Postado: 16/11/2017

Capítulo Único

Tudo estava muito escuro.
Naquele dia, há quantos anos?, os pássaros não quiseram cantar. Era um grande silêncio moribundo, apenas pequenos murmúrios, a morte espreitando pelas frestas de cada casa, cada esquina.
lembrava-se do momento em que silenciosamente saíra de casa e, junto com os vizinhos, andou até o centro da praça, os olhos mirados no grande telão que haviam montado uma semana atrás. A contagem dizia cinco minutos. Cinco minutos para a venda, cinco minutos para o fim de uma geração inteira.
Sentado perto da fogueira coberta, quase inexistente, e fazendo riscos com um graveto, ele recordava-se das imagens de horror, que, àquela altura, eram uma premonição para seu futuro. O futuro de todos. O país estava afundando na merda, decaindo na tabela mundial, passando fome. Não havia qualquer saída para o governo resgatar aquele povo. Instalaria-se a ditadura, de fato, a ditadura de uma rainha de uma terra além-mar, porém aquilo iria ser a salvação de todos. Quem ligava para liberdades quando não se tinha um grão de arroz à mesa?
respirou fundo, fechando os olhos. Os cincos minutos passaram-se, relembrava-se, e as imagens mostraram toda uma noção nas mãos de uma viciosa mulher, que trajava um sorriso tão maldoso quanto os seus atos. Bastaram alguns segundos para o caos, as viaturas de polícia encurralando todos, o silêncio de um destino pavoroso sendo corrompido pelos gritos, os tiros e as mortes. Tanto, tanto sangue... Tantas vidas sendo desperdiçadas à toa, tantos caminhos e profecias ignoradas.
Depois daquele dia, no dia em que tudo ficara escuro, a associação foi concebida.
A associação era a luz naqueles dias enegrecidos, e era um membro dela. Não exatamente “membro”, pois não havia uma organização. Não era Associação, com “a” maiúsculo, e sim pequenos grupos de resistência em cada área de sobreviventes. Viviam no escuro na maior parte do tempo, tentando sempre permanecer quietos, como fantasmas. Fantasmas de pessoas, fantasmas de um país. Sobraram tão poucos, a maior parte crianças assustadas, que se enfiaram em algum canto quanto tudo foi abaixo.
Escondiam-se principalmente nas florestas. A rainha sabia disso, e seus fiéis súditos, ou melhor, as armas de seus fiéis súditos também. A associação havia encontrado formas de despistar os guardas e manter-se viva, apesar de, por conta disso, seus membros serem privados de iluminação. Mais do que já eram. E todos sabiam do rígido padrão dos guardas: tiros primeiro, perguntas depois, principalmente se o que encontravam fossem crianças. Com adultos, como , era quase certo que seria levado ao prédio da capital para ser torturado a fim de extraírem qualquer informação sobre o que seria a associação.
Até onde tinham conhecimento, este que às vezes era difícil de explicar como havia parado nos ouvidos dos sobreviventes, a rainha apreciava as torturas, os gritos, o sangue. Menos de um minuto de mandato e tivera ordenado o extermínio de todos, não? Ela prosseguira com aquele perfil e devastara todos os prédios, campos e qualquer lugar que pudesse ficar em entulhos no país.
O país era uma casca oca do que antes havia sido.
E a rainha precisava ser destruída.
. — ele ouviu uma voz lhe chamando, fazendo-o deixar suas lembranças para outro momento. — Está na hora.
Ele levantou-se em um pulo, dando leves batidas na sua jaqueta. Era quem o chamava, uma das sobreviventes com a mesma idade que a dele. Não percebera que a mulher havia estendido a mão para ajudá-lo a levantar, e ela logo a retraiu, fazendo a pequena pulseira que usava tintinar. Ela, e mais alguns poucos foram os mais velhos que ainda continuavam vivos, e eram eles que, de certa forma, seguiam como modelos para os mais novos.
Ninguém, dos mais velhos, era muito próximo em termos de amizade, pelo menos a amizade que pessoas como e recordavam-se de existir em outros tempos. Os mais novos, por outro lado, era o oposto: todos se conheciam até demais, apesar de não ser nem um pouco aconselhável, considerando que conflitos já existiam e eram muito para outros, por quaisquer motivos, fossem criados. Era raro, também, inclusive nem um pouco prudente, que qualquer pessoa adquirisse um relacionamento com tendência amorosa. Nas condições que a associação vivia, gravidez e intrigas não eram boas ideias.
seguiu o caminho que fazia, apesar de saber para onde exatamente ambos estavam indo. Havia chegado o dia, a única oportunidade para que o curso daquele país em ruínas tivesse chance de mudar. O blackout.
Entraram na caverna, na qual a entrada era coberta por musgo e folhas. Um pouco ao longe, em uma caminhada de pelo menos dez minutos, encontrava-se o local da operação da associação, uma grande roda, com uma fogueira no centro, formada por todos os membros, do mais novo ao mais velho. Giovanni, um ano mais velho do que e , aguardava-os.
, . — ele os cumprimentou, apontado para os lugares vagos na roda. — Sentem-se, por favor. Vamos começar.
Na roda, considerando os recém-chegados, havia quinze pessoas. Dez delas não ultrapassavam quinze anos, enquanto , , Giovanni e mais duas outras estavam no meio de seus vinte. O mais novo entre eles, Tommy, tinha apenas oito anos, mas com uma grande cicatriz na bochecha direita, a marca de um tiro que passara de raspão por seu rosto alguns anos antes. Foi ele quem começou a falar, na voz mais densa que pôde fazer.
— Esperávamos já há algum tempo este momento, companheiros, e ele chegou até nós. O blackout, o dia sem Lua.
Tudo estava muito escuro, porém não tão escuro quanto podia ser.

A cada dez anos, havia um grandioso eclipse, que tinha a capacidade de alterar as frequências eletromagnéticas principalmente da região em que se situava o país. Por algumas horas, a eletricidade não funcionava, e todos os habitantes ficavam à luz de velas ou lanternas ligadas a baterias. Pelo menos havia sido assim antes.
Era durante o blackout que a rainha e todos os seus subordinados estariam mais vulneráveis, a única oportunidade que os sobreviventes tinham de derrubá-la. Fora concordado durante muito tempo que um mês e alguns dias antes da data do blackout, uma reunião seria feita para enviar os mais velhos para o combate. Eram em menor número, de fato, e a segurança seria reforçada, mas era a única chance.
A rainha cortara-lhes a luz, e natureza cortaria a dela.
Havia uma razão para especificamente os mais velhos serem enviados. Como eles sabiam, os sobreviventes mais jovens eram mortos no ato. Por outro lado, os mais velhos iriam presos no mesmo edifício em que a rainha vivia, para depois serem chamados até ela. Não estariam sozinhos em um mesmo cômodo, é claro, porém apenas a mera oportunidade de haver alguma chance de fazer algo a ela consumia-lhes de esperanças.

— Tenho uma ressalva. — Após a narração dos eventos, Tommy abriu a boca novamente. franziu o cenho, curioso a respeito do que o mais novo poderia ainda ter dúvidas. O plano era bem claro desde o início. — Se apenas os mais velhos forem enviados, eles vão compreender o que pretendemos fazer.
Giovanni lentamente assentiu com a cabeça.
— Realmente, Tommy… Mas se alguns de vocês, mais jovens, forem enviados, a morte é certa. Sabe disso. E não queremos mais nenhuma baixa.
O menino levantou-se do seu lugar, impondo-se nos seus um metro e quarenta de altura. Ele era mais alto do que o normal para a sua idade, e isso lhe dava, de alguma forma, certa confiança para expressar o que pensava.
— É melhor um levante que faça sentido na cabeça deles, com jovens e adultos, do que um que os faça questionar o motivo para estarem ali. — tinha que concordar com Tommy. Eles não podiam correr o risco da parte mais crucial do plano dar errado e inutilmente todos perderem as suas vidas. — Acha mesmo que se passarem pela cabeça dos guardas que pretendemos atacar por dentro, eles vão permitir que a rainha nos veja?
— O que você está sugerindo, Tommy? — questionou, observando a comoção que estava crescendo em volta da roda com as palavras do garoto.
Uma das meninas, um pouco mais velha que Tommy, também se levantou.
— Estamos sugerindo participar da missão, independente do que aconteça conosco. — Caminhou lentamente até o lado de Tommy, segurando sua mão. — Não podemos esperar mais dez anos por uma oportunidade dessas, . Se continuarmos com a ideia de apenas você, , Giovanni, Lucy e Waltz irem para que nós sobrevivamos desconsiderando o resultado, como é que estaremos lutando pelo bem de todos?
— Exatamente. Não iremos estar lutando, . — Tommy continuou. — Estaremos fugindo.
Mais três jovens ergueram-se da onde estavam sentados, formando uma meia-lua de mãos entrelaçadas.
— Não queremos mais nos esconder, fugir, esgueirar pelas sombras. — um outro menino disse, que tinha a idade mais próxima dos mais velhos. — Queremos batalhar pelo nosso futuro.
começou a sentir as palmas de suas mão suarem. Por mais que aquilo tivesse lógica, não tornava a decisão de mandá-los para a morte certa mais fácil. Eram tão poucos, estavam tão dispersos. Eles sabiam que os outros grupos também atacariam naquela noite… Se os outros grupos estivessem vivos.
Olhando ao redor, percebeu que já estava bem clara a decisão: todos os mais jovens pareciam ter discutido aquilo previamente e estavam em acordo, tanto com quem iria quanto com quem ficaria. E eles eram dez; , e os outros eram cinco. A idade, ali, não pesava, e sim a quantidade de indivíduos a favor ou contra.
Giovanni pareceu compreender a mesma coisa.
— Então batalhar é o que farão. — seu tom estava um pouco estranho, como se as palavras fossem amargas para sua boca. — O que mais vocês têm em mente?
— Nós cinco vamos. — Tommy suspendeu suas mãos, assim como os outros quatro do seu lado. — E dois de vocês vão.
Os mais velhos entreolharam-se, silenciosamente já tendo conhecimento de que aquela era uma batalha perdida para questionarem qualquer coisa. O olhar que Giovanni deu a , contudo, passou despercebido pelos demais.
sabia o que aquilo significava. É claro que ele tinha que ser um dos que iria, mas quem seria a outra pessoa era o que Giovanni tinha dúvidas.
— Se eu puder fazer uma sugestão… — uma das meninas que ainda estava sentada em seu lugar falou em uma voz baixa, quase tímida. — Giovanni, você é bastante perspicaz e, se tudo der errado, saberia esquematizar com os demais alguma forma de todos nós sobrevivermos por mais algum tempo. — Ela estendeu a palma para Waltz. — Waltz, você ainda está com seu tornozelo dolorido, o que não seria uma boa ideia para o ritmo de marcha que tínhamos planejado para chegar a tempo para o blackout. Além de ser o melhor explorador de nós para encontrar comida. — A menina desviou os olhos para Lucy, que remexia as mãos, nervosa. — E Lucy… Você é a mais habilitada para cuidar de ferimentos graves, sabe disso. Seria uma grande perda para os que ficarem se você fosse embora.
— Está dizendo que, por exclusão, Valentine, eu e o somos os mais inúteis?
Surpreendentemente, todos da roda riram do comentário de . Eles normalmente não riam muito, apenas em noites de histórias. Aquilo fez o clima duro do assunto ser cortado.
— Não, claro que não… — Valentine prosseguiu. — Vocês dois são os que pensam mais rápido do grupo, e nós sabemos que são também os que minimamente têm conhecimento de luta. Não hesitariam se conseguissem uma arma.
Quando conseguirmos uma arma. — corrigiu, abrindo um sorriso de canto. — E você está certa, Valentine. Pelo menos da minha parte, concordo que seja esse o plano.
Vislumbrou abrindo um sorriso muito similar ao seu, talvez com o acréscimo de um brilho maldoso nos olhos.
— Vamos matar a rainha, companheiros.

No dia seguinte, os sete partiram. O grupo tinha acumulado uma boa quantidade de provisões e “equipamento” – se pedaços de tecido e mantas finas pudessem ser considerados sacos de dormir – para a jornada ser a menos problemática possível. Duraria um pouco mais de um mês, não chegando a dois, e, depois, eles iriam se esconder nas proximidades da edificação que sofreria o levante.
As despedidas que foram difíceis. Sabiam o que o destino os aguardava, e provavelmente não veriam os outros mais, apodreceriam sem uma vitória. Não houve choro, porém houve certa emoção e muitos abraços. Houve confiança, esperança. Eles não eram sequer uma dezena, mas sabiam que não estariam sozinhos naquela noite dali a dois meses.
Giovanni foi o último a se despedir de , puxando-o para o lado em confidência.
— A surpresa vai nos salvar, . — O mais velho tomou-o sutilmente nos braços, sussurrando em seu ouvido: — Não conte a eles.
No seu campo de visão, podia observar todos os treze de seu grupo, sabendo que, por mais que quisesse explicar que havia, talvez, mais chances do que parecia, não podia colocar em risco um deles ser pego e interrogado.
— Não vou.
Seguiram pela floresta pelo sentido que os levaria para a capital, da forma mais silenciosa que tinham aprendido. e foram na frente enquanto Tommy e os outros mantinham-se na retaguarda. Não conversavam entre si, permanecendo em silêncio para prestarem suas atenções aos arredores. Esperavam não encontrar nada pelo caminho, levando em conta o quanto estavam afastados de qualquer radar da guarda, mas sabiam que aquilo era esperançoso demais. Deviam ter cautela. E, por mais que alguns deles estivessem se coçando para, nem que momentaneamente, esquecerem para onde estavam indo, a realidade precisava ser enfrentada.

No cair da noite, decidiram montar o acampamento improvisado. Tinham andado alguns bons quilômetros dentro do previsto. Os jovens estavam visivelmente mais cansados, então e se ofereceram para ficar de vigia durante a noite. estava sentado ao lado da mulher e brincava com outro graveto, fazendo padrões desconexos no chão. Não conseguia visualizá-los muito bem, porém isso o deixava menos tenso. , por outro lado, permanecia de olhos abertos, às vezes olhando para cima, para as estrelas.
— É engraçado. — a mulher comentou baixo. virou-se para olhar para ela, sem compreender.
— O quê? — ele questionou, mantendo o volume de um cochicho.
tirou seu foco do céu para observar o companheiro do lado, apesar de não conseguir vê-lo com clareza.
— Passamos tanto tempo juntos desde o dia que vocês me encontraram e vamos agora partir para uma missão que talvez altere o curso da nossa história, e eu estou me perguntando o que eu sei sobre você.
soltou uma risada baixa. Tinha que admitir que ela tinha razão. Do grupo, era o que menos se abria nas poucas noites de histórias.
— O que você quer saber sobre mim?
pareceu refletir um pouco sobre isso.
— Não acho que seja algo específico, . — Ela acostumou os olhos para a figura dele no escuro. Então, ao observá-lo, teve uma ideia de algo bom a se perguntar. — Bem, você usa essa jaqueta sempre. Ela sempre foi sua ou você a achou?
Inconscientemente, a mão livre dele acariciou o material da parte inferior da jaqueta. Era um tecido grosso, de cor castanho-clara. Do lado direito dela, havia um bordado de um raio cinza com contorno preto. Fora aquele pequeno detalhe, ela era toda lisa. Estava relativamente suja por conta do uso, mas a cor ainda mantinha-se em sua sobriedade.
— Ela era do meu irmão. — respondeu depois de algum tempo, sem olhar nos olhos. — Ele tinha saído de casa por conta do trabalho antes da venda e disse que a jaqueta era minha, para que eu a usasse quando quisesse tê-lo por perto. — Deu um suspiro profundo. — Quando eu saí de casa naquele dia, tinha o pressentimento de que não poderia nunca mais voltar, e trouxe a jaqueta comigo.
não sabia o que responder àquilo. Ou talvez soubesse.
Tocou na pulseira que tinha no seu pulso direito, fazendo-a tinir de leve. não precisava vê-la para saber do que se tratava, mas mesmo assim o fez. Ele sempre a achara muito bonita, por mais simples que fosse.
— Essa pulseira era da minha mãe. — Voltou a olhar para o céu com uma expressão melancólica. — Estávamos fugindo, tínhamos conseguido escapar por algumas semanas dos tiros. Uma noite a encontrei abatida, encarando as estrelas, e ela pediu para que eu ficasse com a pulseira. — sorriu fraco, um sorriso triste. — Acho que ela sabia que algo ia acontecer… E aconteceu. Nos encontraram, quer dizer, a encontraram, não me viram. Pensaram que ela estava sozinha. Não tive coragem para olhar, nem consegui dizer adeus… Eu apenas corri, porque sabia que era a única coisa que podia fazer.
Aquela história já tinha algum tempo, e surpreendeu-se ao perceber que nunca verdadeiramente alguma vez havia a dito em voz alta. Sentiu seus olhos ficarem marejados, mas logo se controlou. Observou de relance as crianças dormindo profundamente.
— Não há um só ali que não tenha uma história de perda como a nossa, . E agora eles vão morrer para nós termos a mínima chance de matar a responsável.
encarou-a com um semblante sério. Largou o graveto no chão e apoiou uma de suas mãos no ombro da mulher.
— Nós vamos conseguir, . Se morrerem, não morrerão em vão. — Sua voz tinha uma firmeza que fazia sentir que dizia a verdade, que tinha certeza daquilo. — Aquela mulher vai pagar por todas as histórias.
Ela assentiu com a cabeça, fazendo uma promessa silenciosa de que não fraquejaria para que aquilo acontecesse. Percebeu que estava muito perto de si, o que era um bocado estranho. Ela não conseguia se lembrar da última vez que alguém aproximara-se tanto dela. Na mesma hora, o homem também pareceu notar isso e retirou sua mão do ombro de , retornando ao seu lugar.
Seguiram em silêncio por algum tempo, ouvindo as folhas das árvores em volta deles debaterem-se por conta da brisa. respirou fundo, continuando seus desenhos com o graveto. Decidiu que queria conversar, na verdade, porém não sobre a rainha ou qualquer coisa relacionada a ela.
— Você se lembra das séries? — ele perguntou abruptamente, agora tentando desenhar algo que fizesse sentido no chão. Por alguma razão, parecia que tinha descido alguns anos de idade com aquela pergunta. — Quero dizer, as séries de TV.
— Claro que lembro! — O tom de era de bastante entusiasmo, como se aquele assunto devesse ter vindo à tona há muito tempo e ela estivesse aguardando-o ansiosamente. — Eu não sei por que não comentam disso na noite de histórias, na verdade.
— Talvez porque não existe como explicar séries sem mostrá-las, e não tem qualquer meio de alguém assisti-las novamente. — respondeu, terminando de traçar um “R”. soltou alguma palavra demonstrando que concordava. — O que é uma pena, porque eles — Usou o graveto para apontar para as crianças. — nunca vão entender aquele sentimento de ansiedade por um novo episódio.
— Ou uma maratona feita madrugada adentro só porque os cliffhangers dos episódios pioravam à medida que a temporada se estendia. — Ela levou uma das mãos à boca, prendendo um riso. — Uma maratona feita madrugada adentro quando se tinha prova no dia seguinte.
Ele terminou de desenhar o “D” e olhou para ela, sorrindo de canto.
— Então quer dizer que você era das que não conseguia assistir nada se não fosse maratona?
fez uma mesura na direção do que tinha escrito no chão.
— Vai me dizer que aqueles episódios de mais de uma hora de Sherlock eram para ser visto um por um, com intervalo de dias? — Sem perceber, se ajeitou em seu lugar, ficando mais próxima de . — Acho que esse “I am Sherlocked” significa que você era fã daquelas séries mais antigas.
— Eu gostava mais das clássicas, realmente. — Então, depois dessa afirmação, o sorriso de caiu um pouco. — Elas eram simples, bem desenvolvidas, em sua maioria, e tinham um universo para elas mesmas… Me faziam esquecer do colégio.
— Esquecer do colégio? — indagou baixo, sem compreender.
fez uma pausa, fechando os olhos momentaneamente. Ele não se recordava do que houve naqueles poucos anos antes da venda frequentemente. Preferia ignorar que existiram.
— Nas noites de histórias, normalmente Giovanni ou Waltz contam das festas de finais de ano, dos aniversários, das ocasiões especiais que sempre nos deixam com um gosto agridoce na boca. Fizemos um acordo por conta disso, eu sei, mas nós nunca falamos das partes ruins da vida que levávamos.
Ele não chegara a explicar para o final daquela história naquele dia. Havia dito que não queria voltar a um assunto tão obscuro e manteve-se quieto até o momento da troca de turno. Demorou algum tempo para que os dois estivessem de novo juntos vigiando o sono dos demais, e, por mais que não tivesse esquecido o que deixara de fora, não queria pressioná-lo até perceber que ele de fato gostaria de contar.
Sem perceberem, uma semana havia se passado, e muito chão tinha ainda que ser percorrido pelo grupo. Por alguma espécie de milagre, eles não tinham encontrado nenhum problema até aquele momento. Tudo estava dentro dos conformes, e todos ali sabiam que chegariam na área do prédio da rainha dentro do prazo estipulado.

— Em virtude de sua lealdade e eficiência em campo, nomeio você, 24601, como meu guarda pessoal. — Sentada desleixadamente na cadeira, a mulher proferiu as palavras, observando o policial erguer-se do chão. Para aquela cerimônia em específico, retirara seu capacete, e a rainha olhou-o diretamente em seus olhos. — Que cumpra sua nova função com honra.
O homem fez uma mesura, dizendo palavra alguma, e, com a cabeça abaixada, um relance de uma tatuagem no pescoço pôde ser vislumbrada pela rainha, ainda que não tenha conseguido identificar o que era. Por conta da ausência de fala, a mulher presumiu que era um dos seus desde o início ou apenas tinha uma grande parcela de medo dela, o que, devido às circunstâncias, era sábio. Francamente, não se importava.
Depois, o guarda colocou novamente o capacete e assumiu seu lugar, em pé, no seu lado direito. Após um breve momento de silêncio, todos os presentes ajeitaram-se para o andamento da sessão. A rainha abriu um grande sorriso e entortou ligeiramente sua cabeça para o lado. Sua tiara, feita de um material delicado e simples, sequer se moveu.
— Prossigamos, meus guerreiros. A que tolo devo o prazer de minha companhia hoje?

Estava tudo mais uma vez quieto e pacífico na floresta. sentiu que não iria conseguir dormir tão cedo, então se voluntariou para o turno. era uma curiosa, decidindo que teria sua curiosidade saciada naquela noite. Para ser sincera, o peso da chance de todos ali morrerem começava a prensar suas costas, e havia deliberado que não iria ao óbito sem fazer, ao menos, um amigo. Que se danassem as “regras”.
No momento em que todos estivessem mortos, não haveria mais regras a serem seguidas.
Quando acomodou-se do lado dele, não percebeu, mas esboçou um sorriso.
— Olá de novo. — ele disse em voz baixa. Tudo era feito aos sussurros, como da outra vez, as vozes em tom normal tendo sido abandonadas assim que saíram do terreno seguro que a caverna da associação provia.
— Oi, . — Aquela noite estava nublada, então, infelizmente, sem estrelas para . — Disposto a conversar hoje?
— Claro, por que não?
Falaram principalmente sobre coisas do passado; sobre bandas, as antigas séries, tipos de entretenimento que sentiam falta, mesmo já sendo mais velhos. De certa forma, tudo o que acontecera tinha roubado certa parcela da juventude deles. Era agradável deixar aquelas pensamentos de nostalgia para fora, e se questionava por que não abordavam mais sobre essa parte específica para o resto dos sobreviventes mais novos.
Simultaneamente, estava prestando atenção para uma possível oportunidade de perguntar para o homem mais uma vez sobre o colégio. Quando ela aconteceu, a mulher não perdeu tempo e retomou ao assunto de vários dias atrás.
mexeu desajeitadamente na jaqueta.
— O que tem o colégio?
Sem saber exatamente por que ainda estava com aquilo na cabeça, ela respondeu:
— Como foi o colégio para você?
Ela observou enquanto fechava os olhos de leve, balançando a cabeça, como se tentasse expulsar algum tipo de pensamento ruim.
— Eu não tinha muitos amigos. — ele iniciou. — Na verdade, acho que não tinha amigo algum. Só consigo me lembrar do último ano, quando muitos ali estavam a favor da intervenção. Da venda. Já havia grandes rumores sobre ela, e os mais populares e estúpidos, que vinham de famílias de grande prestígio, achavam que entregar o país para um grupo seleto, ou uma rainha, era uma ótima ideia. Fim da democracia, mas o raiar de uma nova era. — respirou fundo, sendo inundado pelos fantasmas de mãos que o empurravam.
— Sim, eu me lembro. — concordou. — Achavam que a solução era a perda de suas liberdades por uma “limpeza” de toda a bosta que estava rolando.
Ela colocou a sua mão direita no ombro do homem, dando um aperto de leve. desviou do seu olhar focado para o chão para encarar o toque, levemente surpreso.
— Eu sempre me mantinha calado, na minha, apesar de não concordar com nada daquilo. Tinha lido muitos livros de história dos séculos passados para estar de acordo com uma ditadura. — riu fraco. — Incrível como a história se repete de um jeito assombroso.
Ele segurou a mão de na sua, devolvendo o aperto que ela tinha dado alguns instantes antes. Sem quebrar o contato visual com ela, continuou:
— De alguma forma eles sabiam. Sabiam que eu não pensava como eles, que vários dali não estavam de acordo. Só que decidiram focar em mim. Me empurravam contra as paredes, cuspiam, me chamavam de certos nomes. Me forçavam a concordar.
não soube bem como estava a expressão em seu rosto pela confissão dele. Na verdade, não compreendeu por que ficara tão surpresa. O ambiente em que tinha feito o ensino médio não tinha sido nem um pouco diferente. Ela engoliu a seco, percebendo que também tinha algo similar para contar para .
— Eu era do curso extracurricular de teatro no colégio. Alguns meses antes da venda, iríamos encenar um musical que tinha como tema algo bastante polêmico, digamos assim. — franziu o cenho, julgando se compartilhar sua história era a melhor resposta para o que tinha ouvido de . Como não percebeu qualquer objeção pelo lado dele, ela não mudou de ideia. — A maioria da plateia não estava gostando nada daquilo. Então, chegou a minha cena, uma cena em que eu iria cantar. Quando notei, todos estavam vaiando tanto, mas tanto, o barulho era tão imenso, que minha cabeça começou a se queixar. Doía como o inferno. Não consegui terminar de cantar. Tivemos que sair às pressas dali e tive medo de mostrar a minha cara naquele lugar por uma semana.
— Como as pessoas poderiam estar tão cegas? — virou o seu corpo de tal forma que estava exatamente de frente à mulher. — Como que só alguns como nós percebiam o quanto aquilo estava completamente errado?
tentou responder àquilo, mas notou que não fazia a menor ideia de como sequer iniciar. O desgaste dos anos, talvez. A perda de qualquer esperança. Como último recurso, as pessoas começaram a cogitar uma venda.
Entretanto, não foi só por conta da falta de resposta que não conseguiu abrir a boca. A aproximação de , com o acréscimo do toque dele na sua mão, estava a distraindo. Dentro de si, percebeu que estava tendo certas sensações, não necessariamente ruins. Aquelas sensações, contudo, eram acompanhadas de uma obrigação sua de reprimi-las.
O que diabos estava fazendo?
Ela tirou sua mão do ombro dele, repousando-a ao lado do corpo. mimicou o movimento, deixando a pergunta que tinha feito no ar, também sem respondê-la. Ele igualmente parecia um pouco confuso, porém não saiu de onde estava. Encararam-se em silêncio por alguns segundos, incertos de como prosseguir com a conversa ou com o que quer que fosse aquilo que estavam identificando na atmosfera.
— Você teve alguma namorada? — Assim que a pergunta saiu de si, arrependeu-se de tê-la feita. De fato, ela estava ficando sem qualquer bom senso. — Perdão, não precisa responder se não quiser.
Viu abrir um sorriso de canto, o que a deixou um pouco mais relaxada.
— Não tem problema, . Não me importo com a pergunta. — ele assegurou. — E não, não tive nenhuma namorada. Ou namorado. Coisas passageiras, apenas.
De repente, olhá-lo em seus olhos estava estranhamento intenso demais, então a mulher desviou-se deles.
— Claro… — falou, a voz morrendo no final da palavra. Percebeu que o vento proporcionado pelo ambiente de vegetação em que se encontravam não estava fazendo muita coisa para deixá-la sem sentir calor. — É, eu também não. Só coisas bobas mesmo.
não se prolongou naquele assunto. Em vez disso, olhou para aquela singela pulseira dela, forçando-se a estender a mão e tocá-la. reprimiu sua momentânea perda de ar quando ele fez isso.
— Eu nunca te falei o quanto sempre achei a sua pulseira bonita, não é?
Eles estavam se distraindo. Não se pode distrair em uma vigia, ambos tinham conhecimento disso.
— Nunca nem pensei que a tivesse notado alguma vez. — O roçar dos dedos de sobre a pele ao redor da pulseira estava fazendo não escutar a voz em sua cabeça. — Obrigada.
O homem olhou-a – realmente olhou-a – e se perguntou quantas outras coisas mais acreditava que não tivesse notado nela.
Ele sentiu sua respiração acelerar, seu próprio corpo traindo aquilo sobre o que estava pensando em seu íntimo. Não, não deveria agir dessa forma, sabia que não estava certo. iria afastá-lo, com certeza, dizer que estava ultrapassando os limites. Era puramente errado.
Com debatendo-se mentalmente e ainda concentrada naquele carinho dos dedos dele em seu pulso, ambos se sobressaltaram quando um animal de pequeno porte passou perto, estalando alguns gravetos enquanto corria pela floresta. Quando se acalmaram do susto, encararam-se mais uma vez.
— Acho que estamos sendo descuidados. — falou, um pouco constrangida, retornando à sua posição de antes e sem manter contato visual com .
— Sim. Estamos.
relutantemente voltou para o seu lugar.

— 24601, você fala?
Bebericava um líquido espesso de coloração amarelada e despojava-se em uma cadeira diferente naquela vez. Estavam em uma sala reservada só para a rainha e sem a presença de mais ninguém. O guarda, em pé e com as costas bem retas, assentiu com a cabeça.
— Então fale. — ela ordenou, dando um gole no copo.
O homem não saiu do seu lugar, mas obedeceu.
— O que Vossa Majestade deseja que eu diga? — a voz do guarda era grossa, um pouco rouca, como se não fosse usada havia algum tempo. Sentindo o efeito do líquido subir até a sua cabeça, a rainha abriu um sorriso.
Não um sorriso comum, como todos os seres humanos sabiam dar. Um sorriso com um quê de maquiavélico.
— 24601, você e eu sabemos do blackout. Eu seria uma tola a níveis preocupantes se não tivesse conhecimento do quanto esse evento cósmico afeta esse país. — ela parou sua fala por um momento, analisando a reação do guarda. Imparcial como uma pedra. — Durante o blackout é quando estaremos mais vulneráveis e quando a prole de vermes que ainda existe estará mais suscetível a atacar. Estou errada, 24601?
— Não, Vossa Majestade.
— De fato. — a rainha deu outro gole na bebida, limpando a garganta. — Por isso há muito tempo elaborei um plano de contingência para esse dia. Não quero insultar a sua inteligência ao sugerir que já não se mostrou bem claro que plano seria esse a ponto da minha guarda não perceber, porém queria ter a certeza de que todos estão cientes.
Mais uma vez, o homem não se moveu.
— Todos estão plenamente de acordo, Vossa Majestade.
A rainha virou o resto do conteúdo do copo e repousou este em cima de sua mesa. A seguir, levantou-se e caminhou a passos lentos em direção ao seu guarda.
— E qual plano seria esse, 24601?
Não se importava em olhá-lo nos olhos, em conhecer seu rosto, em associar a voz a uma feição. Os capacetes estavam lá para a padronização, para todos os que os vissem sentissem o mais completo medo. Durante aqueles cinco anos, ela não se lembrava de alguma vez ter visto o rosto de mais que dez de sua guarda. Não ligava a mínima, desde que fizessem o seu trabalho sem questionamentos.
Entretanto, ali, com o aproximar das circunstâncias mais vulneráveis, a rainha passava a questionar-se se não devia passar a impor temor à sua própria guarda com o mero ato de encarar a todos em seus olhos.
— Deixá-los chegar até nós, sem encontrarem qualquer problema no caminho. Deixá-los atacar, Vossa Majestade.
— Com que finalidade? — a mulher questionou, de frente para ele, estudando-o meticulosamente.
— Reunir a associação e matar todos.
Considerou a resposta satisfatória e sorriu da forma com que sorria mais uma vez.
— Os últimos podem ter cortado suas línguas para não revelarem os segredos da associação, 24601, como eu fiz com a guarda que me acompanhou desde o início para que não revelassem os meus. Mas acho que eles não perderiam essa oportunidade para gritarem aos seus plenos pulmões sobre uma revolução que já nasceu morta.
Os dias haviam se mesclado com as semanas. Em alguns momentos e voltaram a participar dos mesmos turnos, mas não mantinham uma conversa muito pessoal para não se distraírem de seus deveres. Se fossem atacados pela guarda porque estavam falando sobre relacionamentos amorosos e acessórios que lhes eram bonitos, nenhum dos dois se perdoaria. Era melhor manterem-se nas amenidades e sempre com as vozes baixas.
Por fim, todos os sete chegaram ao seu destino. Tudo parecia estranhamente deserto, o que deixou os dois mais velhos do grupo com uma pontada de inquietação. Faltavam alguns dias até o eclipse, então era esperado que a rainha, ao menos, reforçasse a segurança nas áreas externas do prédio em que vivia. A ausência dos guardas pelas redondezas poderia indicar um mau presságio.
O grupo dividiu-se para encontrar outros sobreviventes pela região. No final do dia, tinham achado mais vinte pessoas, e reuniram-se todos em um mesmo acampamento improvisado para discutirem sobre o ataque que aconteceria em breve. Para a preocupação de e , mesmo tendo encontrado mais pessoas da associação, eles continuavam sendo os mais velhos dali. Era bem óbvio que assim que entrassem em confronto, ninguém além deles encontraria o chão frio de uma cela, e sim o seu próprio óbito. Conversaram sobre qual seria a melhor estratégia para invadir o prédio, já que o grupo de Tommy, e parecia ter sido o que veio de mais longe, dessa forma não conhecendo muito bem o terreno onde se encontravam.
— Parece que chegou a hora. — estava deitada perto de naquela noite, mas não sentia qualquer vontade de dormir. Sua voz saiu em um cochicho, não querendo atrapalhar o sono de ninguém perto deles.
ajeitou sua posição a fim de ficar de frente para a mulher. Seu semblante estava sério, a testa mostrando as marcas do seu incômodo.
— Parece que sim. — ele respondeu. — E, de maneira impressionante, ninguém da associação reportou ter encontrado qualquer problema na vinda para cá.
compreendeu o que o homem quis dizer com aquilo. Ou melhor, o que não quis dizer.
— Ela quer que estejamos aqui. — apontou, naquele momento vislumbrando a situação com a clareza que lhe faltava antes. — Quer que nos juntemos, sabe que ainda existem grupos de resistência vivos.
— E também tem conhecimento que essa seria uma das poucas chances que existiria qualquer pingo de esperança para que tentássemos alguma coisa. — estendeu a mão para segurar o braço de . Percebeu que ela estava quente, enquanto a sua palma, suando de nervoso e medo, encontrava-se gelada. — E se ela tiver plantado minas, ?
Ele viu um relance de apreensão passar pelos olhos dela, mas logo foi substituído por descrença.
— Não. Ela quer ouvir os gritos, , quer ver o sangue. Não deve ter preparado nada assim, mas com certeza preparou algo.
— Eles dizem que ela está sem recursos para tentar algo mais complicado do que apenas tiros. E vai estar muito, muito escuro. — aproximou-se um pouco mais dela, não percebendo a forma com que ela reagiu ao movimento por estar perdido em suas próprias deduções. — É possível que eles tenham apenas a vantagem numérica e armamentícia, porém sem surpresas.
permaneceu calada. Não escutara direito o que tinha dito no final, não conseguia se concentrar com ele tão perto. Não precisava, ela percebeu, fazer o menor esforço para sentir a pele de seu rosto contra os seus dedos, as nuances da barba que o homem tinha.
Seus olhos fizeram o caminho para os lábios dele antes que sua mente conseguisse processar o que aquilo significava. Devido ao pouco espaço entre eles, notou que ela tinha mudado o seu foco dos olhos dele para áreas mais abaixo. Bastou um breve relance para que sua mente processasse que também queria aquilo.
Também queria aquele momento. Antes da luta, da morte certa, do medo. Estavam em território inimigo, mas não eram eles naquela noite que precisavam estar alertas para os perigos.
… — ele iniciou a fala, incerto do que dizer exatamente. Notou que ela murmurou algo como que em incentivo para ele continuar. — O que estamos fazendo?
Ela colocou uma das mãos na nuca dele, afagando a pele e os fios que ali estavam. Aquele carinho fez com que um arrepio passasse por todo o corpo de . Não se lembrava da última vez que alguém havia tocado nele daquela forma.
— Não faço a menor ideia.
E eles não precisavam saber o que faziam. Não estavam preocupados com as razões, as consequências, desde que fizessem. Com a mão que segurava sutilmente o braço dela, puxou-a para ainda mais perto, provocando que as bocas dos dois se encontrassem. Em resposta, firmou o aperto da mão que estava no pescoço dele. O beijo iniciou-se calmo, quase exploratório, talvez ambos ainda com medo do que poderia representar. Quando conseguiram relaxar, passaram a movimentar mais suas mãos, seus dedos, acariciando a pele um do outro, e seus lábios acompanharam a progressão daquilo.
A barba dele arranhava a pele ao redor da boca dela, porém não de um jeito ruim. O oposto disso, na verdade, e não conseguia controlar os sons que produzia com a garganta em resposta àquilo. Ela desceu a mão pelas costas de , roçando suas unhas nelas, alterando a pressão que exercia à medida que o beijo ampliava-se em profundidade.
Permaneceram ali por um tempo, tentando se manter os mais quietos possíveis. Entretanto, tentavam não restringir a vontade que tinham de conhecer um ao outro, tocando-se, proporcionando certas sensações que pensaram que nunca fossem encontrar mais.

— Cinco minutos. — anunciou enquanto olhava para o céu, compenetrada, sem querer perder o momento exato. Todos já estavam posicionados de acordo com o que fora consentido pela associação. e ficariam por trás enquanto os mais novos estariam na frente, correndo em direção aos muros para escalá-los.
Estavam de mãos dadas, enfileirados. Conversavam entre si sobre permanecerem fortes, sobre lutarem, porque havia uma esperança, e ela não deveria morrer.
Ainda não se via qualquer movimentação ao redor do prédio, como se apenas os fantasmas habitassem aquele local. As luzes estavam acesas, contudo. Mesmo assim, passara a se questionar se alguma coisa tinha acontecido antes de todos chegarem ali. Não fazia qualquer sentido. Ainda que o que ele esperava e guardava consigo realmente tivesse sido bem sucedido, aquele não era o acordo.
Aqueles torturantes segundos finalmente passaram, e, então, tudo, absolutamente tudo estava escuro. As luzes sofreram um breve curto-circuito e apagaram-se. Os olhos de todos já estavam acostumados com a ausência da luz, fazendo o período de adaptação ser breve.
deu um leve aperto da mão de .
— Agora.
Começaram a correr. Antes tudo era silencioso, feito como pequenos animais protegendo-se contra os caçadores. Ali, eles escolheram o barulho, o grito de suas gargantas, como uma poderosa afirmação: estamos vivos.
Demorou pouco tempo para finalmente a guarda aparecer, revelando que não eram só espíritos daqueles que padeceram que ainda se encontravam vagando pelo país. Estavam armados, claro, porém nenhum deles com sua arma em mãos. Encontravam-se em formação, todos dispostos um do lado dos outros como uma barreira, porém o armamento ainda na bainha.
registrou aquilo, entretanto, antes de poder contestar qualquer coisa com os que estavam na sua frente ou até , o barulho de vozes que não as deles pôde ser ouvido do lado esquerdo. Gritavam igualmente como eles, mas com um adicional.
Mais sobreviventes. Armados. Armados nas duas mãos.
A cena deve ter ocorrido em questão de segundos, porém, para , foi como se tudo tivesse parado. De repente, o grupo deles diminuiu o passo, aguardando a chegada do outro, e então todos estavam armados. Havia mais armas do que pessoas. E, como logo notou, ele e continuavam os nitidamente mais velhos dali.
— O que diabos... — começou a dizer, completamente atônita, assim como o resto do seu grupo. Um dos que estavam na frente do novo conjunto de sobreviventes impediu que completasse seu pensamento.
— Não importa. Apenas corram.
Não houve qualquer discussão, e estava tudo tão escuro.

— Que merda foi aquela? — uma voz feminina gritava, completamente irada, em algum lugar próximo. Sentiu sua cabeça latejar e fez um grande esforço para se levantar. Estava deitado em algo duro como concreto, completamente desconfortável.
— Eles estavam armados, Vossa Majestade. Nós os imobilizamos para que não houvessem baixas. — sua audição estava voltando aos poucos e conseguiu compreender duas coisas: estava em uma cela, não estava sozinho, e a pessoa que estava discutindo com um subordinado era ninguém menos que a rainha.
— E você acha que eu me importo com baixas, 24601? A ordem era clara: matar todos, deixar vivos os mais velhos. Parabéns por só ter cumprido parte da ordem até agora. Suma da minha frente, e, quando eu ordenar o fuzilamento, espero que não me enfureça ao não cumprir imediatamente.
Passos duros distanciando-se puderam ser escutados. finalmente conseguiu erguer-se e recuperar os sentidos; foi quando notou que estava em uma cela, sim, e com . A mulher ainda se encontrava desacordada. Foi para junto dela devagar, sacudindo-a para reanimá-la. Notou que os dois estavam com as roupas remexidas, como se tivessem feito uma revista antes de tacá-los ali.
Tentava puxar pela memória o que tinha acontecido depois do encontro entre os sobreviventes, porém parecia que tudo havia sido apagado de sua cabeça. Começou a ouvir alguém se aproximando e olhou para o lado de fora das barras.
Ela era alta, a tiara torta para o lado direito. Vestia uma mistura de vestido com armadura, algo muito estranho que não conseguiu definir. Tinha feições delicadas, que não combinavam com sua personalidade e suas ações.
— Boa noite, verme. — foi a sua saudação. — Espero que você ainda tenha a língua, porque o farei falar.
Aquele era o momento. O momento pelo qual todos aguardaram por tanto tempo. Não sabia o que tinha ocorrido com o resto da associação, mas tinha que executar o plano como foi concordado.
— Eu lhe direi tudo que sei, Vossa Majestade. — ele sorriu de canto, quase sentindo o veneno que aquelas palavras traziam para a sua boca. — Só tenho um pedido.
— Pedido? — a rainha soltou uma gargalhada, o som estranho para os próprios ouvidos. — Só pode estar brincando.
meneou com a cabeça.
— Conto-lhe tudo, se estiver em uma sala sozinho com você, a minha companheira que ainda não acordou e apenas um de seus guardas nos vigiando.
Estava tão irritada, tão enfurecida com os acontecimentos, ou os não acontecimentos, daquela noite, que aquele parasita audacioso dizendo as palavras que tanto queria escutar, “eu lhe direi tudo”, parecia não exigir muito. Sabia que nenhum dos dois prisioneiros estava armado, e 24601, apesar de ter feito um papel de tolo naquela noite, não hesitaria em protegê-la de qualquer façanha que aqueles dois pudessem tentar fazer.
— Muito bem, verme. Posso fazer isso ser possível, é claro. Mas se algum dos dois fizer alguma gracinha, saiba que morrerão no mesmo instante como os ratos que são.
começou a se debater sob suas mãos, o que indicava que logo acordaria. Ainda encarando-a com uma expressiva vontade de agarrá-la pelo pescoço, limitou-se a responder:
— Temos um acordo.

Pouco menos de uma hora depois, e foram encaminhados para o que parecia ser o escritório da rainha, ambos amarrados e com mordaças. Trocavam olhares significativos um para o outro no caminho e, mesmo não podendo verbalizar aquilo, estavam se assegurando que, o que quer que acontecesse ali, eles lutariam juntos.
Foram amarrados em duas cadeiras, uma do lado da outra, porém com um espaço de um metro entre elas. O homem que os levara até ali fechou a porta e colocou-se do lado da rainha, que se encontrava em uma pose sem qualquer postura em um assento de frente para eles. Parecendo quase desinteressada, ela fez um gesto com a mão, e o guarda tirou as mordaças dos dois.
, agora com o ângulo correto, olhou para o emblema no peito dele. 24601. O homem saiu de sua frente e voltou para onde tinha saído.
— Comecem a falar. — a rainha ordenou, firme, encarando os dois com as sobrancelhas erguidas.
molhou os lábios com a língua, porém sabia que não era ela a iniciar o discurso. Tinha montado um script com .
— Quantos morreram, Vossa Majestade?
controlou sua confusão ao máximo para não indicar qualquer coisa. O que é que ele está fazendo?
— O que disse? — ela questionou, com um pingo de incredulidade. Levantou-se e andou na direção de .
— Quantos morreram desde que comprou este país?
Colocou-se cara a cara com ele, sua cabeça levemente tombada, um sorriso diabólico crescendo.
— Claramente não o suficiente, já que você e essa rameira ainda estão aqui, vivos, dirigindo suas palavras a mim.
sequer se movimentou em seu lugar.
— Deveria ter feito as contas, Vossa Majestade.
— Contas? — aquele verme estava tirando-a dos nervos. — Do que está falando?
— Quantos homens. Quantas mulheres. Quantas crianças. — respondeu pausadamente, passando a sorrir de maneira irônica para cima dela. — Quantos guardas sem línguas.
Não teve tempo de questioná-lo mais uma vez, sequer de raciocinar o que aquelas palavras estavam implicando. Quando se deu conta, um metal frio estava encostado em sua nuca, apertando a sua pele.
Arregalou os olhos, pega de surpresa por aquilo. Conseguiu virar a cabeça o suficiente para ver que era uma arma. A arma de 24601, nas mãos dele. Estava sem o capacete.
O que significa isto? — sua voz soou ríspida.
livrou-se de suas amarras, que, na verdade, não tinham qualquer aperto, e levantou-se para mirá-la. O homem atrás da mulher passou para ele a outra arma de seu cinto, esta que prontamente apontou para a rainha. Então, o guarda foi ajudar a tirar de sua cadeira, já que, no caso dela, as cordas realmente estavam justas. Com aquele movimento, a rainha notou qual era a tatuagem no pescoço de 24601.
Um raio sombreado de cinza com contorno preto.
— Isso significa o fim, Vossa Majestade. O fim do seu reinado.
De forma abrupta, segurou a mulher pelo ombro e colocou-a sentada na cadeira que antes ele ocupava. Mandando um olhar significativo para o guarda, observou enquanto a rainha era amarrada, totalmente à mercê dos ocupantes daquela sala. Não entendendo nada, a mulher balbuciava palavras desconexas, às vezes alguns xingamentos, e debatia-se contra as cordas.
Sem perder o contato visual com a rainha, falou para o homem ao seu lado:
— É bom te ver, irmão.
— 24601, eu ordeno que me tire destas cordas. — ela tentou uma última vez, ainda sem acreditar no que estava acontecendo. — Imediatamente!
— Eu não sou um número, megera dos infernos. — o guarda disse bruscamente, controlando-se para não dar um tapa na mulher. — Se a Vossa Majestade tivesse percebido isso mais cedo, talvez teria controlado o nosso país por mais tempo.
— Como foi que você conseguiu? — perguntou para ele, firmando seu dedo no gatilho. — Foi do jeito que tinha planejado?
— Isso é um ultraje! — a rainha reclamou. — Conspiração!
— Sim, exatamente isso. — falou, tentando juntar as peças do quebra-cabeça. Não percebeu o quanto estava sorrindo.
— Foi aos poucos. — o homem admitiu. — Perdemos muitos, é verdade, mas agora toda a guarda é composta por sobreviventes e pelos policiais originais que não queriam mais nada do que derrubá-la.
— É por isso que só havia crianças… — murmurou para si mesma.
— Sim. — o irmão de concordou. — Aos poucos a guarda original da rainha foi substituída pelos adultos sobreviventes, até o ponto em que você — ele fulminou-a com o olhar — torturava e matava os próprios guardas, os mesmos que nunca revelariam seus segredos sem ter uma língua. Não revelariam os seus segredos, realmente, mas também não falariam quem eram.
Ela estava em choque. Não havia qualquer outra palavra para expressar o jeito que seu rosto contraía, a falta de capacidade de montar uma frase completa. O interior de fervilhava de felicidade.
— E agora, Vossa Majestade… Você é apenas uma canção triste sem nada a dizer.
Com um aperto final, ele puxou o gatilho.


Fim



Nota da autora: Olá, leitoras!
Nunca escrevi uma distopia, mas achei que a música pedia uma distopia. O que acharam? Espero ter surpreendido vocês com o plot twist e que todas tenham gostado da fic. Significa muito para mim, de verdade.
Beijos no core iluminado de vocês,
Caroline.







Outras fanfics minhas:
12. Tomorrow (Ficstape #060: Olly Murs - Never Been Hurt/Finalizada)
03. Where Do Broken Hearts Go (Ficstape #003: One Direction - Four/Finalizada)
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