Fanfic finalizada: 14/02/2018

Capítulo único

A garota caminhava distraída por entre a multidão de alunos. Apesar de esbarrar vez ou outra em algumas pessoas, apenas pedia desculpas e continuava seu trajeto sem tirar os olhos do visor do celular. Abismada, lia várias vezes seguidas a mensagem de texto, pois não podia acreditar que ia mesmo fazer uma coisa como aquela.
- Idiota... – murmurou, ajeitando a alça da bolsa pendurada no ombro direito.
Guardando o celular no bolso da calça, apressou os passos, disposta a encontrar o amigo. Não deixaria que ele fizesse algo daquele nível. Não sem a sua supervisão. Por mais que precisasse concluir uma pesquisa sobre imunologia, que consistia na metade da nota da disciplina, ela não se importou. Em questão de minutos, atravessou o campus e foi até a área do refeitório, onde sabia que ele estaria. Desviando-se dos alunos famintos, seguiu diretamente até a mesa que dividia com ele e os amigos. Não demorou a avistá-lo entre eles e respirou fundo, apertando mais ainda a caminhada.
A primeira que a viu foi e sua expressão se transformou no mesmo segundo, indo de animada para apavorada, o que denunciava que ela também fazia parte daquela coisa estúpida. Antes que ela pudesse avisar aos outros que se aproximava, esta parou às costas de e lhe deu um tapa na cabeça, chamando a atenção do garoto.
- Ai! – o rapaz choramingou, levando uma das mãos para massagear o lugar. – Você por acaso é doida?
- Será que poderia explicar o que significa isso? – o ignorou, já pegando o celular e mostrando a mensagem para ele.
- Isso o quê... – ia dizer, mas assim que leu o que o texto dizia, soltou um riso despreocupado. – Ah, você está falando sobre a festa?
- É, estou falando sobre a festa. – ela fez uma careta, apoiando uma mão na cintura. – Sério que decidiu isso sem mim?
- , qual o problema? – ele balançou os ombros, continuando com sua expressão divertida. – É só uma festa.
- Só uma festa? – a mais nova permanecia irredutível. – Sabe como essas coisas acabam, não é?
- Como se você andasse em festas pra saber. – soltou uma gargalhada.
- Isso não tem nada a ver. – a outra revirou os olhos. – Eu escuto os outros falando sobre o que fizeram ou deixaram de fazer nessas ocasiões.
- , sério mesmo? – falou pela primeira vez ao mesmo tempo em que abocanhava seu sanduiche. – É nosso último ano, só queremos nos divertir.
- E pra isso precisam armar uma festa de arromba na nossa república e sem me avisar? – a garota balançou o celular no ar enquanto falava.
- , por que você não senta aqui e come o seu lanche? – a puxou pela cintura, fazendo-a se sentar ao seu lado. – Olha, eu trouxe batata frita!
- ... – ela sibilou seu nome, lhe lançando um olhar mortal.
- Depois conversamos sobre isso. – ele a interrompeu, erguendo o saco de batatas em sua direção. – Por favor!
A garota o encarou diretamente e odiou-se no mesmo segundo, pois tinha a plena certeza de que aqueles olhos azuis sempre a convenceriam a fazer o que ela não queria. Suspirando contrariada, arrancou o pacote das mãos do amigo e passou a olhar para frente, fitando as pessoas que caminhavam para todos os lados. Sem que ela esperasse, ele passou um dos braços em seu ombro, a trazendo mais para perto dele, porém, ela continuou emburrada.
- É só uma festa. – ele repetiu, dessa vez num tom macio, tentando convencê-la. – Prometo que vamos manter tudo sobre controle.
- Promete? – ela o encarou de soslaio.
- É você quem está pedindo. – o garoto a puxou mais para si, tentando fazer com que a garota deitasse a cabeça em seu ombro.
- Tá, tá. – ela o empurrou. – Agora me deixa comer minha batata.
- Não vai dividir? – fingiu estar desacreditado.
- Vocês ainda vão fazer a festa, então não. – ela sorriu cínica, colocando uma batatinha na boca.
- Ei, eu também quero! – se inclinou na mesa.
Enquanto se desviava do garoto, começou a rir e seus amigos a acompanharam naquele momento esquisito. Mesmo que muitos os olhassem com a cara feia, eles não se importavam. Para , ainda que estivesse chateada com o fato de seus amigos terem planejado uma festa na casa que dividiam, saber que eles pegariam leve foi um grande alívio. Não queria arrastar nenhum bêbado pelo quintal ou limpar o vômito de ninguém no tapete da sala de estar.

~o~

permanecia sentada no sofá da casa que dividia com os amigos. Segurando um copo de bebida intocado, a garota observava a sala da república que estava irreconhecível, com um globo de luzes coloridas pendurado no teto, pessoas perambulando de um lado para o outro e o som no último volume.
Enquanto um casal se agarrava bem ao seu lado, a menina suspirou fundo, tentando ignorar o fato de que a sua casa havia se transformado numa zona. Quando os dois ao seu lado se inclinaram, caindo sobre ela, revirou os olhos e se levantou disposta a encontrar um lugar com menos gente. Se espremendo entre seus colegas de faculdade, a estudante de ecologia conseguiu alcançar o quintal da casa, onde ficava a piscina.
Aliviada por estar ao ar livre, ela procurou pelos amigos que haviam se dispersado desde o primeiro segundo. O primeiro que encontrou foi e ele se pegava com uma garota num canto mais afastado perto da árvore que ela havia plantado no dia em que chegaram à casa. Não dando a mínima para aquilo, caminhou a passos velozes até o amigo, ainda que ele fosse xingá-la de todos os nomes por ter interrompido um momento como aquele. Todavia, a menina estacionou no meio do caminho no momento que reconheceu a garota.
- Eu não acredito! – murmurou perplexa.
Quando jogou o cabelo para o lado e sorriu, passando um dos braços ao redor do pescoço do garoto, a mais nova quase teve um ataque cardíaco, pois nem em mil anos acharia que aquilo poderia acontecer. Aqueles dois viviam se alfinetando, pois enquanto cursava educação física, cursava filosofia, o que os tornava praticamente incompatíveis. Ainda surpresa, não percebeu o momento que alguém chegou por trás e a segurou pela cintura, lhe dando um leve susto.
- E aí, gata! – o garoto disse perto de seu ouvido. - Essa festa está dá hora!
- Valeu, . – respondeu a contragosto, revirando os olhos. – Aproveite o quanto quiser.
Após as poucas palavras tentou se afastar do rapaz, mas este não a deixou ir tão fácil, permanecendo com o braço ao redor de seu corpo.
- , me solta! – disse num tom nada contente.
- Calma aí, gata! – ele riu debochado. – Só vamos conversar um pouquinho.
- Se não tirar as mãos de mim, vai se arrepender. – ela disse entredentes.
- Vou, é? – o garoto, visivelmente bêbado, a puxou para mais perto, colando seus corpos.
Já sem paciência, a garota o empurrou com força, livrando-se de seu aperto. Em seguida, sem pensar por mais de um segundo, jogou todo o líquido que havia em seu copo nele.
- Qual o seu problema? – olhava abismado para o estrago em sua camisa.
- O problema é que sou boazinha demais pra quebrar os seus dentes. – ela respondeu sem qualquer humor na voz.
Em seguida, jogou o copo em qualquer lugar, ainda que aquilo fosse uma afronta a todos os seus anos de faculdade, e seguiu de volta para dentro da casa. Estava disposta a subir para seu quarto e se trancar lá até que aquela droga de festa terminasse. Ela simplesmente detestava festas e motivos como aquele a faziam confirmar que estava certa.
Sem se importar de estar esbarrando nos outros, afinal aquela era sua casa, a jovem universitária logo alcançou a escada que a levaria ao andar superior. Mas, antes que subisse, sentiu dedos segurarem seu pulso. Nervosa, ergueu a mão esquerda e girou o corpo de uma vez, desferindo um tapa certeiro no rosto do idiota que ousava encostar nela. Só não esperava que ele fosse quem era.
- ?! – arregalou os olhos. – Me... me desculpa, eu pensei que fosse...
- O ? – ele disse, massageando o lugar atingido. – Você é bem fortinha, hein!
- Como você sabe... – pensou em perguntar, mas ele a interrompeu no meio da sentença.
- Eu estava lá fora e vi vocês dois conversando. – o rapaz explicou. – Bem, pelo menos eu acho que foi uma conversa.
- Uma nada proveitosa, se me permite acrescentar. – a mais nova bufou.
- Não é a toa que agora sua cerveja está enfeitando a blusa dele. – um riso divertido soou entre seus lábios.
- Olha, eu vou subir. – apontou para cima. – Vejo vocês mais tarde.
- Vai subir? – franzindo o cenho, ele a acompanhou nos degraus. – Mas a festa mal começou!
- E as coisas já estão fora de controle. – ela observou, tentando manter a calma na voz.
- Ah, qual é! – abriu os braços. – Não é pra tanto.
Já irritada, parou de supetão, virando-se para o amigo. Estavam na metade corredor superior, a poucos metros do quarto da menina. Ao ver a expressão dela, ergueu as mãos em sinal de rendição e soltou um leve suspiro derrotado.
- Tá, pode ser que algumas pessoas tenham excedido o limite. – ele tentava se justificar. – Mas é uma ocasião especial.
- Especial? – a outra apoiou as mãos na cintura.
- Somos os veteranos e estamos promovendo uma das melhores festas que nosso campus já viu! – o rapaz abriu os braços, entusiasmado. – Todos querem estar aqui e querem aproveitar até o último segundo.
- Tudo bem, agora você está exagerando. – revirando os olhos, voltou a caminhar na direção do seu quarto, deixando-o para trás.
- Vai me dizer que não é a melhor festa desde que chegamos aqui? – o garoto a seguiu, caminhando de costas para olhá-la de frente.
- Eu poderia responder a essa pergunta, mas tem um problema. – ela o encarou com a expressão de desinteresse. – Eu nunca estive nas festas de faculdade.
- Claro que já. – ele rebateu. – E aquela na casa do Tiago?
- Eu fiquei lá por vinte e cinco minutos. – a moça respondeu ainda sem esboçar qualquer humor. – Então me deram uma bebida tão forte que vomitei no banheiro inteiro. Lembrando que esse é o motivo para eu não beber mais, caso sua memória não esteja boa.
- , por favor... – pediu quando pararam na frente do quarto.
Erguendo as sobrancelhas, o rapaz se aproximou dela, mantendo uma conexão entre seus olhares. Ao senti-lo próximo, prendeu a respiração por breves segundos, mas tratou de liberá-la discretamente para evitar que percebesse o quanto ele a abalava. Quando o mais velho sorriu de lado, ela sentiu as bochechas esquentando e seu coração saltou assim que os dedos de seguram uma mecha de seu cabelo solto, colocando-a para trás de sua orelha.
- Eu sei que suas experiências não foram muito legais, mas poderia tentar. – ele insistiu, permanecendo com a mão em seus fios. – Prometo que se algo der errado, eu acabo com tudo no mesmo segundo.
Respirando fundo, cruzou os braços e baixou os olhos, fitando a sandália rasteira que usava. Apesar de todo o tempo que conviviam juntos, ela não entendia como aquele ser à sua frente conseguia exercer um poder tão grande sobre ela. Há alguns anos, havia ganhado uma bolsa numa das melhores universidades dos país e não pensou duas vezes antes deixar sua cidade para trás, mudando-se de estado.
Como já conhecia desde a infância, fez um acordo com a garota para que dividissem uma casa com mais algumas pessoas. Foi assim que conheceu e . E, desde esse dia, a garota teve a plena certeza de que estava perdidamente apaixonada por . No entanto, por sempre ter sido tímida, decidiu que era melhor manter seus sentimentos em segredo. E foi assim durante todo o período na universidade. Agora estavam a caminho do último semestre e, provavelmente, isso continuaria assim.
- Se as coisas derem errado, eu mesma faço questão expulsar todos. – ela respondeu após passar longos instantes em silêncio.
- Então isso quer dizer que vai voltar pra lá? – um sorriso iluminou o rosto dele.
- É. – deu de ombros. – Me impressione.
- Você não merece nada menos que isso. – ele lhe lançou uma piscadela, deixando-a sem graça mais uma vez.
Sem perceber o que havia causado, segurou a mão da menina e a puxou de volta para o andar inferior, onde a festa acontecia a todo vapor. Permanecendo de mãos dadas, driblaram as pessoas que dançavam como loucas e os casais que praticamente se comiam por todos os cantos da casa. Com um pouco de dificuldade, chegaram até a cozinha, onde várias garrafas de bebida estavam sobre o balcão e também sobre a pia.
Com um sorriso sapeca, pegou uma das garrafas pela metade e dois copos, estendeu um deles para , que o pegou sem muita convicção. Em seguida, ele foi até a geladeira pegando um refrigerante de limão, ao que a garota fez uma careta.
- Agora vai querer me embebedar, é? – ela questionou, semicerrando os olhos. – Essa é sua forma de diversão suprema?
- Eu não vou te embebedar. – ele riu, fazendo as misturas nos dois copos. – A não ser que você queira.
- Eu preciso terminar uma pesquisa e uma ressaca não seria nada bem-vinda. – a garota já foi dizendo, fazendo o outro revirar os olhos.
- , relaxa! – ele encheu os copos. – É apenas um pouco de vodca com refrigerante de limão. O que poderia haver de mal nisso?
Hesitante, a garota fitou o líquido lá dentro. Sentiu o cheiro e, automaticamente fez uma careta, pois não costumava consumir bebidas alcoólicas com frequência. Olhou para , que esperava seu primeiro passo e, após um aceno de cabeça de sua parte, ela resolveu tentar. Afinal, como ele havia dito, o que poderia haver de mal nisso?
- AH MEU DEUS, ISSO É DEMAIS! - a garota berrava por cima da música ao mesmo tempo em que pulava no meio da pista de dança improvisada.
Já estavam na pista havia um tempo indeterminado e ambos se encontravam bêbados. Obviamente, ela muito mais do que ele, mas ainda assim nenhum dos dois tinha mais controle sobre seu comportamento desenfreado.
- Eu disse que você ia gostar! – o garoto ao seu lado disse perto de seu ouvido num tom não tão alto.
- Tá brincando?! – ela soltou uma gargalhada, passando o braço livre no pescoço do dele. – Essa é melhor coisa que já fiz na minha vida!
- E você não queira fazer. – ele passou o braço em sua cintura. – Pode me agradecer agora.
- Nem vem, . – ela o empurrou e saiu andando pelo meio do povo.
- , volta aqui. – ele riu e seguiu em seu encalço, a pegando pela cintura. – Pra onde está indo, sua doida?
- Eu ia... AH MEU DEUS, EU AMO ESSA MÚSICA! – a menina começou a responder, porém, parou no instante que uma nova canção começou a tocar. – VEM, VAMOS DANÇAR!
Sem esperar uma resposta do amigo, a garota o puxou de volta para baixo do globo de luzes que refletia suas cores por todo o ambiente. Em meio a vários jovens bêbados e histéricos, e começaram a pular, já sem seus calçados, como se não houvesse amanhã. Juntos, cantavam a letra de “Shape of you, Ed Sheeran” e vários outros faziam o mesmo.
- Now take my hand, stop, put Van The Man on the jukebox. cantava olhando diretamente para . - And then we start to dance. And now I'm singing like.
Numa outra situação, onde estaria sóbria e no pleno comando dos seus sentidos, ela jamais faria algo assim. Nunca teria a ousadia para se aproximar dele com segundas intenções ou para usar de charme, todavia, era exatamente isso que fazia no momento. Despreocupada, jogou os braços ao redor dos ombros do amigo, sem quebrar sua conexão visual, continuando a sibilar as palavras de música, arrastando seus corpos numa dança mais calma do que a anterior.
Pela primeira vez, não se importou se ele entenderia ou não seus sinais ou se a rejeitaria. Queria só aproveitar o momento e suas pernas bambearam quando o rapaz a puxou para ainda mais perto e aproximou os lábios de seu ouvido, sussurrando uma das frases da melodia de uma forma que ela achou extremamente sexy.
- Girl, you know I want your love. Your love was handmade for somebody like me. murmurou, lhe causando um arrepio. - Come on now, follow my lead. I may be crazy, don't mind me.
Ele havia percebido qual era o seu jogo e, quando a encarou outra vez, soube no mesmo instante que o garoto havia entrado nele. Mordeu o lábio inferior e fitou sua boca, decidindo se seguia em frente ou não. Entretanto, não teve muito tempo para pensar. Num movimento rápido, ele levou uma mão até sua nunca e a puxou para mais perto, unindo seus lábios.
No primeiro momento, sentiu um choque estranho percorrer todas as partes do seu corpo, talvez pelo susto que a envolveu assim que sentiu o calor da boca dele sobre a sua. Mas, quando os segundos se passaram, ela se acostumou com a sensação, tendo a certeza de que era ainda melhor do que havia imaginado. Usando da coragem que ainda prevalecia, levou as mãos até os cabelos do garoto, emaranhado os dedos lá, aprofundando o beijo.
Aquele era o primeiro contato que tinham, mas ela havia chegado a uma conclusão. Apesar do gosto forte de álcool, os lábios de eram tão bons que era como se houvessem indícios de que eles fossem o paraíso. Eram tão perfeitos que ela poderia beijá-los eternamente.
Para seu desgosto, o ar não colaborou e eles foram obrigados a se separar. Ofegantes, encostaram as testas e ainda segurava os cabelos dele com carinho. Quando se encararam, encontraram cumplicidade em suas expressões. Uma que jamais haviam compartilhado. Sem dizer qualquer coisa, a segurou pela mão e a levou para outro lugar, longe das pessoas. não disse nada, apenas se deixou conduzir e quando deu por si, estava dentro do banheiro do andar inferior.
Tentando controlar a respiração, acompanhou o momento que o amigo trancou a porta, logo se voltando para ela. Após lhe lançar um sorriso maroto, caminhou em sua direção e a abraçou pela cintura, roubando-lhe mais um beijo. Apreciando sua atitude, apoiou as mãos no peitoral dele, enquanto era prensada contra a parede branca.
Desesperados graças ao grande teor de álcool em seus sangues, partiram o beijo e começaram a se livrar das peças de roupa que usavam. Estavam agindo no calor do momento, mas nenhum dos dois se importava como aquilo poderia afetá-los mais tarde. Queriam apenas sentir um ao outro, sem pensar no depois.
Quando se livrou de sua camisa, parou por um segundo e arfou. Já o havia visto assim inúmeras vezes, mas agora era diferente. Agora, ele estava ali para ela. Levou os dedos até o corpo suado e os deslizou na pele que, para ela, era como um mar que queira navegar sem um rumo fixo. era um verdadeiro mistério que ela estava disposta a desvendar, nem que precisasse levar todos os dias de sua vida para isso.
Segurando a mão da garota, ele a puxou para si e levou a mão livre para baixo de sua blusa, acariciando as costas macias e quentes. fechou os olhos quando sentiu o toque e segurou seu rosto, o beijando com urgência. Com facilidade, o rapaz a segurou pelo quadril e a fez se sentar sobre a pia, ficando entre suas pernas. Quando separaram suas bocas, ele retirou a blusa dela e desceu os lábios até seu pescoço, depositando vários selinhos pelo lugar.
Sentindo o coração bater furiosamente, pois começava a compreender com mais clareza aonde aquilo os levaria, a moça mordeu os lábios. De repente, toda a coragem que as várias doses de bebida haviam lhe dado, estavam se esvaindo. Ela era apaixonada por , isso era uma certeza. Mas não queria que as coisas ocorressem assim. Ao menos sabia se ele sentia o mesmo.
Sentindo o estômago embrulhar pela ansiedade, tentou conter o enjoou que lhe pegou desprevenida, mas foi impossível. Ao sentir o vômito já em sua garganta, empurrou o garoto para trás e virou o rosto para o lado despejando tudo na pia logo abaixo. Fraca de repente, precisou apoiar uma das mãos no mármore frio para se equilibrar enquanto continuava a colocar tudo para fora.
Assustado pelo acontecimento repentino, permaneceu estático por vários instantes, tentando entender o que se passava. Num momento estava beijando , no outro ela estava lá, inclinada sobre a pia, vomitando. Apenas voltou a si quando viu a amiga tossir após se engasgar. Rapidamente, foi em seu auxílio, tirando-a de cima da bancada.
- Calma, está tudo bem. – ele disse baixinho, a ajudando a ficar de pé.
Ela não respondeu, apenas tremia e sua crise de tosse não cessava, o que o deixou preocupado, pois a garota não sabia beber.
- Respira, respira. – o garoto falou com calma, segurando seus cabelos com delicadeza.
Após vários minutos, finalmente ela parou de tossir e de vomitar. Aliviado, a ajudou a se limpar e a sentou no vaso sanitário, esperando que ela estivesse em melhores condições para sair dali. Não demoraram muito, pois insistiu que estava bem. Ainda assim, ele a levou para cima e a deitou em sua cama, permanecendo lá até que ela dormisse.
- ... – murmurou com a voz pesada de sono.
- Hum? – ele respondeu apenas, sentando na beirada da cama.
- Vamos ficar bem, não é? – sua voz já estava bem baixinha.
- Vamos sim, . – ele sorriu e acariciou seus cabelos.
Dando um leve sorriso, a garota voltou a cerrar as pálpebras, não demorando a pegar no sono. Quando a , apenas suspirou, pois sabia que as coisas não seriam as mesmas para eles. Só não saberia dizer se isso era bom ou ruim.

~o~

Havia se passado mais de um mês da festa que e seus colegas de república tinham promovido. A ocasião foi um sucesso e o grupo se tornou ainda mais conhecido do que antes. Mesmo com o final do último semestre bem próximo, as garotas ainda encontravam tempo para mandar mensagens de textos para os garotos, tentando marcar algo. Já os rapazes faziam de tudo para tentar sair com ou , usando das mais variadas cantadas.
A mais nova não se agradou nem um pouco disso, amaldiçoando até a última geração de seus amigos por deixá-la tão exposta. Por mais que dissesse que aquilo não era nada de mais, a garota insistia no fato de que não queria nenhum tipo de idiota em seu pé até final do ano. Todavia, por mais que aquelas fossem suas palavras, o que a deixava verdadeiramente irritada era o fato de que, mesmo depois de terem ficado durante a festa, não disse nada a respeito.
Para falar a verdade, ele sequer tocou no assunto, como se não se lembrasse de nada do que aconteceu. Mesmo que talvez isso fosse verdade, a menina desconfiava, pois se ela que havia passado mal de tanto beber, conseguia se lembrar perfeitamente do ocorrido, por que o garoto não? Ainda assim, resolveu deixar o assunto para lá e imitá-lo, agindo como se as coisas continuassem iguais.
- Vai mesmo continuar me ignorando? – tentava abraçar , que se desviava dele.
- Você não comprou a minha coxinha, então sai daqui. – ela o empurrou novamente.
- , olha pra mim! – o garoto fingiu estar desolado. – Eu não posso viver sem você!
- Olá, pessoas! – de repente disse, chegando por trás deles.
- Meu amor! – esquecendo-se de , foi até ela a abraçando pela cintura.
- Sai fora, garoto. – ela o empurrou pelo rosto quando ele tentou beijá-la.
- Que tipo de namorada você é? – ele perguntou indignado, mas não insistiu.
Juntos, os três caminhavam pelos corredores da universidade, continuando aquela conversa descontraída. Seguiam para suas classes, mas antes que as alcançassem, se depararam com uma cena deveras interessante. , que ia um pouco à frente, estancou no lugar, fazendo com que os amigos esbarrassem em suas costas.
- Ai! – resmungou. – , o que foi?
Mas ela não precisou responder. Logo os dois viram o que a menina via. estava recostado a uma parede e conversava com uma garota morena. Isso não seria um problema, mas a menina praticamente se jogava sobre ele, que parecia gostar bastante da atenção que recebia.
- Eu não acredito! - parecia achar graça da situação. – Ontem mesmo o estava conversando com a Jennifer, do curso de direito.
- Esse é meu garoto! – gargalhou.
- Gente... eu vou... - engolindo seco, apontou para trás. – Ao banheiro.
Dando meia volta, ignorou as falas dos amigos, seguindo para o andar superior, onde os banheiros ficavam assim como os laboratórios e a biblioteca. Enquanto subia os degraus largos, a moça bufava contrariada. Diferentemente do que achava, não estava com nenhuma vontade de chorar, mas sim de bater a cabeça do garoto várias vezes seguidas numa parede bem maciça. Como ele poderia ser idiota naquele nível?
Extremamente irritada, tentou ajeitar os livros que segurava, entretanto acabou por se esbarrar em alguém e todos eles foram ao chão. Xingado vários palavrões, se abaixou e começou a catá-los sem olhar para cima, mas logo sentiu a pessoa também fazer o mesmo.
- , me desculpa. – o rapaz disse e, pela primeira vez, ela o encarou. – Eu estava distraído e não te vi aí.
- ?! – a garota ergueu as sobrancelhas, pensando que não poderia ser mais azarada.
- Você carrega bastante coisa. – ele tentou descontrair.
- É, não dá pra evitar. – ela respondeu sem muita delicadeza.
- Claro que não. – ele soltou um riso abafado.
Se levantaram e ele lhe entregou os livros que havia pegado. Após um breve agradecimento, a menina fez menção de seguir seu caminho, entretanto, o rapaz disse algo que a fez parar.
- Sobre aquele dia lá na festa... – ele coçou a nuca, sem graça. – Eu fui um babaca e queria pedir desculpas.
- Não esquenta. – ela sorriu de forma mínima. – Já faz muito tempo.
- Mesmo assim, eu não deveria ter insistido, sendo que você não queria conversar. – disse.
- É, você foi um babaca. – ela fez uma careta engraçada e o menino riu. – Mas, como eu disse, não se preocupe, Afinal, eu já dei o que você merecia.
- Apesar daquela camisa nunca mais ter sido a mesma, ainda acho que você merece um pedido oficial de desculpas. – o rapaz se aproximou.
- E que pedido seria esse? – perguntou, semicerrando os olhos.
- Talvez um café? – ele falou sem muita convicção.
- Eu não gosto de café. – ela disse e sorriu ao vê-lo murchar, então completou a fala. – Mas eu amo milk-shake.
- Então vai ser milk-shake. – abriu os braços, dando-se por vencido. – Que horas posso te pegar?
- Eu te passo uma mensagem, pois preciso resolver umas coisas. – a garota falou pensativa.
- Sem problemas. – ele balançou os ombros.
- Então... até depois. – deu um leve sorriso.
- Até! – ele disse de forma divertida, fazendo-a soltar um riso anasalado.
Balançando a cabeça negativamente, voltou a subir os degraus, só agora pensando que havia feito exatamente o que disse a que não faria. Mas, era um garoto legal. Apesar de ter sido um babaca na festa, ele estava disposto a se desculpar, então não havia problemas em sair com ele. Além do mais seria só um milk-shake.
~o~

- Como assim, você vai a um encontro com o ? – parecia não acreditar.
- Não é um encontro, só vamos tomar um milk-shake. – revirou os olhos. – Qual o problema?
- Nenhum. – , que estava jogada no tapete, se levantou e foi até a outra que estava no sofá digitando algo no notebook. – Na verdade, é incrível. Finalmente, você vai dar uma chance a um garoto.
- , não vou dar chance a ninguém. – ela encarou a amiga com uma expressão nada boa.
- Quem vai dar chance a quem? – de repente as garotas ouviram dizer e olharam para lá.
O garoto passava pela porta com várias sacolas nas mãos. Atrás dele vinha , que também segurava várias delas, além da chave do carro.
- A vai sair com o . – respondeu antes que a amiga dissesse algo.
- ! – ela a repreendeu.
- O ? – perguntou, deixando a chave sobre a mesinha de centro e olhando diretamente para . – Achei que ele fosse um babaca.
- Eu também achei. – sustentou o olhar, dando de ombros. – Mas talvez estejamos enganados.
- Aposto que não. – o garoto continuava a fitá-la sem esboçar nenhuma reação.
- Aposto que sim. – ela rebateu da mesma forma.
Suspirando contrariado, desviou os olhos da garota e caminhou para a cozinha. Estranhando a sua atitude, franziu o cenho, mas logo se distraiu quando viu uma sacola pender bem em frente do seu rosto.
- O que é isso? – ela questionou ao ver que quem a segurava era .
- Tcharan! – ele fez mistério, mas ele apenas assumiu uma cara de paisagem. – Sua coxinha!
- Não brinca! – arregalando os olhos, agarrou a sacola de papel e se levantou, abraçando o garoto com força. – , eu te amo!
- Ei, ei, ei! – , que mexia no som, se virou para eles, apoiando as mãos na cintura. – Pode tirar as mãos do meu namorado.
- Ele é todo seu. – ela ergueu as mãos, como se se rendesse.
- Vai pra cozinha? – ele perguntou.
- Sim. – a garota parou sua caminhada.
- Poderia levar essas sacolas pra lá? – pediu.
Rindo da situação, as pegou e seguiu até a cozinha para esquentar seu lanche nas micro-ondas. trouxe o que ela tanto queria, mas aquela coisa estava fria e ela não comeria uma coxinha fria. Ao adentrar o local, deu de cara com guardando as compras nos armários. Ignorando sua presença, deixou os pacotes sobre a mesa e foi até o micro-ondas.
O rapaz logo a notou ali, mas continuou em silêncio, apenas ouvindo os sons às suas costas. Enquanto programava os botões, a moça mordia os lábios, segurando-se para permanecer onde estava. Mas então a voz dele chegou até seus ouvidos, fazendo-a acordar.
- Vai mesmo sair com o ? – perguntou, fazendo-a parar antes de apertar o último botão.
- Eu... vou. – ela franziu o cenho, virando-se para ele. – Por quê?
- Não sei... – visivelmente incomodado, o garoto deixou a lata de azeitonas sobre a mesa. – Achei que, depois da festa, ele fosse o último cara com quem iria querer ter um encontro.
- Depois daquela festa eu também achei muitas coisas. – ela falou de forma sugestiva, cruzando os braços. – E não é um encontro. Ele só quer se desculpar e eu aceitei.
- Tem certeza disso? – ele insistiu.
- Sim, tenho. – deu de ombros. – Por que se importa tanto, afinal?
- Só não quero que se machuque. – disse.
- Não se preocupe, eu vou ficar bem. – ela abriu o micro-ondas, pegando o pacote. – E você deveria ligar pra Jennifer e marcar algo também. Ou seria a Thaty?
Apesar da expressão confusa dele, apenas lhe deu as costas e saiu do lugar, sentindo o gostinho de ter feito uma saída triunfal. Se antes ela tinha alguma dúvida sobre sair com , agora tinha certeza de que sim, ela iria.

~o~

Após demorar certo tempo para escolher uma roupa, aceitou a ajuda de e colocou um vestidinho simples, florido e sandálias rasteiras, deixando os cabelos soltos. Não era seu look preferido, mas combinava com a ocasião. Marcou tudo por meio de mensagens e logo chegaria, por isso tratou de arrumar sua bolsa com seus pertences.
Umas três da tarde o garoto chegou. Ao ouvir o som da buzina, a jovem se olhou uma última vez no espelho e desceu as escadas com pressa, passando pelos amigos que estava na sala.
- Já estou indo. – anunciou.
- Se quiser, eu tenho camisinhas sobrando! – berrou de onde estava.
- Quê? - ela o encarou com o cenho franzido.
- É melhor prevenir do que remediar, meu bem. – entrou na brincadeira.
Juntos, eles riam da cara da garota, que agora estava vermelha como um tomate. O único que não os acompanhava era , que permanecia calado, olhando diretamente para a televisão.
- Vocês são uns idiotas. – rolando os olhos, ela abriu a porta e saiu.
Não demorou a avistar o carro preto, assim como seu dono recostado na porta deste. Abrindo um sorrisinho discreto, caminhou até , parando em sua frente.
- Olá! – disse sem jeito.
- Oi. – ele respondeu abrindo um largo sorriso.
- Err... vamos? – olhou para os lados, sem saber como continuar a conversa.
- Claro. – concordou e se afastou do carro.
Em seguida, abriu a porta para ela, que adentrou o veículo. Calados, foram até uma sorveteria e permaneceram assim até fazerem os pedidos. Após isso, voltaram ao silêncio que parecia não querer ir embora de forma alguma.
- Lugar legal. – a garota tentou puxar assunto.
- É. – ele concordou. – Eu sempre venho aqui com minhas irmãs.
- Você tem irmãs? – ela estava realmente surpresa.
- Uma com quinze e a outra com dezessete. – ele balançou a cabeça, positivamente.
- Deve ser divertido ter irmãs. – se inclinou para frente enquanto falava.
- Você não tem? – ele fez o mesmo.
- Não, só um irmão mais velho. – respondeu fazendo uma careta. – E não somos tão próximos, especialmente depois que vim pra cá.
- Entendo. – mordeu os lábios. – Mas o que acha daqui?
- No começo eu estranhei muito. – ela admitiu. – Mas agora já acostumei. É como se fosse minha segunda casa.
Sem perceberem, o assunto começou a fluir e logo já conversavam sobre vários assuntos de suas vidas. Mesmo depois da chegada de seus pedidos, continuaram o papo que se prolongou por um bom tempo.
- Ah meu Deus! – arregalou os olhos ao encarar o visor do celular. – Já são quase seis da tarde!
- Uau, a hora passou rápido. – também se assustou.
- Eu preciso voltar. – ela mordeu o lábio inferior. – Tenho que terminar de elaborar um seminário gigantesco.
- Tudo bem, eu te levo. – ele se levantou. – Só vou pagar a conta e já venho.
Antes que ela dissesse que poderiam dividir a quantia, ele já tinha se afastado, dando-lhe apenas a opção de esperar. não demorou a voltar e então caminharam até o carro. Dessa vez, voltaram ouvindo música e lia as mensagens que havia lhe mandado, perguntando sobre o “encontro’. Revirando os olhos, deu uma breve resposta e desligou o aparelho, voltando sua atenção ao garoto ao lado.
A conversa durou até estarem de frente à república. Antes de descer do carro, pigarreou sem saber o que fazer, mas decidiu ser gentil, afinal tinha se mostrado um cara legal.
- Então, acho que vou... entrar. – ela disse, procurando as palavras.
- Certo. – ele sorriu. – Nos vemos depois.
- Certo. – ela balançou a cabeça, já abrindo a porta, mas parou no último momento. – E, , eu me diverti muito. Obrigada pelo convite.
- Espero que seja o primeiro de muitos. – ele lhe lançou uma piscada.
Completamente envergonhada e sem saber o que dizer, apenas lhe lançou um sorrisinho e saiu do carro, fechando a porta em seguida. Sem olhar para trás, caminhou apressada para dentro de casa, sentindo o coração pulsar velozmente. Novamente, dava em cima dela. Porém, daquela vez fora diferente. Ele havia sido gentil e a fez rir como nunca.
Balançando a cabeça, abriu a porta e entrou, correndo para seu quarto. Enquanto subia a escada, pensava que sair com o garoto foi muito bom, mas que ele não fazia seu tipo. Na realidade, apenas um fazia, mas estava fora do seu alcance. Conformada, tirou os sapatos e se jogou na cama, fitando o teto cheio de estrelinhas laminadas. Sua prioridade agora era terminar os estudos. Depois resolveria todo o resto.
~o~

- Espera! – interrompeu a amiga no meio do relato. – quer dizer que não rolou nenhum beijo?
- ! – a encarou, desacreditada.
- Nem uma bitoquinha? – fez um biquinho.
- Não! – ela se levantou da cama. – O é legal, mas não faz o meu tipo.
- Ninguém faz o seu tipo, . – a outra revirou os olhos. – Quando ficar pra titia, não reclame.
- Calada! – irritada, jogou uma almofada na amiga, que a pegou ainda no ar.
- Essa não é aquela almofada que te deu? – a mais velha perguntou.
- Sim, por quê? – voltou a se deitar.
- Está escrito “i love u”. – fez uma careta. – Estranho.
Ao ver a garota jogando a almofada diversas para cima e depois a aparando, apoiou metade do corpo nos cotovelos e olhou para lá, sem entender nada.
- Estranho por quê? – questionou.
- Sei lá. – deu de ombros. – Parece coisa de um garoto que está se declarando à garota, mas de maneira discreta.
- De onde tirou isso, sua pirada? – rindo do raciocínio da colega, se levantou e tomou o objeto de suas mãos.
- Eu já disse que não sei. – ela também riu. – Mas, pensando bem, vocês formam um belo casal.
- Seria bom mudar de assunto. – a jovem deixou a almofada sobre o colchão.
- É sério! - insistiu. - Vocês gostam das mesmas coisas, cursam áreas parecidas e são igualmente chatos. Viu, o casal perfeito.
- Não tem nada de perfeito nisso. – soltou um suspiro cansado.
- Tá certo. – riu abafado.
resolveu não insistir mais. Se levantou da cadeira que ficava perto da escrivaninha do quarto de e resolveu deixá-la sozinha.
- Já vai? – perguntou ao vê-la seguir até a porta.
- Vou tomar um banho. – disse. – Te vejo no jantar.
- Tá. – acenou com a mão direita.
Saindo, a garota deixou a amiga meditando em suas palavras. dissera que e formavam um casal perfeito. Mesmo que suas palavras estivessem carregadas de humor, algo em seu peito insistia em considerá-las seriamente. Mesmo que ela fosse uma tapada sem coragem para revelar o que sentia ou que ele fosse um idiota que não notava isso, a garota tinha uma pequena esperança, no fundo do peito, de que um dia poderiam tentar.
Esperança esta que praticamente se extinguiu quando seu celular tocou mais tarde, naquele mesmo dia.

~o~

Fazia quase uma semana que havia aceitado o convite de e, desde então, eles se comunicavam através de mensagens de texto. A garota tentava não dar muito corda, mas ele era tão fofo que, quando percebia, já havia entrado numa longa conversa que se estendia pela madrugada. Mesmo assim, para a brasileira, o que eles tinham era apenas uma boa amizade. Especialmente por ainda estar ter em emente a ligação que recebeu no dia em que saíram juntos.
Naquela tarde de sábado, a jovem descansava com seus colegas de república. Assistiam a um filme de super-herói e comiam besteiras, tentando esquecer por um segundo de suas vidas atribuladas e cheias de trabalhos e seminários.
- Como assim, o Batman desistiu de matar o Superman só porque ele disse Marta? – jogou os braços para cima.
- É o nome das mães deles. – falou de forma óbvia.
- E daí? – a garota continuava inconformada. – Você não desiste de matar seu inimigo só por que o nome da sua mãe é Marta!
- Apoiada! – falei, erguendo a mão direita.
- Ah, uma pessoa aqui me entende. – a outra apontou para ela.
- Pelo menos a luta entre eles foi boa. – tentou argumentar.
- Boa? – assumindo uma careta, se virou para ele. – Como você vai saber se só durou, tipo, uns dois minutos.
- Não exagera! – dessa vez riu. – O filme tem coisas legais.
- Ah é! – a mais velha a encarou em desafio. – Enumere, por gentileza.
Antes de começar a dizer os motivos por não ter odiado tanto assim o filme, o celular da garota começou a tocar e ela o pegou, fitando o visor. Sentiu seu sangue gelar no segundo que leu o nome da pessoa e mordeu a bochecha internamente, pesando se atendia ou não.
- Gente... eu vou atender. – disse, se levantando do sofá que dividia com .
- Humm... quem será? – fingiu pensar.
- Aposto um sanduiche da subway que é o . – se ajeitou em seu lugar.
Revirando os olhos, se retirou do recinto e caminhou apressada até o quintal. Perto da porta da saída, antedeu a chamada, ouvindo a voz de quem já esperava. Conversou com o homem por uns bons vinte minutos, ouvindo suas propostas e, como antes, disse que precisava de mais tempo para pensar e ajeitar as coisas.
Quando finalmente desligou o aparelho, soltou um suspiro cansado e se virou para voltar para dentro. Todavia, se surpreendeu ao encontrar recostado à ombreira da porta. Com os braços cruzados, ele a encarava dom as sobrancelhas erguidas, como se esperasse que a mais nova dissesse algo.
- Você é uma assombração. – passou a mão na testa, jogando alguns fios de cabelos para trás. – Quer me matar de susto, por acaso?
- Com quem estava conversando? – ele foi direto, deixando-a ainda mais atordoada.
- Isso não te interessa. – foi a primeira resposta que saiu de sua boca.
- Claro que não interessa. – o menino soltou um riso anasalado – Não tenho a ver com quem você conversa, com quem sai e muito menos com o fato de que está indo embora sem sequer nos avisar.
- O quê... – murmurou, mas logo se recompôs. – Como... como sabe disso?
- Então é verdade? – ele se desencostou da porta e caminhou em sua direção – Ia mesmo voltar para sua cidade sem nos dizer?
- Não! – negou imediatamente. – Quer dizer, eu não sei. Quem te disse isso?
- O seu namoradinho. – disse com deboche.
- ? – franziu o cenho. – Ele não é meu namorado.
- Mas mesmo assim contou a ele sobre a proposta de estágio que recebeu e que, pra isso, seria preciso voltar para sua casa. – o rapaz se aproximou mais, parando bem em sua frente. – Contou pra ele, mas não pra nós.
- ... – ela tentou dizer.
- Sabe como eu descobri? – ele a interrompeu, soltando um riso sem humor. – Pegamos aula de ciências juntos e sentamos um perto do outro para fazer uma atividade. Não sei como seu nome surgiu na conversa, mas ele disse tudo. O mais engraçado é que ele pensava que eu já sabia e por isso conversou como se tudo já fosse bem claro, mas acontece que não é.
- Eu... – tentou dizer algo, porém, as palavras simplesmente não saiam.
- Achei que fôssemos amigos. – o garoto disse com certo pear na voz.
- Nós somos. – ela o encarou desacreditada.
- Então por que escondeu isso de nós? – sua voz já se elevava. – De mim?
- Eu já disse que não sei! – a garota também começou a se exaltar. – Eu tentei, mas... mas não havia nada resolvido e...
- E? – seus rostos estavam praticamente colados.
- E eu estava com medo. – ela admitiu, mantendo seus olhos fixos aos dele. – Eu não sabia o que achar de tudo isso e, se eu contasse, a fixa cairia. Eu ia perceber que, se quisesse aceitar a proposta que me fizeram, teria que deixá-los para trás. E não quero ter que escolher.
não respondeu. Sem deixar de encarar a menina, soltou um suspiro pesado e deu dois passos para trás, afastando-se dela. Percebeu que seus olhos estavam marejados e, caso continuassem aquela discussão, ela choraria. E, em nenhuma hipótese, ele gostaria de vê-la naquele estado. Por mais que estivesse chateado por não ter contado sobre seus planos, não podia pressioná-la. Resignado, resolveu deixá-la sozinha.
- Você não precisa escolher. – foi a última coisa que disse antes de voltar para dentro de casa.
A moça o observou adentrar pela porta de madeira sem dizer nada. Na verdade, seria melhor ficar sozinha para que pudesse pensar em seu futuro. Apesar de querer correr até o garoto, pedir desculpas, não o fez. Sabia que, se o abraçasse, tudo ficaria bem, pois em seu abraço encontrava o rumo para desafiar o mundo. Seguiu até a piscina e se sentou à beirada, colocando as pernas na água azulada.
Nunca, eu toda a sua vida, havia ficado tão confusa. Quando se mudou para cursar ecologia, tinha em mente retornar a sua cidade e exercer sua profissão da melhor maneira possível, o que poderia demorar algum tempo para acontecer. Todavia, mesmo antes de concluir a faculdade de ecologia, havia recebido uma proposta de uma empresa sustentável de grande porte para compor a sua equipe.
Era o seu sonho e ele estava se realizando mais rápido que imaginou. No entanto, cada vez que pensava em , seu coração vacilava. Tinha consciência de que estava apaixonada, mas não sabia que esse sentimento era tão forte a ponto de fazê-la duvidar de seus planos pré-estabelecidos.
Sentindo os olhos ardendo por causa das lágrimas presas, entrou na piscina vagarosamente, apreciando o toque gelado da água. Imergiu completamente seu corpo, prendendo o ar e fechando os olhos. Se pudesse, sumiria naquele mesmo instante e não precisaria escolher. Infelizmente, assim que retornasse à superfície, daria de cara com a dura realidade.

~o~

Os quatro amigos estavam sentados na mesa da cozinha e permaneciam calados, fitando qualquer lugar, menos uns aos outros. Após ouvirem o relato de sobre as ligações que andava recebendo, digeriam as palavras da mais nova, pensando que estavam prestes a se separar.
- E... quando você vai? – foi a primeira a falar após muito tempo.
- Se eu aceitar, vou no começo do próximo ano. – ela respondeu, mordendo os lábios. – Mas não sei se vou.
- Ah qual é! – , falou descrente. – Vai mesmo perder uma oportunidade dessas?
- Eu posso conseguir algo por aqui. – a garota balançou os ombros.
- Até pode. – ele concordou, completando. – Mas você já tem uma oportunidade, perto de sua família.
- Vocês também são minha família. – ela observou.
- , pelo amor de Deus, me diz que não está hesitando por nossa causa. – fez uma careta. – Porque se for isso, eu te dou uma surra aqui e agora.
- Eu... – ela começou a dizer, mas se interrompeu, mordendo o lábio inferior.
- Eu já disse pra ela que não precisar escolher. – pela primeira vez, falou, chamando a atenção de todos.
O rapaz permanecia com a cabeça baixa, fitando as mãos sobre o vidro forrado com uma toalha florida. Apesar das palavras diretas, não teve coragem de encará-la, pois sabia que se depararia com seus olhos profundamente cativantes.
- É claro que não precisa. – o apoiou.
- , sabe onde nos encontrar. – segurou a mão da amiga. – Além disso, vamos sempre estar indo até lá encher o seu saco.
Rindo das palavras da outra, a garota apertou sua mão, mostrando que confiava no que e ela havia dito. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, se levantou e ela o encarou, confusa.
- Apenas... – ele hesitou por um segundo, mas completou sua fala. – Apenas siga os seus sonhos.
Em seguida, ele foi até a menina e depositou um beijo carinhoso no topo de sua cabeça. A seguir, seguiu para o quintal. Enquanto o observava se distanciar, não reparou na troca de olhares entre e . O casal tinha suas desconfianças, mas preferiam não dizer nada.
- Bom, o melhor a se fazer agora é resolver logo isso. – sugeriu.
- Sim, eu sei. – balançou a cabeça – Obrigada por entenderem.
- , é a sua vida, você decide o que fazer. – piscou para ela. – Vamos te apoiar sempre.
- Apenas não vá embora sem resolver as coisas. – a outra disse de forma sugestiva.
- Quê? – sem entender, ela franziu o cenho.
- deve estar jardim. – a menina balançou os ombros. – Talvez devesse ir até lá.
Os amigos também se retiraram, indo em direção a sala de estar, mas ela permaneceu ali, pensando no que sua colega dissera. Antes de partir, ela deveria resolver as coisas. E tinha razão. Não poderia ir embora com um sentimento tão grande em seu peito. Necessitava revelar a verdade e, ainda que não fosse recíproco, esse seria o sinal para seguir em frente sem pesares.
Decidida, se levantou, arrastando a cadeira e causando um grande ruído pelo piso. Ignorando o som, caminhou apressada para a porta dos fundos, indo para onde sua amiga falou que estaria. Logo pôde avistá-lo abaixado, analisando algumas plantas que, como um bom botânico, ele próprio havia a cultivado no pequeno jardim ao fundo da área externa. A cada passo, seu coração acelerava, entretanto continuou sem se importar com a timidez que a fazia transpirar pelas mãos.
Quando parou, viu o exato momento que ele usou uma tesoura especial para cortar uma das flores pelo caule. Sorriu assim que reconheceu a gérbera rosa, lembrando que ela o havia ajudado a cultivá-las, pois seus cursos eram semelhantes, ainda que o seu fosse mais abrangente. Ela, uma ecologista, e ele, um botânico. Da primeira vez que o ouviu falar sobre a escolha, estranhou, mas agora estava acostumada a vê-lo usar de delicadeza e mesmo com suas mãos grandes, cuidar daquelas plantas tão frágeis.
- É linda! – disse alto o suficiente para que ele ouvisse. – Umas das mais bonitas até agora.
- Sim, ela é. – o rapaz se ergueu, esboçando um sorriso satisfeito.
- Você fez um ótimo trabalho. – ela sorriu, se aproximando dele.
- Sem você eu não teria ido tão longe. – também chegando mais perto, o homem levou a mão livre até os cabelos soltos dela.
permaneceu parada enquanto colocava o caule da flor atrás de sua orelha, enfeitado suas madeixas com a bela flor.
- Essa é a primeira que colhi. – ele deslizou os dedos pelos fios sedosos. – É pra você.
- Obrigada. – aumentou seu sorriso.
Sem esperar que ele dissesse algo, ela diminuiu a distância entre os dois, o abraçando pela cintura. Não demorou a sentir os braços dele ao seu redor, a apertando contra si. Naquele segundo ela confirmou o que já sabia: aquele garoto era o seu porto seguro.
- Eu sinto muito. – falou baixinho, apoiado o rosto em seu peito. – As coisas não deveriam ter acontecido dessa forma, mas a proposta me pegou desprevenida.
- , está tudo bem. Não á nada demais em ficar confusa ou temerosa. É o seu futuro, afinal. – ele acariciou seus cabelos. – Eu que fui um idiota por não ter entendido logo no começo.
- , eu preciso... dizer uma coisa. – após criar coragem, a menina se afastou um pouco, o olhando nos olhos. – É sobre aquele dia, na festa.
- Eu também preciso. – ele falou, surpreendendo.
Franzido o cenho, ela se afastou de seus braços, curiosa por saber o que ele teria a falar sobre o ocorrido. Ficou parada, esperando que ele se pronunciasse e o rapaz não demorou a entender isso. Suspirando, passos as mãos pelos cabelos, procurando uma forma de dizer o que queria sem fazer uma bobagem.
- Naquele dia nós ficamos... – ele começou a dizer com cautela e continuou quando ela não esboçou reação. – E eu não sabia o que aconteceria a partir dali. Não sei se se lembra, mas perguntou se ficaríamos bem. Eu queria que ficássemos e foi por isso que não disse nada a respeito.
- Queria preservar nossa amizade. – ela deduziu.
- Sim. – ele concordou.
- , deveria ter tido bem em mente que isso não era possível. – ela riu sem humor, balançando a cabeça negativamente. – Não quando...
- Eu sei. – ele a cortou, nervoso. – Eu sei, mas... eu não queria que se afastasse de mim.
- Me afastar? – perguntou, confusa.
- Você nunca demonstrou nada além de amizade, então eu não queria perder essa parte que me ofereceu. – ele explicou. – Mas, eu queria que me desse uma oportunidade, só que para isso precisava que me desse um sinal. Eu precisava saber se sentia o mesmo que eu.
- O mesmo que você? – cada vez mais seu coração pulsava mais veloz.
- Eu amo você, ! – o garoto finalmente disse. – Amo desde o dia que a vi.
- Você... – a moça sussurrou, passando uma mão nos cabelos. – Isso não faz sentido.
- Por que não? – ele balançou os ombros.
- Porque eu amo você! – ela abriu os braços, revelando o que tanto pesava em seu coração.
- ... – arfou, sem saber como proceder. – Isso é muito confuso.
- Eu sei. – riu sem acreditar. – Você...
Mas não conseguiu concluir o raciocínio, levando as mãos até os lábios, abafando o riso que se intensificava. Ao perceber a leveza dela, foi contagiado a acompanhando em sua crise. Tentando se conter, a segurou pelos ombros, puxando-a para si. Envolveu a garota num abraço carinhoso, deixando um beijo em sua testa.
- Eu não acredito que esperamos todo esse tempo para assumir nossos sentimentos. – ela balançou a cabeça. – Justo agora.
Ao perceberem como aquilo acabaria, os sorrisos alegres em suas faces murcharam. O ano estava chegando ao fim, assim como a faculdade e a garota partiria depois disso. O agarrando com mais firmeza, afundou o rosto em sua camiseta, não acreditando que estava naquele dilema. a amava, o sentimento era recíproco, mas não poderiam ficar juntos.
- ... – o garoto a chamou ao notar como ela se afundava na melancolia. – Está tudo bem.
- Não, não está. – ela se afastou bruscamente. – Eu passei mais de quatro anos perdidamente apaixonada por você, achando que não sentia o mesmo e, agora que sei que estava errada, eu tenho que decidir entre meu futuro aqui ou em minha cidade.
- Não. – ele a segurou pelo rosto. – Você não tem que escolher. Nós nos amamos, mas isso não está acima do seu sonho. Você precisa ir e viver a sua vida.
- Mas... – ela tentou rebater, porém, ele foi mais rápido.
- Eu só preciso saber uma coisa. – mordeu os lábios. – O quanto você me ama.
- Eu te amo tanto. – ela riu abafado. – Tanto, que não consigo explicar.
Respirando fundo, ele sorriu e se aproximou, roçando seus narizes. Prendendo a respiração, fechou os olhos no instante que seus lábios se uniram num beijo singelo, mas cheio de significados. Num movimento instintivo, a garota agarrou sua blusa, como se temesse que ele a deixasse.
Quando se afastaram, permaneceram com as testas coladas e as pálpebras cerradas, na tentativa de prolongar o momento. Apenas se afastaram quando o celular de tocou. Contrariada, o pegou no bolso da bermuda e o atendeu sem olhar o visor.
- Alô! – disse sem muito ânimo. – Quem fala?
- EU SABIA! – foi a primeira coisa que ouviu.
- , é você? – fitou o visor e revirou os olhos ao reconhecer o número da amiga. – O que você quer, sua pirada?
- PELO AMOR DE DEUS, COLOCA NO VIVA-VOZ! – a outra pediu, ainda histérica.
- Tá. – o fez. – E agora?
- Eu estou tão feliz por vocês! disse mais calma. – Eu sabia que isso aconteceria um dia.
- Sabia? – franziu o cenho.
- Todo mundo sabia. – a voz surgiu ao fundo.
- Que bom que se acertaram. disse.
- Como sabem que nos acertemos? – quis saber.
- Olhem para cima. – o outro garoto disse.
A essas palavras, os dois trocaram olhares confusos, mas logo ouviram os amigos os chamando do andar superior. Ao vê-los na janela de seu quarto, que era o que dava para os fundos, não sabia se tinha um ataque de nervos ou chorava. De lá, e acenavam freneticamente, soltando gritinhos e palavras de incentivo.
Rindo daquela cena, abraçou pelos ombros e a conduziu para dentro de casa. Ele não queria discutir mais sobre aquele assunto e agradeceu por ela não insistir no fato de que, em poucos meses, estariam separados.

~o~

Os dias se passavam rapidamente e nesse meio tempo o relacionamento entre e se tornou mais forte. Era evidente o quanto se amavam e a paixão que os unia era forte como um cordão de aço.
Quando contou para sobre estar namorando , se admirou com sua atitude positiva. O garoto não demonstrou ciúmes e mesmo um pouco decepcionado, mantiveram a amizade que tinham começado.
Os garotos continuaram cantando e as meninas ainda se insinuavam para , entretanto, eles tinham olhos apenas um para o outro. Após a apresentação do TCC, não demoraram a estar livres de seus cursos, usufruindo dessa liberdade por algumas semanas. Todavia, o prazo que a garota recebeu da empresa de sua cidade natal se aproximava.
Eles não discutiam sobre aquilo, mas a carga da despedida tornava-se cada vez mais pesada, especialmente para . Ela havia pensado em desistir diversas vezes, porém, sabia que seus amigos não permitiriam que ela deixasse seus sonhos para trás, por isso seguiu em frente e fechou o contrato. Dali a quatro dias, ela partiria.
O observou, o encontrando pensativo. Mesmo que olhasse diretamente para a televisão, podia perceber que sua mente estava em outro mundo.
- No que está pensando tanto? – perguntou, o tirando de seus devaneios.
- Nada. – ele disse, se ajeitando.
Eles estavam sentados no chão da sala, maratonando séries na netflix. Enquanto a jovem comia pipoca, sentando entre suas pernas, seu namorado acariciava seu braço, distraído. Desconfiada, deixou balde de lado ao perceber o tom de sua fala.
- Sei que está escondendo algo. – semicerrou os olhos em sua direção.
- , já disse que não é nada. – ele insistiu.
- . – a garota inclinou a cabeça para o lado.
- Apenas... me dê um pouco de fé. – ele falou, sacudindo a cabeça. – Estou bem.
Sem entender o que aquilo poderia significar, balançou a cabeça uma vez, voltando a se aconchegar em seus braços. Quando ao rapaz, meditava se o que pretendia fazer valeria mesmo a pena e sua mente o levava a apenas uma conclusão: sua filosofia e religião era buscar viver em seu coração. Ele precisava daquela mulher em sua vida.

~o~

O dia da partida finalmente chegou. Diferente dos outros dias, a casa estava silenciosa e até mesmo , que costumava ser barulhento, não tinha dado um pio desde o café da manhã. Juntos, ajudaram a arrumar as malas no porta malas e foram com ela até o aeroporto.
Após o check-in, foram até a área de espera e ficaram lá até ouvirem a chamada para o voo. Pesarosa, se levantou, tentando conter as lágrimas que ameaçavam escapar.
- Sabe, você pode chorar agora. – , já em prantos, disse ao agarrá-la num abraço.
- Eu sei. – seguindo seu conselho, deixou que o choro fluísse, retribuindo a intensidade de seu gesto. – Eu te amo.
- Eu também te amo, sua chata. – ela choramingou e ela riu entre o choro.
Em seguida, abraçou , que a fez tirar os pés do chão.
- Logo, logo vamos até lá. – ele disse antes de largá-la. – Nem vai dar tempo sentir nossa falta.
- Tomara. – riu de seu comentário.
Por fim, se aproximou de , que permanecia com as mãos nos bolsos. Ao vê-la perto, ergueu o rosto e sorriu de canto ao encontrá-la com os braços abertos. Sem medo, o envolveu pelo pescoço, sentido suas mãos firmes em sua cintura.
- Eu amo você. – sussurrou em seu ouvido. – Obrigada pelos melhores meses de minha vida.
- Eu te amo. – ele disse no mesmo tom. – Obrigada por ser exatamente quem você é.
Se afastamos e ele lhe deu um longo beijo despedida que tinha um gosto salgado por conta das lágrimas. Após se separarem, a garota pegou sua maleta, pronta para entrar no avião.
Depois da última verificação de passagem, entrou e seguiu até sua poltrona, que por sorte era a da janela, ainda que não fosse ver nada além de nuvens. Chorando ainda mais do que antes, se encolheu e colocou fones de ouvido, disposta a curtir a fossa até chegar ao seu destino.
Ficou ali por longos cinco minutos até sentir alguém a cutucar. Pensando ser uma das aeromoças, suspirou cansada e abriu os olhos, pronta para dispensar qualquer serviço. No entanto, assim que encontrou aqueles olhos azuis que a enchiam de luz, a encarando tão de perto, perdeu o ar por um segundo.
- ... – murmurou, sem acreditar. – O que faz aqui?
- Como assim? – ele se fingiu de desentendido – Essa é a minha poltrona. Pelo menos é o que diz a passagem.
- Você só pode estar de brincadeira. – a garota riu por entre os lábios.
- E por que estaria? – ele deu de ombros.
- Você vai comigo? – ela continuava confusa. – Mas sua vida é aqui!
- Eu sei disso. – ele concordou. – Mas eu preciso passar um tempo ao seu lado, preciso de mais um pouco de você, para descobrir o quanto vale a pena tentar.
- E quanto tempo seria esse? – a menina não sabia se ria ou chorava mais.
- O tempo que precisarmos. – ele sorriu e acariciou seu rosto. – É hora de descobrir o nosso futuro, . Juntos.
- Juntos. - ela sussurrou.
Sorrindo, o rapaz se aproximou, selando seus lábios mais uma vez. Sabia que o que fazia era loucura, mas não se importava. Por faria qualquer coisa. Ela era sua luz, sua liberdade, seu tudo. Juntos, poderiam descobrir o quão forte era o sentimento que compartilhavam. Só precisavam um pouco mais um do outro, precisavam de mais fé e de amor. O restante se resolveria com o tempo, apesar de mais um minuto ser suficiente para que fossem felizes.





Fim



Nota da autora: Sem nota.



Outras Fanfics:
04. Celestial
Ficstape Celestial - RBD


Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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