Última atualização: 05/08/2017

Prólogo

On every road
We cross alone
We’re thinking of those we left back home
So follow the lines
And I’ll be your guide
‘Cause we’re the lucky ones
On every road


Parte I

I’ve been gone for a while
Been traveling alone
Searching for a new life
When I already had my own

acordou antes do despertador. Não porque era disciplinado – o tipo de adjetivo que sua mãe nunca usaria para descrevê-lo – mas porque depois de quatro meses viajando de um país para outro, seu cérebro já não conseguia mais se adaptar a nenhum fuso horário.
Pegou a carta inacabada que estava fazendo para Lilly. Estava tão cansado noite passada que dormiu antes de escolher que foto mandaria a ela. Decidiria isso enquanto tomava banho.
Se arriscaria a dizer que sua caligrafia estava melhorando, mas não acreditava que sua professora da terceira série compartilharia desse pensamento. Depois de anos sem se atrever a pegar uma caneta, e do uso rotineiro do notebook na faculdade, considerava muito antiquado da sua parte escrever uma carta por semana para enviar à Lilly. podia apostar que ela, como romântica incurável que era, estaria amando receber cartas todos os dia. Isso, é claro, se Lilly não estivesse tão puta da vida com .
Havia grande probabilidade de Lilly, por pura raiva e vingança, não ler nenhuma das linhas que ele escrevia com tanto cuidado. A verdade é que tinha medo de nunca ser perdoado pela decisão que havia tomado.
Colocando os pensamentos sobre a reação de Lilly quando se reencontrassem, arrumou a mochila, pegou uma garrafinha de água gelada no frigobar, a carta que acabaria quando chegasse ao correio, e saiu. Segundo seu roteiro, ainda tinha várias cidades na Espanha para visitar antes de partir para o próximo país.

nunca havia sido alvo de reclamações na escola, pelo contrário, dono de elogios intermináveis, ele se tornou um garoto promissor, com tendência para liderança, corajoso e decidido. E foram essas características que o fizeram tomar coragem para deixar de atender às exigências do pai, largar a terceira faculdade, e pedir um tempo para Wanessa, sua “namorada” de mentira – a qual os pais faziam questão de lembrá-lo a todo momento que o casamento entre eles renderia uma maravilhosa fusão entre empresas.
Também poderia falar ter sido quase um alívio se livrar das reclamações da mãe de sua falta de compromisso com a faculdade, Wanessa, e os negócios da família. Negócios esses que ele nunca pediu para serem sua responsabilidade no futuro.
Mas nada poderia ser melhor do que ir dormir e acordar sem os gritos vindos das brigas entre seus pais, disso podia ter certeza.
A única pessoa que sentia falta, fazendo seu coração apertar de saudade, era Lilly, sua irmã mais nova. A única por quem valeria a pena voltar para casa um dia. Ela era a única que salvava a família , a família que posava lado a lado para fotos de eventos sociais, sempre com um sorriso no rosto, mas que não se suportava dentro de quatro paredes. Nem mesmo ele poderia salvar a farsa que seus pais criaram. Mas Lilly sim, Lilly era sua salvação, e era a única que o fazia se arrepender, ainda que minimamente, da decisão que havia tomado.
- Jugo de naranja, tostadas con mantequilla y mermelada, y también uno café solo, por favor. fez o pedido no balcão, e foi sentar-se numa mesa perto da janela com vista para a rua. A cada dia na Espanha se arrependia de ter abandonado as aulas de espanhol enquanto sua mãe insistia em ter uma terceira língua.
Enquanto esperava pelo pedido, espalhou sobre a mesa as fotos reveladas no dia anterior. Ali tinha imagens dele na sua última semana em Portugal, antes de pegar um trem para a Espanha. Agora tinha que escolher entre a Torre de Belém e o Oceanário de Lisboa para mandar para Lilly. Talvez mandasse ambas, e junto mandaria fotos suas enquanto acompanhava o rio Tejó. Aquele dia tinha sido divertido.
- Aquí está. – disse o atendente com o pedido de nas mãos.
- Gracias.
Enquanto colocava todas as fotos dentro do envelope que mandaria para o Brasil – não é como se pudesse escolher só uma ou outra – ouviu duas garotas rindo na mesa de trás. Elas falavam baixo, mas pôde entender o que estavam falando, seu português deixava claro que era do Brasil, assim como ele, mas diferentemente de , não entendiam nada de espanhol.
- Se aceitam uma opinião, recomendo provarem tostadas con mantequilla. É uma delícia e faz parte do café da manhã clássico da Espanha. – ele disse com o corpo levemente virado para trás.
- É mesmo? E quem é você? – uma delas perguntou.
- .
Ele estendeu a mão, só recebendo resposta da garota ao lado da que falara com ele, esta continuando com o cardápio em mãos.
- Não vão dizer seus nomes?
- Não sei se deveríamos. Quer dizer, nem mesmo sabemos quem você é. – a garota que havia apertado sua mão anteriormente disse com os olhos serrados.
quis rir. Aquela não era a primeira vez que recebia uma resposta hostil quando apenas tentava ser simpático. De qualquer forma, não podia culpar as garotas pela desconfiança.
- Pois acabei de me apresentar.
As duas tiveram uma troca de olhares antes de voltarem à atenção para ele.
- . – disse a garota simpática, a que o cumprimentara.
- . – era a garota que ainda segurava o cardápio, mesmo não entendendo uma só palavra escrita.
- Bem, , , devo dizer que é um prazer conhecê-las. – e sem esperar por uma resposta, voltou sua atenção para seu café e seu envelope ainda aberto.
Quando já estava pronto para ir embora, com sua conta paga e mochila arrumada, chamou sua atenção.
- Você é meio suspeito, sabia?
- Eu, suspeito? – ele olhou para baixo, analisando a si mesmo, como se procurasse por algo. – Não sei como posso ser considerado suspeito.
- Você senta aí sozinho, com uma mochila grande o bastante para esconder um corpo humano, e puxa papo com estranhas em restaurantes. Isso é suspeito.
- Mas você não é uma estranha em um restaurante. Você é . – ele respondeu com uma sombra de sorriso, um toque de humor na voz.
estreitou os olhos e deixou um pequeno sorriso de canto escapar.
- Me tratar como se já me conhecesse também é suspeito.
- Ou é um ato de educação vindo de um turista, exatamente como você e sua amiga.
- Minha amiga acha que você é um psicopata.
engasgou com a água que tinha levado à boca. Depois começou a rir. Lilly adoraria ouvir que uma garota bonita como aquela tinha o chamado de psicopata.
- Ok... E por que sua amiga acha isso?
já não tinha um sorriso de lado. Agora sorria abertamente para , gostando do tom de brincadeira que a conversa inusitada tinha tomado. Se ele fosse, de fato, um psicopata, ela estava perdida.
Ela pedia internamente que psicopatas não fossem tão bonitos, nem tão engraçados como , apesar de saber que psicopatas eram exatamente assim.
- Não sei, mas se quer saber, eu concordo com ela. Essa mochila também é suspeita. – apontou para a mochila que levava.
- Suspeita por que caberia um corpo humano dentro dela? – ele entrou na brincadeira.
- Exato.
pegou sua mochila na cadeira ao lado da sua e a colocou no chão, de frente para . Analisou-a por alguns segundos antes de dizer:
- De jeito nenhum caberia uma pessoa aqui dentro!
- Caberia, se ela estivesse em pedaços. – disse esperta.
- Uau! Quem é a psicopata agora?
riu alto, o que chamou a atenção das outras pessoas. a acompanhou, ainda que não soubesse como a conversa tinha chegado àquele ponto.
Ela voltou à atenção para as tostadas que acabava de comer, enquanto ele colocava a garrafinha de água na mochila, fechando o zíper. , amiga de – a mesma que tinha certeza que se tratava de um psicopata sentado atrás delas – voltou à mesa, chamando atenção da amiga.
- Já paguei, podemos ir.
- Para onde estão indo? – perguntou de forma automática.
o olhou com desconfiança, os olhos mais apertados que nunca. Foi quem respondeu:
- Como você mesmo disse, somos turistas, então vamos fazer o que turistas fazem.
- Você quer dizer sair para conhecer a cidade, tirar mais fotos que a memória do celular permite, em pontos turísticos lotados de turistas fazendo exatamente a mesma coisa, e chamar as pessoas de psicopatas?
- Exatamente. Agora, se nos der licença, temos que encontrar nossos amigos. – disse cortando o clima amistoso instaurado por e .
- Legal. A gente se esbarra por aí.
, com o semblante calmo e um sorriso discreto nos lábios, se levantou, e com a mochila em um dos ombros, deixou o café.
ainda tentou acenar para ele, mas tendo uma mão segurando a bolsa e o outro braço sendo puxado por , que fazia questão de seguir o caminho oposto que ele, ficava difícil.

Depois de passar no correio e deixar a carta feita para Lilly, se pegou pensando se não devia uma ligação à sua mãe. Desde que havia começado sua aventura por independência e liberdade, não havia ligado para casa. A verdade é que havia deixado o celular em casa, exatamente para evitar contato com qualquer pessoa daquela casa. Exceto, é claro, com Lilly, sua salvação.
sabia que Lilly não merecia ficar sozinha em casa com seus pais, mas ele precisava daquele suspiro por liberdade, ainda que para isso precisasse deixá-la para trás.
Talvez fosse saudade, ou consciência pesada, não saberia dizer, mas sentia necessidade de ter aquele mínimo contato com a irmã, ainda que soubesse que ela merecia mais. No momento, tudo o que podia lhe oferecer eram notícias de que estava vivo e feliz, e que desejava que ela estivesse com ele.
Colocando de lado a ideia de entrar em contato com alguém de sua família, ele seguiu com sua viagem, pegando em mãos o roteiro que havia feito há alguns dias. Seu próximo destino seria visitar a famosa igreja inacabada, Sagrada Família, situada em Barcelona.
Quando mais novo, em uma das viagens que fizera com a família, chegou a conhecer a Sagrada Família, ainda que muito rapidamente. A verdade é que a viagem num todo tinha sido rápida, não que esse tivesse sido o planejado. Ainda no final da primeira semana tiveram que voltar para casa. Seu pai não saia do celular, sua mãe só sabia reclamar dos malefícios que o sol forte causaria em sua pele, e Lilly insistia a todo o momento procurarem lojas de souvenir.
Como em todos os momentos de sua vida desde que Lilly nascera, aquela viagem só não tinha sido pior por causa dela. Sempre Lilly.
- Ei! Garoto do restaurante!
terminou de tirar uma foto de si mesmo, torcendo para que tivesse ficado boa com a Igreja ao fundo – e lamentando a falta do celular com câmera frontal que havia deixado em casa – e olhou em volta procurando quem gritava.
Antes mesmo de encontrá-la já sabia de quem se tratava.
- Ei, vocês. – ele se aproximou com um sorriso no rosto e a câmera nas mãos. – Achei que tivesse me apresentado mais cedo.
- Você se apresentou, mas talvez eu já tenha esquecido. – tinha um sorriso brincalhão nos lábios.
- Outch! – tocou o peito em um falso sinal de ofendido.
- Que coincidência nos encontrarmos aqui.
riu.
- Ou ele está nos seguindo. – disse. E com uma reclamação pelo cutucão que lhe deu, ela explicou, dessa vez com a voz envergonhada. – O quê? Nunca assistiu Busca Implacável?
- Poderia dizer que assisti a todos os filmes de Liam Neeson. – disse sem se ofender. – Mas assisto por diversão mesmo, não costumo me inspirar nos crimes perfeitos montados em filmes para viver. – e com o tom de voz mais baixo, como se contasse um segredo, concluiu – Parece ser cansativo demais.
não segurou uma risadinha.
- Muito bem, então o que está fazendo aqui?
- Não que seja da sua conta, mas como vocês puderem perceber, também estou na Espanha a turismo, e como podem confirmar por aqui – disse mostrando o roteiro feito a mão, cuidadosamente, por ele – A Sagrada Família está na minha lista de lugares a visitar.
corou violentamente, mas não descruzou os braços, nem desfez a cara fechada.
- Que seja. , vou ali comprar água. Você vem comigo?
- Vou te esperar aqui. – e diante da cara da amiga, explicou. – Aqui tem sombra, e já disse que esqueci de passar protetor antes de sair do hotel.
bufou, mas não fez objeções. Com um último olhar desconfiado para , deu as costas para eles e seguiu para onde tinha visto uma lanchonete.
- Sua amiga não gosta de mim. – não tinha sido uma pergunta.
- Ela está desconfiada. Seus pais são policiais, então entendo sua desconfiança exagerada.
- Falar que os pais da sua amiga são policias, por acaso, foi uma tentativa de me amedrontar?
riu.
- Não sei. Você teria motivos para ficar com medo?
riu alto dessa vez. Ela era inacreditável.
- Você não parece estar com medo.
- Não tenho medo de você. Talvez desconfie da sua boa educação e simpatia incomum, mas também sei que você não vai fazer nada comigo, muito menos com a minha amiga.
- Porque não quero ter a policia atrás de mim. – não foi uma pergunta. Ele estava entrando na brincadeira, como tinha feito mais cedo na cafeteria.
- Exatamente. E também porque assistia filmes de ação, e sei que você não faria nada com tantas testemunhas em volta.
Um grupo passou por eles rindo alto, enquanto decidiam quem seria o primeiro a ficar de fora da foto para servir de fotógrafo do resto do grupo.
- Eu poderia ligar para o meu parceiro de crime agora mesmo. – levantou uma sobrancelha.
- Não pode ligar se não tem um celular. E baseado na carta que estava escrevendo hoje cedo, apostaria que você não tem um celular. – e antes que pudesse falar alguma coisa, completou. – E você, , definitivamente não tem cara de que usa o telefone público para chamar o parceiro de crime para o grande ato que os deixarão milionários.
riu impressionando.
- Uau! Acho que você me pegou. Não sou nenhum criminoso internacionalmente famoso, infelizmente. – admitiu com falso pesar na voz.
- E quem é você, então?
pensou por um segundo antes de responder. Quem era ele, afinal?
- Sou apenas um garoto que está viajando pela Europa.
- Só isso?
- Só isso. – e ele gostaria que fosse só isso mesmo. Gostaria que sua vida não passasse disso, sem complicações, sem exigências, sem pressões, sem fingimentos e fugas.
- Não é muito emocionante, se quer saber.
- Não, não é. – admitiu. – Desculpe.
deu de ombros como se disse “é, fazer o quê?”. E sentindo o sol queimar sua pele, ela se afastou para trás procurando uma sombra que o protegesse.
- Quer ver algo emocionante? – perguntou com um brilho de expectativa no olhar.
- O quê? – estava desconfiada e, só para garantir, olhou mais uma vez em volta para se certificar de que havia bastante gente perto deles. Sabe como é, garantir que havia várias testemunhas caso acontecesse algo com ela.
Talvez estivesse tendo almoços demais na casa de enquanto seus pais contavam os casos que viam no trabalho.
colocou sua mochila no chão, olhou para com um sorriso esperto, e abriu o zíper lentamente para fazer suspense.
- Tcharã! – de dentro da mochila ele tirou um protetor solar. Rindo, entregou-o para . – Nunca saia de casa sem protetor solar na bolsa. Isso é regra básica para quem vai viajar.
- Uau... Então é isso que esconde nessa mochilona.
- Isso e mais umas coisinhas que também são básicas para qualquer viagem.
iria responder com alguma piadinha, mas chegou reclamando que não tinha água na lanchonete, e não tinha achado mais nenhum outro lugar que vendesse água ali perto.
- Tcharã! – brincou de novo. De dentro da mochila ele tirou uma garrafinha térmica. – Outra coisa que carrego comigo na mochila. Outro item básico para se viajar.
- Adivinha só, , ele não carrega um corpo humano nas costas. – fingiu decepção. – Aliás, obrigada. – disse devolvendo o protetor.
- E também não carrego água envenenada. – ele disse para , diante do olhar desconfiado que ela tinha.
Contrariada, mas sem muitas opções, aceitou a oferta. O dia estava quente e seco, e não sabia quando acharia água para comprar.
- Vocês devem sempre andar com água na bolsa para evitar desidratação. Além disso, trazer água de casa acaba sendo uma economia. Vocês podem sempre encher a garrafinha nos museus ou nas igrejas, teatros ou qualquer outro prédio turístico aberto ao público.
- Obrigada pela dica. – respondeu animada. Não tinham pensado nisso. , ainda meio constrangida, agradeceu baixo.
- Bem, garotas, foi ótimo reencontrar vocês. Agora vou seguir meu roteiro, e nesse não há planos de seguir garotas que conheci em cafeterias.
corou de novo, mas não se importou com a alfinetada. Na verdade queria mesmo encontrá-lo de novo. Por isso não se importou quando recebeu um olhar matador de após chamar para sair com elas mais tarde. Bem ficou brava com o tapa que a amiga lhe deu quando se despediram de , com a promessa de se encontrarem naquela noite.

Durante toda a tarde fingiu não estar ansioso para a chegada da noite, mas quando se pegou olhando no relógio pela quarta vez em menos de quinze minutos, desistiu de tentar enganar a si mesmo. Para se distrair, começou a escolher o que levar de souvenir para Lilly. Ela os adorava. Decidiu-se, pois, por um pequeno chaveiro que sabia que ela jamais usaria, mas que representava o cuidado que ele tivera ao comprar uma pequena lembrança a ela.
Ao chegar ao albergue em que estava hospedado, colocou a nova aquisição junto às outras, que comprara também para Lilly, na mala, onde guardava os souvenires que havia adquirido ao longo de sua aventura. Em meio a presentes simbólicos para a irmã, também comprou vinho do Porto para a mãe. Sabia como ela amava a bebida e, em um raro momento de arrependimento por tê-la deixado sem notícias, ele encontrou no vinho um meio de agradá-la quando voltasse. Para seu pai nem perdeu tempo procurando algo que o agradece. Sabia que não o encontraria, e mesmo que o fizesse, o pai faria questão de não esconder a cara de desgosto e desdenho do gesto.
Depois de um banho rápido, não demorou na escolha da roupa, já que não tinha muitas opções consigo. Quando decidiu partir para essa aventura, separou para levar consigo apenas o necessário, nada a mais que o básico, já que não queria carregar peso sem utilidade. Não que isso importasse. Não era como se quisesse impressionar alguém naquela noite.
A música alta não o incomodava, mas se sentiu deslocado, por um momento. Depois de três meses viajando, indo de uma cidade para outra, pulando de país em país, sempre visitando os pontos turísticos, as cidades culturais, conhecendo a comida, a música e a cultura de cada cidade que passava, quase havia se esquecido de como era o ambiente de um pub.
Não foi difícil encontrar e . Depois daquela tarde, não o olhava mais com cara feia, mas isso não significava que ainda confiava nele.
Depois de uma bebida e uma conversa inicial, foi conversar com duas garotas que encontraram por lá, deixando e no bar.
- Aquelas são suas amigas? – ele perguntou um pouco alto por conta da música.
- Que amigas? – ela perguntou distraída – Ah! Não, não são. – disse torcendo os lábios, como se decidisse contar ou não alguma coisa a . – se aproximando mais de , que estava encostado no balcão do bar, ela falou perto do ouvido dele, como se confiasse um segredo. – A verdade é que não estamos esperando encontrar um grupo de amigos. – confessou lembrando-se da mentira que contaram mais cedo na cafeteria.
- Então por que disseram isso?
- Porque achávamos que você era um psicopata, talvez um sequestrador, no mínimo um cara muito estranho que deveríamos manter distância, quem sabe? – ela deu de ombros. – E se pensasse que tínhamos companhia, talvez desistisse de nos perseguir.
riu alto, jogando a cabeça para trás.
- Então vocês, finalmente, se convenceram de que não sou um vilão dos filmes do Shyamalan?
- Talvez sim... Talvez não... Talvez eu só esteja testando você.
E lá estavam eles novamente naquela brincadeira com as palavras. gostava disso. Gostava muito.
Conversar com se mostrou mais divertido do que ele havia imaginado. Até mesmo estava mais aberta para ouvi-lo. Aparentemente contar quem ele era, de onde vinha, e tudo relacionado à vida que tinha deixado no Brasil, tinha as convencido de que Liam Neeson não precisaria salvá-las no final do dia.
- Você é filho de Gonçalo ? Das empresas ? – perguntou novamente depois de ter respondido afirmativamente três vezes.
- Então seus pais estão bancando essa viagem pela Europa? – perguntou enquanto tomava sua bebida colorida. Não parecia ter ficado muito impressionada com quem ele era, mas talvez ela estivesse apenas disfarçando muito bem.
- Na verdade, não.
se remexeu desconfortável. Não sabia por que hesitava em contar sua história pra ela. Quando tomou a decisão de viajar, e durante todos os dias da sua aventura até o presente momento, não havia se arrependido – pelo menos não de verdade. Em verdade, ainda não se arrependia, mas...
- Espera, deixa eu ver se entendi. – nesse ponto conversava sozinha com , enquanto dava atenção a um carinha ali perto. Aparentemente, só parecia suspeito a primeira vista, caras bem vestidos em pubs caros não eram tão suspeitos assim. – Você largou tudo, faculdade, trabalho, sua família, e veio fazer um mochilão pela Europa?
concordou com a cabeça.
- Com o dinheiro do seu pai. – ela concluiu.
- Bem, teoricamente as ações estavam no meu nome, e quando as vendi o dinheiro passou a ser meu.
- Ações que o seu pai tinha comprado. – não foi uma pergunta.
- Ações que ele comprou no meu nome, portanto, minhas ações.
- Tudo bem, então você abandonou tudo, seu pai arrogante, sua mãe maluca, palavras suas, não minhas, sua namorada de mentira, e sua irmã mais nova, que é a pessoa que você mais ama no mundo, e a única que faz seu coração questionar se tomou a decisão certa, porque sem ela você se sente sozinho e sem rumo.
Novamente, ela não perguntou. afirmou, categoricamente, como se conhecesse sua alma, como se soubesse exatamente os conflitos que insistiam em se fazer presente na mente dele.
demorou um momento para responder. Na verdade demorou bastante para compreender as palavras de e o que elas significavam. Cada uma delas se repetia em sua cabeça, e aquilo machucava. Machucava porque talvez, talvez fizessem sentido. Uma a uma, todas as noites, quando se deitava para dormir, não sem antes escolher qual foto mandar para Lilly, sempre rezando para que a irmã não as queimasse assim que as recebesse, pois isso significaria que ela não o perdoava por sua decisão impulsiva.
Depois daquela noite no bar, e partiram para outro país continuar com seu próprio roteiro de viagens e, finalmente, encontrar o grupo de amigos que não era tão falso, afinal de contas.

continuou com sua própria viagem. Passou pela França e pela Itália, ficou poucos dias na Alemanha, e partiu para o Reino Unido, desembarcando em Londres, na Inglaterra. Foi em seu último dia na Inglaterra, quando já se preparava para partir para Escócia, que reencontrou novamente, dessa vez acompanhada por um grupo de quatro amigos, incluindo , que não lhe recebeu com um abraço caloroso como , mas também não torceu o nariz ao vê-lo. Também não espalhou para as amigas sua suspeita de que ele poderia ser um psicopata. Ou um sequestrador. Ou um serial killer. já nem sabia mais.
Era o último destino de , e ela finalmente tinha se encontrado com os amigos que havia falado quando se conheceram com o intuito de afugentá-lo.
Novamente combinaram de sair naquela noite, comemorar a última semana de viagem de , e a última noite de em Liverpool, antes de pegar um trem para Glasgow.
Dessa vez e já estavam mais próximos. Tinham novidades para compartilhar, como experiências com comidas horríveis e pontos turísticos que quase não conseguiram visitar por conta da chuva.
- Este aqui é Phillip. Conheci ele e a esposa em Paris. Resolveram sair para viajar e conhecer o mundo quando o último filho se casou e finalmente poderiam gastar seu dinheiro com eles mesmos, palavras deles, não minhas. – disse rindo enquanto mostrava uma foto sua junto a um senhor na casa dos sessenta anos.
gostou da ideia e passou a mostrar algumas fotos suas com as amigas também. As dela, porém, estavam todas no celular ainda, e não tinham uma grande história de vida por trás.
- Essa aqui é a senhora Dolores. Ela decidiu viajar o mundo com os três filhos, já estão fora de casa há quase seis meses. Juntaram todas as economias da família e caíram na estrada depois que seu marido morreu sem ter realizado o sonho de viajar a Europa.
- Uau! São tantas histórias diferentes. – comentou olhando cada uma das fotos reveladas de .
- Ah... – pegou a foto na mão da garota. – Esta é Lilly, minha irmã. – falou com a voz baixa, nostálgica.
- Ela é linda, .
- Sim, ela é. A garota mais linda que já conheci.
viu nos olhos dele o que ela sabia que tinha nos seus todas as vezes que falava com a mãe pelo telefone: saudade.
- Como foi que conseguiu essa foto? Trouxe de casa?
- Não, pedi para Linda e Clinton acharem o Facebook dela e salvar a foto do perfil para mim.
Linda e Clinton era outro casal que conheceu em Veneza. Estavam em lua de mel depois de já terem se divorciado duas vezes cada um.
- Por que não entrou pela sua própria conta?
- ... Você sabe que não quero nenhum tipo de contato com minha família. Ou meus amigos. Ou qualquer pessoa...
- ... que você deixou para trás. – ela completou.
“Deixar para trás” não era exatamente a expressão que ele gostaria de usar, mas naquele momento não conseguia encontrar outra forma de dizer aquilo.
- Deixar para trás é uma expressão muito forte.
- Mas é a verdade.
Novamente ele não disse nada. Não gostava quando falava assim sobre sua decisão de viajar. Ou qualquer outra pessoa. Por isso evitava dizer seus motivos para sua aventura dos sonhos.
Resolveu mudar de assunto.
- Então... Ultima semana, hm?
- Pois é... - suspirou. – Por um lado gostaria de poder continuar viajando para sempre, conhecer cada canto do mundo, cada segredo de cada cultura... Mas não dá, infelizmente. A vida real nos chama.
Ele nem mesmo queria pensar na vida real. Tinha sido ela o gatilho para que ele largasse tudo.
- Infelizmente. – ele concordou.
- E você, hm? – perguntou batendo seu ombro no dele. – Última noite na terra da rainha. Aposto que vai sentir saudade.
- Com certeza eu vou. Mas minha aventura ainda continua. Não estou pronto para voltar para a vida real.
- Ninguém está pronto para a vida real, . – ela disse, deixando-o sem palavras como já era de costume. – Você acha que vai voltar algum dia?
- Para onde?
- Para a vida real. Ainda que não esteja preparado, um dia você vai ter que encarar a mesma vida real que o fez ir embora.
não quis responder.
Há semanas estava com dúvidas, questionava-se coisas que antes pareciam tão certas e resolvidas. Tudo isso desde que conhecera . não queria se questionar. Não queria pensar na casa, nas pessoas que ficaram, e na vida que deixou para trás.
então mudou o rumo da conversa, e, ainda que de modo sutil, entendeu que deveria mudar de assunto.
Passaram a noite, então, mostrando as fotos que cada um tinha tirado, contando a peripécias que viveram, e se divertindo com cada gafe que cometeram ao tentar falar um idioma diferente.
tomou cuidado para que algumas de seus fotos ficassem fora da vista de . Algumas como as que ele havia tirado em festas e pubs que tinha conhecido em Berlim; algumas que ele havia tirado, inclusive, com as garotas que conhecera nos bares, seus romances breves e de poucas noites, que havia conhecido em suas viagens.
Naquela noite tirou fotos com também. Ela seria uma boa lembrança de suas aventuras. E aquela noite, em especial, ficaria para sempre em sua memória, desde o momento em que se reencontraram, até o adeus que deram na manhã seguinte, com ainda na cama e partindo para pegar o próximo trem com destino a Escócia.

estava na sala de embarque do aeroporto de Cingapura. Depois de longos dez meses viajando pela Europa e se aventurando pela Ásia, ele estava, finalmente, voltando para casa.
Não sabia ao certo o que sentir. Sentia falta da sua cama e do chuveiro quente do seu banheiro. Também sentia falta de conversar com alguém; não conversas casuais, com pessoas que acabara de conhecer no trem ou em um bar, mas com pessoas que ele conhecia e sabia que o conheciam.
Mais do que tudo, sentia falta de sua família. Não do pai, acreditava que nem uma vida inteira de férias daquele homem seria suficiente para deixá-lo com saudades dele. Mas da mãe sentia muita saudade, até mesmo quando ela gritava quando alguma coisa estava fora do lugar, ou quando se segurava para não criticá-lo pela escolha da roupa, mesmo no final não se aguentando e separando outra combinação para ele, como se ainda tivesse cinco anos de idade.
Principalmente, sentia saudades quando ela resolvia ir para a cozinha fazer bolo de baunilha com chocolate quente, ainda que estivesse no verão paulista. A verdade é que sentia falta de sua mãe, pura e simples.
Lilly não saia dos seus pensamentos desde que resolvera sair para sua aventura. Lilly foi à única pessoa que o fez se questionar cada segundo. A única pessoa que dava sentido para as coisas que dizia sobre seu questionável egoísmo...
... De todas as pessoas que conheceu, seria a que sentia mais saudades, disso não tinha dúvidas. Sentiria saudades de suas conversas... De seu sorriso... De seus beijos...
Seu voo foi chamado. Estava no segundo avião naquele dia, a conexão necessária para ir para casa.
Em breve estaria de volta.


Parte II

So walk back home
On every road
(…)
Yeah it’s safe to say I knew
That all the selfish things I do
Would eventually come creeping back around

Um ano depois

- , os sócios já estão na sala de reuniões. Só falta o senhor.
- Obrigado, Laura. Pode avisá-los que já estou chegando.
Convencer Laura, sua secretária, de que não era preciso chamá-lo de senhor tinha sido difícil. Mas nada foi mais difícil do que sua relação, nos últimos meses, com a pessoa que mais amava.
Obviamente que não esperava uma recepção calorosa, com direito a festa de boas vindas, por parte de sua família. Definitivamente não esperava um abraço saudoso do pai.
Poderia dizer que ficou surpreso por ver a mãe chorar. Não as lágrimas falsas que usava em enterros de parentes distantes, os quais compareciam apenas para marcar presença, mas lágrimas de verdade, do tipo que ele poderia jurar nunca ter visto. E todas essas lágrimas eram por ele e para ele. Os tapas que recebeu, os xingamentos, tudo foi recompensado pelas lágrimas de alívio e o abraço amedrontado da mãe.
A parte mais difícil, desde a sua volta, não foi lidar com os comentários sarcásticos constantes do pai, ou seu frequente discurso de como tinha sido imprudente e egoísta.
- Sua mãe quase morreu de desgosto! Sua irmã poderia ter tido depressão! Sua namorada logo foi procurar outro para consolá-la, e eu não a culpo! Culpo você e sua irresponsabilidade desenfreada! E agora, como ficará nossa fusão?
A verdade é que até mesmo seu pai, sempre frio e calculista, parecia ter sofrido com a sua partida, e não apenas pela fusão não concretizada. nem mesmo se lembrava da última vez que tinha recebido um abraço do pai. Ainda que o momento tenha durado pouco, pois logo em seguida ele voltara a repetir seu discurso sobre a rebeldia de , ele não podia negar que seria uma memória a se guardar.
Não, a parte mais difícil, a que mais machucava, a que fazia seu peito doer todas as noites, foi ter que aprender a lidar com Lilly o ignorando. Não foram dias, nem semanas, mas meses. Isso foi o que mais doeu, principalmente porque sabia que merecia cada olhar não retribuído.
Suas constantes tentativas de explicações não surtiram efeito.
- Você não entende, Lilly? Eu precisava viver, ter uma vida que fosse só minha, sem cobranças, sem caminhos traçados, sem precisar prestar contas de cada movimento, cada decisão.
- Você já tinha uma vida, , só não a aceitava.
Aquilo foi como um tapa na cara, e então ele finalmente percebeu.
Passou a aceitar a vida que tinha, a vida que lhe foi dada e que lhe pertencia. Sem se fazer de vítima dessa vez, tomou as rédeas de suas decisões. Se tornou adulto, finalmente. Assumiu suas responsabilidades e começou a lidar com elas.
Assumiu o cargo na empresa do pai que lhe era de direito. Abaixou a cabeça e pediu desculpas à mãe e ao pai – ainda que esse tenha lhe ignorado – e implorou perdão à sua irmã.
Percebeu, pois, que mesmo quando estava sozinho em alguma cabine de trem, em algum quarto de albergue, ou mesmo em alguma festa temática do país em que estava, sua casa não saía de sua cabeça. Aqueles que tinha deixado para trás o acompanharam a cada passo que deu, ainda que não fisicamente.
Não se arrependia da decisão que tinha tomado, passar um tempo fora, se encontrar e descobrir o que queria, foi o que culminou para o homem que era hoje. Se arrependia, porém, da forma como o fez. Partir sem dar explicações, sem informar à família se estava vivo ou morto – com exceção às cartas que mandava de tempos em tempos para Lilly – tinha sido egoísta e irresponsável de sua parte. Não agiria como tal novamente.
Enquanto seguia para a sala de reuniões, conversando com seu secretário particular, e dando atenção à agenda que a secretária lhe mostrava, parou atrás de algumas pessoas que também esperavam os elevadores.
- Hoje começam as entrevistas para a contratação de uma nova nutróloga para a empresa. – sua secretária disse. – Ainda que a avaliação seja feita pelo RH da empresa, vai ser preciso sua aprovação final.
- Por que estamos contratando uma nova nutróloga? O que houve com a dona Gertrudes?
- Se aposentou. – Laura suspirou. – Ela era mesmo muito boa.
não pôde discordar. Nunca tinha conhecido alguém que fizesse bolinhos de bacalhau como ela. Suas receitas eram tão boas que os funcionários, hora e outra, pediam seus segredos culinários para usar em casa.
Jogou a cabeça para trás num suspiro, estava cansado. Coisas demais para resolver, problemas para solucionar. Aquela vida não era para ele.
Ao voltar os olhos para frente, travou. Como se esquecendo de respirar, não moveu um músculo sequer por alguns segundos. As portas do elevador se abriram, e ela se moveu. Não poderia ser, poderia?
Tentou chegar ao elevador, mas ele estava longe, e tinha muita gente à sua frente. apertou os olhos mais uma vez, como se não acreditasse que estivessem lhe mostrando dentro de um dos elevadores de sua empresa. Antes que pudesse confirmar, as portas se fecharam.
- Aconteceu alguma coisa, ? – Lusa perguntou.
- Não... Está tudo bem.
ainda piscava, tentando se convencer do que tinha visto. Ou do que achava que tinha visto. As chances de seu cérebro estar lhe pregando uma peça eram grandes. A mente humana costuma criar imagens e visões, até mesmo sensações, com um simples estímulo. Na noite passada estava revendo as fotos de sua aventura irresponsável, mas libertadora. estava em algumas delas, e foram as que mais perdeu tempo admirando.
Ainda assim, dizer que não passou o dia pensando nela e na possibilidade de reencontrar em São Paulo, na sua empresa, seria mentira. Também falar que não inventou desculpas esfarrapadas para andar entre os corredores e andares do prédio, que nunca tinha colocado os pés, a procura de um rosto familiar, seria mentira.
Infelizmente, não encontrou quem procurava.

Quatro meses depois

andava apressado, atravessando a rua xingando pela demora do semáforo e pelo grande fluxo de pessoas andando devagar na sua frente. A reforma no estacionamento da empresa estava sendo um transtorno para a maioria dos funcionários que dependiam de carro para trabalhar, inclusive ele. Precisava sair de casa pelo menos meia hora mais cedo para procurar um estacionamento particular para deixar o carro, e os mais próximos ao prédio da empresa sempre estava lotados. Então precisava parar longe e correr para não perder a reunião com os sócios que aconteceria... Bem, já estava acontecendo.
Apressou ainda mais o passo. Seu pai o mataria se descobrisse que estava chegando atrasado mais uma vez naquela semana.
Definitivamente, precisava de férias.
Por ter saído de casa sem comer, parou em uma cafeteria que parecia estar mais ou menos vazia.
- Bom dia. O que deseja?
- Ah... – desejava qualquer coisa forte o bastante para que pudesse aguentar um dia cheio de reuniões chatas com pessoas ainda mais chatas e monótonas. Também desejava qualquer coisa que ficasse pronto rápido o bastante para que não se atrasasse mais que vinte minutos, como da última vez.
- Se aceita uma opinião, sugiro que peça tapioca com queijo fresco e suco de laranja com limão. É uma ótima combinação de nutrientes, e vai te dar energia para passar o dia.
olhou para trás.
Sorrindo para ele, e com o cabelo mais curto do que se lembrava, tinha um sorriso travesso nos lábios, e o mesmo brilho nos olhos de que sonhava.
- !
começou a rir. De todas as coincidências, aquela era a que ele menos esperava.
- O mesmo para mim, por favor. Os dois para viagem. – disse para atendente.
puxou pela mão para que saíssem da fila, e foi então que ele percebeu que aquela mulher tinha feito o pedido para ele e ela mesma, pagando por ambos os pedidos. não se importava. Não estava mais com fome, e nem mesmo se lembrava porque estava com pressa mais cedo – algo sobre gente chata lhe esperando... Bem, eles teriam que esperar mais, então.
- Meu Deus!
Foi a vez de rir. Tomando a iniciativa, envolveu os ombros de num abraço, o qual foi correspondido com força. O cheiro dos cabelos dela não havia mudado, outra prova de que estava, de fato ali, e não uma simples visão criada por sua mente traiçoeira.
- Olha só pra você – ela se afastou olhando-o. – Todo engomadinho, gravata apertada, sapatos brilhantes, cabelo cortado, unhas limpas... Tem certeza que é o mesmo que conheci na Espanha?
riu jogando a cabeça para trás. Ainda não acreditava que estava em uma cafeteria, em São Paulo, conversando com .
- Do jeito que fala parece que eu não tomava banho quando viajava.
Ela riu, e ele também. Simplesmente não conseguia tirar o sorriso do rosto. Seu peito era pura alegria.
- O que está fazendo aqui? – ele perguntou quando na verdade o que queria saber era se ela ia naquela cafeteria todos os dias, naquele horário, onde trabalhava, onde morava... Iriam se ver de novo? Não queria deixar ao acaso, queria encontrá-la sempre, passar o dia com , a semana toda...
Balançou a cabeça para se situar. Piscou uma, duas vezes para prestar atenção no que ela falava.
- Passo aqui todos os dias antes de ir para o trabalho. – bingo!, pensou.
- E onde você trabalha?
- Na Marcondes Têxtil & Associados. Acho que você deve conhecer, é uma empresa multinacional. Sua sede é aqui perto.
já tinha ouvido falar, ainda que não soubesse onde ficava o prédio. Iria pesquisar a localização assim que chegasse à empresa.
Pensar na empresa lhe deu uma sensação de estar esquecendo algo... Não que se importasse muito. Se tinha esquecido, é porque não era tão importante assim.
- Isso é muito legal, ... O que você faz lá?
- Sou nutróloga. Estava procurando emprego no começo do ano, quando me formei. Confesso que foi meio desesperador mandar tantos currículos e ser rejeitada em todos os lugares, mas por sorte a Marcondes Têxtil me ligou, e comecei a trabalhar há dois meses.
Nutróloga... Aquela palavra foi como um clique na cabeça de . Então não era seu cérebro mentiroso criando uma visão de no elevador da sua empresa meses atrás... Ela realmente estava lá. Forçou a memória um pouco mais. A palavra final para a contratação de uma nova nutróloga tinha sido dele. Será que tinha rejeitado, ? Não, ele tinha certeza que seu currículo nem mesmo chegou em suas mãos, caso contrário teria a reconhecido no mesmo instante.
Aquilo o aliviou. Não tinha sido ele a não contratá-la. Menos mau.
- Acho que o diretor da Companhia não gostou do meu currículo.
gelou, arregalou os olhos para que ria de sua reação.
- Não que eu me importe, na verdade. Quer dizer, onde estou agora paga melhor, além disso, acabei de ganhar uma viagem da empresa. – ela disse. – Temos muitos funcionários de outras nacionalidades, então a empresa vai bancar um curso para que me especialize em alimentos que não são comuns no prato do brasileiro.
Ela disse que estaria viajando para um curso?
- Para onde você vai? – perguntou.
A ideia de tirar férias parecia cada vez mais tentadora.
- Estou indo para o Rio de Janeiro. Vou ficar algumas semanas...
Rio de Janeiro parecia ser o lugar perfeito para uma folga.
- Acho uma excelente ideia.
- Eu estar indo estudar no Rio? Sim, também fiquei animada...
- Vou com você.
piscou. Depois piscou de novo, e então repetidas vezes até entender o que dizia. Com um sorriso se formando no canto dos lábios, perguntou:
- Fácil assim?
- Ser diretor tem seus benefícios. Além do mais, estou precisando de férias, e as praias cariocas me parecem ser o destino perfeito.
balançou a cabeça não acreditando. podia ter aprendido a se vestir e a cuidar melhor do cabelo, mas continuava tão impulsivo quanto antes.
Já sem o sorriso contagiante e a euforia no peito, se viu diante de milhares de palavras desconexas que queria dizer à , ainda que não soubesse como coloca-las em ordem.
- ...
Queria dizer que ela estava certa, sempre esteve. Que ele se tornou uma pessoa melhor, e que seus conselhos nunca o deixaram, que suas fotos eram as que ele mais olhava. Queria ter tido tempo de ficarem mais juntos, queria mais memórias com ela, ainda que as que tinha com aquela mulher, fossem as melhores de sua viagem. Acima de tudo, queria dizer como sentiu sua falta, e como demorou a perceber isso.
- Não diga nada. – ele não precisava. Ela sabia o que ele queria dizer, porque parte daquilo era o que ela mesma sentia. – Só me abrace e diga que sentiu saudades.
E ele o fez. A atendente tentava chamar sua atenção há alguns minutos, os pedidos já estavam prontos. A reunião na empresa também estava acontecendo há um tempo, mas nenhum dos dois parecia se importar com nada além da troca de sentimentos que aquele abraço proporcionava.
- Podemos colocar o papo em dia depois. – ela disse.
- Claro, é o que mais quero.
- E também quero conhecer Lilly.
sentiu o peito esquentar. Lilly iria vibrar por, finalmente, estar conhecendo a garota das fotos.
- Podemos marcar um encontro? Nós três?
Tinha certeza que a irmã não iria se opor.
- Claro, até porque temos muito o que combinar, como a viagem que vamos fazer.
Ah, a viagem... Mais uma aventura que teria, e dessa vez com a certeza de que estaria com ele todos os dias.
Dessa vez ele criaria novas memórias, todas com aquela mulher ao seu lado, e garantiria de guardar cada uma delas para lembrar depois.



FIM!



Nota da autora: Aê! Mais um ficstape! Espero que tenham gostado da fanfic <3 Além da letra da música, me baseei em Na Natureza Selvagem, especialmente no lance dele ir embora sem falar com ninguém, família problemática e tal... De verdade, espero que tenham gostado.
Beijos de luz
Angel


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10. What If I [Ficstape #036 – Meghan Trainor: Title]


Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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