CAPÍTULOS: [ÚNICO]







Capítulo Único


Os bombardeios continuavam acontecendo entre as divisas da França e Canadá. A rivalidade entre os dois países estava em ação desde o dia que tiveram um desentendimento com a economia marítima. O último contato de bem de ambas as partes foi quando ocorreu o transporte marítimo de soja, que o Canadá serviu à França e ao Brasil. Logo após esse comércio, aconteceram desentendimentos envolvendo dinheiro e também a religião católica e ateísta.
Os canadenses foram acusados de ir contra a fé cristã. Seus habitantes eram divididos entre cristãos e ateístas, enquanto a França pregava que, em um país, não se deve honrar dois modos de fé, sendo este quase totalmente cristão.
Essa guerra estava destruindo vidas, inclusive famílias. Diversas famílias estavam saindo de cidades como Paris e Toronto para iniciarem uma nova vida dentro do Brasil, que era considerado como sendo uma área de segurança por estar longe dos bombardeios.
– O porão é um local seguro! – garantiu, fechando a grande janela de mármore.
– Corra para lá e se proteja! – ordenou, correndo para a sala.
Engoliu em seco, ouvindo as bombas atingirem as ruas de Toronto. A França atacava contra o Canadá. As casas já não eram mais consideradas seguras. O único local de total segurança recebia o nome de subsolo, onde as bombas não podiam invadir.
Mais uma bomba atingiu a cidade, e os estrondos penetraram em todos os ouvidos humanos, gerando mais medo. A casa atingida estava, por sorte, vazia e foi deixada em pedaços. Há dias a rotina se baseava em correr e se proteger.
Alcançou uma das janelas abertas, ofegante e assustada, observando a casa caindo aos poucos. Boquiaberta, negou com a cabeça. Era a casa de uma professora, a Srta. Smith. Para falar a verdade, ela fora a responsável por lhe ensinar a ler. Foi muito grata àquela senhora. Precisava saber se ela estava viva. Mesmo tento evidências de que a casa estaria vazia, queria conferir com seus próprios olhos.
– Vem! – ele a agarrou antes de mais uma bomba ser lançada.
– É a casa da Srta. Smith! – pronunciou alto.
– Não podemos fazer nada! – gritou, arrastando o corpo dela para o porão.
tentou lutar contra os braços de , mas desistiu assim que viu a parede da porta da frente de sua casa ser totalmente destruída. Os blocos de concreto voaram, atingindo tudo que encontravam pela frente. Ameaçavam machucar tudo.
puxou-a em direção do porão, segurando a cabeça da mulher contra si. Queria protegê-la dos pedaços de concretos. Sem escolha e bastante amedrontada, deixou-se guiar por . Não restava mais o que fazer – se a Srta. Smith estava na casa, com certeza não teria sobrevivido aos tijolos e concretos que ficaram e deixaram a casa em pedaços.
Desceu as escadas do porão, encontrando tudo da maneira que deixara. Uma cama de casal, um guarda-roupas, um armário com mantimentos e um pequeno banheiro. O porão estava empoeirado, afinal, nunca imaginou que usaria um dia aquela parte da casa.
Para tudo tem sua primeira vez.
Passou a ponta dos dedos pelo colchão, podendo ouvir os estrondos do lado de fora. não tinha entrado com ela no porão, e isso só lhe deixava preocupada. Sentou-se na cama, abraçando aos joelhos. Só restava esperar e rezar.
Deixou uma lágrima escorrer enquanto encarava o relógio. Os segundos eram torturantes. O ponteiro aparentava estar contra si, segundos agora pareciam horas.
Junto de todo aquele barulho de destruição e as lágrimas, começou pensar em sua família. Sua mãe morava a poucos metros dali, com seu pai, irmão e avós. A casa deles tinha sido a única do bairro que resistiu a um ataque surpresa da França.
Preocupava-se com a segurança de sua família. Não sabia como seguiria em frente caso perdesse-os para o bombardeio. Múltiplas vezes insistiu para seus pais pegarem um navio para o Brasil e construírem uma nova vida por lá, mas, teimosos, recusaram a se mudar. até se submeteu pagar a viagem de todos até o estado brasileiro na intenção de vê-los seguros, mas nem assim conseguiu convencer a mente teimosa de seu pai.
, por outro lado, não tinha que se preocupar quanto a isso, já que seus familiares todos tinham descendência brasileira e estavam seguros dentro da área paulista. ainda tinha esperança de um dia ouvir seu pai pedindo para ela ir junto com eles para o Brasil. Não aguentava mais viver em meio aos bombardeios.
– Consegui mais alguns mantimentos. – fechou a porta de ferro. – Temos recursos para um ano. – um sorriso se arriscava aparecer em seus lábios.
, carregada de tristeza, se levantou da cama e seguiu até seu noivo. suspirou, puxando-a para um abraço apertado e deixando-a esconder o rosto vermelho em seu peito. Apertou mais o corpo dela contra si logo que sentiu sua camiseta ficar molhada e ouviu o choro baixo.
– E-eu não quero mais... – disse entre soluços. – Não podemos mais viver aqui, ! – derramou-se em lágrimas, desesperada.
– Shh... – pediu, afagando os cabelos da mulher. – Vai ficar tudo bem... – abaixou um pouco o rosto querendo encará-la. – Eu estou aqui... – pronunciou, na intenção de acalmá-la.
Fungou, segurando firme o material da camiseta do homem. Seus olhos estavam fechados, não queria encarar nada. Tudo que desejava era que aquela guerra tivesse um fim, pedia que a França fizesse logo as pazes com o Canadá. Poderia ser tudo resolvido com um passe de mágica...
No fundo, se soubesse que viveria no inferno, teria aceitado a proposta de para morar no Brasil. Pelo menos estaria livre no território brasileiro. Mas o amor por seus pais falou mais alto, impedindo que ela aceitasse o pedido.
Isso foi quando eles tinham acabado de completar três anos de namoro. Estavam com a cabeça conformada de que um era a alma gêmea do outro. Pensavam em comprar uma casa, se casarem e terem três filhos. No entanto, ainda não estavam na fase do casamento, apenas na espera.
era um homem respeitado, servia a base da polícia militar. Não chegou a ser do FBI. Sendo assim, tinha alto conhecimento em sociedade. Por onde pisava, o conheciam como o agente da polícia mais destemido e corajoso, junto com seu amigo Jacob Wilker.
Possuía diversas características, sendo estas as que lhe mantinham na polícia. Acredite, servir a base policial de Toronto não era uma tarefa fácil. Havia crimes todos os dias, era assassinato atrás de assassinato. Mas, com a guerra, as atividades rotineiras da polícia foram dificultadas. A cada bombardeio, se destruíam casas e matavam famílias inteiras.
O único local que mais frequentava era o cemitério. Sim, ele acompanhava junto com seus parceiros todos os enterros que o governo conseguia realizar. Eles se reuniam e rezavam como forma de pedir desculpas por não ter protegido a cidade o suficiente.
Também entrava no meio a fé cristã. Todos os dias policiais seguiam até o cemitério e realizavam orações, acreditando que, assim, as almas de todas as vítimas da guerra fossem bem recebidas no céu.
– Eu vou te proteger... – garantiu, acariciando a bochecha de . – Não importa como – afastou uma mecha de cabelo do rosto já adormecido. –, não vou deixar ninguém te machucar! – se ajeitou na cama, deixando-a dormir ao seu lado.
Soltou o ar levemente pela boca, acariciando o braço da mulher, que estava pousando em cima de seu tórax. Finalmente tinha conseguido acalmá-la, agora ela estava entregue ao sono que tanto precisava desde o início da guerra.
Estudava nos mínimos detalhes. Parecia um anjo dormindo. O seu anjo da guarda. Foi o melhor presente que Deus poderia ter colocado na vida dele. Aquele acidente de carro foi o momento mais marcante de suas vidas.
Entretanto, agora, com toda aquela reviravolta, todos os sonhos do casal acabaram.
A guerra estava conseguindo aos poucos acabar com a paz dentro do país canadense. , servindo a base policial, enxergava com seus próprios olhos pessoas fugindo do conflito em direção ao território brasileiro. Queria poder fazer o mesmo, mas não conseguia deixar o país sabendo que, como policial, seu dever era salvar todos.
Mas nem sempre podemos salvar todos.
Como era possível dois países tão unidos no transporte marítimo declarar guerra um ao outro da noite para o dia? Onde estava a consciência humana? Onde estava a preocupação com as famílias estrangeiras? Os turistas? E os intercambistas?
não conseguia imaginar estudantes que viajaram quilômetros para estudar dentro do país escolhido enfrentando uma guerra. Assim como os turistas, os alunos intercambistas não tinham tanto conhecimento da área canadense e francesa.
Ambas as partes dependiam de guias, mas como realizar trilhas, passeios, estudos ao ar livre, com bombas voando pelos ares com o compromisso de destruírem o coração do país rival? Não tinha condições, o que gerava um enorme desperdício de dinheiro da parte dos intercâmbios e turismos.
...? Ufa! Finalmente te encontrei! – a atenção do rapaz foi atraída para a escada.
– Jacob? – levantou uma sobrancelha assim que encontrou o amigo descendo os degraus de madeira.
– O assunto é urgente! – disse, aproximando-se da cama. – E ela não vai gostar. – deixou claro, apontando com o queixo.
– Não quero machucá-la. – suspirou, acariciando a face de , que se mexeu, ficando mais próxima de . – Ela não merece ser machucada. – Jacob Wilker engoliu em seco.
– Eu sinto muito... – se lamentou com os olhos tristes, retirando um envelope do casaco.
pegou o envelope que Jacob lhe estendera. Foi preciso apenas encarar o símbolo do governo para entender o conteúdo que aquelas linhas carregavam. Ergueu seu olhar do envelope, encarando Jacob com uma expressão indignada. Não era possível o destino ser tão traiçoeiro.
Wilker assentiu, confirmando os pensamentos do amigo. negou com a cabeça, direcionando seu olhar para . Seu peito agora estava apertado, não queria machucá-la, mas, por fim, machucaria...
– Diga que isso é mentira, Jacob! – pronunciou baixo, com esperança de que era tudo uma brincadeira de mau gosto.
– Eu queria poder dizer que sim... – mordeu os lábios e seu peito apertou... Era tudo verdade!
Abaixou a cabeça, sentindo seus olhos insistirem para lágrimas teimosas rolarem. era tudo em sua vida, não poderia abandoná-la. Ela era a mulher da sua vida, a dona de seu coração, a sua alma gêmea...
Negou com a cabeça, apertando os olhos, na tentativa de impedir as lágrimas e mordendo os lábios. Não acreditava que tudo estava acontecendo do jeito que temia. O que seria de sem ele agora? Como sobreviveria no meio daquela infernal guerra?
– Eu não quero deixá-la... – liberou as lágrimas com o coração apertado. – Ela é tudo o que eu tenho... Não vou deixá-la... Não... – fungou, se curvando para beijar a testa de . – Não vou te deixar, meu amor... Não vou... – pronunciou em meio às lágrimas.
Jacob também deixou algumas lágrimas escorrerem. Sentia tudo o que sentia. No caso, estava em uma situação mais dolorosa. Já Wilker só tinha aos pais, sendo que estes tinham viajado para o Brasil na noite passada. No entanto, Jacob estava em paz, só restava saber... Será que voltaria com vida?
– Não vou te deixar... – fungou novamente, e Jacob passou a língua pelos lábios, querendo conter seu choro, o que foi inevitável. – Não vou...

*****


respirou fundo. Abriu seus olhos lentamente, deduzindo que já era dia apenas pela pouca luminosidade que a porta deixava entrar. Não se ouviam mais bombardeios, o que era ótimo, já podia ficar mais tranquila... Mas por pouco tempo.
Preferia ouvir os sons das bombas explodindo e destruindo Toronto em vez de ouvir utensílios caindo no chão. Sorriu marota quando encontrou com as costas de . Ele organizava alguns objetos em cima da mesa, estava determinado ajeitar todo o porão para deixar confortável.
– O que está fazendo? – perguntou como uma criança, com um sorriso bobo nos lábios.
fungou.
– Deixando um toque de mim nos móveis... – não entendeu sua referência.
– O que quer dizer...? – seus olhos bateram contra o envelope aberto em cima da cama e seu sorriso desapareceu.

Caro ,

Comunico que, como seu superior e comandante do estado, você estará sujeito servir ao exército junto com seus colegas de trabalho. Todas as bases policiais estão sendo convocadas para pegar o trem das duas e seguir para Nova Escócia, onde permaneceram até ouvirem o mandato para invadir a França.
Sugiro que se despeça de todos os entes queridos.


Agradeço pela colaboração.
Governo, xx.



– Não... – tapou sua boca com a mão, não conseguindo acreditar.
– Eu não quero deixar você... Não quero! – deixou claro, observando se levantar da cama e correr em sua direção.
– Eu também não quero... – sussurrou, abraçando-o.
a envolveu com os braços. O abraço parecia querer unir seus corpos em um único, para nunca mais poderem se desgrudar. De fato, não queriam sair de perto um do outro.
, com o coração apertado, deixou suas lágrimas rolarem desesperadamente. Fechou os olhos ,fungando contra a camiseta daquele que garantia amar. apoiou o queixo na cabeça da mulher, também fechando os olhos, enquanto afagava os cabelos desta.
O coração de ambos pedia para ouvir a versão em que diria que tudo não passava de um sonho, ou melhor, um pesadelo. não poderia simplesmente partir para servir ao exército e deixar sozinha em Toronto sem qualquer meio de habitação, já que a casa onde moravam – em cima do porão – foi completamente destruída pelos últimos bombardeios.
Nunca esperaram ter que se separar por um período de tempo indeterminado. Nem para o pior inimigo desejavam isso. Ninguém no mundo merecia passar pelo momento de dor que estavam prestes a passar.
As pernas de cederam, levando consigo. As lágrimas eram como os rios se misturavam e desenhavam o caminho até o chão. O coração estava liberando tudo o que podia. A dor era algo incurável.
envolveu mais , deixando suas lágrimas falarem. Ouvi-la chorando era como ouvir o vidro se quebrando, uma árvore caindo. Abriu seus olhos, encarando o teto cinza, trincando os dentes. Queria poder estar olhando para céu e disparar perguntas para Deus.
"Cuida dela, por favor...", pediu para o Senhor, abaixando o olhar, tentando acalmá-la e se acalmar.
– Não me deixa, ... Não me deixa, você é tudo que eu tenho... – disse entre o choro.
– Não diga isso... – seu coração estava apertado. – Por favor, não diga... – não queria ouvir que estava o perdendo.
apertou mais os olhos, liberando todas as lágrimas que achava possível existir. Não queria se separar do homem que dizia amar. Não era justo com ninguém ficar longe da pessoa amada.
Abriu os olhos e respirou fundo. Sua mão acariciou o tórax de . Acompanhando os movimentos de sua mão, identificou as vestimentas como sendo do exército. Ele já estava pronto para partir, e, para sermos todos verdadeiros... A despedida seria a pior parte.

*****


A estação já estava cheia de famílias e casais. Faltava menos de dez minutos para todos os homens embarcarem para lutar contra a França. Aos arredores, se ouviam lágrimas, mães desesperadas e crianças querendo aproveitar os últimos minutos ao lado do pai.
O sinal para embarque bateu na estação, e todos sentiram o coração apertar. logo caminhou até Jacob, abraçando-o com força. Queria se despedir daquele que seria o total parceiro de dali para frente.
– Cuida dele para mim, Jacob? – perguntou assim que desfez o abraço.
– Fica tranquila. – disse, acariciando a bochecha da mulher. – Eu e seremos como um casal. – fez graça, conseguindo tirar um sorriso pequeno de .
A última chamada para o embarque foi declarada. Sendo assim, se aproximou de Jacob e com o olhar carregado de tristeza. Em nenhum de seus glóbulos continha aquele brilho intenso que sempre estava presente.
sem pronunciar palavras – não precisava –, se aproximou de , puxando-o logo para um abraço, talvez o último abraço... Ambos fecharam os olhos, querendo gravar todos os movimentos de suas mãos, suas respirações, os batimentos de seus corações.
Foi obrigado desfazer o abraço, logo puxando sua noiva para aquele beijo único que continha todos os seus sentimentos. Suas línguas se exploravam, deixando um toque de saudade. aprofundou o beijo o quanto pôde, querendo guardar todos os arrepios que lhe causava junto com aquele aquecimento interno.
– Se cuida, por favor. – pediu, segurando um lado da face do homem.
– Promete esperar por mim? – pousou sua mão em cima da dela, buscando o olhar da mulher.
– Eu sempre vou esperar por você. – deixou claro, recebendo um beijo na testa.
– Eu te amo. – murmurou, puxando-a para definitivamente o último abraço.
– Eu te amo mais. – apertou-o o quanto conseguiu.
Jacob sorriu, visualizando a cena do casal. Eles eram fofos juntos. e tinham uma ligação bastante forte e não existiam palavras certas para descrever o amor deles.
O típico amor clichê dos filmes era falso, dizer um "eu te amo" não era tão simples. Jacob sabia qual era a sensação de estar sozinho. Nunca teve alguém para amar igual tinha.
– Precisamos ir. – Wilker caminhou até eles, pousando a mão no ombro de .
apertou mais forte. Não queria deixá-lo por nada.
– Eu vou voltar, tudo bem? Caso tenha alguma garantia de proteção, por mim, aceite. – acariciou a bochecha da mulher, já observando lágrimas. – Se cuida, por favor. – pediu, recebendo um selinho antes de seguir até o trem.
Não se atreveu olhar para trás, pois sabia que, caso o fizesse, iria correr para os braços de . E não queria receber broncas dos generais. Pisou na rampa que lhe levaria para dentro do vagão, ouvindo a madeira ranger.
Vários homens de todas as idades estavam ali. Adolescentes, idosos e adultos. Alguns estavam sentados em caixas de madeira e outros encostados nas paredes do vagão. Quase não se dava para andar.
analisou tudo devagar, buscando por algum lugar para passar a longa viagem. Mas sua atenção foi atraída para a porta de correr, que era fechada, bloqueando a única entrada do sol... Antes que a porta se fechasse totalmente, conseguiu ver pela última vez. Virou-se completamente de frente para a porta, querendo poder sair e abraçá-la.
As grossas madeiras se chocaram e fechou os olhos, tentando conter as lágrimas dolorosas que queriam sair.
O amor era para ser tão doloroso assim?
Qual era o sentido da vida se não houvesse o amor? Que sentido agora teria a sua vida? não estava mais ao seu lado, não poderia sentir seu carinho e muito mesmo sua presença. Nada nesse mundo era capaz de substituí-la, seu coração estava perfurado... Que tipo de amor era esse que doía tanto?
Deu dois passos, apoiando a mão na porta e abaixando sua cabeça. Logo uma lágrima teimosa escorreu de seu olho. Mordeu os lábios na tentativa de conter o sofrimento, mas isso era completamente impossível...
Jacob caminhou até o amigo, apoiando sua mão no ombro deste, que sequer se moveu. puxou o ar, trincando os dentes e fungando.
Enquanto demonstrava sua dor sem qualquer tipo de vergonha, os outros homens aproveitaram para pensar naquilo que era mais sagrado em suas vidas... A família.
precisava ser forte, pois a jornada era longa, e ele teria que aguentar firme.

*****


Suspirou. Seus olhos estavam vermelhos e cansados de tanto chorar na noite anterior. nunca fez tanta falta. Virou a noite chorando, querendo tê-lo ao seu lado, com aquele sorriso lindo e encantador que lhe acalmava.
O carinho daquelas mãos eram únicas e incomparáveis. Nada chegava ser tão bom quanto o carinho de . era uma mulher que, no fundo, não queria ter um homem apenas para sexo. Tinha o pensamento diferente. Desde pequena, sonhava em achar o príncipe encantado em um cavalo branco. E encontrou com vinte anos, seu nome: .
! – gritaram seu nome.
– Ah, algo errado, Emily? – perguntou, vendo com a amiga ofegante.
– Jamie quer falar com você. – respondeu.
– Comigo? – levantou uma sobrancelha em dúvida.
– Sim, e parece ser importante. Tem um homem desconhecido com ele. – arregalou os olhos.
– Emily, vá para o quarto quinze e aplique esse analgésico no Sr. Jones, por favor? – pediu, passando logo a cesta com os medicamentos. – Obrigada! – agradeceu, começando correr pelo corredor.
Seu coração estava acelerado. Um homem desconhecido? Será que tinha algo relacionado com ?
Só de imaginar alguma notícia ruim chegava a se arrepiar. Desde que acompanhou o trem deixar a estação, ficou com o coração na mão, torcendo por seu noivo voltar com vida e sem nenhum problema de saúde. E a noite anterior foi o suficiente para pensar em todos os pontos que poderiam levar sua vida ao verdadeiro inferno.
Perder seria como perder a vontade de viver. Já perdera a casa que compraram juntos para a guerra, agora, perder o amor... Definitivamente era doloroso de explicar.
Empurrou a porta da sala de Jamie, encontrando este sentado em sua mesa conversando com o tal desconhecido que Emily comentara.
– Emily disse que queria falar comigo, Sr. Hering?! – não sabia se perguntava ou exclamava.
– Certamente, . Por favor, sente-se. – Jamie indicou a cadeira ao lado do homem estranho.
– Aconteceu alguma coisa... ruim? – acomodou-se na cadeira, um pouco nervosa. – É algo relacionado com ? – perguntou sem enrolar.
– Não. – o homem ao seu lado foi quem respondeu.
, esse é o Sr. Will Baker, mensageiro que trouxe uma oferta para você. – explicou.
– Oferta? – levantou uma sobrancelha. – Muito obrigada, não quero me prostituir. – ia se levantar, mas foi impedida pelo homem ao seu lado.
– Não é nada disso, senhorita. – deixou claro. – Tenho uma oferta do Asylum Of Mercy.
– Mas... – aquele nome lhe rendeu um calafrio. – Isso é um manicômio?! – mostrou-se indignada.
– Exatamente. – afirmou. – O madhouse precisa de médicos e enfermeiros para tratar de seus pacientes. E estão mandando diversos mensageiros em busca de voluntários que tenham perdidos suas casas. – explicou, gesticulando.
– E-eu n-não... – sua fala foi cortada.
– Você não tem outra escolha, . – interrompeu. – Sua casa foi destruída pelo último bombardeio, seu noivo está lutando na guerra e você está sozinha em Toronto. – ele sabia mais da vida dela do que ela mesma.
– Eu tenho a casa dos meus pais. – deixou escapar, e o homem suspirou.
– Pense bem... – curvou o tronco. – O manicômio está em uma área de segurança. Se permanecer aqui, você tem chance de ser morta. Lá, você tem a chance de permanecer viva. – direcionou seu olhar para a mulher, que encarou Jamie. – Você só tem uma opção, ... – retirou o contrato do paletó. – É pegar ou largar. E acredite, muitos queriam estar no seu lugar. – estendeu-lhe a folha e a caneta.
Novamente lançou um olhar confuso na direção de Jamie. Aceitar uma oferta para ir trabalhar em um manicômio era realmente uma decisão difícil. Os médicos especializados tinham graduação diferente, eram todos treinados essencialmente para lidarem com pessoas com problemas mentais.
Colocaria sua vida em risco, mas, de qualquer forma, estaria em risco. Aceitando ou não, em todos os recursos corria risco de vida.
Will entrelaçou os dedos de suas próprias mãos, confortando as costas no encosto da cadeira. Estava disposto a esperar o tempo que fosse necessário para receber a resposta de . Não forçaria a mulher a fazer nada que ela não quisesse, afinal, ninguém era obrigado se arriscar com doentes mentais.
Não tinha escolha, não existia uma terceira opção. faria o mesmo caso estivesse em seu lugar. abaixou a cabeça, soltando o ar pela boca. O que ainda lhe aguardava? Tremia só de pensar!
– Fechado... – pronunciou em uma voz baixa e derrotada. – Já que estamos falando de segurança, vale a pena correr o risco, eu acho... – completou, guiando sua mão trêmula até a caneta.
– Tem mesmo certeza disso, ? – Jamie quis garantir. Não seria tão insensível ao ponto de colocar a vida de sua melhor médica em risco, aliás, em momento algum concordou em emprestar seus profissionais, mas uma hora ou outra sabia que teria de ceder.
encarou Jamie, estudando sua face. Deduziu o olhar do homem como de um pai. Jamie Hering era um ótimo chefe para o hospital e sabia que, quando o assunto envolvia seus médicos, ele se transformava em um homem bastante cauteloso.
– Antes de aceitar – começou. –, lembrei-me das palavras de uma pessoa. – sorriu, segurando as lágrimas. – Estou fazendo isso por essa pessoa. Em suas últimas palavras, ela pediu que eu ficasse segura. – abaixou o olhar, limpando a lágrima teimosa. – Pediu que, por ela – sua voz já estava alterada. –, eu deveria aceitar qualquer tipo de oferta que me garantisse proteção. – jogou a cabeça para trás na tentativa de conter as lágrimas. Por fim, não queria ir para o manicômio, mas o faria. Faria por sua família. Faria por ele, sim, faria por seu amor...

*****


– Obrigada! – agradeceu o taxista, que arrancou.
Encarou o grande portão, no qual um corvo lhe encarava. Segurou na gola de sua camiseta, suspirando fundo. Sim, aquele era o lugar certo.
Analisou o que estava prestes a adentrar, notando nos mínimos detalhes. O jardim estava destruído. Completamente nulo. Só restavam raízes secas de árvores e troncos cortados ao meio. Os que deveriam ser bancos eram apenas pedaços quebrados de concretos e o que antes era uma fonte jorrando água, agora não passava de uma simples paisagem mórbida.
Só faltava cair uma chuva e um relâmpago cortar o céu. Um verdadeiro cenário de terror.
Respirou fundo, preparando-se para abrir o portão. A caminhada foi algo completamente maçante. Aquele silêncio ajudava os pensamentos de a construir um verdadeiro filme de terror. Ora, era só um manicômio velho e mal cuidado.
Já ouvira bastante histórias de terror que envolvessem manicômios, mas nunca imaginou que ficar de frente com um seria algo realmente assustador. Desde que aceitara a oferta de segurança uma semana atrás, não se imaginava adentrado um cenário de American Horror Story.
– Olá...? – emitiu, receosa, abrindo a enorme porta de madeira.
O corredor estava vazio, nenhum sinal de movimentos humanos. Adentrou, fechando a porta com as mãos trêmulas. Assim que se virou, tomou um susto, encontrando com um homem lhe encarando de um jeito animalesco. Quis gritar, mas o máximo que conseguiu foi largar sua mala e impulsar seu corpo para trás.
O sujeito era um idoso. Um idoso bastante assustador, por sinal.
– Não me machuque, por favor... – pediu, forçando seu corpo contra a porta, parecendo que a qualquer momento poderia passar através das madeiras.
Ele gargalhou alto, continuando a se aproximar da mulher, que já tinha os batimentos cardíacos acelerados. Seu sorriso foi o suficiente para fazê-la estremecer.
Com as mãos, tentou buscar apoio em algum lugar na parede, por fim não encontrando sucesso. O senhor tinha a boca aberta, expondo seus dentes pobres e a língua, por onde escorria sua saliva excessivamente. fechou os olhos assim que sentiu aqueles dedos pegajosos e sujos encostarem contra sua bochecha. Ele a acariciou de forma nojenta e resmungava algo que ela não entendia, abrindo um sorriso doentio.
– Por favor... – sentiu lágrimas querendo sair, mas seria forte. – Por favor, fica longe de mim... – ele riu como se houvesse realmente uma graça.
Apertou mais os olhos, deixando seus pensamentos se guiarem para . Seu coração palpitava apenas em relembrar o rosto do homem. Enquanto sentia aqueles dedos nojentos lhe alisando, tentou se concentrar em , tudo aquilo era por ele. Passaria por todo aquele sufoco para ficar em paz.
Ele a queria segura, e acreditava que estava. Entretanto, para isso se tornar realmente verdade, teria que passar por obstáculos constrangedores como aqueles... O amor falava sempre mais alto.
– Ei! – gritaram, e ouviu passos. – Sr. Smith, não tinha que estar aqui! – a voz paciente impressionou a mulher. – O senhor deveria estar descansando, sabe disso. – o médico falava com uma calma que chegava irritar.
O idoso, em resposta, mexia os lábios e babava. Sua voz não emitia palavras, eram apenas resmungos. engoliu em seco quando o senhor apontou o dedo para ela, e resmungou.
– Sim, sim. – sorriu uma carreira de dentes brancos, deixando que o idoso lhe abraçasse enquanto continuava a resmungar, indicando . – Sim, realmente é uma moça muito bonita. – o idoso continuou a resmungar até captar lágrimas rolando de seus olhos. – Não, Sr. Smith... – o homem tentou acalmá-lo, se ajoelhando.
Prestou atenção no que o velho retrucou, e sorriu, acariciando os cabelos grisalhos.
– Não fique assim, por favor, ela não se assustou com o senhor. Não é? – os olhos verdes fitaram a mulher.
– N-não. – respondeu, forçando um sorriso. – O senhor não me assustou em nenhum momento. – mentiu, e o senhor lhe encarou, murmurando algo.
O homem assentia prestando total atenção nos resmungos do Sr. Smith, por fim abrindo um sorriso.
– Entendo. – respondeu e uma mulher surgiu com uma cadeira de rodas. – Agora o senhor vai descansar. – se levantou, ajeitando o senhor na cadeira.
– Des-des-des... Sa-sa... – o idoso emitiu.
– Sim, descansar. – afirmou. – Leve-o para o quarto, sim? – passou as informações para a enfermeira, que assentiu.
O médico acenou para o idoso com um sorriso largo nos lábios. A enfermeira guiou a cadeira de rodas em direção aos quartos, sumindo sem deixar rastros. O homem ria animadamente enquanto não achava graça de nada. Será mesmo que o suposto "médico" também tinha problemas mentais? Se tivesse, seria um desperdício.
Não podia negar, ele era bonito. Seu sorriso faria qualquer mulher se derreter. Seus olhos verdes eram completamente brilhantes, seus cabelos eram loiros meio grisalhos. Enfim, ele se parecia com o Jensen Ackles, era a cópia perfeita do ator!
– O que foi? – questionou, com a mão na barriga.
– Você. – respondeu com uma sobrancelha erguida. – Parece um maníaco rindo, sem ter do que verdadeiramente rir. – rolou os olhos.
– Wow, maníaco acho muito pesado. – esfregou a mão fechada pelos lábios de um jeito sensual. – Me chame de Dean! – prendeu o riso, estendendo a mão.
– Ok. Chega de gracinhas! – bateu contra o braço dele, que arcou uma sobrancelha. – Vai me dizer também que seu sobrenome é Winchester e tem um irmão chamado Sam? – cruzou os braços enquanto ele caía na gargalhada.
– Já fui chamado para fazer o dublê de Ackles, mas o papel não coube a mim. – disse, brincalhão.
– Ah, se você foi chamado para interpretar o dublê de Jensen Ackles, me considere a chapeuzinho vermelho! – rebateu, sarcástica.
– Oh, e devo considerar o lobo mau? Afinal, o lobo comeu a chapeuzinho! – encarou as unhas, deixando a frase soar com duplo sentido. – Ou ele já foi morto pelo caçador? – provocou, levantando uma sobrancelha.
– Prefiro não responder as suas perguntas, Dr. Winchester! – agarrou sua mala, passando reto por ele.
Dean levantou as mãos para o alto, como se pedisse algo para Deus, e sorriu. Assim que as abaixou, se virou inesperadamente, correndo em direção a , que já subia a enorme escadaria. Claro que ele não perderia a chance de brincar mais um pouco com sua mais nova colega de trabalho.

*****


Colocou a mala em cima da cama, abrindo-a. A primeira visão dos objetos fez seu coração se contorcer, ficando mais apertado. Pegou o retrato, acariciando através do vidro. estava lindo naquela fotografia, o sorriso alegre estampado em seus lábios parecia dizer para aguentar firme.
A mascote em seus braços era Snoop, o vira-lata que agora com certeza estava no Brasil junto da família . Aquele cãozinho era como um filho para , ele proporcionava o amor tão profundo que chegava ser incomparável ao amor que poderia dar. No fundo, a mulher sabia que, entre ela e o cãozinho, ficaria dividido. Por isso não hesitou em aceitar a proposta de seu namorado de levar o animal para morar com eles.
No momento, a companhia do vira-lata lhe faria muito bem. Pelo menos não iria se sentir tão sozinha em Toronto. A cidade estava um caos, e, presa dentro daquele manicômio, sentia-se no final de sua jornada. Sentia-se em uma prisão de domicílio fechado. Uma prisioneira condenada à prisão perpétua...
Acomodou-se na cama, encostando as costas na cabeceira, continuando com o retrato em mãos. Deixou uma lágrima escorrer. Doía estar longe daqueles que amamos.
Fechou os olhos e abaixou a cabeça, voltando a levar o retrato para seu peito. Fungou baixo, questionando-se até quando teria que suportar a dor de estar longe de . Fazia apenas uma semana desde sua partida e a saudade já era imensa, no entanto, imagine dentro de um mês ou um ano!
Era seu primeiro dia no manicômio, que já fora assustador. Sentiu vontade de sair correndo na primeira oportunidade. Assim que adentrara, de fato o Sr. Smith lhe assustou. Qualquer um pensaria que ele era algum tipo de estuprador, e não um pobre senhor que perdeu a família em um acidente aéreo, no qual apenas ele saiu com vida.
Dean lhe explicou detalhadamente o temperamental do idoso, e logo compreendeu que não tinha o que temer, afinal, o Sr. Smith era só um senhor que queria um pouco de atenção.
Durante seu dia, Dean Wright – infelizmente não era Winchester – apresentou a todos os pacientes, menos para um, que ele subjugava como sendo bastante perigoso, por conter o gênero indomável. Dean o apresentou com o nome de Danger, que significava perigo. se impressionou e acabou ficando intrigada com a história que escutou sobre o paciente, que, até o final das apresentações, descobriu se chamar por nascença.
Seu espírito curioso não deixava sua mente descansar. Ela queria se arriscar e conhecer o sujeito indomável. Estranhou sua completa curiosidade, nunca gostou de perigo, e Dean deixou bem claro o quanto era perigo mortal.
O filme era de terror... não estava ao seu lado, e, até o momento, não tinha notícia deste; o manicômio era completamente assustador; o médico parecia com Jensen Ackles; os pacientes pareciam todos maníacos; sua família viajou para o Brasil sem avisá-la; estava sozinha.
Em meio a tantos pontos e tanta dor, que mal faria enfrentar o paciente mais agressivo? Talvez pudesse domá-lo.
Abriu os olhos. Sua mente estava bagunçada. Eram imagens de , Dean, Jensen, Sr. Smith... Só restava na lista, mas quem disse que ele também não estava em seus pensamentos? De um modo fictício, mas estava.
Suspirou, pousando o retrato do noivo em cima da cômoda. Logo a porta se abriu.
– Oi, de novo! – Dean adentrou o quarto sem esperar por permissão.
– Oi. – respondeu, seco, limpando suas lágrimas com a mão.
– Trouxe os documentos. – sentou-se na beirada da cama. – A lista de pacientes está aqui dentro, amanhã você começa bem cedo com eles. São quatro no total. Aliás, o quarto, se quiser deixar por nossa conta, não tem nenhum problema. – puxou o ar, estendendo a caderneta.
– Quem é o quarto? – quis saber, pegando a caderneta.
Danger. – respondeu sem enrolar e observou a expressão de mudar.
? – pronunciou, surpresa, abrindo a caderneta para checar o nome, e ali estava ele escrito em vermelho, como se fossem letras de sangue.
Por um momento sentiu seu coração disparar, mas não sabia definir se era de medo ou ansiedade. Um dos pacientes mais agressivos estava sob sua responsabilidade, era um dever bastante pesado para uma iniciante.
– Por que ele está na minha lista? – queria saber a verdade.
– Ninguém se atreve domar o "corcel". – respondeu, fazendo aspas com os dedos e fazendo-a rir.
– E acha mesmo que eu vou conseguir Dr. Winchester? – sorriram com a brincadeira. – Espera! – seu sorriso apagou. – Você mencionou que ninguém se atreve domá-lo. – Dean assentiu. – Então como vocês...? – não conseguia palavras para concluir a pergunta, mas o homem havia entendido.
– É difícil falar, mas usamos algemas, correntes, água quente, spray de pimenta, palmatórias, chicotes, choques, sedativos... – não acreditava naquilo que ouvia. – Já chegamos até ao ponto de usar camisas de força. – completou, e a mulher ficou horrorizada.
– Por que usam isso? – questionou em espanto.
– Ele é indomável, ! – exclamou um pouco alto. – Por isso o apelidaram de Danger. – mostrou-se alterado. – Entenda, não pense que vai entrar dentro daquele quarto e encontrar um gatinho na caixa de costura. – segurou a mulher pelos pulsos. – O máximo que vai encontrar é um lobo selvagem! – prestava atenção em cada palavra que saía da boca de Dean. – Veja. – pediu, erguendo a manga de seu uniforme e expondo uma enorme cicatriz em seu braço.
A marca cortava de seu cotovelo e fazia caminho até o pulso. , indignada, observou Dean acariciando a cicatriz como se lembrasse de algum acontecimento ruim. Não era preciso muito esforço para deduzir que aquela marca fora deixada por algum animal selvagem!
fez isso. – pronunciou baixo, atraindo os olhos de , já lacrimejados. – Foi a primeira vez que eu entrei em seu quarto. Era iniciante. – começou, encarando as feições da mulher. – Eu não sabia, mas os médicos estavam o mantendo em uma espécie de correntes ligada a choques. – recordou a imagem de Danger amarrado pelos pulsos e pernas. – Ele estava fraco, conseguia ver isso em suas íris. Eu, não o conhecendo e com pena... Aproximei-me... – abaixou seu olhar, passando os dedos pela marca. – E o pior aconteceu... – complementou, deixando com medo. – Ele se fez de vítima e conseguiu me atrair para sua armadilha. Sem eu perceber, ele agarrou em meu braço e o torceu com toda a força que seus músculos continham. Eu nunca gritei como gritei naquele dia. – encarou , que estava amedrontada.
– Ele torceu o seu braço e depois o enrolou com a corrente até quebrá-lo? – sua voz estava assustada.
– Como sabe? – quis saber.
– A vovó Adams me contou. – confessou. – Quando você saiu do quarto e me deixou com ela, ouvimos barulhos altos no corredor. Ela deduziu como sendo se jogando contra a porta, então me explicou essa história.
– Disse também que deve tomar cuidado? – questionou.
– Você já me disse isso. E repito. – respirou fundo, segurando nas mãos do rapaz, encarando seus glóbulos verdes. – . Não. Vai. Se. Atrever. Encostar. Um. Dedo. Em. Mim. – disse pausadamente.
– Como tem tanta certeza? – levantou uma sobrancelha.
– Eu sei. – respondeu, confiante de suas palavras.
Sorriu sem mostrar os dentes, sentindo um calafrio atingir sua espinha. Em que buraco estava se metendo? Onde estava com a cabeça querendo enfrentar ?
Era doente. só poderia ser doente para querer enfrentar um ser indomável. Será mesmo que tinha o controle em mãos? Era melhor não duvidar!

*****


Evitou novamente a bandeja de se encontrar com o chão, equilibrando em suas mãos trêmulas. A vovó Adams estava ao seu lado, tentando orientá-la em tudo que pudesse antes que tivesse que enfrentar aquilo que lhe aguardava.
Prestava atenção em todas as palavras que aquela senhora pronunciava. Rosselly Adams era uma senhora idosa com setenta e dois anos, que vagava pelo manicômio na intenção de ajudar iniciantes e pacientes. Sua bondade já fora motivo de discussão em diversos centros hospitalares.
Cuidar de doentes mentais muitas vezes levava em consideração o uso de violência, e isso Adams era totalmente contra. Até mesmo com achava uma injustiça, mesmo achando que, às vezes, o rapaz merecia umas chicoteadas por ser teimoso. Mas nunca, simplesmente nunca em sua vida iria aceitar o jeito que o tratavam como um animal.
tem o temperamental forte, é extremamente difícil lidar com ele. – disse, lavando suas mãos. – Peço apenas que tome cuidado, querida. – já estava farta daquele pedido!
– Vovó, acha mesmo que corro perigo dentro daquele quarto? – questionou, pousando a bandeja em cima da mesa.
– Você disse que pretende entrar sem seguranças, e...
– Eu não quero machucá-lo, e muito menos passar a impressão de ameaça. – interrompeu, começando mexer com algumas agulhas e seringas.
– Oh, querida! Creio que isso seja meio impossível. – deduziu, com atenção também voltada para as seringas.
não vai me machucar. – deixou escapar, confiante.
– Não pense que apenas se não entrar armada ele vá ser um gatinho na cesta de costura. – indagou, embrulhando uma maçã com papel alumínio.
– Eu não pensei isso. – confessou, abrindo um recipiente em que se guardava os medicamentos em graus negativos. – Só acho que ele irá se sentir mais confiante. As armas o intimidam, ele não é idiota e sabe que elas machucam! – deduziu, analisando os fracos congelados.
– O que procura, querida? – vovó quis saber.
– O medicamento dele. – respondeu sem enrolar.
– Ah, o haloperidol. – citou, dando as costas para , que ficara perplexa.
– H-haloperidol? – questionou, engolindo em seco.
– Sim. – Rosselly levantou as mãos em direção da luz, preparando a dose.
– Vocês são loucos?! – gritou, retirando os objetos das mãos da senhora. – Isso é um medicamento para tratar pacientes com distúrbios. São para pessoas extremamente loucas que ouvem vozes! – seus olhos estavam arregalados em espanto.
– Querida, isso é para aliviar as dores dele, pensa que...
– Morfina é para aliviar dores. Dores essas que vocês causam! – aumentou o tom de voz. – Vocês são todos loucos, não precisa de nenhum medicamento! Os exames constam que ele não sofre de esquizofrenia ou distúrbio mental! – tratou logo de pegar a bandeja. – Vocês o maltratam demais, essa é a realidade, são monstros sem limites! – emitiu, eufórica, saindo para o corredor.
Caminhou pelo corredor, sentindo raiva de todos os médicos que encontrava pelo caminho. Como era possível tratarem de uma pessoa com tanta frieza? O que fizera para ganhar ser maltratado por seres de sua própria raça?
Haloperidol era um medicamento perigoso!
Muitas vezes leu nos tabloides situações nas quais pessoas morriam por causa do uso irregular do haloperidol. Essa substância fora bastante utilizada nos manicômios antigos, e com certeza prevaleceu.
mordeu os lábios apenas de imaginar aquela substância agindo no corpo de seu mais novo paciente. Tudo bem que a razão do uso talvez fosse para controlar o comportamento agressivo que ele com certeza adquiriu devido aos castigos, mas não chegava a ser justo aplicarem uma dose tão alta como Rosselly preparava.
– Abra a porta, sim? – pronunciou para o guarda.
– Tem absoluta certeza, senhorita? – quis saber. Ela parecia uma mulher muito frágil aos olhos dele.
puxou o ar pelo nariz, soltando brevemente pela boca. Suas mãos começaram se manifestar em pequenos ataques de tremedeira. Tensa. Não conseguia se concentrar naquilo que encontraria atrás daquela porta de metal.
– A-absoluta. – gaguejou, e o homem deu de ombros.
Segurou mais firme a bandeja enquanto ouvia o guarda destrancar a porta. Suava frio. Seus olhos estavam presos nas letras negras que desenhavam a palavra Danger, o apelido tão conhecido e perturbador.
Engoliu a seco, sentindo sua garganta seca. A escuridão do quarto atingiu seu olhar assim que o rapaz lhe deu total passagem para adentrar o quarto. Com os lábios entre abertos, começou caminhar lentamente, ouvindo uma voz pronunciar no fundo de sua mente o quanto aquilo era perigoso.
– Qualquer coisa, senhorita... – expôs o cassetete, batendo em sua própria palma.
– Eu não quero violência alguma! – deixou claro, tomando coragem para enfrentar a escuridão.
O estrondo fez pular e encarar a porta. Ouviu o som da chave que ativou a tranca e estremeceu. Agora só restava ela e o famoso paciente indomável!
Lentamente obrigou seus pés a virarem seu corpo até ficar definitivamente de frente com a cama. Apalpou a parede em busca do interruptor, sentindo um tremendo calafrio acompanhado de um obscuro vento que movimentou seus cabelos.

Acompanhou os movimentos daquela mão tão pequena com aparência delicada. A fraca luz do abajur era o suficiente para deixá-lo ter uma ótima visão daquela intrusa. Semicerrou os olhos, analisando todo o perfil novo.
Rosto e olhos assustados. Mãos trêmulas. Pernas bambas. Respiração compassada, notou que ela tentava se manter calma. Com certeza ela era mais uma isca para atraí-lo, e não cairia no truque traiçoeiro para ganhar agulhas gratuitas em sua pele. Não precisava de medicamentos para ser controlado.
Analisou detalhadamente o corpo da atração. Não era nada exagerado, tudo na medida certa e no lugar certo. A cintura não era fina igual todas as outras, ela era simplesmente perfeita para suas mãos repousarem. As curvas tinham um toque delicado como porcelana e logo teve certeza de que se caso tivesse contato com elas, seria capaz de quebrá-las.
O mal se esbarraria com o bem.
A batalha seria tentadora, e ao mesmo tempo interessante...

pousou a bandeja em cima da cômoda vazia, ajeitando a comida e bebida. Os remédios eram algo com o qual não suportava visualizar. Não sabia deduzir, mas dentro de si tinha uma voz insistindo em dizer que Danger não precisava de medicamento algum.
Sentiu um calafrio que lhe arrepiou da cabeça aos pés, podendo sentir um calor imenso subir em seu corpo. O quarto começara ficar quente. Concluiu, então, que tinha de abrir as cortinas e deixar o ar entrar.
Assim que fez menção de se virar, prestes a caminhar em direção das janelas, seu olhar se cruzou com os glóbulos assassinos. Segurou o grito, e, por impulso, deu dois passos para trás, esbarrando-se com a cômoda.
A magnífica carreira de dentes se apossou dos lábios vermelhos, logo estremecendo as pernas da mulher. Buscou apoio nas mãos para se manter em pé, e segurou firme na madeira da cômoda enquanto ele se atrevia romper a distância entre eles.
– Eu não tenho medo de você! – quis mostrar uma postura firme, mas tudo foi para o ralo quando ele se aproximou.
Analisou mais de perto, podendo inspirar o doce cheiro do perfume feminino. Mais dopado não poderia ficar, mas ficou... O cheiro dela era maravilhoso.
– Não me machuque, por favor... – pediu, virando sua cabeça para o lado quando percebeu a mão dele se guiando em sua direção. – Por favor... – implorou, fechando os olhos com o toque dele.
Estremeceu, sentindo os dedos quentes afastarem uma mecha teimosa de seu cabelo. Os movimentos lentos pareciam querer estudá-la, traçavam um caminho tão delicadamente como se fosse porcelana.
Com o polegar acariciou a bochecha da mulher, conseguindo ter os olhos confusos de em seu rosto. Ignorou o olhar dela, continuando com a atenção presa em seus movimentos, entranhando a si mesmo. Estava com medo de machucá-la caso fizesse algum movimento brusco. E esse era o mais estranho: nunca em sua longa vida dentro do manicômio teve medo de algo.
– Eu não vou te machucar... – murmurou com a voz rouca.
hesitou quando a mão de escorregou para seu pescoço. O modo como seus olhos analisavam o corpo da mulher era poderoso assim como o olhar de um predador.
Ouviu o barulho do pingente de sua correntinha, identificando como sendo ele o causador do som. Abaixou o olhar, querendo saber o interesse dele ali, e encontrou apenas os dedos grossos envolvendo a cruz dourada. O jeito que ele movimentava os dedos acariciando o pingente chegava ser aterrorizante.
– Por que todos têm medo de você? – deixou escapar, procurando o olhar dele.
– Porque sou um assassino! – respondeu em um fio de voz.
deveria ter sentido sua garganta secar e as pernas trêmulas, mas, ao contrário, não sentiu absolutamente nada. Achara estranho seu comportamento, porra, estava lidando com um assassino real!
O próprio confessou na sua frente, mas não sentiu medo.
– Essa é a parte que você corre e busca por ajuda – a voz dele se pronunciou. –, daí eles vão entrar com o meu castigo. Irão me maltratar e você nunca mais irá pisar dentro desse quarto!
As palavras poderiam até parecer de um assassino em série que tinha planejado seu plano na escuridão. Só que se recusava a sentir medo e correr como um gato assustado.
– E por que acha que eu faria isso? – enfrentou, cruzando os braços.
– Todas que entraram aqui fizeram. – revelou, e ela abriu um sorriso tímido.
– Eu sou diferente, . – disse. – Eu não estou aqui para machucar você, e sim cuidar de você – pronunciou, sentindo uma sensação desconfortável.
– Cuidar? – riu, cínico. – Ninguém aqui quer cuidar de mim, só se for cuidar do meu caixão! – debochou.
– Acredite, eu quero! – exclamou, segura de si.
fechou a mão em volta do pingente, puxando a corrente banhada a ouro em sua direção. O corpo da mulher com o impulso entrou na física. Prendeu a respiração com a aproximação de seus corpos, estava começando ficar desconfortável com aquele olhar predador lhe analisando.
Os glóbulos escuros percorriam todas as dimensões de . Todo e qualquer ponto era marcado em sua mente. O manequim feminino era perfeito. poderia ser considerado um doente mental apenas por estar em um manicômio trancado às sete chaves, mas no fundo sabia tratar as pessoas como elas mereciam.
Não era nenhum tipo de maníaco, não tinha o que temer. Ele nunca faria nada contra ela, nunca a machucaria. Pelo contrário, a protegeria.
– Por que todos dizem que você é perigoso? – quis saber, atrevendo-se a levantar a mão até pousá-la sobre a dele.
abaixou o olhar, encarando seus dedos juntos do dela. Era uma imagem magnífica. Suas mãos pareciam se encaixar em uma. A sensação de conforto era tão gostosa que ele sequer se lembrava de como é bom senti-la.
também sentia o mesmo. A sensação era de fato reconfortante. Porém, esperava a resposta dele. Queria saber o motivo de ele ser o perigo. Ouvir sair dos próprios lábios do monstro.
Se ele era maltratado pelos médicos, tinha que ter um motivo. Afinal, ninguém apanhava gratuitamente.
– Eu sou diferente. – foi apenas isso que ouviu após longos minutos em silêncio com a atenção rígida no abraço de suas mãos.
– Diferente de que sentido? – questionou, sem medo. Queria saber a versão histórica aos olhos dele.
– Eu não sou nada disso que descrevem. – começou, abaixando o olhar e engolindo sua saliva. – Não sou nenhum assassino. Não matei ninguém! – ergueu o olhar, refletindo um tom neutro. – Eu nunca seria capaz de matar minha própria família. – foi a primeira vez que aqueles olhos parecessem lacrimejar depois de anos.
– E por que não diz isso aos médicos que vêm aqui? – voltou a mostrar sua postura rígida.
– Eles nunca ouvem as palavras de um paciente diagnosticado com esquizofrenia, transtornos e distúrbios. – respondeu, soltando o ar. – Todos eles ignoram o meu lado da história! – exclamou, soltando o pingente de . – Você com certeza também vai ignorar a minha versão, vai me considerar um louco depressivo que só quer um pouco de atenção. – deu de ombros, sentando-se na beirada da cama.
respirou fundo, soltando levemente o ar pela boca. Não queria ser igual aos outros médicos, queria poder entender o que escondia. Estava curiosa para saber seus segredos mais obscuros, sentia como se fosse algo necessário.
parecia ser um homem reservado. Com certeza escondia seu verdadeiro eu. E era esse lado real que tinha interesse...
– Você não é um louco depressivo. – começou, guiando suas pernas até a cama na qual se sentou. – Entenda, . – aproximou-se, não sabendo da onde tirou coragem para abraçá-lo. – Pode contar comigo para tudo. Assim como você, sou diferente e... – pronunciou, sentindo o homem lhe envolvendo. – Eu só quero te ajudar, me deixe pelo menos fazer isso? – completou, aconchegando a cabeça no peito arfante dele, enquanto acariciava os bíceps rígidos marcados de cicatrizes.
sorriu assim que sentiu o queixo de encontrar a sua cabeça e a mão dele ficar espalmada em suas costas, puxando-a para mais perto. Sinal de confiança e aceitação. tinha aceitado , o que parecia ser algo bastante raro. Desde quando não sentia aquela sensação de confiança?
A mulher impulsou um pouco o corpo para mais perto dele, quase ficando sentada no colo do homem. Não lembrando mais da fama de Danger, se deixou levar por impulso. Ajeitou sua cabeça, encontrando com o pescoço do paciente, no qual permaneceu, fazendo um tremendo bater de asas fluírem em uma sensação quente e reconfortante...
Seus corpos se encaixavam como um quebra-cabeça, o contato acalmava ambos os peitos. Os corações, que antes estavam acelerados, prestes a correr em uma pista de corrida, agora estavam calmos batendo conforme a força da confiança e aceitação.

*****


Os guardas encararam dos pés a cabeça. Como ela continuava inteira? O que ela fez com dentro daquele quarto para ter saído do mesmo jeito que entrou? Só uma palavra estava presente na mente dos homens: impossível!
Fingiu desinteresse nos olhares peculiares dos guardas e saiu caminhando pelo estreito corredor. Todo médico que passava por si era visto agora com outros olhos. Sentiu a única peculiar entre eles. Com certeza ela fora a primeira alma com quem se abriu depois de anos preso dentro do manicômio.
A história chocante foi totalmente diferente daquela que contaram. Aos olhos de , tinha sido mais realista e talvez até mais assustador. Imaginá-lo presenciando a família morta na própria casa com certeza não fora a melhor experiência. Sentiu pena dele mesmo sabendo que não deveria senti-la, já que o próprio deixou claro que odiava ser olhado com olhar de pena.
! – ouviu a voz de Dean.
– Veja se não é o Dr. Winchester, o responsável por matar seres sobrenaturais! – debochou, agora enxergando Dean com outros olhos.
Dean Wright foi o nome que mais ouviu sair da boca de . O jeito que lhe detalharam tinha sido nojento. Nunca pensou que Dean fosse capaz de maltratar um dos pacientes. Tudo bem que era agressivo e tinha que ser mantido... Wow, não presenciou nenhuma demonstração de agressividade.
Bingo! não lhe propiciou medo e muito menos algum ato violento, talvez devesse parar de ouvir as histórias dos médicos. Eles não sabiam quem era o verdadeiro Danger!
– Como foi visitar Danger? – passou a caminhar ao lado dela.
– Não foi nada que todos me alertaram! – respondeu, um pouco enraivecida. – é um paciente normal, ele não demonstrou em momento algum ser agressivo.
– Essa foi a forma dele dizer "olá, sou bonzinho, se aproxime"! – arregalava os olhos em deboche.
– Talvez vocês devessem parar de maltratá-lo. – emitiu baixo. – Pegar o gato pelo rabo não é um modo de educá-lo. – pronunciou as palavras que sua mãe costumava sempre dizer quando tirava nota baixa.
– Eu nunca o maltratei. – mordeu os lábios.
– Não foi isso que pareceu dizer! – rebateu, adentrando seu quarto.
– Prefere acreditar nas palavras de um maníaco ou de um médico? – disparou, ficando encostado no batente da porta.
– Não vou aceitar que fale dele assim! – sua voz foi firme. – Você pode ser meu amigo, Dean Wright, mas não vou aceitar que se refira a como sendo algo que ele não é! – ditou, enfrentando o rapaz, que se mostrou surpreso.
– O que ele fez com você, ? – levantou uma sobrancelha.
– Demonstrou o lado realista! – respondeu, encarando Dean nos olhos.
Os olhos verdes não atreveram a se esquivar do contato visual. Caso o fizesse, estaria se considerando um fracote. Não queria se rebaixar apenas por ter feito "amizade" com o paciente mais agressivo. Fosse lá qual era o truque dela, funcionara em cheio!
Dean pôde analisar o corpo de assim que esta saiu do quarto de Danger. Não encontrou sequer um hematoma, nenhuma manchinha roxa... Que técnica ela usou? Precisava saber, mas tinha algo mais importante para tratar com ela.
– Podemos tratar sobre o assunto depois... – cortou a conversa, retirando um envelope do paletó. – A questão não envolve , e sim . – assentiu, soltando um suspiro antes de estender o envelope para ela.
– Quando...? – agarrou o envelope, já sentindo as lágrimas após se sentar na cama.
– Hoje cedo. – respondeu e visualizou rasgar o papel, desesperada. – Eu preciso ir. – assim, se retirou.

Para o amor da minha vida,

Peço perdões por não ter mandando notícia alguma de vida desde minha partida. Uma semana bastou para deduzir o quanto sinto sua falta. Lembra-se das nossas noites em que assistíamos filmes patéticos de romance e acabávamos dormindo abraçados dizendo sempre um "eu te amo"? Pois bem, quero que guarde essas noites...
, preciso dizer que as coisas aqui não andam muito boa. Fui atingindo por um dos bombardeios. Os médicos disseram que tenho chance de sobreviver, mas meu estado de saúde é crítico. Sinto como se fosse morrer a qualquer momento... Queria poder ver o seu sorriso novamente, só você para me fazer sorrir. Mas peço, por favor, não espere por mim...
Lembro-me de ter pedido para esperar, mas sinto que deve seguir sua vida sozinha. Quero que leve em seu coração um pedaço de mim. Porém, você não é minha. Estou deixando as lágrimas saírem agora, mas não quero que chore, meu amor, sei que tem alguém melhor do que eu nesse mundo, e provavelmente ele lhe fará muito mais feliz e te protegerá dos perigos, assim como eu queria protegê-la... Agarre a chance caso ela surja, e, por favor, não seja boba de dizer que me ama!


Com amor e muita saudade,
, xx.



encostou a carta contra o peito, deixando suas lágrimas grossas rolarem livres e sem rumo. O choro alto expandiu pelo quarto. Não sentia vergonha de chorar.
Fungou, deixando seu corpo cair de lado na cama. Como se atreveu a dizer que ela não o merecia? Lógico que o merecia. Estava decidida que ele seria seu marido, a aliança em seu dedo era a prova vida dessa teoria, e queria esperar por ele.
Fechou os olhos com força, tentando conter as lágrimas. Seus pensamentos estavam bagunçados. Eram tantos acontecimentos que não estava conseguindo organizar. Só sabia de uma coisa: queria vê-lo... Sentia uma vontade absurda de ver , ouvir sua voz e tocar seu rosto, se perder em seu magnífico sorriso...
Que outro amor ele se referia? Não existia um segundo amor, existia? Pelo menos acreditava que o ser humano apenas amava uma vez, mas talvez o verdadeiro amor estivesse mais perto que ela imaginava.

*****


Caminhava com Dean pelo corredor ajudando a levar os pacientes para a área de lazer. Apesar de na frente o manicômio ser um terror, nos fundos tudo era magnífico, nem parecia o mesmo lugar.
Eles cuidavam de um jardim, não muito grande. Também não era rico em detalhes. Ele tinha seus pontos negativos, como os bancos e as estátuas que não passavam de concreto caindo aos pedaços.
As plantas tinham seu magnífico tom vivo, as árvores pareciam ter as melhores folhas, dançavam com o vento, como se tudo fosse fruto de um mundo encantado. E não podia faltar uma fonte no meio de tudo, na qual jorrava água cristalina.
não estava contente por estar ali, mas se a queria segura, faria por ele...
– Por que pediu para você não esperá-lo? – Dean iniciou a conversa, sentando no banco enquanto os pacientes se distraíam com a paisagem natural.
– Eu levei para o lado onde ele acha que não vai voltar. – explicou, abaixando a cabeça. – Eu quero esperá-lo. Mas não sei se devo... – umedeceu os lábios, segurando as lágrimas teimosas. – Eu já sofri muito, sabia? Sofrer mais um pouco não vai fazer diferença. – Wright a envolveu com os braços em um abraço amigo.
– Sofrer não é a opção. – disse, observando a fonte.
– Talvez eu tenha nascido para sofrer. – pronunciou, ajeitando seus cabelos atrás da orelha e se desfazendo do abraço. – Quando eu era pequena, sofri na escola. – negou com a cabeça, mordendo os lábios. – Todos me julgavam e eu me questionava: qual era o meu problema? – virou seu rosto para o homem, que ouvia com atenção, e abriu um sorriso tímido sem motivo. – Meus pais tentaram de tudo, eles queriam me proteger. – deixou uma lágrima quente escorrer. – Mas quando cresci, conseguir deduzir que o problema era comigo. – apertou as mãos no banco.
– Sofrer não é a melhor opção, ! – Dean repetiu. – Às vezes devemos criar nossos caminhos. Nossa vida é obscura. Olha esse lugar... – pediu, movendo um braço como se apresentasse o horizonte.
observou todos os detalhes novamente. Pássaros agora voavam pelo céu cinza. Os pacientes pareciam se divertir com pouca coisa, tudo era questão de alegria para eles.
– Esses pacientes, alguns foram abandonados pela família e outros a perderam de forma trágica. – revelou. – Todos sofreram muito. Eu vi cada lágrima. – contou, direcionando seu olhar para a mulher, que suspirou, parecendo cansada. – Escuta. – pegou na mão dela, iniciando um leve carinho. – Se pediu para não esperá-lo, talvez seja porque sabe que você já tem seu novo amor. – ouvia com atenção. – E, para descobrir, eu sugiro que deixe seu coração lhe guiar... – completou, estudando a face da mulher.
– Meu coração, ele... – não conseguiu terminar, saindo correndo para dentro do manicômio.
Dean não entendeu sua reação. Quando ele se referia a um novo amor, quis dizer ele. Desde que ela pisara dentro do manicômio, entrou pela enorme porta de madeira, sentiu que seu peito tomou uma flechada, a flechada do cupido...
Nunca se sentiu daquele jeito com ninguém. foi a primeira mulher que conseguiu mexer com seu coração. O jeito que o cabelo dela batia quando estavam a sós no jardim era cativante. O cheiro dela quando lhe abraçava tinha um tom embriagante...
– Eu te amo, ... – sussurrou para si, sentindo seu coração receber uma pontada.
Queria ter permanecido sentada ao lado de Dean e prolongado aquela conversa sobre sofrimento e amor, mas algo estava lhe puxando urgentemente para dentro do manicômio. Era uma corda forte, e o indivíduo tinha força o suficiente para arrastá-la pelos corredores.
Observava as portas, não entendendo para que lado seguir. Estava seguindo seu coração assim como Dean ordenara. Mas estava começando ficar com medo de onde seu coração queria lhe levar...
Arregalou os olhos, entendendo finalmente o jogo. Suas mãos desesperadamente abriram as fechaduras, e, com rapidez, empurrou a porta, adentrando o quarto. Fechou a porta, trancando-a por dentro. Não sabia o porquê, mas buscava privacidade.
...? – ele surgiu da escuridão e o coração da mulher deu uma cambalhota. – Você de novo por aqui? Pensei que só... – correu até ele, pulando contra seu corpo e selando seus lábios.
De início não entendeu as atitudes da mulher, mas não resistiu em corresponder ao beijo. enlaçou os braços em volta de seu pescoço, levando os dedos para a nuca do rapaz e causando pequenos calafrios conforme esfregava as unhas e envolvia os cabelos sedosos.
Suas línguas se exploraram e os lábios eram mordiscados por ambas as partes. Os movimentos urgentes deixavam uma dúvida no ar...
Suas mãos grandes escorregaram para a cintura de porcelana, temendo em ser indelicado. rompeu o beijo rapidamente, querendo encará-lo nos olhos. Assim que ocorreu, pousou uma mão na lateral do rosto dele, e lhe deu um selinho demorado, sentindo o gosto dos medicamentos presentes na saliva.
– Pode me explicar o que foi isso? – perguntou sem gaguejar.
– Estou seguindo o meu coração... – encarou os olhos nublados do rapaz. – E ele me trouxe até você! – revelou, sorrindo, beijando o canto da boca do homem, que não demonstrou reação alguma, estava confuso.
– Não! Espera! – emitiu quando sentiu beijar seu queixo. – Eu não estou entendo nada! – segurou os pulsos dela, querendo resposta. – Você está seguindo o seu coração, mas... por que veio até mim? – queria saber, estava mais confuso que abelha em flor de plástico.
– Porque eu te amo! – revelou, sem medo da reação dele.
– Mas... – sua garganta secou. – E o , ele é seu... – começou, sendo interrompido.
– Shh... – pousou o dedo contra seus lábios. – Ele me mandou seguir sem ele, pediu que eu seguisse meu coração. Deixou claro em uma carta que caso eu tivesse a chance de ter um segundo amor, deveria parar de esperá-lo e seguir com esse sentimento. – explicou. – E tenho certeza que o meu segundo amor é você, Danger! – usou o apelido.
– As pessoas só amam uma vez. – esquivou-se da tentativa de beijo, soltando os pulsos da mulher.
– Então sou a primeira pessoa a quebrar essa regra! – sorriu, tentando uma aproximação, mas ele recuou. – Tem medo? – quis saber o observando suspirar.
– Eu não mereço ser amado. – respondeu, encarando um ponto qualquer sem ser ela, fechando os olhos e as mãos em punho.
– Merece sim! – se aproximou novamente, segurando firme em seus ombros. – Deixe seu coração guiar os seus passos. – sussurrou contra o ouvido dele.
Respirou fundo, encarando o rosto angelical de . Atreveu-se a tocar sua bochecha, iniciando um leve carinho e sentindo quando o toque da mão quente dela se envolveu com a sua. Observou as pálpebras se fecharem.
Ela era tão doce, tão sensível. Enquanto ele era grosso, insensível. Duas misturas diferentes, era o sol e , a escuridão. Ela iluminou seus últimos dias no manicômio, o fez se sentir vivo. Talvez ela estivesse certa, talvez seres humanos possam amar mais de uma vez, talvez devesse compartilhar o que sentia, talvez devesse sorrir abobalhado...
Quer saber? Ele deveria parar de falar tanto talvez e partir logo para o passo inicial!
Mordeu os lábios, afastando sua mão do rosto da mulher. Esta abriu os olhos e sorriu quando o notou aproximando seus rostos. Envolveu os braços em volta do pescoço do homem, sentindo o toque delicado de seus lábios.
Iniciou-se um beijo calmo, suas línguas se massagearam, conhecendo uma a outra. Suas salivas misturavam-se o gosto do remédio agora estava unido com o gosto doce de . a puxou para si, colando mais seus corpos. Ela sorriu, enlaçando os dedos nos cabelos macios.
As mãos do homem escorregaram pelas curvas da mulher, pairando contra as coxas grossas. segurou firme nos ombros dele, e assim a impulsou para cima, fazendo-a enlaçar as pernas em volta de sua cintura.
Em meio a sorrisos, iniciaram outro beijo, sendo este uma demonstração da urgência. Seus corpos se guiaram até a cama, ainda envolvidos dentro daquele beijo prazeroso.
sentiu suas costas serem pousada com sutileza no material macio do colchão. puxou sua camiseta branca, expondo pela primeira vez seu físico para ela. mordeu os lábios, sentindo os dedos coçarem para tocar cada pedacinho dele demarcado por cicatrizes.
Suas palmas ficaram pressionadas contra o peitoral duro. Impressionada, acariciou, seguindo algumas cicatrizes. Os olhos dele acompanhavam seus movimentos. levantou o tronco, beijando o machucado mais recente, o último machucado, que ela foi a única que se deu ao trabalho de cuidar.
Do machucado próximo do ombro, seguiu uma trilha de beijos até o pescoço...
A porta se abriu com certa fúria, assustando aos dois. parou logo o que estava fazendo, pairando o olhar nos médicos, que adentravam o quarto junto de guardas.
– Não o machuque! – gritou quando dois guardas puxaram o corpo de com certa brutalidade.
não lutou, não queria assustar com seu dom agressivo. Seu objetivo ali não era assustá-la ou machucá-la, mas sim protegê-la de todo aquele mal.
– Senhorita, sabemos o que estamos fazendo! – um dos médicos ditou, acertando um soco no abdômen de , que se curvou.
– Não! – tentou intervir, mas os outros médicos foram mais rápidos, lhe segurando pelos braços. – Deixem-no em paz! – pediu, lutando contra as mãos, que lhe seguravam firme.
O médico não deu ouvidos, continuando a aceitar golpes contra . Ele, até o momento, não reagiu a nenhum dos golpes. Após um soco no rosto, os guardas o largaram, deixando seu corpo caído no chão de lado.
– Por favor... – pediu. – Deixem-no em paz, por favor! – pediu, desesperada. – Ele não fez nada para merecer ser castigado! – gritou, com o começo de algumas lágrimas de raiva.
– Ele estava atacando você, senhorita! – o médico exclamou. – Tire-a daqui! – ordenou e os homens obedeceram.
– Não! – tentou lutar. – Não! ! Por favor... – gritava alto, sendo arrastada à força para o lado de fora.
observou o jeito que lhe carregaram. Achava um desrespeito com uma mulher, mas não poderia fazer nada para impedir.
– Eu esperava tudo de você, Danger, menos isso! – o médico pronunciou, abandonando o quarto e deixando-o com a companhia do sangue e das dores.

*****


Suas pálpebras se abriram e reclamaram assim que encontraram a luz. Respirou fundo, sentindo um imenso gosto azedo na boca. Engoliu sua saliva, tentando se lembrar de como fora parar naquela cama.
– Como ela está? – Dean quis saber, sentado em um caixote.
– Melhor que antes. – a vovó Adams surgiu em seu campo de visão. – Como se sente, querida? – disparou.
– Um pouco estranha. – pousou a mão na testa, encostando suas costas na cabeceira da cama. – O que aconteceu? – perguntou com a voz sem ânimo, sentindo uma pequena dor de cabeça.
– Vou desmaiou e teve um enjoo. – Dean respondeu antes que a vovó pudesse fazê-lo.
– Querida... Preciso que seja forte. – Rosselly segurou a mão da mulher.
– O que houve? – mostrou-se preocupada.
, você está grávida de uma menina. – revelou, sorrindo, observando-a pousar a mão na barriga. – Mas essa é a notícia boa, ainda tem a ruim.
– E qual a ruim? – perguntou logo.
Rosselly encarou Dean, que apenas abaixou a cabeça, retirando o envelope do paletó. Levantou-se do caixote, andando até a cama com os olhos baixos. Não queria encarar depois de saber que ela e estavam se engraçando.
– Sinto muito. – estendeu o envelope, dando as costas e saindo do quarto.
– O pai dela, querida... – segurou o pulso da mulher, suspirando fundo. – O é o pai dela, mas ele não vai saber que terá uma filha.
– Mas por quê? – apertou os dentes, segurando as lágrimas.
– Essas foram as últimas palavras dele antes de partir. – se referiu à carta.
– Ele não... – dominada pelas lágrimas, rasgou o envelope em desespero.

,

Eu não deveria escrever isso, mas preciso me despedir de você. Estou muito fraco e sei que vou morrer dentro de alguns minutos, mas tenho antes um segredo que quero que você saiba e, por favor, faça o que eu vou lhe pedir, vai ser meu último desejo...
Eu não sou a pessoa que você pensa que conhece. Sabe esse lado carinhoso? Esse lado bom? Então, ele nunca existiu, eu mudei por você!
Meu passado está cheio de fantasmas, e até hoje vivo sendo assombrado por eles. Muito antes de te conhecer eu cometi o pior erro da minha vida. Eu servia a uma máfia. Tinha a responsabilidade de servir a um chefe para traficar e matar pessoas que eu sequer conhecia.
Entretanto, em uma dessas tarefas, tive o dever de matar uma família. Se encontrar algum membro do sobrenome, por favor, diga que eu peço desculpas. Eu machuquei muita gente, ver aqueles corpos inocentes no chão sem vida foi o suficiente para me fazer largar a vida dentro do crime.


Desdobrou o resto da carta, tentando segurar as lágrimas, mas não conseguia... Não conseguia acreditar que estava frente às últimas palavras de , lendo o segredo obscuro dele!

Eu deixei aquelas pessoas como se fosse lixo. Machuquei, esquartejei uma a uma. Derramei litros de sangue e deixei a cena do crime apenas quando um homem, jovem, por sinal, chegou à residência. E esse com certeza tinha sido o único da família que sobrou.
Quero que você caso o encontre e peça desculpas em meu nome. Nunca foi minha intenção matá-los...
E para você, , por favor, seja forte e construa uma família sem mim. Tem muitos homens no mundo, espero que, no meio deles, você encontre o certo, aquele que merece seus sentimentos, pois eu... de verdade, não mereço a sua compaixão e muito menos as suas lágrimas!

Não se esqueça de quem você é... Sabe que sempre vai estar no meu coração como uma lição de vida


sorriu pequeno, passando o dedo pelo risco azul que cortou a carta nas últimas palavras. Havia uma mancha da tinta da caneta que tomava conta de um pedaço do papel. Liberou mais lágrimas apenas de imaginar que realmente se fora, sem ao menos ter a chance de assinar sua última carta.
Nunca imaginou que, por trás de um tão carinhoso e bondoso, se escondia um assassino, o assassino que deveria estar no lugar de alguém... Esse alguém!
Dobrou a carta do jeito que tirou do envelope e saiu do quarto, deixando a vovó Adams plantada com a expressão preocupada. Não tinha tempo para explicar, tinha logo que agir!

*****


Fechou a porta do quarto escuro. Recebeu notícia dos guardas que ele estava vazio, por isso o adentrou. Precisava de um tempo sozinha, e depois consertaria as coisas.
Encostou as costas na porta, deixando seu corpo escorregar até tocar o chão. Apertou a carta de , deixando as lágrimas rolarem como nunca rolaram antes. Fungou alto e abraçou seus joelhos.
Ele estava morto!
Nunca mais voltaria a vê-lo. O amor da sua vida estava morto, justo agora que precisava tanto. Carregava uma filha dele. Além de ser um criminoso, sabia que possuía um coração bom, o mesmo admitiu que se redimiu por causa dela.
E isso era o mais bonito, o amor que ele sentia por ela era tão forte que foi capaz de fazê-lo mudar de lado. No entanto, ele machucou muito no passado, e agora cabia a ela consertar o erro, mas como fazer isso?
– Por que está chorando? – a voz dele surgiu no ambiente.
jogou a cabeça para trás, trincando os dentes. Tinha recebido a notícia que aquele quarto estava vazio.
– O que aconteceu? – mostrou-se realmente preocupado, saindo das sombras.
– Eu... – suspirou, abaixando a cabeça. – Eu estou grávida do . – fechou os olhos com força, querendo impedir as lágrimas.
– E isso não é bom? Está esperando um filho do homem que você realmente ama! – pronunciou.
– É uma menina. – revelou, chorando.
– Fico feliz por vocês dois. – disse, e reparou que era mentira.
– Mas ela não vai ter um pai! – gritou, caindo no choro. – acabou de morrer... – disse baixo e engoliu em seco.
Estava de costas para e estava destinado a voltar para as sombras, onde se escondeu por tantos anos. Entretanto, a voz alterada pelo choro foi capaz de fazê-lo se redimir. O choro de penetrava seus ouvidos, gerando um sentimento de angústia.
– E ele... – fungou. – Ele lhe pediu desculpas... – emitiu, e ele se virou para encará-la.
– Desculpas...? – não deu tempo de continuar e lhe estendeu a carta.
– Ele é o responsável por todo o inferno na sua vida. – disse, voltando abraçar os joelhos.
abriu a carta, começando a ler as palavras com atenção. A cada linha que passava, seu sangue fervia. Por culpa do maldito estava preso naquele manicômio!
Encontrou o verdadeiro assassino de sua família, sabia que não era louco ao ponto de matar todos os membros de seu próprio sangue. continuou a chorar quando ele terminou de ler a carta.
Encarou a figura vulnerável à sua frente, sentindo que estava finalmente livre para o mundo. Livre para sorrir, livre para amar...
Caminhou silenciosamente na direção de , ajoelhando-se na sua frente. A mulher levantou a cabeça, encontrando com o olhar brilhante de . Brilhante? Nunca tivera a chance de presenciar aquele brilho tão intenso em olhos que pareciam apenas transmitir ódio e raiva!
Ele sorriu, segurando nos joelhos de , afastando os mesmos. Assim que conseguiu o resultado esperado, levantou a barra da camiseta branca, e apenas curvou o tronco, direcionando a sua cabeça para a barriga da mulher, a qual beijou.
Acariciou a região, direcionando sua atenção para o rosto de , que ainda derramava lágrimas. Sentiu quando a mão dela pousou sobre a sua.
– Agora ela terá um pai! – anunciou, sorrindo e voltando a acariciar a barriga dela.
– Não precisa fazer isso. – pronunciou, ainda com a voz alterada.
– Eu faço isso apenas porque aprendi mexer com os sentimentos, e descobri que te amo! – revelou. – Desde a primeira vez que pisou dentro desse quarto, nunca imaginei que sentiria a necessidade de te proteger. – sorriu, recebendo um sorriso em resposta.
– Por que disseram que o quarto estava vazio? – quis saber.
– Os guardas com certeza pensaram que eu ainda estava na solitária, mas Dean me soltou e disse que conseguiu uma maneira de mostrar que sou inocente. – explicou.
– A carta já é prova o suficiente, matou a sua família e você não é nenhum tipo de doente para estar aqui! – exclamou.
– Felizmente é prova o bastante! – sorriu, acariciando a bochecha de . – Se me deixar, quero construir uma vida com você. Quero cuidar dessa criança, – abaixou o olhar para onde sua mão estava pousada. – Quero ser o pai que seria para ela! – afirmou, e sorriu largo. – Faço isso apenas porque te amo! – encarou os olhos da mulher, olho no olho. Era prova o suficiente para a verdade.
pulou contra ele, fazendo-o cair deitado no chão. Por cima, apenas riu, ajeitando seu cabelo atrás da orelha.
– Eu também te amo! – retribuía o sentimento.
Curvou-se, selando seus lábios em um beijo intenso e cheio de todo o amor que diziam sentir. Se antes tinha o coração congelado, agora o tinha aquecido. E, antes de qualquer coisa, nem precisou perdoar pelo crime. Já estava decidido que assumiria a criança a partir do momento que declarara a morte de ...

(...) Quando dizem que podemos amar pela segunda vez, acreditem, pois nem sempre tudo se baseia no primeiro amor...


Fim



Nota da autora: Oiie leitores amados!!! Tudo bem com vocês?
Espero que sim, olha, aceito críticas e até elogios sobre a minha segunda participação do FICTAPE, sinceramente eu amo o Shawn Mendes e se pudesse me casaria com ele, e logo que vi a única música que sobrou dele, peguei, e corri para escrever. Estava inspirada com a ideia de guerra e depois me surgiu manicômio, pois curto muito essas paradas, mas meu lance é mesmo policial, por isso logo aí embaixo vou deixa o link de todas as minhas fics a maioria sendo policial HAHAHAHA, mas nesse caso decidi fazer diferente e misturei um pouco de guerra com manicômio, é isso, espero que tenham gostado, para eu saber deixem algo falando a sua opinião, a opinião do leitor sendo crítica ou não, vale muito para nós autores ;)

Obs: Caso quiser acompanhar essa história e outras –> Grupodafic

Outras fics minhas:
01. Confident (Finalizada/Shortfic)
Prova do Destino (Finalizada/Shortfic)
Simply Lovers (Em Andamento/Restritas)
Killers Handfuls (Em Andamento/Restritas)
Shoot Me (Em Andamento/Restritas)



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