Capítulo Único

Barcelona, Espanha – 15 de Fevereiro de 2015

O único raio de sol entre as nuvens não era capaz de aquecer nem a palma da minha mão. Entre minha respiração, podia sentir uma leve fumaça gélida sair de minhas narinas. O frio não era intenso para os moradores daqui, porém para mim, um jovem de vinte e cinco anos, acostumado a viver no calor do Arizona, era como se estivesse em um frigorífico. Eu sempre fiz questão de marcar minhas reuniões em épocas do ano onde o sol tomasse todo o céu, mas graças ao Tom, meu amigo e sócio, aqui estou, andando apressadamente nas ruas de Barcelona a procura de algum local para me aquecer e tomar um bom chocolate quente. Avistei uma cafeteria a poucos metros, ali seria o lugar perfeito. Agradeci imensamente a Deus pelo local ficar somente a dez minutos de onde estava hospedado. Uma pequena cafeteria rústica, como se fosse herança de família. Quente, aconchegante, com ótimas cadeiras que faziam me sentir em casa. Poucas pessoas estavam ali. Um casal rindo de algo que assistia no celular, um jovem lendo um dos meus livros favoritos: Harry Potter, e uma senhora lendo um pequeno livro de bolso, que pela distância não deu para ler o título. Sentei-me próximo à janela, apreciando a bela vista e espreitando ao longe o Big Bang. Uma jovem moça ruiva chegou a minha mesa anotando o pedido. Um simples café expresso acompanhado de pequenas rosquinhas. Aproveitei o momento para checar se havia alguma mensagem de Tom, mas por sorte não havia nada.
Um barulho de porta se abrindo foi ouvido e como a curiosidade fala mais alto, não pude deixar de olhar quem adentrara no local. Fui embasbacado pela figura que acabara de entrar.
Cabelos longos e contendo algumas mechas no tom amendoado. Usava uma bota marfim que chegava até a altura dos joelhos, cobrindo parte de sua calça jeans. Nunca entendi aquela moda, era tão estranho ter algo dos pés até o joelho. Um longo casaco cobria seu corpo sem tirar suas silhuetas. Um olhar tão gentil e doce foi de encontro ao meu. Seus lábios rosados, por conta do frio, deram formato a um sorriso. Sim, ela estava vindo em minha direção, assim como minhas lembranças retornaram em minha mente, de um passado que se tornou uma marca em minha vida.

Internato central do Arizona, Estados Unidos – Janeiro de 2004

There’s a boy lost his way
Looking for someone to play


E mais uma vez o inferno começava. Já era o quarto internato que eu estava “hospedado” por conta dos intensos trabalhos dos meus pais. Eles viviam viajando e como não sabiam o próximo destino, resolviam me deixar naquele local. Somente me buscavam no meu aniversário, feriados, fim de ano ou quando eu trocava novamente de internato. Será que realmente era difícil de entender que eu tinha 13 anos e já tinha a sã consciência de cuidar de mim mesmo?
O primeiro dia de aula seria daqui a uma semana. Nesse tempo, a instituição aconselhava – forçava – você a conhecer novas pessoas, novos amiguinhos para ter um relacionamento saudável durante o ano. Sempre tinha aquelas tiazinhas que nunca lembramos o nome ao nosso lado, forçando uma apresentação amigável com outras crianças. Costumava sumir durante as primeiras semanas, só voltava à noite ou nas horas das refeições. Ninguém me agradava. O único amigo que tive ali havia se mudado ano passado. Vivia parte do meu tempo na biblioteca, no jardim ou ficava jogando basquete sozinho. A solidão era minha companhia.
A instituição era composta por quatro prédios. O primeiro, onde se alojavam os meninos. O segundo, as meninas. O terceiro, onde tinham as aulas, e o quarto, onde era a biblioteca. As aulas ocorriam pela manhã. Pela tarde, costumávamos ter atividades extras como natação, futebol, aula de música... Mas outros preferiam ter aquele momento livre.

There’s a girl in the window
Tears rolling down her face


Corria em meio ao forte verde do jardim em direção à quadra de esportes. A ansiedade batia quando se aproximava das três da tarde. Adorava passar aquele tempo jogando basquete sozinho. Mas, ao longe, antes mesmo de chegar lá, através de uma janela, pude a ver. Seus olhos eram regados pelas lágrimas, sua feição estava um pouco inchada, provavelmente havia passado horas chorando. Sua longa franja tapava metade de sua face, seu olhar estava perdido no horizonte. Não sei por quanto tempo a encarei, só sei que foi tempo suficiente para que ela me notasse e percebesse minha observação. Por um momento, nossos olhares se encontraram. Nunca senti tanta vergonha em minha vida. Minhas bochechas começaram a arder e provavelmente já deveriam estar em um vermelho chegado ao morango. Tirei meu olhar rapidamente sobre ela e segui meu caminho em longos passos.

We’re only lost children
Trying to find a friend
Trying to find our way back home


Já havia se passado uma semana. Por ironia do destino, ou não, ela era da minha sala. Não sabia ainda o tom da sua voz, ou as expressões da sua fala. A garota não falava nada, somente anotava. Não sabia o motivo, mas aquilo começou a me intrigar, e muito. Pode soar estranho, mas eu não era acostumado a ver meninas daquela idade em um silêncio tão profundo. Normalmente, nessa idade, elas costumavam falar muito, muito mesmo, sobre bonecas, jogos femininos ou quem sabe de roupas, compras...
E assim seguiu-se durante a semana. Ela no canto, escrevendo algo qualquer no caderno e, como sempre, me intrigando.
Eram três da tarde, como de costume, segui em direção à quadra de basquete. Aquele era meu momento favorito do dia, era a hora onde eu costumava esquecer tudo e só focar no esporte.
Um pouco longe do local, comecei a ouvir uns barulhos de quiques de bola. Estranhei, afinal naquele horário, normalmente, as pessoas não costumam ir ali, preferiam ficar na piscina para amenizar o calor. Apressei meus passos com a curiosidade batendo em minha mente. Quando me aproximei mais da entrada da quadra, percebi uma jovem garota com a bola em mãos tentando acertar a alta cesta de basquete, mas com seu mau jeito, a bola nem chegava a metade. Ri baixo por conta daquela cena. Ela era tão meiga, tão simples. Seu cabelo preso em um rabo de cavalo balançava de um lado para o outro conforme seus movimentos, a franja insistia em cair sobre seus olhos, fazendo a mesma se irritar em certos momento. Ainda estava com o uniforme escolar. Saia azul marinho escura, uma blusa polo branca com a gravata dourada e um broche com o brasão da escola sobre seu peito esquerdo. Parte de mim queria ir lá, oferecer uma ajuda e quem sabe assim puxar um papo para finalmente conhecer o seu tom de voz. Porém a outra parte dizia para dar meia volta e esquecer aquilo, provavelmente ela sairia correndo como se eu fosse um mostro prestes a raptá-la. Ela não tinha cara de que queria fazer amigos, muito menos falar sobre a própria vida. Aos poucos, fui me aproximando como se não quisesse nada.
- Você tem que dobrar mais os seus joelhos. – eu disse mais próximo, enquanto a garota equilibrava o objeto com a mão direita.
- Nunca fui boa com isso. – ela disse quase em um sussurro. Sua voz era tão doce e calma, o que me fez ficar assustado um pouco por ela ter respondido de uma forma amigável.
- Quer ajuda? – perguntei sem jeito.
- Vai deixar seus amigos para ajudar uma garota a jogar basquete? – me surpreendi com sua atitude. Cadê a garota calada que transmitia a não necessidade de fazer amigos?
- Não tenho amigos aqui, mas acho que posso fazer uma, quem sabe. – sorri estendendo uma de minhas mãos até a bola. Com um sorriso no canto dos lábios, ela me entregou, se afastando um pouco. Ok, não posso errar essa jogada, tenho que mostrar o quão bom sou nisso. Cheguei mais perto da cesta, mirando-a bem e fazendo um lance perfeito. Bingo! Sorri vitorioso. – Sua vez. – olhei para trás, indicando o local onde o objeto havia parado.
- Já disse, não sou boa. – ela disse, voltando com a bola em mãos, parando ao meu lado.
- Tenta. Só dobre mais o seu joelho, mire bem no centro da cesta e ponha força. – assentiu com a cabeça e voltou sua atenção para o alvo. Ela respirou fundo, dobrou mais os joelhos, fechou um dos olhos, focando o outro no centro da cesta e dando um arremesso, fazendo com que a bola passasse por toda circunferência do aro e caísse na parte de fora. – Quase. – falei por impulso.
- Ou não. – ela riu baixo, enquanto tentava mais uma vez.
- Com o tempo você aprende. – sorri. Foi neste momento que alguns pensamentos tomaram conta da minha mente. Será que eu deveria perguntar o nome dela? Soaria muito rápido, ou deveria puxar mais papo? E se ela me achar insistente? Ou chato?
- Qual seu nome? – ela perguntou, ainda mirando na cesta. Olhei subitamente para ela, recebendo um semblante questionador.
- . – respondi rápido, coçando a nuca.
- Prazer, . Me chamo . – ela respondeu antes mesmo de eu ter a chance de perguntar. Caminhou em minha direção, com sua mão direita estendida em sinal de cumprimento. Apertei calmamente, sentindo a maciez que era seu toque.
- Você é nova aqui? – perguntei.
- Sim, infelizmente. – seus ombros se curvaram. – Você também?
- Não. Frequento aqui desde os dez anos. – respondi no mesmo tom de insatisfação.
- Como você consegue? Não sente falta da sua família?
- Com o tempo a gente se acostuma a lidar com a saudade. – sorri amarelado. Por mais que aquela conversa não tenha um bom assunto, desejava que ela continuasse por um longo tempo. Desejava descobrir mais sobre ela. – Sua primeira vez em um internato?
- Aham. – foi a única coisa que ela disse antes de voltar sua atenção para a cesta e tentar novamente acertar a bola nela, porém sem sucesso. – Mal cheguei aqui e já sinto falta deles.
- Também sinto falta dos meus, mas infelizmente o trabalho fala mais alto.
- Quem dera que minha estadia aqui fosse por conta do trabalho deles. – ergui uma de minhas sobrancelhas. Em pequenos passos fomos andando em direção à arquibancada. abraçava a bola como uma criança pequena que abraça seu ursinho de pelúcia quando está com medo. Será que ela tinha medo de mim? Sentamo-nos na segunda fileira e começamos a fitar o nada. O silêncio havia se instalado ali e apenas o barulho das árvores era audíveis. – Meus pais estão com problemas financeiros. – tornou a falar em um tom mais baixo do que ouvi quando nos conhecemos. – Vivíamos em uma casa bem pequena. Não havia espaço para mim e minha irmã mais nova. Ou era eu ou a Anne, e com as despesas aumentando, essa decisão tinha que ocorrer logo. Então minha avó resolveu me por aqui por uns tempos, até as coisas se acertarem. – suspirou pesado. – Eu entendo por eles terem escolhido a minha irmã, afinal ela ainda é bebê, mas, sei lá... Sinto como se fosse deixada aqui.
- Eles te amam e vão te agradecer por sua escolha. – falei tentando olhar em seu rosto, que estava afundado na bola. A mesma apertou ainda mais o objeto que se encontrava em seu colo, soluçando um pouco. Ah não, ela vai chorar? Um desespero começou a tomar conta de mim, jamais havia presenciado uma cena como esta. Estávamos apenas nós dois ali, não havia ninguém para consolá-la a não seu eu. Consolar, algo que não sou bom de fazer. Olhei para os lados na esperança de quem alguém aparecesse, mas nada. Nem ao menos uma tiazinha apareceu.
- Pensa, , pensa... – disse a mim mesmo em um sussurro.
O que eles fazem nos filmes quando alguém está chorando? Eles abraçam as pessoas, mas soaria muito íntimo eu abraçá-la, nos conhecemos agora há pouco e já estarei envolvendo-a em meus braços?! E abraçar uma menina não está lá na minha lista de coisas a fazer. Seus soluços pioravam a cada momento, como se seu corpo implorasse por um abraço. Só espero não levar um tapa na cara por isso. Devagar, fui tocando em seus ombros até minhas mãos alcançarem o outro lado. Alisei com cautela seu braço até chegar na metade. ainda não havia feito nada, continuava na mesma posição, lutando contra suas lágrimas que insistiam em cair. A puxei devagar para perto de mim e rapidamente ela encostou sua cabeça em meu peitoral, envolvendo seus braços em minha cintura e liberando por completo aquela dor.
- Não chora. – sussurrava enquanto a abraçava mais ainda. O aroma doce de morango vindo de seus cabelos penetrava em minhas narinas como se fosse um calmante. Fechei os olhos por um momento, apreciando todo aquele frescor. Era muito bom. Voltei a minha realidade quando ela se afastou aos poucos, limpando o rastro que as lágrimas fizera em seu rosto.
- Perdão. – falou sutilmente.
- Não tem... – antes mesmo de terminar minha frase, ela me interrompeu, pondo a mão na boca.
- Ai, meu Deus! – falou desesperada, olhando para minha blusa que se encontrava um pouco molhada. – Eu te molhei. Me desculpa, me desc... – abanava suas mãos perto da minha blusa na tentativa de secar. – Que vergonha a minha. Mal te conheço e já estou te enchendo...
- . – segurei em seus pulsos, fazendo-a parar e olhar em meus olhos. – Calma, está tudo bem. Não tem problema.
- Eu só queria voltar para casa. – suplicou, abaixando a cabeça novamente, pondo suas mãos em seu rosto e apoiando o cotovelo em seus joelhos. Será que ela iria chorar novamente? Não, por favor... Aquela cena já estava partindo meu coração. Entendia toda a sua dor e angústia. Havia sentido isso quando cheguei a este novo mundo e não tive ninguém para me consolar.
- Em breve você estará em casa. O ano passa rápido. – tentei animá-la.
- Não tenho tanta certeza. – suspirou em uma fala abafada.
- Olha, enquanto você não tiver em sua casa, tentarei transformar aqui em seu novo lar. – sorri.
- Como? – devagar, ela levantou sua cabeça, me olhando com uma expressão confusa.
- A gente se vira.

We don't know where to go
So I'll just get lost with you
We'll never fall apart
'Cause we fit together right
We fit together right


Internato central do Arizona, Estados Unidos – Maio de 2006

- O baile dos calouros é pela noite. Não sei se a senhora Collins vai liberar a gente para arrumar a quadra, mas gostaria que falasse com os meninos do futebol para nos ajudar. – disparava a falar, apertando alguns livros contra seu corpo e olhando fixamente em mim, enquanto eu terminava de por o resto do material da aula de álgebra no meu armário. Ela havia se candidatado para o comitê do baile que ocorre a cada duas vezes no ano. O primeiro, agora em Maio, para dar boas-vindas aos novatos e o segundo em outubro. E, como já sabia, a mesma conseguiu entrar para o grupo, fazendo com que meus ouvidos sofressem por vinte e quatro horas, só ouvindo seus comentários de como seria a festa, trajes, bebidas...
- E o que você quer que eu faça, mademoiselle? – fechei meu armário, fixando meus olhos sobre ela, enquanto a ouvia bufar de raiva. Provavelmente ela havia percebido que eu não estava prestando atenção em nada nas últimas horas.
- ! – falou em um alto tom. – Você estava prestando atenção em mim ou na bunda das líderes de torcida?
- Eu estava terminando de guardar o meu material, mas... – expliquei, mas fui interrompido quando outro grupo de líderes de torcida passou perto de nós, chamando minha atenção. Ouvi o pigarro de e voltei a minha posição inicial.
- Não acredito! – ela gritou, balançando sua cabeça negativamente e girando os calcanhares e indo em direção ao lado oposto.
- Ei, , calma. – parei em sua frente, abrindo os braços. – Eu estava, ok? – ajeitei a mochila que caía sobre meus ombros e tomei uma postura firme. – Vou falar com os caras e te aviso. Agora não sei se será possível, porque os jogos estão chegando e...
- ! – uma voz fina, afeminada, a chamou. Logo uma Patsy escandalosa e sem fôlego chegou perto de nós.
- E é isso, senhoras e senhoras, que ocorre quando uma pessoa opta ser sedentária. – falei, recebendo um dedo na cara pela garota. Patsy era do grupo de xadrez, abominava qualquer esporte ou atividade que envolvesse suor. Patricinha, mas ao mesmo tempo nerd. Pelo menos cuidava da aparência.
- Ainda não sei como eu falo contigo. – ela falou, ajeitando seus cabelos castanhos claro em um coque frouxo. – , a diretora liberou dois horários para a arrumação da quadra, porém é necessária uma reunião antes. Ela quer todo o planejamento em um papel. – Patsy também era uma das organizadoras.
- Ah, sim. – a entregou uma pasta cheia de papeis. – Coloquei em uma pasta para ficar mais organizado. Aí tem tudo: comidas, bebidas... E se precisar de algo, é só me avisar.
- Nossa, e eu achando que era a rainha da organização. – elas riram. Ai, que papo mais nerd. – Ah, você não sabe! Adivinhe quem me chamou para ir ao baile?
- Vincent? – perguntou em uma animação e quando viu a amiga afirmar com a cabeça, ambas soltaram gritinhos que me fizeram por alguns minutos perder parte da minha audição. – Finalmente ele tomou vergonha na cara e te chamou, meu Deus, já estava prestes a mandar mensagens anônimas para esse garoto!
- E eu prestes a tomar uma atitude. Bem, vou indo. Qualquer coisa te falo. – Patsy deu alguns passos para trás. – E você. – seu dedo indicador veio em minha direção. – Vê se avisa aos seus coleguinhas de suor que é para tomarem dois banhos antes de ir à festa. – fiz uma rápida continência a vendo sumir no corredor.
- Essa menina ainda vai enlouquecer por causa do suor. – falei, acompanhando até seu armário.
- Que amor vocês, hein?! – começamos a rir, mas logo ela cessou o riso, demonstrando uma feição nada agradável.
- ? O que foi? – me aproximei, vendo-a pegar um envelope e abrir. Enquanto ela lia para si mesma, a curiosidade me consumia. Já estava ficando mais nervoso ainda diante das expressões que ela fazia a cada linha. Rapidamente sua mão foi parar na boca e percebi seus olhos marejarem. Coisa boa que não é. Devagar, ela dobrou o papel e começou a fitar o fundo do seu armário. Ah, quer saber, que se foda. Tomei o papel de suas mãos, percebendo uma caligrafia feia a lápis.
- Meus pais... – ela falou antes mesmo de começar a ler.
- O que têm eles? – a encarei.
- A situação está só piorando. – uma lágrima percorreu toda extensão de sua bochecha. Olhei para os lados para ver se alguém estava percebendo toda aquela situação. Sorte que a maioria já tinha ido para seus dormitórios. – Terei que ficar aqui por mais um tempo. – meu coração se alegrou, mas ao mesmo tempo senti um leve aperto. Ela ainda sentia falta de casa, de como sua vida era antes. Vivia contando os dias para saber quando finalmente receberia a carta de sua vó, avisando que aqueles dias de “sofrimento” acabariam. O fato é que depois que ela entrou no internato, ela perdeu muita a comunicação com seus pais. Só os via poucas vezes. A situação em sua casa só piorava, eles mais trabalhavam do que ficavam em casa. Só sabia um pouco de sua irmã, que, agora com três anos, morava com a avó. Eu não queria que ela fosse. Tentava distanciar a todo custo o dia em que ela partiria, o dia em que nos formaríamos e provavelmente nosso contato não existiria mais. Ela era a única amiga que tinha aqui. Eu poderia até ser da equipe de futebol, ou conhecer algumas pessoas daquele local, porém nada se comparava a ela.
- Ei, calma. Sua avó está tentando resolver as coisas.
- Como você sabe? – já era possível ouvir seu tom de choro.
- Se ela não tivesse tentando, não mandaria uma carta explicando o que está ocorrendo. Ela simplesmente te deixaria sem nenhuma notícia e só entraria em contato com você quando estivesse formada.
- Meus pais não me amam, não me querem com eles. – rapidamente senti seus braços envolvendo meu pescoço e sua cabeça depositada em meus ombros. Comecei a acariciar levemente seus cabelos com aroma de morango.
- Claro que amam. Só estão passando por uma fase complicada. Se eles não te amassem, não pediriam a sua vó para te por em uma escola de confiança. Eles só querem que você fique longe dessa situação.
- Mas isso só faz me aproximar mais! – odiava aconselhar alguém. Nunca sabia o que falar, e quando algo vinha em mente, o medo me questionava se era algo certo a se fazer.
- Olha, estamos no mesmo barco. Nossos pais nos deixaram aqui por conta do trabalho, mas eles se preocupam conosco. – calmamente ela se afastou e me encarou com aqueles pares de olhos castanhos. Enxuguei uma lágrima que caía sobre sua bochecha e tornei a falar. – Ainda vou fazer você se sentir em casa aqui. Basta só confiar em mim, tudo bem? – ela assentiu e sorri. Um bip foi ouvido e uma mensagem apareceu na tela do seu celular.
- Desculpa, é o Brian, tenho que ir. – senti seus lábios depositarem um beijo em minha bochecha e a perdi de vista em meio ao longo corredor. Um longo suspiro foi tudo o que dei, seguindo meu caminho de volta para meu dormitório.

These dark clouds over me
Rained down then rolled away
We'll never fall apart
'Cause we fit together like
Two pieces of a broken heart



Internato central do Arizona, Estados Unidos – Agosto de 2007

A pior parte de uma noite é quando se tem insônia. Ver as pessoas descansando seus corpos e sua mente enquanto você vaga por um local desconhecido é de dar inveja. Ainda não tinha ideia do que estava fazendo lá fora. A noite fria, com nuvens tomando todo o céu, dando indícios de que uma forte chuva cairia a qualquer momento. O calor que meu moletom fizera não estava funcionando mais. Abracei meu próprio corpo na tentativa de me aquecer mais. Tantos anos se passaram e por incrível que pareça aquele era o único internato que eu havia ficado por mais tempo. Meus pais nem estavam trabalhando muito, porém entre conversas e acertos, decidiram que o melhor seria eu concluir meu ensino aqui. Por parte era bom, teria mais tempo para passar com a , mesmo que parte do seu tempo tenha que ser dividido entre mim e o Brian. Apostei firmemente de que esse namoro não iria para frente, mas fui enganado.
Vaguei por mais alguns metros em meio ao parque na intenção de voltar logo para meu dormitório e curtir a insônia com meu fone de ouvido, mas meu caminho foi interrompido e me vi parado ao seu lado. estava sentada na grama, olhando o vasto lago iluminado pela lua, abraçando seus joelhos.
- Sem sono? – sentei ao seu lado.
- Não, pesadelos. – ela disse em um baixo tom. – E você?
- Insônia.
- Isso que dá tomar tanto café. – meu vício era café. Pode ser a hora que for, mas tudo fica perfeito com uma dose de cafeína, sempre invadia a sala dos professores para pegar um copo do líquido. sempre alegava que aquilo era uma droga para mim e que em breve alguém me pegaria em flagra por furtar café.
- Preciso de tratamento. – ela riu. Encarei o vasto lago, ouvindo somente o barulho das folhas das árvores.
- Recebi uma ligação dos meus pais. – falei sem encará-la.
- Notícia boa ou ruim?
- Não sei. Normalmente eles mandam e-mails. Foi estranho conversar com eles assim. É como se a saudade da vida que nunca tive tivesse aumentado.
- Como foi para você passar tanto tempo da sua vida longe deles?
- Não sei. – suspirei. – Me sinto como um prisioneiro que tem que cumprir sua pena sem ao menos saber qual crime cometeu.
- Me sinto assim também. – a encarei por alguns segundos. Seu olhar se perdia em meio a paisagem escura. Era como se o corpo dela estivesse aqui, mas sua mente estivesse longe. – A única coisa boa que me ocorreu aqui foi conhecer você. – um sorriso no canto de minha boca se formou. Me sentia um bobo apaixonado. E era o que eu estava. Apaixonado. Ouvir aquelas palavras só aumentou mais o ritmo do meu coração, a vontade de protegê-la a qualquer custo, tirar esta dor que tanto sente, mas algo me fez rapidamente desmanchar o sorriso. Brian.
Ela não gostava de mim do mesmo modo que gostava dele. Ela deveria me ver como um irmão, ou um melhor amigo. Ela tinha outro na vida dela, outro que já ocupou o espaço de amor da atração, e agora só me restava o lado da amizade.
- Agradeço todos os dias por você não saber jogar basquete. – nossos olhares ainda estavam sobre o lago, mas, de relance, percebi um leve sorriso em sua face. – Não me vejo sem você. – meu coração acelerou. Merda, merda, merda. Mania de pensar alto. Olhei para meu lado, imaginando encontrar um semblante surpreso, mas ao mesmo tempo frustrado e confuso. Ela sairia correndo e nunca mais olharia em minha cara. Maldito seja quando nos apaixonamos e não temos consciência das nossas atitudes. Demorou anos para finalmente eu aceitar o fato de que realmente estava gostando dela, e deixo tudo ir por água abaixo por conta de uma frase! Mas ao contrário dos meus pensamentos, estava mais calma do que nunca. Devagar, senti sua aproximação e meu coração disparar novamente. Ela fitava meus lábios, assim como eu fitava os dela. Sua doce mão veio parar em meu rosto, fazendo leves carinhos com os dedos, enquanto eu me perdia no seu beijo suave.


I know where we could go
And never feel let down again
We could build sandcastles
I'll be the queen, you'll be my king


- Gostaria de viver assim para sempre. – seu corpo estava apoiado sobre o meu enquanto estávamos sentados na grama próxima ao lago. Havia completado dois meses após o nosso primeiro beijo. Desse dia em diante muitas coisas ocorreram, ela havia terminado com Brian uma semana depois. É claro que pulei de felicidade e finalmente poderia ser eu mesmo com ela, dando o melhor amor e carinho que ela poderia ter. Recebemos uma boa notícia quando soubemos que seu pai havia conseguido um emprego melhor, porém acabava sendo uma das piores já que tinha chances dela sair de vez de lá.
- Podemos viver assim. – brinquei.
- Como? Você sabe que não ficaremos muito tempo juntos...
- Pare de ser tão pessimista. – retruquei.
- Não estou sendo pessimista, e sim realista. – desencostou-se de mim e começou a me encarar. – Você sabe que isso tudo vai durar até um certo tempo. Não somos vizinhos, ou moramos na mesma cidade.
- Namoro à distância?
- Não é a mesma coisa. – ela abaixou seu olhar. – Acho que deveríamos, sei lá, repensar em algumas coisas para ambos não saírmos magoados dessa história.
- Ainda temos muito tempo para pensar nisso, vamos só curtir o momento, tudo bem?
- Tudo... – a puxei para um abraço. Ultimamente ela tem comentado muito sobre terminar, nos afastar, voltar ao tempo que éramos amigos... Mas eu não queria isso, não agora quando estávamos totalmente bem e felizes com nosso relacionamento.
- Quero tanto proteger você. Se pudesse, te levaria a um lugar totalmente livre do sofrimento. Seríamos felizes lá, a beira de uma praia, construindo castelos de areia. – sussurrei em seus ouvidos, enquanto seu rosto ainda permanecia ao lado do meu.
- Eu seria sua rainha e você meu rei. – ela sussurrou de volta, me dando um longo selinho.
- Nossa, que momento mais Disney da vida. Poderíamos agora dar as mãos e sair cantarolando feito um musical? – falei, tirando dela a mais bela risada contagiante. Estávamos rindo feito dois retardados perto de um lago, aproveitando a sombra de uma das árvores. Não demorou muito para sentirmos os efeitos terríveis da grama. Coceira e mais coceira. Nos levantamos e fomos em direção a biblioteca. O vento fazia seu cabelo voar feito uma leve pena, como queria que meus olhos tivessem o poder de fotografar, daria uma bela imagem. Com meu pensamento longe, mal percebi quando a diretora se aproximou de nós. Sua feição não era uma das melhores, logo tive a hipótese de que haviam descoberto nossas fugas das aulas de educação física. Ótimo, mais uma detenção.
- Senhorita ? Poderia me acompanhar até minha sala? – ela disse sem mais delongas. Preferi não ir por achar que o assunto seria muito particular.
Horas depois encontrei com na mesma arquibancada em que tivemos a nossa longa conversa. Ela segurava um papel com força e seus olhos jorravam lágrimas. Ai, meu Deus, o que deve ter ocorrido? Corri em sua direção, assim que me viu, ela se levantou e me deu um abraço bem apertado, e seu choro logo piorou. Acariciei seus cabelos por uns segundos, tentando levantar seu rosto em minha direção, mas ela preferia mantê-los em meu peitoral.
- ... – mal tive tempo de falar, quando ela finalmente se pronunciou com uma voz abafada.
- Achei que quando esse dia chegasse, sentiria a maior alegria da minha vida, mas estou sentindo como se fosse a pior. – parei de acariciá-la. Tinha em mente o que seria, mas estava torcendo para que minhas hipóteses estivessem totalmente erradas.
- Você...
- Eu vou embora amanhã.

Now I can lay my head down and fall asleep
Oh, but I don't have to fall asleep to see my dreams
'Cause you're right there in front of me
(Right there in front of me)


Depois daquele dia, nunca mais havia entrado em contato com a menina dos cabelos de morango. Só Deus sabe o quanto meu coração se partiu naquele último ano, quando soube que jamais ouviria aquela voz doce e serena, ou nunca mais veria suas falhas tentativas de acertar uma cesta. Foi um dos piores anos da minha vida. Fiz planos para nos formamos juntos e logo após fazer uma viagem inesquecível, porém nem o telefone ela deixou. foi a causadora dos meus repentinos pesadelos, porém a culpada dos meus belos sonhos. Eram neles que eu matava a saudade, quando ela aparecia e sua voz ecoava por toda minha mente.
Meu maior pesadelo não se encontrava quando eu dormia, e sim quando acordava e percebia que ela não estava ali, me fazendo rir, contando histórias malucas, ou me chamando tarde da noite para que lhe ensinasse um pouco de basquete. Era impossível esquecê-la.
E agora ela estava ali, vindo em minha direção, fazendo meu coração palpitar a uma velocidade desconhecida, assim como ela fazia quando éramos mais novos. A saudade que eu tinha desse sentimento, dessa sensação, nem se comparava ao que eu tinha dela. Fiquei surpreso por sua mente ainda me reconhecer, afinal, qualquer um poderia esquecer aquele velho amor de infância.
Será que sua voz continuava a mesma? Será que suas ideias haviam mudado? O que a levou para longe de mim? Provavelmente o emprego do seu pai teve um bom resultado.
Com algo em mãos, que supus ser uma bola de papel amassada, ela rumou para uma lixeira que se encontrava próxima de nós, digo, tentou, pois a bolinha foi direto para o chão.
- Você tem que dobrar mais os seus joelhos. – falei, apoiando meus cotovelos na mesa.
- Nunca fui boa com isso. – ela disse, dando um breve sorriso e sentando-se em minha frente, com o mesmo aroma de morango que jamais esqueci.




Fim.



Nota da autora: Nhoo, nhoo, essa foi a história mais curta, porém mais armorzinha que eu já escrevi (ao meu ver). Essa é uma das músicas que mais me encantam no CD e tive tantas ideias para ela que acabei optando por essa. Sei lá, me conquistou de um jeito e espero que tenha conquistado vocês também <3
Não sou muito boa com palavras em notas (sorry), mas espero de coração que tenham gostado e se puderem deixem um comentário, amo saber o que vocês acharam, se devo mudar algo...
Ah, e quero agradecer também a Berrie pela fofosa capa <3
Não deixem de conferir também minhas outras histórias, espero vocês lá!
Beijooocas,
xoxo Mandie.





Outras Fanfics:


Outras histórias: American Boy {Outros, Em Andamento}
Game Of Fame {Outros, Finalizada}
Rota 66 {Outros, Shortfic}
01. Heart Attack {Ficstape DEMI, Demi Lovato}
03. All Over Again {Ficstape Elevate, Big Time Rush}
05. Love Bug - continuação de 05. Two Pieces {Ficstape A Little Bit Longer, Jonas Brothers}
05. Run Wild {Ficstape 24/Seven, Big Time Rush}
06. My Dilemma {Ficstape For You, Selena Gomez}
08. Happily {Ficstape Midnight Memories, One Direction}
08. Fifteen {Ficstape Fearless, Taylor Swift}
10. Give Your Heart A Break {Ficstape Unbroken, Demi Lovato}
14. Lost In Love {Ficstape 24/Seven, Big Time Rush}
15. Ours {Ficstape Speak Now, Taylor Swift}


Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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