Capítulo Único

“Querida ,

Eu não sei como começar a escrever isso sem parecer um idiota sem coração, mas não sei se consigo falar tudo que preciso e da forma como preciso. Sei que um dia você vai me entender (ou não) e talvez possa me perdoar por isso.
Nós acontecemos um na vida do outro de forma certa, mas no momento errado, porque somos imaturos para lidar com tudo isso da forma certa. Não falta amor, mas falta maturidade.
Então, eu quero te propor uma coisa, que vai parecer a coisa mais louca do mundo, mas nesse momento faz muito sentido na minha cabeça: em dez anos, no dia quinze de setembro de dois mil e dezoito, seja lá onde eu estiver ou onde você estiver, a gente vai se encontrar e conversar sobre tudo.
Pelo tamanho e intensidade do amor que eu sinto, sei que será muito difícil alguma coisa mudar em relação a você, mesmo daqui um milhão de anos, mas em dez anos muita coisa pode acontecer. Poderemos estar casados (entre nós ou com outras pessoas), ter filhos, estarmos ricos ou muito pobres, talvez até mesmo mortos.
Eu sei que parece uma ideia muito idiota, que deveríamos fazer isso agora mesmo, mas não acho que a gente tenha maturidade suficiente pra fazer isso dar certo agora, não vamos saber conversar e isso só vai deixar tudo muito pior do que já está.
Nos encontraremos nesse dia e vamos conversar de forma adulta e madura, ver se ainda vamos nos amar da mesma forma, se o carinho ainda será o mesmo e se há alguma chance de fazermos isso dar certo de verdade, se amadurecemos o suficiente para ficarmos juntos de novo ou não.
Eu tenho uma ideia do que quero para o meu futuro e você tem a sua, mas as duas ideias não batem e não têm como caminharem juntas sem que a gente se magoe e destrua o amor que sentimos um pelo outro.
Como não faço ideia de onde estarei, nos encontraremos no seu lugar favorito de Paris (pelo menos o que é favorito agora, se mudar, você vai ter que dar um jeito de me avisar) às cinco e meia da tarde. Não sei se você vai, mas eu estarei te esperando.
Obrigado por tudo, eu amo você e eu sempre vou te amar.”

Eu guardava aquela carta há nove anos, onze meses e vinte e nove dias. Quase 120 meses. 520 semanas. 3.651 dias. 87.624 horas, 5.257.440 minutos e 315.446.400 segundos depois de tê-la recebido. Bom, algumas horas, minutos e segundos a mais, se considerarmos o horário do recebimento, mas deu pra entender o que eu quis dizer: é muito tempo.
Em dez anos, eu nunca estive tão nervosa quanto estou agora, dia quatorze de setembro de dois mil e dezoito. Um dia antes do encontro que está marcado desde dois mil e oito.
Em dez anos muita coisa mudou, realmente.
Eu fiz vinte e seis anos, ele fez vinte e sete. Eu deixei de ser a adolescente louca e irresponsável que era e que só pensava em sair com meus amigos para beber, fumar, e me tornei uma adulta responsável, que ainda sai com os amigos para beber e fumar, mas comedidamente, sem precisar passar a noite fora de casa como se o mundo fosse acabar na manhã seguinte e eu precisasse beber tudo que eu encontrasse pela frente.
Eu nunca entendi como foi que nós dois nos tornamos namorados de verdade, porque não tínhamos quase nada em comum. Nos conhecemos, ainda na escola, e ele sempre foi muito certinho, um “menino cheio de nove horas” como minha mãe costumava chamá-lo naquela época. Sei que, de uma forma muito estranha, nós nos entendemos muito bem, namoramos e tudo acabou.
Apesar de ele ser mais velho que eu, nós tínhamos uma aula juntos no ano letivo de 2006/2007, literatura francesa, ele era esforçado, apesar de não ser um dos mais inteligentes da turma, eu tampouco era. Nós não nos falávamos, porque ele tinha os amigos dele, eu tinha os meus e era assim que as coisas funcionavam.
Até que um dia, uma amiga minha disse que queria ficar com uma amiga dele, mas essa amiga dele disse que só ficaria com a minha amiga se eu ficasse com ele também. Confuso, eu sei, mas foi o que aconteceu, pra ajudar minha amiga a ficar com a amiga dele, eu aceitei ficar com ele também e nós ficamos. Ponto. Achei que seria apenas isso, mas nós começamos a conversar na escola, saímos algumas vezes sozinhos, ficamos outras vezes e nos tornamos um casal.
Ele estava começando sua carreira como jogador de futebol, então evitava todas as coisas que eu fazia: sair tarde da noite pra encher a cara, fumar, fazer bagunça e infringir a lei de todas as formas que uma adolescente de quinze anos podia fazer. Ele tinha potencial para conseguir se tornar um grande jogador conhecido mundialmente.
E, bom, ele se tornou.
Para a seleção, ele é uma espécie de divindade, em seu time atual ele é ídolo incontestável de todos os torcedores e todos os times do mundo querem a chance de dar a ele uma camisa com seu escudo, o nome “” estampado nas costas junto com o número 10.
Dez.
Há onze anos e meio atrás, quando nossa história começou de verdade, em Lille, eu era a namorada de , aquele ser humano sempre muito agradável de se estar por perto, atencioso, engraçado, responsável, muito divertido e lindo. Irresistivelmente lindo. Aqueles olhos lindos, aquele sorriso arteiro e sempre muito animado, aquela alegria contagiante, aquele abraço apertado delicioso e confortável, aquele beijo...
Ele era a luz que eu precisava, enquanto me enfiava no que eu julgava ser “a rebeldia normal de uma adolescente”. Muito do que eu fazia, realmente, era comportamento de adolescente, mas muitas coisas passavam do limite do aceitável, e estava lá para me aconselhar e me mostrar que eu estava seguindo o caminho errado. Não que eu aceitasse bem as sugestões dele, porque brigamos muitas vezes por suas “intromissões”, mas no fundo eu sabia que ele estava certo e eu só fui entender que ele estava fazendo isso pelo meu bem, quando eu o perdi, quando tudo entre nós dois acabou.
Mas nunca faltou amor. Nunca.
Nesses dez anos separados – ainda que ele tenha continuado a morar aqui em Lille por mais quatro anos antes de se transferir para o Chelsea e mudar de vez para Londres – eu sempre o amei, amadureci aquela loucura de adolescente e me tornei algo que jamais pensei que me tornaria: advogada.
Aos quinze anos eu pensava que teria uma banda com alguns amigos e achava que ficaria trilhardária, viajaria o mundo, teria uma multidão de fãs que matariam e morreriam por mim, acreditava que eu poderia beber muito e o tempo todo e todas aquelas coisas estúpidas que qualquer adolescente que seja no mínimo tapado, idiota e egoísta, já imaginou fazer. E não, não acho que ser cantora seja estúpido, tapado, idiota e egoísta, mas sim a parte de esbanjar dinheiro e ego. Agora, porque na época eu achava que tudo isso era ótimo e aceitável. E hoje vejo como isso podia ter sido um enorme problema na época em que eu namorava com ele.
era absolutamente focado, treinava duro todos os dias, era o primeiro a chegar nos treinos e o último a sair, jogava todos os jogos como se fosse uma final de campeonato, mesmo quando ainda estava nas categorias de base do time, e estava sempre pensando em seu desempenho e em seu futuro. Na minha cabeça de adolescente irresponsável de quinze anos, ele era idiota, porque ganhava muito bem para um adolescente e não precisava se preocupar tanto, tinha apenas que aproveitar o que a vida lhe oferecia.
Nós brigávamos muito, porque, bom, eu era um problema. Gostaria de dizer que a culpa é do meu signo, mas eu não sou de áries, leão, gêmeos ou escorpião, nasci em setembro, sou de virgem. E as minhas variáveis do zodíaco – lua, ascendente, saturno, etc. – são muito bons, não podem ser culpados pela minha imaturidade na época. Ele é capricorniano, isso podia ser um problema, mas obviamente não vou culpar os signos pela minha falta de noção quando eu era mais nova.
Essa carta-término veio acompanhada de um buquê de flores e um ursinho de pelúcia que eu ainda tenho. Era a forma mais possível de terminar um relacionamento. Sempre atencioso, fofo e carismático.
Nós dois nunca mais nos vimos, não pessoalmente. Eu, que sempre amei futebol e sempre torci para o Lille e ia a todos os jogos na cidade, deixei de acompanhar o time enquanto ele esteve por aqui. Voltei a fazê-lo quando se mudou para Londres para se tornar o grande nome do Chelsea e um nome conhecido e disputado mundialmente. Não assisto a nenhum jogo dele, procuro evitar todas as notícias que envolvem seu nome, mas, claro, é impossível não ouvir uma ou outra coisa sobre ele pela cidade. se tornou o fenômeno que faz os clubes disputarem ferrenhamente seu interesse.
Profissionalmente, sei de muita coisa sobre ele (mais até do que gostaria), mas não faço ideia do que se passa em sua vida pessoal, preferi me manter longe de tudo que pudesse me levar a ter um mínimo de informação que fosse, porque eu sinceramente não sei o quanto posso aguentar saber. E tê-lo em solo francês na Eurocopa de 2016 foi uma tortura, principalmente quando a seleção jogou em Lille, eu me mantive trancada em casa nos dias em que ele estava na cidade, porque não aguentava mais ouvir o nome dele, tampouco o medo que eu tive de encontra-lo e descobrir o que eu não queria saber. A parte boa era não terem jogado no grupo da França e que não tenham chegado à final, porque eu pude ver minha seleção jogar.
Ainda que eu tenha fugido dele nessa época, por diversas vezes eu tive vontade de sair de Lille e ir a Londres para vê-lo e adiantar essa conversa, mas, ao mesmo tempo, sempre tive medo da reação dele, se é que ele ainda se lembra de mim e de ter agendado uma data em seu futuro para me ver, a ex-namorada da época da escola. Na mesma proporção em que sinto falta dele, eu tenho medo do que pode ter acontecido nesses dez anos, porque eu mudei muito, tanto externa quanto internamente. Ele também pode ter se tornado outra pessoa.
Passei por todas as fases do término, da tristeza ao rancor, voltando à tristeza e compreendendo o que ele quis dizer naquela carta: sempre houve e sempre haveria amor, mas faltava maturidade e insistir naquele relacionamento da forma como era, teria matado todo o sentimento, destruído todo o carinho que sempre tivemos um pelo outro e o rancor teria ficado eternamente.
Em dez anos eu tive três namorados, mas por nenhum deles eu senti o amor que eu ainda sinto por , e ainda que gostasse muito dos três e que nos déssemos bem, nenhum deles despertou em mim o que despertou. Amor verdadeiro. Amor intenso e verdadeiro, da forma mais pura e simples que podia existir e que parece coisa de filme demais pra ser verdade, mas que é real e acontece, ainda que a maioria das pessoas duvide.
não era extravagante, demonstrava seu amor em pequenos gestos e de forma verdadeira. Podemos nunca mais ficar juntos, mas ele sempre será o amor da minha vida, porque ele foi quem me ensinou o que é amor de verdade.
Meu lugar favorito em Paris é o melhor local para se assistir ao pôr-do-sol: a Place du Trocadéro. A vista ao fim do dia é uma das coisas mais lindas do mundo e eu sempre amei a forma como o pôr-do-sol parece diferente ali. Nós dois saímos de Lille diversas vezes para ver o pôr-do-sol em Paris, sentávamos num banco de concreto, comíamos croissant e macarons, tomávamos café e assistíamos àquele espetáculo de cores juntos, abraçados, exatamente como qualquer casal de filme romântico clichê.
Mas, agora, as coisas são diferentes. Ele é um jogador mundialmente conhecido e disputado, não vai querer se sentar num banco de concreto em uma praça para ver o pôr-do-sol, ainda que seja em Paris, muito menos terá paz suficiente para fazer isso, porque as pessoas o conhecem e reconhecem em qualquer lugar em que ele esteja.
- Você está me ouvindo? – senti meu corpo ser sacudido de leve e acordei dos meus pensamentos, escondendo o pedaço de papel com aquela caligrafia de um garoto de dezessete anos e um dos primeiros autógrafos que ele deve ter dado na vida. Ainda que aquilo não fosse, realmente, um autógrafo. – Não precisa guardar, eu já li esse papel e sei perfeitamente do que se trata.
- O que você quer, ? – perguntei, me virando para minha melhor amiga e sócia, que estava ao meu lado e me encarava.
- Já tá bem tarde, podemos ir embora, não vai acontecer mais nada aqui hoje. E é sexta-feira!
- Eu não estou te segurando aqui, você pode ir embora se quiser.
- Está, porque eu estou de carona com você.
- Ah é. – disse e suspirei, jogando a cabeça para trás e encarando o teto do escritório.
- É amanhã? – ela perguntou enquanto se encaminhava para se sentar na cadeira que estava do outro lado da minha mesa e eu simplesmente murmurei um “uhum”. – E você está pensando se vale a pena ir parar em Paris sem ter certeza se ele está solteiro, se vai aparecer e se ainda é seu , se a fama não o corrompeu. E se seu lugar favorito continua sendo uma boa opção, porque ele agora é famoso e as pessoas o reconhecem no mundo inteiro, não apenas em Lille e que isso pode tirar a paz do encontro. E, principalmente, você está se perguntando se ele se lembra do compromisso marcado e se ainda se lembra de você.
- Como você sabe que eu tô pensando nisso?
- Eu te conheço há vinte e seis anos, nós fomos criadas juntas e somos melhores amigas desde antes de decidirmos isso por nós mesmas. E vivi dez anos te vendo amá-lo à distância e totalmente distante, sem procurar saber nada e sempre evitando todas as notícias sobre ele, bloqueou em todas as redes sociais, silenciou tudo que envolvesse as palavras “ ” e “Seleção Belga”, evita tudo sobre o Chelsea, ficou anos evitando o próprio time por causa dele e na Eurocopa quase teve um colapso nervoso nas duas vezes em que ele esteve na cidade. Já te vi chorar querendo ir até Londres para vê-lo e resolver toda essa situação antes do prazo combinado, já te vi chorar de medo de ir até lá e descobrir o que tinha acontecido com ele, se estava ou não casado, se é o mesmo de sempre e tudo mais. Não preciso que você me fale, porque eu sei bem o que está se passando na sua cabeça.
- Meu medo é ir e ele não aparecer. Ou pior, aparecer e ter se tornado um daqueles jogadores babacas que acham superiores e que por serem jogadores, podem fazer e ter tudo que quiserem. – suspirei e ela me ofereceu seu melhor sorriso consolador.
- Não me parece o tipo de coisa que o Elfinho faria.
- Para de chama-lo assim. Ele nunca pareceu um elfo.
- Claro que parece! Igual àqueles ajudantes do Papai Noel em filme. Ou um Oompa-Loompa, mas ele não era laranja e nem tinha o cabelo verde. Mas é a mesma coisa de um Oompa-Loompa.
- Cala a boca, . – disse sem segurar o riso.
- O ponto aqui é, , que esse não é o tipo de coisa que o faria. Não o que nós duas conhecemos.
- Se eu mudei, ele também pode ter mudado, . Ele pode muito bem achar que se sentar num banco de concreto em uma praça, comendo croissant e ver o pôr-do-sol, é coisa da ralé e não de um jogador do nível dele, já que ele pode mandar fechar a Torre Eiffel e ver tudo sozinho lá de cima sem ser incomodado.
- , se ele tiver se tornado esse tipo de pessoa, o problema é só dele. Você se tornou alguém melhor, alguém que nenhum de nós imaginava que fosse se tornar, uma adulta comprometida, responsável e que possui uma carreira estável e ótima, que não pensa apenas no dinheiro e que trabalha por amar o que faz. E você amadureceu o seu sentimento por ele. Vai doer caso ele tenha se tornado um babaca? Vai, claro que vai, mas você não terá culpa nenhuma. Então, se prepare para embarcar no trem que vai para Paris amanhã e leve os croissants. Se ele não aparecer, come sozinha, assista ao pôr-do-sol e aproveita aquela vista maravilhosa, você merece. Se ele aparecer e for um babaca, inventa que tem namorado ou que virou lésbica, pode até me usar e dizer que, no fim das contas, nós duas não éramos apenas melhores amigas. Se ele aparecer e for o seu , aquele mesmo Elfinho de sempre, conversem e descubram se vocês se tornaram melhores um pro outro. E mande um beijo enorme pra ele nesse caso.
- É... – disse e suspirei, mordendo a parte interna da bochecha. fazia as coisas parecerem tão simples quando falava daquele jeito, mas, ainda que eu saiba que ela está sendo sincera, não posso me impedir de pensar em como as coisas nem sempre são fáceis na prática como são na teoria.
- Pare de pensar que as coisas nem sempre são tão fáceis na prática quanto na teoria, ! Você vai pra Paris amanhã, é sábado, você não tem nada pra fazer por aqui, então vá ao salão, compre uma roupa bonita, compre os croissants e vá. E me avise quando chegar em Lille e se preciso ir ao supermercado comprar chocolate e sorvete para você, antes de ir até sua casa te consolar.
- Tudo bem. – suspirei e me pus de pé, pegando a bolsa e ela deu um sorriso sincero.
- Você se tornou um mulherão! E se ele perder a chance, os outros homens do mundo agradecerão. – disse se pondo de pé e nós saímos do escritório.

Eu a deixei em sua própria casa e depois segui até a minha. Um apartamento simples, pequeno, mas que me servia muito bem, obrigada. Fica a dois minutos da Gare de Lille Flanders, onde pegarei o trem amanhã. Além de ser perto de basicamente tudo que eu preciso para viver, mas não tanto do escritório, que fica no centro da cidade.
Não pretendo aparecer em Paris com cara de morta, de quem passou a noite acordada por estar nervosa, demonstrando total e completo despreparo emocional para aquele encontro, que está marcado há dez anos, então resolvi que fazer yoga e alguns minutos de meditação poderiam me ajudar.
Eu, na verdade eu queria fumar um baseado e nem tenho vergonha de falar isso, mas não tenho como conseguir isso tão em cima da hora, porque não conheço ninguém que faça esse tipo de coisa mais, então tenho que me contentar com o yoga, uns incensos e meditação.
Assim que cheguei, deixei a bolsa sobre a mesa e fui até Sirius, que estava preguiçosamente deitado no sofá, e lhe fiz um carinho, recebendo um ronronar manhoso em resposta. Tomei um banho quente, porque o dia estava frio, tinha até mesmo chovido durante alguns momentos da tarde. Vesti uma boa roupa para yoga e voltei para a sala, coloquei uma música bem suave e comecei a me alongar nas posições que conseguia me lembrar e que podiam me fazer relaxar um pouco.
Depois de uma hora assim, comecei a mentalizar que tinha ajudado e que eu estava me sentindo muito mais relaxada – o que não passa de uma grande mentira – e fui até a cozinha. Comi um sanduíche mal feito, escovei os dentes e me enfiei sob os edredons. Preciso dormir, relaxar e parar de pensar.
Não deu certo.
Rolei pela cama a noite inteira, repassando mentalmente a última vez em que nos encontramos: o nosso término.

Flashback – 15 de setembro de 2008

tinha jogado no dia anterior e enfrentado uma hora e meia de ônibus, de Montbéliard até Basel, mais cinco horas de voo voltando para casa, depois de terem tomado um chá de aeroporto, que durou outras quatro horas pelo mau tempo que fazia naquele dia. O time seguiu de ônibus de Montbéliard até Basel, na Suíça, de onde sairia um voo para Lille, já que o aeroporto de Montbéliard não teria nenhum que viesse direto para cá. Pegaram muita chuva e neblina pelo caminho e tiveram de esperar por outras quatro horas no aeroporto, até que houvesse condições de voo.
O Lille empatou com o Sochaux fora de casa, a situação do time não era boa, estávamos em décimo quinto lugar na tabela, ainda que fosse a quinta rodada do campeonato e muita coisa ainda fosse acontecer naquele campeonato.
Tínhamos brigado feio alguns dias antes, mais especificamente, no dia doze de setembro, que foi meu aniversário. E a culpa não foi dele, como nunca era.
Era uma sexta-feira, eu tinha resolvido sair para comemorar meus dezesseis anos, da forma como eu vivia minha adolescência: com álcool, bagunça e um baseado. E sem regras. Meus pais me deixaram ser uma adolescente bem livre, o que hoje eu acho um erro, mas por pura sorte, eu me livrei bem do destino que eu estava construindo para mim.
Nós brigamos, porque ele precisava treinar cedo no dia seguinte, o que significava que ele precisava ir para casa cedo também e eu não conseguia aceitar que ele não ficaria na minha comemoração de aniversário, afinal é como dizem por aí, só se faz dezesseis anos uma vez na vida.
Eu queria comemorar e queria que meu namorado estivesse lá comigo.

- Eu preciso voltar meia noite pra casa hoje, ma chérie. – ele disse sério e eu o encarei. – Vou treinar de manhã e viajar, não posso treinar e viajar de ressaca, muito menos ainda bêbado.
- Você é um corta clima do caralho, . – disse emburrada e cruzei os braços, no maior gesto pirracento possível. – Você nunca quer sair com a gente, sempre arruma uma desculpa e eu saio sozinha!
- Você continua saindo, linda, não precisa ficar brava. – ele disse num tom fofo, aquele tom que desmanchava meu coração e ele sabia disso, e me puxou pra sentar mais perto dele no banco da praça, me envolvendo em seu abraço. – Nós dois sabemos que é importante que eu consiga me firmar no time, pra alcançar outros times na Europa e...
- E isso é mais importante do que comemorar o aniversário da sua namorada com ela? – perguntei e ele suspirou pesaroso, não era aquilo que ele queria dizer, mas eu interpretei como eu queria, pra arrumar um motivo para discutir com ele. – Pela falta de resposta, acho que sim, muito mais.
- , eu não disse isso.
- Já que o time é muito mais importante do que eu, você pode ir embora agora então, . – falei séria e me soltei de seu abraço, me colocando de pé rápido.
- ... – ele me segurou pela mão e eu o olhei brava.
- Agora sou eu quem não te quer aqui. Vá embora, dormir cedo e viajar com o time. Vocês precisam mesmo, porque a situação não está boa e se continuarem assim, vão ser rebaixados. – respondi desaforada e sai de perto dele, voltando pra perto do meu grupo de amigos, que estava um pouco mais a frente na praça, bebendo animadinhos. Ele foi embora, estava certo em fazer isso e eu percebi isso no dia seguinte, mas no dia eu fiquei com muita raiva dele. Muita mesmo.

E então ele chegou de viagem na madrugada do dia quinze, já que tinham enfrentado toda aquela maratona de chá de aeroporto para conseguir voltar para Lille. Depois do horário que as aulas tinham acabado, ele me mandou uma mensagem de texto falando que passaria na minha casa mais tarde naquele dia, porque precisávamos conversar.
Por mais que eu estivesse magoada, pelos meus motivos estúpidos e egoístas, eu estava com muita vontade de vê-lo. Eu sempre ficava assim quando ele estava voltando de viagem, animada para vê-lo, para abraça-lo, beijá-lo e dizer que senti a falta dele.
Mas vê-lo ali, com um buquê de rosas vermelhas, um ursinho de pelúcia e cara de quem tinha notícias ruins a dar, me fizeram vacilar quando abri a porta.
- Isso é pra você. – ele disse e me estendeu as flores e o urso, depois de entrar na sala de casa. – Feliz aniversário.
- Você já tinha me dado um presente, mon amour. – disse e apontei para o sofá. Ele se sentou e eu me sentei ao seu lado, inalando o perfume das flores e me virei em sua direção, lhe dando um sorriso. Estava preparada para pedir desculpas pelo chilique que eu tinha dado uns dias antes. – Eu amei, obrigada por ser maravilhoso e o melhor namorado do mundo. Eu te amo.
- Eu também te amo. – ele disse dando um sorriso sem mostrar os dentes e suspirou.
- Mas... – disse antes que ele falasse e ele soltou um risinho pelo nariz antes de se virar em minha direção e segurar minha mão livre.
- Mas isso não está dando certo. – ele voltou a suspirar e tirou o papel do bolso da calça jeans que usava, me entregando em seguida. – Eu te amo muito, , muito mesmo. Só que apenas amor não basta, a gente precisa de muito mais do que isso pra ser feliz de verdade e manter nosso relacionamento. Pra fazer dar certo. E em respeito a tudo que nós vivemos nesse último um ano e meio, é melhor terminar. Não me entenda mal, não tô dizendo que prefiro o futebol a você, mas...
- Eu sei. – disse num tom baixo e compreensivo, deixando as flores sobre a mesa de centro. – Eu sei.
- Vem cá. – ele falou e me puxou para um abraço apertado, aqueles abraços que só ele sabia dar, que confortavam e abrigavam. – Eu te amo. Muito.
- Eu também te amo. – respondi sentindo as lágrimas se formarem em meus olhos. – E eu acho melhor a gente não se ver mais, pelo menos por um bom tempo, porque não vai dar certo.
- Nós fomos um bom casal, certo? Eu te fiz feliz?
- Você me conhece melhor do que ninguém, mon petit, sempre me fez feliz. E nós fomos os melhores, pode ter certeza disso. Só acho que a gente deve se afastar por um tempo, pra lidar com tudo isso, você sabe.
- Tudo bem. – ele me soltou de seu abraço e era como se eu tivesse perdido um pedaço de mim naquele momento. Ele me deu um beijo demorado na bochecha e se levantou, caminhando até a porta sem olhar para trás e saiu de casa sem que eu o acompanhasse. E eu nunca mais o vi pessoalmente depois daquilo.

Flashback OFF

Quando o celular despertou às seis da manhã, eu não tinha pregado o olho a noite inteira, mas resolvi que correr seria uma boa, ainda que meu corpo esteja cansado e implorando por algumas horas de sono. Ele que se resolvesse com meu inconsciente depois, porque eu preciso liberar todas as substâncias químicas responsáveis pela tensão, desespero, medo e a imensa vontade de me mudar para o local mais ermo e escondido da Austrália.
Vesti uma calça de ginástica, um moletom, peguei o celular, os fones e fiz minha rota habitual, doze quilômetros diários, seis na ida e seis na volta, mas naquele dia eu não os faria com a intenção habitual de manter a saúde e a boa forma, apenas para que as horas passassem e eu não me consumisse em nervosismo e desespero dentro do meu apartamento.
Quem, por tudo que é mais sagrado nesse mundo, marcava um encontro para dali há dez anos? Eu vi isso em um filme, mas ainda assim, o cara vivia no passado e a mulher no futuro e eles conversavam por cartas deixadas na caixa de correio da casa que eles viviam. E nem lá isso deu certo, porque o cara morreu! Bom, pelo que eu me lembro ele morreu, mas eu nem sei se morreu mesmo ou se eles chegaram a se encontrar, mas esse não era o ponto. O ponto era que isso era loucura. Loucura total.
Fiz os doze quilômetros apenas na ida, com a voz de Black M em meus ouvidos. Tomei café da manhã de padaria por onde eu estava e voltei pra casa de táxi, porque eu não faria vinte e quatro quilômetros de corrida nem se eu fosse maratonista. A parte boa foi conseguir fazer o tempo passar, ainda que só fossem nove e quarenta da manhã quando retornei.
Eu não iria ao salão, nem compraria roupas novas. Meu cabelo estava muito bem, obrigada, minhas roupas eram muito boas, recentemente adquiridas, muito bem lavadas e conservadas. Eu só precisava de um bom banho de banheira para relaxar e sair dali mais cedo para chegar em Paris e providenciar croissants e um bom lugar para ficar e esperar.
E agora me ocorreu um pensamento que não tive antes: como ele iria saber quem era eu? Porque eu sei muito bem quem era ele, mas eu era uma anônima, não aparecia em jornais ou televisão pelo mundo, ninguém me conhecia e ele não deveria nem fazer ideia de como eu me parecia mais. E nem adiantava pensar que ele iria saber pelo lugar, porque aquele banco era disputado quase a tapas.
E agora?
Num timing perfeito, meu celular tocou, me despertando dos meus devaneios e eu o atendi após ver o nome “Mãe” na tela. Isso não pode ser bom. Ela nunca me ligava usando o próprio celular se não for algo muito urgente. E a última coisa que preciso no dia de hoje é uma urgência familiar que ninguém mais possa resolver, além da única filha da família , que no caso sou eu.
- Alô? – atendi preocupada e quase clamando para que ela tivesse ligado por engano.
- ? É a mamãe.
- Mãe? Aconteceu alguma coisa? Por que a senhora tá usando o celular?
- Não faço ideia de onde deixei o telefone de casa.
- Como assim? A senhora tentou ligar pra ele? – perguntei sem entender. Como ela tinha perdido um telefone fixo? Coisas que se pode esperar de Jay .
- Tentei, mas ele está descarregado e não faço ideia de onde ele está! – ela respondeu. Telefone sem fio. Ok, agora faz sentido. – Enfim, eu estou te ligando porque chegou uma encomenda pra você.
- Aí? Eu mudei o endereço há muito tempo.
- É, mas eu acho que essa ia chegar aqui de qualquer forma, porque ele não deve saber seu endereço. Ou deve achar que você ainda mora aqui. – ela respondeu e por um mísero segundo eu não entendi o que ela queria dizer, apenas para que minha mente fosse golpeada pelo nome do remetente: . – Ele podia ter procurado na lista telefônica.
- Mãe, ninguém usa lista telefônica há uns quinze anos.
- Eu uso.
- É, mas a senhora vive presa nos anos noventa, mãe. – disse rindo e ela me xingou com um belo palavrão. – Enfim, a senhora abriu?
- Claro que não! A encomenda é pra você.
- E o que é? – perguntei já sabendo que ela tinha, sim, aberto a encomenda.
- Uma camisa do Chelsea com o número dele e um “use isso, preciso te encontrar, afinal de contas. P.S.: Estou suspenso.”. – ela respondeu e eu dei uma gargalhada antes de assimilar bem aquela ligação. Ele se lembra. E o principal: ele estará lá. – Não faço ideia do que ele quis dizer com esse “p.s.”.
- Tudo bem, passo aí daqui a pouco pra buscar.
- Não precisa. Seu pai está indo à Zara Home e vai te entregar. Ele já deve estar chegando, na verdade. Demorei a ligar porque não tinha encontrado o telefone e tive que procurar o celular pra conseguir falar com você.
- Mãe, a senhora é uma negação com tecnologia, hein?
- Sou. – ela resmungou, me fazendo rir. – E quando voltar de Paris, espero que você me conte como foi reencontrar o menino.
- Espera aí, como a senhora sabe que eu vou a Paris?
- Ele mandou uma passagem de trem também. Devia ter fretado um avião, agora ele é rico e pode fazer esse tipo de coisa. – ela disse num tom desapegado e só me restou rir.
- A senhora precisa parar de ler e abrir as coisas dos outros. – disse ainda rindo e ela soltou um resmungo do outro lado do fone, ao mesmo tempo em que o interfone tocou, anunciando que meu pai estava me esperando. – Mãe, o interfone tá tocando, vou descer e pegar a blusa com papai e te ligo quando eu chegar em Lille.
- Tudo bem. E usem camisinha, não sei se quero netos. – ela respondeu e desligou antes que eu pudesse falar alguma coisa.
Meu pai me abraçou rapidamente e saiu mais rápido ainda, disse que precisava ir logo, porque minha mãe estava falando na cabeça dele há dias o perturbando porque queria alguns lençóis novos e ele tinha ficado incumbido da missão de comprá-los, já que minha mãe acha que ele tem um gosto pra isso bem melhor que ela. Aproveitou para me avisar que eu deveria ir almoçar com eles quando eu voltasse para Lille e poderíamos conversar com calma sobre todos aqueles acontecimentos interessantes que viriam.
Minha família, com toda certeza, é a razão pela qual eu era completamente doida quando criança e adolescente. E o 0motivo pelo qual eu sou feliz, responsável e bem resolvida.
Subi de volta ao meu apartamento e abri a tal encomenda. A camisa azul estava numa caixa com o escudo do Chelsea. Presunçoso. A nota me parece muito “sou o dono do mundo” e há todo o ar de “você deve ser identificável, ou vou perder meu precioso tempo de jogador à toa, já que estou suspenso do jogo e poderia muito bem estar, sei lá, dormindo na minha cama com lençóis de seda egípcia e linho marroquino, com doze mulheres maravilhosas ao estilo modelos da Victoria Secrets”, mas ele tinha perdido tempo e dinheiro enviando aquela camisa, porque aquilo não serviria em mim nem quando eu tinha quinze anos.
Ele estava confundindo as pessoas, provavelmente estava pensando em qualquer outra mulher do mundo quando escolheu aquela numeração. Talvez fosse moda em Londres usar camisa de time como cropped, mas essa camisa não passa nem pela minha cabeça!
Ok, estou exagerando, mas ficaria apertada e curta, talvez coubesse na de quinze anos, mas na de vinte e seis, não cabe nem tendo toda a boa vontade do mundo, disso eu tenho certeza. Sem chances de experimentar e não saber como sair daquela blusa depois.
A passagem era para o trem de quinze horas e onze minutos, com previsão de chegada em Paris às dezesseis horas e quarenta e cinco minutos, então eu ainda tenho tempo de tomar um bom banho relaxante e almoçar em paz, sem pressa. E é bem mais rápido ir de trem do que de carro. E mais econômico também, além de ser um carro a menos na rua, menos poluição e o meio ambiente agradece.
Arrumei a casa toda, ouvindo Sirius miar em reclamação quando o enxotei da cama para arrumá-la e depois do sofá, para ajeitar tudo e deixar a casa em total e completa ordem. Às onze e meia, o apartamento estava totalmente limpo e organizado e ao meio-dia eu sai para almoçar, no Flunch. Eu até faria um almoço decente e saudável em um sábado habitual em casa, mas meu nervosismo pela aproximação do horário de saída da cidade mal me deixou caminhar até o restaurante e fazer um pedido, imagina cozinhar!
Eu comi rápido, voltei mais rápido ainda para casa e fui tomar banho. Enchi a banheira com uma água quente e bem gostosa, coloquei sais de banho e substituí o rap de Black M por uma playlist de meditação no Spotify, pra tentar criar um clima relaxante, mas não adiantou. Meu nervosismo não me permitiu relaxar, porque constantemente minha cabeça me lembrava do fiasco que estava por vir e que provavelmente estragaria o meu amor pelo pôr-do-sol em Paris para todo o sempre.
Fiquei algum tempo na banheira antes de, efetivamente, ir até o chuveiro para tomar banho e lavar os cabelos. Sai do banheiro enrolada num roupão grosso e felpudo, indo escolher o que vestir e sem saber que tipo de roupa eu deveria usar praquela ocasião.
Encarei todas as minhas roupas por mais tempo do que eu fazia habitualmente, me demorando a escolher até mesmo a calcinha e o sutiã que usaria, afinal nunca se sabe, e me sentei na cama, encarando os cabides cheios de roupas. Nada parecia bom o suficiente para usar num encontro com , a estrela e sensação do futebol mundial.
Não quero parecer a advogada super formal ou bem vestida demais pra ocasião, mas também não pretendo aparecer lá feito uma mendiga desmazelada. Parece que o conselho de , sobre comprar uma roupa nova, deveria ter sido seguido.
Depois de um bom punhado de minutos observando minhas próprias roupas, vesti uma calça jeans preta justa, calcei uma bota preta de cano curto e saltos baixos grossos, uma blusa preta grossa de mangas longas e gola alta e uma jaqueta jeans, ainda que eu tivesse cogitado usar uma de couro preta. Era preto demais, pareceria mais uma ida a um funeral do que, exatamente, um encontro.
Liguei o secador e sequei os cabelos, porque prefiro não me sentenciar a pegar uma pneumonia por sair com eles molhados nesse tempo frio, e pus uma touca cinza para tampar as orelhas do vento frio. Brincos, pulseiras, alguns anéis e um colar foram colocados para amenizar o ar fechado da roupa, ainda que a touca tenha um pompom cinza grande na ponta, ainda pareço séria demais.
Fiz uma maquiagem que não me exigiu muito conhecimento e destreza, porque é o que sei fazer e dado meu estado de espírito, melhor não arriscar nenhum tutorial mais elaborado ou vou sair daqui parecendo um palhaço fugido de algum circo de estacionamento; passei um bom perfume e peguei os óculos de grau que me acompanhavam na vida, olhando o resultado no espelho. Estava bom para a ocasião. Eu acho.
Basicamente joguei todas as coisas que precisava na bolsa preta tiracolo: celular, fones de ouvido, capa para os óculos, documentos, carteira, passagens, chaves de casa e um livro para passar o tempo dentro do trem. E o projeto de blusa que ele tinha enviado, que eu devolveria e ele que fizesse o que bem quisesse com aquela blusa. Isso não deve caber nem no Sirius!
Ok, exagerei.
O trem sai às quinze horas e onze minutos da estação, faltando dez minutos para as três, alimentei Sirius e encarei meu apartamento limpo, organizado e prestes a ficar quase totalmente vazio. Eu posso fingir um infarto e não aparecer? Posso, mas, como que prevendo isso, me ligou.
- Espero que você não esteja pensando em se fingir de morta ou qualquer coisa do tipo para não ir.
- , você um dia vai me ensinar essa coisa que você faz? De ler pensamentos?
- Não. E pare de tentar bloquear seus pensamentos com essa musiquinha estúpida. – disse e, ainda que eu saiba que fazer isso é previsível e inútil, já que ela não estava mesmo lendo meus pensamentos, realmente acertou. – E anda logo, você está atrasada.
- Tchau.
- Me liga quando chegar em Lille. Ou antes, se for necessário que eu vá pra Paris matar o Elfinho.
- Ligo. – disse e desliguei antes que ela fizesse outra observação e eu acabasse ficando em casa mais tempo do que deveria e acabasse realmente perdendo o trem e tendo que ir de carro.
Conferi se as passagens estavam mesmo na bolsa e sai do apartamento, deixando Sirius muito ocupado com a tarefa de fazer nada e passar o dia alternando entre comer e ficar deitado na cama, no sofá ou em qualquer outro canto da casa, como ele bem gostava de fazer.
Os quatro minutos de caminhada até a estação de trem pareceram horas e quando cheguei, o embarque já estava permitido. Sentei-me em meu lugar e esperei pelos minutos que faltavam até a partida. Um homem sentou-se ao meu lado, mas estava muito concentrado em seu celular para falar um simples “boa tarde”. Educação mandou lembranças, querido.
Coloquei os fones, abri meu livro, um exemplar de “A Irmandade Perdida”, que eu vinha negligenciando a mais tempo do que considero respeitável, e retomei minha leitura. Li cinco ou seis vezes a mesma frase antes de respirar fundo e me concentrar para que eu conseguisse ler. Tudo isso antes do trem arrancar e eu sentir meu corpo esfriar e eu cogitar que eu estava morrendo de ataque cardíaco.

Uma hora e trinta e quatro minutos depois, eu estava em Paris, desembarcando do trem. Quatro e quarenta e cinco da tarde. Desembarquei na estação Trocadéro e nesse momento eu senti meu estômago revirar. Não era fome, não era dor de barriga. É o nervosismo de encontrar o amor da minha vida dez anos depois. Dez anos depois do término.
Segui até uma cafeteria, o Carette Paris, e pedi um café grande para a viagem, ainda que me doa profundamente por estar contribuindo com mais plástico que futuramente poluirá o mundo, mas eu preciso me apressar se quiser achar algum lugar para sentar e ver o pôr-do-sol, comprei também alguns croissants de amêndoas com chocolate e alguns macarons de framboesa, os favoritos dele.
O ar gelado, mas confortável e gostoso, de Paris me fez, por alguns minutos, esquecer a negatividade quanto a toda aquela situação e me fez pensar que, talvez, as coisas possam dar certo dali alguns minutos. Que, finalmente, eu teria o amor da minha vida de volta e que ficaríamos juntos de novo, que teríamos nosso “felizes para sempre”.
O clima de Paris não é mágico apenas nos filmes e livros, é mágico até em quem vem ou vive aqui de verdade.
Depois de comprar tudo, segui para o local combinado. A Place du Trocadéro é ampla, mas o meu local favorito é um ponto específico: fica ao final do último lance de degraus, virando à esquerda, em um canteiro antes do pequeno muro. “Escondido” pelo canteiro alto, há um banco de pedra em que a vista é incrível. O local estava ocupado, claro, então me sentei no canteiro, cruzando as pernas e esperei que alguém saísse, ou eu ficaria por ali mesmo.
Enquanto eu observava o céu começar a adquirir um tom alaranjado combinando com um azul claro, o lugar foi se enchendo de turistas. E eu não tirava a razão de nenhum deles, porque se eu tivesse a chance de ver aquela cena todos os dias, eu pararia para assistir e tenho certeza que jamais me cansaria de admirar a beleza daquilo. O sol passando por trás da Torre Eiffel antes de se pôr e a noite cair sobre a Cidade Luz, é uma das coisas mais lindas que já tive a oportunidade de ver na vida.
Tirei o celular da bolsa e tirei uma foto da Torre, com aqueles tons de alaranjado e azul do céu a deixando ainda mais bonita.
- Eu também gosto muito dessa vista. – ouvi uma voz masculina e, mesmo que eu não a ouvisse há dez anos, eu sabia a quem ela pertencia. – Chega um pouco pra lá, quero sentar também.
- Vamos ficar com os pés nas pessoas que estão sentadas? – perguntei sem olhá-lo, apenas me afastando e dando espaço para que ele se sentasse. Duvido muito que ele caiba sentado aqui, em todo caso, mas se ele quer tentar, quem sou eu para tentar impedir?
- Não me cabe. – ele resmungou e eu precisei me segurar para não rir do tom de voz sentido que ele usou. voltou a ficar de pé na rampa e encostado no canteiro. – Você não vai olhar pra mim?
- Não. – disse e suspirei, sem coragem de olhar até de canto de olho. – Agora não, quero ver o sol se pôr primeiro.
- Por mim, tudo bem. – ele respondeu e nós ficamos em silêncio.
Ele parado quase do meu lado, provavelmente, olhando para frente e eu sentada na beirada do canteiro, com uma sacola de papel ao meu lado, um copo de café quente em mãos e sem coragem de olhar, ainda que de soslaio, para ele. E ficamos assim por longos minutos, quase vinte, até que um casal saiu do banco, se aproximando das grades para tirar fotos, e se sentou, cutucando meu pé para que eu descesse e me juntasse a ele no banco. E eu o fiz, mas ainda sem olhá-lo.
O perfume... Era mil vezes melhor do que eu me lembrava. E não olhar para ele estava se tornando uma missão complicada. Tão complicada quanto não inalar aquele perfume de forma mais descarada e próxima possível.
- Quer? – estendi a sacola de papel em que os croissants e os macarons estavam em embalagens plásticas. Ele pegou, sem encostar em mim e ouvi um grunhido satisfeito emitido por ele.
- Você ainda lembra.
- Eu nunca serei capaz de esquecer que você gosta de croissant de amêndoas com chocolate e macaron de framboesa. E um chocolate quente amargo. Só que achei melhor não trazer o chocolate.
- Por quê? – ele perguntou abrindo a sacola de papel.
- Não sabia se você chegaria aqui no horário, chocolate amargo frio não é tão gostoso quanto é quente pra fazer companhia ao docinho do croissant e do macaron. – disse ainda olhando para a Torre.
Terminei meu próprio café e fiquei segurando o copo, amenizando a tensão do momento girando-o entre meus dedos, enquanto observava o sol passar por trás da Torre Eiffel, atraindo celulares e câmeras para registrar aquele momento, mas preferi apenas observar, em silêncio, aquele espetáculo que eu sempre amei ver. Eu nunca me cansarei de Paris.
Quando o sol finalmente se pôs e o banco ao nosso lado já estava totalmente vazio, voltei a me sentir nervosa. Ele estava pacientemente esperando por alguma reação minha, por uma fala ou qualquer manifestação. E esperou calado porque estava comendo seus macarons feito uma criança.
- E então, vamos ficar sentados e calados? – ele quebrou o silêncio entre nós e eu suspirei. – Por que você está sem a camisa?
- , ela não serve nem no meu gato. – eu disse ainda sem olhá-lo.
- , você vai conversar comigo sem me olhar? – ele perguntou, pegando em minha mão e eu me obriguei a olhar para o lado. Ele estava com um moletom preto, com o capuz sobre um boné azul escuro e esse deveria ser o motivo de ninguém ter percebido quem ele é. Aqueles inconfundíveis e apaixonáveis olhos azuis estavam ainda mais lindos e me pediam para que eu não os ignorasse nunca mais. – Senti falta desse rosto.
- E como você me achou?
- Eu te reconheceria em qualquer lugar, , não preciso que você esteja usando camisa nenhuma. E eu sabia que te acharia aqui, nesse lugar.
- Então você mandou a camisa por quê?
- Porque eu não sabia se você viria, se você se lembrava. E imaginei que você poderia duvidar que eu viesse também. E quanto ao tamanho, podemos trocar se você quiser.
- Por um tempo eu duvidei que viria sim, afinal você é , estrela do Chelsea e o maior ídolo de sei lá quanto tempo, não vai ficar saindo por aí pra se sentar em bancos de concreto pra ver o pôr-do-sol, sendo que pode mandar fechar a Torre Eiffel e ver tudo lá de cima sozinho e sem ser incomodado.
- Acho que você conhece o errado então. – ele deu uma risadinha sem deixar de me encarar. – Continuo sendo o mesmo, . Só cresci.
- Só envelheceu, na verdade, o tamanho ainda é o mesmo. – brinquei e ele rolou os olhos, mas me deu um sorrisinho de canto. – te mandou um beijo enorme.
- A Princesa ainda se lembra de mim? – perguntou surpreso. Ele a chamava de Princesa desde sempre, porque ela odiava aquele chamamento e ele adorava deixá-la irritada.
- Lembra. E ainda te chama de Elfinho.
- Mande outro beijo pra ela. – ele disse simpático e nós voltamos a ficar em silêncio. Fui a primeira a desviar os olhos, mas dessa vez ele pareceu entender, encostou sua cabeça no cimento atrás de nós e ficou olhando para o céu que escurecia gradativamente. – Vamos ficar por aqui mesmo?
- Você que sabe. – dei de ombros sem olhá-lo.
- Por mim tudo bem. – ele disse e suspirou pesadamente. – Dez anos hein?
- É, dez anos.
- E então, me atualize sobre sua vida. Quero todos os detalhes de tudo que eu perdi. – pediu e eu me virei em sua direção, encontrando os lindos e curiosos olhos azuis dele.
- Eu fui pra faculdade, me formei em Direito e sou advogada e...
- Advogada? Você? – ele se sobressaltou e me encarou surpreso.
- É, eu mesma. e eu, na verdade. Fomos para a faculdade, nos formamos e somos sócias em Lille. Sou advogada e professora.
- Você teve algum motivo especial para entrar para faculdade?
- Tive. – disse e ele murchou um pouco, provavelmente não era a resposta que ele esperava ouvir. – Finalmente percebi que eu tinha sido uma adolescente imbecil ao almejar aquelas coisas egocêntricas esperando ter fama e sucesso. Agora ganho bem, mas não estou trilhardária e nem tenho uma multidão de fãs que matariam e morreriam por mim, mas me sustento e ajudo pessoas. Continuo gostando de sair para beber com meus amigos, não igual fazia antes, agora tenho responsabilidade e sei a hora de parar e de voltar pra casa. E tem o fato de que um corpo de vinte e cinco anos não se recupera tão bem de uma ressaca quanto um corpo de quinze.
- Vinte e seis. – ele corrigiu, piscando e dando um sorriso. Um daqueles sorrisos maravilhosos dele. – E joyeux anniversaire, . Ainda que atrasado.
- Obrigada.
- Casou?
- Não. – neguei com um aceno. – E nem tenho filhos. Namorei, mas não deu certo, estou solteira há alguns meses. Moro sozinha num apartamento perto da Gare de Lille Flanders, um pouco distante do meu escritório, mas é meu apartamento, que eu pago o aluguel, as contas e me sustento sozinha. Pequeno, simples, mas o suficiente para me fazer feliz e para que eu viva em paz com Sirius, meu gato.
- Você tem mesmo um gato? – ele perguntou rindo. Era engraçado, porque quando eu era adolescente, eu meio que detestava gatos.
- Tenho. – respondi sorrindo. – Ele um dia apareceu no parapeito da minha janela no escritório, ainda filhote, muito magrinho e quase decrépito. Eu o adotei e somos uma família agora.
- Esses dez anos mudaram muitas coisas em você.
- Coisas externas, aqui dentro eu continuo a mesma pessoa que você sempre conheceu melhor do que qualquer um. – disse e ele deu um sorriso de lado.
Como estava lindo. Mais lindo do que era quando namoramos, agora usa barba, os cabelos estão um pouco maiores do que costumavam ser, havia os sinais do envelhecimento, claro, o rosto de menino se tornou o rosto de um homem lindo, mas era visível que nada tinha mudado além do seu exterior.
Seus olhos denunciavam que por dentro, ele ainda era o meu menino de dezessete anos, o que eu conheci e que ganhou meu coração com sua humildade e timidez, que facilmente me fazia rir e que sempre foi o ser humano mais agradável de estar por perto.
- O que foi? – ele perguntou, dando um sorrisinho de lado, ao perceber que eu o encarava admirada. Era impossível não reparar cada mínimo detalhe naquele rosto, não o vejo há dez anos e ele está mais lindo do que eu imaginava ser possível.
- Nada. – disse dando um risinho sem graça. – E com você? Como estão as coisas? Como foram esses dez anos?
- Eu fiquei em Lille até 2012, evitava todos os lugares em que eu poderia te ver, porque sabia que nunca resistiria, acabaria me aproximando e nos desgastando. Passei por todas as fases de um término de relacionamento, da tristeza profunda ao rancor desnecessário, mas isso me ajudou a me manter firme e não te procurar antes da hora. E, de alguma forma, sabia que não seria o certo a fazer. Não era certo desgastar nosso sentimento quando não tínhamos maturidade para entende-lo e cuidá-lo da forma devida. Enfim, em 2012 fui para o Chelsea e por lá permaneço até hoje, ainda que, como você disse, muitos times estejam me disputando, vivendo meu sonho de ser um bom jogador de futebol. Tive alguns casos, mas apenas uma namorada séria durante esses dez anos, nós até cogitamos casar, mas a ideia não foi pra frente.
- E por quê?
- Porque ela não é você. – ele deu um sorriso sem mostrar os dentes e suspirou antes de retomar sua fala. – Eu não podia firmar compromisso com alguém antes de saber se nós dois podíamos voltar a ter alguma coisa. E se eu não me sentia firme para tomar esse passo, é porque não era amor suficiente para que a gente se casasse e começasse uma família. Nós terminamos e ela se mudou pros Estados Unidos há um ano, que foi quando terminamos, e desde então estou solteiro. Não tenho filhos também. Moro sozinho, meu apartamento é muito grande só pra mim, mas eu tenho um cachorro e ele ocupa bastante espaço. E é bom um apartamento grande, cabe a família inteira nas visitas, mas vazio demais a maior parte do tempo, já que todo mundo tem suas vidas e não podem viver comigo. Ganho mais dinheiro do que consigo gastar sozinho ou com ração e veterinário, mas faço filantropia pelo nome dos outros, não gosto de mídia desse jeito. Continuo do mesmo jeito, preferindo estar com a família, evitando baladas e apelação midiática. Gosto de aparecer apenas dentro de campo. – ele pareceu pensar em tudo que podia falar sobre si. – E eu acho que é só isso.
- Uma vida agitada, eu diria. – dei um sorriso sem jeito. – E como está a família?
- Bem. Meus pais e meus irmãos estão muito bem. Thorgan casou e tem uma filhinha, Elayna, mora na Alemanha e joga no Borussia Mönchengladbach faz um tempo. Kylian tem vinte e dois agora, está se divertindo muito em Londres e joga no time sub-23 do Chelsea, mas não mora comigo, ele tem a própria casa por lá. Ethan tem quatorze anos, está jogando no Tubize, lá na Bélgica e mora com meus pais. Sempre que podem vêm à Londres, é muito bom tê-los em casa e relembrar os tempos em que morávamos todos juntos e era quase caótico pela quantidade de pessoas juntas. E agora com uma criança pra piorar, ou melhorar, a situação. – ele deu uma risadinha. – E seus pais?
- Ótimos. Hoje minha mãe ligou pra me falar da camisa. Ela conseguiu perder o telefone fixo dentro de casa e ainda disse que você deveria ter procurado meu endereço na lista telefônica. – disse e ele deu uma gargalhada, atraindo alguns olhares, mas ninguém ainda parecia reparar em quem ele é.
- Lista telefônica? Jay está um pouco presa nos anos noventa, não?
- Um pouco é bondade sua. – respondi rindo.
- Eu realmente queria ter procurado seu endereço, mas não consegui pensar na ideia de digitar seu nome na internet e encontrar informações que eu não queria ver. Procurei pelo seu nome no Instagram uma única vez, mas não encontrei nada e nesse dia eu achei que tinha se casado e mudado de nome, por isso eu não te achava, resolvi que não procuraria mais.
- Eu te bloqueei assim que fiz a conta, .
- Me bloqueou? Por quê?
- Porque eu também não queria correr o risco de ver que você tinha seguido em frente, que tinha uma família e essas coisas. – confessei sem jeito.
- Então você não sabia de nada disso que eu contei?
- Sabia que você estava no Chelsea, mas eu venho, há dez anos, evitando tudo que diz respeito a você. Enquanto você esteve no Lille, eu parei de ir aos jogos e de acompanhar o time e só voltei a ir aos jogos e acompanhar quando você foi embora. Consigo evitar a maioria das coisas a seu respeito, quase a totalidade, mas vez ou outra ouço algo em Lille, porque você ainda é muito amado por lá.
- Você estava em Lille na Eurocopa?
- Sim, trancada em casa, com medo demais de sair de casa e encontrar com você, ou descobrir qualquer coisa que fosse sobre você e que eu não estava preparada para ouvir.
- Eu sinto muito por isso, . – ele pediu se sentindo culpado.
- Não sinta. Era coisa minha, porque eu estava com medo de descobrir que eu tinha te perdido pra sempre, porque eu continuava tendo esperanças de que fôssemos ficar juntos, mesmo depois de muitos anos separados. Você me perguntou agora pouco se eu tinha um motivo para a mudança radical em minha vida, eu tive sim. Você.
- Eu?
- Sim. Eu encontrei algo que amo fazer, porque sempre soube que eu precisava ser uma pessoa melhor. E não só pra você, mas pra mim também. Alguém capaz de enxergar além do próprio umbigo, alguém que fosse capaz de sonhar junto com você e não ser alguém que queria cortar suas asas ou podar seus sonhos. Uns anos depois do nosso término, quando entrei na faculdade, eu parei pra pensar sobre minhas atitudes e eu teria destruído não só nosso amor, mas também sua carreira.
- Como assim?
- Se tivéssemos continuado juntos, eu teria deixado sua fama me subir à cabeça, teria achado que isso me dava o direito de me achar e me sentir superior aos outros e essas coisas. Nosso término foi para que a gente aprendesse várias coisas. Eu me tornei a adulta responsável que jamais achei que me tornaria, porque vi que eu precisava crescer e amadurecer quando você terminou comigo. Tanto por você, quanto por mim.
- Você tá falando sério? – ele perguntou surpreso e eu assenti, sentindo meus olhos arderem com as lágrimas que se aproximavam.
- Cada vez que eu me lembrava daquele dia, que eu olhava praquele urso ou que eu relia a carta, eu conseguia enxergar todas as vezes em que eu deveria ter agido de forma madura e te apoiado, mas preferi ser uma adolescente idiota, pirracenta e egoísta. Quando eu já não tinha você pra me falar, às duas da manhã, que eu não deveria fazer aquelas coisas, ou que eu devia me preocupar com meu futuro, foi que eu percebi que era você quem me mantinha na superfície, que não me deixava afundar.
- Entendi. – ele deu um sorrisinho de lado e pegou minha mão entre as suas.
- Você sempre me conheceu melhor do que qualquer outra pessoa, mesmo quando era aquele mar de águas turbulentas e escuras. Você me enxergava como um rio calmo e transparente, não precisava de esforço nenhum pra ver além do que eu demonstrava. Sabia tudo só de me olhar. E acho que ainda pode fazer isso se tentar.
- Eu posso dizer o mesmo, . Você sempre me conheceu melhor que qualquer pessoa e por mais que ache que era egoísta e essas coisas, você acertou muito mais do que errou durante nosso namoro. Você cuidava de mim, porque eu estava sozinho em Lille sem minha família, me ajudou com coisas da escola, foi uma namorada maravilhosa e atenciosa. Você estava apenas curtindo sua adolescência, não tinha obrigações com as minhas responsabilidades.
- Você é a pessoa que eu mais amo na vida depois dos meus pais, , foi você que me ensinou o que é amor de verdade e que um namoro não pode ser só amor, que só te amar não seria suficiente para que nós ficássemos juntos e fôssemos felizes para sempre. E depois do nosso término, eu comecei a perceber quais eram as outras coisas que um relacionamento precisa para se manter firme e dar certo. Comecei a perceber como meus pais se apoiam, como sempre conversam sobre as coisas que querem ou precisam fazer, que muitas vezes os dois brigam por coisas idiotas e também por coisas sérias, mas eles sempre conversam sobre tudo, expõem seus sentimentos, vontades e opiniões, conseguem chegar a um denominador comum, a algo que seja bom pro casal e não apenas pra um deles. E cada vez que eu percebia isso entre meus pais ou com casais próximos, eu me lembrava de nós, de como não havia diálogo e só discussões, que nunca havia concessões. Nós não éramos maduros o suficiente, nosso amor não era suficiente para nos segurar de pé sem que tudo fosse perdido.
- Sabe, , nesses dez anos eu me senti assim também. Nunca amei ninguém da forma como eu te amo. Só de pensar em você, meu coração acelera e eu sinto meu estômago se incendeia, e não é gastrite, eu sinto como se eu fosse explodir a qualquer momento só de pensar em você, minhas mãos suam e as palavras fogem completamente da minha mente. Sempre foi assim, sempre. Eu tentei achar outra pessoa, tentei te tirar do meu coração, mas assim como você disse que eu fui sua inspiração para que você se tornasse alguém melhor, você foi a minha.
- Fui? – perguntei surpresa. Por aquela eu realmente não esperava.
- Eu faço de tudo para chegar ao topo, porque sempre acreditei que você merece alguém que tenha objetivos grandes, que sonhe grande e que vá atrás da realização. E, como você disse, fiz isso por você e por mim. Você não via meu progresso, mas eu vi e tinha você como inspiração, porque mesmo que você ache que não era nada além de uma adolescente rebelde, você era muito dedicada ao que queria, fosse algo que hoje podemos considerar fútil ou não. Lembra quando você queria aprender a tocar violão e não parou até aprender a tocar perfeitamente?
- Lembro. – disse dando um sorriso com a lembrança. – Foram dias difíceis, porque eu quase não tinha coordenação motora.
- E mesmo assim não desistiu.
- É, não desisti.
- Não foram raras as vezes que eu me peguei pensando se você estava me vendo e o que achava da pessoa que eu estava me tornando, do profissional que eu estava me tornando. Eu nunca tive coragem de ligar pros seus pais e perguntar sobre você, nem mesmo para ou qualquer outra pessoa, porque eu também tinha medo de descobrir que você tinha encontrado alguém que não teria medo de te amar tanto, porque um dos motivos que me levou a terminar com você foi esse, , eu te amava demais, te amava de um jeito que chegava a me assustar e doer e eu não sabia até onde aquilo era bom pra nós dois. Não adiantou nada terminar, porque continuei te amando da mesma na mesma intensidade, só amadureci o sentimento. – ele deu um risinho pelo nariz e fez um carinho na minha mão com o polegar. Seus olhos estavam fixos nos meus, sinceros e intensos como sempre tinham sido.
- Eu tive alguns relacionamentos e nenhum me fez sentir da mesma forma como eu me sentia quando nós namorávamos, em nenhum havia a expectativa que eu tinha de te ver quando você chegava de viagem, de estar com você e te ouvir rir, falar ou apenas estar por perto. Foram dez anos de muitos aprendizados, muitos choros e alguns bons porres por sua causa, . – disse e soltei um riso pelo nariz, sentindo as lágrimas descendo por meu rosto.
- Nós choramos juntos então. – ele deu um sorriso e a mão livre ele usou para limpar minhas lágrimas. Seu toque ainda continua macio e delicado. – Eu sentia sua falta de forma absurda, . Mas eu não sabia se podia ir atrás de você, porque eu morria de medo da rejeição. Eu nunca soube como você tinha lidado com nosso término, como sua vida estava e eu não queria arriscar descobrir.
- Eu pensei diversas vezes em me enfiar no primeiro avião para Londres e ir atrás de você, mesmo que eu tenha passado a Eurocopa inteira quase que escondida em casa, mas tinha medo de descobrir que você tinha me esquecido, ou de que tivesse uma vida com outra pessoa e estivesse realmente muito feliz para se lembrar de mim ou de qualquer coisa do seu passado aqui na França que não envolvesse o futebol. Todas as vezes eu acabava chorando em algum bar ou no colo da minha mãe. Dois dos meus três namoros terminaram por causa disso. A gente pode até não ficar junto, , mas você sempre será o amor da minha vida, a pessoa mais importante, porque me ensinou muito.
- Eu não consigo e nem quero imaginar um futuro sem você na minha vida, Heux. – ele falou me olhando nos olhos, as palavras eram sinceras e eu sabia disso, porque era o que seus olhos transmitiam. – Pode não ser como casal, mas nós fomos feitos para estarmos um na vida do outro. Foram dez anos muito difíceis, apesar de todo crescimento profissional e sentimental, sempre faltou alguma coisa. Faltava o seu abraço, os seus beijos, os seus sorrisos e sua espontaneidade, faltava sua alegria e energia. Sem você, eu sou só o “menino cheio de nove horas”, como sua mãe me chamava. – ele disse dando uma risada, mas seus olhos brilhavam pelas lágrimas que ele segurava. – Eu cheguei a ir a Lille um dia, antes mesmo da Eurocopa, mas não tive coragem de sair do aeroporto e ir atrás de você. Voltei pra Londres na mesma hora. Quer dizer, três horas e meia depois. Estive aqui em Paris três vezes, eu queria te encontrar e que a gente jogasse essa data pro inferno, que adiantássemos e resolvêssemos tudo, mas nunca tive essa sorte. E acho que foi bom não termos nos encontrado, talvez as coisas não fossem tão amigáveis quanto agora.
- Eu vim aqui algumas vezes também pra admirar esse espetáculo que sempre será minha coisa favorita no mundo, tinha esperanças de te ver, mesmo que de longe, mas não aconteceu e eu imaginava que você podia estar ocupado demais sendo “a sensação ” pra se lembrar dessas pequenas coisas. – suspirei, sentindo as lágrimas voltarem a cair pelo meu rosto.
Agora nem mesmo segurava suas próprias lágrimas, estamos os dois chorando na frente da Torre Eiffel. Ele me abraçou e fez um carinho em minhas costas enquanto nós dois estávamos chorando, tanto pelo reencontro quanto pela sinceridade e intensidade das palavras usadas.
Foram dez anos separados, dez anos em que eu pensei muito, se aquilo entre nós tinha sido mesmo amor e não apenas um namoro adolescente muito intenso, mas que terminaria de qualquer forma, já que namoros adolescentes nunca duram mesmo; se nós nos encontraríamos de novo em algum momento, se algum dia eu pararia de pensar nele daquela forma, se eu deixaria de amá-lo daquele jeito intenso, verdadeiro e avassalador. Dez anos de muitas incertezas e confirmações, de crescimento profissional, pessoal e sentimental.
Dez anos é muito tempo, poderia ser um tempo menor, talvez cinco anos, mas teria feito tanta diferença quanto os dez anos?
Eu acho que não. Eu teria apenas vinte e um, ele teria vinte e dois. Eu aos vinte e um, ainda que estivesse mentalmente melhor do que aos dezesseis, não tinha o emocional que tenho hoje, que é um pouco melhor, não tinha formado tão bem minha opinião sobre tudo que passamos e sobre nosso término. Os dez anos, ainda que muitos, foram o tempo perfeito.
- Você me perdoa? – pedi num sussurro e ele soltou o abraço, se afastando para me olhar em dúvida.
- Perdoar? Pelo quê?
- Por ter sido péssima, egoísta, idiota e desatenta quando éramos namorados. Por negligenciar seus sonhos e planos, porque eu achava que a vida se resumia a beber, transar e sair com meus amigos para bagunçar pela cidade. Fui uma péssima pessoa com você.
- Só se você me perdoar por ter sido incompreensivo, egoísta e medroso.
- Você nunca foi isso, .
- E nem você era isso, .
- Você sempre foi o melhor namorado e o melhor amigo que eu poderia ter. Eu nunca consegui encontrar outra pessoa, porque eu não estava realmente procurando, eu queria você. Queria te encontrar em outras pessoas, mas você é único. O único. O meu único.
- É, posso dizer o mesmo. – ele deu um sorriso sem jeito. – Será que nossas versões adolescentes teriam orgulho de nossas versões adultas?
- Duvido que a de quinze anos aceitasse que a de vinte e seis tivesse se tornado advogada, que passa boa parte dos dias enfiada em uma sala ou em audiências, ao invés de estar pelo mundo enchendo a cara e fazendo merda. – respondi rindo e limpei as últimas lágrimas que tinham rolado do meu rosto.
- Acho que o de dezessete anos só não se orgulharia de ter passado dez anos longe de você, porque ele era completamente alucinado pela Heux, mas o de vinte e sete continua alucinado pela Heux. – ele respondeu sincero e me fez dar um sorriso involuntário.
- A de dezesseis anos também não se orgulharia desses dez anos, mas eu tenho certeza que ela se orgulharia muito de ver o de vinte e sete, disputado pelo mundo inteiro, todos os times desesperados para colocar seu nome nas costas das próprias camisas e poder se orgulhar de dizer “ é nosso”. Ela teria orgulho de ver que o sonho da seleção se realizou, que o sonho de chegar a um grande clube também se realizou e que você chegou tão longe por mérito próprio, sem precisar passar por cima das pessoas, sem precisar destruir os sonhos dos outros para conquistar o seu.
- Eu tenho certeza que o de dezessete estaria tão surpreso quanto eu estou por saber que você se tornou advogada, porque jamais imaginei que você fosse entrar pra uma profissão tão séria. – ele riu.
- Acho que ninguém esperava, na realidade. Nem eu mesma. Fui a uma feira de profissões quando estávamos no último ano do ensino médio e foi amor à primeira vista.
- É, igual eu senti quando te vi pela primeira vez.
- Você se lembra? – perguntei surpresa e ele negou com um aceno.
- Claro que eu me lembro. – ele deu uma risada. – Entrei na sala e te vi. A coisa mais clichê de todas. Mas você não olhava pra mim, não falava comigo e eu ficava feito um idiota apaixonado. A Claire não queria beijar aquela sua amiga, ela queria TE beijar, então eu tive que abrir meu coração pra ela e dizer que eu já gostava de você há um tempo, mas não tinha coragem de te falar, então ela, como o cérebro pensante que sempre foi, disse que aceitava ficar com a sua amiga, apenas se você ficasse comigo. O que foi bom pra ambos os lados, já que as duas namoraram por um tempão e nós dois ficamos juntos também.
- Eu não te amei assim que te vi, sinto muito. – disse e ele deu uma risadinha, me fazendo rir junto. – Eu te achava bonito, mas você era novato na escola, mais velho que eu e eu não entendia o fato de você fazer uma única matéria na minha sala, mas não hesitei quando Amalie me disse as condições. Achei que a gente só ficaria naquela vez, mas não foi assim e com o passar do tempo, eu realmente senti que por você eu faria qualquer coisa. Algo que eu achava que existia apenas em filmes e livros. – dei uma risadinha e nós ficamos em silêncio enquanto ele brincava com minha mão entre as suas. A noite já tinha caído em Paris, as luzes estavam começando a se acender, apenas para comprovar que essa cidade consegue fazer com que eu me apaixone por ela cada vez mais.
- E como a gente fica? – ele perguntou depois de passarmos muito tempo em silêncio e me olhou. Deus, como eu posso amar tanto esse par de olhos azuis mesmo depois de tanto tempo? – Porque eu vivo em outro país, você tem sua vida aqui e não posso te pedir pra largar tudo e ir atrás de mim.
- A gente fica. E depois a gente vê o que acontece. Esperei dez anos pra te ouvir dizer que ainda me ama e que estamos prontos pra ficarmos juntos um com o outro, que estamos prontos pra nos amar de novo. E se nem dez anos fizeram o sentimento mudar ou diminuir, duvido que um bom punhado de quilômetros faça alguma diferença agora. – dei de ombros, mas com um sorriso no rosto, que o fez sorrir de volta. – E, de qualquer forma, nós sempre vamos ter Paris.
E ele me abraçou. E estava claro pra mim: ainda bem que eu esperei por ele e que ele também me esperou, porque era ali que eu pertencia, àquele abraço que colocava tudo de volta no lugar, que fazia com que dez anos tivessem se passado, mas sem que tivéssemos nos separado.




Fim.



Nota da autora: Essa é uma das minhas músicas favoritas do 21, quando vi que ela estava disponível no ficstape, tive que me candidatar e antes de ter a resposta de que ela estava sob minha responsabilidade, eu já tinha terminado de escrever.
E quando abri o Word e digitei o nome da música, a estória fluiu naturalmente, acho que porque eu sempre quis escrever alguma coisa com meu príncipe belga fofíssimo, desde então eu mudei pouquíssima coisa na história, ajeitei alguns detalhes de cronologia e me vi satisfeita com a narrativa (espero que eu não seja a única!) e com o resultado (espero MESMO que eu não seja a única).
Espero que vocês tenham gostado também, assim como eu gostei de escrever sobre esse casal. E façam uma autora feliz comentando o que vocês acharam do desenvolvimento da estória e do casal, obrigada de nada.






Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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