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Finalizada em: 20/12/2019

Capítulo Único


15 de dezembro de 2019; 11:39 p.m.; Newark, Nova Jersey.

You used to be the one I love
(Você costumava ser a pessoa que eu amava)
Yeah, you used to be the one I love
(Sim, você costumava ser a pessoa que eu amava)


— Lembra de quando faltamos a aula de biologia do Sr. Anderson para fumar no auditório? — Greg cutucava meu ombro sem parar, mesmo eu sendo a pessoa que menos estava interagindo na roda de conversa.
— Sinceramente, não lembro de não faltarmos a uma aula do Sr. Anderson. — Logan riu enquanto apagava seu oitavo cigarro mentolado no cinzeiro recheado. — Como foi que passamos em biologia? Não lembro de uma aula sequer.
— Com as colas do , claro. — Greg me cutucava novamente e minha cabeça começava a dar indícios do começo de uma enxaqueca.
— Filho da mãe inteligente. — Austin disse entredentes. — Estudava muito menos que a gente.
Greg soltou uma gargalhada e continuou a me cutucar, dessa vez mais forte, como se precisasse que eu sentisse que estavam falando de mim, apesar de eu ouvir muito bem meu nome ser mencionado a cada cinco minutos.
— É verdade! — mais risos e mais cutuques. — sempre foi inteligente sem nem tentar.
Fingi um sorriso para não parecer esnobe, e para que Greg finalmente percebesse que, sim, eu estava escutando tudo.
está aqui. — Logan soltou depois de um silêncio. — Já viu ela? — dessa vez a pergunta havia sido direcionada diretamente para mim e eu não tinha como escapar de responder.
— Não vi. — respondi simplesmente, acendendo um cigarro e rezando mentalmente para que não prolongassem esse assunto.
A mesa ficou em silêncio por mais algum tempo. Acho que todos esperavam uma resposta mais elaborada, talvez até algumas lágrimas se eu tivesse bebido alguns copos a mais de conhaque. Greg soltou uma risada depois de alguns segundos, provavelmente incomodado com o silêncio.
— Ela tá… diferente. — ele disse, me cutucando, e eu tive vontade de apagar meu cigarro na sua mão. — Nem falou com a gente.
— Fale por si. — Logan sorriu, confiante, procurando algo no bolso interno da jaqueta de couro que usava. — Ela me passou o número novo dela. — ele riu, balançando um papelzinho amassado, e eu soltei uma baforada de fumaça, desconfortável com o assunto. — Me disse pra ligar pra ela qualquer dia desses. — sorriu, mexendo nos cabelos, e olhou para mim de repente. — Você não se importa, não é, ? — todos olharam para mim, esperando alguma resposta.
Sorri de lado, dando uma última tragada no cigarro e passando-o para Austin, que estava ao meu lado.
— Por que me importaria?
Pedi licença com a desculpa de procurar um banheiro. A verdade é que, apesar de ter vindo a essa confraternização apenas por causa dela — embora eu nunca fosse admitir isso em voz alta e muito menos para mim mesmo —, me sentia totalmente desconfortável ao ouvir seu nome. Não eram ciúmes, longe disso. Ela não era minha e nunca tinha sido, afinal. Lembrar dela, porém, fazia com que alguma parte de meu cérebro travasse e meu estômago desse algumas voltas a mais do que o saudável. O cheiro enjoativo dos cigarros mentolados de Logan e o barulho agudo da risada nasalada de Austin também não estavam ajudando, e a última coisa que tinha vontade de fazer no momento era interagir com algum deles.
Não tinha vontade nenhuma de fingir estar procurando por um banheiro também. Aliás, eu sabia muito bem o que estava fingindo não procurar. Entre os rostos mais ou menos conhecidos que eu não via há cerca de quatro anos, meus olhos procuravam na noite de uma sexta-feira de dezembro pelo par de olhos que, infelizmente, eu sabia que nunca conseguiria esquecer.
De repente ficou claro o motivo de eu ter ficado tanto tempo sentado com os idiotas que chamei de amigos por algum tempo da minha vida no canto mais escuro do bar. Eu simplesmente não tinha coragem de ouvir a voz que já começava a ouvir a alguns metros, ou sentir o perfume que eu sabia que não tinha mudado.
Eu sabia que tinha vindo a uma reunião idiota de Ensino Médio, interagir com pessoas que eu odiava, só para ver ela, mas, como toda vez que a via, me perguntava o porquê de ainda me submeter a esse tipo de coisa.

11 de dezembro de 2015; 11:46 p.m.; Newark, Nova Jersey.

Cold feet turned into cold weather
(Pés frios se transformaram em um clima frio)
We had love, now it don't matter
(Nós tínhamos amor, mas agora isso não importa)


Ainda conseguia ouvir as risadas dos nossos amigos do lado de dentro do salão de festas, o que deixava minhas bochechas coradas de vergonha, quase da cor do vestido que ela usava. Ela parecia não se importar com isso e ria junto, segurando minha mão tão forte que eu quase conseguia esquecer o frio que congelava todo o meu corpo desprotegido. Ela continuava me guiando para mais longe e todas as risadas e conversas iam ficando mais espaçadas. Ela se virou para mim quando não podíamos ouvir mais nada a não ser as vibrações baixas da música que tocava na nossa festa de formatura. Sua mão esquerda ainda estava entrelaçada na minha, ela tinha me puxado desde a saída do salão até aonde estávamos agora, num gramado que não parecia ter sido projetado para ser bonito pela noite.
— Tá tão frio. — ela riu e eu reparei nas suas pernas descobertas. Ela tinha sido a única menina da nossa turma a ir de vestido curto.
— Eu disse pra pegarmos os casacos antes, . — falei, preocupado. — Você nunca me escuta.
— E qual seria a graça então, ? — ela perguntou enquanto brincava com os dedos da mão que ainda estava entrelaçada à sua. — Anda, me oferece seu paletó.
Ri enquanto me desvencilhava de sua mão para tirar o paletó.
— Não vomite nele, é alugado. — coloquei seu cabelo para o lado para que pudesse cobrir seus ombros.
Ela riu e balbuciou alguma coisa que eu não consegui ouvir. Minhas mãos não conseguiam sair de perto dela, por isso estavam ora pousadas em seu ombro, ora mexendo nos seus cabelos. Meus olhos, então, já não saíam do rosto dela há um tempo.
— O que vamos fazer agora? — perguntei, tirando os olhos dela para observar as luzes que vinham da festa. — Acabou.
— Graças a Deus. — ela riu. — Não aguentava mais um segundo.
Eu também tentei rir, mas meu pensamento estava em outro lugar. Ela sentou no gramado, puxando minha mão para que eu sentasse junto a ela.
— O que vai acontecer com a gente, ? — perguntei, preocupado, encarando seus olhos escuros. — Você sabe, eu vou pra Nova York e…
— A gente pode pensar nisso depois? — ela perguntou, sentando no meu colo e enrolando os braços no meu pescoço. — Você pensa demais, . — ela riu e me beijou.


15 de dezembro de 2019; 11:45 p.m.; Newark, Nova Jersey.

Say you wanna talk, how-have-you-beens
(Você diz que quer conversar, como-você-anda)
I'm the only one you know that'll listen
(Eu sou o único que você sabe que vai te escutar)
And you used to be the one I love
(E você costumava ser a pessoa que eu amava)


. — ela falou assim que me viu, embora eu estivesse de costas fingindo estar interessado em um quadro que enfeitava as paredes do bar.
Seu perfume entrava pelas minhas narinas e eu queria vomitar. Eu simplesmente preferiria sumir a ter que lidar com os saltos que meu coração estava dando dentro do meu peito, embora eu que tivesse escolhido estar aqui, sabendo que ia a encontrar. A sensação de não ter controle sobre mim mesmo me apavorava, mas não conseguia não vê-la por muito tempo. Ainda não.
Virei-me, fingindo uma surpresa que eu sabia que ela não compraria, e vi a mulher mais linda do mundo, com uma blusa cinza de gola alta e uma sombra escura que ressaltava o escuro de seus olhos.
— Oi, . — sorri, vendo suas sobrancelhas se arquearem.
— Quando foi a última vez? — ela perguntou, risonha. — Parece que não te vejo há séculos. — disse, se aproximando e fazendo um carinho no meu braço.
— Aniversário do Mark. Foi em agosto. — respondi meio seco. Sua cabeça estava agora logo abaixo do meu nariz e o seu cheiro fazia algo na minha mente travar.
— Claro, foi mesmo. — ela respondeu, a mão ainda pousada no meu braço esquerdo, enquanto a outra levava uma caneca de cerveja à boca. — Me conta como você tá! Vamos conversar!
Sua mão desceu para minha mão, esquentando toda a extensão do meu braço como se fosse fogo. Ela apertou minha mão gelada antes de entrelaçar sem muita dificuldade nossos dedos.
— Eu to bem, . — respondi simplesmente e ela sorriu sem graça.
— Tá bebendo? — perguntou depois de um silêncio, sorrindo, e minha cabeça começou a latejar com seu sorriso.
— Já passei da minha cota por hoje. — disse, me referindo não apenas à bebida.

Lately I don't even know ya
(Ultimamente, eu nem te reconheço mais)
Too many devils on your shoulder
(Há muitos demônios em seu ombro)


Ela pareceu não escutar, pois puxou minha mão e consequentemente todo o meu corpo em direção à bancada onde as bebidas estavam sendo servidas. Ela sentou em um banco alto de madeira, depositando sua caneca de cerveja no balcão e levando sua mão direita, agora livre, à minha outra mão. Fogo. Minha cabeça parecia rodar enquanto ela brincava com os meus dedos. Me dirigi ao bartender e pedi uma dose de whisky enquanto tentava respirar normalmente. Ela sorriu e eu jurei conseguir ver alguns demônios pousados em seus ombros, entre seus cabelos esvoaçantes e iluminando ainda mais seu sorriso.
— Acredita que ouvi Oasis semana passada e lembrei de você? — ela comentou assim que o copo de whisky bateu na madeira do balcão. — Como era mesmo a nossa música? — ela espremeu os olhos e mordeu o lábio inferior, como se isso fosse ajudá-la a lembrar de algo e não apenas torná-la extremamente atraente.
Revirei os olhos imperceptivelmente e respirei fundo. Ela não teria o que queria hoje.
Songbird. — respondi e ela balançou a cabeça afirmativamente, rindo.
— Isso! — apertou minhas mãos e só então percebi que ela ainda segurava as duas. Me desvincilhei delas para virar em um gole a bebida que esperava por mim na bancada. O whisky queimava menos que o toque e os olhares dela. Ela quebrou o sorriso e olhou para o lado, brincando com um porta-copos esquecido no balcão. — Ainda lembra como tocá-la?

20 de julho de 2015; 5:03 p.m.; Newark, Nova Jersey.
— Toca de novo, por favor. — ela me pediu, com as mãos apertando minhas bochechas, antes de me dar um selinho.
— Já toquei duas vezes, . — respondi, tentando conciliar ela e o violão no colo.
— Você fica tão lindo tocando essa música. — ela disse com os braços agora em volta do meu pescoço.
— Só mais uma vez. — disse, segurando o violão com a mão esquerda e fazendo ela deitar na cama, ficando sobre ela e a beijando antes de levantar e recomeçar
Songbird, do Oasis. — Gonna write a song so she can see, give her all the love she gives to me, talk of better days that have yet to come, never felt this love from anyone. (Vou escrever uma música pra que ela consiga ver, vou dar a ela todo o amor que ela me dá, falar sobre dias melhores que ainda virão, nunca senti esse amor de qualquer outra pessoa.)

14 de outubro de 2017; 9:42 a.m.; Newark, Nova Jersey.

We had love, now it don't matter
(Nós tínhamos amor, mas agora isso não importa)
You just thought you could do better
(Você apenas pensou que poderia fazer melhor)


— Isso não tá funcionando. — eu disse olhando no fundo dos olhos dela. Seu rosto ainda estava vermelho por causa briga que tínhamos acabado de ter. — Isso não vai funcionar nunca. — apontei para nós dois.
— Tudo tava funcionando muito bem antes de você se mudar para a fodida Nova York. — ela gritou, ainda estressada, mas eu estava cansado.
— Isso, , pode jogar toda a culpa de um relacionamento merda em mim. — respondi, calmo. Queria que aquilo terminasse logo. — Você não aguenta a pressão, não é? Seu temperamento é “forte demais”. — fiz aspas com os dedos. — Olha, quer saber, , foda-se o seu temperamento forte que tive de engolir por tanto tempo só por ser perdidamente apaixonado por você. — ela arqueou as sobrancelhas. — Sim, alguém tinha que te dizer isso, , o mundo não gira à sua volta. Existem outras pessoas além de você, sabia? Pessoas que você machuca com seu jeito de fingir não ligar pra nada.
Ela balançava a cabeça várias vezes, incrédula, como se eu, o cachorrinho encoleirado que estava sempre disposto a atender seus pedidos, fosse a última pessoa de quem ela esperasse ouvir isso. Seu olhar ainda era de raiva, suas bochechas estavam vermelhas e suas mãos seguravam com força a cadeira que estava à sua frente.
— Não, . — ela repetia. — Eu tentei. Eu queria que isso desse certo. Mas, , você… Eu não podia ficar aqui, simplesmente parada, recebendo seus telefonemas de boa noite.
— Você sabia desde sempre que eu ia para Nova York, . — eu tentei rir, mas estava nervoso e sentia meus olhos começarem a arder. — Eu nunca te escondi nada. Nada. E sempre que venho te visitar tenho que conviver com suas mentiras e grosserias.
— Eu posso fazer melhor que isso, . — ela afirmou, brava, olhando para mim de cima abaixo, e eu entendi que o “isso” era eu. — Aliás, eu quero algo melhor do que isso. — apontou para nós dois e depois levou as mãos ao rosto vermelho.
O silêncio se instaurou por um tempo. No fundo, eu sempre soube que era grande demais para tudo isso. Para a nossa escola, para essa cidade, e para mim. Sempre soube que tinha que dar meu máximo para agradar um pouco a ela, e lutava por isso diariamente, porque, mesmo sabendo no fundo que um dia ela iria se cansar de mim, esperava adiar isso ao máximo. Ouvindo as palavras que saíam da sua boca nesse dia, sabia que ela não seria totalmente feliz até que pudesse fazer melhor. O que significava conseguir alguém melhor que eu também.
— Infelizmente, isso é tudo o que eu tenho pra te oferecer, . — respondi, tentando segurar ao máximo as lágrimas que queriam sair pelos meus olhos. — Eu te dei tudo que eu podia. — comecei a bater o pé esquerdo no chão para aliviar a tensão que eu estava sentindo e evitar que as lágrimas caíssem. — Podíamos ter tido essa conversa antes. Você não precisava ter feito aquilo…
— Foi só uma vez, . — ela respondeu, sem olhar diretamente nos meus olhos.
Eu abaixei a cabeça, sentindo meu rosto esquentar. Por uma vez só, segundo ela, ela tinha ficado com um dos meus melhores amigos enquanto eu estava em Nova York, morando no porão alugado de um restaurante chinês, respirando rolinhos primavera enquanto sonhava em respirar de novo seu perfume. Por uma noite só, ela tinha dormido com ele. Na mesma noite em que a liguei de madrugada chorando porque tinha recebido mais um não de mais uma gravadora e precisava que sua voz me acalmasse. Por uma ligação só, recebi um “também te amo” falso. E por mais de uma vez tive que receber ligações ou avisos de outras pessoas tentando me dizer que eu talvez estivesse sendo traído ou enganado. Por mais de uma vez chamei essas pessoas de loucas, pessoas que não conheciam nosso relacionamento, não sabiam como a gente funcionava. Para mim eles estavam contando mentiras ou aumentando casos só para nos separar. E eu estava preparado para ouvir coisas do tipo quando me mudei, mas tinha certeza absoluta que nunca íamos nos separar, porque meu amor por ela era tão grande que valia por nós dois. Eu não estava preparado, porém, para receber um telefonema de Ethan, um dos meus melhores amigos da época, envergonhado e tentando se explicar, pedindo desculpas para mim por ter dormido com ela.
Senti lágrimas mornas finalmente esfriarem minhas bochechas quentes e mantive o rosto baixo.
— É, só uma vez. — balbuciei e funguei o nariz, virando de costas para ela e encarando a pia da cozinha do nosso apartamento em Newark.
O pior de tudo, o que me deixava com mais raiva, era eu ter vindo para Nova Jersey tentar resolver tudo. Tá, tudo bem, ela dormiu com meu melhor amigo, mas, calma, talvez tivesse alguma explicação. No fundo, eu queria mais que tudo ouvir uma explicação. Queria ver, no fundo dos olhos dela, a íris daquela menina por quem havia me apaixonado no Ensino Médio, queria sentir de novo aquela paixão vindo dela para tentar me convencer de que eu não era um completo idiota por estar alimentando sozinho um amor que já tinha se esgotado há muito tempo. Queria ouvir um “me desculpe”, ou talvez nem tanto, só um abraço dela me sustentaria e eu voltaria a carregar essa paixão — que já estava me rasgando o peito — de maneira confiante de novo. Foda-se o que os outros pensassem.
Mas, ao invés disso, fui recebido na porta do nosso apartamento por uma fria, que não queria conversar, muito menos consertar alguma coisa, e continuava a jogar a culpa em mim por diversos aspectos do nosso relacionamento — que eu percebi, como um balde de água fria, não ser tão perfeito assim. Também percebi que eu estava vendo essa já há algum tempo, e meu subconsciente de alguma forma a transformava sempre na que eu amava e sempre irei amar, e descontava todos os maus que ela me fazia, sempre amenizando seus cortes duros no meu coração. Eu já estava cheio de cicatrizes e nem ao menos havia percebido.
A man can never dream these kinds of things, especially when she came and spread her wings. Whispered in my ear the things I'd like, then she flew away into the night. (Um homem nunca pode sonhar com esse tipo de coisa, especialmente quando ela chega e bate suas asas. Sussurrou no meu ouvido as coisas que eu gostaria de ouvir, e então voou noite adentro.) — balbuciei, mais para mim mesmo do que para ela, a letra de Songbird, que costumava ser a nossa música, e de repente tudo fez sentido. Nosso amor tinha acabado e eu estava alimentando o nada.
— O que disse? — ela perguntou, confusa.
Virei-me para ela e consegui ver seu semblante: calmo e lindo. Mas parece que finalmente eu conseguia ver a que estava na minha frente agora. E eu não a conhecia mais há algum tempo. Ela provavelmente também não me conhecia mais, e não fazia esforço para conhecer. Estávamos cansados.


Baby, if it's what you want
(Querida, se é isso que você quer)
I just wanna see you happy
(Eu só quero te ver feliz)


— Nada. — respondi, sorrindo. — Só quero que você seja feliz.

16 de dezembro de 2019; 1:02 a.m.; Newark, Nova Jersey.

Spending all your time with your new friends
(Passando todo o seu tempo com seus novos amigos)
And you take 'em all the places now that we been
(E você os leva a todos os lugares que estivemos)
But you used to be the one I love
(Mas você costumava ser a pessoa que eu amava)


Engoli minha quarta dose de whisky e o conhaque que havia tomado no começo da noite começava a voltar com pontadas na minha cabeça. O bar estava menos cheio, muitos ex-colegas nossos já tinham filhos e precisavam estar em casa cedo. Ela não. Ela continuava à minha frente no mesmo banco de madeira há quase duas horas. E algo no seu semblante me hipnotizava e me fazia continuar sentado no banco de madeira à sua frente, escutando sobre sua vida e respondendo o mínimo possível a perguntas do tipo “Como anda o sonho?” e “Já voltou de Nova York?”, mesmo ela sabendo exatamente a resposta para cada uma dessas perguntas.
Sim, eu já havia voltado de Nova York há nove meses, e sempre nos encontrávamos em eventos onde ela fazia as mesmas perguntas. Também sempre a via em lugares que costumávamos ir, como a casa de shows da rua principal e loja de discos perto da casa dos pais dela. Ela sempre me acenava de longe e eu nunca conhecia nenhum dos amigos com quem ela andava mais. Parece que, às vezes, as histórias de amor terminavam desse jeito.
Sobre meu sonho, não foi do jeito que eu queria. Consegui gravar uma demo depois de muito esforço, mas não consegui me sustentar em Nova York com o salário de meio expediente de atendente em uma loja de departamentos e os poucos centavos que minha música me rendia semanalmente. Tive que voltar para Newark e me sentia satisfeito dando aula de música às crianças da escola municipal e tocando em alguns pubs à noite. A maioria dos sonhos adolescentes terminavam dessa forma.
— Então… — ela suspirou, dando um sorrisinho bobo e me olhando nos olhos. — Como vai embora? — seus dedos acharam algo interessante perto da manga do meu paletó e ficaram brincando por ali.
Minha cabeça doía e eu sabia muito bem o que ela queria.

03 de agosto de 2019; 6:21 a.m.; Newark, Nova Jersey.

Woke up late and I'm dreamin'
(Acordei tarde e estou sonhando)
So tired of chasing all your demons
(Muito cansado de perseguir todos os seus demônios)
Oh, my God
(Oh, meu Deus)
Baby, if it's what you want
(Querida, se é isso que você quer)
Little late, if you ask me
(Um pouco tarde, se quer saber minha opinião)
But you know I'll come around if you ask me
(Mas você sabe que eu vou aparecer se você pedir)


Fazia uns cinco minutos que tinha acordado. Tinha tido um sonho ruim. Estava sentado na cama, tentando respirar e tentando processar o que havia acontecido, no sonho e na noite anterior.
No sonho, eu estava no apartamento que tinha sido meu e de quando ainda namorávamos. Ele estava completamente vazio, sem móveis, e só tinha eu dentro dele. Eu estava procurando uma maneira de sair, mas não havia portas, nem janelas. Eu procurava em todos os cômodos por algum buraco, alguma maneira de sair, mas eu estava preso. A lâmpada que iluminava a cozinha começava a falhar, e então a torneira da pia se abria sozinha, jorrando muito mais água do que uma torneira normal deveria jorrar, e eu não conseguia fechá-la. Eu fazia muita força para fechá-la, mas ela não se movia, e a água continuava saindo e não cabia mais apenas na pia. Em questão de segundos, o cômodo estava cheio de água. A água subia, e não havia janelas. De repente, eu estava trancado na pequena cozinha e a água batia no meu peito. Eu não tinha para onde ir e pulava desesperado tentando gritar por ajuda, mas não saía nenhuma voz da minha garganta. Não tinha nenhum móvel para eu subir e água atingia meu pescoço, onde tinha um nó que impedia que meu grito se tornasse real. Eu estava com medo. Precisava segurar em alguma coisa, mas não havia no que segurar. Precisava que alguém me ouvisse, mas não conseguia gritar. Tentava muito, apertava a garganta, prendia a respiração, mas minha voz saía tão baixa que era impossível ouvi-la.
Acordei sem ar, sem fôlego, com os batimentos acelerados, procurando algo para segurar e sentindo a garganta completamente seca. Tentei falar para testar minha voz e respirei aliviado quando ela saiu, mas senti algo se mexendo ao meu lado.
estava coberta por meu lençol bege e tinha os cabelos bagunçados no meu travesseiro. Quis chorar por ter caído na dela de novo. Não demorou muito para que eu me lembrasse de tudo. O aniversário do Mark, o “Ei, vamos conversar!”, os “como-você-anda”, “o-que-tem-feito”, os demônios em seu ombro. Tudo de novo.
Ela provavelmente não se lembraria disso no dia seguinte. Acordaria, me cumprimentaria, gentil como sempre, e iria embora. Lembraria de mim na próxima festa em que nos encontrássemos ou na próxima vez que lhe fosse conveniente.
O semblante calmo que sonhava um sonho provavelmente tranquilo no meu travesseiro, porém, me custaria noites de sono e semanas de pensamentos nostálgicos autodestrutivos e “E se?”s. E se…


16 de dezembro de 2019; 1:06 a.m.; Newark, Nova Jersey.

I can see it in your eyes
(Eu consigo ver nos seus olhos)
And you don't believe me
(E você não acredita em mim)
I don't lie
(Mas eu não minto)
Even though you're not mine
(Mesmo que você não seja minha)


— Vou pedir um táxi. — a respondi, tentando conciliar a dor na minha cabeça e o aperto no meu peito. — Quer que eu peça um pra você? — perguntei, pegando a pequena mão que brincava na manga do meu paletó e a segurando entre as minhas.
Ela virou a cabeça, confusa, tentando decifrar minhas palavras e meu semblante, e então riu.
— Podíamos ir pra minha casa... — ela falou, apertando minhas mãos e levantando-se do banco com o intuito de se aproximar de mim. O seu perfume pareceu ficar algumas vezes mais forte enquanto ela ria e se aproximava, colocando sua mão livre em meu ombro.
Encarei seus olhos escuros por um momento, tentando enxergar todos os sentimentos que eles transmitiam, mas não consegui entendê-los. Não os conhecia mais. Meu peito doía, no fundo, com toda a afeição que sentia por ela, e que sempre sentirei. Por tudo que tivemos, todas as coisas boas e ruins, as dores e as felicidades, que haviam sido intensas como ela. Mas, por mim e por ela, sabia que não podíamos continuar assim.
— Sempre vou te amar, sabia? — falei e o riso dela cessou. Ela deu um passo para trás e tirou a mão do meu ombro. — Não desse jeito. — eu ri, apertando a mão dela que ainda estava entre as minhas.
Ela tentava decifrar o que eu estava tentando dizer, e eu mesmo não sabia aonde queria chegar. Só sabia que precisava acabar com tudo de ruim que eu estava sentindo, com as noites mal dormidas, com as dores de cabeça, com os pesadelos, com os “E se”s, e com a idolatria de alguém que só existiu na minha cabeça.
— Mas o suficiente pra saber que o que estamos fazendo não é certo e nem justo com nenhum de nós. — continuei.
Ela me olhou nos olhos antes de abaixar a cabeça e eu daria tudo para saber o que se passava em sua mente, o que ela sentia ou pensava de mim, de nós, de toda a situação que tínhamos vivido e estávamos vivendo.
— Você sempre falava que queria fazer melhor, . — eu disse, levantando o queixo dela com a mão esquerda e mantendo a direita na mão dela, que não me queimava mais.
Ela ficou muda. Pela primeira vez, sua mão estava quieta dentro da minha e ela não parecia ter nenhuma resposta planejada. Me lembrei do dia da nossa formatura, e como ela sempre fora tão decidida com tudo. Eu realmente desejava o melhor para ela, mas não podia mais me submeter a situações que me degradavam apenas para a agradar.
— Vamos fazer melhor do que isso. — apontei com a cabeça para nós dois e, depois de um tempo me olhando nos olhos, ela deu um sorriso fraco.
Ela apertou minha mão devagar, de forma leve. Pude até sentir sua pele quase fria. Uma única lágrima caiu de um de seus olhos e no fundo deles eu consegui vê-la, sem demônios, sem “como-você-anda”s, sem superficialidade nem novos amigos, só… a .
— Boa noite, . — ela disse antes de me beijar a bochecha e me abraçar.
Um abraço de saudade, quase fraterno. Senti seu cheiro e sorri. Ainda mexia com meu estômago, mas eu aprenderia a lidar com isso, finalmente. Não haviam demônios no ombro em que encaixei minha cabeça, no entorno do seu pescoço.
Eu finalmente entendi, ali, enquanto ela se desfazia do abraço e me olhava nos olhos uma última vez antes de se virar e se perder entre as pessoas do bar, que uma parte dela ia sempre ficar guardada em um compartimento escondido do meu peito. E não adiantaria eu fazer birra e fingir que ela nunca tinha existido ou tentar me enganar que não procuraria nunca mais por ela. Ela existiu. E meu coração, de uma certa forma, sempre iria procurar na imagem dela o conforto quando eu estivesse me sentindo mal. Ela sempre seria aquela que eu lembraria quando alguém perguntasse “E o amor?”, pois ela foi a primeira. Isso não significa que eu estaria fadado a viver minha vida tentando reviver uma paixão adolescente que não se concretizou. Naquele momento, eu percebi que todos os meus relacionamentos pós- estavam fracassando justamente por eu passar todos esses anos tentando reviver isso e não sendo grato por já o ter vivido. Enquanto seus cabelos esvoaçantes sumiam na entrada principal do bar e seu sorriso deixava aquele local, eu percebi que ela só não tinha deixado a minha vida antes porque eu, mesmo sem perceber, tentava a segurar de qualquer maneira, tentando manter vivo um sentimento que eu tentava involuntariamente encaixar na figura dela. Assim que Logan a seguiu, saindo pela entrada principal do bar logo atrás dela, e eu vi seu sorriso a ele através das paredes de vidro do lado de fora, eu sorri. Sorri porque meu coração, ao invés de doer, esquentou. Sorri porque finalmente concluía uma etapa da minha vida que temi por tanto tempo concluir. Sorri porque desejei, mais do que tudo naquele momento, que ela fosse muito feliz. E que eu, sem ela, pudesse ser feliz também.
— Boa vida, .

You just thought you could do better
(Você apenas pensou que poderia fazer melhor)
So do better
(Então faça melhor)


Fim.



Nota da autora: Bom, oi!
Apesar de ser beta do ffobs há dois anos, essa é a primeira vez que publico algo meu aqui. Faltou coragem (e ainda falta, eu to morrendo de medo kkk) pra escrever. Foi um desafio muito grande pra mim e eu amei terminar meu 2019 dessa forma, vencendo uma das minhas (maiores) inseguranças.
Espero que vocês gostem, eu realmente coloquei meu coração nesses personagens.
Obrigada por lerem até aqui. :)



Outras Fanfics:



Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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