Última atualização: 06/11/2017

Jeju Island

Não era a primeira vez que tinha adormecido no ateliê da L-SJ em meio aos meus croquis, ou melhor, em meio aos montes de papéis amassados de rasgados, não conseguia entender a causa do meu bloqueio criativo. Talvez fosse a grande pressão que estava sofrendo, as últimas coleções não haviam alcançado boas críticas, menos ainda vendas, aumentando ainda mais meu sentimento de culpa.

?! — disse Ellie ao adentrar no mezanino onde estava — Você passou a noite aqui?
— Sim. — me espreguicei da cadeira — Precisava tentar desenhar algo, mas não consegui como sempre.
— Você está forçando demais, retrucou ela, sempre me disse para deixar fluir. — retrucou ela colocando algumas revistas que estavam em suas mãos, sobre a mesa.
— Ah, você já chegou. — disse Clair ao terminar de subir as escadas, parecia estar em fôlego — Que bom.
— Para ser sincera, ela nem foi embora. — explicou Ellie.
— O que?! — Clair me olhou admirada.
— Nada demais. — me levantei da cadeira — Mas porque veio correndo?
— AH, o chefe chegou acompanhado e quer vê-la. — respondeu ela — Imediatamente.
— Sério? — olhei para os papéis amassados na mesa — Estou com dores no corpo, minha cabeça não está pensando direito, não quero ver ele agora.
— Me parece sério. — insistiu Clair.
— Você é a responsável por tudo isso. — Ellie olhou em volta — Trate de ir lá e ver o que ele quer.
— Sim senhora. — disse meio emburrada.

Ellie e Clair riram baixo, enquanto eu me dirigia para a escada, chegando no térreo os outros funcionários já estavam entrando pela para para mais um dia de trabalho. Me virei em direção a sala de James, tentando fazer cara de quem havia dormido oito horas de sono, como manda a medicina moderna, mas acho que não estava funcionando. Já que a senhora Poppy fez questão de me barra no corredor e me dá uma xícara de café bem forte.

Bati duas vezes na porta e logo a voz de James, ecoou de dentro me dizendo para entrar.

— Bom dia. — disse assim que entrei já fechando a porta — Disseram que queria falar comigo.

Olhei de relance para o homem trajando roupas sociais aparentemente muito bem modelada e costurada com perfeição para seu corpo, me deixando um pouco intrigada com os acabamentos da roupa, contrastando com aquele all star branco. Estava de pé em frente a janela, observando a vegetação no jardim na lateral do edifício, porém voltei meu olhar para James, mantendo minha atenção bem longe da sala, já que ele costumava sempre fazer um longo discurso antes de finalmente chegar ao assunto exato.

— Sim, quero o quanto antes de apresentar o novo sócio da L-SJ. — James estendeu a mão direita para o homem em apresentação — Senhor Cho.

Desta vez ele havia ido direto ao ponto.

— Novo sócio? — sussurrei olhando para o homem novamente, que se virou e me olhou de volta.
— Por favor, me chame somente de . — disse ele esticando a mão em cumprimento.
— Pode me chamar de . — retribui o cumprimento — Posso entender toda essa negociação?
— Claro, sabe que estamos passando por alguns problemas financeiros, a família de possui uma empresa no ramo têxtil, que atualmente quer investir mais ainda no mercado da moda. — explicou ele tranquilamente — O que nos motivou a fechar um acordo benéfico para ambas as partes, vou continuar com minha empresa, sendo sócio minoritário, enquanto a empresa dele financia nossas coleções.
— Claro que vai depender se a próxima coleção for um sucesso. — completou mantendo seu olhar em mim — Minha empresa não pode gastar sem obter lucros depois.
— E aonde eu entro nesse acordo? — perguntou um pouco insegura.
— Bem… — James protelou um pouco — A próxima coleção será de relançamento da L-SJ, e se não for promissora, poderá ser sua última.
— O que? — o olhei abismada — Como assim minha última, eu sou estilista dessa marca há quase cinco anos, praticamente fundamos essa empresa juntos depois na universidade.
— Acho que não entendeu senhorita, mas esta marca agora é um investimento da empresa da minha família. — deu um passo em minha direção — E tudo que não dá lucro para nós, é descartado.
— Então eu serei descartada? — tentei não alterar meu tom, mas estava irritada demais — É isso que está dizendo? Acha que não sou uma profissional capaz?
— Bem, suas coleções atuais podem me dizer isso. — respondeu ele serenamente.
— Você nunca ouviu falar em bloqueio criativo? — indignação era o que eu estava sentindo — Nem sempre tudo sai como queremos.
— Não me importo com essas desculpas de profissionais que não conseguem fazer o seu trabalho. — sua voz continuava na mesma entonação suave — Repito minhas palavras, tudo que não dá lucro, é descartado.
— Por que não nos acalmamos?! — disse James tentando intervir em nossa pequena conversa.
— Não vou me acalmar, se acha que pode conseguir algo melhor. — mantive meu olhar em — Então procure outra estilista, sou eu que estou descartando a L-SJ da minha vida.
?!

Nem mesmo deixei James terminar e saí da sala em fúria. Que aquele coreano acha que é? Me tratar como se eu não fosse nada para a marca que me dediquei tanto por cinco anos. Subi correndo as escadas para o ateliê e fui em direção a minha mesa, estava tão nervosa que minha mãos até tremiam, eu tinha que me acalmar, mas aquela afronta em conjunto com minha tpm me faziam querer explodir.

, o que está fazendo? — perguntou James ao adentrar.
— Estou me descartando, antes que o outro faça isso. — disse num tom ríspido, enquanto colocava algumas coisas em uma caixa — Estou cansada e não vou aceitar isso.
— Espera. — ele segurou de leve em meu braço, me fazendo parar — Você está muito nervosa, e pelo que parece nem foi para casa ontem.

Seu olhar em minha mesa cheia de papéis, o deixava perceber nitidamente os fatos.

— Sei que está se sentindo pressionada, mas não nos deixe. — pediu fazendo uma cara de cachorro sem dono — Nós dois sabemos que a L-SJ não existe sem você, como disse há alguns minutos, você me ajudou a fundar essa empresa.
— Não enxergo a L-SJ como uma empresa, essa marca é a base de uma grande família. — sorri de leve — Mas esse sócio que arrumou está querendo desmoronar tudo.
— Por isso preciso de você. — ele segurou em minha mão — Eu só tenho quarenta por cento agora, precisamos de grana e você é a única que pode manter todos nós unidos.
— Eu não estou conseguindo desenhar mais nada. — retruquei dando um suspiro cansada.
— Eu acredito em você. — ele sorriu — Sei que consegue.
— Vou pensar. — sorri de leve.

Estava tudo bem, até meu olhar atravessar meu amigo e chegar na causa do meu quase desemprego, estava parado ao lado da escada, de braços cruzados me olhando.

— Então, já arrumou suas coisa?! — perguntou ele num tom irônico.

Eu dei um impulso para ir até ele, mas James me segurou discretamente.

— Já está tudo acertado, irá nos ajudar com a coleção de relançamento. — explicou James.
— Hum, interessante.
— Vou pelo meu amor a marca, mas tenho minhas condições. — disse de imediato.
— O que? — ele riu de leve — Você se auto demite e quer fazer exigências? — deu alguns passos até mim — Estou curioso agora.
— Eu quero escolher todos os materiais na nova coleção, principalmente a parte têxtil. — disse em provocação a empresa da família dele — Além de estar a frente de toda a parte criativa, incluindo o desfile de lançamento.
… — James me olhou surpreso — A empresa dele irá nos fornecer os materiais.
— Repito minhas palavras, eu quero ter o direito de escolha. — cruzei os braços mantendo meu olhar em .
— Acha que minha empresa não tem produtos de qualidade?! — ele sorriu de canto — Tudo bem, você terá o direito de escolher, mas também tenho minhas condições.
— Olha… Diga então. — cruzei os braços.
— Primeiro eu irei escolher o tema da coleção, segundo quero que toda a parte de criação seja feita na ilha de Jeju, onde se localiza nossa matriz. — ele sorriu de canto esticando a mão — Temos um acordo?! Ou você acha que não conseguiria trabalhar do outro lado do mundo?!
— Challenge accepted. — apertei a mão dele confiante — Então, qual o tema?
— Islands. — respondeu ele se afastando um pouco — Sua coleção será lançada no evento de aniversário da minha empresa, que será realizado daqui daqui três meses.
— O que? Três meses?

Estava bom demais para ser verdade.

— Good luck. — disse ele caminhando em direção a escada.
— Hummmm. — eu me contorci um pouco de raiva — Esse coreano, está me deixando ainda mais irritada.
— Ei, se acalma. — James encostou de leve em meu ombro — é somente um homem de negócios que não quer perder dinheiro, além do mais não é só o seu pescoço que está na guilhotina.
— Como é?! — o olhei confusa.
— Esquece. — ele respirou fundo — Pegue sua bolsa e vá para casa, precisa de um dia de descanso.

Mesmo sem entender, somente assenti e peguei minha bolsa. Era um fato que minha noite em claro no ateliê não tinha rendido nada, apenas uma leve enxaqueca seguida de fortes dores na coluna. Voltei para casa de metrô, ainda não entendia a profundidade do motivo, mas meus altos momentos de inspiração eram sempre dentro do metrô no caminho para casa. Acho que havia me esquecido disso.

Ao chegar no meu apartamento, joguei a bolsa no sofá e fui direto para o banheiro, precisava mesmo de um banho relaxante e não iria economizar desta vez, ainda mais depois do estresse que passei graças ao novo sócio. Enchi minha clássica banheira vitoriana, nem me lembrava quando tinha conseguido encontrar aquela por um bom preço e estado de conservação, o que me fazia pensar que devesse usar mais de algo que comprei com tanta dificuldade.

Assim que entrei, meu corpo logo relaxou com a água quente combinada as espumas, fechei os olhos tentando deixar minha mente vazia, acho que funcionou, pois logo acabei adormecendo ali mesmo. James tinha razão, precisava de um descanso, após acordar e finalmente tomar uma ducha, coloquei meu inseparável pijama e fui para a cozinha. Meu corpo estava descansado, agora tinha que cuidar da fome, revirei a geladeira até definir o que faria, sanduíches era o mais rápido e ideal para o momento.

Naquele momento, seguiria a risca as ordens do meu chefe amigo, me joguei no sofá com a bandeja de sanduíches e a lata de suco, o que significava que minha maratona de Friends começaria pela sétima vez, uma maratona que nunca terminava. As horas foram passando e obviamente acabei adormecendo no sofá, acordei no meio da madrugada e pegando minha bolsa que estava ao lado, retirei meu celular para chegar as mensagens.

— Vejamos. — sussurrei enquanto olhava.

Tinha duas de James perguntando se eu estava bem e mais calma, uma da Ellie comentando que a fofoca já estava rolando solta no ateliê, além dos comentários desnecessários sobre ser muito charmoso. E eu lá estava reparando neste lado dele? Aquele coreano folgado.

— O que não me der lucro, eu descarto. — disse imitando ele como um voz fina — Ah, nem que eu tenha que sugar até a última gota da minha imaginação, vou esfregar meu talento na cara dele.

Bufei de leve me levantando do sofá, caminhei até meu quarto e sem pensar duas vezes, desmontei na cama.

Manhã seguinte, para meu desespero acordei atrasada. Troquei de roupa correndo e peguei minha bolsa, quase me esqueci que existia escova em casa, não podia sair descabelada. Assim que cheguei na L-SJ, segui diretamente para o ateliê no mezanino do edifício, minha mesa estava organizada para minha surpresa, certamente obra da Ellie.

Notei um objeto não identificado em cima da mesa, uma caixa de bombons acompanhado de um bilhete. Olhei discretamente em minha volta e os olhares sempre vinham em minha direção, respirei fundo e olhei o bilhete.

“Não começamos bem, então lhe trouxe isso como oferta de paz. Te vejo em Jeju daqui dois dias.”


“O que?” Foi a única coisa que consegui pensar.

— Hum, um admirador?! — insinuou Ellie.
— Antes fosse. — entreguei o bilhete para ela.
— Oh, o coreano charmoso. — brincou ela lendo — E você vai aceitar a oferta de paz?
— Chocolate nunca é de mais. — retruquei olhando a embalagem — Pelo menos ele tem bom gosto.
— Quem não tem bom gosto, com Ferrero Rocher? — ela riu abrindo a caixa e pegando um.
— Ei, é meu.
— E você vai dividir com a amiga. — ela jogou o bombom na boca e colocando o bilhete na mesa, saiu em direção a escada.

“Só gostaria de entender, esse Jeju em dois dias.” Pensei comigo.

Guardei os bombons na bolsa e me sentei, peguei um bloco de notas e comecei a esboçar coisas aleatórias. Ainda não tinha nenhuma ideia de como trabalhar o tema Islands, menos ainda em me livrar do bloqueio criativo que estava sofrendo há tempos. Esta não era somente a segunda chance da L-SJ se destacar no mundo da moda, mas era a minha chance de provar para mim mesma que sou capaz de continuar nesse caminho.

- x -


— Terra chamando . — brincou James me fazendo voltar a realidade.
— Nossa, acho que me perdi em meus pensamentos. — disse voltando a realidade — Estava tentando novamente.
— Vejo que continua na mesma. — ele olhou para o bloco de notas — Mas não foi para falar dos seus croquis que estou aqui, acho que viu o pedido de desculpas do .
— Sério? Você chama esse bilhete de pedido de desculpas? — o olhei com ironia.
— Nada a declarar. — ele riu retirando algo do bolso e me entregou — Sua passagem, espero que seu passaporte esteja em dia.
— Passagem?! — peguei confusa.
— O embarque é para amanhã. — completou ele — Com destino a Seul, de lá você segurá para Jeju.
— O que? O lance de dois dias era sério? — fiquei meu olhar na data da passagem — Bem, acho que meus documentos estão ok, mas eu nem sei falar coreano, fiz o básico do japonês na universidade, por causa do Jun Nakao e sua modelagem absurda.
— Não se preocupe, terão pessoas que fala nosso idioma lá. — ele riu — Tenho que ir agora, mas aconselho que volte para casa e arrume as malas, seu verdadeiro desafio começa daqui dois dias.
— Nem me lembre. — joguei a passagem dentro da bolsa.

Eu não voltaria para casa agora, Ellie havia me convidado para o almoço e pagaria a sobremesa, sobre a promessa de lhe dar mais bombons.

- x -


— Vou sentir sua falta. — disse Ellie ao me abraçar novamente assim que cheguei na fila de embarque.
— Nossa que drama, você vai embarcar daqui uma semana com o James, não é como se eu fosse sozinha. — ri um pouco dela — Agora tenho que ir, antes que perco o voo, não quero dar motivos para o outro.
— O outro. — ela deu uma gargalhada esquisita.

Após as inúmeras horas de voo, acabei desembarcando no Aeroporto Internacional de Incheon, para meu alívio havia uma garota segurando uma placa com meu nome, de certo funcionária da Indústria Cho, melhor ainda seu nome era fácil de gravar e pronunciar, Yuri. Nos cumprimentamos em poucas palavras, ela estava acompanhada de outro funcionário que passou a maior parte do tempo em silêncio.

— Chegamos, espero que se sinta confortável aqui. — disse Yuri assim que chegamos ao loft que a Indústria Cho pagaria para minha estada.
— Me parece ser aconchegante. — comentei observando os detalhes do lugar — Ficarei muito bem aqui, só estou curiosa sobre Jeju, eu não ficaria lá?
— Bem, este era o cronograma, mas o senhor Cho acha melhor levá-la pessoalmente. — respondeu ela meio receosa.
— Pessoalmente. — respirei fundo desviando o olhar para a grande janela de vidro que compunham a fachada.
— Eu vou deixá-la à vontade. — Yuri se voltou para o homem que a acompanhava e acenou para deixar minhas malas lá dentro.

Antes de ir, ela me passou uma pasta com todas as informações que eu precisava, tanto sobre as Indústrias Cho, como também o tal evento onde seria realizado o relançamento da L-SJ. Assim que fechei a porta, joguei aquela pasta na mesa de centro e pegando minhas malas, as levei para perto da cama que ficava mais ao fundo, próximo também estava a porta para o banheiro.

Olhei em minha volta novamente e percebi que o loft era um pouco pequeno, porém por ter poucos móveis passava a sensação de ser um lugar grande, ponto positivo já que eu sempre fui muito espaçosa. Me espreguicei dando alguns passos até o banheiro, havia toalhas limpas na prateleira do armário da bancada, então aproveitei para tomar um banho relaxante.

Minutos depois voltei para o quarto e colocou roupas mais leves, mantive meu cabelo preso e caminhei até o sofá, me sentei já pegando a tal pasta e abrindo, acho que já estava um pouco mais descansada para ler aquilo. Após as primeiras páginas de apresentação, que me deixou até curiosa para conhecer a tal moderna fábrica têxtil em Jeju, finalmente cheguei a parte que me interessava de fato.

O evento era o aniversário de cem anos da empresa, construída pelo bisavô de , que havia passado de geração a geração. Acho que agora eu estava entendendo a parte do “corda no pescoço” que James havia dito, se eu falhasse nessa coleção, não somente James poderia perder a L-SJ, mas os outros funcionários ficariam sem emprego também.

Ok! Aquela pressão estava novamente sobre meus ombros!

Respirei fundo e continuei lendo, era plausível o tema ser Islands, pelo fato da matriz da Indústria Cho se localizar na ilha de Jeju, o que me fez animar, pois estava ansiosa para ver as belas paisagens da ilha. Me fez lembrar que estávamos no final do verão, foi então que meus olhos focaram na data do evento, fazendo meu cérebro mais que depressa fazer as contas em um calendário imaginário.

— Três meses? — disse comigo mesma ao chegar no resultado — Quem aquele louco pensa que eu sou? Uma máquina.

Minha indignação voltou com tudo. E neste exato momento um barulho vindo da porta surge, me levanto do sofá e caminho até ela, ao abrir era meu não tão bom anfitrião.

— Três meses? — foi a única coisa que saiu na hora.
— Então já leu. — ele deu um sorriso de canto que me irritou ainda mais — Acha que ainda consegue?
— O que? — o olhei indignada — Você colocou essa data para me fazer desistir? Admita.
— Se você acha que o mundo gira em torno de você, fique à vontade para considerar isso. — sua voz estava tranquila como sempre.
— Não me importo com suas desculpas, eu não vou desistir. — disse não acreditando muito nele.
— Que bom. — assentiu ele — Que tal começarmos do zero.
— Está querendo me dar outra oferta de paz? — cruzei os braços, logo ele deu um sorriso tímido.
— Não tem comida no loft, só estou pensando em te levar para comer algo. — explicou ele — Se quiser é claro.
— Bem, agora que tocou no assunto, estava mesmo preocupada com essa parte. — descruzei os braços — Vou pegar minha bolsa.

Ele assentiu com a face permanecendo parado na porta. Me voltei para dentro e fui até a cama onde tinha deixado a bolsa, cheguei se meu celular que atualmente não prestava para muita coisa estava dentro e também meus documentos. Segui até seu carro, porém não entramos, para minha surpresa continuamos caminhando pelo quarteirão até chegar em uma loja de conveniência.

Era estranha e ao mesmo tempo curiosa a cultura coreana, ainda mais pelo fato que ver preparando nosso ramen dentro da loja, mais louco ainda era ter lugar para sentar e comer. Eu sugeri que ficássemos na mesa do lado de fora, estava fascinada com a arquitetura moderna de contrastando com a tradicional, de alguma forma estava me deixando mais leve e animada para desenhar.

Talvez fosse isso, talvez eu precisava sair do meu universo e conhecer outro, assim minha mente teria a oportunidade de conhecer novas possibilidades de criação.

— Curioso. — disse me fazendo voltar a realidade.
— O que? O que é curioso? — perguntei confusa.
— Você, é muito observadora. — comentou.
— Acho que todas as mulheres fossem vitrolas sem freio. — retruquei.
— Yah, não. — ele riu — Mas de todas que já conheci, você é a mais intrigante.
— Devo levar isso para o lado positivo? — o olhei séria.
— À vontade. — ele riu e se levantou — Vou te levar de volta ao loft, venha.
— E quando vamos para Jeju? — perguntei curiosa.
— Amanhã pela manhã.

Sua voz ficou um pouco mais fria, não entendi o motivo, mas relevei, minha atenção estava mesmo nos prédios em minha volta, após ele me deixar silenciosamente na porta do loft, entrei e caminhei até a mala, a primeira coisa que retirei foi meu sketchbook e o estojo. Foi ao me aproximar da bancada de estudos que reparei um livro em cima, estava envolvido em um laço de fita verde água.

— Islands. — disse ao ler o nome na capa — O que é isso, mais uma do senhor anfitrião?

Abri, logo na primeira página um pequeno bilhete colado para mim!

“Achei inspirador, espero que goste!”


Comecei a imaginar quem estava mais desesperado para o sucesso da coleção, cheguei a conclusão que a cabeça de também poderia estar na forca, a levar pela intenção do seu presente. Ri de leve e me jogando no sofá, comecei a ler, a princípio parecia somente mais uma história clichê de pessoas que se perdem em uma ilha, mas a cada linha que ia lendo minha atenção foi ficando cada vez maior.

Resultado?! Passei a noite em claro lendo e ainda não tinha conseguido terminar o livro, isso porque quis reler algumas partes que me deixou ainda mais envolvida. Pouco próximo da hora do café Yuri veio me buscar, ela me levou a uma cafeteria que ficava próximo ao loft, o lugar era decorado com tonalidades de rosa que me fazia lembrar alguns animes colegiais.

— Nós vamos daqui para Jeju ou precisamos esperar o ? — perguntei assim que fomos servidas pela atendente.
— O senhor Cho vai nos encontrar lá, neste momento está em reunião com a diretoria da Cho Company. — respondeu ela.
— Hum, imagino que seja algo sério. — tomei um gole do cappuccino de chocolate que tinha pedido.
— Bem, um pouco.
— Você sabe de algo e não pode me contar? — insisti.
— Os diretores não queriam que o senhor Cho comprasse parte da L-SJ, então ele está investindo o próprio dinheiro nisso, até que possa provar aos diretores que é um bom negócio para a empresa. — explicou ela.
— Uau. — agora estava impressionada.

“Acho que é você que está quase sendo descartado, .” Pensei comigo!

- x -


Jeju estava se mostrando realmente fascinante, toda aquela paisagem natural ao meu redor parecia a cada minuto despertar minha criatividade adormecida, como um choque de alta tensão estimulante e motivacional. Yuri estava sendo uma ótima guia turística, eu já estava me acostumando com seu sotaque leve, ela falava de uma forma tão fofa que me fazia lembrar minha afilhada.

Logo à tarde, aproveitei o espaço do jardim do hotel que estava hospedada e voltei a minha leitura, de alguma forma aquela história estava me deixando ainda mais conectada com o tema da coleção. Silêncio precioso de leitura, interrompido por uma leve sensação de estar sendo vigiada, fechei o livro e olhei para frente, estava conversando com o gerente próximo ao saguão, porém seu olhar estava em minha direção.

Guardei o livro na bolsa e segui até ele.

— Espero não ter atrapalhado sua leitura. — disse ele assim que o gerente se afastou de nós.
— Não, eu senti que precisava mesmo dar uma pausa. — expliquei.
— O que está achando de jeju?
— Fascinante, é a única palavra que consigo achar para descrever. — respondi ajeitando a bolsa no ombro.
— Que bom, Yuri te mostrou o dia, agora vou te mostrar a noite. — ele sorriu de leve — Posso?!
— Interessante. — assenti com a face.

Confesso que à noite era tão ou mais interessante que o dia, e na companhia de havia se tornado indo mais divertido, principalmente com nossas troca de gentilezas, que acabavam em risadas e ou olhares vergonhosos dele.

Na manhã seguinte, me buscou no quarto do hotel, seria nossa visita a fábrica principal da Cho Company que ficava ao leste da ilha, fiquei surpresa ao me deparar com James e Ellie nos esperando na porta da fábrica. Segundo minha amiga, que quase me sufocou em um longo abraço, ela tinha muitas fofocas, ou melhor, informações de trabalho para me contar.

— E aconteceu isso tudo nos dois dias que estive longe? — eu ri.
— Claro que não, mas é que as infos foram se acumulando e hoje a Nick me mandou um relatório detalhado, acabei decorando para te contar. — Ellie riu desviando seu olhar para James.
— Hum, e quando a fofoca, ou melhor, a info de vocês dois vai ser revelada? — perguntei.
— Não tem nada entre nós dois, só amizade, além do mais não me dou bem com pessoas perfeccionistas de mais. — explicou ela.
— Só isso? — a olhei sem entender.
— Falou a pessoa que não quer nem admitir que o inimigo é charmoso. — Ellie sabia como mexer em um vespeiro.
— Ah, que isso, tira mesmo que virar para mim? — a olhei — Além do mais, estou começando a rever meus conceitos sobre inimigo.
— O que andou descobrindo?
— Nada de mais. — respirei fundo — Só que eu não sou a única que pode ser descartada.
— Hum. — ela sorriu.
— E apague esse sorriso malicioso do rosto.

Logo uma gargalhada louca vindo dela, chamou a atenção de todos a nossa volta, e James que estavam mais à frente, olharam para trás confusos. Ellie sabia mesmo me deixar constrangida na frente de outras pessoas, mas era uma amiga leal e muito fofa, além do melhor ombro para lágrimas que conhecia.

Pouco mais à noite, jantamos em um restaurante muito famoso na região, cortesia de . Quanto mais ele tentava ser gentil comigo, me fazendo divertir e ficar relaxada, mais eu sentia vontade de retribuir a gentileza e já sabia como, a única forma seria com a coleção, o que me fez lembrar das palavras de James.

Definitivamente a pessoa com a corda no pescoço era .

- x -


Sim, a fábrica da sua família tinha literalmente me deixado admirada, principalmente com a qualidade dos materiais, fazendo a primeira barreira se quebrar. Como sempre contratamos confecções terceirizadas, para nossas coleções, Ellie cuidaria disso com James, enquanto eu voltaria para Seul. Já havia absorvido tudo que era possível daquela ilha e queria ver como era o início do outono na capital do país também.

Como só tinha três meses para apresentar uma coleção de 80 peças, me daria somente vinte dias para esboços básicos e testes, assim no final do primeiro mês já teria a coleção toda desenhada. Meus cronogramas sempre privilegiavam a modelagem e costura, deixando o maior tempo para nos atentar aos acabamentos perfeitos, o que me faziam sempre testar antes uma peça piloto de cada croqui conceitual que desenhava.

Em menos de uma semana, transformei o loft em um pequeno ateliê, além de conseguir uma assistente temporária, querida Yuri. Senti minha criatividade acelerada a mil por hora, mas ainda tinha que me controlar e focar em um só caminho, para não deixar a coleção destoada. Tudo deveria ficar em harmonia, o que me levou a separar a coleção em literalmente quatro estações, mostrando assim a beleza de uma ilha em quatro fases distintas.

Estávamos no outono, então começaria por ele. Yuri me ajudou muito nas pesquisas, principalmente por conhecer alguns fotógrafos locais, conseguiu boas fotos de paisagens não só de Jeju, como de outras cidades do país. Com todas as referências do meu painel de inspiração conectadas, só faltava uma: o livro que estava lendo.

Parei toda a minha criação para finalmente ler as dez últimas páginas, não podia mais prolongar em ler o final, mesmo que me deixasse um pouco nostálgica depois.

Felizmente, mesmo com dó de ter terminado de ler um livro tão bom, senti ainda mais ideias florescendo em minha mente, me fazendo passar noites em claro desenhando, poucas horas do dia dormindo, e bastante tempo testando minhas ideias malucas de modelagem. Jun Nakao sentiria orgulho de mim agora!

— Uau, finalmente dormiu oito horas de sono. — brincou assim que abri a porta do loft.
— Se veio aqui para falar do meu estado físico ou mental, pode voltar. — disse prendendo meu cabelo — Finalmente consegui dormir em paz.
— Não vim aqui para isso. — ele esticou a sacola, tinha um copo termico e uma caixa de cookies — Seu café da manhã, Yuri me ligou dizendo que não tinha atendido a porta.
— Nem ouvi, acho que estava mesmo apagada. — peguei a sacola e abri mais a porta para ele entrar.
— Nossa, desde quando este lugar está organizado? — perguntou ele num tom debochado.
— Desde ontem à noite, posso não ser tão organizada em meus momentos de criação, mais ainda conheço o caminho da lixeira. — respondi deixando a sacola na mesa de centro.
— Foi só uma pergunta curiosa, não estava te criticando. — retrucou ele.
— Ignore meu mau humor, acho que estou sofrendo de abstinência. — disse indo até a cama.
— No copo é cappuccino de chocolate. — ele apontou — Por acaso ouvi Ellie comentando que você não consegue comer doce nenhum quando está trabalhando.
— Agradeço, fico tão focada no que estou fazendo que perco até a vontade de comer algo que gosto muito. — expliquei pegando o sketchbook que estava ao lado da almofada — Enfim, coisa de artista eu acho.
— Entendo. — concordou ele.
— Bem. — dei alguns passos até ele e estiquei a mão, entregando o sketchbook com meus croquis — Aqui está!
— O que é? — ele me olhou intrigado.
— Minha retribuição para todas as ofertas de paz. — ri de leve.
— Você levou isso à sério? — perguntou ele ao pegar, sorrindo de canto.
— Claro, além do mais eu aceitei o desafio lembra? — o olhei — De qualquer forma conseguimos, nossa coleção está pronta e devidamente testada.
— Uau, você disse nossa. — ele me olhou surpreso.
— Vou relevar seu comentário. — cruzei os braços.
— E como conseguiu voltar a desenhar? Fiquei curioso.
— Acredite ou não, o livro que me deu ajudou um pouco, além das belas paisagens de Jeju.
— Imaginei que seria mesmo bom vir e fico feliz por ter gostado do livro, é uma história marcante.
— Sim, principalmente na parte que o protagonista…
— Ok, não precisa dizer. — ele me cortou.
— Oh, não me diga que não chegou no final do livro?! — o olhei impressionada.
— Digamos que não queria terminar de ler tão rápido.
— Hum, então vou me segurar para não dar spoiler. — ri de leve.
— Agradeço a compreensão, agora deixe-me ver o que tem aqui. — ele abriu o sketchbook e começou a olhar as páginas — Uahh.

A cada página que ele virava, as palavras eram as mesas: Uahh! O que me deixava angustiada.

— Sua reação é positiva? — perguntei receosa.
— Bem, acho que estava certo em te provocar, você realmente desenha muito bem.
— Só desenha bem? — mantive meu olhar nele.
— Não, não é só desenha bem, você é muito talentosa. — ele fechou o sketchbook e me olhou — E eu já sabia disso antes mesmo que conseguir desenhar essa coleção.
— Se suas palavras são para me convencer a continuar trabalhando para você… — tentei pegar o sketch dele.
— Yah, até quando te elogio com sinceridade me trata assim. — ele deu um passo para trás.

Ficamos alguns instantes em silêncio e ele começou a rir.

— O que foi? Por que está rindo?
— Estou me perguntando, por que mulheres bonitas são sempre tão problemáticas comigo. — respondeu ele com naturalidade.
— Por que pensou isso? — logo senti uma leve indireta — Me acha bonita?
— Te acho problemática. — ele sorriu de canto.

“O que é praticamente o mesmo!” Pensei comigo ao sorri disfarçadamente, enquanto ele me olhava!

“A estrada é muito e a água era profunda,
Meus pés estão congelados e houve luz além do oceano,
O tempo flui, mesmo em dias que não são calmas.”
- Islands / Super Junior

ILHAS: Cada pessoa por ser considerada uma ilha, estando solitário ou pertencendo a um arquipélago, rodeada de amigos e familiares, todos temos algo que nos define, que nos inspira e nos motiva a não desistir." - by: Pâms


The End...



Nota da autora:
E aqui estamos nós com mais um ficstape, agora do meu grupo ultimate lindo que é Super Junior, estou emocionada por causa do comeback deles, na espera da volta do meu utt Kyuhyun que está no exército, espero que gostem!!! *-* O livro mencionado, não é exatamente um livro, mas a fic da minha irmã Pri unnie, que também escreveu uma fic dessa música, com o mesmo nome Islands, o que me deixou sobre pressão pq a fic dela é maravilhosa!!! Recomendo, quero todo mundo lendo!!!
Bjinhos...
By: Pâms!!!!
Jesus bless you!!!




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*as outras fics vocês encontram na minha página da autora!!


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