07. Kiwi

Última atualização: 13/12/2017

Prólogo


Eu não deveria estar aqui.
Sentia meu coração acelerado enquanto batucava os dedos: indicador e médio, contra o balcão do bar em um toc de ansiedade e nervosismo.
A música estava muito alta e as paredes me enclausuravam, cedendo e se aproximando cada vez mais, me sufocando junto a multidão de jovens adultos que festejavam o sábado.
Eu deveria fazer aquilo de uma forma mais tradicional, mas não podia, não deveria.
Suspirei, talvez eu não devesse ter ouvido Danilo afinal, mesmo em minha aflição teria de ter visto as brechas daquilo tudo, todavia não existia mais volta – ao menos não uma que não me deixasse parecendo como um covarde - então levando o copo que segurava até os lábios, ingeri um pouco da cerveja que havia pedido mais cedo tentando relaxar.
Não funcionou, ela já estava um pouco quente e seu sabor era horrível, descia de um modo amargo pela minha garganta e eu acabei por fazer uma careta.
Contudo, precisava me manter calmo, mas não estava conseguindo, aquilo que encontrava-me preste a fazer não era o certo - era ilegal!
Mas já não tinha mais tempo para mim e eu precisava daquilo. Eu queria.
Inclinando meu corpo no pequeno e desconfortável banco, busquei novamente por uma visão melhor do bar, Freddy disse que ela seria bonita quando me ligou mais cedo e confirmou o nosso encontro, contudo seus detalhes foram escassos e eu não reconhecia ninguém com as descrições que ele havia me fornecido.
Era uma profissional, segundo ele, mas o que nós iríamos fazer ainda era um pouco de mais para mim de qualquer forma, podia sentia meu coração acelerando por causa da adrenalina que era liberada em meu sistema sanguíneo em meio ao meu nervosismo crescente.
Eu deveria ir embora, mas não conseguia fazer isso, nem agora nem em nenhuma das vezes em que o mesmo pensamento havia passando pela minha cabeça.
Eu era um fraco, ou talvez, apenas fosse um homem muito desesperado.
- Você é o ? - perguntou uma voz feminina por trás de mim enquanto cutucava meu ombro sobre a camisa estampada e de mangas compridas que havia escolhido para aquela noite, seu timbre era desdenhoso, embora também muito doce.
Virei encontrando alguém que eu não esperava.
Merda. Ela era muito jovem. Jovem de mais, e apesar de que se parecesse com alguém que meu irmão escolheria – era uma garota muito bonita - notei um cheiro forte de cigarro barato que emanava dela, provavelmente da mesma marca do pacote proeminente no boldo de sua jaqueta jeans.
Nas mãos, a pequena moça segurava um pequeno copo descartável preenchido por uma substancia consistente e liquida, tinha uma coloração escura que me levou a acreditar que se tratava de licor.
Era excêntrica e linda e tudo o que eu não esperava ou realmente queria.
Assim apenas assenti em reconhecimento, mexendo rapidamente a cabeça de um jeito tosco e um pouco idiota.
- Frederick me mandou, sou a . – ela disse.
Assenti mais uma vez, duvidando que aquele fosse seu nome verdadeiro.
Entretanto, não a questionei, não podia. No fim eu carecia dela.
Precisava confiar no meu irmão.
Que merda. Em que eu havia me metido?
- Claro. - disse simplesmente, um pouco irônico também. Mesmo não havendo necessidade, mas eu tendia a ser um idiota quando me sentia nervoso.
- Legal.
Encolhi os ombros, não lidando muito bem com aquela situação.
Aquilo não estava sendo tão fácil como eu havia imaginado que seria, mesmo eu não tendo imaginado algo tão bom assim.
A nossa volta percebi que ela chamava muita atenção para si mesma, muito mais do que eu precisava. Isso iria acabar se tornado em um problema.
Ela encontrava-se encostada no balcão, seus olhos focados nos meus com um sorriso leve e provocante nos lábios, não aparentava está atenta a nada mais de que em nós.
Então ele bebeu um pouco mais do seu licor, mantendo um olhar arrogante e superior.
Parecia se divertir em meio ao meu nervosismo e desconforto.
- Acredito que meu irmão já tenha lhe falado sobre o serviço que preciso. - falei me sentindo um tolo por não conseguir dizer de um modo menos suspeito.
Era muito mais que um serviço que eu precisava.
Era um milagre de vida.
Eu definitivamente não estava lidando bem com aquela situação.
Remexi-me no banco do bar, sentindo-me ainda mais desconfortável.
De qualquer forma ela arqueou uma sobrancelha, os lábios moldaram-se em um sorriso torto e por um momento era ainda mais bonita.
Mas parecia tão prepotente.
- Sim, ele me falou sobre o dinheiro também. - ela disse e eu engoli em seco, fazendo-a rir. - Não se preocupe, eu vou ter o seu bebê.
Arregalei os olhos, não esperava que ela fosse tão direta assim.
Na verdade não esperava alguém como ela para ser a minha barriga de aluguel.
Eu não sabia o que pensar.
Danilo quando me sugeriu o método, disse que elas eram mais fáceis para lidar.
No entanto parecia tudo, menos fácil e eu gostei disso.
Assim, por um momento me senti aliviado, era algo bom gostar da pessoa que seria a mãe do seu filho, no fim conviveríamos durante nove meses, mas então meus olhos se desviaram até o decote que ela ostentava e comecei a suar frio.
Não, aquilo não ia ser bom.
Deus, onde eu estava me metendo?


Capítulo 1


A implantação havia sido um sucesso e eu ainda não sabia como me sentia sobre isso.
Havia um bebê sendo gerado no meu útero, mas ele não era meu.
E talvez isso deveria me perturbar de alguma forma, mas eu realmente precisava daquele dinheiro.
me acompanhou durante todo o procedimento na clinica que ele escolheu, sempre com a uma aparência polida e atitudes serias, não questionou sobre nada enquanto esteve lá, o que ate me surpreendeu, dada a forma como nos conhecemos.
Era ate engraçado, de certa forma.
Então nós começamos o pré-natal após o positivo de um teste de gravidez e em uma daquelas consultas a medica responsável pelo meu tratamento disse que poderíamos ouvir o coração do bebê, e claro que ele quis, mas de repente tudo havia mudado para nós dois.
Acho que naquele momento percebemos que aquilo era real de verdade, que estava acontecendo.
Eu estava grávida, e merda, eu ainda não sabia lidar com aquilo, não sabia como pensar, como agir.
Meu primeiro pensamento foi: Porcaria! E as latas de cerveja que eu estava guardando pra domingo?
Não esperava que desse tão certo assim, não logo de primeira.
Quando Jason apareceu no meu apartamento dizendo que conhecia alguém que poderia me arranjar muito dinheiro, não pensei muito sobre aquilo, afinal, ele não estava dizendo para que eu vendesse drogas ou algo do tipo, era só algo como "alugue seu útero por uns milhões", e bom pareceu uma boa oferta naquela hora.
O caso era que eu precisava sair da cidade antes que eles me encontrassem de novo.
E eu sentia o desespero se esgueirando em minha pele a cada dia, eles estavam mais perto de mim, procurando nas migalhas que eu deixava ao me mover, eles me achariam novamente, eu sabia.
Mas o meu aluguel estava atrasado e eu tinha gasto minhas ultimas vinte pratas em uma refeição, não podia mexer na conta sem que eles me rastreassem e ainda não havia recebido meu ultimo pagamento na pizzaria do seu Mario, então eu não estava pensando muito nas consequências e em meio ao meu desespero eu só conseguia pensar: Por que não?
Mas era tão difícil! Na maioria das vezes eu só queria fumar um cigarro, mas era uma das restrições na porcaria do nosso contrato.
Eu não queria me importar tanto com isso, mas eu me importava.
Então, somando toda essa confusão em minha mente ainda havia o pai do bebê.
Ele era um pouco chato as vezes, mas nada que eu não pudesse suportar.
Eu sabia que ele seria um bom pai, via a forma como ele se importava com aquela gravidez.
Aquele bebê teria muita sorte.
Hoje nós estávamos no meu apartamento, mantínhamos uma relação amigável e os encontros como esse já haviam se tornando comuns durante aqueles 7 meses de gestação.
Contudo, ele estava bebendo aquilo rápido demais.
O jogo de basebol que ele havia feito tanta questão de assistir na televisão estava perto do intervalo e aparentemente seu time estava perdendo.
Ele estava incomodado, e até mesmo um pouco bêbado depois de entronar aquelas latas de cerveja tão vorazmente.
Definitivamente não estava bem e nem o fato de que eu estava do seu lado, com aquela barriga enorme que ele tinha tanto orgulho de estar pagando estava o ajudando.
O que me levava a pensar que a merda era bem fedorenta, já que desde que aquela implantação havia sido um sucesso ele não aparentava estar tão mal assim, nem havia bebido tanto como hoje, era uma felicidade quase irritante.

- Okay, isso não vai te ajudar! - eu tentei, falando e esperando que ele prestasse atenção em mim, não deu muito certo.
praticamente não meu ouviu, seus olhos continuavam vidrados na televisão, mesmo quando apenas um comercial qualquer estava passando.
Suspirei.
Não sabia porque estava preocupada, bem eu não deveria ao menos, contudo vê-lo daquela forma me abalava.
Sua gravata estava torta e ele parecia uma confusão muito maior do que da primeira vez que nos conhecemos naquele bar.
Seus olhos não tinham brilho, caídos e meio vermelhos e as roupas estavam amassadas.
Não era mais o bom garoto criado para fazer as coisas certas, naquele momento ele quase pareceu acessível, tão normal como qualquer outro homem de 32 anos em um dia ruim.
E aquilo era assustador.
- . – Chamei, tocando em seu braço para finalmente roubar sua atenção para mim.
Assim ele me olhou, de rabo de olho enquanto levava a lata da cerveja para tomar mais um gole, apenas um pequeno e discreto sinal de que ele estava me ouvindo. Ou não.
Engoli em seco, a minha mão que descansava sobre a barriga já sobressalente por causa do bebê começou a acariciá-la em um movimento de vai e vem, um pequeno costume que havia desenvolvido durante aquela gestação.
Agora eu me sentia incomodada, um pouco borbulhante e começando a suar por todos aqueles poros em meu corpo.
Não fazia sentido, mas havia borboletas fazendo companhia ao feto.
Uma verdadeira panapaná viva.
- Você quer conversar? - falei lentamente.
Ele apenas maneou a cabeça, não dando muita importância a mim, entretanto os olhos logo desviaram-se para o movimento que eu fazia em minha barriga.
Então, eu vi o brilho volta aos seus olhos e algo o atingir forte, talvez a sanidade.
Ele suspirou, um pouco contrariado, e levou a lata que estava em sua mão até o pequeno centro que eu mantinha na sala.
Estava ansioso, mexendo no cabelo com ambas as mãos ao finalmente vira-se em minha direção no sofá.
- Me desculpe. - disse um pouco embolado e percebi sua postura sendo corrigida, as mãos indo ate o colarinho da camisa e a ajustando como se tentasse voltar ao mesmo exemplar de garoto bom que eu não suportava - hoje foi só um dia mais difícil do que os outros.
E eu acreditei que realmente havia sido, desta forma, apenas assenti, vendo-o jogar a cabeça para trás no encosto do sofá, contrariando a imagem perfeita e controlada que ele sempre pintava a todos.
- Os chineses estão tentando negociar com 14% a mais do que nós já havíamos acordado no mês passados e estão ameaçando dar pra trás com toda a negociação, nós vamos perder muito, muito dinheiro mesmo, se eles fizerem isso.
Assenti mais uma vez, mesmo sabendo que ele provavelmente não estava me vendo, já que enquanto ele falava levou as mãos ao rosto como já era de costume.
Eram sempre os negócios! E eu realmente não entendia muito do que ele falava sobre esse assunto, na verdade não me importava muito também.
Eu apenas queria que ele me desse o resto do meu dinheiro quando aquele bebê saísse de uma vez de dentro de mim - também não me importava muito como seria, desde que saísse.
No fim, era horrível estar grávida! Eu já não suportava mais aquilo.
As coisas não haviam melhorado desde o primeiro mês, não havia nada de mágico, muito menos incrível - as vezes eu gostaria de dormir a noite sem acordar com cãibras nos membros inferiores ou de passar o dia sem ter uma vontade incontrolável de ir ao banheiro o tempo todo.
Todavia, já estava no fim, mais algumas semanas e o bebê estaria arrombando a minha vagina enquanto tentava escapar para o mundo por ela e eu poderia finalmente sair daquela cidade o mais rápido possível, antes que eles me encontrassem de novo.
Estremeci, finalmente percebendo que continuava a falar sobre o seu dia ruim:
- ... E eu tinha que fazer alguma merda, claro! - se interrompeu, rindo sem humor, não mais conseguindo continuar.
Mordi o lábio inferior sem saber o que fazer, ele sempre me deixava sem jeito, e eu sempre odiava isso.
Suspirei, levando a mão ate o pingente em forma de kiwi que havia ganhado no meu aniversário de 12 anos. Era engraçado como uma coisa tão pequena carregava o peso da minha vida.
Eu acabaria morta por causa daquilo, de uma forma ou de outra, só precisava ganhar mais tempo pra mim mesma.
Contudo, eu sempre me sentia mais calma ao toca o kiwi, era como eu, maduro, mesmo sendo tão verde.
Olhando para ao meu lado, ele ainda parecia acabado, as mãos agora em sua cabeça, os olhos fechados, marcados por rugas de preocupação.
Ele estava sempre tão centrado nesses meses, sério e um tanto nervoso as vezes era difícil imaginá-lo diferente, mas era bom vê-lo sem essa máscara de perfeição que ele colocava sobre si mesmo.
Me aproximei dele, com intenções melhores do que as que eu geralmente tinha, ou ao menos queria acreditar naquilo, e puxei uma das mãos que estavam sobre a sua cabeça.
Nesse momento ele abriu os olhos e a cabeça mexeu-se lentamente fazendo o azul em suas íris se fixarem em mim e quando os nossos olhos se encontraram eu senti aquela conexão estranha involuntária que estava se desenvolvendo entre nós a alguns meses, era uma corrente elétrica que repuxava sobre os meus ossos e deixando a minha pele arrepiada.
Prendi a respiração, mas uma vez sem entender o porque, fazia aquilo comigo, e eu sempre ficava perdida com as coisas que ele provocava em mim, que ele me fazia fazer sem motivo nenhum.
Então, enquanto ele ainda me olhava fechou a sua mão sobre a minha que ainda a segurava.
Engoli em seco, desviando então os meus olhos até as nossas mãos juntas; a sua era bem maior que a minha e ela perecia se perder sobre a dele, confortável e segura, parecia tão certo, mesmo quanto na verdade era bem errado.
- Hey. - ele disse, levando a outra mão até meu queixo e puxando delicadamente para que eu pudesse encará-lo novamente. - Você é tão linda.
Sorri, algo falho e um pouco tremulo.
Senti meu coração retumbando em sua caixa torácica, alimentado por uma repentina bomba de adrenalina.
E até tremi um pouco também.
Seus olhos não desviaram dos meus, puxando-me para uma teia na qual eu queria estar presa.
Todavia, enquanto eu estava muito surpresa para reagir ele se moveu contra mim, rápido de mais para que eu pudesse refutar, seus lábios estavam contra mim, pressionando de forma exigentes.
Eu estava paralisada, em um verdadeiro estado de choque.
era lento demais, as vezes até parecia não estar tão interessado assim, mantendo toda a nossa relação estritamente profissional e voltada ao bebê.
Mas eu estava gostando da pressão que ele exercia sobre mim e até mesmo do cheiro inebriante de álcool que ele emanava.
Era calmo, um pouco delicado, mas excitante também.
Abrindo lentamente a boca, dei a liberdade que ele queria, mas continuou parado, esperando uma permissão que mesmo meio bêbado seu lado cavalheiro insistia para ter.
Assim, eu cansei! Movi-me contra ele da forma que todos aqueles hormônios estavam implorando para fazer já fazia algum tempo.
Avancei sobre ele, levando minhas mãos ate sua nuca e içando-me para cima enquanto minha língua explorava sua boca.
Senti a barriga de 7 meses encontrar o seu corpo em um claro: Foi até aqui, limite rígido.
Então as suas mãos migraram ate minha cintura desaparecida com os kilos ganhos da gestação, apertando aquela região com cautela enquanto parecia cada vez mais interessado.
era bom naquilo, muito melhor do que eu poderia ter imaginado - e obviamente eu já havia.
Eu deveria ter feito isso a mais tempo! Mesmo ele sendo insuportável na maior parte do tempo.
Entretanto, quando nós estávamos nos animando com aquilo, senti algo ganhar vida no meu útero.
Remexendo-se e roubando uma parte do ar que eu já não tinha, fazendo-se presente e implorando por atenção.
rapidamente quebrou nosso beijo, sentindo o mesmo que eu por causa da região onde suas mãos estavam.
Seus olhos pareciam arregalados por um momento, embora brilhassem, felizes e completo.
- Ciumenta! - ele sussurrou para a barriga ao tempo que suas mãos começaram a acariciar aquela região.
Então seus olhos subiram e encontraram os meus novamente, havia um brilho que eu descobrirá adorar de ver nele.
- Você me deixa louco. - disse, seu timbre baixo e seus olhos fixos nos meus.
Eu gostei.
Ele estava excitado, e eu pronta para me diverti naquela noite.


Capítulo 2


Acordei naquela manhã com o sol beijando o meu rosto.
Minha cabeça latejava e meu corpo estava dolorido.
Entretanto eu me sentia bem, meus lábios estavam moldados em um sorriso pleno, e todo o incomodo que eu sentia era o de menos.
Remexi-me, roubando um pouco mais do lençol pra mim.
George ainda dormindo ao meu lado, com a mesma cueca box escura que ele estava na noite passada, em respeito a mim. resmungou, virando-se e pondo um braço no rosto recusando-se a acordar
- Você vai se atrasar desse jeito. - Eu disse a ele em uma voz baixa e ainda rouca de sono, ainda havia um sorriso bobo em meus lábios, por mais idiota que aquilo fosse não conseguia me controlar.
Estava feliz, e era tudo culpa dos malditos hormônios.
Dar uns amassos na noite passada com não havia sido algo tão espetacular, mas de alguma forma meu corpo achava que sim.
Eu estava mesmo precisando de uns beijos e de todo o resto, era verdade, principalmente com todo esse descontrole químico acontecendo dentro de mim, mas eu também estava respondendo de uma forma exagerada. Não era pra tanto
Era !
Então ao meu lado a bela adormecida pareceu acordar novamente, movendo o braço do rosto e o deitando na cama.
Tinha um olhar perdido enquanto encarava o teto do meu apartamento por entre a fresta formada pelos olhos semicerrados.
Parecia confuso e com dor.
A ressaca conseguia ser uma merda bem grossa saindo por um buraco estreito quando ela queria.
Assim eu gargalhei, porquê era muito engraçado vê-lo desse jeito, foi algo breve, anasalado, contudo o suficiente para chamar sua atenção.
Seus olhos rapidamente voltaram-se para mim e quando me viu ao seu lado, ele pareceu ainda mais confuso, de repente a testa estava tomada por vincos e os lábios franziram-se.
Percebi quando seus globos oculares viajaram em volta da minha barriga grávida onde a camisa enrolava em volta que aparentemente era muito lerdo pela manhã quando acordava
Por um tempo ele ficou parado, fixo ali, então de repente, como se uma luz houvesse sido acendida para ele, sua sanidade pareceu retornar a si.
Vi quando seus olhos se arregalaram em desespero, parecia assustado e até mesmo em pânico.
Não olhou para mim, mas sua cabeça parecia latejar - Que bom.
- O que aconteceu ontem? - sua voz não passava de um sussurro grogue entrecortada.
Senti meu coração murchar em meio peito.
Estava um pouco decepcionada por seu súbito lapso de memória, não deveria ter esperado tanto de sua parte, afinal ele era um idiota, mas eu queria que ele se lembrasse.
Okay, eu queria repetir. Mas dava no mesmo.
Ao meu lado ainda parecia assustado, era como se ele não soubesse o que fazer diante de algo que dera muito errado, e o pior, o erro era eu.
Na minha barriga, o bebê mexeu, acordando, no íntimo esperava que ela estivesse tão decepcionada quanto eu me sentia.
- O quê? - disse retoricamente.
Nos lábios eu mantinha um sorriso, agora um pouco mais irônico.
Estava dizendo a mim mesma que não me importava com isso, e quando se vivia fugindo aquilo que estava acontecendo não era bem uma novidade. Você não pode deixar seu coração em cada fim de mundo que passa, e os caras que não ligavam muito de serem apenas uma noite para uma garota sozinha há algum tempo eram bastante.
Então, definitivamente eram os hormônios, não eu.
Odeio estar grávida.
De qualquer forma, apenas apoiei meus braços contra a cama erguendo-me para me ajudar a levantar, estava cansada dessa merda toda e eu precisava fazer xixi.
Assim, já sentada na cama, levei meus braços até meu pescoço removendo o meu colar, ele não podia ser molhado no meu banho matinal, iria detonar o cartão de memória que minha mãe havia escondido ali.
- O que você está fazendo? - ele me perguntou.
Virei-me em sua direção, vendo o mesmo olhar confuso em seu rosto.
Oras, me poupe, eu não preciso disso.
- Vou tomar banho, por quê? Quer me acompanhar?
Vi suas maças do rosto ficarem vermelhas enquanto ele corava.
Era fofo.
- Não. - sussurrou, mas sua negativa parecia mais para si próprio do que pra mim.
Dei de ombros, levantando-me totalmente para ir ao banheiro.
A bexiga de uma grávida poderia ser muito pequena quando uma criança a estava comprimindo.
Então corri de uma forma um pouco desengonçada em meio ao peso desproporcional na minha dianteira ate aquela pequeno cômodo mágico, levantando de forma rápida a tampa da privada assim que entrei.
Abaixei tudo de uma vez e sentei-me, sentindo aquele líquido amarelado descer de dentro de mim.
Ahhh o alívio.
Nada deveria ser tão bom quanto isso! Ele não era superestimado.
Não estava tão apertada como geralmente acontecia de manhã, mas não importava, era bom do mesmo jeito.
Suspirei, limpando-me e começando a me preparar para o banho, mas enquanto estava lá puxando a barra da camisa para removê-la percebi que havia esquecido a toalha.
Droga! Isso sempre acontecia comigo, eu precisava começar a deixar uma ali, mas achava tão nojento!
Eu estava sempre na internet – mesmo em meio aos riscos - e todo esse tempo online me permitiu ver os artigos sobre os micro-organismos que governam um banheiro, mesmo depois de muito alvejante e água sanitária.
Então deixar um pedaço de pano ali, indefeso e exposto a todos aqueles serezinhos microscópicos era nojento pra mim, principalmente sabendo que eu iria me enxugar com aquilo depois.
Vesti-me novamente, dada a presença de um convidado em casa e sair em busca da toalha para meu banho .
Entretanto estanquei na porta assim que a abri.
Na cama tinha meu cordão em mãos, o ferro enrolado em volta do pulso, preso entre os seus dedos enquanto seus olhos estavam fixos no kiwi, o analisando e estudando.
Senti meu coração acelerar.
Que merda! Que merda!
- O que você está fazendo? - perguntei por impulso, a voz esganiçada, um pouco estridente de mais.
Minha mão estava na barriga e o olhava de forma acusadora enquanto apoiava o resto do corpo no batente da porta.
Ele não deveria estar mexendo nas minhas coisas, muito menos no meu kiwi.
A seu crédito, ele me olhou assustado, a mão com o colar rapidamente abaixou-se enquanto ele se livrava do adorno no colchão.
Então uma de suas sobrancelhas se arqueou e ele já não parecia tão culpado ou assustado como antes, tinha a testa vincada como se não entendesse a minha reação, genuinamente, parecia apenas confuso.
- Nada. - disse simplesmente, se deitando novamente na cama, os braços cruzados atrás da cabeça. - eu apenas nunca havia reparado no seu cordão. Um kiwi, hein? Quem diria.
Sua voz era calma e me pareceu sincero. Não me importava, era errado tocar em algo sem autorização.
Marchando ate sua direção, peguei o meu cola de novo, apertando-o com força contra a minha mão.
- Tem valor emocional. - disse simplesmente encarando-o de um jeito sério, esperando que ele entendesse entre as entrelinhas.
Ele apenas assentiu, ainda deitado.
Seus olhos se encontraram com ao meus, e eles não transmitia nada além de calma e tranquilidade.
Engoli em seco, virando-me ainda com o colar em mãos ate onde deixava a minha toalha no quarto, pegando-a e voltando para o banheiro
Lá tranquei a porta, deixando o cordão no pequeno armário que havia ao lado do espelho.
Eu estava terrível, e sentia meu corpo tremendo.
não deveria ter chegado tão perto do kiwi, percebi que eu estava sendo negligente.
E isso não poderia mais acontecer.


Capítulo 3


Aos poucos minha relação com havia voltado ao normal.
Nós estivemos estranhos por um tempo, e ficar perto do outro acabava por remeter aquela fatídica manhã de sábado.
Aparentemente ele nunca se lembrou do que aconteceu, e eu não me importei de o recordar.
Nossos encontros tornaram-se escassos e ele sempre tinha alguma coisa na empresa para resolver.
Mas então tivemos mais uma consulta, e ver a ultrassom o ajudou a perceber que fugir só o estava deixando distante da gestação da filha.
E bom, ele estava investindo um bom dinheiro nisso para não acompanhar.
Todavia, eu preferia me manter distante dele desde que o vi com o meu kiwi, o cartão de memória ainda estava ali, mas eu não podia me deixar tão indefesa assim.
Desta forma, apesar de que estivéssemos mais próximos desde a consulta, eu ainda não havia o deixado tão próximo de mim.
Hoje eu estava deitada no sofá em frente a televisão, era feriado, ação de graças e estava passando a reprise de "esqueceram de mim 2" em algum canal.
deveria estar chegando, havia me mandado uma mensagem a umas duas horas dizendo que estava saindo para buscar sua mãe no aeroporto e iria compra uma pizza quando viesse para o meu apartamento, depois de deixar a mesma em casa.
Eu não me opus, pizza era pizza afinal.
Ele já havia me convidado para a ceia que sua mãe faria naquela noite para a família, mas eu recusei, não me sentiria bem-vinda e não via muito sentido na comemoração desse feriado, talvez porque eu nunca houvesse o comemorado de verdade.
Voltei-me para o meu filme, antes pegando um pouco da pipoca de micro-ondas que havia feito logo nas primeiras cenas de esqueceram de mim, entretanto no centro vi quando meu celular acendeu, anunciando uma nova notificação o que acabou por roubar a minha atenção.
Estiquei-me, pegando o aparelho e imaginando que era mais uma mensagem de .
Não era.
O número era desconhecido e eu nunca o havia visto antes.
Engoli em seco.
Isso não me parecia bom.
Senti minha pele arrepiar e um calafrio subir por minha espinha.
Estava suando, em puro pavor.
Isso já havia acontecido antes, e no fundo eu sabia o que aquilo significava, abrir a mensagem mesmo assim.

Talvez possamos passar essa noite juntos, nada como um reencontro familiar na ação de graças, não é mesmo, kiwi?
Abra a portas às 21h, papai está chegando. Temos contas a acertar.

Não! Não! Não!
Ele havia me encontrado de novo.
Ou ao menos quase isso.
Ainda estava me procurando em meio ao seu jogo doentio, dando as cartas e esperando meu próximo passo.
Eu estava tremendo, o coração batia acelerado enquanto minhas vísceras se retorciam em meu ser.
Sentia o medo preencher meu corpo, pulsando em minhas veias e me corrompendo enquanto o sangue circulava por meus vaso.
Eu precisava fugir! Sair daqui o mais rápido possível enquanto ainda não estava nas mãos dele. Eu sempre fui boa nisso, esse foi sempre o meu próximo passo.
Contudo, ele estaca ficando melhor nisso, me encurralando ate que não houvesse saídas. Era um gato brincando com a presa em mãos, dando-a esperança ate que ele se canse, até o momento que a própria presa perceba que nunca houve chances; ela estava morta desde o momento que o gato a pegou.[a[
A esperança era uma merda mesmo!
Levantei-me de forma desajeitada acabando por derrubar a bacia de pipoca que estava apoiada em cima da minha barriga.aa
Era um grande desperdício de milho, mas não havia tempo para me preocupar com isso, ele estava me rastreando agora, havia capangas na cidade farejando meu rastro para leva-me de volta ao monstro.
De qualquer forma, andei rapidamente pelo corredor que me levaria ate meu quarto onde deixava guardado meu kit de emergência.
Ele ficava escondido em um fundo falso em baixo de uma cômoda velha, e eu sempre o montava quando mudava para um novo lugar.
Abaixei-me, abrindo o esconderijo de qualquer forma e retirando meu notebook dali, apertando sucessivamente o botão para que ele ligasse, apenas sossegando quando ele ascendeu para uma coloração azul e tela ganhou via e ligou, iniciando o sistema aproveitei e peguei uma arma e balas que mantinha ali também.
Eu estava tremendo demais e lagrimas haviam sido formadas em meus olhos em resposta ao meu pânico.
Sentia-me sendo sufocada.
Mas eu precisava me manter calma, assim a única coisa que eu conseguiria era ser capturada.
Então, carreguei a arma, mesmo com meus dedos trêmulos, e a depositei ao meu lado, assim que na tela apareceu o pedido de usuário e senha, preparada para pega-la a qualquer momento.
Suspirei, tentando me acalmar, meus dedos rapidamente foram em volta do cordão.
Ele não o pegaria. Eu não ia deixar.
Assim, apesar da pressa, digitei lentamente meu usuário e senha no teclado do notebook, apertando letra após letra, número após número.
Eu não conseguia ser rápida nesses momentos, nunca estava preparada para isso, mesmo já tendo acontecido tantas vezes.
Então o computador ligou e eu o conectei a internet com o wi-fi do prédio já memorizado, enviei rapidamente uma mensagem criptografada para James, era simples composta apenas por um número 174 ele saberia o que fazer.
Sentia minha pressão subindo, aumentando a cada minuto, eu não sabia o que fazer.
Como eu fugiria grávida? O que eu faria com um bebê?
Talvez pudesse voltar depois do nascimento e entregar a , nem cobraria a segunda parte do dinheiro já que ele provavelmente estaria muito puto com isso.
Bom ao menos era melhor ele ter perdido o nascimento do bebê e ainda ter um do que enterrar meu corpo com o feto dentro.
Um som saiu do computador anunciando uma mensagem quase imediata de James: 932.
Suspirei. Tudo ia dar certo.
Em breve eu teria uma nova identidade, seria outra pessoa.
Mas não me sentia bem o suficiente para abandonar a ainda, no fim eu nunca estava preparada para abandonar nenhuma delas.
Mary, Kara, Esheley, Kiwi, eu era todas elas, uma mistura complexa de cada personagem que assumir em minhas fugas.
Entretanto, enquanto eu ainda estava sentada no chão do meu quarto ouvi quando a porta, provavelmente da frente, foi aberta.
Eu não estava mais sozinha.
Arfei, pegando rapidamente minha arma e a destravei como Gush, um dos subordinados ao meu pai, havia me ensinado a tanto tempo, deixando-a preparada para um disparo, estava tremendo, mas estava mirando o cano na direção da porta do meu quarto.
Eles haviam sido mais rápidos dessa vez.
Então a porta abriu e eu não pensei nas consequências, com o coração batendo acelerado, carregada pela adrenalina, fechei os olhos e apertei o gatilho.
Um grito ressoou.
- Você está maluca! - gritou uma voz conhecida, parecendo assustada.
Abri os olhos constatando que na verdade era apenas .
À bala não o atingiu, aparentemente minha mira era terrível e agora ela estava alojada em um buraco na parede ao lado do batente da porta.
tinha os olhos arregalados fixos em mim, ou na arma em minhas mãos.
Parecia assustado, as mãos sobre a cabeça denunciando que ele não sabia o que fazer.
Estava paralisado.
Merda! Eu havia atirado no !
Okay, o tiro não bateu nele, mas eu precisava me acalmar, muito.
Ainda tremia, e os espasmos só haviam aumentado devido a força do disparo, lágrimas começaram a escorrer por meu rosto enquanto minhas vísceras se contraiam.
Eu não queria morrer

- , abaixa essa arma. - disse , calmo e lento.
Então ele começou a se aproximar de mim no chão do quarto, os braços levantados dizendo que não iria fazer nada, não era perigoso, era um sinal de paz.
Eu sabia disso, assim eu abaixei, como ele havia me pedido para fazer.
Sentia-me mais segura agora que ele estava ali, mas não deveria, era loucura.
Eles também não teriam piedade dele. Eles não tinham piedade de ninguém.
- Va embora, , por favor, só vai embora. - disse em meio às lágrimas, a voz trêmula e embolada.
Ele maneou a cabeça, firme e conciso.
Suas mãos se estenderam ao meu redor segurando meus braços enquanto ele se acocorava no chão.
- O que está acontecendo? Diz pra mim.
Mas eu não podia dizer. Haveria um alvo em suas costas assim como na minha se eu fizesse.
Ainda não haviam me achado, mas pegariam ele e o bebê.
O bebê! Ela não podia ficar sem pai assim.
Não poderia ficar desamparada desde forma.
Sem mãe. Sem pai.
- Não é da sua maldita conta! - gritei, por que eu sentia uma raiva me dominando que eu não podia controlar.
O mundo era uma merda mesmo.
Contudo, não se abalou continuou me segurando firme, obrigando a me concentra nele.
Seus olhos estavam caídos e tristes e havia uma tensão sendo emanada dele.
Estava preocupado.
Mas, droga, eu também estava.
- Eu quero te ajudar , mas se você não me contar o que está acontecendo eu não posso fazer nada.
Oras, querido, pois bem, a qualquer momento Paul vai me achar, era um fato, ele sempre me achava, mas de alguma forma eu conseguia fugir antes que a situação piorasse.
Então, quando eu não conseguisse fugir mais, meu querido pai iria me torturar, apenas por todo o tempo que ele teve que procurar por mim e depois mandaria me enterrar em uma cova rasa, talvez eu ainda estivesse viva apesar de muito machucada para fazer alguma coisa.
Eu já havia o visto fazer isso antes, eu sabia que ele faria pior por mim.
Solucei. Eu precisava sair daqui! Estava nervosa, aterrorizada e os hormônios não estavam me ajudando.
Senti o bebê mexer seguido de uma pequena cólica na região.
Contrai-me.
- Que merda, ! Eu vou ter o seu bebê, mas isso não te dar o direito a se meter na minha vida. Eu não preciso da sua ajuda, eu não quero a merda da sua ajuda!
Vi quando ele engoliu em seco parecia querer refutar, mas não fez.
Todavia a cólica aumentou, sentia meu útero se contrair fortemente, e as vibrações percorriam toda a minha barriga.
Droga. Aquilo doía pra caramba.
Não deveria estar sentindo aquilo agora, ainda era cedo de mais para contrações.
Então eu vi quando os olhos de se arregalaram, ele já não olhava mais para meus olhos, mas sim para a calça legging que estava usando.
Acompanhando seus olhos eu me assustei.
Havia uma grande mancha vermelha sendo formada no tecido amarelo, colorindo a calça clara de uma coloração quase laranja.
Eu estava sangrando. Que merda!
O que estava acontecendo?
Arfei, sentindo outra contração.
- Nós precisamos ir para um hospital. - ele disse sério, levantando-se logo após sua sentença.
- O que está acontecendo? – perguntei.
Ele então virou-se pra mim, as mãos haviam voltado ao cabelo, bagunçando em meio ao seu desespero.
Estava perdido e sem ação.
Por um momento, não disse nada, seus olhos estavam fixos nos meus e ele parecia tão nervoso e preocupado e assustado.
Não sabia o que fazer.
Sua testa franzida seu rosto ganhando uma coloração avermelhada. Eu via o seu desespero, e sabia que não era algo bom.
Então ele finalmente falou algo, foi baixo e raivoso, mas eu senti meu mundo vindo abaixo:
- Você está perdendo o meu bebê.
Aquilo não podia ser verdade, mas era e doía pra caramba.


Epílogo


Eu não estava aguentando aquilo.
A aflição estava me corroendo, batia meus pés continuamente contra o piso ladrilhado do hospital enquanto meus olhos estavam fixos no relógio.
Elas já haviam entrado há muito tempo.
Meu corpo estava inclinado naquele sofá e eu mantinha meus braços apoiados em minhas pernas segurando minha cabeça com as mãos.
A sala de espera ainda estava praticamente vazia como quando eu cheguei, muitos funcionários estavam de folga devido o feriado e aparentemente apenas mais dois casais estavam se utilizando só plano de emergência do hospital.
Suspirei, elevando meu corpo e jogando minha cabeça contra a apoio do sofá.
Sentia meu celular vibrando em mais uma provável ligação da minha mãe, mas eu não podia atender, não conseguia, não queria.
Meu coração bombeava de forma impossível em peito, nunca havia o sentido tão acelerado assim.
Não podia perdê-las, apenas, não podia.
Nunca havia dirigido tão rápido em minha vida como naquela noite, havia mantido uma mão no volante e outra na buzina, implorando a todo e qualquer motorista que estivesse na minha frente que me deixasse ultrapassá-lo, era ação de graças e aquilo estava um inferno, e eu posso ter recebido algumas multas também.
Mas eu estava tão assustado, havia tanto sangue em , e eu nunca havia a visto grita tanto, ela chorava em desespero e eu chorava junto com ela.
Suspirei, vendo o relógio mudar seus ponteiros mais uma vez.
Os médicos precisaram fazer uma cesariana de emergência quando chegamos, ela não tinha passagem suficiente para o feto e o bebê estava morrendo dentro dela.
Morrendo! Eu estava perdendo a minha filha e aquilo doía tanto, eu apenas não conseguia lidar com aquilo.
Não me deixaram entrar na sala de parto, eu estava nervoso de mais então fui barrado pelos médicos e então mandado para a sala de espera. Era uma operação de emergência, afinal, e naquele momento apenas a equipe médica do hospital estava autorizada naquele momento.
Assim apenas ganhei um calmante de uma enfermeira de plantão e ela aferiu minha pensão também, vendo que estava um pouco mais alta que o normal.
Oras, minhas meninas estavam em uma cirurgia, eu tinha o direito de passar mal.
Meus olhos então se desviaram para o teto da sala de espera quando os segundo passavam, mas os minutos continuavam intermináveis.
Além de tudo eu ainda estava preocupado com , ou seja lá qual fosse o seu nome.
Quando acordei ao seu lado naquela manhã, minha memória eram apenas flashs, flashs muito bons, mas nada além disso.
Eu queria que tivesse algo mais a lembrar, mas no fundo sabia que ela era muito jovem ainda.
Jovem demais para mim.
A verdade é que eu não queria que ela perdesse sua juventude comigo, assim, a melhor coisa a se fazer era esquecer.
Então quando ela entrou no banheiro e eu vi o seu colar feio, eu apenas queria olhar mais perto para ele, estava ate rindo um pouco, afinal era a porcaria de um kiwi, eu nunca imaginei encontrar aquele maldito cartão em uma das bordas do colar.
Ele era muito perceptível, afinal era um filete preto em algo muito verde, era de uma marca popular então eu estava curioso para saber o conteúdo do cartão de memória, desta forma apenas troquei com o do meu celular, estava observando se havia ficado igual quando ela apareceu tão assustada e quase me pegou no flagra.
Talvez ela devesse ter percebido o que fiz antes que eu pudesse ver o conteúdo do cartão.
Ele estava codificado, e eu sozinho não conseguir fazer muitos avanços, tive ajuda de uma rapaz que trabalha comigo na empresa. De primeira, não parecia nada de mais, eram apenas algumas folhas de pagamento na maioria das pastas, então, percebi que a mercadoria tratada nas folhas, era a morte.
A porcaria de uma facção de assassinos de alugueis da Rússia.
Que merda! Só podia ser uma brincadeira de muito mau gosto, eu não fazia a mínima ideia do que ela fazia com aquilo ate que eu vi a droga do seu rosto em um dos arquivos.
Ela estava mais nova, seu cabelo na época era ruivo e eu quase não a reconheci, foram seus olhos, grandes e azuis que a denunciaram.
O nome do arquivo se sua foto era Kiwi.
Ela fazia parte de tudo aquilo.
Eu não sabia o que pensar. A jovem e doce era uma assassina.
A mãe da minha filha era uma assassina, em que tipo merda que eu pisei?
Então eu a vi com aquela arma hoje e eu percebi que ela era tudo menos aquilo.
Eu não entendia mais o que estava acontecendo e eu apenas queria que ela me explicasse aquela merda toda, mas ela não falava comigo. Sempre tão fechada e dona de si, sua independência era muito irritante às vezes.
De qualquer forma passos roubaram minha atenção, fazendo com que eu erguesse minha cabeça para um médico e abandonasse meus pensamentos por um tempo.
Eu o reconheci, era o mesmo que havia estado a frente do centro cirúrgico que faria o parto de
, a minha filha.
Havia um sorriso tranquilo em seu rosto e isso me deu um pouco de paz.
- , ? - ele perguntou olhando pela sala de espera.
Levantei-me ao seu chamado. Uma de minhas mãos rapidamente indo ao rosto enxugando as lagrimas renascentes ali e assim aproximei-me de onde ele estava em passos lentos e um pouco cambaleante.
- Sou eu. - disse olhando em seu rosto. - Como elas estão doutor?
Por um momento ele me analisou, o mesmo sorriu calmo vendo o meu desastre.
A minha roupa estava toda amassada e havia manchas do sangue de em algumas partes da minha camisa de quando a carreguei em meus braços, meus olhos deveriam estar inchados por causa do choro e acredito que meu nariz estivesse vermelho também.
O medico então voltou-se para sua prancheta antes de olha para mim novamente.
- Está tudo bem, elas estão bem, a mãe ainda estar sedada, mas se quiser ver a menina, ela está na incubadora.
Suspirei, permitindo que um sorriso de alivio se forma em meus lábios.
Elas estavam bem.
Tudo estava bem.
Sentia como se um peso estivesse saindo dos meus ombros e finalmente eu pudesse descansa depois de tanto tempo.
- Por favor, me leve até a minha filha
Ele assentiu me guiando por um corredor ate a ala infantil do hospital.
Não prestei atenção aos detalhes no ambiente, estava flutuando em mim mesmo.
Então ele abriu uma porta e lá na incubadora eu a vi pela primeira vez.
Minha filha, tão frágil e pequena, tão linda.
Havia pequenos tubos em seu narizinho a ajudando a respirar naquele novo ambiente, e pequenos fios conectados ao longo de seu corpo, entretanto ela parecia sorrir, os pequenos lábios em formato de coração estavam abertos um pouco esticados em seu rostinho enrugado e magro, seus olhos estavam fechados e mesmo sendo tão pequena havia um tufo de fios escuros em sua cabeça quase careca.
Senti as lágrimas descerem por meus olhos mais uma vez, contudo eram plenas, de completa alegria e satisfação.
-Hey, amor. - disse me aproximando da incubadora aproximando meu rosto ainda mais do da pequena e frágil menina. - o papai está aqui.
Então rir em meio as lagrimas, meus lábios estavam estirados em um sorriso bobo que eu não conseguia deter. Doía saber que ela estava ali, mas era tão bom finalmente conhecê-la, eu estava feliz, realizado.
Sentia meu coração se expandindo em meu peito, inchando de amor, crescendo completo por causa daquele pequeno ser.
Ela já nascera tão forte naquele pequeno, magro e frágil corpinho, eu sabia que em breve ela sairia daquela incubadora e eu finalmente poderia a pegar em meus braços.
Minha filha, minha menininha.
O mundo brilhava mais bonito desde que a vi pela primeira vez.

...


Já haviam se passado dois dias que a minha filha nasceu, minha mãe veio visitar a neta assim que contei a novidade, algumas horas depois que o dia de ação de graças havia terminado.
Ela claramente não gostou de saber tão tarde, queria estar do meu lado naquele momento, e eu percebi que haveria gostado de não ter passado por aquilo sozinho.
ainda estava na incubadora, mas as perspectivas eram boas, ela era forte e logo sairia dali.
Naquele momento eu estava no quarto de , ela havia estado muito agitada desde que acordou e os médicos tiveram que a manter sedada por um tempo.
Era a primeira vez que a via acordada.
Ela ainda estava se recuperando do parto, estava muito fraca e seus olhos quase não se mantinham abertos. Não era a mesma garota que conhecia.
- Como ela é? - me perguntou baixinho quando eu comecei a acariciar a sua mão.
Sorri de um jeito meio bobo. Estava feliz que ela se importasse com a nossa filha.
- Ela é linda. - disse calmamente com a minha voz não passando de um sussurro audível. - que nem a mãe.
Seus olhos então se abriram e ela olhou para mim novamente, vi quando seus lábios moldaram-se em um sorriso fraco, mas tão encantador quanto ela.
- Eu queria poder vê-la. - ela confessou.
Apertei sua mão entre a minha.
Eu era um idiota, mas sentia-me aquecido em meio ao seu interesse. Talvez fosse apenas o meu coração bobo, nutrindo esperanças por ela.
A verdade é que eu não estava pronto para me despedir, para deixá-la ir. Eu estava sento egoísta, contudo não me importava.
Talvez fosse ainda mais idiota de minha parte, mas eu queria que ela continuasse ali com a gente, comigo e com .
- Eu tenho algumas fotos no celular, se você quiser ver - disse já puxando o aparelho do bolso.
Entretanto maneou a cabeça contra o travesseiro.
Seus olhos fechados, apertaram-se com força contra a sua pálpebra e as sobrancelhas franzirem-se.
- Acho melhor não. - ela disse depois de um tempo.
Não entendi.
Mas eu via seu sofrimento. Parecia sentir tanta dor e eu me preocupei.
- Está sentindo alguma coisa? Quer que eu chame a enfermeira? - disse já me preparando para acionar o chamado.
Contudo ela apenas meneou a cabeça mais uma vez.
Ela parecia tão fraca naquela cama, tão diferente da garota que eu havia conhecido no bar, mas ainda era bonita de mais para mim, mesmo estando tão pálida como agora, suas olheiras estavam profundas e ela ainda estava inchada.
Parecia perturbada com alguma coisa e então a ação de graças voltou a minha mente.
Eu não deveria lhe perguntar sobre isso, mas precisava. O que estava acontecendo com ela?
- Por que você estava com aquela arma? - perguntei, a voz baixa e arrastada voltando ao assunto que eu não conseguia esquecer.
então se voltou em minha direção, batalhando para manter os olhos abertos.
Havia uma centelha de pânico nela e aquilo me assustou
- Por que eles me acharam. - falou de modo arrastado. - eles sabem onde eu estou.
Engoli em seco.
Queria lhe perguntar mais sobre isso, contudo os seus olhos se fecharam novamente e desta vez ela parecia dormir.
Não a perturbei, por mais que algo no meu interior quisesse saber mais sobre isso.
Quem eram eles? A facção? Eu não sabia.
De qualquer forma a deixei descansar.
Levantei-me com cuidado soltando sua mão e fui em direção a cafeteria do hospital.
Meu irmão logo chegaria e então nós iríamos comer alguma coisa em um pequeno restaurante que ficava logo ali ao lado, ele estava assumindo minha posição na empresa da família por aquele período em que eu estava de licença.
No balcão da lanchonete pedi o de sempre, desbloqueando o celular enquanto eu esperava o meu pedido. Ali eu vi a foto de mais uma vez, a que ela estava ruiva.
Eu queria poder entender mais do que estava acontecendo, queria ajudá-la, a queria.
Decidir que iria fazer o que pudesse para solucionar essa situação, não suportava ver o seu pânico ou agonia.
Percebi que a adorava.
Suspirei, indo ate os meus contatos e escolhendo um número para enviar uma mensagem.

Quero que descubra mais sobre ela.

Digitei, anexando a imagem que eu tinha obtido do cartão de memória.
Assim que apertei em enviar, meu café ficou pronto e eu o peguei tomando um longo gole dele.
Naquele momento, enquanto eu ainda tomava meu café, uma confusão se instalou no hospital.
Havia seguranças correndo e aquilo me assustou.
Voltei-me para a funcionária da lanchonete e perguntei:
- O que está acontecendo?
Ela deu de ombros, tão confusa quanto eu
Mais tarde descobrir que uma paciente havia fugido do hospital, a paciente do quarto 309.
Para meu desespero, aquele era o quarto de .


Fim.



Nota da autora: Então é natal... O ano termina e o começa outra vez!
Gente feliz festas! Eu to muito emotiva aqui porque eu conseguir entregar esse ficstape/especial fim de ano
Eu quero agradecer de mais a toda a equipe do FFOBS que organizou esse especial lindo, por todo o trabalho pesado e criativo que vem realizando durante todo esse tempo online, tenho muito orgulho de vocês e de dizer que postei historias minhas no maior site de fanfics interativas do Brasil e claro muito obrigada por terem me aceito, aceito essa historia mesmo diante de tantos problemas na hora de enviar
E também obrigada a você que desistiu de Kiwi quando o ficstape do Harry Styles foi pedido e começou a ser organizado, obrigada a você que não pegou essa musica em cima da hora e a você também cego, como eu, que não viu nenhum post falando sobre a músicata liberada antes do ficstapesair
Sem todos vocês essa historia não haveria sido entregue por mim, então muito obrigada pela oportunidade de escreve-la
Ainda no clima de agradecimento, afinal é fim de ano, eu quero agradecer a mamis, como sempre que leu e aprovou tudo o que você, meu caro leitor, acabou de ler e espero que tenha gostado como ela gostou e a Ana Carolina, Mozza, foi você, viciada em Kiwi, que me ajudou com todas as informações da musica, então, mulher ocupada, muito obrigada
E é claro que não poderia faltar, afinal isso tudo foi feito pensando em você, muito obrigada seu leitor lindo! Obrigada por ter dado uma chance a Kiwi, por ter lido e ter chegado ate aqui, eu espero que tenha gostado, porque eu amei escrever essa historia e eu amei o resultado dela
Então gente é isso, boas festas e um excelente 2018 um ano novo ta vindo ai, mas lembre-se isso é só algo simbólico, uma forma de contar o tempo e dizer que as suas células estão morrendo e você está envelhecendo
O novo mesmo só quem faz é você, então viva e aproveite, faça esse ano cheio de realizações, busque suas vitórias, faça um novo a cada dia, um novo momento, uma nova conquista
Então é só isso pessoal, ate à próxima.

Outras Fanfics:
10. Fool For You [Zayn's Ficstape] 11. Impossible Year [ Panic! At the disco’s Ficstape]

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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