Capítulo Único

Eu me lembro como se fosse ontem.
Da nossa primeira briga.
Por alguns minutos parecia que ele nem ligava. me ignorou por uns bons segundos, fingindo que o futuro não era uma coisa importante. Ele era daquela filosofia de vida clichê que qualquer pessoa usa hoje em dia. “Seize the day”, “carpe diem” e todo esse blábláblá, que no fim era coisa de baderneiro que só queria aproveitar a vida como se não houvesse amanhã. E quando chega o amanhã, a vida está de cabeça para baixo.
Eu posso ser esquentadinha, como ele fala, mas às vezes precisamos pensar no nosso futuro, certo? E não era como se a gente tivesse conversando sobre algo absurdo. Era só o nome que daríamos em nossos filhos se um dia tivéssemos. Mas aquilo o irritou de uma forma que eu nunca havia visto antes.
De outra vez, onde as nossas brigas eram pequenas, coisas momentâneas, nada demais como essa primeira briga que contei, o peguei fazendo algo que eu detesto, apesar de fazer isso às vezes. Sabe quando a pessoa te promete que não vai fazer algo que você já pediu para parar? E, por mais que você faça, não quer ver a pessoa fazendo porque sabe que aquilo não faz bem? É, eu sempre fui meio “faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”. De qualquer forma, o peguei no ato. Fumando. Na sacada. Num dia que fiquei até tarde na faculdade e ainda tive que ir no mercado depois. Parece que ele sentiu que eu ia chegar tarde, mas não sentiu que eu o pegaria em flagrante. Foi outra discussão enorme, que só parou quando ele disse:
“Eu só vou parar de fumar se você também parar,” e então eu tive que olhar para outro lado e fingir prometer que eu também não faria aquilo. Era só uma mentira pequenininha, que foi virando um monte já que eu nunca mais poderia fumar perto dele.
Na verdade, antes, mentir nunca foi um problema para gente. O problema era justamente sermos sinceros demais. Dessa vez do cigarro, foi realmente uma vez em nosso relacionamento todo que acabou virando outras, para mim. Mas acredito que ele nunca tenha mentido para mim. Acredito.
E também teve algumas brigas sem noção, que eu preferiria nem citar, mas se eu não citar vocês não vão saber. Coisa de criança como eu começar a rir de algo que ele fez absurdamente errado, e ele querer discutir por aquilo. Ou das vezes que ele percebia quando eu exagerava alguma história só para testá-lo e ele acabava se irritando com isso. Às vezes era até de propósito, queria chamar a atenção dele, queria que a minha vida não fosse tão monótona, queria algo mais parecido como uma aventura. Mas isso acabava causando mais briga, como se não fosse suficiente.
A última briga que tivemos foi a fatal para outro acontecimento.
Devia ser apenas mais uma noite em que eu cheguei tarde em casa e ele já estava me esperando em frente ao meu prédio, já que o porteiro não o deixava entrar devido à regras dominicais. Ele queria que passássemos um tempo juntos. Eu queria que passássemos um tempo juntos. Mas, acima de tudo, eu tinha que trabalhar. Estudar. E fazer mais outras coisas. E por mais que ele fosse paciente e tenha me esperado a noite toda para gente curtir, eu reparei que ele estava chateado. E, claro, aquilo foi outro motivo para uma briga. Eram apenas brigas e ficava cada vez pior. Tudo era motivo para elas.
Mas vamos ser sinceros… Por mais que existam essas pessoas hoje em dia que usam os outros como copos descartáveis, nós, eu e , não queríamos ser assim. Nós realmente passamos por tudo aquilo juntos. Nunca abandonamos o barco.
Até o dia que eu reparei que nosso relacionamento já não era o mesmo.
Você pode pensar que podia ter sido por tudo isso ou por algo que não estou contando. Mas foi por algo que nunca pensamos que aconteceria na nossa relação. A solidão.
Quando nós mal percebemos, ela entrou no nosso relacionamento e ficou. Às vezes ela vagava com ele, ia para o trabalho dele, fazia contas, bebia seu café, tinha vezes que ela até se materializava quando o chefe de aparecia para cobrar algo dele.
Pra mim era mais como uma companhia nas noites que saía com seus amigos para desestressar. Ela realmente era minha amiga. Quase coloquei um nome nela. Mas talvez a chamar de Soli na minha cabeça era demais. Sei que ela deitava comigo na cama e às vezes até modificava sua feição. Juro por ela mesma que teve vezes que ela tinha o rosto dele. Era como se ela fosse o fantasma dele. Chegava a ser tenebroso.
Foi coisa de dois meses. Até a gente perceber que aquilo já estava insustentável.
Nós acabamos.

Um dia quando estava indo dormir, recebi uma mensagem dele. Fazia pelo menos duas semanas que não nos falávamos mais. Nós realmente estávamos tentando nem sermos amigos mais. Mas foi meio inevitável. A mensagem era algo como:
“Agora eu entendo o que você passava quando eu saía com os meus amigos. Todas as noites sozinhas e o que você sentia. Você precisava de mim, né? Porque agora eu preciso de você.”
E eu acabei sorrindo. Não porque ele estava sofrendo. Mas sim porque ele me entendeu, mesmo tendo demorado. E para ser sincera, aquelas duas semanas tinham realmente demorado a passar já que eu não o via mais. Ele não passava mais lá em casa pelo menos seis dias por semana. Mas quando chegou naquele sábado a noite, e ele mandou aquela mensagem, eu senti que havia passado o tempo suficiente para eu perceber que havia sentido saudade. Foi a minha rotina que não me fez perceber aquilo. Mas eu estava morrendo de saudades dele. Da boca dele, do corpo dele, do cheiro dele. De tudo.
E talvez eu precisasse dele mesmo. Mas a lembrança dele já estava sendo o suficiente para me deixar feliz.

E teve outra vez também. Que, na verdade, nos trouxe a última.
Foi até engraçado porque eu estava no meio de um dia corrido, mas só foi eu olhar para uma propaganda que passava na televisão de um escritório que fui deixar meu currículo que lembrei dele. Da nossa primeira briga. Aquela estúpida sobre discutir nome de filho. Era o tema do comercial. Ri baixinho e num impulso peguei o celular. O que eu não esperava era ver que ele estava tocando. Com o nome dele.
Sempre penso que nessas horas qualquer pessoa gela, pela conexão talvez, é algo realmente estranho. Mas eu devia estar no modo automático, porque simplesmente deslizei meu dedo pela tela e atendi. E ouvi a voz dele depois de quase dois meses distantes.
E que droga. No sentido figurado e literal. Porque ele continuava sendo um vício. Meu vício. Pelo visto eu nunca me esqueceria dele.
Ele fez uma proposta. Da gente se ver. E como eu estava ainda naquele tal modo automático, aceitei. Mas à noite eu parei pra pensar. Talvez estivesse fazendo merda. Talvez eu não devesse fazer aquilo. Talvez nada daquilo estivesse certo. Talvez simplesmente não fosse pra acontecer.
Mas lá estava eu, na semana seguinte, naquela droga de livraria no shopping, que tinha um café do lado de fora onde ele me esperaria. Eu estava nervosa demais pra esperar ele sentada. Precisei levantar e olhar uns livros, talvez até achasse um livro novo. Um tema novo. Qualquer coisa para me distrair daquele momento.
E foi só ele aparecer que nem parecia que a gente havia tido tanto problema. Parecia até um deslumbre tudo que havíamos tido. Deu vontade de repetir tudo.
A gente sentou. Conversou. E fizemos promessas que prometemos cumprir. Falamos sobre parar de fazer coisas que um não gostava no outro e sobre estarmos dispostos a fazer qualquer coisa para que, daquela vez, o relacionamento funcionasse. Porque parece até que nosso relacionamento foi só sobre brigas, mas não foi.

Pois eu também lembro das vezes que ele fez tudo ao contrário. Das vezes que só dele olhar pra mim eu tinha certeza que eu sempre o amaria. Das vezes que ele suportou me olhar na sacada fumando e não fazer o mesmo. Das vezes que a gente conversava sobre o passado e imaginávamos como nossa vida teria sido se não tivéssemos nos aproximado no último ano do ensino médio. E se Johnny não tivesse dado aquele empurrãozinho camarada para que ficássemos juntos.
Também me lembro de cada ano que passamos juntos. Foram três ao total. O primeiro parecia uma bagunça. Ambos começamos a faculdade no mesmo ano, para conciliar foi o verdadeiro inferno, mas conseguimos. Nós sempre conseguíamos dar um jeito de nos ver, fosse entre aulas, entre becos, entre camas ou entre armários. Nós fazíamos dar certo.
O segundo ano foi um pouco menos agitado. Foi o que deu início às brigas bobas e também o que fez o nosso relacionamento vibrante, de adolescente, virar um tanto mais adulto. Nós já começávamos a dar indícios de virar um casal de velhinhos, pois não queríamos mais balada. Nem raves. Nem churrasco aos domingos à tarde porque ia dar na gente bebendo e aquilo nem era muito certo, pois acabávamos brigando também.
O terceiro foi o início do fim. E foi quando tudo bagunçou de novo. Ele conheceu gente nova e eu virei ainda mais caseira. Nós dois achamos um estágio e foi questão de um tempo só de uma partida de futebol para trocarmos nossas noites juntos por noites de trabalho ou bebidas com amigos. E por fim, a maioria daquelas brigas aconteceram. E o nosso relacionamento desandou. E a Solidão apareceu.
A graça é que os momentos bons daquele último ano foram poucos, mas marcantes. Como da vez que, mesmo brigados, fomos conhecer os pais um do outro. Foi uma luta, mas no fim todo mundo adorou. Ninguém notava como podíamos ser explosivos um com o outro.

Mas uma coisa posso lhe assegurar. Nossa relação parecia um oásis, já que, ao nosso redor, só conseguíamos ver casais totalmente danificados. Eu, como boa feminista pente fino e ele já sabendo isso, sempre apontava qual relacionamento era saudável e qual não era. E quando era amiga minha metida nisso, eu ajudava ela a sair daquilo o mais rápido possível.
E ? Ele ria de mim, achava engraçado e fofo, mas, no fundo, ele também fazia vista grossa. Eu gostava das vezes que ele discutia com os amigos dele falando como era importante a igualdade entre os gêneros, como as mulheres não são o sexo frágil e como ele gostava de namorar uma mulher forte assim. E eu sorria boba, olhava singelamente pra ele sorrindo tímida quando ele dava um sorriso de canto, como se confirmasse tudo que ele havia dito anteriormente.

E foi por isso que voltamos. Porque todos merecem uma segunda chance nessa vida. A gente errou, mas podíamos consertar, certo? E estávamos realmente a fim de tentar de tudo.
Mas não se engane: não digo que foi fácil.
Mas conseguimos. Ainda estamos conseguindo.
Graças a não sei qual Deus, conseguimos entender que um relacionamento é feito a base do dar e dividir, e ceder e… Não, isso não é um episódio de Friends. E eu não sou o Joe. Piada péssima é, eu sei.
Na verdade, apenas descobrimos que é difícil manter um relacionamento, ainda mais quando tudo é tão ligeiro, quando várias coisas parecem atrapalhar. Mas temos que segurar aquilo que amamos. E aceitar que às vezes beber, moderadamente, é até aceitável e engraçado pra gente se suportar. E fazer algumas mudanças pelo outro não é lá aquele absurdo que pensávamos antes. Apenas se moldar ao amor que nos envolve.
E que, acima de tudo, a gente pode dançar a quinta faixa de um álbum dentro do quarto escuro e se beijar na sacada pensando em tudo que podíamos ainda consertar. Porque nada é tão difícil que eu e ele não podemos suportar. Se isso significa que vamos conseguir passar por isso…




Fim.



Nota da autora: Eu voltei e agora praaaaaaa… Nah. Não sei se voltei (risos). Tô metida em vários ficstapes? Tô. Tô podendo? Tô não. Mas a gente tenta porque esse foi euzinha mesmo que reservei, então tem que honrar, né? E espero que eu tenha honrado Anything! Não é a favorita, mas é aquela que dá um gostinho de escrever porque a música é linda demais. Quero não só agradecer a Deus e Jesus, mas também a Catfish and the Bottlemen por ter nos abençoado com este álbum e também agradecer a todas as meninas que participaram desse ficstape lindão que lerei todas as fics, e também a Isy que fez todas essas capas maravilindas, e, por último, mas não menos importante, muito pelo contrário, Anny, nossa beta linda que sempre me acompanha nessa jornada de alugar ficstapes <3 Sending a hug for this beautiful girl. E obrigada a quem leu até aqui também. Mesmo! Não deixam de comentar o que acharam, viu? E leiam TODAS as fics desse ficstape porque, se as músicas são lindonas, imagina as fics!






Outras Fanfics:
01. Wild Heart06. Nothing To Lose09. I Would13. History15. Room On The Third Floor30. DisconnectedA Song About LoveWe’re On Fire
Ficstape CATB


Nota da Beta: Ai que delicinha! Dá um trem crescer e perceber que relacionamentos não são só fogo e paixão avassaladora e dramas que acabam na cama como nos filmes e estórias né? Mas é muito bom perceber isso também, porque é a vida afinal. E Anything retratou bem isso mesmo, parabéns, Tham, achei uma graça!
E nem precisa agradecer nada porque foi um prazer betar esse ficstape lindo de doer. As fics estão maravilhosas e quero ver todo mundo lendo e comentando todas pra ser digno. Simbora! Xx-A



Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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