Fanfic finalizada: 08/07/2019
Contador:

Capítulo único

I love the way you make me feel...

Belo Horizonte, 08 de maio de 2022

Eu comecei a ler fanfics em 2005 e sempre amei. Gosto da forma como as coisas acontecem, como os romances se desenvolvem, como a vida é... bonita e, mesmo com algumas adversidades, há sempre um final feliz.
E isso foi frustrante pra mim durante algum tempo.
Eu queria muito que a minha vida fosse uma fanfic do McFly, com um PP que me amaria mais do que tudo na vida, que seria capaz de tomar um tiro por mim, nós nos conheceríamos de uma forma clichê: ele derrubando meus livros enquanto caminhava com pressa pelo corredor da escola para encontrar seus amigos, que futuramente formariam uma banda de sucesso mundial e namorariam minhas amigas; ou quando eu saísse correndo do Starbucks, muito atrasada e acabaria derrubando café nele numa manhã fria, enquanto uso meu coque frouxo, meu All Star surrado e um suéter bem quentinho que, por acaso, foi a primeira roupa que encontrei no closet antes de sair apressada.
Nós nos apaixonaríamos, ele ficaria famoso um tempo depois, teríamos um período conturbado em nosso relacionamento, mas logo ficaria tudo bem, já que perceberíamos que somos o amor da vida um do outro e jamais poderíamos ficar separados, eu me tornaria uma mulher extremamente bem sucedida na minha profissão (advogada, médica, engenheira, estilista, jornalista... diversas opções), ele me pediria em casamento de um jeito bem romântico, nosso casamento seria exemplar e faríamos uma cerimônia lindíssima, teríamos um filho, talvez dois, e seríamos felizes para sempre.
E, claro, isso nunca aconteceu.
E, por um tempo, foi frustrante.
Não por culpa das autoras, nunca, foi frustrante porque o destino sabe o que faz e é seu próprio senhor e dono, não aceita roteiros a seguir, ele se guia por si e resolve suas próprias coisas sozinho. O destino governa tudo e não é governado por ninguém.
Mas eu não sabia disso.
Eu idealizei que viveria tudo isso, quando, na verdade, eu não precisava de um PP famoso ou de uma vida perfeita de filmes e fanfics pra ser feliz. Só que eu demorei um tempo a perceber isso. Muito tempo. Eu tinha treze anos quando comecei a ler fanfics e a idealizar todas essas coisas pra minha vida (e muita coisa mudou desde então).
Eu também não fazia o tipo de PP narrado na maioria das fanfics. Eu nunca tive um corpo malhado e sarado, meus peitos não são grandes e minha bunda é quase tão nula que parece que minha coxa e minhas costas são uma coisa só. E nunca fui bonita feito as modelos da Victoria Secrets, isso foi um problema enorme durante minha adolescência (e não vou mentir dizendo que não é agora, ainda é). E, claro, eu achava que por não parecer com essas mulheres, eu não podia mesmo ter essa vida perfeita, afinal, os homens só queriam as mulheres magras, peitudas, bundudas e lindas.
Quando eu parei de procurar por uma vida de fanfic, altamente frustrada por ter vinte e dois anos (quase vinte e três) e não ser uma advogada/empresária de sucesso (e nem ao menos estar perto disso), não ter um apartamento na cobertura em Nova York ou Londres, um cachorro de raça bem fofinho, nem um closet enorme cheio de roupas, sapatos e bolsas lindas e caríssimas, um conversível, dinheiro saindo pelas ventas, não ser riquíssima convidada para festas chiquérrimas de pessoas com nomes quase impronunciáveis, não ter um namorado lindo, malhado e bem sucedido em sua carreira famosa, foi que a minha fanfic começou.
Não, eu não fiquei rica e bem-sucedida da noite pro dia.
Na verdade, eu me formei no meio do ano passado, aos vinte e nove anos, no curso de Pedagogia, depois de estudar muito pro ENEM e entrar na UFMG, trabalho em uma escolinha agora (depois de passar quase oito anos trabalhando como secretária em um escritório de contabilidade), não tenho um apartamento grande na cobertura de um prédio famoso em Nova York, na verdade eu meio que moro com meus pais em Belo Horizonte, tenho um guardarroupa limitado e quem me conhece sabe de cor e salteado as roupas, os sapatos e as bolsas que o compõe, meu cachorro é um vira-lata adotado em uma feira da prefeitura, meu carro tem cerca de setenta e cinco lugares para pessoas sentadas e cabe mais ou menos a mesma quantidade de pessoas em pé e anda sempre cheio, meu dinheiro é usado para ajudar a pagar as contas da casa e vez ou outra sobra pra fazer algum passeio no fim de semana.
Mas o PP... ah, o PP eu tenho.
Ele não é aquele modelo malhado, com uma barriga definida. Ele não tem cabelo loiro liso e esvoaçante, muito menos olho claro que parece o mar do Caribe, não deixa a barba por fazer e fica extremamente sexy. Ele é negro. Mas não da forma como endeusam os negros na internet. Ele não tem traços brancos, não tem nariz pequeno, não tem olhos claros, não é musculoso e marombeiro, não tem os lábios cheios “nas proporções corretas” e não parece em nada com Michael B. Jordan, Idris Elba, Winston Duke e nem o Trevante Rhodes.
A barriga dele dobra quando ele senta (ainda que ele não seja obeso, mas passa longe de ser um modelo sarado), o cabelo é curto e crespo, dá aquelas ondinhas de frizz (que são as coisas mais lindas do mundo!), os olhos dele são pretos e bem escuros (e ele costuma dizer que parece olho de vaca), o nariz é largo, ele vez ou outra deixa a barba crescer por preguiça, mas não gosta e fala que é irritante a forma como aquilo coça o tempo todo.
Mas ele tem aquele sorriso encantador que todos os PPs de fanfic têm, ainda que os dentes não sejam absolutamente retos e brilhantes. Ele tem aquele jeito doce e romântico que faz as PPs e as leitoras suspirarem e caírem de amores. Ele é maior que eu, no alto de seus 1,98 de altura, realmente me faz parecer pequena (e olha que eu tenho 1,75!). Ele tem aquele cheiro delicioso e viciante que a gente sempre lê nas descrições dos PPs. O beijo dele é o melhor do mundo. O abraço é o mais aconchegante. A risada dele é a melhor. A voz dele é a mais gostosa. O sexo com ele é perfeito.
Ele não é CEO de uma grande empresa, nem advogado, muito menos médico, engenheiro, cantor, soldado ou jogador (ainda que ele jogue bola com os amigos toda segunda-feira). Ele é vendedor numa loja de materiais elétricos no centro da cidade, trabalha quarenta horas por semana, diz que vai fazer faculdade de Engenharia Elétrica um dia, mas agora está com preguiça de estudar. Ele não tem um carrão (na verdade, compartilhamos o mesmo carro todos os dias para trabalhar, aquele com setenta e cinco lugares já mencionado e às vezes usa o do irmão emprestado), nunca teve um cachorro antes do nosso vira-lata, odeia usar ternos e tem medo de barata.
O nome dele é , . Como eu disse, quando parei de procurar pela vida de fanfic foi que ela chegou. No momento em que eu precisava, de um jeito inesperado, mas tão valioso e clichê quanto a melhor das fanfics.
Nós nos esbarramos.

Belo Horizonte – 08 de maio de 2014

Eu estava cansada. E com pressa. Tinha saído mais tarde naquele dia, porque precisei fazer o meu trabalho e o de outra secretária que estava doente e precisou faltar.
Quando desci do ônibus na estação e sai andando apressada, esbarrando em mais gente do que eu queria, eu vi a oportunidade perfeita de chegar até às escadas: passar num vão que me cabia perfeitamente entre um cara extremamente alto e uma pilastra.
O motivo pelo qual eu jamais poderia ser engenheira é a falta de noção para calcular espaços. Não me cabia ali. E eu esbarrei no homem, fazendo ele derrubar a coxinha que tinha em mãos. Espatifou inteira no chão espalhando massa, recheio e ketchup por todos os lados. O olhar que eu recebi... Se tivesse como, ele teria me matado!

- Por que você não olha por onde anda? – ralhou bravo. – Olha só minha coxinha!
- Desculpa. Sério. Perdão, não quis derrubar sua coxinha, eu só queria subir rápido e pegar meu ônibus e...
- E acha que pode passar dentro das pessoas pra isso, entendi. – ele falou desaforado.
- Eu te pago outra.
Ótimo, minha economia do dia gasta em um salgado com CARNE. Não tomem minha carteirinha do Veganismo, por favor, eu juro que não estou fazendo isso por vontade própria, eu estou sendo forçada pela boa educação que recebi!
Posso jurar que o ouvi falar “não faz mais que sua obrigação”, mas ele nega que tenha dito isso. Comprei a coxinha E um refrigerante, me desculpei de novo e sai correndo, torcendo para que o ônibus passasse e eu pudesse chegar em casa o mais rápido possível.
Mas, quando cheguei ao andar superior da estação, para pegar o ônibus e ir pra casa... ele arrancou e eu fiquei. Merda!
A culpa, claro, era do moço da coxinha, se ele não estivesse no meu caminho, eu estaria naquele ônibus maravilhoso, a caminho da minha casa, mas agora eu sou obrigada a ficar aqui esperando o outro ônibus e perdendo meu tempo de relaxamento e descanso.
Inferno.
Quando o outro ônibus chegou – quase vinte minutos depois (!!!) – eu fui uma das primeiras a entrar e me sentar. A fila continuou entrando no ônibus até que uma figura conhecida subiu as escadas e parou perto de mim.
O moço da coxinha.
O culpado por eu perder o ônibus.

- Oi. – falei, chamando sua atenção. – Quer que eu leve sua mochila?
- Claro. – ele respondeu educado, bem diferente do que tinha sido antes, e me entregou a mochila. O que um estômago cheio não faz, não é mesmo?
- Olha, moço, me desculpa mesmo. Eu não quis derrubar sua coxinha. Desculpa.
- Sem problemas. – respondeu sincero.
Não nos falamos mais, ele colocou os fones no ouvido e ficou lá, olhando pela janela, e ignorando minha presença. Eu também não queria papo – e nem tinha – apenas coloquei meus próprios fones e fui ouvir minhas músicas enquanto ignorava a lentidão do motorista e o trânsito na saída da estação.

Quando pediu a mochila para descer do ônibus, eu descobri que nós morávamos em bairros próximos, mas nunca tínhamos nos visto, porque antes da uma mudança louca no transporte público dessa cidade, nós pegávamos linhas de ônibus diferentes para chegarmos aos nossos destinos. Agora era apenas uma linha de ônibus para os dois bairros, o que fazia o ônibus dar mais voltas até a estação, mas me fez conhecer o .
Ver o pela primeira vez não me fez ter borboletas no estômago, muito menos parecer uma boba apaixonada. Eu só queria ir pra casa tomar um bom banho e jantar. Ele não me pareceu um cara excepcionalmente lindo e inesquecível, tanto que eu perdi totalmente seu rosto de foco e só me lembrava de chamá-lo de “Moço da Coxinha”, porque ficava me perguntando os motivos de ter pago outra coxinha pra ele. Se eu tivesse subido correndo, eu teria entrado no ônibus que perdi e fim de papo. Mas a educação que recebi dos meus pais não me permitiu fazer isso e eu acabei me atrasando, falando com ele, me desculpando...
Nós ficamos sem nos ver por uns dois meses, eu não pensei nele e ele garante que não pensou em mim também. E eu não duvido. Não tivemos nada de excepcional para que nos tornássemos inesquecíveis na vida um no outro apenas por um esbarrão. Até que eu precisei comprar uns materiais de construção que meu pai tinha pedido. Estávamos reformando a casa e meu pai insistiu que comprar numa loja grande no centro da cidade sairia mais em conta. Eu teria que carregar muitas coisas no ônibus, mas tudo bem, eu poderia sobreviver.
E eu acabei entrando na loja em que o trabalha.

Belo Horizonte – 12 de agosto de 2014

A loja estava vazia, exceto pelo vendedor que tinha seus olhos fixos à tela do computador, a boca um pouco aberta e concentradíssimo. Tão concentrado que nem pareceu notar a presença de uma cliente.
Quando me aproximei eu o reconheci. Era o Moço da Coxinha. Eu quis rir daquela coincidência, mas resolvi apenas parar perto do balcão e atrair sua atenção. Era meu horário de almoço e eu tinha que voltar pro trabalho, não podia ficar pela rua como se não tivesse obrigações a cumprir.

- Hm... com licença. – falei e ele desviou a atenção da tela para mim.
A cara dele ao me ver foi tipo “eu te conheço de algum lugar” e eu tive que fingir a mesma coisa, apesar de saber que ele era o Moço da coxinha.
- Pois não, em que posso ajudar?
- Eu preciso das coisas dessa lista. – falei, pegando o papel e o entreguei.
Ele olhou os itens e assentiu, dando um daqueles sorrisos de vendedor.
- Tenho todos aqui.
- Ainda bem. – suspirei aliviada. Não queria ter que ficar procurando em outras lojas.
- Só um momento. – pediu e saiu de perto de mim, indo e voltando de quando em quando com as coisas em mãos: uma lâmpada que, na verdade não era uma simples lâmpada, mas eu não sei o nome; quatro disjuntores, um quadro de-não-lembro-o-nome-mas-era-consideravelmente-grande, três caixas de montagem (uma grande, uma média e uma pequena), três sensores de presença, muito arame galvanizado, alguns bons metros de cabos e um modelo de chuveiro muito legal, bem parecido com aqueles de filmes.
- Jesus Cristo! – reclamei e ele deu uma risada. – Você vai me dar um desconto, né?
- Depende da forma de pagamento.
- Dinheiro.
- Dez porcento.
- Eu ouvi vinte?
- Não, você ouviu dez. – ele falou, ainda em tom divertido.
Acerto feito e eu sai da loja com aquelas coisas todas dentro de uma sacola enorme com a logo da loja (que não me paga pra fazer propaganda, apesar de pagar o salário do amor da minha vida) e voltei para o trabalho.
Passei o dia trabalhando feito uma maluca, mas sai no horário normal e consegui pegar meu ônibus no horário de sempre, chegar na estação com uma boa margem de tempo para o ônibus que eu habitualmente pegava até em casa.
E encontrei com o . Ele estava adiantado naquele dia e me cumprimentou com um sorriso e um aceno de cabeça, mas foi para o fundo do ônibus e não levei a mochila dele.

Eu o vi de longe umas três vezes quando cheguei à estação, em dias que estive tão atrasada que nem mesmo consegui pegar o mesmo ônibus que ele, mas não sentia nada de excepcional. Na época eu estava afim de um cara, então o resto da população masculina não fazia muita diferença.
jura que me viu mais vezes do que eu o vi e que ele já tinha reparado em mim o suficiente pra me achar bonita.
Às vezes eu me pergunto como teria sido se nós tivéssemos nos aproximado naqueles dias, mas só consigo concluir que teria dado errado. Eu não tinha interesse e talvez nem mantivesse a amizade, apesar de termos ficado mais de um ano sendo apenas amigos. Nossa terceira interação aconteceu no final de novembro de 2014, quando nos encontramos no supermercado e ele teve coragem de falar comigo, soltou um “eu nunca tinha te visto antes, mas esse ano nós temos nos encontrado bastante, você quer sair e tomar uma cerveja? Acho que a vida quer que sejamos amigos.”.
Eu não recusei, claro, mesmo que estivesse receosa, afinal, eu não o conhecia e ele podia, sei lá, querer me matar e eu apareceria no jornal do Datena após sumir por uns dias e só depois a polícia encontraria meu corpo desovado em algum dos matos aqui de Belo Horizonte. Mas eu fui.

Belo Horizonte, 05 de dezembro de 2014

- Eu juro que fiquei meio tensa de vir, mas valeu a pena. Você é um cara legal.
- Pra ser sincero, eu achei que você ia me bater quando te chamei pra sair.
- Eu não ia te bater.
- Você só esbarra, eu sei. – ele deu uma risadinha antes de tomar o restante da cerveja em seu copo.
- Foi sem querer. Eu queria ir embora, medi errado o espaço entre você e a pilastra e acabei tendo que financiar o consumo de carne.
- Você podia ter subido sem se desculpar.
- Mas eu tenho educação, sabe? – falei debochada. – E eu realmente não queria esbarrar em você.
- Ainda bem que esbarrou. – ele deu um sorriso sincero.
- E então, você estuda?
- Não. Um dia, quem sabe. – deu de ombros. – E você?
- Eu fiz ENEM esse ano, mas fui muito mal e tenho certeza disso. Eu quero fazer Pedagogia.
- Isso é legal. Se eu for fazer faculdade algum dia, eu quero fazer Engenharia Elétrica.
- Você tem irmãos?
- Um irmão mais novo. E você?
- Tenho três. Meu irmão mais velho e os gêmeos, que são mais novos.
- Você tem irmãos que são gêmeos? Que legal.
- Ah não é legal. Eles são insuportáveis. – reclamei. – E olha que agora eles já têm dezenove, mas são insuportáveis.
- Você é a única mulher? – perguntou e eu assenti. – Eles são ciumentos?
- O mais velho era bem ciumento quando eu era mais nova, mas agora ele finalmente arrumou uma namorada e não tem tempo de ficar cuidando da minha vida. Os gêmeos estão muito cheios de hormônios pra se importar comigo.
- Você não vai comer nada dessa porção?
- Eu não como nada de origem animal e isso tá que é pura carne e queijo, . E ovo. E eu não vou pagar por isso.
- Você é vegana?
- Sou.
- Que legal. – ele falou, novamente, sorrindo sincero. E foi chocante, todo mundo sempre tem críticas sobre, ninguém acha legal. – Sempre quis saber como é isso. E faz tempo que você parou?
- Eu ainda nem tinha entrado no ensino médio, então devem ser uns sete anos.
- E o que te motivou a virar vegana?
- Nunca fui muito fã de carne, apesar de comer bastante coxinha, e ai eu tive que fazer um trabalho pra Feira de Ciências da escola e era sobre impactos ambientais e meu grupo ficou com a parte do agronegócio. Eu vi documentários e fiz pesquisas... nunca mais consegui comer e nem usar coisas de origem animal.
- Isso é bem legal. – ele sorriu. – Mas pra achar as coisas de comer... é difícil?
- Um pouco, pra ser sincera. Então eu cozinho em casa o que quero comer. Amo cozinhar.
- Aceito ser cobaia um dia. – pediu dando um sorriso. – Veganismo é muito legal, eu queria conseguir.
- É uma questão de tentar.
- Prometo que pensarei com carinho. – sorriu.
- Você é a primeira pessoa que não me critica por causa disso.
- Sério?
- Muito sério. As pessoas sempre têm comentários a fazer sobre eu ficar anêmica pela falta de proteínas ou morrer de fome.
- Anemia não é causada por falta de ferro? – perguntou curioso e eu assenti.
- Mas as pessoas que criticam acham que é a mesma coisa. – respondi dando uma risada.
- É sua escolha. – ele deu de ombros. – Não é da conta de ninguém.
- Queria que as pessoas entendessem tão fácil assim. – respondi, sorrindo de lado.
Continuamos conversando e bebendo por mais algumas horas, mas antes de meia-noite, meu irmão mais velho me buscou e eu fui embora, sob a promessa de convidar para almoçar lá em casa, um almoço totalmente vegano. Claro que aquilo demoraria muito a acontecer, porque só entrou na minha casa no dia em que eu fui apresentá-lo à família, um ano e meio depois.
Antes disso nós saímos várias vezes, sem nenhum tipo de envolvimento. Fomos ao cinema, ao teatro, saímos outras vezes para beber e fomos ver os jogos do nosso time. Nosso primeiro beijo só aconteceu no Carnaval de 2016, depois de termos consolidado uma amizade e de nos falarmos com bastante frequência.
Bem antes de nos beijarmos, foi de grande ajuda na minha vida e se mostrou uma pessoa que valia a pena ter por perto. Eu sempre fui muito insegura sobre minha imagem e sobre mim em todos os aspectos. Quando minha amizade com o começou a se firmar, eu ainda tinha interesse em outra pessoa, mas essa pessoa não me queria e isso só me fez questionar – e muito – minha imagem e minha existência.

Belo Horizonte, 13 de março de 2015

Eu precisava parar de chorar.
Se eu queria sair daquela empresa e ir embora sem chamar atenção, eu precisava parar de chorar o mais rápido possível, lavar o rosto e sair de lá.
Mas eu simplesmente não conseguia.
Há um tempo eu era interessada em um colega de trabalho, ele era ajudante de um dos contadores, e nós costumávamos conversar bastante em função do trabalho. Eu suspeito que ele sabia do meu interesse, ainda que não demonstrasse nada além de profissionalismo e conversasse sem aquele ar de quem sabia que eu queria algo além de ser colega de trabalho dele.
Ele tinha um amigo e os dois sempre conversavam muito sobre tudo: futebol, faculdade, trabalho, mulheres, saídas... Os dois eram amigos desde a escola, trabalhavam e estudavam juntos desde muito cedo e tinham bastante intimidade.
Naquele dia eu ouvi um dos comentários que faziam sobre mulheres, o rapaz em quem eu tinha interesse estava encostado no muro do estacionamento, os dois fumavam despreocupados enquanto conversavam. O amigo falou coisas horríveis de uma das garotas da turma com quem ele tinha transado e o outro, ao invés de repreender, apenas riu. E ouvir aquilo, ainda que não fossem para mim, foi horrível.
Passei o resto da tarde evitando os dois, ouvindo aquela vozinha irritante na minha cabeça, me deixando ainda mais insegura, repetir: “se eles falam assim das pessoas com quem convivem e se dizem amigos, imagina o que falam de você, uma simples secretária que nunca vai ser nada além disso...”.
Consegui evitá-los até o fim do dia, mas, na saída, acabamos nos encontrando e vê-los rir enquanto caminhavam e olhavam para mim, foi o gatilho para que eu começasse a chorar e não conseguisse mais parar. Eu nunca seria o suficiente para ninguém, era claro que homens só gostavam de mulheres que seguiam os padrões de beleza e sucesso impostos pela sociedade.
E eu não era assim. Nunca fui. Não sou. E tenho total e absoluta certeza de que nunca serei.
Ouvir algumas coisas, como as que ouvi naquele dia, ainda que não diretamente direcionadas, quando se tem uma péssima visão de si e uma autoestima baixíssima, era como se fosse milimetricamente calculado e direcionado.
Quando, finalmente, consegui sair do escritório, encontrei à porta e sua expressão foi de tédio à preocupação ao ver meus olhos inchados.
- O que você tá fazendo aqui? – perguntei, tentando soar apenas curiosa e não chateada por deixar que ele me visse daquela forma.
- Apenas senti vontade de te esperar, sai da loja e vim.
- Você saiu mais cedo?
- Sim. Mas o que aconteceu? Por que você estava chorando?
- Nada. Só tive um dia cheio. – menti.
- Você não quer falar sobre. Eu entendo. – ele assentiu compreensivo e sorriu. – E então, quais os planos para o fim de semana?
- Nenhum. E você?
- O que você acha de irmos ao cinema? Ontem estreou “No Coração do Mar” e parece ser bem legal. E tem “Kingsman” também.
- Ah, ... eu não sei.
- , eu não vou te pressionar a contar o que aconteceu que te fez chorar e sei que é muito idiota falar isso que eu vou falar, mas não se deixe abalar, não deixa a vida te colocar pra baixo. Você é linda demais pra ficar chorando por qualquer coisa que seja.
- Linda... – resmunguei num tom debochado e me abraçou pelos ombros.
- Você sabe que eu não tenho nenhum motivo ou obrigação de te adular, não sabe? – ele perguntou enquanto caminhávamos até a estação de ônibus.
- Sei. – resmunguei de volta.
- Pois então, eu não tô falando que você é linda pra te adular, eu estou sendo sincero. Você é linda, . E uma mulher muito forte e dedicada, tem uma energia incrível, é sensível, tem uma risada deliciosa e contagiante, você é inspiradora, inteligente, educada, simpática, sempre tem assuntos interessantes, sabe conversar sobre as coisas que domina sem tratar as pessoas como inferiores, você é cativante, traz leveza ao ambiente quando chega. Isso sem contar que seus olhos são lindos, você tem um corpo fantástico, é cheirosa mesmo depois de trabalhar o dia todo, os seus traços são perfeitos e seu único defeito é não gostar de filmes de terror. Você é linda por dentro e por fora. Nunca deixe que te convençam do contrário. Nem mesmo essa vozinha falando na sua cabeça, e que provavelmente ficou repetindo diversas coisas que não devia hoje.

O tom de foi manso, ele não me olhou enquanto falava, eu também não tive coragem de olhá-lo enquanto o ouvia. E é claro que eu chorei. Quando ele percebeu, apenas me abraçou e nós ficamos parados no meio da calçada, abraçados enquanto eu chorava e ele me consolava.
A partir daquele dia, nossas mensagens, que eram constantes, aumentaram a frequência. Ele estava sempre perguntando como eu estava, se eu queria conversar, sair ou apenas ficar conversando pelo WhatsApp. Eu tomei coragem e contei tudo, todos os problemas passados na adolescência sobre me encaixar ou não em padrões físicos, estéticos, pessoais e profissionais.
Contei a ele sobre a vida de fanfic.
Ele riu dessa parte, mas não de deboche, apenas por achar engraçado quando falei que sempre quis uma vida daquelas. E até hoje me lembro perfeitamente das palavras que ele usou:
“Não dá programar tudo na vida, , você até poderia ter tudo isso, ainda pode, mas não dá pra falar que vai acontecer em um mês ou em vinte anos. A vida é uma fanfic, mas é sua. Quem escreve é você, não se leve pelo roteiro das outras pessoas, porque você perde a chance de escrever algo maravilhoso pra você.”.
Quando descobriu meus maiores medos, as coisas entre nós começaram a ficar mais sérias. Mas não nesse sentido, ainda. Nós começamos a ter conversas mais profundas, sem medo de entrar em áreas que podiam ser perigosas, mas criamos laços de confiança.
O “Moço da Coxinha” se tornou o meu melhor amigo e alguém que me conhecia bem só de receber uma mensagem.
Perto do aniversário dele, foi que eu percebi que estava sentindo algo diferente. Ainda que eu jurasse de pé junto que aquilo era apenas muito amor e gratidão pela nossa amizade iniciada de forma tão diferente que tinha se intensificado tanto e de uma forma tão natural e verdadeira, era óbvio que não era apenas aquilo.
E era óbvio, porque eu perdi totalmente o interesse no ser desnecessário que trabalhava comigo.
Era óbvio, porque eu ficava esperando o dia inteiro por uma mensagem do .
Era óbvio, porque eu amava quando íamos embora juntos ou quando saíamos para comer, beber ou ao cinema.
Mas eu tinha medo, afinal ainda tinha todas as minhas inseguranças e não queria estar confundindo as coisas, eu não sabia se ele também se sentia daquela forma e eu nunca teria coragem de perguntar. era perfeito demais para ser de verdade (e às vezes eu tinha medo de estar alucinando e ele não ser real, mas esses momentos de reflexão com pessoas que não existem e funcionam como uma espécie de consciência ou anjo da guarda só acontecem em fanfics, livros, filmes e seriados), ele era perfeito demais para me aceitar de outra forma que não fosse apenas como sua amiga.

Belo Horizonte, 10 de setembro de 2015

- Feliz aniversário! – falei alto quando nos encontramos para voltar pra casa.
Eu tinha enviado os parabéns logo de manhã, mas não tinha conseguido sair do escritório para ir até a loja lhe dar um abraço e entregar seu presente. deu uma risada quando eu o abracei e ele logo me abraçou de volta.

- Obrigado, .
- Espero que você goste do presente que comprei.
- Não precisava de presente. – ele falou sem graça.
- Claro que precisa! Se você não me der um presente no meu aniversário, eu serei obrigada a nunca mais falar com você. – respondi fingindo um sério, e lhe entreguei o embrulho.
- Eu não vou te dar nada.
- Claro que vai. – respondi enquanto observava abrir o embrulho. – Não é uma coisa muito cara, é só uma lembrancinha e...
- Eu amei! – ele deu um sorriso ao ver o copo térmico do Super Homem, seu super-herói favorito.
- Não repara, é só uma lembrancinha mesmo.
- , eu adorei! – ele sorriu sincero. – Se você não tivesse me dado nada além de um abraço eu teria amado, porque seria você.
E ouvir aquilo fez com que aquele famoso “sentir borboletas no estômago” aconteceu. Eu já tinha sentido isso, claro, mas foi diferente. Ouvir aquilo vindo de uma pessoa tão fantástica quanto o e por quem eu tinha percebido que tinha começado a nutrir sentimentos românticos, era maravilhoso.
- Vamos comer pizza? Eu pago.
- Você está muito boazinha hoje.
- Eu sempre sou boazinha, . – reclamei. – Se bem que você tem que ver seus pais né? Já que eles vieram passar uns dias... melhor deixarmos a pizza pra depois.
- Sábado?
- Pode ser.
- Então sábado comeremos pizza por sua conta.
- Nada disso. Era por minha conta se fosse hoje, já que ficou pra sábado, você paga o que consumir e eu pago o que eu consumir.
- Então anda logo, vamos perder o ônibus se você não parar de falar. – implicou, me abraçando pelos ombros e nós seguimos pelo habitual caminho.
Quando paro pra pensar sobre tudo isso, eu acho muito... estranho.
Nós nos conhecemos de uma forma muito estranha, depois nos encontramos sem querer, eu aceitei sair com um estranho para tomar uma cerveja e nós começamos a conversar, voltávamos juntos do trabalho e nos tornamos amigos. Eu sempre tive muita facilidade de me enturmar com as pessoas, mesmo que eu deteste fazer isso, mas foi útil para conseguir criar e manter uma amizade saudável com o .
Como eu disse, o destino sabe como age e nós dois tínhamos que acontecer um na vida do outro, aconteceu na hora e da forma certas, eu não tenho dúvida, mas é estranho quando se percebe que a vida se tornou um excelente enredo (clichê amado) de fanfic.

Belo Horizonte, 19 de outubro de 2015

- Eu não acredito que você me arrastou pra te ver jogar futebol, .
- Eu sei que você está gostando.
- Não mesmo. Eu queria ir pra casa, colocar os pés pro alto e ficar sem fazer nada junto com algum dos meus irmãos.
- Nós somos amigos há quase um ano e você tem a cara de pau de falar que preferia estar com seus irmãos do que comigo? Eu te dou cerveja e pago pizza pra você!
- Tudo bem, você venceu. Vou comprar uma cerveja, sentar e ficar gritando pra você parar de errar as coisas.
- Vou fazer um gol pra você. – ele piscou, dando um sorriso debochado.
- Ô , DEIXA PRA NAMORAR DEPOIS, VEM LOGO! – um dos amigos dele gritou do outro lado da quadra.
- ELA NÃO ME QUER, NÃO DÁ PRA NAMORAR ASSIM! – gritou de volta. – Vá comprar sua cerveja, eu vou ali humilhar Messi e Cristiano Ronaldo com meu futebol.
- Coitado, como sonha...
- Quer apostar?
- Se eu ganhar, e isso vai acontecer, eu quero aquela jaqueta que te mostrei ontem.
- Se eu ganhar, eu q... – ele começou a falar, mas foi interrompido pelo amigo (o mesmo que gritou), que apareceu perto de onde estávamos.
- Oi , é um prazer finalmente te conhecer, mas eu quero que você me empreste meu amigo, precisamos começar a jogar.
- Ele é todo seu. – respondi rindo.
- Depois eu te conto o que vou ganhar. – respondeu rindo e saiu com o amigo.
E eu fui comprar minha cerveja.
Voltei ao local perto da grade, sentei, coloquei as pernas sobre a cadeira que estava ao lado, a bolsa sobre a mesa, enchi meu copo e comecei a prestar atenção no jogo entre o time do (de colete amarelo) e o outro time (de colete verde).
E estava péssimo.
Foram muitos gols, mas a maioria dos lances eram bem ruins, apenas um monte de homem – sem preparo físico, talento e noção – correndo atrás de uma bola.
O time verde venceu por 15 a 6 e não fez gol. Na verdade, ele jogou muito mal e eu vi os amigos o xingando, provavelmente ele errou muita coisa que habitualmente não errava. Ele se aproximou, totalmente suado e eu tive que me segurar para não rir.
- Você me deu azar.
- Eu? – perguntei rindo. – Eu estava aqui sossegada, vendo o jogo e torcendo por você.
- Quando você não vem, eu jogo bem e venço.
- Então eu não venho mais. – respondi dando de ombros. – Posso ir pra casa?
- Vou tomar banho e a gente vai. – falou e eu apenas assenti, vendo se afastar, indo na direção do que deveria ser o vestiário (achei bem legal na época, porque nenhuma das quadras que eu conhecia tinha esse tipo de coisa) e eu voltei a ficar sozinha.
Fui ao bar, paguei pelas duas cervejas que eu tinha tomado enquanto assistia àquele jogo que só não poderia ser pior do que os das crianças da minha rua, e peguei uma outra lata pra beber enquanto esperava pelo . É, eu sei, beber na segunda-feira é estranho, mas quando a oportunidade nos é dada, deve ser aproveitada.
Logo um burburinho masculino se fez audível e eu vi um pequeno grupo caminhando até o local em que eu estava.
- Resenha? – um deles perguntou e negou com um aceno.
- Você é um vagabundo e pode fazer essas coisas, eu vou acordar cinco e meia da manhã pra trabalhar.
- Não tenho culpa de você não estar de férias. – respondeu desaforado, mas rindo. – E você, né? Você quer vir pra resenha?
- Isso, , mas não, obrigada. Amanhã eu acordo cinco e meia também.
- Vocês precisam relaxar, mas eu entendo, daqui dez dias eu volto a acordar nesse horário também.
- Marca pro fim de semana e nós vamos. – falou e o rapaz assentiu. – Agora, vou deixar essa criatura em casa e vou embora.
- Juízo pelo caminho... – falou sugestivo e depois de uma despedida cheia de abraços, socos nas costas e promessas de um encontro na segunda-feira seguinte, e eu saímos da quadra.
- E então, como vamos pra casa?
- Eu moro aqui perto, você sabe, então vamos pra lá, eu pego o carro do meu irmão e te deixo em casa.
- Não precisa, , eu peço um táxi de lá.
- Vou te deixar em casa e fim de papo.

- Ai , você é tão chato que eu nem sei por que eu falo com você. – fingi um tom de reclamação e ele me abraçou pelos ombros.
- Porque eu sou seu amigo mais legal. – respondeu e eu o abracei pela cintura.
- Depende do ponto de vista.
- Do seu ponto de vista, claro. – falou convencido. – Você está fedorenta.
- Você outro dia que eu sempre sou cheirosa.
- Hoje não está. Cheiroso sou eu.
- Você tá cheiroso, mas acabou de tomar banho, nem conta.
- Claro que conta!
- Óbvio que não, . Você tomou banho, então tirou a sujeira, suor e fedor do dia.
- Eu sou sempre cheiroso, .
- Eu sei disso, mas nesse caso, você acabou de tomar banho e por isso não conta.
- Pera, então você concorda que eu sou sempre cheiroso? – perguntou convencido e eu tive que agradecer aos céus por estar escuro e ele não me ver roxa de vergonha.
- Se eu discordasse, você ia falar horas na minha cabeça, então eu concordei pra você calar a boca. – falei, tentando disfarçar, e ele riu.
- Não minta pra mim. Eu sou cheiroso.
- , cala a boca.
- Tudo bem, fedorenta.
- Eu trabalhei o dia inteiro, , claro que eu estou fedendo!
- Para de me chamar de .
- É o seu nome, você quer que eu te chame de quê? – perguntei rindo.
- De , uai. Ou de amor da sua vida... – implicou e eu rolei os olhos, mas ele não viu.
- , cala a boca. – repeti.
- Você bebe e fica grossa. – ele voltou a implicar. – E chegamos. Vou pegar a chave com ele e nós vamos.
- Sim senhor. Vou esperar aqui.
- Vai mesmo, não te chamei pra entrar. – respondeu desaforado e eu quis lhe xingar com um palavrão. – Mentira, entra. A rua tá deserta.
- Você não vai demorar, eu espero aqui.
- Vou deixar o portão aberto, entra se vir alguma coisa estranha.
- A única coisa estranha que eu tô vendo é você. – falei e ele me mostrou o dedo do meio.
- Fedorenta. – ele implicou, mas não esperou a resposta, apenas entrou em casa e me deixou esperando por pouco mais de dois minutos, até tirar o carro da garagem.
desceu do carro para fechar o portão enquanto eu me sentava no banco do passageiro e prendia o cinto. Assim que voltou para o carro e estava de cinto colocado, me olhou, esperando as coordenadas.
- Pega a avenida do sacolão direto pro lado que o ônibus vira. – falei e ele assentiu, dando partida e virando o carro para que pudéssemos ir até minha casa. – Obrigada pela carona.
- Qualquer coisa por você, . – ele piscou. – Sigo a avenida direto? Toda vida?
- Toda vida. Ai no final você vira pra direita. Lá na frente eu te explico o que vem depois.
- Sim senhora. Vai demorar?
- Não. Depois disso é rapidinho.
- E como foi seu dia?
- Cheio de problemas, mas deu tudo certo no final. E o seu?
- Foi tranquilo. E isso é péssimo quando se trata de comércio. – falou dando uma risadinha pelo nariz. – Atendi uns quatro clientes só.
- Compras grandes?
- Que nada, a maior não passou de duzentos reais.
- Ai , sinto muito. Amanhã as coisas serão melhores.
- Deus te ouça, .
- Você vai virar a direita no final da avenida, depois a terceira a esquerda e a segunda rua a direita e pronto.
- Terceira a esquerda e segunda a direita. – repetiu o que eu tinha dito.
Rapidamente estava parando à porta da minha casa, a quinta casa do lado esquerdo da rua, e me olhou quase com preguiça. Estava começando a ficar cansado depois do dia de trabalho e de jogar futebol.
- Obrigada pela carona. A gente se vê amanhã.
- Até amanhã, . – ele me deu um beijo no rosto antes que eu saísse do carro.
Ele esperou que eu entrasse para arrancar e voltar para a própria casa. E assim que eu entrei, encontrei um dos gêmeos, o que atende pelo nome de Jorge, esparramado no sofá da sala e me olhou com um misto de curiosidade e malícia.
- Que que é, Jorge?
- Ele te levou pra conhecer os amigos hein? Tá sério assim?
- Você é um idiota. é só meu amigo.
- Por você ele seria bem mais que isso.
- Cadê o outro que nasceu junto com você? – perguntei de má vontade.
- Aula. – Jorge deu de ombros.
- E você não foi?
- Fui sim, você tá falando com um holograma meu. – falou debochado.
- Idiota.
- Fala logo pra esse que você tá afim, se enrolar mais, vai perder o cara.
- Cuida da sua vida. – resmunguei.
- Prefiro te ajudar a cuidar da sua, você não parece muito esperta pra fazer isso sozinha. E vai logo tomar banho, você tá fedendo.

Eu fiquei um pouco preocupada depois desse dia, porque se meu irmão – que é um tapado – tinha percebido, era provável que o também tivesse, eu torcia para que não. Eu não queria passar a imagem de que estava mesmo gostando dele, porque não demonstrava que se sentia da mesma forma, então era melhor não arriscar.
Nós nos víamos basicamente todos os dias, ele se comportava exatamente da mesma forma, nada de diferente – pra mais ou pra menos – e isso apenas fazia com que aquela voz na minha cabeça repetisse, em um tom bem mais alto, de que um cara lindo e mega interessante igual ao , jamais se interessaria por mim.

Belo Horizonte, 27 de outubro de 2015

Meu coração batia tão acelerado que eu quase podia senti-lo rasgando meu peito e pulando pra fora. O suor frio parecia escorrer em bicas pelo meu rosto e eu sentia todo meu corpo tremendo, respiração descompassada, sensação de sufocamento, tontura, náuseas e um medo intenso sem uma razão aparente.
Crise de ansiedade.
Sentada sobre o vaso, com a porta trancada, eu sentia meu corpo inteiro doer por causa da tensão.
Faltavam dez minutos pra sair do escritório, eu encontraria o e nós iríamos pra casa, como sempre. Mas, alguma coisa tinha saído do controle naquele momento e eu apenas conseguia ouvir minha mente repetindo diversas vezes que eu jamais seria o suficiente pro e nem pra ninguém, tanto física, quanto pessoal e profissionalmente.
E eu só conseguia tremer, sentir medo e os sintomas daquela crise que, até então, era a pior de todas as que eu já tivera.
Ouvi meu celular tocar dentro da bolsa, provavelmente era o , mas eu não conseguia nem mesmo pegar o aparelho pra recusar a chamada.
E enquanto meu telefone tocava e eu sentia tudo aquilo, eu só tive tempo de sair do vaso, abrir a tampa e vomitar tudo que eu tinha comido no dia. E quanto mais força eu fazia, mais alto aquilo que ecoava na minha mente ficava, mais eu sentia o suor frio molhando meu uniforme, minha garganta parecia secar e minhas mãos tremiam sem parar.
Uma. Duas. Três. Quatro. Cinco chamadas. Ele tinha que desistir e ir embora sem mim, e então eu poderia ir embora me sentindo um lixo sozinha.
Mas ele não foi embora. É claro.
Quando sai do prédio, depois de tentar me recompor, ele estava parado à porta e ao invés de reclamar pelo atraso, apenas me olhou e se aproximou, me dando um abraço.
- Você tá gelada. Pálida, gelada e não parece bem. – falou, ainda me abraçando.
- Foi o ar condicionado. – menti.
- Aham, e eu sou o Thor. – respondeu, me apertando em seu abraço. – Quer falar sobre?
- Não.
- Consegue ir embora ou precisamos de um tempo?
- Eu preciso de um tempinho.
- Quer comer?
- Não.
- Então vamos tentar respirar juntos e ai vamos embora. Mas sem pressa, temos todo tempo que você precisar. – ele falou, ainda me abraçando e foi quando prestei atenção no ritmo de sua respiração e, aos poucos, consegui acompanhá-la.
E depois de alguns minutos, consegui me sentir um pouco mais relaxada.
- Obrigada. – agradeci quando, finalmente, estávamos a caminho da estação de ônibus.
- Quando você quiser falar sobre, estou aqui. – falou dando um sorriso e eu assenti.
- Eu sei. Você é o melhor. – abracei pela cintura e ele me abraçou pelos ombros.
- Nós somos. – respondeu. – E então, preparada pro seu aniversário?

Eu sempre odiei festas de aniversário pra mim. Sempre. Adoro fazer festas para os meus amigos e familiares, gosto de presenteá-los e tudo mais, me sinto muito feliz, mas nunca gostei de festas pra mim. Quando eu estava na escolinha, minha mãe cismou que queria fazer uma festa lá, junto com meus coleguinhas e as tias.
Obviamente, tudo deu errado.
Eu fiz um escândalo tão grande que ninguém conseguiu cantar parabéns ou falar comigo. Não comi, não peguei os presentes e ignorei todas as pessoas. Desse dia em diante, nunca mais meus pais quiseram me dar uma festa de aniversário.
No ensino médio, uma amiga resolveu fazer uma surpresa – contrariando tudo que ela já tinha ouvido sobre meu pavor de festas de aniversário – e infelizmente não deu pra fazer um escândalo, tive que tolerar aquilo por quase uma hora e depois nós brigamos, é claro.

Belo Horizonte, 11 de novembro de 2015

- Eu espero que você não esteja tramando uma festa surpresa, . Eu odeio festas e odiaria ter que parar de falar com você. – alertei enquanto caminhávamos até o shopping que ficava próximo aos nossos empregos.
- Somos só nós dois, pode ficar calma. Não quero que você grite comigo em público e nem me odeie, então eu apenas estou te chamando pra gente comer.
- Acho bom mesmo.
E realmente fomos apenas os dois por mais de três horas. Fomos ao cinema, comemos e conversamos. faltou me carregar no colo, pagou por tudo e disse que era meu dia e eu merecia. Falou também que não, ele não estava me distraindo para dar tempo de uma festa ser feita na minha casa (e não estava mesmo).
Quando estávamos indo embora, ele abriu a mochila e tirou de lá um embrulho.
- Ouvi dizer que se eu não te desse um presente, você nunca mais falaria comigo... – ele falou, dando um sorriso. – Feliz aniversário. De novo.
- , não precisava. – resmunguei sem graça e o abracei. Claro que não esperei para abrir o presente e me deparei com a jaqueta que eu tinha visto e falado que ele deveria comprar, no dia do futebol. – !
- Eu te devia uma aposta e um presente de aniversário, então, como dizia o meu avô, matei dois coelhos com uma caixa d’água só. E peço perdão, ó rainha vegana, por este trocadilho. – caçoou, mas me abraçou.
- Nossa, , eu te dei um copo e você me dá uma jaqueta!
- Um copo térmico do Super-Homem!
- Ai , obrigada. De verdade. Eu amei.
- Eu sei. Agora vamos embora, amanhã ainda é quinta-feira e temos que trabalhar.
- Você sabe estragar um momento. – reclamei. Voltei a abraçá-lo e lhe dei um beijo no rosto, depois de ficar na ponta dos pés. – Você é o melhor.
- Eu sei, até porque você é a melhor e só merece esse nível de pessoas na sua vida. – ele respondeu, me abraçando de volta.

Quando eu comecei a perceber que eu estava sentindo algo a mais, quase cinco meses antes do nosso primeiro beijo, eu quis me afastar, não queria estragar a nossa amizade, mas eu simplesmente não consegui. tinha o dom de aparecer quando eu queria fugir e me esconder, fosse no escritório, no ônibus, no supermercado... ele simplesmente aparecia. parecia sentir que eu não estava bem e, fosse pessoalmente ou por mensagem, ele dava um jeito de se fazer presente. Eu não conseguia nem ficar estranha, estar perto dele sempre foi confortável. Não faltava assunto, risadas, boas conversas...
Então resolvi que não podia fugir daquele sentimento ou dele, só pioraria tudo. Se eu tinha que conviver com aquilo, eu conviveria, mas ainda não tinha decidido sobre contar ou não, resolvi manter apenas para mim, ainda que eu tivesse contado para minha melhor amiga e ela tenha me dito que eu estava velha demais para esconder do cara de quem eu estava afim que eu estava afim dele.
Mas, não. Eu não falaria.
E não precisei tomar esse passo. fez isso por nós dois.

Belo Horizonte, 06 de fevereiro de 2016

- Eu não acredito que deixei você me arrastar pra Carnaval, . – reclamou.
- Cala a boca e vamos nos divertir!
- São cinco horas da manhã, nós estamos chegando no centro da cidade cinco horas da manhã!
- , se chegarmos ao fim do dia de hoje e você não tiver se divertido nem um pouquinho, você pode me odiar e nunca mais falar comigo.
- Eu já estou odiando agora. – ele assegurou. – Não podíamos ter saído mais tarde?
- Claro que não! O “Então, Brilha!” sai cedo!
- Eu vou dormir no meio da rua antes da hora do almoço.
- Nunca mais eu te chamo pra nada.
- Ainda bem, porque são cinco da manhã e nós estamos chegando no centro da cidade. Pra pular Carnaval!
- Você deveria se sentir honrado, porque eu sempre quis vir ao “Então, Brilha!” e essa é a primeira vez que eu faço isso e escolhi sua companhia.
- Quando eu acordar, eu prometo me sentir honrado. – falou debochado e encostou a cabeça na janela do ônibus.
- Nós já vamos descer, não dorme!
- , eu te odeio tanto nesse momento... – ele resmungou. – Eu trabalhei demais essa semana e acordei quatro horas da manhã pra isso.
- Ai , então volta pra casa. – falei quase sem paciência. – Quando eu te chamei, você disse que vinha sem problemas, que parecia ser legal... e nem quando ficou sabendo do horário você reclamou. Se não queria vir, podia ter avisado ontem e eu não teria falado mais nada.
- Nossa, , eu tô brincando.
- Não, você não está. Pode voltar, eu me viro sozinha aqui. Quer dizer, vai ter muita gente, então não estarei sozinha. – falei, ficando de pé, o ônibus estava prestes a parar na estação.
- ...
- É sério, , volta. Eu não devia ter te chamado, desculpa. Volta pra casa e depois a gente conversa.
- Claro que não. – ele ficou de pé também. – Vamos pular Carnaval. Desculpa, você realmente está animada e eu só fiquei reclamando.
- Se você se cansar, só me avisa e vai embora. Eu me viro e tento encontrar algum conhecido.
- Você vai estar comigo, não vou me cansar. – ele deu um sorriso de lado.
O ônibus parou na estação e nós descemos, caminhando pelo curto caminho até a rua da concentração do bloco que saía todo ano em Belo Horizonte, desde 2011, e que tinha se tornado uma tradição da cidade, saindo de uma das ruas mais conhecidas por ser um ponto de prostituição famoso (quem mora aqui e nunca ouviu sobre a Rua dos Guaicurus, está morando errado!), considerado (e realmente é) marginalizado, um dos motivos é para que as pessoas que vivem/trabalham ali sejam e se sintam incluídas, de alguma forma, em alguma coisa.
Dourado e rosa eram as cores predominantes, lantejoulas, gente por todo lado. Os últimos detalhes eram acertados na banda, gente passando glitter, tinta e conversando. Alguns já bêbados, outros já bebendo.
- Que namorada linda você tem. – a moça que passava o glitter em meu rosto falou, sorrindo para o .
- É, ela é mesmo. Tenho muita sorte. – respondeu sorrindo, sem me deixar desmentir.
- Pronto. Vocês estão lindos. Divirtam-se!
- Você também. – respondi e estendeu a mão para sairmos de perto da moça.
Aquela era a primeira vez que nós andaríamos de mãos dadas. E o gesto me parecia grande, afinal, por mais que se ande abraçado com alguém, o simples fato de andar de mãos dadas é de uma cumplicidade sem tamanho. Eu aceitei, já sentindo meu corpo inteiro se arrepiar e as famosas borboletas no estômago começarem a voar quando ele entrelaçou os dedos aos meus e nós saímos caminhando até o que começava a ser uma aglomeração à frente do Hotel Brilhante. A previsão era de cerca de trinta mil pessoas, mas, claro, teria muito mais.
- Quer beber ou comer alguma coisa?
- Não. E você?
- Também não. – dei de ombros.
- Ei, casal, podemos tirar uma foto de vocês pra página do bloco? – um desconhecido, trajando as cores oficiais e com uma câmera em mãos, apareceu e nós assentimos.
Pose feita, nós nos abraçamos e sorrimos, a foto foi tirada, o fotógrafo agradeceu e saiu. Pouco tempo depois, a aglomeração de pessoas aumentou e logo minha mão estava envolta pela de de novo, o sol começava a despontar no horizonte e em breve começaria a nos iluminar de verdade.
“Um raio de luz se abriu no clarão. Estrela da manhã me dê a mão. O sol te seduz, feito um farol. Magia tropical do cigano amor pelas avenidas cantando, pela vida. Esse é o nosso lema. Gente é pra brilhar no embalo dessa onda, axé que contagia, gente é pra brilhar. Então brilha, brilha! Ô ô ô a a, então brilha, brilha!”
E foi assim que passamos a manhã, ao som de diversas músicas de Carnaval – e outras tantas que não são apenas dessa época – entre risadas e um ou outro gole de cerveja.
Ao final do bloco, perto das dez, passamos em uma lanchonete no quarteirão de cima e tomamos “café da manhã”: ele comeu uma coxinha e tomou café, eu comprei apenas um café e uma salada de frutas que não parecia tão duvidosa, e nós voltamos para a rua.
Ficamos até meio dia ouvindo mais música, cantando, rindo e vez ou outra tomávamos uma cerveja. Eu queria me divertir, também parecia querer apenas isso e podíamos ficar sóbrios pra conseguir isso.
- Almoço? – perguntou e eu assenti.

- Eu tô morrendo de fome!
- O Popular abre hoje?
- Acho que não.
- E onde vamos achar um lugar pra você comer?
- Subway. Peço o vegetariano. E tem um logo aqui na esquina, a gente come e sobe a Afonso Pena pra ir pro “Quando come, se lambuza”.
- Você conhece todos os blocos dessa cidade?
- Só os de hoje. – respondi e fomos comer.
E uma hora e meia depois nós estávamos descendo a Afonso Pena, lotada, atrás do trio do bloco, cantando a plenos pulmões.
- Tudo que eu quero nessa vida, toda vida, é amar você, amar você... – o cantor berrava de cima do trio.
- O seu amor é como uma chama acesa cheia de prazer, de prazer. – cantou alto.
- Tudo que eu quero nessa vida, toda vida, é amar você, amar vocêêêê – foi minha vez de cantar alto. – O seu amor é como uma chama acesa cheia de prazeeer, de prazeeer.
- Eu já falei com Deus que não vou te deixar, vou te levar pra onde for, qualquer lugar... Já fiz de tudo pra não te perdeeeeer. – ele cantou e sorriu.
- Arerê, um love, um love, um love com vocêêêêê... – cantei e ele gargalhou.
- Você cantou errado.
- Claro que não.
- Cantou sim!
- Você está louco!
- , ela fala “um lobby, um hobby, um love com você”.
- Não!
- Arerêêê... Um lobby, um hobby, um love com vocêêê... – ele cantou e me abraçou, dando um beijo no meu rosto.
Passamos o dia inteiro juntos, não beijei ninguém, ele não beijou ninguém e a gente apenas cantou e se divertiu muito. Não que isso fosse ruim, de forma alguma, mas acho que nunca senti tanta vontade de beijar a boca do igual naquele dia.
- Que foi? – ele perguntou quando me viu olhando pro nada, calada, no meio do bloco.
- Tava pensando, desculpa. O que eu perdi?
- Nada. Tá tudo bem?
- Tudo. – sorri e ele me olhou sem acreditar. – É sério, . Tá tudo bem.
- Não sei se acredito.
- Vem, na maldade, com vontade, chega e encosta em mim, hoje eu quero e você sabe que eu gosto assim... – cantei dando uns passos da coreografia enquanto andávamos e ele piscou, dando um sorrisinho de lado. – Eu sei dançar essa música toda.
- Não duvido. – ele sorriu, enquanto eu dançava da forma como podia.
- Tem que ser assim pra me acompanhar, pra chegar...
- Não sabia que você gostava de Anitta.
- Eu não gosto, mas todo mundo sabe cantar isso. – dei de ombros. – Eeee pra te dominar, pirar tua cabeça, eu vou continuar te pro-vo-cando...
- Nem precisa.
- Quê?
- Você.
- Eu o quê?
- Não precisa de nada disso. – ele falou e voltou a dar de ombros. – Queria te beijar, mas acho que isso provavelmente vai dar errado.
- Bom, só tem como saber se a gente se beijar.
- E se ficar estranho?
- A gente finge que nunca aconteceu.
- Ótimo. – ele respondeu e nós saímos da muvuca que andava atrás do trio.
Paramos do outro lado da avenida e, claro, pra que eu desse altura, tive que subir no meio-fio e não demoramos muito a nos beijar, sem muitos olhares e espera. Minha reação foi beijá-lo sem demora, porque, bem, eu queria aquilo mais do que qualquer outra coisa naquele momento.

No começo foi estranho, claro, mas conseguimos fazer aquele beijo se tornar algo bom. E da forma mais clichê possível, era como se tivéssemos sido feitos pra nos beijar, como se a minha boca fosse feita para beijar a do e como se ele fosse feito pra me beijar, se encaixavam perfeitamente.
Quando, por fim, precisávamos tomar fôlego, achei que fosse ficar tudo estranho, mas não. Claro que não. Estamos falando de .
- É bem melhor do que eu imaginei. – ele soltou uma risadinha, me dando um selinho.
- O que?
- Te beijar. É muito melhor do que eu vinha imaginando.
- Você vinha imaginando isso?
- Desde que saímos pela primeira vez, mas ai viramos amigos e eu nunca via nenhum sinal em você de que havia algo além de amizade...
- Ah, mas tinha. – respondi rindo e voltamos a nos beijar.

Nosso dia de Carnaval terminou algumas horas depois, saímos no domingo e depois na terça-feira de novo, nos beijamos outras várias vezes durante o feriado e depois dele. Não era combinado, a gente só tinha resolvido começar a ficar mesmo.
E, posso afirmar, que mesmo depois de seis anos, beijar o tem a mesma sensação da primeira vez. Meu coração sempre acelera, me sinto como uma adolescente realizando o sonho de beijar o primeiro amor. Quando ele sorri e os olhos ficam pequenininhos, meu coração é o primeiro atingido. Amar o é a coisa mais fácil do mundo, porque tudo nele é amável e apaixonável. Tudo.

Belo Horizonte, 08 de maio de 2016

- Sua cama é tããão gostosa. – falei, ainda deitada, e ele deu uma risada, deitando ao meu lado. – Minha cama é grande e vazia, acho que vou vir dormir na sua.
- Eu não me importo se você quiser dormir aqui todo dia. – ele se aproximou de mim, me dando um beijo no rosto e eu me aninhei ao seu abraço.
- E então, vamos assistir o quê?
- Queria falar com você primeiro.
- Ai , odeio quando você fala isso. – resmunguei, virando de frente pra ele. – O que aconteceu?
- Você se lembra que eu falei, no Carnaval, que eu tinha imaginado como era te beijar há bastante tempo?
- Sim.
- Pois então... primeiro eu queria te beijar por puro tesão, mas depois... depois eu vi que você é um ser humano fantástico e que eu não sentia apenas atração física, mas como não via nenhum sinal de retorno, eu guardei pra mim. Meus amigos todos ouviram falar de você, meu irmão... até meus pais que nem moram aqui! E eu amo o jeito como você faz eu me sentir bem. Preciso admitir que eu fico pensando o tempo inteiro em você, se você se sente da mesma forma que eu ou não, se também gosta de mim ou não... E isso é estranho, porque eu tenho quase vinte e cinco anos e nunca me senti assim por ninguém. – ele falou rápido, quase angustiado, e eu lhe dei um sorriso.
- , é claro que eu me sinto do mesmo jeito. Você tem meu coração faz tempo. E todo mundo já tinha percebido, até o Jorge, aquele tapado. – falei dando uma risada abafada e senti o corpo dele relaxar ao meu lado. – E foi péssimo ter que esconder como eu me sentia, por todas aquelas inseguranças e tudo mais, mas eu também não via nenhum sinal de retorno e acabei ficando quieta. Minhas inseguranças ainda estão aqui, claro, mas eu sinceramente não consigo esconder mais que gosto de você.
- Meu maior medo é como isso vai terminar. – suspirou.
- Não precisa terminar. – respondi, fazendo um carinho em seu rosto. – , você me dá aquele tipo de sensação gostosa de se sentir confortável, bem e feliz. Sei que você pode achar que é muito cedo e que todo começo é assim, mas alguma coisa me diz que vai ser assim pra sempre.
- Eu não quero perder nossa amizade.
- Você só vai perder se um de nós fizer uma merda muito grande, . Eu posso ficar com você e ser sua amiga, eu não vou te deixar. Não se preocupe, sério, você já tem meu coração faz tempo e eu não faço ideia de como você fez isso, mas fez e é isso que importa.
- Eu amo como você deixa as coisas simples e me faz sentir tão bem. – falou, me abraçando e suspirou.
- É, eu também amo isso em você.
- O que você acha, então, de oficializarmos isso? – perguntou e eu ergui o olhar até encontrar o dele. – Você disse que pode sentir que vamos nos sentir assim pra sempre... eu prefiro que seja juntos.
- Então você quer namorar comigo? – perguntei fingindo um tom desinteressado. – Como eu não estou fazendo nada, vou aceitar.
- Só por isso?
- Sim. – respondi dando de ombros, quase indiferente, e ele sorriu.
- Espero que você saiba que estamos completando, hoje, dois anos que você derrubou minha coxinha.
- Feliz dois anos de coxinha caindo e eu financiando consumo de carne. – respondi implicante. – E agora eu quero ver Miss Simpatia.

Aquele oito de maio foi um dia excepcionalmente normal, apesar disso. Nós assistimos dois filmes, depois eu fui embora e nós nos encontramos na segunda-feira na volta do trabalho, raramente conseguíamos nos ver na ida, então nem era algo marcado, mas a volta pra casa era, sempre.
Externar meus sentimentos pelo diretamente pra ele e ter uma receptividade e reciprocidade daquela era uma novidade. Uma única vez eu falei sobre o que sentia pra pessoa e recebi uma gargalhada tão alta que só me restou juntar minhas coisas e sair de perto.
E os dias e meses que se passaram depois, foram ótimos. Nós brigamos, claro, mas tínhamos uma regra muito importante quando precisávamos tratar de algum assunto que, eventualmente, pudesse virar uma briga: A Regra dos Dez. Se fosse um assunto que não valesse os dez minutos de discussão, que não fosse valer pra nada dali dez dias, dez meses ou dez anos, não entrava em pauta. Tivemos divergências, mas a maior parte do nosso tempo era destinado a conversas civilizadas e a continuarmos sendo e .
Nós nos encontrávamos todos os dias, passávamos algumas horas juntos, mas nunca parecia suficiente. Eu dormi diversas vezes na casa dele, mas ele não dormia na minha casa (por implicância dos meus pais) e minha mãe adorava implicar por me ver passar as noites fora. Como se não fosse óbvio que, em algum momento, isso fosse acontecer. continuou sendo meu amigo, minha primeira ligação em caso de uma necessidade ou simplesmente por me lembrar dele vendo ou lendo alguma coisa, era quem sempre tinha uma palavra de incentivo e foi ele um dos maiores entusiastas quando disse que ia tentar fazer ENEM e entrar numa faculdade, mesmo que isso fosse significar que teríamos menos tempo juntos, já que eu precisaria estudar. E isso antes de nós nos beijarmos pela primeira vez.
E eu passei pra Pedagogia na UFMG, fiz os nove períodos do curso e alternava entre momentos em que eu amava o curso e momentos em que eu estive prestes a surtar. estava lá comigo, em todos esses momentos.
Meus pais o adoram, meus irmãos o acham um cara sensacional e eu, a cada dia que passamos nesse relacionamento, me apaixono cada vez mais. Cada beijo ainda é como se fosse o primeiro, há aquela imensa expectativa de sua chegada e dos nossos encontros, ainda que fosse pra ele se deitar na minha cama e dormir enquanto eu terminava algum trabalho. A simples presença do era tranquilizadora.
Eu estava realmente me sentindo em uma fanfic do McFly, ainda que o passasse bem longe de se parecer com o (que sempre foi meu favorito!) e que em quase nada nossas vidas se parecessem com as vidas dos PP’s de nenhuma fanfic, mas ele me fazia sentir exatamente tudo o que as PP’s sentem pelos PP’s.

Belo Horizonte, 24 de fevereiro de 2017

- Teoricamente, nosso primeiro beijo já tem um ano. – argumentou quando entramos em seu quarto, após um exaustivo dia de trabalho.
- Eu acho que é amanhã, é quando tem o “Então, Brilha”. – respondi dando de ombros.
- Não. Dia 09 fez um ano. É por dia, não por evento.
- É... faz sentido.
- Claro que faz.
- Agora vai procurar alguma coisa pra gente comer, precisamos dormir cedo. E eu vou tomar banho.
- Sim, senhora. – ele respondeu, fazendo uma continência, e me deu um selinho antes de se afastar.
Como sempre, estávamos em sua casa na sexta-feira à noite. Sairíamos cedo no dia seguinte, o bloco desfilaria e tinha concordado que aquela era nossa tradição de casal: o sábado de Carnaval era nosso dia, ao som do “Então, Brilha!” e com muito glitter (comestível, claro, porque derrete e não destrói o meio ambiente).
- I'm making a list of things that I miss whenever we're far apart: the way that you kiss, the taste of your lips, I'm telling you from the heart, cause baaaaaaby I just wanna knooooooow. – cantei alto enquanto tomava banho, esfregando os cabelos na água para tirar o chá que tinha passado para lavá-los. – Do ya, do ya, do ya love me? Do ya love me? Cause I wanna know...
- Mas é claro que eu te amo. – ouvi a voz de e me assustei, abrindo os olhos e o encontrei, parado de frente pra mim e de braços cruzados. – Achei que podíamos tomar banho juntos pra agilizar.
- Sem problemas.
- Ou demorar mais ainda.
- Não, você não gosta de sexo no chuveiro, eu te conheço.
- Não mesmo. – ele respondeu rindo. – Mas, então, eu falei sério. Eu te amo.
- Não faz mais que sua obrigação, lindinho. – falei e o abracei pela cintura, ficando na ponta dos pés para beijá-lo. – E talvez eu te ame também. Principalmente o jeito como você me faz sentir. Desde sempre. E pra sempre.
- Então agora que já falamos abertamente, mesmo sem precisar, porque a gente demonstra que se ama todo dia e o tempo todo, vamos tomar banho, comer e dormir. Amanhã a gente acorda cedo pra pular Carnaval.
- , você sabe estragar um momento.

Sempre era tão fácil estar perto do , desde que nos tornamos amigos ele sempre tivera facilidade de me entender e de saber o que dizer, ele aprendeu a me decifrar sem precisar me ver e eu aprendi o mesmo sobre ele. O que apenas provava a teoria da minha avó – uma das maiores fãs de que esse mundo irá conhecer! – sobre nós: fomos feitos um para o outro.
Meus questionamentos sobre mim ainda existem, com menor frequência do que antes, mas existem. Mesmo que eu tenha começado a fazer acompanhamento psicológico e que isso venha ajudando, mas, claro, não resolve do dia pra noite. E às vezes nem mesmo resolve. Comecei a fazer terapia em 2016, pouco depois da primeira vez em que e eu nos beijamos. Eu precisava começar a cuidar de mim se queria mesmo cuidar de alguém que se importa tanto comigo e com quem eu me importo tanto.
Alguém que, mesmo depois de seis anos, ainda faz meu coração bater descompassado quando sorri ou quando me beija, que faz com que eu sinta aquela sensação gostosa de me apaixonar por ele todos os dias quando acorda e resmunga preguiçoso, que faz meu corpo todo se arrepiar quando me abraça na hora de dormir, que sabe cada mínimo detalhe sobre mim e que me permite fazer o mesmo por ele.
apareceu quando eu precisava dele, primeiro como um amigo, depois como alguém por quem eu podia me apaixonar sem medo, porque saberia me amar do mesmo jeito que eu o amo, que me valorizaria pelo que sou e que nunca tentaria me mudar, pois gosta de cada detalhe meu, até mesmo dos defeitos. Se eu tivesse que dar uma nota de zero a dez para , ele é cem. Mil. Um milhão. Ele excede toda expectativa. E nem precisa fazer nada de excepcional, só de ser ele as coisas são assim.

Belo Horizonte, 08 de maio de 2020

Conferi minha imagem no espelho, e apesar de estar em dúvida sobre o que vestia, ouvi um assovio e me virei para a porta do quarto, encontrando meu irmão parado ali.
- O que você está fazendo em casa? – perguntei e Jorge deu de ombros. – Desistiu de estudar mesmo?
- Eu não tenho aula hoje.
- E cadê sua namorada?
- Na aula. – ele voltou a dar de ombros. – E onde é que você vai?
- Não é da sua conta.
- Claro que é.
- Não é.
- Vai sair com o cunhado?
- Óbvio.
- Vocês dois saem demais.
- E como não é você quem paga, não tem que ficar falando nada. – respondi desaforada e ele riu.
- Você está linda, . Sempre é e esse vestido, combinou com seus olhos.
- Obrigada, pirralho. – resmunguei o agradecimento.
- O cunhado tá te esperando.
- Já vou. – respondi, voltando a conferir minha imagem e mesmo que um pouco incerta, resolvi acreditar no elogio do meu irmão.
Peguei a bolsa e sai do quarto, seguindo pelo pequeno corredor até a sala. estava sentado no sofá assistindo televisão com meu pai e os dois pareciam seriamente interessados no que o jornal noticiava.
- Uau. – meu pai foi o primeiro a falar, fazendo com que desviasse sua atenção da televisão para mim e ele sorriu. – Você está ainda mais linda do que o habitual.
- Obrigada, pai. – agradeci. – Vamos?
- Vamos onde? – perguntou confuso e só ai parei pra reparar que ele não estava arrumado para sairmos. Estava de bermuda, chinelo e uma camisa de malha.
- Uai ... – comecei a falar, mas resolvi que não falaria nada. – Será que eu confundi os dias?
- A gente tem algum compromisso por esses dias? – ele perguntou, parecendo tentar se lembrar.
Sim, nosso aniversário de namoro hoje, idiota.
- Eu acho que não. – respondi, por fim. – Vou me trocar, devo ter confundido.
- Você tá tão bonita que é um desperdício ter que se trocar. Vou em casa, tomo um banho e a gente sai pra comer, o que você acha?
- Por mim tudo bem. – dei de ombros, fingindo que aquilo não tinha realmente me afetado e que eu não ligava do meu namorado ter se esquecido do nosso aniversário de quatro anos.
- Você vem comigo? – perguntou e eu dei de ombros. – Então vamos, acho melhor sair de lá.
- Tudo bem. – respondi e ele se despediu do meu pai, eu fiz o mesmo e saímos de casa.
- Que cara é essa? – ele perguntou enquanto dirigia até sua casa.
- A minha. – dei de ombros, mas sem desviar o olhar da tela do celular.
- A mais linda de todas. – ele falou e eu soltei um agradecimento baixo, enquanto ele dirigia.
Não conversamos mais até chegarmos à casa dele e o caminho até o interior também não foi muito falante. foi tomar banho e eu fiquei pela sala, liguei a televisão e procurei por alguma coisa mais interessante que jornal, talvez um filme, mas não tinha nada.
Oito e meia da noite.
Começava a ser uma boa ideia não sair de casa, principalmente por eu não estar lá muito feliz, porque ele tinha mesmo se esquecido. nunca se esquecia.
Nós não tínhamos nos visto naquele dia, nem tempo pra conversar tivemos. E como nunca fomos de postar fotos e declarações em redes sociais, nada o lembrou do que nós comemoramos no dia de hoje. Não que precisasse, ele sempre lembrava de tudo.
Seu perfume foi o primeiro a chegar e logo ele apareceu na sala, um pouco mais arrumado. Inferno de homem lindo que consegue fazer com que toda minha mágoa pelo esquecimento da nossa comemoração do aniversário de namoro. Filho da mãe.
- Precisa de um babador, boneca? – perguntou, dando um sorrisinho presunçoso. Obviamente eu estava olhando feito uma idiota apaixonada. Eu sempre o olho desse jeito.
- Eu de um babador e você de um calendário. – respondi desaforada e ele se fez de desentendido.
- O que você quer comer? – perguntou e eu tive que me conter pra não falar “seu fígado refogado com cebola pra ver se aprende a não esquecer nosso aniversário!”.
- Eu sempre quero comer comida vegana, .
- Eu sei, amor, mas escolhe o lugar.
- Nem sei mais se eu quero sair.
- Uai... por quê?
- Não sei.
- Claro que temos que sair pra comer e comemorar nossos quatro anos juntos, princesa.
- Ah, então você lembrou? – perguntei, arqueando uma das sobrancelhas e ele se aproximou, sentando no sofá e me olhou, dando um sorriso.
- Eu começo a ficar ofendido por você estar mesmo achando que eu esqueceria a data mais importante de todas.
- Claro. – resmunguei.
- Eu tinha toda uma programação, mas você não querer sair está atrapalhando.
- Entendi.
- Sério. Eu pedi o dia de folga hoje pra isso.
- Quais são os planos?
- Você vai ter que confiar em mim.
- E quando é que eu não confio, ? – perguntei e ele sorriu.
- É por isso que eu te amo.
- Eu sei.
- Nosso jantar é aqui.
- Ótimo.
- E deve chegar em alguns minutos.
- Agradeço. – respondi de má vontade, bem quando ouvimos as batidas no portão.
Ele ficou de pé e foi até lá. Eu até colocaria a mesa, mas ele não tem uma, então nós comeríamos no sofá, como sempre. E essa é minha parte favorita, porque posso colocar os pés pro alto sem preocupações.
- Amor! Vem cá. – o ouvi me chamar e sai da sala.
A varanda da casa estava diferente e eu não tinha visto, pois tínhamos entrado pelo portão da garagem. Uma mesa pequena, bem parecida com aquelas de bar, estava posta, duas velas, rosas num vaso no centro da mesa e, numa mesa do lado, havia comida. Simples, mas lindo.
- ...
- Eu sei, eu sou um namorado maravilhoso.
- Ninguém aqui falou isso.
- E nem precisa. – ele riu. – Espero que você goste, eu andei treinando essa receita e acho que ela, finalmente, ficou boa o suficiente pra te dar.
- Olha, eu estou com tanta fome que também espero que esteja boa. – respondi rindo e me aproximei. – Feliz quatro anos, amor.
- Quatro pra eternidade. – ele falou, dando um sorriso. – Agora vamos comer.

E nós comemos.
Ele tinha feito uma comida simples na casa do irmão, que fica ao lado da dele: arroz, feijão e uma torta de legumes deliciosa. não era lá um excelente cozinheiro, mas aquele jantar estava ótimo. Uma música baixa tocava do celular dele, apenas para que o silêncio não fosse nosso companheiro e trocamos poucas palavras sobre o dia.

- Às vezes acho que devia te dizer mais vezes que te amo e que te quero mais que qualquer coisa... – cantou junto com a música que começou em seu celular e eu o olhei.
- Credo, .
- Tem gente que chega e muda os planos da gente e que faz a nossa vida caminhar pra frente, agora sim eu sei pra onde ir. Dessa vida nada se leva e no fundo todo mundo espera um amor que venha pra somar, pra completar...
- Ah pronto.
- O nosso santo bateu, o amor da sua vida sou eu. Tudo que é meu hoje é seu, e o fim nem precisa rimar...
- Sério, a pessoa que te disse que você sabe cantar, mentiu. – impliquei.
- O nosso santo bateu, .
- E o amor da sua vida sou eu, eu sei.
- Eu te amo, você sabe. E essa música é ótima pra ilustrar isso, porque eu acho que devia mesmo te dizer mais vezes que eu te amo e te quero mais que qualquer coisa. Você chegou, derrubou minha coxinha e mudou todos os meus planos, . Eu estava satisfeito com aquela vidinha mais ou menos, sem muito o que fazer... eu nunca amei uma pessoa da forma como eu te amo, você é meu final feliz.
- Meu Deus, você tá se declarando com uma música sertaneja e a gente nem bebeu, ! – falei fazendo uma careta e ele sorriu.
- Porque te amo eu não sei, mas quero te amar cada vez mais... – ele começou a cantar e sorriu. – Você é o amor da minha vida e eu posso falar isso sem medo nenhum.
- Eu te digo o mesmo. – falei e ele ficou de pé, bem quando a música do celular trocou para outro sertanejo, de uma dupla que eu, particularmente, detesto.
- Vem cá. – ele estendeu a mão e eu me levantei.
me abraçou forte, tão apertado que eu podia ouvir seu coração bater acelerado. Ele não falou nada, apenas me mantinha em seu abraço enquanto a música tocava.
- Feliz quatro anos, amor.
- Feliz quatro anos, princesa. – ele respondeu, afastando um pouco o abraço pra me dar um beijo rápido. – Sabe aquele amor que se multiplica?
- Você não vai citar essa música. E ela nem faz sentido pra esse momento. – resmunguei e ele riu.
- Eu estou tentando ser romântico, por favor, colabore.
- , eu detesto essa dupla. Eles votaram naquele... coiso.
- É, eu sei.
- Cita outra dupla.
- Todos eles votaram nele.
- Então não cita nenhuma dupla.
- Tantos sorrisos por aí, você querendo o meu, tantos olhares me olhando e eu querendo o seu. Eu não duvido, não, que não foi por acaso, se o amor bateu na nossa porta, que sorte a nossa...
- Eles votaram naquele lá também, mas dessa eu gosto.
- Pois é, amor, não foi por acaso...
- Que sorte a nossa.
- Mais sorte ainda eu vou ter se você aceitar casar comigo. – ele falou, soltando o abraço e enfiou a mão no bolso da calça, tirando uma aliança de lá e eu congelei por um milésimo de segundo.
- ... Isso é sério?
- Mais sério do que nunca, . Eu te amo, muito. Muito. Mais do que eu consigo colocar em palavras e do que sou capaz de medir. Eu te quero comigo pra sempre. Quero que você me deixe continuar sendo seu amigo, seu namorado, seu ombro amigo, a pessoa que esquenta seu pé gelado e em quem você dá os melhores beijos do mundo. Você tem o que quiser de mim, , mas eu só quero ter o seu sim. – ele falou, me olhando nos olhos e tinha a aliança entre o polegar e o indicador.
- Inferno, , por que você tem que ficar me fazendo chorar? – resmunguei. – E claro que eu quero! Se tem uma coisa nessa vida que eu quero é casar com você. Eu te amo demais da conta!
- Esse foi o sim mais diferente que eu já vi na vida, Fiona. – ele implicou.
- Se sua intenção é me chamar de grossa, a Mérida é mais grossa.
- Você é uma princesa e doida. Existe alguma assim na Disney ou é apenas você?
- Cala a boca. – reclamei, pegando o anel de seus dedos e colocando no meu dedo anelar direito. – Ficou lindo.
- Esse pedido foi tão romântico quanto os que o fazia nas fanfics? – ele perguntou, me fazendo gargalhar.
- Foi melhor. Ele jamais cantaria um monte de músicas que eu não gosto pra me convencer a casar com ele.
- Eu até pensei em usar Turma do Pagode, mas eu teria que ouvir pra saber qual usar.
- Ah, eu tenho uma boa pra cantar pra você. – respondi sorrindo.
- Sabe?
- O amor que sonhei me acordou, deixei de ser um sonhador. Agora encontrei diretriz, hoje sei muito bem o que é ser feliz. É, a paz que faltava chegou, é obra do meu Criador que ouviu a voz de um coração que vivia cansado de tanta ilusão. Hoje eu sei, se pedir Deus dá, só depende do seu querer, Ele vai te abençoar. Vem na minha quem quer vencer, não pode duvidar da fé, se tá ruim há de melhorar. Independe do que se quer, Ele vai te agraciar... – cantei e ele deu um sorriso.
- É, essa parece boa.
- Mas não tão boa quanto a ideia da gente se casar.

Quando me pediu em casamento, há exatos dois anos, nós começamos a guardar dinheiro pra realizar a cerimônia, comprarmos as coisas que precisávamos e pagar as despesas de cartório e, caso sobrasse um dinheiro, poderíamos viajar.
Trabalhávamos, eu estudando feito uma louca no final do curso e vendendo doces pra ajudar a juntar dinheiro. A casa, por enquanto, seria a do e depois veríamos como seria, como morava sozinho, podíamos nos virar ali. Não fazia sentido vendê-la e procurar outro lugar. Não por enquanto.
Ganhamos bastantes coisas dos amigos e familiares e já tinha muita coisa também, o que nos ajudou a poupar um dinheirinho para uma reforma de algumas coisinhas na casa, pintamos as paredes e a casa parecia nova em folha, como se nunca tivesse sido habitada. Alguns móveis foram trocados e era nosso lar, que ganhou a ilustre presença do Goiaba, nosso cachorro.
O casamento é em alguns minutos, enquanto diversas pessoas transitam pelo cômodo com suas próprias conversas e ajeitando os últimos detalhes, eu observo minha imagem no espelho. De branco. Com um vestido de noiva mais bonito do que qualquer fanfic jamais narrou, sendo esperada por um homem mais maravilhoso do que qualquer um dos PP’s que eu usava pudesse ser. Mais feliz do que qualquer final de fanfic poderia indicar que eu seria.
Relembrar de tudo isso, de toda nossa trajetória, não me fez ficar emotiva, mas, sim, feliz. Eu estava me casando com o meu melhor amigo, com a pessoa que surgiu de uma forma inesperada e se tornou o dono de todo meu amor.
Enquanto eu caminhava até o altar e o observava, meu coração não vacilou e não duvidou por nem meio milésimo. Era o e sempre seria o . Sempre. O sorriso que ele dava era a prova de que ele também se sentia da mesma forma. Nós somos feitos um para o outro.
Quando os “aceito” foram ditos, as alianças foram trocadas e o beijo foi dado, a ficha finalmente caiu de que eu não tinha calculado errado a distância entre o Moço da Coxinha e a pilastra. Era a distância correta para que eu conhecesse o amor da minha vida.
É um domingo.
Nós nos casamos num sítio no domingo de manhã.
O sol está brilhando forte lá fora, aqui sob o telhado que nos separa do exterior, o sol brilha em nós. Por mais clichê que isso seja.

- Eu queria falar uma coisa. – ouço a voz do no microfone e me viro, dando de cara com ele de pé no meio do salão. Já dançamos, nada mais há que ser feito. – Uma desconhecida se tornou a “Assassina de Coxinhas”, a “Assassina de Coxinhas” se tornou minha melhor amiga, minha melhor amiga se tornou minha namorada. E minha namorada, hoje, se tornou minha esposa. Hoje eu me casei com a melhor pessoa do mundo, a que mudou minha vida, abriu minha mente e me fez entender que amor não é complicado, que, na verdade, o amor é simples. É a coisa mais simples de se fazer. Ela sonhava com uma história de amor clichê, fanfic é como chamam. Se teremos uma eu não sei, mas sei que ela tem o que quiser de mim. Podemos e iremos viver uma história de amor linda, mesmo que não tenhamos cargos altos em empresas, que eu seja um simples vendedor e ela, agora, seja uma professora trilhando os caminhos do sucesso. Seremos felizes apesar de não morarmos em uma cobertura em Nova York ou em Londres, mas numa casinha bem simples em Belo Horizonte. A não é perfeita, eu não sou perfeito, mas nós somos perfeitos juntos. Ela me fez pensar nela vinte e quatro horas por dia, fez com que eu cantasse no chuveiro e meu irmão reclamasse por ouvir lá da casa dele, fez com que eu parasse de postergar e começasse a pensar em mim. , eu sou o seu PP, mesmo que eu esteja mais pra GG. Eu vou fazer de tudo pra que nossa fanfic dê certo, porque antes de você existir, eu não conseguia ver direito, minhas janelas estavam embaçadas, mas desde que eu te encontrei o meu coração bate mais rápido e nós podemos ser felizes para sempre junto. Se isso é amor, , então o amor é fácil, é a coisa mais fácil de se fazer e se você não acredita, apenas olha nos meus olhos, porque o coração nunca mente. E o meu sempre soube que era você. Eu te amo e que eu amo, imensamente, a forma como você me faz sentir. No final, , é tudo sobre você.






Fim.



Nota da autora: Eu acho que vou fazer uma nota grande, já vou pedir perdão desde agora por isso, mas é que algumas coisas precisam ser ditas.
Bom, essa fanfic foi bem difícil de escrever. Sério. Eu escrevi e apaguei várias coisas diversas vezes e até pensei em desistir, porque essa música é linda e é um enredo e tanto de fanfic, mas eu queria sair do lugar comum de uma história com famosos (tipo minhas duas longs aqui, que são com jogadores de futebol e outro ficstape em que escrevi uma fanfic com um jogador e outra com um soldado em que a PP é uma jornalista famosa) e daquele roteiro quase “padrão” que a gente ama (falou que é clichê me chama que eu vou!) e quis investir em algo... palpável. E isso é difícil demais quando não é uma história vivida. Construir esses dois, com espaço limitado, e tendo que desenvolver o relacionamento com número limitado de páginas não foi fácil, mas, no final, eu gostei do resultado.
Quando vi esse ficstape eu pensei muito se eu ia entrar ou não, tive trocentas ideias pra essa música e nenhuma, inicialmente, foi essa que está sendo postada. Tinha pensado em um spin-off de uma das longs, tinha pensado em um spin-off de um outro ficstape (pra meio que “preparar” pra uma long dele que, talvez, saia), pensei em introduzir uma ideia de uma outra long que eu tive... mas nenhuma delas fluiu no planejamento. Até começar essa, do zero e ir devagar com o casal. Escrevendo, apagando, reescrevendo, apagando de novo. Eu espero que vocês tenham gostado, de verdade, porque eu gostei muito de escrevê-los tão sinceros e quase reais.
E também quero deixar claro que não tenho nada contra quem ama escrever clichês, porque eu sou dessas e AMO clichês. Adoro uma fanfic do McFly, com jogador, com CEO, advogados, médicos, jornalistas, soldados... mas quis sair do lugar comum num desafio pessoal de construir pessoas normais, com problemas que eu posso ter ou tenha, com uma realidade próxima da minha e de tantas outras pessoas que possam ler. Tanto que ambientei a fanfic na minha cidade, porque conseguiria visualizar os locais e a forma como os dois se conheceriam e conviveriam.
Então, por favor, não foi a intenção ofender ninguém com essas menções à clichês e desapontamentos causados por clichês. Eu os amo, os leio e eles são deliciosos pra fugir da realidade da vida que é dura e nem sempre é doce.
Ah, também quero usar esse espaço pra agradecer ao anjo chamado Marcela, carinhosamente chamada por mim de Cunha, que tá na minha vida há quase onze anos e sempre me ajuda com as ideias que tenho pra fanfics. Dessa vez foi dela a ideia de ser algo independente das minhas estórias postadas aqui, foi ela quem leu em primeira mão, me deu um parecer mais do que favorável e me ajudou a ter confiança de enviar essa estória da forma como está.
Enfim, espero que vocês tenham gostado dessa história. De verdade.
Entra lá no meu grupo no Facebook, tem uma lista das fanfics que eu escrevo, umas coisas legais de vez em quando e tal.
E não esqueçam de comentar e deixarem suas impressões sobre. Beijoo!




Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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