Última atualização: 20/03/2020

Capítulo Único

Por mais anos em que você estude em um lugar, o primeiro dia de aula é sempre complicado.
Mesmo sabendo exatamente quais os rostos que você vai ver, quais as piadas que vai ouvir dos engraçadinhos e os professores que vão te olhar com aquela cara de “os jovens de hoje em dia não querem nada com nada” enquanto outros vão sorrir pra você e dizer “e aí, camarada, como foram suas férias?”
Certo, camarada já é demais. Nem meus professores legais falam camarada hoje em dia e... Onde eu estava mesmo? Ah sim! O primeiro dia.
O ponto é que por mais que naquela escola não tivesse novidade nenhuma, não importava quantas vezes eu arrumasse meus óculos sob a ponte de meu nariz, eles insistiam sempre em cair e isso era distração demais para alguém como eu, que precisava me concentrar em manter meus pés firmes no chão.
Não encontrei meu amigo, George, no ônibus escolar, então assumi que ele teria ido de carro no primeiro dia. O pai dele emprestava o possante de vez em quando e se minha mãe não tivesse gritado no mínimo umas cinquenta vezes que eu ia perder o ônibus, talvez eu estivesse em casa quando meu amigo passou por lá para me dar uma carona, como eu sabia que ele teria feito.
Mais uma vez, duvido que alguém fale possante, mas já deu para perceber que eu uso a linguagem de meus avós. Talvez porque eu tenha sido criado por eles até meus dezessete anos, quando minha mãe resolveu reaparecer enquanto meu pai continuou desaparecido no mundo.
Minha mãe era gente boa e apesar de tudo, nós até nos dávamos bem. Só que era complicado vê-la mesmo como minha figura materna. Ela tinha pouca experiência com o assunto é vovó sempre havia sido minha mãe.
Deixando a tagarelice de lado, quando eu desci do ônibus olhei para a entrada da escola mais perdido que cego em tiroteio. Eu conhecia basicamente todo mundo dali, mas isso não queria dizer que eu interagisse com todo mundo. Meu círculo de amizades se resumia a George e a maioria dos professores, que simpatizavam comigo por eu sempre tirar boas notas. Ah! Tem a dona Lucinda também! A bibliotecária simpática que sempre me deixa extrapolar a quantidade de empréstimos. Eu gostava de ler mais do que gostava de respirar e eu nunca me contentava lendo um livro só por vez. Ler mais de uma história ao mesmo tempo era um bom exercício de memória.
Senti um esbarrão no ombro esquerdo e antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, deixei alguns livros que segurava caírem no chão.
— Olha por onde anda, esquisito — não precisei nem olhar para cima para ver que era Dante ali. Um panaca que adorava pegar no meu pé.
Pelo menos ele não quis me jogar na lixeira ainda. Eu tinha esquecido de trazer uma roupa limpa na mochila e seria terrivelmente humilhante ter que ir para a primeira aula fedendo.
Me abaixei para juntar minhas coisas e não me surpreendi nem um pouco quando meus óculos também caíram.
— Porcaria — reclamei, pegando-os e ignorando o resto porque se eles tivessem quebrado eu estaria em péssimos lençóis.
— Sua avó não te ensinou a ter modos não, ? — tomei um susto quando percebi quem era e ergui a cabeça rápido demais. O resultado foi que me desequilibrei e caí de bunda no chão.
Na hora senti minhas bochechas esquentarem e olhei para a expressão risonha de .
era a única garota legal o bastante para falar com alguém como eu naquela escola, mas eu não a incluía em meu círculo de amigos porque... Bem, porque eu estava apaixonado demais por ela para querer que ela fosse somente minha amiga.
Talvez aí você pense: “Onde está o problema nisso? Vai fundo! Investe na garota!”, mas veja bem, não é tão simples assim. George vive me falando as mesmas coisas e até brinca que vai roubar de mim. Só que eu travo quando fico perto demais dela e só consigo agir como um perfeito idiota. Fora que eu não acredito que ela me veja da mesma forma. Aposto que eu já fui jogado para escanteio assim que nos conhecemos, na primeira série.
Pois é, eu sou apaixonado por desde a primeira série. Trágico demais para ser cômico.
— Ei! — de repente vi uma mão acenando na minha frente e aí eu soube que tinha viajado com os olhos arregalados pra ela. Como eu disse, um idiota. — Tá tudo bem, ? Ou o gato comeu a sua língua?
— O gato não. Uma gata — percebi que tinha dito aquilo em voz alta quando ela sorriu torto. — Quer dizer, não! Ninguém comeu nada. Na verdade, eu nem tomei café da manhã e...
— Deixa que eu ajudo você — ela riu, pegando alguns livros para mim e me entregando quando consegui levantar. Graças aos céus meus óculos não tinham quebrado.
— Desculpe — soltei, vendo ela fazer uma careta.
— Pelo que, menino? Você não me fez nada, ué — acabei rindo junto com ela, a encarando envergonhado.
— Tudo bem. Digo, eu estou bem. Eles só caíram da minha mão — atrasado eu comecei a me explicar, mas ela fez um gesto com a mão e eu acabei ficando calado.
— Eu sei que foi o idiota do Dante. Uma hora ele vai ter o que merece, . Não sei como ele sonha em me levar ao baile de boas vindas agindo desse jeito — negou com a cabeça, mas eu nem consegui prestar atenção direito porque as palavras dela tinham feito meu estômago revirar.
— Baile? E-ele te convidou para o baile? Mas já? — tentei olhar para ela como se aquela fosse a pergunta mais casual do mundo, mas a verdade era que eu estava querendo morrer por causa daquela informação.
— Sim. Ele convidou, mas eu não aceitei ainda. Dante precisa melhorar essa atitude dele — e com certeza ela continuou falando mais alguma coisa sobre ele, mas eu não consegui mais prestar atenção.
Ela não tinha aceitado ainda, o que queria dizer que pretendia aceitar.
Se isso não era ser jogado pra tal friendzone, eu não sabia o que era.
— Eu preciso ir fazer um negócio ali — apontei qualquer direção, interrompendo o monólogo dela. — Até outra hora, — sorri fraco e me afastei quase correndo.
Quem disse uma vez que as coisas não podiam piorar pra mim não sabia de verdade sobre quem estava falando. Para as coisas sempre podiam piorar.
E o maior exemplo disso foi a porta de uma sala aleatória que resolveu abrir do nada e acertar em cheio a minha cara.
Eu literalmente vi estrelas e só não caí porque me agarrei na tal porta como se minha vida dependesse disso. Escutei até rirem da minha cara, mas aquilo doeu e eu só tava preocupado era com a dor mesmo.
— Por Poseidon, ! Onde você se meteu? — escutei outra voz conhecida e quando me virei dei de cara com George, que vinha correndo na minha direção.
— Estava beijando essa porta aqui. Ela disse que sentiu minha falta nas férias — se eu não brincasse com minha própria desgraça acabaria morrendo.
— Como se eu já não tivesse te avisado mil vezes pra não andar distraído demais perto dessas portas assassinas. Um dia desses você vai perder uns dentes e aí quero só ver como vai fazer pra conquistar a . Aposto que ela não gosta de banguelas — péssimo momento para ouvir sobre ela.
— Nem de banguela e nem de gente esquisita, George — deixei um suspiro escapar.
— Ih, o que foi que houve? — ele na hora percebeu.
— Ela vai com Dante no baile de boas vindas — olhei para meus próprios pés, mas ele me impediu de continuar porque logo senti o braço de meu melhor amigo me envolver pelos ombros enquanto ele me fazia começar a caminhar pelo corredor.
— Até o baile temos muito chão, meu caro amigo. Ela disse pra você que ia com ele?
— Não, mas disse que não aceitou ainda o convite e...
— Acalme seu coraçãozinho, . Você tem George Hastings na sua vida, não tem? Ela não vai com Dante nenhum se depender de mim. Ou melhor, se depender de você — fiquei até admirado com tamanha certeza dele.
— E como você pretende fazer isso acontecer, sabichão? — perguntei, o desafiando, mas claramente ficando um tantinho mais animado.
— Eu tenho jeito com as meninas, . Você vai conquistar sua amada. Eu vou apenas te mostrar como.
Não sei por que, mas por mais animado que a ideia de conseguir aquilo me deixava, ao mesmo tempo eu sentia um enorme receio do que estava por vir.

...


Em um filme adolescente super clichê, faria parte de praticamente todos clubes da escola e só não seria a capitã das líderes de torcida porque o lugar ficaria com a abelha rainha malvada, que adorava fazer a vida dos outros um inferno.
Sim, eu assistia muitos desses filmes, vovó adorava porque fazia ela se sentir mais jovem.
O caso era que não era a popular líder de torcida barra aluna exemplar. Ela era apenas uma garota comum que, como eu, tinha apenas uma melhor amiga no círculo de amizades se você não contar o resto da banda que as duas têm.
Isso mesmo, tem uma banda e vou te dizer, elas são ótimas. Sei disso porque um dia desses ela me mostrou uma música que eles gravaram.
era a guitarrista, sua melhor amiga, Rachel, era a vocalista e baixista e aí tinha um primo da Rachel que tocava bateria. Eu não fazia ideia do nome do cara, mas vivia dizendo que ele era um cara legal.
Por que de repente eu comecei a tagarelar sobre a banda da ? Não faço a mínima ideia, mas interrompi tudo o que eu pensava quando cheguei à biblioteca, resolvendo passar o intervalo ali em alguma sala de estudos.
Dona Lucinda sabia que eu era um dos únicos que gostava daquelas salas, então eu não precisei nem falar nada além do bom dia habitual antes de seguir até uma delas.
As salas da minha escola eram ambientes confortáveis, tinham um sofá com uma mesinha e um abajur só por decoração. Eu achava o máximo, parecia que eu estava em casa quando ia até lá e se mais pessoas soubessem, tenho certeza que viriam só pra dormir.
Me preparei para me jogar com gosto em cima daquele sofá dos deuses, mas aí algo pertinho do abajur me chamou atenção e eu me aproximei devagar.
Aquele era talvez um dos besouros mais maneiros que eu já havia visto e eu era fascinado por insetos. Precisava dar um jeito de tirar o bichinho dali antes que morresse.
Levei a mão até bem perto dele e quando eu estava prestes a pegá-lo, ouvi uma voz de supetão.
— Se importa em ter companhia? — eu não esperava ter contato com tão cedo. Na verdade, eu não esperava ninguém ali comigo.
O pulo de susto que eu dei me fez atirar o besouro longe e me esquivar quando o bicho voou, dei uns dois passos pra trás, mas esqueci da tal mesinha de centro e o resultado disso foi um belo de um tombo. Bater na quina dela e voltar pra frente, de cara no sofá não foi o suficiente, eu tinha que tentar me agarrar em alguma coisa e vir com a ideia infeliz de segurar no abajur. Não me admirei nem um pouco quando ele caiu e se espatifou em mil pedaços segundos depois.
Sabe o Murphy? Ele me detesta.
— Ah, meu Deus! , você está bem? — escutei a voz preocupada de e a vontade foi de jamais levantar porque assim, eu não precisaria encara-la depois daquele fiasco.
— Eu... — vi que ela estendeu a mão para me ajudar a levantar e eu a aceitei trêmulo e envergonhado.
, querido! — dona Lucinda apareceu com a mão no coração, vendo o desastre e arregalando os olhos.
— Me desculpe, dona Lucinda! Eu pago por tudo, eu juro — quase chorei de verdade.
— Não se incomode com isso. Você se machucou? Viu se ele se feriu muito, mocinha? Ele precisa ir a ala hospitalar — ela nem me deixou falar.
— Não precisa. Eu estou bem, eu...
— Ela tem razão, . Você precisa. Sem discussões — e do nada eu senti a mão de segurar a minha e me puxar.
Fui a seguindo não querendo mais soltar a mão dela e sentei numa das macas quando a enfermeira disse para esperarmos por ali.
O silêncio reinou por alguns minutos. Eu não sabia o que dizer a ela, me sentia cada vez mais péssimo porque sempre que encontrava com ela algum desastre acontecia comigo.
— Preciso dizer, esse seu tombo foi o mais espetacular que eu já vi — o tom de voz dela era de brincadeira e eu mordi a boca, sentindo minhas bochechas vermelhas.
— Você não viu nada então. Eu já tive uns bem piores — eu realmente ia começar s conversar com ela sobre isso?
— Jura? Não consigo nem imaginar — o sorriso dela era coisa mais linda do mundo.
— Sabe como é. O chão e eu temos uma relação bem intensa — brinquei, fazendo ela rir.
— Nesse caso então é uma pena. Duvido que eu tenha alguma chance — com certeza eu tinha batido minha cabeça no chão ou ela estava era falando do chão mesmo.
— Eu se fosse você não desistia ainda. Vai que as coisas viram ao seu favor — vi um sorriso de canto se formar nos lábios dela.
— Isso pode acontecer mesmo? — não tinha bem certeza do que ela pretendia perguntando aquilo, mas não pude nem tentar entender porque logo em seguida a enfermeira apareceu e fez questão de fazer de um tudo pra se certificar de que eu estava bem.
Esse era o problema de ser a pessoa mais desastrada da escola.

...


— Você tem certeza que isso vai funcionar, George? — olhei inseguro de meu amigo para a arquibancada da escola.
Estávamos esperando os testes para o time de futebol começarem, mas eu era uma negação em qualquer esporte e ver que estava assistindo não ia me ajudar em nada.
— O que pode acontecer de ruim, ? — ele questionou, me fazendo olhá-lo com indignação.
— Esqueceu com quem você está falando?
— Deixa disso, . Aposto que se parar de pensar em si mesmo como azarado, as coisas vão melhorar pro teu lado — e eu realmente quis acreditar no meu melhor amigo.
Durante uma meia hora em que fizeram a gente jogar eu até senti como se as coisas tivessem mudado e eu tivesse vencido a maré de azar.
Isso até eu estar cara a cara com o goleiro, chutar a bola e acertar a trave no chute mais vergonhoso de todos porque ela voou na direção do técnico do time e acertou em cheio sua cabeça.
Não entrei para o time e não quis nem olhar direito para George, que me fez passar aquela vergonha.
— Me diga como passar fiasco naquele campo vai me ajudar em alguma coisa, Hastings — resmunguei, notando que meu amigo, ao contrário de mim, tinha um sorriso na cara.
, . Não reparou que sua amada não tirou os olhos de você durante os testes? — ele respondeu, como se aquela fosse a melhor tática de conquista do mundo.
— É claro que não tirou. Quem ia querer prestar atenção em outra coisa que não fosse no cara desastrado da escola passando vergonha?
— O seu problema, . É que você se vê bem menos do que é de verdade. E é por isso que não enxerga que a gosta de ti.
— Você esta alucinando, George. A não gosta de mim. Não do jeito que você está dizendo.

...


Depois daquela vergonha no futebol, George tinha atacado novamente e me feito aprontar cada coisa que esse meu eu do futuro deveria ter contado ao meu eu do passado só pra eu não ter que passar por isso.
Talvez com ele funcionasse aquela coisa toda de aparecer nos lugares da escola que ela sempre estava, tentar praticar esportes, mudar minhas roupas pra algo menos “certinho” e mais descolado ou até mesmo ir numa das festas que o pessoal sempre fazia (eu fiquei menos de dez minutos porque um camarada me confundiu com vaso assim que cheguei e vomitou em mim, pois é). O fato é que comigo nada disso parecia funcionar.
Ele insistia que era porque não tinha necessidade de conquistar , ela já gostava de mim, mas eu sabia qual era a verdade. só me via como um bom amigo, ela iria com o babaca do Dante no baile e talvez eles até começassem a namorar ou algo do tipo.
Imaginar ela com Dante me fazia querer chorar.
, você não vai desistir ainda não, cara. Eu tenho uma última carta na manga — eu queria pedir para George parar com aquilo, mas não tinha coragem e no fundo uma última tentativa não ia tornar nada pior do que já estava.
— E o que seria essa carta? — questionei, vendo ele sorrir daquele jeito esperto que só podia significar problemas pra mim.
— Você vai convidar ela para o baile.
Congelei com aquilo, sentindo um nervoso só de pensar. Engoli em seco e neguei.
— Ficou maluco? Ela me disse que o Dante a convidou! Eu não posso...
— Claro que pode! Por que não poderia? Ela ainda não aceitou o convite dele, o que quer dizer que pode aceitar o seu! Vai fundo, cara. O máximo que pode acontecer é ela te dizer um não.
— O problema é esse mesmo, George. O não — suspirei.
— Você nunca vai saber se não tentar. Como vai avançar com essa garota ou tentar superá-la desse jeito? — olhei bem para meu amigo e eu sabia que ele estava certo.
— Tem razão. Eu preciso tentar — concordei com ele, por fim, sentindo-me ainda mais apavorado ao fazer isso. E se ela dissesse não?
Pior. E se ela dissesse sim?

...


Achava um absurdo esse negócio de as garotas terem que esperar por um convite dos garotos para o baile de boas vindas. Ficava tudo muito restrito e eu não gostava de ficar esperando. Normalmente, quando eu queria alguma coisa, eu ia atrás.
Isso funcionava para praticamente tudo, mas toda regra tem a sua exceção e a minha tinha um nome e um sobrenome.
Um burburinho tinha me dito diversas vezes que ele era gamado em mim, mas eu não dava ouvidos às fofocas, preferia sempre saber das coisas diretamente da fonte.
Fora que eu tenho certeza que se eu perguntasse a ele sobre os boatos, tinha certeza de que ele ia acabar tendo algum tipo de ataque. De nervoso ou por alguma coisa externa caindo em cima dele. Nunca vi alguém mais azarado que .
Uma vez me perguntaram o que eu via naquele nerd atrapalhado e esquisito e eu respondi que era exatamente o fato de ele ser assim. Poxa, ele era absurdamente lindo e fofo, como eu conseguiria não ficar caidinha por ele?
Dante havia me convidado para o baile há alguns dias. E Karl, e Jimmy, e Preston.
Todos eles eram lindos de morrer, mas não eram o . Eu já estava quase desistindo de esperar, mas não ia aceitar o convite de um dos outros (era o que as garotas me diziam pra fazer e vou te contar, nunca vi tanta desconhecida subitamente me chamando de “amiga”). Minha lua em aquário gritava que eu soltasse um belo foda-se o sistema e fizesse o convite eu mesma.
Era isso. Eu ia convidar o e se ele recusasse eu seguiria em frente no meu quarto, com um potão de sorvete de chocolate.
Onde estava aquele menino quando se queria encontrá-lo? Parecia que tinha se escondido de mim, não era possível!
— Será que ele caiu em algum lugar ou ficou preso? — não dava pra duvidar, não é?
Dei risada sozinha, ainda procurando por ele nos corredores da escola. Ele devia odiar o fato de ser todo atrapalhado, mas a coisa que eu mais gostava nele depois daquelas bochechas vermelhas e do sorriso, fosse ele sem graça ou apenas contente em me ver.
Suspirei feito uma boba apaixonada. Não me sentia culpada por estar assim, eu era uma romântica incurável e assistia diversas comédias românticas adolescentes para alimentar o monstro.
Chateada por não conseguir encontrar meu par do baile para convidá-lo apropriadamente, voltei até meu armário e quando o abri encontrei algo diferente lá dentro.
Tinha uma caixa pequena de presente, com uma carta presa no laço amarelo.
— Mas o quê? — desviei o olhar bem a tempo de ver George passando. — Ei! Hastings! — chamei o garoto, esperando que brotasse ali com ele, porque os dois viviam grudados, mas não. Tive que esconder a cara de decepção.
— Fala aí, — franzi o cenho por ouvir ele me chamar pelo nome completo. Era esquisito.
— Tá bom, papai. Não precisa me chamar pelo nome inteiro — ri nervosa, enrolando pra perguntar pra ele sobre o sabe-se lá o porquê.
— E você me chamar de papai também não é uma boa ideia, — ele fez uma cara maliciosa que fez eu retribuir com uma expressão de nojo.
— Eca! Nojento — ouvi a gargalhada dele e estreitei meus olhos em sua direção. — Antes que você fale mais alguma porcaria. Cadê o ? — resolvi ir direto ao ponto. Não que eu não gostasse de George ou não o achasse bonito, mas eu não conseguia ter olhos pra ele, se é que da para entender.
— Tá procurando por ele é? — não entendi o tom da pergunta dele, mas reprimi a vontade de revirar meus olhos.
— Se eu perguntei, é óbvia a sua resposta, não? — soltei, ironicamente, ouvindo ele rir de um jeito que eu podia jurar insinuar algo que ele sabia e eu não.
está doente. Mas eu aviso a ele que você perguntou — George virou, se afastando de mim, mas eu o impedi, segurando em seu braço.
— Espera, George! Doente como? É algo grave? Ele volta quando para a escola? — perguntei, toda preocupada. — Eu posso ir lá na casa dele depois da aula ajudar e...
— Não! — estranhei a resposta rápida dele. — É altamente contagioso o que ele tem. Nem eu posso ir até lá...
— E como é que você vai avisar perguntei sobre ele? — soltei, desconfiada.
— Já ouviu falar em telefone, ? É uma invenção extraordinária da humanidade — eu quis me estapear, mas estava desconfiada demais para isso.
Aqueles dois estavam era aprontando alguma coisa.
— Bom. Se ele não pode receber visitas, mais tarde eu mesma desejo melhoras a ele. Obrigada — e dessa vez eu mesma dei as costas a George.
— De nada, nervosinha. Ele vai ficar bem, não precisa ficar preocupada desse jeito — mordi a boca, voltando a olhar para meu armário e pegando a caixa de presente quando ele se afastou.
Não tive coragem de abri-lo na escola. Só fiz isso em casa, onde não teria ninguém para ficar perguntando quem tinha me dado aquilo.
Eu tinha ensaio da banda em meia hora, mas eu decidi saciar a minha curiosidade em vez de ir ajeitar a garagem e afinar minha guitarra.
Quando abri o pacote, meus olhos brilharam, num misto de encantamento e vontade de gritar, do tanto que eu havia gostado. Era o presente mais singelo que eu havia recebido e o melhor de todos ao mesmo tempo.
Um broche com o brasão da Lufa-Lufa.
Ansiosa, peguei a carta e a abri, doidinha pra saber quem tinha me dado um presente maravilhoso como aquele.

“Querida ,

Eu perdi as contas de quantas vezes tentei iniciar essa carta pra você, mas acho que no fundo eu estou só enrolando para te dizer o que eu deveria dizer pessoalmente, mas não consigo porque toda vez que eu te vejo meu mundo vira de ponta cabeça.
, eu estou apaixonado por você. Completamente.
Pronto. Eu disse.
Ufa! Pensei que fosse morrer antes de conseguir escrever essas palavras, mas eu consegui e agora você está lendo isso e eu estou tendo mais um treco de nervoso, mas não importa. Só importa que eu gosto de você desde a primeira vez em que te vi é mesmo que você não me veja da mesma forma, eu preciso que você saiba. Eu preciso ao menos tentar ou vou acabar enlouquecendo de vez.
Eu tenho certeza que nunca vou encontrar alguém que seja tão especial quanto você. Que mexa comigo como você é capaz de mexer e sabe de uma coisa? Eu seria capaz de morrer para ter você como meu par no baile de boas vindas.
Você aceita?
Se a resposta for sim, me encontre no hall no dia do baile e use o meu presente em seu vestido. Como membro da melhor casa de Hogwarts, eu sei que ele vai combinar perfeitamente com o seu vestido.
Se você não quiser, eu vou entender. Aposto que meu convite não é o único, mas tudo bem, tá? Eu só não poderia deixar de tentar.
Não sei mais o que escrever além de que eu acho que vou morrer de ansiedade até esse baile chegar, mas enfim.
Você é incrível, .

De seu admirador secreto ou não tão secreto assim, acho que me entreguei demais nessa carta.”


Sim, ele havia se entregado completamente naquela carta. Eu o conhecia bem demais simplesmente porque o observava bem demais, do mesmo jeito que ele me observava agora eu tinha certeza.
Uma risada alta escapou dos meus lábios e eu perdi as contas de quantas vezes eu reli aquela carta até o dia do baile chegar.

...

andava de um lado para o outro no hall de entrada do baile, tão nervoso que não se surpreenderia se desmaiasse ali mesmo.
Aquela ideia de mandar uma carta convidando para o baile havia sido péssima. Estava arriscando vê-la chegar ali com Dante, recusando o pedido dele e aquilo o despedaçaria tanto que ele teria que mudar de cidade. Na verdade, a cidade não seria o suficiente. Teria que mudar de planeta.
— Eu te odeio, George — murmurou, mesmo o amigo não estando ali, já que ele já havia entrado no baile com não uma, mas duas garotas.
Sabia que se Hastings estivesse ali questionaria se ele estava tentando abrir um buraco no chão ou algo do tipo e a resposta seria uma bela cara feia, já que ele era incapaz de xingar alguém mesmo de brincadeira e...
? — aquela voz fez com que ele estacasse no meio do caminho, sem mover mais nenhum músculo porque de repente não tinha mais certeza se havia ouvido direito.
sorriu ao vê-lo ali parado, suas orelhas estavam vermelhíssimas e ela sabia que ele provavelmente estava se perguntando se ela tinha mesmo chamado por ele.
? — tentou novamente, se aproximando dele e tocando a mão do garoto, pousada ao lado de seu corpo. Ele suava de nervoso, mas ela não ligou porque se sentia da mesma forma.
Durante os dias que antecederam o baile, ela chegou a cogitar se não teria sido outra pessoa que lhe mandou a carta, mas no fundo ela sabia que era ele e não havia outra possibilidade.
se virou para ela, sentindo que o estômago fazia uma dança maluca digna do chapeleiro da Alice. Então sorriu nervoso quando seus olhos se encontraram e ele viu o broche preso ao vestido dela.
Aquele era o sim que ele tanto queria.
Por alguns milésimos de segundo, ele hesitou, congelando sem saber o que fazer, mas então sentiu apertar sua mão na dele, entrelaçando os dedos.
— Eu sabia que era você — a voz dela soou tão doce que de repente ele já não via motivos para ficar tão nervoso ou envergonhado. Aquela era , a garota que ele amava desde a primeira série e que estava ali com ele porque se sentia da mesma forma.
— Sim — ele respondeu, com seus olhos brilhando na direção dela. — E você aceitou meu convite.
— Eu aceitei — sorriu mais, então indicou o salão com a cabeça. — O que acha de nós entrarmos?
— Acho ótimo, lufana. Você está linda — não perdeu a oportunidade de elogiá-la.
— Obrigada. Só pretendia ficar a altura do meu par mesmo — fingiu pouco caso, arrancando uma risada baixa dele enquanto os dois seguiam para o salão do baile.
A decoração estava magnífica e por alguns segundos, se sentiu em um daqueles filmes clichês adolescentes que vivia assistindo com a avó. Olhou para e percebeu que ela compartillhava do mesmo pensamento, o que lhe fez parar de caminhar.
— Me concede a honra de dançar contigo? — ela o olhou encantada.
— Achei que nunca fosse perguntar.
Da primeira dança veio a segunda, a terceira e pelo resto da noite eles aproveitaram a companhia um do outro. Rindo e se divertindo como se durante a vida inteira já pertencessem um ao outro.
Como nos filmes, no meio da dança lenta aconteceu o primeiro beijo e daquele baile em diante, sentiu-se grato pelo empurrãozinho de George. Se não fosse por ele, talvez ele jamais conseguisse aquele algo a mais que tanto desejava.




Fim.



Nota da autora: Uma fic fofinha para uma música que eu acho a coisa mais lindinha do mundo. Espero que tenham gostado!
Não esqueçam de comentar, sim?
xx Frankie.





Nota de Beta:

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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