Postada: 20/12/2017

Capítulo Único

03 de Junho. 02h41min.

Pain!
You made me a
You made me a believer, believer
Pain!
You break me down
You build me up, believer, believer
Pain!


Eu sabia que nada do que eu estava fazendo era certo.
Mas o que se encaixava como certo àquela altura do campeonato? Viver enganada e presa em uma vida que não era minha? Presa em um lugar onde eu nunca havia me encaixado, em um lugar que não me pertencia?
Não! Eu não era uma rebelde sem causa, até poucos meses eu mal sabia o que era enfrentar meu pai por qualquer coisa que eu quisesse. Mas as coisas mudam, não é mesmo? Sim, as mudanças levam tempo, mas eu parecia um balde embaixo de uma goteira, ia enchendo aos poucos e tinha chegado a hora que eu não suportava mais nada. A transformação de início parecia ter sido a pior coisa, mas foi o que me fez abrir os olhos quanto a minha vida.
Aquilo me parecia o mais clichê filme dos anos 80, mas eu adorava os anos 80, então não era exatamente um problema. Talvez eu precisasse daquele clichê para resolver começar a minha vida. Aliás, desde que eu havia conhecido aquelas seis pessoas mais loucas da terra, eu havia começado a viver de verdade. Poderia parecer ridículo, mas eu tinha começado a existir de verdade com 22 anos de idade, experimentado as inúmeras coisas da vida, desde fugir no meio da noite para ir a algum lugar e ter que voltar antes que o dia clareasse, até conhecer o que se tratava realmente uma amizade, uma amizade de verdade, daquelas que entendem seus segredos mais profundos.
E o mais incrível ainda, era tudo aquilo que me levava a perceber o quanto a minha decisão era incrivelmente idiota, mas, por mais inacreditável que parecesse, ela era o que mais me motivava a continuar, sair daquelas amarras que não me deixavam viver a minha vida em paz e como eu queria.
Talvez fugir de casa não fosse a forma mais inteligente de confrontar o meu pai, mas era a que mais me agradava e mostrava o quanto eu poderia me virar sozinha.

03 de Fevereiro. 16h02min – Quatro meses antes.

Entrei no campus sofrendo com o frio que sempre se manifestava da forma mais brusca naquela época do ano. A neve branca me fazia pensar que eu também poderia ser uma imensidão branca, na qual eu poderia colorir com tudo que eu quisesse, exatamente do meu jeito. Começando com algum curso que fosse do meu agrado, até porque Engenharia de Petróleo não era lá o meu sonho de consumo desde sempre, aliás, desde nunca. Mas como dar valor aos negócios da família era o mais importante na vida do meu pai, Turismo nunca havia sido uma opção.
Me dava um alívio saber que finalmente eu havia terminado aquele curso dos infernos e muito provavelmente ganharia a dádiva de fazer meu mochilão. Na verdade, eu não ganharia nada que não fosse um “Você precisa estar apresentável, querida”, eu só me iludia achando que algum dia meu pai iria me ouvir. Sendo que as prioridades dele eram:

- Me formar em Engenharia por um cargo de valor na empresa da família.
- Me arranjar um noivo.
- Me apresentar na sociedade.
- Me casar.
- E entregar a empresa nas mãos do suposto cara que tomaria meu lugar, ou seja, o tal marido.

Eu lamentava por ter um pai tão ignorante e machista, sonhando com o dia em que eu pudesse sair daquele lugar para viver a minha vida. Ser A herdeira dos Williams não era lá o melhor posto do mundo e quando pensava que inúmeras pessoas queriam estar onde eu estava, eu tinha a plena certeza de que elas não sabiam como era a minha vida. Eu havia sido criada nos melhores lugares, aprendido vários idiomas, instrumentos, culinária e sempre soube aproveitar bem as oportunidades desde muito cedo, mas não ter mãe era um fator que piorava e muito a minha relação pai-filha.
Ele me prendia – supostamente – e achava que estava me protegendo; ele tinha planejado a minha vida – sem mim, que fique claro – e achava que estava fazendo o melhor. Eu agradecia por tudo que ele havia feito, mas da minha tão sonhada liberdade, ele me privava.
Suspirei seguindo pelo corredor que dava na secretaria da universidade, já tinha concluído o curso, colado grau e feito aquela festa toda pomposa de formatura, que por sinal meu pai quem tinha bancado, mesmo que anonimamente. Entrei na sala grande com várias repartições e me dirigi ao balcão, onde um rapaz já estava e parecia descontente com qualquer coisa. Me apoiei no móvel feito de alvenaria e escorei o rosto na mão, esperando que Dorothy viesse me atender. Tirei a carteira da bolsa, procurando uma liga de cabelo dentro daquela bagunça e quando finalmente achei, prendi-o. Olhei pro garoto ao meu lado, curiosa em saber por que ele estava quase deitado ao balcão e com cara de choro. Não me julguem! Eu era curiosa mesmo.
Ele estalou dois dedos da mão e virou o rosto, olhando pra minha cara, depois sorriu simpático. Sorri de volta.
- Finalmente, Dorothy. – ele riu animado, quando a ruiva apareceu perto do balcão com alguns papéis e uma falsa cara de reprovação, como se já o conhecesse há bastante tempo.
- Espero que você não se arrependa, garoto. – a mulher riu, apontando pra ele, que afirmou feito um louco, depois começou a ler os documentos. Soltei uma risada. – No que posso ajudar, querida? – ela me perguntou simpática como sempre havia sido.
- Vim assinar os últimos papéis, Dorothy. – falei rindo e bati com as unhas na superfície de madeira.
-Transferência? – ouvi a pergunta do nada e olhei pro lado, vendo o garoto me olhar curioso. Vinquei as sobrancelhas, confusa. – Do curso. Veio pedir transferência?
- Ah não! – soltei uma risada. – Já terminei essa joça, vim assinar o certificado do fim de curso. E você? – escorei de lado no balcão.
- Terminou engenharia, você é guerreira. Qual delas? – ele arregalou um pouco os olhos e soltei uma gargalhada. – E eu vim trancar o curso. – o garoto abriu um sorriso largo, me deixando completamente confusa.
- De petróleo. E você? – soltei uma risada ao ver a cara de espanto dele. – E por que tão feliz em trancar o curso?
- Eu fazia mecânica. – ele suspirou aliviado no momento em que Dorothy me trouxe a ata e o certificado de conclusão. – E eu gostava bastante, mas meu negócio mesmo é música, nasci pra isso. É onde eu realmente me realizo na vida: música. – ele respondeu com um sorriso bonito e apaixonado, certeza que era pelo que fazia e aquilo me deixou com certa inveja. Eu queria ter a coragem dele.
- Caraca! Sinceramente, eu queria ser você, ter a sua coragem. – ri meio morta, o vendo rir, parecendo achar aquilo engraçado. Terminei de assinar minhas coisas, entreguei a ata à Dorothy e recebi meu certificado. – Obrigada. – agradeci à ruiva e ela me lançou um sorriso. – Eu queria mesmo era turismo. – dei um sorriso triste.
- Ainda dá tempo, moça! Não desista, nós somos novos, temos todo o tempo do mundo. – ele disse com um sorriso bonito e de uma forma bem esquisita, tomei aquele conselho pra mim. Nunca era tarde para tentar de novo.
- Obrigada e boa sorte na jornada com a música! – agradeci a motivação e acenei pro rapaz.
- Obrigado! – ele acenou também. – Boa sorte com o turismo.
Acenei que sim com a cabeça, mesmo sabendo que aquilo muito provavelmente não aconteceria na minha vida e saí da secretaria com uma vontade louca de chutar o balde em casa, botar minha boca no trombone e voltar com meu mochilão e o Turismo à tona. Sacudi a cabeça tirando aquela ideia de revolução da cabeça. A engenharia era por um bem maior, certo? Certo.
Infelizmente estava bem errado, muito errado.
Suspirei ajeitando o cachecol no pescoço e o casaco no corpo, me apertei um pouco por causa do frio e andei direto pro carro, um Porsche 911. Sinceramente, o melhor presente que eu havia ganhado. Mas antes que eu pudesse chegar de fato perto do automóvel, ouvi um grito desesperado e que me assustou.
- ! Segura ela! – foi exatamente aquilo que eu ouvi, achando com todas as minhas certezas que eu seria sequestrada, torturada e morta!
Eu poderia ter corrido? Poderia.
Eu poderia ter me enfiado dentro do carro? Mas é claro!
Mas sabe o que foi que eu fiz?
No susto eu virei na direção do grito, vendo o mesmo garoto que estava na coordenação e mais ao lado, ao meu lado, uma garota tão assustada quanto eu e que parecia olhá-lo querendo matar só pelo escândalo que o rapaz tinha feito. Ele estava com os olhos arregalados e parecia querer me dizer alguma coisa, mas nada saía.
- Desculpa moça, ele é doido. – virei meu corpo de lado, vendo a garota de cabelos escuros completamente envergonhada pela cena do rapaz, que muito provavelmente era alguma coisa dela. – Você pirou, ? Onde já se viu gritar as pessoas desse jeito! – ela deu uma bronca nele.
- Ela deixou a carteira na bancada da coordenação, ! – ele gritou de forma esganiçada, enquanto balançava a minha carteira na mão. Eu era muito lerda!
- Ai meu Deus! Minha carteira! – se eu gritei? Foi realmente um grito de surpresa e desespero que fez o garoto arregalar os olhos. – Obrigada! Obrigada! – repeti o agradecimento umas duas vezes enquanto dava uns três passos até ele, na intenção de receber meus documentos.
- ! – ele me entregou a bolsinha de couro e me estendeu a mão depois. – E aquela é a minha namorada, . – ele apontou pra garota a no máximo um metro. Acenei sorridente pra ela, que acenou de volta e depois começou a rir, por certo dos gritos desesperados do namorado.
- ! – estendi a mão pra ele e apertei como cumprimento.
- Você tem que ter mais cuidado, moça do turismo. – ele me alertou e começou a rir, depois abraçou a namorada pelos ombros. – Imagina se em uma viagem você esquece as malas.
A única coisa que eu consegui fazer foi rir alto. Não reclamar e muito menos ser grossa com ele. Eu só conseguia rir.
- O que você foi fazer na coordenação do Turismo, ? – a garota, nomeada por , perguntou em um tom reprovador, olhando pro namorado de braços cruzados e arregalei um pouco os olhos. Não ia deixar o garoto se encrencar por nada, ele tinha salvado minha carteira.
- Eu fiz engenharia! – disse de uma vez, quase num grito. – A gente acabou conversando na coordenação e ele disse que ia trancar porque gostava de música e eu na verdade nunca teria feito engenharia, queria turismo. – tentei explicar e vi as expressões dela se suavizarem em um sorriso de entendimento. – Você é da música também? – perguntei rindo.
- Eu faço Administração. – a garota disse rindo e apertou um pouco mais o namorado no abraço. Ele beijou a cabeça dela.
- Muitos cálculos. – falei rindo e ela afirmou veemente. Sorri fechado. – Bom, vou indo. Foi ótimo ter conhecido vocês, , . Mais uma vez obrigada pela carteira. – balancei o objeto e os dois riram, o rapaz meneou a cabeça como se fizesse uma mínima reverência. – E boa sorte com a música, tenho certeza que ainda vou ouvir falar muito de você. – dei meus mais sinceros votos e o rapaz sorriu bonito, assim como .
- Obrigado! – respondeu animado.
Acenei para os dois, que também acenaram, abri a bolsa na intenção de pegar a chave do carro e ouvi outro grito, mas sinceramente aquele salvou o meu dia, talvez até a minha vida de uma forma que eu não poderia imaginar.
- ! – a voz de ressoou alta me fazendo olhar na direção dos dois e encontrá-los quase virados pra mim.
- Oi? – arregalei um pouco os olhos, ansiosa pelo motivo do grito.
- Os meninos têm uma banda. – ela soltou de uma vez. – Que inclusive, o ensaio é daqui à uma hora, se você quiser ir. Isso se você gostar de música. – a garota riu.
- Se eu gosto de música? – respondi eufórica demais pra uma pessoa normal. – Eu sou movida a música e sim, eu adoraria ir ao ensaio. – soltei uma risada meio idiota, os fazendo rir. – E podem me chamar de .
Honestamente? Eu parecia uma criança idiota que nunca tinha desfrutado do prazer de ter amigos na vida.
- Vamos ao ensaio, moça. – disse e os dois acenaram com as mãos me chamando.
- Eu estou de carro, . Depois a gente te deixa em casa. – sorriu com uma sinceridade fora do comum. Graças a Deus não percebendo que aquele Porsche era meu. – Pode me chamar de .
- Vamos e só precisam me deixar aqui, daqui eu vou pra casa. – sorri com meio trincado, enquanto acompanhava o casal e os dois afirmaram mesmo sem entender o porquê daquilo.

I was broken from a young age
Taken my sulking to the masses
Writing my poems for the few
That looked at me took to me
shook to me, feeling me


Eu nunca entendi bem o porquê daquele convite repentino se mal nos conhecíamos, só que eu agradecia infinitamente por ele ter sido feito. Talvez confiar em duas pessoas que eu tinha conhecido há pouco mais de trinta minutos não fosse recomendável para ninguém, mas quem disse que eu estava ligando? Como eu sabia o fato deles desconhecerem completamente a realidade de que eu era uma Williams? Os dois me trataram da forma mais normal que se trata alguém e aquilo era algo que eu não estava acostumada, mas em compensação era algo que me agradava muito. Eu também não era alvo de mídia, o que melhorava mais ainda a situação.
O caminho não foi longo e conversamos basicamente sobre música. Claro que eles queriam me conhecer, da mesma forma que eu também tinha anseio em conhecê-los, mas toda vez que as perguntas se direcionavam pra mim de uma forma pessoal demais, eu dava um jeito de desviar do assunto. Nisso eu descobri que o tinha uma banda com mais alguns amigos e que eles estavam tentando de verdade subir na carreira, eles produziam as próprias músicas e tinham uma experiência prévia na área, coisa que eu achei fascinante já que eles eram tão novinhos pelo que fiquei sabendo.
Chegamos a uma casa grande e clara, a típica casa da família canadense. Chaminé, várias janelas, uma garagem enorme ao lado e um jardim verdinho. Soltei um sorriso grande e cheio de saudade, minha mãe adorava aquela simplicidade, adorava tudo que a tirasse da bagunça que era ser uma Williams, às vezes até puxava meu pai daquela vida louca, mas depois que ela se foi, as coisas ficaram difíceis.
- ! Você não vem? – perguntou com a cabeça entre os bancos e acordei dos devaneios em que eu tinha afundado.
- Claro! – soltei com uma euforia que parecia mais susto e logo sai do carro, ajeitando o casaco no corpo.
- É Dolce? – ela perguntou puxando a aba e senti o sangue fugir do meu rosto. Merda de roupas de marca. Fiz uma cara confusa enquanto andávamos acompanhando pra dentro do que parecia ser a garagem.
- Não sei. – dei um sorriso de gases que não convencia nem a minha pessoa. – Foi presente de aniversário. – soltei uma risada nervosa e ela soltou uma anasalada.
- Sinceramente, eu queria ter parentes iguais aos seus. – riu, mas eu garanto que ela não queria chegar nem perto que fosse de ter um pai como o meu. – Porque olha, isso é um Dolce, certeza que é. – ri junto, mas tinha absoluta certeza de que ela não fazia a menor ideia do que estava verbalizando.
E fui salva pelo gongo quando o namorado dela abriu a porta da garagem, revelando uma quantidade considerável de pessoas, umas duas moças, onde uma delas parecia bastante com e mais quatro rapazes, que eu julguei serem os garotos da banda, além de alguns instrumentos montados e prontinhos para serem usados. Eles estavam animados e conversavam sem deixar ninguém de fora, aquilo era o máximo! Socorro, eu estava mesmo no lugar certo?
- Chegamos! – gritou atraindo as atenções ali, sim, ele realmente gritou e me fez pular minimamente de susto. Aquele garoto era doido. riu alto do meu susto e empurrei ela de lado.
- Seu namorado é doido. – soltei uma gargalhada e a única coisa que ela fez foi afirmar veemente, enquanto se pendurava no meu braço, gargalhando e sacudindo os ombros.
- Finalmente sou um homem livre! – ele gritou de braços abertos para todos que estavam ali e os gritos foram generalizados. Eu estava em um hospício e estava adorando aquilo.
- Finalmente? – um garoto dos cabelos pra cima perguntou arregalando os olhos e ele afirmou freneticamente, sendo abraçado com força. me puxou logo pra dentro da garagem antes que congelássemos do lado de fora e eu só conseguia rir e achar bonitinha a animação deles com a decisão do amigo.
- Fecha o portão, tapado! A gente vai congelar aqui. – outro garoto gritou e fez uma careta antes de voltar e fechar a porta da geladeira.
- Amiga nova, ? – virei o rosto de uma vez quando vi que um deles se referia a mim, não sei se era o frio ou qualquer outra coisa, mas ele tinha bochechas avermelhadas e os olhos castanhos mais marcantes que eu já tinha visto em toda minha vida.
- achou perdida na coordenação da engenharia. – riu e ri junto, depois passei a mão no cabelo.
- Prazer, . – estiquei a mão para cumprimentá-lo e o garoto de olhos encantadores me lançou um sorriso, depois segurou minha mão e beijou o dorso.
- Prazer, . – ele piscou e juro que senti meu rosto esquentar. Eu estava mesmo sendo flertada descaradamente?
- Você é um panaca! – riu alto e empurrou ele de lado, fazendo o garoto rir junto.
- Seja bem-vinda, . Espero que goste do som que a gente faz. – (era isso? Era!) disse rindo de forma mais espontânea, sacudindo a minha mão e vi que o tal flerte não passava de uma brincadeira, aquilo me aliviou de uma forma que vocês nem imaginam.
- Pelo que a e o disseram, eu vou gostar sim. – falei animada e ele levantou a mão pra high five, um gesto que eu completei prontamente.
- Pessoal! – ele gritou me puxando para o meio da galera. Oi? Arregalei os olhos. Quê? – Tem gente nova no pedaço, essa é a ! – o garoto apontou pra mim e acenei de forma exagerada, vendo o resto do pessoal fazer o mesmo e sorrir, depois se apresentarem falando os nomes. – Tratem de não fazer feio! Só assim ela vira nossa fã #2.
- Ei! Por que não #1? – soltei um grito esganiçado que resultou em algumas risadas.
- Porque a #1 já sou eu. – apontou pro peito com o maior porte convencido da vida.
- Tudo bem! Me contento com o segundo lugar. – levantei as mãos em rendição e soltei uma risada.
O resto da tarde que se seguiu foi uma das mais divertidas que eu não vivia em anos, os garotos eram incrivelmente bons, de verdade! Eu havia ficado impressionada com tanto talento que eles tinham. Além de serem extremamente engraçados, o grupo inteiro tinha uma energia incrível que me contagiava de uma forma surreal, aqueles tipos de pessoas nas quais você fazia gosto em ficar perto, porque te fazia sentir o melhor da vida. Sem falar que os pais da e do , pois é, eles eram irmãos, eram simplesmente um sonho de família, eles tratavam toda aquela renca de adolescentes como se fossem seus próprios filhos, de repente eu já me sentia do grupo e os conhecia há poucas horas.
Eu não era lá muito fã de acreditar no acaso, mas talvez eu tivesse a sorte de estar no lugar certo e na hora certa.

03 de Março. 08h17min. – Dois meses antes.

Peguei minha bolsa na cama logo depois de responder uma mensagem dos meninos e de , uma das minhas únicas amigas verdadeiras, e saí rindo do quarto. Eles tinham marcado mais um ensaio para aquele dia e como sempre vinha acontecendo desde que eu havia sido convidada para invadir um ensaio há mais de dois meses, o pessoal me queria por perto e eu cultivava a amizade e companhia das pessoas mais incríveis que eu tinha conhecido na vida.

I was choking in the crowd
Building my rain up in the cloud
Falling like ashes to the ground
Hoping my feelings, they would drown
But they never did, ever lived


Cheguei à cozinha com o meu esquema do dia todo planejado, encontrando meu pai sentado à mesa tomando café. Coisa que eu estranhei, ele nunca tomava café na cozinha.
- Cozinha? – perguntei confusa soltando uma risada e beijei a cabeça dele antes de sentar junto.
- Bom dia. – a saudação veio primeiro e logo depois um sorriso fechado. – Cancelei uns compromissos hoje, queria sua ajuda pra escolher um terno. – meu pai resumiu toda uma conversa que poderia ser cheia de rodeios e risadas em uma única e direta frase.
- Agora de manhã? – tomei um gole do café. – À tarde eu tenho compromisso. E o Johnny?
- Queria resolver umas coisas com vocês dois durante todo o dia. – ele disse como se minha frase de efeito sobre ter compromisso à tarde não interessasse. – E marcamos algo pra você e o Talles hoje à noite.
Juro que quase engoli a xícara com colher, pires e tudo. Ele estava mesmo passando por cima de mim mais uma vez. E droga, eu tinha esquecido completamente do Talles. Suspirei.
- Eu realmente tenho compromisso hoje, ia sair com a . – ele rolou os olhos como se aquilo não me afetasse. – Não posso remarcar com o Talles para outro dia? – perguntei sabendo que não teria negociação, eu nunca tinha direito de nada.
- Compromisso, ? – ele perguntou de forma dura. – Desde quando você faz qualquer coisa por conta própria e que eu não saiba?– meu pai perguntou com uma arrogância fora do comum e a minha vontade era de responder que desde quando eu tinha vida, mas preferi não gerar qualquer atrito. – Exatamente. Você não faz. – ele tomou meu silêncio como resposta e proferiu, mais uma vez, uma de suas arrogâncias.
- Quando você vai me levar pra começar a ver as coisas na petrolífera? – suspirei.
- Você não vai. – o Mr. Williams foi curto e grosso fazendo meu estomago revirar. Não, eu não podia ter outro ataque de vômitos por estresse, não podia.
- Oi? – meu grito foi esganiçado e arregalei os olhos. – Como eu não vou, pai?
- Não vai. – ele nem olhou para a minha cara de indignação. – Você é uma mulher, mulher é pra viver sempre impecável, bonita, educada e obediente.
- Você quer uma boneca e eu não sou uma boneca! – levantei da mesa de uma vez sem qualquer classe ou educação, fazendo tudo estremecer e ele me olhar assustado, ou talvez fingindo estar assustado.
- Esteja pronta em 20 minutos, . – ele apenas me olhou com a maior cara de tédio que alguém poderia esboçar e quase senti minha cabeça estourar de tanta raiva pelo descaso dele.
No impulso da raiva de não poder fazer o mínimo que me agradasse, de não poder ter um pai que ao menos se preocupasse comigo, bati na mesa indignada com aquela merda de discurso misógino e saí da cozinha pisando duro, bufando de ódio e vendo apenas um palmo a minha frente. Minhas mãos tremiam de uma forma que eu nunca tinha visto antes e meu coração estava prestes a explodir de tanto bater dentro do peito. Arregalei os olhos ao chegar no meio da sala e coloquei a mão no peito. Foquei a vista em minhas mãos que estavam esticadas, arregalando ainda mais os olhos sem acreditar no que eu tinha acabado de fazer.

-x-x-x-

Infelizmente eu não havia conseguido escapar da “obrigação” de ser uma mulher bonita, educada e obediente, então eu estava na loja de ternos querendo me enforcar com uma gravata preta, acompanhando meu pai e o Johnny, que pareciam não dar a mínima para minha recusa evidente na cara em estar ali, mas a vontade mesmo era de estar em outro lugar, com outras pessoas e bem longe de ternos de alfaiataria. iria me matar por atrasar, por isso acabei saindo de perto deles pra mandar uma mensagem pra ela e evitar de ser presa por homicídio.
Me distanciei até não ouvir mais a voz do Johnny. Sinceramente? Eu não entendia como alguém mudava tanto de um dia para o outro. Ele havia se tornado exatamente um reflexo do meu pai e eu nunca reclamaria em ter que passar meu posto de filha dos Williams pra ele, preferia mil vezes ser filha da Clara.

: Estou presa em um mundo alternativo onde as mulheres são bonecas. ME SALVA!🙄

:
Bela, recatada e do lar. Pelo amor de Deus, dá um perdido nesse tirano! 🙄

Ri com a minha amiga doida e comecei a mexer em algumas araras, percebendo com a visão periférica uma movimentação mais à frente. Eu já disse que era curiosa? Não? Pois é, eu era bem curiosa, então levantei a vista de uma vez e me deparei com uma cena que me deu vontade de gritar rindo. dentro de uma loja de alfaiataria? Quê? Vinquei a sobrancelha de longe e quase me engoli quando ele olhou na direção que eu estava, arregalei os olhos e baixei de uma vez como se estivesse sendo sugada pelo chão, talvez ele não tivesse me visto. Levantei a cabeça bem pouco, apenas pra que meus olhos e testa pudessem aparecer, não vendo mais ninguém e suspirei aliviada por um milésimo de segundo, porque o susto que eu tomei em seguida não foi de Deus.
- Por que estamos nos escondendo atrás de uma arara? – a voz de saiu bem baixa perto do meu ouvido e senti meu coração quase sair pela boca quando virei de uma vez olhando pra ele.
- Você perdeu o juízo? – ralhei indignada, o fazendo rir alto, depois tapar a boca por estar dentro de uma loja de roupas, mas continuar rindo. – Assim você me mata, idiota! – dei um tapa em seu braço, começando a rir horrores com o que tinha acabado de acontecer e ele suspirou controlando a crise de riso, depois beijou minha bochecha de surpresa.
- Vim trocar um terno pra minha mãe. – o garoto riu enquanto eu sentia meu coração voltar a bater normalmente. – E você, moça, o que faz em uma loja de ternos? – ele abriu um sorriso e senti o sangue fugir do meu rosto. O que eu ia dizer?
- Ajudar um amigo. – disse de uma vez e ele fez careta, prendi a respiração esperando que ele não quisesse saber de mais nada e muito menos que meu pai aparecesse.
- Hm. – mordeu a boca. – Amigo? – o garoto deu um sorriso fechado e completamente desgostoso. Aquilo era o que eu achava que era? Ai meu Deus, ele estava com ciúme!
- É, um amigo. Ele trabalha com umas coisas de escritório e pediu ajuda. – sorri fechado, colocando as mãos pra trás e afirmou mais uma vez.
- ? – ouvi a voz de Jhonny me chamar e não sabia se agradecia ou o mandava a merda. – Onde você está? Nós já vamos. – ele apareceu ao longe e tenho certeza que propositalmente mediu dos pés à cabeça, me deixando banhada em vergonha.
Juro que seria presa por cometer um homicídio dali para mais tarde. Olhei pro meu amigo que o encarava com a maior cara de “Qual o problema, tapado?” e naquele momento a minha vontade era de dar um beijo bem dado naquele garoto pela “enfrentada”.
- Já vou indo. – beijei a bochecha de de surpresa como uma despedida e ele riu me abraçando apertado.
- Te vejo depois? – o garoto perguntou com um sorriso maroto e minha vontade era de rir.
- Quem sabe? – dei de ombros, arqueando a sobrancelha e ele bateu continência. Ri e saí empurrando Jhonny pra longe do , antes que ele acabasse com o clima leve.

02 de Junho. 17h33min. – Horas antes.

Àquela altura do campeonato eu já estava expert em sair de casa sem ser vista e chegar do mesmo jeito que saí. Ainda mantinha meu segredo a sete chaves, mas queria mostrar ao mundo como minha vida nova ao lado dos meus amigos era incrível. Sem falar que eu havia dado o cano no Talles duas vezes nos últimos meses e ele sequer reclamou daquilo, na verdade o garoto parecia achar bem cômodo.
- Eu não sei o que vestir! – soltei um grito meio desesperado e se jogou pra trás em minha cama, saturada com minha indecisão.
- Você tem inúmeros biquínis e maiôs, Williams. – minha amiga xingou e fiz careta pelo sobrenome, suspirando em seguida e pegando um maiô colorido da pilha no pé da cama. – Veste qualquer coisa!
Por um milagre divino, Talles tinha tapeado mais uma vez meu pai e seus encontros idiotas, então o velho Joseph tinha parado de pegar em meu pé, fazendo com que eu e praticamente corrêssemos pra dar tempo de encontrar o pessoal na praia naquele fim de noite.
- Já volto! – me enfiei dentro do banheiro e me despi pra vestir o meu maiô preferido.
- Eles são lindinhos? – minha amiga perguntou de uma vez e soltei uma gargalhada.
- Todos lindos, simpáticos, engraçados e uns amores de meninos, mas o de olhos azuis tem namorada. – respondi acomodando minha roupa de banho em meus peitos mais que pequenos. Meu pai deveria me pagar um implante de silicone, era uma das únicas coisas que eu não ia reclamar.
- Não chego nem perto do moço. – ela disse rindo e ri junto enquanto amarrava o maiô no pescoço.
- Tchará! – pulei pra fora do quarto em uma pose bem idiota, fazendo minha amiga rir alto.
Vesti um short jeans, peguei a bolsa com algumas coisas como toalha, protetor solar, óculos escuros, carteira e afins e saímos nos empurrando porta afora. Passamos por Clara no corredor e enchemos a senhora mais simpática do mundo de beijos, a fazendo rir, depois corremos pro carro de onde as coisas dela já estavam, e por mais que a família dela tivesse tanta grana quanto a minha, tinha um fusquinha muito simpático. Edição de colecionador que eu adorava e ameaçava roubar sempre que possível.
- Temos hora pra voltar? – ela perguntou ajeitando os óculos no rosto, depois ligou o carro. – Ou melhor, você tem?
- Tenho, mas pouco me importa! – me larguei no banco e ouvi a gargalhada dela. – Já basta a raiva que ele vem me fazendo passar há uns meses, vou apenas devolver. – falei rindo quando o carro já ia na direção do portão do condomínio.
E por mais que aquilo fosse um tipo de brincadeira interna, porque quase nunca eu conseguia sair dos trilhos, daquela vez eu estava bem disposta a mostrá-lo do que eu era capaz. Eu sei, chegar tarde em casa era uma idiotice, mas grandes caminhos começavam com pequenos passos.

That looked at me took to me
shook to me, feeling me

Chegamos à praia quando todos já estavam. Os meninos e sentados em uma rodinha na areia, toalhas estendidas, uma pequena fogueira que iria ser acesa mais tarde, os violões e qualquer coisa que fizesse barulho serviam como instrumentos para as cantorias, sem falar em duas pranchas de surf enfiadas na areia. Que pelos meus conhecimentos prévios, era quem surfava divinamente bem, nunca tinha visto, mas tinha vontade de ver, quem sabe até aprender!
- OI! – soltei um grito feito uma gralha, chamando todas as atenções pra mim.
- ! – o cumprimento foi em coro e abri os braços fazendo a pose mais idiota que eu conseguia.
Eles riram, me fazendo rir junto, e logo tratei de correr e abraçar cada um naquela rodinha em volta dos gravetos, para logo depois apresentar .
- Meninos, . Essa é uma grande amiga minha, a ! – apontei pra ela com um sorriso divertido e a garota foi recebida da mesma forma calorosa que eu fui.
- Oi, pessoal! – ela acenou para todo mundo com o maior sorriso do mundo e chamou atenção de dois certos rapazes. Eu sabia!
- Finalmente mais outra garota! – comemorou rindo e ri junto. – Vem, senta com a gente. – ela chamou com um aceno e sentamos ao redor dos gravetos.
- Quer alguma coisa pra beber? – perguntou sendo simpático e empurrou com uma das mãos o cooler na nossa direção.
- Claro! – ela respondeu animada e se esticou pra pegar ao mesmo tempo que eu.
- A menina primeiro, você já é de casa, . – reclamou rindo e mandei a língua pra ele.
- Então vocês têm uma banda? – minha amiga começou a tagarelar com todo mundo, perguntando sobre tudo que tinha direito e sendo respondida prontamente. Eu estava bem concentrada na conversa, até me cutucar na costela.
- Que foi? – olhei pra ele, falando baixo na intenção de não interromper a outra conversa.
- Você não confirmou que vinha. – ele deu um sorriso fechado, mas que era lindo. Na verdade, se tinha alguma coisa que me chamava atenção em , era o sorriso.
- Eu disse que talvez. Sai! – respondi de nariz empinado e ele riu alto, depois me beijou na bochecha de surpresa.
- Justo! – o garoto fechou a mão pra um soquinho que eu completei.
- Mas a boa é... – alteou a voz, nos fazendo olhar pra ele e voltar a prestar atenção na conversa. – O Chuck conseguiu um trampo pra gente. – ele apontou pro amigo que deu de ombros como se não fosse nada, mas era evidente o brilho nos olhos do garoto. Arregalei levemente os meus, eufórica. – Próxima semana vamos tocar como a maravilhosa banda que somos em um Pub, mas é a um estado daqui. – soltou uma risada e foi apertado de lado por . – Então viajamos no meio da próxima semana! – o rapaz abriu o maior sorriso que conseguia e soltamos um grito, eu e , na dúvida apertei quem estava mais perto de mim, ou seja, .
- Vocês vão com a gente? Precisamos de todo o apoio possível. – a pergunta do David saiu em meio à euforia do momento e falei o que não devia.
- Óbvio! – saiu sem nem eu pensar e arregalou os olhos.
- Assim que se fala! – ela soltou um grito mais que animado e riu alto. – Você vai? – direcionou a pergunta à .
- CLARO! Se eu não for, quem vai cuidar dessa doida? – ela bateu em minha cabeça e fiz a maior cara indignada, vendo os meninos rirem alto, depois darem high five com ela, concordando com tudo que dizia.
Ficamos mais um tempo planejando a tal viagem, como iríamos, o albergue que os meninos tinham conseguido achar, os lugares legais da cidade e tudo que se tinha direito em uma viagem de amigos. Sem deixar de fora a possibilidade de acampar nos carros porque o albergue poderia dar errado. Era mau eu estar rezando pra que desse errado? Era ridículo eu dizer que aqueles planos estavam me fazendo comer os dedos de tanta ansiedade. Seria aquele meu sonho? Viajar com um bando de jovens adultos tão doidos e idiotas como eu, carregando apenas uma mochila, alguns trocados e os instrumentos. Sim, aquilo tudo fazia parte dos meus sonhos.
- Que surto foi esse? – me perguntou baixo, enquanto a gente se ajeitava pra entrar no mar com o pessoal e olhei esquisito pra ela. – Você dizer que vai, . Sem nem ao menos titubear. Vai fugir de casa? – ela me perguntou meio esganiçada e suspirei enfiando as mãos nos cabelos. Eu tinha esquecido totalmente do ditador que era meu pai.
- Eu não sei? – respondi baixo, mas bem apavorada. – Eu não sei, ! Mas eu vou, não importa como, nós vamos! – suspirei tirando de vez o short e jogando em cima da toalha.
- Seu pai vai enfartar.
- Duvido muito. – soltei uma risada.
- Vocês não vão? – passou correndo e gritando, enquanto nos chamava.
Soltei uma risada e ergui os punhos, depois me atirei na areia dando três estrelinhas seguidas como se fosse uma ginasta em final de competição mundial e quando finalmente parei em pé com os braços pra cima na beira da praia, ouvi gritos, assovios e também algumas risadas, agradeci fazendo jus ao que eu tinha encenado e logo corremos pra água com os meninos me chamando de tapada.
Quando nos demos conta, já era mais de 22h00min e ainda estávamos molhados e cheios de areia. reclamava que a coisa grudava e era nojenta, enquanto ríamos dos escândalos dele, jogando ainda mais areia no garoto. Eu nunca disse que prestávamos.
- Droga! Cadê a ? – perguntei em meio a uma risada, enquanto recolhia minhas coisas na areia da praia e os meninos se ocupavam em tentar apagar a fogueira.
- O irmão dela ligou, acho. – riu baixo, dando de ombros, também juntando as bolsas. – Ela disse que precisava ir ou ele ia por fogo na casa.
Soltei uma risada alta e minha amiga riu junto, embora a minha estivesse realmente construída em desespero. Só imaginar de pegar carona com algum deles, meu estômago revirava. Eu não queria mostrar de onde eu vinha e tão pouco revelar ao meu pai a amizade que eu tinha cativado, principalmente sabendo que ele faria de tudo pra destruir.
- Mas o te dá uma carona. – ela sorriu meiga e soltei um sorriso que mais parecia de dor. – Não é, ?
- Sim! – o garoto gritou e aposto que ele não tinha escutado nada do que a irmã tinha dito. – O que mesmo? – não disse? Nós duas rimos alto.
- Me dar uma carona ou eu vou ter que ir a pé pro fim do mundo! – falei já percebendo tudo ficar mais escuro devido à fogueira ter sido apagada e os meninos riram.
- Vou finalmente conhecer a Batcaverna? – riu enquanto jogava a camisa sob o ombro e dei de ombros.
- Isso se eu não virar a Batgirl daqui pra lá. – rebati seu deboche com minha casa, mas quase devolvendo para a mãe natureza todo o álcool que eu havia bebido ali. Aquele era um dos tais dias que eu rezava para meu pai não estar em casa.
- Vamos, o carro tá ali em cima! – ele apontou pra onde os meninos e anteriormente a minha amiga fujona tinham estacionado os carros, por fim apressei meu passo só esperando a confusão grande que ia dar e tendo quase certeza que aquele tinha sido meu último dia de paz e alegria.
Se estivesse na minha frente, eu a matava com um só golpe, e por mais que mentira tivesse pernas curtas, a minha já tinha corrido bastante. Mas era classificado como mentira algo que você omitia? Acho que estava mais pra um segredo.
Não faço a mínima ideia de como, mas conseguir guiar apenas com “Vire a direita”, “Vira a esquerda”, “Pronto, aí pode ir reto”. Porque mais curioso do que aquela criatura eu estava pra ver no mundo, toda vez que eu soltava um comando, ele me olhava com uma careta que praticamente dizia que era mais fácil falar o endereço. Mas sabe o que era mais engraçado naquilo? era uma das pessoas que eu mais me identificava ali, o nosso santo tinha sim batido e não, não era qualquer sentimento amoroso. Eu o via como um grande amigo que provavelmente me acompanharia pro resto da vida.
Suspirei vendo que tínhamos entrado no bairro e me afundei no banco como se quisesse sumir, enquanto o garoto me olhava confuso como se me perguntasse se aquele era o endereço certo. Eu estava um tanto apavorada, mas respirei fundo e esperei a pergunta.
- , tá certo? – ele olhou pra mim tão receoso quanto eu estava e fiz uma careta desgostosa. Cocei a nuca e suspirei.
- Infelizmente sim. – fechei meus olhos com força. – A última casa. – fui breve, sentindo o estômago embrulhar e ouvi o suspiro alto do garoto. Certeza que aquilo era a mais pura decepção. – ! – chamei de uma vez e na mesma velocidade ele freou o carro, talvez no susto, mas meu desespero era maior do que a reclamação pelo solavanco que a minha cabeça tinha dado.
- O quê? – ele estava com os olhos arregalados e o corpo estacado, me olhando como se eu fosse uma assombração.
- Desculpa! – pedi apavorada, sacudindo as mãos e o rapaz arregalou os olhos, parecendo bem mais apavorado que eu. – Desculpa não ter contado! Por favor, me desculpa! Eu não queria perder vocês e eu sabia que se abrisse a minha boca, a coisa ia ser completamente diferente. Embora a situação não esteja muito favorável pro meu lado, mas eu preciso da companhia de vocês na minha vida!
- Hey! , calma. – arregalou levemente os olhos, segurando minhas mãos com força. – Tudo bem, ok? Você precisa ter calma, nós não vamos te deixar na mão, não vamos fugir, mas eu preciso entender o que está acontecendo. – ele continuava de olhos arregalados, mas era como se tentasse me prender ali.
- E se eu contasse, iria acontecer o bloqueio de sempre, todo mundo ia me olhar com nojo, como sempre, por causa do sobrenome do meu pai. Então nada disso ia ter acontecido! – eu estava em completo desespero e era vergonhoso, mas eu não podia desistir sem lutar.
- ! – me chamou atenção. – Calma! Não tem motivo pra você surtar, nós não vamos correr de você. Nós somos amigos e não é o fato de você... – ele olhou um pouco apavorado à nossa volta. – Enfim, nada vai mudar, beleza?
- Tem certeza? – arregalei levemente os olhos e ele confirmou com um aceno que me passava toda a sinceridade do mundo.
- Absoluta! Não interessa se você tem grana ou não, o que importa é o que você é. Só isso, . O pessoal vai entender, relaxa. – o garoto deu um meio sorriso e piscou, me fazendo rir bem aliviada, mesmo que não tivesse tanta certeza assim de que seria daquele jeito.
- Minha vida vem sendo um inferno nos últimos meses. – suspirei colocando as mãos entre os cabelos e fez uma careta, à medida que voltava a pôr o carro em movimento. – Meu pai é um machista ignorante e você não tem ideia do quanto é péssimo fingir ser a criatura perfeita que faz tudo que ele quer. – bufei rolando os olhos e meu amigo soltou uma gargalhada bem incrédula.
- Você? – o garoto ainda ria alto e distribuí alguns tapas nele, mas já começava a rir da cena. – Perfeita? Ah mulher, conta outra! – ele debochou na intenção de acabar com a tensão e estava conseguindo.
- Idiota! – xinguei rindo e suspirei encostando no banco ao ver minha casa no fim da rua. – Eu só queria uma vida normal igual à de vocês, ou da , tanto faz. – esfreguei o rosto e senti a mão dele dar tapinhas em meu joelho na intenção de me confortar.
- Se depender de nós, você vai ter, moça. Relaxa, com a gente você pode ser o que quiser, até uma doida de pedra. – ele piscou e abri o maior sorriso que eu conseguia, rindo em seguida com o “doida de pedra”. – De nada! – olhei confusa pra ele e quando finalmente entendi rimos alto.
- Panaca! – sacudi a cabeça negativamente.
Mas, à medida que chegávamos em frente a mansão dos Williams, eu sentia o ar faltar. Juro que estava complicado de respirar e só piorou meu estado quando vi a bendita criatura na frente de casa com os braços cruzados e a cara de raiva maior da vida. Merda, tinha ferrado!
- Tchau, obrigada pela carona. – mal deixei encostar o carro em frente à casa e me estiquei beijando sua bochecha.
- Tchau. – ele respondeu completamente confuso, mas mesmo assim me deu um meio abraço.
Me soltei rapidamente e abri a porta do carro na mesma velocidade, suspirei já esperando as perguntas, ou reclamações, qualquer coisa que denunciasse recusa, mas em troca ganhei um grito grotesco que chegou a me arrepiar de susto.
- É ESSA A HORA QUE VOCÊ CHEGA EM CASA? – a voz do meu pai estava mais assustadora que o normal e por mais que ele estivesse preocupado, não precisava daquilo. – Quero você dentro de casa agora, ! – ele continuou a gritar de forma descontrolada, me fazendo perceber que a coisa ia ficar bem feia pro meu lado.
Virei minha atenção pra e o vi pálido, de olhos arregalados e parecia sentir qualquer dor, sem falar no pavor e desespero ao presenciar aquela bela cena do Joseph bêbado. Sim, bêbado, ele não podia estar, no mínimo, normal pra fazer aquela merda em frente a casa.
- , vai embora. – pedi quase chorando pela minha careta. – Desculpa, mas só vai! – bati a porta do carro.
- Não, ! – ele se apavorou pra soltar o cinto de segurança, o que piorou meu estado.
- Por favor! – quase supliquei a ele, vendo o garoto ficar ainda mais desesperado só pelas expressões. – Vai embora, eu resolvo. Prometo que não vai acontecer nada!
- Tá achando que é quem pra chegar em casa à essa hora da noite? – meu pai vociferou mais uma vez e senti meu estômago embrulhar.
- Ele não pode fazer isso! – ainda tentava, sem sucesso, soltar o cinto de segurança e eu queria sumir ou dar um sumiço nele.
- ! Pelo amor de Jesus, vai embora! – soltei um grito grosso e sério, fazendo o garoto arregalar ainda mais os olhos. – Eu não quero te arranjar confusão! Eu te ligo assim que der!
- Me liga, por favor! Me liga se precisar de mim, beleza? Eu venho na hora! – ele disse assustado.
- Eu ligo, ! – dei convicção e bati de leve na porta do carro como se o mandasse ir logo, dando graças por ele finalmente ter me ouvido e saído o mais rápido que podia dali.
E foi aí que eu só ouvi gritos!
Entrei em casa ainda ouvindo meu pai esbravejar de forma ensurdecedora, mesmo que eu tentasse ao máximo não dar ouvidos àquilo, o que eu posso garantir, era bem complicado, principalmente considerando o meu estado. Farta de tantas reclamações em meus ouvidos sobre como eu deveria ser, me portar e qualquer coisa que agradasse ou desagradasse aquele ser ignorante.
Suspirei tentando ao máximo não estourar com todas aquelas acusações absurdas sobre o que eu havia feito, que era nada demais e me preparei para subir as escadas, na intenção de ir pra bem longe de tudo aquilo, mas foi inevitável meu grito ao ouvir o que ele tinha dito.

Pain!
You made me a
you made me a believer, believer
Pain!
You break me down
you build me up, believer, believer

- Não me dê as costas, ! Você acha que é alguma coisa demais nessa vida, só por que chegou tarde em casa? – a voz dele saiu com uma ironia maior do que já tinha usado em toda essa vida e eu não sei se pela vergonha que eu já tinha passado por causa dele, ou simplesmente pelo fato de eu saber o que eu queria. Meu sangue tinha subido a cabeça.
- Eu sou o que eu quiser! Querendo você ou não! – gritei batendo a mão fechada no peito e sentindo toda a dor que a situação me causava. – O quê? Achava que eu ia viver debaixo dos seus pés pelo resto da minha vida? – soltei uma risada toda construída em incredulidade e ironia. – Que eu ia acatar o que o poderoso Joseph Williams quisesse? – sacudi a cabeça, rindo com um deboche que não me pertencia. – Pois eu tenho uma péssima notícia pra você, papai: Eu mando na minha vida! – mirei meu dedo pra ele, pouco me importando se estava faltando com respeito ou não. Porque pra ser bem sincera, ele não me respeitava fazia um bom tempo.
- Você? – o homem que eu tinha a infelicidade de chamar de pai soltou uma risada de deboche. – Você não manda em merda nenhuma, garota imprestável! Quando vai enfiar nessa sua cabeça pequena que mulher só tem valor casada e obediente? Eu mando na sua vida medíocre e nada vai ser como você quer! – aquele belo filho da puta, minha avó que me perdoe, jogou um copo de vidro com whisky no chão. Ele tinha espatifado assim como minha paciência.
Ótimo, nós dois tínhamos bebido!
O momento mais ilustre da minha vida estava sendo naquele bendito dia, algo que eu nunca tinha sentido antes em toda a minha vida, eu senti ali. O ódio encheu meu peito e assim como o Joseph tinha feito, eu joguei minhas coisas no chão.
- Você não manda na minha vida, nem nunca vai mandar! Não a partir de hoje! – gritei na cara dele, não me importando muito se seria agredida ou não, àquela altura do campeonato o que menos me importava era o que ele queria ou fazia. Eu só queria esfregar naquela cara de pau o que eu tinha me tornado, não graças a ele. – Se a minha droga de vida é medíocre, você é o que então? Um cretino baixo que tem medo de ser derrubado por uma mulher? Porque todo esse seu ataque comigo e como eu devo ser, se resume a medo porque você sabe que não é metade da pessoa que eu sou e ainda vou me tornar. Você sabe que eu posso derrubar essa sua imagem de homem incrível, basta eu querer.
Ele riu da minha cara e eu queria matar!
- Nossa! A mocinha acha que é dona do mundo porque chegou acompanhada de um merdinha em casa? – o deboche na voz dele me fazia querer chorar de tanto ódio.
- Respeite meus amigos! – inflei o peito, gritando enfurecida e ele riu da minha cara mais uma vez, me fazendo de uma vez entender o motivo de a minha mãe tinha morrido tão cedo. Desgosto! Desgosto daquele lixo de pessoa arruinando a vida dela. – Não é porque você não conhece esse presente que é a amizade, que eu vou deixar você xingar meus amigos!
- Amigos? Os seus amigos só querem o meu dinheiro, . Quando você vai deixar de ser tão tola ao ponto de acreditar que as pessoas realmente se importam com você?
Foi a minha vez de soltar uma risada incrédula e de deboche.
- E quando você vai entender que nada do que sai da sua boca me atinge? – olhei pra ele tentando não esboçar qualquer expressão, agradecendo a Deus que todas aquelas aulas inúteis de teatro tinham finalmente servido pra alguma coisa. Ah sim, dizer que nada me afetava era uma mentira das grandes, eu estava ao ponto de me desmanchar em lágrimas no meio daquela sala. – Nada! – reforcei segurando a dor e peguei minhas coisas no chão, já não escutando mais o que ele tanto praguejava.
- Minha casa, minhas regras! – foi a última coisa que o ouvi gritar antes de bater a porta do meu quarto e escorregar por ela, me derretendo em choro.

Pain!
I let the bullets fly, oh let them rain
My life, my love, my drive, they came from
Pain!
You made me a
you made me a believer, believer

Como podia meu próprio pai ser tão cruel àquele ponto? Cobri meu rosto com as mãos, ainda sentada no chão do quarto, sentindo as lágrimas ensoparem meu rosto, ouvindo a maldita frase “Minha casa, minhas regras!” ecoar alto na minha cabeça e me fazendo ter a certeza de que eu precisava ir embora dali o mais rápido possível.
Respirei fundo, fungando e passando a mão com força nas bochechas. Levantei rápido daquele chão duro e procurei o primeiro papel que estivesse perdido pela mesa, apanhei uma caneta preta no copinho que guardava várias delas, depois comecei despejar toda a minha indignação no papel. Me disseram uma vez que eu era boa com palavras, pois bem, aquela era a hora que eu ia mostrar que sim.

Querido papai,
eu tenho muita coisa pra dizer a você, mas decidi separar por partes e assim fica mais fácil de não esquecer nada. Porque se tem uma coisa que eu vou fazer, é expor tudo que você me fez sentir nesse tempo todo.
Em primeiro lugar...
Eu não vou guardar mais uma vez tudo que você me disse, eu não vou reter todo esse seu ódio para com as pessoas que não fazem exatamente o que você quer. Por que esse ódio todo comigo? Logo comigo, que fui tão idiota e ingênua ao ponto de acreditar um dia que você se importava com a sua filha?
Eu estou cansada, cansada de fingir ser quem eu nunca fui, estou cansada de tentar mostrar a você que eu posso ser alguém importante! Eu não sou a mamãe e infelizmente eu nunca vou ser, afinal, ela não se irritaria com uma coisa dessas, mas eu já explodi com essa história toda. Eu simplesmente não aguento mais viver desse jeito, não aguento continuar levando essa vida!
Eu estou cansada disso tudo!!!!
Em segundo lugar...
Você não me conhece!
Então não se atreva a achar que sabe o que eu poderia ser ou me tornar. Eu sou sim uma pessoa forte, eu vou me tornar uma mulher de dar orgulho a qualquer pessoa e poder esfregar na sua cara do que eu sou capaz e sempre fui.
Agora você? Eu te conheço e sei que não vai muito longe com isso, com ninguém que te apoie ou te ame por perto, porque sinceramente? Eu cansei de tentar te ajudar em qualquer coisa.
De hoje em diante eu tenho o controle da minha vida, estou à frente das velas que irão me guiar. Não importa se eu afunde, uma, duas, três ou mais vezes! Eu acredito que posso me tornar o que eu sempre quis e é isso que me impulsiona a ser uma pessoa melhor do que o que você pensou em um dia ser.
Em terceiro lugar...
Eu só peço a algum ser superior que tome conta de nós, eu sei que você não acredita em qualquer coisa espiritual, mas eu só peço que ele faça com que esse seu ódio se dissipe, que você vire uma pessoa melhor. Se é que é possível. Eu espero que você evolua como pessoa e talvez assim você um dia entenda a minha decisão.
E por último.
Eu nunca achei que fosse te dizer isso em toda a minha vida, mas obrigada por tudo que você me fez passar, por tudo que eu sofri, por toda a dor, o desprezo, a falta de amor e carinho. Realmente obrigada, foi assim que eu vi o quanto eu sou forte e o quanto eu posso tomar as minhas próprias decisões.
Não sei se elas são certas ou se eu estou fazendo uma besteira na minha vida. Mas essa impulsividade é o que me mantém viva e, talvez, algum dia eu perceba que isso foi a maior burrada que eu fiz, mas no momento é o que me parece mais certo a ser feito.
Espero que ainda possamos entender as decisões tomadas e que levaram a isso.

Atenciosamente,
Hannah Penélope . Williams.


Ps: Caso você não saiba, ou na verdade não tenha se ligado ainda, o Talles é gay, tem um namorado e estou o livrando da prisão de um casamento arranjado.

Quando finalmente terminei de escrever tudo que eu sentia, deixei o papel bem aberto em cima da minha escrivaninha, coloquei todas as jóias que ele havia me presenteado um dia, para que eu estivesse bonita para qualquer coisa, junto do papel e respirei fundo, aliviada por ter colocado tudo pra fora.
Procurei a maior mochila que eu tinha e saí juntando todas as roupas que eu mais usava, assim como calçado, alguns casacos e por fim umas blusas que eu sabia que a iria adorar ganhar. Depois de encher a mochila, percebendo que eu não tinha esvaziado nem metade do meu armário, juntei em outra bolsa todos os meus documentos, o básico pra se ter um aparelho de telefone e o pouco dinheiro que eu tinha na carteira, deixando todos os cartões em minha antiga casa. Eu sabia que ia ser difícil conseguir tudo dali pra frente, mas o dinheiro dele eu não queria e não ia usar naquela nova fase da minha vida.
Não sei se tinha ficado claro com a carta e toda a movimentação que eu havia feito, mas eu ia sim fugir de casa.
Pra onde? Pra onde o vento e os irmãos me levassem, eles seriam a minha fuga mais bem arquitetada. Isso se os dois não estivessem com nojo da minha mentira. Se sim, eu recorreria a pra que ela me enviasse em uma caixa lacrada pra longe dali, embora eu quisesse livrar ao máximo ela e o Talles da minha confusão.
Peguei meu telefone quase descarregado e sem se importar que eram quase duas da manhã, liguei pra . Ele disse que me ajudaria e de alguma forma eu sabia que aquilo era verdadeiro.
- Oi, ! – ele atendeu bem assustado e não esperei muito tempo.
- Eu vou fugir de casa, mas eu preciso da sua ajuda e da . – joguei tudo de uma vez e ouvi um suspiro morto dele, que veio acompanhado de uma risada igual.
- Nós ajudamos, mas eu preciso contar a ela! – ele disse em meio ao barulho do outro lado e suspeitei que ainda estavam juntos com os outros meninos.
- Pode contar a todo mundo, o que importa é vocês me ajudarem e me tirarem desse lugar. – esbocei um desespero que não cabia em mim e vi o garoto se desesperar junto.
- Nós vamos te tirar daí! Calma! tentou me acalmar, mesmo parecendo em pior estado. – Ele não te bateu, não é?
- O quê? Não! Ele não encostou em mim, mas me disse coisas horríveis! Eu não quero mais ficar aqui.
- Ok, eu já estou indo! Onde nós te pegamos? – ele perguntou quase sem respirar direito.
- Do lado de fora do bairro, quase naquela entrada? Eu vou sair de casa agora pela janela e encontro vocês lá. Tudo bem? – perguntei, enquanto prendia o celular entre o ombro e a orelha, puxando os lençóis da cama pra fazer a minha escada.
- Tudo bem! Pelo amor de Deus, toma cuidado. – suspirei afirmando. – ? Você sabe que nada vai ser fácil, não sabe?
- Sei, mas eu quero dar um rumo diferente a minha vida.
- Sendo assim, nós vamos te ajudar. Até daqui a pouco. Por favor, toma cuidado. me pediu mais uma vez e eu ri.
- Vou tomar, bobão! Para de conversa e vem logo! – nós dois rimos e por fim desliguei o telefone.
Respirei fundo mais uma vez, mas tomando uma dose de coragem necessária e antes de começar amarrar os lençóis uns nos outros como eu já tinha costume de fazer, mandei uma mensagem pra .

:Eu vou sumir por uns tempos, mas prometo que assim que der eu te ligo, tudo bem? Não precisa ficar preocupada, vai dar tudo certo. Se tudo der certo, nos encontramos na próxima semana na viagem dos meninos.
: Logo eu te digo minha localização futura. Obrigada por me aguentar tooodo esse tempo e diz ao Talles que ele está livre dessa droga de casamento arranjado! Avisa também a Clara, por favor. Bjos, luv u!

Prendi bem a corda feita de lençol na parte interna da minha janela, coloquei a mochila e a bolsa nas costas, levantei o capuz de um blusão que eu tinha vestido e respirei fundo de novo, mas dessa vez sem saber exatamente o que eu fazia da minha vida. Não me permiti pensar demais e segurei bem na corda, fazendo o que eu tinha ganhado maestria nos últimos meses. Fugir de casa no meio da noite e voltar quando amanhecesse, a diferença é que daquela vez eu não voltaria mais, não pelos próximos dez anos, pelo menos.
Quando senti o chão firme sob meus pés, soltei os lençóis e de certa forma todas as ligações que ainda me mantinham presa àquela vida. Andei a passos rápidos rua abaixo, sentindo que alguém me seguia, mesmo que fosse apenas o meu próprio medo que fazia eu me apertar cada vez mais dentro do casaco enorme. Foi questão de segundos até eu ver a van do buffet da família estacionada perto da esquina com a porta dos fundos aberta e os faróis acesos, fazendo meu coração encher de conforto!
Ali eu soube mais uma vez o que era amizade, o que era precisar de ajuda e ser ajudado mesmo que as consequências não fossem lá as melhores no futuro. Naquele momento eu só passei a acreditar ainda mais na bondade das pessoas.
Corri e praticamente pulei na traseira da van, dando de cara com quatro carinhas curiosas e até assustadas olhando pra minha cara. e o irmão nos bancos da frente me olhavam comuma expectativa enorme, assim como o resto dos meninos e soltei uma risada alta que os assustou e os fizeram rir logo em seguida.
- Podemos seguir viagem, senhorita? – a garota me perguntou com um porte engraçado e piscou me mostrando que sabia de toda a história, mas entendia meu lado. Olhei pra e ele mantinha um sorriso meio esticado.
- Podemos seguir viagem, equipe de fuga! – falei rindo e me segurei no David, que riu alto quando o amigo arrancou com o carro, literalmente cantando pneu e nos sacudiu na parte de trás.
Boa parte da viagem até a casa dos irmãos eu fui contando simplesmente tudo que tinha acontecido e porque eu tinha escondido tanta coisa por tanto tempo, mesmo sabendo que era errado, mas o medo era maior e por mais incrível que parecesse, os meninos tinham entendido da melhor forma possível e estavam dispostos a me ajudar. Se duvidasse até um emprego com eles eu ganharia, nem que fosse pra ser babá de uma banda.
Eu não me importava, contanto que eu tivesse minha tão sonhada liberdade, eu ia começar acreditar de verdade na vida.


FIM!



Nota da autora: Cá estou eu e a minha saga com as músicas 03 kkkkkkkk
Eeentão, essa veio bem diferente do que eu costumo escrever, né? kkkkk
Parece que a Tatye deu uma doida na história, mas eu gostei de escrever algo mais fora dos meus romances louquinhos, além de dar uma amostra do que maioria das vezes acontece, né mores? Existem tantas pessoas desnecessárias nesse mundo e Joseph, absolutamente é uma delas!
Mais um pra lista do "Merece queimar no fogo do inferno, sentado no colinho do capeta!"
Adorei mostrar o valor das amizades, não se enganem, mesmo com pouco tempo, existem pessoas que te fazem achar que você a conhece há uma vida!
No mais, espero que tenham gostado e se visto na história no sentido de: Acredite, você pode tudo que quiser e principalmente ter o controle da sua vida! Você pode e sabe disso!
Beijinhos e até o próximo Ficstape!





Nota da beta: Ahhhhhhh adorei! Queria esse bando de doidos como meus amigos, viu. E adorei a PP ter tomado coragem pra ser feliz. Parabéns pela fic, Taty! Espero que todo mundo goste e deixe comentários ótimos aqui embaixo e que em seguida vão ler as outras fics desse ficstape, que está bem bom. Xx-A

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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