She’s fire starter

New York Times, 16 de março de 2015 – Rio Hudson parece devolver misteriosamente ônibus escolar que afundava em suas águas e crianças afirmam ter visto mulher caminhar sobre o leito do rio, fazendo sinais que teriam criado as ondas salvadoras
Le Monde, 10 de maio de 2015 – Esposas de mineiros, resgatados nesta manhã, afirmam que garota mascarada abriu buraco no chão, sem tocá-lo, e entrou na mina, antes que a equipe de salvamento pudesse chegar às vítimas usando equipamento próprio
Washington Post, 30 de maio de 2015 – Moradores de fazenda no Texas estão certos de que foram salvos de tufão por mulher misteriosa que controlou a força gigantesca da natureza com as próprias mãos
O Globo, 07 de junho de 2015 – Mais uma vez, a misteriosa mulher mascarada salva o dia, atrasando as larvas de vulcão que entrou em erupção no México, até que a população pudesse evacuar a cidade
The Guardian, 19 de junho de 2015 – Depois de ganhar o apelido de Savior Woman, heroína entra em trem em movimento e literalmente move a terra, para evitar colisão com composição que havia descarrilhado
Chicago Tribune, 02 de julho de 2015 – Serão os bombeiros ainda necessários? Equipe chega atrasada a local onde ocorrera explosão, depois de Savior Woman ter literalmente transformado tudo em uma simples fumacinha


“É claro que eles serão necessários! Eu sou uma só!” Disse a garota, um pouco irritada, depois de ler uma das últimas notícias sobre ela que Anne Mary tinha reunido em um álbum e resolvera lhe mostrar, naquela noite, orgulhosa como uma verdadeira mãe. Sentada em um dos bancos que ficavam à mesa da cozinha, bebeu um gole de seu leite, folheando o álbum, mais uma vez, mas sem prestar muita atenção.
“Seus pais esperavam que você fosse capaz de salvar a Terra, não?” A outra mulher questionou, comendo um pedaço do bolo que tinha preparado para a filha, mas que ela disse não estar com apetite para sequer provar.
“Se é assim, eles deveriam ter considerado que tenho poderes e habilidades, mas sou semi-humana, e não uma deusa. Não posso estar em mais de um lugar ao mesmo tempo e os desastres não me esperam estar desocupada para acontecer.”
“Talvez se você tivesse seguido o plano original.” Comentou, dando de ombros, mas sabia que não a convenceria a fazer isso. Na verdade, sendo humana, nem mesmo gostaria de convencê-la.
Gay-ha, a garota que ela chamava de e que criara como filha, desde que esta chegara a nosso planeta, tinha nascido em uma estrela guardiã e fora escolhida para cuidar da Terra. Para isto, recebera força e rapidez excepcionais, além do poder de controlar terra, fogo, água e ar e de imunidade em relação aos quatro elementos. Aprendera cedo a usar os dons recebidos e, ainda criança, viajara para o lugar em que viveria enquanto fosse necessário. Fora acolhida por um casal de humanos, que se assustara ao saber quem era ela, de fato, mas não deixara de amá-la e apoiá-la e, depois de tantos anos, já estava mais do que acostumado com tudo aquilo.
O plano inicial dos governantes da estrela de Emy-trionix era que Gay-ha protegesse o Planeta Água, assim como outros cuidavam dos demais astros do sistema solar, e até de alguns sobre os quais nós, humanos, não temos conhecimento algum. O que não previram, no entanto, foi que algumas habilidades dela poderiam se desenvolver sozinhas, e que, em razão de seu convívio com os humanos, o poder de sentir quando a Terra corria perigo evoluiria e a garota passaria a sentir também quando seus habitantes fossem ameaçados. Mais do que isso: não poderiam prever que ela fosse se apegar tanto à espécie humana, a ponto de contrariar ordens e passar a defender não só o planeta contra a ação nociva da humanidade, como também as pessoas dos fenômenos da natureza, e umas das outras.
“Amanhã, eu provo seu bolo, mãe. Parece delicioso, mas tudo que eu quero, agora, é a minha cama.” Tinha literalmente voltado voando do Japão, chegando por volta de quinze minutos antes. Quase não conseguira pousar em Tóquio a tempo de impedir um terremoto de grandes proporções, e a possibilidade de frustração a deixara exausta.
“Boa noite, filha.” Anne respondeu, recebendo um beijo na testa, antes de ver desaparecer. Ali, dentro de casa, ela era apenas sua , uma jovem mulher que tinha muito de humana nos sentimentos, sonhos e atitudes. Anne temia, como toda mãe, pela filha, e tinha ainda mais motivos de preocupação que as outras mães. , entre ser a Savior Woman e atuar no papel de uma discreta, frágil, delicada e intelectual, buscando um disfarce perfeito, que fosse o mais oposto possível da sua verdadeira identidade, não tinha muito tempo de efetivamente ter uma vida.
Sabia que ela, de vez em quando, voava para longe, não como a heroína com a máscara e o uniforme que ela mesma tinha costurado, mas também não como , para não levantar suspeitas. Tinha conhecimento de que, usando o nome Samantha, a frequentava bares e casas noturnas, bebia, dançava, fazia sexo com desconhecidos, derretia corações, com a mesma habilidade com que controlava a água, apenas para quebrá-los em seguida, sumindo no meio da madrugada, para nunca mais aparecer. No entanto, não vivia mais do que aventuras breves, que, nisto, aproximavam a Samantha que criara da Savior Woman dos jornais. Nenhuma das duas eram . era, sim, as duas, mas também era muitas outras coisas que precisava fingir não ser, e isto angustiava Anne.
Alheia às preocupações da mãe, entrou no quarto e esticou a mão direita, disparando uma pequena bola de fogo em direção a velas que mantinha espalhadas pelo cômodo. Gostava de manter as luzes artificiais apagadas e observar o tremeluzir das chamas, que eram, afinal, algo que fazia parte da sua natureza. Descartou as roupas que usara naquele dia sobre o uniforme de heroína, e se observou no espelho, usando apenas o mesmo. O top preto, com um S cor de rosa costurado nele, sempre a fazia rir, pois rosa parecia remeter a uma feminilidade frágil demais para alguém como ela. O short era curto e justo, o que dava a Savior um ar sensual que, em sua opinião, combinava bem mais com alguém capaz de colocar fogo nas coisas, e provocar furacões e maremotos, se quisesse, apesar de não propriamente haver espaço na vida de uma heroína para a sedução.
O uniforme também foi tirado de seu corpo, dando lugar a uma camisola de seda. Finalmente, no fim do dia, ela era ela mesma. Fosse Gay-ha ou , não importava o nome. Os dois eram seus, igualmente verdadeiros, já que ela era verdadeiramente estelar e verdadeiramente humana, duas metades perfazendo um ser, em sua complexidade. Ela não era Savior, a extraterrestre atrás de uma máscara, ou a Srta. , com seus ares de mulher introspectiva, e nem Samantha, satisfazendo seus desejos humanos, mas também às escondidas. Em seu quarto, podia ser, ao mesmo tempo, a mulher normal, cheia de sonhos e sentimentos humanos, e a escolhida que fechava as janelas sem sair da cama, apenas movendo o ar em volta dela. Não precisava separar uma parte de si da outra que era ela também, e esta era a melhor das sensações.
Livre para fazer o que quisesse, afinal, pensou em ler, mas acabou escolhendo simplesmente se deitar e descansar. Já sob as cobertas, começou a repassar os acontecimentos do dia, como de costume, e lembrou-se de uma das reportagens de jornal em especial, que a fez sorrir. Se seriam os bombeiros ainda necessários? Eles sempre seriam, pois, como ela tinha observado na conversa com Anne, ela era uma só. E, se fosse verdadeira consigo mesma, de certa forma ela estava grata por isso. Seria uma pena que seu vizinho tivesse que mudar de profissão, quando aquela lhe caía tão bem! Além de ficar lindo demais no uniforme, ele parecia ter uma vocação especial para salvar pessoas, e gostava de imaginar que isso os tornava próximos, apesar de eles não o serem realmente.
Olhando para o teto, a garota se deixou sonhar acordada. Em seus sonhos, ele a conhecia de verdade, todos os aspectos dela, e não só a nerd que morava na casa ao lado da sua, desde a adolescência, mas nunca tinha trocado com ele mais do que algumas observações sobre o tempo feio, o lixo de um deles atrapalhando a entrada do carro do outro na garagem ou a torta de maçã que a mãe dela fazia, e que ele e toda a família adoravam. Ele conhecia sua inteligência, seu senso de humor, suas curvas – que mantinha escondidas dentro das roupas sempre formais, pois não combinariam com alguém que passava tanto tempo debruçada sobre pesquisas, escrevendo ou dando aulas. Conhecia seus poderes, sua força física, sua origem extraterrena, e a admirava, desejava e... amava.
Ela nutria uma paixão por ele, de longe, havia anos. Talvez nem fosse uma paixão por ele, pois não o conhecia assim tão bem, mas havia aquele sentimento platônico dentro dela, direcionado a ele. Talvez fosse um modo de se defender de amores verdadeiros, pois não vislumbrava qualquer perspectiva de ter um relacionamento de verdade com ninguém, sendo quem era. Nos sonhos, ela não tinha nada a perder e podia se revelar sem medo, mas, fora deles, a descoberta de sua identidade poderia representar um grande risco – e não só para ela.
Felizmente, ela tinha os sonhos e, depois de um dia agitado, como era a maioria dos seus dias aliás, entrou em um deles sem nem perceber que estava adormecendo. Ele estava lá, esperando por ela.

He’s a firefighter

“E ele não tava naquele turno, né, ?” Indagou Martin, enquanto guardava suas coisas no armário do vestiário do quartel. “Não é, ?” Tentou de novo, mas outra vez sem sucesso. “Ei, ! O Paul tava naquele turno, cara?” Falou, bem mais alto.
“Em que turno?” Ele devolveu a pergunta, sem parar de vestir o uniforme, ainda meio distraído.
“Ele não sabe nem do que a gente tava falando, brother!” Comentou um Chase bastante irritado.
“O que tá rolando, cara? Você parece estar com a cabeça em outro planeta!” Martin, por sua vez, perguntou, demonstrando preocupação.
“Aposto que é a esquisita de novo.” Chase torceu o nariz, ao fazer a observação que finalmente chamou a atenção de .
“Dá pra não falar assim dela?” Pediu, extremamente descontente.
“Não disse?” Chase se dirigiu a Martin, antes de simplesmente sair do vestiário, sem dar importância para o fato de que tinha chateado o amigo. Ele não tinha paciência alguma para aquela paixonite sem explicação!
“É a sua vizinha?” Martin, mais compreensivo, mostrou interesse, sentando-se ao lado de no banco. “Aconteceu alguma coisa?”
“Nada demais.” Deu de ombros. “Eu não a via há muito tempo e me encontrei com ela, hoje de manhã, na porta de casa. Tentei puxar assunto, mas...” Suspirou, frustrado. “Você já sabe o fim da história.”
, cara. Eu não entendo! Você é a fim da garota, então, chama ela pra sair de uma vez!”
“Ou esquece e sai com umas das meninas que eu te apresentei, semana passada. As duas não param de falar de você.” Andy se intrometeu na conversa, mas com as melhores intenções.
“Você nunca foi o tipo de cara inseguro.”
“E continuo não sendo, mas eu ficaria muito desconfortável se a encontrasse na rua, depois de levar um fora dela, e a chance de isso acontecer é imensa! Nós somos vizinhos e nos vemos sempre.” Ele passou uma das mãos na nuca, com ar cansado.
“Você tá sendo inseguro, sim, se acha que vai levar o fora.” Falou Andy, sentando-se também.
“É que ela é muito na dela, sabe? Ela me responde só o necessário, quando falo com ela, e nem me dá chance de convidá-la pra nada. Eu nunca a vejo sair com ninguém... só pra trabalhar. E ela ainda é muito diferente de mim, toda séria e tímida. E eu já comentei que ela é geóloga? Minha mãe disse que ela agora dá aulas na Universidade, e eu não sei nem mesmo o que um geólogo faz direito!” Riu.
“E, ainda assim, você é a fim dela?” Andy franziu a testa e ele deu de ombros.
“Ele é fissurado nessa garota, desde que éramos adolescentes e ficávamos fumando no telhado da casa dele. Ela saía pra ler no jardim ou simplesmente ficar sentada num balanço no quintal, e o não conseguia parar de olhar pra ela! Parecia até ter sido hipnotizado ou qualquer coisa do tipo.” Chase, que tinha voltado, para dizer que o capitão estava chamando por eles, tentou ser mais gentil. “Eu não entendo por que, já que ela é super sem graça e o sempre pode pegar todas as garotas que ele quisesse, mas até aí, ok. O que não dá pra aturar mais, cara, é você sendo esse cara sem atitude!” Terminou, finalmente se dirigindo ao rapaz com quem havia crescido.
“Eu vou tirá-la da cabeça. Não vou chamar pra sair alguém que parece ter medo até de sorrir pra mim!” Prometeu , e realmente pretendia tentar. Ela não era garota para ele, não porque ele se sentisse inferior a ela, mas porque não tinham nada em comum. era linda aos olhos dele, mesmo que não tivesse o tipo de beleza que atraía seus amigos, que fosse bem tímida. Ele tinha uma vontade incontrolável de olhar mais, de descobrir mais sobre ela. Talvez fosse justamente o ar de mistério, o desafio que ela era, enquanto outras meninas pareciam interessadas demais, sem que ele precisasse sem esforçar nada para agradar, mas podia jurar que não era só isso.
Não adiantava, porém, ter todo esse desejo de se aproximar, se não fossem ter assuntos em comum, interesses em comum. Ele se orgulhava de ser um bombeiro, de salvar vidas, de ter coragem de enfrentar o fogo, de entrar nos lugares de onde a maioria queria fugir. Era bem provável que ela até achasse admirável da parte dele, enfrentar tantos riscos por pessoas desconhecidas. Os bombeiros costumavam ter a admiração da população. No fim do dia, no entanto, ela seria a moça que gostava de tomar uma xícara de chá, lendo um livro, perto da lareira, e ele, o jovem que bebia no mínimo quatro canecas de chope, quando seus turnos no quartel acabavam.
“Vamos ao Joe’s mais tarde?” Perguntou aos amigos, levantando-se, decidido a deixar aquele assunto para trás. Era algo que, na verdade, já deveria ter feito havia algum tempo. Não era como se ele já não tivesse pensado em todas as diferenças que o separavam de . Quando ele colocava os olhos nela, por algum motivo irracional, ela parecia certa para ele, mas ele precisava investir em seu lado racional e não em um sonho adolescente no qual parecia preso.
Os amigos teriam concordado, mas, antes mesmo que ele terminasse sua pergunta, um alarme soou na unidade, indicando que havia alguma emergência na área. e seus companheiros do Corpo de Bombeiros de Chicago entraram em dois caminhões e foram até um prédio em chamas, onde, conforme ficaram sabendo mais tarde, algum terrorista tinha colocado um grande número de bombas. Entraram no local, salvando algumas pessoas, mas teriam conseguido muito pouco, se a mulher que os jornais vinham chamando de Savior Woman não tivesse aparecido por lá também.
Alguns deles, incluindo , a viram, quando ela entregava alguns feridos a paramédicos que faziam parte da corporação. Diante do jeito dela, alguns deles se sentiram até um pouco diminuídos, envergonhados, mas este não era o caso de , que apenas ficou tomado de um calor ainda maior, ao observá-la. Assim como , ela pareceu colocá-lo em uma espécie de transe, mas, neste caso, os motivos eram outros: era a sua virilidade quem estava guiando seu olhos para o corpo escultural dela, que seu uniforme de super-heroína cobria muito pouco.
já tinha lido relatos sobre Savior, e visto matérias na televisão e na Internet sobre ela, mas nenhum fotógrafo jamais tinha conseguido captar nenhuma imagem que fizesse jus ao que estava bem na sua frente, naquele momento. Só de olhar para ela, o sangue parecia correr mais rápido por seu corpo e esquentar. Ela era conhecia por literalmente controlar o fogo, mas ele não imaginava que ela seria capaz de metaforicamente incendiá-lo, apenas com sua presença, que, aliás, durou muito menos do que ele gostaria.
passou os próximos dias tendo sonhos quentes e úmidos com uma heroína mascarada deliciosa, mas, estranhamente, isto não diminuiu sua vontade de encontrar a vizinha, tão diferente dela, com seu olhar baixo e um sorriso contido. Ele tinha prometido aos amigos que sairia e ficaria com outras garotas, mas nenhuma despertara seu interesse tanto quanto , a não ser... a própria em sua versão mais ousada.
Pouco mais de um mês depois do atentado terrorista, um incêndio enorme em uma fábrica fez com que várias unidades dos bombeiros fossem chamadas, e, para deleite de Finn, uma certa sentiu o fogo chamando por ela.
“Da outra vez, eu não cheguei a te agradecer.” Ele disse, quando teve um momento a sós com ela, depois que o fogo estava contido e as vítimas, recebendo atendimento.
“Outra vez?” Ela se fez de desentendida.
“Já estivemos salvando vidas juntos, em outro incêndio, antes desse.” Esclareceu, acreditando que ela realmente não se lembrava dele. Por que se lembraria, se eram tantos os bombeiros?
“Você não precisa agradecer. É a minha missão.” Afirmou, segura, olhando nos olhos dele como não ousava fazer sem a máscara.
“Que seus dons facilitam bastante, aliás, enquanto nós temos que arriscar a vida.” Outro bombeiro, que pareceu contrariado em dividir o sucesso com ela, os interrompeu.
“Você não precisa se preocupar, pois bombeiros serão sempre necessários, e sua bravura não deixará de ser reconhecida.” Ela respondeu, de forma simpática.
Quando olhou de volta para , no entanto, ficou preocupada com a forma como ele a encarava, com a testa franzida, parecendo muito concentrado. Não deu tempo para que ele a examinasse mais e comparasse com algo em suas lembranças, e voou para longe dali. De qualquer modo, tinha um afogamento para evitar a alguns quilômetros de distância.
Aquelas não seriam, no entanto, as únicas vezes em que ele encontraria Savior.

They’re catching fire

não tinha sido enviado de uma estrela em uma galáxia distante e nem tinha poderes sobrenaturais, mas duas coisas que ele, com certeza, possuía, eram um impulso quase irracional de ajudar qualquer pessoa que estivesse em perigo e um faro quase animalesco para detectar o fogo. Não foi por qualquer outra razão que ele, em pleno dia de folga, quando voltava de um mercado a dois quarteirões de casa, largou quatro sacolas cheias de mantimentos em uma esquina e entrou em uma casa de dois andares que as chamas ameaçavam destruir.
O correto seria alertar quem estivesse de plantão, mas ele não podia resistir àquela espécie de chamado do fogo e não se arrependeu de ter arriscado a própria vida – ainda mais do que normalmente, pois estava sozinho e sem qualquer proteção -, quando viu que havia uma mulher, uma menina e um gato no segundo andar. Sentiu-se aliviado quando colocou a menina, que carregava o animal de estimação no colo, sã e salva na calçada, mas só ficaria realmente satisfeito quando resgatasse também a mãe da pequena.
Isto no entanto nunca aconteceu. desmaiou, atingido por um pedaço de madeira, quando ainda estava no primeiro andar da casa. Acordou algum tempo depois, e pensou estar tendo alucinações, antes de constatar que, na verdade, era até previsível que Savior estivesse ali com ele. Ele tinha se tornado vítima do incêndio – era óbvio pela dor que sentia na cabeça e pela dificuldade que estava tendo para respirar - , a casa estava arruinada, mas não havia mais sinal de fogo, então era natural que ela estivesse examinando seus sinais vitais.
“Eu vou tirar você daqui. Você precisa de um médico.” Ela disse, quando percebeu que ele havia acordado. poderia jurar que havia um certo desespero em sua voz, mas com certeza era sua imaginação fértil falando. Por que uma mulher que provavelmente salvava dezenas de pessoas, todos os dias, estaria aflita por causa dele?
“Eu estou bem.” Falou. “Eu sou bombeiro...”
“Eu me lembro de você, Sr. Bombeiro.” Respondeu, com um sorriso irônico aparecendo em seus lábios, agora que podia ver que ele estava fora de perigo. “Mas, sem o seu equipamento, você sofreu as consequências de entrar num incêndio. Inalou muita fumaça! Isso sem contar o ferimento na cabeça.” Acrescentou, achando melhor tratar o assunto com cautela, mesmo que ele parecesse bem.
“Eu vou até a minha unidade, e lá eu posso ser atendido pelos meus colegas paramédicos. Não se preocupe.” Assegurou, se movendo e ficando sentado, o que deixou seus rostos bem próximos.
“Vou ao menos te levar para fora, então, para que não corra risco de um novo acidente. A estrutura parece bastante comprometida.” Observou, mas com certa dificuldade de pronunciar as palavras. Podia sentir a respiração dele em sua pele e alguma força, tão sobrenatural quando os poderes dela, impedindo que se afastasse ou que desviasse o olhar do dele, como costumava fazer.
“Espera um pouco.” Pediu ele, com a voz rouca, segurando um dos lados do rosto dela. “Eu imagino que uma super-heroína que esconde o rosto atrás de uma máscara não vá aceitar um convite para sair, mas... me dá alguns minutos?” Sussurrou.
O que os amigos dele diriam, se soubessem que ele não tinha coragem de ser direto com a vizinha tímida, mas era ousado o suficiente para flertar com a mulher mais sensual que já tinha visto? Ele mesmo seria capaz de achar graça da situação, se não tivesse mais com que se ocupar no momento! Mas a verdade é que existia alguma coisa no olhar de Savior que o encorajava a fazer aquilo, que podia fazê-lo jurar que ela estava tão tomada de desejo quanto ele. Com , por outro lado... ela mal permitia que ele visse qual era a cor dos seus olhos!
Tentando não pensar no quanto seu desejo estava dividido entre duas mulheres tão diferentes uma da outra, se concentrou naquela que estava bem na sua frente. Tocou os lábios dela com o polegar, e viu quando os olhos dela se fecharam e o peito arfou. Definitivamente, ela também queria aqueles minutos com ele, então ele passou, delicadamente, o nariz pelo dela, enquanto segurava, com firmeza, sua nuca. Seus lábios foram ao encontro dos dela afinal, e ele sentiu os braços da garota envolvendo seu pescoço e seus corpos se juntando, quando ela subiu em seu colo.
estava pronta para aproveitar o momento e a máscara, eu possibilitava que ela parasse de fingir inocência, enquanto brasas queimavam dentro dela, cada vez que via o vizinho. Como Savior, ela não tinha nada a temer. Por mais que fosse um pensamento um pouco desagradável que ele só tivesse prestado atenção nela quando caracterizada como um verdadeiro fetiche masculino, ela tinha que reconhecer que fora ela mesma quem se escondera na Srta. , adolescente nerd e adulta devotada ao trabalho intelectual. Era ela quem tinha medo de uma relação com alguém, de colocar a pessoa em risco, ao revelar seu segredo, ou de ser vista como aberração, quando isso acontecesse. Era ela quem relegava ao espaço do imaginário aqueles beijos, seu corpo se moldando ao dele, o cheiro dele funcionando como uma poderosa droga, a mera ereção dele, provocando mais prazer que muitas noites de sexo, ao roçar sua intimidade.
Savior podia viver aquilo e teria experimentado ainda mais, se não tivesse ouvido as vozes dos bombeiros, que haviam sido contatados e chegaram ao local, para realizar uma inspeção. Antes de desaparecer, a teve tempo apenas de escutar dizendo que a aguardaria em um próximo incêndio.

*****

não precisou mais de Samantha. Savior passou a ser também aquela que se divertia e fazia isso sempre com o único bombeiro que conhecia, tão bom em iniciar fogo quanto em apagá-lo. Ela nunca tinha sido tão feliz, mesmo que também jamais tivesse colocado sua identidade em uma situação de risco tão grande.
É claro que eles tinham um acordo sobre não conversar a respeito de sua identidade humana, que não tinham encontros em público e que ela jamais tirava sua máscara, mas a paixão dos dois era avassaladora. Não fosse pelo pequeno pedaço de tecido em seu rosto, seria possível dizer que, na maior parte do tempo em que estava com , ela ficava como veio ao mundo, e ele decorou, em alguns meses, cada detalhe do corpo dela, à medida que o explorava, com veneração e empenho em fazer com que ela nunca se cansasse dele.
ainda pensava em , mas não ousava dizer isto a ninguém. Os amigos sabiam que ele estava tendo um caso, que pensavam ser com uma mulher casada, e o deixaram em paz, não insistindo para que saísse com mais nenhuma garota. Ele achava estranho ainda sonhar com a vizinha, quando estava vivendo uma história tão intensa com outra mulher, mas não era algo que simplesmente conseguisse evitar. Mesmo que, naquele momento, isto se mostrasse necessário como nunca, já que parecia ainda mais determinada a evitar qualquer contato com ele.
Quando estava com Gay-ha, mesmo sabendo pouquíssimo sobre ela além de seu nome estelar e dos poderes que recebera dos pais verdadeiros, sentia-se completo e não pensava em mais nada. Quando ela sumia, por alguns dias, entretanto, ele ficava confuso de novo, e ver tentando fugir, ao vê-lo na calçada, podia fazer dele, em segundos, o mais frustrado dos homens. Ele não podia mais deixar que isso acontecesse!
! !” Ele gritou, correndo na direção dela, que caminhava apressadamente em direção ao próprio carro, sem sequer cumprimentá-lo. Antes, ela ainda se dava ao menos o trabalho de acenar, mesmo que de um jeito que parecia envergonhado, e isso o fez bufar. “Ei! Tá tudo bem com você, com seus pais? A gente nunca mais se falou.” Disse, quando enfim a alcançou. Era estranho que, justamente depois da entrada de outra mulher em sua vida, ele tivesse tomado coragem, mas estava determinado a confrontá-la e entender, de uma vez por todas, porque ela agia como se ele fosse um mal a ser evitado.
“Eu... é... t-tá. Tá tudo bem s-sim.” Ela gaguejou, não a fim de fingir timidez, mas por medo de ser reconhecida. Uma máscara seria suficiente para proteger sua identidade de alguém tão íntimo?
“Você tá atrasada?” Levantou uma das sobrancelhas.
“É. Na verdade, to, sim.” Falou, colocando a bolsa no banco de trás do carro.
“Acho que você tá sempre atrasada, quando eu to por perto, então, né?” Ironizou. “Eu fiz alguma coisa pra você nem me cumprimentar mais?” Perguntou, mas não esperou resposta. “Eu sei que nós nunca fomos amigos, mas somos vizinhos há anos...”
“Eu preciso mesmo ir, .” Ela respondeu, ainda nervosa. Dessa vez, porém, o nervoso fez sua voz sair bem firme. A Srta. nunca tinha falado assim com ele – ou com quem quer que fosse – e jamais falaria -, e ela não demorou a perceber o erro que tinha cometido.
“Essa... voz.” Ele falou, desconcertado. “Eu conheço essa voz.”
baixou a cabeça o máximo que pode, engolindo seco, e abriu a porta do automóvel, mas se colocou rapidamente entre o corpo dela e o veículo. Ele levantou o queixo dela, forçando-a a encará-lo, e viu aquele fogo conhecido que o incentivava a avançar.
Então, foi o que fez: puxou o corpo dela para junto do seu e beijou sua boca, reconhecendo o calor e o gosto de Gay-ha. Perdeu-se por alguns instantes apenas nas sensações e depois, ainda trocando carícias com ela, entendeu o que aquilo significava.
“É você! Eu não sei como isso é possível, mas é você. Minha Gaya-ha, a Savior Woman dos jornais, é a minha vizinha inocente e frágil.” Riu.
“Eu posso explicar, .” Ela disse, temerosa, por muitas razões.
“Você realmente tem muito pra me explicar e, definitivamente, você não vai trabalhar, antes de fazer isso.” Ele concordou. “Mas...” Sorriu. “Eu te adoro, seja lá qual for o nome que você vá preferir que eu use.”
“Você não tá chateado?” Ela ficou realmente surpresa.
“Talvez eu devesse, mas eu to aliviado demais de saber que eu não to apaixonado por duas mulheres completamente opostas, e feliz porque parece que existe uma boa possibilidade de eu ter as duas pra mim.”
“Eu não to entendo nada, .”
“Pois é... eu também tenho umas coisas pra te explicar.” Comentou, coçando nervosamente a nuca. “Eu diria pra você me levar voando pra algum lugar isolado, mas nós não queremos que nenhum vizinho descubra sua identidade, né? Então vamos no seu carro mesmo.” Decretou, dando a volta, para entrar pela porta do carona. “Ele também voa?” Perguntou, sussurrando, e arrancou uma gargalhada dela.
pensou que provavelmente seria tudo ainda melhor, agora que saberia tudo sobre ela. Era como sonhos virando realidade, e ela deixaria para pensar depois em como convencer os governantes de sua estrela de que seu segredo estava a salvo com o homem que amava.

Fim



Nota da autora: Gente, eu nunca escrevi uma fic tão complicada! Socorro!! Acho que ficou tudo uma completa confusão, além de super corrido, mas espero que vocês extraiam algo de positivo dela. Beijos e até a próxima!




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