18. She Don't Love Me

Última atualização: 04/10/2017
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Capítulo Único

Era mais um dia comum, no qual eu assinava contratos, tomava meu café e ficava relaxando. Não havia muito o que fazer, a não ser acompanhar filmes, claro. Era algo que eu fazia com gosto. Todos os dias ler o roteiro de algo novo, me fascinava. Realmente, fui feito para isso. Aquele dia em especial me trouxe uma certa curiosidade e uma ansiedade sem limites. Se eu sabia o que estava acontecendo? Não fazia ideia, mas teria que descobrir.
Assim que saí do meu escritório, já conseguia ouvir o barulho alto de muitas pessoas falando. Caminhei até as escadas, descendo-as. Assim que cheguei ao térreo, rapidamente caminhei até a multidão. O que estava acontecendo que eu não sabia? Para tentar chegar a frente, trombei com algumas pessoas. Umas garotas que deixei para trás, piscavam para mim, sorrindo. Claro que eu ignorava, até porque não tinha tempo para ficar perdendo com esse tipo de coisa, tinha que ver o que estava acontecendo na produtora. Quem sabe, depois.
Assim que cheguei à frente da multidão, vi uma mulher um pouco mais velha conversando com o Elliot, o dono da produtora toda.
Caminhei até eles em passos largos.
- Elliot? – chamei-o. Ele se virou para mim, sorrindo. – O que está acontecendo aqui? – questionei, claramente com um ponto de interrogação na cara.
- ! Tenho que te apresentar alguém! – puxou-me mais para perto.
Parei ao seu lado, percebendo que a mulher me acompanhava com o olhar.
- Essa é Margaret, professora do curso de Cinema e Audiovisual da faculdade de Los Angeles – completou ele.
Encarei-a, estendendo a mão para que a mesma apertasse, o qual se apressou em fazer, sorrindo abertamente.
- Margaret, esse é o , diretor da produtora. Qualquer dúvida ou questionamento a respeito de algo pergunte a ele, sim? – Elliot disse, e a mulher assentiu prontamente.
- Muito prazer, senhor – foi o que disse, enquanto me encarava.
Sorri, dizendo o mesmo com um gesto de cabeça.
- Vai sair? – questionei a Elliot, vendo-o encarar o relógio seguidas vezes.
- Não. Tenho um compromisso com o Gregory hoje – disse, e eu assenti, mostrando que havia entendido.
- Mas... Por que tem tanta gente por aqui? – ainda confuso, perguntei.
- Ah, isso! Bom, Elliot me disse que eu poderia fazer meio que uma excursão para que os alunos já se sintam à vontade em um ambiente como esse e vejam como tudo é feito – a mulher respondeu prontamente, sorrindo.
Novamente balancei a cabeça, mostrando entendimento.
- Bem, podem ficar à vontade. Creio que já mostraram o local – vi Margaret assentir -, então qualquer problema é só ir na minha sala ou mandar Carl me chamar!
Elliot disse mais algumas palavras, me despedi da mulher e andei junto com ele. Antes, porém, dele sair do prédio, me encarou e deu uma piscadela. Enruguei a testa em resposta, não entendendo o que o gesto queria dizer. Mas não deu tempo de perguntar nada, porque ele saiu pela porta de vidro antes que eu percebesse. Ri, balançando a cabeça para os lados.
Caminhei até as escadas, subindo-as rapidamente. Assim que abri a porta de minha sala, tomei um susto. O que eram todos aqueles papéis em cima da mesa? Não estavam ali quando saí! Poderia ter sido Carl. Suspirei, teria muito trabalho naquela tarde. Apenas esperava que ninguém me incomodasse. O que não foi o que aconteceu, claramente, afinal tenho muita sorte mesmo.

Seis horas. Haviam se passado seis horas. Estava exausto. Como eu disse, chamaram-me várias vezes para resolver problemas. O que não foi muito agradável, nem produtivo, visto que não pude sentar direito e ler todos os roteiros que estavam ali, apenas me esperando. Ainda haviam aqueles papéis que eu não fazia ideia sobre o que eram, a única coisa que sabia, todavia, era que eram muitos. Suspirei, cansado. Olharia eles amanhã, sem condições de analisá-los hoje e muito menos em casa. Precisava de um bom banho e cama. Só isso. E foi com esse pensamento que arrumei minhas coisas na maleta rapidamente e logo já caminhava em direção ao estacionamento. Abri o carro, sentando no mesmo e o liguei. Lá vamos nós casa!

- Finalmente! – exclamei, caindo na cama depois de um bom banho e uma boa comida.
Me ajeitei no colchão macio, cobrindo-me. Peguei o celular, colocando alarme. Amanhã não seria necessário chegar cedo. Sorri sozinho com tal constatação. Coloquei o aparelho na mesinha ao lado e fechei os olhos.

Um som estridente ecoava pelo local. Resmunguei baixo, tateando a mesinha. Assim que encontrei o aparelho de onde vinha o som, apertei uma tecla qualquer e levei ao ouvido.
- Alô? – disse, baixo.
Duvidava muito que teriam escutado.
- Onde você está, cara? – ouvi Elliot falar.
Franzi a testa, abrindo os olhos devagar. Tirei o aparelho do ouvido apenas para olhar as horas. Sete da manhã. Por que ele me ligava sendo que hoje eu começava as dez?
- Em casa – respondi simplesmente. – Dormindo – completei, logo depois.
- E por que ainda está aí? – questionou, visivelmente nervoso.
- Porque hoje meu turno é as dez! – dei uma resposta óbvia.
- Você não leu os papéis na tua mesa?
- Não deu tempo – respondi, suspirando.
Só queria dormir, mas pelo visto não conseguiria.
- , venha para cá imediatamente. Hoje você contrataria estagiários! Os papéis eram as fichas das pessoas! – exclamou, exaltado.
Esbugalhei os olhos assim que ele terminou sua fala. É o quê?
- E por que não pode fazer isso você? – questionei, sentando-me na cama.
- Bom, era para eu estar em outra produtora há uma hora, mas tive que remarcar para daqui a uma hora porque estou aqui fazendo seu trabalho! – disse ele, ainda alterado.
Suspirei, derrotado, me levantando.
- Você tem trinta minutos – disse, simples, desligando.
Corri para o banheiro para tomar um banho. Se eu queria matá-lo? Mas é claro que sim! Eu estava dormindo! E por que eu não abri pelo menos um dos papéis para ver do que se tratava? Você é um belo diretor, !
Assim que saí do banho, me enrolei na toalha, indo em direção ao guarda roupa. Peguei uma blusa branca, calça jeans escura e uns tênis. Uma das coisas que eu mais curtia em meu trabalho era: não precisava usar terno, gravata e todas essas papagaiadas. Podia ir com a roupa que quisesse.
Voltei ao banheiro, escovei os dentes e sai porta afora. Qualquer coisa eu comprava algo na rua para comer ou sei lá; não morreria de fome.
Cheguei na produtora em dez minutos, percebendo que eram realmente trinta minutos certos. Sorri com a pontualidade – por mais que eu não tenha sido muito pontual. Entrei no prédio cumprimentando o porteiro e a todos os demais. Subi as escadas, chegando ao segundo andar. Assim que encarei minha porta, arregalei os olhos. Quanta gente em fila! Quis no mesmo momento voltar para minha cama quente e aconchegante. Inspirei. É, talvez um café fosse realmente bom. Andei até lá, percebendo alguns olhares que garotas na fila me davam. Bom, pelo menos a maioria era até bem bonita... Talvez não fosse realmente de todo mal ter uma – ou mais – estagiária/as por ali. Sorri de canto para algumas.
Entrei em minha sala, vendo Elliot conversando com uma das garotas. Assim que me viu, percebi que ele soltou um suspiro aliviado discretamente. Sorri para ele, acenando.
- Bem, Marta, sua entrevista chegou ao fim. Pode deixar que se você for escolhida nós entraremos em contato – disse meu amigo, encarando a garota, que, por sua vez, se levantava.
Assim que me viu, levou um susto. Não esperava por mim atrás de si. Sorri para a moça, que se encontrava corada agora. No momento em que fechou a porta, me sentei na cadeira que antes era ocupada por ela.
- Ainda bem que chegou! – exclamou, completamente aliviado.
Dei risada de sua atitude. Era bom ele ver o que eu passava.
- Precisamos de funcionários qualificados a empregar pessoas – comentei, vendo o mesmo rir.
- Precisamos – concordou. – Eu já vou. Ah, as garotas que entrevistei não precisa se preocupar. Eu me encargo delas. As outras é com você, , boa sorte! – levantou-se, dando tapinhas no meu ombro assim que passou por mim.
- Tenho que entrevistar todas? – antes que saísse, questionei. – E por que estamos fazendo isso mesmo?
- Se não quiser, não precisa. Se você achar que já tem garotas boas o suficiente, tudo bem – deu de ombros. Mas, logo depois, deu uma risadinha. – E estamos fazendo isso porque algumas garotas, alunas da Margaret, acharam que seria bom estagiar por aqui. Então, conversei com Margaret sobre isso e permiti que houvessem estágios na produtora. E também estamos tentando encontrar novos gênios que farão roteiros, edições e tudo o mais, esqueceu? Tem um papel, o primeiro pra ser mais específico, que diz quais áreas estamos precisando. Qualquer dúvida, me ligue, certo? – assenti rapidamente.
- Chama a próxima? – perguntei, já colocando os papéis, que eram fichas das meninas, no centro da mesa.
- Claro – dito isso, ele saiu.
E eu, bem, eu fiquei entrevistando garotas até achar que já não era mais necessário. Na verdade, eu não aguentava mesmo. Pode ser algo bobo para alguns, mas entrevistar pessoas o seu dia inteiro, não era algo relaxante. Era estressante, muito estressante. Principalmente quando o assunto era sério e as mulheres ficavam jogando piadinhas de duplo sentido.
Posso ser o maior babaca do mundo, no entanto nunca ficaria com uma mulher em pleno horário de trabalho. Eu respeitava as regras.
Haviam dez ou mais ainda fora da sala me esperando, mas eu tinha que mandá-las para casa. Não havia mais condições hoje. E assim o fiz. Claro que algumas ficaram com a cara fechada, triste – outras ficaram até felizes –, mas eu não podia fazer nada quanto a isso.
Sentei-me em minha cadeira novamente, relaxando pela primeira vez no dia. Que sono. Rolei os olhos, lembrando que Elliot havia me acordado cedo. Peguei meu celular, entrando em contatos. Eu queria relaxar e sabia exatamente quem me ajudaria com isso. Sorri maliciosamente assim que a voz da moça soou aos meus ouvidos.
- Emma? – soprei, com a voz rouca de propósito.
- Fala, lindo – Pelo seu tom de voz, pude visualizar o sorriso maldoso em sua bela face.
- Ocupada hoje? – questionei, enquanto colocava as folhas de algumas garotas que eu havia gostado em uma pasta separada.
- Ocupada pra você? Nunca – Sorri com sua resposta.
- Apareça as onze – disse, desligando a chamada.
É, a noite prometia.

Por Ela

- E você acha que vai conseguir? – perguntou minha amiga.
- Não sei, mas tô confiante! – exclamei, animada.
- Vai dar tudo certo, , fica tranquila. Você é ótima em tudo que faz! – minha amiga, mais conhecida como , deu pulinhos do outro lado da tela.
- Queria que estivesse aqui pra comemorar comigo, caso eu consiga – fiz biquinho, e ela deu risada.
- Eu também, amiga. Semana que vem estarei de volta, aí você me conta exatamente TUDO – disse ela, sorrindo.
- Tudo bem, tudo bem. Preciso desligar agora, vou dormir.
- Tá bom, ! Vá dormir. Tem que acordar bem disposta, certo?
- Tenho! Vou terminar um trabalho pra amanhã – fiz careta. – Adeus, amiga!
- O que eu já disse sobre dizer adeus, ? Adeus não! É até breve, até mais, sei lá. Mas adeus parece que nunca mais vou de ver – dessa vez a careta veio dela.
Apenas ri e mandei beijo, desligando.
Fui ao banheiro escovar os dentes, caindo na cama minutos depois.
Estava ansiosa com a entrevista de estágio. Eu queria muito mesmo conseguir. Aquela é uma das melhores produtoras, e eu tive a oportunidade de conhecê-la! O quanto eu amo minha professora? Muito mesmo! Se eu passar, devo lembrar de agradecer todos os dias pela oportunidade. Devo me lembrar de agradecer todos os dias o cara também que me entrevistou. Elliot o nome dele. Ele é o dono, o DONO. Só faltei desmaiar assim que ele disse o que fazia na empresa.

“- Bom dia! , sim? – questionou. Assenti para o homem, que indicava a cadeira a sua frente. Sentei-me na mesma. – Bom, não era eu necessariamente quem entrevistaria você, mas como o diretor não chegou, serei eu. Sou o chefe da produtora e estarei te dando alguns minutos para que você me diga o porquê de querer ser estagiária de nossa empresa. Logo após farei umas perguntas. Pode ser? – o homem disse que como seria o procedimento da entrevista, e eu só faltava cair dura no chão.
Eu estava mesmo falando com o dono daquele lugar maravilhoso?
- Claro – concordei. – A propósito, qual é o seu nome? – questionei, curiosa.
- Ah, sim, desculpe-me. Meu nome é Elliot, Elliot Garyli – sorriu para mim.
E se eu não estivesse muito nervosa e ansiosa por saber que seria entrevistada pelo dono, acreditaria que teriam segundas intenções ali.”


Por Ele

Acordei, logo sentindo um corpo a mais na cama. Me remexi na mesma, virando para o outro lado, abrindo um dos olhos. Via perfeitamente os cabelos caírem na cara da mulher ao meu lado. Levei uma das mãos até lá, tirando os fios rebeldes de seu rosto. Emma era uma mulher linda e bem gostosa – diga-se de passagem. Mas não era nada além de sexo. Claro que muita gente pode pensar “mas nem sempre é só sexo”, devo dizer, porém, que no nosso era exatamente isso e nada mais. Eu não tinha apenas ela, enquanto a mesma não tinha apenas eu. Na verdade, ela estava tentando conseguir algo com o amor da vida dela. E era mais que óbvio que quando isso acontecesse, não teria mais espaço para mim. Ela realmente gostava do cara. Eu torcia por ela, assim como Emma torcia por mim, por mais que não tivesse mais volta meu caso. Não fui feito para amar, nem ser amado. Eu nem sei se acreditava mais nessas coisas... Quer dizer, eu sabia que existia, mas comigo nada dava certo, entendem?
Suspirei, abrindo os segundo olho dessa vez. Fiz um carinho desengonçado no cabelo dela e me levantei. Entrei no banheiro. Precisava de banho, urgente.

“- Quando nós formos para a faculdade, eu quero que você seja muito feliz, – comentou a menina, acariciando meu rosto.
- Eu quero ser feliz, – disse, beijando sua bochecha. – Mas só se você estiver comigo.
- ... Talvez eu vá para outro país! – disse ela, abaixando os olhos.
Segurei seu queixo, puxando-o até que os olhos lindos dela se encontrassem com os meus.
- ... Vamos dar um jeito tudo bem? Eu prometo – assim que disse isso, puxei seu rosto para mim, selando uma promessa.”


Suspirei audivelmente com a lembrança e preferi ficar de olhos abertos. Quem sabe assim não seria melhor? Grande engano. Desliguei o chuveiro e saí do box. Por que eu fui me lembrar que nada dava certo comigo no sentido amoroso? Droga, !
Vesti minha cueca, lentamente. era uma amiga colorida, mais para namorada no ensino médio. Acontece que ela foi a última e única que eu amei. Eu procuro, juro que procuro outra garota sem ser diversão. Tento conseguir um relacionamento sério, mas simplesmente não consigo. Não vejo qualidades que me agradem ou algo que me atraia além da beleza. Vai ver eu desaprendi a amar.
Sai do banheiro, secando os cabelos. Notei que não havia ninguém na cama. Provavelmente Emma estava na cozinha. Fui até o guarda roupa e puxei de lá uma blusa cinza e uma calça jeans clara. Calcei os tênis. Hoje eu poderia trabalhar mais tarde, mais especificamente depois do almoço. Algumas outras pessoas pegariam o turno mais cedo. Em compensação não teria mais como acordar não cedo no resto da semana.
Caminhei até o espelho e peguei um creme dentro de uma gaveta. Passei nos cabelos tentando arrumá-los. Sorri quando o resultado ficou do meu agrado. Bagunçados, não tão bagunçados. Era um topete mais ou menos na frente e o resto, atrás, tudo bagunçado. Dei de ombros, saindo do quarto. Procurava Emma, mas ela havia sumido! Não estava em lugar algum! Procurei por meu celular e vi que havia uma mensagem na tela. Desbloqueei o mesmo, lendo a mensagem por inteiro.
“Desculpe por ter saído, , mas foi urgente! Depois se quiser eu explico para você. Beijos xx”
Acho que teria que almoçar sozinho. De novo.

Cheguei na empresa, correndo contra o tempo. Estava dez minutos atrasado. Torci para que ninguém passasse na minha sala pedindo por algo. Assim que entrei, como um furacão, dei boa tarde para o porteiro e corri até o segundo andar. Abri a porta e suspirei aliviado por ninguém estar lá me esperando com cara fechada. Sentei-me em minha cadeira e coloquei minha maleta com documentos em cima da mesa. Eu tinha que ler a ficha das garotas que havia escolhido antes de chamá-las. Tinha que ter certeza de que seriam elas mesmo. As garotas que Elliot entrevistou seria por conta dele, porém pelo que eu havia percebido eram bastante garotas.
Peguei outros papéis, provavelmente roteiros. Estava perdido! Por onde eu começava primeiro? Bem que deveríamos ter mais funcionários mesmo. O Carl é um ótimo assistente, mas ele já cuida das câmeras, não pode ficar lendo roteiros comigo. Preciso de outra pessoa para me ajudar, urgente!

Por Ela

Maldito projeto de Edição II! Aquilo me rendeu umas boas semanas, agora estou aqui, completamente enrolada com ele. Tenho que entregá-lo hoje e ainda me faltam uma hora para editar. Como fui deixar isso acontecer? Tenho horas para terminar, mas demora. Muita gente pensa: “se tem uma hora, termino em duas”. Se fosse assim eu teria terminado há séculos. Três minutos, dependendo do tipo de vídeo que vai ser feito, demora horas! Era um projeto de cinco horas. Eu tinha que fazer as cinco horas virar quarenta minutos! Era complicado. Escolher cenas e cenas e editar certo... Era um curta-metragem, em que eu poderia escolher sobre o que fazer. Deram três temas para que escolhêssemos: terror, romance e comédia. Como sou uma garota bem sensível, apesar de não me dar bem no amor, escolhi romance. Deram-me vários vídeos e disseram que teria que fazer um curta com a história que estava ali. Claro que fiquei desesperada no começo, todavia quando começou a fluir o trabalho fiquei relaxada. Agora, percebam meu desespero voltar com todas as forças, visto que não consegui acabar rápido.
Suspirei. Ainda eram cinco da manhã, e eu já estava acabada. Teria faculdade às sete; a aula de Edição II começaria no segundo tempo. Sendo assim, iria para a universidade às oito. Tudo bem, está tudo sob controle. Não pira, por favor, !
Levantei de supetão, indo em direção ao banheiro. Precisava de um banho imediatamente. Água gelada só pra tentar acordar mais ainda. O dia seria longo, muito longo.

O sol estava a todo vapor no céu, que, por sua vez, estava completamente azul. Sem chance de nuvens é o que dizia a meteorologista. Devido a isso, estava de saia rodada, que batia no meio das coxas, blusa branca meio larga, que estava por dentro da saia, e um casaquinho jeans curto. Nos meus pés haviam sapatilhas pretas.
Eu andava até o café mais próximo, sentindo uma certa ansiedade me dominar. Não sei por que, mas eu estava com um ótimo pressentimento. Uma brisa forte veio de minhas costas, fazendo meus cabelos voarem para minha cara.
Assim que havia terminado de almoçar, meu celular tocou. Era Elliot. Claro que na mesma hora eu dei um sorriso largo, mas, assim que atendi, não entendi absolutamente nada. Ele pedia encarecidamente para que eu me encontrasse com ele em um café perto de minha casa. Perguntei obviamente se estaria sozinha, o que ele respondeu prontamente com um não.
Lá estava eu, caminhando até o tal café para me encontrar com ele. Esperava que fosse para assinar meu contrato de uma vez, porque, caso contrário, se fosse para me dispensar, eu jogaria o liquido na cara dele. Vê se pode, fazer uma mulher sair de casa, enquanto tem um trabalho extremamente importante para entregar no mesmo dia, para, na verdade, dizer que não quer seus serviços! Espero que ele não faça isso mesmo.
Entrei no estabelecimento, procurando o homem com os olhos. Assim que o avistei, vi que ele estava com mais uma garota. A ansiedade cada vez mais tomando conta de mim. Caminhei a passos largos até a mesa do homem, que sorriu maravilhosamente para mim. Sorri de volta, sentando-me ao lado da moça. Estávamos na mesa mais afastada do lugar, do lado da janela grande.
- Boa tarde! – exclamei. – E desculpe a demora, caso eu tenha demorado – encarei de rabo de olho a garota ao meu lado.
Elliot deu um risinho.
- Não, não, na verdade nós que estamos adiantados mesmo – disse ele. – Mas já que estamos aqui, que tal começarmos com o assunto pelo qual chamei-as? – completou, levantando uma das sobrancelhas.
- Claro! – disse, sem conseguir conter um pouco de animação na voz.
Um garçom veio, e eu fiz meu pedido. Um cappuccino, a menina ao meu lado fez o pedido de um Expresso e o chefe não pediu nada.
- Então, garotas, eu entrevistei vocês e me interessei pelo que vocês disseram na mesma. Olhei com muito cuidado a ficha de vocês e vi que haviam alguns “lugares”, digamos assim, que vocês preferem. Eu pensei em colocá-las para estagiar nesses lugares, todavia outras garotas, que foram entrevistadas por , também vão estagiar. Pelo que ele me disse, achou garotas bem interessantes para tais lugares na produtora. Como eu gostei bastante de vocês, gostaria de saber se aceitariam trabalhar em outros lugares, mesmo que não sejam exatamente do agrado das duas – ele disse, devagar.
Bom, eu gostaria de atuar com: edições, roteiros, com o audiovisual e até com fotografia cinematográfica. Mas na ficha que eu entreguei, coloquei: audiovisual e edições. Ainda tinha duas opções, esperava que fossem essas.
- E quais seriam esses lugares? – a garota ao meu lado, questionou.
Encarei-o.
- Temos a parte da roteirização, ou seja, vocês lidarão com roteiros, podendo escrevê-los ou apenas escolher um dos melhores e passar para o diretor, que irá lê-lo e avaliá-lo. E temos também a parte de som – disse ele, calmamente.
A menina ao meu lado suspirou, enquanto eu queria dar pulinhos de alegria. Mas claro que eu não o faria, pelo menos não na frente do meu mais novo chefe.
- Bem, eu gosto bastante da área de roteiros, então, por mim, tudo bem – assim que finalizei a frase, vi Elliot dar novamente seu maravilhoso sorriso.
- Bem, eu sou boa com edições – a menina se lamentou. – Mas posso tentar algo no som, quem sabe eu não desenvolvo um novo gosto e paixão? – completou ela.
Elliot sorriu satisfeito.
- É assim que se fala! Você pode aprender algo que não sabia e gostar da área, isso é algo que se enxerga com o tempo. Temos que abranger nossos conhecimentos para dizer se é bom ou ruim aquela área. Já percebi que escolhi as melhores estagiárias daquele lugar – foi o que disse.
E eu corei. Ninguém nunca tinha levado tão a sério meus trabalhos, a não ser os professores. E falando neles, acabei de lembrar do meu trabalho, que ainda faltam trinta minutos para serem editados. Arregalei os olhos com a lembrança. Olhei rapidamente no meu celular. Quatro e cinquenta.
- Ahm... – chamei atenção do homem, que falava animadamente sobre algo que eu não fazia ideia. – Bem, tem que assinar algo? Eu tenho que ir urgentemente. Tenho um trabalho pra terminar, então... – completei, sem graça.
Elliot assentiu e tirou de uma maleta duas folhas.
- Vocês podem levar pra casa e ler. Começam amanhã de manhã. Está tudo explicado na folha. Entreguem, assim que chegarem, para o diretor – disse, encarando-nos.
Assenti, levantando-me. Sorri para o homem e para a menina, que descobri chamar Marina.
Abri a carteira, com a intenção de deixar o dinheiro sobre a mesa. Mas a voz daquele homem me parou na metade do caminho.
- Por minha conta, garotas.
Assenti, ainda sem graça e sai do local, com o estômago revirando de felicidade. Não acredito que consegui o estágio no melhor lugar possível! gostaria de saber disso, gostaria muito.

Por Ele

Eram nove da noite. Lá estava eu com Elliot e mais alguns amigos no bar, próximo a produtora.
Estavam comemorando o casório de um deles, porém eu estava comemorando absolutamente nada. Claro que estava muito feliz por ele, entretanto eu já bebia nem era por isso mais.
Durante o dia inteiro me senti meio atordoado ou sufocado, eu sabia exatamente o que era. O que me fez fechar mais a cara e beber mais. Afinal eu precisava esquecer, sim?

“- ? – ouvi alguém me chamar, a voz estava longe. – , onde você está? – mais uma vez, chamaram-me. A voz agora estava próxima, mas continuava longe.
Ouvi alguma porta abrir, acreditei que fosse de onde eu estava. Senti o colchão afundando, enquanto um corpo ficava ao meu lado. Por mais que eu não estivesse grande coisa, pude ouvir um suspiro cansado.
Senti uma mão macia fazer carinho em meus cabelos. Suspirei, gostando do carinho. Tentava abrir meus olhos, mas estavam pesados demais para tal ato.
- O que eu farei sem você, ? – ouvi a pessoa, que logo identifiquei como uma garota, sussurrar.
Não conseguia pensar sobre nada, meu cérebro deu pane. Eu não estava ali, mas ao mesmo tempo estava. Eu conseguia ouvir, entretanto não conseguia processar as palavras.
Senti o corpo chegar mais perto e percebi que a menina deitou ao meu lado, parando o carinho. Resmunguei baixinho, ouvindo a risada que eu conhecia bem, mas que agora não conseguia identificar. Senti suas mãos passarem por meu rosto, desenho o contorno das minhas expressões. Depois, senti ela voltar com as mãos para meu cabelo, só que na parte da nuca. Sem pensar muito, entrelacei minhas mãos na cintura dela, abraçando-a. Aquele cheiro que já era conhecido das minhas narinas e do meu corpo, impregnou-me. Dopando-me. Percebi, então, de quem se tratava. Minha mente parecia ter trabalhado mais um pouco para que eu pudesse reconhecê-la. O que custou uma dor de cabeça pequena.
- Eu já estou sentindo sua falta sem ao menos ter ido – ela riu, amargurada.
Eu não queria forçar minha mente para processar o que ela falava. Estava doendo, doendo muito. Como se alguém tivesse acertado um tijolo, sei lá, na minha cabeça. Resmunguei, apertando-a mais contra mim. O sentimento que vinha de dentro de mim não era algo bom. A garota se remexeu, encostando sua testa na minha. Beijou minhas bochechas e meus olhos, que, de repente, como se ela houvesse dado uma ordem a eles, se abriram. Pude ver seu rosto de perto e seus olhos, com mais brilho que o normal.document.write(Juliana)... – eu disse, tentando encontrar mais algum resquício de voz dentro de mim. Minha voz saiu completamente rouca, eu não tinha voz.
Ela sorriu para mim, beijando meus lábios. E, como se fosse mágica, minha cabeça começou a latejar com força. Latejar demais. Uma dor insuportável. Fiz uma expressão de dor, fechando os olhos abruptamente. soltou uma risadinha. Por que ela estava rindo? Não tinha nada de engraçado! Ela beijou minha testa com carinho. Mas claro que não funcionou, não ajudou em nada!
- Ninguém mandou beber que nem um maluco ontem... – cantarolou em meu ouvido.
E, então, flashes da noite anterior me vieram a cabeça. Tentei dar um sorriso a ela, mas tenho certeza que pareceu mais uma careta. Eu havia bebido. E muito por sinal. Bebi para esquecer... Esquecer que ela me deixaria.”

Quase urrei. Eu havia me lembrado dela de novo. De novo! A intenção não era esquecer?
Coloquei o copo que continha vodka no balcão com tanta força, que por um momento pensei que ele fosse se estraçalhar inteiro. Jefferson me encarou assustado. Apenas me levantei e fui para fora do local. Eu não beberia até não aguentar mais novamente. Não por esse motivo – por mais que eu precisasse.
- ? O que foi isso? – Elliot seguiu-me.
Bufei, nervoso. Por que as pessoas não podiam simplesmente me deixar em paz? Eu só precisava ficar sozinho, nada mais que isso!
- Nada Elliot – respondi, simplesmente.
Estava tentando chegar até a porta do lugar, mas claro que nada daria certo. De novo. Meu amigo segurou meu pulso com certa brutalidade.
- Você não vai a lugar nenhum dessa forma! Você bebeu demais e ainda quer ir embora? Desculpa, mas não vou deixar meu amigo morrer – disse, nervoso.
- E se eu quiser? – retruquei, elevando a voz.
Elliot me encarou, sem reação.
- Uma pena, porque não será hoje! Você não é idiota a esse ponto, meu caro, eu tenho certeza – foi o que disse, deixando-me só.
Suspirei, cansado daquela situação. Por que eu simplesmente não podia seguir em frente?
Olhei para os lados, vendo algumas garotas. E foi com esse pensamento que fui até uma delas chamar para dançar e quem sabe para coisas a mais.

Ouvi um aparelho tocar e resmunguei, tampando os ouvidos com o travesseiro. O som não parava, me deixando um pouco nervoso com a repentina perturbação. Sentei-me na cama, olhando para os lados, tentando enxergar onde estava o maldito celular que tocava. Senti meus pés encostarem nos pés de alguém e olhei rapidamente para a pessoa ao meu lado. Quem era aquela garota? Suspirei, irritado. Levantei de pressa, procurando o bendito smartphone. Não estava no quarto, fui para a sala, cozinha, quarto de hóspedes. Onde estava? Tentei seguir o som – afinal tinha acabado de acordar e ninguém acorda cem por cento, sabendo onde está ou quem é. Cheguei ao banheiro e fitei o celular dentro da pia. Peguei-o, tentando entender por que o aparelho estava ali, e desliguei o alarme. Voltei para o quarto, onde a garota ainda dormia. Fui ao banheiro do meu quarto tomar um banho; depois eu pensava no que fazer com ela.

Atrasado. Era o que eu estava. De novo. O que estava acontecendo comigo esses dias? Eu nunca me atrasei tanto em uma semana! Mas hoje ainda tinha uma explicação: a moça do meu quarto, que ainda não lembro o nome. Tive que levá-la até sua casa e era longe, muito longe.
Entrei como o flash novamente pelas grandes portas de vidro, sorrindo mais ou menos para o porteiro. Subi correndo para minha sala. Que não tenha ninguém, que não tenha ninguém, que não tenha ning...
Droga! Tinha alguém me esperando. Engoli em seco. Não era uma pessoa, eram duas. Duas garotas, que deduzi pelo tamanho dos cabelos e pelas roupas que usavam. Fechei a porta e caminhei até minha mesa, colocando ali a maleta. Ainda não tinha encarado as duas mulheres. Estava sem graça por ter chegado atrasado, logo eu que deveria dar exemplo aos funcionários. Fechei os olhos, respirando fundo. Sentei-me na cadeira confortável, só então abrindo os olhos, os quais eu arregalei, pensando após que eles poderiam sair da órbita. Fiquei encarando uma das garotas a minha frente. Minha mente estava até criando ilusões ou...? Limpei a garganta, lembrando-me que havia mais uma mulher naquela sala.
- Você é o senhor , certo? – uma delas perguntou.
Suei frio. Acho que não era ilusão ou miragem ou qualquer baboseira. Era real.
- Aham – disse, apenas.
- Temos contratos para te entregar – disse novamente a mesma menina.
Eu juro que tentava assimilar o que ela estava dizendo, mas não estava conseguindo. Realmente, não dava. Pisquei repetidas vezes, tentando compreender o que estava acontecendo. Observei a menina com a mão estendida com alguns papéis e os peguei. Abri-os ciente de que não entenderia absolutamente nada do que estava escrito ali e muito menos conseguiria ler. Minha visão estava turva e comecei a me sentir tonto.
- Qual o nome de vocês? – questionei, meio atordoado.
Provavelmente elas deveriam estar me achando a pessoa mais burra do universo, visto que deveria ter o nome delas no papel. Ou não. Agradeceria se não tivesse.
- Marina – a garota que falava comigo respondeu.
Assenti, encarando quase que urgentemente a garota ao seu lado. Ela parecia estar na mesma situação que eu. O que, por um lado, me fez relaxar. Vi sua amiga a cutucar, e, então, como em um passe de mágica, ela saiu do transe em que estava. Piscou algumas vezes, enquanto eu a observava atordoado, nervoso, ansioso e curioso.
- Ahn... – ela limpou a garganta. – Meu nome é – respondeu, finalmente.
Esbugalhei os olhos mais uma vez. Se eu ainda tinha dúvidas, agora elas foram completamente jogadas para escanteio. Não haviam mais dúvidas. Era . Minha . Bom, pelo menos era antes, e uma parte de mim queria que ainda fosse.

Eu tentava. Juro que tentava ler os roteiros. Estava ali a quase duas horas e não conseguia sair da primeira linha daquele roteiro, que parecia ser maravilhoso. A única coisa que eu queria fazer naquele momento era segurar pelos braços e puxá-la para minha sala. Trancar-nos e começar os questionamentos. Mas eram tantos questionamentos que eu não conseguia simplesmente colocá-los em uma lista ou desembaralhá-los para que fizessem sentido. Queria perguntar como ela estava, o que ela tem feito da vida, por que ela estava ali, por que ela havia voltado, por que... Muita coisa para pouco eu. Queria perguntá-la principalmente se havia gostado de me ver, porque eu... Eu havia gostado demais de vê-la. Pedi tanto por isso que nem acredito que isso se realizou. Será que ela estava namorando? Com quem ela morava aqui em L.A? O que ela fazia aqui? Não fazia faculdade de Direito? Ela estava tão linda...
Tentei espantar mais uma vez aqueles pensamentos da cabeça. Precisava me concentrar! Foco, , foco. Fitei a prancheta nas minhas mãos com um dos filmes, determinado a ler aquilo tudo. Mas tão rápido quanto a determinação veio, ela sumiu. Sumiu com batidas na porta. Suspirei, irritado com tanta interrupção.
- Pode entrar – disse alto o suficiente para quem estivesse ali ouvir.
Quanto mais rápido a pessoa se fosse, melhor. Mas da mesma forma que a determinação sumiu, meu último pensamento também sumiu. Sumiu assim que vi quem estava ali. Eu definitivamente não queria que a pessoa fosse tão rápido. Percebi que ela estava desconfortável com meu olhar e tratei de logo desviá-lo. Fiz sinal para que ela se sentasse a minha frente. Mal ela realizou o ato, e eu já encarava seus lindos olhos. Levantei uma sobrancelha, incentivando-a a falar.
- Ahm... – limpou a garganta. – Eu... Eu tenho uns... uns... – percebi ela desviar o olhar do meu, olhando para os papéis que não havia visto em suas mãos. Sorri internamente por ela estar nervosa como eu. – Uns roteiros aqui... para... para... – percebi também ela rolando os olhos, indignada. Soltei um riso baixo. – Uns roteiros aqui para que você leia-os – terminou, por fim, sua interminável frase.
Colocou com uma força desnecessária os roteiros na mesa, sem me encarar. Peguei-os, percebendo, só então, que eu estava tremendo de leve, suando frio. Suspirei, quando vi que ela não me encararia.
- Obrigado, – disse, tentando soar firme. Porém falhando miseravelmente.
- Bem... Eu me vou – ela se levantou de supetão, fazendo-me repetir seu gesto.
- Não – foi o que saiu de minha boca, rapidamente, sem que eu percebesse.
Todavia eu não queria lutar contra isso, então não desfiz ou expliquei meu comportamento meio desesperado. Ela me encarou – finalmente! –, fundo nos olhos. Tenho certeza absoluta que dentro daquela cabecinha estava tendo um conflito entre ficar ou sair por aquela porta como um furacão. Felizmente – ou não? – ela se decidiu por ficar. Suspirei aliviado quando ela sentou-se novamente. Repeti seu gesto de novo.
- Por quê? – questionou ela. Franzi a testa, não entendendo. – Por que não quer que eu vá? – completou a pergunta, quando entendeu meus sinais.
Engoli em seco.
Por quê? Por que não a deixou ir? Por que você a deixou ir, na real?
O que eu responderia? A verdade, oras. Mas... Qual é a verdade?
- Eu... Hm... – comecei, ou melhor, tentei começar. – É... Ai, eu não sei – balancei a cabeça, frustrado. Eu realmente não sabia.
Encarei os papeis nas minhas mãos, ouvindo-a rir baixo. Voltei com meus olhos novamente para sua face. Ela sorria levemente.
- Acho que invertemos os papéis então, não? – disse , descontraída. Ou, pelo menos, tentando.
Soltei uma risada. É verdade. Continuei encarando-a. Ficamos em silêncio durante alguns minutos, um silêncio desconfortável, mas ao mesmo tempo um ótimo silêncio para eu poder observá-la e relembrar todos os seus detalhes.
- Bom... Eu tenho que ir, já que é meu estágio. Não posso ficar sem fazer nada – fez um movimento para se levantar, porém eu a interrompi com uma pergunta.
Uma das perguntas que eu queria fazê-la.
- Você não faria Direito? – questionei-a.
Ela me encarou, meio assustada pela pergunta repentina. Depois que processou a mesma, voltou a se sentar, dessa vez suspirou.
- Hm... Eu realmente não tenho tempo pra responder suas perguntas agora, – respondeu baixo, porém completamente audível.
Eu não me importava. Quem mandava naquele lugar era eu, quer dizer, parcialmente eu – mas não interessa! Eu só queria ouvi-la e saber de tudo o que aconteceu na vida dela sem mim durante esse tempo.
- Eu posso te dar um tempo livre – disse eu, sério.
Ela deu uma risada descrente. Encarei-a com a sobrancelha arqueada, intimidante. Mas, como eu previ, ela não se intimidou. Nem um pouco. Devolveu meu olhar, desafiadoramente. Senti que tudo o que sentíamos estava naquela troca de olhares. Era intenso e tenso. Ela levantou-se de supetão, andando em direção à porta. Eu nada fiz, apenas fiquei a encarando. Ela abriu a porta e, com uma última e significativa olhada, saiu.
Soltei a respiração que nem ao menos sabia que havia prendido. Estava completamente irritado pela petulância dessa garota. Será que ela se esqueceu que eu também sou seu chefe? Havia me esquecido que poderia ser meio complicada quando queria. Mas o que eu poderia fazer? Eu só queria entender o que aquela garota fazia aqui, nessa produtora. Não haviam estágios para advogado, e, pelo que eu li, ela estava aqui para um estágio para roteirização, e estudava Cinema e Audiovisual! Ela viajou para fazer Direito! Direito! Ela tinha que ter, pelo menos, o mínimo de consideração comigo! Eu precisava entender o que aconteceu e o que ela faz em L.A!
Olhei para as folhas que ela havia trazido. Definitivamente eu não conseguiria ler nada daquilo. Levantei-me, caminhando em direção ao bebedouro que havia na sala. Peguei um copo e o enchi, engolindo tudo de uma vez. Repeti o processo umas três vezes, quase, e ainda não estava bom. Eu precisava de outra coisa; precisava de álcool. Passei as mãos no rosto, tentando me acalmar. Por que ela resolveu aparecer, assim, do nada? Fui em direção à porta e sai, caminhando corredor afora. Eu precisava saber!
Andei em direção à área dos escritores. Dei duas batidas na porta, ouvindo um ”Entre!”. Entrei no local, varrendo-o com os olhos. Nada de .
- Oh! Senhor ! – surpreendeu-se Carlota. – O que faz aqui? Já mandamos alguns enredos.
- Eu já os recebi – disse eu, estranhando a falta de algumas pessoas ali. – Você poderia me informar sobre ? A nova estagiária... – questionei, tentando soar o mais profissional possível.
- ? Ela já foi. Pediu para sair mais cedo hoje e disse que compensaria o tempo perdido em outro dia – a mulher disse, confusa. – Se quiser, podemos chamá-la de volta.
- Não, não, está tudo bem! – finalizei o assunto, acenando com a cabeça para a moça.
Sai na mesma hora do lugar, sentindo minha cabeça ferver. Não acredito que ela estava fugindo! Outra vez!

“Toquei a campainha daquela casa vermelha. Esperei alguns minutos, todavia ninguém veio receber a visita. Toquei novamente. Esperei. Nada. Toquei de novo e de novo, novamente e mais uma vez. Não havia ninguém em casa? Onde estariam todos?
Peguei meu celular, discando aquele número muito conhecido por mim. Um toque, dois toques, três toques... Nada. Franzi o cenho, estranhando o desaparecimento. Resolvi ligar novamente, mas, como antes, nada aconteceu. Estava começando a ficar irritado com esse sumiço repentino. Disquei o número de sua mãe, não obtendo resposta. Bufei. Por que todos resolveram sumir e nem me avisaram? Toquei a campainha mais algumas vezes, até uma senhora da casa ao lado aparecer na janela.
- Quem é que quer falar com os ? – ela respondeu.
- – respondi, prontamente.
Ela franziu o cenho, tentando me ver. Ajeitou os óculos, balançando a cabeça afirmativamente, entendendo.
- Querido, não tem ninguém em casa – respondeu.
Rolei os olhos. Já tinha chegado a essa conclusão, mas muito obrigada, senhora!
- Eu percebi – disse, tentando não soar tão óbvio. – Sabe onde foram? – questionei, com uma ponta de esperança.
- Sei – foi o que disse, calando-se.
- Onde?
- Eu escutei um falatório meio alto e resolvi checar para ver o que acontecia. Vi algumas pessoas saindo com malas de dentro da casa e acho que tinha uma menina chorando – assim que terminou de falar, eu arregalei os olhos.
- É sério? Quantas pessoas? – desesperado, era como eu estava.
- Eu acho que a casa toda e mais algumas pessoas que nunca vi por aqui – disse ela, encarando-me de forma curiosa.
Não, não, não. Ela não podia ter feito isso comigo, podia? Ela não teria coragem, teria? Ela não fez isso, fez?
Agradeci a senhora, rapidamente, pela informação, agradecendo mentalmente, também, por ela ser um pouco fofoqueira e ter saído para olhar o que estava acontecendo. Dei meia volta, voltando por onde vim. Entrei no carro e saí na velocidade da luz para o aeroporto. Deveria ter perguntado a mulher se já fazia algum tempo ou se havia sido recente, porém quem se importa? Eu só quero chegar lá o mais rápido possível; de preferência quando ela ainda estivesse lá, esperando a chamada. De sua casa até o aeroporto eram quarenta minutos, no entanto eu devo ter chegado lá em menos, quase uns vinte e oito. Furei sinal vermelho, ultrapassei carros lerdos, quase perdendo a vida, acelerei o máximo que pude. Não havia trânsito, o que eu agradecia com todas as minhas forças. Durante o trajeto, a única coisa que pensava era: por quê? Por que ela faria isso comigo?
Estacionei o carro em uma vaga, o mais rápido que eu pude. Sai, fechando o mesmo de qualquer jeito e corri para dentro do lugar. Grande. Essa foi minha primeira constatação assim que pisei no piso do local. Engoli em seco, pensando se talvez ela já tenha ido. Olhei para o painel, procurando pelo nome “Holanda”. Todavia, não havia. Comecei a me desesperar, não era possível que ela já tenha ido, não era possível!
Olhei para os lados, sem saber o que fazer. Caminhei até próximo a alguma pessoa que trabalhava ali.
- Sabe me informar se o voo da Holanda já decolou? – questionei para uma moça, ela deveria ter vinte e três anos.
- Não, senhor. O voo ainda não decolou, decolará em alguns minutos – respondeu-me.
- Quantos minutos? – sufocado, estava me sentindo sufocado.
- Vinte – disse, encarando-me curiosa.
Calor. Sentia calor. Quis tirar todas as minhas roupas no momento. Estava suando frio. Assenti para a tal mulher e caminhei, procurando a única pessoa que eu queria ver. Não estava com raiva dela, muito pelo contrário. Eu sabia, no fundo, o porquê de ela ter feito isso. Eu a entendia e entenderia qualquer outra explicação que ela me desse. Era difícil despedir-se da família. Mas sabia que ela queria adiar o máximo possível nossa conversa. Eu não a pediria para desistir de seu sonho para ficar comigo, e ela sabia disso. Era o que ela temia, pois se a qualquer momento eu falasse “não vai”, minha garota não iria. Suspirei. Era complicado para mim também. Eu a amava, muito. E era exatamente por isso que a deixaria ser feliz. Ela merecia.
Olhava para todos os lados, atento com qualquer movimentação, até que meus olhos se fixaram em uma silhueta, que era conhecida. Varri os olhos por aquele local, encontrando David entre as pessoas. Um suspiro aliviado não conseguiu ficar quieto dentro de mim, rompendo minha garganta. Sua família ainda estava ali. Tratei de procurar a garota no meio das pessoas, não demorando muito para encontrar, sentada entre sua mãe e sua prima. Segui com meus olhos para o relógio, notando que ainda me restavam dez minutos. Dez minutos. Eu tinha dez minutos para estar com ela. Eu deveria odiá-la muito por isso. Soltei uma risada baixa. Era impossível esse feito.
Andei apressadamente até eles, pretendendo ficar atrás dela. Olhei para as pessoas em pé e notei que elas arregalaram levemente os olhos. Fiz sinal para fazerem silêncio e percebi todos engolindo em seco. Sorri. Estavam nervosos com minha presença. Encarei David, que, por sua vez, virava a cabeça para outro lado, como se ninguém estivesse caminhando até eles. Parei atrás do banco dela, agachei, indo com a boca em direção ao ouvido da mulher mais linda do lugar.
- Aqui está você – sussurrei, sentindo-a se arrepiar.
Soltei um sorrisinho baixo contra sua pele, e, no mesmo instante, ela se virou para me olhar. Os olhos esbugalhados, como se fossem sair da órbita a qualquer momento. Ela levantou-se de supetão, ereta. Percebi que suas pernas tremeram um pouco, mas, assim que encarei seus olhos, vi que eles estavam surpresos, com uma mistura de carinho, receio, indecisão... Sorri de canto para ela. Queria que visse que estava tudo bem; que eu não estava com raiva ou algo do tipo. Dei a volta no banco, ficando de frente a ela.
- Sentiu minha falta? – indaguei, vendo-a ficar em defesa. Cheguei mais perto. – Bom, se não sentiu, não posso fazer muita coisa. Não vou sair daqui e também não a deixarei fugir de novo – dei de ombros.
Mais um passo em sua direção. Sorri; ela queria sair correndo, mas seus pés não colaboravam com ela.
- Será que podemos ir ali? – apontei um lugar qualquer com o dedo indicador, todavia não esperei resposta, apenas puxei-a.
Parei com ela em um lugar que pensava estar bom para que ninguém ouvisse nossa conversa. A menina engoliu em seco, mas eu não esperei que ela falasse. Apenas coloquei uma das mãos em sua nuca, puxando-a para mim. Colei nossos lábios, indo com minhas mãos para sua cintura. Ela relutou, mas logo se entregou. Eu não podia me despedir de qualquer jeito e nem queria.
- ... – soprei contra sua boca, puxando-a cada vez mais para mim.
Apertei sua cintura, e senti apertando meus ombros. Beijei, agora, cada parte de seu rosto; seus olhos; sua boca; sua testa; seu nariz...
Como eu sentiria falta disso. Dela. Tudo.
- Me desculpa – ela pediu, encostando sua testa na minha, de olhos fechados.
- Ei, não tem problema, sério – refutei, sorrindo de leve. – Eu sei que teve motivos.
abriu os olhos, que estavam um pouco marejados, encarando-me de forma encantada.
- Eu amo você – ela disse, sorrindo abertamente.
Passei minha mão, que estava em sua nuca, para seu rosto, acariciando suas bochechas.
- Eu também, . Eu também te amo – respondi, copiando sua expressão.
- Me promete que você vai viver sua vida normalmente, como se nada tivesse mudado. Promete pra mim que você vai namorar quem quiser, ficar com quem quiser até eu aparecer novamente – ela suplicou.
Suspirei, selando nossos lábios novamente. Pensando seriamente nesse pedido. Eu não conseguiria fazer isso.
- ... – comecei, mas só para ser interrompido.
- ... Promete pra mim! Não vamos conversar durante esse tempo, eu não quero ficar com o coração na mão, querendo voltar. Não quero que fique pensando nisso também – ela beijou minha bochecha. – Por favor!
Encarei-a, provavelmente meus olhos estavam marejados, entretanto eu não me importava. Assenti, vendo-a olhar para mim de modo reprovador. Suspirei, pesadamente.
- Eu... Eu prometo – disse, sem dar chances para nada mais.
Fui em direção aos seus lábios urgentemente. Era a única coisa que eu precisava no momento. Era a única coisa que eu poderia guardar com mais cuidado dentro de mim. Guardaria o gosto de seus lábios com todo o carinho que merecia, com toda a atenção do mundo.
Ela se separou de mim no momento em que chamaram seu voo. me encarou rapidamente, e eu percebi que dali para frente tudo mudaria. E confesso que tinha muito medo da mudança.
Ela caminhou lentamente até suas malas, despediu-se de todos. Não me encarou mais. Eu a estava deixando ir para longe de mim, sem ter a certeza se a veria mais uma vez.”

Encarei o relógio na mesinha de cabeceira. Duas da manhã. Rolei na cama, indo para o lado direito da mesma. Afundei minha cara no travesseiro, soltando um suspiro arrastado. Peguei-me perguntando se ela estaria em uma situação parecida com a minha... Ou talvez ela nem esteja se importando com a situação atual de nós dois. Torcia para que fosse a primeira opção. Esbravejei contra o travesseiro, não acreditando que estava pensando nessa mulher de novo. Não queria estar nessa situação, só queria pegá-la, puxá-la, beijá-la. Era somente o que eu queria e pedia a Deus. Somente queria senti-la nos meus braços. Só isso! Era pedir demais? Bem, parece que sim.
Fechei os olhos com força, tentando pensar em algo que não fosse a . Eu precisava relaxar! Dormir estaria ótimo, se essa insônia não estivesse presente. Virei para cima, encarando o teto branco. Peguei o celular, ao lado do relógio, e procurei Emma pelos contatos. A ligação foi atendida no terceiro toque.
- Diga, – disse, meio baixo.
- Será que pode me encontrar? – inquiri, torcendo para que sim.
- Desculpa, . Hoje não dá... – respondeu.
Suspirei. Acho que o mundo estava contra mim. Só pode.
- Tudo bem. Desculpa te atrapalhar no que quer que seja. Boa noite – desliguei, sem esperar resposta.
Levantei-me, provavelmente me arrependendo disso amanhã. Fui em direção ao guarda roupa. Coloquei uma calça jeans preta, blusa azul e tênis preto. Arrumei rapidamente meus cabelos no espelho, joguei uma água na cara. Vai que isso ajudava um pouco a tirar aquela cara horrível de sono. Nunca se sabe. Peguei as chaves do carro, saindo em seguida.
Assim que o elevador me deixou no estacionamento, destravei o veículo, ligando-o em seguida. Se eu não conseguiria uma diversão em casa, teria que procurá-la. Liguei o mesmo, logo vendo as ruas de Los Angeles aparecerem no meu campo de visão. Não sei para onde iria, contudo não me importaria. Não agora.

Por Ela

Antes o que eu sentia era animação, agora o que eu sinto é medo. Medo do que acontecerá. Medo do presente, do futuro. Medo do passado.

“Os dias se passavam lentos demais para quem estava animada para estudar Direito em outro país. Eu não sentia minha vida passando, eu não me via comendo, bebendo, dormindo. Nada acontecia ao meu redor. Era como se ninguém existisse. E eu já estava cansada disso. Eu só queria viver! Por que não podia? Ah, mas como poderia viver se minha vida estava em outro país? Mais especificamente nos Estados Unidos? E eu aqui na Holanda? Não havia percebido, mas... quando entrei naquele avião, meu coração não veio comigo. Bufei, totalmente irritada.
- Tá bem? – ouvi alguém falando comigo.
Virei para o lado, encontrando Beth, minha melhor amiga, olhando para mim com um semblante preocupado. Sorri – ou, pelo menos, tentei – de leve.
Assenti, olhando para o professor, que falava algo sobre Cálculo. Faziam exatamente três meses que eu estava nesse novo país, parecia, no entanto, que estava a um dia apenas. Encarei meu caderno com os olhos cerrados. Eu tinha que seguir em frente! Por que era tão complicado? Levantei meus olhos, fitando Jason.
- Quer conversar? – mais uma vez, a voz de minha melhor amiga foi ouvida.
Neguei. Não queria falar, queria agir. Eu tinha que, pelo menos, tentar ser feliz enquanto estivesse vivendo meu sonho, certo? Mas, será que aquele era realmente meu sonho?
Balancei a cabeça para os lados discretamente, tentando fazer com que os sentimentos se esvaíssem, pelo menos uma vez durante aquele intercâmbio. Eu não queria pensar em nada do passado; não agora. Queria viver meu sonho em paz, sem peso na consciência. Eu sabia que para isso teria que dar um jeito de resolver as coisas, mas não queria fazê-lo. Suspirei. Lá estava eu pensando nisso novamente.
Ouvi o sinal soar e, sem querer, soltei um suspiro de alivio. Comer sempre fazia bem; bom, ao menos ajudava a esquecer preocupações. Levantei rapidamente, esperando por Beth. Ela se levantou lentamente, pegando seu lanche saudável da mesma forma. Fato que era um contraste, visto que eu estava totalmente elétrica, não parava quieta.
Saímos da sala de aula, caminhando ao grande pátio. Sentamo-nos em um dos bancos que havia ao redor.
- Não vai mesmo me contar o porquê de estar assim? – ela tentou de novo.
Dei um risadinha fraca. Ela era curiosa. Todavia não gostava de preocupá-la com besteiras e dramas.
- Você sabe o porquê – dei de ombros, roubando um pedaço do sanduíche de minha amiga.
- ... Você sabe o que eu penso sobre isso – ela disse, cautelosa.
Sorri de leve. Ela já havia me aconselhado a ligar para ele e colocar um ponto final nisso tudo para que, assim, eu possa viver em paz. Mas eu me conheço melhor que ninguém e sei que se eu o fizer, ficarei pior ainda, pois não terei o apoio nem de meu melhor amigo e, talvez, não faço ideia, ex-namorado. E era tudo que eu menos queria.
- Você sabe, também, quais são meus argumentos – comentei, observando o chafariz perto de nós.
- Ele vai te entender, ! Ele te ama, não ama? Pelo que me diz, percebo que sim. Ele quer te ver feliz, ele entenderá, amiga! – ela me encarou determinada.
Eu sabia que sim; sabia de tudo isso. Só que na minha cabeça é tudo mais complicado do que parece. E eu não quero mantê-lo longe – por mais que ele esteja.
Apenas assenti, sabendo que ela sabia que eu não faria nada.
- Que tal, então, tentar um novo recomeço? – disse, simplesmente.
Arqueei a sobrancelha direita, confusa. Ela apenas deu de ombros, indicando, discretamente, Jason caminhando em nossa direção com a cabeça. Olhei para o rapaz de ombros largos, cabelos castanhos, olhos de mesma cor e moreno, vindo em nossa direção.
Ele encarou-me fundo. Apenas continuei com a mesma expressão: sem expressão. Não conseguia expressar nada. Parecia até vazia de emoções – fato que me irritava muito.
- E aí, meninas – chegou com seu jeito descontraído.
Ele era bonito... Tudo bem, ele era lindo. Mas nada comparado a . Irritei-me novamente, percebendo que Beth havia notado. Vi de canto de olho quando ela rolou os olhos.
- Jason – apenas cumprimentou com um aceno de cabeça.
- Ahn... , será que você poderia me acompanhar um minutinho? – questionou-me.
Pensei por um momento nos prós e contras de segui-lo. Mas... Eu não tinha nada a perder. Ou tinha? Decidi, de uma vez por todas, seguir minha razão e tentar fazer o que Beth disse: um novo recomeço. Pelo menos por hora. Eu precisava seguir em frente. Não poderia ficar anos me remoendo por causa de . Talvez ele até esteja com outra mulher... De repente, senti meu sangue esquentar. Não queria nem pensar nisso, porém... Não havia sido você, , que o fez prometer aquelas coisas? Como eu era idiota.
Levantei, encarando a mulher ao meu lado. Ela entendeu e apenas sorriu. Tentei devolver o mesmo sorriso, mas acho que foi mais forçado do que pensei, já que ela diminuiu o dela. Apenas virei para o homem a minha frente. Era isso o que eu faria: seguiria em frente. Saí andando sem esperá-lo. Estava prestes a fazer algo novo em minha vida. Repentinamente, senti-me ansiosa para tal coisa.
- O que queria falar? – inquiri, depois de um certo tempo em silêncio.
- Você sabe... – ele começou, fazendo-me encará-lo.
- Sei o quê? – fingi-me de sonsa.
Ele rolou os olhos, indignado. Apenas soltei uma risada.
- Ah, , eu te fiz uma pergunta esses dias e ainda não ganhei resposta. Não acha que me deve uma?
- Acho – respondi, simples. Estava olhando para frente quando senti seus olhos sobre mim. Repeti em minha cabeça a frase “a vida segue” como um mantra. – Eu adoraria sair com você – forcei um sorriso, o qual foi retribuído, claro que com bem mais vontade.
Percebi que ele fez uma dancinha idiota, e essa dancinha me fez gargalhar, de verdade. Será que eu conseguiria finalmente?”


Suspirei, jogando a água gelada no rosto. Grande merda. Uma bela de uma bosta. Eu tinha que relembrar isso mesmo? Por quê? É como se nada desse certo na minha vida! Eu pensei que não sentia nada, nada mais! Nada mais por aquele ridículo. Aliás, por que o chamei de ridículo, se a culpa de tudo isso é totalmente minha? Choraminguei, passando a toalha na cara, secando-a. Não que eu não acredite que o amor que e eu sentíamos antes era uma bela de uma mentira, porque não era... é... quer dizer, era. Droga! Acontece que, depois de um ótimo relacionamento – para não se dizer o contrário –, não consigo mais, entendem? Me sinto meio vazia. E estou assim há anos. Não sinto como se fosse morrer só de ver o carinha maravilhoso há muito tempo. Não sei lidar mais com isso de sentimentos. Se tornou bem complicado depois que decidi me fechar totalmente – claro que ainda tinha casinhos ali e aqui, mas nada além disso. Porém, a situação agora se tornou bem mais complexa do que eu poderia imaginar, o que me fazia entrar em desespero. E me fazia lembrar de outra coisa, que tentava esquecer com todas as forças: “Promete pra mim que você vai namorar quem quiser, ficar com quem quiser até eu aparecer novamente.“
Durante todos os anos, por mais que tentasse, não esquecia disso. Sempre me pegava pensando em como seria se, caso nos reencontrássemos, seria normal, bom, agradável... Entretanto, agora que me vejo nessa situação, percebo que não é nada disso: é desesperador, agonizante. Eu nunca sequer pensei que talvez fosse realmente acontecer. Mas mais ainda, nunca sequer passou pela minha cabeça que eu poderia quase desmaiar; que eu poderia quase ter um infarto com o tanto que meu coração bateu; que eu me arrepiaria inteira só com aquele olhar; que eu suaria frio. Eram tantas coisas que haviam ressurgido, que eu não fazia ideia de como lidar.

“- Jason, fala pra mim que aquilo foi uma alucinação! – exclamei, aumento a voz sem perceber.
Eu tremia, mas não de frio, sim, de nervoso, raiva, ódio. Não acreditava nos meus olhos. Não podia fazer isso, de jeito nenhum.
- Você sabe que não foi – respondeu, passando as mãos no cabelo, sem saber o que fazer.
E foi nesse momento que eu surtei. Gritei; gritei como nunca havia gritado. De dor; dor no coração. Foi como se cada pedacinho estivesse estraçalhado no chão daquela rua. Por mais que tentem, seria difícil fazê-lo voltar ao normal.
- Eu confiava em você! VOCÊ NÃO PERCEBE O QUE FEZ? – esgoelei-me.
Lágrimas pesadas caíam de meu rosto. Eu não sabia mais o que fazer, estava atordoada demais para pensar ou para agir. Fiquei estática no meio da calçada, apenas encarando-o com uma expressão profunda de decepção e nojo.
- – ele começou, mas logo o cortei curta e grossa.
- .
Ele suspirou com a minha mudança.
- Eu não fiz por mal, juro... – ele tentou começar novamente, porém de novo foi interrompido.
- Você o quê? – soltei uma risada sarcástica. – Se você for homem vai repetir, não vai? – Sorri, cínica.
- ! Você pode me escutar? – aumentou o tom de voz, fazendo-me encará-lo indignada.
- Eu não acredito que ainda quer se explicar! Não tem nada pra ser explicado. Eu só não entendo o porquê! Por que fez isso? Eu não fui boa o bastante, é isso? Eu sou chata, feia, burra, idiota? – questionei, me sentindo a garota mais trouxa do mundo por estar chorando.
- Mas é claro que não! Você é incrível, eu só... – ele próprio se interrompeu. Suspirou, balançando a cabeça negativamente.
Ele se aproximou de mim, porém logo tratei de andar para trás.
- Não chega perto! Como você teve coragem de me enganar dessa forma? – eu estava muito acabada. – Não era para menos, um relacionamento de quase um ano.
Isso era o que eu não entendia. Por que eu estava daquela forma? Eu não o amava, não chegava a tanto. Eu gostava dele, de ficar com ele. Jason era uma pessoa legal, divertido, eu realmente poderia sentir algo por ele. Quer dizer, até aquele momento. Eu, agora, não queria sentir nada mais. Não queria nada mais além de distância. Todavia, não amá-lo não me impedia de ficar triste, arrasada. Eu realmente confiava nele. De repente, tudo fez sentido. Ele havia simplesmente me deixado. Assim como havia feito – não que ele tenha me deixado por livre e espontânea vontade, eu sei disso muito bem, mas, mesmo assim, ele havia me deixado. Todos me deixariam no final, era sempre assim. Será que eu estava destinada a ficar só? Não ter ninguém?
De repente, balancei a cabeça afirmativamente.
- Você a ama? – indaguei, engolindo em seco, com a voz baixa.
- O quê? – surpreendeu-se.
- Eu perguntei se você ama a Jéssica – repeti, firme.
- Eu... Eu... – gaguejou, sem uma resposta.
Ri sem emoção.
- Ela não sabia, não é? – sorri, tristemente.
Ele me encarou, abismado.
- Ela... – começou, soltando um pigarro desconcertado. – Não – por fim, essa foi sua resposta.
Balancei negativamente a cabeça. Jason me traiu. Simples assim. Mas o que partiu mais ainda meu coração, foi saber que ele não traía só a mim, no entanto, a ela também. Jessica era namorada de Jason. Isso mesmo. Ele assumiu um namoro com ela, recentemente, mas mais especificamente há cinco horas. Aparentemente ela não sabia que eu existia, assim como eu não sabia sobre ela.
- Tudo bem – respondi, ainda distante, não só do corpo, mas emocionalmente. Ele ameaçou caminhar em minha direção, porém eu lhe lancei um olhar cortante. – Não se atreva. Eu... – solucei. Deplorável. Que vergonha de mim por chorar por esse cara. – Vou embora. Não me procure ou fale comigo. Nunca mais, ouviu? – disse, já caminhando na direção oposta a dele.
O que eu faria agora?”


Ignorar me parecia uma decisão sensata. Eu precisava pensar, porém sabia que teríamos que conversar. Uma hora ou outra isso aconteceria, eu sabia que sim. Quanto mais eu adiasse o assunto melhor, pelo menos até chegar. Bem, eu não falei com ela durante esse dia. Ignorei suas chamadas via Skype, assim como via celular. Eu detestava fazer isso. Só queria um tempo sozinha, era demais? Ela deveria estar desesperada no momento, mas o que eu poderia fazer? Até que eu não soubesse como agir, ignoraria a tudo e todos. Digo, somente , afinal já estava voltando amanhã. Parando para pensar, estava parecendo uma adolescente de novo, sem saber que decisões tomar, fugindo de assuntos sérios, confusa, medrosa. Eu já era uma mulher e quase formada! Era para estar encarando a situação de queixo erguido e não com a cabeça abaixada, querendo sumir do mundo! Onde estava a nova , sem medos? Suspirei, mordendo o travesseiro. Incrível que era só resolver surgir do além que eu virava a antiga , cheia de incertezas, indecisões, medos, angústias. Mas não era de todo ruim, pois junto com esses sentimentos também haviam os bons, como, por exemplo, uma ansiedade de Marte, uma alegria, animação, felicidade... Sentimentos desconhecidos por mim durante anos. Senti um aperto no peito, indicando saudade. Eu tinha saudade de ter emoções, de me sentir a garota mais sortuda do mundo.
Mordi a almofada mais forte. Por enquanto seria isso: ignorar, ou então faria uma burrada máster. Eu tinha que pensar! Só esperava que ele me entendesse e não me odiasse.

Por Ele

Arrepiei-me repentinamente, encolhendo-me na cama. Abri um pouco os olhos, sentindo a cabeça latejar levemente. Encarei o ponto que entrava o vento frio. Havia esquecido de fechar a janela antes de dormir, droga! Virei de barriga para cima, esticando os braços. Senti um corpo ao meu lado e abri imediatamente os olhos, encarando o corpo adormecido. Olhei ao redor, percebendo que não estava em casa. Arregalei os olhos, procurando por meu celular. Ele não estava comigo! Levei as duas mãos no rosto, esfregando-o freneticamente. Sentei-me, percebendo de imediato que não usava roupas. Levantei quase que de forma abrupta. Cacei minhas roupas pelo quarto, logo as vestindo. Tentei localizar um relógio ou algo assim, assustando-me quando feito. Estava mais que atrasado, estava ferrado. Busquei o banheiro naquela casa, tomando um susto quando o fiz. Outra garota estava saindo do mesmo. Arregalei os olhos, vendo a mesma sorrir maliciosamente para mim.
- Como vai, gatinho? – começou, dando-me um selinho.
Estava estático. O que eu havia feito? Alguém me explique, por favor. Na verdade, não explique, é melhor que não saiba.
- Ahn... Tenho que ir – caminhei em direção a porta, achando minhas chaves pelo caminho.
Não olhei para trás, apenas segui em frente, tentando raciocinar de forma clara, o que não deu certo, já que eu estava com uma grande dor de cabeça.
Suspirei, pensando em não ir trabalhar. Mandaria uma mensagem assim que chegasse em casa para Elliot, dizendo que estava mal. Pronto, se ele acreditasse ou não, problema dele. Não tinha condições de ir trabalhar dessa forma e ainda encontrar lá. Apertei o volante com força.

Entrei às pressas na produtora. Eram quatro da tarde. Javadd, Edward e Elliot decidiram fazer uma reunião repentina e, claro, eu tinha que participar. Elliot perceberia que não era mentira. Eu dei a famosa desculpa de “não estou me sentindo bem”, e ele perceberia que era a mais pura verdade. Eu estava acabado; olheiras; mais corado que o normal; voz rouca... Quase desisti de ir a reunião, mas uma coisa me fez ir, na verdade, uma única pessoa. Eu não desistiria, se era o que aquela garota estava pensando.
Entrei na sala de reuniões, me deparando com todos os caras que eu já havia comentado e mais alguns. A tarde seria longa, só esperava conseguir sair dali antes que ela fosse.

Seis horas. Esse era o horário no qual acabou. Esse era o horário em que todos já estavam voltando para suas casas. Suspirei, frustrado. Talvez não fosse meu dia hoje.
Abri a porta para sair da sala, conversando com um dos empresários, distraído. Trombei em alguém, fazendo todas as suas coisas caírem no chão, assim como a moça. Dei a mão para que a mesma segurasse, tentando ser prestativo. Assim que ela segurou, senti uma familiaridade no toque. Parece que não fui o único, já que ficou estática do nada. Arqueei as sobrancelhas, surpreso. Vai ver eu estava enganado e hoje era, sim, meu dia. Ela se levantou rapidamente e soltou minha mão. Percebi que estava congestionando a saída, então saí da frente da mesma no mesmo instante, parando ao lado da garota, que agora tremia de leve. Sorri discretamente.
- ! – Elliot soltou, sorrindo de leve.
Vi ela acenar, ainda nervosa o bastante para falar.
- Oi – foi o que disse.
Segurei o riso. Era um esforço e tanto para não me encarar ou fingir que não existo.
- Bem, tenho que ir. Já está indo? Precisa de carona? – sugeriu Elliot, educadamente.
Fiquei com calor do nada. Meu coração batia acelerado no peito.
- Eu a levarei – disse prontamente.
Meu amigo me encarou, confuso. Dei de ombros apenas. Sabia que teria que explicar a ele depois, mas somente depois.
- O quê? Eu não... – ela não conseguiu terminar a frase, já que eu a puxei para um canto qualquer, enquanto observava todos eles saírem pela porta da frente.
Abri a porta mais próxima, entrando com ela em seguida. Fechei a mesma, girando a chave. Fitei a mulher a minha frente, que estava perplexa com meu ato.
- – soprei, sentindo meu peito aquecer somente ao falar esse nome.
- O que você tá fazendo? – indagou, a voz esganiçada.
- Tentando conversar com você – disse óbvio, aproximando-me.
Ela deu um passo para trás, colocando instintivamente as mãos na frente do corpo. Sorri de canto com o ato.
- Eu não tenho nada pra falar com você – respondeu, tentando ser firme, porém falhando miseravelmente.
- Não? Mas eu tenho – foi o que disse, dando outro passo em sua direção.
Ela arregalou os olhos, atordoada. estava tão linda, com as feições mais amadurecidas, mais mulher. Os cabelos com luzes nas pontas, um pouco abaixo dos ombros, davam um ar jovial a moça, fazendo parecer que ela tenha menos idade do que tem. Seus lábios preenchidos por um batom rosa claro, sempre tão convidativos. Estava quase desistindo da conversa, no entanto era mais do que necessária.
- Eu não quero saber – tentou novamente, olhando para a porta desesperadamente.
- Por que tá me ignorando, ? – questionei, andando mais para próximo dela. A cada um passo que eu dava, ela dava três. – Eu não lembro de ter feito nada a você.
Vi a garota abrir a boca mais de uma vez para tentar responder, suspirando frustrada porque não havia uma resposta.
- Pode soar clichê, mas, nesse momento, não tem nada a ver com você, tem a ver comigo – disse, parando de andar instantaneamente.
Ri debochado. O que tinha a ver com ela? Que eu saiba tinha a ver com nós. Os dois. Não só ela. Reparei seus olhos se revirarem diante de minha reação. Ela esperava o quê? Não via nada de diferente nela para entender que era um problema com ela. Era algo de interesse dos dois.
- Bom, , de qualquer forma eu estou envolvido. Até o pescoço se quer saber – falei, sério.
- Você não entende? – suplicou com o olhar.
- Não, eu não entendo o que pode ser de tão complicado para querer fugir de mim dessa forma. Nós precisamos conversar – dei ênfase nas últimas palavras.
- Eu sei disso – assentiu freneticamente. – Sei muito bem. Eu realmente entendo isso, mas não pode ser agora... – voltou a dizer.
- E por que não? Algo te impede? – eu realmente tentava entender o ponto de vista dela, mas eu não sou ela.
- Aham.
- E o que é? – arqueei uma das sobrancelhas, incentivando-a a falar.
Ela respirou fundo, buscando resistência do além.
- O que é, ? Me fala, eu quero saber o que te impede de, pelo menos, falar comigo – insisti.
Eu já tinha parado de caminhar até ela. Suspirei, enquanto a via ficar quieta.
- Eu... – começou, fazendo-me encarar seus olhos incertos. – Eu tô confusa, tá legal? Não tem como a gente conversar por agora porque eu simplesmente não sei o que pensar! – ela desabafou.
Sorri com a confissão. Como sempre. Pelo menos a essência da minha garota ainda estava ali. Aquela constatação atingiu em cheio meu coração, fazendo-o pulsar mais aliviado.
- Você não precisa ter medo de mim, sabe que não mordo – dei de ombros, sorrindo esperto.
Vi um esboço de sorriso querer se formar em seu lindo rosto. Estava mais feliz por fazê-la demonstrar algo. Eu sentia sua falta, muita. Senti durante todos esses anos. Esperava realmente que ela também tenha.
- Eu não consigo conversar agora, . Outro dia, quem sabe? – disse, evasiva.
Bufei, impaciente. Por que ela fazia tudo mais complicado?
- ... – tentei, mas fui interrompido.
- Espera, . Saiba esperar! – exclamou, ficando irritada.
Eu sabia que ela se irritava fácil, assim como chorava fácil, ria fácil... Só percebi que fiquei parado olhando o nada quando ela saiu, fazendo barulho ao virar a chave e fechar a porta. Eu estava sozinho. De novo.

Nota mental: pesquisar no Google “como entender as mulheres em três passos”. Quem sabe o WikiHow não tenha uma dica, solução ou whatever.
Quando disse “esperar”, eu não imaginava que demorariam semanas e que ela praticamente fingiria que eu estava invisível. Isso estava me irritando profundamente. Para mim, essa atitude era infantil. Eu sabia que ela sabia. Mas... Que grande merda me meti. Eu tentava a todo o custo seguir o plano dela, que era apenas ignorar e fingir que não sente nada. Claro que as vezes dava errado, eu me pegava a observando. E, por vezes, a peguei me olhando, perdida em pensamentos. Eu sabia que ela estava pensando seriamente e, se eu ainda a conhecia o suficiente, sabia que não estava fazendo mais nada da vida além disso. Se dando muito mal nas aulas. Não queria prejudicá-la, mas tinha medo de falar e piorar as coisas. Isso estava me matando, muito.
Foi com isso em mente que decidi aceitar o convite de Frank, primo de Elliot, para sair. Nós iriamos a um pub qualquer, apenas para se divertir. Elliot não iria, pois tinha muito trabalho. Pois é, eu também, mas não me importava nem um pouco. Iriamos às dez da noite e voltaríamos... Nem sei se voltaríamos para falar a verdade.
Já estava pronto, faltando apenas o perfume. Iria de carona com Frank, o que me deixou, de certa forma, bem, assim poderia beber o quanto eu quisesse. Se bem que bebia mesmo quando não podia. Não era exatamente o exemplo de segurança. Não façam isso, é completamente irresponsável.
Ouvi o interfone tocar e logo desci, encontrando-o na portaria. Entrei em seu carro, falando com o mesmo. Não fazia ideia de onde iriamos, qual das casas noturnas, mas era o que menos me importava. Queria apenas beber e muito.
Minutos depois, já estava dentro do lugar com uma cerveja em mãos. Frank havia chamado três homens e duas garotas, também, para nos acompanhar. Não o repreendi, até porque uma delas era bem gata. Balancei a cabeça com o pensamento. Se eu queria realmente algo com novamente, não deveria pegar nenhuma mulher mais. Ou não tinha nada a ver? Nós só conversaríamos... Bufei. Lá estava eu, pensando naquela garota de novo. Tomei o resto da latinha em quase um gole – não havia muito no recipiente. Pedi logo uma tequila. Frank estava em algum lugar com uma mulher que conheceu no lugar. Estávamos no local a menos de trinta minutos e o cara já tinha me deixado sozinho! Quer dizer, não tecnicamente só, pois aquela mesma moça continuava lá, encarando-me. Suspirei.
- Precisa de ajuda para relaxar? – indagou ela, vindo em minha direção.
Sorri de canto, negando com a cabeça.
- Não, estou bem.
- Não parece. Você tá tenso, olha seus ombros! – disse, caminhando para minhas costas. Senti suas mãos macias deslizando para meu pescoço, começando uma massagem leve. Sem querer, suspirei. – Eu não disse? – questionou com a boca em meu ouvido.
Segurei a respiração. Eu não fui ali para beijar na boca ou algo do tipo. Fui ali para beber quieto. Só isso. Pela primeira vez em anos, era a única coisa que eu queria. Beber. Afastei a mulher de perto de mim e sai em direção a outro bar. Pedi uma vodka misturada com algo que não fazia ideia. A noite seria ótima, olha como estou me divertindo – espero que saibam reconhecer ironia.
A vodka mal havia chegado e eu já estava pedindo outra. Sentia o líquido quente descer por minha garganta. Sabia que trabalhar amanhã seria uma tarefa que exigiria muita concentração, esperava conseguir concluir com sucesso. Sabia que não conseguiria o sucesso também. Virei a outra de uma só vez. Precisava de mais álcool. Muito mais.
Durante aquele período, que acreditava ter sido grande, de tempo, somente passei ali, sentado no banquinho de um open bar. Já havia até desistido de procurar Frank. Primeiro: porque ele realmente sumiu, não deu mais sinal de vida; segundo: eu olhava para o lado e via tudo embaçado. Revirei os olhos diante de meu estado. Já estou bêbado? Ainda lembro de , então não é o suficiente! Soltei uma risada percebendo que todas as últimas vezes pelo qual eu bebi, tinham no meio. Não que durante esses anos, não tenha sido por ela, até porque no fundo foi; mas, eu bebia porque queria, agora eu estou bebendo porque não tenho escolha, ou seja, é necessário. Muito necessário o álcool no meu organismo.
Peguei meu celular, tentando achar o número de Frank, porém eu enxergava tudo embaralhado. Ficaria complicado dessa forma, então, simplesmente, desisti, ainda olhando para o celular. Encarei a tela de mensagens, digitando algumas coisas que eu não fazia ideia. Não deveria estar tão bêbado assim, não é? Guardei o celular no bolso com certa força. Uma súbita raiva se apoderou de meu corpo. Eu queria saber se eu não era tão bom mais? Se eu não era tão mais bonito? Ou talvez se eu tivesse feito algo errado? Ou será que eu não causava mais reação nenhuma nela? Impossível! Posso não conseguir pensar com clareza, mas eu vi que ela estava nervosa. Vai ver estava nervosa porque não queria nunca mais olhar na minha cara. Ou quem sabe... Quem sabe ela tenha um namorado? Não, não, se fosse isso, com certeza ela já teria me falado. Ou não? Somente o pensamento já fazia meu sangue ferver. Talvez ela realmente não sinta algo por mim mais. É... Devia estar forçando a barra ou algo assim? Esperava que não.

Por Ela

"Vc já superou o amor? Pq eu não!
1:00 AM

"me pergunto pq vc é a única q eu quero e mais ngm basta
1:05 AM

"n consiytgo escapar do q eu sinto, nem p0sso
1:07 AM

"pq vc t3em q ser tao linda?w
1:08 AM

"deveMOS esperar at´e amanhaW?
1:10 AM

Atônita. Era exatamente como eu estava. Olhos levemente arregalados, boca levemente aberta. Arrepiada também me descrevia. O que era isso, afinal? Li e reli aquelas mensagens mais de vinte vezes para ter certeza do que estava escrito. Senti meu celular vibrar novamente em minhas mãos.

"não faz ISSO CO9MIGO KAJDKSHFKJ
1:19 AM

Meu coração apertou de uma forma que nunca havia acontecido. Nem quando eu o deixei. Senti meus olhos marejarem de forma instantânea. Ele estava bêbado. Eu tinha plena certeza disso. Era minha culpa. Me senti péssima no momento em que constatei isso. Suspirei. Eu deveria tomar uma decisão rapidamente. Só estava cozinhando-o. Eu já tinha minha escolha, só estava com medo de fazê-la. Virei de lado na cama.
Antes de receber a mensagem, havia acabado de me deitar. Conversava com sobre as coisas da faculdade, trabalhos, professores chatos... Assim que fechei os olhos, recebi as mensagens.
Prendi uma gargalhada de repente. Essas mensagens eram engraçadas, por mais que fosse trágico. Era especial também. Sorri, indecisa se mandava uma mensagem em resposta ou falava com ele no outro dia. Eu estava de saco cheio de ignorá-lo. Eu era apaixonada por aquele cara, mas vocês entendem que eu passei a ter medo de me relacionar, não é? Espero que tenham entendido. Quando fui colocar o celular em baixo do travesseiro, ele vibrou novamente. Uma súbita ansiedade me atingiu, fazendo um frio passar pelo meu corpo inteiro. Meu estômago se agitava em animação, e eu me permiti sorrir; não só sorrir, me permitir rir, gargalhar. Não me importava se ouviria, acordaria ou sei lá. Só estava finalmente me entregando àquele sentimento. Eu estava com saudade de sentir isso, parecia que só agora me sentia viva. Meu coração batia freneticamente no meu peito, como em um agradecimento por finalmente exercitá-lo depois de anos; por eu me permitir sentir.

Acordei uma hora antes do horário de trabalho. Tomei um banho relaxante, me sentindo bem comigo. Quando acabei, ouvi batidas na porta. Falei um "entre" para – se vocês ainda não sabem, nós moramos juntas. Procurava uma roupa bonita no meio de várias, percebendo o olhar de minha melhor amiga queimar em mim. Fiquei calada, pegando uma calça justa branca, uma blusa de um ombro caído e peguei sapatilhas pretas. Ela pigarreou, e eu a encarei de relance.
- Então... – começou. Segurei o riso, prestando mais atenção no meu reflexo no espelho.
- Hm.
- O que aconteceu ontem? – inquiriu, direta.
Sorri abertamente.
- Nada, ué – respondi, óbvia.
Bom, assim que fechei os olhos para dormir, minha amiga apareceu de cabelos desgrenhados, com a maior cara amassada. Ela me perguntou porque eu estava fazendo tanto barulho, então apenas me calei e fingi que ela era doida. Claro que não deixou isso barato e, agora, estava me questionando.
- Não sou burra, . Eu podia estar mais dormindo que acordada, mas ainda assim vi que você tava diferente. Sem contar nesse seu novo brilho nos olhos – comentou, distraída.
- O ... – foi o que falei, antes dela pular no meu pescoço, dando um gritinho animado.
- Não acredito? Conta!
- Calma, amiga. Foram só umas mensagens – dei de ombros.
- Se fossem umas mensagens, você não estaria agora quase derramando lágrimas de alegria – retrucou, ainda esperando eu contar.
- Na verdade, ele mandou. Estava bêbado – disse, rindo.
Não tinha como não rir das mensagens desajeitadas e erradas. Eu conseguia entender perfeitamente, mas, fala sério, era realmente hilário.
- Ai, meu Deus! – exclamou, soltando uma gargalhada sem nem antes saber o que estavam escritos nelas. – Já percebi que boa coisa não era.
- Até que eram bonitinhas as frases – disse, defendendo-o.
Sorri bobamente, lembrando das mesmas. Eu falaria com ele hoje, explicaria tudo o que ele quisesse saber. Eu tinha que dar um jeito na vida. E se fosse para ser com ele, melhor ainda.
Mas, antes... Uma zoeirinha não faria mal, não é mesmo?

"Hum... Seria até interessante se eu conseguisse entender uma palavra, não é?!
"

Por Ele

Acordei. Abri os olhos. Encarei o local, vendo que estava em casa. Suspirei aliviado. Sabe-se lá, não é mesmo? Da outra vez, estava não sei aonde, com não só uma, mas duas mulheres. O que aconteceu aquela noite? Não sei e não quero nem saber. Prefiro esquecer.
Afundei o rosto na almofada fofa. Precisava me levantar, trabalharia a alguns minutos ou horas. Peguei o celular ao meu lado e desbloqueei para ver as horas.
Sete horas. Hoje, poderia chegar às nove, pelo simples fato de que adiantei muita coisa ontem. Mas, hoje, tinha muito trabalho. Teria que rondar o pessoal do estágio e ver o que faziam, se precisavam de ajuda e tudo o mais.
Algo, no entanto, me chamou a atenção.
“Mensagem de
Arregalei os olhos quando, enfim, compreendi o que estava escrito.
É o quê? O que eu perdi? Por que ela me mandou uma mensagem? Ela havia se decidido? Hesitei em abrir por um momento. E se fosse algo que eu não gostasse? Dane-se! Abre logo isso, !
Abri a mensagem, prendendo a respiração.

“Hum... Seria até interessante se eu conseguisse entender uma palavra, não é?!


Oi? Como assim não conseguiu entender uma palavra? Do que ela estava falando? Será que havia mandado errado? Franzi a testa. Eu estava muito confuso. Muito confuso.
Decidi ignorar; quer dizer, tentei, pois quando ia fazer isso vi que eu havia enviado uma mensagem a ela à uma da manhã. Eu estava com a cabeça rodando, tentando lembrar de um momento em que mandei um texto para ela, mas nada vinha na cabeça.
Subi a tela, vendo que haviam mais mensagens. Arregalei os olhos. Todas elas eram de uma da manhã, e eu quis me matar; me jogar de um precipício. Li e reli todas elas, me achando a pessoa mais idiota do mundo. Eu era muito trouxa. Com que cara eu olharia para ela agora? Eu tinha acabado de ferrar tudo. Tudo. Olha a resposta dela também. Meu Deus, ela me odeia.
Passei as mãos pelo rosto, sem saber o que fazer. Eu precisava pedir desculpas pelo menos, mesmo que ela não quisesse aceitá-las. Que belo dia. Comecei bem. Boa !
Levantei, me preparando para tomar banho. Precisava ser um gelado, pois minha cabeça estava começando a dar sinais de vida, doendo. Depois, tomaria um remédio. Ressaca era algo que eu odiava com todas as minhas forças, no entanto algo me dizia que ficaria de ressaca não só pelas bebidas misturadas de ontem.

Tentei ao máximo me esconder no meio da multidão de pessoas naquele lugar. Não queria que ela me visse. Na verdade, não importava, ela estava me ignorando, não? Mas, mesmo assim, eu estava constrangido demais para poder encontrá-la. Era um pensamento meio idiota, pois um homem feito como eu, de vinte e quatro anos, estava com medo de uma garota. Na verdade, não era bem medo... Ah, tanto faz! Era melhor prevenir.
Subi correndo os degraus, chegando em frente à porta de minha sala em menos de um minuto. Enruguei a testa durante um instante. Por acaso eu havia esquecido aberta? Elliot estaria ali? Outros assessores? Quem poderia ser? Ou será que era Carl, que havia entrado para buscar algo e esqueceu de fechar a porta?
A mesma estava entreaberta. Empurrei de leve a madeira, somente o suficiente para que eu conseguisse entrar. Não fiz barulho enquanto adentrava o local. Olhei de relance para a pessoa sentada em frente à mesa. Fechei a porta com cautela, dando graças a Deus – e a Carl – que a porta não rangeu. Andei descontraidamente até meu assento. Todavia, assim que olhei para a pessoa em questão, levei um susto. Meu coração acelerou no mesmo instante devido ao susto e a pessoa sentada ali. Por um momento pensei que ficaria sem meu órgão vital, pois o mesmo quase saiu do meu peito. Tinha plena certeza que minha cara deveria ser uma careta de confusão, espanto, susto e medo, pois a cara de estava um tanto engraçada. Ela prendia o riso. Como ela faz isso comigo e sente vontade de rir?
Pigarrei, me sentando. Coloquei, com as mãos trêmulas, a minha pasta, junto com a maleta, na mesa. Apoiei os dois cotovelos no local, colocando em seguida uma das mãos na bochecha. Encarava, agora, diretamente nos olhos, e eles estavam com um brilho diferente; algo mais natural; mais ela. Desde que eu havia encontrado com ela, notei que seus olhos estavam meio opacos. Eles não transmitiam muito sentimento. No entanto, agora, estavam realmente diferentes; eu os encarava e me dava vontade de abraçá-la forte, protegê-la. Mas obviamente não foi o que fiz, apenas dei um sorriso de canto discreto.
- Então? O que te traz até minha sala? – comecei, meio envergonhado. Acabei de me lembrar das mensagens... – Precisa de ajuda em alguma das áreas? – optei por ser profissional. Era o método mais seguro até agora.
Não sabia como ela reagiria às coisas que disse. Por mais que tudo tenham sido verdades, não queria tê-las expressado via SMS. Queria ter falado tudo aquilo pessoalmente. Digo, nada me impede de dizê-las agora, mas não faria mais sentido, entende? Eu já mandei, ela já leu. Não seria surpresa para ela. Prendi um suspiro frustrado. Nunca mais eu bebo, até bebendo faço merda. Até bêbado mando mensagem de texto para ela. Não posso acreditar nisso! Frases ainda escritas completamente erradas!
Ela soltou uma risada, balançando a cabeça para os lados.
- Não acho que vá querer resolver algum assunto de trabalho agora – disse ela, dando de ombros.
- E por que acha que não vou querer resolver? É o meu trabalho afinal – foi o que eu disse, mais que confuso.
- Bom, depois de ter bebido até não saber onde estava, creio que não vá realmente querer trabalhar – retrucou, olhando em meus olhos. Senti meu estômago revirar em expectativa.
Tenho certeza que estava como um pimentão. Ou parecia mais uma berinjela? Pronto. Era para isso que ela estava ali. Provavelmente chamaria minha atenção e diria que se eu continuasse com isso sairia do estágio. Ou, então, me ameaçaria, dizendo que contaria ao Presidente da produtora – vulgo: meu amigo. Engoli em seco, minha mente trabalhando a todo vapor para sair daquela situação mais que constrangedora sem me ferrar junto.
- Eu, ahn... Desculpa, não era minha intenção mandar nada pra ninguém - comecei, suando frio. Vamos, , não perca a garota, você consegue! – Eu... nem sei o que dizer. Sério, mil desculpas. Isso não vai acontecer mais, tá bom? Fica tranquila. Não precisa me ameaçar, chamar minha atenção ou algo do tipo. Eu não farei nada mais, eu só... – fui interrompido por gargalhadas altas.
Parei de falar, encarando o ser humano a minha frente. Por que ela estava rindo mesmo? Que pergunta, hein! Claro que do seu discurso idiota, . Suspirei, derrotado.
- Ainda falando sem parar quando fica nervoso? – ela sorriu para mim de forma doce, após um tempo se recuperando do ataque de risos. Eu apenas ergui a sobrancelha, pedindo para ela explicar o que queria, o que acontecia, por que razão ela estava ali, por que tudo. Tinha muitas perguntas, ela sabia disso. – Já falei que é bonitinha essa sua mania?
Meu queixo foi ao chão e voltou. O que ela havia dito? Esperem um minuto! Eu acho que não ouvi bem: “Já falei que é bonitinha essa sua mania?”
Pensei que meus olhos fossem saltar da órbita de tão chocado que estava. Continuei olhando para a garota a minha frente, que sustentava um sorriso esperto.
- Ahn? – foi o que saiu.
Percebi ela suspirando com minha reação.
- Por que essa reação? – percebi que havia ficado meio hesitante.
Engoli todas as minhas dúvidas, questionamentos, choque, susto, confusão junto com minha saliva. Ela estava mais agitada que o normal, eu sabia disso, havia visto em seus olhos assim que cheguei. Não queria que perdessem o brilho, como estava acontecendo. Afastei todas as minhas inseguranças. estava ali por um motivo, e eu queria muito saber qual era. Sem perceber, uma pontinha de esperança começou a me preencher, me trazendo um sentimento bom, muito bom.
- Desculpe, eu... só... Eu só não estou entendendo – falei, um pouco menos atônito que antes.
Ela assentiu, compreendendo.
- Sim, sim, eu entendo – disse o que eu já havia concluído. – Vou te explicar tudo o que quiser saber. Acho que nós precisamos conversar.
A frase que eu tanto quis que saísse de sua boca, finalmente, saiu. Depois de semanas e semanas, aqui estávamos nós. Sorri mais abertamente, vendo que ela tentava conter um sorriso igual, falhando miseravelmente.
- Sobre o que vamos começar falando então? – inquiri para mim mesmo, pensando.
Coloquei uma das mãos no queixo, encarando minha mesa.
- Ahn... Não seria melhor depois do expediente? Acho que precisarão da minha ajuda – comentou ela, mais relaxada.
Rapidamente voltei com meus olhos para seu rosto. Ela não passava algo defensivo em sua expressão, era mais algo cansado.
- Não! – exclamei mais que rápido. – Eu... Eu dou um jeito. Sou um de seus chefes, então... Ordeno que fique aqui me ajudando – disse, firme.
- Ajudando com o que exatamente, chefinho? – zombou, totalmente debochada.
Encarei-a seriamente. Arqueei uma das sobrancelhas, intimidando-a. Mas é claro que ela não moveu nem um músculo de sua face. Teimosa. Sorri de canto, vendo o desafio em seus olhos.
- A entender tudo o que tá acontecendo aqui – comentei, casualmente, sentindo meu coração falhar uma batida.
Essa garota acabava comigo de todas as formas possíveis, sem nem me encostar. Me levantei, parando perto da mesma, que estava sentada. Agachei, ficando, consequentemente, do seu tamanho. Encará-la de perto me trazia uma sensação de conforto, que eu gostava. Olhei para seus lábios arroxeados, eram bem convidativos. Ela havia mudado bastante em sua aparência. Era uma mulher agora. Uma linda mulher. Vi sua testa enrugar e sorri timidamente para ela.
- Então nós temos um problema – disse, baixo, encarando meus olhos. Arqueei uma sobrancelha em questionamento. – Eu também não sei o que tá acontecendo aqui – dito isso, ela sorriu, colocando um fio de cabelo atrás da orelha.
Envergonhada; era assim que ela se encontrava. Nunca foi tão adorável vê-la daquela forma.
- Não é nada que não possamos resolver – aproximei meu rosto minimamente.
Ainda agachado, fui para sua frente. Coloquei as duas mãos no encosto da cadeira, impulsionando meu corpo para perto do seu. não se moveu, muito pelo contrário, apenas ficou me encarando com a expectativa faiscando em seus olhos. Aproximei mais ainda meu rosto, conseguindo, agora, sentir seu perfume. Não era o mesmo que ela usava em sua adolescência, mas era tão viciante quanto ele. Sua respiração já estava batendo em meu rosto levemente.
- Por que eu ainda acho que vamos ficar sem entender nada depois? – respondeu, encaixando sua mão gelada em minha nuca.
Sorri com o contato. Que falta eu sentia dela; que falta ela me fez!
Passei o nariz por sua bochecha, ainda curvado sobre ela. A posição não era das mais confortáveis, mas eu não me importava nem um pouco. Sua outra mão subiu pelo meu braço no encosto da cadeira, causando arrepios. Cada toque seu em minha pele parecia que me faria pegar fogo a qualquer instante. Seu toque era leve, macio e carinhoso.
- Se ficarmos sem entender de primeira – fiz uma pausa para ir até seu ouvido –, podemos tentar de novo se quiser – soprei o local, sentindo sua mão, que estava em minha nuca, apertar meus cabelos de leve. Fechei os olhos, apreciando o momento. – E se a dúvida persistir mais ainda, não hesite em me falar. Já sabe: “de novo, de novo e de novo” – concluí com o coração na boca.
Eu estava vendo a hora que o meu órgão vital sairia de dentro de mim, pulando por aí feliz da vida. Sabia que tentaria resistir. Eu a conheço bem o suficiente para isso, por mais que tenhamos ficado tempo demais sem nos ver. A garota queria conversar, e eu também claro. Mas, mais que tudo, eu queria poder beijá-la novamente. E era o que eu faria.
Afastei meus lábios de sua orelha e aproximei de seu rosto, encarando-o. Sorri, olhando-a de olhos fechados. Ela estava ainda mais linda do que eu me lembrava.
- Você não deveria falar essas coisas e deixar uma dama esperando o próximo passo – disse, ainda sem abrir os olhos. Me permiti sorrir mais abertamente. – Ela pode desistir.
Eu nem sabia mais se morreria um segundo depois, devido aos batimentos do meu coração. Um frio gostoso na barriga me atingiu, me fazendo aproximar mais de seu rosto, roçando nossos lábios.
- Fala – falei, simplesmente.
Ela riu, provavelmente lembrando-se do momento em que eu fiz isso no passado. Balançou a cabeça levemente para os lados, abrindo os olhos, encarando-me com intensidade. Minha íris não deveria estar diferente.
- Eu quero beijá-lo – parou, encostando a testa na minha – e quero agora.
Avancei em seus lábios, não esperando nada mais. Lembram de quando eu disse “[...] nunca ficaria com uma mulher em pleno horário de trabalho. Eu respeitava as regras”? Então, havia uma exceção. Essa exceção era . Não me importava com regras quando estava com ela; quando estava me resolvendo com a mesma.
Seus lábios tinham um gosto leve de morangos, que eu particularmente gostei. Eram macios, lindos e maravilhosamente bons de beijar. Como eu senti falta dessa mulher! Ela era inteiramente boa, feita para mim. Só de imaginar outro cara a beijando já me dava ânsia. Sorri por entre o beijo, maravilhado com o momento. Não pensava que sentiria seu gosto novamente. Puxei-a para mim pela cintura, colocando-a de pé. Abracei o local com toda a força que eu podia. Ela passou as duas mãos pelo meu pescoço, me abraçando com força pelo mesmo. cortou o beijo, me puxando para si. Enterrou o rosto no meu pescoço, enquanto eu distribuía beijos leves pelo seu.
- Eu... Eu... – tentei dizer, mas a voz saiu falha. – Eu... senti sua falta – suspirei.
- Eu também – sua voz saiu abafada.
Me arrepiei pelo contato de sua respiração com meu pescoço. Ficamos em silêncio durante um tempo até a mesma se afastar de mim. A mulher tentou se soltar de meus braços, no entanto eu era mais forte e não permiti. Me encarou, tentando decifrar meus sentimentos através de meus olhos. Não era muito difícil.
- Nós precisamos conversar – disse ela. Apenas assenti. – ...
- Eu não vou te soltar – foi o que eu disse, firme. – Vai que percebe, de repente, que fez a pior burrada da vida e sai correndo? – falei com um tom óbvio. Ela riu.
- Eu não vou sair correndo – assegurou, mesmo assim não a soltei. – Eu que apareci aqui pra falar, então por que sairia correndo? – inquiriu, me encarando.
Dei de ombros. Ela era louca, vai que...
- Só estou tendo certeza de que não vai acontecer isso. Além do mais, nada impede de conversarmos assim – Ela rolou os olhos.
- É uma história longa, . Sei que você tem vinte mil perguntas pra mandar pra minha pessoa, então prefiro não me cansar em pé – disse ela.
Eu somente a fitei, virando-nos. Ela me encarou sem entender, mas assim que fiz pressão para ela sentar sobre a mesa, entendeu. Tirei a maleta de lá, a colocando sentada comigo entre suas pernas.
- Já pode começar. Comece me explicando o que você faz aqui, por que não estava fazendo Direito na Holanda – pedi, acariciando sua bochecha.
- Eu comecei a faculdade, mas, ah, tive algumas decepções. Sem contar que as pessoas que moravam na casa na qual eu estava hospedada se mudaram. Estava pensando o que faria da vida, quando Beth, uma amiga minha, viu que abririam inscrições pra uma faculdade em Los Angeles. Procurei saber se tinha Direito ou algo relacionado, mas não tinha. Tive que trancar a faculdade pra procurar algum lugar pra ficar, entende? Eu teria que voltar pra casa, já que era um intercâmbio – começou a explicar, mexendo na manga de minha blusa preta. – Não fiz nada durante um mês, só procurando por casas, pessoas que poderiam me abrigar... Mas vi inscrições pra um grupo de teatro – apertei sua cintura, lembrando que ela amava o teatro. Ela dizia com um sorriso leve. – Eu até o faria, bem, se eu não tivesse me tornado uma ilegal na Holanda. Austin me viu olhando o cartaz, interessada, e se aproximou. Austin estudava na mesma faculdade que eu, no mesmo curso. Eu contei pra ele o que tinha acontecido e ele tentou me ajudar. Na verdade a ajuda dele foi meio inútil, pois era o tipo de ajuda meio rebelde: “já que você já tá aqui ilegalmente, ficar mais um tempo fazendo teatro não vai mudar nada” – ela riu, se lembrando. – Segui seu conselho, e as pessoas do grupo me trataram bem, entenderam e não me denunciaram pras autoridades. Eu realmente gostava do teatro, gostava mais que Direito, o que eu estranhei bastante. Passei alguns meses no grupo atuando de brincadeira, até que um dia escrevi uma peça e todos se interessaram nela... E eu, consequentemente, percebi que gostava de escrever, gostava muito. Enfim, fiquei vários meses lá e contei qual faculdade eu fazia. Mas percebi que não tinha muito a ver comigo, visto que eu praticamente dormia nas aulas – soltei uma risada.
- E o que isso tem a ver com Cinema e Audiovisual? Los Angeles? – questionei, tentando ligar os pontos.
- Bom, você lembra que eu disse que abriram inscrições pra faculdade de Los Angeles? – assenti. – Então, eu decidi me aventurar em algo novo, que eu poderia gostar, já que o teatro me ajudou a perceber que existe mais que um país, mais que uma possibilidade. E eu realmente gostava daquele meio descontraído. Eu vi que tinha ali Cinema e Audiovisual. Olhei a grade curricular e, repentinamente, me senti animada e ansiosa. Eu gostei do que vi. Fiz a prova pra tentar a bolsa e passei. Quem não passa pra Cinema quando tinha passado pra Direito?
- Quanto tempo você tá aqui? – questionei.
- Bom, três anos – deu de ombros.
Percebi que ela havia ficado meio desconfortável e eu sabia exatamente o porquê.
- Você sabia que eu tinha feito uma faculdade parecida... – comentei como quem não quer nada.
Ela suspirou.
- De certa forma a faculdade me lembrava você, e eu gostava de me sentir, pelo menos, um pouco mais perto de você – confessou. Eu sorri.
- Eu moro em Los Angeles desde sempre – comentei, vendo sua expressão.
Ela concordou. sabia disso.
- Desculpe, eu... Eu não tive coragem de procurá-lo. Saber que você podia realmente ter seguido sua vida como eu mandei fazê-lo não era algo agradável.
- Eu sempre estaria aqui pra você assim que voltasse – segurei seu rosto com as duas mãos. – Eu costumo cumprir as promessas que faço.
sorriu, envergonhada.
- A partir do momento que passei pra cá – ela continuou -, procurei um lugar pra ficar. Aí encontrei , minha melhor amiga. Atualmente moro com ela, e agora que faço estágio posso ajudá-la a pagar o aluguel. Sempre me senti culpada por ela pagar tudo.
- Você... – pigarreei, desconfortável com a pergunta que faria. – Por que me ignorou? Eu não lembro de ter feito algo que te magoasse.
- Hm... É que... Eu não queria sofrer novamente, como eu sofri com você e com... – ela parou subitamente.
Enruguei a testa, já me odiando por ter feito a pergunta, eu sabia o que ela diria. Fiz uma carranca, escutando a história em silêncio.
- Com...? – questionei, a voz estava mais séria e firme que o normal.
Senti seus lábios encostarem rapidamente nos meus antes que ela falasse. Me permiti sorrir um pouco.
- Jason – suspirou. Apertei mais forte sua cintura, a puxando mais para mim. – Ele, ahn... Me magoou muito e, depois disso, eu decidi que não queria sofrer mais por cara algum. Nem por você. Principalmente por você! Eu não queria pensar em você todos os dias da minha vida e me culpar por ter colocado esse espaço desnecessário entre nós. Eu queria seguir com minha vida, entende? E assim que te vi, notei que toda aquela barreira anti- que eu havia criado durante os anos começou a desmoronar. Eu não pensei te encontrar assim, do nada. Fiquei sem reação e achei melhor continuar te ignorando. Eu não sentia nada há um bom tempo, tive medo dessas novas sensações, por mais que não sejam tão novas assim – desabafou, olhando em meus olhos.
Seus olhos castanhos estavam um tanto marejados, e meu coração ficou pequeno. Não gostava de vê-la assim, principalmente por minha causa.
- Eu estou aqui agora – disse, aproximando nossos lábios. Selei-os com o maior cuidado do mundo. – Não pretendo te deixar ir. Não me interessa o que aquele cara fez ou deixou de fazer, se você ainda pensa nele... – Ela me interrompeu.
- Eu sou apaixonada por você – foi o que disse. Agora sim meu pobre coração não sobreviveria. – Eu sentia um carinho imenso por ele, sim. Mas eu nunca deixei de gostar de você; de pensar em você. E ele que se dane agora. Espero que esteja bem com aquela namorada dele – soprou, contra minha boca.
Sorri alegremente, feliz, animado, completo. Eu amo aquela garota. AMO.
Sem pensar duas vezes, beijei-a com toda a minha força e vontade. Puxei sua cintura para perto de mim enquanto suas mãos iam de encontro a meus cabelos. Ela me puxou mais para si pela nuca, e, em resposta, minhas mãos espalmaram em suas costas, colando seu tronco ao meu.
Ouvi batidas na porta, e minha parceira me empurrou abruptamente, levantando-se. Seus olhos estavam levemente arregalados, suas bochechas vermelhas e sua respiração levemente ofegante. Linda. Linda e mais minha que nunca. Sorri com o pensamento, enquanto via ela caminhando apressadamente para meu lado, embrenhando seus dedos em meus cabelos em uma tentativa falha de arrumá-los.
Fui em direção a porta, pronto para abri-la. Vi sentar na cadeira em frente à minha mesa, como se nada tivesse acontecido. Tentava colocar uma expressão séria no rosto, mas começava a rir do nada. Sorri involuntariamente. Abri a porta, dando de cara com Stephanie, uma das estagiárias a qual deram em cima de mim na entrevista. Ela era boa no que fazia, então fui obrigado a escolhê-la.
- Sim? – questionei, passando uma imagem impaciente a moça.
- Tenho assuntos a resolver com o senhor – sorriu, maliciosamente.
Revirei os olhos.
- Estou ocupado agora com uma estagiária – disse, sem cerimônias.
Abri um pouco mais a porta, mostrando os cabelos da mulher dentro da sala. Ela respirou fundo, como se estivesse tentando não perder o controle.
- Mas é importante – insistiu, pousando sua mão esquerda em um de meus ombros.
- Sim, mas com ela também é – apontei para , que mexia em suas unhas.
Sorri de canto, encarando Stephanie bufar. Arqueei a sobrancelha em um modo de questionar se ela tinha mais algo a dizer. Assim que percebi o silêncio, acenei para ela com a cabeça, fechando a porta.
- Devo tomar algum tipo de cuidado? – perguntou , ainda olhando para as unhas.
- Não deve se preocupar com nada – sussurrei em seu ouvido, assistindo-a se arrepiar.
- Que bom, porque eu não o faria mesmo.
Ri de seu comentário, beijando sua bochecha. Nem acreditava que tínhamos nos resolvido. Era bom demais para ser verdade!
- Nunca mais faça isso – chamei sua atenção.
Ela estava com a expressão confusa, enquanto me via mexer nos papéis a minha mesa.
- Isso o quê?
- Me assustar por mensagem – soltei, achando sua gargalhada a melhor do mundo. – Eu pensei que você queria me decepar. Estou muito novo pra perder a cabeça – disse, arrancando ainda mais risadas dela. – Assim que te vi aqui, pensei que, sei lá, você quisesse se demitir ou então me ameaçar – fingi medo.
- Nossa, , você era mais homem da última vez que nos vimos – comentou, debochada.
Revirei os olhos com o comentário.
- Por que você decidiu conversar comigo? – inquiri, visivelmente curioso.
- Bom, depois daquelas mensagens sem sentido que você mandou, percebi que estava sendo meio rígida comigo e com você. Você merecia uma explicação, eu sabia que sim. Além do mais, me senti a pior pessoa do mundo por você estar bebendo por minha causa – soprou, baixo.
Seus olhos transmitiam um brilho triste, que logo tratei de afastar dali.
- Ei! Tá tudo bem agora, não tá? Veja pelo lado positivo, foi bom eu ter ficado bêbado e enviado aquelas coisas pra você. Talvez se eu não tivesse feito isso, não teria acontecido nada disso aqui – apontei para nós dois, fazendo-a sorrir mais espontaneamente.
- Ah... E o que vai ser agora?
- Como assim? – abri uma das pastas, tirando de lá uma prancheta.
- Nós? O que vai ser? – olhei para ela quase que imediatamente.
Será que ela ainda tinha dúvidas se ficar comigo era a melhor opção?
- Nós – apontei para nós dois novamente. – Estamos bem, certo? – assentiu prontamente. Suspirei aliviado. – Então, nós ficaremos juntos – dei ênfase na palavra e na frase. – E não aceito outra resposta além de sim.
Observei ela se levantar e rodar a mesa para parar ao meu lado. Agachou, beijando o canto de minha boca.
- Às suas ordens, chefinho.
Sorri de canto com sua frase. Encarei a mulher, observando a mesma se encaminhar para a porta. Antes, porém, de abrir, se virou para mim. Piscou um olho. Se eu estava bem? Logicamente não. Se eu estava hipnotizado? Logicamente sim.
Fiquei olhando por mais um tempo o lugar que antes ela estava em pé. Balancei a cabeça e uma vontade grande de gritar me dominou. Claro que me contive, não poderia fazer um papelão desses em pleno local de trabalho. Mas a felicidade não cabia apenas dentro de mim. Eu queria jogá-la para todos os cantos.
Como me concentraria para trabalhar agora?

Como dito por mim assim que acordei, tive que fazer a ronda na produtora. Precisávamos urgentemente de novas pessoas para trabalhar por ali. Não podia ficar fazendo isso sempre. Elliot sempre me chamava para reuniões de última hora. Contudo, dessa vez não reclamei. Faria a ronda na parte que trabalhava e estava de muito bom humor. Só que dessa vez, ela estava tentando ajudar na parte de Edições, alguma das garotas se atrapalharam e a chamaram. Assim que a vi, senti minhas mãos formigarem. Eu precisava tocá-la de novo, mas sabia que seria meio impossível, pelo menos por ali. Caminhei até as meninas, notando que várias delas prenderam a respiração ao me ver. Contive uma risada.
- Tudo bem por aqui? – questionei, profissional.
que, até então, olhava para a tela do computador, levantou os olhos para mim. Sua cara demonstrava sua preocupação.
- Na verdade não está tudo bem – ela disse, abaixando o olhar para o editor de vídeos.
- O que aconteceu? – retorqui, indo para seu lado.
- Bom... Alguém decidiu estragar com as gravações – uma das meninas contou.
- Como assim? – olhei para a tela, ainda não entendendo.
- Eu estava com a Anne, tentando entender o que ela faria hoje. Mas quando abriu o arquivo, não tinha nada. Era só algo vazio. Tudo sumiu – falou sobre o ocorrido. – Ai eu chamei as outras garotas pra tentar ajudar. Anne saiu pra falar com Elliot sobre isso, mas até agora não voltou.
Assenti, sabendo que problemas viriam por aí.
- Bom, vou conversar sobre isso com ele – disse, firme. – Mas vamos conseguir resolver, não se preocupem.
As meninas sorriram nervosas por ter um possível delinquente no local. Até eu estava meio apreensivo. O material que fizemos até agora, seria para um novo filme ou um curta. Não poderíamos perder absolutamente nada!
sorriu para mim, tentando passar uma certa confiança.
- Bem, já que Elliot vai resolver o assunto, preciso voltar para minha área e... – ela se auto interrompeu quando Greta, da sua área de roteiros, chegou desesperada.
- Queimaram vários roteiros importantes! – ela exclamou, apavorada. Arregalei os olhos com sua fala. É o quê? – E a sala com os roteiros queimados, está pegando fogo! Lá não tem apenas roteiros, há equipamentos!
Saí às pressas em direção ao escritório do meu amigo e chefe. Não me importei de deixá-la falando sozinha, era para um bem maior.
- Elliot! – interrompi sua conversa com Anne e Caroline. – Fogo na sala dos roteiros.

Eram dez da noite, eu só queria ir embora. Depois que os boatos de fogo no edifício se espalharam, todos se desesperaram. Não foi fácil apagar o mesmo, bombeiros foram acionados. Perdemos muitas coisas, mas o pior de tudo era saber que havia um traidor em nosso meio. E nossas suspeitas estavam nas estagiárias. Claro que não descartamos a possibilidade de ser alguém ali que se aproveitou do momento. Revistaríamos todas as pessoas, mas as estagiárias duas ou mais vezes. Todavia, não poderia ser naquele momento. Já estava tarde, então o decidido foi: ninguém levaria nada para casa, tudo ficaria ali do jeito que estava.
Suspirei, exausto. Precisava de um banho e cama. Assim que coloquei o pé para fora da produtora, vi andando em direção a um táxi. Não pensei, apenas segui meus instintos. Corri até ela, segurando seu braço. Ela se virou assustada, logo dando um sorriso aliviado.
- Onde você pensa que vai? – questionei a ela.
- Pra casa, ué – disse em tom óbvio.
- Não, não, não – neguei veementemente. Ela me encarou confusa. – Você vai pra minha casa!
arregalou os olhos levemente. Ela estava pronta para retrucar quando selei seus lábios, impedindo-a.
- ... – resmungou.
- Nada disso! Você vai comigo e fim! Não tem direito a negar nada. Poxa, passei anos longe de você... – levei para o lado emocional.
me encarou indignada, me dando um tapa no braço.
- Cretino! – exclamou, rindo.
Puxei-a para meu carro. Abri o lado do carona, enfiando-a a força, consequentemente escutei sua risada. Fui para o lado do motorista, entrei e liguei o veículo. Não esperei que ela dissesse mais nada, saí cantando pneu. Pelo retrovisor, vi Elliot encarar o carro já distante. Sabia que ele queria uma explicação, e eu a daria. Amanhã. Hoje, eu tinha coisas mais importantes para fazer.
Alguns minutos depois, em completo silêncio, estacionei o carro. Olhei para a menina ao meu lado, e ela dormia. Sorri saudoso, lembrando de todas as vezes que fui obrigado a carregá-la. Saí do carro e logo já estava com ela nos braços, indo em direção ao elevador. Apertei o botão do meu andar, esperando. Observei seu rosto enquanto estava inconsciente. Ela era linda de qualquer forma. Andei para minha porta, abrindo a mesma, e subi para meu quarto. Ainda não acreditava que ela dormiria na minha cama. Minha garota em minha cama. Melhor dupla.
Tirei seus sapatos, colocando-a rapidamente sobre a cama. A cobri, sorrindo. Tirei minhas roupas, ficando apenas de boxer. Deitei ao seu lado, me cobrindo também.
- Boa noite, – beijei sua testa.
Fechei os olhos. Acho que minha vida finalmente estava voltando ao normal, a ser leve.

Senti uma mão na minha cara, mas não era me machucando, era acariciando. Sorri verdadeiramente com o carinho, puxando a pessoa ao meu lado para mais perto.
- Não queria te acordar – sussurrou, meio rouca.
- Não tem problema – sussurrei de volta.
- Claro que tem, é madrugada ainda – foi o que disse.
- Eu não me importo – virei o rosto, ainda de olhos fechados, beijando sua mão.
Sua mão foi para meus cabelos, fazendo um cafuné. Soltei uma risada preguiçosa.
- Eu amo você – disse ela, de repente.
Abri os olhos abruptamente e vi os seus carregados de sentimentos. Aproximei nossos lábios de forma que tudo o que eu falasse os fizesse roçar.
- Eu amo você – repeti, dando ênfase no “eu”.
Ela sorriu. Não foi um sorriso qualquer; foi o melhor sorriso que ela poderia dar. Era o sorriso mais lindo que eu já havia visto. E era inteiramente meu; para mim. Me senti o homem mais sortudo no mundo quando disse aquelas palavras.
- Eu nunca deixei de amar – sussurrei, ainda muito próximo. – Eu só quero você. Seu corpo, sua boca, seus olhos, seu sorriso, sua risada, suas manias, sua personalidade. Só você serve. Eu não entendia antes, mas eu não quero entender nada. Só quero sentir – terminei minha pequena declaração, sorrindo quando seus olhos estavam mais brilhosos que o normal.
- Para com isso, ! Não são nem três da manhã e você já tá me fazendo ficar emocionada – reclamou, dando um soquinho no meu braço.
Escondi meu rosto no seu pescoço e ri abafado. Cada vez apertando-a mais e mais contra meu corpo. Girei na cama, ficando por cima da minha mulher.
- Eu amo quando você fica sem graça, – respondi, rindo.
- Ah, pois eu não – fez bico.
Beijei sua boca mais que apressadamente. Ela correspondeu ao meu beijo com tanto sentimento que, por um momento, pensei que ficaria sem fôlego. passou suas mãos macias pelo meu tronco nu. Me arrepiei de imediato, só agora me dando conta que eu estava com apenas uma peça de roupa.
- Não é justo – reclamei, afastando-me para encará-la.
- O que não é justo? – questionou meio abobada, passando as pontas dos dedos pelo meu peito.
- Você com todas as roupas e eu sem nenhuma – fingi indignação.
- Não tenho culpa disso – deu de ombros. – Foi você que tirou sua própria roupa.
- Acho que podemos mudar isso, não? – fiz a pergunta, após encostar minha boca no seu ouvido.
- Eu acho a ideia maravilhosa – comentou, distraída.
passava as mãos espalmadas por toda a extensão de meus braços. Não esperei muito tempo para beijá-la novamente, dessa vez não perdendo tempo em retirar sua blusa. Que saudades desse corpo, que agora seria meu. Apenas meu.
- Eu não vou machucar você. Nunca.
Com minha última declaração da noite, apertou seus dedos nos meus cabelos, sorrindo radiante.
- Eu confio em você, . Nem eu machucarei, tem minha palavra.
Suspirei contra sua boca por suas palavras e por suas unhas me arranhando. Essa garota vai me levar a loucura em menos de dez segundos! Ela me deixa louco. Eu estava anestesiado por seu perfume, seu toque, sua pele, sua boca...
Esqueci as preocupações, esqueci que existe mundo. Só o que me importava era ela e somente ela. Não havia pessoa melhor para passar a noite e entregar meu coração a não ser ela. Sempre ela.


F I M



Nota da autora: Primeiramente: eu queria dizer que havia pensado em algo pior para SDLM. Sei que muitos de vocês pensaram que seria uma fanfic com o fim trágico pois a menina não gostaria dele. Eu pensei em uma fanfic assim, juro. Porém eu sou boazinha demais HAHAHA. Quando escrevia essa fanfic, na intenção de deixá-la daquela forma trágica, não sei o que aconteceu, só fluiu assim. Quando percebi estava escrevendo uma completamente diferente da que eu imaginei! Tinha feito roteiros e tudo, mas os utilizei pouco. Perdoem caso queiram ler o tipo triste KKKKK, mas foi a ideia que tive e gostei do resultado! Espero que tenham gostado também!
Segundamente: eu queria dizer que cozinhei essa fanfic por tempo demais comigo, por pura e simples preguiça de scriptar - podem me bater eu deixo.
Terceiramente: espero que ela seja bem recebida, porque se tornou um dos meus xodós e uma das fanfics que terminei - o que não foram muitas...
Quartamente: tenho planos de fazer mais uma parte dessa estória, apenas para contar como foi o tempo que ficaram separados, afinal não deu para contar exatamente tudo. Pensei também em fazer outra parte contando sobre o delinquente da produtora e levar para algo mais criminoso (?). São muitas possibilidades, e eu adoraria escrevê-las para vocês. Me contem o que acharam dessa ideia e me deem ideias também, são muito bem vindas!
Anyway,
Se quiserem comentar para contar o que acharam super apoio.
Muito obrigada por ler!

Ps: para quem está tentando achar alguma conexão com a música, eu coloquei uns trechos dela nas mensagens que o pp mandou para a pp; também estão no fato que o pp dorme com outras querendo que fosse a pp e que ele bebe pensando nela.
Moony xX





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