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Última atualização: 02/10/2020

Parte um

I only wanna die alive
Never by the hands of a broken heart
Eu só quero morrer se estiver vivendo
Nunca por causa de um coração partido



Nunca parei para pensar, em momento nenhum, em como eu morreria. Havia diversas possibilidades, mas eu não conseguia cogitar nenhuma delas acontecendo comigo. Não era como se eu pensasse frequentemente sobre a minha morte, mas tinha esse pensamento, essa sensação da qual eu não conseguia me livrar. Eu não podia adivinhar qual seria a causa da minha morte, como exatamente eu morreria e nem nada do tipo. Mas eu tinha escolha na parte de como eu não poderia morrer de jeito nenhum.
Coração partido.
Eu não sabia se era universalmente possível alguém literalmente morrer de coração partido, mas conhecia caminhos que levavam para aquela conclusão. E eu… bom, era infeliz admitir que eu estava indo por aquele caminho. Não dava para adivinhar que meu casamento sempre esteve fadado ao fracasso e que eu iria me sujeitar a diversas coisas que antes eu jamais aceitaria.
- ? - a voz da minha agente me despertou dos meus devaneios frequentes. Forcei um sorriso quando girei a cadeira e fiquei de frente para a porta pela qual ela entrou. Ela tinha aquele jeito alegre demais, o sorriso grande demais e, às vezes, noção sempre de menos. Eu também tive que me acostumar com a sua presença, então eu não reclamava tanto quanto antes e nem ela me incomodava mais. - Cadê o ? - perguntou. Mordi a parte interna da minha bochecha, bem tentada a responder no inferno, mas era melhor que ela não tivesse conhecimento da crise existente no meu casamento. Aquilo era assunto entre marido e mulher, e como Marie costumava ser um pouco intrometida, eu gostava de calar a minha boca perto dela.
- Deve estar chegando - respondi, me levantando da cadeira giratória.
O camarim estava uma bagunça, mas isso não era exatamente um problema para mim. Minha vida também seguia a mesma linha de bagunça, então era normal que eu chamasse aquilo de “zona de conforto”, embora eu soubesse que isso não se aplicava ao conceito que eu estava comparando.
Aquela zona de conforto era um inferno.
E na verdade, eu não tinha ideia de onde o estava. No fundo, aquela sensação me beliscando, eu sabia que provavelmente ele estava enfiado em algum rabo de saia. Eu tentava ignorar, porque tinha prometido dar mais uma chance a ele, e essa chance implicava em uma confiança cega, da qual eu não conseguia abrir mão. Como eu podia restaurar a confiança no meu marido quando ele fazia de tudo para não merecê-la? Por outro lado, parte de mim não queria ter que desistir tão rápido do casamento que eu lutei para manter. E, para ser sincera, meu casamento era a porra do meu sustento. e era quase uma marca popular.
O que, vamos combinar, era completamente uma ironia. As pessoas se baseavam no meu relacionamento “perfeito”, tinham a ideia de como o marido ideal, e era exatamente isso que eu vendia. As mentiras saíam pela minha boca fácil como beber água sem engasgar. Se elas tivessem ao menos uma ideia do inferno que eu estava passando…
- ? - a voz de Marie me despertou de novo.
Mal percebi que aquele dia em específico, eu estava distraída demais e não vi quando entrou pela porta, com o seu terno impecável e o sorriso cafajeste nos lábios, tão pronto quanto eu estava para encenar aquela farsa. Ele veio até mim, e eu ergui o meu rosto na sua direção, com o sorriso fraco nos lábios quando ele me roubou um selinho e encenou um beijo carinhoso na minha testa que arrancou um suspiro apaixonado de Marie, o que foi uma atitude que me exigiu muito esforço para não revirar os olhos ali mesmo.
- Você está linda, querida - murmurou, ignorando a minha agente.
Balancei a cabeça, virando o meu corpo de frente para o espelho da mesinha que eu estava sentada antes. O vestido longo tinha um caimento perfeito no meu corpo e a cor azul marinho combinava com a melancolia dos meus olhos. Suspirei, sentindo o toque do meu marido no meu braço.
- Obrigada - murmurei.
- Dois minutos. - Marie anunciou. Quando Marie saiu, nos deixando sozinhos, eu me afastei de , que notou. Seu sorriso se desfez para uma expressão frustrada. Passei a mão pelo vestido, lambendo os lábios em um ritual ridículo para que eu não ficasse tão nervosa. Era só uma entrevista. Só mais uma.
- Eu vou querer saber onde você estava? - com quem, eu quis acrescentar, mas não achei que fosse necessário. Ele saberia ler a pergunta nas entrelinhas, as palavras ocultas ecoando entre nós.
- … - não me comovi com o tom arrependido da sua voz.
- , por favor - cortei-o, puxando a respiração. Eu não gostava de brigar, mas ultimamente nossas conversas eram assim.
- Eu estava com o Tyler - ele respondeu. Me surpreendi com a sinceridade com a qual ele frisou a sua resposta, e por um momento, me senti culpada pela acusação que eu tinha acabado de fazer.
Só porque ele tinha errado uma vez, não significava que iria fazer de novo, não é? Ele tinha me prometido isso, e eu perdoei a sua traição. Mas era tão difícil reconstruir a confiança, que eu me sentia perdida na maior parte do tempo.
- Desculpe. - sussurrei, deixando meus ombros caírem em derrota, demonstrando o meu cansaço com tudo aquilo.
balançou a cabeça. Seus pés se moveram até mim e daquela vez eu deixei que ele me cruzasse em seu abraço e não tivesse encenado o beijo que deu no topo no meu ombro. Não senti conforto com seu toque, mas tinha aprendido que eu precisaria me acostumar. Precisava de um tempo para suavizar as coisas entre nós, e eu conseguisse voltar ao nosso antigo normal. Eu iria conseguir. Eu conseguia tudo.
Mas àquela altura das coisas, eu não tinha mais tanta certeza disso.

- Senhoras e senhores, o casal do topo!
segurou a minha mão com firmeza e nós dois andamos para o palco principal, onde Elle - a apresentadora do programa -, estava. Ela tinha um sorriso enorme e caloroso no rosto e eu fui a primeira a abraçá-la, ainda ouvindo os aplausos da plateia. Parte dela aplaudia o , que acenava descaradamente para todas as mulheres que lhe lançavam olhares. Ele estava acostumado com toda a atenção e sinceramente nunca me importei. Nunca fui insegura até o primeiro deslize dele.
- Oi, Elle! - cumprimentei.
Deixei que também a cumprimentasse, e acenei para a plateia por pura educação, me sentando no sofá improvisado com meu marido do lado, nós dois ficando de frente para a apresentadora.
- Me contem - ela também sentou-se na sua poltrona confortável, dirigindo a palavra para nós. Seu sorriso era tão simpático que eu estava me sentindo leve e podia lidar com qualquer coisa naquele momento. - Como vai o nosso casal estrela?
Soltei uma risada do apelido e apertei a mão de contra a minha. Há um tempo, perdi o momento em que tudo deixou de ser verdadeiro e passou a ser uma farsa.
- Nós vamos muito bem - foi ele quem respondeu. Para frisar tudo, ele ergueu a mão que segurava a minha e beijou a minha pele. A plateia fez um coro de comoção e eu sorri.
- Se você não contar algumas brigas de rotina - continuei, arrancando risadas de Elle e a plateia.
apertou os meus dedos, mas ficou tranquilo que todo mundo tinha levado as minhas palavras com bom humor. Só eu sabia o quão fundo de verdade tinha.
- Ah, o casamento! - Elle exclamou. - Espero que não sejam brigas sérias.
Era, Elle. Na maior parte do tempo.
- Depende do quão sério você considera quando sua esposa não te espera para participar da sessão de filmes eróticos e poder participar da brincadeira - disse.
- ! - exclamei, empurrando-o com o ombro devagar.
Risadas explodiram por todo o lugar e se eu fosse desse tipo, teria sentido vergonha, mas eu sabia ser descarada. Sexo não me envergonhava e falar sobre ele em público também não. O idiota sabia disso.
- Você sabe que esse é o intuito do programa, - Elle brincou, me fazendo rir.
- É apropriado para o público falar sobre minha masturbação? - entrei na brincadeira.
teve a ousadia de apertar a minha coxa próxima dele.
- É apropriado questionar que você não me deixou participar da sua brincadeira - meu marido disse, me acusando.
- Você demora demais no banho, .
A plateia não parava de rir e Elle também teve que se controlar.
- Ok, ok - me rendi, levantando as minhas mãos. - Em casa, nós conversamos. A plateia fez um “uh” em coro, e eu só sorri. Nós dois sabíamos muito bem que nada ia acontecer quando chegássemos em casa. Eu e não transamos há… eu não tinha ideia, mas fazia muito tempo. Só éramos muito bons em fingir que tudo estava no mais perfeito clima.
- Nós adoramos saber da intimidade do casal - Elle comentou, ajeitando a sua posição na poltrona. O silêncio recaiu na plateia também. - Mas queremos saber da novidade! Nós ouvimos pombinhos por aí informar que vocês estão pensando em formar uma família. Isso é verdade?
Ah. Isso.
De repente, senti tenso ao meu lado. Não podia culpá-lo, afinal. A nossa situação não estava exatamente favorável para pensar em ter uma família naquele momento. Além do mais, eu não podia exatamente ter filhos. Tinha tentado todos os tratamentos possíveis, nada tinha tido efeito.
Como percebi que ele não ia responder, me adiantei em forçar um sorriso e encarar Elle.
- Esses pombinhos são muito fofoqueiros - respondi, recebendo risadas de volta. Que bom que alguém aqui estava se divertindo. - Mas e eu estamos… ocupados.
Não era exatamente mentira, mas era melhor do que a verdade. Realmente, estávamos bem ocupados.
- Estou prestes a lançar o livro - continuei, empolgada. - E ele anda ocupado com as produções da nossa nova série.
- Espera aí - Elle fingiu espanto e eu percebi que soltei uma informação que não era para soltar. - Sobre seu livro, nós sabíamos, mas que história é essa de série? riu.
- Acho que minha esposa sofre da síndrome de Tom Holland - a plateia riu novamente, mas eu não entendi a referência e muito menos sabia quem era o citado.
- Eu deveria levar isso como uma ofensa? - questionei, arrancando mais um riso dele e um selinho roubado.
- Claro que não, amor.
Elle estalou o dedo.
- Ah, sim. A série - disse. - Nós fomos convidados para estrear uma série só nossa. Aparentemente, um canal no Youtube não é suficiente para vocês - ele explicou. - Não posso dar mais informações do que isso, mas em breve poderemos soltar a novidade completa para vocês.
Elle soltou um resmungo insatisfeito, mas se contentou com a exclusividade daquele anúncio. Se eu tivesse sido sincera comigo mesma, eu sequer lembrava que tinha aceitado a ideia daquela série. Estava mais para um talk show, onde mostraria as nossas rotinas e vida íntima. Tinha sido empolgante no começo, principalmente quando vimos o cachê, mas agora… Eu teria dito não. Eu gostava de pensar que teria dito não.
E não que eu era facilmente convencida e coagida a aceitar as coisas pelo .
Continuamos respondendo mais algumas perguntas - grande parte sobre o livro que eu ia lançar -, e sobre nossos próximos projetos juntos e viagens que teríamos que fazer para a tour de divulgação. Elle era simpática e sensata o suficiente para não invadir o nosso espaço e não perguntou mais sobre família ou algo do tipo.
- Chegou a hora do quadro mais aguardado! - ela anunciou com empolgação e recebeu aplausos da plateia. - O quanto você sabe com e !
Nós levantamos juntos, sorrindo, seguindo Elle até o outro lado do palco, onde tinha três divisores. Elle ficou no meio, na esquerda e eu na direita. Para ela, estava a tabela de perguntas, para nós dois, um quadro em branco para colocarmos a resposta.
- Preparados? - perguntou e nós assentimos.
No fim, ganhei de .


- Podemos jantar hoje?
bateu a porta do camarim atrás de nós e eu cogitei a sua pergunta, mas não me senti culpada por ter uma desculpa como carta na manga para recusar o seu convite.
- Marquei com as meninas. - respondi.
Ele suspirou. Não foi um suspiro tedioso e nem um suspiro que demonstrava que ele estava irritado, foi como um suspiro… cansado.
- Você anda fugindo de mim - ele disse e eu arfei em resposta quando seus braços me envolveram por trás, apertando a minha cintura.
não perdeu tempo e usou a sua boca para trilhar beijos por toda a região do meu pescoço. Eu queria abrir a boca e rebater a sua conclusão, mas percebi que ele estava certo e seria melhor se ele recebesse o silêncio como resposta. Além do mais, não era como ele estivesse me deixando responder.
Suas mãos percorreram os meus braços, descendo o caminho pela minha pele arrepiada, enquanto ele me girava com rapidez, fazendo com que eu ficasse na sua frente.
- Está fugindo de mim, ? - sussurrou contra a minha boca.
Sua mão esquerda levantou a minha perna e eu precisei espalmar as minhas duas mãos contra o seu peito. Meu Deus. Fazia muito tempo que ele não me tocava e desejava daquela maneira e eu queria muito ceder, embora uma parte irritante minha me instruísse a acabar com aquilo ali mesmo. Mas não havia mal nenhum em ceder um pouco, não é? Ele ainda era meu marido, afinal. E eu tinha prometido outra chance.
- Qual a resposta que você quer ouvir? - murmurei, afiada. Ele sorriu. Um sorriso que eu gostava e que sentia falta, porque antes de sermos namorados e marido e mulher, nós éramos melhores amigos, e alguma coisa se perdeu, mas eu gostava daquele sorriso. Era um sorriso sincero, um sorriso de um que eu podia confiar de olhos fechados, um que me faria cair segura em qualquer lugar. Para aquele , eu podia dar tudo.
Ele não me respondeu. Ao invés disso, apertou a minha coxa esquerda com força e empurrou o meu corpo com cuidado até eu ficar encostada na mesinha do espelho. Seus olhos tinham um brilho diferente, e quando ele me beijou, minhas mãos subiram direto para a sua nuca, aproveitando. Calei os meus pensamentos e me entreguei ao seu toque, deixando que ele retirasse o meu vestido, cada peça que lhe restava, me deixando nua sob o seu corpo, minha respiração irregular. Eu gemi quando suas mãos apertaram os meus seios, quando ele lambeu cada um. Reprimi os gritos quando sua língua me invadiu, quando ele me tocou, quando seu pau entrou em mim e quando eu gozei. Ficamos abraçados um ao outro ali, em pé, nus, sentindo a batida irregular do coração do outro, enquanto eu também tentava controlar a minha respiração. Sua mão afagava as minhas costas em um carinho que eu quase não reconheci, porque fazia muito tempo que não tínhamos um momento íntimo como aquele. Dividimos a mesma cama, mas nenhum procurava o outro.
- Eu te amo - de repente ele disse, me fazendo engolir a seco. - Você sabe disso, não é?
Eu sabia antes. Não tinha certeza de agora.
Mesmo assim, eu respondi.
- Eu sei.
beijou o topo da minha cabeça, como de costume, e se afastou, procurando as suas roupas. Eu aproveitei para fazer o mesmo, mas optei por usar a calça e blusa que eu tinha levado e calcei o mesmo salto, pegando a minha bolsa, verificando que eu estava há alguns minutos atrasada para encontrar e . A julgar pelo humor das duas, uma delas estaria furiosa com o meu atraso. Me despedi do meu marido na saída do estúdio e peguei um táxi. Sozinha de novo, não pude calar os meus pensamentos sobre o que tinha acabado de acontecer. Eu me sentia mais leve e relaxada. Me sentia… desejada. O que tinha acabado de acontecer mostrava que as coisas podiam melhorar, não podiam? Se eu me esforçasse mais um pouco, talvez ele não procurasse outro tipo de atenção que não fosse a minha. Com a gravação do talk show, iríamos passar mais tempo juntos agora e eu podia aproveitar isso como uma brecha para mostrar que ele não precisava de ninguém além de mim. Eu realmente não estava preparada para lidar com um divórcio e nem ficar sozinha.
- Obrigada. - agradeci ao motorista, pagando a corrida. Saí do carro bem na frente do restaurante que eu tinha marcado o jantar com elas e entrei com pressa. Não precisei ficar olhando muito ao redor para identificar a mesa que elas estavam, porque dois braços acenavam fervorosamente na minha direção, e eu vi a expressão de fechada. Mesmo assim, eu caminhei até minhas duas melhores amigas com um sorriso gigante no rosto. Eu tinha acabado de ter um orgasmo, nem mesmo seu mau humor iria estragar o meu bom humor.
- Nós marcamos de…
- Eu sei, eu sei! - interrompi , que me olhou de cara feia, enquanto dava de ombros acostumada. - Sinto muito.
Me sentei de frente para elas, guardando a minha bolsa no colo.
- Você sempre faz isso, - ela murmurou, ainda reclamando. Fez sinal para o garçom, que veio rapidamente anotar os nossos pedidos.
- Eu disse que sinto muito - insisti. - Você pode deixar passar?
- Como das outras vezes? - interviu, sorrindo.
- De que lado você está? - questionei, indignada.
Mas sorriu e eu bufei. Era sempre a mesma coisa, e não diminuía o meu amor por nenhuma.
Nós conversamos, colocando as novidades na mesa. Não nos encontrávamos todos os dias, porque cada uma tinha uma agenda cheia do trabalho e era raro conseguir uma brecha que desse para as três se encontrarem sem que uma precisasse ir embora 30 minutos depois. Eu me sentia melhor quando estava na presença delas. Sentia que não podia existir problema nenhum no mundo que elas não fizessem parecer pequeno diante da imensidão que nós três formávamos juntas. Na faculdade, nosso apelido era Trio Furação - mas eu digo orgulhosamente que isso era especificamente por causa da .
- O Trent vai casar - informou, referindo-se ao seu irmão. - Finalmente arranjou uma mãe para aqueles pirralhinhas mimados.
- Você os ama - joguei um pedaço de papel embrulhado no rosto dela, que desviou.
- Sim, e por isso vou levar três lenços no dia da despedida - retrucou, com um bico nos lábios, nos fazendo rir.
era louca pelos sobrinhos, e não estava lidando muito bem com o fato de que eles iriam morar do outro lado do mundo, já que Trent recebeu uma oferta de trabalho e sua noiva o apoiou.
- E você? - puxei a atenção de . - Quando vai assumir o Max?
Ela se salvou de responder na hora porque o garçom chegou com os nossos pedidos. Esperei que ele terminasse de colocar a mesa para atacar a massa de macarrão italiana que eu tanto amava.
- E então? - insistiu, com a boca cheia.
- Inferno - murmurou, nos fazendo rir. - Eu não sei, estamos bem com todo o lance de sexo casual.
- Mesmo? - indaguei, surpresa.
Max não era exatamente o tipo de cara que se contentaria com um lance de sexo casual, mas como não gostava de transar com o mesmo cara mais de uma vez, eu já achava vantagem que ele tivesse convencido ela a chegar nesse acordo. Mas tinha algo a mais entre eles que não admitia, e eu e gostávamos de deixar ela chegar sozinha nas próprias conclusões em relação aos seus sentimentos. Quando isso acontecia, a gente só se preparava com duas garrafas de vinho branco e ouvíamos lamentar até aceitar.
- Mesmo - ela frisou e eu encerrei o assunto com a cara feia com a qual ela olhou nós duas.
- E quanto ao ? - perguntou, entrando em um assunto que eu também não queria que fosse o tópico da conversa.
Mas disfarcei, levando mais uma garfada de macarrão à boca.
- O que tem ele? - era melhor entender bem a pergunta antes que eu soltasse coisas que eu não queria.
Elas também não sabiam do meu conflito interno com a crise no meu casamento. Não tinham ideia de que ele já tinha me traído e que eu tinha não só descoberto, como também perdoado, e eu sabia que nenhuma das duas aprovaria a minha decisão, então eu jamais contei. O que era péssimo, porque se eu não podia contar e conversar sobre aquilo com elas, eu não tinha mais ninguém. Isso só me fazia afundar ainda mais nos meus dilemas internos.
- A coisa da série e etc - ela se explicou e foi inevitável soltar um “ah” aliviado.
- Eu não queria aceitar, sendo sincera - bebi um pouco do suco que eu tinha pedido, encarando as duas, que também comiam devagar e prestavam atenção em mim. - Mas não tive exatamente escolha. tem uma boa lábia para convencer qualquer um.
- É, principalmente se essa lábia estiver no meio das suas pernas - disse, me fazendo tossir com o suco que eu acabei de beber.
- Você sabe que é uma amiga horrível, não é? - acusei, fazendo cara feia para , que gargalhava como se sua vida valesse tudo isso.
Eu odiava elas.
- Eu disse alguma mentira? - ela nem se abalou. - E com o seu humor hoje, ele usou a língua de novo.
explodiu em uma nova gargalhada e eu bufei, desistindo das duas naquele momento. Não estava constrangida e nem nada do tipo, mas eu preferia que minha vida sexual - ou o que restava dela -, não fosse o tópico principal de uma conversa. Fui salva de responder qualquer coisa que indicasse que na última parte ela estava certa quando o celular de tocou, indicando a notificação de uma mensagem. Ela tirou o aparelho da bolsa, fazendo com que eu e olhasse para ela com uma expressão séria.
- A regra? - lembrou.
Mas não estava com uma expressão muito boa. Seja lá quem tinha mandado a mensagem e qual fosse o conteúdo dela, não era muito boa. E eu já estava acostumada, porque ela trabalhava com a mídia e costumava receber notícias de seus amigos que eram jornalistas.
- Eu sei, mas vão querer dar uma exceção para isso - ela respondeu. revirou os olhos e puxou o celular da mão da outra e viu qual era a mensagem. Tudo só piorou quando se engasgou e começou a tossir sem parar.
- ! - exclamei, preocupada, vendo oferecer um copo de água para ela, que aceitou.
Alguns segundos depois, ela pareceu melhor. Eu estava bem preparada para intervir se aquilo se agravasse.
Percebi que elas tinham soltado o celular na mesa e quando me inclinei, curiosa para saber o que diabos tinha as deixado daquela maneira, foi bem mais rápida e tirou o aparelho do meu alcance.
- Qual é o problema? - indaguei, irritada.
Não era justo que elas soubessem e eu não. Seja qual fosse a fofoca - porque sempre era -, eu queria saber também. , agora com o rosto mais sereno, pigarreou quando percebeu que ia abrir a boca. Ela soltaria a informação direta, sem rodeios, mas nossa amiga não deixou. Deixei o garfo cair no prato e usei um guardanapo para limpar a minha boca.
- Anda logo - murmurei, ficando impaciente com tanto mistério.
- Olha, - quem disse. - Thomas sabe que sou sua melhor amiga e justamente por isso me mandou a foto e não publicou nada imediatamente.
- Do que você está falando?
- Disso - respondeu, me estendendo o celular de boa vontade dessa vez.
Não consegui decifrar a sua expressão, mas aceitei a sua mão escondida e peguei o aparelho da mão dela, me arrependendo no mesmo momento. Minha respiração falhou quando identifiquei na foto. Ele estava acompanhado de uma mulher - que estava de costas para a foto e não pude ver o seu rosto -, suas mãos seguravam a cintura dela e suas bocas estavam muito próximas. Quando deslizei o dedo para o lado, passando para a próxima foto, beijava a mulher.
- Eu sinto muito, amiga, isso é… - tentou dizer, mas eu interrompi.
- Eu já sabia.
A confissão fez um silêncio recair sobre a mesa. Eu não tinha ideia de quem era a mulher e nem queria saber, quanto menos informações eu tivesse, era melhor para mim. Deixei o celular na mesa, empurrando-o para , que me encarava com uma expressão duvidosa.
- Como assim você já sabia? - para a minha surpresa, o tom áspero não veio de , mas de .
Suspirei, tentando reformular como eu contaria isso. Se antes elas não sabiam, não tinha como esconder mais depois daquela foto.
- Eu… - procurei as palavras, querendo explicar de um jeito direto e simples sem que eu precisasse ir tão a fundo nas minhas memórias e relembrasse de quando eu descobri. - Vi mensagens e fotos no celular dele com uma mulher. Quando o questionei sobre, ele admitiu a traição.
Provavelmente eu tinha sido direta demais, mas não havia outro jeito. Eu não queria dar detalhes, embora eu soubesse que elas gostavam disso, mas a forma com que ambas me olhavam, essa era a minha última preocupação.
- Você o perdoou, ? - perguntou, sua voz soando calma.
também esperou uma resposta.
- Sim - admiti. - Nós conversamos e ele me prometeu que não faria mais. Então, a foto não é novidade para mim.
- Quando isso aconteceu? - questionou. - Quando você descobriu?
- Há alguns meses - dei de ombros.
Elas me fuzilaram com os olhos, mas nada disseram.
- - chamou, soltando um suspiro que soou resignado. Sua postura indicava que ela me daria uma notícia péssima. - Essa foto é de hoje. Para ser mais exata, é de vinte minutos atrás.
Silêncio de novo. Meu coração bateu mais rápido do que eu jamais me lembrei dele ter batido alguma vez na minha vida.
Eu tive que puxar o ar para os meus pulmões. Minha cabeça zumbia com mil e um pensamentos, enquanto eu tentava não surtar. Eu tinha consciência do olhar cuidadoso das minhas amigas sobre mim, mas ainda assim, eu não disse nada. Nem mesmo uma palavra, um resmungo, um xingamento.
- Vou pedir que Thomas segure um pouco a bomba, mas não sei por quanto tempo - eu ouvia dizer, mas eu não prestava atenção.
Ele tinha me tocado. Me beijado com tanto desejo, tomado o meu corpo contra o seu, me fazendo sentir desejada.
Para logo depois correr para os braços de outra.
- Eu preciso ir. - anunciei.
Peguei a minha bolsa e me levantei da cadeira, saindo do restaurante sob os protestos das duas, mas não voltei. Não ouvi nada do que elas diziam, não distinguia qualquer palavra, porque eu me sentia suja, enganada, infeliz.
Como pude ser burra ao ponto de acreditar que ele mudaria? Que suas promessas valiam de algo e que eu podia ser suficiente? Meu peito ardia em decepção.
Continuei andando, sem ter exatamente um rumo, um destino para ir. Desviei dos outros corpos pelas ruas, até o momento que meu corpo colidiu com o de alguém e eu murmurei diversos pedidos de desculpas e me encostei em uma parede qualquer dali. Sozinha, me permiti chorar tudo que eu tinha acumulado nos últimos dias, nos últimos meses, como se eu precisasse desse alívio, despreparada para enfrentar o que viria a seguir.
não me merecia.




Parte dois

Tried to hide it, fake it
I can't pretend anymore
Tentei esconder isso, enganar
Eu não posso mais fingir



Passei a mão pelo meu corpo, espalhando a espuma pela minha pele. A água não estava mais morna devido ao tempo que eu estava deitada naquela banheira. Desde que eu tinha deixado as meninas no restaurante, eu tinha voltado para casa, e sem surpresa nenhuma, não estava. Meu celular não tinha parado ainda de emitir as notificações de mensagens chegando o tempo todo e eu sabia quem estava mandando-as, mas eu simplesmente não queria falar com ninguém no momento. Eu tinha me recolhido no banheiro, me despido e me jogado direto na banheira com a água morna e cheia de espuma, na esperança de que eu me sentisse um pouco menos suja.
Um pouco menos traída.
Um pouco mais confiante.
Nada disso estava funcionando, e meus pensamentos só se tornavam uma bagunça que eu não estava disposta a arrumar tão cedo. Eu precisava de uma bebida. Forte. Levantei a cabeça em direção a porta quando ouvi barulho de passos. Eu sabia que era , mas meu coração tinha batido tão forte que eu queria me esconder ali, mas eu não podia. Estava cansada de me submeter as suas mentiras e a me tornar menos para que ele sempre fosse mais. Nunca deveria ter sido assim, e estava mais do que na hora de eu inverter os papéis. Eu deveria ser minha prioridade agora, eu quem deveria ser mais. - ? - ouvi a sua voz vindo do quarto e saí da banheira.
Puxei a toalha e me enrolei nela, limpando as espumas da minha pele. A lembrança da foto imediatamente apareceu na minha mente, e eu sabia o que estava me motivando a ser tão confiante naquele momento.
Essa foto é de hoje. Para ser mais exata, é de vinte minutos atrás.
- Estou aqui - abri a porta do banheiro, observando ele no meio do quarto, tirando o paletó.
Ele tinha a aparência serena. Sua expressão se delineou em um sorriso pequeno, seus olhos tinham um mistério contido e seu corpo parecia cansado, apesar de ele mostrar uma disposição excelente. Ele me encarou, e eu engoli a seco, andando até o guarda-roupa, pegando a primeira calcinha que eu vi e vesti rapidamente. Procurei um vestido qualquer e deslizei pelo meu corpo até estar vestida e deixei a toalha em cima da poltrona que decorava o nosso quarto.
- Achei que eu te encontraria em casa - comecei, me virando para ele.
sequer hesitou em mentir.
- Tyler me ligou, exigindo que eu fosse beber um pouco com ele - deu de ombros, como se não tivesse importância.
Não teria, se eu não soubesse a verdade. Meu estômago se revirou com tamanha mentira.
- É mesmo? - tentei manter a minha voz controlada e fechei as minhas mãos em punhos, impedindo-as que elas começassem a tremer. - Eu soube de uma versão diferente. Então vou perguntar, . Com quem você estava?
Ele teve a audácia de fazer uma expressão confusa. Se aproximou de mim como se ainda tivesse esse direito e quando tocou os meus braços com a ponta dos dedos, eu me afastei.
- - ele chamou. - Eu estava com o Tyler.
- Então Tyler é o nome da garota que você estava se agarrando horas atrás? - perguntei e vi a surpresa nos seus olhos.
Merda. Era verdade.
A realidade me acertou como um choque.
Aquele homem.
Aquele homem que tinha sido meu melhor amigo a vida toda, que foi o mais perfeito namorado quando estávamos na faculdade, que fez o melhor pedido de casamento que eu já vi. Aquele homem estava me traindo, tinha me convencido a perdoar o seu primeiro deslize, fazia eu acreditar em todas as suas mentiras, fazia eu duvidar de mim mesma e me tornou a mulher insegura que eu nunca quis ser. Tudo aquilo porque eu tinha medo de ficar sozinha.
- Meu Deus, como você pôde? - murmurei, sentindo a minha voz embargar quando eu não tive a sua resposta, o silêncio sendo a sua única confirmação que eu estava certa. A foto era verdadeira. - Você me toca daquele jeito e corre para tocar a outra da mesma maneira. Por que você faz isso?! Por que você sempre mente, ?
Espalmei as minhas mãos em seu peito com certa força, mas ele não reagiu. Eu me afastei, minha respiração irregular.
- , vamos conversar - ele pediu. - Eu juro que ela…
- Não significou nada? - cortei-o, completando a sua frase. - É, , eu já ouvi esse discurso antes e… não me toque!
Gritei, me afastando dele novamente.
- Você se transformou em alguém que eu não reconheço mais. Eu cansei de sempre te colocar em primeiro lugar quando eu não recebo a mesma coisa em troca, - desabafei, sentindo as lágrimas descerem pelas minhas bochechas e limpei-as rapidamente. Odiava e me recusava a chorar por causa dele. - Estou pedindo o divórcio.
Eu jamais pensei que teria coragem para aquilo, mas as palavras saíram da minha boca antes que eu tomasse consciência disso, mas não me arrependi e nem voltei atrás. enfiou os dedos no cabelo, puxando os fios de cabelo para trás. Eu calcei um salto qualquer e peguei a mesma bolsa de volta, retirando o meu celular. Tinha centena de mensagens das meninas e algumas da minha agente, mas só respondi e , pedindo que elas me encontrassem em algum lugar.
- Você não pode se separar de mim agora - ele começou a dizer. - O talk show, seu livro…
- Pare - resmunguei, me virando para ir embora.
- ! - tentou vir atrás de mim.
- Não - parei de andar, virando para trás, olhando para ele. - Vou sair sozinha e não quero ouvir mais nada de você.
Dei as costas para ele novamente, puxando a respiração, sentindo que a qualquer momento eu poderia desabar. Mas eu não queria. Estava cansada demais para isso. Enquanto chamava um táxi, esperei a resposta das meninas, que veio um minuto depois, com um endereço anexado.
Uma boate.
Não era exatamente o que eu queria naquele momento, mas talvez fosse o que eu mais precisava, então mandei um "ok" como resposta e quando meu táxi chegou, eu dei o endereço. Enquanto ficava sentada no banco de trás, encostei a minha cabeça, respirando fundo. Eu tinha pedido o divórcio. De repente, a insegurança dessa decisão estava batendo fortemente. Se eu não pensasse tanto, eu sabia, nada disso teria importância.

- , eu estou muito feliz, de verdade, pela sua decisão de finalmente pedir o divórcio - começou a dizer. - Mas você não acha que está exagerando?
Fiz uma expressão confusa para a pergunta dela. Meus dedos se firmaram ao redor do copo que eu estava segurando, o líquido de álcool quase escasso, já que eu tinha me empolgado demais com o fato de que eu podia beber e esquecer um pouco os meus problemas.
- Sobre o divórcio? - questionei, insegura.
Elas tinham me apoiado quando contei sobre isso, então por que ela estava questionando a minha decisão agora? , sentada ao meu lado depois de ter acabado de dançar na pista, ergueu os olhos para nós duas, como se tentasse se encaixar no assunto atrasada. Ela ficava meio aérea quando bebia.
- Não, sobre isso você está certa - revirou os olhos, e eu respirei aliviada, virando todo o resto do líquido. - Sobre as bebidas.
Encarei a minha melhor amiga e o copo agora vazio e dei de ombros. Eu precisava daquilo e não estava me importando nenhum pouco com quantos copos eu tinha bebido até agora, e nem sequer me lembrava das opções de bebidas que eu tinha ingerido. Eu tinha certeza de que eu iria me arrepender disso na manhã seguinte, mas naquele momento não.
- Eu mereço, vai - resmunguei.
riu. Ela estava tão elétrica que no segundo seguinte, só me sentia sendo puxada junto com para o meio da pista de novo, embora eu não aguentasse mais dançar. Queria me livrar daqueles saltos e meu corpo estava ficando mole o suficiente para eu não conseguir me manter muito tempo em pé. Mas eu me sentia leve.
Era como se o peso dos meus problemas tivesse me dado um tempo para eu curtir sem preocupação. Não perguntei sobre , nem falei sobre ele o tempo todo como achei que aconteceria. Não estava me lamentando sobre nada, eu só estava bebendo, dançando e rindo com as minhas duas melhores amigas, coisa que não fazíamos desde a faculdade. E fazia muito tempo.
A música tocava alto demais, mas a quantidade de álcool em meu sangue não me permitia raciocinar muito para descobrir qual era a música que tocava. Nem mesmo reconheci a voz de quem quer que estava cantando, mas a batida era boa. começou a rebolar de um jeito muito estranho, o que acabava fazendo eu e rir e mesmo que fosse a única da mais sóbria entre nós, ela entrava naquela brincadeira de passar vergonha em conjunto publicamente. Droga, eu nem mesmo estava me importando com a minha imagem.
Não era como se eu fosse Beyoncé e precisasse ter cuidado com cada passo que eu dava, mas eu era conhecida o suficiente para qualquer deslize me fazer perder patrocinadores.
Eu teria pensado nisso, se eu estivesse me importando com qualquer coisa além de diversão no momento. E não era como se eu virasse uma irresponsável de repente que saía fazendo todo tipo de escândalo só porque eu bebia, então não havia necessariamente uma preocupação.
- Rebola, rebola, rebola - entoava aquilo como se fosse uma música, mexendo os seus quadris desajeitadamente para o meu lado, e eu comecei a rir. - Que palavra bonita, vocês não acham?
- Acho que você está mais bêbada do que eu, . - tentei dizer com um tom de voz alto, para que ela me ouvisse devido ao volume da música.
- Rebolem! - ela exclamou, divertida, pegando a minha mão e puxando junto.
Nós três rimos e eu sentia falta daquilo. De como as coisas eram fáceis e eu acordaria no dia seguinte reclamando somente da ressaca e passaria o dia inteirinho dormindo, sem temer me atrasar para algum compromisso. As coisas eram simples e agora momentos como aqueles eram raros. Minha vida precisou virar de ponta para baixo para que eu começasse a perceber que eu tinha parado de me divertir daquele jeito há muito tempo.
- Foto! - eu gritei, tirando o meu celular do decote que eu tinha escondido.
Minha bolsa tinha ficado em algum lugar da salinha VIP que tínhamos ficado, mas eu sempre escondia meu celular comigo.
Deslizei o dedo pela tela, desbloqueando, e fui direto para a câmera. e se posicionaram atrás de mim, sorrindo e fazendo caretas e eu tirei várias selfies. Sequer me lembraria daquilo pela manhã, mas teria fotos registradas. Era a coisa mais importante.
Comecei a gravar um vídeo nosso quando uma música antiga que conhecíamos começou a tocar. Eu cantava e gritava de um jeito muito fino, mas as meninas me acompanhavam rindo e dançando. reclamaria de dor de cabeça no dia seguinte, mas também agradeceria por essas pequenas memórias. Acabei concluindo a gravação e guardei o meu celular de volta, me jogando na pista com ambas até os meus pés doerem.


Era 02:00 da madrugada quando resolvemos ir embora. Meu corpo reclamava de cansaço, quase implorando pelo conforto de um colchão e meus olhos pesavam de sono. Era um sinal da velhice sempre chegando, porque nós teríamos aguentado até o amanhecer, mas agora éramos adultas responsáveis que tinha trabalho no dia seguinte e precisávamos ir embora. Do lado de fora fazia frio, e o táxi estava demorando tanto que cogitei me jogar e deitar ali no chão mesmo, mas provavelmente estava imundo e eu acabaria contraindo alguma bactéria nojenta que me faria ficar muito doente, então me esforcei a permanecer de pé, segurando a minha bolsa com força, enquanto balbuciava alguma coisa incompreensível apoiada no meu ombro direito, enquanto estava no meu ombro esquerdo, com os olhos fechados, rendida ao cansaço. Ela segurava um copo firmemente nas mãos e eu sorri, balançando a cabeça. Comecei a tremer no momento em que uma buzina chamou a minha atenção, e eu apertei os olhos para enxergar quem estava dentro do carro estacionado bem na rua à nossa frente. Quando a porta do banco do motorista foi aberta e um homem de estatura média saiu de lá, meu coração quase saiu pela boca em reconhecimento.
- É o ! - exclamei, mexendo os meus ombros para as duas dorminhocas acordarem e fui alvo de reclamações. Cutuquei as duas fervorosamente, como se eu fosse uma adolescente vendo o crush pela milésima vez. - Não é o ?
Apontei para o homem, que nos avistou e abriu aquele sorriso lindo que ele tinha. Uau. Eu não via ele há… anos. Muitos anos.
- Ele está gostoso - quem disse.
- Ótima observação - pontuou, coçando os olhos preguiçosamente.
- Péssimo - murmurei, mas elas estavam certas. Ele estava mesmo gostoso, do ponto de vista do que isso significava para . E significava muito.
- Eu não entendo, ah… Oi, ! - eu não tinha percebido que ele estava se aproximando tão rápido até que ele se materializou na nossa frente.
Ele continuava exatamente do mesmo jeito que eu me lembrava. Seus cabelos ondulados em um tom castanho e meio loiro ainda estavam curtos. Os dentes sempre brancos, delineando um sorriso perfeito e sempre foi a parte que eu mais gostava nele. A única mudança perceptível era que ele estava um pouco mais musculoso, visto que ele era sempre muito magro.
- Meu Deus, garotas - ele falou, abrindo um sorriso fechado, alternando os olhos entre nós três. - Não era assim que eu esperava um reencontro do Trio Furacão.
- O que você está fazendo aqui? - perguntou, sempre direta demais quando queria saciar a própria curiosidade.
- Você - ele apontou um dedo em riste para mim. - Me chamou.
- Eu?! - exclamei, em surpresa. Eu não falava com há anos. Não teria sequer como eu ter chamado ele tão rápido assim e eu nem sequer sabia que ele estava na cidade. - Não, acho que… Não. Eu não te chamei.
Ele inclinou a cabeça para o lado e sussurrou um gostoso no meu ouvido, e eu chutei a sua perna discretamente, fazendo ela me beliscar no braço, e eu resmunguei.
pegou o próprio celular e mexeu em alguma coisa, em seguida virou a tela para nós três olhar e deu play em um vídeo.
- Ah… - perdi as palavras, envergonhada. Era o vídeo que eu tinha gravado de nós três depois do primeiro e eu chamava por ele e dizia que sentia a sua falta e que ele deveria estar ali, completando o grupo, como na faculdade. - Eu não me lembro.
Cocei a minha nuca, dando um sorriso sem graça para o homem na minha frente.
- Eu não achava que você ainda tivesse o meu número - ele disse. - Eu estou aqui porque você me mandou uma mensagem com esse vídeo e o endereço anexado pedindo que eu viesse buscá-las.
- Ele era o táxi? - perguntou. - Por que você demorou tanto?
- Eu nunca apaguei - confessei, respondendo ele. - Mas não achava que você ainda tivesse o mesmo número, então… foi um risco. Eu estou bêbada.
- Eu sou o táxi, - ele disse, com humor. - Vamos, está tarde e vou levar as damas para casa.
- Ai, graças a Deus - murmurou, nos fazendo rir.
Então minutos mais tarde, deixou as meninas exatamente na porta da casa de ambas, me deixando para ser entregue por último. Eu ainda estava sob o efeito do álcool, mas tinha plena noção e certeza das minhas decisões, por isso eu soei firme quando disse:
- Não quero ir para casa.
tirou as mãos do volante e olhou para mim com os olhos cintilando com uma curiosidade genuína. Ainda estávamos estacionados na frente do prédio do apartamento de .
- Certo - ele murmurou. - Um hotel então?
Cogitei a possibilidade, mas algo me assustou. Eu não queria ir para casa porque estava lá, mas também não queria ir para um hotel, porque não haveria ninguém lá e aquele tinha sido o dilema mais chato pelo qual eu passei até o momento.
- Você não entendeu - mordi o lábio, desviando o olhar do dele, encarando qualquer ponto na minha frente, sem prestar atenção de verdade. - Não quero ficar sozinha. Não vi a expressão de , mas ouvi o seu suspiro baixo e não soube como interpretar aquela reação.
- Você ainda tem o mesmo medo - ele observou.
- Você não? - perguntei.
Eu o olhei de novo. Ele ainda me encarava e balançou a cabeça em negação, respondendo a minha pergunta. Parecia que era coisa da minha imaginação que ele estivesse aqui mesmo, de verdade, sentado ao meu lado com as mãos no volante, mas não era imaginação. Era real.
- Eu não sabia que você estava aqui na cidade - comentei.
Não queria ser tão invasiva em perguntar tudo da sua vida de uma vez.
- Estou aqui a trabalho - ele respondeu. - Viajo muito às vezes, sabe? Sou produtor musical agora.
- Isso é ótimo, - fui sincera, abrindo um sorriso fechado, do qual ele me retribuiu.
Inferno, ele estava ainda mais bonito do que era quando o conheci.
- - sua voz soou diferente quando pronunciou o meu nome, mas tentei não pensar muito sobre isso. - Não sei o que está acontecendo com você ou sua vida agora, mas sei que é algo ruim. Não esperava receber uma mensagem sua hoje ou depois ou em algum momento - confessou. - Não porque eu te esqueci, mas porque eu pensei que você tivesse feito isso. Se você ainda confia em mim, , pode passar a noite lá em casa, não vai ser incômodo algum.
Eu estava sorrindo quando respondi.
- .
- O quê? - sua expressão se tornou confusa.
- Você ainda pode me chamar de - expliquei.
Ele sorriu aquele sorriso de novo e eu fiquei feliz e aliviada, duas sensações que eu pensei que não fosse sentir tão cedo.
coçou a bochecha, que eu percebi que tinha adquirido um tom rosado, mas não comentei sobre isso. Era muito fácil deixá-lo sem jeito, eu me lembrava.
- Eu não achei que tivesse perdido esse direito mesmo - ele piscou um olho para mim, sorrindo maroto.
Sim, eu também me lembrava que ele podia ser um pouquinho atrevido.
- Obrigada, . - murmurei, e ele assentiu, dando partida no carro.

Não demorou muito para que ele estacionasse o carro na garagem de sua casa. Eu estava sonolenta, mas ainda tinha a plena capacidade de olhar ao meu redor e observar o lugar que eu estava. Quando saí do carro, a garagem, além de guardar o carro, também estava cheio de tralhas e caixas de coisas antigas que eu não ousei perguntar por que estavam ali ou o que eram. Só fiquei em silêncio, seguindo-o por uma porta que nos levou direto para uma cozinha muito bem decorada. O cheiro de leite impregnava o ar.
- Pode ficar à vontade - olhou para mim com expectativa, e eu retribuí.
Assenti, agradecendo silenciosamente pela sua hospitalidade calorosa e eu ia abrir a boca para dizer algo, mas um choro de bebê ecoou pela casa, e eu franzi o cenho, confusa.
- Ah - disse, coçando a sua nuca e sem dizer mais nada, saiu da cozinha, me deixando ali sozinha.
Sem jeito, só olhei ao redor, tentando distinguir as cores que decoravam o ambiente, enquanto bocejava e tomei a liberdade de abrir a geladeira para pegar uma garrafa de água e me servir de um copo. Eu não sabia que tinha sede até aquele momento.
Quando guardei a garrafa de volta e ia lavar o copo, apareceu. E ele não estava sozinho. Nos seus braços, havia um bebê risonho, com bochechas fofas e olhos claros. Não precisei me esforçar muito para notar a semelhança entre ele e .
- , esse é o Theo - ele veio até mim, me apresentando o garotinho. - Ele é meu garoto.
Não pude deixar de sorrir ao ouvir o tom babão e carinhoso na sua voz quando ele pronunciou o “meu garoto”. Encarei o bebê tão entusiasmada quanto.
- Eu não sabia que… - balancei a cabeça, descartando o que eu ia dizer. - Oi, Theo. Toquei a bochecha dele com a ponta dos dedos e ele se remexia no braço do pai e sorria, achando ótimo morder a própria mãozinha logo em seguida. Ele era tão lindo e fofo que me remeteu as lembranças de quando eu pensei em um dia ser mãe, mas sempre adiava, dizendo que nunca era a hora certa.
Aparentemente, nenhuma hora seria.
- Não sou casado - disse, me fazendo olhá-lo. - Se era isso que você ia dizer.
- Ah, não - neguei prontamente, envergonhada porque a ideia nem sequer tinha passado pela minha cabeça. - Eu ia dizer que não sabia que você já era pai. Apontei para Theo, que ainda mordia a própria mão como se fosse um brinquedo interessante.
- Foi uma surpresa para mim, na verdade - ele confessou. - Eu tinha acabado de me separar quando ela descobriu que estava grávida.
- Por que você se separou? - questionei. Infelizmente, devido a quantidade de álcool que eu tinha ingerido horas atrás, eu costumava ser uma bêbada curiosa e fazia perguntas sobre qualquer coisa, não importava o que fosse e nem sequer me arrependia.
Eu sabia que não devia perguntar tão diretamente assim sobre a sua vida como se fosse um assunto tão comum quanto comentar sobre uma série em comum, por exemplo, mas quando olhei para ele, não pareceu se incomodar.
- É uma longa história, mas… - ele deu de ombros, ajeitando Theo nos braços, fazendo com que o menino encostasse a sua cabeça no ombro do pai. - Eu viajo muito, e ela passava o tempo todo sozinha, me esperando. Eu me separei porque houve traição.
Engoli a seco, desviando os olhos dos dele. Parecia uma tremenda ironia ter o coração partido pelo mesmo motivo que o dele, mas eu não comentei nada sobre isso.
- Foi difícil? - sussurrei a pergunta, piscando os olhos, encarando qualquer coisa que não fosse seus olhos.
Era inevitável meus pensamentos não correrem até .
- O quê?
- A separação - finalmente encaro-o, respirando fundo.
negou com a cabeça.
- Assumimos que seria melhor terminar como amigos, principalmente por causa do Theo - ele me explicou.
Bom, fazia sentido.
- Isso é ótimo - murmurei, ficando meio sem jeito de repente.
Não era exatamente um assunto que eu estivesse confortável de ter no momento. Eu não sabia mais o que dizer sem pensar em mim na situação em que eu me encontrava, mas eu não queria que os problemas de centralizasse os meus e nem que eu falasse sobre isso. Observei ele abrir a boca para dizer algo, mas uma voz feminina chamou a nossa atenção e uma mulher jovem apareceu na entrada da cozinha.
- Senhor Weiss, eu… - ela parou o que ia dizer quando notou que ele não estava sozinho e eu dei um sorriso sem graça quando seus olhos me encararam. - Ah, desculpe. Eu não sabia que tinha visita.
Foi gentil da sua parte dizer aquilo, visto que com certeza era tarde da madrugada e não era um horário exatamente adequado para alguém receber visitas.
- Laís, você está dispensada, se quiser - disse. - E pode tirar o dia de folga amanhã também.
Ela parecia extasiada.
- Tem certeza? - questionou e ele assentiu, com um sorriso discreto, porém lindo. - Obrigada, senhor. Até mais, Theo!
O bebê levantou a cabeça na menção do seu nome e Laís, que eu descobri ser a babá, despediu-se com um gesto e um sorriso carinhoso na direção da criança. Em seguida, ela se retirou tão rápido quanto apareceu.
- - chamou, fazendo com que eu o olhasse com uma expressão meio idiota. - Você deve estar cansada.
Sim, estava.
- Acredito que deva ter algumas roupas antigas da Janet que vão servir em você, caso queira tomar um banho - ele sugere. - Enquanto isso, vou fazer um café. Pode ser?
- Claro.
Fiz o que ele sugeriu. Depois dele ter me indicado qual o quarto de hóspede eu deveria ficar, ele levou o seu filho para o berço e me trouxe um conjunto de blusa e short. Tomei um banho rápido e percebi que tinha deixado a minha bolsa no seu carro, mas não me importei. Talvez fosse melhor para que eu não sofresse a tentação de responder às mensagens de ou sentir que eu ainda devia alguma satisfação a ele. Era difícil, notei, me livrar de algumas coisas. Eu ainda sentia aquela necessidade dentro de mim, aquela sensação de pertencimento, uma vez que fazia parte da minha vida desde sempre.
Como eu me acostumaria a uma vida sem a sua presença constante?
Não que ele estivesse estado presente nos últimos anos como eu gostaria que ele estivesse estado, mas no fim da noite, eu sabia que ele estava lá.
Soltei um suspiro frustrado, terminando o meu banho e amarrei o meu cabelo, que eu tinha optado por não molhar devido ao frio. Me enrolei na toalha rapidamente e vesti as roupas que tinha me oferecido, notando que ele estava certo e as peças couberam perfeitamente em mim.
Comecei a ficar ansiosa quando eu já estava devidamente vestida, tentando decidir se eu deveria descer ou não, se apareceria ali no quarto, ou algo do tipo. Eu me sentia mais sóbria do que antes, mas ainda sonolenta, desacostumada fácil a passar metade da noite bebendo e dançando. Eu sabia que eu estava agindo feito uma adolescente idiota que não sabia o que fazer quando ficava sozinha pela primeira vez com o cara por quem tinha uma quedinha, mas meu passado com o tinha sido um quase romance, se eu não tivesse me apaixonado pelo e descartado meus sentimentos por ele. Me xinguei baixinho, me sentindo patética por estar sozinha e parada naquele quarto sem decoração e resolvi sair. Desci as escadas, tentando adivinhar em qual cômodo estava, quando ele saiu por uma porta do outro lado da sala de estar.
- Ah, você está aí - ele disse, me olhando com um sorriso que teria feito minhas pernas tremerem. - Eu ia te chamar. Venha aqui.
Ele apontou e entrou de volta pela porta a qual saiu e eu o acompanhei, vendo que o lugar era uma espécie de escritório e havia duas poltronas perto de uma chaminé, onde uma fogueira pequena estava acesa.
- Seu café - ele me ofereceu uma caneca e eu aceitei, murmurando um agradecimento, sentando na poltrona oposta que ele tinha escolhido. - O Theo dormiu. Acho que podemos conversar um pouco.
- Ah, é? - seus olhos cintilavam curiosidade. Eu soube mais dele essa noite do que ele de mim. - O que você quer saber?
Me sentei melhor sobre a poltrona, cruzando as pernas e bebi um pouco do café forte, fazendo uma careta, já que eu não era muito fã daquele líquido específico. Preferia chá, mas café melhoraria a minha ressaca.
- Por que você não quis ir para casa? - ele me questionou, sem enrolação.
- Uau - murmurei. - Você ainda é muito direito.
Ele riu, levantando as mãos em rendição e pegou uma caneca ao seu lado do que também parecia café.
- É uma curiosidade ingênua, embora eu tenha ficado preocupado - confessou, bebericando o líquido quente. - Você não é casada?
Passei a língua pelos lábios, encarando-o, ainda tentando decidir se eu queria responder sobre o assunto.
- É complicado - foi tudo o que eu disse. arqueou a sobrancelha, como se soubesse que eu só estava dando uma desculpa.
- Bem - ele disse, com um sorriso travesso. - Eu tenho tempo.
Então eu contei. Meu corpo me traía em alguns momentos, mas eu conseguia me controlar perfeitamente e contei tudo como se fosse uma história distante e eu fosse somente a narradora dos acontecimentos infelizes.
não disse uma palavra o tempo todo enquanto eu falava, mas suas expressões mudavam o tempo todo. Ele me entendia. Eu sabia que sim.
- Eu pedi o divórcio - concluí. - E ainda não sei se é a decisão certa.
Deixei meus ombros caírem com o meu suspiro e bebi mais um gole de café, vendo que ele tinha ficado frio e depositei o copo na mesa de centro ao meu lado.
- - ele também se livrou da caneca, me olhando com compreensão. - Ficar sozinha nem sempre é ruim. Você sabe que nunca me dei bem por completo com o , mas achei que ele fosse minimamente decente com você. Achei, de verdade, que você pudesse ser feliz com ele.
- E eu fui, - respondi. - Eu só não sei qual foi o momento em que eu deixei de ser.
Ele suspirou, raiva passando rapidamente pelas suas íris. Eu me lembrava do momento de estar dividida por e e como nenhum se dava bem com o outro, mas se esforçavam para ter uma relação de colegas na minha frente. Eu me lembrava de estar apaixonada pelos dois, mas que simplesmente jogou tudo para o alto e me abriu caminho para ficar com o . E desde então, eu não tive mais contato com .
- Se eu soubesse… - ele sussurrou, desviando os olhos dos meus, como se estivesse sofrendo. - Se eu soubesse, eu…
- Não se torture, - pedi, piscando meus olhos para afastar as lágrimas, mas o tom embargado da minha voz me denunciou. Seus olhos voltaram para mim novamente e eu observei ele se levantar da poltrona e vir até mim, se ajoelhando na minha frente.
- - sua voz sussurrou, seus olhos presos nos meus. - Desde que te conheço, você é uma mulher extraordinária. Não linda ou gostosa, e você sabe que é as duas coisas, mas que não é só isso, mas completamente extraordinária. - suas mãos seguraram as minhas e eu não conseguia desviar os olhos do rosto dele, surpreendida com as suas palavras. - Ficar sozinha não vai ser problema para você. Porque você não precisa de ninguém, entendeu? Nunca precisou.
Mais uma vez surpreendida, me abraçou. Minhas mãos descansaram ao redor do seu pescoço e foi impossível não inalar o seu perfume. Pude sentir sua mão acariciar as minhas costas em um carinho silencioso e não sei por quanto tempo ficamos abraçados, mas senti meu corpo mais relaxado e quando ele se afastou e nossos rostos ficaram próximos, minha respiração se tornou irregular.
- Uma parte do meu coração sempre foi seu, mesmo quando o seu era de outro - ele confessou, tocando a face da minha bochecha e eu arfei de surpresa pela confissão que eu não estava esperando.
- … - sussurrei, aceitando o seu carinho, mas consciente o suficiente para entender o que estava prestes a acontecer. Engoli a seco e afastei o meu rosto do dele, fazendo-o recuar, sem jeito. - Sinto muito, acho melhor eu ir dormir.
assentiu, ficando em pé no mesmo segundo. Seu rosto não demonstrava mágoa e nem raiva pela rejeição, pelo contrário, um sorriso pequeno estava desenhado no seu rosto, enquanto ele bagunçava os fios do próprio cabelo.
- Boa noite, .




Parte três

Don't wanna hear you lie tonight
Now that I've become who I really am
Não quero ouvir você mentir essa noite
Agora que me tornei quem eu realmente sou



Duas semanas depois.


me procurava todos os dias.
Desde que eu tinha dormido na casa de , no dia seguinte resolvi ficar hospedada em um hotel, para não precisar enfrentar a presença do meu marido em casa. Não fazia muita diferença, uma vez que ele era insistente o suficiente para fazer a recepcionista me ligar três vezes por dia, praticamente implorando que eu deixasse ele subir para que nós pudéssemos conversar. Eu dizia não todas as vezes. As únicas chances que ele tinha de tentar uma conversa era quando tínhamos os encontros obrigatórios com a minha agente. Eu não tinha contado a ela ainda sobre o divórcio e não parecia disposto a contar também, então adiei mais um pouco.
Eu me sentia mais… leve. Era estranho a sensação de me permitir ser livre daquela maneira, mas uma vez que eu tinha experimentado, eu estava gostando. Eu ainda pensava em e todas as coisas que estávamos passando naquele momento, e embora eu ainda o amasse, não era o mesmo amor de antes. Era um amor… diferente. O tipo de amor que era transformado com o tempo. O tipo de amor que não me empolgava mais, mas ainda estava ali, a sombra dele, para lembrar o que ele foi de verdade um dia. , por outro lado… conversava comigo o tempo todo por mensagens. Era como se eu o estivesse conhecendo tudo de novo, e ele me fazia sentir sensações que eu achei que não pudesse sentir mais. Eu ria com mais facilidade, eu me animava com a expectativa de vê-lo e verdadeiramente adorava a sua presença. Tinha me encantado completamente até pelo Theo, aquela lindeza de criança.
Me remexi na cama, tendo a plena consciência que eu estava bem relaxada, vestida somente de calcinha e sutiã, descalça sobre o colchão enorme e confortável. Meu Deus, eu nem sabia que precisava de um dia inteiro sem fazer nada até ter. Não atendi a minha agente o dia inteiro, mas quando o meu celular tocou outra vez, eu atendi sem ver quem era.
- Você está atrapalhando a minha evolução espiritual - murmurei, atendendo a ligação, encarando o teto com diversão.
- Candice, caralho, você está me ignorando o dia inteiro - disse e eu sorri com o seu humor.
- Alguém morreu? - questionei, a voz mais despreocupada do que nunca esteve.
- Não, mas vai - ela respondeu. - E vai ser eu, se você não me ajudar. Franzi o cenho, ligeiramente preocupada e me coloquei sentada na cama. A voz dela estava controlada demais para o meu próprio gosto.
- O que aconteceu?
Ouvi ela soltar a respiração pesada do outro lado e esperei. - Prometi ao meu chefe que eu levaria o pirralho ao evento da empresa - ela começou. - Acontece que essa porra de evento é em Chicago e o voo foi cancelado.
- Ahn… - mordi a parte interna da minha bochecha, entendendo em parte o problema dela. - , eu não sei exatamente como eu posso te ajudar.
- Você pode me ajudar arranjando um voo - ela disse e eu ri.
- Não sou a dona do aeroporto, garota - respondi, o que deveria ser bem óbvio para ela. - E não conheço ninguém no meio para influenciar isso.
- Candice - sua voz soou firme demais, quase tão firme quanto um tom de ameaça. - Preciso deixar esse pedaço de gente irritante perto do pai pelas próximas 12 horas. O próximo voo só sai amanhã à tarde. Você entende que a conta aqui não bate, não é?
É, eu entendia. Mas ela não podia achar que eu fazia milagres.
- O que você quer que eu faça? - questionei, sabendo que com certeza ela tinha uma ideia.
- Você pode me arranjar um jatinho.
- , eu não sou rica a esse ponto - respondi, frisando para que ela entendesse que eu não fazia milagres mesmo.
- Hm, não - ela compreendeu fácil demais. - Mas o , sim.
Foi então que eu entendi que essa era a intenção daquela pilantra o tempo todo. Claro que eu tinha contado a elas sobre o , e como eu me senti e vinha me sentindo com a presença dele de volta na minha vida. era a que mais me incentivava a investir, se era isso que podia me fazer feliz. O problema era que eu não queria sair de um relacionamento e pular para outro tão rápido. As chances de dar certo eram praticamente nulas e eu nunca fui conhecida por me arriscar.
- Não vou fazer isso - decidi.
Ela soltou um suspiro longo do outro lado da linha. Tinha certeza que, conhecendo-a como eu conhecia, ela revirou os olhos diversas vezes.
- Sou sua melhor amiga - chantagem emocional era a sua tática argumentativa mais conhecida. - A gente faz alguns sacrifícios pelas melhores amigas. Eu super faria com você. Além do mais, eu gosto dos benefícios do meu emprego.
- Continuo dizendo não - admito que suas palavras foram muito boas, mas me mantive firme na minha decisão.
- Você vai contribuir para que um menino de 8 anos seja rebelde - ela continua. Eu me levantei, andando até o closet aberto, procurando por um vestido. - E se ele for o próximo serial killer mais procurado do FBI porque não conseguiu ir para o evento com o pai?
- Isso parece um exagero - respondi, optando por um vestido longo preto de tecido simples. Coloquei o celular entre o ombro e a orelha, vestindo a peça de roupa. - Suas táticas de argumentação estão falhando seriamente.
- É porque você não tem a porra de um coração mais e… Conrad, eu disse para você não tirar os fones! - ouvi ela se interromper e falar com o menino que estava sob a sua tutoria. - Você vai me ajudar ou não? Não quero ter que recorrer à , ela não tem um .
Soltei uma risada e segurei o celular de novo, andando até o espelho, que dava para ver meu corpo inteiro.
- Eu te mando o endereço - falei, ouvindo ela dizer que me amava e encerrei a ligação.
Calçando os saltos, tomei coragem e liguei para , que atendeu no segundo toque.
- Isso é saudade? - o tom divertido da sua voz atendendo o telefone me deixou aliviada.
Eu vivia tão tensa que às vezes esquecia que ele não era . tinha mais gentileza.
- Talvez - respondi, o tom leve também, com o sorriso de sempre no rosto. - Acho que eu vou ser direta, porque não sei de que outra forma posso pedir isso.
- Vá em frente, querida.
- Você lembra da ? - perguntei e ele confirmou. - Hm, eu preciso de um favor.
Expliquei a sobre a situação de . Ele pareceu tranquilo o tempo todo e chegou a me dizer que achava que eu pediria uma coisa mais grave ou difícil, o que acabou deixando-o aliviado no final. Combinei que eu estava devendo-o uma e assim que desligamos a ligação, ele me mandou o endereço de onde deveria pegar o jatinho, e que ele tinha deixado tudo pronto. Agradeci e ajeitei o meu cabelo, disposta a descer para o jantar, quando a minha agente me mandou uma mensagem, solicitando que eu fosse justamente para o restaurante do hotel. Eu queria ter mandado mensagem dizendo que eu não estava ali, mas achei que eu tinha ignorado gente demais para um dia e resolvi encontrá-la de todo o jeito mesmo. Saí do quarto, pegando o elevador e fui direto para o restaurante, sem dificuldade alguma de encontrá-la no canto, em uma mesa para quatro.
- Estava esperando que você ignorasse essa mensagem também - ela me cumprimentou assim que eu me sentei de frente para ela.
- Eu precisava de um tempo - respondi, dando de ombros. Se havia alguém que entendia isso, era ela.
- Na verdade, eu vou ser bem breve, - ela disse. - O fato de eu ter insistido em tentar falar com você o dia inteiro é porque eu tenho uma proposta para te passar que precisa de uma resposta o mais rápido possível.
Encarei-a, balançando a cabeça positivamente, em um incentivo silencioso para que ela continuasse. Minha curiosidade já tinha sido ativada.
- A equipe de Julia Scott te convidou para ser a principal palestrante sobre relacionamentos - ela continuou. - Ela vai estrear o novo best seller e casamento é um dos tópicos.
- A Julia Scott? - perguntei, surpresa demais para acreditar.
Eu admirava demais aquela mulher. Tinha todos os seus livros e lia até seus rascunhos de receitas. Jamais imaginei que fosse ser convidada por ela para qualquer coisa, mas ali estava eu… convidada para ser palestrante de um dos tópicos do seu livro e não poderia ser um tópico mais irônico, já que meu casamento tinha sido fadado ao fracasso.
Claro que nem minha agente e nem ninguém de fora do meu círculo íntimo sabia disso. E era justamente por aquele motivo que o convite apareceu.
- Sim! - e ali estava a Marie animada, sorridente. - Não é incrível? Eu, como a sua agente, particularmente acho que você deveria aceitar. Vai ser ótimo para você. Além do mais…
Encarei-a com empolgação, o que eu não sentia há um tempo.
- Anda, Marie, fala logo! - fiz gestos exagerados com as mãos, pedindo que ela parasse com aquele mistério que eu não tinha mais idade para aquilo.
- Não é nada certo e não quero que você crie expectativa em cima disso, mas o canal da EEC está estudando que você e tenham o próprio programa de TV, não uma série, como tínhamos combinado.
Eu sabia que aquilo deveria ter me deixado feliz. Mas o sorriso morreu no meu rosto e minha expressão fechou, mas Marie não parecia ter percebido nada disso, presa na bolha da própria animação. Um programa era melhor do que uma série sobre nossa rotina, mas ainda assim...
- , é um contrato milionário! - ela disse, como se eu não soubesse. - Sabe o que isso significa?
- Que 30% é seu, Marie - respondi e ela concordou. Eu não podia culpá-la. Trinta por cento de um contrato milionário era mais do que um salário-mínimo que ela já tenha recebido na vida.
- Qual a sua resposta para ser palestrante? - ela voltou ao assunto, mas meus pensamentos estavam longe disso.
- sabe? - questionei.
Marie abriu a boca para responder, mas seus olhos pararam em alguém antes de mim e eu ouvi a voz antes de me virar para ver quem era, notando parado ali.
- Sim, eu sei. - ele respondeu. - E gostaria de conversar com você sobre isso, .
Marie olhou para nós dois e eu forcei um sorriso, assentindo para . Eu queria ter tido não, mas ela notaria que tinha algo errado e eu já estava pedindo demais que ela não perguntasse sobre eu estar hospedada em um hotel, por exemplo.
Sabia que ela não era burra e nunca a subestimei assim, mas provavelmente ela achava que era só mais uma crise de casal.
- Eu aceito, Marie - respondi a sua pergunta de antes e ela sorriu, se levantando.
- Nós conversamos depois, eu vou deixar os dois sozinhos agora.
Concordei e me despedi dela, prometendo que eu ligaria para acertar os detalhes que não conseguimos. Quando tomou o lugar dela na minha frente, meu corpo inteiro ficou rígido pela sua presença. Meu coração pulava rápido demais, batendo contra o meu peito de uma forma que eu julguei ser irregular e chamei um garçom, pedindo um copo de água com gás. não pediu nada.
- O que você quer? - questionei, depois de um longo período de silêncio em que ele só me encarava, me deixando desconfortável.
Não havia nada nele que me deixava suspirando apaixonada mais.
- Te convencer que o divórcio é uma besteira, - ele começou a falar e, meu Deus, eu sabia todo o seu discurso decorado.
- É uma besteira para você, . Não é para mim - respondi.
O garçom trouxe a minha água e eu agradeci, bebendo um gole considerável. Encarei em silêncio. Ele tinha uma expressão cansada, um sorriso torto confiante demais e tudo o que eu sentia era tensão. Não conseguia relaxar o meu corpo e percebi que me senti assim com ele por muito tempo, eu só não queria aprender a enxergar, porque ele me fazia sentir bem depois. Quando brigávamos e ele saía, eu não dormia enquanto ele não aparecesse, para que eu tivesse certeza de que ele tinha me desculpado por qualquer besteira que eu tenha dito.
- Eu já te expliquei que nunca significou nada, - ele passou os dedos pelos fios do cabelo. - Quantas vezes preciso me explicar novamente?
- Nenhuma - respondi. - Eu não quero mais ouvir.
Ele soltou um suspiro. Eu conhecia suficiente para entender que ele não estava ali só para me convencer de desistir do divórcio e quando ele abriu a boca de novo, eu tive certeza disso.
- É um contrato milionário, - ele argumentou. - Um programa de TV é uma boa chance para abrir outras portas. Eu quero te fazer uma proposta.
- , é um possível contrato, não é certeza - revirei os olhos.
- Você sabe que isso vai acontecer - sua certeza me deixou desconfiada, mas ele não estava exatamente errado. Se Marie tinha falado comigo sobre aquilo, com certeza iria acontecer. - O que eu estou propondo é adiar o divórcio. Fingir que ainda somos casados até essa oportunidade acontecer. E então… podemos nos separar depois.
Pisquei meus olhos. Eu não estava acreditando mesmo que ele estava propondo aquilo para mim, depois de tudo o que ele tinha feito. Ele sempre deu valor demais a isso, mas eu não sabia que chegava a tanto.
- Isso é… - tentei dizer, quando ele me cortou.
- Genial! - seu sorriso cresceu e eu crispei os lábios. - Você finalmente pode comprar aquela casa que você sempre quis, pode trazer a sua mãe para morar por perto, pode investir nos seus programas sociais. , é uma vantagem tanto para mim, quanto para você. Não pode negar.
Eu queria perguntar que vantagens tinha para ele, mas sinceramente eu cansei de me importar com aquilo. Se isso o fizesse me dar o divórcio de uma vez, eu podia levar. Eu só esperava não aguentar tempo demais fingindo estar com ele em um casamento perfeito.
Quando não respondi, já sabia que eu tinha aceitado.


No dia seguinte, me preparei para participar de uma ligação de chamada de vídeo com e . Eu tinha acabado de fazer as minhas malas e tinha certeza de que elas iam me questionar sobre isso, o que seria péssimo porque:
1: Eu ia ter que contar que estava voltando para casa, para a mesma casa que , e;
2: Nada de contar sobre a farsa. Pelo menos por enquanto.
3: ia ficar muito puta.
Engoli a seco, fechando o zíper da última mala de mão no momento em que a tela do computador ecoou uma musiquinha irritante, indicando uma nova chamada de vídeo para aceitar. Respirando fundo, cliquei na opção de aceitar chamada e as duas apareceram em tela cheia, uma de cada lado.
estava passando a semana com os pais, e ainda estava em Chicago.
- Oi! - cumprimentei alto e animada demais, me sentando na cadeira giratória, aparecendo melhor no vídeo.
- Ei, , tá frio pra caralho aí? - perguntou, levantando as mãos com a intenção de mostrar que ela estava vestindo mais de um casaco. - Não aguento mais.
- Não está tão mal - respondi, com um sorriso.
- Você é muito exagerada, Lia - murmurou, revirando os olhos divertida. - Como está Chicago?
- Eu disse - respondeu. - Frio pra caralho.
Nós rimos, mas eu não estava nenhum pouco relaxada.
- - chamou e eu resmunguei em resposta. - Hm, você tem algo para nos contar?
Eu odiava como a era sempre tão perceptiva. Ela prestava tanta atenção em qualquer detalhe que conseguia perceber com facilidade quando tinha algo errado. Era sempre por esse motivo que eu sabia esconder as coisas de , mas nunca dela. Nunca de .
- Por que você acha isso? - questionei, tentando ganhar tempo, ajeitando a minha posição na cadeira.
- Você parece tensa - observou. - E dá para ver suas malas feitas.
Murmurei um "ah" inaudível.
- Ela sempre está tensa, isso é culpa do - reclamou. Depois, estreitou os olhos, esfregou os braços e apontou um dedo na direção da minha tela. - , aquele filho da puta esteve aí?
E eu contei. Contei tudo, desde nossa conversa até as minhas malas agora.
- Caralho, - foi quem se pronunciou primeiro. - Você está maluca, porra?
- … - tentei dizer, mas ela me interrompeu, obviamente infeliz com a minha decisão.
Eu sabia que ela estaria puta, mas mais do que isso, estava transtornada.
- Não. Não venha com "" agora. Observei seu relacionamento com esse idiota ruir por anos e não disse nada porque achei que você sabia o que estava fazendo. - ela continuou. - Achei que eram fases temporárias a sua infelicidade, mas todas as vezes o seu semblante era o mesmo.
- , você não pode… - tentou dizer.
- Eu posso! - esbravejou, fazendo com que eu respirasse fundo. - Não vou assistir você se diminuir de novo para enaltecer esse idiota, entendeu?
- Não acho que ela está errada, - disse, calma como sempre. - Acho que você sabe que ficou melhor sem ele.
- Eu acho que não posso levar muito em conta a opinião de alguém cujo relacionamentos não duram mais de uma semana e outra que nunca se apaixonou para entender.
Me arrependi no mesmo momento em que as minhas palavras saíram. A expressão de , se fosse possível, estava duplamente mais puta. tinha uma expressão magoada.
- Vai se foder, - disse, desligando a chamada em seguida.
- Não preciso me apaixonar para entender o que é um abuso - murmurou. - Boa sorte, .
- , espera! - pedi, mas ela já tinha desligado a chamada também.
Soltei uma série de xingamentos, me odiando por falar o que eu não devia. Elas só estavam tentando me proteger e eu fui extremamente idiota com as duas. Peguei meu celular, mandando mensagem para ambas, mas elas não me responderam. E tive a impressão de que não iriam por um tempo.


Durante o dia inteiro, não consegui chamar um táxi que finalmente me levasse de volta para casa. Não que tivesse algum problema, eu simplesmente não conseguia. Já era quase madrugada, me ligou somente uma vez para questionar por que eu ainda não tinha chegado e avisou que talvez ele não estivesse lá quando eu aparecesse. Eu não esperava a sua recepção nem que ele estivesse me esperando. Eu estava mais preocupada em como faria para que as meninas perdoassem a minha babaquice, mas elas não me atendiam, nem respondiam as minhas mensagens, e eu resolvi dar um tempo. Mas eu era péssima nisso e odiava magoá-las. Queria urgente resolver a situação que eu mesma criei. Soltei um suspiro longo e frustrado, pegando o meu celular, chamando o maldito táxi de uma vez. Assim que confirmei o endereço, me ligou.
- , mil desculpas te incomodar agora - a voz dele estava estranha e eu nem sequer consegui cumprimentá-lo, porque ele não perdeu tempo assim que atendi a ligação. - Mas eu estou desesperado. Theo está ardendo em febre e vomitando desde cedo. A babá não está aqui e eu não sei o que fazer, eu…
- , por favor, respira - interrompi o seu nervosismo, entendendo que ele estava surtando a beira da preocupação. - Estou chegando aí, ok?
- Certo, eu… - ele respirou fundo, o som do choro de Theo ecoando. - Obrigado.
Deixei as malas para lá e esperei o táxi, que chegou exatamente cinco minutos depois que encerrei a ligação. Saí do quarto e do hotel, andando até a saída e entrei no carro, dizendo o endereço ao motorista. Como era madrugada, o trânsito não estava um caos. Em exatamente trinta minutos, eu já estava de frente à casa de .
- Você pode esperar aqui, por favor? - perguntei e o motorista assentiu, concordando. - Pode deixar rodando.
Apontei para o taxímetro, e ele concordou novamente. Saí do banco passageiro, segurando a pequena bolsa pela alça do meu ombro. Eu nem precisei bater na porta, porque assim que me aproximei, a abriu, me dando passagem para entrar.
- Vi você chegando pela janela do quarto - ele explicou.
- Tudo bem - respondi. - Cadê ele?
- Dormindo no berço. - me respondeu, tomando a atitude de subir as escadas novamente. Em silêncio, eu acompanhei os passos dele, tentando não me sentir estranha.
abriu mais ainda a porta do quarto do filho, totalmente decorado de um amarelo claro e azul marinho, duas cores que eu nunca imaginei juntas em contraste, mas que tinha combinado com a essência do quarto.
Era um quarto normal de bebê e Theo estava dormindo no berço, como tinha dito. Eu andei devagar até ele, vendo a serenidade na expressão de um ser humano tão pequeno e quando toquei a sua testa, vi o quão quente ele estava.
- Vamos levá-lo a um hospital, está bem? - me virei para , que estava parado perto da porta, os ombros tensos e a expressão preocupada. Ele assentiu. - Pegue uma bolsa.
Ele andou até uma cômoda perfeitamente arrumada e retirou uma bolsa pequena de uma das gavetas e me entregou. Sem ter exatamente uma experiência, eu só juntei os itens necessários que eu achei que um bebê fosse precisar.
Quando fechei o zíper da bolsa, encontrei parado ao lado do berço de Theo, o mais velho fazendo carinho no mais novo, que dormia como um anjo.
- Ei, - sussurrei, me aproximando, meu coração pequeno com a sua expressão preocupada. Eu devia imaginar que aquilo não era fácil para ele. - Ele vai ficar bem.
Toquei o ombro de , ousando acariciar a sua pele, tentando passar conforto. Ele virou o rosto na minha direção e deu um sorriso pequeno e torto para mim.
- Ele nunca ficou doente assim, sabe? - me contou. - Quando começou a vomitar, fiquei desesperado. Seu número é o único em que consegui pensar em ligar. Obrigado, .
- Não por isso, - dei um sorriso verdadeiro para ele, apertando o seu ombro com leveza e afastei a minha mão. - Vamos. O táxi está esperando.




Parte quatro

This is the part when I say I don’t want ya
I'm stronger than I've been before
This is the part when I break free
'Cause I can't resist it no more
Essa é a parte em que eu digo que não te quero Eu sou mais forte do que era antes
Essa é a parte em que eu me liberto
Porque não posso mais resistir



- Me sinto um completo idiota - começou a falar. - Por não ter pensado em vir direto para um hospital primeiro.
Eu ri baixinho, bebendo um gole do café. Theo estava bem, mas precisava ficar uma noite em observação e apesar de ter insistido que eu podia ir para casa, eu optei por ficar.
- Que sorte a sua que eu penso rápido então - respondi, com a voz mais leve.
Ele ainda estava preocupado, claro. Mas estava mais tranquilo também que o médico tinha dito que não era nada grave e que Theo iria ficar bem em algumas horas, pronto para ir para casa. avisou a mãe do menino, tranquilizando-a sobre ela não precisar pegar um voo naquela madrugada e que iria mantê-la informada sobre qualquer novidade. O hospital estava silencioso, e quando Theo pareceu satisfeito dormindo, chamei-o para tomar um café e comer algo na cantina, onde estávamos agora. Um de frente para o outro na cantina quase deserta, exceto por um casal do outro lado, que comiam em silêncio.
- Você deveria ir para casa - voltou ao assunto e eu suspirei. - Mesmo.
- Conversamos sobre isso - alertei-o, lançando um olhar para ele, indicando que ele não deveria insistir mais naquilo. - Além do mais, eu não tenho nada importante para fazer. Fico mais tranquila em te fazer companhia. E para o Theo, claro.
Pigarreei baixo, percebendo que eu tinha falado algo sem pensar. Não era a minha intenção parecer que eu estava flertando com ele, mas quando sorriu, fiquei aliviada por ele ter entendido o que eu quis dizer.
- Você parece exausta, - ele comentou, seus olhos me observando.
Pisquei meus olhos, sustentando o seu olhar. Em seguida, mexi meus ombros, fazendo pouco caso do meu cansaço ou o que fosse. Bebi mais um gole do café, infeliz que ele tinha esfriado, e acabei deixando o copo de lado.
- Eu me sinto pior do que pareço - murmurei, dando um sorriso fechado e claramente forçado.
Sem que eu esperasse, colocou as mãos em cima da mesa que dividia o nosso espaço e sua mão tocou a minha, acariciando a pele da minha mão levemente. Pisquei meus olhos na direção dele, sem entender como eu estava me sentindo.
- Eu te amei, você sabe disso, não sabe? - ele sussurrou tão baixo, que se eu não estivesse perto o suficiente, não conseguiria entender com clareza o que ele tinha dito.
Meu coração saltou. Eu com certeza parecia uma adolescente recebendo sua primeira declaração de amor, sem saber exatamente o que responder, porque parecia ser bom demais e eu temia que fosse um sonho. Mas eu não era mais uma adolescente. Não estava mais na faculdade. Era uma adulta. Uma adulta que sabia reagir a aquele tipo de coisa, mesmo que eu perdesse o fôlego e meu coração batesse como se eu tivesse acabado de correr uma maratona.
- Eu sei - murmurei, finalmente, porque era a verdade.
Eu sabia. Sempre soube. Ele só não foi a minha escolha.
Desmanchei o meu sorriso, soltando a respiração pesada quando ele entrelaçou os nossos dedos, o silêncio recaindo sobre nós, enquanto eu me perguntava o que deveríamos ter sido.
Eu não podia me aprofundar naquela questão. Viajar para o passado no momento da vida em que eu estava era perigoso para mim e a última coisa que eu queria era remoer as decisões que eu não podia mudar.
- Devíamos voltar para o quarto - comentei, o tom de voz baixo, mas seguro.
Eu queria que ele entendesse que eu não o estava rejeitando uma segunda vez. Muito pelo contrário, eu rejeitava a ideia de ele suprir a minha carência, que ele fosse a minha segunda opção, que ele curasse tudo de ruim que eu estava sentindo. não merecia ser o band-aid de ninguém.
- Tudo bem - ele concordou, compreensivo.
Seus dedos se afastaram dos meus e ele se levantou primeiro, escondendo as mãos nos bolsos do casaco. Me sentindo a pior pessoa do mundo, eu o acompanhei.


Passamos a noite inteira juntos. Theo dormiu o tempo todo e antes de dormir, eu e conversamos mais. Sobre ele, sobre mim, sobre nossas vidas. Expliquei que nunca apaguei o seu número na esperança de que eu fosse encontrá-lo um dia. Ele explicou que nunca trocou na mesma esperança. Não tinha certeza do que aquilo significava, mas não pensei muito. Eu não estava com sono, mas, mesmo assim, cochilei, dividindo o pouco espaço do sofá com ele, minha cabeça no seu ombro. Na manhã seguinte, a enfermeira comunicou que a febre de Theo tinha abaixado e que ele iria ter alta mais tarde, no mesmo dia.
- Café da manhã? - ele me convidou, acabando de colocar o filho de volta no berço pequeno.
Theo dormia tanto que eu cheguei a sentir um pouco de inveja de como ele era sempre desprovido de preocupações e problemas na vida.
Assenti, aceitando o convite, saindo do banheiro. Eu não tinha trazido nada, mas fiz o possível dentro de uma higiene matinal que o banheiro do hospital me permitia. Deixando Theo com a enfermeira, nós saímos do quarto.
- A Adele? - questionei, a voz elevando um tom de surpresa. - Tipo, Adele de someone like you e set fire to the rain? Essa Adele?
riu, caminhando pelo corredor comigo ao seu lado. Como ele era produtor musical, e até meio famoso no seu ramo, ele me contou que às vezes topava com pessoas famosas. Mas eu estava tendo dificuldade de acreditar que ele topou com a Adele.
- E Ed Sheeran, Dj Snake… - ele continuou dizendo e eu dei um soquinho no seu braço, fingindo indignação. - Ei! Você também tem certos privilégios.
- Eu sou tipo uma coach - admiti, com uma careta expressiva. - Ninguém gosta de coach.
- Você é uma especialista, mulher - ele me corrigiu, me fazendo sorrir. - Coach não tem especialidades. Ou têm?
- Eu não tenho ideia - confessei, escutando a risada leve dele.
- Você não é uma coach - ele me garantiu e eu agradeci o alívio. Nada contra coach, mas… - , eu… Aquele não é o ?

- O quê? - questionei, confusa de como tinha ido parar na nossa conversa, mas quando apontou atrás de mim, eu me virei.
estava ali mesmo.
Tínhamos chegado na entrada da cantina do hospital e ele estava sentado de costas para mim e de frente para uma mulher e uma criança de mais ou menos quatro anos de idade. Franzi o cenho, mais confusa ainda, algo dentro de mim gritando que eu sabia o que aquilo era, mas calei a voz.
- É, é ele - confirmei, minha voz falhando.
Fiquei parada no mesmo lugar, tentando decidir o que eu deveria fazer. Meu olhar alternava entre as duas pessoas com quem ele estava sentado.
- , você está bem? - me perguntou, e sua voz pareceu muito distante, embora ele estivesse ao meu lado.
- Você se importa…? - apontei para onde aquele idiota estava e fez que não com a cabeça.
Com esse aceno, eu firmei os meus pés sob o salto e caminhei até .
- ? - chamei, parando atrás dele.
A mulher e a criança me encararam. se virou, levantando-se da cadeira e me encarou com os olhos arregalados, certamente esperando que aqui fosse o último lugar que eu fosse flagrá-lo. Meu Deus, como eu era idiota.
- Papai, o meu bolo - a criança disse, a voz entediada.
Quase perdi o ar quando ouvi a menina chamá-lo de pai. Eu a encarei, percebendo que ela parecia muito com , mas mesmo assim…
- , me ouça…
- Você - cortei-o, apontando para a mulher, que observava a situação em silêncio. - Quem é você?
- Ah… - olhou para ela, mas a mulher não pareceu intimidada e a menina voltou a prestar atenção em seus próprios desenhos.
- Sou a mãe dos filhos dele. É melhor do que dizer amante.
- Filhos? - minha voz quase falhou, alternando o olhar entre ela e aquele canalha.
- Sim, filhos - ela respondeu. - O mais novo está fazendo exames.
- Meu Deus, - murmurei, me sentindo arrasada. Eu sabia das traições, mas filhos?
- , por favor, isso não muda nada - ele implorou, o tom de voz baixo e quando ele se aproximou um passo, eu me afastei. - Isso não pode mudar o nosso acordo.
- , você é tão egoísta que essa é a única coisa que você pensa? - balancei a cabeça, me sentindo péssima.
Como eu pude sequer cogitar continuar com aquele homem? Brigar com minhas amigas para manter uma farsa com ele? Desistir da minha liberdade, de mim, para fazer os seus desejos em primeiro lugar. Como eu pude ser tão cega que não enxergava que ele estava sempre na minha frente, me fazendo de sombra?
- Ele precisa do dinheiro - a mulher se intrometeu, e eu desviei o olhar para ela. Não havia ar superior em sua expressão, ódio, nada. Havia… pena. E eu soube que era de mim. - A modelo está grávida e está exigindo uma fortuna dele para não expor à mídia.
Em um acesso de raiva, eu comecei a estapear nos braços e peito, xingando-o de qualquer coisa que eu conseguisse me lembrar. Eu não soube o momento em que se aproximou, mas seus braços me envolveram e me afastaram de .
- , se acalme - pediu, me segurando pela cintura. - Estamos em um hospital.
Notei que as pessoas que estavam na cantina nos olhavam. Eu não era aquele tipo de pessoa, que dava show por qualquer coisa, mas eu simplesmente estava esgotada. Como se eu tivesse chegado ao meu limite.
- Eu te odeio, William.
, entendendo a situação, me levou de volta ao quarto de Theo. Surpreendendo a mim mesma, comecei a chorar tão intensamente quanto eu podia, como se eu estivesse guardando muita coisa por anos. Eu chorei por ter amado alguém que não me deu a mínima, chorei por ter sido idiota com as meninas, chorei e chorei. , sem saber exatamente o que fazer, me envolveu em seus braços, deixando que eu chorasse no seu ombro, abraçada a ele em um conforto inesperado por mim. Ele não disse uma palavra sequer, afagando os fios do meu cabelo e minhas costas em silêncio.
Eu devo ter ficado naquela situação por uns bons minutos até finalmente me acalmar.
- Sinto muito - murmurei para , me afastando devagar dele.
- Não, não diga isso - me pediu e eu assenti, passando as mãos pelo rosto.
Não tive vergonha de ter passado bons minutos chorando no ombro dele e encharcando a sua camisa. Aparentemente, estava ficando comum eu fazer aquilo. Abri a boca para dizer algo, mas meu celular tocou em algum lugar. Andei até a minha bolsa, que estava jogada no sofá e peguei a mesma, tirando o meu celular de lá. Era uma mensagem da minha agente, dizendo o dia, local e hora que eu daria a minha palestra.
- É a Marie - expliquei a , que assentiu. - Tenho a palestra amanhã, então acho melhor eu ir e me preparar.
Theo resmungou algo, abrindo os olhinhos. foi até ele, pegando o garoto no braço e eu sorri para o rostinho amassado de sono dele.
- Oi, garotão - murmurei, prendendo a alça da bolsa no meu ombro e parei na frente dos dois. Theo mexeu as mãozinhas na minha direção e eu fingi mordê-las, fazendo ele afastar as mãos e sorrir. - Eu te ligo depois, pode ser?
- - seus olhos se fixaram em mim, meio sérios de repente. - Extraordinária. Lembre-se que eu disse que você é extraordinária. Procure a coragem dentro de si e faça o que tem que fazer.
Não disse nada diante daquelas palavras. Um sorriso pequeno e um aceno agradecido foi o suficiente para ele, que se aproximou mais de mim e beijou a minha testa em despedida. Beijei a sua bochecha e a de Theo, que ainda sorria, e fui embora do hospital.
No caminho, passei pelo campus da minha antiga Universidade e paguei o táxi para que ele me deixasse lá. Saí do carro, encarando a arquitetura, me sentindo nostálgica. Havia poucas pessoas passando pela grama do campus, e eu fiquei parada ali, observando tudo em silêncio, meus pensamentos um turbilhão de coisas, bagunçados. Meu peito estava pesado e eu me sentia infeliz. No meu caminho para casa, tentei mais uma vez ligar para as meninas, mas elas ainda pareciam dispostas a me ignorar, o que eu não achei ruim. Mas sem elas, eu não tinha um colo para correr e agora estava ali, encarando o passado.
- Você precisa de ajuda? - uma voz chamou a minha atenção.
Quando me virei, uma menina mais jovem do que eu, cabelo pintado de rosa e estilo bem despojado me recebia com um sorriso simpático nos lábios e uma expressão de dúvida.
- Não, está tudo bem. - garanti, agradecendo a preocupação.
- Tem certeza? - ela insistiu. - Você está parada aí há um tempo.
Desviei meus olhos dela para encarar a vida passando pelo campus novamente. Um dia, fora eu ali, desesperada em períodos de provas e planejando mais um fim de semana de festa e estudos. Agora, meu fim de semana era palestrar sobre relacionamentos, enquanto o meu era total ruína.
- Eu estudei aqui - confessei para a menina, voltando a olhar para ela. - E estou aqui parada, encarando o nada, porque estou sendo tola de pensar que a resposta para o meu futuro está no passado.
A menina de cabelo rosa assentiu. Eu tinha a impressão que por ser justamente jovem, era normal entender o meu dilema, afinal, naquela idade dela eu também já tinha vários, mas nenhum como eu estava tendo agora. Ainda assim, era um dilema de passado e futuro e isso todo mundo tinha, sem exceção.
- Entendo - ela murmurou. - Mas acho… acho que você já tem a resposta. Você só não tem certeza dela.
Ela deu de ombros, sorrindo compreensiva. Pisquei meus olhos, surpresa.
- E como eu descubro a certeza?
Ela sorriu mais ainda.
- Quando for a hora de exigir a decisão e você não puder mais fugir, você saberá.


- está aqui - Marie me comunicou. - E você entra no palco em 10 minutos. Vão te fazer perguntas sobre as fotos vazadas, então por favor, siga o discurso que eu escrevi.
Marie parecia desesperada para resolver aquele problema, eu por outro lado, não poderia me importar menos que as fotos de com a modelo tenham caído na mídia. Eu não tinha ideia de quem tinha vazado, mas àquela altura, não tinha tanta importância. Eu sabia que me afetava, que afetava o meu trabalho, mas eu estava tão infeliz naquela posição que só ouvia tudo que Marie estava falando, sem dizer nada em resposta. Eu tinha lido o seu discurso e negar sobre os fatos estava a coisa mais importante escrita naquele papel. Marie tinha certeza de que se eu seguisse suas palavras, os danos seriam mínimos e em dois dias, no máximo, aquilo tudo seria esquecido.
Porque era fácil para todo mundo esquecer os erros dos homens, mas não os das mulheres. Aquilo teria me perseguido pelo resto da vida, e de alguma forma, ainda ia, mesmo que eu fosse a vítima. Diriam que eu não fui o suficiente para segurá-lo em casa, na cama, qualquer coisa. Eu sabia os absurdos que eu iria ouvir, mas não.
- Você está pronta?
Ele entra, a pose de sempre, o sorriso presunçoso no rosto, como se nada o atingisse. Olhei-o através do espelho, me levantando da cadeira, exibindo o vestido verde e longo que eu vestia, meu cabelo preso em uma coroa de tranças.
- Como eu nunca soube? - foi a primeira coisa que eu lhe questionei.
Não havia emoção alguma na minha voz. Eu só queria saber.
- Eu a fiz assinar um contrato de confidencialidade - por algum milagre, ele não se esquivou da pergunta. - Lidia só se importava que eu fosse presente para as crianças.
Balancei a cabeça, um gesto quase automático. Minhas energias pareciam ter sido sugadas, e eu poderia ter passado dias chorando e ainda assim não seria o suficiente para aliviar a angústia que me cercava.
se aproximou sorrateiramente e eu levantei os olhos na direção dele, firme.
- Vamos acabar logo com isso.
De início, não ia participar da palestra comigo. Eu iria sozinha, porque aquele era o meu momento, mas quando as fotos vazaram e Marie escreveu o discurso, ela o chamou para passar uma imagem mais verdadeira sobre as palavras que eu deveria soltar. Aquele idiota era quem deveria se explicar, não eu.
Peguei a carta do discurso e saí do camarim, verificando pela última vez a minha maquiagem, e andei pelos corredores, cumprimentando as pessoas que estavam passando por ali e fiquei atrás do palco até ser chamada. Não me importei com a presença do homem que eu era casada ao meu lado.
- Por favor, recebam e ! Aplausos e mais aplausos explodiram da plateia. Desenhando um sorriso em meu rosto, eu adentrei o palco, acenando para o público. O lugar - que era um teatro em dias normais -, estava lotado. Havia um banner enorme exibindo o novo livro de Julie Scott, e quase me senti culpada por minha vida estar essa confusão e envolver o lançamento dela naquilo.
- Boa noite a todos - cumprimentei assim que os aplausos cessaram.
ficou parado ao meu lado, exibindo o seu sorriso, com as mãos esticadas para trás, cruzadas nas costas. Eu coloquei a carta de Marie forrada sobre o apoio do microfone. Eu deveria começar falando as palavras que estavam escritas naquele papel? Deveria começar com as minhas próprias palavras, sobre o livro de Julia, que era o verdadeiro foco ali?
- Quero começar agradecendo o convite de Julia, é uma honra estar aqui e ter a oportunidade de dizer algumas palavras sobre a sua nova obra e…
Meu pesadelo tinha começado. Como era um lançamento, era certo que houvesse jornalistas e agora eu estava sendo recebidas com milhares de perguntas ao mesmo tempo e flashes o tempo todo na minha direção. Eu conseguia escutar perguntas como: “O que você tem a dizer sobre a traição do seu marido?”, “Como se sente sobre as fotos vazadas mais cedo?”, “O que você vai fazer em relação a isso?”, “Há quanto tempo isso acontece? Você sabia?”, “Você vai continuar sendo uma conselheira de casamentos depois disso?” E mais tantos que me esgotaram.
- Certo, me escutem - acenei para que eles se acalmassem, tendo a plena consciência de que havia os olhares de milhares de mulheres me encarando. - Sim, eu tenho uma declaração sobre as fotos. Tudo o que eu tenho a dizer é que a pessoa que vazou fez isso com má intenção e…
Tentei ler as palavras de Marie. Tentei mesmo. Mas eu simplesmente travei e precisei puxar a respiração para os meus pulmões, me forçando a permanecer de pé.
Era aquela a hora. A hora que me exigia uma decisão e que eu não tinha mais para onde fugir. Precisava ser naquele instante. Os jornalistas ainda me olhavam com expectativa, as mulheres esperavam a minha declaração e olhando todas elas, eu soube que eu não podia seguir com aquilo. Não podia enganá-las sobre um relacionamento perfeito que não existia. Não podia condicioná-las a viver uma vida de infelicidade como eu. Não podia deixá-las acreditando que nossa vida só se completava quando havia um homem no meio. Aquilo não era verdade. Vivi tanto tempo com medo de ficar sozinha que não me deixei enxergar o óbvio, e eu não podia dizer que elas deveriam aceitar menos por isso. Ficar sozinha não era a pior coisa do mundo.
Meus olhos encontraram e entrando nos fundos, acompanhadas de e Theo, e minha expressão de surpresa deixou claro que eu não esperava aquilo. Elas me olharam e foi quem levantou três objetos, que eu identifiquei como a nossa pulseira da amizade, que tínhamos desde o colegial. fez um coração com as mãos e soltou um “Você consegue” com os lábios e repetiu a mesma coisa. sorria para mim e fez um joinha com as mãos na minha direção, soltando um “Extraordinária” com os lábios também e eu assenti devagar.
- ? - chamou, mas não respondi.
- Eu não me importo com quem vazou as fotos - retomei o meu discurso, ignorando totalmente as palavras de Marie naquela carta. Ela iria me perdoar depois. - Sim, as fotos são verdadeiras. realmente teve um caso com aquela modelo. E com outras mulheres antes dela.
A plateia se dividiu em burburinhos.
- O que você está fazendo? - sibilou.
- Estou me libertando de você, - respondi, me sentindo leve, tão leve que parecia mentira.
Encarei a plateia, repleta de mulheres mais jovens do que eu e mais velhas do que eu. E eu disse tudo o que eu tinha para dizer.
“Nós, mulheres, somos criadas diferentes dos homens. Aprendemos que temos que nos sujeitar aos seus desejos e caprichos e empurrar os nossos bem no fundo, para que eles não percebam que também somos seres humanos com desejos próprios. Temos que nos comportar especificamente, dizer exatamente aquelas palavras e sorrir. Aprendemos que casamento é o nosso centro, e maternidade é o caminho para aquele realizamento pessoal que tantos desejamos. Eu acreditei que ser sozinha era a pior coisa que podia acontecer a uma mulher, e condicionada por esse medo, me sujeitei a permanecer salvando um casamento que esteve fadado ao fracasso desde que nosso relacionamento começou. exigia demais de mim. Para que ele não me deixasse e eu não pudesse passar pelo horror de viver sem um homem ao meu lado, eu esqueci de mim e enalteci ele o tempo todo. Como resultado disso, recebi traições e mentiras em trocas. Eu sei que eu deveria ter me separado há muito tempo, mas também tenho certeza de que há mulheres aqui que passaram pelo mesmo que eu, e talvez ainda estejam passando, e sabem o quão forte é um homem que sabe manipular. Se livrar dessas amarras é um processo demorado. Você se acostuma com a infelicidade e acha que pode continuar lidando com isso por quanto tempo for. Para essas mulheres, eu tenho um recado: Vocês são extraordinárias. Nada do que o homem que dorme ao seu lado faz é sua culpa. Temos que começar a responsabilizá-los por suas próprias escolhas e tirar as nossas mãos do fogo. Não podemos mais nos queimar por eles. Ficar sozinha não é o fim do mundo. Se diminuir para enaltecer um babaca, é. Dado essa declaração, comunico a minha separação de . Eu não preciso de um homem para brilhar. Posso fazer isso sozinha.”
Assim que termino de falar, aplausos me preenchem de novo. não estava mais lá. Em algum momento do discurso, ele tinha se retirado.
- Julia, esse não foi o discurso que eu planejei, eu juro. Sinto muito! - algumas pessoas riram e eu acompanhei, um riso sincero. Coisa que eu não fazia há muito tempo. - Prometo fazer uma resenha do livro depois!
Saí do palco e fui surpreendida com um abraço de Marie, seus olhos cheios de lágrimas.
- Aquilo foi incrível - ela confessou. - Você podia ter seguido meu discurso, é claro, mas foi incrível.
Marie se afastou de mim.
- Por favor, traga as meninas e para o camarim - pedi e ela assentiu, já saindo para buscá-los na multidão que se formava na plateia.
Caminhei de volta para o camarim, onde eu tive o belo desprazer de encontrar o meu ex-marido me esperando.
- Vá embora, - foi tudo o que eu disse. Ele se levantou, parando a alguns metros na minha frente.
- , você ainda pode mudar de ideia - ele disse e eu soltei um suspiro, cansado.
Não me surpreendia mais com o seu grau de babaquice.
- Não. - retruquei, mais decidida do que nunca. - Você vai assinar o divórcio e me entregar a chave de casa. Agora, vá embora.
- Você ouviu. - entrou, lançando um olhar mortal para o meu ex.
Eu sorri, sentindo falta daquele temperamento dela. , e Theo entrou logo depois. não disse nada, mas encarou por um momento antes de finalmente cair fora dali.
- Me perdoem, me perdoem, me perdoem! - repeti várias vezes, enquanto corria e abraçava as duas ao mesmo tempo, beijando as suas bochechas, ouvindo a reclamação de sobre isso. - Eu fui uma completa idiota com as duas, não deveria ter dito aquilo. Eu nem queria, me perdoem. Eu amo vocês.
- ! - se desvencilhou do meu abraço, livrando também. - Nós te perdoamos, sua boba.
- Hiii… fale por você. - respondeu.
- Deixa de cu doce, você a perdoou - retrucou, empurrando com os ombros.
- porque eu te amo - apontou um dedo em riste para mim e eu assenti, sorrindo, aliviada por ter as duas ali. - E porque a me implorou.
Nós três rimos e eu abracei as duas de novo.
- Amigas de novo! - exclamou, levantando as pulseiras.
Cada uma colocou uma no pulso, simbolizando as nossas pazes.
- Agora vá falar com ele - apontou , que respeitou a nossa privacidade e estava sentado no sofá que tinha disponível ali. - E nos encontre lá fora depois, para comemorar a sua sábia decisão.
Ela arrastou com si e saiu. Eu andei até , me sentando ao seu lado.
- Oi.
- Foi um discurso inspirador - ele elogiou e eu sorri, agradecendo. - E você está linda.
- Obrigada - agradeci de novo, observando-o brincar com Theo, que estava achando ótimo morder as próprias mãozinhas. - Eu não esperava você aqui. - admiti.
me encarou, os olhos intensos e brilhando.
- , eu… - ele tentou dizer, mas eu o toquei no ombro, impedindo-o de continuar.
Pigarreei baixinho, tomando coragem. Com a decisão do divórcio, eu também tomei outra.
- Eu também te amei, - confessei em um murmúrio, observando ele arregalar os olhos levemente, claramente não esperando por aquilo da minha parte. - Talvez eu tivesse te escolhido, mas você foi embora e eu também amava o , então… Uma coisa levou a outra.
Ele assentiu, sem intenção nenhuma de me interromper, mas Theo balbuciou algo e esticou os braços para mim, que não resisti e puxei-o para o meu colo, beijando as suas bochechas fofas.
- Você mexe comigo de um jeito que eu não sei explicar - continuei, deixando Theo brincar com a minha correntinha no pescoço. - Você é um cara incrível, gentil e…
- Eu te espero. - ele disse.
- O quê? - perguntei, esperando que ele repetisse para eu ter certeza de que escutei bem.
- Eu te espero, - ele repetiu, um sorriso lento nascendo nos seus lábios. - Você é ótima discursando e tudo mais, mas não precisa disso tudo comigo para me dizer que quer ficar sozinha.
- Você está falando sério? - questionei.
assentiu, e eu segurei o seu filho mais firmemente nos braços. Eu custei a acreditar que ele me esperasse mesmo, mas havia verdade em seus olhos e uma promessa muito justa. De qualquer forma, estava tudo bem para mim se, no fim, ele não me esperasse.
Ele aproximou o rosto do meu e beijou minha bochecha, seus lábios pegando o canto da minha boca e eu sorri.
- Muito esperto. - sussurrei, admirando o sorriso dele. - Nada de ir embora mais então?
Ele balançou a cabeça.
- Nunca mais.
Theo me sujou de baba, e nós três fomos para o restaurante com as meninas.
Desde a faculdade, eu não sentia uma felicidade genuína. Era sempre carregada de culpa ou algum peso a mais que eu não conseguia lidar. Ali, com , Theo e minhas amigas, eu me sentia a pessoa mais leve do mundo, como se tivesse me livrado de um peso enorme das costas e agora pudesse respirar aliviada, rir sem culpa e sentir a felicidade em seu mais puro estado.
Aprender a ser sozinha foi um processo difícil, mas eu estava cercada de gente que me amava e me apoiava.
E não havia nada que valesse o preço de me libertar e voltar a ser quem eu era.

This is the part when I break free
Essa é a parte em que eu me liberto




Fim.



Nota da autora: Eu sinceramente perdi as contas de quantas vezes eu revisei essa shortfic, insegura com tudo, mas acho que no fim ficou um resultado razoável e justo com a música que ela representa. Escrever sobre esse casal foi uma delícia e se você que leu verdadeiramente gostou, eu tenho uma novidade: vem mais deles por aí! A autora que vos fala está perdendo o controle de tudo e se enfiando em ficstapes, então já viu né… Obrigada a quem leu e não esqueçam de comentar o que achou. Espero que tenham gostado! Um beijão.



Outras Fanfics:
Operação Bebê

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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