Postada em: 05/11/2017

Capítulo Único


Assim que abriu os olhos, soube que teria mais um dia difícil para viver. Teria que lidar com os olhos penosos, as vozes baixas e o afeto exagerado de todas as pessoas da casa e de visitas que iam lá frequentemente. Esse era o preço que seu sonho de ser ator estava lhe causando. O excesso de carinho já não era uma coisa boa. Era uma amarra.
O homem levantou calmamente de sua cama e foi direto ao banheiro escovar seus dentes, ficando em frente àquele maldito espelho que ele havia pedido tantas vezes para que tirassem dali. Conseguia ver o dia que ele mesmo o tiraria com as próprias mãos. Odiava ver seu reflexo e constatar que seu cabelo ainda não havia crescido o suficiente para ele parecer saudável; para as pessoas passarem por ele na rua e não pensarem que ele tinha câncer, já que ele era conhecido por metade do mundo e todos agora sabiam de sua doença. Não via a hora de voltar a transparecer saúde e beleza.
Após fazer sua rotina matinal, ele foi para sala e passou por seus irmãos, que estavam lá para fazer comentários sobre as idas ao médico, à quimioterapia e, obviamente, sobre . Perguntavam se ela ainda continuava o aceitando do jeito que ele era. Antes, quando ouvia esse tipo de comentário, ele se sentia culpado pelas pessoas acharem que ele estava tão mal que nem sua própria namorada gostaria de ser vista com ele. Mas, com o passar do tempo, a amargura foi o tomando e ele acabou por se tornar uma pessoa que se auto desprezava. Ele mesmo já se perguntava o que a garota fazia com ele, tendo tanto homem bonito no mundo.
- Oi, querido. - ouviu sua mãe, Lori, lhe dirigir a palavra assim que chegou à cozinha. A mulher estava terminando de fazer o café da manhã e ele já sabia o que viria pela frente.
- Oi, mãe. - falou, lavando mais uma vez suas mãos, para que pudesse procurar algo para comer. Tentou dar um sorriso - que saiu completamente despercebido -, logo, fez sua mãe se questionar quanto tempo ele demoraria a entender que sua condição não era para sempre.
Os médicos já haviam dito que, mesmo ele sendo uma dos 20% das pessoas que não conseguem curar sua doença na primeira tentativa, ele ainda podia ser um dentre os 25% que conseguem passar pela segunda fase. Mas , claro, não compreendia como alguém podia lidar bem com aquela doença. O câncer o desgastava e, mesmo com dinheiro para fazer a tal viagem para remissão, ele não tinha fé que iria melhorar. E se não há fé, não há cura que adiante, segundo ele mesmo.
- Tudo bem? Precisa de algo? - Lori perguntou com sua voz reconfortante.
O homem rolou os olhos ao ouvir a fatídica pergunta que lhe perseguia, e virou o rosto em direção a ela, com um sorriso falso, respondendo ríspido.
- Pode deixar que eu me viro. Eu consigo. - continuou com o sorriso e a olhando, até que ela terminasse de enxugar suas mãos no pano de prato e resolvesse sair dali. Emburrada pelo mau humor do filho, o deixou fazer seu próprio café da manhã.
Com o maxilar trincado e a expressão nitidamente fechada, soltou a respiração e fez rapidamente uma vitamina com todas as frutas que viu pela frente, já que não queria se incomodar tendo que mastigar todos aqueles alimentos. Bebeu o líquido grosso ali mesmo, no meio da cozinha, num copo grande, para que não tivesse que ir para sala enfrentar todos seus parentes - vulgo irmãos -, que passavam oitenta por cento de seus tempos olhando para o homem, como se ele fosse um ser de outro planeta.
Com seus olhos mais caídos que o normal, passou pela sala novamente, apenas na intenção de voltar pro seu quarto, com um copo d’água na mão para tomar seu remédio matinal. Assim que o homem se sentou na beira da cama, sentiu-se tonto, como de costume, e fechou os olhos, tentando manter-se em foco, apesar daquilo nunca ajudar. Logo que os abriu, ambos foram em direção de seu celular, que piscava na cômoda ao lado. Ignorou o objeto avidamente, porém, quando ele começou a tocar, ele não pôde continuar com sua brincadeira. Deixou o copo de vidro na mesinha e pegou o aparelho, sem paciência. Rapidamente notou o nome de na tela. Seu coração se apertou e ele mordeu a parte de dentro de seus lábios, já apreensivo.
- Alô? – falou, após deslizar o dedo e pôr o celular encostado em sua orelha esquerda. Inconscientemente, fechou os olhos assim que ouviu a voz da mulher. Ele sorriria se a voz dela não parecesse séria demais. Preocupada demais.
- ? Acordou bem? - ele limpou a garganta antes de falar, já com os olhos abertos.
- Oi. Acordei sim, amor. - ele pôde imaginar os olhos dela se apertando contra a bochecha quando ela sorria por ele a chamar daquela maneira. Seria bonito, se não fosse algo que não acontecia mais frequentemente. - E você?
- Estou bem, mas queria mesmo era saber se você… - ouviu a voz dela falhar no final da frase e acabou engolindo em seco. O homem odiava sentir-se como um peso. Como alguém que as pessoas deviam ter preocupação vinte quatro horas por dia. E ele ainda conseguia se lembrar dos dias que a única coisa que ele odiava era amendoim. Quando achava que ódio era um sentimento pesado demais para se referir a qualquer coisa. Contudo, naquele dia, ele podia jurar que odiava viver sentindo-se como uma pedra no caminho de todo mundo. Inclusive no de . - Já disse que estou bem. - tentou não agravar a voz inutilmente, já que soou mais ríspido do que deveria. – Desculpa. – pediu, logo que percebeu seu tom. Demorou alguns segundos para a garota o responder, e ele só conseguiu imaginá-la de novo quando ouviu sua voz ressoar novamente.
- Tudo bem. Enfim... Eu quero te ver. Podemos nos encontrar hoje?
fez uma careta ao pensar neles se encontrando, nela reparando em sua aparência e falando que não ligava para tudo aquilo, quando, na verdade, sabia que ela se importava. Ele convivia com todas aquelas lembranças e, por mais que quisesse viver no presente e viver seus últimos momentos intensamente - como diz nos filmes dramáticos assistidos por ele quando mais novo, que tinha como tema sua não tão nova doença -, ao mesmo tempo, não conseguia se livrar delas, e, quanto mais pensava naquilo, mais queria voltar ao passado, onde ele podia sorrir sem se preocupar com o que as pessoas iam pensar. Aliás, não era apenas que o preocupava. Sua maldita pequena cidade toda sabia quem ele era, a doença que ele portava - e que ainda não havia se recuperado dela. Pior que isso, o olhavam como se ele estivesse morrendo. Não que eu não esteja, pensou.
Depois de um tempo digerindo a pergunta e ouvido duas vezes seu nome sendo repetido - uma na sala, pelo eco do apartamento, e uma pela namorada -, ele respondeu.
- Pode ser… No lugar de sempre, certo?
- Na verdade, eu pensei em irmos a outro lugar… - sugeriu, e logo ouviu um murmúrio, que já sabia que saíra do homem. Ambos tinham o costume de ir a uma praça que ficava no centro da cidade, onde tinha todo tipo de comércio ao redor, assim eles sempre tinham o que comer e nunca se cansavam de ir lá. Entretanto, tinha outro trajeto em mente e não deixaria e sua rotina a derrubarem.
- Tem certeza? Não pode ser na praça? Não quero ter que me deparar com gente nova me julgando e com aqueles olhares, como se tivessem visto um tubarão em alto mar, se é que você me entende. - reclamou e rolou os olhos tantas vezes que nem ele mesmo conseguiu contar. Ouviu a breve risada de e arqueou as sobrancelhas em reação ao som. - Do que está rindo? - indagou nervoso. - Nada, nada… - desviou do assunto, pensando em não estragar a surpresa que queria fazer ao namorado. Apesar de tudo, ela podia sentir que, atrás do rabugento que nascera após o diagnóstico da doença, ainda existia o antigo, e, quando visse o local que eles iriam, não iria reclamar nem um pouco das pessoas ao redor deles. A mulher realmente esperava que a ida num lugar diferente pudesse ter um efeito bom, não ruim. E não abriria mão de seu otimismo. - Me encontra em frente ao mercadinho, pode ser? Não fica muito longe do lugar que iremos e o dia está bonito, podemos ir andando! Então coloque um tênis, senão vai ficar com o pé dolorido depois. - deu tantas recomendações, que só depois foi reparar o quanto soou praticamente igual a Lori e suas duras constatações. Bateu de leve na testa e o homem quase conseguiu escutar do outro lado do telefone.
- Está bem, mamãe. - falou irônico, mas também não conseguiu segurar uma risadinha. era a única pessoa que o fazia rir e isso ainda não havia mudado, e ele esperava que realmente nunca mudasse.
- Ótimo, bebê, agora vai se arrumar que eu não quero atrasos! - a mulher falou ainda com um sorriso no rosto, o que o fez sorrir também.
- Ah, era exatamente isso que eu ia te perguntar. - ele falou agora se levantando e tomando um gole de sua água. - Que horas nos encontramos?
- Daqui a meia hora, pode ser? - o respondeu com outra pergunta, fazendo-o gargalhar.
- Pode, pode… - o homem disse pensativo e com a voz calma, nada aparentando como ele já estava ansioso para ver a namorada. Fazia uma semana que eles não se viam, por opção dos dois, e ambos sentiam a saudade tomando conta de seu coração.
- Então, até daqui a pouco! - disse a garota, com a voz esganiçada, tirando outro riso de , o que o fez perceber o quanto era bom sorrir mais uma vez.
- Até, anjo. - ele falou o apelido antigo dela e ouviu seu riso antes da chamada acabar.

Tentou ser o mais ágil possível quanto a se vestir, já que isso não era difícil, mas acabou se enrolando na hora de ajeitar o que ele praticamente não tinha de cabelo. Quase arremessou o pente no espelho, pela raiva, e até gostaria de ter o feito, já que aquilo tiraria o objeto finalmente de sua vida. Contudo, se controlou pelo bem de sua saúde mental, e logo estava saindo do seu quarto, que ele preferia chamar de “fundo do poço”.
- Mãe, - o homem chamou Lori, que estava na porta da cozinha pensativa, o mais discretamente possível - estou indo me encontrar com a . - avisou, ajeitando seu relógio no pulso e não olhando muito para o rosto de sua mãe, que também estava dispersa. Deu um beijo na bochecha da mulher, pelo bom humor que tinha o pego desprevenido, e ela sorriu, segurando o pulso dele e trazendo-o para perto.
- Que horas vai voltar, filho? - perguntou com ele perto dela, também tentando não chamar atenção para eles, já que a família toda ainda estava lá. não conseguiu não rolar os olhos com a pergunta da mãe. Lori sentiu o corpo dele se enrijecer e consertou sua fala. - Só quero saber se vai ficar para o almoço. Deixa de ser rabugento uma vez na vida. - a mãe falou com a voz mais grossa, fazendo-o se esquivar do quase abraço.
O homem limpou a garganta e falou entre os dentes:
- Não sei que horas vou voltar. - com sua rotineira impaciência tomando seu corpo, ele trocou seu peso de um pé pro outro, continuando a falar. - Qualquer coisa pode deixar que a minha namorada faz o trabalho de mãe por você e me lembra de almoçar.
Ele sorriu falsamente e apontou para a porta com a cabeça, mostrando que estava mais que na hora dele ir. Seus dois irmãos mais novos viram que ele estava de saída e acenaram para ele, reclamando que o homem não ligava para eles e não os avisava nada. O mais velho saiu rolando os olhos novamente, pensando como eles eram hipócritas, pois mal se importavam com e só iam para sua casa para fingir, já que tudo que importava a eles é ter um “irmão famoso”. Ou, pelo menos, essa era a impressão que tinha deles.
Com sua mente a mil, ele adentrou o elevador, pensando que precisava esquecer um pouco sua família e tentar aproveitar esse tal passeio com , mesmo ainda não sabendo para onde sua namorada queria o levar.
Realmente não demorou muito para ele chegar ao local marcado, porém ele estava atrasado pelo menos dez minutos, por algum motivo que ele não sabia.
- ! - o homem sentiu os braços de contra seu pescoço e sorriu. - É incrível como você nunca consegue chegar na hora a nenhum lugar… - sentiu o perfume suave da mulher, pela proximidade de seus corpos, o que o fez abraçá-la de volta, passando seus braços pela cintura dela. Um abraço de verdade, que ele não dava há tempos.
- Desculpa, amor. - ele pediu, se afastando e dando um beijo estalado em sua bochecha, e fechou a cara logo no minuto seguinte. Ela diria “tudo bem”, ou deixaria para lá, entretanto, o gesto do homem lembrou-a da mania chata dele de privar o contato de seus lábios.
- , eu já te disse que a gente pode se beijar! Não é como se eu fosse ficar com câncer por causa do seu beijo… - rolou os olhos e bateu de leve no braço dele, que estava com a expressão facial contrariada. Ela ainda ficou com medo dele entender errado sua piada, todavia, se tinha uma pessoa que ele não se incomodava de fazer piada de mau gosto, era ela.
- Não é por isso… - ele tentava dar uma desculpa, provavelmente falha, já que era a própria mestre em contrariá-lo.
- É porque então? - ela perguntou entrelaçando seu braço no dele e começando a andar para o destino que ela tinha traçado desde as sete e meia da manhã. - Eu não quero te beijar em público. - falou rápido até demais, quase deixando a mulher na dúvida de que ele podia estar falando a verdade. Ainda assim, fez uma cara de quem duvidava muito daquele fato e apenas relevou.
Ela, como sempre, foi tentando distraí-lo dos olhares curiosos e tentando afastar as pessoas que tentavam chegar perto para pedir um autógrafo ou uma foto, já que a namorada conhecia bem e seu mau humor. O que ela realmente não sabia era como o homem não transparecia seu humor pra lá de debochado quanto a sua doença, que não dava nenhuma manchete para cobrir uma página inteira, fosse na internet, jornais ou revistas. Ele virava cada vez mais um famoso who, já que estava cada vez menos sobre os holofotes da mídia. E ele muito menos iria reclamar daquilo, pois, pelo visto, sua reputação ainda estava intacta.
- Tcharam! - soltou dos braços do namorado quando chegou ao local desejado, abrindo os seus próprios e mostrando o Aquário Marinho da cidade.
- Meu Deus, ! - começou a rir, incrédulo com a sua namorada.
- O que foi? - ela sorria de lado, já suspeita do que ele ia falar.
- Você não tem como ser mais previsível! - ele ria tanto que teve que apoiar suas mãos nos próprios joelhos, que estavam dobrados por ter se cansado de andar.
- Ei! Como assim? - ela chegou perto dele novamente e colocou uma de suas mãos no ombro dele, rindo do riso espontâneo do homem de sua vida. Ele não imaginava como ela sentia falta de fazê-lo rir. Na hora que ela cogitou perguntar se ele estava bem, a figura de Lori apareceu em sua cabeça, fazendo-a parar de rir.
- Você e sua fissura pela sua profissão! - se aproximou ainda mais dela, dando-a um abraço de lado e um beijo na testa, sendo puxado por ela e começando a andar novamente para direção da entrada do local enquanto ainda falava. - Tinha que ser minha bióloga marinha preferida mesmo…
mordeu a mão dele, que estava apoiada em seu ombro, rindo da chatice do namorado. Ela havia percebido o bom humor dele naquele dia… Talvez eles teriam chances de aproveitar melhor o momento sem a “rabugentice” natural de .
A mulher o olhou rapidamente e sorriu de lado, pensando em como ela conseguiria mudar a cabeça dele, como ela conseguiria fazê-lo enxergar que ainda dava tempo deles terem a vida que eles planejaram que teriam antes de descobrirem o câncer… Entretanto, sabia que nada ia mudar a cabeça dele, e que ela não tinha a mínima obrigação de fazer aquilo. Seu amor por ele era imensurável e nenhuma doença, modo de agir ou falar, iria mudar isso.
- Chegamos! – avisou, tirando-a de seus pensamentos. - Vamos entrar? – a mulher balançou a cabeça confirmando e adentrando a porta de vidro espelhada, bem embaixo do cartaz que tinha o nome do local.
Ela abriu a bolsa cuidadosamente e tirou sua carteira de dentro, pegando um punhado de dinheiro e seu comprovante de residência, que daria o desconto a eles, fazendo rir de sua falta de jeito. Ela riu também, mas logo estavam com o dinheiro - muito, por sinal, o homem havia notado e brigaria com ela depois - e preparados para aquela aventura.
Ambos foram andando, não muito longe um do outro, para a bancada no meio do local onde tinha uma mulher com uniforme do local vendendo as entradas. Não demorou muito e eles estavam com as suas na mão e o olhar inesperado de muita gente sobre o casal.
- Não ligue pros olhares, - pediu, apertando o braço do namorado, chamando a atenção do homem que reparava nas pessoas o olhando como se ele fosse a atração do lugar. - não temos que nos irritar hoje. - Não, amor, tudo bem. - o homem admitiu sorrindo e fechando os olhos significantemente para mostrar sua paciência extra do dia. - Já me irritei muito com isso nos últimos meses, preciso dar uma folga para eu mesmo. – A mulher até se assustou com a frase do namorado, pois nunca o vira tão bem com sua condição, e não seria ela quem reclamaria.
Eles seguiram pelo primeiro corredor do local, começando a escutar a música de uma banda que tinha começado a escutar há pouco tempo, e ela aproveitou para escutar um pouco, antes de começar a dar uma aula de biologia para .
- Nem precisa começar a me explicar as coisas, porque eu sei ler, ok? - o homem riu apontando para uma das plaquinhas com os nomes dos animais que tinha dentro do aquário e viu a namorada rolando os olhos e silabando a palavra ‘chato’, o que o fez rir mais.
- Pois vou explicar mesmo assim. – mostrou-lhe a língua e ele só conseguia rir da imagem de ingênua que passava, quando ele se lembrava como ela dera trabalho no passado por ter sido a teimosa da relação. O mais engraçado era que ele agora havia tomado o lugar dela… Mesmo assim, ainda conseguia ver os traços de marrenta da namorada quando ela insistia tanto que ele tinha muito tempo para viver, fato o qual ele discordava totalmente ou, pelo menos, parcialmente.
Depois de passarem pela primeira parte, darem atenção aos diversos tipos de animais que tinha por ali, eles chegaram a uma ala “tecnológica”, onde eles podiam interagir com várias telas. Eles ficaram ali por quase uma hora, perdendo a noção do tempo com os diversos jogos sobre a fauna e flora marinha.
- Meu Deus, - exclamou, checando o horário em seu relógio de pulso. - já são quase 2 da tarde! - ele tinha os olhos arregalados e um sorriso bobo no rosto.
- Tem horário para voltar para casa, querido? – perguntou, lembrando-se mais uma vez na cobrança extrema da mãe dele.
- Não dessa vez, anja. – disse, levantando uma sobrancelha e a tomando pela mão. - Isso quer dizer que vamos poder almoçar juntos? Passar uma tarde juntos? Como um casal de verdade? - indagou com os olhos brilhando, dessa vez não se lembrando da última vez que fizera um programa de casal tão longo com o namorado.
- Isso mesmo! – concordou, sorrindo e a puxando para mais um beijo na bochecha, fazendo a mulher fazer um bico e cara de brava. não tinha dúvidas do que se passava pela cabeça dela. - Deixa disso, amor. - ele riu. - Vamos comer algo?
- Vamos! - passou mais uma vez seu braço pelo do homem e andou junto a ele até uma parte que tinha com pequenos foodtrucks.
Depois de demorarem uns bons quinze minutos se decidindo em que lugar queriam comer, sempre com uma briguinha boba por causa da personalidade forte de ambos, decidiram e entraram na fila do foodtruck que servia comida australiana.
Parados na fila, a vibe descontraída do local havia mudado. Eles se encaravam, com os olhos cravados um no outro, fingindo que só existiam eles ali. Um sorriso perambulava pelos seus lábios, até que eles escutaram uma… risada? O casol saiu de seu transe rapidamente e viram uma pequena menina correndo por entre das pernas das pessoas da fila. riu da alegria da pequena em fazer aquilo e tentou segurar quando viu que a mãe da criança a chamava atenção. No impulso, a garota segurou a mão de e perguntou:
- Ela não é uma gracinha? - a mulher notou no cabelo da pequena no mesmo tom do seu e constatou. - Parece até comigo! Tomara que nossos filhos tenham cabelos tão lindos como os dela. - a mulher ainda ria, até que seu namorado soltou sua mão e ela sentiu que tinha algo estranho. Então percebeu que havia tocado no tal assunto proibido. De olhos brilhando a um olhar triste, fitou , engoliu em seco e pensou três vezes antes de falar algo. Contudo, ela nunca iria desistir de seu sonho. Nunca. - Deixa de ser cabeça dura. Você sabe que ainda vamos fazer uma família! - sorriu, tentando fazê-lo sorrir também.
- , não vamos falar disso aqui, por favor… - ele pediu, ficando nervoso e passando a mão pelo pouco cabelo de sua cabeça, fazendo-o se lembrar ainda mais de sua condição. Que ele nunca poderia ser pai. Não se fosse para manter a terrível dúvida se ele morreria cedo e deixaria seus filhos sozinhos com a mulher. - Você sabe que eu não vou mudar de ideia.
- Mas, … - ela tentou pegar a mão dele, que logo foi recolhida e parou dentro do bolso da calça. Ele a olhava duro, mantendo seu olhar pesado e teimoso. Lá estava ele de novo.
- Não. Não, . - ele pediu, ficando mais longe dela.
preferiu não falar mais nada. Não queria brigar com ele em frente a várias pessoas que, inclusive, conheciam ele. E, talvez, até ela. A voz de do homem na briga que eles tiveram uma vez sobre casamento e filhos sempre a perturbava. O modo como falava com vigor que nunca arriscaria se casar com ela para depois deixá-la viúva. Os dias que ele chegou a falar que não queria viver mais… As lembranças estavam voltando tão fortes que ela chegou até ficar zonza com a sensação de choro que a tomava. O nó na garganta a fazia quase não respirar e ela precisou puxar muito forte o ar para se recompor. Não sabia como, não mais naquele ponto, entretanto, ela o amava. Ainda o amava. Mesmo ele se negando a realizar seu sonho.
Eles seguiram a fila quietos, fizeram o pedido quietos, esperaram quietos, pegaram a comida quietos, e até comeram quietos. Porém, no final da refeição, teve que falar algo.
- Olha, não vamos deixar aquilo atrapalhar nosso dia, viu? Já não temos muitos dias assim, precisamos aproveitar esse. - ela falou, tentando sorrir de lado pelo menos um pouco e procurando os olhos do namorado. Ele tinha o olhar perdido em pensamentos, mas, depois de muito pensar, finalmente a olhou, sentindo que ela estava certa. Eles sempre brigavam. Aquela seria apenas mais uma briguinha, certo? Então ele fez o que ela pedia. Abriu o sorriso que ela pedia e se levantou, pegando suas sujeiras e levando ao lixo mais próximo, fazendo seu papel de cidadão consciente.
- Vamos continuar nosso passeio então, minha guia turística. - ele a puxou para perto e ela sorriu, já o levando para outro corredor.
O casal passeou pelo local por pelo menos mais três horas, até repassando pelos seus lugares favoritos. estava encantada com o local novo na cidade e nem lembrava mais da briga de mais cedo, pois não conseguia tirar os olhos da namorada e nem de parar de sorrir.
- Sabe de uma coisa? - perguntou, passando por trás do namorado que agora estava vendo uma grande tartaruga se mexer mais ágil que o normal. - Já está tarde… A gente bem que podia tomar um sorvete na hora de sairmos. Que tal? - ela ofereceu, o abraçando por trás e dando um beijo nas costas largas dele por cima da blusa.
- Já está pensando em ir embora? - ele argumentou, com sua voz aguda, por não ter entendido a fala repentina da mulher e se virou, fitando-a.
- Tô ficando cansada… - respondeu e bocejou, fazendo o namorado rir de sua carinha de sono. Ele chegou mais perto dela, colando suas mãos nas bochechas dela e sorrindo, encarando a boca da garota. Porém, o beijo que ele deu foi na ponta do nariz dela, o que a fez rir pelos dois sustos: seu coração estava acelerado só de pensar em beijar a boca do seu amado namorado, e depois ele explodiu em gargalhada pela surpresa do beijo no nariz.
- Ai, … - ela começou, tomando distância e indo pra próxima sessão, que era a última. - Você não existe! - o homem a seguiu rindo. No segundo seguinte, foi ele quem levou um susto quando percebeu a música ambiente que tocava agora. O casal adorava o clipe da música e acabaram viciando na mesma.
- ! Olha a música! - ele falou e a encarou, sorrindo ainda maior. Ela começou a gargalhar quando viu o que ele estava prestes a fazer e quase caiu no chão de tanto rir quando ele começou a cantar a música.
- So you’re still thinking of me, just like I know you should! I cannot give you everything, you know I wish I could… - ele dizia, apontando para ela encenando a música. A garota ria, pensando que ele ao menos estava se importando com o que as pessoas pensavam deles naquele momento.
- I’m so high at the moment, I’m so caught up in this… Yeah, we’re just young, dumb and broke, but we still got love to give! - fez a interpretação “sua parte” e percebeu que ele ria dela também, assim como notou que a letra se encaixava direitinho na relação deles. Pois afinal, era um retrato da vida de casal deles, que eram jovens, burrinhos e… quebrados.
- While we’re young, dumb, young, young, dumb and… - cantava dançando e rindo e chamando a atenção das pessoas ao seu redor. Contudo, se o namorado não se importava, ela não iria se importar.
- Brooooke! Young, dumb, young, young, dumb and broke! - ele cantou e dançou, mexendo as mãos e riu de sua dancinha estranha. A mulher tinha colocado algo em sua comida, essa era a única razão dele estar assim naquele momento, ele pensava.
- Young, dumb, broke high school kids! - cantaram juntos, fazendo o ritmozinho da música, indo para a saída do Aquário Marinho, já que tinham muitos olhares em cima deles. Eles ficaram mais perto e ainda cantavam a música mais baixinho, agora abraçados de lado e aproveitando a companhia um do outro.
- We have so much in common, - continuou dizendo perto da orelha da namorada. - We argue all the time! You always say I’m wrong… I’m pretty sure I’m right. - terminou o verso, fazendo uma cara engraçada e a namorada riu, continuando a cantar o verso seguinte.
- What’s fun about commitment? We have our life to live. Yeah, we’re just young, dumb and broke, but we still got love to give. - piscou no fim da frase, como se estivesse desabafando algo e o homem abriu um sorrisinho, fazendo cosquinha na barriga dela, que apenas deu uma risadinha e espremeu os olhos como se falasse que teria volta.
tinha a impressão que a mulher realmente queria lhe dizer algo quando terminou a música, e ficou pensando naquilo até eles chegarem perto de uma sorveteria, o que durou pelo menos quinze minutos.
O casal foi logo pedir seus respectivos sorvetes, que eram sempre os mesmos: a garota amava o sorvete de chocolate com menta e ele ficava sempre no creme. Às vezes, ele colocava uma calda de morango, entretanto, sempre dizia que seu favorito sempre seria o bom e tradicional creme.
- Você devia tentar tomar outros sabores, amor. - disse, sentando-se na cadeira e mostrando o seu na colherzinha para ele ver, o fazendo balançar a cabeça negativamente.
- Eu já experimentei muitos, anja. - admitiu e tomou um pouco do seu, saboreando-o como tanto gostava. - Até gosto de outros, porém, não tenho culpa se o de creme é o amor da minha vida.
- Ei! – retrucou, fazendo cara de brava. - Pensei que eu era o amor da sua vida!
riu da expressão da namorada, e passou o dedo em seu sorvete, logo sujando o nariz dela, e acabando por sujar metade do rosto. Ele riu mais e respondeu-a.
- É claro que é você, meu amor. - ria, mas foi parando aos poucos, vendo que ela estava séria, sem saber se era pelo que tinha dito.
- Você… Nunca me disse isso. - revelou pensativa, se perguntando se aquilo significava algo. Se aquele dia teve algum efeito na vida do homem. Se ele, finalmente, iria desistir da ideia de que iria morrer nas roupas que os parentes iam escolher para ele; que ele não queria ter uma família nem se casaria com . Talvez nem tudo tivesse perdido.
E ao invés dele responder ao que pensava, fez o que sua mente dizia que deveria fazer. Beijá-la. Com o gosto do sorvete de creme dele e do de chocolate com menta dela. Ele tinha quebrado sua própria regra. E não se arrependia disso.




Fim...



Nota da autora: Faz o quê? Um ano que não me sinto tão satisfeita com uma shortfic que eu escrevo? Pois estou soltando uns firework de alegria que, em cima da hora, acabei essa ficzinha e amei muito o que escrevi. Espero que vocês também gostem assim como eu gostei! Ah, e se gostarem… A caixinha de comentário é ali embaixo, viu? Muito obrigada por lerem, anjos <3



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A Song About Love
Uma Noite de Natal em Alavus
We’re On Fire



Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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