ... — comecei a sussurrar repetidamente tentando ganhar tempo e achar uma classificação adequada.
— Pare de me enrolar!
— Ah, ele até que é legalzinho... — ela caiu na gargalhada.
Eu comecei a ficar sem ar. Apostaria bem alto que eu estava vermelha feito um pimentão.
— Você acha que me engana? — custei a entender o que ela dizia, já que ao meio daquilo tudo, ela ria descontroladamente.
— Ah... eu... vai que...
— Para tudo! Para tudo, para tudo... — ela gritou e ficou em pé na minha cama, e eu até me encolhi de medo. — Ai meu deus! Você gostou dele!
— O quê?!
— Não tente me enganar! Você está louca por ele!
Opa. Louca?
No dia em que eu ficasse louca por um homem, poderia ser facilmente internada para tratar. Eu só o achava fofo.
E bonito.
— E lindo, gostoso, maravilhoso... — Só quando voltou a rir que eu percebi que havia pronunciado aquilo tudo em voz alta. Eu não sabia aonde enfiava minha cara. Peguei o travesseiro e o pus em frente ao meu rosto.
— Ai que fofo, ! Não precisa ficar com vergonha! — ela puxou o travesseiro das minhas mãos, e eu encolhi as pernas para pôr o rosto escondido entre elas.
Ela começou a fazer cócegas em minha barriga para que eu voltasse ao normal, e eu não resisti. Entre gargalhadas minhas e dela, rolei na cama fugindo de suas cócegas e caí no chão. Ainda bem que o tapete era muito macio.
Ela parou na beirada da cama e ficou me olhando. Eu já havia parado de rir, mas as gargalhadas vieram à tona quando eu a observei.
Ela tinha um sorriso maléfico e mal intencionado no rosto, e eu esperava do fundo do meu coração que ela não estivesse pensando em nenhuma atrocidade relacionada a mim em sua mente diabólica.

You could say that I'm distracted
But ah you got me so attracted
But boy I'll tell you what the fact is
Is no one else in this room
Looking like like you, you, do


Praticamente uma semana já havia se passado desde a festa de . Eu não tive mais notícias sobre , ou sequer escutei alguém falando sobre ele.
Já era sexta-feira.
Último dia de aula.
Um dia para o baile de formatura.
Eu falei para todo mundo que não estava a fim de ir, mas na verdade, era porque eu sabia que ninguém me convidaria para ser seu par.
Dito e feito.
Então, para não ter que passar pelo mico de ser a irmã solitária da cheerleader mais amada da escola, eu simplesmente disse que não queria ir.
A maior mentira de todas, claro. Desde o sétimo ano eu já ficava me fantasiando, imaginando e sonhando acordada sobre como seria meu baile de formatura.
Seria lindo, obrigada. Eu passaria o dia inteiro com meu melhor amigo; Netflix, enquanto ficasse louca casa afora procurando seus sapatos ou sei lá o quê.
Eu tinha acabado de sair da minha última aula de matemática, e honestamente, queria dar pulinhos. Eu amava a matéria e tudo, porém minha vida seria na área das ciências biológicas.
apareceu do meio do nada e me esperava em frente à saída da sala. Ela teve aula em outro prédio, então, com certeza ela tinha faltado e estava ali querendo me meter em suas louquices.
— Está tudo pronto! — ela exclamou assim que parei em sua frente, e deu pulinhos.
— Pra quê?
— Para o baile, ué!
— Pensei que já estivesse tudo pronto antes! Você passou uma década comprando suas coisas!
— Ai, como você é lerda às vezes! — rolou os olhos — não é pra mim, amiga. É pra você.
Oi?
Pra mim?
— Como assim?
Ela bufou e me pegou pelo pulso, e me arrastou até uma salinha vazia. Era da limpeza. Quando ela trancou a porta, eu entrei em pânico. Pelo visto era conversa longa, e eu não tinha tempo para aquilo naquele momento.
— Tenho aula de química agora!
— O professor pode esperar.
— É a prova final!
— Quem dá prova no último dia?! — fez uma careta — de qualquer maneira, você já foi aprovada há muito tempo mesmo. — deu de ombros.
— Mas preciso da nota daquela prova pra universidade, ! É medicina! Preciso tirar nota máxima, caramba!
— Puta que pariu, . Você não ajuda também! Eu deveria ter te deixado sem par pro baile!
Par para o baile?
Ela havia arrumado um par pra mim?
— Com licença? — desafiei.
— Isso mesmo. Eu e passamos a droga da semana inteira arrumando tudo pra você! Eu comprei vestidos, sandálias de salto, marquei um horário no salão junto comigo e...
— Eu não acredito que você fez tudo isso! Eu não queria ir!
— Você engana a eles, . Não a mim. Te conheço desde sempre, saímos do mesmo óvulo.
Poxa! Ela merecia palmas!
Nunca na vida, eu imaginei que ela soubesse explicar que éramos gêmeas monozigóticas.
Minha irmã não era tão desligada quanto eu imaginava.
Abri a boca diversas vezes. Eu não acreditava que ela havia feito tudo aquilo!
Era por isso que ela nunca voltava para casa comigo durante essa semana! Passava a tarde toda fora!
— E qual o papel de no meio disso? — eu não conseguia imaginar uma cena em que fosse com ela comprar roupas ou coisas do gênero.
— Arrumar seu par, não é?! — explicou como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. Sua paciência já era escassa.
— Eu não acredito que você fez isso tudo sem me avisar!
— Pelo amor de deus, para de reclamar! Apenas me agradeça por realizar seu sonho. Agora fica caladinha e vai fazer sua prova de química, vai. — ela abriu a porta e me empurrou discretamente para fora da sala. Não havia ninguém no corredor.
Merda, todos já estavam nas salas.
O professor não me daria a prova de forma alguma.
E para quem já estava na chuva, nada melhor do que se molhar ainda mais.
— Posso saber quem é? — sussurrei pra , enquanto corríamos pelo corredor para chegar às nossas salas.
— Você não faz a mínima ideia de quem seja? — ela perguntou, um pouco surpresa. Não me respondeu, apenas abriu a porta da sala que ela teria aula, e me largou ali no meio do corredor esperando por uma resposta.
Bem, eu já tinha uma hipótese, claro.
Aliás, eu tinha certeza.
Eu apenas não sabia se deveria achar aquilo bom ou ruim.

Ain't nobody know your name
But looking like you do could be famous
I could see us making way
From the back of the club
To a bed in the shade


! — me gritou — Você viu meu salto?
Eu sabia! Sabia que ela me enlouqueceria. Ela sempre perdia alguma coisa na hora H. E sobrava pra quem procurar? Isso mesmo, pra mim. Ainda mais que eu não era chata que nem ela, que precisava ir a um espelho a cada cinco minutos verificar o penteado que levou duas horas pra ser feito, ou retocar a maquiagem.
Mas ela estava linda. Parecia uma bonequinha de porcelana. A Dorothy do livro “O Mágico de Oz” amaria minha irmã.
Bufei e desliguei a TV, indo até seu quarto. Era até bom que eu me distraísse procurando seu salto, já que eu era uma pilha de ansiedade pura.
Eu estava muito curiosa para saber quem era meu par.
não havia me contado. Muito pelo contrário, ela passou o resto da sexta-feira e o começo do sábado me provocando; Dando pistas para descobrir quem era, e a cada uma eu ficava mais em dúvida se era ele ou não.
Eu estava dividida.
Havia uma parte de mim que esperava profundamente para que fosse ele.
A outra metade estava com medo do fato dele ser bad boy, e ficar sozinha na festa enquanto ele estivesse beijando todas as outras garotas. Então eu não sabia ainda se seria bom ou ruim, caso ele fosse meu par.
Mas uma coisa eu tinha certeza; não me desapontaria. Quem quer que fosse sua escolha, seria alguém que ela confiasse, ou no mínimo conhecesse, para ter certeza que eu não ficaria na mão, ou algo do tipo, já que esse era meu maior pesadelo em relação ao baile de formatura, e disso, ela sabia muito bem.
Assim que subi as escadas, já avistei seu sapato. O que levava uma pessoa a largar sapatos na escada? Será que era pra pegar na saída? Por que ela não deixava tudo pronto de uma só vez? era uma incógnita pra mim.
— Está aqui. — entreguei para ela em seu quarto, que mais uma vez, retocava seu batom.
— Me salvou, ! Valeu.
— Por nada. — dei de ombros.
Então, a campanhinha tocou.
Nós piramos.
Ela começou a gritar e bater palmas, enquanto eu corri e me fechei em meu quarto. Não sabia o porquê.
Minhas pernas tremiam feito vara verde. Eu suava frio, não conseguiria me manter de pé por mais algum tempo. Joguei-me na cama e afundei a cara no travesseiro.
— Sua louca! — abriu a porta em um rompante e deu um tapa forte em minha bunda.
— Ai! — droga. Aquilo doeu demais, com certeza ficaria marcado. — O que eu fiz dessa vez? — choraminguei e virei-me de frente pra ela.
— Tira essa cara do travesseiro! Vai borrar a maquiagem! — ela deu um chilique. — aliás, saia dessa cama agora para não amarrotar o vestido. Como você ousa fazer isso? Está desperdiçando todo o trabalho que eu tive em organizar tudo isso!
— Hey! Calma! Você vai acabar tendo um treco. — sentei-me e a segurei pelos pulsos. Graças aos céus, papai e mamãe viajaram naquele final de semana novamente.
— Você está me fazendo ter um treco! Isso não é maneira de se comportar! — levou a mão à testa. Eu ri.
— Querida, você não é a única ansiosa por aqui não! — lembrei-a.
A campanhinha soou novamente, lembrando-nos de que não havíamos ido lá. Ela saiu correndo pelo meu quarto e praticamente se jogou nas escadas. Um dia minha irmã acabaria caindo ali e quebraria algum osso. Contei até cinco, respirei fundo, e fui atrás dela. Eu que não era burra de descer na correria e correr riscos em pleno dia do baile. Ainda mais usando saltos.
Olhei para meus sapatos não tão altos e lhes confiei meu equilíbrio. Eu nunca tinha descido uma escada com uma sandália de saltos, e esperava do fundo do meu coração não desequilibrar. Imagina o micão? Ainda mais que a escada dava de frente com a porta de entrada da frente.
Mantive o olhar nos meus pés, de certa forma admirando o calçado nude, que era lindo. E em cada lugar que pisava. Uma pisada em falso e já era minha auto-estima.
Cheguei ao primeiro andar mais rápido do que esperava. Estava orgulhosa de mim mesma. Não era tão difícil. Eu poderia fazer aquilo mais cem vezes, caso fosse preciso.
Levantei o rosto sorrindo. E meu sorriso se intensificou ainda mais assim que eu o vi.
Ele já era lindo por natureza. De smoking e com o cabelo penteado, ficava mil vezes mais lindo. Deuses gregos perdiam facilmente para ele.
Eu estava hipnotizada, olhando em seus olhos.
— Puta merda. Precisarei ter o dobro de atenção essa noite pra não beijar a gêmea errada. — disse, coçando a cabeça.
— Se você que já tem mais experiência em diferenciá-las diz isso, pobre de mim. Eu sinceramente não sei qual é qual. Estão igualmente lindas. — completou. O cúmulo da fofura. Eu quis voar em seus braços e dar beijos em sua bochecha, mas como uma boa moça que eu era, fiquei quieta em meu lugar e limitei-me a dizer um “obrigada” muito baixo, praticamente um sussurro. Eu devia estar mais vermelha que um pimentão.
— É só não se esquecer que eu estou de verde e de rosa. — explicou.
— Isso é rosê. — corrigi.
— Tanto faz. — abanou a mão. Os meninos riram.
Era uma ofensa chamar rosê de rosa. Ela bem que tentou me fazer ficar com o vestido rosa choque que ela tinha comprado inicialmente, mas era tão berrante que eu quase chorei quando o vi. Fiz com que ela fosse comigo até a loja trocar no mesmo instante, e assim que bati os olhos neste rosê, me apaixonei. Ele era de tulle das alças até o início seios, e depois a malha estava bordada com paetês, oscilando entre tons claros e escuros do rosê para formar flores.
Eu estava mordendo meu lábio, não sabia o que fazer. já estava saindo, de braços dados com o namorado, enquanto me mantive olhando para o chão com cara de tacho.
Até o momento em que a mão dele tocou meu queixo e ergueu minha cabeça sutilmente, eu não havia percebido sua proximidade. O oxigênio me escapou quando nossos olhos se encontraram, e piorando minha situação, a peste sorriu. Senti seu perfume próximo a mim e isso me levou às nuvens. Era um cheiro divino. Minha perna ameaçou a tremer novamente, mas eu não podia deixar que aquilo acontecesse na frente dele. Dei um tapinha nelas, futilmente imaginando que aquilo resolveria.
— Você está linda.
Naquele momento, meu organismo desconheceu o que era noradrenalina. Meu coração batia descompassado, e muito rápido. Se fosse medir, eu provavelmente seria comparada com um beija-flor, que tem em média mil e quatrocentos batimentos por minuto, enquanto meu normal era por volta de oitenta batimentos. Pensando bem, aquilo era impossível. Mas a adrenalina consumia meu corpo.
— O-ob-obrigada... — sussurrei e olhei para o lado.
— Já que sua irmã não permitiu que fizéssemos isso da forma convencional, — ele riu fraquinho e sua mão que segurava meu queixo, desceu até a minha e a segurou. — Queria ter certeza se você gostaria de ser minha acompanhante para o baile, ? — ele sorriu e mordeu os lábios.
Puta merda, homem! Pare!
— Adoraria. — respondi baixinho, mas não tão acanhada quanto antes.
Ele sorriu e me estendeu uma rosa vinho, que segurava com a outra mão que estava escondida atrás de si. Senti minhas bochechas esquentarem e a peguei. Levei-a até meu nariz para sentir seu aroma e fui entorpecida pelo seu perfume. Eu amava o cheiro das flores, mas o perfume de ganhava delas. Agradeci e a coloquei junto com as flores da mamãe na água, que ficavam sob a mesa, no vaso próximo à entrada. Quando voltei até ele, me estendeu a mão, oferecendo-me seu braço. Entrelacei-o com o meu, saímos de casa e eu tranquei a porta. já tinha saído, provavelmente os irmãos estavam em carros diferentes.
Eu torci imensamente para que a noite continuasse daquele jeito, pois assim, eu poderia ficar tranquila quanto à parte de ficar sozinha na festa.

Now I don't know who you are
But you look like a star
And everybody here be thinking
Who's that boy?
Wanna take you home
And get you all alone
And everybody here is thinking
Who's that boy?


Eu e estávamos conversando sentados em uma mesa, quando chegou correndo ao nosso lado.
— Irmãzinha, troca de sapato comigo?
— Sem chances, .
— Por favor! — ela fez uma expressão sofrida e, como sempre, eu fiquei com dó.
— Olha o tamanho do seu salto, ! Eu mal tive coragem pra subir neste de seis centímetros e você quer me dar o seu que é quase o dobro? — tentou reprimir a risada, mas falhou.
— Vou aproveitar e buscar uma bebida para nós, . Com licença. — ele disse, e não esperou resposta, logo se levantou da mesa.
Eu quis estrangular minha irmã. Se ele não voltasse, ela se arrependeria do dia em que planejou aquilo tudo pra mim.
— Por favor! É porque meus pés já doeram de tanto dançar. E eu não quero parar!
— Da próxima vez você compra um mais baixo. Aliás, obrigada por ter acertado na altura do meu. Não precisei trocar, que nem o vestido.
— Por nada! Mas me empresta! Por favor! Apenas por dez minutos!
Rolei os olhos. Ela sempre me convencia. — Dez minutos. — confirmei. — Pegue logo, antes que eu me arrependa. — desafivelei-os e a entreguei. Calcei os dela apenas para não ter que pôr os pés no chão da quadra imunda da escola. Assim que ela colocou meus sapatos em seus pés, correu de volta pra pista.
Não se passaram sequer trinta segundos desde que ela saiu, quando um copo de ponche foi colocado na mesa de frente para mim. havia inclinado sobre minha cadeira, de forma que seu peitoral encostava em mim. Eu era uma tola, e me encolhi na cadeira afastando de seu toque, mas depois me arrependi. Estar perto dele era bom demais.

Oh, he got me
No, I've never seen,
No one like him
Damn, he's everything
Girls, they want him
Guys, they wanna be
Who's that boy, who's that boy


Ficamos um tempão na mesa conversando. Nosso ponche já estava acabando, e apenas quando percebi isso, me dei conta de que dez minutos já haviam se passado e não havia voltado com meu sapato.
Procurei com os olhos em cada canto da quadra ao meu alcance ali da mesa, e não a achei.
— Você está bem? — perguntou. Ele devia ter percebido meu incômodo.
— Quero meu sapato. — ele riu.
— Você está descalça?
— Não, ela me passou o dela...
— Então que tal a gente dançar um pouco? — mordi meu lábio e me remexi na cadeira. — É bom que a gente aproveite que a pista é no meio da quadra e de lá você pode procurá-la melhor.
Senti gosto de sangue em minha boca. Droga, mordi-a tão forte, que chegou ao ponto de causar um corte.
Era uma ótima ideia. Eu gostava de dançar; Sozinha no meu quarto, claro. Ou nas aulas de dança. Não ali com todos os meus colegas por perto.
— Não sei dançar. — usei a primeira desculpa que me veio à cabeça.
— Não tem problema, eu te ajudo. É só apoiar em mim que eu te guiarei. — ele se levantou e ficou de pé ao meu lado, oferecendo-me sua mão com um sorriso lindo em seus lábios.
— Estou com o sapato da . É altíssimo. — segunda desculpa. Que ele não contornasse essa, porque eu não havia pensado em mais nenhuma.
— Não é como se eu fosse deixar você cair. Venha, confie em mim! — balançou sua mão, reforçando o convite.
Droga.
Merda.
Meu estoque de criatividade havia se esgotado.
Dei de ombros e aceitei, relutantemente. De certa forma, seria bom, já que passamos o baile todo - até então - sentados na mesa conversando. Se eu continuasse chata daquele jeito, era capaz que ele fosse atrás de outra pessoa para dançar.
Eu estava me borrando de medo. Entrelacei meu braço no dele e busquei mais contato com seu corpo para me apoiar.
Ele me levou até o meio da pista. Meus pés estavam escorregando.
Uma música lenta começou a tocar bem no momento em que chegamos. Ele me puxou para frente de si e desceu sua mão até minha cintura, enquanto a outra segurava minha mão, me puxando ao seu encontro.
— É fácil, ok? Só precisa seguir meus passos. — ele sorriu e começou a dançar. Ele tocava seu joelho no meu, me sincronizando com seus passos, e me guiava pela cintura. Parecia a minha primeira aula de dança.
— Porra, eu sei dançar. — resmunguei desabafando, e ele riu. — Por que está rindo?
— Porque você disse um palavrão. E também porque você me disse que não sabia, mas você aprendeu rápido.
— Convivência com minha irmã — dei de ombros. Eu não era tão certinha assim. — Mas é sério, eu já sabia dançar.
— Por que me disse o contrário, então? — virou seu rosto para me observar, e seu nariz raspou em minha bochecha, me deixando completamente arrepiada.
— Digamos que não estou cercada pelas minhas companhias favoritas.
— Ah. Podia ter me dito que era isso.
— Para você fazer hora com minha cara? Não, obrigada.
— Olha, ... — ele respirou fundo. — Não sei se é porque você está acostumada com isso que você me enxerga assim... mas... eu não sou como eles. — deu de ombros, e eu prendi a respiração.
— C-como assim?
— Do tipo que curte com a cara dos outros. — ele desviou o olhar para algum ponto distante de nós — Me desculpe lhe dizer isso desta forma, mas já me contou sobre você.
— Então ele te contou que eu sofria bullying até minha irmã se tornar a líder de torcida preferida da escola? Aliás, a melhor da região? — engrossei meu tom de voz. Pela primeira vez na noite eu estava destemida.
— Me desculpe por isso... — ele voltou a me olhar, seus olhos brilhavam. — Não posso mudar o passado, mas posso te garantir que isso jamais se repetirá. Sei que o próprio já te magoou antes dessa coisa com sua irmã e dos dois sequer serem namorados, mas eu te dou minha palavra, que não sou mais igual a ele.
Eu passei a droga de uma semana pensando que o filho da puta era igual ao irmão.
Eu pensei a maldita semana falando aos quatro ventos que ele era um bad boy.
E puta que pariu. Ele estava convicto demais para estar mentindo.
Nunca pensei em tantos palavrões de uma vez.
— Obrigada. — limitei-me a sorrir. De repente, eu já estava mais confiante em relação a ele, e os sapatos de sequer eram um problema para mim.
Mas eu ainda procuraria saber o porquê que ele havia deixado de ser que nem eles.

Everybody in the club turn around saying
Who's that, who's that
Beautiful boy with them big brown eyes, tell me
Who's that, who's that


— Ah, aí está você! — chegou correndo ao meu lado, fazendo com que nós parássemos de dançar.
— E onde mais eu estaria? — brinquei.
— Não enche! Preciso dos meus sapatos!
— De novo? Agora que me acostumei com eles?
— Querida, assim que essa música acabar eles anunciarão a rainha do baile. Eu preciso estar divando em meu salto, já que ele é mais alto que o seu, pois se eu ganhar, não posso ir até o palco baixinha. Você é mais alta do que eu! — ela falou apressadamente, atropelando as palavras diversas vezes. Dei de ombros e concordei, afinal, inicialmente eu nem queria aquela troca.
Nos sentamos à mesa mais próxima, e trocamos os sapatos rapidamente, enquanto foi ao banheiro.
Devido a proximidade de , eu pude notar o motivo de ela estar diferente, agitada.
— Você bebeu?
— Lógico. — rolou os olhos.
— Onde que você arrumou isso? A escola não fornece bebidas alcoólicas no baile. — terminei de calçar minhas sandálias e levantei-me ficando de frente pra ela.
— Contatos de . — ela deu de ombros e eu o vi aproximando-se de nós.
— Quer? — ele entrou na conversa e me ofereceu da sua bebida. — Não, obrigada. — recusei educadamente.
— Ela está traumatizada, . — chegou, e disse rindo, mas eu concordei. Jurei que aquilo não aconteceria novamente, ainda mais na escola. — Não acredito que você conseguiu passar com isso aqui pra dentro.
— Relaxa, mano. — disse embriagado. — O Jacob pagou o zelador pra ficar caladinho, guardamos no armário dele ontem depois do fim da aula.
— Você ofereceu propina pra ele? — perguntei chocada. O zelador me parecia tão certinho.
— Não, . O Jacob pagou. — me explicou como se eu fosse uma criança. Só não fiquei incomodada, pois sabia que ele já estava fora de seu estado sóbrio. — Eu só o ajudei a esconder. Não sou rico. — deu de ombros e tomou um grande gole da bebida em seu copo. — Vem cá, . Vou te mostrar os esquemas. — puxou o irmão de uma vez, sem lhe dar a oportunidade de negar. Ele moveu seus lábios me pedindo desculpas. Sorte que eu mandava bem em leitura labial.
— Que ódio! Por que ele sempre me abandona nas horas que não deve? — resmungou e se jogou na cadeira, nem ligando caso se machucaria ou não.
— Ele não deve saber o que vem agora. — tentei ajudar, e me sentei novamente ao seu lado, já que havia levado .
— Ele nem me deu um buquê de flores! — continuou falando como se eu não estivesse ali. — E eu passei a semana inteira jogando indiretas de que queria um buquê! — ela bateu o pé no chão e deu um soco na mesa, me fazendo pular na cadeira.
me deu uma rosa.
— E o filho da puta do irmão dele não me deu nada! — outro soco na mesa. — Ah, eu vou matar o !
Puta merda.
Minha irmã estava embriagadíssima. Se ela ganhasse o título de rainha do baile, todos notariam que ela andou ingerindo álcool. Ou pior, poderiam imaginar que ela usou substâncias ilícitas.
E eu rezava para que não houvesse aprontado mais aquela.

I got my eyes on this boy
Can't get him off my mind
He's one of a kind
The cherry to my pie
I just wanna get him close
Wanna make him mine
Come hold my hand and dance away the night


— E a rainha do baile é... — a professora de inglês fez aquele mistério tosco, mas meu coração estava aceleradíssimo, por culpa de . Ela enterrou as unhas em meu braço e começou a tremer. Se ela não ganhasse, ela infartaria, com certeza. — Millers!
— Ahhhhh! — ela gritou e apertou meu braço ainda mais. Começou a pular, e eu cogitei a possibilidade dela acidentalmente quebrar o salto. Parabenizei-a e beijou sua bochecha antes dela ir ao palco.
Deixando a euforia de lado, ela colocou seu melhor sorriso no rosto e caminhou até a escada do palco acenando e mandando beijo pra todo mundo. Eu quis rir, mas me segurei. e ao meu lado riam e batiam palmas, enquanto eu quis esconder minha cara, prevendo o provável vexame que minha irmã bêbada faria.
A professora a abraçou e lhe deu a faixa e a coroa de rainha do baile, enquanto todos os outros alunos se viravam e cochichavam uns com os outros. Eu me remexi, tentando escutar algo que os rapazes próximos a mim diziam, mas foi impossível.
— Muito obrigada a todos que votaram em mim e... — ela começou a agradecer, mas alguém da platéia gritou e a interrompeu.
— Você é mesmo a ?
— Como assim? Lógico que sou. — ela debochou.
— Mas a gente não votou em você... — outra menina disse.
— Como assim não votaram em mim? Lógico que votaram, a professora foi clara com o resultado; Millers. Eu. — ela rolou os olhos.
— Bem, mas eu quis votar na que estava de vestido rosa... Sua irmã. — a menina respondeu e todos os alunos concordaram com ela.
passou o braço pela minha cintura e me puxou para perto de si.
Só então eu me toquei que estavam falando de mim. Apenas percebi pela postura defensiva de .
— Então deveriam ter votado na . — ela estreitou os olhos e ergueu a sobrancelha. Eu comecei a tremer, e me apertou um pouco mais forte.
— Ah, a de rosa é a ? — um menino perto de mim perguntou, e minha irmã confirmou com a cabeça. — Então deixa você mesma como rainha! — ele acenou em descaso. Meu coração apertou e suas pulsadas estavam descompassadas. Todo mundo concordou, falando "sim", "é isso aí"...
Eles votaram em mim achando que eu era minha irmã. Mas ao perceberem o erro, mudaram seus votos? Eu não podia ser a rainha? Era isso?
— Como vocês se atrevem? — berrou e meus olhos se encheram d'água. Eu não acreditava que ela poderia estar com raiva por eu ter teoricamente ganhado seu título. Não fazia sentido com ciúme de mim.
Eu precisava sair dali o mais rápido possível.
— Onde você vai? — sussurrou em meu ouvido e me segurou mais forte, me impedindo de ir. continuava gritando com seus colegas, mas eu não prestava atenção.
— Preciso sair daqui. — dei de ombros e puxei meu braço, soltando-o das mãos quentes e macias de .
, não faz isso. — ele falou e eu comecei a andar para sair dali.
, venha aqui, por favor? — na mesma hora meu nome preencheu a quadra. Congelei.
estava me chamando no microfone.
Pra ir lá pra droga do palco, pagar mais mico e ser ainda mais humilhada.
Não, obrigada. Já bastava as lágrimas que rolavam pelo meu rosto.
Voltei a andar em direção à saída, mas alguém me segurou. Virei-me de uma vez e dei de cara com .
— Por favor, ... Deixe-me ir. — pedi, mas não tive coragem de olhar em seus olhos.
— Você não entendeu, né? — ele riu fraquinho e eu quis socá-lo. — Sua irmã está te defendendo. Mas você não percebeu, certo?
Arqueei minhas sobrancelhas e olhei para o palco. me chamou com a mão assim que nossos olhares se encontraram.
Droga.
Cedi ao , que entrelaçou seu braço no meu e me guiou até a escada do palco. Eu sorri fraco em forma de agradecimento, limpei meus olhos e fui ao encontro de minha irmã.
— Qual é o problema de vocês, hein? — ela voltou a gritar assim que cheguei ao lado dela. — Uma pessoa pode estar mais bonita que a outra, mas não pode ser a rainha do baile por que ela não é tão popular? — ela apontou para mim e eu me encolhi. — Vocês são patéticos. — ela ralhou e eu quis rir, mas continuei quietinha ao seu lado. — Saibam que essa aqui, — apontou pra mim — é muito mais adorada do que vocês imaginam. Tem muito mais valor do que vocês dão. — deixou sua cabeça cair e a balançou em negação. — Ela é incrível. — completou com a voz mansa e meu estomago deu cambalhotas dentro de mim. — Mas só porque todos vocês aqui já fizeram bullying com ela uma vez, significa que ela não pode ser melhor que eu? Só porque eu me tornei popular, vocês deixaram de humilhá-la, mas continuam não aceitando-a? — desafiou e meus olhos se marejaram novamente. — Pois vocês estão completamente enganados. Se os votos foram direcionados a minha irmã, quem sou eu pra ser rainha? Apenas uma cópia dela. Aliás, ela nasceu primeiro do que eu. Então se alguém tem que ser rainha, com certeza ela é essa pessoa. — Concluiu e deixou o microfone cair no chão, causando um barulho chato nas caixas de som. Ela se virou pra mim sorrindo e eu a abracei.
— Obrigada. — sussurrei.
Ela se afastou e me olhou com os olhos brilhando. Levou as mãos à cabeça e tirou a coroa, e colocou-a em mim. Fez o mesmo com a faixa e respondeu:
— Por nada. — sorriu.
Alguém na plateia assoviou e eu procurei pela pessoa, me deparando com . Sorri, e senti minhas bochechas esquentarem. abaixou-se e pegou o microfone no chão.
— Agora sim. Palmas para a verdadeira rainha do baile da Stratford High School. — ela puxou minha mão e a ergueu no ar, vibrando.
Todo mundo bateu palmas.
Não sei se por medo ou se por peso na consciência, mas foi legal. Agradeci e saí dali, antes que eles mudassem de ideia.

Give me the green light
Kiss my lips
Who's that boy watching my hips?
I-I I wanna know who you are
My name is Dev and you can be my star


Ele encostou o carro em frente minha casa. Eu não queria descer, me despedir. Queria ficar mais um tempo com a companhia de , que eu havia descoberto ser uma das melhores.
— É... é aqui que você fica. — ele falou algum tempo após ter estacionado.
— Obrigada... pela carona — sorri amarelo. Droga, eu não queria sair. — E pela companhia. — me lembrei. — Por tudo, aliás.
— Não precisa agradecer. — ele sorriu e eu abaixei a cabeça, olhando para minhas mãos em meu colo. — Antes que eu me esqueça, você fica linda de rainha.
— O-obrigada. — sorri, e comecei a brincar com meus dedos.
Ele abriu a porta do carro e levantei a cabeça para observá-lo. Ele saiu e deu a volta na frente do carro e parou ao meu lado.
E abriu a porta pra mim.
Meu coração veio à minha garganta.
Ele me estendeu a mão, e o ar parecia estar rarefeito. Aceitei-a e saí do carro. Continuamos de mãos dadas até a porta.
— Obrigado por aceitar meu convite do baile. — ele disse assim que eu abri a porta. Virei-me para ele.
— Não precisa agradecer. Não é como se não tivesse te forçado a isso. — dei de ombros.
— Nem tudo é o que parece, minha querida. — ele deu de ombros.
— Não sou sua querida.
— Perdão? — ele ergueu uma sobrancelha e piscou, negando.
— Me desculpe, estava pensando alto. — puta merda. Nisso que dava ficar lendo muito romance. — Lembrei-me de um livro que li; A seleção.
— Ah... — ele fingiu compreender, mas estava explícito em seu rosto seu desentendimento.
— A personagem diz isso ao garoto.
— Entendi. — riu amarelo e eu me achei uma idiota. — Bem, deixe-me ir... tenho uma festa pra aturar.
— A festa do , né?
— É, a festa pós baile. — ele riu, e aquilo me lembrou de algo.
— Ah, antes, posso te fazer uma pergunta? — Claro.
— Você me disse que havia deixado de ser que nem eles. Por quê?
— É uma longa história. — ele deu de ombros.
— Tenho tempo. Entre. Eu sei que você não quer ir pra festa mesmo. — de onde saiu aquilo? Quem era eu e o que fizeram com Tatiana?
— Ahn, você tem certeza?
— Claro. — fodeu.
Afastei da porta, dando espaço para ele passar e belisquei minha coxa sob o vestido, disfarçadamente, para ver se eu estava sonhando, deixando minha inconsciência me dominar, ou o quê.
Eu estava realmente agindo por conta própria. E eu tinha passado longe do álcool. Devia estar ficando louca.
— Anh, que tal se a gente assistisse um filme? Você me conta a história enquanto eu faço pipoca? — perguntei escolhendo as palavras a dedo. Para quem já estava na chuva, qual o problema de se molhar um pouco mais?
— Claro! — ele concordou e eu tomei rumo à cozinha, com ele me seguindo. Indiquei para que ele se sentasse em um dos banquinhos e fui pegar o milho. — Então... digamos que eu era porra louca que nem o . — ele começou a contar e eu pus a panela no fogo. — Meu pai já estava perdendo fios de cabelo comigo, juro. Eu era muito pior que . Cada fim de semana eu levava uma garota diferente pra casa, — ri, não que eu já não esperasse aquilo — a cada festa eu experimentava uma droga nova... Até coma alcoólico eu já tive! — levei as mãos a boca e arregalei os olhos — Não se assuste, eu não faço essas coisas mais. Juro. — voltei a respirar normalmente. O medo de que eu estava gostando de um porra louca nível extremo apoderou cada canto do meu corpo, mas quem era eu pra julgar? Ele dizia ter parado... Realmente, ele era mil vezes pior que o . — até que um dia, meu pai estava brigando comigo, me passando mais um daqueles sermões caprichados... e ele sofreu um infarto. — eu sacudia a panela para agitar os grãos e soltei a sob o fogão de uma vez. — Chamamos a emergência na mesma hora e eu fui com ele na ambulância... Ele não resistiu, . — falou melancólico. Eu sabia que eles eram órfãos de pai, só não esperava que ele tivesse falecido assim. — Ele era meu herói, sabe? Poxa vida, como eu amava aquele homem! — ele engasgou e eu jurei que ele estava prestes a chorar. Mas as pipocas começaram a estourar e eu achei melhor dar atenção a elas e deixá-lo ter certa privacidade. — No caminho do hospital, ele me fez seu último pedido. Ele queria que eu deixasse de ser aquilo, pois não me levaria a lugar nenhum. E o sonho de sua vida, era ter um filho médico. Ele sabia que não tinha o tino para a coisa e apostou aquilo em mim, e eu não podia desapontá-lo em seu último desejo... — desliguei o fogo, virei as pipocas na vasilha e fiquei de frente pra ele. Nunca imaginei que ver chorando cortaria meu coração em mil pedaços. — Antes de chegar ao hospital, ele havia partido. Eu vi meu pai morrer por uma besteira minha. Eu carrego isso nas costas e, naquele dia, eu jurei que mudaria.
“Minha mãe me ajudou na reabilitação, porque àquela altura eu já estava uma perdição... Estava na metade do meu penúltimo ano escolar, sabe? Eu pensei que não dava mais, minhas notas já estavam um desastre. Mas minha mãe me tocou adiante, e não me deixou desistir de mim. Com a ajuda dela, eu superei tudo, sabe? ainda era pequeno para entender algo e me apoiar e agora ele entrou na mesma onda que eu costumava estar. Recuperei tudo, passei a ser um aluno nota A. Mas como metade do meu high school foi uma tragédia, logicamente eu não conseguiria entrar em uma das melhores universidades de medicina. Consegui uma ótima, entretanto; a University of Texas Medical Branch*. Não é uma Baylor College of Medicine* ou San Antonio School of Medicine*, mas é excelente. Eu realmente nem esperava ser aprovado lá...
— Nossa, . Estou sem palavras.
— É realmente meio estranho, né? Nós nunca imaginamos que as pessoas podem realmente dar a volta por cima, até que alguém vá até lá e o faça.
— Sim — concordei abobada. Achei aquela história a coisa mais fofa, tirando a parte que ele perdeu o pai, claro. Mas a superação em si, era fantástica. — Então, mudando de assunto, vamos ver o filme?
Ele concordou e me seguiu até a sala de TV. Escolhemos uma comédia, para afastar a nuvem depressiva que havia se instalado em mim após escutar a história de seu passado.
document.write(Nate) lá, mas ele tinha certeza que esta duraria até o sol raiar.
— Obrigada pela companhia. — agradeci assim que ele saiu. Fiquei encostada na soleira da porta.
— Por nada, . Foi um prazer. E obrigado por não ter saído correndo. Algumas pessoas costumam pensar que eu não superei nada e que ainda sou drogado. — ele riu fraquinho e se aproximou de mim. Quando sua mão pousou em minha cintura, eu jurei que meu estômago havia afundado e que meu coração sairia pela boca. Vagarosamente, ele aproximou seu rosto do meu, e depositou um beijo em minha bochecha, fazendo com que cada pêlo do meu corpo se arrepiasse. — Qualquer dia eu passo aqui e te levo no cinema, ou então vamos comer uma pizza... que tal? — voltou a sua posição anterior e eu terminei de ter um treco ao encará-lo no fundo de seus olhos.
— E-eu... — droga. Aquilo não era a hora de gaguejar. — adoraria! — falei mecanicamente. Ainda não tinha me acostumado nem um pouco com aquela ideia. Ele despediu e foi rumo ao seu carro. Fiquei na porta de casa o vigiando até que perdesse seu carro de vista

x University of Texas Medical Branch, Baylor College of Medicine e San Antonio School of Medicine= Universidades de medicina no Texas. O ranking pode ser encontrado aqui. Obrigada, prima, pela referência! SHUISIUS

I don't know who you are
But you look like a star
And everybody here be thinking
Who's that boy?
Wanna take you home
And get you all alone
And everybody here is thinking
Who's that boy?


— Ah, você ainda me deve uma explicação!
— Devo, é? — ele ergueu uma sobrancelha e finalmente saiu de cima de mim, parando de fazer cócegas em meu corpo. Consegui finalmente respirar em paz.
— Deve... — engoli seco. Eu não estava muito segura quanto àquela pergunta, mas já me viu passar por tanta coisa, que ele nem se importaria, eu achava. — Você me disse que nem tudo parecia ser o que era, quando eu falei que havia lhe obrigado a ser minha companhia para o baile. Explique-se. — sentei e cruzei os braços, fingindo estar brava.
Ele riu fraquinho e me olhou de soslaio.
— Eu comentei com que havia adorado a irmã gêmea da namorada dele. Ele super encheu meu saco e contou isso para sua irmã. Eles juraram de pés juntos que arrumariam um encontro para nós dois, e eu gostei da ideia. Mas fiquei sabendo do baile quando estava lá em casa conversando sobre ele com o , e deixou escapar que você queria ir, mas ninguém lhe convidou. Achei a oportunidade perfeita, sabe? Aí nós três organizamos tudo às escondidas! — meu queixo caiu.
— Eu não acredito que você fez isso! Achei que tudo aquilo fosse coisa da minha irmã!
— Pois bem, acredite. — ele riu fraquinho e, naquele momento, entrou na sala com lhe seguindo.
— Toma, — ela me estendeu alguns papéis. — chegaram cartas para você.
Eu as tomei de sua mão e senti um frio na barriga ao reconhecê-las. Eram cartas das universidades as quais eu havia me aplicado. A hora de descobrir se eu havia sido aprovada ou não, havia chegado.
Respirei fundo, eu estava tão agitada quanto um maratonista ao final de uma corrida.
Abri a primeira; Baylor College of Medicine.
Meu coração parou quando eu li ter sido recusada. Todos os três vieram me acalentar, dizendo que ainda tinha mais quatro cartas a serem abertas. Limpei os olhos e fui para a segunda; San Antonio School of Medicine.
Recusada.
Eu chorei ainda mais.
Terceira; Texas A&M Health Science Center.
APROVADA.

Comecei a pular feito uma louca no sofá. Derrubei várias almofadas no chão, pisei na mão de alguém, e minhas lágrimas de tristeza se tornaram de felicidade. Eu tremia tanto, que não dei conta de abrir as outras. Escutei todos me parabenizarem, mas não sabia quem dizia o quê.
Texas Tech School of Medicine... — começou a ler ao abrir a penúltima carta. Parei de pular e fiquei trêmula, olhando para ela. Ela fez um suspense básico e desnecessário até gritar — aprovadíssima!
Eu gritei ainda mais.
Ela subiu no sofá e me abraçou, me sacudindo para todos os lados. Eu estava chorando, arrepiada, com o coração nas alturas... Era com certeza o melhor dia de minha vida.
— Bem, vamos lá. Quinta e última carta. — limpou a garganta antes de começar a ler. Eu escutava cada palavra com uma atenção enorme. — ...muito obrigado pela inscrição, e adoraríamos em tê-la como aluna da University of Texas Medical Branch. — ele finalizou, e eu gelei.
Eu havia sido aprovada na Universidade de Galveston? Na qual papai estudou e estudava?
Eu era pura sensação! Todos voltaram a me parabenizar. Mas uma em especial, chamou minha atenção.
— Parabéns, namorada.
— Namorada? — parei tudo que estava fazendo e olhei para ele. Eu havia me esquecido de como respirar.
— Muito cedo? — ele perguntou inseguro, erguendo uma sobrancelha. Eu ri de sua fofura e abaixei-me para ficar da sua altura, que estava sentado no sofá.
— Acho que não. — dei um beijo na bochecha dele, mas ele segurou meu rosto entre suas mãos suavemente, me olhou no fundo dos meus olhos e, sorrindo, me beijou.
Eu estava em combustão. O agito pela a aprovação em três universidades e por aquele pedido, haviam me levado à um patamar que eu jamais imaginei atingir.
— Assim você me assusta. — ele levou a mão ao coração, fingindo. — Já tem mais de um mês que estamos saindo, se você negasse eu não saberia o que fazer! Eu gosto demais de você, . — eu sorri e lhe dei outro beijo na bochecha — E agora não preciso me preocupar em ficar longe de você quando as aulas voltarem, já que você estudará na mesma universidade que eu.
— Oras, quem te disse isso? — ergui a sobrancelha e ri maleficamente. — Fui aprovada em três universidades, bonitão. Alto lá!
— Você é uma péssima mentirosa, . Até parece que não está estampado na sua testa qual será sua escolha.
— Droga, . — dei um soquinho em seu peito. — assim você nem me deixa fazer suspense. Afe. Não sabe brincar não desce pro playground! — ele deu uma gargalhada gostosa, e eu o acompanhei.
Eu realmente iria para a Universidade de Galveston. Sem um pingo de dúvidas. Mesmo porque eu já não sabia mais como ficar sem ele.

Oh, he got me
No, I've never seen,
No one like him
Damn, he's everything
Girls, they want him
Guys, they wanna be
Who's that boy, who's that boy


Fim.



Nota da autora: Sem um pingo de dúvidas, eu amei demais esse ficstape. Sou suspeita em dizer que ele seja meu preferido, mas 06. Nightingale também é um forte concorrente ao primeiro lugar ushushh por falar nele, corram para ler! Entraram quatro ficstapes meus! (não se espantem, já até me acostumei) 04. Neon Lights, 06. Nightingale e 10. Give Your heart a Break esperam por você!
Agradeço de coração as lindas autoras que me ajudaram a escolher o tema principal da fic! Obrigada, meninas, por terem votado em qual clichê vocês queriam, e por mais que eu estivesse louca para “o estranho novo na cidade” ganhar, eu amei que “a nerd se apaixona pelo bad boy” tenha vencido. Eu não sei se sairia algo tão bom assim nesse outro tema, já que eu não sirvo muito pra suspense! SLKDJSLKAJLD
However, espero de coração que gostem, e lhe peço desculpas pela pp não ser 100% nerd e nem pelo pp ser 100% bad boy. Eu quis fugir um pouquinho das expectativas, e achei lindo. Ainda mais que ambos foram inspirados em pessoas que conheço (em partes) Agradecimentos também à minha prima linda, que super me ajudou quanto às Universidades do Texas, já que ela estuda em uma delas.
E novamente, a você, leitora. Por ter acompanhado essa fic louca até seu final. Ela foi o maior ficstape que eu já fiz até agora, então, obrigada pela paciência para lê-la. Eu espero você em minhas atuais e futuras fics n_n

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Minhas histórias:
Best Nanny Ever | If Every Day Was Christmas Especial de Natal de Best Nanny Ever | Vide | Vide 2 | 01. Best Song Ever | 02. Story of My Life | 02. Who's That Boy | 04. Neon Lights | 05. Run Wild | 05. Unconditionally | 06. Nightingale Spin-off de Vide | 07. Fearless | 08. Confetti Falling Spin-off de Best Nanny Ever | 08. Forget Forever Spin-off de Best Nanny Ever | 08. Happily | 08. Never Grow Up Spin-off de Vide | 09. Olivia Especial de Ano Novo de Best Nanny Ever | 10. A Year Without Rain | 10. Give Your Heart a Break | 11. Witchcraft | 11. You're Not Alone Spin-off de Best Nanny Ever | 17. Superman

Beijos mil,
Berrie.




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