Finalizada em: 02/10/2017

Capítulo Único

Creta, sul do Mar Egeu
Rode e sacodiram a areia dos vestidos ao atingirem a superfície da praia. Por ser a irmã mais velha, Rode andava à frente, deixando que um dos cordões em fio-de-ouro fosse segurado por . Era um ritual entre os filhos de Poseidon: ao vigésimo segundo aniversário, eles subiam para a civilização mortal e passavam uma semana.
- Não olhe ninguém fixamente no rosto, já chamamos atenção demais. – Rode a instruiu.
- Mas se não olhar, como vou saber suas fisionomias? – riu.
- Você já sabe como são! Viemos aqui várias vezes.
- Mas nunca “descemos” e ficamos, sabe? – ela ergueu as sobrancelhas, sugestiva.
- Deixe só Tritão ouvir o que está dizendo. – Rode sorriu carinhosa. – Não vá cair nas graças de um mortal, hein. Estamos aqui para aproveitar, não criar problemas.
- O amor não escolhe tempo nem raça, Rode.
- Você fica demais na companhia de Tia Afrodite, querida.
- E você fica de menos. – piscou divertida. – Como é que depois de tantos séculos e evolução ninguém nunca desconfiou de nós?
- Os seres humanos... Eles têm mais coisas para pensar do que em deuses antigos, se é que me entende. – o tom de voz irônico fez a mais nova rir baixo. – Hoje ficaremos em Elafonisi, mas amanhã você pode escolher onde visitar.
- Vai, Falársana, Balos ou Myrtos. – deu de ombros. – são as águas mais bonitas que vi em Creta. Não que essa areia rosa fique para trás. – ela riscou uma linha reta na areia, indicando do que falava. Elafonisi era uma das praias mais badaladas da Grécia por possuir uma coloração rosada ao invés do “bege” característico.
- Está certo. – Rode retrocedeu um passo. – Vamos combinar uma coisa, antes que eu me esqueça: nada, nem uma palavra em grego antigo. Ok? Não queremos problemas, né?
- Você está se preocupando demais, mana.
Rode queria acreditar que era apenas seu instinto protetor de irmã mais velha, porém ela sabia que aquilo estava longe de ser verdade. Fazia pouco menos de um mês que Íris a visitou para lhe entregar uma mensagem muito perturbadora. Ela teve juízo em não conversar com Poseidon primeiro, porque seu humor poderia ter uma mudança trágica e o mundo não estava preparado para lidar com o caos que se instalaria no mar.
“- Talvez não seja um mortal, ao que me parece muito provável que alguns deuses inferiores estejam vivendo por ali. – Íris tentou, em vão, acalmar a sobrinha.
- Mas não haveria desavenças entre e papai se ele fosse um deus.
- Sempre haverá desavenças se continua a acreditar no amor como Afrodite lhe instruiu, querida. – Íris sorriu minimamente. – Porém, para nossa sorte, a mensagem não chegou acompanhada de uma sensação ruim. Acho que ficaremos mais tranquilas quando conhecermos o homem em questão. Não são todos os mortais que devemos abominar, Rode. Afinal, temos uns quantos semideuses na família, não é?!”

A ideia de acabar com um sobrinho semideus não lhe parecia algo do que se vangloriar, pensava Rode irritada. No entanto, amava a irmã imensamente. Por isso, em caso de uma briga entre eles, ela ficaria ao lado de . Como a caçula de Poseidon (e do Olimpo), a menina tinha quase um império ao seu favor. Bonita, engraçada, vibrante e muito carinhosa com todos (até com os que não mereciam), poderia mudar o curso das águas sem consultar o pai e ele, provavelmente, bateria palmas e diria que foi um ótimo feito “já que ficaram por muito tempo seguindo no sentido posterior”.
Rode abriu um sorriso depreciativo ao pensar em quanto aquilo era verídico. Naquele mesmo segundo, sua irmã estava encantada tocando a pouca vegetação perto da praia, como se o mundo humano realmente merecesse tanta atenção. Elas ainda estavam escondidas da civilização por um rochedo e algumas piscinas d’água.
- Oh, eu sabia! – bateu palmas, animada. Rode olhou na mesma direção que ela, vendo um cavalo branco no topo da colina mais próxima. Apesar da distância, as duas sabiam que ele as olhava. – Papai nunca nos deixaria sozinhas de verdade.
- Já vai se acostumando, mana. Veremos muitas coisas familiares por aqui.
- Podemos tomar sol e depois comer alguma comida típica? Estou curiosa para experimentar os temperos dos mortais!
- Você não acha que está pondo muita expectativa nisso tudo, ? – Rode ergueu uma sobrancelha, um pouco incomodada com a ingenuidade da mais nova.
- Se fosse tão trivial como faz parecer, Rode, nós já teríamos desistido de vir aqui faz muito tempo, hm? – ela deu de ombros. – Você está passando tempo demais com Tio Zeus, querida. olhou para cima, encarando o céu e sorrindo debochada.
- Só quero dizer que expectativas altas têm as quedas mais doloridas, . Odiaria que tivesse uma péssima recordação do seu aniversário.
- Isso não vai acontecer, fique tranquila. Levei séculos vendo vocês subirem, enquanto eu deveria ficar a mais afastada da orla possível. – fez um gesto com as mãos, indicando que não se incomodava. – Eu sinto que será um aniversário memorável.
Rode arregalou os olhos, com medo da frase. Era óbvio que a irmã sentiria a mudança, caso a profecia de Íris fosse se concretizar. E, pelo que via, iria mesmo.
abriu sua túnica e deixou seu biquíni da moda à mostra. Diferente do corpo humano que Rode possuía, esguio e magro, preferiu as curvas e mais gordura, sendo o corpo típico de alguém com “sobrepeso”. Ela segurou suas sandálias e começou a andar na frente da irmã, porque estava impaciente para se misturar com os mortais.

derrubou suas coisas na areia e estendeu a toalha embaixo do guarda-sol. O dia estava especialmente mais claro, brilhante e quente. A previsão do tempo havia dito que aquilo aconteceria, porém ele não esperava que fosse tão verídico.
Felizmente, a verdade era que estava amando a Grécia. Quando recebeu suas tão sonhadas férias do trabalho, ele não hesitou em passar uma semana com a família e depois viajar com seus amigos. Era muito bom estar em um lugar onde sua maior paixão (o mar) existia e ele não precisava se esgotar com pesquisas para o Estado. Sem contar que poderia ver o maior mistério oceânico sem explicação: maré-vermelha com ondas luminosas que não causavam a morte de nenhum ser marinho. A única explicação lógica para isso seria que a alga responsável pelo fenômeno anulava o efeito tóxico do fito plâncton da maré, sem tirar sua propriedade de colorir a água em vermelho.
Era uma ocasião tão rara e tão específica que só acontecia no Mar Egeu, durante alguns minutos, e ninguém sabia o padrão para quando se repetiria. Os primeiros relatos sobre esse ocorrido datavam da Grécia Antiga; e até o período atual, só aconteceram 21 vezes.
- Estava pensando em visitar Cnossos amanhã. – comentou, tomando um gole generoso de seu suco. – Vocês me acompanhariam?
- Acha que eu trouxe minha câmera para quê?! – retrucou, risonho.
- Também quero ir. – assentiu.
- Então vamos todos. – concluiu. – Mas, amanhã vai demorar. Precisamos decidir o que faremos hoje à noite! – ele esticou os lábios em um sorriso malandro.
- Sempre soube que veio preparado para ter um “amor de verão”. – afinou a voz e bateu os cílios delicadamente. – Já tem alguma gringa em mente?
- Não, por isso devemos sair e caçar.
- Isso soa um pouco insensível, cara. – franziu o cenho.
deu de ombros, sem vontade de discutir. Nunca buscaria uma mulher que não quisesse exatamente o que ele estava disposto a dar, portanto não se considerava insensível. Era sensível até demais, porque se limitava a um tipo específico de parceira. Se alguma menina que estava querendo lhe dizia que “não” ou que “não procurava o que ele oferecia”, agradecia a atenção e partia para outra. Como poderia ser insensível se respeitava a decisão da garota?!
O seu “novo eu” achava aquilo o ápice do cavalheirismo, porém seu “antigo eu” se chateava com a conduta libertina. Não é que não acreditava em amor, nem que sofreu inúmeras decepções com ele. Acontecia que, na vida que levava, não havia espaço para ele... Ainda. Ter que dedicar seu tempo com outra pessoa, cuidar de uma relação, lembrar datas e arrumar escapes em sua agenda seria muito trabalhoso. estava curtindo todos os privilégios de ser jovem e solteiro, portanto se sentia egoísta demais com isso. Eventualmente se apaixonaria, claro, mas não queria que fosse rápido.
- Vou procurar o homem do mergulho. – se levantou. – Quem topa?
- Eu vou! – também se ergueu, animado. – pode ser que eu trombe com algum polvo e finalmente consiga minha foto.

●●●


O bar estava abarrotado de pessoas. se mexeu desconfortável e procurou uma mesa que coubesse seus amigos. Encontrou, em um canto afastado, uma mesa com três cadeiras, ao lado de outra de mesma disposição, mas ocupada por duas garotas. Não custava nada pedir a cadeira desocupada e, assim, poderiam começar a noite.
- Quem vai falar com elas? – perguntou risonho.
olhou para as duas moças, notando algumas semelhanças. Provavelmente eram irmãs. A loira, alta e magra parecia ser mais velha, enquanto a mais baixinha...
Era linda.
Sua mente gritou desesperada.
Não tinha certeza se os amigos notaram como ele corou apenas por colocar a atenção em cima da menina. Os cabelos escuros e ondulados desciam em cascatas pelo rosto redondo, contrastando com a boca vermelha e desenhada. Parecia uma deusa grega, se é que existisse um estereótipo para elas. Ele limpou as palmas das mãos na calça, sem compreender de onde todo o nervosismo vinha. Era uma moça bonita. Só.
- Eu falo. – passou por eles, tirando do transe.
A risada foi sumindo na medida em que elas notaram os quatro homens se aproximando. Rode tomou uma postura defensiva, enquanto os encarava com uma cara encantada. Eram humanos bonitos, altos e pareciam querer conversar. Sem que Rode pudesse fingir que não os via, o mais alto deles tocou a cadeira vazia.
- Desculpe atrapalhar, mas podemos pegar essa cadeira? Estamos em quatro, e a mesa só possui três lugares. – a pergunta veio em inglês, deixando-as confusas por um momento.
- Claro, claro. – respondeu rapidamente. – fique à vontade. – ela sorriu educada, corando pela interação. Aproveitando o impulso, se levantou. – Eu sou a , essa é minha irmã mais velha, Rode. Prazer em conhecê-los.
Os meninos sorriram, fazendo vista grossa para a pequena careta de desprezo que Rode fez. Sentaram-se de modo que pudessem manter uma conversa com elas, mesmo em mesas separadas. se apresentou, rezando para que não corasse quando sentiu os olhos de em si. Mas, assim que os globos cor de mel, um amarelo tão brilhante e convidativo, refletiram para ele, prendeu o fôlego. Já tinha presenciado atrações à primeira vista, porém aquilo... Deus, aquilo era completamente fora do comum. E ele esperava, do fundo do coração, que ela estivesse sentindo o mesmo.
- Então... – pigarreou. – Vocês são daqui? São turistas...?
- Somos...
- Somos de Santorini. – Rode cortou a irmã, com medo de que ela falasse besteira.
- Uau, Santorini! – sorriu. – Lá tem uma vida marítima impressionante.
- E o mar é de um azul espetacular. – concordou.
- Vocês conhecem a vida marítima de Santorini? – os olhos de brilharam em diversão. Ela costumava nadar por lá com seus irmãos e algumas nereidas.
- Somos oceanógrafos e é biólogo marinho. – ele indicou o amigo. – O que espera de nós? A Grécia é um prato cheio para esse quarteto de nerds.
- Fico feliz que gostem! Fazemos o possível para manter o mar em equilíbrio. – antes que ela percebesse a besteira que falou, Rode lhe deu um tapa por debaixo da mesa. soltou um resmungo. – O que foi, sua louca? – perguntou em grego.
- Você quase nos desmascarou! “Fazemos o possível para manter o mar em equilíbrio”, que porra é essa? – Rode afinou a voz ao imitá-la.
- Qualquer pessoa grega estaria disposta a cuidar do mar de seu país, Rode. Pare de ver empecilhos em tudo! Você se preocupa demais. – ela voltou a encarar os meninos. – Eu sei de um lugar muito bom para explorarem em mergulho, se quiserem uma dica.
- Por favor! – quase se ajoelhou ao ouvi-la.
- Agia Pelagia. Existem umas paredes de pedras formando pequenas cavernas e muita diversidade de animais. Se forem sortudos, podem trombar com alguns tubarões-martelos que fazem a experiência ainda mais excitante.
- Você já viu um ao vivo? – se inclinou para frente, interessado.
- Algumas vezes. – assentiu sem conseguir esconder a diversão. Não poderia, nem se quisesse, falar que tinha um deles de estimação.
- nadou em um tanque de tubarões-lixa uma vez; acho que foi o mais perto que conseguimos chegar de qualquer espécie, né? – olhou para . – Seria o ápice da minha carreira se eu conseguisse nadar com um.
- Quem sabe se você pedir com carinho para Poseidon ele não te concede o desejo?! Você está na Grécia, querido, tenha fé. – ela sorriu e piscou encantado.
Apesar de ter uma leve impressão de que fazia piada com o assunto dos “tubarões, mar e deuses gregos”, ele não pode deixar de sorrir junto.
O papo ia e vinha com muita naturalidade, como se fossem amigos há décadas. se sentia invencível ali, confraternizando com mortais e vivendo, finalmente. Não havia consequências, problemas ou tristezas. O que acontecia no mundo mortal ficava no mundo mortal; era como entrar em um universo paralelo ou como se deslocar no tempo, ficando suspensa em um momento incrível que levaria na memória pela eternidade.
Mas não é que sua vida fosse ruim até então; pelo contrário, na verdade. tinha tudo o que uma garota poderia querer, tudo o que uma filha de deuses poderia querer. Diferente de muitas famílias desestruturadas, seus pais lhe davam atenção e amor, seus irmãos zelavam por ela, todos se gostavam e se protegiam; a maioria de seus primos a idolatravam e seus tios sempre requisitavam sua presença aqui e ali. Tirando um “pequeno” detalhe sobre seus avós, era muito satisfeita com o que vivia. Só que... Só de satisfações não se viviam os deuses, não é mesmo?!
Ela estava prestes a comentar com Rode como seria bom ter algum primo por perto para comemorarem juntos, quando sua irmã se levantou e saiu apressada para o bar.
- O que aconteceu? – perguntou, preocupado.
- Não sei. Rode é um poço de nervosismo, peço desculpas adiantadamente. – encolheu os ombros. – Mas eu juro que ela é...
- Dá para acreditar nisso? – ela foi interrompida por uma voz forte, porém extremamente prazerosa aos ouvidos. não tinha noção do que ele falava, pois era em grego, mas estava ciente de que eram conhecidos dela. – Chegamos um pouquinho atrasados e somos trocados por outros caras. – se levantou num pulo, o sorriso quase rasgando o seu rosto. – Pensei que tínhamos uma relação eterna, .
- Himeros! – ela agarrou o pescoço do primo, o apertando em um abraço. – Vocês vieram! Deixe-me olhar para vocês... – segurando o rosto de cada um, ela fez sua inspeção minuciosamente, alheia aos olhares dos coreanos.
- Quem são? – Pothos indagou, apontando com a cabeça para o grupo.
- Fiz novos amigos. – confessou animada. Sabia que não deveria conversar com mortais, porém seria um desperdício de viagem ignorá-los. Ainda mais quando um deles era extremamente charmoso e não parava de olhá-la. Por Afrodite, como evitaria?! – Bem, meninos... – ela falou em inglês. – Estes são meus primos: Himeros, Anteros, Pothos e Eros. – indicou um a um. – Primos, estes são , , e .
- Ah sim. – Eros sorriu ladino. – Quem é o felizardo que está apaixonado por minha prima? – ele se deliciou com a cara de espanto dos turistas. – Saibam que para consegui-la precisam passar por nós primeiro... E depois por Rode. – riu.
- Falando nisso, onde ela está? Vocês devem ter se trombado, não?!
- Foi embora e nos deixou encarregados de você. – Pothos lhe deu uma piscadinha.
- Ou seja: desamparada. – riu. – Perfeito!
Himeros e juntaram as mesas, e depois saíram em busca de umas cadeiras. notou que, desde que os primos de se juntaram a eles, as meninas (e até alguns caras) não paravam de olhá-los. Aquilo teria sido perfeito para a noite que buscava... Se não tivesse se fixado na única mulher que parecia não notar sua existência: a própria . E agora que sua família havia chegado, as chances quase evaporaram.
Entretanto, a noite deu um giro espetacular.
Depois de muitas doses e alguns drinks, seus amigos se juntaram a Pothos e Anteros para “darem uma volta” pela boate-bar. preferiu ficar com Eros, Himeros e . Esta, aparentando estar tão sóbria quanto esteve antes de beber, foi ao banheiro, deixando-o sozinho com os outros primos.
Eros e Anteros eram gêmeos e primogênitos, enquanto Himeros era o “filho do meio” e Pothoso caçula. Entretanto, todos eles pareciam mais velhos que , mesmo que se comportassem infinitamente como jovens fuck boys.
- Então é você... – Himeros ergueu sua dose apontando para .
- Eu o quê?
- É ele sim. – Eros assentiu. – está estampado em seu rosto.
- Eu o quê, gente?
- Que está apaixonado por nossa prima. – Himeros falou tão calmo e confiante como se estivesse dizendo “Aqui está lotado hoje”.
- Bem, “apaixonado” é uma palavra muito forte, que, com todo respeito, passa longe do que eu estou sentindo pela sua prima. – confessou.
- Encantado, então. – Himeros rolou os olhos.
- Que seja. – Eros abanou uma mão. – Sua sorte, , é que você está conversando com os cupidos da família. Claro, com Pothos aqui a ajuda seria mais efetiva, porém é bom que ele mantenha Anteros longe. Eu não daria meio segundo para aquele imbecil tentar estragar tudo. – ele sorriu divertido. – E aí? Topa?
Enquanto refletia, Eros e Himeros trocaram um olhar risonho. Ser filho de Afrodite e um deus do amor tinha suas inúmeras vantagens; uma delas sendo poder ajudar a prima favorita com sua alma gêmea. Como eles sabiam? Primeiro: sua mãe havia lhes dito algo sobre uma sensação forte de amor rondando antes de ela subir à superfície; segundo: enquanto caminhavam para a mesa, Pothos disse que um deles tinha uma energia cor de âmbar igual à de , o que, para os cupidos, era o melhor jeito de se localizar amantes; e terceiro: eles precisaram de cinco minutos para notar que a pessoa em âmbar era ... E que ele já estava tão encantado quanto o necessário para dar o primeiro passo.
- Não custa nada tentar. – deu de ombros. – O que eu devo fazer?
Eros era o deus do amor incondicional, enquanto Anteros era seu oposto, ou seja, deus do amor não correspondido, do desprezo. Daí o nome “Ant”, de “antítese”. Himeros era o amor sexual, uma parte importantíssima na hora de juntar amantes. Pothos, por fim, era a paixão. O trabalho dos cupidos começava, portanto, em Pothos. Mas, no caso de e , o destino tinha se encarregado de algumas coisas sozinho.
- Oh, onde os meninos foram? – a voz suave de foi capaz de abafar todo o barulho do bar. Como se Eros ainda estivesse por perto, jogando seu encanto, fixou os olhos nela, inconformado com tanta beleza.
- Eles pediram para que eu te levasse embora, porque vão... Sabe? Eles...
- Foram ficar com mort- mulheres. sorriu, pigarreando. – imaginei. Levaram bastante tempo, até. Geralmente termino sozinha ou com Anteros.
- Se não se incomodar, essa noite pode terminar comigo. – ele piscou, sorrindo maliciosamente. soltou uma risada alta, fazendo-o corar. – O que foi?
- Não quero atrapalhar você. Consigo voltar para casa sozinha... Aliás, pretendo dar uma volta na praia antes, então gastaria seu tempo demais. Fique e aproveite.
- Agora que devo te acompanhar. E antes que reclame, tenho duas razões: primeiro, nunca vi uma praia grega à noite; segundo, se algo acontecer com você, me sentirei culpado. – esticou os dedos, numerando os argumentos.
- Nada vai me acontecer, confie em mim.
- E se você tropeçar e cair no mar? Sabe, praias à noite são bem perigosas.
- Eu sei nadar muitíssimo bem, . – riu fraco. – Meu pai é perito em mar.
- Eu também, oras. Sou oceanógrafo. O que seu pai é?
- Pescador. – mentiu. – Então, já que você faz tanta questão em me acompanhar... Vamos logo! – ela pegou seu cartão de consumo e saiu para o caixa.

A brisa estava deliciosa e a areia passava uma sensação de paz acolhedora em . Ela estava sentada na ponta do casaco de , estendido para que não sujassem as roupas. Por já terem se afastado do centro da cidade, o barulho das ondas era o som mais alto a ser ouvido, deixando-os bem à vontade com a privacidade.
- Sabe por que gostamos tanto do oceano? – quebrou o silêncio.
- Não tenho ideia. – ela o encarou, curiosa. sabia o porquê ela gostava do oceano, mas seus motivos provavelmente não se comparavam em nada com os dos mortais.
- Porque azul é uma cor que passa calma e sensibilidade, ajuda a reduzir o pulso, pressão sanguínea e a frequência cardíaca, fazendo com que o organismo recarregue a energia. Além disso, o som das ondas nos remete ao que ouvíamos enquanto estávamos no útero, então passa uma sensação de proteção.
- Ah... – assentiu. – Que significado bonito. De onde veio isso?
- Da minha cabeça genial e facilidade com improvisação. – sorriu travesso, fazendo-a rir alto. – brincadeira. Na verdade, vi isso em algumas terapias alternativas que fiz; porque muitos pacientes se livraram do estresse através do mergulho.
- Imagino que para você o mergulho signifique muito mais.
- Claro, claro. Eu entro em outra dimensão, parece. Fico leve, despreocupado e completamente satisfeito dentro d’água. – deu de ombros. – E você? Mergulha muito?
-Ah... Digamos que sim, né. Costumo ajudar meu pai e matar o tempo em alto mar, então não faria sentido se eu não mergulhasse. – ela coçou a nuca.
- Acho que você é a primeira menina que eu conheço que compartilha dessa minha mesma obsessão por água. – confessou, os olhos brilhando. – Mas, e quando está em Santorini, o que costuma fazer? Já é formada?
- E-eu não. – pigarreou. Qual seria a melhor desculpa para não ter feito uma faculdade?! – aconteceram algumas coisas e as prioridades mudaram. Mas, enfim, a vida em Santorini é boa. Muitos turistas, muita história, muita água. – ela gesticulou, querendo dar ênfase. – Se não estou com meus pais ou irmãos, provavelmente estou com algum primo... 98% das vezes esse primo é Eros, mas também tem Apolo, que é outro amor da minha vida. – sorriu ao se lembrar dele.
- Apolo... Eros... Sua família gosta de nomes mitológicos, né?!
tossiu, disfarçando a risada.
- Meu vô se orgulhava muito de se chamar Cronos, e acho que isso passou para as outras gerações. – mentiu. – Não sei se você sabe, porém meu nome é da deusa da sorte. Quer dizer, Moros é o deus do destino e tal, mas ele é um daemon, ou seja, um espírito. “” era a personificação da sorte. Faz sentido?
- Mais ou menos. – riu. – Os gregos são bem criativos.
- Nem me diga. – sorriu. – Por que acha que os romanos nos copiaram?!
Os dois continuaram conversando sobre a vida, enquanto manipulava para que falasse mais do que ela. Era tão interessante poder ouvir sobre um mundo diferente, um lugar onde ela não tinha mais influência além de puro contexto histórico e curiosidade. Ele lhe contou que estavam fazendo uma pesquisa sobre a tecnologia e o impacto dela nos oceanos, por causa da poluição, da pesca ilegal, etc., e que esse estudo seria apresentado para a ONU e a UNESCO.
- Com esse tanto de coisa para fazer não sobra tempo para as namoradinhas, hm. – piscou, divertida. – Notei que todos vocês estavam desacompanhados.
- Eu sou uma pessoa livre e desimpedida, . – ele deu de ombros. – Não encontrei uma garota que me fizesse querer diminuir a carga horária do trabalho.
- Uau, que profundo. – ela riu baixo.
- Mas e você? Também estava desacompanhada. – se virou para encará-la, ansioso pela resposta. Os olhos mel faiscaram, brilhando mais do que a lua.
- Acho que vim com um rim no lugar do coração, . Nunca me apaixonei, nunca fui beijada, nunca fiz nada. – confessou. – E não por falta de tentar.
O quê?!
ficou, por alguns segundos, apático. Ele entendia a parte do “não se apaixonar”, mas... “Nunca fui beijada”?! Ela? Uma menina linda daquelas?!
- Nunca foi beijada? – ele arregalou os olhos. – Nunca?
- Digamos que eu tenho uma vida ocupada demais para me dar ao luxo de paquerar com os outros. – riu sem humor. – E quase não tenho privacidade.
- Mas como é possível?
- Ora, , se soar tão incrédulo outra vez eu começarei a me sentir ofendida. Existem pessoas que não beijam a vida inteira. – ela o encarou. – Talvez eu seja uma delas. E eu não me importo, sabe? Deve ser meio nojento.
- Meio nojento? – se ele conseguisse ficar mais perplexo, morreria.
- É, sei lá. Eros tentou me descrever algumas vezes, porém fiquei um pouco desconfortável com as palavras que ele usou. Minha família toda adora um bom romance, ninguém lá é santo, mas... Acho que eu sou a exceção. Até Rode tem uns casinhos por aí, apesar de papai fingir que não sabe.
- Eu não sei nem o que dizer. – chacoalhou a cabeça. – Meu Deus, é a primeira vez que ouço alguém falar que beijo é “meio nojento”.
- Poxa, o mundo é feito de opiniões diversas, né. Então vamos mudar de assunto, já que você parece ter visto a Medusa. – ela riu, tentando descontrair.
- Não, não, longe disso! Só acho que você não pode tirar conclusões sem ter provado,. – ele se lembrou do que Eros disse: “Deixe-a curiosa”. – nada melhor do que ter a própria experiência e não precisar viver da falação dos outros, não é?!
- Por que tenho a impressão que você está me incentivando a cometer uma loucura?
- Porque eu estou. – sorriu.
não fez nada além de encará-lo. Seria uma situação engraçada de presenciar, tinha certeza, se não fosse ela a protagonista. Mas, bem, ali estava, tentada a deixar que um mortal beijá-la pela primeira vez em toda sua existência. Aliás, “tentada” era uma mentira chula, pois sabia que iria deixar. Passara tanto tempo procurando alguém para experimentar, alguém que a deixasse sonhando acordada como Morfeu fazia com Rode, ou como Eros fazia com os mortais que pareava. Infelizmente, nenhum deles conseguia inspirá-la o suficiente... Mas, a deixou curiosa. lhe passava uma espécie de adrenalina que fazia cada célula de seu corpo humano borbulhar em expectativa. Ele parecia a pessoa certa para se ter experiências.
- Θέλω να σεφιλήσω. (Thélo na se filíso). – confessou.

"Quero te beijar."


não soube quando foi que compreendeu o que ela disse, mas soube que quando ela inclinou o delicado queixo, se oferecendo, ele estava estragado para todas as outras mulheres. Seu coração começou a bater tão rápido que teve medo de desmaiar antes de conseguir beijá-la. Puxou o ar e esticou uma mão, tocando-a na bochecha. As pálpebras de pareceram pesar, enquanto ele suprimia um gemido de satisfação ao sentir pele contra pele. E então avançou, grudando seus lábios levemente.
Um... Dois... Três.
- Oh... Hm... Bem, obrigada? – se afastou com o cenho franzido. – claro, eu não tinha esperado por isso, mas... Hm... Foi bastante revelador.
- Se só isso já a deixou agitada, imagine quando eu te beijar de verdade. – ele riu.
- M-m-mas não foi isso o que fizemos?!
- Claro que não! Não chegamos nem na metade. Um beijo só pode ser considerado como tal se ele não te deixar satisfeita; ele tem que te por em chamas, .
- B-bom, eu não vejo sentido em ser carboniza...
a puxou para si, calando-a do jeito mais clichê existente. Ele aproveitou a boca entreaberta para deslizar sua língua por ali, sentindo os dedos de espalmados em seu peito agarrarem sua blusa, num misto de confusão e surpresa.
- Não pense em nada, só sinta e siga seu instinto. – instruiu. – Faça sua língua encontrar a minha, sem pressa. Aproveite o momento.
Quando a beijou novamente, com mais firmeza que antes, tencionou e apertou as mãos em punhos, embolando a camisa dele. , munido de uma combinação estranha entre paciência e desejo, ficou quieto enquanto ela parecia se acostumar com a sensação; porém não previu a calmaria antes da tempestade. Um perito em mares e beijos, ele deveria ter se preparado... Deveria ter imaginado. se atreveu um pouco e retribuiu o carinho com a língua, fazendo com que um choque de excitação quebrasse nele, abrindo a porteira para uma corrente de desejo furioso. Dali para frente, simplesmente se entregou ao prazer de beijar e ser beijado, deliciando-se com uma parceira que há tempos não encontrava: sedenta, curiosa e intensa. repetia cada mínimo movimento que ele fazia, embrenhando os dedos no cabelo macio de , e assumindo para sua consciência que Eros estava certo: beijar era algo glorioso.
Mas, ainda não sabia se isso era mérito de quem a beijava ou dela mesma.

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Ruínas de Cnossos, Creta, Mar Egeu
Apesar de não ter parado de gritar e fazer escândalo desde que acordara, estava com um humor maravilhoso. Ele relevou o calor e claridade excessivos, colocando uma roupa fresca e seu melhor óculos-de-sol. Nada, absolutamente nada, conseguiria destruir o estado de nirvana que atingira.
Enquanto e iam tagarelando sobre os planos que fizeram com os primos de para a noite, ele só conseguia contar as horas até se reencontrarem. Até lá, entretanto, se contentaria com as imagens da noite passada: olhos brilhantes e turvos de desejo, a respiração ofegante, lábios inchados e rosados, gosto doce como mel...
O ônibus de turismo parou subitamente, indicando que haviam chegado em Cnossos. Por gostar de mitologia e ruínas, fez um esforço para se concentrar no passeio.
- ... Aqui em Cnossos possuímos mais de 1000 quartos, porque as fontes indicam que em torno de 5000 pessoas habitavam o palácio... – o guia continuava sua explicação, mas a atenção de estava em um afresco do corredor. A pintura mostrava um homem bem vestido e outro com uma roupa de sacerdote entrando por uma porta decorada com pequenos olhos-gregos e um tridente em ouro. Ainda no mesmo afresco, havia uma divisão para indicar o “outro momento”, onde os dois homens estavam dentro da sala parados em frente a uma imensa urna de ouro cravejada por pequeninos ramos de louro, a porta fechada e com uma ferradura ocupando boa parte dela.
- O que significa esse afresco? – interrompeu o guia, apontando para a parede.
- Oh sim. – Zahr sorriu. – Essa pintura é o xodó de Cnossos, porque foi uma das únicas que não foi feita a bel-prazer de Sir Arthur, na reconstrução do palácio. Ela já existia e ele só se preocupou em preservá-la. – levando o grupo de turistas para mais perto do afresco, Zahr indicou a primeira parte da parede. – Acredita-se que esse seja Minos, logo após não cumprir com o prometido a Poseidon e sacrificar outro touro no lugar do touro-marinho. Estão vendo esses desenhos na porta? São símbolos gregos da sorte, porque este era um templo para , a deusa da sorte. Os olhos-gregos são para afastar o mau-olhado e o azar, enquanto o tridente é voltado para a inconstância, já que nunca sabemos quando teremos sorte ou azar. – Zahr indicou cada um, andando até a outra parte do afresco. – para os gregos, o ferro era o mais poderoso dos elementos que os protegia de todo o mal, portanto, a ferradura simbolizava um amuleto para atrair energia positiva e boa sorte. Por isso ela está nessa posição: com o semicírculo para baixo de forma que as pontas fiquem viradas para cima, “para o céu”, a fim de conservar a sorte. – ele balançou a mão, como se aquilo não fosse o mais importante, porém achou tudo incrível. – Bem, Minos estava longe demais do Oráculo de Delfos para conseguir saber como se proteger da fúria de Poseidon, então ele foi implorar para as boas energias. Esta urna servia para colocar o pergaminho com o pedido escrito e queimá-lo com um fogo de chamas âmbaramarela, nunca azuis, vermelhas ou laranjas. Enquanto ele queimava, você deveria dizer: “A Moros obedeço, ao acaso me submeto, e na Sorte eu me ergo.”.
- Então ela era uma deusa que realizava pedidos? – perguntou, confuso.
- Não, não! Longe disso. não podia influenciar no acaso, já que isto era ocupação de Moros, um daemon filho da força primordial Nix – a personificação da noite; Morosera o deus do destino, da morte e das criaturas do Tártaro. apenas ajudava os mortais com proteção e funcionava como um “intermédio” entre Moros e deuses gregos com os seres humanos e semideuses. – Zahr voltou até a primeira pintura. – O tridente de é uma homenagem ao pai dela: Poseidon. é a caçula do deus do mar e também do Olimpo, sendo uma das divindades mais jovens de toda a mitologia. Por sua posição hierárquica, ela foi descrita como uma deusa meiga e divertida, que encantava seu pai e seus familiares a fim de ajudar os mortais. Por exemplo, ela conversou com Poseidon para “abrandar” a pena em Minos, e ele concordou em não atingir o rei diretamente, passando para a esposa dele, Pasífae. Daí começa o mito do Minotauro.
- Mas por que as chamas tinham que ser âmbar? – franziu o cenho. – existia algum produto que não as deixava mudar de cor?
- Segundo alguns escritos, a cor âmbar é a cor dos olhos de , e assemelha-se à iluminação, à energia... Portanto, quando um mortal procurava , ele buscava algo bom, a luz. – Zahr voltou a apontar para os olhos-gregos. – existem algumas teorias que apontam o olho-grego como símbolo da sorte por causa de , mas não sabem explicar porque eles são azuis ao invés de âmbar. Essas teorias falam que quando invocada, a deusa se materializava na forma de um par de olhos, pois eles são a “porta da alma” e ficava fácil discernir quem merecia sua ajuda e quem não.
- Ela parece ser uma divindade bem especial. – sorriu.
- Aqui em Cnossos encontramos ferraduras ou tridentes com um olho-grego no cabo em praticamente todos os cômodos, sejam em portas, acabamentos de teto ou paredes. Portanto, admitimos que era uma deusa adorada pelo povo. – Zahr assentiu.

Praia de Falársana, Creta, Mar Egeu
Houve uma risadinha coletiva quando Rode voltou para o guarda-sol que alugaram. Os olhos azuis se arregalaram e as bochechas atingiram um tom de vermelho que invejaria qualquer batom carmim. Eros tentou manter o olhar distante, mas foi vencido pelo simples prazer em poder zoar a prima.
- M-Morfeu! – Rode gaguejou.
- Rode. – o deus sorriu educado. – Espero não estar atrapalhando, mas queria prestigiar em sua primeira subida à superfície. Sei que é importante para vocês.
- Não atrapalha em nada, querido. – sorriu divertida. – Estou ainda mais satisfeita por ter trazido esse traste com você. – ela acotovelou Apolo, que sorriu carinhoso.
- Se eu não descesse hoje, desceria amanhã ou depois, mas estaria aqui com você no dia de comemoração. – Apolo a abraçou de lado. – Jamais deixaria que ficasse sozinha com os quatro patetas; estou cansado de competir com eles, apesar de saber que sou o favorito. E não me interessa que sua mãe seja a tia favorita, Anteros. – ele encarou o primo, fuzilando-o com o olhar. – Tenho o sol mais brilhante para essa semana, coração.
- Não sabe a falta que me fará poder encarar o céu azul sem uma camada de água, Apolo. – suspirou. – Morfeu, querido, por que não leva Rode para dar uma volta?
Rode encarou a irmã com uma expressão ofendida, mas o rosto corado queria dizer o contrário. É claro que ela estava procurando ajudá-la porque precisava de uma Rode tranquila caso quisesse contar o que lhe aconteceu na noite passada.
- Vá, vá, Rode. Ficaremos de guarda-costas, nenhum mortal se aproximará da caçulinha do Olimpo. – Himeros abanou a mão. – Vá namorar um pouquinho.
- Vocês são uns imbecis. – Rode resmungou. – Desculpe pelas brincadeiras, Morfeu.
- Eu gosto delas, Rode. – Morfeu riu. – Sinto falta do humor deles.
- Case-se com Rode e poderá nos ter como cunhados postiços, juro. Somos mais irmãos delas do que Tritão, Árion, Polífemo, Órion e Pégaso.
- Alto lá, Apolo, não fale assim dos meninos. – fez bico. – temos espaço para todos. E sim, por favor, Morfeu, case-se com Rode.
- Traidora. – Rode sibilou irritada, apertando os olhos para a irmã, que apenas acenou.
Quando Rode e Morfeu já estavam longe, Eros encarou a prima.
- E então? Como foi ontem? Cadê meu “Obrigada, Eros”?
- Do que você está falando?
- Que eu ajudei você e . – ele ergueu uma sobrancelha. – Se não fosse por mim, provavelmente nada teria acontecido. Bem, claro que apenas fiz meu trabalho de cupido, mas preciso que você saiba que ele é o escolhido.
- Como disse? – arregalou os olhos.
- Que escolhido? Que história é essa? – Apolo arrumou a postura, interessado.
- A áurea dele é da mesma cor que a de . – Himeros disse simplesmente. – Você sabe o quão raro isso é, principalmente com algum mortal. Mamãe nos falou que sentia algo diferente nela, e pelo visto, era o amor.
- Nossa, Himeros! – Anteros fez um barulho de vômito, arrancando uma risada de .
- Essa é boa! – Apolo gargalhou. – O tio vai comê-lo no café-da-manhã, gente! Um mortal com ? – riu novamente. – A piada do século, com certeza!
- Seria hilário se não fosse trágico, Apolo. – Eros rolou os olhos. – Mas é a verdade.
- Certo, meninos, eu poderia cair na brincadeira, mas não vou. Vocês não conseguem enganar um filho de Zeus e sabem disso.
- Oh, por todos os seres primordiais! – Himeros passou uma mão pelo rosto, irritado. – é óbvio que você não será enganado, Apolo, porque não estamos mentindo!
-Você acredita em nós, não é, ? – Eros lhe tocou a mão. – Chegou a... Bem... Sabe? Chegou a fazer algo com ?
- Coração! – Apolo parecia prestes a ter um surto nervoso, algo bem parecido com que o pai dele faria em situações estressantes. O céu, antes azul e brilhante, começava a escurecer minimamente, nuvens se formando em volta do sol.
- N-nós nos beijamos... Algumas vezes. – ela confessou, corando imensamente. – Só.
- E o que sentiu? – Himeros a incentivou.
- Não, não fale nada, coração, não posso ouvir. – Apolo tampou os ouvidos, indignado.
- Pare com isso, Apolo. Você está pior que Tritão. – Himeros rolou os olhos, dando um tapa no braço do primo. – E então?
- Não escute, Anteros, não quero que você ria de mim. – ela fez bico.
- Estou fazendo o possível, . – Anteros mentiu, sorrindo arteiro.
- Muita adrenalina... Achei glorioso. – ela fechou os olhos, tímida. – Parecia tão certo.
Pothos abriu um sorriso imenso, encantado por ver a prima apaixonada. Ele conseguia sentir o cheiro que emanava dela, e como um bom filho de Afrodite, aquilo foi o suficiente para tornar seu dia magnífico. Os cupidos nunca tiveram preconceito com mortais, mas sabiam que boa parte da família reagiria como Apolo.
Como estava sentado ao lado de , a puxou para um abraço.
-Você cresceu, priminha. Acho que vou chorar. – fingiu uma fungada.

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Make darkness fall, bring her to me
Out of the many stars, you are the only one
Oh, I can’t help but lift my head and look,
endlessly, endlessly


encarou o relógio de pulso outra vez, inconformado. Já passavam das dez da noite e nada de com seus primos aparecerem. Eles estavam uma hora atrasados! Será que havia acontecido algo? Será que ela havia mentido sobre querer encontrá-lo?
Mas, quando estava a ponto de dar um chilique, viu um grupo entrando pela imensa porta lateral do bar. Como uma estrela caindo do céu, estava sorrindo para o homem que a abraçava. Seu coração palpitou forte e desesperado, porque aquele era um dos sorrisos mais lindos que teve o prazer de ver. Então, assim que o olhar de trombou no dele, sentiu o peso da realidade o acertar.
Estava apaixonado.
Ele, que sempre achou que o amor demorava a florescer, estava apaixonado por uma garota que havia conhecido uma noite antes. Mas, diferente do pânico e da exaustão que imaginou que sentiria ao se descobrir daquele modo, se sentia aliviado. Aliviado por ser ela. Porque, por mais incrível que parecesse, o tinha encantado com sua doçura, sua rizada e seus olhos cor de mel. Era uma sorte que fosse ela.
- Boa noite, meninos. – ela sorriu. – Perdão pela demora, mas Apolo estava dando chilique e nos atrasou. E então, o que perdemos?
Apolo rapidamente se enturmou com os meninos, e Rode, muito ocupada com Morfeu, não fez conta da irmã, que conseguiu escapulir para a área externa do bar. pegou a deixa e também se foi, apertando a cerveja para aliviar o nervosismo.
Enquanto preferiu se sentar no pequeno muro de pedras, ficou de frente para ela, com o quadril apoiado na mureta.
- Como foi em Cnossos? – a voz dela quebrou o silêncio.
- Muito bom! Acredita que conheci a deusa da sorte?
- Como disse? – arregalou os olhos.
- Pois é! Havia um afresco imenso com uma pintura sobre ela, e o guia nos explicou um pouco de sua história. Eu fiquei encantado.
precisou apertar a borda do muro, porque sentiu o equilíbrio sumindo. Não era para ter ficado tão emotiva, porém foi uma surpresa descobrir que ainda existia uma marca dela no mundo atual. A descoberta do afresco era o melhor presente que poderia ganhar. Sem se controlar, o encheu de perguntas.
- Acho que sei de qual pintura está falando. O que gostou mais nele? O que o guia lhe disse? Você achou a história bacana? Vocês fizeram algum pedido?
sorriu para a animação dela, achando bonitinho que ela estivesse entusiasmada com o que aconteceu no dia dele. Porém, quando começou a contar do passeio, ele sentiu um pequeno incômodo, pois parecia que ela não o escutava. Seu olhar estava no horizonte, o rosto sem expressão, como se vivesse (ou revivesse) algo. A atmosfera entre os dois estava carregada de uma emoção que ele não saberia descrever, mas se fizesse sentido, diria que era nostalgia.
Para provar sua desconfiança, ao fim da história, se virou para ele, os olhos cor de mel brilhando quase selvagens, e em um segundo, tudo suavizou. Ela abriu um sorriso sereno e sua atenção voltou a focar no rosto de .
- É realmente uma história interessante. – disse em um timbre carinhoso.
- Foi o que eu pensei. – ela pigarreou. – Amanhã... Hm, amanhã vamos fazer o mergulho. Você poderia nos acompanhar. Seus primos também gostam?
-Nós adoramos, porém... – fazendo um biquinho, conseguiu quebrar toda a tensão que achava ter sentido. – Amanhã vou à Baloscom eles, nossa família nos encontrará lá para meu aniversário. Mas, podemos nos ver à noite, o que acha?
- Amanhã é seu aniversário?!
- Pois é. – ela riu. – No mesmo dia da maré-vermelha e das ondas luminosas.
- Isso é uma sorte imensa, sabia? Desde que se descobriram registros, só aconteceu vinte e uma vezes. – arregalou os olhos. – E a vigésima segunda é no seu aniversário!
- Meu nome não nega minha origem, então. – sorriu, novamente com uma ponta de deboche. Ele franziu o cenho, porque ela havia feito aquilo algumas vezes: quando falava de mergulho com tubarões, deuses gregos e... Bem, agora. Como se tudo não passasse de uma grande piada da qual só ela sabia e ria sozinha.
- Você realmente deve ser descendente dessa deusa. – resolveu ignorar as esquisitices que estava quase imaginando. Talvez estivesse confuso demais porque estava ridiculamente mais bonita que na noite passada. – E temos a prova de toda sua sorte: eu vou beijar você... A noite toda.
soltou uma risada calorosa, gostando da brincadeira. Ele deixou a garrafa da cerveja na mureta e se colocou entre as pernas da garota, erguendo a mão para roçar a ponta do dedo nos lábios cor de cereja. Ela arrepiou com o toque, fechando parcialmente as pálpebras e fazendo o coração de convulsionar de desejo. não precisava deixá-lo com tanta luxúria, mas ele sabia que não era intencional. Se ela nunca havia beijado antes, quem dirá ter feito sexo.
Não que ele estivesse achando ruim. Adoraria ensiná-la, se ela pedisse.
Os dois se beijaram em uma bagunça sensual de línguas. estava surpreso por ela ter “aprendido” tão rápido o que fazer para encontrar e dar prazer; as mãos delicadas apertavam seus ombros ou puxavam seu cabelo, sem deixar de trazê-lo para perto, como se tivesse medo de que ele sumisse à mínima distância de seus corpos.

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Agia Pelagia, Mar Egeu
O mar parecia incrivelmente mais azul do que o esperado e o sol torrava no céu, ainda sem atingir seu pico máximo. Se pudesse, os meninos diriam que foi obra de Deus criar as condições adequadas. O dia estava perfeito para um mergulho.
ajustou o cilindro de NITROX e apertou um pouco mais os óculos. A experiência de mergulhar era muito mais prazerosa quando não precisava ficar tirando fotos e anotando todas as descobertas logo depois. Ele queria curtir seu tempo debaixo d’água, gravando cada detalhe na memória e se desligando do mundo da superfície.
- Trinta minutos e subimos novamente, para decidir se ficamos mais. – ordenou, saltando do barco. – Tentem não se afastar muito.
fez um “ok” com as mãos e mergulhou. A pressão conforme descia já não o incomodava mais, porque era uma atividade feita com frequência. A água era de um azul maravilhoso, tão vivo e relaxante que seu corpo fluía sem resistência. Olhou no computador de mergulho e sorriu por estar no tempo adequado. Já havia chegado aos 12 metros e a maioria dos peixes estavam agitados, seguindo a oeste. Sinalizou para que sairia para longe e ele lhe deu um “ok” em resposta. Nadou rápido para não perder os peixes de vista, dando a volta entre algumas paredes de pedra e corais. Sua curiosidade ainda o poria em problemas, sabia, mas não podia evitar presenciar o que quer que deixasse os animais felizes.
Ou talvez devesse ter evitado.
A primeira reação que teve foi choque. Depois, pavor. E depois, uma sensação agridoce.
Choque por ver sentada em um coral, a 12 metros da superfície, sem aparelhos profissionais para isso e usando uma túnica. Pavor por achar que estava louco e delirando pela pressão. E a sensação agridoce, porque algo lhe dizia que ele já deveria ter esperado que aquilo acontecesse; como se tivesse recebido muitos sinais. E o tinha.
se escondeu em uma rocha, agradecido por não estar usando luvas e conseguir prender os dedos nas porosidades. Observou, quieto, enquanto um tubarão-martelo andava de um lado para o outro em volta dela, impossibilitando os peixes de se aproximarem. Para sua surpresa, esticou a mão e o animal se aninhou embaixo dela, como um cachorro ou gato a procura de carinho. Ela abriu um de seus sorrisos luminosos, fazendo com que o coração dele desse um salto.
Como era possível que, diante de toda a aberração que presenciava, ele ainda pudesse ficar encantado por ela como um adolescente apaixonado?
Sua cabeça pesou um pouco, a água entrando pela máscara e o fazendo engasgar. precisou apertar a bomba de ar e se odiou pelo excesso de bolhas e barulhos que aquilo fazia, sabendo que seria notado tão logo normalizasse a respiração.
Ele aceitou calado e hipnotizado, a derrota quando virou o rosto para o seu rumo. Os dois globos cor de mel brilhavam ainda mais naquela imensidão azul, a boca rosada tão convidativa como se lembrava... E ela estava insuportavelmente bonita.
- .
Um sussurro baixo, que ele não sabia ter sido dito ou apenas feito em sua cabeça.
- Oh, por Oceano, ! Saia daí.
Definitivamente aquilo era coisa da sua cabeça.
- Pedirei para Akheilos buscar você.
- Quem diabos era Akheilos? – ele questionou na própria mente, confuso com tudo.
- Akheilos, este é . , este é Akheilos. indicou o tubarão e o coral em que estava escondido. O tubarão-martelo, então Akheilos, nadou calmamente até ele, parecendo se divertir com o pânico que emanava .
- Segure sua barbatana ou nade ao lado dele. Akheilos é um ótimo amigo, não precisa ter medo. Sabe cachorros? Bem, esse é o meu cachorro. – ela disse simplesmente.
- Como estamos conversando? Como você sabe o que eu estou pensando?
- Você está em meu domínio, . Aqui tudo vejo e tudo posso, felizmente.
- Seu domínio? Você não era de Santorini? Pelo amor de Deus, ! Estou tendo uma daquelas alucinações bizarras por causa de algum gás tóxico na água? Será que a maré-vermelha já está chegando?!
O tubarão ficou parado um pouco abaixo dela, deixando que encarasse frente-a-frente. Ela sorriu encantada, depois soltou uma risadinha pela roupa que ele usava enquanto praticava o mergulho.
- Não. Você só está no lugar errado na hora mais errada possível. tocou a boqueira que ele usava para respirar, curiosa.
- Eu?! E você, hm? Que diabos faz uma moça no fundo do mar, sem roupas profissionais e conversando comigo pela mente? Você não deveria estar em Balos com sua irmã? – ele ainda não entendia porque continuava ali. Deveria ter dado meia volta e se juntado aos seus amigos, ignorando a experiência. Lidaria com ela como se fosse um trauma e, com muita sorte, talvez em duas semanas nem se lembrasse mais.
- B-bem, sim. Mas hoje é meu aniversário e Tritão fez uma surpresa para mim no Palácio... Eu não podia “não vir”, entende? Todos ficariam chateados comigo! E Akheilos estava me levando para Balos, porém fomos parados por inúmeros animais querendo me congratular. Não é todo dia que papai me deixa andar sozinha.
- Papai? Tritão? Palácio? Puta que pariu, eu estou delirando. – a história que Zahr contou parecia girar em sua cabeça.
- Se quer pensar assim... – ela deu de ombros, despreocupada.
- Eu estou agarrado a um tubarão, ! A porra de um tubarão-martelo, conhecido por sua agressividade e esperteza em capturar comida. Provavelmente eu mereço uma explicação mais elaborada do que isso, não acha? se surpreendeu com a própria raiva. Mas também, alguma coisa precisava fazer sentido!
- Claro. Podemos conversar hoje, conforme combinamos ontem? No bar...
- E você vai contar a todos? Porque se formos para o bar, eles não te deixarão em paz.
Antes que pudesse responder, Akheilos se agitou e ela captou a mensagem.
- Esconda-se! N-não, espere! Volte para os meninos e terminem o mergulho! Ah, por Oceano, papai vai me matar. Rápido , vá, vá.
- O que foi? – se assustou.
- Tritão está vindo. Alguém o avisou que estou com um humano!
- Seu pai é Tritão?– pronto, estava realmente louco.
- Tritão é meu irmão mais velho. Vá, ! Não posso pedir para Akheilos te deixar lá, afinal, seus amigos vão se assustar e querer machuca-lo. Vá!
Sem muita opção do que fazer, ele começou a nadar. Quando deu por si, Akheilos estava logo atrás, em uma distância segura e que não transmitia perigo algum aos “olhos humanos”. Provavelmente o pediu para “escoltá-lo”.
apertou o maxilar e se focou em normalizar a respiração. Aquilo tudo era maluquice. Tritão? Festa no Palácio?! Ah, pelo amor de Deus! Em pleno 2017 e ela queria que ele acreditasse naquela baboseira mitológica toda?! precisava de uma explicação muito melhor para ele. Se bem que... Qual a explicação mais lógica para uma humana estar à 12m da superfície sem equipamentos, acariciando um tubarão “dócil” e falando com ele por telepatia? Sim, sim. precisaria de uma explicação fenomenal.
Uma mão em seu antebraço o tirou do transe. olhou para o lado e viu de olhos arregalados, apontando freneticamente para trás. Ele se virou e viu Akheilos. Ah, é claro que não sabia que o animal era manso! teve dificuldade em aproveitar o resto do mergulho.

Eros estava escorado no ombro de Rode, enquanto Apolo tinha apoiada em seu peito, aproveitando o fim de tarde. As ondas começavam a adquirir um característico brilho vermelho, como se o sol realmente estivesse se dissolvendo na água.
- E então papai te proibiu de voltar? – Rode ergueu uma sobrancelha.
- Tritão me proibiu, papai ainda não sabe... Eu acho.
- Viu?! Eu sabia que teríamos problemas aqui na superfície! Pedi milhões de vezes para não subirmos, porém papai disse que era injusto. – ela resmungou, irritada. – Agora estamos aqui: correndo risco dos mortais nos descobrirem.
- Você não deveria ter contado, coração. – Apolo suspirou. – Eu não vejo problema em saber a verdade, desde que seja apenas ele. Eros já nos disse que ele é o escolhido, portanto saberia uma hora ou outra.
- Mas nem gosta dele!
- Não é que eu não goste dele, Rode, é só que ainda estou confusa com tudo isso. é menino legal, e se eu tivesse o mesmo tempo que você e Morfeu têm para ficarem juntos, provavelmente estaria bem apaixonada! – rosnou.
- Isso não tem nada a ver com tempo, mana. Ele é um mortal!
- E daí, Rode? Desde quando o amor tem especificações?
- Desde que criamos a porra do mundo, ! – a mais velha explodiu. – Põe nessa sua cabeça ingênua que isso não existe. A conta não bate. Deuses e mortais não dão certo!
recuou minimamente, magoada com as palavras da irmã. Ela ouviu Anteros dizer que Rode havia “pegado pesado”, porém não teve nenhuma outra reação a não ser se aninhar mais ao peito de Apolo.Discutir era um desperdício de vitalidade. Então, preferiu continuar admirando o mar da superfície e fingir que tudo estava bem, que estava tendo um ótimo aniversário.
Rode estava certa sobre ela não amar . Oras, eles mal se conheciam! Mas, quando brigou com Tritão experimentou um pânico inexplicável ao pensar que não poderia voltar e vê-lo. Já seria tremendamente difícil viver sem poder andar entre os mortais, e então, ela também teria que ficar sem os beijos de , sem o fogo agridoce que queimava cada célula dela quando ele a tocava.
Foi só quando as ondas estavam completamente mudadas que ela se tocou: ele não viria mais. E teve que voltar ao fundo do mar com seus temores se tornando realidade.

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1 ano depois, Samaesan, Tailândia
Can’t I reach you even if I follow you?
Can’t I catch you even if I hold out my hand?
Why are you so far away?
This long night is only filled with my deep sighs


acordou antes do despertador, naquele último minuto crucial do sono, aquele que faria uma falta absurda durante o dia. Ele ofegou e arregalou os olhos, como se tivesse acabado de se libertar de um sufoco... Faria sentido, pois sonhou que estava se afogando. Perdera as contas de quantas vezes tinha acordado em mesma situação, apenas com a lembrança de um par de olhos cor de mel o olhando com imenso desprezo, enquanto ele se debatia em busca do ar da superfície para continuar vivo.
Talvez fosse só o medo de mergulhar em um local perigoso – o Buraco de Samaesan era um dos locais utilizados pelos EUA para guardar munição e barris de petróleo durante a 2ª Guerra Mundial –, porém estava tenso. Sentia saudades de , não negaria, porém conseguia levar a vida. Bocas e corpos eram apenas isso: bocas e corpos. Mas, já dizia , “Ninguém morre de amor”, e isso virara seu lema.
Arrependimento era uma sensação muito ofensiva para que aceitasse sentir. Sabiaque deveria ter ido procurá-la aquela noite, que ela lhe daria respostas, mas, ele também não queria ter que encarar todo o pacote que a verdade vinha acompanhada. Apesar de viver pelos cantos suspirando “Meu Deus”, era cético. Não acreditava em nada, então como explicar a si mesmo e sua “origem”? Aquilo estava acima do plano espiritual em que se encontrava; portanto ele desistiu. Claro, as pesquisas que fez sobre Mitologia Grega eram provas (embora contestáveis) fortes que não mentira para ele, mas, ainda assim, tinha dificuldade em acreditar.
Os primos dela eram filhos de Afrodite e cupidos? Sim, ouvira algo parecido deles próprios, mas... E se fosse uma pegadinha muito bem feita?! Uma que sempre acontecia em Creta com um turista desavisado, por isso ela estava dentro do mar com um tubarão e sem equipamentos! Às vezes era tudo muito bem ensaiado...
Só que, ao mesmo tempo, parecia impossível que fosse.
Ele sacodiu a cabeça e espreguiçou. Só perderia energia ao pensar em , então a empurrou para o fundo do consciente e fez que o aprendera a fazer de melhor: ignorar.
- Acorda, cara. – se esticou e cutucou a cama de com o pé. Ele resmungou algo e se virou, tampando o rosto. – Acorda, ! – usou mais força.
- Já vou, porra. – resmungou. – Pode se arrumar na frente.
Rindo fraco do mau humor, pegou suas coisas e foi para o banheiro.

Os barris de petróleo foram a primeira coisa que os meninos viram. Apesar de a claridade estar mais escassa do que quando submergiram, ainda não estavam usando lanternas – apenas os flashes das câmeras. A correnteza da água era realmente mais forte do que esperavam, porém ainda sim conseguiram manter um ritmo efetivo na exploração. e estavam encarregados das fotos, enquanto e filmavam tudo. Eles estipularam que gastariam de quarenta minutos à uma hora para recolherem todo o material que necessitavam. Caso precisassem de mais, voltariam à superfície e decidiriam como fazer.
Quando chegaram perto das cavernas, preferiu usar a lanterna. Era arriscado demais que entrasse ali sem muita luz. Além de muita correnteza e quase nenhuma claridade, as cavernas também continham bombas que não explodiram... Mas poderiam. Ele ligou algumas pequenas lanternas em seu equipamento e também uma de mão, com habilidade de sobra para segurar a câmera e o outro objeto.
Entretanto, por ser um ambiente escuro e cavernoso, só tinha noção do que via à frente ou de rabo de olho, por isso não soube que o “teto” das cavernas continha pequenas formações de estalactites, e que suas pontas poderiam machucar ou agarrar em alguma coisa. Ele estava nadando com cuidado, mas ainda não era suficiente.
Abaixando-se um pouco para filmar uma pequena vala, o corpo dele se projetou com o tronco para baixo e as pernas para cima, e quando voltou para a posição normal, o fez com muita rapidez, batendo as costas no teto. Ele tentou continuar nadando, mas algo estava o prendendo através do cilindro ou da mangueira (mas não saberia dizer, porque não estava muito claro). Com mais cuidado do que da primeira vez, puxou o lastro para baixo e desinflando as bolsas, tentando afundar um pouco. Deu até certo, mas a mangueira de oxigênio pareceu afrouxar, porque ele começou a ver e ouvir muitas bolhas. Certo, não era a hora de entrar em desespero. precisava sair dali para a claridade e conseguir apertar a mangueira novamente.
Droga, droga, droga.
Usando toda a técnica para nadar sem gastar muita energia, ele conseguiu chegar até quase o inicio da caverna, e teria saído, se não fosse seu jacket (colete) se prendendo outra vez. Ele queria soltar uma risada depreciativa, mas se manteve quieto e prendeu a câmera com a lanterna na roupa, ficando com as duas mãos livres. Ele desfez os fechos do colete, mas ainda o manteve no corpo para não perder o equilíbrio da flutuação. tateou as rochas para encontrar um lugar que pudesse manter uma mão enquanto consertava seu equipamento e evitar a correnteza forte. Mas, como se algo quisesse lhe provar que não tinha escapatória, o cilindro estava frouxo e com o movimento de passar o jacket para frente, ele começou a se soltar. se viu em um dilema: com uma mão só, precisava escolher entre manter o colete ou o oxigênio e a mangueira. Como? Não tinha ideia, mas se não se decidisse em poucos segundos, ele perderia os dois e ficaria sem ar, sendo levado pelas águas.
O ceticismo de não se aplicava à Lei de Murphy. Ele sabia que as coisas dariam errado... E no pior momento possível.
Aquela situação era precisamente um exemplo disso.
Quando o cilindro se desprendeu completamente, soube que morreria. Ele não conseguiria grudar a mangueira de ar sem se esforçar muito, e caso acontecesse, precisaria voltar à superfície, o que tornaria tudo mais difícil por estar sem o jacket.
soltou uma risada que saiu em forma de bolhas de ar preciosas.
Iria morrer fazendo o que mais gostava...
Iria morrer como havia sonhado naquela noite.
A única diferença é que não morreria olhando para os olhos de . E ele não soube dizer se aquilo era um alívio ou uma grande tortura.

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A sensação de vazio era imensa. Era um vazio que corroía e crescia a cada segundo, aumentando o desânimo e intensificando a angústia. se sentia ridícula. Nem Apolo, nem Eros, nem ninguém conseguia animá-la. Aquele ditado brega sobre “Só damos valor quando perdemos” era tão verídico que ela sentia vontade de chorar.
Por que ele ainda não a procurara?
Será que havia ficado com medo?
Akheilos rodopiou em volta dela, balançando a cabeça de forma estranha. Ele andava cada vez mais agitado, contrapondo com a quietude que se enfiou desde que voltara de Creta. O tubarão se movimentou outra vez, irritando-a.
- O que foi, caramba?! – perguntou brava.
Akheilos nadou até uma das caixas que guardava seus dracmas e a derrubou no chão, como um daqueles gatinhos petulantes que os humanos amavam ver em vídeos da internet. se levantou num pulo, arregalando os olhos.
- Akheilos! – ela resmungou. – Agora vou ter que catar tudo! Seu tubarão malvado! Vá, está de castigo. Vá para sua caverna! – ordenou.
Mas o bicho continuou sem se mover.
- Akheilos, vá!
pegou um punhado de moedas e colocou novamente na caixa, só para Akheilos virá-las no chão outra vez. Aquilo era a gota d’água, literalmente.
- Akheilos, eu vou pulverizar você, rapaz. Não me irrite! Vá para sua caverna, já!
O tubarão jogou algumas moedas para o alto e chacoalhou a cabeça, como se indicasse algo. Foi então que ela compreendeu o que ele queria.
-Você quer chamar alguém? – ergueu uma sobrancelha. – Mas quem? Apolo? Rode? Pothos? Eros? Tia Afrodite? – Akheilos continuava imóvel. – Por Íris, Akheilos, quem?!
Ele se agitou à menção da deusa.
- Íris? – ela franziu o cenho. – O que quer com Íris, querido?
Se Akheilos pudesse falar, ele com certeza teria xingado de “burra” e feito uma “facepalm”. Era realmente horrível que tubarões tivessem inteligência, mas não voz. Sem muita opção do que fazer, girou uma moeda para cima e fez sua oração.
- Finalmente, garota! – a imagem trêmula de Íris se fez presente.
- Akheilos quer falar com a senhora. – indicou o tubarão.
- Ele não quer, eu quem queria falar com você. – a deusa abanou a mão. – Seu mortal está em perigo, . Em grande perigo.
- Meu mortal? – levou até o fim da frase para se tocar. – ?
- Por acaso encontrou outra pessoa? Claro que é ele!
- Em perigo como? O que houve?
- Está mergulhando em um local instável e, se tudo ocorrer como recebi, perderá seus equipamentos. – ela falava rapidamente. – Preciso que você corra para salvá-lo! Tentei avisá-lo em sonhos, mas ele me ignorou solenemente. Seu Tio Zeus chegará em poucos minutos para organizarmos uns protocolos e não conseguirei te ajudar.
- Mas o que é que eu faço, Íris? Não sei nem onde ele está! Que horas isso vai acontecer? – começou a sentir pânico.
- Está acontecendo. – Íris nem se preocupou em ser delicada.
- C-como?! M-mas... – arregalou os olhos.
- Querida, eu sei, eu sei. – a deusa encarou um relógio. – Por Moros, eu não queria fazer isso. – suspirou. – , se você não correr, não chegará a tempo. Sabe que não posso falar com clareza sobre como proceder, mas porque a adoro de coração quebrarei uma regra e lhe darei uma dica: a um deus não se nega um kairós.
E como se nunca tivesse aparecido, a névoa de Íris sumiu.

A um deus não se nega um kairós.


passou as mãos pelo cabelo, tentando não deixar o pânico atrapalhar seu raciocínio. Kairós, para mortais, seria “o momento certo/oportuno”; para os deuses, ele era o momento crucial de evolução, algo indeterminado no tempo comum. Em outras palavras, acontecia quando um deus recolhia sua arrogância e “abaixava a cabeça” para o tempo e o destino, aceitando-o como verdade incontestável. Era quando um deus evoluía de um ser egoísta para um ser mais espiritualizado e muito mais poderoso.
Entretanto, nunca achou que esse momento chegaria para ela.
O destino estava nas mãos de Moros, e o tempo... O tempo estava... sorriu. Sabia para quem deveria correr, e sabia que ele não lhe negaria absolutamente nada.
- Akheilos, dê-me um óbolo, preciso falar com meu tio. – não tinha tempo para ir até o submundo através de Caronte, pelo Rio Estige, mas não poderia entrar no reino de Hades com um dracma. O máximo que seu tio faria seria rir de sua cara e lhe mandar de volta para casa, provavelmente fofocando para seu pai depois.
ganhava óbolos de Perséfone ou de Afrodite, escondido, e tinha que usá-los com parcimônia, porque não era sempre que elas podiam lhe dar. Se Poseidon um dia sonhasse que possuía óbolos clandestinamente – sem lhe pedir –, ele começaria uma guerra. Se tudo ocorresse bem, o dia da guerra seria exatamente este. Ela jogou a moeda para o ar e esfregou as mãos, recitando a prece diretamente para Hades.

Ele que tudo vê, mas não é visto.
Leve-me, Caronte, a Hades, o Invisível.


Quando ela abriu os olhos, estava sozinha na porta do palácio do tio. Bem, nunca havia tentado a viagem antes, mas ficou satisfeita por conseguir de primeira. Agradeceria Perséfone por ter lhe ensinado a reza correta, ao invés de Apolo, que amava ensiná-la os caminhos mais complicados para qualquer coisa que precisasse fazer.
- Uma filha de Poseidon. – uma voz gelada rompeu pelos portões. – Deixem-na entrar.
se curvou em uma perfeita genuflexão para Cébero, que foi quem lhe autorizou a passagem. Ela correu para dentro, pois qualquer segundo desperdiçado era crucial. Ao passar pelo primeiro corredor, topou-se com o tido.
- Ora, ora. – o homem sorriu com escárnio. – A que devo a honra, Princesinha do Egeu?
- Tio! – ela puxou o ar. – Preciso ver o vovô. Preciso vê-lo urgentemente!
- E para quê? Sabe que se eu deixá-la se aproximar dele seu pai irá querer me ver no fundo do Tártaro, não sabe?! – Hades se apoiou na parede. – O que ocorre?
- É, literalmente, uma questão de vida ou morte. Eu respeitaria as decisões do Olimpo de não procurá-lo para pedidos se houvesse outra solução. Por favor, tio, só o senhor sabe chegar lá de um jeito rápido. – ela juntou as mãos.
Bem, lá estava o início de seu Kairós. estava prestes a implorar de joelhos.
- Ora Hades, ajude-a logo. Não vê que está desesperada? – Perséfone surgiu do topo da escada. – Íris me avisou tão logo terminou com você, . Iremos ajudá-la, sim, querido?! – pelo tom de voz, soube que Hades não contestaria.
- Pois bem, pois bem. – ele abanou uma mão. – Depois quero explicações. Vamos, projetinho de peixe. – Hades a tomou pelo braço, falando algo baixo e sumindo.
se viu de frente a um abismo. O cheiro era estranho, quase como se tristeza, raiva e angústia tivessem cheiro. Hades se afastou um pouco, dando-lhe privacidade.
- Vovô? – ela limpou a garganta. – Oi, vô, sou eu.
Diferente da maioria dos deuses da segunda geração do Olimpo, era uma das únicas a se referir à Cronos como “vô”. O resto, bem, o resto fingia que ele não existia.
- , doçura? – a voz metálica e grave ressonou do fundo do abismo.
- Oi, vô! – ela sorriu. – Me desculpe aparecer, assim, do nada. É que preciso muito da ajuda do senhor. – pigarreou outra vez. – Sei que não pode usar seus poderes para qualquer coisa, mas, como isto seria um ato honroso, acho que consegue fazê-lo. E posso pedir para meus tios te concederem algumas horas fora do Tártaro se tudo der certo. – ela cruzou os dedos, com esperança. – Pode tentar me ajudar?
- Se já conhece as limitações, não vejo porque recusar. tinha certeza que Cronos sorria. Ele não tentaria barganhar nem chantageá-la, tinha certeza. Só de mencionar em liberá-lo da tortura do Tártaro por algum tempo conseguiu ganhá-lo. Além disto, sempre esteve em seu bom lado, chamando-o de “avô” e mimando-o como possível. – O que é que precisa?
- Acha que conseguiria congelar o tempo por... Uma... Uma meia hora, talvez?
- Esse é um pedido muito extremo, doçura. O impacto de meia hora no mundo mortal seria muito intenso. – Cronos ponderou. Hades, ouvindo-os a certa distância, franziu o cenho para a sobrinha. Agora entendia o estresse que Poseidon vivia.
- Sim, imagino. M-mas... Mas é uma questão de vida ou morte, vô! – o coração de pareceu encolher. Então ela compreendeu todo o sentido do Kairós para ela. Ajoelhando-se, se curvou em uma pose completa de submissão. – Ele é meu escolhido, vô. Eros viu as cores de nossas auras, são iguais. – começou. – Nós nos conhecemos no meu aniversário, mas acho que o assustei, porque ele fugiu de mim. Agora, Íris o viu morrendo no fundo do oceano, e se eu não chegar a tempo, vou perdê-lo para sempre. – ela sentiu vontade de chorar. Nada estava cooperando! Enquanto estava ali, poderia estar realmente morrendo, e tudo seria em vão. – Sei que o senhor tem milhares de motivos para ignorar meu pedido, mas peço que não o realize pensando em papai ou nos meus tios. Realize-o pensando em mim, sua neta. Uma neta que nunca o descriminou apesar de tudo o que cresceu ouvindo; uma neta que sempre fez questão de visitá-lo e amá-lo, apenas porque é meu vô. Uma neta que nunca te pediu nada até então. E a única coisa que quer é salvar o mortal que ama.
Hades queria tossir de desconforto, mas estava parcialmente comovido. Sabia como era complicado para deuses lidarem com seus mortais, então imaginou que estava gastando toda sua força e humildade para estar ali, traindo o próprio pai ao pedir ajuda a um titã. E foi por isso que resolveu não interceder.
- Muito bem, doçura. – Cronos assentiu. – Quinze minutos e nada mais.
- Obrigada, vô! Obrigada, com toda a gratidão que possuo! – ela esfregou as mãos em um gesto de agradecimento. – Assim que eu tiver tudo resolvido voltarei para lhe agradecer propriamente e conseguirei suas horas. Obrigada, vô. De verdade.
se levantou em um pulo, olhando para Hades. Ele não precisava ouvi-la para saber que queria voltar ao palácio, e provavelmente para sua casa. Do mesmo modo que a trouxe, a levou. Ela o puxou para um abraço apertado.
- Obrigada, tio, obrigada mesmo! Nunca me esquecerei! – comemorou.
- Pois esquecerá, sim. gelou em seu lugar ao ouvir outra voz forte.
- Pai? – ela se virou assustada.
- Estou tentando compreender que deficiência você possui para visitar Hades e Cronos sem meu consentimento! – Poseidon rugiu, gesticulando com seu tridente. – Isso lhe custará caro, mocinha! Quando vejo, tudo mortal está pausado e sinto perigo envolvendo-a aos poucos. A presença do meu pai fica mais forte. Achava mesmo que eu não saberia, ? – ela se encolheu com a fúria estampada em cada palavra.
- Mas, pai... – tentou achar alguma desculpa.
- O fez por amor, Poseidon. – Hades se intrometeu. Odiava brigas familiares em sua residência, e odiava ainda mais que tivesse que participar delas. – Deixe-a ir.
- Fique quieto, Hades. – Poseidon o indicou com o tridente, todo pomposo. – De todas as loucuras que já lhe deixei cometer, , esta ultrapassou todos os limites! Você não pode se intrometer no destino e no tempo dos mortais; quantas vezes já lhe expliquei isso?! E agora, como se não bastasse, vem atrás de um titã!
- Pai! – gritou desesperada. Estava em pânico, porque seus minutos diminuiriam conforme Poseidon lhe desse o sermão, e morreria. – Pai, ele está morrendo!
O deus parou por um momento. De quem ela estava falando? Seria o menino do aniversário?! O mortal, outra vez?!
- Sei que errei, admito e tomarei a punição necessária, mas deixe-me salvá-lo primeiro! Eu ainda nem sei onde ele está, preciso vasculhar o oceano todo! – ela juntou as mãos em prece, pedindo-o como fazia quando era pequena. – Eu prometo ouvir quantas broncas quiser me dar, mas preciso salvá-lo antes.
Poseidon queria suspirar e mandar tudo para o Tártaro, mas não conseguia. Sua filha estava prestes a chorar... Por causa de um mortal.
- Como é que quer ajudá-lo se não sabe onde ele está? Por que veio, então?
- Íris não conseguiu me dizer, mas eu posso colocar todos no mar em alerta. Algum tritão, sereia ou nereida saberá onde existem mergulhadores e o acharão.
- Isso também levaria tempo. – Poseidon se odiou por começar a compactuar com a maluquice da filha. – E você não pode interferir no destino de um mortal!
Mas e se o destino dele não fosse morrer naquele momento? E se Poseidon, na verdade, fosse quem estivesse interferindo na vida do garoto?! Ele ouvira Afrodite dizer que o tal mortal era o escolhido, e sabia disso porque conseguia sentir a energia da filha em outro ponto do oceano, algumas vezes, que não fosse onde ela estava. Se eles voltassem ao mar, Poseidon não gastaria nem dois minutos localizando-o. E sabia disso.
- Pai, por favor! – ela tentou sacudi-lo. – Pai, por Oceano, por favor, não o deixe morrer. Não o deixe morrer! – os olhos cor de mel brilharam mais intensos, e Poseidon reconheceu um sentimento que há tanto não via: amor. Único, simples e cru.
E com uma batida do tridente no chão, Poseidon cedeu.

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Buraco de Samaesan, Tailândia
Duas nereidas conseguiram desprender o colete de mergulho de uma rocha, e outra nereida encontrou a mangueira. Poseidon e Tritão só fizeram olhar, enquanto Rode ajudava a irmã a puxar o garoto do fundo da caverna.
O coração de martelava no peito em pura agonia, porque sabia que os minutos estavam passando e eles ainda estavam muito fundo. parecia ter passado por uma paralisia ou algum sufocamento, mas ainda havia sinais vitais. Ela lidaria com explicações às outras pessoas depois; por enquanto, só queria levá-lo à superfície e a algum lugar onde pudesse deitá-lo e examiná-lo melhor.
- Pégaso ainda está lá em cima. – Rode ergueu a cabeça, apontado para acima das águas.
-Vou com ele até lá, então. Quanto tempo ainda temos? – procurou o cordão de Hades, que marcava as horas de Cronos. – Quatro minutos. – suspirou.
- Teríamos mais se Tritão não tivesse nos alugado com aquele chilique horrível.
- Isso não importa agora, Rode. – deu de ombros, colocando os braços de em volta de seu pescoço e o apoiando em suas costas. – Obrigada pela ajuda.
- Eu fui uma irmã horrível naquela época. – Rode encolheu os ombros. – Mas não gostaria nunca que Morfeu morresse, ainda mais se eu pudesse evitar.
- Obrigada. – sorriu minimamente. – Conversaremos melhor depois, agora não tenho tempo! – ela estava para nadar até a superfície quando Poseidon se aproximou.
- Ele vai precisar. – seu pai lhe estendeu um frasco de néctar.
- Obrigada, pai. – ela sorriu genuinamente. – De verdade.
- Sim, sei. – ele pigarreou. – Agora vá. Pégaso a ajudará dali.

Para sua sorte, a ilha mais próxima do barco onde provavelmente teria navegado parecia desabitada. Pégaso conseguiu pousar com cuidado e se pôs a pastar em um canto estratégico, para caso precisassem escapar. Ela abriu um pouco da roupa de mergulho de e passou as mãos pelo pescoço dele, tentando achar algum indício de batimento, mesmo que fraco. Quando capitou, desfez a tampa do frasco e abriu delicadamente a boca de , despejando algumas gostas. Se colocasse tudo, poderia causar a morte dele acidentalmente.
Houve uma quebra de tempo, indicando que o efeito de Cronos havia terminado.
- Por favor, por favor. – sussurrou enquanto massageava o peito de , sem nem saber o motivo de fazê-lo. Se ele tivesse engasgado com água, teria que vomitá-la, não? Ela não havia lido sobre primeiros socorros em mortais!
Com uma tossida fraca, mexeu os dedos. A tossida aumentou, se tornando rítmica e forte. Ele se curvou para frente e continuou tossindo.
- ? Está melhor? Tome mais um pouquinho. – ela o puxou para trás, derrubando outras gotas na boca dele.
O líquido era quente e se parecia com mel, melhorando a ardência da tosse. tinha a vaga impressão de ter ouvido a voz de , mas a força com que fora puxado só poderia ter sido de . Graças a Deus, alguém o havia encontrado.
- Obrigado. – ele abriu os olhos, massageando a garganta. E se engasgou novamente. ?!

De todas as loucuras que lhe teria acontecido...
- !
- Eu. – ela sorriu fraco. – Está melhor? Espere, não se esforce tanto, venha, deite-se um pouco. – indicou o próprio colo. – respire devagar. – orientou.
- O que você está fazendo aqui? – ele não queria soar rude nem irritá-la, portanto se deitou como instruído. – Não deveria estar na Grécia?
- Você estava em perigo e eu vim resgatá-lo, conforme Íris previu.
- Desculpa, acho que ainda tem água no meu cérebro. – ele forçou um sorriso. – A gente pode conversar disso depois? Quer dizer, se você for ficar...
- Para alguém que quase morreu, você fala demais, . – sorriu carinhosa.
- Como você chegou a tempo? – tossiu.
- Basta dizer que você teve sorte. – ela afastou um pouco da franja dele da testa.
- É, sorte. – ele sorriu manhoso, fechando os olhos para saborear o toque dela melhor.
resolveu, naquele mesmo segundo, que acreditaria em qualquer coisa. Estava disposto até a acreditar que o céu era amarelo, se precisasse. Ele acreditaria no que fosse, se isso fizesse com que continuasse ao seu lado.



Fim.



Nota da autora: Olá, flores! Espero que tenham gostado! Confesso que fiquei muito insegura quando peguei a música, mas depois que resolvi juntar Mitologia Grega com EXO, as coisas fluíram muito bem!
Essa foi minha primeira vez postando alguma fanfic minha no FFOBS, e estou muuuuito realizada, viu?! Comecei lendo fics pelo Orkut, mas assim que descobri o site minha vida mudou e é maravilhoso saber que tem algo meu aqui!
Bem, obrigada por separarem um tempinho para ler a fanfic.
Quem quiser me encontrar no twitter, eu sou a @mariadrauhl / @borninbusan1stt
Beijocas!





Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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