CAPÍTULOS: [1] [2] [3] [Epílogo]





Última atualização: 27/07/2017

Capítulo 01


- Droga, droga, droga! – esmurrava o volante de sua velha pick-up, lágrimas formando em seus olhos, num misto de dor, saudade, desespero e muito ódio de si mesma... esse era o maior de todos os sentimentos que a inundavam.
Tinha, novamente, feito tudo errado e se recusava a aceitar que era isso, que tinham realmente chegado ao fim. Não quando aquele sentimento estava vivo dentro de si - e por mais que fosse talvez tarde demais - crescendo de uma forma que nunca tinha sentido antes.
Encarou a encruzilhada a sua frente e bufou frustrada, estava depois de meia hora, no mesmo lugar.
Sentia-se claustrofóbica, como se estivesse correndo sem chegar a lugar algum, sem a menor ideia de onde estava e muito menos como sair dali.
Nunca fora boa em ler mapas e se ele estivesse ali, com certeza encontraria uma forma de fazê-la rir e ver o lado bom de estar completamente perdida numa estrada no meio do nada. Normalmente isso a irritaria, mas hoje, ela queria mais do que nunca ver seu sorriso, aquele que era só dela, seus olhos ficavam tão pequenos e fofos, que não podia evitar imitá-lo, apenas para ouvi-lo gargalhar e levar uma de suas mãos a sua bochecha e apertar de leve, seus olhos diziam tanto e ela nunca soube retribuir.
Não ajudava o fato que seu tanque estava bem abaixo da metade, e mesmo que soubesse a quantia exata que tinha em sua bolsa, a abriu na esperança que do nada aparecesse mais do que os oitenta dólares que tinha. Seu cartão de crédito havia sido negado no aeroporto, e agora tinha um longo caminho pela frente.
Ligou o pisca alerta na esperança que algum carro passasse ali nos próximos minutos e pudesse ajudá-la a ir na direção certa, não podia se dar ao luxo de errar o caminho mais uma vez, seu bolso e relógio não lhe permitiam isso.
Encostou sua cabeça no assento sentindo o cansaço querer aparecer, mas não podia parar, pelos seus cálculos, estava há cinco hora de distância de seu destino e não tinha a menor intenção de parar a não ser para abastecer e usar o banheiro. Puxou a sacola plástica do chão do passageiro e tirou mais um red bull, agora quente, de dentro e fez uma careta.
odiava o gosto daquela coisa, mas no momento era a única coisa que tinha que a ajudaria a se manter acordada, sua boca salivou pensando em como um café naquele exato momento faria sua situação parecer mil vezes melhor.
Afinal, o que não se tornava melhor com café?
Minha Gilmore Girl” era o que ele falava quando ela acordava com seu mau humor diário e seu primeiro instinto era ir para a cozinha em busca de seu vício. brincava que café era seu sapo, depois de uma dose e seu bom-humor retornava a transformando em uma princesa novamente. Ele era tão cafona, mas tão adorável.
Situações como essa a faziam ter certeza que teve o melhor homem do mundo ao seu lado. Além de assistir séries totalmente girly com ela, ainda aturava a forma nada agradável que acordava, realmente não era para qualquer um, e não queria qualquer um, somente aquele um, o seu um.
Bufou irritada e abriu a porta do carro, se apoiando no teto para tentar enxergar se havia algum veículo pelas imediações. Nada, zero. Quatro diferentes estradas e nem um mísero jegue vinha em sua direção.
Meu Deus, já estou delirando, o que me ajudaria um jegue nesse momento?”
Riu de seus próprios pensamentos, e voltou para o carro tentando se manter longe dos raios de sol que estavam mais quentes do que nunca.
Encarou seus olhos cansados no retrovisor e sua visão foi para aquele objeto pendurado ali há anos, havia sido presente de sua avó em sua primeira comunhão e nunca havia feito uso, ficara guardado por anos em uma gaveta cheia de coisas que não usava, mas se recusava a jogar fora. Quando sua avó faleceu, colocou o terço ali como forma de se lembrar de uma das pessoas mais importantes de sua vida.
Religiosa, Rose ia a missa todos os domingos e sempre lia passagens da bíblia para . Na época não prestava atenção, mas encarando o terço agora, gostaria de poder voltar no tempo para ouvir sua avó falar de qualquer coisa, apenas para ouvir a sua voz mais uma vez.
- Vovó, Deus – juntou suas mãos em prece – Eu sei, eu sei que não sou muito de fazer isso, e talvez nem mereça, mas eu preciso muito de sua ajuda, qualquer coisa que me ajude chegar a tempo, eu errei e preciso que... ele me perdoe. Quero mostrar que posso sim estar lá por ele como ele sempre esteve ao meu lado, droga – e sua mão foi mais uma vez de encontro ao volante com força – digo, desculpa Deus, sei que fui burra o suficiente em deixá-lo ir achando que sou egoísta, que não o amo... – já começava a divagar quando ouviu uma batida em sua janela a fazendo levar um susto enorme e encarar o homem ao seu lado.
- Bom dia, jovem, quebrou? – o senhor devia ter bem mais que sessenta anos, seu rosto era coberto por rugas, devia ser um dos fazendeiros da região, que era bastante simples.
- Oh sim, quer dizer, não, bom dia – sorriu de sua própria confusão e abriu a porta para falar frente a frente com o homem – Eu estou perdida na verdade, não sou muito boa com mapas e estou com bastante pressa, eu vim daquela direção e virei aqui, mas na verdade, quero chegar aqui – apontava no mapa onde tinha escrito “” em cima.
- Ah – o senhor abriu um sorriso e fez uma cara de entendido e sentiu-se corar por saber que soava como uma garotinha apaixonada pelo garoto mais popular da escola – Seguindo o coração?
- Bem, sim, se ele ainda me quiser, isso é – deu de ombros e abaixou o rosto, parecia que o homem a sua frente sabia tudo sobre sua história – Eu, não fui muito boa com ele.
- E agora está arrependida.
- Sim – confirmou, mesmo sabendo que aquela não era uma pergunta.
- Bem, se me permite – pegou o mapa de suas mãos o analisando com cuidado, parecia ter uma boa visão ainda.
o encarava esperançosa e um pouco impaciente, mas não poderia fazer desfeita para alguém que havia parado para lhe ajudar.
- Não é a primeira vez que erra o caminho, não? - ele abriu um sorriso fofo e não resistiu em acompanhá-lo confirmando – Tenho boas notícias então, como você errou lá atrás por onde vir, você chegou aqui – apontou para o mapa onde lia-se "Dixie National Forest".
- Jura? Aqui é tão lindo, gostaria de poder aproveitar com calma, mas preciso chegar a Salt Lake City antes do anoitecer.
- Essa é a boa notícia, sem saber, você pegou um caminho que te fará chegar mais rápido, se você for reto agora, irá por dentro do parque nacional, é uma estrada mais difícil, com alguns buracos, usada por nós locais para fugir do trânsito da estrada principal, mas é bem sinalizado, não tem como errar.
- Será que não vou errar? Eu não entendo nada desse mapa e preciso abastecer em breve e, er... eu não tenho muito dinheiro sobrando, qualquer erro e vou ficar parada no meio do nada.
- Pois acho que tenho uma solução - o velhinho disse após um tempo em silêncio e o encarou curiosa – Eu estou vindo da cidade com diesel para colocar no meu trator, e vejo que sua pick-up também é a diesel, e se eu te ajudar com seu tanque enquanto me conta o que foi que fez de tão errado para esse rapaz?
- Oh, Meu Deus, jura? - Sorriu extremamente surpresa com o que acabara de ouvir – Mas não seria certo, o senhor precisa para usar o seu trator, eu não posso aceitar, Senhor...
- Elohim, mas não precisa usar o senhor – pediu sincero – E não me custa nada, sei como é ser jovem e estar começando a vida, combinamos assim, um dia, quando puder, apenas ajude alguém que esteja com dificuldade, assim como estou fazendo, temos um acordo?
- Ai, o senh... digo, você tem certeza, Elohim? Não vai te fazer falta? - perguntou uma última vez.
- Vamos, me diga, como é esse ? - disse a ignorando e indo a sua pick-up, o acompanhou - Ele deve realmente valer a pena, uma jovem tão bonita, disposta a viajar todas essas horas para encontrá-lo?
- Ele vale muito a pena, mas não sei se o mereço, sabe aquela coisa de só dar valor aquilo quando perdemos? É bem por ai... – começou sua história ao subir na traseira da pick-up de Elohim para pegar um dos galões que estavam ali – Ele me ajudou a superar o término do meu namoro e me mostrou como uma mulher deve ser realmente tratada, mesmo quando eu não o tratava tão bem assim, sabe? Eu não estava pronta para me enfiar de novo em algo tão... permanente e queria aproveitar minha vida de solteira e meu último ano na faculdade, mas queria mais.
- E o que mudou?
- Bem, eu... descobri que na verdade, quando meu namoro acabou, minha vida não melhorou porque eu estava solteira, mas porque estava nela, e agora que ele foi embora, percebi que eu o amo e sempre amei, ainda mais quando vejo como ele sempre esteve ao meu lado em todos os momentos bons e ruins que passei esses meses.
- Já parou para pensar que talvez ele tenha sido enviado por Deus, porque Ele sabia que você estava precisando?
- Bem, se for esse o caso acho que Deus não está muito feliz comigo por ser cega, burra, idiota, teimosa – começou a listar todos os xingamentos, usando os dedos para contá-los fazendo Elohim gargalhar tão alto que até saíram lágrimas de seus olhos – Ei, está se divertindo as minhas custas? – perguntou com as duas mãos na cintura.
- Querida, todos nós cometemos erros, o importante é aprender a reconhecê-los, saber perdoar é o principal, nunca desistir, tenho certeza que Deus está feliz em ver o quanto está se esforçando para se redimir com esse rapaz, talvez tenha feito um pedido também?
- Pois ele será atendido nesse formato aqui – apontou para si mesma – Estou realmente disposta a consertar as coisas, se depois disso ele não me quiser mais, pelo menos sei que fiz tudo que estava ao meu alcance.
- Eu vou rezar para que dê tudo certo, acho que agora você consegue chegar até o posto de gasolina que tem na estrada.
- Nossa, eu nem sei como agradecer, Elohim, o senhor foi um anjo que apareceu no meu caminho, não sei o que faria sozinha no meio do nada, iria provavelmente parar na Califórnia ou algo assim. Obrigada mesmo! Onde você mora? Na volta, aconteça o que acontecer, quero vir te agradecer e quem sabe, com boas notícias.
- Fiz de coração, mas só por esses minutos posso ver que não aceita um não, né? Moro nessa direção aqui, só seguir por dez minutos e verá uma árvore enorme, cheia de flores amarelas, a minha casa fica ao lado. Agora vá, querida, siga seu coração - O senhor afagou um de seus braços, mas o puxou para um abraço, realmente agradecida pela ajuda.
Voltou para seu carro, e esperou o senhorzinho entrar em sua pick-up para então dar a partida. Quando já estava pronta para sair, viu Elohim parar rente ao seu carro e abrir a janela, logo fez o mesmo.
- Lembre-se, querida, só se vê bem com o coração, o essencial é invisivel aos olhos, nada mais importa se você seguir o que manda aqui – apontou para seu peito do lado esquerdo.
viu Elohim seguir seu caminho ainda processando o que ele havia lhe dito, quando finalmente as palavras fizeram sentido, ficou boquiaberta.
- Hey espera aí! - disse mais para si mesma – Como você sabia....
Completamente arrepiada, levou seu olhar ao terço que balançava sob o retrovisor e sorriu.
"Obrigada, vovó. Obrigada, Deus"



Capítulo 02


***


Sete meses atrás:

- O que te traz aqui? - virou seu rosto para ver quem estava falando com ela.
- Pé na bunda – deu de ombros se espantando com a veracidade de sua resposta a um total desconhecido.
- Justo – respondeu dando um último gole em sua cerveja.
- E você? – resolveu interagir quando percebeu que o estranho ainda a olhava.
- Álcool – disse mostrando sua caneca agora vazia.
- Justo, eu pago – sorriu e se voltou para o barman fazendo o número dois com as mãos mostrando sua caneca.
- Ei, não seria eu que deveria falar isso?
- Século vinte um, direitos iguais – fez uma careta tirando um sorriso do rapaz ao seu lado – ! – se apresentou ao lhe entregar a bebida que o barman havia deixado ali.
- – respondeu erguendo sua caneca e fez um brinde mudo – Então, quer falar sobre, er, seu pé na bunda?
- Hm, não tem muito o que falar, seis anos juntos, ele ficou entediado e decidiu comer a colega de trabalho, aquela que eu " não precisava me preocupar", sabe? - disse mais a si mesma, dando um gole em sua cerveja.
- Ouch!
- Dane-se, acho que ele tinha razão, sabe? Quer dizer, quem passa a adolescência toda presa numa porra de um namoro? Parecíamos um casal de 50 anos.
- Ah, então você está bem?
- Não, mas vou ficar – se endireitou na cadeira, pois não sabia mais o que falar.
- Você quer dançar? - se virou impressionada
- Você gosta de dançar? Meus amigos geralmente saem correndo quando peço.
- Século vinte um, direitos iguais – o sorriso que ele deu ao imitá-la era tão sincero e cheio de diversão que não resistiu em se levantar e pegar a mão que ele lhe oferecera.
Passaram as próximas duas horas dançando como há muito tempo ambos não faziam. não tentou se aproximar de com segundas intenções em nenhum momento, o único contato físico que tiveram fora por conta da dança. Era visível que ele realmente gostava de dançar e o fazia muito bem. sempre implorava para que Jeremy dançasse com ela, mas em seis anos, as únicas danças que conseguira fora com ele já bêbado dançando grudado nela, suas mãos por todo seu corpo.
- Quer sentar com meus amigos? – perguntou por sob a música quando saíam da pista de dança – Estamos ali – apontou para um grupo de cinco garotos.
- Mas, eu achei que você estivesse aqui sozinho, por que não me falou nada?
- Você é bem mais bonita que eles – disse como se fosse óbvio – Eu posso conversar com eles todos os dias, achar alguém que goste de dançar assim já é bem mais difícil.
agradeceu por estar escuro, senão ele veria o quão tímida tinha ficado com seu elogio, parecia ser um cavalheiro. Não pode deixar de notar que, ao contrário de Jeremy, ao invés de andar na frente a puxando por entre as pessoas, seguiu ao seu lado, como se fosse seu próprio guarda costas, certificando-se que ninguém já alcoolizado fosse de encontro a ela.
Seus amigos a acolheram como se a conhecessem há anos e sentiu-se orgulhosa de si mesma por ter se forçado a ir sozinha a uma boate. Já não aguentava mais ficar trancada em casa. Todos os seus amigos eram amigos de seu ex e em sua maioria também namoravam. Com o término, se viu sozinha. Não percebera até então, o quanto sua vida se resumia a seu relacionamento com Jeremy.
- Obrigada por me resgatar no bar, seus amigos são muito engraçados – agradeceu já do lado de fora, quando ele fez questão de acompanhá-la até a saída.
- Eu que agradeço, desde que me formei não dançava assim, parece que quando você vira “adulto” deixa de fazer essas coisas, no meu trabalho não tem uma mulher que gosta de sair pra dançar só por dançar.
- Sorte a minha então – disse se aproximando para lhe dar um abraço de despedida – Obrigada de novo, .
- Tem certeza que vai andando sozinha a essa hora? Eu posso te acompanhar.
- Sim, não se preocupe, eu moro perto e as ruas são todas iluminadas.
- Tudo bem então, er, tchau, – ele sorriu e colocou as mãos nos bolsos sem saber o que fazer.
andava a passos de tartaruga, não queria se despedir, mas precisava ir embora.
- ! – ela disse um pouco alto, pois achou que ele já tinha se virado para ir embora, mas o encontrou no mesmo lugar encarando algo em seu celular – Eu não sei se consigo andar mais devagar do que isso, você vai pedir meu telefone ou não?
O rapaz levantou o olhar com apenas uma sobrancelha erguida e pode ver o sorriso enorme que ele abrira fazendo com que seu coração batesse descompassado por um minuto. Como ele podia ser tão fofo, Meu Deus!
- Eu queria ter feito isso depois da primeira música que dançamos, mas não sabia se...
- Aqui – ela nem deu chance para que ele terminasse a frase, estendeu a mão e ele deu seu celular para que ela anotasse seu número – Vou ficar esperando – deu uma piscada divertida e dessa vez foi embora de verdade.
Quando já não podia mais vê-la, socou o ar em vitória e voltou para o bar.
Apesar de já formado, morava com seus dois melhores amigos, que ainda estudavam na mesma universidade que e durante a conversa, havia lhe dito que há muito tempo não frequentava esse lado da cidade destinada aos estudantes pelo fato do campus também estar localizado ali.
Sorte a dela.

***


Seis meses atrás

- Como assim ele nunca te levou café da manhã na cama? – colocou os embrulhos de comida no balcão da cozinha da casa de – Seis anos e, nada?
- Não levando, ué? Você por acaso levava para todas suas namoradas? – perguntou curiosa.
- Bem, eu não tive mil namoradas, mas é óbvio que sim, quando você gosta de alguém, você se torna altruísta, quer fazer tudo por ela, levar café, cuidar quando está doente, ver um filme que não veria normalmente...as coisas não são mais apenas sobre você, mas sim sobre a outra pessoa também. Eu só faço o que gostaria que fizessem comigo, simples assim.
- E trazer sorvete anti-fossa num sábado a noite, dia oficial da pegação? – perguntou com sua sobrancelha erguida, enquanto colocava os pratos na mesa para abrigar tudo que ele tinha comprado, incluindo seus três sabores de sorvete favoritos.

- Também, mas achei que depois de um mês já soubesse que me importo com você, mas só porque prometeu maratona Walking Dead, preciso manter meu status de macho-alfa em casa e se eu assistisse mais um episódio de Reign iam me expulsar de lá, eles acham que estou virando gay, desde que te conheci só saio com você e nem te dou uns pegas – comentou, pois sabia que isso deixava extremamente tímida, e ele adorava ver suas bochechas mudarem de cor.
- Ah, até parece – ela lhe deu as costas para esperar seu rosto voltar ao normal - Aqueles dois precisam de você até pra abrir a geladeira, nunca que eles iam te expulsar da casa que, aliás , o aluguel está em seu nome. Você tem sorte que eu amo o Daryl, e eu sei que você adora a Mary e assiste Reign com tanta empolgação quanto eu, ok?
- Tudo bem, mas vamos manter isso só entre nós dois, certo? – a garota assentiu rindo da cara que ele fazia e jogou uma batata no amigo – Ei, comida não é diversão, não vamos desperdiçar algo tão valioso quanto batatas fritas.

***

Cinco meses atrás

- ! Como você...
- Como eu sei que você é apaixonada por Ed Sheeran ? – perguntou divertido ao saírem do carro de frente a arena que seria o show do cantor – Hmmm, deixe me ver, você para de prestar atenção em qualquer conversa quando a música nova dele toca na rádio, seu Facebook sempre tem vídeos dele, e vive cantando no banho ....muito mal por sinal, te trouxe aqui pra ver se você para de me torturar com essa voz de gralha. – gargalhou ao ver a cara de chocada que ela fazia e se preparou para sair correndo, pois se tinha uma coisa que sabia, era que adorava lhe fazer cócegas quando ele a “ofendia” e nada o deixava mais feliz do que vê-la sorrir.
Quando ela se aproximou, ao invés das esperadas cócegas, abriu os braços e se jogou na pessoa que em apenas dois meses havia se tornado essencial em sua vida, não deixava com que ela pensasse no ex-namorado, ele estava a ajudando a ser autossuficiente, sem precisar de “amigos” que tomam partido no final da relação.
– Você.é.o.melhor.do.mundo, você não faz ideia do quanto eu sonhava em ver um show dele e hoje ainda, é muito mais incrível.
- Feliz aniversário, pestinha – sorriu próximo demais ao rosto de e lhe deu um beijo na ponta do nariz, vendo-a arregalar os olhos e o encarar completamente estupefata.
- Como... como você sabe que hoje é meu aniversário?
- Quê? Você achou que eu ia gastar dinheiro com você por qualquer motivo? – comentou divertido – Eu roubei sua carteira outro dia, quando você me contou que não comemorava seu aniversário há anos eu achei que talvez você tivesse um trauma ou algo do tipo com aniversários e achei que te trazer em algo que você obviamente ama pudesse te ajudar a gostar do seu aniversário de novo?
- !!!– seus olhos já estavam cheio de lágrimas – você não é o melhor do mundo, você é a minha pessoa.
- Tudo bem, eu aceito ser "sua pessoa", mas só se for pra ser o McDreamy, não vai rolar eu fazer o papel de Christina... ou Meredith pra ser sincero - seu tom era de puro divertimento, sabia que ele só entrava nesse tipo de encenação porque a fazia feliz.
- Mas você já foi eleito McDreamy há muito tempo, já te disse que minhas amigas da faculdade babam em você.
- Menos você – disse em uma voz tão baixa, que se tivesse um centímetro a mais longe dele, não teria ouvido.
vinha há semanas tentando criar coragem para finalmente contar a que sentia-se atraído por ela desde que a viu pela primeira vez , a cada semana que passava sua atração aumentava e nem dois meses depois, acreditava estar completamente apaixonado pela menina, que estava ainda incrivelmente machucada. Ele sabia que ela não pensava mais no ex, mas quando ouvia as histórias do que passaram, não conseguia se conformar em como ela passou seis anos com um cara que não sabia dar valor e liberdade a uma mulher. E como se não pudesse ficar pior, ainda a havia traído.
Nunca fora homem de se aproveitar de nenhuma mulher fragilizada, e não faria isso com aquela que havia finalmente chamado sua atenção, depois de tanto tempo solteiro.
não sabia o que fazer, era mais do que óbvio o quanto gostava, e em muitos momentos podia até afirmar que amava de alguma forma, desde o primeiro olhar que ele lhe dera sabia que teria problemas, ele era exatamente seu tipo...e o sorriso. Ah, aquele sorriso.
Em vários momentos teve certeza que ele ia beijá-la, mas sempre desistia no último momento e ela não sabia se isso era algo bom ou ruim.
Era óbvio para todos que eram muito mais do que amigos, mas nunca tomava uma atitude, com medo de estragar a melhor coisa que havia lhe acontecido nos últimos tempos.
Depois do dia no bar, a menina se pegava sorrindo ao lembrar-se dele. ligou três dias depois dizendo que estava se fazendo de difícil, mas logo explicou que era porque estava ocupado terminando um projeto no trabalho e agora que estava finalizado tinha mais tempo para sair.
Combinaram que ele a buscaria após a aula e foram jantar. Os dois contaram sobre suas vidas e achou que ele era perfeito demais para ser verdade, lindo por fora e mais ainda por dentro. Seu último namoro havia sido no início da faculdade, quando decidiu se dedicar aos estudos e somente agora, já formado e com tempo, iria à procura de alguém que valesse a pena.
A menina contou a como era seu namoro e a cada careta que ele fazia se questionava se Jeremy era realmente tão ruim quanto parecia. Os dois estavam juntos desde seus 17 anos e sempre o achara romântico, mas quando contava o que havia feito por suas namoradas ou até amigas, tinha certeza que perdera seus últimos seis anos com um ogro.
Passaram a sair juntos sempre que dava, às vezes apenas os dois, outras vezes com os outros garotos e suas acompanhantes, aproveitava a vida como nunca, estar solteira era libertador, podia sair a qualquer hora do dia ou da noite sem se preocupar com nada mais além de que roupa vestir.
Finalmente fez amizade com as meninas da faculdade que viviam a chamando para sair e ela sempre recusava beneficiando seu namorado e casal de amigos.
Nessas saídas, se tinha vontade, acabava ficando com alguém, mas nunca passava disso, era tão nova, queria aproveitar seu novo status para se divertir e fazer planos sem depender de outra pessoa para realizá-los.
Certo dia estava em algum bar próximo à faculdade com um menino que já tinha ficado outras vezes, quando encontrou os amigos de . Eles a trataram normal, mas se entreolhavam em um silêncio bastante desconfortável. Assim que se despediram, resolveu ir pra casa deixando o garoto sozinho sem mais explicações.
Se era solteira, e ela e eram apenas amigos, por que o nó em seu estômago estava a consumindo?
Sempre preocupado, pedia que mandasse uma mensagem quando saía sem ele, apenas para saber se chegou bem, naquela noite, com medo de perdê-lo decidiu apenas escrever um simples “cheguei” que não passou despercebido pelo garoto.
Ele mandou mensagens e até tentou ligar, mas seu telefone ia direto para caixa postal. No dia seguinte, quando acordou e seu melhor amigo contou o que tinha visto, entendeu o silêncio de .
Doeu.
Doeu saber que ela estava com outro, e que sua mensagem era provavelmente curta, pois deveria ter ido embora acompanhada.
Os dois ficaram sem se falar por uma semana, já havia escrito milhões de e-mails pedindo desculpas, sem nem saber porquê, mas não teve coragem de enviar nenhum. passou por seu próprio orgulho e a procurou, afinal, não havia nada entre eles.
Se ela saía com outros homens era porque ele deixava que ela o visse apenas como amigo e se não tomasse uma atitude logo, nunca saberia se também o via como algo a mais ou se a perderia para sempre por ser tão lerdo. Quando a menina abriu a porta, num sábado à noite, olheiras profundas, usando seu pijama que havia deixado lá, percebeu que ela se importava e bastante, e ele iria fazer algo a respeito.
E ali, ouvindo “How would you feel” ao vivo, com o olhar de grudado nela, teve a necessidade de saber como era beijá-lo, o garoto parecia olhar para ela como se a letra da música traduzisse tudo que ele queria lhe dizer.
- – ela o assustou ao entrelaçar seus braços em volta do pescoço dele, seus rostos perigosamente perto um do outro – Hoje é o melhor dia da minha vida, estou aqui com você, a pessoa mais importante do meu mundo, ouvindo o meu cantor favorito, ao vivo, no meu aniversário. Para essa noite se tornar mais perfeita, só preciso de mais uma coisa.
- O quê? – pode ver um ponto de interrogação surgir no rosto de , ela adorava quando ele não entendia alguma coisa, fazia a cara mais fofa do mundo.
- Te beijar.
Nada poderia tê-lo preparado para o que tinha acabado de ouvir. Seu coração explodia em felicidade e medo. ainda estava se encontrando como pessoa e mulher para embarcar em uma nova relação e não sabia se estava preparado para tê-la apenas pela metade.
- Eu, eu sempre me senti atraída por você - ela continuou ao ver que ele estava chocado demais para ter alguma reação - Você é tão lindo e não faz a menor ideia disso, por que acha que tenho nossa foto como papel de parede? É claro que eu também babo em você e odeio quando as meninas me pedem pra te chamar pra sair com a gente - ela não pode evitar sorrir por vê-lo corado diante de suas palavras.
- Mas – ele se soltou dos braços dela para enxergar seu rosto melhor – Você sempre me diz que quando saem só pode meninas?
- Claro, né? Não quero que você goste de nenhuma delas mais do que de mim, eu não quero te perder.
- Se você soubesse como eu me sinto não teria esse medo.
- E por que nunca me disse?
- Você pode não perceber, mas você é bem intimidante, demorou muito para eu ter coragem de ir falar com você no bar, e nem coragem de pedir seu telefone eu tive, eu me sinto um pouco inseguro ao seu lado para tomar uma atitude, fora que quando você me disse que estava superando um ex, eu não podia simplesmente me aproveitar da sua situação para tentar algo, não queria tentar ficar com você, sem saber se ainda estava pensando no Jeremy , não sou assim, mas, até um cego consegue ver o que sinto, caramba, até o Ed ali já deve saber o quanto eu gosto de você, menos...você.
não sabia até então, que era possível se sentir daquela forma ao ouvir palavras como aquela, seu rosto chegava a doer, tamanho era o seu sorriso. Mas o motivo era claro, ali a sua frente era , o homem mais perfeito que havia conhecido, o homem que mais merecia ser feliz em todo o mundo.
Ela só gostaria de poder proporcionar a ele metade das coisas que ele a fazia sentir e que estivesse tão pronta quanto ele parecia estar para se entregar a seja lá o que for que viria a seguir.
aceitaria sair machucada daquele relacionamento, mas não sabia se conseguiria se perdoar se magoasse seu melhor amigo.
levou suas mãos ao rosto da menina, aproximando seu rosto do dela, para finalmente beijar quem vinha tomando conta de seus dias, noite e sonhos.

***

Quatro meses atrás

- Mas é só um jantar, o que custa!? Já inventei desculpas nas últimas duas vezes que você não foi. Saio com você e suas amigas toda semana e nunca reclamo, mesmo quando estou cansado, esses jantares são importantes.
- Custa que o seu chefe é muito chato, e aquela namorada do Tim é mais insuportável ainda, você gosta das minhas amigas, e desde que Layla começou a ficar com o Jake saímos sempre junto com seus amigos também.
- Sabia que sou o único que está sempre sozinho? O que custa você me apoiar e ir ao jantar? Vai acabar seu mundo? Que saco, ! – disse irritado jogando a revista que lia com força no sofá – Você sabe que estou tentando ser incluído no novo projeto e preciso participar de todas as reuniões que eles fazem.
- Sim, e eu quero que você consiga, mas não entendo porque eu tenho que ouvir sobre construção, sendo que não entendo nada de engenharia, e nem namorados somos – se estivesse prestando atenção em , veria uma careta se formar em seu rosto, e talvez poderia até ver seu coração se quebrar um pouquinho.
- Mas eles sabem que estou com você, quem fica com alguém sem esperar que se torne alguma coisa? E vai ficar fazendo o quê? Vendo mais séries? - quando ela não o respondeu, mais preocupada em saber qual era a próxima besteira que Damon ia fazer, suspirou fundo - E eu que achei que você se importava comigo de alguma forma.
- ! – desviou da TV para respondê-lo, mas ele já havia batido a porta e ido embora.

***

No jantar

- Ei, , a não pode vir de novo? – a tal "insuportável" namorada de Tim perguntou.
- Sabe como é – sorriu um pouco chateado – Último ano de faculdade, ela está estudando.
- Sorte a dela, esses jantares são realmente chatos, mas o que a gente não faz por amor, né?
Naquele momento, o rapaz sentiu algo que nunca pensou que fosse sentir em toda sua vida: inveja.

***


- , você não vai acreditar, eu fui chamado! – disse entrando no apartamento da garota com uma sacola do In-n-Out e um sorriso de derrubar o quarteirão – Estou no time que vai projetar o condomínio novo.
- Yay! – a menina se levantou do sofá, contagiada com a alegria de – Eu sabia que você ia conseguir, lindo, eles sabem que você é o melhor profissional de toda a empresa, todas as horas extras que você fez valeram a pena, e nem precisei ir a jantar algum.
- Ok, não vamos falar sobre isso de novo - fez uma careta não querendo pensar no assunto.
Apesar de ter ido atrás dele assim que ele saiu da casa dela e tenham se acertado, ele ainda estava chateado, mas não queria ficar de mal da pessoa que amava por conta de jantares de trabalho. Ele mesmo odiava ir e acreditava que tendo a companhia de as coisas ficassem menos tediosas, mas entre jantar sozinho com os sócios de sua empresa e forçá-la a fazer algo que não queria, ele sabia qual escolher.
- Muito cedo? – disse em relação a sua piada antes de pular no colo de o beijando com vontade – Nossa celebração será a base de carboidrato mesmo? – perguntou ainda no colo dele.
- A primeira parte sim, a segunda comemoração vai ser cardio puro, até o amanhecer – riu ao ver corar, mesmo sabendo que ela adorava quando ele falava coisas do tipo – Vou me trocar, princesa – disse lhe dando um selinho e a colocando sentada na pia da cozinha.
- Ei! – gritou quando ele já tinha saído da sala – Eu não me importo se você quiser começar a tirar a roupa aqui.

***

Três meses atrás

“Onde você está? Xx” leu a mensagem que havia enviado a há mais de uma hora e nada de receber uma resposta.
Já tinha tentado ligar, mas havia sido em vão. Quando abriu a porta para sair, deu de cara com .
- Onde você estava? Estou te esperando faz duas horas já - seu tom era bastante irritado.
- Não é óbvio? - perguntou visivelmente cansado, as mangas de sua camisa já estavam dobradas e mais botões do que seria aceitável num ambiente de trabalho estavam abertos – Por que você está arrumada? Aonde você vai?
- Não acredito que você esqueceu! - o encarou chateada – Hoje é a festa do pessoal de medicina.
- Ah, é verdade! – sua cara de desânimo aumentou – Será que a gente pode pular essa?
- Nem pensar, , não fiz nada a semana toda , já perdi duas festas pra ficar com você e ontem você disse que viria aqui em casa e cancelou de última hora.
- Mas eu não te vi a semana toda. Eu estou muito cansado, trabalhei mais de 60 horas essa semana, queria só jantar com você e não sei, ver um filme?
- Você sabe que eu amo ficar em casa com você, mas, estou tentando recuperar o tempo perdido e aproveitar a vida, você mais do que ninguém sabe disso.
- Você vai então? Não tem a menor chance de eu ir.
- Vou, se você quiser, pode dormir aqui, na volta eu...
- Vou pra casa então - a cortou enquanto falava.
- Mas...
- Mas o quê, ? Você vai beber como faz toda sexta, voltar cansada, acordar depois do meio dia de ressaca e mau humor, nos únicos dois dias que eu posso me dedicar a você sem me preocupar com o trabalho acabamos não fazendo nada.
o encarou chocada e ainda mais chateada. Não era sua culpa que não se viam direito há quase três semanas. Sequer podia se lembrar da última vez que se viram durante a semana, ou que tiveram uma conversa inteira, nem que fosse por mensagem, sem que acabasse dormindo na metade. Nos finais de semana que saíram, ele parecia alheio a tudo e sem muita vontade de estar ali.
Parecia alguma espécie de carma, pois quando eram só amigos as coisas eram bem mais simples, ela tinha mais liberdade para sair e quando ele não podia fazer algo, ela simplesmente ia. também, antes parecia estar sempre disposto a sair , mas agora que estavam juntos, sua vontade parecia diminuir a cada dia, deixando bastante frustrada e se sentindo um tanto quanto enclausurada.

***

Dois meses atrás

- Eu te amo – ouviu a voz de antes mesmo que tivesse aberto os olhos – Não se esqueça disso.
- Eu também, mas por que estou ouvindo isso agora? – perguntou emburrada olhando o relógio na cômoda – ÀS SETE DA MANHÃ DE UM SÁBADO?!?
- Eu tenho café – disse em um tom de voz divertido e as mãos ao alto, ao que viu a garota o encarar com apenas um olho aberto.
- Quero! – foi à única coisa que ela disse e ele como sempre, esperou ela terminar sua bebida antes de falar qualquer coisa.
No dia do aniversário de , após o show, foram para a casa da garota e tiveram a primeira vez. Mesmo sabendo de como ela odiava manhãs, nada poderia o ter preparado para o que aconteceu quando tentou acordá-la de uma forma carinhosa e romântica. A garota não falou uma palavra sequer, apenas se livrou de seu abraço de forma brusca e foi em direção ao banheiro batendo os pés e a porta com força. Sua insegurança ficou ainda maior, por pensar que ela tivesse se arrependido do que tinham feito.
Assim que ela saiu do banheiro, foi direto a cozinha, ainda sem falar uma única palavra. Ele a seguiu e a observou fazer seu café com uma certa distância, por precaução, impressionado com que tudo que ela tinha dito era verdade. Alguns minutos depois de terminar seu café, sua versão endemoniada começou a dar lugar a pessoa que estava acostumado, e essa lhe deu um beijo de bom dia e o puxou de volta para cama.
- Ok, agora que você já tem cafeína suficiente no seu sistema, preciso te contar uma coisa.
- Não podia esperar sei lá, um horário mais normal, tipo meio dia? – disse ainda levemente mal-humorada e de ressaca. Havia saído com suas amigas, quando ligou cancelando o jantar dos dois, pois teria que ficar até mais tarde no escritório...de novo.
- Me tiraram do projeto – finalmente abriu os olhos preocupada
- Mas, por quê? E por que você está feliz assim por algo que deveria ser ruim? Será que ainda estou sonhando? – perguntou a si mesma, fazendo o garoto sorrir e puxá-la para mais perto dele.
- Não, boba, me tiraram do projeto e me colocaram em um três vezes maior e você não vai acreditar, .
- O quê!?!
- O projeto é em conjunto com a filial de Salt Lake City, o engenheiro júnior deles teve que voltar pro Canadá por algum problema no visto e eles não terão tempo de contratar alguém a tempo de ensinar tudo sobre o projeto, e como é parecido com o daqui, me chamaram, nunca ninguém com meu cargo foi chamado para algo assim antes, não é demais?
o encarava ainda atônita, não sabia o que responder e nem o que era aquele negócio que estava tomando conta de si. Levantou-se rapidamente e foi ao banheiro trancando a porta para que ele não a seguisse. Encarou seu reflexo no espelho e sentiu sua garganta arder. As lágrimas logo vieram.
- ? – seu tom de voz era preocupado – Você quer mais um café? – perguntou incerto tentando imaginar o porquê dela ter reagido daquela forma.
Depois do que pareceu uma eternidade, ela abriu a porta, seu rosto inchado e vermelho de tanto chorar.
- Acho que, acho que não estamos mais dando certo como um casal – disse a um completamente assustado.
- O q... mas... eu não entendo – sua voz era baixa, e seu olhar surpreso, imediatamente deu lhe as costas – Eu...o que eu fiz? Foi pelo que eu acabei de dizer? - encarou a menina, que sentiu seu coração apertar, os olhos dele estavam cheios de lágrimas e podia ver a força que fazia para não deixá-las cair.
- , a gente mal se vê, você chegou em casa ontem e eu já tinha saído, quando eu cheguei você já estava dormindo. Há quanto tempo não jantamos juntos, assistimos uma série? Aliás, esqueça a parte “casal”, qual foi a última vez que conversamos como amigos?
- Você acha que não sinto sua falta? Eu penso em você o tempo todo, o que eu mais quero é poder ficar com você, chegar cedo, cozinharmos juntos, eu sei que tem sido difícil.
- Difícil?! , nem com Jeremy era assim, ele era um ogro, mas sempre arranjou um tempo para ficarmos juntos.
Ao ouvir aquelas palavras sentiu-se como se tivesse sido apunhalado pelas costas, enquanto o queimavam vivo. De todas as coisas que poderia ter dito para o atingir, essa era a única que nunca esperou ouvir. Depois de tudo que haviam passado, depois de todas as conversas, ela o comparou a ele, justo ele.
via seu relacionamento ir montanha abaixo. Parecia que uma avalanche vinha em sua direção lentamente, rindo da cara dela, e não havia nada que pudesse fazer para se salvar.
Mesmo estando calor do lado de fora, sentia frio. Não sabia o que dizer a , não sabia se como casal eram fortes o suficiente para atravessar a avalanche, muito menos se chegariam vivos até o final, quem dirá juntos.
Agoniada, nem se deu conta que as lágrimas voltaram ainda mais fortes dessa vez. Encarou , este a olhava preocupado, mas ao mesmo tempo podia ver o medo de perdê-la e a dor em seus olhos.
Ele estava profundamente magoado como nunca havia se sentido em toda sua vida, mas ver a garota que amava naquele estado o machucava ainda mais, tentou se aproximar colocando uma mão nos cabelos da menina, fazendo um carinho da forma que ele sabia que ela amava.
Assim que a tocou, ela deu um grito de raiva o assustando.
- O que você achou que fosse acontecer, hã? Que eu fosse ficar feliz por você e fossemos passar o dia comemorando como nunca mais vamos nos ver? Ou ia pedir ajuda pra arrumar suas coisas pra se mudar pra merda de Salt Lake? Uau, parabéns, , esse projeto "três vezes maior" era exatamente o que estávamos precisando. Não se esquece de agradecer seu chefe maravilhoso por essa oportunidade única – disse irônica – Como você pode achar que ficaríamos juntos? Eu não tenho meu melhor amigo ao meu lado faz cinco semanas, espera que eu também vire freira até esse projeto acabar?
- ... - a chamou com cuidado, nunca imaginou que a menina fosse ter uma reação como essa.
- Não, , por favor, não tem nada que você possa dizer que vá me fazer entender que isso é uma boa notícia, óbvio que não sou egoísta ao ponto de não estar feliz por você, mas nós, eu e você... - apontou para os dois com desgosto - Você passou dois meses me contando como um relacionamento deveria ser de verdade, tudo que já tinha feito por suas namoradas e me dizendo como o meu relacionamento era errado e eu merecia muito mais, você pode me dizer se isso incluía não ver seu amigo-namorado por semanas? Ligar para ele na hora do almoço para ouvir a sua voz e ele não passar mais de cinco minutos falando com você? Eu preciso acordar direito, não quero discutir isso agora, senão vou acabar falando algo que não devo, vou tomar banho, a gente se fala depois.

***


não sabia como ainda conseguia colocar uma perna frente a outra. Estava indo pra casa pelo maior caminho que conhecia, através do parque, que por ser sábado de manhã, encontrava-se cheio de crianças e cachorros correndo por todo o lado.
Claro que ele sabia como estava sendo difícil, sentia na própria pele, mas sabia que fazia parte de sua profissão. A fase dos desenhos e cálculos eram sempre as mais estressantes e sua maior responsabilidade, com o tempo já não precisariam mais dele com tanta frequência.
Imaginou que o trabalho seria uma prova para seu relacionamento que ainda estava no começo, só não imaginou que poderia ser o fator determinante.
Conhecer tinha sido a melhor coisa que havia lhe acontecido em toda sua vida, desde que a viu sentada naquele bar sabia que não iria se perdoar se não criasse coragem para ir falar com ela. A relação deles parecia ir extremamente bem, até o dia em que se beijaram.
Sabia que a mulher que ele queria pro resto da vida era ela, e mesmo que estivessem em duas fases de vida diferentes, o tempo em que passaram juntos nos últimos meses o provaram que era sim possível combinar a nova fase independente, aventureira, que adora sair para dançar e se divertir de , com a dele, recém efetivado na empresa que começara como estagiário no ano anterior e aonde pretendia permanecer por muitos anos.
também amava ficar em casa sem fazer nada e vendo tv, e ele gostava de sair com os amigos para beber uma cerveja e conversar besteiras de homem. Dois opostos que se complementavam.

Mas talvez ela estivesse certa, apesar de se completarem, talvez tenham se precipitado ao ficarem juntos. Ela havia realmente dito que não ia esperar por ele?
O rapaz chegou a se perguntar se ela sentia vontade de ficar com outras pessoas quando saía sem ele.

Estava há mais de duas horas sentado no banco mais afastado do parque quando sentiu alguém se sentar ao seu lado. Olhou um pouco irritado, já que havia tantos outros lugares vazios naquela área, mas levou um susto ao se dar conta que era . Ela estava acabada, talvez um espelho de como ele mesmo estava, nunca havia visto a menina tão desarrumada quanto hoje, calça e blusa de moletom, seus cabelos em um nó e o rosto completamente vermelho.
- A casa inteira tem seu cheiro – disse encarando o chão, mas pode ver um pequeno sorriso em sua direção e metade do peso que sentia evaporou – Me desculpa? Não deveria ter soltado o verbo sem antes dizer o quanto estou orgulhosa e feliz por essa oportunidade que te deram, você merece esse projeto mais do que qualquer pessoa no mundo todo, aposto que nem em um milhão de anos você pensou que algo assim fosse acontecer, de estagiário escravo a engenheiro prodígio em pouco mais de um ano.
- Obrigado! – apesar de tudo que tinha ouvido, sabia que as palavras de eram sinceras – Não esperava algo assim nem no primeiro, nem no segundo ano pra ser sincero, esse tipo de oportunidade não acontece lá na empresa, por isso que tinha a ideia de encontrar uma namorada agora, pensei que em dois, três anos, quando confiassem em mim para esse tipo de coisa, a pessoa que estivesse ao meu lado me amasse o suficiente para aguentar as horas extras.
- ... - sabia que merecia ouvir aquelas palavras, mas nem por isso elas deixaram de ter o peso que tiveram.
- Não, , está tudo bem, eu sei que você disse aquelas coisas da forma que disse porque está chateada, e por incrível que pareça isso me deixa feliz, porque às vezes eu só sei o quanto você gosta de mim quando estamos discutindo. Mas eu também sei que as suas palavras foram verdadeiras, eu só gostaria que você tivesse me dito tudo isso antes, e que não tivesse guardado para você, para explodir dessa forma. Nunca pensei que um dia fosse ouvir você me comparar ao Jeremy.
- Quando que eu te comparei ao Jeremy?
- Você disse que ele ao menos te dava atenção, porra, , se você soubesse o quanto isso me machucou. Você não faz ideia do quanto penso em você em tudo que faço, não tomo uma decisão sem ter você nos meus pensamentos, eu gostaria de um dia poder construir uma vida com você, mas eu não posso falar, posso? Você ainda está se encontrando como pessoa e mulher e concordamos em estarmos juntos, mas não sermos namorados, e por mais que eu entenda isso, a cada dia que passa eu quero mais e mais ser seu namorado e você quer mais e mais estar solteira.
- , não é assim também, eu...você sabe como me sinto em relação a você.
- Não, , não sei, mas eu sei que eu te amo, como nunca amei uma mulher nessa vida.
- Eu também...
- Não, você não me ama, você "eu também", quando éramos amigos você falava o tempo todo, mas desde que nos beijamos você não consegue falar, consegue? Até hoje de manhã tinha a certeza que você era a mulher da minha vida, mas agora que eu sei que eu não sou o homem da sua, preciso tentar aceitar que talvez estivesse errado. Mas a culpa é minha, eu sabia que você não estava pronta, mas no show, quando você estava ali tão perto de mim, acabei traindo meus próprios valores e me deixei levar pelo meu coração.

***


Um mês atrás

e já não eram mais um casal.
As últimas semanas haviam sido difíceis para ambos os lados. se culpava por tudo que havia dito, mas principalmente pelas coisas que não conseguiu dizer.
havia mergulhado em seu trabalho, passava quatro dias da semana em Salt Lake City acompanhando a demolição da antiga fábrica, que em breve abrigaria o novo condomínio de luxo e frequentava as reuniões na filial de sua empresa na cidade. Voltava para casa na sexta e passava o resto do dia trabalhando de casa e vendo filmes na tv.
- Não quer sair com a gente, cara? - Aaron, um de seus amigos perguntava todas as vezes que o via.
- Esto...
- "Estou muito cansado, preciso terminar esse desenho, bla bla bla" , troca esse disco, . continua vivendo a vida dela e você esta aí, acabando com a sua.
- Você tem a visto? - finalmente havia criado a coragem para fazer a pergunta que ficava no ar sempre que se viam.
- Sim, ela continua saindo com a Layla e as meninas.
- Hum – queria saber como ela estava, se estava feliz, se sentia saudade dele como ele sentia dela, mas tinha medo da resposta, sabia que seus amigos nunca mentiriam para ele.
- Você a ama de verdade, não? – Aaron fechou a porta e sentou-se ao lado do amigo quando ele apenas balançou a cabeça em resposta – Eu adoro ela também, sempre conversamos enquanto esperamos o Jake e a Layla se pegarem – os dois se olharam com cara de nojo e gargalharam do casal bastante inusitado – Nós dois sempre torcemos para que vocês dessem certo, mas dava pra ver que você era muito mais apaixonado por ela, do que ela por você.
- Eu sei – ele deu de ombros – Mas nunca me importei, ela sempre me fez muito feliz, talvez ela não demonstrasse em público, mas quando estávamos só nos dois, a que eu amo aparecia por completo.
- Eu acho assim, sabe como você vivia dizendo pra gente aproveitar o último ano, porque ano que vem é "Bem vindo à realidade de viver do salário"? Acho que isso, mais o fato dela ter namorado a vida toda influência esse ultimo ano dela, entende?
- Sei, e eu entendo ela querer aproveitar a vida, também nunca achei que fosse ter esse tanto de responsabilidade tão cedo, acho que preciso aceitar que não era pra ser agora, talvez um dia, quem sabe? Só que não é tão fácil assim esquecer alguém que eu achei que fosse ficar na minha vida para sempre, ela não é só a mulher que eu amo, mas também minha melhor amiga, você sabe o quanto é difícil encontrar os dois em uma única pessoa? Às vezes me pergunto se fiz certo em pedir para que ela não me contatasse até eu estar pronto para tê-la apenas como amiga.
- Saiba que nós também te amamos e se te serve de consolo, sempre que a vejo ela está sozinha, já até vi um ou outro cara chegar nela e levar um fora, e eu sei o quanto ela se força para não perguntar de você para nós, outro dia recebi uma mensagem e li na frente dela e pude ver a curiosidade que ela tinha de saber se era você. Ela pode até estar se divertindo como sempre quis, mas eu sei que ela sente muito sua falta.
- Obrigado, vocês dois são duas cruzes na minha vida, mas até que quando preciso são amigos de verdade.
- Sempre que precisar, bro – deu dois tapinhas nas costas do amigo e saiu para mais uma noite de pegação.


***


Há mais de um mês que havia se despedido de com um longo abraço e muitas lágrimas no parque próximo a sua casa.
Tinha ido ate lá para se livrar das lembranças dele que preenchiam seu apartamento. Mal pode acreditar quando o viu sentado no lugar mais afastado do local. Parecia que alguém lá em cima havia lhe dado um empurrão para que pudesse tentar consertar as coisas horríveis que havia lhe dito horas atrás.
Sabia como tinha sido injusta e por isso jamais se perdoaria. Havia prometido a si mesma não fazê-lo sofrer e, por puro egoísmo havia perdido seu melhor amigo.
Passou o dia inteiro assistindo seriados na cama, e comendo muita, mas muita besteira. Chorou até o amanhecer.
Já não se lembrava mais como era acordar e não enviar alguma mensagem para contando seus sonhos malucos e receber de volta uma selfie com alguma careta, ou a foto do que ele estava comendo ou fazendo no momento. Sua favorita era a dele apenas com uma toalha em volta da cintura escovando os dentes. Será que ele sequer sabia o quão sexy ficava daquela forma?
Teve que reaprender a fazer as pequenas coisas do cotidiano sem incluí-lo. Já não precisava mais comprar manteiga de amendoim ou suco de maçã.
Teve que se contentar em assistir ao novo episódio de Arrow sem comentar o quanto o corpo do Stephen Amell era maravilhoso, só porque fazia uma cara de desgosto que ela adorava. Já era uma piada interna entre eles, que sempre que isso acontecia, ele fazia cócegas nela até ela retirar o que disse, e então pegava as mãos da menina a prendendo por cima de sua cabeça e a beijava até perderem o fôlego.
Desde aquele dia vinha repassando a conversa que tivera com ele em sua cabeça, e em todas havia dito que o amava.
Misturou a dor de não mais ter seu melhor amigo, com a busca de sua tão esperada liberdade e foi a todas as festas que aconteceram, viu todos os filmes em cartaz e foi a todos os shows que lhe convidaram. Dançou, bebeu e riu. Suas finanças eram prova do quanto havia mergulhado de cabeça em tentar seguir sua vida da forma que havia escolhido para si, estava falida.
não saberia dizer quando foi que as coisas começaram a mudar, mas um dia se viu na pista de dança, já bêbada, dançando com um cara que mal sabia o nome, mas que se achava no direito de tocar seu corpo como se lhe pertencesse.
Foi embora sem avisar ninguém e só na manha seguinte se ligou que havia enviado uma mensagem para dizendo que havia chego "sã, salva e com os pés doendo", pois acordou com uma mensagem dele que dizia:
"Fico feliz em saber que continua saindo para dançar x Me guarda uma dança? Xx"
Sorriu verdadeiramente, como há muito não fazia, mas logo fechou o rosto ao reparar que a foto dele era nova, uma que ela nunca tinha visto antes. Não soube dizer o porquê, mas não gostou.
A vida dele também havia continuado.
Sem ela.
Teria sido aquele encontro, onde disseram coisas que não queriam para o outro o fim de tudo que viveram?
Atordoada, saiu de casa para tentar espairecer e sumir com aquele buraco que sentia dentro de si desde que saíra daquele parque.
Entrou na biblioteca de sua faculdade, na parte que também era aberta ao público.
- Tem alguém sentado aqui?
- Ai que susto! - levou uma mão ao coração – Sim eu, er, você não consegue me ver?

- Eu sou cego - o menino deu de ombros mostrando sua bengala branca, e sentou-se ao lado de sem nenhuma dificuldade.
- Ah, eu estava lendo um livro, não te vi, me desculpe.
- Não tem problema, eu também não te vi – sorriu para a menina que acabou rindo de seu humor negro – Qual o seu nome?
- Eu me chamo e você?
- O meu nome é Castiel.
- Castiel? - o encarou divertida
- Você deve estar pensando que tenho um nome engraçado, né? Minha mãe me disse que é o nome de um anjo, não sei muito bem, mas eu prefiro falar para as pessoas que é por causa de Supernatural, você já viu?
- Já sim, tenho um amigo que gosta muito dessa série, e eu acho o seu nome lindo – deu uma risadinha com a fofura que era o menino – Onde estão seus pais?
- Minha mãe precisou levar minha irmãzinha no médico, e eu pedi para ficar aqui que tem uma sessão em braile e a Ruth, que trabalha aqui é minha vizinha e fica de olho em mim – disse colocando os livros na mesa.
- Que legal, e o que você pegou pra ler? - perguntou curiosa.
- O pequeno príncipe, você já leu?
- Nossa, minha avó lia para mim quando eu era pequena, mas não entendia muita coisa para ser sincera, faz tanto tempo que até tinha esquecido-me desse livro.
- Quer ler comigo?
- Eu adoraria – respondeu animada por ter uma companhia um tanto quanto diferente para lhe distrair, e foi em busca de uma versão "normal" para ela.
Logo voltou com o livro e por um tempo os dois leram juntos, enquanto Castiel tentava ensinar a ler em braile.
- Olha, , chegamos na minha frase favorita – o menino chamou a atenção da menina para si - "Eis o meu segredo: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos. Os homens esqueceram essa verdade, mas tu não a deves esquecer."
Ao ouvir aquelas palavras, sentiu-se criança novamente. Por anos, sua avó lia essa frase a ela pedindo que a menina sempre seguisse o que desejava o seu coração, para nunca se enganar com o que os olhos pudessem lhe fazer enxergar. Dizia que sua filha, mãe de , havia feito escolhas apenas com os olhos e não gostaria de ver a neta passar pelo mesmo.
- E por que é a sua parte favorita? - perguntou emocionada, observando aquela criança ao seu lado, que parecia ter mil anos, tamanha era sua luz.
- A minha vó começou a ler essa parte pra mim no dia que eu descobri que nem todo mundo era cego, ela me disse que eu não precisava me preocupar em não poder ver com os olhos como todo mundo, porque muita gente que anda por ai vendo tudo, na verdade não enxerga nada. E que as coisas que realmente importam a gente vê com o coração, como a minha irmãzinha, eu não sei como é o rosto dela, ou a cor de seus olhos, mas quando eu a abraço parece que eu enxergo todas essas coisas.
- Sua irmãzinha é uma menina de sorte, tenho certeza que é o melhor irmão do mundo.
- Obrigado, eu acho que sou.
- Eu acho que sou uma dessas pessoas que só enxerga com os olhos – disse para o menino – Queria poder enxergar o mundo como você enxerga sua irmãzinha, como eu faço para ver o invisível? Como faço para enxergar com o coração?
- Eu não sei, talvez para mim seja mais fácil, pois nunca aprendi a ver com meus olhos, mas eu espero que você aprenda a ver como eu, é muito mais legal.

- Eu também espero, Castiel, eu também espero.

***


andava de volta para casa sentindo-se revigorada, como podia uma criança de dez anos ser responsável por ajudá-la a enxergar o que estava embaixo do seu nariz o tempo todo?
O seu sentimento de liberdade não tinha aparecido porque estava finalmente sozinha para aproveitar sua vida de solteira, mas porque percebera que a sua liberdade vinha acompanhada de um sorriso que derrubava todos os seus medos.
Finalmente havia entendido o que tinha de errado com todos os caras que recentemente tentaram beijá-la e acabaram frustrados. Ela simplesmente não tinha mais interesse em beijar ninguém, somente ele.
Por conta de tudo que havia passado com o Jeremy, acreditou que deveria recuperar o tempo perdido e beijar todas as bocas disponíveis do mercado.
Até ficou com dois ou três colegas da faculdade que sempre achara interessante, antes de estar com , mas não via qual era a graça de só ficar com alguém por ficar, tanto que nunca haviam passado disso, apenas beijos em locais públicos.
O sentimento que tinha quando estava no trabalho ocupado e não com ela, não era porque ela queria sair e ficar com outras pessoas, mas apenas porque estava com saudades dele e de tudo que faziam juntos.
Queria sim continuar a sair pra dançar, dar risada com as amigas e aproveitar a vida, mas ainda sim queria ter ele sendo somente dela.
O que tinha aprendido nesse ultimo mês sozinha era que ser livre não significava somente ter encontros casuais e aproveitar a vida como se não houvesse amanhã. Suas amigas estavam nessa fase e não via nada de errado nisso, mas para ela, isso simplesmente não funcionava. Depois de , entendeu que é sim possível ser livre e ter um namorado.
Confundiu a liberdade do que tinha com ele, com o desejo de ser livre e desimpedida, pouco percebera que desde que se conheceram ela era livre e feliz como nunca tinha sido. Dona de si, mas muito amada.
tinha razão, seu namoro com Jeremy era sim uma prisão. Na época não percebia, mas nunca saia com suas amigas, os jantares eram sempre em casais e as viagens em família. Jeremy não havia sido de todo um mal namorado, mas hoje entendia que seja lá o que tiveram, não era algo que queria repetir.
nunca a impediu de ir a alguma festa, pelo contrário, a animava para ir em todas que ela queria, mesmo que ele não pudesse acompanhá-la.
Às vezes saia com seus amigos sem ela para também poder ter sua liberdade, mas ao final do dia, voltavam um para o outro.
O tempo todo a felicidade estava ali na sua frente e sua busca por liberdade havia a cegado do que realmente importava.
Finalmente estava vendo com o coração.

***


- Aaron, você não vai acreditar! - foi o que Jake disse quando abriu a porta do apartamento que dividia com e Aaron.
levantou a sobrancelha de modo engraçado, sem entender que forma era aquela de cumprimentar as pessoas.
- Ah! - Aaron sorriu – Caiu a ficha? - abriu um sorriso enorme concordando com a cabeça.
- Posso entrar? não está aqui, certo? Falei com a Layla ontem, e ela me disse que ele mora em Salt Lake City agora? - perguntou na dúvida, pois realmente não sabia o que estava acontecendo.



Capítulo 03


ficara tão feliz em ver Salt Lake City, que tinha quase se esquecido do cansaço que sentia por passar o dia dirigindo.
Quando apareceu na casa dos meninos para conversar com Jake e Aaron e saber se tinha ainda alguma chance com , eles ficaram reticentes, precisou convencê-los de que não queria ele de volta apenas como amigo, mas como seu namorado, e estava disposta a fazer o que fosse preciso para provar a e a seus amigos que o amava e nunca mais iria machucá-lo da forma que o fez.
Os meninos lhe explicaram que passava quatro dias da semana na outra cidade e vinha para casa as sextas, mas ela não podia esperar, precisava vê-lo ontem. Quando a dupla lhe disse que no dia seguinte haveria um jantar em homenagem a , por todo o trabalho exemplar que vinha fazendo na empresa, sem poupar esforços para fazer as coisas acontecerem e manter o cronograma intacto, sabia que precisava cancelar todos os seus planos, inclusive o de ir as aulas, para estar lá por ele e com ele.
Como diria sua avó, e pelo visto Castiel e Elohim, duas pessoas que podia jurar que eram anjos na terra "é preciso suportar duas ou três larvas, se quiser ver as borboletas"
Até aquele momento tinha certeza de tudo que queria falar para , mas com seu carro estacionado quase em frente ao prédio onde ele estava ficando, via sua coragem ir embora e a insegurança bater forte.
E se fosse tarde demais? E se ele tivesse conhecido alguém nesse tempo que passaram separados?
Não sabia se ele ainda estava em casa e tinha medo de ser rejeitada em frente ao porteiro, então deixou um recado com o mesmo e voltou para seu carro para esperar por ele.

***


- Senh... - o porteiro começou a falar e viu o encarar fingindo estar bravo – , desculpe, eu tenho um recado para você da Srta. .
Ao ouvir aquele nome, deixou o sorriso sumir de seu rosto, por mais que tentasse, não conseguia esquecer a menina. Parecia que quanto mais distante estava dela, maior era a falta que sentia, maior era o amor que tinha.
Quando recebeu sua mensagem no meio da noite alguns dias atrás, sentiu seu coração quase sair pela boca, havia esperado o mês todo por alguma notícia, qualquer coisa, além das fotos em que a marcavam no Facebook. Mesmo sabendo que ela estava apenas respeitando seu pedido, tinha uma esperança secreta que ela o ignorasse.
Apesar de ter lido a mensagem no meio da noite, só teve coragem de responder pela manhã. Se odiava por ter dado a tanto poder sobre si. Odiava saber que ela tinha saído para dançar sem ele. Odiava pensar que enquanto ele ainda estava pensando nela, ela poderia estar nos braços de outro.
Estava adorando Salt Lake e já pensava em tornar aquela cidade sua nova casa. A filial de sua empresa era bem maior e seus colegas de trabalho muito mais legais. Nem conseguia acreditar que estava indo a um jantar que estava sendo oferecido para ele. Como podia ter tido tanta sorte em conseguir um trabalho como aquele?
Sabendo que a sua sorte no trabalho havia lhe custado o amor, resolveu voltar à realidade e focar no que agora era a coisa mais importante em sua vida.
- Obrigado, Zack, mas eu vou pegá-lo na volta, tudo bem? - sorriu fechado para o porteiro que até tentou lhe falar alguma coisa, mas saiu apressado para entrar no táxi.
Ao fechar a porta, pensou ter visto a pick-up de , mas chacoalhou a cabeça se achando maluco. De sua cidade até aqui eram mais de dez horas de viagem, jamais que a menina faria algo do tipo, pegar um avião era muito mais seu estilo.
Durante o jantar não conseguia parar de pensar no que poderia estar escrito naquele recado. E se fosse uma emergência? Por que não havia simplesmente enviado uma mensagem ou telefonado?
E Jake e Aaron não poderiam tê-lo avisado que ela tinha pedido seu novo endereço? Pelo menos não estaria agindo igual um lunático em frente a todos os seus colegas de trabalho.
Com o tempo havia aprendido a não pensar tanto em e em como sentia sua falta. A quantidade de trabalho ajudava, e o aprendizado era tão intenso que muitas vezes só chegava em casa e ia direto para a cama.
No lado profissional sentia-se extremamente realizado, o engenheiro responsável pela obra havia praticamente o adotado e estava lhe ensinando tudo que sabia, além de convidá-lo para jantar com ele e sua família pelo menos uma vez por semana.
Era ele também o responsável por esse "prêmio" que ganhara naquela noite. Uma pequena placa corporativa o parabenizando por todo o trabalho feito. Não podia negar que estava se sentindo o máximo quando o táxi o deixou de volta em seu prédio.
Quando estava prestes a abrir a porta do edifício notou a pick-up que achou ter imaginado antes de sair de casa, não havia muitos modelos daquela cor para ser apenas uma coincidência, não?
- Mas... não pode ser – disse para si mesmo, se aproximando do veículo em passos lentos – ? - murmurou atônito para si mesmo ao ver a menina deitada no banco de seu carro dormindo.
Extremamente preocupado e surpreso, bateu com força no vidro ao mesmo tempo em que tentou abrir a porta, fazendo com que a menina acordasse com susto e medo.
- Sou eu, calma – disse ainda incrédulo de vê-la ali na sua frente, depois de tanto tempo separados – O q.... abre essa porta! - pediu impaciente para a menina que ainda estava confusa.
- – foi a única coisa que saiu de sua boca quando o viu depois de tanto tempo.
Logo destrancou o carro e entrou feito um furacão, fechou a porta e a puxou para um abraço.
- ! - se afastou da menina ainda com as mãos em seus braços a analisando – Está tudo bem? O que você está fazendo aqui? Por que não avisou? Você veio dirigindo?
- Calma, ! – disse rindo da forma que ele agia – Eu estou bem, só cansada, estou dirigindo há horas, eu estava com muitas saudades - as palavras saíram de sua boca antes que pudesse filtrá-las.
- Eu também - admitiu sem vergonha alguma - Não sei quem foi o idiota que pediu para que você não me contatasse.
deu uma risadinha e o abraçou novamente, dessa vez, sem a menor pressa de soltá-lo.
Como tinha sentido falta dele. Só agora que o tinha ali, finalmente a sua frente percebia o quanto o amava, o quanto ele a completava.
não tentou quebrar o abraço, ainda estava tentando entender se aquilo era realidade ou apenas um sonho. Como ela aparecia ali do nada, sem nenhum pré-aviso? Condenava a si mesmo por ter saído para o jantar sem nem dar a chance do porteiro dar o recado, ela tinha ficado ali todas àquelas horas sozinha?
tinha seu rosto grudado em seu pescoço. Logo sentiu aquela área ficar molhada e os soluços que vinham da menina aumentarem.
- O que está acontecendo? - perguntou preocupado, fazendo um carinho de leve em suas costas para acalmá-la.
sabia que aquela era a sua hora, a hora que não deveria deixar nada de fora. Tudo que havia guardado para si precisava ser dito, e ela tentava encontrar em palavras, como explicar para toda a confusão e dor que tinha causado aos dois ao ter sido imatura ao lidar com tudo que aconteceu da forma que o fez.
Um dia, ao sair do banho, se olhou no espelho confusa, tentava entender o porquê não se sentia como a maioria de suas amigas.
Sua geração era conhecida pelo desprendimento, pela troca fácil do que já não estava agradando, por algo novo e excitante. Por um tempo tentou fazer parte daquele mundo, mas quanto mais tentava fazer parte, mais se sentia distante de si mesma. A percepção que o mundo a fazia ter de si, a estava fazendo mal. Não queria mais ser aquela pessoa.
Sabia que não era perfeita e que tinha mil defeitos, mas por ela, por ele, pelos dois e por tudo que viveram ela passaria o tempo que fosse, trabalhando para se tornar a melhor versão de si.
Havia aprendido que jamais poderia amar alguém, sem antes amar a si mesma e ela estava pronta para amá-lo da mesma forma que se amava.
- Eu estou bem, só cansada de dirigir mesmo – disse ao se desvencilhar do abraço do rapaz – Eu precisava te ver hoje e queria que fosse uma surpresa, mas digamos que em minha busca pela tal liberdade acabei gastando muito mais do que tinha e quando tentei comprar uma passagem meu cartão foi negado, e meu pai disse que ia me mandar mais dinheiro, mas só vai cair na minha conta amanhã e eu realmente precisava te ver e bem... estou aqui.
- Por que você precisava me ver hoje? O que tem hoje? - perguntou curioso.
- Achei que hoje, no dia que você ganharia esse prêmio – olhou para placa na mão do rapaz que estendeu para que ela o pegasse – Era um bom dia para te dizer que eu... te amo. - sua voz saiu em um sussurro
- Você... você disse que – ele a encarou um pouco chocado, mas logo seu rosto mudou para entendimento – Ah...
- Não, não como amigo, digo – disse se atrapalhando o que fez rir, já que era uma marca registrada dela – Óbvio que eu te amo como amigo, mas eu te amo ainda mais como homem.
não desviou seu olhar dos olhos de por um segundo, queria saber como seria a reação dele ao ouvir as palavras que havia demorado meses para perceber que sentia desde o início. Seu rosto era indecifrável, mesmo praticamente soletrando o que havia dito, ele ainda parecia não acreditar no que ouvia.
Seus olhos logo se encheram de lágrimas e ele desviou o seu olhar de por um momento, encarando o nada a sua frente, antes de se virar para ela pronto para falar alguma coisa:
- Não, você não está sonhando, não está maluco, eu realmente estou aqui e disposta a fazer qualquer coisa para que você me perdoe, isso é, se você ainda me amar e me quiser, claro – disse repentinamente nervosa – Aquele dia no parque eu deixei que você pensasse coisas que não são verdade e fui burra o suficiente de ficar quieta, ao invés de ter lutado por nós. Eu imagino que você deva ter muitas perguntas, mas queria pedir para falar tudo que eu quero falar e quando eu terminar você me pergunta o que quiser, combinado?
Ele apenas acenou com a cabeça, o sorriso, aquele que balançava seu coração estava novamente estampado em seu rosto, mesmo que seus olhos ainda estivessem cheios de lágrimas, sabia que elas eram de felicidade.
- Eu sei que você sabe que fiquei com o Scott quando éramos apenas amigos, aquela semana, quando Aaron me encontrou no bar, foi à primeira vez que eu me toquei que por mais que ficasse com outros caras, eu de alguma forma, não queria que você soubesse, e foi naquele dia que percebi que não queria que você fosse apenas meu amigo. Nesse mês que passamos separados, também não beijei ninguém, eu sei que não te devo nada e que você entenderia se eu tivesse, mas queria que soubesse que não – virou-se para frente para falar as palavras que vinham a seguir, pois só de pensar em revelar algo assim ficava tímida – Eu também nunca fiquei com ninguém além de você e Jeremy.
observava brincar com as mãos enquanto falava com ele, era visível o quanto estava nervosa e insegura. Se a felicidade que estava sentindo naquele momento não fosse tão forte, talvez encontrasse espaço para se surpreender em vê-la pela primeira vez tão insegura em relação a ele. Sempre fora o contrário, mas ali, ela ainda acreditava que ele fosse dizer qualquer coisa a não ser a única que ele seria capaz, que ainda a queria, mais do que já quis qualquer coisa em toda sua vida.
Ficou surpreso em saber que ele era o seu segundo, não era machista e se ela tivesse ficado com outros, não se importaria, mas por algum motivo sentiu-se especial e finalmente, amado por ela, como nunca se sentira antes.
- Eu também não - respondeu automaticamente – Quer dizer, eu fiquei com uma menina depois que te conheci, foi logo no começo, mas eu já estava me apaixonando por você para me interessar por qualquer outra pessoa, desde então realmente, só tem sido você. E confesso que depois de nossa briga me perguntei se você teve vontade de ficar com alguém enquanto estávamos juntos.
já imaginava que era isso, claro que se incomodou ao saber que ele tinha ficado com alguém depois que se conheceram, mas sentiu muito mais alívio, ao saber que ambos, mesmo separados, ainda pensavam da mesma forma.
- Não, jamais, eu, por mais que quisesse sair, dançar essas coisas, quando saía sem você não era para procurar ninguém, era por mim apenas, mesmo porque sabia que tinha você, eu não sei por que falei as coisas que te disse, eu estava bastante chateada, você passou tanto tempo "vendendo seu peixe", falando o quanto era bom com suas namoradas, o quanto Jeremy era um lixo, e de repente, já não tinha tempo para mim, estava sempre cansado, não queria mais sair, fazer nada. De repente me senti presa de novo, como quando me sentia com o Jer, talvez por isso tenha os "comparado". Hoje eu sei o que era todo aquele sentimento, mas na época não. Você acha que pode me perdoar e esquecer que um dia falei isso?
- Claro que pos... - respondia a quando chutou algo no chão do carro, e percebeu que era uma sacola – O que é iss...Red Bull? Mas você odei..., você veio tomando isso no caminho? Quantos você bebeu?
- Você já dirigiu de casa até aqui? - perguntou rindo da cara brava que ele fazia.
- Realmente estou parecendo o Jeremy agora e sendo um ogro, você dirigiu por horas, sobreviveu disso o tempo todo e ainda estamos nesse carro, vem vamos para minha casa – sorriu abrindo a porta do seu lado e indo até a porta do motorista para abrir a porta para .
Passaram pelo porteiro com um aceno e ficaram em silêncio até o elevador chegar, assim que as portas se fecharam fez o que vinha sonhando em fazer desde o momento que a viu dormindo no carro. Segurou seu rosto com uma mão e com a outra a abraçou trazendo seu corpo para si e a beijou como se sua vida dependesse disso.
O apartamento de era um pequeno estúdio. Sorriu ao reparar que tinha uma foto dos dois em sua estante e sentiu-se menos tola, por nunca ter jogado fora o retrato que tinha dos dois no mesmo local em sua casa.
- Como está o seu trabalho? Imagino que bem – sorriu levantando a placa que ainda carregava e colocou na estante ao lado da TV.
- O mesmo, cansativo, mas aprendendo muito – respondeu ao colocar um prato no micro-ondas - Eu amo meu trabalho, mas realmente eu queria falar de nós hoje, podemos deixar o resto para outro dia?
- Sim, desculpe – riu do leve desespero do menino, e sentou-se no balcão em frente a ele – Era só uma brecha para falar do mais importante, acredito que o motivo pelo qual eu tive aquele mini surto e causou tudo isso – deu de ombros e aceitou o copo de água que ele lhe oferecera – Eu já disse aquele dia e preciso repetir, o quanto estou feliz e orgulhosa de tudo que tem conquistado, você realmente merece, e merece alguém ao seu lado que possa torcer por você e entender que nem sempre vai ser fácil, e por mais que eu tenha te feito pensar que eu não poderia ser essa pessoa, eu quero que saiba que eu posso sim.
- Você sabe que passo quatro dias da semana aqui, não?
- Sim, sei, mas o que você não sabe, e que na época nem eu sabia, é que eu não quero e nem preciso de mais ninguém a não ser você, contanto que você continue sendo você mesmo e não se importe que eu continue saindo para dançar e me divertir eu prometo que vou entender quando você precisar fazer horas extras, ou chegar cansado e não puder me ver. Claro que se pudesse teria você todos os dias para mim, mas não vou ser egoísta e topo te dividir com o seu trabalho.
colocou o prato de macaronni & cheese que havia feito na noite anterior em frente a e a observou comer como se há meses não soubesse o que era comida, com um sorriso que se negava a sair de seu rosto, por tudo que estava ouvindo.
- Eu só não entendi o porquê você precisava estar aqui hoje, se na sexta eu ia voltar pra casa, não gosto de pensar que você se arriscou dessa forma, dirigindo por horas por mim, mesmo que eu esteja estupidamente feliz em te ver, seu bem estar é muito mais importante para mim.
- Esse prêmio, eu queria estar aqui antes de você sair para recebê-lo, afinal, o seu trabalho foi o motivo pelo qual brigamos, e eu só queria que você soubesse que eu entendo, eu entendo o que sua profissão significa para você, e eu não me importo que as vezes você vá ter que dar mais atenção a ela, do que a mim e que se for preciso eu aguento seu chefe chato em quantos jantares forem preciso.
- Eu também tenho minha parcela de culpa, sentou-se no banco ao lado dela, virando todo seu corpo para a menina - Estava tão desesperado para conseguir qualquer oportunidade que fosse, que acabei sacrificando muito mais do que eu imaginei, não estava comendo ou dormindo direito, não cuidei de você como sempre disse que o faria, e não te dei a atenção que você merecia, eu só posso te perdoar, se você me perdoar também, eu prometo que por mais ocupado que eu esteja, vou tirar vinte minutos do meu dia para falar com você, e se não conseguir eu vou para sua casa, nem que seja para te ver dormir. Se você está disposta a se sacrificar por mim, eu vou fazer tudo que for do meu alcance para te fazer feliz. Eu te amo, , como nunca amei ninguém nessa vida.
- Eu também - disse para provocá-lo e fez uma careta quando ele a encarou de sobrancelha erguida – Eu te amo, , eu prefiro perder todas as festas do mundo, se for para ter você, não quero sentir nunca mais o que senti quando você estava longe de mim – se levantou e ficou entre as pernas de , que ainda estava sentado no banco a sua frente - , você quer namorar comigo? - perguntou sorrindo.
- Ei, essa é minha fala – riu com suas mão sob a cintura da menina, a trazendo para mais perto de si.
- Século vinte um, direitos iguais – deu de ombros como havia feito na primeira vez que se conheceram.
- Eu seria um idiota se não aceitasse o pedido de namoro da garota mais incrível que já conheci em minha vida.
e se beijaram, sentindo seus corações finalmente encontrarem a paz que tanto pediram a Deus.
Ambos haviam cometido erros e sabiam que o importante era aprender a perdoar e serem perdoados. Dia após dia, fariam suas vidas valerem a pena de serem vividas.

"Life is worth living, so live another day"


***






Epílogo


- Eu acho que é para direita aqui, se via na mesma encruzilhada que tinha passado há dois dias.
Ficou com na quinta e na sexta, e ele, ao invés de pegar seu voo semanal de volta para casa, pegou o dia de folga e passeou com por toda a cidade.
No sábado de manhã, com ele na direção, saíram cedo rumo a Phoenix, refazendo o mesmo caminho que tinha feito. Carregavam não apenas um galão de diesel em sua caçamba, como também um presente para Elohim.
- Linda, eu acho que se tem alguma coisa que aprendemos sobre você, é que ler mapas não é o seu forte – riu da cara feia que ela lhe fez e virou a esquerda, colocando sua mão na perna da menina como forma de pedir desculpas por falar o que era pura verdade.
- Ali, ali, ali! - disse empolgada batendo palminhas – Ele disse que a casa dele fica embaixo da arvore com flores amarelas.
franziu o cenho:
- Uma igreja? - saiu do carro e foi em direção a única construção que tinha naquela área – Será que ele é um padre? - perguntou a si mesma, indo em direção à porta da frente, enquanto estava dando a volta pelo local para encontrar uma outra entrada.
A porta estava trancada, bateu algumas vezes, mas não parecia ter ninguém ali. Sentiu-se arrepiar quando um vento passou fraco pelo local. Logo viu voltar e a encarar confuso.
- Não tem nenhum padre chamado Elohim aqui, o menino que eu conversei, bem estranho por sinal, disse que você não precisava deixar presente algum, pois você mesma já tinha dado a eles um presente, ele disse que...
- Que menino? - o interrompeu curiosa – Quando eu parei naquela encruzilhada o Elohim estava sozinho.
- Eu encontrei com ele ali atrás, ele me disse que o nome dele era Castiel.
- Quê? - o coração de chegou em sua boca.
Correu o mais rápido que pode em volta da igreja a procura do menino que tinha conversado, não poderia ser...
- Ele estava aqui agora mesmo – parecia tão perdido quanto ela – Falei que ele era estranho, devia ser um fantasma – disse brincando, mas no fundo com um pouco de medo de ser verdade.
- O que ele disse? - pediu apressada – Que presente eu dei?
- Ah, ele disse que você tinha aprendido a ver com o coração e isso para eles era o suficiente – comentou ainda confuso.
- Não – respondeu a , com lágrimas nos olhos – Ele não era um fantasma, eles eram anjos – sorriu para o menino que parecia ainda mais confuso - Obrigada! - sussurrou em direção ao céu e abraçou de lado andando com ele de volta ao carro.



FIM!



Nota da autora: Oi meninas, essa é a primeira fic que escrevo e tenho coragem de postar, estou super nervosa e curiosa para saber o que vocês vão achar.
Espero que gostem e comentem!

*Uma curiosidade: Elohim é um dos nomes dados a Deus.
Beijos,
Carol ;)

Se quiser ficar por dentro do que mais escrevo, entre no meu grupo do facebook!




comments powered by Disqus




Qualquer erro nessa atualização e reclamações somente no e-mail.
TODOS OS DIREITOS RESERVADOS AO SITE FANFIC OBSESSION.