Ah, o amor... Eu gostaria de começar, dizendo o quão boa eu sou nisso de amores, mas eu não sou. Na verdade, eu sou melhor com números complexos do que com relacionamentos. Pelo menos, quando eu estou envolvida neles. É claro, não que eu já tenha me envolvido em algum, mas todas as minhas tentativas me fizeram entender bem que talvez eu apenas não tenha nascido para isso. Eu ainda consigo me lembrar de todas as vezes em que me apaixonei por alguém, na época do Ensino Médio. Havia os que eram apenas aqueles com os quais eu nunca conversava e aqueles com que eu trocava duas ou três palavras, sem algum surto, mas em todos esses casos eu nunca estava sozinha. Eu não acho que tenha um recorde para isso, mas eu acho que, assim como o homem mais alto ou a mulher mais baixa, eu também merecia o meu lugar no livro dos recordes, como a pessoa que mais vezes teve a função de ajudar as suas paixões platônicas com as suas amigas. Deus, eu não acho que exista alguém no mundo que tenha passado mais por isso do que eu. É até cômico pensar que eu consegui fazer com que todos os garotos de que eu gostei se apaixonassem por alguém próximo a mim. É anormal e merece ser estudado. Na verdade, talvez eu apenas tenha essa missão no mundo e apenas precise aceitar, acenar, sorrir e fingir que estou bem, apenas para, quando chegar em casa, chorar. Ah, e como eu chorei. Mas eu sei que hoje tudo isso valeu a pena. É claro, não para minha mãe, que realmente achava que teria netos ou para minhas amigas, que achavam que eu era engraçada e acharia um namorado na faculdade, mas valeu a pena para mim. Eu não teria um das colunas mais lidas no jornal sobre autoajuda do país, se não tivesse passado por tantas coisas e superado tudo sem uma tentativa de suicídio. O problema da minha vida perfeita e bem sucedida era que, toda vez que alguém se casava, sempre tinha aquele engraçadinho que me fazia lembrar o quão ruim era alguém de vinte e cinco anos, virgem e solteira. E eu odiava casamentos...
— Eu não aceito um não como resposta, . – A voz da minha melhor amiga no telefone não era tão amigável como sempre. Eu até poderia imaginá-la bufando por todo o caminho.
— Eu nem disse nada – disse, num tom defensivo. – Eu só acho que me ter como madrinha pode trazer má sorte ao casamento.
— Isso é ridículo – a ouvi bufar. – Você é a minha melhor amiga e eu quero que você pegue um avião e venha para cá.
— Já imaginou se você cai na entrada? Seria um ótimo hit no youtube, mas seria o pior mico da história – continuei dizendo, sem me importar com a sua ordem de ir até lá. – Ou ele foge... Liza, e se ele fugir? Eu nunca me perdoaria...
! – gritou, me interrompendo.
— Tudo bem... – me rendi, me jogando no pequeno sofá que estava atrás de mim. Afastei o celular da orelha, quando ouvi os primeiros gritos do outro lado. – Eu não uso vestido. – Lembrei-lhe, rapidamente.
— Meu casamento, minhas regras, gata – riu, sarcástica. – Eu tenho que decidir a cor das flores. Eu quero você aqui, um mês antes da grande data.
— Eu quero um porsche vermelho e nem por isso tenho um. – Revirei os olhos, mesmo sabendo que ela não estava lá para ver a minha cara de tédio.
— Você nem sabe dirigir, .
— E você nem sabe a diferença de azul marinho e roxo, e nem por isso eu estou te julgando – disse.
— Um mês – falou, ríspida, antes de desligar o celular.

“You fool my heart, with every note...”
(Você engana o meu coração com todas as notas).


O mundo é um lugar egoísta. Isso é o que eu digo para mim, quando fico feliz com a sensação de apenas vender por causa do sofrimento alheio. Eu sou quase uma Paola Bracho da autoajuda. Sofra e eu poderei comprar um novo apartamento ou gastar o dinheiro com um presente de madrinha de casamento. Eu não fazia ideia do que tinha feito para merecer a tortura daquilo. Eu ainda tinha pesadelos com a última festa das minhas amigas a que eu fui. Elas me empurraram para o primeiro que apareceu na minha frente. Foi tão vergonhoso que eu fiquei semanas sem falar com elas. Eu não precisava de alguém para me lembrar do quão ruim era ser encalhada, eu me lembrava disso todas as manhãs, quando todos os casais do mundo resolviam passar por mim, se beijando. Eu tinha algum tipo de imã para aquele tipo de coisa, porque não era meramente possível.
— Mãe, eu sei. – Estávamos naquela mesma discussão havia meia hora e eu nem sabia mais sobre o que era o assunto. Eu apenas concordava com tudo o que ela dizia do outro lado, esperando que isso encurtasse ao máximo o assunto. “Você é encalhada” É, eu sei. “Você é sozinha” É, eu sei... E aquilo nunca terminava.
— E agora? Outro casamento? O quão vergonhoso é você aparecer lá sozinha? Você tem vinte e cinco anos. – Mesmo do outro lado do país, eu conseguia vê-la com aquele grande dedo apontando para mim, a cada constatação que ela fazia.
— Nem todas as mulheres do mundo precisam se casar. – A tática de concordar não tinha funcionado, então talvez algo mais energético. Talvez, desligar na cara dela... Era tão tentador.
— Ninguém é feliz sozinha – disse.
— Felicidade é algo relativo – lembrei-lhe. – E eu preciso desligar. Eu tenho alguém me esperando. – Menti, torcendo para que aquilo acabasse logo.
— Quem? – A animação repentina dela foi algo assustador.
— É numa casa de stripper. Ele está esperando meu dinheiro e mais trinta mulheres, mas todos os homens esperam isso então... – deixei a voz morrer, como se realmente estivesse pensando naquilo.
Santana! – Tentei disfarçar o riso.
— Nos vemos no seu aniversário e eu juro pedir para ele não aparecer dentro do bolo, usando uma fantasia de Batman. – Desliguei o telefone antes que a pudesse ouvir reclamar sobre algo.

“Yeah, you put me in the spotlight.”
(Sim, você me colocou no centro das atenções).


Andar por aquela cidade, ao som da sua música favorita, e não se sentir a rainha daquele mundo impiedoso era impossível. Eu nunca achei que caminhar pela tumultuosa cidade de São Paulo, apenas para ir até a sua lanchonete predileta, seria tão revigorante, mas, após alguns meses morando lá e depois de algumas discussões matinais com a minha mãe, eu percebi que não havia terapia melhor. Durante aqueles minutos, onde ninguém se importava com ninguém, onde ninguém reparava em ninguém, onde nenhum amor podia ser formado, onde nada era importante o suficiente para ser reparado. Liberdade. Eu me sentia como se tudo estivesse ao meu redor, mas ao mesmo tempo eu estaria sozinha. Era louco e sem nenhum sentindo, mas há muitos anos eu parei de procurar sentindo na vida. Principalmente, na minha.
– cantarolei, ao entrar na pequena cafeteria a que eu ia desde que havia chegado ao estado. Era um espaço aconchegante, pequeno e não lotado o suficiente para me fazer odiá-lo.
– respondeu, saindo detrás do balcão e indo até onde eu estava. – A que devo a visita? Brigou com a sua mãe de novo? – Perguntou, indo comigo até a última mesa vazia. Ele era a única pessoa com que eu mantinha uma relação naquele lugar. E foi um dos poucos por quem eu não acabei me apaixonando, mesmo ele sendo o tipo de cara por quem qualquer garota da minha idade se apaixonaria. O porte alto e magro, mas, ainda assim, com maravilhosos quadradinhos... E aquele cabelo preto simples e baixo, que lhe dava um ar tão jovem. Ele era o tipo de cara por quem eu morreria, mas ele também era o único com quem não valia a pena perder um dos meus ataques de paixões instantâneas.
— Casamento, blá, encalhada e blá... – fiz careta, ao responder-lhe. – O de sempre.
— Casamento? – Assenti, ao vê-lo pegar o bloco de notas no bolso para começar a anotar o meu pedido. – De quem?
— Liza – respondi, sabendo que já tinha comentando por alto sobre a minha amiga. – Torta de chocolate e um copo de leite. – Pedi rápido, enquanto brincava com o cardápio na mesa.
— Me deixa adivinhar: você será a madrinha? E sua mãe acha um absurdo você ir sozinha? – Comentou, não tirando a atenção do bloco de notas. – Você pode me convidar, se quiser – riu.
— Nah! – dei de ombros. – Não quero me apaixonar por você. Eu até consigo superar sua masculinidade maravilhosa nesse uniforme horrível, mas em um terno? Definitivamente, você seria aquele que acabaria com o meu coração.
— E não queremos isso, certo? – perguntou, já se preparando para ir pegar o meu pedido.
— É claro que não – neguei com a cabeça e apontei para a mulher na mesa ao meu lado, que não tirou os olhos desde que ele se aproximou. – Ela caiu de amores por você. Vá lá, quebre o coração dela e, no final, ela comprará o meu livro.
— Nós somos algum tipo de máfia? – riu, tentando soar como se aquela fosse uma pergunta séria.
— Máfia é uma palavra muito forte, amor. Eu prefiro algo como duas pessoas unindo o útil ao agradável. Você consegue uma mulher para dividir a cama e eu consigo mais uma leitora. – Sorri, como se aquilo fosse óbvio.
— Você se tornou impiedosa – disse, por cima dos ombros, enquanto ia para a mesa ao lado. Era impossível não rir, ao observar a cena de uma mulher nos seus vinte três anos – talvez menos – cair de suspiros por um cara como . Não sei quem era mais óbvio naquela situação: o homem à procura de uma mulher para sair ou ela à procura da primeira demonstração de afeto, para se segurar nela como uma boia salva-vidas. Ah... Eu já tinha saído daquela água há muito tempo.

“It’s a such a joke.”
(Isso é uma piada).


— Eu já estou aqui, Liz. – A minha atenção era divida entre segurar o celular perto do meu ouvido, com o pescoço, e carregar as minhas malas pelo saguão movimentado. Deveria parecer uma cena patética de uma mulher desajeitada. Eu sempre achei que, depois de alguns anos, minha coordenação motora iria melhorar. Eu estava enganada. – Quem você disse que iria vir me buscar? E por que a pessoa não está aqui? Eu estou quase batendo na cara das pessoas e elas estão me olhando feio. – “Desculpa”, sussurrei para uma senhora, depois de passar com as rodinhas da mala por cima do pé dela. – É sério.
— Ah... Essa é uma pergunta interessante e eu tenho uma resposta interessante pra ela também. – Ao ouvir a voz de Liza diminuir o tom, eu sabia que ela estava mentindo. Ela e aquele sotaque mineiro encantador que enganava qualquer um.
— Eu juro que se aparecer algum cara aqui que eu não conheço, mas, mesmo assim, você acha perfeito pra mim, eu te mato – respondi, indo para um canto mais vazio, onde eu poderia deixar as minhas malas e falar ao telefone sem problemas.
— Você o conhece. – Eu poderia ouvir o riso nervoso dela, mesmo há quilômetros de distância. – E é esse o problema...
— Fala logo quem é. Eu quero sair desse lugar – a interrompi, sabendo que ela daria voltas e voltas até chegar ao assunto.
— Então, vamos lá. Eu não sei se você sabe, mas meu noivo é engenheiro. Ele sempre comentava sobre o amigo dele, mas eu nunca soube quem era, porque ele sempre estava viajando pra empresa e tudo mais. Então o que eu não esperava era conhecer esse homem, e (olha que louco!) você o conhece também – riu, nervosa.
— Quem é? – Perguntei, impaciente.
— O – parou. – O , . – Completou, me fazendo entender de quem estávamos falando, mesmo que, no fundo, um sinal já estivesse tocado, ao som do primeiro nome.
— Seu noivo o conhece? – A informação estava sendo processada muito lentamente e aquela era a única coisa sensata que eu lembrei de dizer.
— Ele conhece – suspirou. – Você está bem com isso?
— É claro que estou. Eu estou bem. – Eu lhe respondi tão rápido que, no fundo, eu nem sabia o que de fato havia dito. Apenas agora, o meu cérebro tinha distribuído a informação de que eu o veria. Depois de sete anos, um coração partido e 458 páginas de um livro.
? – Ouvi Liz chamar, fazendo-me voltar a atenção ao telefone, fazendo com que a nuvem de lembranças apagasse na minha mente.
— Pode falar, estou ouvindo – disse.
— Você está bem mesmo? Quer dizer, já se passaram alguns anos, cinco, sei lá...
— Sete. – Lembrei-lhe.
— Sim, sete. E vocês são adultos, agora. Eu não achei que fosse um problema, mas, se for, eu falo com David e mudamos algumas coisas. – A voz dela era calma e quase receosa, mas eu também poderia identificar alguma pena, ou qualquer coisa. E eu odiava isso.
— Eu estou legal – repeti, mais para mim do para ela. – E ele deve estar barrigudo, careca e outras coisas mais.
— Sobre isso... – deixou a voz morrer, mas riu.
— Ele está um gato, né? – perguntei, torcendo para que a resposta fosse “não”.
— Muito melhor do que antes – respondeu simplesmente, o que me fez bufar. – Ainda está bem com isso?
— Depende. Se ele não aparecer aqui para me salvar neste exato momento, eu escreverei um livro apenas sobre o quanto ele é imbecil e será um sucesso – parei. – Ou ele pode me salvar e tentar não ser chamado de idiota por mim e por outros milhares de leitores. – Sorri, vitoriosa, apesar de saber que ela não poderia ver. – Falando nisso, ele sabe que sou eu? – perguntei.
— Não faz ideia – riu. – Boa sorte. – Ela sequer me deu chance de dizer “tchau” e apenas desligou, sem nenhum motivo ou consideração. Olhei para o celular, incrédula, e disparei pequenos palavrões. Eu teria que andar por todo aquele saguão, com duas malas, apenas tentando encontrar o cara que eu menos quero ver. O quão ruim poderia ser a minha vida? Bufei, guardei o celular na bolsa e voltei a puxar as malas de volta para o saguão principal do aeroporto. Minha cabeça virava em todas as direções, apenas à procura de alguém que pudesse se parecer com , mas, apesar de eu me lembrar de como ele era anos atrás, eu não poderia imaginar com que ele se parecia agora. Ele poderia ter virado o cara mais “maromba”, como ele disse que faria, ou poderia ter seguido meus conselhos e permanecido do mesmo jeito de sempre. Eram muitas opções e eu não estava contente com nenhuma delas. E eu não poderia depender dele para me achar no meio de tantas pessoas. A única coisa que permanecia igual em mim era o meu óculos, e nem era algo importante, mas sim um costume, usá-lo. Meu cabelo, antes curto e escuro, agora era longo, liso e com as franjinhas que eu não usava desde os cinco anos. Meu peso tinha diminuído consideravelmente, depois de incansáveis sessões de pilates e boxe. Seria impossível nos reencontrarmos, na verdade, e essa era até uma ótima constatação para minha sanidade. Parei e comecei a procurar o celular na bolsa. Eu ligaria para minha melhor amiga, a xingaria e depois perguntaria como ele parecia, apenas para não morrer naquele lugar.
— Eu achei que, depois de alguns anos, você ficaria menos desatenta – ouvi uma voz rouca atrás de mim, mas não me atrevi a virar para ver o dono dela, apesar de saber exatamente quem era. Eu nunca esqueceria aquela voz... – Não vai falar comigo, ? – riu.
— Eu achei que mofaria nesse lugar – respondi, tentando manter minha voz firme, mas ainda fingindo estar procurando algo dentro da bolsa. Nunca olhe nos olhos...
— Eu não faria isso com você. – “É claro, você faz coisa pior”. – Você pode parar de desviar o olhar? – Ele já estava de frente para mim, mas eu estava lutando com todas as minhas forças, até que ouvi aquela risada. Eu não achei que seria tão afetada por ela, mas eu também não achava que teria que o reencontrá-lo, então não foi nada surpreendente perceber o quanto meu estômago afundou, ao vê-lo sorrindo para mim, do mesmo jeito que ele sorria, sete anos atrás. Foi inevitável, minha atenção desviou para sua orelha, apenas para ver se o brinco estava lá... Surpresa! Ele tinha um de cada lado, agora. – Sim, eu coloquei outro – disse, me fazendo voltar a atenção para ele.
— O que? – perguntei, confusa.
— Eu percebi que você reparou – sorriu, me fazendo virar a cabeça à procura de um lugar em que não tivesse seus olhos em cima de mim.
— Ah, na verdade, não – respondi, focando o meu olhar em uma senhora ao meu lado, que brigava com sua neta. “Por favor, vovó, venha aqui e brigue comigo”.
— É claro. – Foi em direção a uma das minhas mas, mas eu a peguei rapidamente o olhando assustada. – Eu levo – disse ao perceber minha feição.
— Eu posso levar, obrigada. – Sorri sem mostrar os dentes. Consertei a bolsa no meu ombro, endireitei minha postura e puxei uma mala de cada lado caminhando à sua frente sem esperar uma resposta ou qualquer coisa. Meus passos eram fortes e eu até poderia dizer que quem não soubesse da minha história sobre ele diria que éramos apenas conhecidos, mas por dentro eu poderia sentir todos os meus órgãos perdendo a sua função. E pro meu azar, a única coisa que parecia funcionar dentro de mim era o meu coração, e ele batia mais forte do que bateu por anos.

“You’re so confused”.
(Você é tão confuso).


O caminho até o estacionamento foi em completo silêncio. Depois de eu perceber que não sabia para onde tinha que seguir, apenas o deixei ir à frente e o segui por todo o caminho. A minha armadura de mulher forte e independente soava muito convincente para qualquer pessoa, menos para mim. Aquilo era uma merda, e a bunda dele era uma coisa muito indiscreta. “Merda, talvez eu devesse voltar a ficar à sua frente”.
— É o vermelho – apontou para o carro à nossa direita. Ótimo, a única coisa que eu queria era ficar em um cubículo ao lado dele, sem ter para onde escapar, por longas horas. Ele abriu as portas e eu não esperei muito para apertar os passos e entrar antes dele. Respirei fundo e, antes que pudesse perceber, já estava inalando todo o seu maravilhoso perfume. “Merda, merda, merda”. – E então, ? – perguntou, virando a cabeça para começar a tirar o carro da vaga. Eu não queria conversar, definitivamente.
— E então... – respondi simplesmente, pegando o meu celular e procurando algum tipo de abrigo social nele, mas não tinha ninguém online no momento e seria muito vergonhoso ficar apenas lá, encarando-o, sem nenhuma função. Eu precisava encarar aquilo como uma mulher adulta de vinte e cinco anos.
— Eu soube que virou uma jornalista de sucesso – sorriu, focando toda a sua atenção na estrada.
— Algo assim. – Eu poderia até agradecer-lhe pelo coração partido, mas eu não acho que ele saiba disso. – Coração partido é algo que faz sucesso.
— Eu li... – parou. – Algumas colunas. – Eu senti como se ele soubesse de algo e foi impossível não corar, mas tentei parecer normal.
— Sério? – Fingi surpresa. – “Interessante”. – O que achou?
— Eu achei... – sorriu. – Sincero. – Agora, sim, eu estava surpresa. Não era o que eu estava esperando.
— Sincero? – perguntei, esperando que ele completasse seu raciocínio.
— Quer dizer, você apenas parecia... Você. Era como se fosse o seu diário e você o escrevesse apenas para se sentir melhor. Era como se você não soubesse que outras pessoas leriam aquilo, como se você não se importasse. – Olhou para mim, mas não por muito tempo. Eu lhe agradeci mentalmente por isso. – Exatamente como a garota de anos atrás. A minha garota favorita. – Abaixei a minha cabeça, contando até dez, apenas para deixar todas as lagrimas dentro de mim, presas em um lugar onde eu não era afetada por ele e todas as suas falsas promessas. Um dia, eu ainda lhe perguntaria por que ele fazia aquilo: me puxava para perto, apenas para me empurrar, dois segundos depois. Eu nunca saberia como agir perto dele e de toda a confusão que ele causava. Eu podia interpretar milhares de textos, acertar todas as questões de português do vestibular – como eu já tinha feito –, mas eu nunca conseguiria entender o significado das palavras dele, das mais simples até as mais complicadas. – Posso te fazer uma pergunta?
— Claro – sussurrei, sem animação.
— Em uma semana, você comentou sobre o garoto que te fez começar a escrever, e foi bem na época em que nos afastamos. Eu sempre quis saber se eu o conhecia. Eu não me lembro de você ter comentado algo assim pra mim, e – bem – éramos alguma coisa... Quer dizer, eu o conhecia? – O destino fez o sinal ficar vermelho, bem no fim da pergunta, o que o fez virar para me encarar à procura de alguma resposta. Mal sabia ele que eu também procurava algo para responder.
— Não – neguei, forçando um sorriso e encarando o sinal, como se eu tivesse algum poder de fazê-lo ir para o verde, apenas para ele parar de me encarar. – Foi alguém ai...
— Ah, sim – sorriu, voltando sua atenção para a estrada. Eu quase poderia afirmar que algo diferente aconteceu naquele seu sorriso.
O resto da conversa não aconteceu. Não havia engarrafamentos, nem nada que nos prendesse, por mais do que o necessário, dentro do carro. Eu ainda tentava me recuperar de como a voz dele soou ao me chamar de garota favorita. Estávamos parados na frente da casa da Liza e eu não esperei muito para ir até o porta-malas, para pegar a minha bagagem. Eu não queria que tivesse qualquer tipo de contato com ele, que não fosse extremamente necessário nessas semanas.
— Por que você não deixa eu carregar? – perguntou, levantando o capô do carro.
— Eu posso fazer isso. Não preciso de homens para carregar as coisas. Eu fiz isso, todas as vezes, nas minhas viagens – respondi, sem encará-lo, apenas as pegando e colocando fora do carro.
— Mulher independente – riu, me seguindo, percebendo que eu já havia começado a andar.
— Engraçado – sorri sem humor, tocando pela terceira vez a campainha da casa, esperando que alguém me socorresse daquela tortura que era ter que ouvir a voz dele. Eu não conseguia deixar as minhas pernas paradas. Elas apenas ficavam se mexendo, exatamente como no meu tic nervoso de anos atrás. A presença dele ao meu lado apenas tornava tudo pior.
— Você quer conversar sobre... – A voz dele foi interrompida pelo som da porta se abrindo e eu não esperei muito para passar pela minha amiga rapidamente, sem ao menos cumprimentá-la. Eu apenas precisava de um lugar sem ele por perto.

“You play my heart like it’s a game”.
(Você joga com meu coração como se fosse um jogo).


Eu já estava instalada no quarto de hóspedes e agora observava minha melhor amiga andar de um lado para o outro, apenas tentando me explicar por que eu não deveria agir como uma garota amargurada de vinte e cinco anos de idade. Patético, eu não estava amargurada.
— E você não pode tratar ele mal. – Terminou, depois de um imenso discurso que eu fiz questão de ignorar tanto quanto eu ignoro os da minha mãe. – Está prestando atenção?
— O suficiente. – Revirei os olhos ao me jogar de costas na cama, balançando as minhas pernas para fora dela.
— Isso é tão idiota – comentou sem humor. – Você que resolveu voltar a falar com ele, depois de tudo. Eu não sei qual é o seu problema. Foi uma escolha sua. Eu sempre te avisei que aquilo daria errado.
— Tanto faz – murmurei. – Eu não estou nem ai.
— Então vai ser assim? – Levantei apenas a cabeça para assentir. – Sua melhor amiga está implorando pra você agir normalmente. – Apoiei-me em meus ombros e a encarei à minha frente,em uma situação ridícula, fazendo beicinho. – Por favor.
— Você está me devendo uma, por toda a sua vida – bufei, voltando a deitar.
— Você é a melhor – riu, se jogando ao meu lado na cama.
— Já me disseram isso – sorri. – Como isso de ser madrinha funciona? Eu sou só convidada, geralmente.
— Ah, essa é a parte legal. – Virou para mim. – Vamos escolher os nossos vestidos, você vai me acompanhar nos lugares, me ajudar a escolher tudo...
— Desculpa, mas onde fica a parte legal? – perguntei, interrompendo-a.
— Há-há – respondeu. – É sério. Será divertido.
— Espero que sim – comentei, vendo-a levantar e sendo puxada, logo em seguida. – Não... – Fiz força para continuar deitada. – Eu não quero ter que vê-lo...
— Vamos – puxou. – Temos sobre o que conversar.
— Isto é tortura – comentei, me deixando ser levada por ela até o corredor, onde ela parou bruscamente e virou para mim, confusa. – O que? Eu falo sério sobre a tortura.
— Vocês vão conversar sobre o lance? – perguntou, em voz baixa, fazendo aspas ao dizer a última palavra.
— Eu não acho que ele lembre – dei de ombros. – Sobre aquilo. – Imitei seu gesto, rindo.
— Ótimo – concluiu. – A ultima coisa que eu quero é um clima entre meus padrinhos de casamento.
— É – sorri. – Eu também não acho que seria algo importante pra ele. – Liza e eu chegamos à sala, vendo um jogado, despreocupado, no sofá, enquanto digitava algo em seu celular.
— Meus padrinhos – sorriu ela, ficando à nossa frente. Eu já estava sentada ao seu lado, mas a uma distância considerável. – Eu mal posso acreditar que o mundo é tão pequeno.
— Eu também não – comentei, baixo, mas ainda atraindo o olhar de .
— De qualquer forma – continuou. – Eu espero que vocês se divirtam no meu casamento.
— Eu adoro casamentos, então não vai ser difícil. – Olhei-o, incrédula. Ele amava casamentos. É claro que ele amava. Quem não amaria? Talvez uma garota amargurada como eu, mas definitivamente não alguém como ele. Afinal, era ele quem quebrava os corações. – ?
— Odeio casamentos – disse, firme, recebendo o olhar nervoso de Liz e o curioso de . – Eu vou tentar conviver com isso – disse rapidamente.
— Deus, faça isso funcionar. – Quase não ouvi a voz da minha amiga, mas eu poderia rir, porque não havia no mundo alguém que quisesse que aquilo funcionasse mais do que eu.

“What good is a love song?”
(Quão boa é uma canção de amor?).


Eu não fazia ideia de quando o meu problema com o amor tinha começado, mas talvez tenha sido quando eu comecei a perceber que a minha vida não tinha se tornado um conto de fadas da Disney, mas sim aquela adaptação horrível do meu livro favorito. É claro, talvez eu fosse aquela atriz com cuja escolha ninguém concorda e que é odiada por todos em um raio de cinco metros. Eu estava sentada entre David e , enquanto Liza conversava com uma senhora que aparentavam ter seus cinquenta anos, vestida como uma verdadeira dama. Eu batucava as minhas mãos, nervosa, nos meus joelhos, esperando que aquilo terminasse logo. Liza disse que seriam apenas as escolhas das flores. Bom, eu não sabia o quão difícil era escolher entre orquídeas e rosas. Na verdade, eu nem sabia a diferença entre elas. Ter que ficar perto do apenas era difícil para mim. Eu consegui evitar todo e qualquer tipo de aproximação, até uma semana depois da nossa chegada, mas o destino apenas continuava pregando peças.
— Nossa... – Comentou David, depois de longos minutos em um completo silêncio entre nós três. – Que coincidência vocês dois já se conhecerem, né? Liza nunca comentou nada comigo.
— Sim – murmurei, tentando encerrar o assunto o mais rápido possível.
— Nos conhecemos de um jeito engraçado – disse , olhando para seu amigo. – Durou algumas semanas, mas valeu a pena – sorriu, ao olhar para mim.
— É – sorri sem humor. – Divertido.
— Quando Liza disse que vocês se conheciam, eu fiquei muito feliz – riu. – Esse aí nunca comentou nada, .
— Ah, cara, eu não fazia ideia. – Legal, eu apenas estava no meio de uma longa conversa entre amigos. “Poxa, que vida divertida”. – Perdemos o contato completamente, não é? – olhou para mim e eu apenas assenti. – A única coisa que eu sabia sobre ela era a sua coluna. Minha ex-namorada era assinante da revista.
— Júlia era divertida. Uma pena vocês terminarem – disse David. – Ela ficou muito puta quando descobriu que não seria a madrinha com você, né?
— Crises de ciúmes. Eu não sei como aguentei por tanto tempo – sorriu. – Ela era ótima quando não começava a discutir por nada.
— Você queria casar com ela, – eles riram juntos, como se aquela fosse a piada do século. Eu apenas mantinha meu olhar perdido na conversa enérgica da minha melhor amiga. Realmente, ouvir meu ex comentando sobre o seu quase casamento era o melhor que eu merecia.
— Eu me entrego às paixões erradas, mano – suspirou e eu apenas revirei os olhos. – Você se lembra da Clara?
— Difícil esquecer, mas achava a Flávia mais legal – respondeu. – Liza a odiava.
— Eu nunca tive sorte com mulheres. – Eu não pude deixar de rir. Na verdade, eu não acho que eles tenham prestado atenção em mim antes, até aquela hora. – O que? – perguntou, curioso.
— Talvez elas não tenham tido sorte com você – dei de ombros.
— Ah, , eu não sou de todo mal. – Encarei-o, me arrependendo logo em seguida. – E foi você quem terminou comigo.
— É claro – tentei soar séria, mas, com a risada de David, pude perceber que não tinha funcionado.
— Você deveria agradecer ao , . Se não fossem todos os corações partidos que ele tem deixado por aí, não teria tantas meninas lendo sua coluna na revista. – Tentei rir, mas não deu muito certo. Talvez tenha soado como uma careta até. Ele não fazia ideia do quanto eu deveria agradecer a seu melhor amigo por ter me colocado no centro das atenções.
— Definitivamente, ele tem uma ótima parcela de culpa nisso – comentei, agradecendo ao ver Liza apertando as mãos da senhora e caminhando na nossa direção. Eu até poderia ficar feliz, mas, ao ouvi-la dizer que seria a hora de provar os vestidos, eu apenas quis me matar. Aquele seria o mês da minha vida.

Uma semana até o casamento

Eu tentava de todas as formas escapar de conversas onde ele estivesse inserido. Na verdade, eu estava fugindo de todas as coisas que me lembrassem relacionamentos, o que não é uma missão fácil, quando você é madrinha de casamento da sua melhor amiga. Naqueles momentos, toda a sua adolescência passa pela sua cabeça. Os corações partidos, os relacionamentos frustrados, todos os “amores à primeira vista” que passaram por você no ônibus e todos os “E se...” que todo fim de relacionamento traz como uma lembrança.
— Você tem me evitado tanto – ouvi sua voz atrás de mim e não me virei para me certificar de que era dele. Eu o conhecia bastante.
— Eu tenho evitado o casamento – respondi, bebendo um gole do refrigerante, já buscando uma saída para aquela conversa. – Você não é o centro do meu universo.
— Você quer conversar sobre isso? – Respirei fundo, antes de me virar e olhar para o homem que estava à minha frente.
— Eu não sei sobre o que estamos falando – dei de ombros, focando em um ponto atrás dele. – E não to interessada em saber – o interrompi.
— Eu sinto sua falta. – Levei meu olhar até ele e não pude evitar rir. Essa era a risada mais verdadeira que eu tinha soltado naquele mês. – O que é engraçado?
— Sentiu minha falta? Você só pode estar brincando comigo – bufei. – Você desapareceu por anos.
— Foi você quem sumiu. – E lá estava o mesmo homem de anos atrás. Alguns anos a mais, um brinco diferente, mas o mesmo jeito de jogar toda a culpa em alguém que não fosse ele.
— Você não mudou muita coisa – me limitei a dizer e dei as costas para ele. A festa que estava acontecendo na sala parecia muito mais interessante que uma conversa com e todo o seu jeito que me cansava. Ele era mais confuso do que aquelas tempestades no fim de uma tarde ensolarada. Você nunca se lembra de levar uma capa para se proteger, por mais previsível que ela seja. E ele era.
— Eu nunca entendi o porquê de você ter ido embora. – Senti suas mãos me puxando para perto dele e, por mais que meu cérebro insistisse em mandar comandos para meu braço se mover para longe, ele apenas permanecia lá, sentindo seu toque. – Eu leio todas as suas colunas com a esperança de me ver lá. Pelo menos, eu saberia que você ainda se lembrava de mim.
— Você nunca foi muito bom em se enxergar nas coisas que eu escrevia – comentei, lembrando-me da nossa primeira briga, quando eu cantei uma música que eu tinha escrito para ele.
— Você ainda é a única que escreveu uma música sobre mim – riu, como se gostasse das lembranças.
— Você lembra? – não pude evitar perguntar. – Da música.
Eu achava que isso seria sobre amor, mas acabou e não foi. – cantarolou e eu não conseguia parar de encará-lo. – Eu achava que você seria indolor, mas doeu.
— Eu... – O rosto dele se aproximava e eu já não tinha certeza se meu interesse ficava nos seus olhos, na sua boca ou na sua mão nas minhas costas, me puxando para perto dele. Foi quando eu senti seus lábios sobre os meus, e sua mão passear até a minha nuca. Eu não achava que ele ainda faria tanta diferença na minha vida, mas ele ainda era algo a ser comentado. Ele ainda era o mesmo garoto que me fez começar a acreditar que eu poderia ser amada. Eu não fiz muita coisa quando ele me prensou na parede, apenas para me beijar com mais intensidade. Eu deveria ter me afastado, eu deveria ter seguido todos os passos que eu aprendi nas minhas colunas de autoajuda e eu deveria, principalmente, não querer tanto aquele beijo.
— Vamos sair daqui... – disse entre o beijo. – Fica comigo. – Pediu, segurando minha cabeça entre as mãos.
... – parei. – Eu não posso fazer isso. Eu nem sei por que você está aqui fazendo isso. Você já jogou esse jogo antes.
— Não é um jogo, . – Ele já não estava com o mesmo tom de voz amável de antes. – Por que você insiste em transformar tudo em um drama?
— Você é louco. – Afastei-me em direção à porta, mas logo senti sua mão me segurar.
Você nunca acreditou em mim e foi isso que acabou com tudo – disse ele, encarando um local atrás de mim.
— Na verdade, o problema foi ter acreditado – limitei-me a dizer, antes de sair da varanda, deixando-o sozinho.

“And you work so hard to get me just to let me go.”
(E você trabalha tão duro para me conseguir apenas para me deixar partir)


Eu não olhei para trás, ao passar pelas pessoas na sala. A reunião de amigos que estava na sala não me agradou nem um pouco para poder participar. Eu estava agindo como uma velha chata naquele mês e definitivamente era irritante.
Assim que cheguei ao quarto de hóspedes, deitei na cama e resolvi ligar para . Eu não tinha telefonado para ele nenhuma vez, naquelas semanas, e eu não podia ser uma vadia com todos os meus melhores amigos de uma vez só. Já bastava a Liza.
– ouvi sua voz cansada do outro lado da linha.
— Estava dormindo? - perguntei, olhando para o relógio ao lado da cama. Era quase meia noite e eu nem tinha reparado.
— Geralmente, as pessoas fazem isso nesse horário – respondeu. – Achei que tinha esquecido o meu número.
— Desculpa – murmurei. – Não tem sido semanas legais pra mim.
— Por quê? O casamento é tão brega assim? – Ele já parecia mais acordado e eu mais feliz, apenas por ter com quem conversar.
— Quem dera fosse isso – bufei. – está aqui. Ele é o padrinho.
— O 01? – A voz dele era animada demais para uma noticia como aquela.
— Você precisa parecer tão feliz? – reclamei, enquanto desenhava coisas aleatórias, olhando para o teto. Eu poderia escrever tantas coisas sobre aquilo tudo. Eu precisava.
— Você sabe que eu amo um bom drama – riu. – É por isso que somos amigos.
— Eu realmente sou tão dramática assim? – Foi impossível não lembrar das palavras do .
— Definitivamente. – A rapidez daquela resposta apenas tinha piorado tudo.
— Ele disse a mesma coisa – comentei, baixo, torcendo para que ele tivesse escutado, para eu não precisar repetir.
— O que houve, ? – Ele não parecia mais feliz e sim preocupado. – O que o 01 fez?
— Você pode parar de chamar meus ex de números? Fica parecendo que eu já tive muitos – pedi.
— Eu acho mais prático do que chamar pelo número da edição da sua coluna – respondeu. – Agora me diz o que ele fez.
— É a mesma coisa de anos atrás – suspirei. – É a mesma sensação de limite, de se estar em uma corda bamba e ser aquela pessoa que faz de tudo para não deixar nenhum dos dois cair de lá – parei. – É o mesmo jogo de sempre. É sufocante.
— Vocês falaram sobre o que aconteceu? – perguntou.
— Não. Eu o tenho evitado, desde que cheguei aqui. Na verdade, eu estava bem, até minutos atrás, quando nos beijamos. Eu percebi que ele nem sabe ao menos porque eu fui embora.
— Você deveria usar essa boquinha para explicar e não sair beijando por aí – falou.
— Eu não quero falar sobre isso – menti, mesmo sabendo que ele perceberia.
— Então por que está me ligando? – Eu odiava quando ele agia daquele jeito. – Você quer que eu vá até aí e desenhe pra ele?
— Isso é uma opção? – disse.
— Você precisa parar de resolver seus problemas por meio de histórias. Isso aqui é vida real, . – Ele dizer aquilo apenas tornava tudo pior. – Vai atrás dele e acaba com isso. Eu não quero ver você escrevendo sobre ele.
— Se der tudo errado, eu posso voltar aqui e não te deixar dormir nunca mais com todos os meus dramas? – brinquei.
— Só seja tão boa falando quanto é escrevendo e nós dois poderemos dormir – riu.
— Obrigada, , eu te ligo depois. – Eu sempre achei que era só escrever sobre algo para superar, mas não era. Eu precisava das respostas, eu precisava falar sobre aquilo, eu precisava dramatizar o suficiente sobre uma situação até não ter mais o que fazer com ela. Eu assumo: eu sou a pessoa mais dramática que eu conheço. Eu gosto de passar dias ouvindo músicas tristes sobre relacionamentos frustrados. Eu odeio amar corações partidos.
Desci as escadas, esperando que ele estivesse lá embaixo, conversando com David, mas não estava. Eu não sabia aonde toda aquela coragem iria e nem sei se duraria tempo o suficiente até achá-lo, mas eu precisava ao menos tentar.
— Liza – chamei minha amiga, que conversava em uma roda afastada.
— Até que enfim apareceu – riu.
— Viu o por aí? – perguntei, antes que ela começasse a me apresentar para os homens que estavam em volta.
— Saiu com uma garota – comentou rapidamente, continuando a falar, mas eu já não escutava mais nada. Tinha acontecido exatamente como anos atrás. Ele me puxa, apenas para se afastar momentos depois. – Você está me ouvindo? – a ouvi chamar. – Aconteceu alguma coisa? – Neguei, olhando para o chão. – Por que você queria falar com ele?
— Era sobre... – parei e encarei aqueles olhos firmes da minha melhor amiga. – Ele tinha me pedido o telefone emprestado, eu fui lá em cima buscar e agora ele sumiu. Típico.
— Você está mentindo? Se ele fizer merda, eu tiro ele do meu casamento. – Foi impossível não sorrir.
— Ele não fez nada – disse. – Eu juro. Eu vou subir agora. Você sabe que não gosto muito de festa. – Liza assentiu e eu praticamente corri para o quarto. Eu deveria ter imaginado. sendo previsível era tão óbvio. Eu precisava parar de tentar encontrar razões para gostar de alguém como ele. Eu precisava parar de gostar de alguém que tinha todos os motivos do mundo para não ser gostado. Assim que cheguei ao quarto, olhei para o celular. Eu deveria ligar para e chorar sobre isso, mas eu sinceramente não sabia nem sobre o que chorar.

“We don’t know each other even though we used to rule the world.”
(Nós não nos conhecemos mesmo que costumássemos dominar o mundo)


Dia do casamento

— Vocês podem deixar que eu termino sozinha – disse, quase expulsando todas aquelas mulheres do quarto. Era finalmente o dia do casamento e a primeira vez em que eu iria encontrar depois daquele dia. Eu evitei, de todas as formas, sair com David e Liza e, no fundo, eu percebi que minha amiga havia notado algo porque, em nenhum momento, ela me obrigou a encontrá-lo. Eu liguei para no dia seguinte à festa, e contei o que tinha acontecido e, no final, terminamos falando sobre bolos e eu nem me lembro de como aquele assunto tinha começado. Ele fazia isso sempre: eu chegava chorando a sua casa e ele começava a comentar sobre como zumbis são uma evolução natural dos índios canibais.
— Você está linda – ouvi sua voz tão conhecida surgir atrás de mim, mas nem ao menos o encarei. – Vai continuar me evitando? – perguntou. – Temos que entrar numa igreja juntos
— Eu não vou mais evitar você. – Virei-me passando por ele e indo em direção à minha bolsa que estava atrás dele.
— Nós vamos manter contato? – Seguiu-me com o olhar.
— Não – disse, seca. – Por que você faz isso? – Encarei-o, preparada para todas as desculpas que ele tinha capacidade de criar.
— Eu não sei – respondeu, após um tempo em silêncio. – Eu não faço ideia.
— Você disse a mesma coisa, anos atrás – comentei. – Quando disse que gostava de outra garota, dois dias depois de me pedir em namoro. Você se lembra? Eu ainda tenho pesadelos com aquela discussão. Você dizia que me amava e que eu era a garota mais especial que você já tinha conhecido, mas ela sempre estava lá. Eu me lembro de você falar sobre sua melhor amiga, eu me lembro de ter ajudado você a voltar a falar com ela depois de uma briga e eu me lembro, principalmente, de quando você disse que nunca gostou de nós duas ao mesmo tempo, porque era dela que você gostava. Eu me lembro de me sentir um lixo, de ficar dias me olhando no espelho, apenas enumerando todos os defeitos que eu tinha, de reler todas as nossas conversas apenas para encontrar onde eu tinha te perdido.
... – chamou.
— Eu não terminei – o interrompi. – Eu me lembro da pior semana da minha vida, eu me lembro de todas as músicas que eu escrevi pra você e eu me lembro de, em todas, querer que você escolhesse a mim. Eu me lembro de tudo e eu consigo ver agora que eu não perdi você. Eu nunca tive você, .
— Eu sinto muito – foi a única coisa que ele disse.
— Não sinta – sorri. – A culpa não é sua. A culpa é minha, por ter me apaixonado por alguém que nunca soube como amar alguém como eu. Você era confuso, você nunca dizia o que queria, eu sempre tinha que adivinhar como você estava, nós sempre brigávamos, não tinha um dia em que a gente não mandasse indiretas um para o outro. Na época, eu amava isso. Eu adorava ter raiva de você, eu adorava sentir coisas por você. Eu adorava sentir. Hoje, eu descobri o erro que eu cometi. Eu errei ao tentar acreditar que um relacionamento poderia ser sustentado apenas pelo o que eu sentia. – Eu dizia tudo tão rápido, apenas para colocar tudo para fora. – Nós vamos entrar naquela igreja e depois você vai sumir da minha vida, mas, antes disso, eu precisava dizer essas coisas e agradecer o coração partido que você me deu. Ele me fez entender o que era amor e o que não era. E você, , nunca foi.

Uma semana depois

Esse é meu último texto nessa revista. Sim, eu não vou mais escrever sobre isso, nem aqui e nem em nenhuma outra. Na verdade, eu só vou voltar a escrever quando alguém merecer que eu faça. Alguém que me ame, que me entenda e, principalmente, alguém que não tenha estragado tudo. Até esse dia chegar, eu preciso entender que, para meu amor verdadeiro chegar, eu preciso me tornar nele. Não é justo, com nós garotas, sofrermos tanto e ainda entregarmos um belo texto para aqueles que foram babacas com a gente. Nós precisamos escrever sobre como é bom amar, como o amor é lindo e não sobre como alguém é estúpido. Uma semana atrás, eu fui madrinha do casamento da minha melhor amiga e eu vi o quanto o amor é lindo e o quanto ele merece todas as colunas do mundo, mas isso aqui não era sobre amor. Nunca foi. Eu espero encontrar todas as minhas leitoras nos meus próximos trabalhos e eu espero que vocês entendam os meus motivos e que escrevam suas próprias histórias antes de escrever histórias sobre outras pessoas.
Beijos.


— Eu não consigo acreditar que você saiu de um emprego que paga tão bem, mas eu estou orgulhoso de você – disse , após ler a coluna do mês. Estávamos jogados no sofá de sua casa, como fazíamos todas as sextas.
— Eu estou pensando em escrever um livro – comentei – e, além do mais, eu tenho você pra me bancar – ri.
— Eu te banco, escuto seus dramas e leio tudo que escreve, e nem ganho uma noite selvagem por isso – bufou. – O que eu fiz pra te merecer? – Olhou para mim, empurrando meus pés do seu colo.
— Você precisa de um bom drama na sua vida. Não me culpe de ser tão sem graça – dei de ombros.
— Posso ter drama e sexo? – riu.
— Quem sabe um dia – pisquei.
— Eu sou mais bonito do que todos que já passaram pela sua vida – respondeu, fazendo uma péssima voz de indignado.
— O 06 era um gato – tentei soar séria.
— Ele não conta – disse rápido. – E então?
— Eu teria que escrever mais do que simples páginas sobre você.
— Ótimo. Seu livro será sobre nosso relacionamento, então – riu. – Eu sempre quis saber se você era tão criativa na cama mesmo ou apenas com palavras.

Fim



Nota da autora: Eu espero que vocês gostem.
Outras fics: Angels Can’t Fall in Love (Em andamento)
(20/08/2015)




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