Capítulo Único

- Posso saber para onde estamos indo?
- Não, soldado, não pode. – ela respondeu em tom sereno, caminhando à frente dele pelo saguão do aeroporto.
- Tenente-Coronel. – ele corrigiu e deu uma corridinha para que caminhassem lado a lado. – E eu viajo de volta na segunda-feira, amor. Eu preciso estar em Nova York pra embarcar.
- Soldado, – ela interrompeu o caminhar, se virou e o olhou séria. – você não aprendeu que uma ordem do seu superior nunca deve ser questionada?
- Sim, senhora. – ele respondeu e ela ergueu uma das sobrancelhas, em sinal de que ele deveria, apenas, ficar em silêncio e obedecer.
- Ótimo. – respondeu e se virou, voltando a caminhar, arrastando uma mala ao seu lado.
seguiu ao seu lado, a mala estava pendurada em seu ombro esquerdo e os dois seguiram até o Terminal 8 do John F. Kenedy International Airport. Os guichês estavam cheios e, por um momento, ele temeu que estivessem prestes a fazer um embarque internacional, principalmente quando viu que estavam no terminal em que a LATAM, Qantas, Finnair, Qatar, Royal Jordanian e Cathay Pacific possuem guichês, mas caminhou até o guichê da American Eagle e respirou aliviado. Ele fará uma viagem internacional dali uns dias, não precisava de outra naquele momento.
já tinha se encarregado do check-in online e eles apenas despacharam a bagagem, antes dela conferir algo no celular e caminhar até uma fila que estava se formando no portão de embarque, apenas a acompanhou na caminhada. Havia voos da American Eagle anunciados para diversos lugares naquele momento, não tinha como descobrir o que ela estava tramando. Teria que pagar para ver.
- Posso perguntar se você está trabalhando enquanto digita freneticamente ou nem isso? – ele falou depois de um tempo parados na fila e demorou alguns segundos a responder, enquanto digitava.
- Nem isso. – ela falou e ele deu uma risadinha.
O embarque foi autorizado, para todos os voos que sairiam naquele horário, oito da manhã, e entregou as passagens ao funcionário responsável pela conferência, que foi feita de forma rápida e os dois foram autorizados a seguir pelo caminho indicado até o interior da aeronave que os levaria para o destino desejado, fosse este qual fosse. , finalmente, colocou o celular na bolsa e abraçou pela cintura, sendo abraçada pelos ombros e os dois seguiram até estarem confortavelmente instalados em seus assentos: ela na janela, ele no corredor.
- E quando eu vou ficar sabendo o nosso destino? – ele perguntou, ainda abraçando pelos ombros.
- Quando chegarmos, então faça o favor de colocar esses fones e só tirar quando eu mandar. – ela falou, tirando os grandes fones da bolsa e riu do exagero.
- Eu odeio surpresas, você sabe.
- Eu sei, mas essa você vai gostar. Tem o selo de qualidade.
- Vou confiar nisso. – ele resmungou, pegando os fones e conectou ao iPod para que pudesse ouvir qualquer coisa que o distraísse de sua imensa curiosidade de saber o que estava acontecendo e para onde estavam indo.
Apesar de se conhecerem desde crianças, pois os pais são amigos de infância e é o melhor amigo do irmão mais velho de desde sempre, apenas no último ano de escola dele e no primeiro ano do ensino médio dela, em 2001, é que as coisas entre os dois passaram de amizade para um relacionamento amoroso.
foi para o Exército em 2002, pouco dos ataques de onze de setembro do ano anterior e poucos meses depois de começar a namorar com . nem mesmo esteve na própria formatura, estava no Afeganistão, precisou adiantar as provas finais e embarcou em abril de 2002 para a primeira das muitas missões que faria pelo Exército dos Estados Unidos.
Os pais quase surtaram quando souberam que ele tinha se alistado, ficou sem falar com ele por uma semana inteira, mas os três viram que ele, além de inflexível, não estava entrando para o Exército num ato impensado ou para seguir “a moda” que aquilo tinha se tornado na época. Se tinha uma coisa que sempre fazia era pensar muito antes de tomar decisões. E ele tinha pensado e chegado à conclusão de que nunca tinha se candidatado a nenhuma Universidade, não era para esperar e ir junto com , mas porque não existia Universidade capaz de lhe oferecer o que ele queria naquele momento.
E logo de cara, passou vinte e sete meses com o Exército. Em 2002 a comunicação digital não era tão fácil quanto nos dias atuais, os locais no Oriente Médio por onde ele passou, tampouco oferecia suporte para que fosse. Trocava cartas com os pais, amigos e namorada, recebia fotos reveladas e enviava fotos tiradas, nas raras vezes em que conseguia tirá-las e revela-las, vez ou outra conseguia fazer uma ligação e amenizar um pouco a falta que sentia de ouvir a voz das pessoas que amava. Mas era só.
foi baleado e viu a morte de perto com menos de quatro meses em serviço. Tomou três tiros: dois no braço esquerdo e um que passou bem perto de perfurar seu pulmão. Ele teve dias difíceis de recuperação, estava em um hospital precário e que foi atacado pelos talibãs, quase morreu novamente nesse ataque. Estava sozinho do outro lado do mundo, mas não pensou em desistir, nem mesmo quando perdeu um amigo em uma emboscada, quase um ano depois de ter partido para aquela guerra.
Dave, um de seus amigos de infância, também tinha ido para o Exército, não estiveram juntos durante o tempo todo, mas os pelotões se juntaram para a entrada em Farah, no Afeganistão. Naquele dia Dave tomou cinco tiros, não houve socorro do Exército, deixaram que o soldado morresse no meio de uma rua de terra batida, poeirenta e num lugar praticamente abandonado. Dave estava prestes a voltar para casa, não queria mais ficar no Exército, queria se casar com a namorada que tinha deixado para trás, queria estudar e ter filhos, uma vida inteira pela frente, mas ele não pode fazer isso.
Os oficiais consideravam que aquele dia tinha sido uma grande vitória, por terem capturado alguns dos talibãs que orquestravam ataques e disseminavam os ideais terroristas, mas para foi um dia de tristeza. Ele tinha perdido um grande amigo por falta de planejamento da estratégia de entrada na cidade e de captura dos talibãs.
tentava, a todo custo, não ser como boa parte de seus superiores queriam que os soldados fossem: agressivos, desrespeitosos e maus. Ele era gentil sempre que podia ser, tentava não ter abordagens agressivas e isso parecia funcionar na maioria das vezes.
Os invasores eram eles, os americanos, não os moradores que estavam ali há muito mais tempo do que alguns dos soldados tinham de vida. Ele se esforçou e aprendeu a falar patcho e árabe para se comunicar com as pessoas, porque nenhum nativo era obrigado a aprender a falar inglês para se comunicar com ele, ele é que deveria aprender o idioma do país no qual estava.
Afeganistão, Iraque, Paquistão, Irã, Iémen, Líbia. Ele tinha passado por todos esses lugares entre 2002 e 2011. Muitas mortes desnecessárias de civis, muitos soldados perdidos, muitos criminosos mortos, mas estes pareciam a Hidra de Lerna, a cada um que morria, outros dois pareciam tomar seu lugar. O número de terroristas não diminuía, ele duplicava exponencialmente. E nenhum superior do Exército Americano aceitava que era preciso queimar as pontas para que as coisas parassem de sair do controle.
E, por “queimar as pontas”, não se queria dizer que todos os habitantes dos países invadidos deveriam morrer, mas que os Estados Unidos deveriam resolver os problemas que ele mesmo tinha criado quando invadiu países sem a real intenção de oferecer segurança e eliminar o terrorismo, além de arrumar uma maneira de não dar chance para que os ensinamentos dos talibãs fossem passados.
estava no Iraque quando Bin Laden foi morto no Paquistão, em 2011. Quando o Presidente Obama anunciou que as tropas seriam retiradas do Iraque, ele se sentiu aliviado, mas ao mesmo tempo, também estava preocupado com aquilo. Sairiam do país depois de causar uma guerra, desgraças e prejuízos, deixariam armas e veículos, como um “pedido de desculpas”, fingindo deixar para o Exército do país um presente, quando na verdade era mais um aviso do poderio que o país ocidental tinha. Um prato cheio para o terrorismo que ainda não tinha acabado e que era muito mais bem preparado que o exército.
Ele voltou para os Estados Unidos e permaneceu por três meses antes de ser convocado a retornar ao serviço, desta vez indo para a Jordânia e Turquia, por dezesseis meses, para ajudar a conter a guerra na Síria que durava há muito mais tempo do que deveria. E tudo tinha piorado, graças ao armamento deixado no Iraque.
Mesmo depois de dezesseis anos no Exército, de várias missões, de vários tiros disparados e recebidos, depois de perdas de soldados que se tornaram amigos, ainda não estava pronto para largar o Exército. Ele não achava que tinha condições de fazer outra coisa da vida e que ainda tinha condições físicas de aguentar por mais um tempo, porque estava cedo demais para parar.
Ele sabia que tinha errado muito durante aqueles anos, mas também sabia que tudo tinha sido essencial para que ele se tornasse quem ele é. E ele se orgulha de não ter se contaminado com o patriotismo excessivo, que beirava o nazismo, de alguns de seus superiores e companheiros.
e terminaram o namoro em 2006, passaram quase nove anos separados e se evitando, depois de uma discussão terrível que tiveram em uma de suas voltas para casa. Só voltaram a namorar em 2015, quando finalmente tiveram maturidade para conversar sobre tudo que tinha acontecido entre eles e sobre como se sentiam.
Também em 2015, perdeu a mãe. O pai se mudou para Utah pouco tempo depois e agora vive perto da casa de um irmão, conheceu uma mulher e os dois se casaram, vivem uma vida sossegada em Salt Lake City e quando está no país, sempre vai visita-los. A nova esposa, Sula, é uma mulher muito educada e realmente parece gostar de seu pai, o relacionamento dos dois é muito bom, então para ele é o suficiente.
estava formada, era jornalista e trabalhava no New York Times há um bom tempo. Tinha estudado na Columbia e permaneceu em Nova York depois de se formar. Ela escreve sobre política, assunto sobre o qual ela sempre gostou de escrever e falar, faz algumas aparições na televisão, mas sua verdadeira paixão é escrever. Desde sempre, ele se lembrava.
O pai de tinha se mudado com o irmão mais velho dela, Rob, para Chicago e agora vive uma vida tranquila depois de muitos anos como chefe dos bombeiros local e pai. A esposa morreu quando os filhos eram duas crianças, de sete e cinco anos, e o homem foi responsável por cria-los sozinho. E o fez bem. Agora mora em Chicago, perto do filho e das netas.
Depois de quatro horas de voo, o piloto finalmente avisou que estavam sobrevoando o aeroporto e pousariam em instantes, que os cintos fossem apertados e logo estariam em solo. estava concentrada nas palavras cruzadas e tinha ouvido música e lido durante todo o tempo de voo. Ele ainda não fazia ideia de para onde estavam indo, mas se fosse com , ele iria a qualquer lugar.
- Austin? – ele perguntou confuso quando desembarcaram. Há anos não pisava ali, desde que o pai tinha ido embora para Utah, exatamente. Ainda que seja do Texas, nascido e criado em Austin, não esperava que um dia fosse mesmo voltar até sua terra natal. Não que não gostasse da cidade, apenas não tinha mais o que fazer por ali.
- Keep Austin weird, soldado. – disse quando pegou as malas na esteira.
- Tenente-Coronel. – ele corrigiu para importuná-la. – Agora que estamos em Austin, posso saber por qual motivo?
- Pare de questionar as ordens dos seus superiores, soldado. – ela falou rolando os olhos e ele riu.
- O que te faz pensar que você é minha superior? – ele perguntou enquanto caminhavam pelo saguão do aeroporto.
- O que te faz pensar que eu não sou sua superior? – ela devolveu a pergunta, fazendo dar um sorriso e abraça-la pelos ombros.
- Precisamos de um carro? – ele mudou o foco da conversa quando viu que se encaminhava até agência de aluguel de carros.
- Com toda certeza.
- O que acha de almoçarmos por aqui? Tô com fome.
- Aqui dentro ou procuramos outro lugar?
- Você que sabe. – ergueu os ombros. – Você é quem sabe em que lugar ficaremos, então pode dizer se é melhor comermos aqui ou perto de lá.
- Almoçaremos lá perto então. – ela disse sem hesitar. – Mas se você puder me comprar um café agora, eu fico agradecida.
- Entendi. – ele deu uma risadinha e deu meia volta.
Ela alugaria o carro, daria os dados e o tempo que passariam ali e ele não podia saber. não demorou a voltar com um copo em mãos para , que o esperava com a chave em mãos.
- Espero que seja uma BMW. – ele brincou e ela assentiu, pegando o café e tomando um gole. – É uma BMW? Você ficou louca?
- Claro que não é uma BMW, . – ela falou rolando os olhos e ele suspirou aliviado. – É um Mustang.
- !
- Que é?
- Um Mustang? Em Austin? – ele parecia ultrajado.
- É um Fiesta, meu amor. Econômico e ecológico. Bom, não tão ecológico, mas é bem econômico. – ela respondeu num tom divertido, pelo ultraje de ao imaginar que ela tinha alugado um Mustang, e os dois seguiram até a portaria para pegarem o carro. As malas foram colocadas no porta-malas, assumiu a direção e se sentou ao seu lado.
- Eu espero que estejamos indo para algum lugar com chuveiro, cama e comida.
- Estamos, pode ficar tranquilo. – ela respondeu num tom divertido.
- Vir pra Austin me lembra quando nós voltamos a namorar. – falou e ela sorriu de lado, ligando o carro e saindo do estacionamento.
- Tudo na nossa vida passa por Austin.
- Isso é verdade. – ele deu um sorriso que não viu. – Mas não achei que eu fosse voltar aqui depois dos nossos pais terem ido embora daqui.
- Eu volto sempre que posso. – ela deu de ombros. – Eu acho que voltaria muito fácil a morar em Austin e, em todo caso, minha tia ainda mora aqui.
- Morar eu duvido, porque você já se acostumou a Nova York e o ritmo aqui é muito diferente.
- Isso é, mas eu gosto muito de Austin.
- Se você já é processada por políticos em Nova York, imagina se voltasse para o Texas? – ele provocou e ela deu uma risada.
- Eu não tenho culpa se eles são uns idiotas e que se ofendem muito fácil com algumas coisas. Esses dias mesmo eu tive que me retratar com o senador Burr, porque ele abriu a boca pra falar merda e eu acabei fazendo um comentário que ele não gostou.
- O que ele falou sobre cada Estado decidir sobre armamento e a idade para o porte de armas ou sobre a nomeação do Nakasone na ANS?
- Sobre o armamento. Eu só falei que ele é o presidente da comissão de inteligência, mas é um completo idiota e ele se ofendeu.
- Você falou isso? – perguntou dando uma gargalhada.
- Ele mereceu.
- E os demais senadores pró-armamento não insurgiram contra você?
- Não que eu tenha ficado sabendo. Sei que Burr ligou no jornal e eu tive que me retratar, ou ele me processaria. Chega de processos, já basta o do Trump.
- E como anda esse?
- Eu me retratei, mas fui condenada, é claro, a pagar uma multa bem alta por, abre aspas, atentar contra a imagem do representante máximo da nossa Nação, fecha aspas. – ela respondeu em um tom que beirava o tédio. – Então eu fiz o que eu sei fazer melhor: escrevi sobre. Pedi desculpas e disse que pagaria, mas já que o nosso Presidente é o representante máximo da Nação, ele claramente se importa com o país, então não teria problemas se eu pagasse o valor devido para alguma instituição de caridade, fiz o Steve comentar isso na CNN em horário nobre, deixei Trump sem alternativas e ele aceitou, com aquele tom debochado e babaca dele. Doei os doze mil dólares para um hospital e enviei o comprovante para a Casa Branca. E como agradecimento, ele me proibiu de ir até lá enquanto ele for Presidente.
- Doze mil dólares? – perguntou assustado e ela assentiu.
- Ainda bem que eu economizo dinheiro desde o colegial, senão eu estaria um pouco fodida. E agora não tenho dinheiro pra mais nada.
- E pra onde estamos indo?
- , vai ouvir uma música e relaxa. – ela respondeu, simplesmente.
- Vamos ficar aqui quanto tempo?
- Se você não parar de fazer perguntas, eu vou te jogar pra fora desse carro.
- Você é jornalista, não pode querer podar meus questionamentos.
- Nem sempre fazer perguntas é a saída, as vezes é preciso apenas observar para descobrir as respostas que se busca.
- Em homenagem ao Texas, vamos ouvir Beyoncé. Ou você tem outra sugestão?
- Podemos ouvir o que você quiser, sweetie. – ela respondeu e ele conectou o Spotify do celular no rádio, iniciando a música Formation.
- Bitch, I’m back by popular demand. – ele cantou junto com Messy Mya, fazendo dar uma risada.
- Y’all haters corny with that Illuminati mess, paparazzi, catch my fly and my cocky fresh. – ela cantou junto, enquanto dirigia pela Research Boulevard.

continuou a imitar e cantar as músicas que tocavam – e não apenas Beyoncé – por um tempo, enquanto dirigia despreocupada pela US-183 N. Ela sempre gostou de dirigir ao lado dele, sempre era muito animado, cantava e inventava alguma coisa idiota para fazer durante o tempo que passavam no carro.
Ele sempre dizia que era assim que fazia nas missões, para abstrair a tensão pré-qualquer-coisa-que-pudesse-acontecer, ele contava piadas e fazia imitações na intenção de se esquecer de qualquer coisa ruim que estivesse sentindo ou que imaginasse que pudesse acontecer.
E aquele era o motivo de estarem ali em Austin. Uma conversa entre os dois, alguns dias antes de regressar aos Estados Unidos, e que deixou muito preocupada com ele.

Flashback ON

- E como você está, soldado? – ela perguntou para a imagem que aparecia na tela do computador. – E não minta pra mim.
- Eu nem tentaria, meu amor. – ele deu uma risadinha. – Eu estou vivendo, mas não me sinto mesmo vivo, sabe? Não igual eu me sentia antes, não tenho disposição, mas não posso me sentir assim, não tenho permissão para me abater e se eu permitir isso, meus subordinados vão sentir isso também.
- Você acha que isso é por estar sentindo falta de casa?
- Não sei se é só isso, mas eu ando me sentindo apático, morno e quase sem emoções. E eu não quero me sentir assim. Só que não tenho como lidar com isso aqui. Preciso ser forte, não posso parar. E não sei o que fazer pra me ajudar, eu acho que eu nunca vou conseguir voltar a ser aquele feliz de verdade.
- Vai. Nem que seja a última coisa que eu faça na vida. – ela deu um sorriso preocupado para ele.
- Eu preciso desligar agora, princesa, nos falamos depois.
- Tudo bem. E se cuide, amor. Eu te amo.
- Eu também te amo, linda. E estou contando os dias pra te ver.
- Eu também estou. – ela sorriu e ele lhe mandou um beijo antes de desligar a chamada. Assim que ele apareceu offline, começou a pensar no que poderia fazer para alegrá-lo pelo menos um pouco.

Flashback OFF

- Casa. – ele falou dando um sorriso ao vê-la sair da Research Boulevard e entrar na Angus Road, virando à direita na Wind River Road e entrando na rua em que os dois moraram durante toda a vida em Austin: Elk Park Trall. – Não tem gente morando aqui? – ele perguntou quando ela estacionou em frente a casa em que ela tinha morado, no número 11605.
- Os donos não estão.
- Estamos invadindo uma propriedade privada, ? – ele perguntou preocupado e ela rolou os olhos.
- Estamos aqui com autorização dos donos da casa, soldado.
- Eu tinha que perguntar, porque você é doida.
- Cala a boca.
- Calma, princesa. – ele falou rindo e desceu do carro, abriu o porta-malas e tirou as malas de lá.
Os dois seguiram até a porta da casa e assim que esta foi aberta, sentiu como se voltasse no tempo, como se fossem adolescentes de novo. A casa estava idêntica ao que ele se lembrava. Quase podia sentir o cheiro de pizza e de biscoitos recém preparados, ouvir as vozes do sogro, do cunhado e de , tudo se misturando enquanto preparavam uma das tradicionais noites do cinema.
Lembrava-se até da ordem das fotografias na parede do corredor, que já não estavam mais ali, da disposição dos móveis pela casa e de cada milímetro daquela casa que tinha frequentado por tanto tempo de sua vida. De repente, sentia-se com dezesseis anos de novo, antes do Exército, antes de se mudar pelo mundo.
- Eu consigo me lembrar de absolutamente tudo nessa casa. – ele disse dando uma risadinha.
- Vou pedir nosso almoço. Alguma sugestão?
- Mexicana. Se não for possível, tailandesa.
- Você quer coisas apimentadas? – ela fez uma careta quando ele assentiu sorridente.
- Quando eu vou ficar sabendo o motivo de estarmos em Austin?
- Não apresse e nem questione as ordens dos seus superiores, soldado. – ela respondeu e ele riu, puxando o corpo de para mais perto do seu.
- Você se lembra daquele dia em que você, oficialmente, me perdoou por eu ter me alistado? – ele perguntou em tom sugestivo e ela sorriu da mesma forma, envolvendo o pescoço dele com os braços.
- Claro que eu me lembro. Foi o melhor sexo de reconciliação que já fizemos.
- Acho que deveríamos reencenar.
- Eu concordo, soldado. Só me deixa descobrir qual dos dois restaurantes demora mais pra entregar a comida e pedir nesse.
- Gosto da forma como você pensa. – falou rindo. – Vou colocar as malas no quarto.
- Em qual deles?
- Essa, pra mim, sempre será a sua casa, então vamos ficar no seu antigo quarto.
- Por mim tudo bem. Acho que a cama cabe os dois.
- Se for a mesma, cabe. Bem apertados, mas cabe.
- Acho que não é, mas deixa lá e depois nós decidimos isso com calma.

-x-

- E então, você já sabe exatamente pra onde vai? – perguntou enquanto almoçavam na cozinha.
- Você sabe que não posso te falar exatamente pra onde eu vou. – respondeu rindo.
- E como andam as coisas no seu pelotão?
- Tirando aquele imbecil que foi atingido e que eu o devolvi pro Comando, tá tudo bem. O problema é que tem muito novato chegando com uma cabeça muito ruim pra isso, eles acham que serão os novos Steve Rogers, mas esquecem que o Capitão América não era um soldado qualquer. Eu avisei ao Comando que não quero esses idiotas que se acham muito bons e muito espertos, esses sem um pingo de noção e humildade, porque os Estados Unidos me pagam como Tenente e não como babá de marmanjo.
- Sinto muito por você tenha que lidar com esses novatos, meu amor.
- Acontece. Nem todos eles serão bons, me resta escolher e treinar bem os melhores que me aparecerem.
- E como você está?
- Bem. Agora eu estou bem. – ele voltou a sorrir. – Essa comida tá boa, mas eu prefiro a de Nova York
- Eu gostei, mas achei apimentado demais e com certeza vou ter azia a noite inteira. – ela reclamou e riu.
- Você tem um estômago muito fraco.
- Ou você que tem muito fogo nesse corpo e por isso não sente a pimenta das coisas, . – ela respondeu, fazendo gargalhar. – Inclusive, minha parte favorita do Exército é que você está cada dia mais forte e gostoso. Nem parece que tem trinta e três.
- E isso é tudo seu. – ele piscou e ela deu uma gargalhada.
- Acho bom mesmo.

-x-

- Encontro anual da turma de 2004? – ele perguntou ao ver a tela do celular de .
- Isso mesmo.
- Estamos em Austin pra isso? – ele perguntou confuso.
- Sim.
- Não é só isso. – ele falou com certeza e ela não respondeu.
- Eu preciso sair rapidinho pra resolver uma coisa, mas estarei de volta daqui a algumas horas.
- Resolver coisas em Austin? O que você está aprontando, ? – ele perguntou desconfiado, fazendo bufar. – Tudo bem, respeitar as ações dos superiores. Entendi.
- Ótimo.
- Eu não tenho roupa pra ir nisso.
- Meu amor, você só precisa se preocupar em tomar banho.
- Tudo bem. – ele respondeu e se inclinou para dar no namorado um selinho,
- Volto daqui algumas horas. Descanse, durma, veja televisão...
- Estarei esperando. – ele sorriu e saiu do quarto, deixando sozinho.

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- Se eu soubesse que era pra ficar tão bonito, eu teria me livrado desse projeto de barba. – disse ao ver chegando na sala.
Ela estava com um vestido azul claro sem mangas e que batia pouco abaixo do joelho e que deixava as costas de à mostra, nos pés ela tinha uma sandália dourada de salto alto, os cabelos estavam soltos e no rosto, uma maquiagem simples e muito bonita. estava estonteante.
- Se você tivesse feito isso, eu estaria a caminho da delegacia, por ter dado um tiro em você.
- Você está muito agressiva. – falou rindo e se pôs de pé, se aproximando dela.
- E você está lindo. – disse sincera. usava uma camisa social azul clara dobrada até os cotovelos, que tinha comprado mais cedo naquele dia, uma calça jeans escura e um tênis branco.
- Certeza que não é pra fazer a barba? – ele perguntou, passando a mão pelo rosto e ela assentiu, se aproximando e lhe deu um selinho demorado.
- Deixa assim, eu gosto. E você já vai ter que fazer pra voltar pro Exército. Deixa por enquanto. – respondeu sorrindo. – Podemos ir?
- Claro. Vai ser na escola mesmo?
- Sim. No ginásio. – ela deu um sorriso. – Igual aos bailes.
- Eu nem sabia que as turmas faziam encontros anuais. – falou enquanto saíam da casa a caminho do carro que estava parado na entrada da garagem.
- Não todas. A minha faz. A sua faz a cada cinco anos, pelo que eu sei.
- E eu nunca fui convidado?
- Você nunca esteve no país quando fizeram essas reuniões. – deu de ombros enquanto se colocava no banco do motorista.
- Não posso dirigir hoje?
- Soldado, aproveite a folga.
- Tudo bem, General. – ele deu um sorriso antes de dar um selinho em e os dois saíram da casa.
O trajeto até a escola, a Hyde Park High School, demorou dez minutos e logo o carro estava no estacionamento, ao lado de tantos outros que já estavam por ali. se lembrava vagamente de alguns alunos daquela turma, mas a lembrança mais clara de todas, que ainda é presença constante na vida deles é Lisa, a melhor amiga de , que é noiva de um dos grandes amigos de e é a dentista dos dois.
Também se lembrava claramente de outro aluno daquela turma: Aaron. Ele tinha se mudado para Austin no ano em que tinha ido para o Exército, mas o conhecia bem, porque sempre mencionava o novo vizinho que não parava de querer fazer amizade com ela e Lisa. Ele tinha entrado para o clube de tênis, para o jornal da escola e estava sempre tentando se manter perto delas, tinha até convidado para ir ao baile de formatura com ele, mas ela não aceitou, claro.
Aaron também foi estudar na Columbia, assim como as duas, era da mesma turma que e eles até ficaram por um tempo quando ela e terminaram, mas não gostava dele o suficiente para que tivessem um relacionamento amoroso e logo terminou. Quando se formaram, Aaron se mudou para San Francisco e trabalha desde então no San Francisco Chronicle.
e Aaron tinham se encontrado uma vez, apenas, mas foi o necessário para descobrir como Aaron não gostava dele. surpreendeu em uma aula na faculdade, em um dos seus regressos ao país. Ela não imaginava que ele chegaria naquele dia, achava que seria dali vinte dias ainda, mas ele chegou e foi até o campus, surpreendeu a namorada em uma aula e foi quando conheceu Aaron. não podia se lembrar de acontecimento mais engraçado em sua vida além deste.
- Há alguma coisa que eu preciso saber para este encontro? – ele perguntou quando saíram do carro.
- Não que eu saiba. – ela deu de ombros e os dois enlaçaram os dedos, a caminho do ginásio. Quando entraram, não conteve o sorriso: o local estava decorado igual ao baile de formatura dela, “A Última Valsa”.
- Acho que entendi o motivo de estarmos aqui e o que você foi resolver quando saiu depois do almoço.
- Que nada, isso eu resolvi há uns vinte dias ou mais. – ela falou rindo. – Já que você não pode me trazer ao meu baile de formatura, eu resolvi trazer meu baile de formatura até você. Mesmo que quatorze anos depois.
- Eu só estaria mais feliz em te trazer ao baile, se fosse na época certa.
- Não é bem um baile, mas eu sugeri que usássemos essa decoração.
- Sugeriu no sentido de ter ameaçado a vida de todos se não fizessem do seu jeito? – ele brincou e ela sorriu, assentindo.
- Os donos do encontro do ano chegaram. – Lisa brincou, se aproximando do casal de amigos. Abraçou rapidamente, as duas provavelmente já tinham se encontrado naquele dia, e se virou para abraçar . – Você não foi ao dentista dessa vez, soldado.
- Eu viajei pra Utah, passei mais dias lá do que achei que passaria, desculpa.
- Tudo bem. – ela respondeu sorrindo. – Sei que você cuida bem dos seus dentes sem precisar de babá.
- E cadê o Mason?
- Banheiro. – Lisa disse e deu de ombros. – E então, pronto para dançar a última valsa com sua namorada depois de quatorze anos?
- Não sem antes tomar uma cerveja. – ele riu. – Quer tomar alguma coisa?
- Não, eu estou bem. – sorriu e ele sorriu de volta.
- Eu já volto.
- Ficamos esperando. – Lisa disse sorrindo e ele se afastou das duas a procura de uma cerveja, cumprimentando algumas pessoas pelo caminho até o local em que havia um grande cooler. – Aaron acabou de chegar.
- Fala sério. – resmungou.
- Ele deve ser muito ruim de cama pra você ter tanta preguiça dele.
- Ele é meloso demais e eu odeio gente melosa. – ela rolou os olhos. – E ele é ruim de cama mesmo, mas qualquer um que eu comparar com aquele homem maravilhoso chamado , vai ser péssimo.
- Sem detalhes, por favor. Não preciso saber dessas coisas. – Lisa fez cara de nojo e deu uma risadinha.
- ? – a voz de Aaron soou e teve que se controlar para não rolar os olhos e fazer uma cara feia, e se virou na direção dele, dando um sorriso sem mostrar os dentes.
- Oi, Aaron.
- Você está... maravilhosa. – ele disse boquiaberto.
- Obrigada.
- Oi, Aaron. – Lisa disse, dando um sorriso para deixa-lo sem graça por ter ignorado sua presença ali.
- Oi, Lisa. Você também está linda.
- Eu sei. – ela piscou, dando uma risadinha.
- Amor, você n... Ah. – começou a falar quando se aproximou, mas se interrompeu ao ver Aaron ali, não fechou o rosto, abriu um sorriso na direção do homem. – Aaron.
- . – Aaron disse um pouco mais sério do que gostaria de soar. – Não sabia que você viria
- Se soubesse, nem teria vindo, certo? – brincou, estendendo a mão para cumprimentar Aaron, que aceitou o cumprimento e deu um sorrisinho sem jeito pela brincadeira feita. – Eu já perdi uma chance de trazê-la para dançar a Última Valsa, não perderia outra por nada.
- Tá certo. – Aaron sorriu sem humor algum. – Eu vou cumprimentar o resto do pessoal, nos vemos mais tarde.
- Claro. – forçou um tom simpático e Aaron se afastou, dando liberdade para Lisa e trocarem um high five e rirem. – Vocês dois são ridículos.
- , que bom te ver. Não sabia que você viria. – Lisa imitou toscamente a voz de Aaron e riu.
- Se soubessem não teria vindo, certo?
- Mason! – se pronunciou ao ver o amigo e o abraçou, recebendo um beijo na bochecha. – Ainda bem que você chegou, preciso de alguém maduro perto de mim.
- Se eles estiverem zoando o Aaron, eu quero fazer parte da zoação. – Mason falou, quando se soltou do abraço de , e foi cumprimentar .
- Agora, se vocês me dão licença, vou levar minha digníssima senhora para dançar.
- Ela não é sua digníssima senhora, porque você nunca a pediu em casamento, soldado. – Lisa disse e piscou para o amigo.
- Depois de dezesseis anos de história, acho que ainda é cedo. – ele brincou, estendendo a mão para .
- Deus me livre casar com . Imagina ter que morar debaixo do mesmo teto que ele quando ele estiver no país? – brincou, aceitando a mão do namorado e os dois seguiram até a pista de dança. – Você cantou essa música pra mim um dia.
- Eu lembro. – ele sorriu, se aproximando e colocou uma das mãos nas costas de , ela envolveu o pescoço dele com seus braços e os dois começaram a dançar. Ele se aproximou de seu ouvido e cantou o refrão. – I think about you, baby, and I dream about you all the time. I'm here without you, baby, but you're still with me in my dreams, and tonight, it's only you and me...
- Eu chorei muito. – ela falou num tom risonho e afastou o rosto do dele, para que se olhassem. – E depois eu não conseguia ouvir essa música sem chorar.
- O que você acha da ideia? – ele perguntou, enquanto ainda dançavam ao som de Here Without You.
- Que ideia? – ela perguntou e o olhou confusa.
- Sobre a gente se casar.
- Você vai ter que fazer um pedido melhor do que esse, se quiser que eu me case com você, soldado. – ela falou rindo.
- Eu sei disso, mas é porque quero saber se você quer mesmo se casar comigo, pra não correr o risco de me endividar comprando um anel bonito e você falar que não está na minha.
- Soldado, eu estou na sua há dezessete anos. Se eu não deixei de te querer nem quando estávamos separados, por nove anos, você acha que em algum momento da minha vida eu vou deixar de te amar? – ela falou sorrindo e lhe deu um selinho.
- Ótimo, então eu vou preparar uma surpresa e te pedir em casamento. – disse dando uma risadinha e ela lhe deu um selinho demorado. – Quem fez essa playlist está preso ao passado.
- You’re too good to be true, can’t take my eyes of you... cantou a música que começou e deu um sorriso, tirando os braços dos ombros dele e a girou, para começarem a dançar de verdade. era um dançarino e tanto, sempre tinha sido, tinha aprendido a dançar também e os dois eram realmente muito bons.
Quando “Can’t Take My Eyes of You” acabou, os dois ainda dançaram outras três músicas, antes de começarem a interagir com alguns dos ex-colegas de sala de . Ela ainda fala com a maioria, com alguns ela fala por puro contato profissional, outros por consideração pelos tempos de escola.
- Você quer beber alguma coisa? – perguntou, depois de algumas horas que estavam sentados à mesa ao lado de Lisa e Mason.
- Eu quero dançar mais uma. – ela disse num tom arteiro quando “Single Ladies” começou a tocar e ele assentiu, estendendo a mão para que fossem dançar. – If ya liked it then ya shoulda put a ring on it.
- Você vai ficar me dando indiretas? – ele perguntou rindo e ela imitou a dancinha que Beyoncé fazia no clipe. – A primeira coisa que farei, quando tiver um tempo, será comprar um anel e te pedir em casamento, pode deixar.
- All the single ladies! – ela cantou fora da música, se virando para Lisa, que deu uma gargalhada ao ver a amiga dançando aquela música.
- Vocês duas são péssimas. – ele brincou, puxando o corpo de para mais perto do seu e a beijou.
Não interessava se estavam em um local público, porque ele não queria mais esperar para beijá-la, sentir o gosto doce do ponche de morango que ela tinha tomado, se misturando ao gosto da cerveja que ele tinha bebido alguns minutos antes.
gostava da sensação de pertencimento que sentia quando estava com , como se estar com ela fosse a coisa mais certa do mundo. E, bom, pra ele era. Os dois se encaixavam perfeitamente de todas as formas possíveis e imagináveis, se completavam e se transbordavam. Aquilo era amor verdadeiro. Ele sabia disso. Todos que viam os dois juntos sabiam disso.
Inteiro.
Essa é a definição perfeita para a forma como ele se sente ao estar com . Inteiro, preenchido, com todas as suas partes, sem separação, sem divisões, sem lacunas, sem medos, sem complicações. Não lhe faltava nada, irrestrito, completo. Em perfeito estado.
Em casa.
Estar com era isso, se sentir em casa. Estar com ela é saber que ele tem para onde voltar, saber que pertence a algum lugar e que não precisava temer ficar desabrigado e sozinho. Ela era sua Linda Vigia do Farol, ainda que ele seja soldado e não marinheiro. A luz estava acesa e sempre estaria, ele sabia disso.
- Eu te amo, . Muito. – falou, quando encerrou o beijo.
- Ao infinito e além, soldado. – ela sorriu, passando o polegar pelo canto da boca de para tirar um pouco de batom que tinha ficado ali. – O que você acha de irmos embora para aproveitar mais um pouquinho o nosso tempo juntos?
- Eu acho a ideia maravilhosa. – ele respondeu e sorriu, dando um beijo em sua bochecha.
Os dois se despediram dos amigos e seguiram de mãos dadas até o lado de fora do ginásio, mas ao invés de irem ao estacionamento, o puxou até o lago do Quarries Park, ainda dentro do campus da escola.
- Fui enganado? – ele perguntou em um tom que beirava o desapontamento e ela riu.
- Não. Nós vamos pra casa mesmo, mas primeiro eu queria vir aqui.
- No lugar em que eu tomei coragem e disse que gostava de você.
- Isso mesmo. Exatamente no mesmo lugar. – ela o abraçou pela cintura e o olhou nos olhos antes de voltar a falar. – Sabe o que eu disse hoje, sobre tudo nas nossas vidas passar por Austin?
- Sim.
- Há um tempinho, em uma conversa no Skype que tivemos, você me disse que não se sentia vivo, feliz e nem bem com você e com a vida. Eu fiquei preocupada ao ouvir aquilo, porque eu te conheço há muito tempo e sei quem você é de verdade. Eu sei que o seu trabalho exige muito de você, que suga muito as suas energias e sua felicidade, que te faz ver o mundo de uma forma feia e que eu não posso fazer muito pra mudar o que você já viu ou o que verá, eu não posso tirar essa tristeza de você e jogar fora, mas eu posso fazer algo que está ao meu alcance: te lembrar que você é importante, amado, que ainda existe vida ai dentro, mesmo depois de tudo que aconteceu durante sua vida. Eu quero que você nunca se esqueça de quem você é! E que você saiba que sempre vai ter um lugar para o qual voltar. Tudo em nossa vida passa por Austin e quando comecei a pensar no que podia fazer pra te lembrar de quem você é, pra tentar te fazer feliz pelo menos um pouquinho, eu só consegui pensar em Austin e que te trazer pra cá podia te ajudar a se lembrar de quem você realmente é: meu porto seguro, a luz da minha vida e o homem pelo qual eu sou apaixonada há quase vinte anos e pelo qual eu mato e morro.
- Nem todas as palavras do mundo seriam suficientes para te agradecer por ser você, , por não desistir de mim e nem de nós dois. Você é o amor da minha vida. – respondeu com um sorriso, abraçando a namorada pelos ombros de forma carinhosa.
- Você não precisa me agradecer por nada, meu amor. Eu só quero que você saiba que eu te amo muito, mesmo que as vezes não pareça e que eu não demonstre tanto.
- Eu te conheço há trinta e um anos, sei que você me ama e que você nunca deixou de me amar, mesmo quando eu estive longe, mesmo quando terminamos e nos afastamos, porque é o que eu sinto por você: amor. E eu sempre vou te amar. Aqui no Texas, em Nova York ou em qualquer outro lugar do mundo, até naqueles em que o amor parece nem mesmo existir. – ele a olhou nos olhos e deu um sorriso de lado antes de beijá-la.
- Whitney já cantou, eu sempre vou te amar. – ela falou dando um sorriso quando se separaram. – E vamos, não quero mosquitos me picando.
- Sim senhora. – respondeu e os dois refizeram o caminho até o estacionamento e logo estavam de volta à casa.

-x-

- Então nós vamos reviver toda a nossa adolescência? – perguntou rindo enquanto caminhavam pelo shopping The Domain.
- Tirando o fato de esse shopping não estar aqui naquela época? Sim. – ela falou dando um sorriso. – Vamos ao cinema.
- E o que nós vamos assistir?
- Algo que não envolva tiros, guerras e brigas. – respondeu e ele a olhou desconfiado.
- Se for por minha causa...
- Não é. Bom, também, mas queria ver alguma coisa menos intensa.
- Sem terror também. – ele falou enquanto olhavam para os pôsteres dos filmes que o iPic exibia.
- Esse parece ser legal. – apontou para o pôster de “I Feel Pretty”.
- Mas ele não vai passar por agora, ainda demora uma hora e meia até a próxima sessão.
- Tem esse. – apontou para o pôster de “Blockers”.
- Já vi o trailer e não curti. – ele fez uma careta e riu em concordância.
- Podemos comprar pro “I Feel Pretty” e dar uma volta no shopping enquanto o tempo passa. – sugeriu.
- Eu prefiro não ver filme, mas nós podemos ir ao fliperama.
- Você é uma criança. – falou rindo. – Mas eu concordo, adoro fliperama!
- Ainda tem algum aqui perto?
- O que tinha era aqui, mas o shopping comprou tudo e fez esse lugar enorme e lindo, mas sem fliperama.
- Então descobre onde tem um fliperama. Quero continuar ganhando de você.
- Você ganhava só porque eu deixava, meu amor.
- Finge que é verdade e eu finjo também, só pra você não passar tanta vergonha assim. – disse rindo e não respondeu, apenas tirou o celular da bolsa, procurando por algum lugar em que pudessem jogar fliperama que fosse próximo dali.
- Tem um, fica perto do Corporate Center, seguindo pela 183 S. – ela disse sem olhar para ele. – Chama Pinballz Arcade. E é tipo um remember do Arcade.
- Então vamos?
- Só se for agora. – ela falou animada e ele a abraçou pelos ombros, enquanto caminhavam rumo ao estacionamento e de lá para o fliperama.
Durante a infância e a adolescência, eles costumavam passar muitas horas jogando em um antigo fliperama perto de casa, além de irem ao cinema e à piscina da cidade. Faziam maratonas de filmes na casa de , saíam para comer, fazer piqueniques, iam a shows e o que mais pudesse ser feito em Austin no final dos anos 90 e começo dos anos 2000.
Austin, apesar de ser a capital do Estado do Texas e a sede do Condado de Travis, não era a cidade mais populosa do Estado, muito menos a que mais atraía comércios nos anos 1980 e 1990. Ainda que seja considerada a cidade com os melhores shows e música ao vivo do Estado – um dos apelidos da cidade inclusive remete a isso –, para esportes era preciso ir a Dallas ou a Houston. A turma de amigos ia sempre que possível a Dallas para ver o time de futebol jogar, o Dallas Cowboys, já que Austin não possui nenhum e apenas a liga universitária não era suficiente.
Por horas os dois jogaram fliperama, rindo como se tivessem, novamente, quatorze anos. Há muito tempo os dois não faziam aquilo, juntos ou separados, não se divertiam daquele jeito como costumava ser quando eram crianças e adolescentes, sem preocupações e ocupações.
Em Nova York, quase nunca tinham tempo quando estavam juntos, porque quase nunca passava tempo suficiente no país e sempre ia visitar o pai em Utah, passava vários dias por lá e em alguns dias ela trabalhava mais do que gostava ou queria; sozinha, não tinha vontade de ir. Era ótimo poder fazer esse tipo de coisa com ele de novo.

- GANHEI! – ela pulou comemorando e gargalhando. Abraçou pelo pescoço e ele resmungou quase mimado.
- Porque eu deixei.
- Deixa de ser mentiroso. – ela disse rindo da cara do namorado e deu um beijo estalado nos lábios dele, fazendo a expressão mimada/pirracenta dele apenas aumentar.
- Eu não estou mentindo.
- Nós já estamos aqui há umas três horas e eu não aguento mais ficar em pé.
- Eu ainda tô bem. – ele deu de ombros.
- Precisamos voltar, porque vamos receber visitas daqui a pouco.
- Vamos? Quem?
- Surpresa. – ela piscou e ele bufou.
- Eu odeio surpresas.
- Eu espero que até o final dessa viagem você aprende a respeitar e obedecer às ordens dos seus superiores, soldado. – ela falou séria.
- Tudo bem, General. – resmungou inconformado e recebeu outro beijo estalado nos lábios. – Podemos?
- Primeiro eu quero buscar o prêmio que eu ganhei. – ela deu um sorriso quase infantil. – Quantos cupons a gente tem?
- Eu tenho uns trezentos. Você eu não sei.
- O que é seu, é meu. – ela falou mordendo a ponta da língua, numa expressão arteira.
- Então, contando com o seu, eu tenho uns quinhentos cupons, provavelmente. O que é meu é seu e o que é seu é meu. – ele respondeu provocando e piscou.
- Não. A regra não funciona assim.
- Claro que funciona. – ele riu. – Ou então, eu resgato o que eu ganhei com os meus e você resgata os seus.
- Você é péssimo, . – ela resmungou e os dois seguiram para trocar os cupons.
- Juntos? – o garoto, que não devia ter mais de dezesseis, perguntou em tom entediado quando viu os dois se aproximarem.
- O que tem pra trezentos e cinquenta cupons? – perguntou.
- Balas, chicletes...
- Quantos você tem, princesa? – perguntou a .
- Seiscentos e cinquenta e três.
- Por que? – perguntou surpreso.
- Porque eu sou melhor que você no fliperama. – ela deu de ombros. – E sou inteligente, só escolho o que sei que posso ganhar.
- O que tem aí que valha mil e três cupons? – perguntou para o garoto e ele lhe direcionou um olhar bem entediado.
- Brinquedos, basicamente. – deu de ombros e apontou para sua esquerda, onde haviam alguns brinquedos pendurados numa área que definia a pontuação que deveria ser alcançada se quisessem trocar por aqueles prêmios.
- Eu quero aquele ali. – ela apontou e deu um sorriso infantil. Um lobo de pelúcia pequeno foi entregue a , os cupons foram repassados ao adolescente e os dois ainda saíram com três cupons restantes. – É meu. – usou um tom que beirava o de uma criança prestes a fazer pirraça.
- Sim. – respondeu dando um sorriso, quando pararam ao lado do carro no estacionamento. – Eu sei que vou te dar um anel, ainda que eu não tenha certeza absoluta se vou conseguir comprar um tão cedo, mas acho que te pedir em casamento de verdade com um lobo de pelúcia é válido também. Não é?
- Depende. Você vai ter que ser bem mais convincente do que se tivesse com um belo diamante em mãos. – ela brincou e ele segurou a mão esquerda dela com sua mão livre.
- Considerando que os lobos são um dos animais mais fiéis, não apenas em uma relação amorosa, mas também nas relações familiares, eu tenho bastante certeza que é uma boa maneira de representar tudo o que nós passamos nesses dezessete anos. Planejar e executar esse fim de semana foi uma prova e tanto disso, porque fez tudo por mim, para me deixar feliz e para que eu me sentisse melhor. E deu certo.
- Ainda bem. Mas não fiz nada ainda.
- Você me levou ao seu baile, fizemos um piquenique hoje pela manhã no local que costumávamos ir quando éramos mais novos, fomos ao shopping, viemos ao fliperama... e ainda tem o fato de você estar me adulando, fazendo todas as comidas que eu adoro e revivendo comigo momentos felizes que tivemos aqui. Isso é muita coisa. – disse dando um sorriso para . – E saber que tenho você, que se e quando eu precisar eu terei seu apoio e seu amor, me deixa feliz. Com você, eu me sinto inteiro e completo, sem medos, sem tristeza, sem vazios. Eu te amo mais do que tudo na vida, eu sempre te amei e sempre vou te amar, e eu já devia ter feito essa pergunta há muito tempo. , você aceita casar comigo? – ele perguntou, se colocando de joelhos, estendeu o pequeno lobo de pelúcia e lhe deu um sorriso.
- Não sei se estamos juntos há tempo suficiente pra darmos um passo tão grande quanto esse... – ela brincou e se inclinou, encostando a testa na dele e tomou o rosto dele entre suas mãos. – Sim. É claro que eu aceito me casar com o amor da minha vida. Eu amo você, . E eu sempre vou te amar.
- Eu prometo que compro um anel decente logo. – ele falou rindo e voltou a ficar de pé, mas não deu tempo para que ela respondesse, apenas a tomou em seus braços e os dois se beijaram.

-x-

- Cadê o ?
- Banho. – deu de ombros. – Leva pra sala.
- Nós vamos morrer de tanto comer! – Lisa falou rindo e pegou as duas vasilhas cheias de pipoca, saindo da cozinha.
foi logo em seguida, levando os potes de sorvete. Na mesinha de centro, as três pizzas, as vasilhas de pipoca, pacotes de marshmallow, balas e chocolates. Ao lado,um cooler com refrigerantes, cervejas e suco.
- Amor, voc... – vinha andando até a sala, secava os cabelos numa toalha e estava apenas de bermuda, mas se interrompeu quando percebeu que a sala tinha mais gente do que ele imaginava.
- TIO ! – as gêmeas, Becca e Bella, correram em sua direção e o abraçaram pelas pernas.
- Eu tô perdendo alguma coisa? – perguntou, se abaixando para receber o abraço das meninas e um beijo de cada lado do rosto.
- Noite do cinema. Você escolheu seu filme? – perguntou, dando um sorriso na direção do namorado.
- Deixei essa função pra minha dupla. – ele piscou, se colocando de pé.
- Vá vestir uma roupa, . – Rob disse rindo, se aproximando do amigo e o abraçou.
- Ainda bem que veio de bermuda, imagina se viesse só de cueca a vergonha que não seria. – Lisa brincou, fazendo os demais rirem.
voltou pelo corredor, vestiu uma camisa e logo estava abraçando os amigos: Lisa, Mason, Nina, além do pai, sua nova esposa, Joe, Ivy e seu marido, Jason. Reeditariam a “Noite do Cinema” que faziam sempre, agora com três novos membros. Os colchões estavam por toda parte, o sofá-cama estava aberto e a poltrona de Joe estava devidamente esticada.
As noites de cinema eram, sem dúvida, os melhores acontecimentos entre eles. Cada dupla era responsável por escolher um filme e eles assistiam a todos, ou pelo menos tentavam. Uma vez por mês, em uma das folgas de Joe, eles se reuniam naquela casa, comiam, assistiam filmes e se divertiam. Foi numa dessas noites que se descobriu apaixonado por e teve que lutar bastante com sua timidez para se aproximar mais e falar com ela.
- Então vamos começar. – Lisa disse, entregando os potes de sorvetes para cada dupla. – E vamos começar com o filme da primeira nova dupla. Becca e Bella, o que vocês trouxeram?
- Coco! – elas disseram animadas.
- EBA! – comemorou junto, fazendo rir.
- Então vamos começar. – Joe, o pai de , disse.
- Vamos apostar quem dorme primeiro? – Nina perguntou rindo. Costumavam apostar isso quando eram mais novos e Joe era o líder em dormir primeiro.
- Aposto em Joe. – Ivy se pronunciou e todos os demais concordaram.
- Eu aposto nas gêmeas. – Joe respondeu. – Acho que elas dormem uns minutos antes de mim.
- Pai, isso eu duvido. – Rob falou rindo. – E vamos começar logo, os sorvetes vão derreter. Vocês sabem seus lugares.
- Eu vou ceder o sofá para Sula e Greg. – falou dando um sorriso e se sentou em um dos colchões.
- Não estamos tão velhos assim, . – Sula brincou.
- Aproveitem, porque ela não costuma abrir mão desse sofá por nada. – respondeu rindo.
Greg e Sula foram para o sofá e os demais se agruparam nos outros colchões, o maior deles para Rob e Nina, que tinham que colocar as gêmeas junto. Assistiram a animação inteira, chorou pela terceira vez e podia jurar ter visto , Rob e Mason chorar. As gêmeas dormiram antes de Joe e foram realocadas no antigo quarto do avô.
- E agora? – Rob perguntou e Ivy levantou a mão.
- Quero que a gente veja o meu.
- E qual é o seu, tia? – perguntou desconfiada.
- Grease.
- Eu também quero que a gente veja o da tia Ivy. – deu um sorriso.
- Quais as opções? – Sula perguntou.
- Grease, O Regresso, Despedida em Grande Estilo, Fragmentado e Os Meninos Que Enganavam os Nazistas. – Rob conferiu os DVD’s em sua mão.
- A gente tem que começar pelo DVD dos idosos, porque eles vão dormir antes de nós. – Mason provocou.
- Isso é mesmo. Então começa por “Fragmentado”, que é o meu, porque eu vou dormir não demora. – falou rindo.
- Boa escolha. – foi quem se pronunciou. – Mas sou a favor de vermos o da Ivy. Ela pediu primeiro.
- Melhor sobrinho de todos. – Ivy disse dando um sorriso para .
- Eu ouvi isso. – Rob resmungou com ciúmes e seguiu até o DVD para colocar “Grease”.
- Eu adoro Grease. – Nina disse dando um sorriso animado. – E faz tanto tempo que não vejo um bom filme sem ser desenho...
- Gostei de todas as escolhas da noite. – Mason respondeu enquanto se esticava em busca de um pedaço de pizza.
- Poucas eram as vezes que isso acontecia. – Lisa debochou.
- Você sempre escolhia romance, eu dormia mesmo. – ele respondeu mordendo a fatia da pizza.
- Calem a boca. – Nina falou, jogando pipoca nos dois e o silêncio reinou durante o filme enquanto comiam e bebiam.
- Quer uma cerveja? – perguntou e negou com um aceno enquanto terminava de mastigar.
- Não vou misturar marshmallow e cerveja. – cochichou e ele riu, se levantando para pegar uma cerveja no cooler, voltando ao colchão e puxou para que ficassem mais perto dele e os dois terminassem de ver o filme juntos.
Os filmes acabaram o dia já estava amanhecendo, mas os únicos que ficaram acordados e viram tudo foram e Lisa, os demais estavam todos dormindo tranquilos e há muito tempo. Os dois juntaram as coisas da sala e levaram até a cozinha, jogando fora as embalagens vazias e guardando o que tinha sobrado.
- Achei que eu ia dormir primeiro que ela. – Lisa falou quando se sentaram à mesa.
- Ela dormiu na metade do nosso filme, acho que não era nem meia-noite ainda quando isso aconteceu. – disse num tom divertido. – Você não tá com sono?
- Um pouco, mas vamos voltar pra casa mais tarde, prefiro não dormir, senão vou perder o horário do voo.
- Eu nem sei quando vamos viajar de volta, mas deve ser hoje também. Ela tem que trabalhar e eu viajo na segunda-feira também.
- Já? – Lisa perguntou surpresa. – Você não ficou quase nada.
- Sessenta e dois dias. – ele respondeu e suspirou. – Ainda fiquei muito, porque não queriam me deixar voltar e quando falei que voltaria eles querendo ou não, só queriam me dar vinte dias.
- Se você viesse só por vinte dias, a ia ter uma síncope, iria pessoalmente falar com o General e receberia outro processo, pode ter certeza disso. – Lisa disse rindo. – Há tempos ela vinha reclamando de como sentia sua falta.
- E eu a dela. – ele falou soltando uma risadinha pelo nariz. – Mas as coisas ficaram um pouco complicadas por lá e eu tive que ficar por mais tempo do que queria.
- E você vai ficar quanto tempo fora dessa vez?
- Quatro meses, mas pode ser um pouco mais.
- Você não tem vontade de largar isso e, sei lá, procurar outra coisa pra fazer da vida? – Lisa perguntou curiosa e ele voltou a dar uma risada pelo nariz.
- E fazer o quê? Eu não sei fazer nada além disso, Lizzie.
- Você já está no Exército há quase vinte anos, por que não pede dispensa das missões, estuda aquela Engenharia Mecânica que você sempre quis fazer e começa a fazer trabalho interno no Exército. Você é Oficial Comissionado e não deve demorar a subir de patente, então é uma boa. Ou você pode, sei lá, largar o Exército e entrar pro FBI, SWAT, CIA... se quiser permanecer nesse ramo.
- Ainda preciso de dois anos pra subir de patente.
- E vira o quê?
- Coronel.
- Pois é. Se o salário é bom assim, vale a pena você ficar e ir estudar. Dentro do Exército você pode tomar conta da parte das aeronaves e tanques mesmo. Tenho alguns pacientes que são do FBI, posso sondar e descobrir sobre valores também, se for do seu interesse.
- Eu não sei. – suspirou. – Sinto muita falta de estar com a e com vocês, mas não sei se eu consigo largar o Exército.
- É algo que você deveria considerar. Pro seu bem-estar mental e físico.
- Vou pensar nisso sim, Lizzie. – ele deu um sorriso para a amiga. – Quer um café?
- Quero. – ela respondeu e ficou de pé. – E acho bom você estar aqui quando eu for me casar, .
- E quando será isso? Vocês já têm uma data definida?
- Eu pensei em outubro, no outono.
- Aqui ou em Nova York?
- Aqui, claro. Meus parentes e os de Mason todos moram aqui. – ela falou rindo e deu uma risada junto. – Mas estamos em maio, eu tinha que começar a olhar tudo por agora, começar a pagar coisas e reservar lugares... casar não é barato, meu amigo.
- Imagino que não seja. – ele falou rindo e se virou para olhá-la. – Eu pedi a em casamento.
- Ela me falou. – Lisa deu um sorriso. – Com um lobo de pelúcia e um discurso de dar inveja em qualquer orador.
- Preciso comprar um anel e fazer direito, mas não sei se vou ter tempo de fazer isso quando voltarmos pra lá.
- Soldado, eu já te falei que o anel é o de menos. O pedido está feito e foi aceito da forma original, não precisa de nada além disso. – ele ouviu a voz de na porta da cozinha e se virou, dando um sorriso para a namorada.
- Já de pé tão cedo?
- Eu dormi o que sempre durmo. – ela deu de ombros, se espreguiçando demoradamente. A expressão de sono era mínima, pois já tinha passado no banheiro e lavado o rosto e escovado os dentes. – O que tem pra comer?
- Pizza de ontem. – Lisa apontou para as caixas e fez uma careta.
- Na geladeira tem pão, waffles congelados e coisas pra fazer panqueca. – respondeu e ela assentiu. – E bolo. Tem biscoitos também, compramos na sexta.
- Então, vamos começar a fazer o café da manhã. Os idosos vão acordar daqui a pouco e precisam comer. E as crianças também.
- Você já acordou e quer comer, pode ser sincera. – Lisa falou em tom divertido e se pôs de pé.
- Isso mesmo. Que horas é seu voo?
- Uma e quinze. Vamos todos juntos e deixar vocês dois sozinhos.
- Que ridículos. – resmungou.
- Falando nisso, quando nós voltaremos pra Nova York? – perguntou.
- Sem perguntas, soldado. – respondeu sem olhar na direção dele, indo até a geladeira para buscar as coisas que precisavam para o café da manhã.

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- Você já me levou pra fazer piquenique, tivemos noite do cinema, dançamos... O que vamos fazer agora? – perguntou quando todos foram embora, perto das onze da manhã, e os dois ficaram sozinhos.
- Piscina.
- Aqui não tem piscina.
- Aqui não, mas tem as piscinas da cidade. – ela piscou e ele riu.
- Estamos de volta ao final dos anos noventa.
- Eu gostaria mesmo. – disse e deu um beijo em .
- Eu acho que a gente podia ficar quietinhos por aqui mesmo.
- Seu desejo é uma ordem. – ela respondeu, fazendo um carinho no rosto de e ele sorriu.
- Ficamos até que dia? E sem aqueles olhares atravessados, por favor. – ele perguntou e não respondeu, apenas o beijou.

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- Que horas nós vamos embora? – perguntou preocupado quando os dois estavam se preparando para dormir.
- Amanhã. Dez da manhã.
- Sem chance. – falou e a olhou sério. – Meu voo sai de Nova York às dez da manhã.
- Não, meu amor. Seu voo sai daqui às dez da manhã. – ela respondeu ajeitando o próprio travesseiro.
- Mas minhas coisas e...
- Suas coisas serão devidamente despachadas por Lisa. Deixei tudo arrumado e ela vai passar lá em casa e entregar ao Capitão Davis, ele vai levar, vocês vão se encontrar sei-lá-onde e suas coisas estarão lá.
- Eu tenho que ir fardado, amor. – ele resmungou, se deitando.
- Eu trouxe sua farda na minha mala, soldado.
- Você realmente pensou em tudo. – ele deu uma risadinha e ela se deitou ao seu lado. a puxou para mais perto e lhe deu um beijo no rosto.
- Você gostou do seu fim de semana especial?
- Com certeza. – ele respondeu, fazendo um carinho no braço nu dela. – Você fez esses sessenta e dois dias em casa serem perfeitos.
- Não foram sessenta e dois dias em casa, exatamente. – ela brincou e ele deu uma risada baixa antes de voltar a falar.
- Esses últimos três dias foram absolutamente fantásticos. Fiquei muito feliz de termos passado tanto tempo juntos, ter visto todo o pessoal e ter conseguido ficar pertinho de você sem interrupções de trabalho ou da vida.
- Ainda bem que você gostou. E como você está se sentindo?
- Feliz. Feliz de uma forma que eu não me sentia há muito tempo, porque ainda que eu soubesse que você me ama e que posso contar com você sempre, eu me senti amado de uma forma que jamais achei que fosse possível. – ele confessou sem jeito. – Eu me lembrei de quem eu sou. E de quem somos nós quando estamos juntos.
- Espero que a lembrança desse fim de semana torne seus muitos dias longe de casa muito melhores.
- Essa lembrança é a luz do farol, meu amor. Minha Linda Vigia do Farol está sempre me esperando.
- Sempre. – ela ergueu o olhar até encontrar o dele e sorriu. – Ainda que você seja do Exército e não precise, literalmente, de um farol.
- Marinheiros é que são bons com histórias, infelizmente nós do Exército não somos. – ele brincou e deu um beijo na ponta do nariz de .
- Vamos dormir, eu tô cansada e vamos acordar cedo amanhã.
- Como sempre. – ele falou rindo e esticou o braço livre para apagar o abajur ao lado da cama.

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- Pegamos tudo? – perguntou entrando na sala enquanto terminava de abotoar a farda.
- Ver você usando uniforme nessa sala ainda dói do mesmo jeito. – ela franziu o rosto em uma careta e se aproximou.
Ele puxou do pescoço o cordão com duas placas de alumínio e deu um sorriso de lado. Ela fez o mesmo. Tinham aquilo desde a primeira viagem de , em 2002, e nunca tiravam.
- Pegamos tudo?
- Sim senhor, Tenente-Coronel. – ela respondeu, envolvendo o pescoço dele com os braços e o olhou triste. – Sua mala vai embora comigo e você apenas embarca no avião que sai daqui.
- Não faz essa cara, em cento e trinta e cinco dias eu estou de volta. – ele falou tentando parece otimista.
- Estarei esperando por você. – ela falou, dando um selinho nele e o soltou de seu abraço. – Mas agora, vamos para o aeroporto, senão vamos nos atrasar.
- Você também volta agora?
- Meu voo sai às dez e vinte e dois.
- Pegamos tudo mesmo? Os donos da casa não vão gostar de encontrar nossas coisas abandonadas por aqui.
- O dono da casa é meu pai, meu amor. A casa é alugada para outras pessoas, mas essa ainda é a casa de big Joe. Mas, sim, pegamos tudo.
- Então vamos. – ele falou antes de pegar as duas malas e os dois seguirem até o carro, depois de trancar a casa.
O caminho até o aeroporto era silencioso entre os dois, apesar do barulho feito pelo rádio. Era sempre assim quando precisava ir. nunca tinha aprendido, realmente, a lidar com as partidas e a ausência dele. Ela sabia que ele fazia aquilo por gostar e não por se sentir obrigado, mas era doloroso ter que vê-lo ir e não ter a certeza de que ele voltaria inteiro. Ou se voltaria.
- You and I, We’re like fireworks and symphonies exploding in the sky. With you, I'm alive, like all the missing pieces of my heart, they finally collide. So stop time right here in the moonlight, cause I don't ever wanna close my eyes... – a música começou a tocar na rádio e cantou junto. Adorava aquela música.
- Without you, I feel broke like I'm half of a whole. Without you, I've got no hand to hold. Without you, I feel torn like a sail in a storm. Without you, I'm just a sad song... – ela cantou com a banda, enquanto olhava pela janela.
- I'm just a sad song. completou, pegando a mão dela e deu um beijo no dorso, mas sem desviar o olhar da rodovia enquanto terminava o caminho.
- Eu te amo tanto. – ela falou num tom de voz trêmulo, se segurando para não chorar antes da hora, e ele acariciou a mão dela em resposta. Não precisava falar, ela sabia. E nem se ele quisesse tentar falar, conseguiria. Os dois ficaram em silêncio por um tempo, enquanto ainda ouviam a música no rádio.
- You're the perfect melody, the only harmony I wanna hear. You're my favorite part of me. With you standing next to me, I've got nothing to fear. Without you, I feel broke like I'm half of a whole. Without you, I've got no hand to hold. Without you, I feel torn like a sail in a storm. Without you, I'm just a sad song... foi quem cantou a música e acabou chorando.
Ele parou o carro no estacionamento indicado para a agência de carros em que tinham alugado aquele. O carro foi devolvido e os dois seguiram pelo saguão, calados, até que chegassem ao portão em que várias famílias se despediam de seus militares. a abraçou antes que ela ou ele falassem alguma coisa.
nunca tinha gostado muito de despedidas, ele nunca sabia o que dizer ou fazer, sempre se sentia triste e superar aquela tristeza de deixar para trás quem ele mais amava era uma tarefa que demorava vários dias. não era a única que não sabia lidar com as partidas dele, também não sabia lidar com o fato de ter que deixá-la e passar meses sem poder ver, beijar e tocar .
Daquela vez, ele estava triste pela despedida, como sempre ficava, mas tinha um sentimento bom em seu coração. A sensação de ser extremamente amado. E era maravilhoso se sentir daquele jeito.
- Há dezesseis anos, nós éramos iguais àquele grupo ali. – ele falou baixo, apontando discretamente para um grupo de pessoas que estava se despedindo de um soldado quando o voo dos militares foi anunciado. Os pais, amigos e a namorada. Exatamente como tinha sido com . – E hoje somos apenas nós dois.
- Não somos apenas nós dois.
- Mais alguém veio? – ele perguntou se afastando um pouco para olhá-la confuso e ela assentiu, mas antes de responder, ela o beijou demoradamente como não poderia fazer pelos vários dias que viriam.
Uma nova chamada para o voo e um novo beijo.
- Boa viagem, soldado. – ela soprou contra os lábios dele.
- E quem mais veio se despedir? – ele olhou ao redor, mas não viu nenhum rosto conhecido.
- Ah. – ela deu um sorriso. – Não adianta procurar, você não vai ver.
- Como assim? – ele perguntou confuso.
- Porque só vamos conhecer essa pessoa daqui uns sete meses ainda. – ela falou, dando um sorriso.
- Continuo sem entender. – ele falou ainda confuso.
- Soldado, não somos apenas nós dois. – ela falou rindo e pegou a mão dele, colocando sobre sua barriga. – Agora nós somos três.
- V-você tá falando sério? – perguntou assustado e ela assentiu. – E desde quando você sabe?
- Desde que fui ao médico, na semana passada, e descobri que um bebê, que agora tem sete semanas, está crescendo aqui. – ela falou sorrindo, mas tinha lágrimas escorrendo pelo rosto. A última chamada do voo. – Agora vai, você vai se atrasar.
não respondeu e nem se afastou, apenas voltou a tomar em seus braços para beijá-la demorada e apaixonadamente. Aquela era a melhor notícia que ele podia receber na vida e sabia disso. Seria pai. Pai.
Ele sabia que sempre amaria , mesmo estando longe, mesmo que por muito tempo distante, mesmo que não conseguisse colocar em palavras. E agora ele tinha mais alguém para amar.
A Linda Vigia do Farol lhe daria um filho. Elas – porque ele teve certeza naquele momento que era uma menina – sempre seriam a luz-guia para que voltasse para casa.
E seria como ouvir aquela canção romântica no rádio e se lembrar de alguém que se ama, a sensação de preenchimento, de felicidade, de amplitude. Ele era tão amado, que o amor tinha se multiplicado e virado outra pessoa.
- Não interessa quanto tempo eu fique longe e demore a voltar, não há palavras pra dizer o quanto eu te amo e sempre vou te amar. Você é minha vida. – ele falou emocionado quando se separaram e ela limpou as lágrimas que escorriam por seu rosto.
- Eu também te amo, soldado. Ao infinito e além. – ela falou antes de soltá-lo e ele lhe fez um carinho na barriga que ainda não tinha mudado em nada e se abaixou, sussurrando.
- Eu amo você também. Cuida bem da sua mãe, prometo que logo eu volto pra casa. – ele falou baixo e voltou a dar um selinho em .
- Avisa quando chegar, por favor. – ela pediu e ele assentiu antes de, finalmente, se virar para ir embora por cento e trinta e cinco dias.
A luz estava acesa.
Sempre estaria.




Fim.



Nota da autora: Eu adoro essa música e adoro ver vídeos de military homecoming e sempre choro vendo (ainda que eu não concorde muito com os motivos que levam esses soldados pra longe de casa). Quando essa música ficou vaga, e eu pedi pra escrever uma fic pra ela, a única ideia que eu tinha era a de uma estória que envolvesse esse tema militar.
Pra quem nunca ouviu falar, a “Linda Vigia do Farol” é uma história/lenda que fala sobre um marinheiro que um dia conheceu uma bela mulher que cuidava de um farol e os dois se apaixonaram, se casaram e eram muito felizes, até que um dia, não muito depois de terem se casado, ele foi convocado para o serviço, ficaria fora por muito tempo, mas como o casamento era recente, ele tinha medo de que quando ele fosse embora e a sua esposa ficasse, ela cansasse de esperar e arrumasse outro; então ele perguntou pra ela como ele saberia se ela ainda o amava e a mulher respondeu “quando você olhar para trás, verá uma luz brilhando e enquanto ela estiver acesa, meu coração é todo seu.”
Eu já tinha pensado em fazer uma long com esse tema, mas me perdi no meio do desenvolvimento e não foi pra frente, mas saiu uma short e eu espero de todo meu coração que tenha ficado boa de se ler, como foi boa de planejar e escrever. Façam uma autora feliz e comentem o que acharam (e eu escrevi outra fic no ficstape, é a fic da música “I’ll be waiting”), muito obrigada por terem lido 💙






Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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