CAPÍTULOS: [Prólogo] [01] [02] [03] [04] [05] [06] [07] [08] [09] [10] [11] [12] [13] [14] [15] [16] [17] [18] [19] [20] [21] [22] [23]





AVISO: Essa fanfic está registrada na Fundação Biblioteca Nacional, Escritório de Direitos Autorais. A cópia não autorizada de qualquer conteúdo dessa página vai de encontro a LEI Nº 9.610, DE 19 DE FEVEREIRO DE 1998, estando o plagiador sujeito a detenção (de 3 meses a 1 ano) ou multa.


Prólogo


"You make me feel loved. You make me feel angry. You make me feel pain. You make me feel."

 

"O amor não prospera em corações que se amedrontam com as sombras."

- William Shakespeare

Prólogo

E então eu corri.

Corri mais do que pensei que um dia pudesse correr. Corri sem sentir, sem me importar. Estava cansada de me importar, de ter o peso não só da minha, mas de todas as vidas à minha volta em minhas mãos. Pela primeira vez na vida, eu não queria me preocupar do que ou para que eu corria. Só tinha essa certeza cega de que devia chegar lá. Então corri.
Abri o portão que me levaria para a rua em um movimento brusco, sendo recebida pela forte claridade do sol. Meus olhos, desacostumados à luz, se fecharam instantaneamente, enquanto minhas mãos tapavam meu rosto em um reflexo protetor, como se a luz do sol fosse me fazer algum mal.

Ah, a ironia.

Alguma parte do meu cérebro, uma que ao contrário das outras não estava anestesiada, processou o fato de que fazia um bom tempo que eu não saía de dia. Havia me afastado da luz, tanto a física quanto a simbólica. Eu havia deixado que ele me envolvesse em sua escuridão, fortalecendo a minha.
Eu finalmente entendi que aquilo não era ruim. Bem e mal são conceitos relativos quando se leva uma vida como a minha, eu devia ter aprendido isso antes. A escuridão nem sempre é ruim – não, por vezes ela se mostra gentil, confortável, acolhedora. A escuridão dele era assim, e por mais amarga e odiosa que por vezes me parecesse, era o que havia me mantido de pé, me dado forças, e de um jeito estranho, foi o que reacendeu uma espécie de claridade no meu coração. A sombra dele era a minha luz. Mas até isso havia sido arrancado de mim.
Continuei a correr, sentindo meu coração batendo forte no peito. Eu queria poder odiar aquela sensação, mas ódio era um sentimento, e no momento eu me encontrava vazia, incapaz de realmente sentir algo. As batidas continuavam a bombear sangue para o resto do meu corpo, mas falhava no transporte do que eu mais precisava no momento. Calor. Eu me sentia fria, por fora e por dentro. Fria como ele, e por um breve e louco segundo, desejei que meu coração não precisasse bater, assim como o dele. Mais do que isso, desejei poder simplesmente virar pó, da mesma forma que ele.
Estranho como agora, nos prováveis últimos momentos da minha vida, a palavra “ele” apareça tanto em minha mente. O clichê estava certo afinal de contas: relembramos nossa vida antes do fim. O que me perturba é pensar em quando exatamente minha vida se resumiu a isso. A ele.
Ele, a quem eu jurei odiar até o fim. Ele, que nunca deixou de me amar mesmo quando eu só pisava constantemente em seus sentimentos. Ele, a última pessoa do mundo a qual eu pensei ser capaz de amar algum dia.

Simplesmente ele.

Oh, como é fácil admitir isso agora. Tão dolorosamente fácil. Como pode o destino ser tão cruel a ponto de, quando eu finalmente me vejo capaz de admitir o que no fundo eu sempre soube, arrancar de mim aquele que foi capaz de curar meu coração? Ele merecia ter ouvido essas três palavras mais vezes. Eu te amo. Oh céus, eu te amo!
As lembranças dos últimos meses começaram então a me atingir com força total. Se esse é o fim, ao menos quero ir tendo esses momentos em mente. A forma como ele, da maneira mais improvável e inesperada, forçou a entrada do meu coração, me dominando de corpo e alma.

Meu nome é , e essa é a minha história.

 

xX



Capítulo 1 - Meet .


Seis meses antes, L.A., Califórnia:
 


’s POV
O barulho ritmado das minhas botas contra o chão era o único som audível no corredor deserto. Não importa quantas pessoas estavam por trás das portas trancadas pelas quais eu passava em meu caminho para o subsolo – aquele lugar sempre me parecia deserto, como se houvesse sido construído propositalmente para lembrar a todos o lema principal, embora não oficial, da Organização: cada um por si. Vivam juntos, morram sozinhos. No fim vocês estão todos sempre sozinhos.
Por mais brega que aquilo fosse, aparentemente algo que um maníaco depressivo sem muita criatividade diria, eu precisava concordar com aquela idéia. No nosso trabalho, precisávamos manter em mente que o importante era sobreviver e continuar lutando pela causa. Vivíamos com aquele peso sobre nossas cabeças, o peso de nossas próprias vidas. Se tentássemos carregar também o peso da vida dos colegas de trabalho, a carga seria muita e despencar seria inevitável. Precisávamos aceitar o conceito de que na Organização não existiam amigos.
Bom, “precisar” não é necessariamente equivalente à “pôr em prática”. O fato é que eu tinha amigos nesse inferno. Amigos de verdade. Minha família. Minha única família. Eu posso não ser muito boa em admitir isso, mas existem pessoas nesse mundo com as quais eu realmente me importo.
Provavelmente já ficou óbvio que minha vida não é a comum para uma garota tão nova como eu. Na verdade, se pensarmos bem, não é uma vida comum para ninguém. Afinal, quantas pessoas você conhece que trabalham em uma organização de combate a vampiros? Como se isso já não bastasse, quantas dessas pessoas são, na verdade, híbridos?

Não estou fazendo muito sentido, estou? Bom, é que é difícil explicar.

O que você diria se eu te dissesse que, por trás desse mundo ensolarado no qual nós vivemos, há um submundo existente na noite onde vampiros, magia e profecias existem? Um mundo que só não dominou o nosso até hoje graças à existência de um grupo auto-denominado Organização? Você acreditaria?

Bom, se você quer mesmo continuar acompanhando minha história, é melhor acreditar, pois sim, tudo é real. Emocionante, não?

Não. Pelo menos não no meu ponto de vista.

Você deve estar se perguntando como uma garota de 21 anos caiu no meio dessa disputa milenar entre humanos e vampiros. Bom, fato é que eu não “caí” no meio disso. Eu nasci no meio disso. Como eu já disse, eu sou uma híbrida.
Pode procurar no dicionário. Híbrido: proveniente de duas espécies diferentes. Há também a definição que diz “contrário às leis da natureza”, mas essa eu prefiro ignorar para não me irritar. O que importa é que é isso que eu sou, uma híbrida. Fruto da união de duas espécies distintas. No meu caso, fruto da união de um vampiro com uma humana.
Oh, não se engane, vampiros não procriam como humanos. Ou pelo menos não deveriam. Já está mais do que provado que vampiros são estéreis. O fato de eu existir se deve apenas há uma profecia, ou pelo menos foi isso que Roger Miles, presidente da Organização, me disse. Segundo ele, havia essa profecia a qual previa que um dia um vampiro seria capaz de engravidar uma humana, gerando a criança que seria responsável pelo extermínio de todas as criaturas da noite.

Prazer, meu nome é , caçadora de vampiros.

Deixe-me falar umas coisas sobre as criaturas em questão, os vampiros, já que as lendas são tantas que talvez você tenha uma idéia errada sobre eles. Em primeiro lugar, sim, eles tem presas. Caninos que, quando eles querem, podem ficar extremamente alongados e capazes de furar com facilidade o seu pescoço se você tiver a infelicidade de cruzar com um deles. A lenda sobre o sol também é real, eles pegam fogo quando submetidos à luz solar direta. O melhor jeito de matá-los é mesmo com uma estaca no peito, apesar de que fogo e decapitação funcionam igualmente bem para transformá-los em pó. Tudo isso é verdade.
Mas vamos falar do que não é. Pra começar, nenhum vampiro que eu conheço tem sede cega de sangue. Claro, eles são cruéis e matam humanos, mas uma gotinha de sangue não faz com que eles percam a cabeça ou algo assim. A sede deles é como a fome dos humanos: uma pessoa é capaz de ver um prato de comida e não avançar nele, certo? Mesmo que esteja com fome, um ser humano é capaz de se controlar se quiser. Um vampiro também.
Outra coisa que eu acho importante mencionar é a temperatura corporal deles. Ok, eles são frios, mas não como um cadáver normal. Quero dizer, qual é, por mais que muitos digam o contrário, eles têm sangue. Sangue produzido a partir do sangue que ingerem dos humanos. Não é nem de longe o suficiente para dar a eles uma temperatura humana, mas também não é como se eles tivessem acabado de sair de uma geladeira, como algumas pessoas acreditam. A pele deles geralmente tem temperatura ambiente, em torno de 25 graus.
Outra coisa sobre a pele deles: não é difícil de cortar. Não é dura ou nada assim. Na verdade, vampiros são tão macios quanto humanos. De fato, só o que os distingue fisicamente de humanos, além da temperatura e leve palidez, é o fato de o coração não bater. Eles até respiram, por força do hábito. E dormem. De dia, mas dormem.

As pessoas devem pensar que eu me sinto mal fazendo o que faço. Quero dizer, bem ou mal, vampiros fazem parte de quem eu sou. O problema é que eu não sinto isso. Na verdade, se não fossem pela força sobre-humana e a velocidade impressionante, ambas características vampíricas, eu seria só uma garota comum. Quero dizer, eu preciso de oxigênio, eu produzo calor, eu sobrevivo comendo comida humana (embora, obviamente, eu nunca tenha me interessado o suficiente para experimentar sangue), e sim, eu envelheço. Fiz aniversário semana passada e, é, eu pareço ter a idade que tenho. Se vou parar de envelhecer ou se serei imortal, ainda é cedo pra descobrir. E por algum motivo que me foge à compreensão, não me sinto muito inclinada a me jogar de um precipício ou enfiar uma espada no peito para ver se sobrevivo.

Não sei se já deu pra perceber, mas o sarcasmo é minha característica marcante. Considere um vício.

Mas ninguém pode me culpar por isso, na verdade. O sarcasmo, o mau-humor, a irritabilidade... De que outra forma uma criança que cresceu como eu cresci poderia se tornar? Quero dizer, é difícil se tornar uma criatura alegre e saltitante quando, no seu aniversário de sete anos, diversos membros da Organização te chamam para uma sala e te contam quem você é, qual sua missão e, principalmente, quem são seus pais. É, eu tinha sete anos quando o peso do mundo foi jogado nas minhas costas. Já havia sido ruim o suficiente crescer sem pais nesse lugar depressivo, nada como a responsabilidade pela vida de milhões de pessoas para fazer uma criança se sentir ainda pior.
Eu nunca conheci meus pais, o que, na realidade, talvez tenha sido uma benção. Afinal, meu pai era um vampiro, que, segundo dizem, tentou me matar quando eu era um bebê.
Minha mãe era uma moça comum, que se apaixonou por um vampiro. Roger e os outros me contaram, ao longo do tempo, que o vampiro em questão a iludiu, fingiu amá-la... Quando ela engravidou, ele já havia fugido, deixando a coitada sozinha e grávida de um bebê muito mais forte do que ela.
A gravidez da minha mãe foi certamente complexa. Mas, como diria um livro de biologia que eu uma vez li, o bom parasita não mata seu hospedeiro. Eu adoeci minha mãe, mas não a matei. Não, foi ele quem a matou.
Depois que eu nasci, ele voltou. Minha mãe havia sido acolhida pela Organização, que havia cuidado dela até meu nascimento. Ela estava fraca e eu era apenas uma recém-nascida quando ele, meu pai, invadiu a sede da Organização uma noite, querendo matar a ela e a “aberração” que ela havia gerado. Aparentemente, os vampiros também consideram minha existência como sendo uma ameaça.
Dizem que minha mãe morreu tentando me proteger. Os outros caçadores da Organização só chegaram a tempo de me salvar, e o mataram.
Por mais fria que eu por vezes seja, por mais duro que meu coração tenha se tornado, é difícil não me sentir culpada pela morte da minha mãe. Além de enfraquecê-la, eu ainda a impedi de fugir de outra maneira, já que ela escolheu tentar salvar a minha vida. Eu sei que não faz muito sentido me sentir culpada, mas mesmo assim...
Eu não devia estar pensando nisso de novo. O sucesso do meu trabalho depende do quão forte eu posso me manter. Esse assunto sempre foi minha fraqueza.
Determinada a manter minha mente longe de tais pensamentos, apressei o passo em direção às escadas que me levariam ao subsolo. Desci correndo, desesperada pela distração que só meu trabalho poderia providenciar.
- Já de volta? – perguntou uma voz agradável e acolhedora, assim que adentrei a grande sala na qual ele me esperava. Não pude evitar sorrir um pouco – Achei que fosse demorar mais.
- Foi mais entediante do que eu pensava. – respondi, dando de ombros e me largando em uma das poltronas – As coisas ultimamente andam irritantemente repetitivas, Gilbert.
Ele olhou para mim com um meio sorriso e balançou a cabeça em sinal de rendição à minha eterna impaciência. Gilbert era a coisa mais próxima que eu já havia tido de um pai. Foi ele quem me ensinou a lutar, a identificar demônios, a sair de situações limite... Por mais que na maioria das vezes eu trabalhasse melhor com o improviso, nunca pude negar que devia muito a Gilbert. Ele estava sempre lá por mim, me ajudando, sendo paciente mesmo quando só o que eu fazia era desobedecer todas as suas ordens. Sempre tive um certo impulso por quebrar regras, era mais forte do que eu. Mas mesmo assim ele me amava, eu sabia disso. Me amava como a filha que ele nunca teve.
- Quantos? – ele perguntou simplesmente, pegando sua xícara de chá da mesa na qual analisava alguns livros e vindo sentar na poltrona de frente para a minha.
- Três vampiros. Recém-criados, eu tenho certeza, a inexperiência era óbvia. Não foram nem de perto minha melhor luta. Mas tenho certeza que eram eles que andavam matando as pessoas no bosque. Caso resolvido. – suspirei, entediada.
- Uma coisa a menos com a qual nos preocupar. – Gilbert disse, com seu sotaque inglês forte.
- Já achou substitutos para George e Britanny? – perguntei, sem me importar muito. George e Britanny eram respectivamente nossos ex-cientista e ex-auxiliar de magia, que haviam desistido do emprego alguns dias atrás, o que não era lá muito surpreendente. Os membros da minha equipe pessoal dentro da Organização estavam sempre se demitindo, afinal, trabalhar diretamente comigo era claramente perigoso. Os únicos que nunca haviam desistido eram , e Gilbert, respectivamente meu especialista em armamentos, minha especialista em magia e meu mentor. Minha família.
- Já. – respondeu Gilbert, limpando os óculos na barra da camisa – e estão na outra sala com eles. quis interrogar pessoalmente a nova assistente. – Gilbert sorriu, um sorriso bondoso e paternal que era sua marca registrada – Quer conhecê-los?
- Que venham os novos calouros! – disse eu, entediada. Observei Gilbert pegar o telefone e discar para a outra sala enquanto estendia a mão para a garrafa na mesinha ao lado da poltrona. Whiskey. Longe de ser meu favorito, mas Deus sabe o quanto eu precisava de álcool naquele momento. Nunca fui muito boa em lidar com as pessoas, principalmente com pessoas novas.
- Você voltou! – disse , adentrando a sala poucos segundos depois, puxando uma garota loira pela mão. Aparentemente ela havia aprovado a nova assistente.
- Surpresa? – perguntei, levantando uma sobrancelha e sorrindo um pouco, dando um gole na garrafa em seguida. Senti o líquido queimar minha garganta como uma forma estranha de conforto.
- Não. Você é a , você sempre volta. – ela sorriu, puxando a garota loira um pouco, de forma que ela saiu de trás dela. Tímida, pelo visto. Bom, melhor do que uma tagarela irritante – Essa é a Tara. É a minha nova ajudante.
- Oi. – disse a garota, sorrindo timidamente.
- Hey. – respondi, balançando a cabeça em sinal de cumprimento. Desviei meus olhos para os dois garotos que acabavam de adentrar a sala.
- Oi, . – disse , animado – Esse é o novo rato de laboratório, .
- É um prazer trabalhar com você, Srta. . Ouvi muito ao seu respeito. – disse o nerd, aparentemente animado.
- Metade provavelmente é mentira. E a outra metade provavelmente é bem mais interessante do que te contaram. – respondi, com um sorriso convencido – E odeio ser chamada de senhorita. Chame-me de . Ou , ou , como preferir. Não me importo muito.
- Claro, Sen... Quero dizer, . – disse ele, com um sorriso deslumbrado. Optou pelo apelido, o que demonstrava, se não coragem, um pouco de ousadia. Talvez eu estivesse errada. Talvez ele durasse mais do que uma semana.
- Bom, é um prazer enorme conhecer vocês. – eu disse enquanto me levantava, tentando inutilmente manter o sarcasmo longe da minha voz – Mas se não se importam, preciso voltar para o meu quarto. Vejo vocês amanhã, se durarem até lá. – conclui, tentando não rir das caras de espanto dos novatos. Dirigi-me até a porta que me levaria as escadas para o nível superior, mas no entanto algo me fez parar assim que fechei a porta atrás de mim. Fiquei apenas ali, parada, ouvindo as vozes do lado de dentro.
- Ela é sempre é assim? – ouvi a voz de perguntar, um pouco inseguro.
- Não, geralmente é pior. – respondeu , em tom leve – Ela deve ter gostado de vocês.
- Não seja tão duro com a , . – disse , com a voz fraca – Ela passou por muita coisa. Muito mais do que qualquer um de nós.
- tem razão. – ouvi a voz de Gilbert, e quase fui capaz de senti-lo limpando os óculos na barra da camisa, coisa que sempre fazia – Tara e , vou pedir que sejam pacientes com a . Ela sempre teve que lidar com muita coisa, mas os últimos meses andam sendo especialmente difíceis para ela.
- E-eu entendo. – a garota nova, Tara, gaguejou – Não deve ser fácil ter o peso do mundo nas costas.
- Desde pequena. – Gilbert suspirou – Ela sempre foi forte, de qualquer forma. Reclamava, claro, mas sempre deu valor aos treinos, a missão. Amadureceu rápido demais. Mas ultimamente as coisas, por incrível que pareça, pioraram.
- Eu avisei desde o começo que a presença dele aqui não resultaria em nada bom. – disse, um pouco irritado – Mas ninguém me ouviu. Nós podíamos ter evitado a facada, mas vocês deixaram ele ficar por aqui, confiaram nele. Deixaram ela se envolver, e agora ela o perdeu para sempre, mesmo ele ainda estando por aí, perto, na cidade vizinha. Tocável. Dói menos perder algo por não haver outro jeito do que precisar todos os dias, todas as horas lutar para se manter longe por ser a coisa certa a fazer.
- Espera, do que vocês estão falando? – perguntou , confuso – De quem vocês estão falando?
- . – disseram , Gilbert e , em uníssono.
Meu coração se apertou no peito. Só a menção daquele nome fazia meu coração voltar a sangrar.

Eu precisava ir embora dali.

Meu pés finalmente voltaram a se mover e eu corri escada acima, agradecendo aos céus por a parede da sala na qual os outros estava ser à prova de som, fazendo com que o barulho frenético de meus pés sobre os degraus passasse despercebido.
Eu estava com raiva. Quem eles pensavam que eram para saírem contando essa história para os outros? Aquela era a minha dor. O meu fardo. Algo que eu queria carregar sozinha. Algo que ninguém mais devia saber.
Eu tinha que me afastar daquela sala. Eu não queria ouvir. Sabia que eles iriam começar a explicar toda a história, mas mesmo assim não tive forças para simplesmente arrombar aquela porta e impedi-los de me exporem daquela maneira. Fazer isso mostraria a eles o quanto eu me importo. O quanto ainda dói.

O quanto eu sou fraca.

A única coisa que restava da minha dignidade era o fato de ter conseguido esconder o que a partida de havia feito comigo. Falhei em esconder que o amava, mas pelo menos poderia fingir ser forte.
, ou , como era conhecido pelas lendas, havia sido meu primeiro, e único, amor. É, até uma pedra de gelo como eu, criada do jeito que eu fui, era capaz de amar. Infelizmente, porém, o primeiro e único homem que eu amei não era um homem.

era um vampiro.

Em minha defesa, porém, posso dizer que não era um vampiro comum. Não só pela idade avançada, que o fazia mais forte que os vampiros comuns, mas também pela personalidade. , em outras épocas, havia sido um vampiro cruel, que junto com seu bando, formado por e Coraline, havia entrado para a história como um dos vampiros mais perigosos que já andou sobre a terra.
Porém, em algum ponto de sua vida, a medida que os anos foram se passando, foi se redimindo. Aos poucos, quando a sede de sangue e violência, que cega qualquer vampiro nos primeiros cem anos, foi passando, se arrependeu do que fizera. Foi aos poucos reencontrando sua humanidade, pois quando o demônio dentro dele enfraqueceu, o homem bom que ele era lutou pelo controle. E o obteve. se redimiu e passou a lutar pela humanidade.
Foi em meio a essa luta que eu o conheci. Levou tempo até que eu aceitasse sua natureza agora bem intencionada, já que com os anos eu havia desenvolvido uma raiva natural dos vampiros. Mas por fim eu, e os demais membros da Organização, o aceitamos. E ele passou a lutar ao nosso lado.
Após superar o preconceito inicial, não levou muito tempo até que eu me apaixonasse por ele. era uma criatura apaixonante por natureza, bom, corajoso, bonito... E me amava. Oh, eu nunca duvidei disso. Mas como sempre na minha vida, a felicidade não podia durar muito tempo.
Eu havia me acertado com há no máximo algumas semanas quando eles chegaram à cidade. e Coraline vieram para cá em busca de .
Na verdade, só Cora tinha esse objetivo. , mais conhecido como , apenas quis acompanhar a namoradinha. Ele e visivelmente não se gostavam, já que Cora demonstrava uma certa obsessão por seu criador. Sim, transformou Cora em seus anos obscuros, e Cora transformou pouco tempo depois. Esse é um fato que eu nunca consegui suportar. escolheu Cora há anos atrás. Escolheu ela para fazer companhia a ele. Sugou seu sangue e a ofereceu o dele para que ela se transformasse no que ele era. Nunca pude evitar sentir um certo ciúme disso.
O porquê Cora transformou quando obviamente amava eu não sei dizer. Talvez porque aparentemente, nunca a amou. , por outro lado, parecia amar.

Se é que aquela criatura repulsiva é capaz de amar alguém.

Eu odeio e Coraline. Odeio porque, graças a eles, eu perdi . Quando os dois chegaram na cidade, eu achei que não haveria problema. me ajudava a lutar contra eles, já que eram ambos tão fortes quanto meu vampiro, pois também tinham idade avançada. Mas até então, eu não sabia que Cora era ainda mais perigosa do que parecia.
Quando humana, a vadia havia sido uma feiticeira poderosa. Ao ser transformada em vampiresa, seus poderes apenas aumentaram. Ao ver que não conseguiria de volta por meios normais, Cora apelou para a magia, lançando um feitiço que apagou parte da memória de . A parte referente a época posterior ao seu arrependimento.

Ela lançou o feitiço após a primeira – e única – noite na qual eu dormi com ele.

Nunca vou me esquecer como foi acordar sozinha naquela manhã. Também nunca vou me esquecer o fato de posteriormente descobrir que havia se juntado a Cora e , tendo esquecido que havia se transformado em alguém bom e não mais andava com aqueles dois. E então eu passei a ter que enfrentá-los sozinha, por diversas vezes lutando contra o monstro no qual se transformara o homem que eu amava.
Após algum tempo, os feiticeiros da Organização, todos juntos, acabaram conseguindo restaurar as memórias de e lacrar os poderes de Cora. Infelizmente, conseguiu escapar, levando a vampiresa enfraquecida consigo. Dizem os rumores que, por algum motivo, os dois acabaram se separando, mas eu nunca me interessei em saber o porquê. Estava envolvida demais em meu próprio drama.
Tudo o que aconteceu abalou mortalmente minha relação com . Não dava para voltar de onde paramos, não dava para fingir que nada havia acontecido, mas mesmo assim eu quis tentar. Mas ele não conseguia. Não conseguia nos encarar e lembrar das coisas que fez, das pessoas que matou... Sendo assim ele foi embora, lutar em uma cidade próxima, criar sua própria organização de combate a vampiros.

Aquela foi a primeira e última vez que eu chorei em 14 anos. A primeira vez desde que eu descobri qual era a minha missão.

A primeira e também a única. Mesmo agora, sentindo as lágrimas lutarem para sair, eu me mantinha forte. Eu não queria chorar. Chorar pra mim era fraqueza, por mais que eu entenda que a fraqueza real era meu medo de chorar. Eu jurei não chorar mais, e eu ia cumprir. Havia me transformado numa criatura ainda mais fria, meu coração havia se tornado uma pedra ainda mais dura, e era assim que eu planejava manter as coisas. Não permitiria que o choro derretesse a parede gelada que eu havia criado ao meu redor, assim como não permitiria que meu amor por , que teimosamente se recusava a morrer, me aquecesse a ponto de converter meu gelo em lágrimas.
Chegando ao meu quarto, me atirei em minha cama, encarando o teto. Pela segunda vez em menos de meia hora, eu havia deixado que pensamentos proibidos se apossassem da minha mente.

Minha mãe e – Meus dois pontos fracos.

Fechando os olhos com força, eu rezei para qualquer deus que me ouvisse não permitir que existisse um terceiro. Mas eu já deveria saber, na minha vida nada nunca saía como eu queria.
’s POV - OFF

Xx

A garota não podia imaginar, mas não era a única em Los Angeles, Califórnia, a relembrar os acontecimentos de meses atrás naquela noite.
Um BMW preto cruzava os limites de L.A. naquele mesmo momento, trazendo de volta para a cidade um vampiro que jurara nunca mais voltar àquele lugar. O lugar que tirara dele tudo o que tinha.
Dirigindo com uma mão e segurando com força a garrafa de Vodka na outra, sorria de forma amarga. Ele estava de volta. De volta para tirar de seu peito aquele peso horrível. O peso de quem havia perdido tudo. Sabia que não podia ter sua vida de volta, mas conhecia uma forma de aliviar sua fúria: vingança.

Ele estava de volta. De volta para matá-la.


Capítulo 2 - Meet


’s POV

Rússia, dois meses antes.
- Por que você não esquece isso tudo de uma vez? – a ouvi perguntar, em um tom que beirava o desespero.
- Esquecer, Cora? Como pode me pedir que esqueça? – retruquei, sentindo a ira se apossar de mim – Depois de tudo o que ela fez contra nós? Contra você? Como espera que eu simplesmente esqueça e siga em frente?
- O que passou, passou, . – o olhar de Coraline era duro – Eu a odeio, você sabe disso. Mas sei que não há brechas para chegar nela. Então por favor, esqueça aquela mestiça!
- Não até ela estar morta. Não até eu livrar o mundo de .
- A morte dela não mudaria nada. – os olhos de Cora continham um brilho de conhecimento que estava distante de mim. Era como se ela escondesse algo que só ela sabia por trás daquelas palavras.
- Eu sei que não trará seus poderes de volta, mas...
- Eu não estou falando disso. – ela me interrompeu, cobrindo a distância que nos separava com dois passos delicados e colocando uma das mãos em meu rosto – E no fundo você também sabe. Desconfio que sabe desde o início, mas se recusa a aceitar. – eu não sabia do que ela estava falando, mas a expressão perturbada no rosto de Coraline me preocupava – Você está obcecado por ela, . E já faz tempo.
- Eu quero matá-la. – respondi, como se aquilo pudesse justificar a verdade nas palavras de Cora – Ela nos venceu. Nos fez fugir com o rabo entre as pernas de Los Angeles. Eu tenho um orgulho a manter, e uma vingança a cumprir.
- Você não vê que isso está te destruindo? Nos destruindo? – o tom na voz de Cora era de alguém que implorava – Tudo que eu peço é que você pare de deixar a lembrança dela ficar entre nós dois.
- Nada é capaz de ficar entre nós dois. – eu disse, agora desesperado – A mestiça está do outro lado do planeta, Cora. Ela não pode fazer nada para nos separar.
- Pode. – disse Coraline, convicta – Pode porque você não a deixou do outro lado do planeta. Você a trouxe conosco aqui. – ela tocou levemente minha testa – Mesmo a quilômetros de distância, ela nos afasta um do outro porque você não a esquece! – o tom de Cora se tornara frustrado – Ela é tudo o que você pensa, tudo o que você vê. Acredite, , eu sei, eu vejo. Meus poderes podem ter me deixado, mas minha intuição não. Eu quase posso vê-la, flutuando ao seu redor, rindo. Sempre presente, sempre com você. Você a leva aonde quer que você vá, e eu já não posso conviver com isso.
- Você está errada. – eu disse, com mais certeza do que sentia – Eu penso nela como penso em qualquer vítima em potencial. Quando eu me livrar dela, os pensamentos irão embora. – era o que eu mais desejava. Matá-la de uma vez e arrancá-la de minha mente, local onde ela se alojara contra a minha vontade. Era o único jeito, a única maneira. Eu tinha esperanças de que se ela não existisse mais, a inexplicável obsessão iria com ela.
- Não irão. – Cora negou com a cabeça – Já terá ido longe demais. Até lá você já estará ainda mais fundo. Será que você não percebe? Você está se afogando cada vez mais na existência de . Cada vez mais fundo, . Eu olho pra você e eu a vejo refletida em seus olhos, escapando por seus poros, misturada com o seu sangue.
- O que você quer que eu faça? – foi tudo o que eu consegui dizer. Não tinha forças nem argumentos para contrariá-la.
- Esqueça-a. Esqueça essa vingança. Pode fazer isso por mim?
Eu apenas assenti com a cabeça e a abracei. Mas alguma coisa no abraço de Cora deixou claro para mim que ela não acreditara no que eu dissera.

Para ser totalmente honesto, nem eu acreditava.


Xx

Acordei com uma dor lancinante na cabeça. Ressaca. Nem vampiros estão livres dessa praga.
Encarando o teto de pedra da cripta na qual eu me escondera para passar o dia, analisei o sonho que acabara de ter. Era a milésima vez que sonhava com aquela conversa que havia tido com Cora, pouco antes de ela me deixar, dizendo que não podia mais conviver comigo. Segundo ela, cada vez mais eu me fechava para o mundo, consumido pela idéia de me livrar da caçadora de vampiros mestiça. Disse que eu não lhe dava mais atenção, e então me deixou.

E meu ódio por aumentou mais ainda.

Era culpa dela. se metera em minha mente, em meus sonhos, chegando a um ponto que nada mais passava por minha cabeça além da idéia de livrar o mundo daquela criatura. Tal como perfume barato, entrar em contato com te deixava impregnado com sua presença, como um veneno que se espalha rápido e te intoxica antes que você perceba. Ela me intoxicava. Eu precisava me livrar dela.
Com um olhada rápida para o relógio, vi que já eram oito horas da noite. Havia dormido demais, já devia estar rondando a cidade para exterminar qualquer vampiro que ousasse perturbar a relativa paz que ela tentava manter em L.A.
Não demorei para encontrá-la em um beco, lutando sozinha contra dois vampiros recém-criados. estava sempre sozinha. Ao contrário dos outros caçadores da Organização, ela não saía em equipe. Ajuda era inútil para um ser com força sobre-humana como ela, fator que firmava mais ainda seu posto de melhor caçadora.
Oh, e como ela se orgulhava desse posto. Eu pude perceber claramente nas vezes nas quais nos enfrentamos. O queixo erguido, os movimentos confiantes, as provocações. Ela era irritantemente convencida, e eu não podia negar que ela tinha motivos para tanto. Forte, excelente lutadora, admirada por todos... E bonita.
Eu admito que é bonita. Mas não é apenas o rosto de anjo e o corpo perfeitamente definido que a tornam atraente. É algo no jeito que ela olha e sorri, com uma certa malícia natural por trás do mais simples dos gestos. É algo no jeito com que ela se move, com uma graça felina, como se fosse uma pantera. Eu não consigo definir o que é, mas a diferencia dos outros humanos.

Provavelmente porque ela é só meio humana.

Observei-a exterminar mais dois de minha espécie com paciência e até mesmo um pouco de tédio. Não é muito divertido assistir a uma briga da qual você já sabe quem será o vencedor. Não que não seja interessante de se ver em ação, com a graciosidade e a fúria de uma gata selvagem, mas os dois adversários claramente não estavam à altura. Em menos de dois minutos, os dois vampiros eram pó.
Percebi exatamente o momento no qual se deu conta de minha presença. De costas para mim, seu corpo se enrijeceu e pude ouvi-la prendendo o ar enquanto seus dedos se apertavam mais fortemente contra a estaca que carregava.
- Você voltou. – ela disse, com a voz fria e indiferente. Mas eu podia sentir o ódio por trás daquela aparência calma. me detestava honestamente. Atribuía a mim e a Cora a perda de seu precioso . Sinceramente, penso que fizemos a ela um favor.
- Voltei. – respondi, simplesmente – Precisava terminar algo que comecei.
- Engraçado... – disse ela, voltando-se para mim. Seu olhar era tão frio que teria parado meu coração, se ele ainda batesse – Eu também tenho algo a terminar. Envolve eu, você, e essa estaca.
- Uh, sempre desconfiei que você era chegada em sadomasoquismo, caçadora. – eu disse, sorrindo meu sorriso mais safado.
O grunhido irritado que escapou de seus lábios era tudo o que eu precisava para saber que havia alcançado meu objetivo. estava irritada.
Ela se lançou sobre mim com tal agilidade que um humano não conseguiria se desviar a tempo. Agradecido mais uma vez por meus reflexos de vampiro, bloqueei a primeira investida da caçadora no momento certo.

E então nossa dança começou.

Cada golpe dela era respondido com um bloqueio igualmente poderoso da minha parte, e vice-versa. Eu não tinha vergonha de admitir que aquela era uma luta entre iguais, assim como não tinha vergonha de, tecnicamente, estar batendo em uma mulher. Ela podia se defender, e eu nunca havia sido machista o suficiente para considerar mulheres como seres frágeis ou inferiores. Eu sou um vampiro, não um babaca.
Não sei por quanto tempo lutamos naquele beco. Era algo tão natural, tão comum entre nós dois, que eu de fato me divertia com aquilo. Quando se tem cento e trinta anos, se torna difícil arranjar um oponente à altura, como era. Eu quase perdia a vontade de matá-la quando me lembrava desse fato.

Quase.

Algum tempo e muitos golpes depois, nós paramos, cada um encostado em uma parede do beco, de frente para o outro, ambos cansados demais para continuar. Sim, vampiros se cansam. Mais dificilmente que humanos, mas mesmo assim.
- Vou te dar cinco minutos pra se recuperar, caçadora. – eu disse, minha respiração desnecessária ofegante. O velho hábito de respirar era algo difícil de superar.
- Como se você não estivesse igualmente cansado, vampiro. – ela retrucou.
Não senti necessidade de responder, então apenas ficamos parados, nos encarando com raiva por alguns minutos. Até que ela quebrou o silêncio, a voz baixa, porém clara:
- Por que você voltou?
- Você sabe. – respondi, no mesmo tom.
- Sei? – ela perguntou, um sorriso cruel nos lábios enquanto os olhos brilhavam com malícia – Me deixe pensar... Foi porque a Cora finalmente caiu em si e percebeu que estava perdendo tempo com um lixo feito você? Não que ela mereça mais, mas não é de se espantar que depois de ver novamente ela tenha sido forçada a comparar.

Sempre se podia contar com para remexer naquela ferida.

- Não tenho certeza se ela foi a única fazendo comparações. – respondi, sentindo a raiva borbulhando dentro de mim – Soube que seu precioso também largou você. Nunca passou pela sua cabecinha metida que talvez a temporada que ele passou conosco tenha servido pra mostrar a ele a perda de tempo que era ficar com uma garotinha como você enquanto existem mulheres como Coraline no mundo?
Pude perceber que a havia atingido assim que as palavras deixaram minha boca. A dor nos olhos de era gritante, deixando claro que ela já havia considerado aquela possibilidade. Por um momento, meu lado humano sentiu raiva. Como uma garota como aquela podia ter alguma dúvida do próprio valor? Mas tão rápido quanto veio, aquele sentimento foi sufocado quando me lembrei que era isso que eu queria. Precisava explorar as fraquezas de para ter chance de vencê-la.
- Ele não teria ido embora se vocês não tivessem aparecido. – ela disse, visivelmente sem perceber o quão exposta aquelas palavras a tornavam – Ele estaria aqui agora se vocês não existissem. Eu não posso consertar o fato de ele não estar aqui, mas quanto a sua existência... – ela girou a estaca na mão – Isso eu posso mudar.
- Você também tirou Coraline de mim. Então não pense que é a única usando raiva como combustível por aqui. – respondi, olhando nos olhos de . Ao contrário da frieza que encontrara neles mais cedo, só o que via agora era fogo, ondas de lava ameaçando explodir e consumir tudo o que visse pela frente.
- Acha que estamos empatados então? – ela perguntou, o desprezo na voz claro como água.
- Não. Você tirou de mim uma companheira de séculos. Eu só te separei do seu queridinho do momento.
- Eu! – ela riu, irritada – Por que você fica dizendo que EU separei vocês? Eu estava aqui em L.A. o tempo todo, tentando concertar a bagunça que vocês fizeram. O que EU tenho haver com o momento impressionante de clareza que a Cora teve ao te largar?
Inocente. No fundo, era isso que era. Pouco mais que uma criança, com 21 anos, que por mais assombrada que fosse com seu passado, presente e futuro, por mais endurecida que houvesse se tornado com a vida que levava – vida essa que não escolhera – eu sabia que era isso que era. Por mais maliciosa que ela soubesse ser, era inocente pra muitas coisas que ela sequer podia imaginar. Ela não tinha compreensão plena do sentido real da palavra “obsessão”.
E eu quase expliquei. Cheguei a abrir a boca para dizer que o motivo era ela. Que, por alguma razão que me fugia à compreensão, ela era tudo que eu pensava, sentia, sonhava. Era o rosto dela a única coisa que eu via quando bebia a ponto de esquecer meu próprio nome. Mas eu me controlei a tempo de evitar que minha confusão mental fosse traduzida em palavras. Saber daquilo daria a ela poder, poder esse que a fortaleceria o suficiente para me destruir.
Sendo assim, fiz a única coisa que podia distraí-la o suficiente para fazê-la esquecer da resposta que pretendia obter de mim: a ataquei. E lá se foram mais alguns minutos de luta equilibrada.

Foi então que a coisa mais estranha do mundo aconteceu.

Ela havia perdido a estaca após um avanço meu segundos antes, e eu a estava conduzindo com golpes na direção de uma parede, de modo a tentar encurralá-la, quando, ao caminhar de costas para trás bloqueando minhas tentativas de feri-la, tropeçou numa pedra e caiu de costas no chão, me fazendo tropeçar com ela.
Lá estava eu, deitado sobre minha pior inimiga, a prendendo no chão numa posição extremamente vantajosa para mim. Seria muito fácil simplesmente quebrar o pescoço dela e me livrar de uma vez por todas daquela caçadora. Esse fora meu plano na fração de segundo anterior ao momento em que meus olhos encontraram os profundos e brilhantes de .

E por mais bizarro que possa parecer, eu quis beijá-la.

A expressão de puro horror no rosto dela deixou claro para mim que a caçadora havia percebido minhas intenções. Juntando toda a força que tinha, ela me empurrou, me fazendo voar pra trás sem resistência. Eu estava surpreso demais com meu súbito desejo para impedi-la de fazer qualquer coisa, então só a observei ficar de pé e me encarar como se eu fosse um extraterrestre ou algo assim. Ela pareceu procurar algo para dizer segundos antes de balançar a cabeça e correr para longe de mim.
Eu não tinha energia para segui-la. Estava assustado demais comigo mesmo para fazer qualquer coisa além de me levantar devagar e seguir de volta para a cripta, com apenas um pensamento em mente.

O que havia de errado comigo?

Xx

’s POV
Nojo.

Era o que eu sentia enquanto corria de volta para a sede da Organização.

Ele quisera me beijar. Eu vi aquilo em seus olhos. O que ele estava pensando, afinal? Não dava para acreditar por um segundo que fosse que aquela criatura havia pensado que eu permitiria que ele encostasse seus lábios aos meus. Será possível que ele esquecera que eu o detestava? Pior ainda, será que ele esquecera que me detestava? Ou é isso que vampiros fazem? Sei que atração física não vem necessariamente com amor, mas naquele caso era exagero. Na nossa relação nunca houvera espaço para mais nada além de ódio fervente.
A repugnância que eu sentia pela idéia começara a embrulhar meu estômago. era um assassino frio, um monstro. Nem em um milhão de anos eu deixaria que ele encostasse um dedo sequer em mim com essas intenções. Já não bastava tudo que ele me fizera passar, ainda pretendera me deixar com nojo pelo resto da vida? Vai ver essa era a idéia. Era hábito dele usar insinuações sexuais pra me deixar irritada ou sem graça. Vai ver um beijo seria sua provocação final, sua obra-prima na galeria de irritações à .
Eu entrei no prédio comercial que servia de esconderijo para a Organização e entrei no elevador, apertando a combinação de botões de andares que me permitiria ver o botão secreto que levava ao subsolo. Uma plaquinha de metal deslizou, revelando o botão.
Esperei os dois minutos, que o elevador levava para descer, com impaciência. Agora que a confusão passara e eu conseguia pensar claramente de novo, precisava contar a Gilbert as novidades. estava de volta, isso era perigoso. Um vampiro antigo e poderoso como ele tinha a capacidade de organizar os mais insignificantes em exércitos, instaurando mais caos do que o normal para Los Angeles.
Seguindo pelos corredores até a escada que levava ao QG pessoal da minha equipe na Organização, desci devagar, pensando em qual desculpa eu daria para não ter matado . Eu ficara tão nervosa com o que acontecera que meu primeiro impulso foi correr para bem longe daquele beco antes que ele tentasse de novo. Bom, eu podia dizer para todos que quem havia fugido era ele. Não seria a primeira vez.
Gilbert me recebeu com um olhar preocupado.
- Está tudo bem, ? – ele perguntou, e e , que jogavam xadrez em uma mesinha do canto, ergueram o olhar com curiosidade, ambos me olhando de cima abaixo. Ao ver preocupação no rosto deles, ao invés da habitual aprovação e atração que se seguia a essas olhadas, comecei a pensar que minha aparência devia estar bem bagunçada. Olhando rapidamente para meu próprio corpo, vi alguns arranhões e cortes obtidos na luta.
- Não. – respondi, com sinceridade – está de volta na cidade.
- ? Coraline está com ele? – foi quem perguntou, se levantando e vindo até mim apressado.
- Não, os boatos são verdadeiros, eles não estão mais juntos.
- O que ele quer aqui então? – perguntou Gilbert, confuso.
- Aparentemente, vingança. Segundo ele, eu sou a culpada pelo pé na bunda que ele levou. deixou bem claro que quer me matar.
- É melhor que você não saia para caçar sozinha nas próximas noites. – disse Gilbert, preocupado – Posso arranjar um ou dois ajudantes para formar um time...
- Não preciso de capangas. – eu disse, tentando não elevar a voz – Sei me cuidar sozinha. E sou mais do que capaz de me livrar de sem ajuda.
- , e se ele resolver arranjar capangas? – argumentou.
- Não é o estilo dele. – respondi, balançando a cabeça. Eu o conhecia. Lutara com ele vezes o suficiente para aprender bastante sobre esse vampiro – só usa capangas para planos maiores. Eu sou uma vingança pessoal pra ele. Provavelmente estou mais segura do que habitualmente. Nenhum recém criado inteligente vai se meter comigo sabendo que quer me matar pessoalmente e sem ajuda. Ele é orgulhoso demais. – como eu, eu quase acrescentei.
- Se você insiste... – disse Gilbert, mas não parecia convencido.
- Insisto. Por favor, avisem a Roger e aos outros chefes para mim. Eu preciso descansar. – dizendo isso, saí, antes que um deles pudesse me perguntar mais sobre meu encontro com . Precisava digerir o assunto melhor para poder mentir mais convincentemente.

Xx

’s POV


Eu estava sentado confortavelmente em uma sala iluminada apenas pela luz de uma lareira. A maciez da poltrona na qual eu estava não me ajudava a relaxar – eu estava ansioso. Podia sentir a presença dela perto, seu cheiro adentrava minhas narinas enquanto os passos se aproximavam cada vez mais da sala.

E então ela estava à porta.

O tecido fino do vestido vermelho-sangue que ela usava acentuava cada curva perfeita de seu corpo. Os cabelos caiam soltos, cascateando por seus ombros e balançando a cada passo que ela dava. À luz do fogo, a pele dela brilhava de maneira provocante. Só de olhar para ela, se aproximando com movimentos lentos e provocantes, sentia meu sangue correndo para a região oposta ao meu cérebro, deixando minhas calças jeans desconfortáveis com o volume.
- Você está atrasada. – foi tudo o que eu consegui dizer, meus olhos grudados no suave balançar de seus quadris.
- Estou. – disse ela, parando à minha frente – Tem algo que eu possa fazer pra me redimir? – perguntou, os olhos brilhando com a malícia habitual.
Ela mordeu o lábio inferior levemente e eu precisei me controlar para não gemer apenas com aquela visão. Sem forças para falar, afastei um pouco mais minhas pernas e a chamei com as mãos.
Ela não havia sequer me tocado e eu já me sentia mais excitado do que jamais me sentira. Eu literalmente tremia enquanto, vagarosamente, ela se aproximava ainda mais e sentava-se no meu colo, colocando uma perna de cada lado das minhas e aproximando seu rosto do meu. Por um momento nós apenas nos olhamos, e então minhas mãos, trêmulas de expectativa, tocaram cuidadosamente seus joelhos, subindo por suas coxas com cada vez mais firmeza. jogou a cabeça para trás com um gemido baixo, expondo para mim aquele pescoço delicioso. Senti meus caninos ameaçarem se alongar, e mordi meus lábios na vã tentativa de sufocar o grunhido que escapava de minha garganta. Apertei suas coxas com força, fazendo com que ela olhasse para mim.
Retirando uma das mãos de sua perna, me pus a acariciar aqueles brilhantes e macios cabelos, em seguida forçando sua cabeça a se inclinar para o lado, coisa que ela fez sem protestar, fechando os olhos e soltando um suspiro leve. Afastando seus cabelos de seu pescoço, comecei a acariciá-la com as costas da minha mão, partindo de sua orelha e descendo por seu lindo pescoço até a curva de seu seio, e dali até seus quadris. Subindo minha outra mão, ainda em sua coxa, para o outro lado de seu quadril, a puxei possessivamente para frente, mais para mim. Sem perder tempo, ela apoiou as mãos em meus ombros pressionando o quadril para frente, se esfregando contra mim. Não pude evitar o gemido torturado que emiti ao sentir seu calor na parte de mim que mais implorava por ela. Sorrindo, ela se moveu de novo, tocando meu rosto com seus dedos quentes enquanto meu olhos se reviravam para trás. O choque térmico que era sentir sua pele contra a minha apenas aumentava meu desespero para tê-la de uma vez por todas.
Sua boca encontrou o caminho de meu pescoço, enquanto eu esfregava meu rosto em seus cabelos, me perdendo em seu cheiro. Alternando entre leves chupadas e mordidas, ela subiu os lábios por meu pescoço até minha orelha.
- Diga de novo. – ela mandou, mordendo levemente o lóbulo de minha orelha.
- Eu te amo. – eu disse, imediatamente – Oh céus, como eu te amo, !
Ignorando meu gemido de protesto, ela afastou o rosto até poder olhar em meus olhos, e o sorriso em seus lábios não poderia ser definido como nada além de cruel.

Em seguida, ela desapareceu.


Acordei com um salto, sentindo que se meu coração pudesse bater, estaria acelerado no peito.
Com os olhos arregalados, levei meus dedos aos lábios em choque, sentindo meus olhos se arregalarem tanto que ameaçavam soltar das órbitas.
- Não! – foi tudo que consegui exclamar, dominado pelo pânico.
Eu não podia acreditar. Não era possível. Mas com aquela peça final do quebra-cabeças tudo fazia sentido. Como eu não pude enxergar antes? Estava óbvio o tempo todo.

Mesmo sendo errado.

Mesmo tendo o poder de me destruir.

Mesmo sendo a pior coisa que poderia me acontecer, era a verdade.

Que Deus me ajudasse, eu estava apaixonado por .



Capítulo 3 - And Life Gets Even Worse.



’s POV

Eu só posso ser muito estúpido mesmo.

Naquele meu momento de epifania, eu conseguia ver isso com clareza. Ouvia a voz de , durante meus primeiros anos como vampiro, reclamando com Cora sobre o quão inútil eu era. Uma criança irresponsável, segundo ele. A quem faltava juízo e crueldade para pertencer àquele trio.
Não que eu não fosse cruel, é claro. Mas admito que comparado à Cora ou a , antes de sua “redenção”, eu era praticamente um anjo. Lembro que só o que eu queria fazer era me divertir, aproveitar minha imortalidade, me alimentar quando tivesse vontade. Para mim sempre pareceu perda de tempo as “brincadeiras” de Coraline e , o modo como torturavam suas vítimas antes de devorá-las. Nunca tive problema em matar humanos, mas não via sentido em gastar horas e horas amedrontando-os antes.
Agora eu via que talvez estivesse certo, afinal de contas. Eu era mesmo muito estúpido. Existe estupidez maior do que se apaixonar por sua pior inimiga?
Não que eu não estivesse tentando bloquear aquela súbita compreensão. Ali, minutos após acordar do que provavelmente fora o pior e melhor sonho da minha vida, eu ainda tentava abafar o turbilhão de sentimentos conflitantes que se apossavam de mim. Eu tentava negar para mim mesmo que aquilo fosse verdade.

Inútil, na verdade. Afinal, no fundo eu sabia que não podia negar. Acho que sempre soube.

É claro que eu a amava. Muito provavelmente desde o primeiro momento no qual pus meus olhos nela. Lembro perfeitamente daquela noite, eu e Cora havíamos acabado de chegar à cidade, vindos da Inglaterra, minha terra natal, e eu saíra para reconhecer o lugar. estava patrulhando em um cemitério, devidamente armada, mas em seus lábios havia um sorriso que eu logo descobriria ser bem raro naquela garota. Um sorriso calmo, feliz. Naquela época, a relação dela com estava começando a se acertar.

Isso foi antes de Cora trazer para o nosso lado, é claro.

Depois disso só o que eu vi foi a criatura aparentemente sem sentimentos que ela se esforça tanto pra ser. Mas eu nunca esqueci aquele sorriso. Lembro que fiquei vários minutos escondido nas sombras, a observando com curiosidade. Que criatura diferente ela era! Tudo nela me chamava, me atraía. A beleza, o cheiro, a força, a coragem. Desde o primeiro momento ela monopolizou minha atenção, e eu, ingênuo, interpretei aquilo como sede de sangue, como a atração por um desafio, e mais tarde também como vingança.
Como eu saberia que aquilo era amor? Eu tinha Cora na época. Por tudo que eu sabia, o que sentia por Coraline só podia ser amor. No fundo eu tinha consciência de que ela não me amava, claro. Não, Cora era muito fria, muito egoísta para amar realmente alguém, para ser capaz de dar carinho a algum outro ser. Duvido até mesmo que o que ela sentia por fosse amor.
Mas e o que eu sentia por Cora? Na época me parecia amor. Mas se eu for totalmente honesto comigo mesmo, tenho que admitir que uma parte quase totalmente oculta de mim já vinha se fazendo essa pergunta a algum tempo. Aquilo era amor? Eu não tivera tempo de aprender muito sobre o sentimento quando vivo, e após transformado, eu passei a adorar minha criadora. Nunca antes de conhecer eu havia pensado no fato de que talvez o que eu sentisse por Coraline não passasse de adoração, gratidão, ou algo do gênero.
Debater aquele assunto internamente era inútil, no entanto. Tentar entender o passado não me ajudaria a resolver o problema no qual eu me encontrava no presente. Eu sou um vampiro de cento e trinta anos. Oh, e é claro, eu resolvi me apaixonar por uma caçadora de vampiros.

Eu devo me odiar muito mesmo.

No fundo talvez eu goste mesmo de sofrer. Desde humano, no fim do século XIX, eu sempre me senti atraído por mulheres que me machucavam. Eu era um romântico quando vivo, um poeta. Era rico, morava com os meus pais, e era o que hoje pode se chamar de um perdedor. Um nerd, tímido, sensível, sempre desprezado pelas donzelas da alta sociedade pelas quais eu me apaixonava. Eu era a grande piada dos bailes.
Foi por isso que eu me rebelei tanto quando virei vampiro. Comecei a provocar o caos em Londres, sem me preocupar em ser muito cuidadoso, fato que fazia me considerar “uma criança”. Rebeldia demais, crueldade de menos.
Com os anos aprendi bastante com , me tornei mais impiedoso. Mas lá estava Cora, pra quem meu lado humano e romântico sempre fazia aparições. Não que ela desse a mínima para minhas demonstrações de afeto. Ela era a minha companheira, alguém com quem eu achava que passaria o resto da minha vida, mas não fazia o tipo romântica.
E agora a mestiça. Essa talvez seja a pior escolha que meu coração já fez. Até as pedras da rua sabem que me despreza totalmente. Nada a faria mais feliz do que me ver morto. Bom, mais morto. E aqui estou eu, descobrindo que meu ódio por ela é na verdade amor reprimido.
Eu devia ter percebido isso antes. É claro que toda aquela ira que eu sentia por ela não era normal. Começo a perceber que toda a raiva, toda a vontade de matá-la era revolta pelo fato de querer tanto alguém que eu obviamente nunca poderia ter. Amor e ódio são coisas tão infinitamente próximas. Era por isso que eu queria matá-la. Porque ela não podia ser minha. Porque eu era forçado a vê-la, desfilando pela cidade à noite e atraindo os olhares cobiçosos de qualquer ser do sexo masculino que a encontrasse, e sabendo a todo instante que quem quer que ele fosse, tinha mais chances com do que eu.
Uma parte desesperada do meu cérebro ainda tentava gritar que aquilo tudo era só desejo. Mas não adiantava, eu sabia que não era só isso, embora desejo fosse uma grande parte daquilo. Não há um vampiro que não se sinta atraído por violência, é da nossa natureza. E com , violência não faltava. Somando-se a isso o fato de que a droga da garota é uma tentação ambulante e sexy de um jeito que devia ser proibido, só dá pra concluir que eu estou ferrado.
Ok, tudo isso está claro. A pergunta mais importante, no entanto, continua sem resposta: o que eu faço agora?
Tentar conquistá-la é um missão impossível. Talvez eu devesse seguir meus planos e matá-la mesmo. Talvez aquilo fosse o suficiente pra arrancar de meu coração. Eu sou um vampiro, eu não devia estar me sentindo assim. O que eu tinha com Cora era aceitável. O que eu sentia por era ofensivo e devia acabar.
Será que eu teria coragem de matá-la? Agora vejo que, em parte, o que me impediu naquele beco horas antes foi isso. No fundo – bem no fundo – eu não queria realmente que morresse.

Eu sou a contradição em pessoa.

Nem eu entendo mais o que quero, o que quis. Minha cabeça está confusa, e a cada minuto uma coisa diferente passa pela minha mente. Eu quero e não quero matar . Eu a amo e a odeio. Talvez eu devesse me matar.

Não, eu não estou desesperado a esse ponto.

Minha situação é ruim, mas talvez tenha jeito. Talvez quando eu conseguir organizar melhor minhas idéias tudo volte a fazer sentido. Não dá pra definir um plano com a mente embaralhada desse jeito.
Uma coisa é certa, no entanto. Seja para matá-la ou para tentar tê-la, preciso me aproximar de .

Que bom que eu sei exatamente como fazer isso.

Xx

’s POV


Uma hora da tarde. Hora de acordar.

Desliguei meu despertador meio sonâmbula e me esforcei para ficar sentada na cama sem cair para trás e dormir de novo. Meus hábitos relativos ao sono eram certamente péssimos. Dormir todo o dia às seis da manhã para acordar uma da tarde não parecia muito bom para uma pessoa normal. Mas eu tenho que passar minhas noites caçando vampiros, e, ei, eu nem sei se posso ser considerada uma pessoa.
Bom, eu certamente preciso de menos sono do que humanos comuns. Posso até ficar alguns dias sem dormir sem maiores danos. O problema é que eu gosto de dormir. E quando durmo, demoro muito a acordar totalmente.
Meia hora depois, finalmente juntei coragem para me levantar da cama e me preparar para descer. Saindo do meu quarto, tomei meu café da manhã, como sempre atrasado, que havia sido preparado por uma das cozinheiras que estranhamente gostava de mim, e segui para o nível mais baixo da sede da Organização. Isso aí, meu QG pessoal.

Que por incrível que pareça, estava vazio. Ok, aquilo era estranho.

Adentrando a sala vazia devagar, percebi a presença de ao menos uma outra pessoa ali. A nova assistente de estava folheando uma revista, sentada em uma poltrona de costas para mim.
- Ahn... Oi? – disse eu, tentando chamar a atenção da loira. Ela devia estar realmente distraída, pois ao ouvir minha voz deu um salto e se virou rapidamente na minha direção.
- O-oi. – respondeu ela, sorrindo e abaixando o olhar daquele jeito tímido que parecia ser seu traço marcante.
- Oi... Ahn... Cadê todo mundo? – perguntei à garota. Qual era mesmo o nome dela? Céus, eu preciso passar a prestar mais atenção nas pessoas.
- Os garotos estão no laboratório do segundo andar, tentando desenvolver aquela arma de raios ultravioletas. A foi junto, e o Gilbert eu não vi hoje. – respondeu ela.
- Oh, ok. – eu disse, dando os ombros. Desde que nenhum deles estivesse correndo perigo de vida, eu não tinha nada haver com aquilo.
A garota – Tara era o nome dela, claro! – apenas continuou olhando para mim como se tivesse algo mais a dizer.
- Hm... O que foi? – perguntei. Geralmente eu não me importo que as pessoas tenham medo de falar comigo, já que estou meio acostumada, mas aquela garota parecia tão completamente inocente que dava pena tratá-la mal.

Quem diria, tem um coração.

- Eu... Queria te entregar isso. – disse ela, tirando um envelope que aparentemente escondera no meio da revista e entregando-o para mim.
Para . Era tudo que estava escrito do lado de fora do envelope, em uma caligrafia bonita, mas obviamente masculina. Tive curiosidade de ver o conteúdo daquela carta, mas não podia. Literalmente. Por mais vontade que eu tivesse, não conseguia fazer minhas mãos se mexerem para abrir aquele envelope.
- Eu não consigo... – eu comecei a dizer, confusa. Tara apenas sorriu e colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha.
- Abrir o envelope? Eu sei. E-eu... Enfeiticei ele. Você só vai conseguir abri-lo na hora certa.

Ahn?

Ela deve ter percebido minha expressão confusa, porque continuou:
- A pessoa que me pediu pra te entregar isso não queria que você lesse agora. Quando a hora certa chegar, você vai saber.
- Ok... Quem escreveu isso? E por que me mandar uma carta que eu não posso ler? E a sabe que você consegue fazer feitiços desse nível? – perguntei, espantada.
- Eu prometi não revelar a identidade da pessoa. E quanto aos motivos, e-eu não sei. Eu não li a carta... Mas não se preocupe. E por favor, não conte pra ninguém sobre nada disso. É pro seu bem... Pode confiar em mim.
E eu confiava. Não me pergunte o porquê, mas não conseguia desconfiar daquela garota. Havia algo nela que inspirava confiança.
Olhei para o papel nas minhas mãos por alguns segundos. Para testar, tentei me forçar a acender meu isqueiro e queimá-lo, mas também não adiantava. Era como se algo me impedisse de abrir ou destruir aquele envelope.
- Ok, acho que não tenho outra opção a não ser aceitar o que você diz. – eu disse, a encarando. Tara mantinha um sorriso tímido – Você é uma garota muito estranha, sabia?
- As pessoas costumam dizer isso. – respondeu ela, ainda sorrindo, porém abaixando a cabeça. Descobri que, estranhamente, eu gostava daquela garota.
- Certo. Vou guardar a carta misteriosa então. – respondi, lançando a ela um raro sorriso sincero antes de refazer o caminho para meu quarto.

Xx

’s POV


- Sabe, eu sempre ouvi dizer que você era corajoso, . – o homem disse meu apelido como se fosse um xingamento – Mas não sabia que era suicida também.
Devo admitir que para um observador de fora, a situação na qual eu me metera parecia uma tentativa de suicídio. Abordar Roger Miles, presidente da Organização, no meio da rua e exigir conversar com ele na sede do pesadelo de qualquer vampiro era algo no mínimo ousado.
- Eu seria suicida se pretendesse morrer, Miles. – respondi, me acomodando na cadeira de frente a mesa dele – E você logo descobrirá que me manter vivo passará a ser sua prioridade.
- Mantê-lo vivo? Se você não tivesse me trazido até aqui com uma arma apontada pra minha cintura, eu teria te matado muito antes de chegarmos ao prédio. E agora você acha que vou deixá-lo continuar vivo após ter entrado aqui?
- Vai. – eu disse, totalmente calmo, mexendo na arma em questão distraidamente. Sempre fui um fã de armas humanas, e com algumas pessoas elas faziam mais efeito do que minhas presas – Afinal, eu sou seu mais novo funcionário.
- O quê?
- Você ouviu. Eu quero fazer parte da Organização. Quero salvar o mundo da ameaça dos vampiros. – não pude controlar o riso ao dizer a última parte. Aquilo era tão deliciosamente irônico.
- Que brincadeira é essa? Dá pra dizer logo o que quer de verdade? – Roger parecia irritado.
- Nunca falei tão sério na minha vida. Quero que me deixe fazer parte do grupinho de super-heróis que você mantém aqui.
- Por quê? Qual seu interesse nisso? Você acha mesmo que eu permitiria que um vampiro trabalhasse conosco?
- Bom, eu ouvi dizer que o lugar de está vago desde que ele foi embora. – respondi, dando os ombros.
- Ele foi uma exceção, um erro que não pretendo cometer de novo. E qual seu interesse em passar para o nosso lado?
- Tenho meus motivos. Motivos esses que não pretendo revelar. Você vai me deixar trabalhar aqui. A não ser que pretenda que descubra a verdade. – falei, com o tom mais inocente que consegui. Os olhos de Roger quase saltaram das órbitas antes de ele recuperar o controle.
- Não sei do que você está falando. – disse o homem, com uma calma quase convincente.
- Oh, eu acho que sabe. Eu não sou , Miles. Ao contrário daquele imbecil, não passei metade da minha vida preocupado em instaurar o inferno sobre a terra e a outra metade me arrependendo disso. Nunca fui tão autocentrado, sempre gostei de prestar atenção ao meu redor, de aprender mais sobre minha própria espécie, sobre o que podemos ou não fazer. E, sabe, acabei descobrindo algumas coisas que adoraria saber. Afinal, talvez explicassem uma ou outra coisa sobre ela... E deixassem claras as mentiras que andou contando para a garota desde que ela era criança.
- Você não sabe meus motivos. – disse Miles, abandonando a pose de inocente.
- Não. Mas não me interessa. Eu sei sobre o que você mentiu, e acho que isso seria o suficiente para colocar sua menina de ouro contra você. Então a não ser que você me deixe me juntar a vocês... descobrirá tudo.
- Tem uma terceira opção. Eu posso matá-lo nesse exato instante. – disse Miles, puxando uma estaca de uma gaveta de sua mesa. Mas antes que pudesse ao menos mirar, a porta de seu escritório foi aberta sem cerimônias e uma garota loira adentrou o aposento.
- Acredite, você não quer matá-lo. – disse ela, cruzando os braços e se postando ao meu lado com tanta confiança que, por um segundo, Miles pareceu incapaz de pensar em uma resposta.
- Tara? – perguntou ele, recuperando a voz e encarando a garota que até ontem parecia um poço de timidez – O que... Você... Você trabalha para vampiros agora?
- Não, eu trabalho pra essa organização. Mas não posso permitir uma injustiça. quer trabalhar aqui, quer passar para o lado do bem. Não vou permitir que ninguém faça mal a ele enquanto suas intenções forem puras.
Puras. Minhas intenções estavam longe de serem puras. Mas não contrariaria Tara agora. Não quando ela estava me ajudando.
- Desde quando vocês se conhecem? – perguntou Miles, e eu não pude deixar de sorrir.
- Eu a conheço desde que ela era um bebê, mas Tara apenas soube da minha existência hoje. Sabe, eu sempre soube que valeria a pena acompanhar a vida dos descendentes da minha irmã.
- O quê? – Miles olhava de mim para Tara, entendendo aos poucos o que eu dissera.
- Isso mesmo. Tara é a filha do tataraneto da minha irmã, Meredith. Sempre acompanhei a minha família, por curiosidade. Imagine minha surpresa quando descobri que Tara, a última da linhagem, havia se tornado uma bruxa e entrara para a Organização.
- É por isso que resolveu ajudá-lo, Tara? Simplesmente por que ele é seu parente distante? – perguntou Miles, olhando ameaçadoramente para Tara, que para minha surpresa, não se deixou intimidar. Ela podia ser tímida, mas defendia seus ideais.
- Não. Foi uma surpresa descobrir sobre , mas não foi por isso que resolvi ajudá-lo. Apenas tenho esse pressentimento... Essa sensação que eu tenho de que ajudá-lo é o que preciso fazer. E se trabalhar aqui, teremos menos um vampiro perigoso no mundo, certo?
- O que te faz pensar que eu não vou matá-lo? – perguntou Miles.
- Eu escrevi uma carta. – foi a minha vez de me meter – Carta essa que Tara já entregou para . Esse papel contém tudo o que eu sei sobre suas mentiras e como eu posso prová-las. A carta está lacrada com magia, mas no momento em que eu morrer, o lacre se desfaz e saberá na mesma hora que poderá abrir a carta. E acredite, ela fará exatamente isso. Então é melhor você começar a rezar para que eu viva por muito, muito tempo.
A expressão no rosto de Miles me dizia tudo que eu precisava saber. Ele sabia que não tinha escolha.
- Ah! – continuei, ao perceber o olhar de ódio que ele agora lançava a Tara – Acho que te interessaria saber que se algo acontecer a Tara... Qualquer coisinha suspeita... Eu farei questão de matá-lo pessoalmente. Estamos entendidos? Posso me considerar parte da equipe? – perguntei, sorrindo maldoso. Pelo visto teria que matar um ou outro vampiro enquanto trabalhasse por aqui. Não me importava com isso, nunca fui do tipo leal a própria espécie. Meu objetivo era , e se eu precisasse posar de bonzinho no decorrer do meu plano – qualquer que ele fosse – era isso que eu faria.
- Como saberei que você não pretende matar todos nós enquanto trabalha por aqui? – Miles perguntou.
- Eu posso selar um acordo. – foi Tara quem respondeu, e ambos entendemos o que ela quis dizer. Um acordo mágico era um contrato ao qual você não podia desrespeitar sem sofrer graves conseqüências.
Estendendo a mão para Miles, eu falei:
- Prometo não contar sobre suas mentiras a enquanto nosso acordo não for quebrado, e prometo não matar ninguém enquanto estiver trabalhando na Organização. – proferi, contendo um sorriso. Sendo específico daquela maneira, abri uma brecha para todos os momentos nos quais eu não estivesse trabalhando. Mas Miles não parecia ter percebido isso. Derrotado, ele apenas assentiu com a cabeça e apertou minha mão, ao mesmo tempo em que Tara colocava a mão sobre as nossas unidas e murmurava algum encantamento em voz baixa. Segundos depois, ela retirou a mão e se voltou para Miles.
- O que ele disse terá que ser cumprido agora. Te dou minha palavra. – disse ela, e Miles não protestou mais. A palavra de uma feiticeira era algo sagrado para elas.
- Bom, acho melhor deixarmos você sozinho por alguns segundos. Imagino que queira conversar com o resto do conselho de administração sobre a mais nova aquisição de vocês. Eu. – falei, sorrindo e me levantando – Oh, e por acaso, eu adoraria trabalhar pessoalmente com , se isso for possível.
- Verei o que posso fazer. Mas quero que saiba de uma coisa. Se tentar se envolver com como se envolveu... Exigirei que você vá embora. – disse Miles.

Bom, ele não precisava saber sobre minha descoberta de horas antes, precisava?

- Tudo bem, eu prometo. – eu disse, feliz pelo fato de poder mentir livremente agora. Antes que Miles pudesse pensar em fazer daquilo também um acordo, me retirei da sala, levando Tara comigo.
- Obrigado. – disse a ela, quando já estávamos do lado de fora da sala – Sabia que não me decepcionaria.
- O que posso fazer? Sou uma pessoa ligada à família. – disse ela, sorrindo timidamente – E eu sei que suas intenções são boas. Você pode não ter percebido isso ainda, ... Mas você não quer fazer mal a ninguém desse lugar.
Bom, ela estava errada, eu tinha certeza disso. Mas como eu disse antes, não queria contrariá-la. Apenas assenti e Tara se virou, pronta para voltar a fazer o que quer que estivesse fazendo antes. Em um impulso, chamei o nome dela, fazendo com que ela se voltasse para mim.
- Não importa o quanto você seja otimista, eu não sou um cara bom. – eu disse, de forma sincera – Nunca fui um herói. Mas... Pode ter certeza quando eu digo que a partir de agora, não deixarei nada de mal te acontecer.
Ela apenas sorriu e se afastou.
Eu pretendia cumprir o que dissera a ela. Mesmo tendo se passado gerações, era assombroso o quanto Tara me lembrava Meredith. Os traços do rosto, o jeito... Eu não podia evitar ver minha irmãzinha mais nova toda vez que olhava para aquela garota. Sim, eu me sentia um fraco quando pensava desse jeito. Meredith era tudo para mim quando eu era vivo, e depois de transformado ainda acompanhei sua vida, escondido nas sombras, e sempre me mantive informado sobre seus descendentes. Agora, conversando com Tara, era difícil evitar sentir que o destino me dera uma segunda chance de conviver com a minha irmã.
Meus pensamentos foram interrompidos pelo som de passos apressados no corredor, seguidos do barulho da porta da ante-sala na qual eu ainda me encontrava sendo arrombada.

Eu tinha que admitir, sabia fazer uma entrada.

- O que você está fazendo aqui?! – perguntou ela, chocada. Eu não respondi de imediato. Estava absorvido demais pela entrada de , que como sempre inundava a sala com sua presença forte. Era como se o ar ficassem mais carregado toda vez que ela aparecia.
- Esse é seu jeito de me dar boas vindas? – perguntei, com falsa decepção na voz, rindo ao vê-la se irritar mais ainda. Como eu nunca havia percebido o quanto ela ficava linda irritada? Ainda mais vestida daquele jeito. Uma camisa branca larga do Mickey escondia quase completamente o shortinho curto de ginástica preto que ela usava. O cabelo estava levemente bagunçado, os pés descalços... Incrível como ela conseguia ser sexy até sem querer.
A porta atrás de mim se abriu e Roger Miles se juntou a nós, provavelmente tendo ouvido o tom nada suave na voz de sua melhor agente.
- , por favor se acalme... – pediu ele.
- Me acalmar? – ela perguntou, visivelmente surpresa – Não sei se você já notou, mas o deu um jeito de invadir o prédio!
- Ele não invadiu. Entrou comigo. – disse Roger, por entre os dentes. A expressão no rosto de era hilária.
- Entrou com você? Como?
- Pelo elevador, . – fui eu quem respondeu, sem conseguir tirar o sorriso vitorioso do rosto – E vai se acostumando. Acabei de ser contratado. Somos parceiros agora!
- Nós... Ahn... O quê? – ela olhava de mim para Roger, confusa. Levando as mãos a cabeça e fechando os olhos, ela continuou – Ok. Alguém me explica em que planeta bizarro eu vim parar? Eu estou dormindo, né? Esse é o pesadelo mais estranho que eu já tive.
- . – Roger começou, cuidadoso – Gilbert comentou comigo sobre a necessidade de formar um time pra você... E se ofereceu para lutar por nossa causa.
Por alguns momentos, ela só o encarou sem expressão, piscando devagar. Em seguida, começou a rir.
- Ok... faz parte da Organização agora. , um dos vampiros mais perigosos do mundo. , que até ontem estava tentando me matar. , que...
- Pára, . Estou começando a ficar lisonjeado. – não resisti a provocar.
- Fala sério, Roger. Por que ele está aqui? – perguntou ela, me ignorando totalmente.
- Eu tenho cara de quem brinca, ? – perguntou Roger, sério. Bom, ele não tinha mesmo. Roger Miles era um daqueles senhores que pareciam incapazes de reconhecer uma piada mesmo se essa dançasse pelada na frente deles.
- Você quer dizer que... Miles, você enlouqueceu? – ela gritou – Primeiro, achei que tivesse deixado bem claro para Gilbert que não preciso de capangas. Segundo, o único motivo de Gilbert ter pedido um ajudante pra mim foi porque é a ameaça! Você quer que eu trabalhe justamente com a pessoa que quer me matar? Isso é tão inteligente quanto me trancar em um quarto com um serial killer.
- Nunca pensei que veria o dia no qual admitiria ter medo de mim. – eu disse, incapaz de me controlar.
- O inferno vai se abrir antes que eu tenha medo de você, ! – ela respondeu, irritada – Miles? Quer me explicar o que está acontecendo? Você não é idiota. Ele só pode estar te ameaçando.
- ... Só aceite a situação. – disse Miles, evitando olhar para a garota.
- Ele está te ameaçando, não está? Eu posso resolver isso em um segundo. – dizendo isso ela avançou na minha direção, a estaca que carregava provavelmente desde que sentiu minha presença no prédio firme na mão.
- NÃO! – Miles gritou – Você não pode matá-lo! Eu te proíbo de matá-lo!
- Você ouviu o chefe, . – disse eu, usando seu apelido propositalmente – Nada de machucar o novo parceiro!
- Miles... Você enlouqueceu? O que ele fez com você? Ele é um vampiro! Você não pode estar falando sério...
- também era um vampiro e te ajudava. Não é como se trabalhar com vampiros fosse uma novidade por aqui. – argumentou Miles, usando meu argumento de minutos antes.
- tinha boas intenções! – exclamou ela, frustrada.
- Bom, parceira, você sabe o que dizem sobre boas intenções e como elas enchem o inferno...
- CALA A BOCA! – gritou para mim. Voltando-se para Roger, ela continuou – Miles, você não pode estar querendo comparar esse idiota a ! queria defender a humanidade. tentou me matar ontem! Você espera mesmo que eu confie nele?
- Não. – respondeu Miles – Na verdade eu te imploro, nunca confie nele. Trabalhe com ele, pois quanto a isso eu não tenho escolha a não ser te forçar a aceitar, mas não confie nele.
- Miles, o que ele ameaçou fazer? Me diz. – pediu ela – Você não vê o quanto isso tudo é perigoso? não tem nenhum caráter, quer expor seus funcionários a isso?
- e eu temos um acordo mágico. Ele não pode machucar nossos funcionários. – Miles suspirou – , você sabe que é como uma filha pra mim. Mas eu sou seu chefe. Se quiser continuar trabalhando aqui, vai aceitar minhas imposições. Eu sei o quanto isso é absurdo, também estou contrariado. Mas não tenho escolha.
- Ok. Então talvez eu não queira mais trabalhar aqui! – disse ela, saindo da sala e batendo a porta atrás de si.
Sem olhar pra mim, Miles disse:
- Ela vai aceitar. é muito responsável quanto à missão dela. Nunca deixaria esse lugar, por mais insuportáveis que sejam as condições de trabalho.
- Estou contando com isso. – respondi, lançando a ele meu melhor sorriso e me dirigindo para fora da ante-sala, indo parar no corredor.

Aquilo estava me saindo mais divertido do que eu pensava.

Xx

’s POV


O mundo inteiro só pode ter enlouquecido.

Sabe, em 21 anos de vida eu vi coisas bem estranhas. Alguém que leva uma vida como a minha está fadado a presenciar bizarrices inexplicáveis de vez em quando. Mas o fato de ter sido designado meu mais novo parceiro era algo que pareceria incomum mesmo no pesadelo mais mirabolante que eu pudesse ter.
Quero dizer, até ontem a peste estava lutando comigo em um beco. Eu não sou idiota, é fácil perceber que essa súbita mudança de lado é parte do plano de para acabar comigo. Ele quer a garantia de ficar próximo de mim. Mas o fato de que Miles e agora também o resto do conselho estarem apoiando essa parceria era bizarro. Ainda mais porque todos pareciam saber que não estava conosco por boas intenções. Todos me pediram para ter cuidado, para não confiar nele, mas mesmo assim insistiram que eu aceitasse essa decisão.

Depois de muita, muita, mas muita discussão mesmo, eu fui forçada a aceitar.

Eu tenho uma missão, missão essa que não posso executar sem a Organização. São eles que me sustentam, que me fornecem armas. Isso sem contar que minha equipe – Gilbert, , , Tara e o nerd que eu esqueci o nome – fazem parte desse lugar. Ir embora daqui significaria dar as costas ao meu time.
Eu sei que tem algo contra os dirigentes da Organização, e por algum motivo eles insistem em mantê-lo vivo. Não há outra explicação para essa decisão absurda, está chantageando o conselho. Por isso fui instruída a patrulhar as ruas de Los Angeles ao lado da criatura abominável, mas com o aviso de que deveria ficar de olho nele, e tomar uma providência caso fugisse do controle.

Providência essa que não poderia incluir a transformação da sanguessuga nojenta em uma pilha de cinzas.

E eu achando que minha vida não poderia piorar.

Agora cá estou eu, escapando escondida do prédio antes que venha me procurar para sairmos juntos para caçar. Essa idéia é tão absurda que até seria engraçada, se eu não estivesse tão irritada.
O elevador finalmente chegou à superfície, me permitindo atravessar o saguão do prédio comercial e abrir as portas, respirando em fim o ar não tão puro da noite de Los Angeles.
Sabendo que naquela noite haveria menos equipes disfarçadas da Organização patrulhando a área norte da cidade, segui naquela direção, entrando em uma praça, ansiosa para encontrar algum vampiro. Aquele dia havia sido estressante. Eu precisava matar alguma coisa.

Nesse exato momento, senti a presença daquela que seria a vítima perfeita, se o mundo fosse um lugar justo.

- Escapando da sede para patrulhar sem o seu parceiro, caçadora? – perguntou – Assim você me magoa.
- , mesmo se você tivesse sentimentos para serem magoados, eu não ligaria nem um pouco. – respondi, irritada. Ele apenas sorriu. Usava uma jaqueta preta e trazia duas bainhas do que obviamente era espadas penduradas nas costas, de forma que as alças delas faziam um X em frente ao seu peito.
- Sabe, eu poderia te dedurar para o conselho... Abandonando seu parceiro logo na primeira noite? Você devia estar me ensinando como as coisas funcionam. Mas como eu estou decidido a começar de novo com você, deixarei essa passar.
- Ora, por favor. Não pense que eu vou cair nessa. Você e eu sabemos que a última coisa no mundo que te importa é ter uma boa relação comigo.
- Não fale do que você não sabe, caçadora. – disse ele, com um sorriso leve e um brilho estranho nos olhos. Ok, essa eu não entendi.
Eu estava prestes a questioná-lo sobre isso quando senti outra presença por perto. Outro vampiro estava nos rondando. também parecia ter percebido, já que calou a boca e adquiriu uma expressão concentrada.
- Cinqüenta passos à oeste, atrás daquelas árvores. – disse ele, em voz baixa – Posso ouvi-lo. – e, sem dizer mais nada, ele correu naquela direção. Xingando mentalmente, eu fui atrás.
Em segundos havíamos atravessados as árvores, chegando a uma espécie de clareira, em cujo meio havia uma entrada para o que só podia ser o túnel subterrâneo que eu descobrira algumas semanas antes. O vampiro cuja presença eu sentira havia acabado de pular no buraco.
- Ok. Isso é uma armadilha. – disse , em tom casual.
- Jura? Nossa, eu quase me deixei enganar pelo vampiro que obviamente está tentando nos atrair para aquele túnel. – respondi, irritada. Porra, eu não sou retardada. Sei identificar uma armadilha óbvia.
- Você tem sempre que ser tão difícil? – perguntou ele, revirando os olhos – Vai ou não segui-lo?
- Eu tenho escolha? – disse eu, suspirando – Armadilha ou não, não posso deixar aquele vampiro solto por aí. Eu conheço esse túnel, após alguns minutos de caminhada se divide em uma espécie de labirinto. Pior cenário possível? Nós acabamos perdidos lá embaixo. Melhor? Eu consigo matar o que quer que esteja lá e acabo com você também, fazendo tudo parecer um acidente.
- Miles não acreditaria em você. – disse , simplesmente.
- Provavelmente não. Mas ele não teria como provar.
apenas revirou os olhos.
- Vamos descer, então. – disse ele, obviamente cansado da discussão.
- Você primeiro.
- O quê? – ele perguntou, se voltando para mim.
- Quem me garante que não foi você que armou isso pra mim? Você. Desce. Primeiro. – eu disse, com um falso sorriso amável.
- Você é a criatura mais insuportável que eu já conheci. – disse ele, antes de pular para dentro do buraco.
- Acredite, o sentimento é mútuo. – eu respondi, antes de segui-lo para dentro do túnel.

Xx

’s POV


Já seguíamos pelo túnel a cerca de cinco minutos e ainda nem sinal de algum outro vampiro além de mim naquele local. O túnel era escuro, o que não fazia diferença para mim, mas andava com mais cuidado do que o normal. Ela tinha sentidos mais apurados do que os de um humano, mas mesmo assim ainda tinha alguma dificuldade em enxergar no escuro. Foi então que vimos uma luz fraca mais à frente.
- Bom, acho que ficou bem claro para onde querem nos levar, certo? – perguntei, parando e me voltando para , que ainda me fazia seguir na frente.
- Tá falando da luz no fim do túnel? – respondeu ela, de forma sarcástica.
- Não exatamente no fim. Minha aposta é que chegamos ao meio, mas...
- Você entendeu o que eu quis dizer, não tente parecer mais burro do que já é! – disse ela, passando por mim e se dirigindo rapidamente para a óbvia armadilha que alguém havia armado. Uma coisa eu tenho que admitir, ela tinha coragem.
A segui e logo nos encontrávamos em uma passagem mais aberta do que o resto do túnel, com tochas na parede iluminando o local e cerca de oito aberturas nas paredes, que levariam a outras partes do túnel como aquela que até então estávamos seguindo.
Quando chegamos mais ou menos ao centro daquela área iluminada, foi possível ver que de cada abertura se aproximavam vampiros, nos encurralando. Me virei, ficando com as costas encostadas nas de , de modo a não precisar me preocupar com os vampiros que tentassem me atacar por trás.
- Ok... Espero que agora você tenha percebido que eu não armei isso. – eu disse, enquanto os vampiros se aproximavam devagar.
- São mais de cinqüenta. – disse ela – Acha que agüenta?
- Sem dúvidas. – eu disse, subitamente confiante – Eu cuido dos vinte e cinco da direita e você cuida dos vinte e cinco da esquerda?
- Não. Eu vou matar muito mais que vinte e cinco. – disse ela, em tom superior.
- Quer competir? – eu disse, rindo.
- Pode apostar. – disse ela, e no segundo seguinte havia puxado uma das espadas que eu carregava e se lançado para frente, nocauteando o primeiro vampiro com o qual entrou em contato. Suspirando entediado, avancei na direção seguinte.
Os vampiros eram muitos, mas não atacavam organizados, tornando possível lutar facilmente contra mais de um ao mesmo tempo. O segredo era não deixá-los se aproximarem muito, golpeando-os com as espadas antes que chegassem perto o suficiente para golpearem com os punhos.
- Catorze! – eu gritei para ela, já começando a cuidar do meu décimo quinto vampiro da noite.
- Ergh! – ouvi-a resmungar, irritada, e não pude deixar de rir. Até o momento, eu sabia que ela só havia matado dez. Com o canto dos olhos, vi ela girar com a espada, cortando em um só golpe a cabeça de dois vampiros.
- Doze. Não comemore por muito tempo. – disse ela, em tom convencido.
O problema era que por mais que matássemos alguns, mais pareciam estar vindo. E eles agora pareciam ter finalmente entendido que um ataque em conjunto seria mais eficiente.
- Nós não temos chance. – gritei para ela – É melhor desistir.
Dando um chute no vampiro com o qual lutava no momento, conseguiu tempo o suficiente para analisar suas opções. Com um aceno de cabeça para mim, ela puxou duas das tochas da parede e correu na minha direção, já que eu estava perto de uma das saídas. Jogando uma das tochas no chão para bloquear momentaneamente a passagem dos vampiros, passamos a correr a toda velocidade pelo túnel.
- Aquela tocha não vai segurá-los por muito tempo, o fogo é muito pouco. – eu gritei para ela, que seguia a alguns metros atrás de mim.
- Eu sei disso. – disse ela, com um tom de voz divertido. Arrisquei um olhar para trás e vi que ela tentava tirar algo da mochila que carregava.
Eu podia sentir que a horda de vampiros já se livrara do fogo e seguia agora em nossa direção. Corremos por mais algum tempo, até chegarmos ao fim do túnel, no qual havia outro buraco no teto e algumas pedras que permitiam sair por ali. Seria impossível subir antes que os vampiros nos alcançassem.
Eu me virara para informar isso a , mas ela não parecia preocupada. Encarava a direção pela qual os vampiros viriam, empunhando a tocha, com um sorriso maldoso nos lábios.
- O que você vai fazer? – perguntei, notando que havia uma garrafa de álcool vazia aos pés dela.
- Ganhar uma competição. – disse ela, rindo.
Foi então que eu percebi um brilho no chão. Havia uma trilha de algo líquido pelo caminho que havíamos percorridos, que estava refletindo a chama da tocha. Em um clique, tudo fez sentido. A garrafinha de álcool. Era isso que ela tirara da mochila naquela hora. Ela havia derramado o conteúdo pelo caminho e agora ela ia...

Oh, meu Deus.

Ela ia colocar fogo no túnel.

- Você é louca! – eu gritei, rindo, antes de me apressar a subir pelas pedras em direção ao teto do túnel. E ela era mesmo. Totalmente louca, mas sem dúvida genial. Céus, aquela criatura era perfeita pra mim! Claro, a vadia não havia nem ao menos me avisado. Mas, afinal, para ela seria vantagem se eu morresse junto dos outros. É, essa é a mulher que eu amo.

Ás vezes eu tenho pena de mim mesmo.

Subindo o mais rapidamente que eu podia, não resisti a virar a cabeça para trás quando ouvi os vampiros se aproximando. Com uma risada cruel, vi derrubar a tocha na trilha de álcool que ela fizera. O fogo se espalhou rapidamente pela trilha, queimando os primeiros vampiros da horda e seguindo o caminho em direção aos outros. Sem perder tempo, seguiu para a parede e começou a escalá-la, me alcançando em pouco tempo.
Em questão de segundos havíamos chegado ao topo, saindo rapidamente pela abertura no teto.
- Então. – disse , visivelmente sem fôlego – O placar final ficou quanto? Setenta ou mais contra... Quinze? – ela sorriu maldosa, obviamente orgulhosa de sua armação. Eu não podia dizer nada, não dava para competir com aquilo.
- Não é hora de ficar metida, . Você devia estar preocupada. – eu disse, conseguindo tirar o sorriso do rosto dela.
- O que você quer dizer? – perguntou ela, estreitando os olhos.
- Os vampiros lá embaixo não eram recém-criados. Se eu tivesse que dar um palpite, diria que todos tinham entre dez e vinte anos como vampiros.
- Como você sabe disso? – perguntou ela desconfiada. Eu balancei a cabeça, incrédulo.
- Você ainda está desconfiada de mim? Não sei se você percebeu, mas eles estavam me atacando também! Eu só sei a idade por causa dos olhares deles.
- Olhares? – perguntou ela, confusa.
- É. Recém-criados tem olhares diferentes... Como animais selvagens. Nos primeiros anos nenhum vampiro tem controle sobre si mesmo. Só com os anos a sede inicial vai passando e ficamos mais parecidos com humanos. Os vampiros no túnel não pareciam feras irresponsáveis, mais obviamente eram muito novos ainda. Por isso acho que estavam entre dez e vinte anos. Por isso você devia se preocupar.
- Ainda não entendi. Será que não dá pra ser direto? – perguntou ela, impaciente.
- Pra um vampiro mais experiente, como eu, é fácil fazer um exército. Recém-criados podem ser bem selvagens, mas são muito ligados ao criador nos primeiros anos. Sempre que um vampiro precisa de um exército, organiza recém-criados. Mas depois de mais ou menos dez anos, eles começam a ficar independentes. Não obedecem a qualquer um.
- Ok. Você tem ou não tem um ponto com essa história toda?
- Você é mesmo impaciente, não? – eu perguntei, irritado. Era difícil conversar civilizadamente com aquela garota – O que eu estou tentando dizer é que vampiros daquela idade não obedecem a qualquer um. Não lutam por outro vampiro tão facilmente. E aqueles lá embaixo foram obviamente organizados por outra pessoa. Não dá pra acreditar que todos tenham simplesmente decidido atacarem juntos sem terem um líder. Não, aquilo era um exército obedecendo a alguém. E só um vampiro muito velho e muito poderoso poderia ter moral suficiente para ser obedecido pelas suas mais novas vítimas, .
- Você quer dizer que...
- Isso mesmo. – eu disse, entendendo que ela finalmente havia compreendido – Parece que temos um novo vampiro-mestre na cidade.



Capítulo 4 - Lessons



’ POV

- Vampiro-mestre? – eu perguntei, confusa. Aquele termo era novo pra mim.
- Vamos lá, caçadora, eu sei que você sabe a resposta dessa. – respondeu , me encarando como se eu fosse uma criancinha particularmente burra. Ao reparar que minha expressão não mudou, ele apenas suspirou e continuou – Vampiro-mestre, , é como nós chamamos qualquer vampiro que consiga passar dos cem anos de idade, como eu, Coraline e seu querido .
- Oh, desculpa se eu não falo vampirolês. – eu respondi, irritada. Afinal, que obrigação eu tinha de saber a terminologia que as sanguessugas usavam pra denominar os vampiros centenários?
- Primeiro, essa língua não existe, e se existisse não teria esse nome. – ele continuava me encarando daquele jeito. Oh céus, como eu odiava aquela expressão superior no rosto dele. Mas se eu fosse totalmente honesta, admitiria que odeio qualquer expressão no rosto dele – Segundo, você devia saber disso, já que além de caçar vampiros, é metade vampiresa.
- Um detalhe sobre mim que eu prefiro esquecer. – respondi, em tom seco – E será que dá pra ir direto ao que interessa?
- Nada de preliminares? Assim você acaba com o clima, baby. – disse ele, sorrindo provocante. Eu apenas cruzei os braços e o encarei, impassível. então revirou os olhos e continuou – Sério, conviver com você vai acabar com meu senso de humor. Mas tudo bem, de volta ao trabalho. Imagino que você ao menos saiba que vampiros com mais de cem anos são mais fortes e mais controlados do que os outros, certo?
- Certo. – eu respondi ao perceber que aquilo não era uma pergunta retórica.
- Ótimo. Nossa espécie é organizada em uma espécie de hierarquia. Os recém criados são a base da pirâmide social vampírica, enquanto os anciões, os vampiros-mestre com bem mais de cem anos, são o topo. Eles não são influentes à toa, quanto mais velho, mais poderoso um vampiro fica.
- Então você quer dizer que quem quer que tenha organizado aquele exército lá embaixo é um ancião?
- Sem dúvidas. – respondeu – Não há outra explicação. Quem organizou aquele exército tinha influência, bastante influência. Eu diria uns trezentos anos ou mais. Provavelmente mais.
Aquilo me fez tremer. Literalmente. E olha que não é fácil me fazer tremer. Mas o fato é que é muito raro um vampiro chegar a essa idade. Metade dos recém criados não sobrevive ao primeiro ano, e os que sobrevivem acabam morrendo com o passar dos anos, seja por um agente da Organização, seja por um caçador freelancer, seja por um acidente, ou brigas internas, ou até mesmo descuido com o sol. O fato é que entre cada cerca de duzentos vampiros, um chega aos cem anos. Saber que um chegou a trezentos ou mais é apavorante.
- Trezentos? – eu perguntei, apenas para checar.
- Ou mais. – confirmou – Tenho quase certeza que é um dos anciões. Com um pouco de sorte esse não deve ser tão velho quanto o Drácula.

Eu apenas pisquei.

- O que foi? – perguntou , confuso.
- O Drácula existe? – aquilo também era novidade pra mim.
voltou a me olhar como se eu fosse retardada. Ok, mais um pouco e eu vou acabar esquecendo que não devo matá-lo.
- Claro que existe. Por que a surpresa? – perguntou ele, bem devagar, como se com medo de que eu não fosse capaz de acompanhar seu raciocínio.
- Sempre achei que o Drácula fosse um mito. Coisa de ficção. – eu respondi, ainda digerindo a notícia.
- Bom, teoricamente vampiros também são, no entanto... – ele apontou para si mesmo, sorrindo – Mas me espanta saber que você ainda duvida da existência de algum ser de ficção, sendo quem é.
Resolvi ignorar aquele último comentário. Tinha perguntas mais urgentes a fazer.
- Quer dizer que o Drácula existe mesmo? Uau. Você já o viu? Ele é sexy como naquele filme do Gerard Butler? – eu não podia evitar parecer uma fã neurótica. Caramba, o Drácula existia!
- Sim, eu já esbarrei com ele. – foi tudo que respondeu. Ele agora me olhava como se eu fosse maluca.
Eu estava animada demais para me importar.
- Minha nossa! Mas era ele, ELE mesmo? Oh meu Deus, como ele é? Ele mora na Transilvânia? Você acha que tem alguma chance de ele, sei lá, vir aqui pra L.A.? Oh céus, será que foi ele quem organizou o exército?
- , se controla, você está me assustando. – disse , dando um passo pra trás – Uma coisa de cada vez. Da última vez que eu ouvi sobre Drácula, ele estava morando em algum lugar da Romênia, sim. E eu duvido muito que ele venha pra cá algum dia, a Califórnia é um lugar plebeu demais para Vossa Majestade. – acrescentou ele, de forma sarcástica – E por que a animação? Vindo de você isso é apavorante.

Aquilo me fez recuperar o controle.

- Bom, não me culpe, o Drácula é uma celebridade. Mais do que isso, praticamente realeza. – eu disse, em tom defensivo.
- Não sei por que as pessoas dão tanta moral pra ele. – disse , meio irritado – Ok, ele é bem velho e etc. Mas se não fosse por ele o tal de Stoker nunca teria escrito aquela droga de livro. Quero dizer, ele já tinha o respeito da comunidade vampírica inteira, mas nããão, ele queria ficar famoso entre os humanos também. Graças aquele idiota hoje em dia qualquer humano sabe identificar um vampiro.
- Você só está com inveja. – eu disse, sorrindo maldosa, e em seguida começando a refazer o caminho em direção à sede da Organização.
- Inveja daquele imbecil metido a rei dos góticos? Ora, por favor! – retrucou ele, me seguindo.
- Claro. Ele é o Drácula. Aposto que ele consegue qualquer mulher que quiser. Nossa, aposto que ele é realmente bonito.
- Eu sou mais. – disse , em um tom tão confiante e ao mesmo tempo tão indiferente que eu não pude deixar de virar para trás para encará-lo.
- Oh meu Deus, você é mesmo iludido. – eu disse, rindo e continuando meu caminho.
- Ora, vamos lá, caçadora. – disse ele, em tom provocante – Você pode me odiar o quanto quiser, mas não venha me dizer que não me acha bonito.
Não resisti a virar a cabeça brevemente para trás e analisá-lo. Na verdade, eu nunca havia olhado por esse ângulo. Nunca parei para pensar se o achava bonito ou feio. Mas agora tenho que admitir que ele não é nada mal. Se não fosse um monstro cruel, insensível, irritante e absolutamente desprezível, talvez – e eu dou ênfase no TALVEZ – eu até o considerasse atraente.
- Você é bem cheio de si, né? – optei por uma resposta neutra.
- Sou. E aposto que qualquer garota dessa cidade daria tudo pra ficar cheia de mim também. – disse ele, em um tom baixo e sexy. Quero dizer, em um tom que ele devia considerar sexy. Porque eu não achava aquela voz nada sexy. Oh meu Deus, porque eu não consigo parar de usar a palavra sexy?!

E só então eu percebi o real sentido do que ele disse – o sentido extremamente sujo.

Me virei para ele, completamente enojada.
- Oh céus, você é repulsivo! – eu disse, sentindo meu estômago embrulhar.
- O que foi, ? Trocadilhos sexuais são demais para você? – perguntou ele, visivelmente satisfeito consigo mesmo.
- Trocadilhos sexuais que tenham haver com você me fazem querer vomitar. – eu respondi, apressando o passo.
- Duvido que você me ache tão nojento assim. – insistiu ele, voltando a me seguir.
- Você se acha mesmo, não é? – perguntei, irritada.
- Como se você pudesse falar alguma coisa! – retrucou ele.
- Tá dizendo que eu sou metida? – eu continuei, em tom irritado. Por dentro, porém, estava meio aliviada. Não só por mudar o rumo da conversa como também pelo fato de estar discutindo normalmente com ele. Brigar com era algo confortável, normal, ao contrário de lutar ao lado dele, de ser parceira dele. Aquilo sim me assustava.
- Bom, levando em conta o fato de que você age desse jeito, fala desse jeito, se veste desse jeito e se considera um presente dos céus... É, eu te acho bem metida. – respondeu ele.
- O que tem de errado com as minhas roupas? – eu perguntei, surpresa, me xingando internamente em seguida. Eu tinha que parar de direcionar a discussão para assuntos mais íntimos como aquele. Discutir meu vestuário com a peste infernal? Definitivamente não era uma das minhas idéias mais brilhantes.
- Bom, elas ou são curtas como aquele shortinho que você vestiu mais cedo ou são apertadas que nem essa sua calça de couro. – disse ele, e por mais estranho que pareça, eu notei um certo nervosismo na voz dele, como se ele tivesse deixando escapar mais do que gostaria.
Eu resolvi ignorar o fato de que ele aparentemente reparava tanto no que eu vestia. Primeiro tentava me beijar, agora isso... Definitivamente, era melhor não começar a seguir essa trilha de pensamento. Mas sim, ele estava certo, eu realmente usava roupas curtas e justas, mas ao contrário do que possa parecer, não era por exibicionismo ou porque eu era alguma vadia. Usar roupas que funcionavam como uma segunda pele era vantajoso, pois assim ficava mais fácil lutar sem um pedaço de pano frouxo no meu corpo me atrasando. Tente dar um Jumping Roundhouse Kick perfeito usando jeans pesados e você vai entender do que eu estou falando.
- E por que nós estamos voltando, de qualquer forma? – perguntou ele, obviamente tentando mudar de assunto.
- Por que você acha? – perguntei, em tom sarcástico.
- Vamos contar pro Gilbert nossa aventura da noite? – disse ele, em tom de escárnio.
- Eu vou. Você vai ficar... – eu parei um pouco para pensar. O que vampiros faziam em seu tempo livre? Assistiam a Oprah? – Fazendo o que quer que você faça.
- Causando o caos e matando inocentes? Desculpa, não vai dar, fiz um acordo com seu chefe. – disse ele, revirando os olhos.
- Engraçadinho. Vai fazer tricô, assistir novela, planejar o melhor jeito de me matar, tanto faz. Você não vai vir comigo.
- E por que não? – ele quis saber.
- Por tudo o que eu sei, você pode muito bem ser o vampiro por trás de tudo isso.
- O quê? – ele exclamou, rindo sem humor em seguida – Não que eu não me sinta honrado de saber que você acha que eu tenho tanta moral assim, mas não sei se você percebeu, aqueles vampiros estavam me atacando também. Agora me explica, por que eu lutaria contra meus próprios capangas?
- Pra ganhar minha confiança e me matar quando eu estiver desprevenida? – eu retruquei.
- E não seria mais simples ter te matado dentro do túnel? – ele contra-atacou – Por que me daria ao trabalho de ganhar sua confiança?
- Sei lá. Você é estranho. – eu disse, simplesmente. No fundo eu sabia que ele obviamente não tinha nada haver com aquilo, mas não daria o braço a torcer. Afinal, eu não confiava nele.
- E você é insuportável. – respondeu ele, de forma bem infantil, devo acrescentar.
- Então por que me suportar? – eu exclamei, perdendo de vez a calma e me virando para ele – O que deu em você, afinal? Pra que bancar meu parceiro agora? O que você quer com tudo isso?
- Tenho certeza que você adoraria saber, mas... Não é da sua conta. – disse ele, sorrindo aquele sorriso de escárnio que me fazia enxergar tudo vermelho.
- Não é da minha conta? – eu perguntei, tentando manter a voz controlada. Como eu consegui manter minha mão longe da estaca escondida na minha bota seria eternamente um mistério para mim – Se por isso eu vou ter que passar a conviver com você sem poder te dar uma surra por não sei quanto tempo, acho que é da minha conta sim.
- Se pensar que você é capaz de me dar uma surra te ajuda a dormir tranqüila, pode continuar se iludindo. – disse ele, naquele tom superior irritante – Mas por falar nisso, quem disse que nós não vamos lutar?

Por um segundo, eu não sabia o que dizer.

- Ahn... Você não pode me matar. Eu não posso te matar. Qual seria o sentido? – eu perguntei, perplexa.
- Não sei quanto a você, mas eu continuo em perfeitas condições de acabar com a sua raça. – respondeu ele, com a voz calma. Ao perceber minha expressão confusa, ele acrescentou – Sabe o que é divertido sobre acordos mágicos? Eles são facilmente manipuláveis. Então entenda, quando eu prometi não matar ninguém enquanto trabalhava, abri uma brecha para todos os outros momentos. Então certo, provavelmente eu nunca vou ter a chance de machucar algum dos seus amiguinhos. Mas se algum for idiota o suficiente de cruzar meu caminho em qualquer outro momento...
- Mesmo assim. Não pretendo ficar perto de você fora das horas de trabalho. Você não pode lutar comigo.
- É aí que entra a outra brecha no acordo. – disse ele, e eu pude ver que estava orgulhoso de si mesmo – Eu fui bem específico quando disse que não mataria ninguém. Pode procurar no dicionário, . Ninguém significa nenhuma pessoa. – ele deu um passo até mim e se curvou um pouco, de modo que nossos narizes ficaram a poucos centímetros de distância – Se engane o quanto quiser, ... Mas você não é totalmente humana. Não é exatamente uma pessoa.
Minha reação foi praticamente um reflexo. Eu nem pensei e, quando vi, meu punho já havia acertado o estômago de . Ele deu um passo para trás, surpreso, e consegui socar também seu maxilar, fazendo com que ele perdesse o equilíbrio e caísse de costas no chão.
- É isso então? – eu disse, com uma risada seca. Eu não queria admitir, mas as palavras dele doeram. Eu me acostumara a me ver como um ser humano – Você é mesmo muito idiota de me contar isso. Acha que eu vou simplesmente ignorar o que você me disse? Quando eu contar isso para o conselho, você vai ser chutado de lá tão rápido que nem sua visão de vampiro vai conseguir acompanhar.
- Oh, claro. Vamos pensar nas vantagens que fazer isso te traria. Ahn... Você não me teria mais como parceiro. Mas isso acabaria com meu acordo com seu chefe, o que significaria que eu teria autorização para matar de novo. E agora eu sei onde a sede da Organização fica escondida... Hm, vamos pensar... – ele realmente fingia uma cara de pensativo – Você acha mesmo que conseguiria me deter antes que eu corresse e matasse algum amiguinho seu? Quem seria? A bruxinha ? O babaca do ? Ou o seu querido mentor? Acha mesmo que poderia protegê-los, caçadora?
- Eu posso te matar agora e te entregar depois. – eu respondi, puxando a estaca. apenas riu.
- Se você me matar o conselho não vai sequer te ouvir, . Você tem ordens expressas pra me manter vivo. Acredite, se você me matar, seus dias na Organização já eram.
- Eu vou ter que te matar de qualquer jeito. Você acabou de assumir que não desistiu de acabar comigo. – eu respondi.
- Oh, claro, se você tiver sorte, em algum momento durante alguma de nossas lutas você vai me matar. Parece que eu te deixei em um beco sem saída, . Nós podemos lutar agora, e você é chutada da Organização se sobreviver. Você pode avisá-los antes, mas aí eu darei um jeito de acabar com algum de seus amiguinhos e quantas outras pessoas eu puder matar antes de você me encontrar. Você terá essas mortes nas suas costas. Ou você pode simplesmente deixar tudo como está. Afinal, a única pessoa que eu posso realmente machucar com isso tudo é você. Posso até te dar a minha palavra que não farei mal a humanos, mesmo tendo minha outra brecha no acordo. Então tudo se resume a você ter ou não a capacidade de se defender de mim sozinha.
- Você sabe muito bem que eu posso dar conta de você. – eu disse, por entre os dentes.
- Se você está tão certa assim, deixe tudo como está. Eu não pretendo te atacar tão cedo... Então mantendo tudo como está você pode ganhar tempo para arranjar um jeito de me expulsar da Organização e me matar sem irritar seus chefinhos.
Ele havia me encurralado. O idiota havia realmente me encurralado. Qualquer caminho que eu seguisse resultaria ou na minha morte, ou na minha expulsão, ou na morte de inocentes. Por mais que eu detestasse admitir, estava certo. Eu precisava ganhar tempo. Precisava descobrir o que ele tinha contra o conselho, por qual razão eles o queriam vivo. Precisava pensar em um jeito de resolver essa situação sem nenhuma tragédia. No momento, não havia nada que eu pudesse fazer.
- Quando eu arranjar um jeito de acabar com você, – eu disse, sentindo cada fibra do meu corpo pulsando de raiva – você vai desejar nunca ter começado esse joguinho. Mais que isso... – eu me agachei ao lado dele, que ainda estava deitado no chão, apoiado nos antebraços, e ergui o queixo dele com um dedo, prendendo seu olhar com o meu – Você vai me implorar por uma estaca para terminar você mesmo seu sofrimento.
Antes que ele pudesse responder qualquer coisa, eu já havia me levantado e seguido correndo de volta para casa, sem olhar para trás. Eu sabia que ele não me seguiria. Estava tarde, precisaria de um abrigo antes do amanhecer. Eu também tinha absoluta certeza que ele não estava hospedado na sede – não, o conselho não era estúpido a esse ponto. Não ousariam enfrentar minha fúria dando o antigo quarto de para aquele verme nojento.
Ao chegar no prédio e entrar no elevador, porém, não pude evitar pensar que meus chefes já estavam sendo estúpidos por deixarem viver. O que tinha de tão importante para chantagear pessoas do nível dos membros do conselho? Era algo grande, eu tinha certeza.

E eu descobriria o que era. Nem que fosse a última coisa que eu fizesse.

Xx

’s POV


Caminhar por um corredor nunca havia sido tão divertido.

Eram quatro horas da tarde quando eu cheguei ao prédio subterrâneo da Organização, ou seja, a grande maioria dos funcionários estava por lá. Você deve estar se perguntando como eu consegui vir para cá de dia. É simples, na verdade. Na noite anterior, enquanto ainda discutia a minha contratação com o conselho de administração, eu aproveitei para checar o resto do lugar. Eram quatro andares subterrâneos, a uma profundidade que eu sabia que exigiria alguns tubos de ventilação extra... E eu estava certo. O sistema de ventilação da Organização não estava ligado apenas ao prédio comercial da superfície. Alguns tubos saiam em diversas partes da cidade, já que funcionavam também como saída de emergência. Tara me explicou que as saídas eram enfeitiçadas para que só alguém que fizesse parte daquilo tudo pudesse entrar e sair. Sorte minha, eu agora era um funcionário.
Não demorou muito para que eu descobrisse que um dos tubos saía em uma cripta em um dos cemitérios da cidade. Era bem inteligente, na verdade, já que possibilitava a chegada rápida dos agentes caso alguma ameaça vampírica de maior emergência acontecesse naquele lugar. O tubo saía na parte inferior da cripta, embaixo da terra, acessível apenas por um alçapão no chão bem disfarçado. Eu havia me mudado para lá, é claro. Proteção contra luz solar, bastante espaço... Eu já estava começando a ajeitar o lugar, só o que faltava eram alguns móveis (principalmente uma cama) e um chuveiro, mas disso eu já estava cuidando. Eu havia escutado barulho de água correndo e localizara um cano da companhia de água passando por ali. Só precisaria mexer um pouco, instalar alguns canos que desviariam a água e voilà. Eu não precisava de iluminação, mas instalara algumas lamparinas no caso de algum visitante sem a minha visão aguçada aparecer.
Mas voltando ao assunto do porquê era tão divertido andar por aqueles corredores, o fato é que era difícil não rir perante a reação dos funcionários a minha presença. A notícia de que , o sanguinário, adquirira passagem livre para aquelas instalações correra rápido. Todos que eu encontrava pelo caminho ou me olhavam pasmos ou saíam correndo para se esconderem. Era bem engraçado, de fato.
Finalmente cheguei à porta que eu queria, a sala de treinamento do segundo andar. Um idiota meio nerd – , eu acho – me contou, trêmulo e assustado por eu estar falando com ele, que estava treinando. Não me admira. Havíamos detectado uma ameaça digna de importância no horizonte, então me parecia lógico que a caçadora procuraria estar em sua melhor forma.

E que forma.

Precisei travar a mandíbula para que meu queixo não caísse quando adentrei a sala. Lá estava , usando o mesmo shortinho preto de ginástica do dia anterior, agora com uma regata preta colada ao corpo, com os dizeres “Stop Looking At My Boobs”1 na altura dos seios. Ha ha, engraçadinha.
O cabelo de estava preso em um rabo de cavalo alto, e sua pele brilhava com o suor enquanto ela descontava as frustrações no pobre saco de areia. Oh, mas eu tinha idéias bem melhores de como ela poderia descontar toda aquela raiva... Eu tremia só de imaginar como seria deixar ela soltar aquela adrenalina toda sentada no meu colo, seu corpo movendo-se contra o meu em ritmo frenético, ela prendendo minhas mãos para trás e me olhando com aquela malícia única... Céus, eu a queria. Eu nunca havia sequer beijado a garota e ela já me fazia aceitar ser submisso na minha imaginação, coisa que eu nunca havia sido na realidade. Sempre preferi ser o dominante. Mas com aquela garota eu aceitaria qualquer coisa.
- ! – disse ela, com falsa animação, abandonando o saco de areia e se virando para mim, uma mão na cintura e a cabeça um pouco inclinada para a direita. Oh Deus, dai-me autocontrole! – Legal da sua parte aparecer por aqui. Um saco de pancadas novo viria a calhar. Ou não tão novo, já que você já vem fazendo esse papel há um bom tempo.
- Você gosta mesmo do som da própria voz, não, ? – eu perguntei, agradecendo ao destino por estar usando uma calça jeans bem larga. Do contrário, seria difícil disfarçar o estado no qual eu me encontrava. Eu devia ter algum problema grave se o fato de me ofender me excitava mais ainda. Só o que eu conseguia pensar era na idéia de fazê-la engolir cada uma daquelas palavras enquanto gemendo meu nome e suplicando para que eu não parasse...

Ok, eu preciso me controlar. Para um vampiro de cento e trinta anos, eu pareço um adolescente de vez em quando.

- Gosto. Ela fica ainda mais bonita quando humilhando você. – ela sorriu, com uma doçura mais falsa do que uma nota de três dólares – A que devo o desprazer da visita?
- Por mais que você não mereça, ... Eu estou aqui para te ajudar. – eu respondi, lançando a ela o mesmo sorriso.
- Ajudar? Ajudar em quê? – eu pude perceber que a havia surpreendido.
- A se preparar, caçadora... – eu respondi, calmamente – Eu vou treinar você.

’s POV

Ok. O quê?

- Ok. O quê? – eu disse, ecoando meus únicos pensamentos.
- Treinar, . – respondeu o verme de cabelos , com um sorriso superior irritante – Estava entediado na minha cripta. Nunca fui do tipo que dorme mais de seis horas, então o dia geralmente é bem monótono para mim. Pensei que seria uma boa idéia vir aqui te ajudar a se preparar.
- Oh, claro. E em que mundo distorcido você vive pra pensar que eu te deixaria treinar comigo?
- Bom, você precisa de alguém que te ensine. – disse ele, como se fosse óbvio.
- , pra sua informação, eu pratico todas as formas de luta conhecidas pelo homem desde antes dos dez anos. Eu fui criada aqui, caso você não saiba. O que te faz pensar que tem algo para acrescentar às minhas técnicas?
- Você mesma disse. – respondeu ele – Todas as formas de luta conhecidas por humanos. Você foi criada por eles, aprendeu a lutar como eles. Nunca teve quem te ensinasse a lutar como um vampiro, já que eu tenho certeza que o Mr. Sou-um-vampiro-regenerado estava mais preocupado em enfiar a língua na sua boca do que em te ensinar a usar suas habilidades. – se fosse qualquer outro cara, eu diria que aquilo no tom dele era ciúme. Mas, obviamente, devia ter sido só impressão minha.
- Em primeiro lugar, o que eu faço ou deixo de fazer com a minha boca é problema meu e só meu. – eu respondi, irritada – E em segundo... Do que você está falando?
- Você é parte vampiresa, . – disse ele, pelo que parecia ser a milésima vez – Mas você luta como um humano. Você é boa, eu admito isso, mas poderia ser melhor. Você tem a força de um vampiro, mas te falta a nossa técnica. Eu posso te ajudar com isso.
- Ok, e o que você ganharia com isso? Ajudando a pessoa que quer te matar a melhorar? Mais importante ainda, o que te faz pensar que eu vou te deixar me treinar? Eu não sou idiota, , não vai me ser útil ter você decorando meus movimentos, tendo como se preparar melhor contra mim.
- É verdade que você melhoraria, e é verdade que eu aprenderia mais sobre você. Mas seja honesta, nós estamos empatados no quesito habilidade. Se treinássemos juntos, eu aprenderia mais sobre você, mas ao mesmo tempo você aprenderia mais sobre mim. Manteríamos a balança equilibrada.
Eu processei aquilo por alguns segundos, observando um sorriso provocante se abrir no rosto de .
- Ou... – começou ele, em tom divertido – Talvez não seja uma boa idéia, se você acha que não conseguiria me acompanhar...
Droga. Dizer não a ele agora o daria motivos para infernizar minha vida para sempre, dizendo que eu não tinha coragem. Ele venceria de qualquer jeito.
- Ok. – eu respondi, por entre os dentes, e ele sorriu.
- Sabia que você não era tão estúpida quanto parece. – respondeu ele, de forma tão doce que quem não falasse nossa língua talvez pensasse que ele estava me elogiando.
Eu já abria a boca para retrucar quando, sem mais aviso, tirou a camisa.

É, isso mesmo.

Eu senti meus olhos se arregalarem e dei um passo para trás, surpresa. Ok, quem deu autorização para a peste sair arrancando as roupas? E por que?
Ele parecia bem confortável, jogando a camisa sobre uma prateleira no canto da sala e alongando os braços devagar. O movimento me permitiu analisar cada músculo daquele peitoral mais facilmente.

Sim, eu estava analisando.

O fato é que podia ser um cretino desprezível, mas tinha um peitoral perfeito, segundo os meus padrões. E eu não me sentia mal por estar olhando, ou melhor, secando. Digamos que eu tenha um certo probleminha quando o assunto são os meus hormônios. Qualquer mulher teria no meu lugar, é claro. Acho que não tem maneira delicada de se dizer isso...

Eu sou uma frustrada sexualmente.

O que não é surpreendente, se você pensar bem. Quero dizer, veja minha vida sexual. Minha primeira vez foi com . Foi linda, romântica, delicada, tudo que uma primeira vez tem que ser, já que pelo menos pra mim doeu bastante. Mas foi cuidadoso comigo, me tratou como uma bonequinha de porcelana, o que era exatamente o que eu precisava... Na época. Nós só fizemos uma vez, e convenhamos que não dava para ser uma experiência muito prazerosa. Foi lindo, mas depois daquela noite, é claro, meu corpo passou a pedir mais. Depois que foi embora eu tive alguns casinhos de uma noite. Eu ia para alguma boate e escolhia o cara mais bonitinho para ter uma noite de sorte. O fato de eu ser meio vampiresa me faz ser mais atraente, pois, segundo , eu tenho essa “aura” de perigo e sensualidade mais forte do que mulheres comuns, algo que Gilbert me disse, quando o questionei, que é parte do “encanto” que vampiros exercem sobre seres humanos, que os atrai. Mas meus casinhos não provaram ser nada mais do que decepcionantes. Talvez para uma humana completa eles fossem suficientes, mas não pra mim. Imagine fazer sexo com alguém tendo que manter em mente o tempo todo o fato de que se você não controlar sua força, vai esmagar seu parceiro. Não tem como se entregar, não dá pra curtir.
Então sim, eu me tornei frustrada. Então não me culpe se quanto eu vejo um peitoral bonito, eu admiro. Mesmo sendo o peitoral do .

Eu tô secando o corpo do meu pior inimigo. E daí? Me processe.

- Por que você tirou a camisa? – eu finalmente consegui dizer, me chutando mentalmente pela minha voz ter saído tão esganiçada.
- Facilita meus movimentos e diminui o barulho que eu faço ao me mover. Audição é algo que vamos treinar também. Eu tiraria a calça, mas sei que você daria um ataque. – respondeu ele, sorrindo malicioso.
- Toca nessa calça e eu tô fora daqui. – eu respondi, em tom de ameaça. Ele apenas riu e, mas rápido do que um olho humano poderia acompanhar, estava logo a minha frente, erguendo meu queixo com o dedo.
- Por que, ? Com medo da tentação? – perguntou ele, sorrindo maliciosamente.
- Com medo de vomitar, isso sim. – eu respondi, irritada, tirando a mão dele do meu queixo e o empurrando para longe. Ele queria treinar? Nós treinaríamos. Pra valer.
riu de mim mais uma vez – Qual é a dele, afinal? Eu tenho cara de palhaça? – e, antes que eu pudesse me preparar, me atacou.
Ele conseguiu acertar um golpe na minha mandíbula, mas eu bloqueei sua tentativa de atingir meu estômago. Com a facilidade que só anos de prática permitem, consegui atingi-lo no lado da cabeça, fazendo-o perder o foco tempo o suficiente para acertar um chute em sua barriga com toda a minha força. E acredite, ela não é pouca coisa.
Calculando que ele não se recuperaria logo, dei as costas para ele e corri para prateleira alta na qual estava localizada a estaca de metal com a qual eu treinava. Não era útil contra vampiros de verdade, mas era excelente para meus treinos, já que eu costumava praticar em bonecos de madeira.

Bom, dar as costas foi uma péssima idéia.

Em um momento eu estava me aproximando da prateleira, e no seguinte meu corpo estava pressionado contra a parede logo abaixo dela, um vampiro particularmente irritado logo atrás de mim.
- Lição número um, caçadora. – murmurou no meu ouvido, as palavras dominadas por pura fúria – Nunca... Jamais subestime seu adversário. – ele então me virou na parede, de forma que eu agora o encarava, seus olhos fixos nos meus. Os olhos dele sempre foram assim? Eu nunca havia reparado – Vampiros se recuperam muito rápido. Não pense que um golpezinho te daria tempo o suficiente para procurar sua arma. – ele desviou o olhar do meu apenas tempo o suficiente para olhar para a prateleira acima de nós – Sempre antecipe um ataque, e sempre prepare sua defesa de acordo.
Ok, aquilo era simplesmente irritante. Irritante porque eu teoricamente já sabia aquilo. Irritante porque eu havia me esquecido daquela regra básica e baixado minha guarda.
Estreitando os olhos e, me envergonho de dizer, grunhindo de raiva, o empurrei com força para trás, ficando imediatamente na ponta dos pés e esticando o braço para pegar minha estaca.
Nós circulamos um ao outro vagarosamente, ambos esperando por uma brecha, uma falha na defesa do outro para atacar. Eu senti a alça da minha regata escorregar um pouco pelo meu ombro e o olhar de a seguiu imediatamente, como um cachorro que subitamente avista um pedaço de carne.

Ok. Estranho.

Mas bem útil. Aproveitando a distração dele, me lancei para frente, acertando um soco em seu rosto, seguido de outro no outro lado. Guardaria aquele pensamento para considerar depois. Mas me parecia razoável pensar que, se eu era capaz de o secar sem camisa, ele teria a mesma capacidade de admirar meu corpo.

O que não deixa as coisas nem um pouco menos estranhas. Inimigos mortais não deveriam se ver dessa forma.

Para minha infelicidade, realmente se recuperava bem rápido, então não demorou para que ele começasse a bloquear meus ataques. Após alguns golpes, ele conseguiu me fazer derrubar a estaca. Jogando meu corpo para trás, eu tentei acertá-lo com um chute enquanto estendia minha mão para a estaca no chão. Não deu muito certo. Em questão de milésimos de segundo, eu estava deitada com as costas no chão, em cima de mim e prendendo meus braços no chão.

Uma terrível sensação de déjà vu se apossou de mim.

Era como estar naquele beco novamente, na noite que me olhara daquela forma pela primeira vez. Me olhara como se estivesse à segundos de me beijar. Dessa vez, no entanto, seu olhar continha principalmente diversão.
- Lição número dois, – começou ele, olhando dos meus olhos para minha boca e subindo para os olhos de novo – Nunca perca sua arma. Sempre tente mantê-la ao menos ao seu alcance. – disse ele, alongando em seguida suas presas – Como você pode ver, a minha arma está sempre ao meu alcance.
Certo, eu levei aquela frase no mau sentido. Mas a culpa não foi apenas da minha mente poluída, já que naquele momento eu senti algo pressionando meu estômago. Algo duro e aparentemente bem grande...

Eu o empurrei para longe tão rapidamente que até eu fiquei tonta.

Me levantando e me certificando de manter uma distância razoável entre nós, eu tentei manter a calma. Eu não podia culpá-lo por se excitar. Havia aprendido há um bom tempo que para vampiros, lutar apertava os mesmos “botões” que provocações sexuais. Brigar era excitante para eles, eu sabia bem disso, já que, bem, eu tenho essa pequena característica do meu lado vampírico. Por isso que geralmente eu me excito quando luto com . É algo puramente biológico, nada pessoal, é sério. Tem que ser.
Enquanto eu lutava essa batalha interna, foi até uma mesinha no canto da sala e voltou com um pedaço de pano preto.
- Ok, vamos mudar de técnica. – disse ele, e eu assenti com a cabeça. Não, nós não iríamos falar sobre isso. Não havia força nesse mundo que me faria discutir aquele assunto com – Fique no centro da sala. Eu vou vendar seus olhos.
- O quê? – eu perguntei, me forçando a olhar no rosto dele, e não descer os olhos para os jeans que caíam perigosamente baixos em seus quadris... Nos olhos, , olhe nos olhos!
- Eu vou te vendar. Quero que você tente me atacar sem me ver.
- Você tá maluco se acha que eu vou te deixar me vendar! Acha que eu confio em você?
- Se eu bem me lembro, uma vez, há meses atrás, você me disse que conseguiria ganhar de mim mesmo com os olhos vendados. Não quer testar essa teoria? Ou admite que estava só se gabando? – disse ele, sorrindo irritantemente.
- Ok, mas depois que seu ego for mortalmente danificado por perder de uma garota com os olhos vendados, não reclame. – dizendo isso, fui até o meio da sala, e se apressou em me vendar.
- Certo, essa é a lição número três. Eu quero que você me localize sem poder me ver. – disse ele, e pela forma como sua voz vinha cada vez de um ponto diferente, presumi que ele estava me circulando.
- Eu sei fazer isso, idiota. Já pratiquei esse tipo de coisa milhões de vezes com Gilbert. Eu posso te ouvir.
- Porque eu estou falando. – disse ele, rindo – Eu vou me calar, e aí sim quero que você tente me encontrar. E nem pense em tentar ouvir meus movimentos. Seu mentor provavelmente dedurava a própria posição se mexendo, mas vampiros são extremamente silenciosos. Nem com a sua audição apurada você vai conseguir me ouvir. Quero que você use seu radar interno para me encontrar. – “radar” é como vampiros chamavam a capacidade de sentir a proximidade de outro vampiro. Outra característica que eu herdei.
- O radar só me diz que você está nessa sala, mas disso eu já sei. – respondi, aborrecida.
- Por que você nunca aprendeu a usá-lo direito. Quero que se concentre em me encontrar. Você vai sentir uma espécie de impulso, de vibração na minha direção, mas pra isso precisa se concentrar totalmente. Você provavelmente não vai conseguir de primeira, mas é bom praticar.
Depois disso ele ficou quieto. Vampiro idiota, quem ele pensa que é pra dizer o que eu sou o não capaz de fazer de primeira?
Eu respirei fundo e deixei minha mente clarear. Em seguida, me concentrei em , ou mais precisamente, naquela sensação que me dizia que ele estava próximo. Pelo que me pareceram alguns minutos, eu tentei, sentindo que a cada momento a sensação ficava mais forte, mais definida. Até que, de repente, eu sabia que ele estava atrás de mim. Simplesmente sabia.
Sorrindo satisfeita, eu me virei e me joguei em cima dele, conseguindo derrubar seu corpo no chão com o meu. Me ajeitando até estar sentada nas coxas dele e prendendo seus braços acima da cabeça com uma mão, ergui a mão que ainda segurava a estaca até meu rosto, puxando a venda e sorrindo convencida para o vampiro visivelmente surpreso em baixo de mim.
- Ganhei. – eu disse, descendo a estaca até encostar sua ponta no peito dele, na altura do coração.
Como água escorrendo em uma superfície lisa, vi a expressão de surpresa “escorregar” do rosto de , dando lugar a um maxilar travado e um olhar penetrante.
Eu engoli em seco. nunca me olhara daquele jeito. Ninguém nunca me olhara daquele jeito. Era como se eu fosse um oásis e ele um sedento no deserto. Como se ele não só me quisesse... Parecia que ele precisava de mim. A intensidade nos olhos dele... Era como se ele desejasse me devorar. E eu não tô falando de sangue.
Eu me tornei extremamente consciente da minha atual posição. Eu estava em cima dele, prendendo seus braços e apontando uma estaca que não poderia matá-lo para seu peito.

Para um vampiro, isso pareceria bem pervertido. Para mim também.

Mas eu não conseguia me mover. Aqueles olhos... Se eu não soubesse que era imune a vampiros que sabiam usar hipnose, diria que era um dos que dominava a técnica. Senti minha mão afrouxando o aperto ao redor da estaca enquanto eu tentava decidir o que fazer, tentava forçar meu corpo a se mover.
A próxima coisa da qual eu me dei conta era que agora era eu quem estava no chão, com por cima de mim.
- Lição número quatro... – disse ele, e por mais estranho que possa parecer, não parecia presunçoso por ter me pego desprevenida. Não, o tom de sua voz era sério, baixo e meio rouco, e sua expressão denunciava que ele lutava para manter o controle sobre si mesmo. Sua boca estava a poucos centímetros da minha, e eu não conseguia nem respirar. Pela primeira vez na vida, eu estava com medo de – Nunca se deixe distrair. – continuou ele, e algo em sua voz levemente trêmula deixou claro que aquele aviso servia para ele também. Olhando uma última vez para mim e parecendo enfrentar uma séria disputa interna, se levantou, dando as costas para minha figura ainda largada no chão e me dando uma ampla visão de suas costas definidas. Ele foi calmamente até o canto da sala, pegando sua camisa e a pendurando no ombro. Sua mandíbula, porém, ainda estava travada, e ele ainda parecia desconfortável. Parando em frente à porta, ainda de costas para mim, ele apenas virou o rosto um pouco para o lado e quando falou, não ergueu os olhos em nenhum momento.
- Aqui termina a lição. – foi o que ele disse, naquele tom baixo, antes de sair da sala, me deixando sozinha, confusa, e ficando aos poucos irritada.
Eu havia deixado ele ter a última palavra. Havia deixado ele terminar o treino em posição vantajosa. Oh, eu estava com raiva. Dele e de mim. Eu podia sentir o ódio pulsante começando a correr pelo meu corpo junto com meu sangue. Aquela... Criatura. Aquele verme nojento que fizera da minha vida um inferno. Por um momento eu havia esquecido daquilo. Como eu pude me deixar admirar por um segundo que fosse aquela sanguessuga desprezível? Oh, eu o detestava. Podia sentir isso em cada fibra do meu corpo, mesmo aquelas que ainda sofriam o efeito da proximidade de seu corpo com o meu. O modo como meu corpo respondera a ele era mais um fator que me fazia odiá-lo. Como eu posso ter me sentido atraída por um segundo que fosse por uma criatura pela qual eu não tinha nenhum sentimento positivo? Alguém que eu ansiava matar, a última pessoa do mundo na minha lista de afeto.

Se eu tinha raiva de antes, não era nada comparado ao que eu sentia agora.

1- “Stop Looking At My Boobs” – “Pare De Olhar Para Os Meus Peitos.”


Capítulo 5 - Looking, but not really seeing.


’s POV

Sabe quando algo acontece e você é incapaz de decidir se aquilo foi bom ou ruim?

Era exatamente isso que eu sentia ao sair da sala de treinamento.
Quero dizer, a vida já andava bastante confusa nos últimos tempos. Conhecer , ser chutado para fora da cidade por ela, fazer dela minha obsessão, perder minha companheira de décadas, voltar para L.A., descobrir que toda a raiva que eu sentia de era na verdade amor à primeira vista reprimido a força... As coisas já estavam bem confusas só com isso. Como se ter os pensamentos atormentados dia e noite por aquela mestiça não fosse o suficiente, eu havia descoberto que a amava. Não só a desejava como admirava sua coragem, sua força... O poeta há tantos anos escondido dentro de mim ansiava pelo afeto daquela que havia sido a desgraça da minha vida desde o nosso primeiro encontro. Ansiava por um sorriso sincero, uma palavra de carinho... Mas ao mesmo tempo o “eu” que havia surgido após tanto tempo sob influência de Coraline tinha raiva, e odiava a caçadora por me fazer sentir tão fraco, tão patético. Por fazer eu me sentir pronto para dar a vida por um pedacinho que fosse do coração de . Foi aí que havia surgido minha grande dúvida: parte de mim queria tê-la para mim, mas uma parte ainda maior a odiava tanto por isso que desejava matá-la, arrancar de vez do mundo aquela que passara a ser minha maior fraqueza. Eu tinha consciência de que sofreria com isso, mas tinha esperanças de sobreviver. Afinal, se não podia ser minha, era melhor que ela não existisse. Mas então, como sempre, quando tudo começava a ficar claro para mim, algo acontecera e colocara tudo sob uma nova perspectiva. Naquela sala de treinamento eu havia descoberto algo. Algo que eu não imaginava ser possível, algo que ainda não havia percebido. O ódio dela por mim era tamanho que a impedia de notar a verdade clara e simples.

me queria também.

O fato de ela não ter percebido até o momento não era surpreendente, na verdade. Ao contrário de mim, idiota que me apaixonara pela última pessoa no mundo que saberia apreciar meu afeto, me odiava. Não era o tipo de ódio de pirraça, era ódio enraizado, ódio mortal. Eu sabia que era o meu rosto que ela via quando pensava na dor de perder o idiota do . Ela me associara à dor, à miséria de espírito, então era fácil entender que ela não perceberia facilmente que se sentia atraída por mim.

Os olhos só vêem o que a mente quer enxergar.

Mas eu percebera. Vira nos olhos dela no momento em que nossos olhares se encontraram. A confusão, o medo... O fogo. Um calor tão grande que ameaçara destruir a frieza há tanto tempo mantida no meu mundo. Ela me queria, por mais perverso que esse pensamento fosse para ela. me desejava. Atração física pura, eu entendia, mas mesmo assim, era algo.

Naquele momento, eu entendi que poderia tê-la. E isso mudava tudo.

Talvez valesse à pena insistir, tentar conquistá-la. Não que eu me sentisse capaz de parar de irritá-la, de brigar com ela... Aquilo era divertido, e ela sempre ficava linda irritada. Mas talvez eu pudesse também mudar um pouco de tática... Mudar o tipo de provocação. Um sorriso se espalhou pelos meus lábios com aquele novo pensamento. Era isso. Eu ainda não havia desistido de destruir por me fazer amar, mas... Enquanto eu não conseguia isso, podia tentar acalmar pelo menos meu desejo.

Eu seduziria . Nem que para isso eu tivesse de usar todas as minhas armas.

Xx

’s POV


Cerca de uma hora e meia após o fatídico treino, eu consegui recuperar controle o suficiente sobre minha raiva e meus hormônios para me juntar novamente à civilização.
Descendo as escadas que me levavam a minha “batcaverna”, abri a porta, sendo recebida pelos olhares curiosos de cinco pessoas. Yeah, a turma toda estava ali.
- ! – gritou , vindo correndo na minha direção e se atirando sobre mim em seu típico jeito animado de ser.
- Oi, . – disse eu, colocando uma mecha de cabelo molhado atrás da minha orelha. Havia passado na minha suíte para tomar banho antes de descer.
- Como foi o treino? – perguntou Gilbert, sem tirar os olhos do livro que lia.
- Normal, até a criatura rastejante das profundezas aparecer. – disse eu, me largando no sofá.
- Esse seria ? – perguntou Gilbert, ainda entretido no livro. Pelo tom de voz dele, nós poderíamos estar falando do fim dos tempos e ele não se daria conta.
- Bom saber que você entendeu. – eu respondi, rindo.
- Essa é nova. – disse , pensativo – Eu andei pensando em alguns xingamentos para o . Algo como “bafo de sangue” ou sei lá.
- Bafo de sangue? – perguntou , o tom de desdém evidente em sua voz – Não sei por que eu ainda me surpreendo.
- Qual o problema com “bafo de sangue”? – perguntou , confuso. Verdade seja dita, meu melhor amigo nunca foi um gênio.
- Bom, é um xingamento idiota. – disse , revirando os olhos. Depois disso eu apenas respirei fundo e me concentrei em ignorar as vozes dos dois, que haviam começado a discutir, como o habitual. Eu não entendia como duas pessoas conseguiam brigar tanto por qualquer coisinha.

Uma voz dentro de mim gritava “hipócrita”.

Não que minhas discussões com tenham algo haver com as brigas constantes de e . Aqueles dois viviam berrando um com o outro por culpa de . Sabe quando a gente é criança e implica com o menino que a gente gosta simplesmente para que ninguém saiba que gostamos dele? Esse é o caso da , a única diferença é que ela está mais de dez anos velha demais para esse tipo de coisa. E quanto ao ? Não, ele não faz a mínima idéia dos sentimentos dela. Passa o tempo ocupado demais entre mexer com armas e fantasiar comigo para perceber o que está bem debaixo do nariz dele.

É, isso mesmo. ama , que tem uma queda gigante por mim, que enxergo os dois como irmãos. Dá pra ficar mais novela mexicana do que isso?

Eu e nunca conversamos abertamente sobre isso, mas eu sei que ela sabe sobre as ilusões do . E quanto aos sentimentos dela por ele, amigas percebem essas coisas. Ela chegou a admitir para mim uma vez, uma noite na qual nós duas exageramos um pouco na vodka. Mas na manhã seguinte ela apenas fingiu que não se lembrava de nada.
nunca se declarou ou tentou chegar em mim, mas os olhares dele dizem tudo. Qualquer um com um pouco de atenção percebe que para ele, eu sou mais que uma amiga. Como se minha vida já não fosse complicada o suficiente sem isso.

Incrível como é só pensar nisso e as coisas pioram.

Como se invocado por um feitiço maléfico para fazer minha vida ainda mais deprimente, eis que surge o parasita dos infernos.
- Oi, time! – disse , em um tom irritantemente feliz, adentrando a sala como se fosse o dono do lugar. Percebi imediatamente que o comportamento sério e nervoso que ele apresentara horas antes na sala de treinamento havia dado lugar à aura de confiança habitual. E além disso, havia um brilho nos olhos dele que estava fazendo meu sangue gelar. Era o brilho que alguém tinha quando possuía uma carta extra na manga.

havia descoberto alguma vantagem sobre mim. Eu praticamente sentia isso.

Gilbert, e apenas o olhavam, abismados. havia escorregado de seu lugar no sofá para bem perto de mim, e agora – nada sutilmente – tentava me usar como escudo humano. Oh, ótimo. O nerd além de tudo é covarde. Tara, no canto da sala, não parecia nem um pouco incomodada com a presença de . Havia apenas desviado o olhar para ele rapidamente e agora voltara a analisar o livro que lia. É, sobraria para mim tomar alguma providência.
- . – eu disse, me certificando de usar um tom que fizesse daquilo um xingamento – Quem te deu autorização de vir até aqui? Esse espaço é meu e da minha equipe.
- Bom, eu sou seu parceiro, . Isso faz dos McLanches Felizes ambulantes que você chama de amigos minha equipe também.
- Ok, sanguessuga, vamos estabelecer umas regras por aqui. – disse , em tom irritado – E a primeira é: nada de analogias entre pessoas e comida.
- Quem morreu e fez de você o palhaço chefe do circo, ? – perguntou , revirando os olhos e parecendo entediado. Ele e haviam se encontrado algumas vezes no passado, assim como acontecera com e Gilbert, na última vez que viera para a cidade. Os três haviam tentado me apoiar em diversas lutas contra .
- , – eu interrompi antes que pudesse retrucar – corta a enrolação e me diz o que você realmente está fazendo aqui.
- Vim buscar você para ir caçar os coitados da minha espécie. Já é noite. – respondeu ele, aparentando inocência.
- Sabe, alguém que não te conhecesse até poderia pensar que você realmente está interessado em defender a humanidade. – disse eu, cruzando os braços.
- O quê? Você não acredita nas minhas boas intenções? – perguntou , fingindo surpresa e ofensa – Não acredita que eu tenha passado pro lado “certo”? Oh, eu entendo. Você só acredita em vampiros regenerados quando os leva pra cama. – continuou ele, em tom azedo.
Se não fosse Gilbert se metendo entre mim e , eu não me responsabilizo pelo que eu teria feito. Ele podia me ofender o quanto quisesse, mas eu não admitiria que ele usasse para isso.
O verme apenas ria da minha cara.
- , aceitar você entre nós já é um esforço sobre-humano de nossa parte. – disse Gilbert – Não toleraremos que fale desse jeito com . Tenho certeza que o conselho nos daria razão.
- Ok, ok, não precisam começar a afiar estacas. – disse , aparentando cansaço – Não vou mais tocar nos assuntos sensíveis. Afinal, nós estamos fazendo tantos progressos na nossa relação, ! – continuou ele, com um sorriso falsamente doce – Nossos treinos não vão poder continuar se não formos ao menos educados um com o outro. – ele concluiu, em tom de escárnio. Ainda bem que ele sabia o quanto aquela idéia era ridícula e...

EI! Ele disse “continuar” e “treinos” na mesma frase?!

- Treinos? – perguntou Gilbert, olhando de mim para com o que parecia ser no mínimo curiosidade. Eu ainda estava surpresa demais para falar qualquer coisa. Depois de tudo o que quase acontecera no treino... Ele pretendia continuar?
- Oh, sim. – disse ele, sorrindo – Eu ajudei a a treinar hoje mais cedo. Foi uma experiência muito... Proveitosa para ambos.
Com isso, ele lançou para mim um sorriso. Aquela espécie de sorriso secreto com o objetivo de explicitar o sentido oculto de determinada frase.
Ok, por um momento eu havia debatido internamente a possibilidade de eu ter sido a única que maliciara os eventos daquele treino. Mas aquilo era a prova contundente de que , de fato, também havia percebido o rumo... Incomum que as coisas haviam tomado naquela sala. E, aparentemente, ele não se importava. Na verdade, parecia estar achando divertido. Imbecil. Provavelmente estava adorando o fato de me deixar desconfortável.
- não nos disse que você havia de fato a ajudado com os treinos quando mencionou sua intromissão. – disse Gilbert, olhando de forma repreensiva para mim.
Oh, claro. Eu tinha toda a intenção de contar o que acontecera para Gilbert e os outros. Com detalhes, inclusive. Sobre como ambos havíamos nos excitado um pouquinho mais que o normal e sobre como eu cheguei a parar em cima do em um momento e as coisas quase saíram do controle. Claro que eu planejara explicar isso para todos.

Ou eu poderia ter simplesmente enfiado uma estaca no meu pé. Seria igualmente divertido.

- Eu esqueci. – tentei justificar, mexendo os ombros como se não achasse que aquilo fosse tão importante.
- É, ela só se lembra de contar as coisas ruins que eu faço. – disse , fingindo uma cara de coitado. Tara, no canto da sala, tentou disfarçar o riso. Traidora!
- Eu pensei que seria uma coisa de uma vez apenas. – eu disse, olhando significativamente para . Eu sabia que ele estava planejando algo.
- Acredite, ... Uma vez só nunca seria o suficiente pra nós dois. – disse ele, me lançando outro daqueles sorrisos. Era impressão minha ou a voz dele havia adquirido um tom extremamente provocante? Eu olhei a minha volta. Ninguém parecia estar nos olhando estranho, então deveria ter sido impressão.

Ou isso ou minha equipe era formada por cinco idiotas.

Eu engoli em seco antes de responder.
- O Gilbert é quem me treina.
- Tenho certeza que ele não se importaria. – disse , se voltando para o meu mentor – Aprender com um vampiro seria bem útil para a .
- Sou forçado a concordar. – disse Gilbert, pensativo. Eu tive que me controlar pra não grunhir de frustração.
- Duvido que haja muita coisa que eu possa aprender com o . – eu insisti, tentando conter o desespero na minha voz.
- Oh, pequena... Você não acreditaria nas coisas que eu tenho pra te ensinar. – disse ele, naquele tom baixo e profundo que ele usava quando queria me provocar.
Eu me arrepiei. Por mais que eu odeie meu corpo por isso, senti um arrepio percorrer minha espinha com aquela provocação tão óbvia e direta. O que ele estava querendo com aquilo, afinal? E por que ninguém mais parecia entender do que ele estava falando? Alô, pessoal, insinuações sexuais sendo feitas bem debaixo dos narizes de vocês! Não é possível que meus amigos tenham o mesmo nível de malícia do dinossauro Barney!
- Você realmente acha que conseguiria ensinar alguma coisa a ? Posso te garantir, ela pode ser bem difícil quando quer. – Gilbert continuou a conversa totalmente alheio à tensão que surgia naquela sala e que aparentemente apenas eu e éramos capazes de sentir. Obrigada, Gilbert. Achei que você estivesse do meu lado!
- Oh, acredite, eu sei bem disso. – respondeu , rindo – Mas eu posso ser um parceiro de treino muito melhor para a . – continuou ele, e para um ouvinte de fora pareceria que eu não estava na sala, do jeito que aqueles dois falavam de mim como se eu não estivesse presente – Entenda, vampiros tem muita resistência. Então enquanto um humano cansa depois de um tempo, nós podemos continuar... E continuar, e continuar... A noite inteira se for preciso.
Cada palavra que saía da boca dele vinha carregada de tamanha malícia que eu sentia meu corpo esquentar rapidamente. Os olhos dele se mantinham fixos em mim o tempo todo, e se o fogo neles pudesse escapar, o prédio inteiro teria entrado em chamas.
Pensei que agora seria impossível que os demais permanecessem inconscientes do que realmente acontecia ali.
- Bom, realmente parece vantajoso. – disse Gilbert. Os outros também pareciam permanecer ingênuos. Bom, é o que dizem: às vezes para ver, é preciso querer enxergar. E eu duvido muito que qualquer um ali estivesse procurando ver algo do gênero entre mim e , por isso não percebiam. A não ser... Tara. Ela também aparentava inocência, mas reparando bem, tinha um brilho divertido nos olhos. Ok, pelo visto ela pode ser tímida, mas de ingênua não tem nada.
- Nós deveríamos ir patrulhar a cidade agora. – eu disse, desesperada para sair dali. Meus amigos podiam ser bem lerdos, mas tudo tinha limite. Mais alguns minutos ali e eu tinha certeza que eles sacariam o que quer que estivesse acontecendo. Eu não era capaz de definir o que era, mas definitivamente era... Algo.
- Vocês vão treinar quando voltarem? – perguntou Gilbert. Ele ao menos tinha a decência de parecer desconfortável com a idéia.
- Talvez. – eu disse, já perto da porta. , é claro, estava logo atrás de mim.
- É bom. – disse ele – Eu estou preocupado. Um ancião é uma ameaça considerável. Todo treino é pouco até que você esteja totalmente satisfeita com a sua preparação.
- Fique tranqüilo, Gilbert. – disse – Da próxima vez que eu e treinarmos como hoje mais cedo, vou garantir que nós não descansemos até estarmos total e completamente satisfeitos.

Eu nunca pensei que fosse capaz de atravessar uma porta com tanta rapidez.

Xx

má. muito, muito má.

Esse era meu mantra enquanto eu saía praticamente correndo do elevador em direção à saída do prédio, ralhando internamente comigo mesma.
Eu não devia estar me sentindo afetada por . As palavras dele deveriam me irritar. Bom, elas estavam realmente me irritando, mas ao mesmo tempo... Meu corpo não deveria esquentar a cada provocação que saía daquela boca. E que boca, devo admitir. Lábios tão beij... NÃO! Nada de lábios beijáveis!
Tá dando pra entender minha situação? Que bom, porque eu não tô entendendo mais nada. Eu não devia estar reagindo assim. Eu não era assim.
Ok, então talvez por um segundo naquele treino – um segundo no qual minha mente havia parado de funcionar, é a única explicação –, eu realmente tenha pensado em como algo além de um monstro repulsivo. Por um segundo ele havia sido o monstro repulsivo que eu queria pegar.

Meu Deus, eu sou doente.

Qual era a minha desculpa agora? O momento de insanidade havia passado. Então qual era a explicação para meus batimentos cardíacos acelerados, para as ondas de calor que percorreram meu corpo após cada indireta dele? Eu não podia estar... Eu não estava atraída por ele. Aquilo era doentio, era errado. Tinha que ter uma explicação lógica para o efeito que estava exercendo sobre mim.
- Por que a pressa, caçadora? – gritou para mim, facilmente me alcançando. Claro que ele havia me seguido. Era pedir demais ter um momento de paz quando aquela peste estava por perto – Até parece que você está fugindo de mim!

Era impressão minha ou aquilo na voz dele era sarcasmo?

- Não é de você que eu estou fugindo. – eu menti imediatamente – Só queria dar um fim aquele showzinho que você estava dando na frente de Gilbert e dos outros.
- Que showzinho? – perguntou ele, em tom inocente. Oh, mas eu acreditava tanto naquela inocência quanto acreditava no coelhinho da páscoa.
- As insinuações que você tava fazendo lá dentro! – eu respondi, sinalizando para o prédio agora quase invisível devido à distância que estávamos tomando – Qual é a sua, afinal? Queria que algum deles tivesse uma idéia errada do que realmente aconteceu?
- Idéia errada?! – perguntou ele, rindo incrédulo – Queria que eles tivessem a idéia certa, isso sim. Mas pra sua sorte, seus amiguinhos ou são totalmente cegos ou querem enxergar ainda menos que você.
- O quê? – eu perguntei, já na entrada de um cemitério, parando e me voltando para ele – O que você quer dizer com isso?
- Nada, . – disse ele, suspirando e parecendo frustrado.
- Quem te deu autorização de me chamar pelo apelido? – agora eu estava irritada de verdade.
- Oh, claro. – é, eu não era a única – Eu não posso te chamar pelo apelido. Assim como eu não posso insinuar nada na frente dos seus amigos. Assim como eu tenho que fingir que não aconteceu nada naquela sala de treinamento. Sim, vamos todos viver no mundo de negação de !
- Nada aconteceu naquela sala! – eu exclamei, apavorada.
- Porque eu não deixei, . – dizendo isso, ele deu dois passos na minha direção, parando com o rosto a centímetros do meu – Se eu não tivesse ido embora nós dois teríamos nos atracado naquele chão sujo mesmo até que ambos não tivessem energia nem para nos mover.
Seu tom de voz era áspero assim como a expressão em seu rosto, e eu engoli em seco, controlando a onda de medo e desejo que aquela raiva dele estava lançando em mim, ao mesmo tempo que sentia meu queixo cair em puro choque.
Eu não esperava que ele fosse ser tão direto sobre aquilo. Na verdade, eu pensara que nunca mais iríamos mencionar o que quase acontecera.

Eu estava errada.

- Eu não sei do que você está falando. – eu menti novamente, me sentindo patética.
- Ah, não sabe? – perguntou ele, sorrindo de forma um pouco cruel. abaixou o tom para quase um sussurro – Estou falando do jeito como você estava há algumas horas atrás. Eu inverti nossas posições e você continuou tão submissa... Tão entregue... – enquanto ele dizia isso, ia me rodeando, parando atrás de mim antes de continuar – Eu podia ter te beijado ali e você não resistiria. – a boca dele estava a centímetros do meu ouvido, e seu tom era tão baixo que alguém sem minha ótima audição talvez não captasse. Eu tentava me mover, mas como acontecera horas antes, meu corpo não me obedecia. afastou uma mecha de cabelo no meu pescoço e inclinou ainda mais o rosto, de forma que agora sua boca estava quase encostada em minha orelha – Eu podia ter me aproveitado da situação... Podia ter te tocado... Podia ter tido você, . – eu era capaz de sentir seus lábios se movendo contra minha pele, fazendo com que meu coração quase pulasse para fora do peito – Oh, eu podia ter feito o que nós dois queríamos. Podia ter rasgado aquela desculpa de short que você usa... Eu saberia onde te tocar, como te tocar até fazer suas pernas bambearem e seus olhos rolarem. Podia ter estado dentro de você, me movido com tanta força que você não seria capaz de pensar ou andar por um mês, mas me imploraria para não parar nunca mais. Eu te viciaria em mim, caçadora... Eu poderia ter feito isso e ainda assim você não resistiria. Céus, eu poderia ter te matado ali e você não se defenderia...

Ok, aquilo me fez acordar.

- Nos seus sonhos, . – disse eu, o empurrando para longe de mim.
- Nos seus, também. – acrescentou ele, me encarando daquela forma intensa que fazia meus joelhos tremerem. Ok, desde quando meus joelhos tremem por ?!
- Você se considera um presente dos céus, não é? – eu respondi, o ódio me dando combustível para continuar – Vou deixar uma coisa bem clara pra você, . Você não é nada. Na verdade, você é pior do que nada. Insignificante. Se você pensa por um segundo que eu te deixaria encostar um dedo em mim, está enganado. Só um vampiro é digno o suficiente disso, e esse vampiro é o . Sabe quem é, não sabe? O criador da sua Cora? Aquele que é muito mais homem que você em todos os sentidos possíveis?
- Se eu fosse você, caçadora, teria cuidado ao falar do que eu não sei. – disse ele, me olhando enfurecido e aparentando se controlar para não voar no meu pescoço. Uh, toquei um ponto sensível. Como estou preocupada!

É, não estou não.

parecia prestes a continuar a ameaça, mas não teve tempo.
- Se vocês vão acabar um com o outro, qual o sentido de termos vindo matar vocês? – disse uma voz desconhecida antes que pudesse falar mais alguma coisa. Como se combinados, viramos a cabeça em direção à voz ao mesmo tempo. Seis vampiros nos observavam com curiosidade.
- Eu estou tão fora do clima pra frases ameaçadoras no momento. – eu disse, revirando os olhos antes de me lançar para frente, em direção aos seis, agradecendo aos céus pelo aparecimento deles. Oh, eu estava com vontade de matar algo no momento. Sem contar que a distração do assunto no qual eu me encontrava era mais do que bem vinda.
entrou na luta logo depois de mim, o que deixou as coisas um pouco mais equilibradas. Eu havia deixado o prédio tão rapidamente que havia me esquecido de trazer alguma arma comigo. Erro que poderia ser fatal, eu sei, mas por sorte eu sempre soube aproveitar o que o ambiente me oferecia. Guiei dois dos vampiros sutilmente até perto de uma placa de “não pise na grama” do cemitério e a arranquei do chão, agradecendo à sorte pelo fato de a placa ser de madeira. Com a parte afiada antes presa ao solo, empalei os dois vampiros de uma vez só, em seguida correndo de volta para onde e os demais estavam. já havia finalizado dois e agora lutava com o outro, enquanto a sexta, uma vampiresa que havia sido transformada quando tinha mais ou menos a minha idade, veio correndo em minha direção, com um sorriso estranho no rosto bonito.
Ela era uma boa lutadora, mas não boa o suficiente. Em menos de dois minutos eu a tinha presa no chão, o pedaço da placa que eu arrancara para usar como estaca firme em minha mão e em seguida cravado em seu peito. Nem mesmo assim o sorriso divertido da criatura deixou seu rosto.
- Meu Mestre manda lembranças. – disse ela, pouco antes de se calar para sempre.
- Meu Mestre manda lembranças? – perguntou , se aproximando de mim, as roupas cobertas por terra na qual havia rolado com o adversário vampiro. Eu acharia engraçado, se não tivesse tão perturbada.
- Foi o que ela disse. – eu respondi, simplesmente.
- E o que isso significa?
- Sei lá. Tenho cara de dicionário vampírico por acaso? – eu revirei os olhos – Você é quem deveria saber. Não sou eu que tenho diploma em mensagens codificadas de vampiros. É sério, tá aí uma coisa que eu nunca entendi. Vocês devem passar horas bolando esse tipo de frase misteriosa para parecerem inteligentes e assustadores. Seria muito mais simples se vocês aprendessem a falar a língua de nós, reles mortais.
- , depois de décadas vivo, as coisas começam a ficar entediantes. Alguns de nós morreriam de tédio se não falassem em códigos. Mas não, eu não faço idéia do que ele quis dizer com isso. A não ser que haja alguma chance dele estar, uhn... Sendo educado?

Eu só lancei a ele um olhar.

- É, pensei que não.
- Claro que não. – eu acrescentei – Mas também não acho que signifique alguma coisa. Ele provavelmente só queria se comunicar. Mandar uma mensagem direta para mim de forma a garantir que eu soubesse que ele sabe sobre mim ou algo do tipo.
- E como você sabe disso? – perguntou ele, parecendo impressionado.
- Eu leio bastante livros de mistério. – eu respondi, rindo um pouco – O vilão sempre faz isso com o mocinho em algum ponto. É uma espécie de jogo psicológico. Ele manda alguma mensagem simples, mas direta, e então o mocinho entende que aquilo é na verdade uma provocação, que o vilão quer dizer algo como “hey, eu estou aqui e sei que você está me caçando, então resolvi mandar um oi pra te deixar confuso e assustado”. Pelo menos assim a gente sabe que quem quer que seja esse Mestre, é um homem.
- Ou uma vampiresa querendo te fazer pensar exatamente isso. – argumentou .
Era um bom ponto, mas não parecia muito provável.
- Talvez, mas seria uma idéia idiota. Prova disso é o fato de que até você conseguiu desvendar facilmente.
- Talvez esse seja o objetivo. Talvez por ser tão óbvio, ela achou que você descartaria a possibilidade de cara, por estar esperando algo mais inteligente.
- Talvez. Mas sabe qual o problema? A quantidade de “talvez” que estamos falando. Ficar imaginando o que isso tudo significa não vai nos levar a lugar nenhum. Não gosto de lidar com possibilidades, prefiro fatos concretos. – eu respondi, me levantando do chão, onde eu ainda estava ajoelhada ao lado do corpo em rápida decomposição, e bati nos joelhos da calça para me livrar da sujeira. Em seguida peguei um prendedor no bolso da calça e me pus a prender o cabelo molhado de suor em um rabo-de-cavalo. Tem dias que eu penso na possibilidade de que, se eu não morrer pelas presas de um vampiro, acabarei morrendo com esse calor insano da Califórnia.
Quando eu voltei meus olhos novamente para , ele me encarava com um misto de surpresa e descrença.
- O que foi? – eu perguntei, mas ele não respondeu. Apenas deu um passo em minha direção, os olhos fixos em meu pescoço.

Ok, se tem algo que eu aprendi com minha vasta experiência com vampiros, é que fixação por pescoço nunca é legal.

- ?! – eu perguntei, meio alarmada, quando ele, continuando a me ignorar, chegou bem perto de mim e, com as sobrancelhas franzidas em confusão, colocou a mão no meu pescoço, como se procurasse por algo na minha pele.
Eu imediatamente empurrei sua mão e dei um passo para trás, assustada. Não por causa dos pequenos choques elétricos que sua pele disparara de encontro a minha. Não, nada disso. O toque da sanguessuga não provoca faíscas. Não provoca!

Talvez se eu repetir isso várias vezes, acabe me convencendo.

- Tá maluco?! – eu perguntei, o encarando confusa. Ele apenas balançou a cabeça, como se despertando de um transe, e me encarou ainda descrente.
- É que eu não tinha reparado antes. – disse , aos poucos sorrindo divertido – Você não tem marcas de presas.
- Ahn... Óbvio, né? – eu respondi, começando a duvidar da sanidade mental dele – Você acha que se eu tivesse perdido alguma briga e deixado um vampiro me morder, estaria aqui falando com você agora?
- Você namorava um vampiro. – continuou , como se esperando que eu o entendesse.
- E? – eu perguntei, ainda sem sacar.
- nunca mordeu você?
- Claro que não! – eu respondi, apavorada – Por que ele me morderia?!
Na verdade, mesmo se por algum motivo já houvesse me mordido, eu não teria marcas agora. Eu me curo com uma rapidez impressionante.
Os olhos brilhantes de haviam assumido um brilho malicioso e divertido.
- Você realmente não sabe, não é? – perguntou ele, o sorriso sacana habitual firme naqueles lábios irritantemente tentadores.
- Não sei do quê? – céus, eu odeio quando ele começa a falar nesse tom de mistério.
- Nada, . – disse ele, sorrindo provocante – Talvez um dia eu te explique. Se você for boazinha, te dou até uma aula prática.

Eu odeio não entender do que estão falando. Odeio mais ainda quando agem como se eu fosse ingênua.

- Do que você tá falando? – eu insisti. já havia dado as costas e seguia em direção à saída do cemitério.
- Mesmo se eu te explicasse agora, caçadora, você não entenderia. É muito cedo ainda.
- Cedo pra quê?
- Pra sua cabecinha entender algo desse gênero. – disse ele, parando de costas para o muro ao lado do portão e me encarando – Você foi muito mimada, . Mimada por , quero dizer. Tratada como uma bonequinha de porcelana que ele tinha medo de quebrar, quando na verdade você é tão forte, se não mais forte, do que ele. Pra você entender do que eu estou falando, você antes precisa de um vampiro de verdade na sua vida... – ele então me olhou de cima abaixo, com aquele tipo de olhar que faz qualquer mulher se sentir nua – Você precisa de mim, .

Pra mim chega.

Tudo tem limite. Foi naquele momento que se fez a luz dentro da minha cabeça. O que eu estava fazendo ali, parada, escutando ele me provocar? Eu sou , e dois podem jogar esse jogo.
- Oh, você acha? – eu respondi, deixando que meu próprio sorriso sacana se alargasse por meus lábios. me olhou surpreso. Ele obviamente não estava esperando que eu revidasse – Pobre . Você não entende que nem em um milhão de anos seria o que eu preciso? – eu continuei, dando um passo para frente, tentando manter a postura sexy porém assustadora. engoliu em seco e deu um passo para trás – Você nunca seria o suficiente para satisfazer uma garota como eu, . Eu acabaria com você. Duvido que conseguisse acompanhar meu ritmo... – eu continuei a seguir em direção a ele, lentamente. Cada passo meu era um passo que dava para trás. Céus, eu estava me divertindo – Oh, as coisas que eu sou capaz de fazer... Se você fosse merecedor... – as costas dele bateram contra o muro e eu venci o espaço restante que nos distanciava, o pressionando contra a superfície de pedra, batendo um punho fechado em cada lado de sua cabeça, de forma a encurralá-lo. Os olhos dele estavam fixos nos meus e, pela primeira vez, era ele o hipnotizado – Eu tenho músculos com os quais você sequer sonha, ... – eu continuei, me esticando até que minha boca estivesse perto de seu ouvido – Eu poderia te apertar até você jorrar como champanhe quente e me implorar pra te fazer sofrer só mais um pouquinho... – eu continuei, satisfeita ao ver que a respiração desnecessária de havia acelerado. Era bom saber que eu era capaz de fazê-lo esquecer que não precisava de oxigênio – Mas eu não vou fazer nada disso, sabe por quê? Porque você... – eu deslizei uma mão por sua bochecha –... Não é... – minha mão seguiu o contorno de sua mandíbula até parar em seu queixo –... Digno. – eu conclui, segurando o queixo dele e inclinando seu rosto para baixo até que nossos olhos se encontrassem. O olhar de parecia meio nublado e suas presas haviam se alongado. É, eu estava obtendo o efeito desejado – Você diz que eu preciso de um vampiro de verdade... Mas sabe do que você precisa, ? – eu perguntei, e ele negou com a cabeça devagar, os olhos ainda fixos nos meus. Eu me estiquei novamente, agora aproximando nossos lábios, e ele fechou os olhos, literalmente tremendo contra mim. Eu deixei que meus punhos fechados se espalmassem contra o muro e deixei que nossos lábios ficassem a apenas milímetros de distância, de forma que quando eu falei, nossas bocas se roçaram de forma quase leve demais para perceber – Você precisa de uma mulher que te coloque no seu devido lugar.
Dizendo isso eu me afastei, sorrindo ao observar abrir os olhos, me encarando incrédulo e chocado. Orgulhosa de mim mesma, eu dei as costas, o deixando para trás para se recuperar e seguindo de volta para a sede, desesperada por um banho frio e minha cama macia.

achava que tinha a vitória nas mãos após vencer algumas batalhas, mas se dependesse de mim, aquela guerra ainda estava longe de terminar.


Capítulo 6 - Dreadful Day.


’s POV

Uma semana.

Mais precisamente, uma semana, vinte e duas horas e trinta e três minutos desde o dia que as coisas começaram a ficar estranhas com .

Não que eu esteja contando.

Desde que eu o deixei naquele cemitério, as coisas, se possível, pioraram. O que antes parecia ser apenas uma série de momentos embaraçosos e incômodos que deviam ser ignorados se tornaram uma espécie de guerra declarada.
Claro que a primeira coisa que eu fiz ao chegar na sede naquela noite foi pedir a Gilbert que ao menos assistisse meus treinos dali para frente. era ousado, mas não tentaria nenhuma gracinha com meu mentor nos observando. Eu sou uma covarde, sei disso, mas não tinha confiança o suficiente para ficar sozinha em uma sala com ele. Não que isso tivesse resolvido muita coisa. Nós apenas disputávamos umas lutas simuladas e treinávamos meu radar e outras pequenas habilidades vampíricas, mas mesmo assim... Cada toque parecia estranho para mim, cada olhar tinha um significado oculto... O fato de aquele sorriso convencido e postura confiante terem se tornado constantes em também não ajudava. Ele sabia que me afetava e parecia adorar isso. Eu o evitava o máximo possível, mas ele não perdia a chance de me provocar com indiretas sempre que tinha chance. Claro que, como eu fiz naquela primeira noite, continuei a revidar no mesmo nível sempre que a oportunidade surgia, mas mesmo assim... A situação era perturbadora.
Durante as últimas noites eu também procurei sair para caçar a noite perto de outras equipes de caçadores. Todos estranharam, é óbvio, mas eu não podia me dar ao luxo de sair por aí com sem nenhuma outra companhia. Naquela noite no cemitério eu havia dado um passo atrevido, perigoso, que explicitara o novo caminho que nossa relação seguira. Eu havia demorado alguns dias para admitir isso, também.

Mas então eu tive o primeiro sonho...

Estava escuro, e eu me encontrava em uma espécie de caverna. Não conseguia enxergar nada, mas supunha que aquela era a minha localização graças às paredes frias que eu sentira quando tateara em busca de uma saída. Eu havia fechado meus olhos e me concentrado, tentando apurar minha audição ao máximo, procurando por algum som que me indicasse como sair dali. Mas só o que eu consegui perceber foi a presença de um vampiro por perto.
Antes que eu pudesse me preocupar com isso, porém, senti um corpo mais frio que o meu encostar-se a mim por trás e abraçar minha cintura. Imediatamente, eu sabia quem era.
- , o que você está fazendo aqui? – eu perguntei, tentando soar irritada e ultrajada, sem sucesso, já que as palavras saíram como um frágil e trêmulo sussurro. Eu senti afastar o cabelo do meu pescoço e enterrar o rosto ali delicada e sensualmente.
- Shh... – eu o ouvi dizer, um segundo antes de seus lábios entrarem em contato com a pele do meu pescoço. Um gemido sôfrego escapou de meus lábios enquanto cada pedacinho de pele tocada por aquela boca parecia esquentar a ponto de me fazer imaginar como meu corpo ainda não havia entrado em combustão espontânea.
Notando minha óbvia rendição, subiu uma mão por debaixo da minha blusa, a posicionando sobre meu estômago, o choque térmico entre sua pele e a minha sendo o suficiente para me fazer abandonar qualquer intenção restante de afastá-lo de mim. Deixei minha cabeça cair para trás, de forma a encostar em seu ombro, enquanto ele me pressionava contra si e subia a trilha de beijos lentos, porém intensos em meu pescoço em direção a minha orelha.
- ... – eu murmurei, sentindo o volume em suas calças sendo pressionado contra meu corpo por trás, enquanto sua mão acariciava minha barriga em círculos e seus lábios chupavam levemente o lóbulo da minha orelha.
- Shh... – repetiu ele – Você é linda, ... Tão linda...
Sua boca começou a refazer o caminho até a base do meu pescoço, mas agora não eram apenas seus lábios que eu sentia roçando em minha pele. Presas. Os caninos de haviam se alongado e agora me tocavam levemente, me instigando a querer mais do que aquilo. Seus dentes afiados haviam parado logo acima do meu ponto de pulsação, e deslizavam por minha pele em um carinho provocante, me fazendo ansiar por algo que nunca pensei que desejaria na vida.
- Me morda. – foi o que eu pedi, com a voz fraca e o tom beirando uma súplica.


Foi aí que eu acordei.

Acho que não preciso dizer qual foi minha reação assim que meus olhos se abriram. Nojo. Nojo de mim mesma. Meu estômago embrulhou a tal ponto que eu precisei me levantar correndo da cama e praticamente arrancar a porta do meu banheiro para vomitar.
Sonhos geralmente mostram o que está no nosso subconsciente. E naquele sonho em particular eu estava prestes a deixar... Não, eu havia pedido para me morder. Aquela era a coisa mais vil na qual eu podia pensar. A capacidade de morder daquele jeito, em minha mente, sempre fora o que explicitava o fato de vampiros serem monstros. E no meu sonho eu havia desejado ser mordida como nunca havia desejado nada antes.

Aquilo era doentio. Eu me sentia doentia.

Confesso que desde que sugeriu aquelas coisas sobre mordidas no cemitério, eu comecei a pensar bastante sobre o assunto. Ele soou como se... Como se houvesse algo que eu não soubesse sobre mordidas de vampiros. Para mim sempre parecera bem simples. Um vampiro enfiava as presas no pescoço de uma vítima e ela sentia muita dor. Mas o sorriso nos lábios de naquela noite dera a coisa todo um novo sentido. Ele mencionara o ato de morder como uma pessoa experiente mencionava sexo para um virgem. Ele tivera toda aquela confiança, todo aquele ar de quem conhece algo prazeroso e tenta explicar para alguém que não entende nada daquilo.
O fato é que depois daquele sonho, eu não pude mais negar. Eu, de alguma forma, sentia essa atração sinistra por . Oh, eu odiei a mim mesma quando percebi isso. Odiei pensar em como podia ter desejo por alguém por quem eu nem ao menos sentia simpatia. Alguém de quem eu nem ao menos gostava. Eu já havia passado da fase de negar que achava bonito. Ele era bonito, só um cego não veria isso, e tinha um corpo capaz de deixar qualquer estátua grega com inveja. Mas ainda assim, eu tinha total consciência de que seria capaz de dar uma festa de tanta felicidade se morresse. Então como ao mesmo tempo eu me sentia atraída por ele?

Atração física definitivamente não era algo ligado a sentimentos.

Eu ainda tive um outro sonho, que seguiu fielmente meu primeiro treino com até a parte que ele nos virou no chão. A partir daí as coisas tomaram um rumo bem diferente do que realmente havia acontecido.
Não, eu não me orgulho disso. E era esse o motivo pelo qual eu andava evitando . Eu tinha essa teoria de que, se o ignorasse o suficiente, essa atração irritante iria sumir como mágica.

Não custava ter esperanças.

Quanto ao meu trabalho, as coisas não mudaram muito na última semana. Todas as noites eu tive que enfrentar alguns pequenos grupos de vampiros que clamavam seguir as ordens do tal “Mestre” até agora sem nome. E sempre havia um deles que me transmitia alguma mensagem semelhante àquela primeira. O curioso é que, como eu já disse, andava saindo à noite perto de outras equipes de caçadores, geralmente compostas por quatro ou mais pessoas, e sempre vinha comigo. Mas mesmo assim, as mensagens sempre eram direcionadas a mim. Algumas vezes, o mensageiro havia até dito meu nome. Já estava mais do que claro que aquilo era pessoal. Chegamos a capturar e interrogar alguns dos vampiros, mas todos pareciam sempre dispostos a morrer sem revelar algum dos segredos do chefe. Aquilo era preocupante, ainda mais após , parecendo confuso, contar a mim e a Miles o quão incomum era para um vampiro colocar a vida de algum outro antes da própria. Para ele, aquele caso sério de fanatismo deixava claro que estávamos lidando com um vampiro assustadoramente poderoso.

Ótimo. A vida ficava cada vez mais divertida.

Suspirando, eu levantei da minha cama – aonde descansava um pouco antes de me preparar para sair e patrulhar a cidade – e atravessei meu quarto em direção à estante. As pessoas daqui devem imaginar meu quarto como sendo um aposento assustador, cheio de caveiras e armas penduradas ou algo do tipo. Bom, eles se surpreenderiam se vissem como realmente é. Alguns móveis, pôsteres de minhas bandas favoritas nas paredes, meu bichinho de pelúcia que eu tenho desde criança em cima da cama (que é de casal, já que eu sou espaçosa)... Em resumo, o quarto de uma pessoa normal. As pessoas pensam que só porque eu me visto de forma meio monocromática, eu sou sinistra ou coisa parecida. Bom, se você abrir meu armário, realmente vai encontrar predominantemente roupas pretas, além alguns tons de azul escuro e vermelho, roxo, cinza e até um bom número de peças brancas. Nada de rosinha bebê pra mim, mas ei, cada um com seu estilo, certo? Não que eu tenha um estilo. Outra coisa que as pessoas pensam é que eu sou o tipo de garota que se esforça para parecer “bad girl”, que gosta de ter um estilo “tô nem aí”. Mas a verdade é que eu não “tô nem aí” pra estilo. Tenho coisas mais importantes com as quais me preocupar.
Com esses pensamentos na cabeça, eu puxei um livro qualquer da estante, me voltando para refazer o caminho até a cama. Parei rapidamente para puxar uma folhinha do calendário na parede, olhando brevemente para a data e me preparando para continuar o meu caminho. E então à compreensão dominou meu cérebro e eu parei, congelada, me voltando rapidamente para o calendário para conferir a data. Era realmente dia dez.

Meu mundo desabou.

Seis meses. Fazia oficialmente seis meses desde que fora embora.
A dor que se apossou de meu peito era tão forte que eu me sentia incapaz de me mover. A pressão que aquela realização exercia sobre mim era tão poderosa que eu não conseguia nem ao menos respirar. Trêmula, deixei que meu corpo escorregasse de costas para a parede até eu me encontrar sentada no chão, abraçando meus joelhos como se disso dependesse minha vida. Com tudo que acontecera nos últimos dias, a chegada de e o novo inimigo, eu havia me esquecido da proximidade do dia dez. Talvez se eu tivesse me lembrado, teria tido como me preparar, como sempre fazia a cada mês. Mas agora eram seis... Meio ano, e a dor de realizar que já fazia tanto tempo desde a última vez que eu o vira era o suficiente para me causar dor física. Seis meses sem ver aquele sorriso. Seis meses sem sentir aquele abraço, aquele beijo... Seis meses sem tê-lo perto de mim. Era como passar seis meses em uma sala escura. Minha luz havia sido tirada de mim.

Seis meses sem olhar em seus olhos. Seis meses sem ouvir sua voz...

De repente, a distância era demais pra mim. Eu sentia falta dele. A saudade de era uma constante, sempre por trás de cada pensamento que eu tinha, consciente ou inconscientemente. Sentir falta de se tornara algo tão comum para mim quanto respirar. Mas naquele momento, a necessidade de saciar a vontade de tê-lo perto se tornou algo mais importante do que a necessidade de oxigênio. Eu me senti uma viciada em uma crise de abstinência, sentindo que rasgaria por dentro se não tivesse sequer um pouquinho de comigo para acalmar meu coração que sangrava. Eu não podia vê-lo, nem senti-lo... Mas podia ouvi-lo.
Como em transe, me levantei e fui até o telefone, discando o número de celular que eu decorara há tanto tempo atrás. Depois de quatro toques, ele atendeu.
- Alô? – disse aquela voz que eu tanto amava. Eu travei a mandíbula e fechei os olhos, tentando sufocar a dor e alívio que aquele som me causava.
Eu não respondi.
- Alô? – ele tentou novamente, e eu permaneci calada. Era uma sorte o número da Organização sempre aparecer como “privado” no identificador de chamadas. Alguns segundos se passaram até que, em um tom muito mais baixo e profundo, ele continuou – ?
Eu mordi meus lábios com força na tentativa de permanecer quieta, o nó na minha garganta ameaçando se dissolver em soluços. Meu coração parecia prestes a explodir. Eu havia me esquecido do som do meu nome na voz dele.
- Escuta, se você não é , por favor, desligue. – continuou , parecendo frustrado – Hoje é um dia péssimo e...
Eu desliguei imediatamente. Respirando fundo para tentar me centrar, eu corri até a porta, ficando parada ali. Eu sabia que me ligaria agora. Não que eu pensasse que ele havia percebido que era eu do outro lado da linha, com certeza não imaginava o quão infantil eu poderia ser. Mas, egoísta como sou, eu havia feito com que ele pensasse em mim. Conhecendo-o como eu conheço, me ligaria, também querendo ouvir minha voz. Por isso eu precisava ficar longe do telefone, para poder correr para atender e dar mais credibilidade a minha desculpa de estar longe do aparelho.
Como eu desconfiava, o telefone começou a tocar. Eu respirei fundo mais um pouco, tentando recuperar meu controle enquanto deixava o aparelho tocar algumas vezes, até que finalmente corri até a mesinha do telefone.
- Alô? – eu respondi, minha falta de fôlego parecendo convincente o suficiente, já que era natural.
- ? – disse , naquele tom doce que ele só usava comigo. Meu coração ameaçou sair pela boca.
- . Há quanto tempo eu não ouço sua voz. – exatamente setenta e dois segundos. Não que eu tenha contado.
- Há muito tempo eu não ouço a sua também. – disse ele, no mesmo tom emocionado que eu usara.
Alguns segundos de silêncio se passaram, enquanto ambos tentávamos nos centrar, até que eu continuei.
- Como estão as coisas em Nova York?
- Estão indo bem. Eu juntei alguns caçadores e nós montamos uma organização de combate a crimes. Combatemos vampiros em especial, mas de vez em quando investigamos alguns conflitos entre humanos também.
- Qualquer coisa para proteger a humanidade. – eu brinquei, com voz trêmula.
- Eu me sinto em débito com a humanidade. – disse , e alguns segundos de silêncio tenso se passaram – E você? Como estão as coisas em L.A.?
- O mesmo de sempre. Estamos investigando um vampiro-mestre novo que apareceu na cidade. Está organizando vampiros mais fracos, mas ainda não sabemos com qual objetivo. – eu cuidadosamente “esqueci” de mencionar a presença de . Sabia que teria um ataque. Meu ex-namorado gostava tanto da peste irritante quanto a tal peste gostava dele. Ou seja, era ódio mortal recíproco.

Eu e sempre tivemos muitas coisas em comum. A vontade de matar era uma delas.

- Oh, sério? – perguntou , parecendo interessado – Você precisa de ajuda? Eu poderia contatar reforços e...
- Não. Nós temos tudo sobre controle. – eu disse, antes que ele pudesse completar aquela frase. Doía entender que ele não estava se oferecendo para vir ele mesmo ajudar.
Mais alguns momentos de silêncio se passaram, até que continuou.
- ... Eu sei que eu não deveria ter ligado. Me desculpe. – disse ele, e eu fiz o máximo que pude para evitar me debulhar em lágrimas. Não se desculpe, seu tonto, eu pensava, fui eu quem ligou primeiro. Só não sou tão corajosa quanto você para admitir – É só que... Bom, hoje...
- Faz seis meses. – eu completei, tentando evitar que minha voz tremesse.
- Isso. – disse ele, com a voz fraca – Eu sinto sua falta.
- Eu também. – eu respondi, sentindo aquele aperto no peito se intensificar. Eu precisava desligar – , eu preciso ir. Você sabe, patrulhar... Eu... Tchau. – eu balbuciei antes de desligar o telefone violentamente e correr de volta para minha cama, enterrando meu rosto no travesseiro até sentir a vontade incontrolável de chorar passar. Quando o nó na minha garganta pareceu afrouxar um pouco, me virei e passei a encarar o teto.
Eu queria poder sentir raiva de . Na verdade, no fundo eu precisava admitir que sentia, um pouco. Nem de longe o suficiente para me fazer parar de amá-lo um segundo que fosse. Ele havia ido embora depois que o feitiço de Cora foi quebrado. Quando ele recuperou a memória e lembrou-se de que agora era bom... Quando se lembrou que lutava ao lado do bem e que me amava... Aquilo havia sido demais para ele. No breve período que Cora o enfeitiçara, ele voltara a matar inocentes, havia inclusive tentado me matar. Ele não conseguia ficar em L.A. sem lembrar de tudo de ruim que ele havia feito. Não conseguia ficar comigo sem lembrar o monstro que havia sido.
Além disso, ele insistira que eu merecia algo melhor do que ele. Que eu era especial, que ele não era digno de ficar comigo... Ele disse que eu merecia algo melhor que um vampiro. Eu caçava vampiros, não me faria bem namorar um... O que parecia não entender é que, por mais que eu e ele gostássemos de pensar o contrário, eu não era humana. Namorar um humano nunca seria o suficiente para mim, além de ser perigoso para qualquer homem normal namorar alguém com a minha força física. Se eu não podia ficar com vampiros e era a única híbrida do mundo... Bom, eu estava fadada a ser solitária. Era isso que queria?
De alguma forma, meus pensamentos traiçoeiros se voltaram para e eu senti raiva. Se estivesse aqui comigo, eu nunca teria começado a me sentir atraída por . Céus, eu nem olharia duas vezes para se esse fosse o caso. Mas não, me deixara, eu passei a acumular tensão sexual reprimida, percebera o quanto o verme de cabelos é atraente e... Puff! Me meti nessa enrascada.
Vai ver minha atração por era pura conveniência. Meu corpo se acostumara a ansiar por uma pele mais fria, por uma criatura mais forte, e lá estava . Mas eu não tinha força de vontade o suficiente para me convencer disso. Sabia que aquilo era só eu tentando arranjar uma desculpa para meus desejos proibidos.

Eu me sinto uma vadia.

Uma batida na porta me despertou de meu purgatório psicológico.
Vencendo o impulso de gritar “entra”, levantei e segui até a porta. Tínhamos um vampiro rondando aqueles corredores agora, e gritar convites não era a coisa mais sábia a se fazer. Com esses pensamentos em mente, não me surpreendi ao abrir a porta e dar de cara com aquele par de olhos .

Que sorte a minha. Escapava do inferno na minha mente apenas para encarar meu inferno real.

Respirando fundo, olhei por um momento para a desgraça da minha existência antes de perguntar:
- O que você quer, ?
- Não vai me convidar pra entrar? – ele respondeu com outra pergunta, curvando os lábios naquele sorriso presunçoso.
- Ahn... Não. – eu respondi, após fingir pensar por alguns momentos. Quando estava aqui meses antes, havíamos descoberto que vampiros não podiam entrar nos quartos sem convite, pois aqui na sede cada quarto tinha a mesma função de uma casa. Como o prédio não podia ser considerado uma residência, cada pessoa que morava aqui na verdade morava em seu quarto – Nunca, jamais, sob hipótese nenhuma... Não. – eu acrescentei – Me diz logo o que você quer.
- Gilbert está te procurando e pediu para que eu viesse avisar. – respondeu , mal-humorado.
- E você é moleque de recados agora? – eu perguntei, rindo. Aquilo era exatamente o que eu precisava. Uma rodada de ofensas com para desviar minha mente do significado daquele dia.
- Só cala a boca e vem comigo, ok? – disse ele, revirando os olhos e dando as costas para mim.
Outra coisa estranha que se desenvolvera na última semana eram as relações entre , Gilbert e Tara. Enquanto e continuavam a tratar como o vampiro inimigo de sempre e mantinha seu comportamento apavorado toda vez que estava no mesmo cômodo que o vampiro, Gilbert e Tara pareciam quase aceitar . Não que meu mentor estivesse agindo amigavelmente com o vampiro, longe disso, mas e ele pareciam quase... Respeitosos um com o outro. Gilbert fazia o máximo para agir polidamente, mesmo que sempre de forma distante, com o vampiro, e esse retribuía o favor. Eu até compreendia esse entendimento mútuo, já que ambos eram ingleses e deviam ter alguma coisa em comum.
Quanto a Tara... Aquilo me confundia. Cada vez eu sentia mais simpatia por aquela garota, mas ao mesmo tempo estranhava sua camaradagem para com . Ela com certeza era quem tratava o vampiro melhor, e ele parecia gostar bastante dela. Eu cheguei a pensar que talvez existisse algo entre eles, mas desconsiderei a hipótese por dois motivos: Primeiro, é de Tara que eu estou falando. Ela é tímida, comportada e certinha demais para ter algo com um vampiro. E segundo... Por mais estranho que possa parecer, o jeito como olha para Tara sempre me lembrou o jeito que um irmão mais velho olha para a irmãzinha pequena. Mas o motivo disso está bem longe da minha compreensão.
Eu e seguimos os corredores até descermos para o andar da minha equipe, que estava vazio.
- Ok, cadê todo mundo? – eu perguntei desconfiada para .
- Gilbert pediu para nós esperarmos aqui enquanto ele conversa com Miles. – respondeu ele, parecendo sincero – Ninguém me disse o que está acontecendo, mas sua equipe inteira parecia muito nervosa.
- Ótimo. Era tudo o que eu precisava, mais problemas. – eu disse, me largando na poltrona que Gilbert geralmente ocupava.
- Você parece especialmente mal-humorada hoje, . – disse , fingindo indiferença e se sentando na poltrona do lado direito da minha – Posso fazer algo para te animar?
- Pode. – eu respondi – Morrer.
- Já fiz isso há mais de um século atrás. – continuou ele, sem se abalar.
- Deixe de existir então. – eu respondi, fechando os olhos e tentando imaginar que ele não estava ali.
- Sabe, se você quiser nós podemos treinar um pouco enquanto Gilbert não aparece. Faria bem a você liberar um pouco de endorfina... – disse ele, ignorando totalmente o que eu dissera.
- ... – eu praticamente grunhi, me virando para ele tão subitamente que o vampiro se assustou um pouco – Você só quer treinar comigo porque esse é o único jeito que você tem pra tirar uma casquinha de mim. Sabe o que eu penso disso? É nojento. E patético. Você tá tão desesperado assim?
não pareceu se surpreender com o que eu dissera. Assim como eu, ele tinha total consciência da nossa relação esquisita. E, bom... Ele sabia que eu sabia que ele me queria, por mais confuso que isso soe. Ele mesmo dissera, em um dos raros momentos que ficamos sozinhos na última semana. Não com essas palavras, não diretamente, mas... Após um discurso longo e cheio de indiretas e duplos sentidos, ele me fez entender, resumidamente falando, que adoraria me levar para cama quase mais do que adoraria me matar.

Muito romântico, eu sei. Nem eu entendo como não saí por aí suspirando e considerando um príncipe encantado depois dessa declaração tão linda.

Mas a sanguessuga de olhos não parecera ter se incomodado com minhas palavras duras. Na verdade, apenas continuou me encarando com calma.
- Você sabe que eu não estou desesperado, . – disse ele, devagar – Sabe tanto quanto eu o número absurdo de garotas desse lugar que suspiram toda vez que eu passo.
Filho da puta convencido, era isso que ele era. Mas não, eu não podia negar que ele estava certo. Após o medo inicial que todos os funcionários da Organização sentiram quando souberam que trabalharia aqui, as coisas se acalmaram. As pessoas se acostumaram à presença dele mais facilmente do que acontecera com , pois agora eles tinham um precedente com o qual se basear. Lidar com um vampiro não era mais uma novidade, então as coisas ficaram fáceis para . E é claro, após tudo se acalmar, muitas das meninas que trabalham por aqui – bruxas, cientistas, etc – passaram a enxergar essa peste com outros olhos. O grande problema era que o energúmeno era realmente bonito. E como se isso não bastasse, adorava dar uma de Don Juan e jogar charme para as garotas daqui. Está sempre sorrindo provocante e lançando gracinhas para as coitadas que coram e dão risadinhas. Somando-se a isso o fato de que a maioria das meninas por aqui tem essa fantasia estranha com vampiros, em pouco tempo ele se tornou o galã desse lugar.

Eu sei que ele faz isso para me irritar. E é isso que me irrita.

- Então por que não corre atrás de alguma delas e me deixa em paz? – eu perguntei, tentando manter a raiva longe da minha voz.
- Fáceis demais. Não seria tão divertido. – disse , rindo, porém aparentando esconder algo mais por trás daquelas palavras. E sinceramente, eu não tinha curiosidade de saber o quê. Apenas achei melhor nem responder o comentário infeliz.
Após alguns segundos abençoados de silêncio, a praga resolveu abrir a boca de novo.
- Eu sei porque você está mal-humorada, sabe? – disse ele, em uma voz estranhamente desprovida de sarcasmo ou humor.
- Oh, sabe? – eu perguntei, desinteressada.
- Faz seis meses hoje, não é?
Confesso que me surpreendi ao ouvir aquilo. Não fazia idéia de como ele poderia saber a importância daquele dia.
Desviando meu olhar para o chão e virando a cabeça para a esquerda, de forma que ele não pudesse ler a expressão no meu rosto, respondi, de forma fria:
- Sim.
- Seis meses é muita coisa. Você devia estar começando a superar. – disse , de forma desprendida.
- Não pedi sua opinião, pedi? – eu continuei no mesmo tom, ainda encarando o chão. Eu observava uma formiguinha atravessar o carpete como se tal acontecimento fosse a coisa mais importante que eu já testemunhara – E como você sabe que é hoje?
- Boatos correm. – respondeu , soltando um suspiro – Eu sei que foi um dia depois de eu e Cora deixarmos Los Angeles.
- Você lembra o dia que foi embora? – eu perguntei, com uma nota de curiosidade na voz. Aquilo era surpreendente.
- Nunca consegui esquecer. – ele respondeu, em um tom de voz tão baixo e frágil que eu não pude evitar virar a cabeça em sua direção para conferir sua expressão.

Expressão essa que estava mais próxima do que eu imaginara.

As poltronas nas quais estávamos sentados eram praticamente coladas uma na outra. Quando eu me virei para encarar , ele já estava parado me observando, levemente inclinado na minha direção. Nossos olhos se encontraram e eu prendi a respiração involuntariamente.
O olhar de estava claramente perturbado. Continha uma mistura de tristeza, raiva, frustração e... Era aquilo anseio? Parecia... Havia um toque de cobiça naqueles olhos , e naquele momento eu tive certeza absoluta que o objeto de desejo era eu.
manteve meus olhos capturados nos dele enquanto de forma torturantemente lenta ia inclinando o rosto na minha direção. Eu começava a ficar tonta graças à respiração que eu ainda não soltara, mas não conseguia juntar forças para me mover. Nem para perto e nem para longe dele.
Por sorte – ou azar, minha mente traiçoeira não conseguia decidir – fomos interrompidos naquele momento.
- Hm... – disse Tara, visivelmente sem graça, após clarear a garganta para chamar nossa atenção – E-eu tô... Atrapalhando alguma coisa? – perguntou ela, como se pedisse desculpas.
- Não.
- Sim.
Eu e respondemos ao mesmo tempo.

Adivinha quem disse o “sim”?

Lançando um olhar ameaçador para , eu me levantei da poltrona, indo até Tara de forma a estabelecer uma boa distância entre mim e ele.
- Você não atrapalhou nada, Tara. – eu garanti, lançando um outro olhar para , desafiando-o a me contrariar – Cadê os outros?
- O Gilbert pediu pra eu vir avisar que estão todos naquela sala que funciona como abrigo nuclear do segundo andar. É pra vocês irem para lá também.
- Aquela sala protegida com todo tipo de feitiço e tecnologia? – eu perguntei, confusa. , que viera para perto de nós, também parecia perdido – Por que Gilbert quer que a reunião seja lá.
- Bom, nós estamos com medo da coisa... Explodir. – disse Tara, nervosa.
- Coisa? Que coisa? – foi a vez de perguntar.
- A... A carta. – respondeu ela – Há meia hora atrás um grupo de caçadores voltou da patrulha logo depois de terem saído. Disseram que encontraram dois vampiros vagando por um cemitério. Na verdade parecia que eles estavam procurando pelos caçadores. Antes de morrer, um deles entregou uma carta a um dos garotos, dizendo para entregarem a você. A carta é...
- Do chefe deles. – eu completei, e Tara assentiu – Do tal “Mestre”.
- Isso. Os quatro caçadores voltaram imediatamente e entregaram a carta ao Sr. Miles. Acharam melhor deixar os superiores decidirem o que fazer.
- Outra carta. – eu disse, rindo sem humor e em seguida encarando Tara – Eu realmente ando recebendo muitas cartas ultimamente. Vou poder pelo menos abrir essa?
- S-sim. – disse ela, sem graça – Eu juro que não tenho nada haver com essa. Você pode abrir, mas... Não sei se deve.
Minha única resposta foi uma erguida de sobrancelha em questionamento.
- Eu e ... Nós fizemos alguns testes. – continuou ela – Tentamos alguns feitiços para localizarmos alguma armadilha na carta. Não encontramos nada. O envelope parece seguro. – continuou ela – Mas vindo de quem é, todos estamos meio preocupados. Miles decidiu deixar você julgar o que seria melhor fazer com a carta, já que ela é sua.
- Oh, agora eu me sinto grata. Miles vai me deixar abrir uma carta que foi endereçada a mim! – eu respondi, sem conseguir conter o sarcasmo.
- E estão todos com medo que a carta estoure quando a abrir? – perguntou , sem conter o riso. Até eu tinha que admitir que era meio engraçado.
- Ou libere um feitiço ou algo do gênero. – concordou Tara – Por isso, se você for abri-la, é melhor que seja naquela sala. É a forma mais segura.
- Claro que eu vou abri-la. – eu respondi – Minha curiosidade não permitiria o contrário.
- Tem certeza, ? – perguntou , divertido – Não tem medo de abrir o papel e se transformar em uma sapa? Não que eu não fosse me sentir honrado de te transformar de volta com um beijo, mas...
- Desculpa acabar com seus sonhos de princesa da Disney, , – eu o interrompi – mas se qualquer coisa acontecesse comigo, eu teria a e a Tara aqui desfazendo o feitiço em questão de minutos. Então guarde seus beijos para o resto do brejo, porque a sapinha aqui definitivamente não está interessada.
Dizendo isso, eu segui para a porta da sala, com Tara gargalhando em meu encalço.

Aquela foi a primeira vez que eu ri sinceramente em um dia dez nos últimos seis meses.



Capítulo 7 - Black Rose.


’s POV

Lá estava eu, no meio de uma sala lotada, seis pares de olhos acompanhando cada movimento que minhas mãos faziam. Ocasionalmente, os olhares se concentravam no pequeno envelope que eu segurava, como se este estivesse prestes a pegar fogo.
Eu virei a carta algumas vezes, procurando inutilmente alguma inscrição além do “ ” escrito na parte de trás do envelope com uma caligrafia precisa, mas não muito caprichada. Parecia trabalho de quem estava por aí há tempo o suficiente para considerar frívola a aparência das letras frente ao objetivo que elas tinham.

Vai saber? Talvez meu correspondente estivesse nesse mundo desde a invenção da escrita.

Eu fiz uma pequena menção de abrir o envelope e todos – até mesmo – prenderam a respiração, se preparando para o pior. Irritada, eu revirei os olhos e, sem me preocupar mais com cuidado, rasguei o lado da carta em um movimento brusco. Todos pularam para trás.
- Covardes. – eu murmurei, puxando a folha de papel que o envelope continha.

Minha bela ,

Anseio que esse envelope chegue em suas mãos como o planejado. Asseguro-te que nada tens a temer. Esse pingente pertence a você e a você apenas. Espero que decida mantê-lo.

De seu nem tão amigo,

Eu.

Terminando de ler as palavras em voz alta, eu sacudi o envelope na mesinha a minha frente, vendo cair dele um cordão. Tanto a fina corrente quanto o pingente eram feitos de um metal negro e brilhante. O pingente em questão tinha o formato de uma rosa aberta vista de cima, e no miolo desta estava uma pequena pedrinha que, como se por instinto, eu sabia ser um rubi.

Era a coisa mais linda que eu já havia visto.

- Ok... – eu ouvi a voz de , que agora parecia muito distante, enquanto olhava o cordão como se hipnotizada – “Minha bela ”? Alguém mais não gostou do pronome possessivo?
- É estranho, sou forçado a concordar. – Gilbert acrescentou.
- E a linguagem? – foi a vez de questionar – Que coisa mais pré-histórica.
- Estamos lidando com um ancião. – explicou – Alguém provavelmente vindo de uma época na qual esse tipo de linguagem escrita era comum. O que vocês esperavam? “Fala, , aqui é o Mestre, tudo tranquilo?” – perguntou ele, em tom sarcástico.
- Ou vai ver ele só estava tentando nos despistar. – argumentou – Fala sério, você é bem velho e não fala assim!
- A provavelmente tem razão. – disse Gilbert, pensativo.
Eu ignorava a conversa ao meu redor. Respirando fundo, estendi a mão em direção ao estranho objeto a minha frente.
- , não! – o grito agudo de me fez parar.
- O que foi? – eu perguntei, tirando os olhos do colar pela primeira vez.
- Não sei se é seguro. – respondeu ela – Deixe eu e Tara fazermos alguns testes.
- Ok. – eu respondi, um pouco contra a vontade. A parte racional de mim entendia a necessidade de prevenir algum possível encantamento no cordão. Porém, o resto de meu ser não estava preocupado. De alguma forma eu sabia que aquele acessório não me faria mal. E sim, isso era bastante confuso – Ele não me ameaçou em nenhum momento. – eu disse, mais para mim mesma do que para qualquer um ali.
- Como? – foi quem perguntou.
- No bilhete. Ele não... Não me ameaçou. Na verdade, foi até bem educado, de um jeito esquisito e um pouco assustador. Eu tenho certeza que o pingente não me fará mal também.
- Mesmo assim, é melhor... – Gilbert começou a argumentar.
- Eu sei. – eu interrompi – É só que... Façam os testes que quiserem, mas eu o quero de volta depois.
- Você vai ficar com o colar? – perguntou , surpreso.
- Você ouviu a carta. O pingente é meu. – eu disse, acrescentando àquela última frase um peso que nem eu entendia.
Minhas palavras devem ter soado determinadas o suficiente, porque ninguém mais argumentou.
- Nós vamos precisar de uma gota do seu sangue. – disse Tara de repente. A quebra do silêncio no aposento foi tão súbita que, a princípio, não entendi o que ela quis dizer.

Em seguida eu franzi a testa.

- Meu sangue? Pra que? – eu perguntei, me virando para Tara assim como os demais.
A garota obviamente não gostava de ser o centro das atenções. Parecendo um bichinho acuado, ela respondeu:
- Os... Os testes. Podemos usar seu sangue e testar as reações do colar a ele. – esclareceu ela, visivelmente arrependida de ter se pronunciado.
- Ela tem razão. – disse , olhando para a assistente meio assustada e impressionada. Eu entendia o que estava sentindo. Nenhuma de suas assistentes anteriores havia sido tão boa quanto Tara.
A loirinha em questão então saiu da sala rapidamente, voltando cerca de um minuto depois com um vidrinho e uma agulha. Pegando os objetos, eu dei uma olhada à minha volta. e pareciam totalmente concentrados em mim, enquanto Gilbert e olhavam nervosamente para , que parecia ansioso. Eu revirei os olhos e simplesmente furei meu polegar, o espremendo levemente para pingar no frasco. Ao contrário dos dois homens, eu não estava preocupada com a reação de . Vampiros, pelo que eu observei nos últimos anos, não enlouquecem e atacam ao menor perfume de sangue que sentem, principalmente se não forem muito novos e estiverem alimentados. Eu sinceramente não sei de onde veio a crença que um ser tão mais forte que um humano, tanto exterior quanto interiormente, não seria capaz de se controlar quando próximo à sangue. O odor é bastante tentador, mas não irresistível... A não ser que o vampiro esteja faminto, é claro.
Mas isso é meio óbvio, na verdade. Seres humanos não são capazes de devorar até mesmo uns aos outros quando em situações extremas? Então. Vampiros perdem o controle ainda mais facilmente quando com fome.

Moral da história: nunca se aproxime de um vampiro mal alimentado.

Só por curiosidade, olhei rapidamente para . Ele apenas respirou profundamente e assumiu aquela expressão de quem acaba de cheirar um perfume que conhece e gosta. Eu nunca havia parado para prestar atenção no que achava do cheiro do meu sangue. Ele já havia sentido, obviamente, já que infelizmente eu não costumo sair ilesa de nossas brigas. Pelo visto, meu sangue cheirava bem. Mais do que bem.
É difícil decidir se isso é bom ou ruim. Quero dizer, não é muito seguro saber que eu pareço, ahn, apetitosa, no sentido puramente alimentar, para um vampiro. Mas ao mesmo tempo, eu me sentiria mal se fosse o contrário. Pense bem, você não se sentiria ofendida se conhecesse algum vampiro e ele dissesse que seu sangue é horrível? Não faz sentido nenhum, mas por alguma razão é algo que eu não gostaria de ouvir.
Desviei meu olhar de para voltar a atenção à minha equipe, levando o dedo que agora pingava aos lábios. Pelo que eu sei, esse é um costume bem normal entre humanos. Não significa que eu faça isso só porque gosto do sabor de sangue... Certo?

Melhor não começar a pensar sobre meu lado vampiresa.

Concentrando-me nas pessoas à minha frente de modo a fugir daqueles pensamentos, percebi cutucando minha figura paterna nada sutilmente, como se incentivando ele a falar algo.
- Desembucha, Gilbert. – eu disse, cruzando os braços na frente dos seios e o encarando. Sabia que aquela atitude, vinda de mim, não costumava deixar as pessoas mais confortáveis, mas geralmente me fazia conseguir o que queria – Eu ainda tenho que caçar hoje.
- Bem, sobre isso... – começou ele, retirando os óculos e limpando-os na barra da camisa, de forma a não precisar me encarar – Nós estávamos pensando e decidimos... Estaria tudo bem se você, bom... Se você preferisse permanecer aqui... Hoje.
Uau. Até eles sabiam que hoje fazia seis meses desde a partida de . Isso explicava os olhares cuidadosos, eu acho. Imagino como não agirão quando completar um ano.
Eu quase abri a boca para questioná-los abertamente o porquê, mesmo sabendo a resposta. Por sorte, me controlei a tempo. Não sei se suportaria ouvir algum deles explicar em voz alta. E se eu dissesse que queria patrulhar – o que era a verdade –, o motivo ficaria claro. Eu queria me distrair, queria não precisar pensar naquilo. O que fazia meus amigos pensarem que ficar presa dentro da sede me faria sentir melhor? Mas, é claro, não dava para explicar aquilo sem me expor como sendo ainda mais fraca do que eles aparentemente pensavam. Eu sentia que se abrisse a boca, seria para gritar toda a minha frustração. Já estava acostumada a ter todos pensando em mim com gratidão pelo meu trabalho, ou com medo, até mesmo com inveja. Mas pena era algo que eu nunca fora capaz de suportar. Saber que todos ali me viam como a coitada que sentia falta do ex-namorado era demais para mim. Tudo o que eu queria era fugir para bem longe, mas nem isso eu podia fazer. Só o que me restava era engolir a onda de ódio e desespero e interpretar o papel que todos esperavam de mim. Fingir ser a racional e responsável, que não tinha vontade de matar os amigos que, ao tentarem protegê-la, acabavam exigindo dela mais força do que ela possuía.

Eu havia sido forte minha vida inteira. Estava exausta.

Então, sem dizer mais nada, eu apenas assenti com a cabeça e saí daquela sala antes que a necessidade de falar alguma coisa se fizesse presente.

Xx

’s POV


Era bem óbvio que ela estava irritada.

Com é ridiculamente fácil perceber esse tipo de coisa, mesmo que, para os outros, aparentemente os sentimentos dela não sejam tão claros. Eu me impressiono com o nível de alienação do povo que trabalha por aqui. Ou eles são realmente muito burros, ou não tentam enxergar por trás da armadura que usa em volta de si o tempo todo. Eu estou por aí a tempo o suficiente observando pessoas para saber definir quando alguém está a ponto de explodir, porém tentando ocultar o fato. Então digamos que, se fosse uma bomba-relógio, o cronômetro estaria em três, talvez dois segundos.

Mais um pouco e não sobraria pedra sobre pedra.

Observei os quatro idiotas e Tara seguirem para fora da sala. Que espécie de anormal pensava que, quando sofrendo por uma perda, a pessoa preferiria ficar presa em um lugar onde os fantasmas da memória a assombrariam o tempo todo? Sair e distrair as idéias não era uma forma muito mais saudável de se lidar com isso?

era uma mulher de ação. Privá-la disso era mais do que ridículo.

Encontrando-me finalmente sozinho no aposento, segui para o lugar que a caçadora antes ocupara. Eu havia acompanhado com os olhos uma gotinha do sangue dela pingar na mesinha que antes contivera o colar, que havia sido recolocado no envelope cuidadosamente e levado para sofrer os tais testes. A manchinha vermelha era minúscula e, me sentindo o vampiro mais deplorável do mundo, limpei a superfície com o dedo, trazendo o líquido para perto de minha boca. Aquilo era vergonhoso. Que outro vampiro de respeito anda por aí mendigando migalhas? Ou gotas, no meu caso.
Mas eu precisava experimentá-la. Talvez aquela fosse a minha única chance de descobrir o sabor do sangue de . Envergonhado, levei o dedo aos lábios, lambendo o líquido.
O gosto era... Inexplicável. E forte. Mais forte do que qualquer outro sangue que eu já havia provado. Mais forte até mesmo do que o sangue de um vampiro. Delicioso de uma forma que eu sabia ser fora do normal. Provavelmente viciante. Céus, e nunca a havia mordido. Não havia palavras para explicar o quanto ele era imbecil.
Eu deixei o gosto provocante e definitivamente erótico dominar meu paladar em um momento de puro êxtase, odiando o fato de a quantidade ser tão pouca que era difícil realmente sentir o sabor metálico em sua totalidade. É, metálico. É hilário como alguns autores de ficção descrevem o sangue como “tão doce”. Me pergunto se essas pessoas já morderam a língua ou lamberam algum ferimento. Ou talvez não entendam que nosso paladar é apenas mais apurado do que o de um humano, assim como todos os nossos outros sentidos. Mas o que é doce continua doce, o que é amargo continua amargo, e o que é metálico... É simplesmente delicioso.

Aquilo havia me dado fome.

Balançando a cabeça, eu me retirei daquela sala, disposto a seguir para a cozinha e buscar algum pacote de sangue. Oh, sim, pacote. É isso que eu ando comendo nos últimos tempos. Roger Miles anda conseguindo algumas doações de um banco de sangue através de seus contatos, e alguns dos funcionários daqui também se ofereceram para doar. Claro, eu não estou autorizado a coletar as doações dos voluntários da forma tradicional. Não, nada de mordidas. Nem mesmo eu prometendo não retirar mais do que o necessário. Nem mesmo quando algumas das garotas daqui seriam capazes de implorar por uma mordida minha. Sangue para mim só se for em uma caneca, às vezes com um canudinho.

Me fale sobre humilhação.

No meio do caminho, porém, eu parei.
O cheiro dela.
Talvez por ter acabado de experimentar seu sangue, minha percepção de estivesse mais apurada. Eu era capaz de sentir claramente o cheiro dela vindo do banheiro com chuveiros comunitários, misturado com o aroma de sabonete. Me lembrei de ter escutado reclamar sobre o chuveiro quebrado de sua suíte na noite anterior... Devia ter imaginado que ela tomaria banho nesse banheiro.
Não dava para resistir. O cheiro de foi algo que sempre me atraiu. Era difícil explicar exatamente como era, mas o mais próximo que eu conseguia chegar era que constava de uma mistura do vinho mais doce, das frutas mais cítricas e das rosas mais exóticas. Isso misturado a algo mais... Algo que era tão ela que eu tinha certeza não existir algum odor similar ao qual eu pudesse comparar.
Sentir o gosto de seu sangue, seguido daquele cheiro, era forçar demais meu autocontrole. Como se atraído por um imã, segui para a porta do banheiro, agradecendo por aquele corredor estar vazio. Era incrível como os corredores desse lugar geralmente estavam vazios. Todos os funcionários sempre pareciam incapazes de deixar suas respectivas salas, ou laboratórios, ou áreas por muito tempo.
Antes mesmo de abrir a porta, eu pude ouvir o som da água parando de súbito. Com a mão na maçaneta, eu parei por alguns poucos segundos, tentando forçar um pouco de razão para dentro do meu cérebro. O que eu estava fazendo, afinal? Do que adiantaria atravessar aquela porta? Eu já era capaz de ouvir gritando e me chutando para fora dali. Talvez até perdesse o controle e usasse aquilo como desculpa para finalmente enfiar uma estaca em meu peito. Mas por algum motivo, meu corpo se recusava a aceitar os argumentos de minha mente. Eu sabia que era irracional. Eu sabia que não havia motivo plausível para ir atrás de agora. Mas nada disso importava. Era como se uma força me puxasse na direção dela, força essa que eu nem considerava tentar resistir. Como se para justificar minha falta de necessidade de oxigênio, todo meu ser parecia ter adquirido necessidade de .

Era um pensamento perturbador.

Abrindo a porta enfim, fui recebido por uma nuvem de vapor morno. O aposento continha três chuveiros apenas, já que o banheiro com toaletes ficava no andar debaixo. Eu devo ter levado uma fração de segundo para localizar em meio aquele pequeno espaço.

Aparentemente, ela havia me encontrado ainda mais rápido.

No momento em que meus olhos encontraram sua figura, os dela já estavam fixos nos meus. estava parada em frente ao boxe do meio, os cabelos molhados emoldurando a expressão conformada e ao mesmo tempo decidida que ela tinha no rosto. Seu corpo estava coberto apenas pela toalha, e sua pele, levemente corada pela água quente do banho, irradiava calor.

Eu nunca havia visto criatura tão deliciosa antes.

Não pude impedir meus pés de se moverem lentamente para frente, me levando para cada vez mais perto dela. Eu precisava tocá-la. Apenas... Apenas encostar a mão em seu rosto por um segundo. Olhar em seus olhos por mais um momento. Eu não me importava com o que ela fizesse depois. Eu precisava daquilo.
Por mais estranho que pareça, não se moveu. Eu continuava a me aproximar e ela apenas permanecia parada ali, com aquela expressão estranha no rosto.
Quando estava há cerca de dez centímetros de distância dela, eu parei. Lutando para evitar que minhas mãos tremessem, coloquei uma sobre seu quadril coberto pela toalha, enquanto com a outra eu cobri sua bochecha, endireitando seu rosto de forma que ela olhasse diretamente no meu.
- Você não está fugindo. – eu disse, simplesmente, me sentindo afundar naqueles olhos que no momento pareciam dois poços vazios. Aquilo não estava certo.
- Eu não me importo. – foi tudo que ela respondeu.

E então eu entendi.

Ela não se importava. Para ela era irrelevante que eu estivesse ali no momento. Alguns minutos antes eu pensara que havia entendido o que estava sentindo. A verdade é que eu, inadvertidamente, havia interpretado tudo de forma incompleta. Ela não estava só irritada... Ela havia desistido. Saber que os amigos haviam se apiedado dela havia sido demais. A garota a minha frente não era a guerreira que eu conhecia. Era alguém que havia desistido de lutar, de se impor... De se importar.

Aquela não era a mulher que eu amava.

- É tão fácil assim? – eu perguntei, tentando obter alguma reação dela – Nunca pensei que subjugar fosse ser tão ridículo. Você não se importa? Quer dizer que eu posso te matar agora e você não vai resistir?
- No momento o que você quer não é me matar. – disse ela, em tom neutro.
- Não. – eu concordei – Nós dois sabemos disso. Então quer dizer que eu posso conseguir o que quero nesse exato momento? Devo agradecer a , suponho.
- Pelo quê? – perguntou ela, desinteressada.
- Por ter te enfraquecido dessa forma. Te transformado nessa criatura patética incapaz de enfrentar a própria vergonha. – eu respondi, olhando nos olhos dela. Um brilho irritado passou rapidamente por eles, e eu me controlei para não sorrir.

Lá estava minha .

- Não sei do que você está falando. – disse ela, ainda tentando manter a indiferença na voz, mas sem sucesso.
- Você não suporta o fato de terem pena de você. – eu continuei – Você nunca se permitiu demonstrar fraqueza. Mas seus amigos sabem que você tem sentimentos, . O fato de saberem que você sente falta daquele estúpido não é o que provoca pena. Não, , a única coisa digna de pena em tudo isso é o seu esforço para parecer indiferente quando é óbvio pra qualquer um o quanto você sofre por aquele idiota.
Aquilo doía em mim, eu finalmente percebi. Oh, céus, eu estava sofrendo por ela. Um vampiro com a minha idade, com a minha fama, sofrendo por uma meio-humana. Amando-a e sendo incapaz de aguentar o fato de que ela ansiava por outro. Eu era a vergonha da minha espécie. Mas entender isso não melhorava aquela sensação desagradável dentro de mim.
- O que você tem haver com isso? – ela perguntou, a raiva agora óbvia na voz enquanto seu olhar ameaçava perfurar meu crânio tal era sua intensidade. Agora sim. Agora ela estava de volta.
- Nada e tudo ao mesmo tempo. – eu respondi, sorrindo presunçoso para ela – Mas bem-vinda de volta, .
Ela finalmente pareceu entender o que eu havia feito. Por um segundo, a expressão raivosa deu lugar a puro choque, e ficou claro que ela entendera que meu objetivo o tempo todo era trazê-la de volta a si. Mas o choque se reverteu em raiva de novo quase imediatamente. Então ela estava irritada por eu tê-la ajudado? Aquilo nem fazia sentido!

Bom, é de que estamos falando. Por que eu esperava algum pingo de racionalidade?

- Você é idiota. E está pedindo para morrer! – disse ela, tentando me empurrar, mas eu fui mais rápido, fixando uma de minhas mãos em seu quadril com mais força enquanto com a outra prendia seus dois braços para trás.
- Idiota por quê? – eu perguntei, resistindo as tentativas dela de se soltar – Por não ter aproveitado minha chance com você? Não era aquela que eu queria. A coisa que eu mais admiro em você é o seu fogo, . A sua vivacidade. Aquela casca vazia não era você. E além do mais... Qual a graça de te seduzir sem ter você tentando negar?
- EU ODEIO VOCÊ! – ela gritou, soltando as mãos. Eu imediatamente coloquei minha mão livre no outro lado de seu quadril e a levantei um pouco, em seguida pressionando-a contra a parede mais próxima – ME LARGA! – exigiu ela, colocando as duas mãos em meu peito e tentando me empurrar.
- Viu? – eu disse, rindo – Essa é a que eu quero.
- Essa é a que você nunca vai ter! – ela praticamente cuspiu as palavras, me olhando com o rosto corado de raiva.
- Tem certeza? – eu perguntei, apertando seu quadril com mais força e pressionando meu corpo contra o dela, dolorosamente ciente de que tudo que a cobria era aquela toalha. A leve arfada que soltou ao sentir meu quadril contra o dela deixava claro que a caçadora percebera o quanto aquele fato me afetava.
As mãos de subitamente paralisaram contra o tecido da minha camisa. Ao invés de continuar suas tentativas inúteis de me empurrar, seus dedos apenas seguraram o material. Eu era capaz de sentir cada curva intensamente provocante daquele corpo sendo pressionada contra o meu, e aquilo era o suficiente para sobrecarregar de sensações cada milímetro do meu corpo. Desejo. Desespero. Necessidade insana e, acima de tudo, aquela sensação de que tudo parecia... Certo. O corpo dela parecia se encaixar perfeitamente com o meu, como se ambos tivessem sido criados para se encontrarem. Como se ela tivesse sido criada para mim e só para mim.

Não custava sonhar.

Quase sem perceber, ergui minha mão até seu ombro nu, tocando a pele maravilhosamente quente de . Os olhos dela estavam fechados e a boca levemente aberta, por onde ela respirava com dificuldade. Puta que pariu, ela realmente era linda. E não estava resistindo, mas dessa vez era pelo motivo certo. Pelo visto, não eram só os meus sentidos que estavam sofrendo sobrecarga no momento. Com medo de que algum gesto extremo meu a despertasse do aparente estupor no qual ela se encontrava e que me permitia tocá-la dessa forma, deslizei meus dedos calmamente por seu ombro até a base de seu pescoço, parando em seu ponto de pulsação. Eu podia ouvir seu coração, forte, acelerado, ameaçando pular para fora de seu peito arfante. Céus, ela nem precisava agir... Suas meras reações já eram o suficiente para me fazer desejar a ela mais do que eu desejava sangue.
abriu os olhos levemente nublados e me encarou, de forma tão perdida que eu soube que ela ainda não estava pronta para sair correndo. Aproveitando minha talvez última chance, aproximei nossos lábios cuidadosamente, sem ser mais capaz de resistir à proximidade.
Meu rosto estava a meros centímetros do dela quando, de repente, ambos ouvimos passos no corredor. Aquilo foi o suficiente para despertá-la. Em questão de segundos eu me vi sendo atirado para o outro lado do banheiro enquanto ajeitava a toalha em seu corpo e corria de volta para o boxe. Mal tive tempo de me recompor antes que a figura de uma garota adentrasse o banheiro, olhando de mim para o boxe de confusa.

Interrompidos de novo.

Isso está se tornando um hábito bem desagradável por aqui.

’s POV

Nunca pensei que diria isso na minha vida, mas... Ainda bem que Paris havia aparecido.

Eu podia passar horas tentando explicar quem exatamente é Paris, mas geralmente tenho coisa melhor para fazer. Então costumo defini-la em uma só palavra: vadia.
A maioria das pessoas tem inimigos na infância. Bom, eu não sou como a maioria das pessoas, mas mesmo assim tive uma inimiga em particular quando era criança. Paris e eu crescemos juntas aqui, assim como boa parte dos que trabalham hoje nesse lugar. Como você pode imaginar, Roger Miles não pode colocar um anúncio no jornal para contratar gente, então geralmente quem trabalha aqui é filho de antigos funcionários. As pessoas na Organização geralmente acabam se casando entre si, já que envolver gente de fora nesse nosso mundo não é uma boa idéia. Conseqüentemente, seus filhos crescem aqui e acabam trabalhando aqui algum dia.
Esse é o caso de Paris. Ela é filha de um casal de cientistas que ainda trabalha por aqui, e acabou seguindo a profissão dos pais. A nojenta enche a boca para dizer que é a supervisora júnior do setor de análise e pesquisa, mas eu lembro que até ano passado ela era só a garota que limpava os béqueres. Sempre que o ego da criatura começa a inflar demais, eu sou prestativa o suficiente para lembrá-la desse fato.
Como eu já disse, meus problemas com Paris começaram quando éramos crianças. Desagradável desde pequena, ela era a garotinha insuportável que me chamava de aberração e puxava meu rabo de cavalo. Bom, isso até eu socá-la no nariz e fazer com que ela voasse até o outro lado da sala. Fiquei em detenção treinando várias horas a mais que o normal por semanas, mas valeu a pena. Até hoje eu acho que o nariz dela é meio torto.
Como regra geral, eu e Paris nos evitamos hoje em dia, por isso eu raramente esbarro com ela. Mas quando isso acontece... Acho que você consegue imaginar.
- ? O que você está fazendo aqui? – a voz da loira de farmácia se fez ouvir. Eu estava dentro do boxe, fingindo que acabara de terminar meu banho.
- Eu ainda não ajeitei o chuveiro da minha... Ahn... Casa, então pensei em tomar um banho aqui. – respondeu a lesma do submundo, com tanta calma e segurança que até eu acreditaria, se não o conhecesse tão bem.
- Esse é o vestiário feminino. – continuou Paris – O masculino é no primeiro andar.
- Ok, você me pegou. – disse ele, soltando um suspiro falso – Eu estava passando, escutei o som de água e resolvi checar para ver se encontrava você no banho. Com a sorte que eu tenho, era a .
Paris soltou uma risadinha irritante e voltou os olhos para mim, agora na porta do boxe, pela primeira vez. Eu mencionei que Paris é uma das fãs de ? É, exatamente.

Não que eu me importe, claro. Não, nem um pouco.

O fato de a minha vontade de matar minha primeira humana ter dobrado nos últimos tempos é devido a razões totalmente diferentes. Eu só não sei quais são essas razões.
- Olha, a mestiça está aqui! – disse Paris, sorrindo com aquela doçura falsa que me fazia querer vomitar.
Se tem uma coisa que eu odeio, é que me chamem de mestiça. O termo é híbrida, caramba! É tão difícil assim de lembrar?
- Olha, a vadia está aqui! – eu respondi, no mesmo tom – Como vai, Londres?
O que foi? Não é culpa minha se ela tem nome de capital.
O sorriso de Paris murchou.
- É Paris e você sabe disso. – disse ela.
- Oh, desculpa. Minha memória é fraca. Deve ser uma dessas características de híbrida, assim como o radar que eu tenho para localizar parasitas sem coração. Olha que divertido, o radar tá emitindo um sinal duplo no momento! – eu respondi, olhando de Paris para .
Não, Paris não é um vampiro. Mas isso não faz dela algo mais do que um parasita sem coração.
- Sempre dá um jeito de me envolver na ofensa. – murmurou , revirando os olhos. Ele ainda mantinha a postura quase normal, mas sob uma análise mais cuidadosa, era possível perceber seu maxilar meio travado e a leve tensão que seu corpo exibia. Ele ainda estava sob efeito do que acontecia antes de Paris chegar. Bom saber que eu não era a única.
- Escutem. – eu comecei, irritada – Não sei se vocês perceberam, mas eu tô aqui de toalha enquanto nós temos essa adorável conversa. – o olhar que lançou para mim deixava claro que ele estava bem ciente do fato. Eu tentei não me arrepiar – Então façam o favor de darem o fora daqui porque eu quero me trocar.
me encarou por um longo segundo antes de, subitamente, seguir até a porta e atravessá-la, lançando a mim um último olhar que dizia claramente “isso não termina aqui”. Paris olhou do lugar que antes ocupava para a porta que ele acabara de fechar com as sobrancelhas levemente franzidas, como se tentasse entender por que ele havia me obedecido. Lançando a mim um sorriso falso e irritado, ela se apressou a seguir o vampiro. Ótimo. Vai lamber o chão que o pisa e me deixa em paz.
Assim que a porta bateu atrás de Paris, eu soltei o ar que eu não sabia que estava prendendo e me escorei contra a parede, fechando os olhos e tentando recuperar o controle sobre mim mesma. Eu havia abafado essa reação devido à presença de Paris, mas agora podia pensar em paz.
Essa coisa com precisa acabar, isso era fato. Tudo estava começando a ficar fora de controle. Ninguém nunca havia me feito sentir assim antes, fisicamente falando. O menor toque dele lançava cada milímetro do meu corpo em uma espécie de euforia descontrolada, e a intensidade de sensações era tanta que acabava fazendo meu cérebro entrar em pane. Desejo, raiva, expectativa, desgosto... Era tanta coisa que tudo o que eu me sentia capaz de fazer era sentir. Não pensar, não reagir, só... Sentir. Sentir e ansiar quase dolorosamente por mais toda vez, no entanto sendo incapaz de tentar obter o que meu corpo tanto desejava. Orgulho e desgosto me impediam. Eu era orgulhosa demais para dar o braço a torcer e responder as investidas de , e ao mesmo tempo sentia desgosto de mim mesma por sequer querer mais do que aquilo, quanto mais agir de acordo com esse desejo proibido.
Eu não sabia por quanto tempo esses dois sentimentos ainda seriam capazes de me impedir. Cada vez ficava mais difícil. Eu sabia ser incapaz de juntar forças o suficiente para afastá-lo, mas sentia que a força que eu tinha – a força que ao menos me impedia de corresponder – estava aos poucos se esgotando.
Balançando a cabeça, eu peguei minhas roupas e comecei a me vestir, forçando minha mente a ponderar assuntos mais fáceis de serem analisados. Meu trabalho, meus amigos, meu superperigoso novo inimigo que agora me mandava presentinhos... Tudo isso era mais fácil de entender do que algum dos assuntos referentes a mim e .

Eu era totalmente capaz de fugir de meus pensamentos sobre o vampiro. Mas por quanto tempo ainda seria capaz de fugir da criatura em questão?



Capítulo 8 - About Love And Loathing, Parte 1


’s POV

Ficar de tocaia sempre me entediou.

- Por quanto tempo nós ainda vamos ter que ficar aqui parados enquanto seus amiguinhos brincam de caça-vampiros? – perguntou , em tom frustrado. É, eu não era a única entediada.
Ambos estávamos sentados no telhado de uma das criptas do cemitério, observando e “patrulharem” o lugar.
- O tempo que levar até eles localizarem um vampiro. – eu respondi, em tom monótono.
- Eu ainda não entendi porque eles estão fazendo isso. Quero dizer, eles não são nem caçadores! – argumentou .
- Eles são os únicos que sabem operar essa máquina. Enquanto está em fase de testes, são os dois que precisam usá-la. Eu recebi a missão de protegê-los, você veio porque quis. – eu disse, revirando os olhos.
e haviam desenvolvido um radar de vampiros. Não me pergunte como aquele treco funcionava, mas se desse certo, mostraria todos os vampiros presentes em um raio de vinte metros. Seria inútil para mim, que nascera com um radar embutido, mas facilitaria muito a vida dos caçadores humanos.
Ficar de olho em e enquanto eles testavam o novo brinquedinho era só parte do motivo pelo qual eu e estávamos de tocaia. Dois dias haviam se passado desde que eu recebera o colar, e não havíamos descoberto mais nada que valesse a pena. Miles havia sugerido então que tentássemos capturar algum dos vampiros que serviam o tal Mestre para interrogatório. Eu argumentei que não havia funcionado nas tentativas anteriores, já que os vampiros sempre pareciam preferir morrerem antes de trair o chefe, mas então Gilbert interferira com uma suposição interessante. Segundo ele, os vampiros que havíamos capturado haviam sido aqueles que vieram até nós. Talvez o tal Mestre estivesse mandando seus servos mais fiéis atrás de nós, para no caso de acontecer um interrogatório. Se capturássemos um vampiro que não soubesse de nossa presença, talvez obtivéssemos um resultado diferente. Estávamos certos de que qualquer vampiro serviria, já que ultimamente parecia que todos os mortos-vivos de Los Angeles haviam se aliado ao tal vampirão chefe. Só precisávamos colocar as mãos em um que não estava procurando por nós. Por esse motivo, eu e estávamos no alto, esperando que algum vampiro atacasse e .

Horrível, eu sei.

Juro que eu me sentia meio mal por estar usando os dois de isca sem que eles soubessem disso. Mas eles não podiam estar esperando uma noite tranquila andando em um cemitério quando eles sabiam as coisas que vagavam pela noite em tais lugares. E além de tudo, eles sabiam que eu e estávamos por perto no caso de algo sair do controle. Então o fato de eles estarem sendo iscas era meio irrelevante.
- Claro que eu vim. – continuava a conversa – E perder a chance de ver o e o nerd gritando que nem menininhas quando forem atacados? De jeito nenhum.
- Você é tão... – eu comecei a dizer, mas não consegui terminar. No segundo que levara para eu virar minha cabeça em direção a , um vampiro atacara . Só o que me fez ciente de tal fato foi o grito que soltou ao ver o monstro.

Realmente fora um grito de menininha.

Sem nem parar para pensar, eu pulei do teto da cripta, correndo em direção ao vampiro que rolava com no chão. A criatura devia estar esfomeada para atacar com tanto foco apenas um dos dois rapazes, já que dessa forma dava ao outro possibilidade de defender o amigo. Não que parecesse capaz de parar de gritar e fazer alguma coisa útil, mas mesmo assim. Se fosse outro cara no lugar do nerd, talvez tivesse tentado ajudar.
Meu melhor amigo, por outro lado, estava lidando bem com a situação. Eu podia contar nos dedos as vezes que enfrentara algum vampiro pessoalmente, e me senti orgulhosa ao ver que ele realmente estava usando as coisas que eu ensinei para ele. Manter a cabeça da criatura longe de seus pontos de pulsação, impedir que as mãos dele entrassem em contato com alguma parte crítica de seu corpo... estava se defendendo bem. Se não tivesse sido pego de surpresa, talvez fosse capaz de vencer aquela luta sozinho.
Como esse não era o caso, eu me joguei sobre o vampiro que o atacava, tirando-o de cima de e o imobilizando contra o chão. estava ao meu lado um milésimo de segundo depois, me ajudando a segurar o vampiro.
- Pra quem você trabalha? – eu perguntei, já sabendo a resposta.
- Você sabe pra quem. – respondeu a criatura, com expressão furiosa. Claro que eu sabia.
- Vou te dar duas opções. Primeira, você me diz quem realmente é seu chefe e onde encontrá-lo, e eu te deixo ir. Segunda, nós te levamos conosco e te forçamos a falar. – eu estava começando a ficar acostumada com aquilo.
- Ninguém vai me forçar a falar. – respondeu ele, rindo de forma meio maníaca – Podem me torturar. Me matar. Eu não vou denunciar meu Mestre. Nenhum de nós irá.
- Isso é o que a gente vai ver. – eu disse, fazendo o vampiro se levantar com a ajuda de e começando a guiá-lo de volta para a sede.
- Tem certeza que é seguro levá-lo para lá? – perguntou , ainda se recuperando da luta.
- Tenho. – eu respondi – Não tem nenhum outro vampiro por perto que possa nos seguir. Eu sentiria se isso fosse alguma armadilha. E é melhor nos apressarmos, do jeito que essas nuvens estão carregadas... Parece que vamos ter uma tempestade essa noite. – acrescentei, olhando as nuvens extremamente negras no céu.
- Tem outro vampiro sim! – gritou de repente, parecendo assustado, me fazendo encará-lo enquanto ele permanecia com os olhos fixos no radar – Ele está bem... Ali! – o garoto apontou, em seguida erguendo os olhos para a direção que indicara...

... Apenas para dar de cara com erguendo uma sobrancelha para ele.

- Oh. Claro. Esse vampiro. – murmurou , envergonhado. Eu apenas revirei os olhos.
- Se essa droga realmente funciona, como esse idiota aqui pegou vocês dois de surpresa? – perguntou, confuso.
- É que nós estávamos trocando a bateria, que tinha acabado. O radar havia parado de mostrar até você, bafo de sangue. Ao que parece, a máquina consome uma bateria normal em menos de dez minutos. Precisamos fazer alguns ajustes. – explicou , envergonhado.
- Oh, ótimo. – eu disse, rindo. Aquilo era típico. As invenções de nunca funcionavam de primeira.
- Mas mesmo não tendo nenhum outro por perto, é mesmo seguro levá-lo? Ele não pode dar um jeito de avisar aos outros? – perguntou .
- Não. – foi quem respondeu, em tom perigoso – Não importa o que aconteça... Ele vai entrar naquele prédio. E não vai sair.

Aquilo dispensava maiores explicações.

Xx

- Eu não acredito que ele vá falar mais alguma coisa. – disse , sentado ao meu lado e olhando impassível para a cena a sua frente.
- Por mais estranho que seja dizer isso... Eu concordo. – eu falei, tentando manter minha voz firme. Não era muito difícil, na verdade. Eu já estava endurecida por esse tipo de coisa.
Estávamos em uma das salas da sede, conhecida como “a sala do Terror”. Terror era como costumávamos chamar o interrogador que nesse momento torturava o vampiro que capturáramos. O termo “interrogador” era utilizado para fazer a real função de Terror parecer um pouco menos assustadora. A verdade é que ninguém ali tinha coragem o suficiente para verbalizar o que ele realmente era.

Terror era o torturador profissional da Organização. Acho que não há necessidade de explicar o nome, certo?

Horrível, eu sei. Não é de se surpreender que o termo seja omitido. É difícil para os outros admitirem que temos um torturador entre nós. Para mim não.
Eu posso parecer – e ser, de vez em quando – uma pedra de gelo, mas não estou tentando dizer que não me importo de assistir alguém ser torturado, mesmo esse “alguém” sendo um monstro assassino que tentara matar meu melhor amigo. Se eu tivesse escolha, não assistiria esse tipo de coisa, mas fomos eu e quem o trouxemos. Era nossa obrigação estarmos presentes. Então sim, eu não gosto disso. Mas não nego que existe.
A maioria das pessoas que me invejam – acredite, elas existem – sentem-se assim por terem essa noção idealizada do meu trabalho, sustentada por programas de Tv e filmes. Todos parecem pensar que minha vida é feita de aventuras emocionantes, que é divertido caçar e matar vampiros. Eles têm essa idéia de que vampiros são tão diferentes de nós que acham que é tão fácil enfiar uma estaca no peito de uma criatura quanto é fácil matar um mosquito que nos importuna. Mas deixe-me dizer uma coisa. Por mais que você tenha esse conhecimento de que eles são uma espécie diferente da sua – e cinquenta por cento diferente da minha –, por mais que você saiba as coisas horríveis das quais eles são capazes... Na hora H, quando estando frente a frente com um, poucos seriam capazes de ir até o fim. Vampiros não são humanos, mas têm a mesma aparência que uma pessoa comum teria, a não ser pela palidez e pelas presas. Eles sentem dor como nós, falam, pensam, e alguns têm até sentimentos. Pode parecer legal matar um vampiro quando isso é só hipótese, mas em uma situação real, a não ser que você esteja lutando por sobrevivência ou tenha algum extinto assassino sério, não é tão fácil.
Eu já me conformei com meu destino, então, a não ser em situações como essa, não penso muito sobre o que eu faço. Devo confessar que, por mais horrível que isso soe, algumas vezes até me divirto. Alguém precisa matar vampiros para proteger as pessoas, e esse alguém sou eu, além de alguns humanos que também caçam. No começo era difícil, os pesadelos me atormentavam, mas chega um momento que você simplesmente aceita seu destino porque sabe que não pode mudá-lo. Eu só queria que as pessoas que acham minha vida divertida vissem isso. Sentissem o quanto essa “missão” me tornou essa criatura infeliz que eu sou hoje, que vive para matar de forma a proteger outros. Queria que entendessem o quanto é difícil, o quanto isso tudo me tornou amarga. Amarga ao ponto de ser capaz de esconder o mal-estar que sinto ao ver uma criatura ser torturada na minha frente, como já vi tantas outras. Dor, violência, sangue... Nada mais me surpreende, por mais que ainda seja duro de assistir.

Minha história não é nem nunca foi um conto de fadas. Se você não é capaz de suportar isso... Não devia continuar a acompanhando.

Terror parara de torturar o vampiro preso a uma cadeira no centro da sala e agora permanecia parado, esperando ordens minhas. Ele nunca fizera o tipo falante. Na verdade, acho que nunca ouvira sua voz. Quem geralmente fazia as perguntas nos interrogatórios era eu.
- Acho que terminamos por aqui. – eu disse, em tom frio, e Terror assentiu com a cabeça.
- O que acontece agora? – perguntou uma voz fraca no canto da sala.

.

Sabe as pessoas que acham minha vida divertida? Pois é, era uma delas.

Era.

Quando trouxemos o vampiro para a sede, pediu para acompanhar o interrogatório. O nerd havia se enchido de coragem após me assistir no cemitério, e resolvera acompanhar o caso até o fim. Não sei para quem ele estava querendo posar de machão corajoso, mas seu pedido, baseado na argumentação de que ele “ajudara” a capturar a criatura, fora a coisa mais ridícula que eu já ouvira.

Por isso eu consenti.

Não que eu achasse que tinha “direito”. Por favor, tudo o que ele fizera para ajudar foi gritar que nem uma donzela indefesa! Mas eu precisava fazer isso. Ele não era só um funcionário desse lugar, ele fazia parte da minha equipe. Eu precisava estourar aquela bolha de ilusão que o garoto criara ao redor de si mesmo. Ele não duraria por aqui se continuasse ignorante à realidade do nosso trabalho. precisava ver com os próprios olhos o que essa guerra que lutávamos era realmente, pois só assim ele acordaria e passaria a encarar as coisas com a seriedade necessária. Como todo ser humano, ele precisava de um choque de realidade para amadurecer.
A expressão no rosto de me fez compreender que eu tivera sucesso. Ele parecia apavorado, e enojado, mas acima de tudo, parecia ter compreendido. A partir de agora ele não mais me invejaria. Possivelmente se sentiria mal por mim.
- Agora ele morre. – foi só o que eu disse, pegando a estaca que eu tinha escondida em minha bota.
- Você vai matá-lo? – perguntou , agora parecendo realmente desesperado para ir embora dali. Oh, claro. Pelo visto ainda havia mais uma lição que ele precisava aprender. E o único jeito de ensiná-lo seria fazê-lo sentir aquela sensação.
- Não. Você vai. – eu disse, andando até ele e entregando-o a estaca – Você não queria ver como tudo termina? Não achava que merecia? Então pronto. A honra vai ser sua. – eu disse, de forma dura.
Dizer que ele me encarou assustado seria amenizar demais a situação. estava literalmente aterrorizado.
- Eu vou estar na sala de treinamento se alguém precisar de mim. – eu disse, antes de deixar aquela sala. Senti mais do que vi seguindo em meu encalço.
- Você é mais cruel do que eu pensava. Estou impressionado. – disse , assim que chegamos na sala e eu me larguei sobre um dos colchões de ginástica espalhados pelo chão no fundo do aposento. O tom dele parecia divertido e orgulhoso. Imbecil.
- Eu preciso ser. E ele também. Se pretende continuar por aqui, está mais do que na hora de endurecer por dentro.
- Você acha que ele consegue? – perguntou , sentando-se em um colchão ao lado do qual eu estava deitada.
- Fazer o que eu mandei? Eu tenho absoluta certeza que não. – eu respondi. O vampiro apenas me encarou confuso – O ponto disso tudo nunca foi fazer matar um vampiro. Eu só queria que ele experimentasse a sensação de ter que fazer isso. Antes mesmo de entrarmos naquela sala eu havia instruído Terror a ficar lá com , deixá-lo tentar juntar a coragem de ir até o fim com aquilo. Mandei que ele permitisse que passasse alguns momentos digerindo a situação antes de tirar a estaca da mão do garoto e matar o vampiro ele mesmo.
- Se o garoto não sair traumatizado disso eu não entendo mais nada sobre a humanidade. – disse .
- Eu quero que ele se traumatize. Já tive muitos cientistas na minha equipe e todos eles desistem em algum ponto. Mas ... Ele é covarde, inocente, bobo, mas eu vejo algo nele que eu não via nos outros. O nerd tem muitos defeitos, mas não acho que ser um desistente seja um deles. Ele é mais forte do que parece, por isso fiz isso com ele, porque sei que ele é capaz de aguentar. vai ficar bem. Agora que ele viu o que viu, tem chances de sobreviver aqui. Entendeu que não é um matador, então nunca tentará dar uma de herói, nunca se meterá onde não é chamado. Ele tem consciência do que isso tudo significa agora, então vai continuar o trabalho dele tendo conhecimento de que isso aqui não é brincadeira.
- Você é boa nisso. – disse , em tom neutro.
- Em acabar com as ilusões felizes das pessoas? – eu perguntei, rindo sem humor – Sou mesmo. Eu já sou uma bagunça, de qualquer forma, não sou? A vida já aprontou comigo, já me estragou. Fazer um pouquinho do que foi feito comigo com outras pessoas não é tão difícil.
só me encarou por alguns momentos, e eu tive que controlar a vontade de bater em mim mesma. Lá estava eu, revelando alguns dos meus pensamentos mais obscuros para o vampiro que me odiava. Eu não entendia o que era aquela coisa que me fazia tão vulnerável perto dele. Eu revelava meus segredos mais profundos sem nem pensar duas vezes no que eu estava falando. E às vezes eu nem precisava falar – entendia sem que sequer uma palavra fosse necessária.
- Você fez isso com seus amigos também? – perguntou ele, depois de um tempo.
- Com e ? Não. – eu respondi – Não precisei. Os dois cresceram comigo. Estão do meu lado desde o começo, acompanharam os momentos mais difíceis. Eles sabem melhor do que ninguém a realidade do que eu faço.
- Você sabe que sempre esteve de quatro por você, não sabe? – disse , mudando de assunto tão repentinamente que por um segundo eu me senti perdida. Não estava esperando que a conversa seguisse por aquele rumo, e aquele definitivamente não era um assunto que eu gostaria de discutir com . Mas meu desespero por mudar o assunto era tão grande que eu acabei respondendo.
- Claro que sei. O que você acha que eu sou, idiota?
- Se eu responder essa pergunta, as chances são de que vou acabar recebendo uma estaca no peito. – disse ele, em tom de provocação. Eu olhei feio para ele, mas o vampiro apenas riu.
Cerca de meio minuto se passou antes de continuar.
- Você e já...? – perguntou ele, deixando o sentido no ar e parecendo evitar me encarar. Estranho.
- Eu e ? Claro que não! – o pavor na minha voz era cem por cento autêntico – Ele é como um irmão pra mim!
- Oh. – disse , simplesmente. Era esquisito, mas aquilo no tom dele por acaso seria... Alívio?

Se existe alguém no mundo capaz de me confundir com facilidade, esse alguém é .

- O que foi? Você tem ciúmes de mim agora? – eu perguntei, rindo. Estava sendo totalmente sarcástica, é óbvio, por isso a forma irritada e assustada com a qual olhou para mim me surpreendeu.
- Ciúmes de você?! – ele exclamou, parecendo ultrajado – Você se acha um presente dos deuses para o sexo masculino, não é? Perguntei por curiosidade, só isso. Devia ter imaginado que você permaneceria fiel ao seu querido-porém-distante .
Ouch. Preciso admitir que aquela havia doído. Era de se esperar que reagiria assim ao se sentir acuado. Atacar e ferir com palavras quando se sentia ameaçado de forma não-física era uma de suas características marcantes. Mas por que ele se sentia ameaçado? Por que levara tão a sério o que eu falei? Havia sido só uma piada.
- Em primeiro lugar, não fale do que você não entende. Você não é digno nem de pronunciar o nome dele, então fique quieto. E em segundo lugar, não que seja da sua conta, mas eu não me tornei celibatária depois que o foi embora.

Aquilo chamou a atenção dele. Pude perceber a surpresa na expressão de .

- Quantos? – ele perguntou, me olhando sério.
- O quê?! – eu exclamei, rindo incrédula. Ele não podia estar perguntando o que eu achava que ele estava perguntando.
- Quantos. É um pergunta simples, caçadora. A não ser que você tenha perdido a conta. – parecia insuportavelmente amargurado enquanto dizia isso. Qual era o problema desse vampiro, afinal?
- Quem você pensa que é pra perguntar esse tipo de coisa? – agora eu estava irritada.
- Foram humanos, não foram? – ele continuou, ignorando totalmente o que eu dissera – Tão típico. Não me surpreende que você seja tão mal-humorada o tempo todo. A tensão sexual acumulada deve ser o que pesa desse jeito na sua aura. Só Deus sabe o quanto você precisa de satisfação de verdade na sua vida. Você realmente achou que um humano daria conta de você?
- Oh, claro. Como eu fui idiota. Como pude deixar de perceber que você era o que eu precisava o tempo inteiro? – o sarcasmo pingava da minha voz – Oh, , por favor, me possua!
- Se você implorar mais um pouco, talvez eu seja bonzinho e te atenda. – disse ele, sorrindo aquele sorriso insuportável típico.
- Admita, eu não precisaria implorar. Bastaria estalar os dedos. – eu disse, retribuindo o sorriso.
- Você não está com essa moral toda, . – disse ele, mantendo a expressão de provocação. Porém a forma como me olhava desmentia facilmente suas palavras.
- Você sabe o que dizem, não sabe? Quem desdenha quer comprar. Mas como você já pediu pelo produto de forma bem clara e direta, isso é meio óbvio. Infelizmente pra você, porém, não restou nenhum pedacinho da minha atenção disponível no estoque. – metáfora com compras. Nunca tinha feito uma antes.
- Acho que eu devo procurar por outra marca então. – respondeu ele, mantendo a brincadeira enquanto aos poucos se inclinava na minha direção, ficando meio sentado, meio deitado no colchão, com o rosto acima do meu, que permanecia deitada.
- Acredite, baby. Eu sou a melhor que há no mercado. – uma voz no fundo da minha cabeça me mandava parar com aquilo, mas eu não conseguia. Era divertido demais jogar esses joguinhos com .
- Oh, sério? Por que diz isso? – perguntou ele, fingindo interesse enquanto aos poucos ia aproximando o rosto do meu.
- Oh, essa é fácil. Sabe, as concorrentes não têm as mesmas vantagens que eu. – erguendo um pouco a cabeça e me apoiando em meus cotovelos, eu aproximei ainda mais nossos rostos – Não têm a mesma resistência que eu tenho... Nem a mesma forma... – agora estava apoiado no meu colchão, com os braços esticados um de cada lado do meu corpo, se sustentando neles. Eu ergui uma mão e comecei a percorrer uma trilha partindo de uma de suas mãos com direção a seu ombro – E, é claro, não são capazes das mesmas coisas que eu sou.
- E eu posso saber que coisas seriam essas? – perguntou ele, encostando o nariz na minha bochecha e falando naquele tom rouco e perigoso que ele adquiria toda vez que estávamos próximos assim.
Vagarosamente, eu aproximei minha boca de seu ouvido.
- Você não adoraria saber? – foi o que eu respondi, logo antes de rolar por debaixo do braço de e me levantar, rindo.
- Você realmente gosta de me provocar, não gosta? – perguntou ele, ainda sentado no colchão, parecendo divertido e irritado ao mesmo tempo.
- Do mesmo jeito que você gosta de me provocar. – eu respondi, indo até o saco de areia no meio da sala e dando alguns socos – A diferença é que eu sou melhor nisso.
- Oh, agora você se acha melhor que eu? – perguntou ele, rindo.
- Não só nisso. – eu respondi, dando de ombros.
- Então, por favor, me ilumine, oh musa da sabedoria. – disse , revirando os olhos enquanto levantava do colchão – No que mais você é melhor que eu?
- Lutando, por exemplo. – eu respondi, apenas por saber que aquilo o irritaria mais do que qualquer outra coisa.
Ele me encarou por alguns momentos, visivelmente debatendo internamente qual seria a melhor resposta, até que um sorriso vitorioso lentamente se espalhou por seus lábios.
- Quer apostar? – perguntou. Ok, eu não estava esperando por aquilo.
- Apostar o quê?
- Quem é melhor. Nós dois lutamos, o primeiro que conseguir lançar um golpe que seria mortal em uma briga real vence.
Se eu não aceitasse, pensaria que eu estava com medo. Se eu aceitasse, tinha certeza que o valor da aposta seria alto. Mas eu não tinha outra escolha.
- Fechado. Valendo o quê? – eu respondi, cruzando os braços e o encarando.
- Um beijo. – ele respondeu, sorrindo sacana.
- De jeito nenhum! – eu exclamei, ultrajada.
- Só um beijo, . – insistiu, rindo.
- Não! Bela tentativa, mas eu não vou beijar você.
- Eu não te entendo, . Há um minuto atrás você estava tão certa de que era melhor que eu. O que foi, medo de perder? Ou medo de acabar gostando caso perca?
A resposta certa era a opção “b”. Mas se eu me recusava a admitir isso até para mim mesma, como admitiria para ele?
- Ok. – eu disse enfim – Mas se eu ganhar, você arruma as suas coisas e dá o fora da minha cidade. Pra sempre.
Agora era eu quem o havia pegado de surpresa. O sentimento de descrença estava escrito em cada linha do seu rosto.
- O que foi, ? – eu perguntei, rindo – Medo de perder?
A descrença aos poucos se transformou em determinação, e seus lábios se curvaram em um sorriso meio ameaçador.
- Tudo bem... – disse ele, tirando a camisa e a jogando para o canto. Ok, já começou com golpe baixo. O peito nu dessa criatura irritante é uma distração desleal – Que vença o melhor. – e, sem esperar por uma resposta minha, ele atacou.
Por cerca de cinco minutos, a luta se desenrolou de forma equilibrada. Eu precisava admitir que era bom, um adversário do meu nível. Justamente quando a luta parecia que não teria fim, resolveu apelar.
Eu havia acabado de chutá-lo, fazendo com que ele fosse parar do outro lado da sala. Eu já vencia a distância entre nós quando, antes que eu chegasse muito perto, fixou o olhar na porta atrás de mim, com uma expressão confusa e assustada que parecia real demais para me causar dúvidas. Instintivamente, eu virei a cabeça, percebendo quase no exato segundo que aquilo fora uma má idéia.
Era tarde demais, no entanto. já estava atrás de mim, uma mão em minha cintura prendendo meu corpo contra o dele enquanto a outra forçava minha cabeça a se inclinar para o lado, de forma a expor meu pescoço para sua boca.
Se aquilo fosse uma luta real, suas presas já teriam furado minha pele e em pouco tempo ele teria me drenado. No entanto, sendo só uma simulação, simplesmente beijou meu pescoço de leve, subindo os lábios para perto de meu ouvido em seguida.
- Eu venci. – sussurrou ele, logo antes de me soltar e se afastar.
Eu me virei para ele, furiosa.
- Você trapaceou! – eu exclamei – Não valeu!
- Por que, não, ? – perguntou ele, rindo – Nós nunca jogamos limpo quando lutamos de verdade, porque faríamos uma luta justa só porque é uma simulação?
- Se fosse uma luta de verdade eu não teria olhado! – eu protestei. E, bom, era verdade. Eu não era tão estúpida. Só havia baixado a guarda porque sabia que não estava em perigo real no momento.
- Bom, nós não temos como saber com certeza, temos? – perguntou ele, fingindo se sentir mal por mim – Você perdeu. Eu quero meu prêmio.
- Eu não vou te beijar, . – eu disse simplesmente.
- Você precisa. Foi o combinado. – argumentou ele, em tom paciente.
- Nós não jogamos limpo, lembra? – eu disse, sorrindo com falsa doçura.
- Que feio, . Não vai cumprir sua palavra?
- Que se dane a minha palavra. – agora eu estava irritada – Eu gosto de ser capaz de dormir, sabe? Não quero pesadelos atrapalhando meu sono pelo resto da minha vida! Eu. Não vou. Te beijar. – eu completei, pausadamente.
- Em primeiro lugar, nós dois sabemos que o que te manteria acordada pensando nos meus beijos não seria exatamente nojo. – ele disse, agora sem um pingo de brincadeira no tom de voz – E segundo, quando foi que nós voltamos pra esse joguinho no qual eu finjo que não me sinto atraído por você e você finge que não se sente atraída por mim? Porque, sinceramente, levando em conta o que anda acontecendo nos últimos tempos, isso é meio ridículo.
- Não me importa se é ridículo ou não. O fato é que eu não vou beijar você.
- Eu não vou te deixar em paz até conseguir. – ele insistiu.
- E desde quando você me deixa em paz por um segundo que seja? Você ganhou de forma desonesta, então eu não vou cumprir minha parte da aposta.
- Eu ganhei de forma justa. Quero dizer, quase justa. – disse ele, rindo – Mas isso na verdade é sua culpa.
- Minha culpa?! O que eu fiz?
- Você facilitou a luta pra mim. – disse a peste, parecendo se divertir – Até abaixou a guarda quando eu usei aquele truque idiota e totalmente manjado. Você pode não gostar de admitir, , mas você não queria realmente ganhar. Não queria que eu fosse embora, e não queria perder a chance moralmente aceitável de fazer o que você anda querendo fazer comigo há um bom tempo. Você pode tentar se convencer do contrário, mas eu conheço você.
Eu não sabia o que dizer, tamanha era a raiva que eu sentia. E acredite, me deixar sem palavras é algo raro.
- Eu não vou te beijar. – eu praticamente grunhi as palavras por entre os dentes – Nem agora, nem em um milhão de anos.
- Tudo bem. Eu espero um milhão e um se for preciso. O que não me falta é tempo. – disse ele, divertido.
- Ou eu posso acabar com seu tempo restante de forma bem rápida. – eu disse, sinalizando para a estaca em cima de uma prateleira baixa há poucos metros de nós.
- Sinta-se livre para tentar me matar. Depois que você pagar a aposta, é claro. – respondeu ele, sem se abalar.
Eu já preparava uma resposta à altura quando, subitamente, ouvimos uma batida na porta.

Salva pelo gongo pela terceira vez.

Eu rapidamente dei as costas para e segui para a porta, sentindo que seria capaz de beijar quem quer que fosse meu salvador. Abrindo a porta, porém, dei de cara com Miles, Gilbert e Tara.

Ok, talvez não.

- Ahn... Oi. – eu disse, um pouco confusa. Eu podia perceber pelas expressões de Gilbert e Miles que o que quer que eles quisessem me dizer, era alguma coisa séria. Mas aonde Tara se encaixava naquele trio era algo que fugia a minha compreensão.
- Senhorita Maclay? – disse Miles, em tom educado, olhando para Tara. Engraçado. Eu nunca havia reparado que até o momento não sabia seu sobrenome.
- Oh. – disse a garota, como se subitamente se lembrasse o que estava fazendo ali – Hm... , você pediu que nós te mantivéssemos informada sobre os progressos com o colar... A me pediu pra vir aqui avisar que todos os nossos testes deram negativo. Ela ainda quer refazer todos para ter certeza, mas ao que tudo indica ele é seguro. Nós vamos devolvê-lo em dois ou três dias.
- Então realmente não era uma armadilha. – eu disse, mais para mim mesma. Certo, isso deixava tudo ainda mais confuso. Se o colar era seguro, eu não via qual poderia ser o objetivo do meu mais novo inimigo ao mandá-lo para mim.
Bom, aquele obviamente não era o motivo pelo qual Miles e Gilbert estavam aqui, então só o que eu podia concluir é que as notícias ainda não haviam acabado.
- E vocês? – eu perguntei, me voltando para os dois – Qual o motivo das expressões fechadas?
Como Gilbert parecia ocupado demais em olhar de – ainda sem camisa no outro lado da sala – para mim com a testa franzida, foi Miles quem se pronunciou.
- Eu fui contatado por Terror há alguns minutos atrás. – começou ele. Era engraçado ouvir Miles usando o apelido que havia sido dado ao torturador. Mas eu tinha sérias desconfianças de que o motivo disso era que nem o próprio Miles sabia o verdadeiro nome da criatura – É certo afirmar que você designou para matar aquele vampiro?
Ah não. De jeito nenhum aquela solenidade toda poderia ser apenas para me dar um puxão de orelha.
- Ele precisava da experiência. – eu respondi, de forma defensiva – Quanto tempo ele levou pra desistir?
- Quase dez minutos. – foi Gilbert quem respondeu, sorrindo de leve – Não se pode afirmar que o rapaz não tentou. Ele apenas não é um assassino.
- Não estamos aqui para discutir . – interrompeu Miles – O fato é que, antes de matar o vampiro, Terror teve o bom senso que você não teve e revistou os bolsos dele. – meu chefe agora me olhava como um professor decepcionado com sua melhor aluna – Não consigo acreditar que você deixou passar isso, .
- Você sabe que não é fácil para ela, Miles. – interrompeu Gilbert, em minha defesa. Senti uma onda de afeição por meu pai postiço – Sou eu quem treina desde pequena e posso te garantir que ela é mais cuidadosa geralmente. Mas não podemos esperar que uma pessoa siga os procedimentos habituais à risca após presenciar uma cena como aquela.
- é uma guerreira. Deixar qualquer tipo de sentimento interferir no trabalho dela é inaceitável. – insistiu Miles.

Às vezes eu o respeito profundamente. Mas às vezes eu simplesmente odeio esse ditador insensível.

- Obrigada, Gilbert. – eu disse, cruzando os braços – Mas mal-estar na verdade não foi o que me fez não mandar que revistassem-no. Simplesmente achei que não faria sentido.
- Como assim? – Gilbert parecia confuso.
- Não é como se vampiros carregassem carteira de identidade ou meios de identificação. – eu respondi, como se fosse óbvio.
- Não são apenas documentos que dão boas pistas. Notas fiscais, por exemplo, podem dizer muita coisa. – disse Miles.
- É, mas vampiros não fazem compras. – eu insisti.
- Pode me explicar por que não? – foi quem perguntou, finalmente se juntando a nós e parecendo confuso.
- Bom, pra que se dariam ao trabalho? – eu perguntei, em tom racional – Quero dizer, eles não são humanos, não vivem de acordo com as nossas leis. São super fortes, rápidos e relativamente indestrutíveis para um ser humano comum. Pra que se dariam ao trabalho de comprar algo se poderiam simplesmente roubar?
pareceu conter uma risada enquanto os outros três ocupantes da sala me olhavam de forma surpresa, como se assustados pela clara demonstração do meu pequeno desvio de caráter.

Ops.

Ora, vamos lá. Não é como se todo mundo nunca tivesse pensado por esse lado. Se você não é um humano, pra que viver pelas regras de um?
Acho que a diferença nesse caso é que, mesmo se algum dos três já tivessem pensado sobre isso, não faria diferença. Eles eram humanos.

Já eu, nem tanto.

- Não que eu não admire seu raciocínio, . – disse , ainda lutando contra a risada – Mas muitos de nós preferem roubar dinheiro de humanos e fazerem compras. Entenda, roubar uma pessoa em um beco escuro atrai muito menos atenção do que invadir uma loja e levar o que quiser. Com câmeras e testemunhas por todos os lados, seria idiotice fazer esse tipo de coisa hoje em dia. Chamaria muita atenção, e nós prezamos bastante a ignorância da maioria dos humanos quanto a nossa existência.
- Parece que nosso vampiro pensava como , porque foi isso que Terror encontrou. – Miles havia tirado um papel amarelo do bolso e o estendeu a mim.
Eu peguei a nota fiscal e meu primeiro impulso foi rir. Então, como é de se esperar, foi exatamente isso que eu fiz.
- Qual a graça? – perguntou , esticando a cabeça para ler o papel.
- Starbucks. – eu disse, e meu ataque de riso aumentou.
- O que tem de tão engraçado nisso? – perguntou Miles, me olhando confuso.
- Nada. – eu disse, tentando parar de rir, porém ainda soltando leves risadinhas – Só estou imaginando um vampiro entrando em uma Starbucks e pedindo um café Mocha grande. Será que ele pediu chantilly extra? – eu perguntei, tentando me manter séria, porém meu olhar encontrou o de Tara e nós duas tivemos que engolir o impulso de rir. Pelo menos alguém além de mim tinha senso de humor – Ou vai ver ele só pediu pra atendente cortar o dedo e pingar na bebida.
Depois disso eu e Tara começamos a rir pra valer. Aquilo era demais pra mim. Eu nem sabia que vampiros consumiam algo além de sangue. E olha que eu havia namorado um.
Gilbert mantinha um sorriso leve no rosto, Miles parecia impaciente e , irritado. Acho que a praga não apreciava piadinhas com a própria espécie.
- Leia o endereço, . – disse Miles, em tom de quem não estava para brincadeiras.
Eu fiz exatamente isso, e meu riso parou instantaneamente.
- Nova York? – eu perguntei, incrédula.
- Exato. – disse Miles – Ao que parece, era lá que nosso vampiro estava há quatro dias atrás. Pode ver a data.
- Isso explica o ataque descuidado no cemitério. – disse , pensativo – Ele provavelmente não conseguiu se esconder na carga de um avião e precisou vir de carro. Ou a pé durante a noite. De qualquer forma, estaria faminto. Nem correndo na máxima velocidade que somos capazes ele conseguiria chegar em muito menos de duas noites, e suponho que não tenha parado para comer no caminho.
- Então o Mestre tem vampiros vindo de outros lugares para cá? – eu perguntei, preocupada. Me envergonho em dizer que só então o pensamento óbvio me ocorreu – Espera, Nova York? É onde está! Eu preciso avisá-lo!
Eu tateei os bolsos inutilmente à procura de meu celular, mas foi em vão. Sempre o esquecia quando saía para caçar.
- Acho que você está procurando isso. – disse Tara, sorrindo e me entregando meu celular – Estava largado na nossa sala... Pensei que seria útil quando você descobrisse as notícias.
Eu sorri radiante para ela e corri para a salinha adjacente à sala de treinamento. Queria privacidade para ligar para . Ter falado com ele dias atrás havia servido apenas para piorar minha saudade. Agora que eu tinha uma desculpa perfeitamente aceitável para falar com ele de novo, não ia desperdiçá-la.

Alguns minutos depois, porém, eu me arrependeria amargamente disso.

Xx

’s POV


Aquilo tudo era tão novo pra mim que eu me sentia sobrecarregado.

Eu achava que já havia me acostumado com meu recém-descoberto amor por . Já havia aceitado o fato de que, por mais irritante que isso fosse, meu sol nascia e se punha quando entrava e saia de uma sala na qual eu estivesse presente. Sol no sentido figurado, é claro. Se bem que, pensando melhor, de certa forma tinha o mesmo efeito que o sol sobre mim. A diferença é que ela me queimava de forma ainda mais profunda e completa.
Então, como você pode ver, não era incomum para mim que ela levasse com ela o brilho do meu mundo quando se afastava. Só que dessa vez, quando ela partiu com aquele sorriso gigante para a outra sala, não foi só isso que ela levou. Junto com a pouca luz da minha existência, carregou meu coração, pisoteado na sola de seu sapato.
Aquela dor aguda era nova para mim. Mas a alegria que eu vira em seu rosto devida à simples idéia de falar com o rei dos imbecis fez meu coração doer.

Como isso era possível, se ele nem ao menos batia?

Eu nunca a havia visto sorrir tão sinceramente antes. Ela o amava. Ela o amava e a expectativa de apenas ouvir a voz dele havia acendido um fantasma de luz nos olhos dela. Não era muita coisa, mas era mais do que a completa escuridão que eu geralmente encontrava ali.
Isso não era certo. Pensar em e seu amor por não devia me fazer sofrer. Sempre foi algo que me irritou, antes mesmo da minha epifania em relação aos meus sentimentos, mas sempre havia sido algo sobre o qual eu era capaz de fazer piada. E essa habilidade havia sido minha maior arma contra por muito tempo. Agora, porém, pensar na devoção da criatura que eu adoro a outro vampiro apenas me machucava.
Ele nem mesmo a merecia. Não havia feito nada para tornar a vida dela mais feliz, menos pesada e cruel. Na verdade, havia até mesmo piorado as coisas para ela, ao ir embora e abrir outra ferida no coração já tão calejado de .
As coisas que ela havia me dito minutos antes ainda rodavam por minha mente. era como a vida a havia forçado a ser. Era triste pensar em como ela teria se saído se nunca tivessem jogado em seus ombros o fardo da violência, da escuridão, do amadurecimento rápido e forçado. Ser quem ela era a havia endurecido, tornado amarga, infeliz. Eu não conseguia não imaginar quem ela seria se as circunstâncias fossem outras. Talvez uma menina doce, despreocupada. Alguém sem tantos preconceitos, sem tantos fantasmas, alguém que não olharia a vida de forma tão pessimista. Alguém que talvez fosse capaz de perdoar um vampiro como eu.

Alguém que fosse capaz de me amar.

A que eu conhecia agora nunca seria capaz de nada disso. Ela me detestava. Me queria, sim, e de vez em quando até parecia achar divertido brigar comigo, mas era só. Ela me olhava e via a desgraça de sua existência. Via o culpado por ter ido embora. Via o monstro. Ela precisava culpar alguém por tudo de errado que havia em seu mundo, e o infeliz escolhido havia sido eu. Justamente o vampiro que a amava.
Eu estava tão absorto em meus próprios dramas que não havia percebido que Gilbert e Miles haviam ido embora até sentir a mão de Tara em meu ombro. Provavelmente haviam presumido que a conversa dos dois pombinhos trágicos no telefone demoraria e decidiram se retirar. Queria poder ter a habilidade deles e conseguir simplesmente me afastar daquela sala.
- Tá tudo bem? – Tara me perguntou, no tom baixo e tímido habitual.
Eu olhei dentro de seus olhos e o que encontrei lá piorou ainda mais meu mal-estar.

Pena. Preocupação.

- Por que não estaria? – eu perguntei, indiferente, cruzando meus braços na frente do peito. Tive um súbito impulso de pegar minha camisa e a vestir, de forma a evitar que minha sobrinha-tatataraneta se sentisse desconfortável. Eu não conseguia evitar me sentir como se estivesse perto de Meredith. A semelhança entre Tara e minha irmã era impressionante.
Ela, porém, não parecia incomodada. Na verdade, não parecia nem ter reparado que eu estava sem camisa. Mais uma prova de que, para ela, eu também era um parente.
- pode não perceber, mas eu percebo. – disse Tara, em tom significativo – Eu posso apenas imaginar como isso tudo está sendo para você.
- Não sei do que você está falando. – eu tentei manter minha voz firme, porém estava verdadeiramente assustado. Não sabia o quão perspicaz ela era.
- Eu vejo auras, . – disse ela, em tom calmo – E depois de te conhecer, descobri que vampiros tem auras também. A sua brilha intensamente toda vez que está por perto, então não tente mentir para mim. Se há algo que eu entendo nesse mundo, são os sentimentos dos outros.
- É a ele que ela ama. – foi tudo que eu consegui dizer. Sabia que ela entenderia o recado subentendido naquela frase.
- Mas é de você que ela precisa. – disse Tara – Ela só não sabe disso ainda. Não é tarde, . Ainda há tempo de mudar essa situação. Pense sobre isso. – ela sorriu levemente para mim e seguiu até a porta. Porém parou e continuou, sem me encarar – Você e ... A ligação é tão forte. Seja o ódio dela, seja o seu amor, é forte demais, e une vocês dois tão intensamente que parece impossível... Parece impossível acreditar que vocês não percebem isso.
- Você mesma disse, ela me odeia.
- Se sentimentos fossem dinheiro, ódio e amor seriam duas faces da mesma moeda. Você só precisa virar os sentimentos de na face certa, . Acredite, ela precisa de você tanto quanto você precisa dela.
Eu ia responder aquela afirmação, mas nunca tive a chance.

Naquele momento, a sequência de eventos que marcaria aquela noite como uma das mais importantes da minha existência havia acabado de começar.

Xx

Minutos antes...


’s POV


Eu estava começando a achar que faria um buraco no chão da salinha de nove metros quadrados se continuasse andando de um lado para o outro daquele jeito. O problema é que eu não conseguia me controlar. Estava ansiosa. E por que não atendia logo essa droga de telefone?!
Ok, eu admito, até agora só haviam sido três toques. Mas eu estava impaciente. Meu estômago parecia ter sido retorcido em um nó e eu estava inquieta.
Cinco toques. Vai ver ele esquecera o aparelho em algum lugar. Vai ver ele...
- Alô? – eu praticamente pulei de susto quando a voz no outro lado da linha me despertou no meio daquele pensamento. Principalmente por aquela não ser a voz que eu estava esperando ouvir. Era uma voz feminina.
- Oi. – eu respondi, um pouco sem jeito – Me desculpe, acho que liguei para o número errado...
- Sério? – perguntou a voz no outro lado da linha, em tom sarcástico – Você não queria falar com o então?

De repente, a força da gravidade sobre meu queixo pareceu forte demais para resistir.

- Esse é o celular do ? – eu perguntei, descrente.
- Bom, du-uh! – disse a garota, e eu praticamente a senti rolando os olhos do outro lado da linha – Eu tenho certeza que ele é o primeiro na sua lista de discagem rápida, então é meio impossível você ter ligado errado, não acha, queridinha?

Ok. Alguém para o mundo porque eu quero descer!

Em primeiro lugar, quem essa vaca nojenta pensava que era? E em segundo, o que ela estava fazendo com o celular do meu ex?
- Ok, não que eu geralmente não seja fã de antipatia gratuita, mas quem é você e o que você está fazendo atendendo o celular dos outros?
- nunca falou de mim pra você? – a garota fingia surpresa – Hm, acho que vou ter que puni-lo por isso. Vai ver ele estava com medo de deixá-la com ciúmes. Não que haja motivo para ciúmes, é claro. – o tom insuportavelmente convencido na voz dela, no entanto, deixava claro que ela queria que eu pensasse exatamente o oposto de suas palavras.
Antes que eu pudesse responder, ouvi movimento do outro lado da linha, seguido por exclamações irritadas. . Eu reconheceria aquela voz sob quaisquer circunstâncias.
Pude ouvir ralhando com quem quer que fosse aquela garota e em seguida mandando-a embora.
- ? – perguntou ele, finalmente, parecendo desesperado – Me desculpe. Eu estava na outra sala, não ouvi o celular tocando... Ela deve ter visto seu nome no visor e...
- Quem era ela? – eu perguntei, interrompendo-o.
- Uma das minhas aliadas. – ele respondeu – Uma vampiresa nova. Um ano mais nova que você, na verdade. Se juntou a nós logo quando eu cheguei aqui, e pelo menos segundo o que ela diz, foi transformada a menos de oito meses.
- Você tem uma vampiresa recém-criada na sua equipe? – eu perguntei, incrédula, a caçadora momentaneamente tomando o lugar da apaixonada – Tem certeza que isso é sensato?
- Tenho. O maior motivo dela ter se juntado a nós foi o medo. Ela não foi transformada por vontade própria, e chegou um ponto que ela já não achava que podia controlar sozinha a sede de sangue. Você sabe como são os vampiros dessa idade. Então nós passamos a ajudá-la e ela também nos ajuda. Para uma vampiresa tão nova, é bom focalizar a raiva em algo útil como a caça a outros vampiros.
- Ela tem um nome? – eu perguntei, cansada de ouvir a palavra “ela” sendo repetida tantas vezes.
- Na verdade não. – respondeu – Ela se recusa a dizer o nome ou qualquer outra coisa sobre sua vida humana. Por isso alguns de nós começaram a chamá-la de Hope como forma de identificação, e ela pareceu aceitar bem.
- Hope?
- É, Hope. Esperança. Porque uma vampiresa tão nova quanto ela tendo força de vontade o suficiente para lutar contra os instintos é realmente uma esperança para a espécie.

Oh, então a vadia era uma espécie de heroína aos olhos dele?

- Incrível, né? – eu comecei a dizer, tentando esconder a raiva – Realmente, deve ser necessária muita força de vontade pra superar a tentação e fazer o que é certo. Não é de se surpreender que vocês sejam íntimos o suficiente para ela sair atendendo seu telefone assim. Os dois são vampiros. Os dois lutam contra a própria natureza e combatem a própria espécie... Dá pra ver que vocês têm muito em comum. – a irritação na minha voz agora era óbvia.
- , não é o que parece... – disse ele, em tom calmo.
- Não?! – eu praticamente gritei – Não foi o que ela deu a entender! Se não é o que parece, por que ela fez questão de falar comigo daquele jeito?
- Hope é uma garota... Difícil. – disse , parecendo lutar para encontra a palavra certa – Às vezes o gênio dela é tão ruim quanto... – o seu, eu pude ouvi-lo completando mesmo ele tendo sido inteligente o suficiente para calar a boca a tempo. Era isso, então? Ele arranjara um clone meu pra se distrair? Clone mal-feito, ainda por cima. Eu tinha quase certeza que não era insuportável daquele jeito com as outras pessoas.
- Então ela anda por aí atendendo os celulares dos outros e irritando as pessoas?
- Também não é isso. – fez uma breve pausa, obviamente tentando decidir qual o melhor jeito de continuar – Ela... Ela deixou bem claro há um tempo atrás que tem sentimentos por mim. – eu senti meu coração afundar no peito – Mas nós não temos nada um com o outro. Eu deixei igualmente claro que não estou interessado.
- E isso devia me fazer sentir melhor? – eu perguntei, de forma fria.
- ... – o tom de adquiriu aquela suavidade que me fazia quebrar por dentro – Eu sei que não tenho direito de te dizer isso, mas... Só existe você no mundo pra mim, e você sabe disso. Hope, ou qualquer outra... Nenhuma garota nunca será mais do que uma amiga pra mim. Nenhum vai tomar seu lugar. Eu não sou mais capaz de ficar com você, mas isso não significa que meus sentimentos tenham mudado sequer um pouco desde a última vez que nos vimos. Então não comesse a agir assim porque... É você que eu amo, não a Hope.
- Isso não importa, . – eu disse, lutando contra o nó na minha garganta. Eu não ia chorar. Eu me recusava a derramar mais lágrimas por ele – Você me ama... Mas é ela que está aí com você, não é? – eu mordi meus lábios, respirando fundo antes de continuar – Eu tenho seus sentimentos... Mas é ela quem pode te ver todos os dias. É ela que escuta a sua risada, que sente seu cheiro, que pode te tocar... Ela tem sua companhia, . Ela te vê todo dia, ouve sua voz todo dia, enquanto eu só posso sonhar com tudo isso. Não importa que vocês não tenham nada... Ainda assim ela tem mais do que eu.
- ...
Eu não o deixei continuar. Apenas desliguei e apertei o celular na minha mão em um impulso raivoso, esmigalhando o aparelho. Eu sabia que estava sendo irracional. Sabia que não tinha mais o direito de cobrar nada de , sabia que não era certo dizer o que eu dissera para ele, mas no momento eu não me importava. Não dava para aguentar o fato de ela estar perto dele e eu não. Era insuportável ouvi-lo falando dela como se a garota fosse uma espécie de milagre ambulante. Aquilo doía, e eu estava cansada de sufocar tudo dentro de mim.

As quatro paredes a minha volta de repente pareciam apertadas demais, e eu precisava sair. Precisava de ar fresco.

Eu abri a porta com força, voltando à sala de treinamento e seguindo para a outra porta, que me levaria ao corredor. Tara estava lá, conversando algo com , mas eu não prestei atenção em nenhum deles ao passar pela loira na soleira da porta.
- ? – eu ouvi a voz dela chamar, mas eu já estava no corredor, seguindo apressada para o elevador – , aonde você vai?
Ouvi passos atrás de mim. Tara e estavam me seguindo.
- Sair. – foi só o que eu respondi, continuando meu caminho.
- Sair? , a tempestade caiu, está impossível andar lá fora. – disse , mas eu não prestei atenção, apenas apressando o passo de forma a aumentar nossa distância. Pelo som dos pés de ambos contra o chão, eu calculava que estava há uns cinco metros à frente.
- Não importa. – eu continuei as respostas curtas. Não estava no clima para conversar, e muito menos me explicar. Era como se um parasita estivesse devorando minhas entranhas por dentro. Tudo doía, doía pensar. Mas, ao mesmo tempo, parte de mim tentava se manter sem sentir. Ou tudo seria dor ou tudo seria nada, uma massa de coisas sem importância. Era difícil decidir o que seria mais agradável.
- O que houve, caçadora? – perguntou – O que ele falou pra você?

Se eu não o conhecesse, diria que ele estava preocupado.

Mas era tarde. Por incrível que pareça, a sorte resolveu sorrir pra mim e, quando eu estava a menos de um metro de distância do elevador, as portas se abriram. Eu adentrei o cubículo e, mais rápido que um humano comum seria capaz, apertei o botão que me levaria novamente para acima do solo.

As portas se fecharam novamente milésimos de segundos antes de conseguir me alcançar.



Capítulo 9 - About Love And Loathing, Parte 2


(N/a: A música desse capítulo se chama Always, do Saliva. Sugiro que deixem carregando até a letra começar a aparecer e ouçam acompanhando.)

’s POV

Eu não sabia para onde estava indo.

Não que importasse, na verdade. Mesmo se eu tivesse um destino certo, dificilmente conseguiria chegar até ele com aquela chuva. Eu havia subestimado a tempestade. O nível de água caindo do céu era tanto que eu me sentia como se estivesse na verdade submersa. A chuva batia contra meu corpo violentamente, e sua quantidade era tanta que me impossibilitava de enxergar qualquer coisa fora de um raio de três metros. Eu não pensava ser possível ficar mais encharcada, mais cansada e com mais frio do que eu já estava.

Não que isso importasse.

Aquele não havia sido meu plano quando eu atravessei as portas do prédio em direção à rua. Há dois minutos atrás só o que eu queria era ficar sozinha. Agora, porém, o desconforto que a chuva me causava se tornara bem-vindo enquanto eu vagava pelas ruas escuras de Los Angeles. Se eu me concentrasse nas sensações físicas, talvez conseguisse esquecer a onda de autopiedade que eu sentia. Eu sabia que o que me dissera era verdade – ele não tinha me esquecido, e por pior que isso soe, eu queria que permanecesse assim. Me chame de infantil, de imatura, até mesmo de egoísta, mas se eu precisava sofrer com tudo isso, porque ele não devia sentir o mesmo? Eu sei, horrível, mas eu nunca disse que sou perfeita.
Egoísmo à parte, o que doía não era o fato de outra garota gostar de . O problema, como eu dissera, era que isso explicitava ainda mais o quão longe eu estava dele enquanto ela estava tão perto. De alguma forma, minha mente já se conformara com a distância dele e com a dor que isso me causava, já que eu tinha aquela certeza de que continuava do mesmo jeito, que de alguma forma ele ainda era meu. Saber que havia outra na disputa agora, porém, mudava as coisas. Eu sabia que não tinha nada com ela, mas não era isso que doía tanto.

O que deixava tudo diferente era o fato de que ele poderia ter.

Essa foi uma realização que me veio em meio à conversa, enquanto se explicava. Em um estalo, eu percebi que na verdade ele não precisava ter explicado nada, porque ele não era mais nada meu. Desde que ele fora embora, eu havia me apoiado nessa idéia inconsciente de que não importava se ele estava ou não por perto, ele ainda era meu. Mas ao falar com no telefone, eu finalmente acordei e vi que não era bem assim. Nós havíamos terminado. No sentido de “cada um segue o seu caminho e não deve mais nada ao outro”. Estranho como levara seis meses para eu finalmente perceber isso, mas de vez em quando eu simplesmente não sou a mais esperta das criaturas. Esse tempo todo eu havia enxergado a falta de como se significasse a distância eterna que eu teria do meu namorado, quando na verdade tal distância não era só física, e sim psicológica também. não era meu namorado que estava longe. Era meu ex. Por mais que por fora eu pensasse que havia compreendido totalmente o significado dessa palavra, só nessa noite pude entender de fato. era meu ex. não era mais parte da minha vida.

Em momentos como esse eu preferiria que a faca penetrando meu peito fosse física. Doeria menos.

A idéia de fugir de mim mesma era o que mantinha meus pés andando, meu corpo indo contra a tempestade. Talvez se eu me afastasse bastante, me afastaria da dor também. Era uma teoria improvável, mas no momento eu seria capaz de tentar qualquer coisa.
- ! – eu ouvi uma voz me chamando. De alguma forma eu não estava surpresa. Claro que ele havia me seguido.

sempre parecia estar por perto em meus momentos mais miseráveis.

Após uma breve hesitação, eu me virei em direção a ele. Era mesmo , parado na chuva como se essa não o incomodasse nem um pouco. Provavelmente não incomodava mesmo, eu pensei, com uma parte distante do meu cérebro. Ele me encarava com a testa levemente franzida em confusão, os olhos me escaneando como se tentassem enxergar dentro da minha alma. O peito ainda nu se movia levemente devido à respiração desnecessária, e a água corria pela pele de marfim como se a acariciasse, desconsiderando a violência com a qual a chuva caía. Os cabelos também não haviam escapado ilesos da ação da tempestade, formando agora uma massa de fios molhados e bagunçados que estranhamente ficava bem nele. Ali, há poucos metros de mim, parecia um anjo. Um anjo da morte, provavelmente, mas ainda sim. A postura perigosa, a expressão fechada e o corpo pecaminosamente perfeito coberto apenas pelo jeans escuro podiam fazer dele um anjo sombrio, mas não diminuíam em nada a beleza que me fizera fazer tal comparação.

Infelizmente para ele, no momento eu não estava me importando com o quão bonito ele era.

- . – eu disse simplesmente, com a voz cansada. Eu me sentia desgastada, velha. Era como se nos últimos minutos eu tivesse envelhecido toda uma existência – Eu sei que você me odeia, então sei que você não se importa com o que eu estou sentindo. Mas, por favor, me deixa em paz. Eu não estou com cabeça pra lidar com você no momento.
Em algum canto da minha mente, eu registrei o fato de que havia pedido “por favor”. Acho que eu nunca havia usado a expressão com ele antes, mas no momento eu não me importava. Se quisesse se gabar de me ter pedindo “por favor” para ele, que se gabasse. Eu estava cansada demais para me preocupar com isso. Céus, eu estava até mesmo cansada demais para odiá-lo no momento.
- O que ele disse? – perguntou. A chuva era tanta que nós precisávamos elevar a voz mais do que o normal, mesmo ambos tendo audição apurada – Diga, caçadora! O que ele pode ter dito te deixou assim?
- Isso realmente não é da sua conta. – eu respondi, suspirando. Eu só queria um pouco de paz no momento.
- É sim. – ele disse, em tom decidido – Se te faz sair sem destino aparente no meio de uma tempestade, é da minha conta sim.
- Por quê? – eu perguntei, e por alguma razão meu coração se apertou ainda mais no peito.
- Por quê? , olha a sua volta. – ele abriu os braços, dando ênfase ao que dizia – Está chovendo tanto que nem eu consigo enxergar muita coisa, e eu sinceramente duvido que já tenha feito tanto frio nessa cidade. Sem contar que esse vento é capaz de arrancar árvores facilmente, e eu duvido um pouco que um humano fosse conseguir se mover contra ele. E você me pergunta por quê? Caçadora, o mundo tá acabando! – continuou, exasperado – E corrija-me se eu estiver errado, você é meio humana. O que você quer, cometer suicídio?
- Não foi isso que eu perguntei. – eu respondi – Eu sei perfeitamente o porquê é estranho eu não estar me escondendo embaixo dos meus lençóis agora. O que eu quero saber é por que minha segurança é da sua conta. Por que você se importa?
Eu percebi imediatamente que havia o pego desprevenido com essa pergunta. Por um longo momento, ele parecia não saber o que dizer.
- Eu não sei. – disse finalmente, parecendo lutar para não revelar algo.
- Não sabe? – eu disse, rindo sem humor – Sabe, , tem várias coisas nesse mundo que eu também não sei. Eu não sei se vou aguentar meu trabalho por mais um dia. Eu não sei por que logo eu fui nascer com o peso de uma responsabilidade que muitas vezes eu me considero incapaz de carregar. Eu não sei o porquê a vida parece gostar tanto de ferrar comigo. Eu não sei porque teve que ser afastado de mim. Mas sabe o que eu realmente não sei, ? – eu havia elevado minha voz bem mais do que o necessário, a ponto de estar quase berrando – Eu não sei o que eu fiz de tão ruim pra ter você por perto quando tudo que eu quero é um pouco de tranquilidade!
- Pelo menos você me tem por perto. – ele disse. De todas as respostas que eu poderia obter, essa foi a que nunca me passou pela cabeça. Só o que eu podia fazer era encará-lo – Querendo ou não. Me odiando ou me tolerando. Pode considerar isso um karma se quiser, caçadora, mas eu vou estar por perto. Você não gosta de mim, eu não sou seu amigo. Mas eu sou a pessoa que vai estar por perto sem se importar se o momento é bom ou ruim pra você. Sempre, . Você me odeia, e é isso que vai te impedir de me afastar, como você faz com todas as outras pessoas na sua vida. Acho que já deu pra perceber que eu não vou te deixar em paz tão fácil, não é? Me deteste o quanto quiser, mas você me tem por perto, o que é mais do que se pode ser dito sobre . Eu posso ser seu pior inimigo, ... Mas eu sou tudo que você tem.

E foi assim que eu quebrei.

A dor dentro de mim finalmente se tornou mais do que eu era capaz de controlar. Em um soluço, todo meu desespero lutou para escapar de meu peito e em seguida as lágrimas vieram. Eu estava chorando de novo. Chorando por , chorando por , chorando por mim. Eu havia prometido a mim mesma não chorar mais, porém lá estava eu, botando pra fora todo aquele mal-estar. Eu me sentia doente. Tão doente que deixei que meus joelhos cedessem. Teria ido ao chão se um par de braços fortes, molhados e frios não tivessem me segurado a tempo.
me abraçou. Duvido que, algum tempo depois, ele fosse capaz de explicar para si mesmo o que o levara a fazer isso. Fora claramente um impulso, e dessa forma, me encontrei presa entre os braços do vampiro, chorando minhas mágoas.
Os braços dele eram estranhamente confortáveis. Seria mentira dizer que o que eu senti naquele momento foi segurança, já que foi mais uma sensação de distanciamento da realidade. Por mais delicioso que fosse ser segurada contra aquele peito – duro, porém com uma pele macia em contraste –, por melhor que fosse o cheiro dele, em nada camuflado pela chuva, eu não era capaz de me sentir segura nos braços do meu pior inimigo.

Meu pior inimigo.

Talvez por ele não ter dito sequer uma palavra, eu tenha levado cerca de dois minutos até cair em mim e realizar o que eu estava fazendo, e com quem estava fazendo.
No exato momento no qual entendi o que acontecia, o empurrei. Ele me encarou um pouco desestabilizado enquanto eu enxugava minhas lágrimas com irritação – gesto inútil, já que as gotas de chuva se misturavam a elas, deixando difícil definir o que era o que. A raiva camuflou momentaneamente a dor. Ele havia me feito chorar. Ele havia me visto daquele jeito e além de tudo tentara me consolar. Meu inimigo.

Se eu tivesse uma estaca comigo naquele momento, teria sido o fim de .

- Pode ir embora agora. – eu disse, com a voz tremendo de raiva – Já viu o que queria, não é? chorando como um bebê. Missão cumprida aqui, . Já pode ir atrás dos outros vampiros da cidade e compartilhar a história. Aposto que vai render boas risadas.
- É por isso que você acha que eu estou aqui? Sério? – ele perguntou, rindo descrente e de certa forma irritado.
- Bom, você devia estar! – eu exclamei – Porque esse é o seu papel, . Eu realmente não sei em qual ponto dessa última semana você esqueceu que é meu inimigo! Eu odeio você. – eu disse, aliviada ao perceber que aquela era a verdade – E nesse momento você devia estar rindo da minha cara. Porque é o que inimigos fazem! Eles não se tornam parceiros em organizações de combate a vampiros. Eles não deixam claro que se sentem atraídos um pelo outro. E acima de tudo, um não tenta consolar o outro. Não, o que você devia fazer era tentar me matar. Tentar tornar minha vida um inferno. – eu tive que rir um pouco secamente depois dessa – Mas, claro, pelo menos isso você continua fazendo. Só não como eu esperava.
- Você tem um ponto com esse discurso todo? – ele perguntou, impassível.
- Bom, eu tenho! Eu tô aqui simplesmente tentando entender você! Qual o seu plano, ein? Por que vir atrás de mim? Não só agora, mas há mais de uma semana atrás. Por que mudou de lado de repente? O que você quer com tudo isso? Qual o plano maléfico da vez?
não respondeu imediatamente. Ao invés disso, ficou ali parado, me encarando com uma expressão que denunciava confusão, incredulidade e curiosidade. Os olhos dele analisavam meu rosto como se tentassem me entender, e seus lábios estavam comprimidos de forma a denotar frustração. A expressão facial inteira dava a idéia de alguém que observava uma pessoa cuja burrice era surpreendente.

Ok, lembra quando eu disse que estava cansada demais para odiá-lo? Pois é, mudei de idéia.

- Plano? – disse ele, em tom baixo e perigoso. Senti um arrepio correr por minha espinha, e naquele momento tive certeza que não era devido ao frio – Você realmente acha que eu ando me submetendo a tudo isso apenas por um plano? Céus, como eu queria que essa fosse a única razão. – ele balançou a cabeça e soltou um risinho de escárnio – Não, nem isso. Porque se eu for honesto comigo mesmo terei que admitir que nunca existiu realmente um plano. Querer te matar era só a desculpa que eu dava a mim mesmo.
- Do que você está falando? – eu perguntei, confusa.
- Quer saber? Se você não entendeu até agora, não vale a pena explicar.
- Explicar o quê? – por que ele nunca podia ser direto e simplesmente me dizer o que pensava?
- Esquece, . – disse ele, dando as costas.
- EI! – eu gritei, vencendo a pouca distância entre nós e segurando o braço dele – Quem disse que você pode ir embora? Eu tenho perguntas!
- Então por que não vai fazê-las a alguém que se importe? – ele disse, logo antes de se virar para mim. Por mais que eu me odiasse por isso, não pude evitar largar o braço dele e dar um passo para trás, como em um reflexo. Eu nunca o havia visto tão assustador antes. Me arrependi imediatamente de ter insistido. Talvez eu tivesse finalmente ido longe demais. O rosto dele não estava raivoso, como eu esperava. Estava além disso. A face que eu encarava era a face fria de um predador. Eu nunca antes havia estado tão ciente de que era, de fato, um vampiro.
Mas se existe algo marcante em minha personalidade, é essa característica peculiar. Talvez seja minha mais corajosa qualidade, ou meu mais estúpido defeito, mas o fato é que eu, como regra geral, não dou o braço a torcer. Não importa o quão ruim sejam as circunstâncias. E acredite, no ranking de situações perigosas, aquela deveria estar entre as primeiras.

Provocar vampiros irritados. Não é a coisa mais esperta a se fazer.

Bom, eu nunca disse que era esperta.

- Porque só você pode responder. – eu disse, erguendo o queixo e tentando passar mais coragem do que eu realmente sentia.
- Acredite ou não, amor, eu nem sempre tenho todas as respostas. – ele respondeu. O fato de ter usado um apelidinho carinhoso pode acabar dando a impressão de que isso foi dito de forma afetuosa. Oh, não. Por mais difícil que seja de acreditar, um xingamento teria soado muito mais doce do que aquilo.
- As que eu quero você tem. – eu insisti, teimosa. Ok, a parte racional de mim percebia o quão idiota era manter aquela discussão em meio à tempestade. Mas eu sentia que estava perto de obter respostas, e não deixaria nada me atrapalhar.
suspirou, levou as mãos aos cabelos ensopados e, parecendo usar todas as suas forças para manter o tom equilibrado, disse:
- Ok. Pode perguntar então.
- Pra que tudo isso? – eu perguntei, sabendo que ele entenderia.
- Achei que você já soubesse essa. – ele respondeu, me encarando com falsa inocência – Não foi isso que você disse? Eu devo ter alguma espécie de plano secreto. Se é o que você acha, então deve ser isso mesmo. Afinal, você é a dona da verdade.
Decidindo que o melhor a fazer era ignorar o insulto, eu respirei fundo e continuei.
- Bom, alguma coisa você quer com tudo isso. Me diz o que é. – ele abriu a boca, e eu praticamente senti um discurso gigante a caminho – Em cinco palavras ou menos.
Ele me olhou irritado por um momento, porém travou a mandíbula e ergueu um punho fechado na altura do rosto.
- Isso. – ele começou, erguendo o dedo mindinho – Não. – o anelar se juntou ao outro erguido – Te. – ele levantou o terceiro dedo – Interessa. – o indicador se ergueu também, e ele olhou brevemente para o polegar ainda escondido, sorrindo sacana – Vadia. – disse , erguendo o último dedo.

Eu contei até dez brevemente, tentando manter meu punho longe do nariz dele.

- Interessa. Interessa porque é a minha vida que você anda atrapalhando com a sua decisão de lutar pelos fracos e oprimidos ao invés de sair por aí os caçando! E eu sei que isso não é resultado da bondade em seu coração, então me poupe. Você deve ter algum problema sério, e eu tô tentando descobrir qual é.
- Me deixa em paz, . – ele praticamente rosnou em aviso.
- Se o problema não é com você, deve ser comigo então! – eu continuei. O brilho assassino nos olhos dele tinha a clara intenção de me intimidar. Por sorte, eu nunca tive medo de .
- Argh! – ele exclamou, ao ver que eu não desistiria – É com você mesmo!
- O problema é realmente comigo? – eu perguntei, observando-o. Ele parecia prestes a me atacar. Os punhos estavam fechados e eu era capaz de ver seus músculos se contraindo na vã tentativa de manter a calma. A expressão dele ainda dedurava o quão profundamente irritado ele estava, mas nada disso me assustava. Na verdade, de uma forma doentia, aquilo me atraía. Eu me senti doente ao perceber isso, mas eu o desejava mais naquele momento do que desejara em todos os últimos dias. Talvez fosse a carência, ou o fato de que brigas, até mesmo as verbais, contra , me excitavam de uma forma estranha. Fosse o que fosse, o fato é que, em um “click”, eu percebi o quanto o queria naquele momento. E foi então que uma sensação de inevitabilidade se apossou de mim. Como quando você vê um vaso caindo de uma prateleira e corre para tentar pegá-lo mesmo sabendo que não chegará a tempo. Você tenta, mas sabe o tempo todo que não vai conseguir fazer nada.

O vaso vai quebrar de qualquer jeito.

Era essa a sensação que eu tinha no momento. A sensação de que algo aconteceria e, por mais que eu quisesse evitar, seria impossível.

I hear... a voice say "Don't be so blind"
(Eu ouço uma voz dizer "Não seja tão cego")
It's telling me all these things
(Ela está me dizendo todas essas coisas)
That you would probably hide...
(Que você provavelmente esconderia...)


- Sempre foi, sempre será. – a voz de me despertou novamente para a conversa.
- O que você quer de mim? – eu perguntei, simplesmente. Algo me dizia que eu não devia ter perguntado isso, mas eu não tinha escolha. Minha curiosidade sempre fora meu calcanhar de Aquiles.
- O quê? – ele perguntou, engolindo em seco.
- Você ouviu. – eu insisti – O que você quer de mim?
- Você quer saber o que eu quero de você? – a postura que ele assumiu praticamente berrava “Perigo!”.

Am I... Your one and only desire?
(Sou eu seu verdadeiro e único desejo?)
Am I the reason you breathe?
(Sou eu a razão pela qual você respira?)
Or am I the reason you cry?
(Ou sou eu a razão pela qual você chora?)


- É, eu quero. – eu respondi, começando a ficar meio nervosa.
- Tem certeza? Tem certeza que quer saber? – o tom na voz dele era puro desafio, e eu soube imediatamente que o perigo no qual eu estava era maior do que eu imaginava. Mas não dava pra voltar atrás agora. Não quando ele começara a se aproximar de mim novamente, de forma lenta, porém decidida.
- Eu perguntei, não perguntei? – eu continuei a enfrentá-lo, mesmo tendo começado a dar passos para trás enquanto ele continuava avançando – O QUE. VOCÊ QUER. DE MIM? – eu gritei a plenos pulmões, pausadamente para que não restasse dúvidas, assim que minhas costas bateram contra um muro. Eu me sentia encurralada, por isso havia partido para o ataque verbal.

Always... Always... Always...
(Sempre... Sempre... Sempre...)
Always... Always... Always...
(Sempre... Sempre... Sempre...)


As mãos dele bateram contra o muro, uma de cada lado da minha cabeça, o rosto perigosamente próximo ao meu.
- É ISSO QUE VOCÊ QUER SABER? – ele gritou em resposta, parando em seguida para olhar em meus olhos.
- É! – eu respondi, decidida a não me deixar levar por aqueles olhos .
- O QUE EU QUERO?
- ISSO! ME DIZ! – eu berrei em resposta – O QUE VOCÊ QUER?

E aquela foi a gota d’água para ele.

Eu devia ter percebido na hora. O modo como a expressão de mudou levemente e seu olhar se desviou para minha boca logo antes de voltar àquela luta contra o meu, dessa vez com algo a mais brilhando em meio à raiva, algo que eu não sabia identificar.
- Você. – sussurrou.

Always...
(Sempre...)
I just can't live without you.
(Eu simplesmente não consigo viver sem você)


No momento seguinte, os lábios dele estavam sobre os meus.

Por um segundo, o mundo parou de girar. Raiva, desejo, dor. Eu não sabia que era possível transmitir tantos sentimentos em um tocar de lábios, mas conseguia. Eu estava presa entre ele e a parede enquanto sua boca pressionava a minha com tal fúria que chegava a machucar, mas eu não poderia me importar menos. Os lábios dele, molhados de chuva, eram tão macios quanto eu havia imaginado, e era difícil acreditar no quão brutos eles podiam ser. Mas, céus, eu estava gostando daquilo. Tanto que, quando ficou óbvio a real intenção da força que ele aplicava contra minha boca, eu não tive escolha se não ajudá-lo, partindo meus lábios levemente.

I love you
(Eu te amo)
I hate you
(Eu te odeio)
I can't get around1 you
(Eu não consigo te esquecer)
I breathe you
(Eu te respiro)
I taste you
(Eu te provo)
I can't live without you
(Eu não consigo viver sem você)


Quando a língua dele – exigente, desesperada – finalmente entrou em contato com a minha, eu soube que estava perdida para sempre.

Um de nós – ou ambos, eu nunca teria certeza – gemeu em uma espécie de alívio dolorido. Eu estava ocupada demais sentindo todo o meu ser sendo consumido por deliciosas ondas de lava para me importar. Eu nunca imaginara que um beijo pudesse ser assim, tão cru, tão intenso. Era como se ele quisesse me devorar, exigindo tudo de mim e ao mesmo tempo me dando em troca tudo de si. beijava com o corpo inteiro, colocando no ato todo seu ser, e me causando uma sobrecarga de sentidos. Corpo, alma, mente e coração. Eu sentia cada uma dessas partes dele enquanto me reivindicava com seus lábios como se eu fosse uma de suas posses.

I just can't take any more
(Eu simplesmente não consigo mais suportar)
This life of solitude
(Essa vida de solidão)
I guess that I'm out the door
(Acho que estou do lado de fora)
And now I'm done with you
(E agora estou cheio de você)


Aquilo tinha que ser um pecado. Aqueles lábios, aquela boca, aquele corpo... Aquela criatura inteira era a própria definição de pecado. Mas não havia como lutar. Não havia como resistir àquela sensação agridoce e, oh, tão pecaminosa que o contato com ele me causava. Meus braços enlaçaram seu pescoço e eu comecei a retribuir inteiramente. Ele soltou uma mistura de gemido e grunhido ao realizar minha muda admissão de que necessitava tanto dele como ele obviamente de mim. Não sei se foi esse som ou o fato de ele estar tremendo por inteiro que fez com que o delicioso e ao mesmo tempo doloroso nó que se estabelecera centímetros abaixo do meu umbigo se apertar mais ainda, mas não importava. Minha única preocupação no momento era chegar ainda mais perto dele e, como se lendo minha mente, me ergueu um pouco contra a parede, de forma nada gentil. Minhas pernas se entrelaçaram em sua cintura e ele voltou a pressionar meu corpo contra o muro, dessa vez em um ângulo melhor.
Uma das mãos de apertava minha cintura enquanto a outra, nada delicadamente, subiu por minha nuca até se enroscar em meus cabelos encharcados, segurando minha cabeça como se tivesse medo que eu fosse fugir. Como se eu sequer pensasse em fugir. Minhas mãos exploravam a expansão daquelas costas definidas. Eu agradeci a qualquer força superior que estivesse me ouvindo pelo fato dele não ter recolocado a droga da camisa. A pele de estava ainda mais fria, graças à água que não parava de cair, e o efeito de ambos – dele e da chuva – contra meu corpo subitamente superaquecido era enlouquecedor. Era como se uma corrente elétrica passasse entre nós, e só o que eu podia fazer a respeito era puxá-lo ainda mais contra mim, sentindo cada músculo daquele corpo insanamente escultural sendo pressionado contra a minha forma tão mais delicada por sobre o tecido das minhas roupas ensopadas. Os lábios dele não haviam deixado os meus por sequer um segundo, de forma que ele apenas mordiscou meus lábios quando sentiu que eu precisava respirar, voltando ao ataque no momento seguinte.
Tentando me posicionar mais confortavelmente, eu comecei a me contorcer um pouco entre e a parede. Após um movimento descuidado dos meus quadris, porém, ambos congelamos momentaneamente, incapazes de impedir os gemidos sôfregos idênticos. Eu acidentalmente havia roçado com um pouco de força em uma parte dele que desesperadamente precisava da minha atenção. Antes mesmo que eu pudesse processar esse fato, porém, havia despertado de seu momento de choque e agarrara meu quadril com ambas as mãos, esfregando seu corpo contra o meu de forma bruta enquanto voltava a me beijar, com entusiasmo renovado.
Oh, mas eu não conseguia corresponder ao beijo. Não conseguia forçar minha boca a se mover, nem qualquer outra parte do meu corpo. Tudo que eu podia fazer era ficar ali, grudada nele com todas as minhas forças e gemendo lascivamente em sua boca enquanto ele se friccionava contra mim do jeito mais deliciosamente certo o possível. Céus, ele era... Grande. Só o pensamento me fazia tremer por inteiro, mas se ele percebeu isso, não se incomodou. Sua mãos haviam seguido o caminho para a parte de trás das minhas coxas e agora subiam vagarosamente, adentrando as bainhas do short enquanto ele continuava a me massagear daquela maneira firme. Minha respiração estava acelerada e meus olhos fechados, então eu só descobri que as presas dele estavam à mostra quando as senti roçando contra meus lábios. Eu não me importava. A única idéia clara em minha mente no momento era a sensação de êxtase absoluto que a pressão que o volume nas calças dele fazia na parte de mim que doía de tesão por aquele filho da puta que eu tanto odiava. Oh, mas ele sabia atingir o lugar simplesmente perfeito sem a menor dificuldade. Como se lendo meus pensamentos, ele mudou levemente o ângulo, de forma que a pressão passou a se concentrar quase exclusivamente no meu clitóris. Eu gritei, detestando meu próprio tom desesperado. Oh céus, eu ia gozar. Nenhum cara havia conseguido me fazer chegar tão longe. Eu não conseguia acreditar que estava ali, no meio da rua, debaixo de uma tempestade, com o vampiro que...

Vampiro.

Onde eu estava com a cabeça?

I feel... like you don't want me around
(Eu sinto como se você não me quisesse por perto)
I guess I'll pack all my things
(Acho que vou arrumar minhas coisas)
I guess I'll see you around
(Acho que te verei por aí)


- ... – eu gemi, o empurrando, odeio admitir, contra a vontade. Ele afastou o rosto do meu, confuso, me encarando por baixo de pálpebras pesadas, os lábios deliciosos inchados e levemente partidos enquanto ele respirava desnecessariamente. Oh, droga – Pára. – eu disse, sem convicção nenhuma, lutando contra o instinto de puxar aquela criatura perfeita de volta para mim.
O olhar perdido do vampiro deu lugar a um malicioso, enquanto um sorriso sacana se espalhou por sua boca. Antes que eu pudesse me preocupar, ele segurou minhas mãos com ambas as suas e as prendeu contra a parede.

Its all... been bottled up until now...
(Tudo tem sido engarrafado até agora)
As I walk out your door
(Enquanto eu vou embora)
All I hear is the sound...
(Tudo que eu ouço é o som...)


- Tem certeza que é isso que você quer? – ele sussurrou, roçando os lábios nos meus. Oh, merda. Claro que não era o que eu queria.
- Tenho. Me solta. – eu menti, tentando forçar o máximo de segurança na minha voz. Não funcionou muito.
- Ok, diz de novo, mas dessa vez tentando acreditar. – ele disse, rindo baixo. Aquele som serviu apenas para renovar o desejo inconsequente dentro de mim, e eu me odiei por isso.
- Me larga, . – eu disse, canalizando toda a minha raiva.

Always... Always... Always...
(Sempre... Sempre... Sempre...)
Always... Always... Always...
(Sempre... Sempre... Sempre...)


- Você não quer que eu te largue, pequena. – disse ele, usando aquele tom baixo que fazia qualquer mulher delirar. Como se para provar seu ponto, ele mexeu o quadril novamente. Argh! Aquilo era golpe baixo. Eu mordi meu próprio lábio inferior na tentativa vã de abafar meu gemido necessitado.
- Oh... Eu simplesmente adoro quando você faz isso. – ele olhava fixamente para meus lábios. Prendendo minhas mãos em apenas uma das dele, ele desceu a livre para minha boca, contornando-a devagar. Em seguida, passou a descê-la por meu pescoço, pela curva do meu seio...
- Pára. – eu disse, em um tom que parecia mais um incentivo.
- Shh... – sussurrou , tocando meus lábios com os seus brevemente – Não lute... Você sabe que quer isso... – as mãos dele agora desciam por minha barriga – Eu sei que você nunca se sentiu tão viva antes. Eu posso ouvir seu coração batendo. Ninguém nunca te fez se sentir desse jeito, não é? – ele continuou, e eu odiava admitir, mas ele estava certo. A mão de agora adentrava a barra do meu short lentamente, roçando os dedos em minha virilha. Meu corpo inteiro se arrepiou e outro gemido escapou de meus lábios – Ninguém... Nem mesmo ...

Péssima escolha de palavras.

Always...
(Sempre...)
I just can't live without you
(Eu simplesmente não consigo viver sem você)

I love you
(Eu te amo)
I hate you
(Eu te odeio)
I can't get around you
(Eu não consigo te esquecer)
I breathe you
(Eu te respiro)
I taste you
(Eu te provo)
I can't live without you
(Eu não consigo viver sem você)


O som daquele nome me trouxe de volta à realidade. Dominada por pura fúria, eu empurrei meu corpo para frente, fazendo com que perdesse o equilíbrio e caísse para trás, comigo por cima dele. Eu imediatamente levantei e recuei alguns passos, irritada demais para atacá-lo ou ir embora. Eu só fiquei ali, respirando aceleradamente enquanto observava ele se levantar atordoado. Eu estava totalmente lívida, pelo simples fato de ele estar totalmente certo. Por mais que eu amasse , eu nunca... Ele nunca havia me feito me sentir assim. Nem mesmo em nossa única noite juntos. Tudo havia sido puro romance. Cuidadoso, gentil... Talvez por ter sido a minha primeira vez, ele me tratara como uma bonequinha de porcelana. Mas não era daquilo que eu precisava. havia despertado uma parte de mim que eu desconhecia, e só agora eu entendia porque minha vida sexual era tão frustrante. Eu queria fogo. Paixão, fúria, desespero, coisa que nem nem os poucos que vieram depois dele haviam me dado. O fato de ser justamente quem entendera aquilo me enraivecia mais do que eu pensava ser possível.
- ... – ele disse, dando um passo em minha direção.
- NÃO! – eu gritei, botando para fora todo o meu ódio – FICA LONGE DE MIM!
- Não era o que você queria há meio minuto atrás. – disse ele, em tom áspero.
- Quem você pensa que é? Que direito você acha que tem de encostar um dedo em mim?
- Mais direito que o seu querido , com certeza!
- NÃO FALA O NOME DELE! – eu gritei – Perto dele você não é nada. Na verdade, você é nada seja onde estiver!
- Ele largou você, ! – exclamou , frustrado – Será que você não enxerga isso?
- Ele fez o que precisava fazer. – eu disse, tentando convencer mais a mim mesma do que a ele – Ele é um vampiro, eu caço vampiros, nunca daria certo. Ele fez o que achava que era melhor pra mim. Ele achava que eu merecia mais. O me ama, . Mas nossa história é impossível, por isso ele foi embora. Ele fez o que era certo!
- Certo pra quem? – perguntou – Não pra você, é óbvio. é um covarde, . Ele pode te amar, pode ter a personalidade do merda do príncipe encantado, mas ele é um covarde. Quando as coisas começaram a ficar difíceis de encarar, ele foi embora. Você culpa a mim e à Cora, mas se fosse mais forte, o que aconteceu não mudaria em nada a relação de vocês.
- Cala a boca! – eu praticamente implorei. Droga, eu estava quase chorando novamente. Eu sou patética – Só cala a boca!
- E deixar você se iludir pelo resto da vida? Não, acho que não!
- Por que você se importa? – eu exclamei – Nada disso é da sua conta!
- É sim! Eu não consigo... Eu não suporto te ver sofrendo por ele! – agora parecia indignado – Aquele babaca te largou, ! Que se danem as desculpas morais que ele te deu, ele foi embora! É isso que importa! Um cara estúpido o suficiente para te largar não merece seu sofrimento!
- Era a coisa certa a fazer! Não me diga que você teria feito diferente no lugar dele! – eu estava irritada demais para realmente entender o que ele estava me dizendo. Se eu fosse um pouco mais esperta, teria poupado o choque que viria pouco tempo depois.
- Faria. – disse ele, em tom muito mais baixo, quase vulnerável – Eu nunca teria te abandonado.
- Você não sabe do que está falando! E você não me respondeu porque o interesse em por quem eu sofro ou deixo de sofrer!
- Você não quer ouvir essa resposta, . – disse ele, em um tom cuidadosamente controlado.

Chega.

Eu estava cansada daquilo. Das meias respostas, do mistério. Eu ia colocar um ponto final naquilo, e era agora.

I just can't take any more
(Eu simplesmente não consigo mais suportar)
This life of solitude
(Essa vida de solidão)
I guess that I'm out the door
(Acho que estou do lado de fora)
And now I'm done with you
(E agora estou cheio de você)


- Quero! – eu exclamei – Se eu tô perguntando é porque quero!
- Céus, você é insuportável! – disse ele, levando as mãos aos cabelos molhados.
- Me suportar é escolha sua! Você podia estar tentando me matar!
- Não, não podia! – ele rebateu. Os tons das nossas vozes estavam aos poucos aumentando.

I love you...
(Eu te amo...)
I hate you...
(Eu te odeio...)
I can't live without you...
(Eu não consigo viver sem você...)


- E por que não?
- , esquece isso...
- NÃO! – eu gritei – Eu quero saber! Por que você não tenta mais me matar? Por que fica me seguindo, tentando me ajudar? POR QUÊ?
- NÃO É DA SUA CONTA! – ele gritou, lívido.
- É SIM! EU EXIJO SABER!
- ME DEIXA EM PAZ! – parecia desesperado.
- POR QUE TUDO ISSO, , POR QUÊ?
- Por favor... – ele havia escondido a cabeça entre as mãos e parecia tentar se controlar. Inútil, na verdade. Vampiros irritados têm pouco autocontrole.
- POR QUÊ? POR QUE VOCÊ NÃO ME DEIXA EM PAZ? POR QUE VOCÊ...
- PORQUE EU TE AMO, PORRA! – ele berrou, me interrompendo.

Eu te amo.

I left my head around your heart...
(Deixei minha cabeça em função de seu coração...)
Why would you tear my world apart?
(Por que você despedaçaria meu mundo?)


Sete letras. Três palavras, e nenhuma delas complexa de se escrever ou pronunciar.

Engraçado como uma frase tão simples pode causar um estrago tão grande.

Eu congelei imediatamente, o queixo levemente caído e os olhos arregalados como se tivesse acabado de observar desenvolver asas no meio da testa. Talvez se houvesse sido isso que acontecera, eu não tivesse me surpreendido tanto. O vampiro olhava para mim com os olhos igualmente arregalados, mas de puro pavor. Dava para perceber que ele não queria ter dito aquilo.

Deus sabe que eu não queria ter ouvido.

Um turbilhão de imagens invadiram minha mente. Memórias nossas dos últimos dias. De repente cada frase trocada, cada olhar que ele me direcionara adquiria um significado totalmente diferente. Oh céus, e fazia sentido! Era a peça que faltava no quebra-cabeça, e agora a figura estava clara.
Eu não sei explicar o que exatamente eu senti naquele momento. Meu estômago embrulhara, e ondas de medo, nojo e confusão se misturavam e tornavam impossível pensar claramente. Meu cérebro doía com a rápida sucessão de idéias mal-formuladas que passavam por ele. Eu estava irritada com por ter me dito o que disse, simplesmente porque eu não acreditava. Aquela coisa não era capaz de amar. O que quer que ele estivesse sentindo, só podia ser uma espécie de obsessão doentia. Não amor. Eu me recusava a acreditar que era amor. Estava com nojo de mim mesma também. Devia ter algo errado comigo, algo que atraíra uma criatura como , que o fez me olhar e pensar “essa é a garota certa para mim”. Acima de tudo eu estava apavorada. Se ele achava que me amava, o que ele faria? Eu estava acostumada a lidar com o inimigo. Eu não sabia como lidar com essa nova situação.
Ele havia dado um passo em minha direção. O rosto do vampiro estava contorcido em uma expressão que misturava arrependimento, medo, expectativa e aceitação.
- ... – ele disse, em tom meio frágil, mas pareceu não conseguir continuar. Os olhos dele, no entanto, confirmavam o que ele revelara.
Eu sabia que não podia continuar ali parada. Aquilo tudo era simplesmente demais para mim. A noite estava sendo cheia de descobertas infelizes, e eu não me sentia capaz de aguentar mais nenhuma. Primeiro o que eu fizera com , depois a ligação para , agora isso. Tudo o que eu queria era poder parar de pensar. Apertar um botão que me fizesse apagar e dormir por um século, sem sonhos. Mas isso não era possível. Olhando para o vampiro à minha frente, eu entendi que precisava fazer alguma coisa. Ele dissera que me amava, eu precisava fazer alguma coisa.

Uma pessoa pior que eu teria rido de .

Uma pessoa melhor teria sentido pena e conversado com ele.

Como eu sou apenas eu mesma... Simplesmente saí correndo.

Xx

’s POV


Eu só deixei-a ir.

Claro que, cerca de cinco minutos depois, eu caí em mim e, despertando de meu choque, lembrei o quão perigoso era deixar sozinha no meio da tempestade. Ela podia ser forte como um vampiro, mas ainda era meio humana. O frio a incomodava, e, além disso, estava sujeita à pneumonia como qualquer humano. Mas, na hora, eu não conseguia pensar em nada disso.
Eu nunca planejei contar a ela. Na verdade, achava que passaria a eternidade ignorante desse fato. Eu sempre soube qual seria a reação dela, é claro. me odeia. Pura e simplesmente, e com um ardor impressionante. Acho que ouvir minha admissão descuidada era a última coisa que ela esperava. A caçadora não queria meu amor. Eu era o monstro, não era? O culpado pelo príncipe encantado ter ido embora? Ela provavelmente achava meus sentimentos repulsivos.

Céus, aquilo doía.

Eu estava pronto para o desgosto de , mas o medo me surpreendeu um pouco. Ela simplesmente saiu correndo, como uma garotinha assustada. Meses atrás eu teria dado tudo para assustá-la daquela forma, mas ela nunca tivera medo de mim. Como eu poderia adivinhar que só o que bastava para apavorar era dizer que a amava?
A surpresa foi o que realmente me impediu de segui-la. A dor da óbvia rejeição também me paralisara, é claro. Mas além disso, havia aquele significativo detalhe que mesmo agora insistia em assombrar minha consciência.

Eu a havia beijado.

Minutos antes de eu começar a abrir minha boca grande e falar ao invés de usá-la para tão mais prazerosas atividades, eu a havia beijado. Aqueles lábios doces haviam correspondido meu ataque com igual desespero. Aquele corpo que atormentava meus sonhos e meus devaneios havia estado pressionado de forma deliciosamente íntima contra o meu. Eu havia experimentado o paraíso e sabia disso. E a mera amostra já fora o suficiente para me viciar. Seria mais difícil daqui para frente, eu estava certo disso. Ficar próximo a ela e não poder tocá-la. Ser incapaz de deslizar minhas mãos por cada curva provocante, não poder tocar aquela pele quente e nem saborear os beijos que me faziam gemer como um homem faminto só de lembrar. Minha pós-vida tinha tudo para se tornar mais complicada agora, e acima de tudo, descobrira sobre meus sentimentos.

Minha existência era simplesmente uma piada sem graça de mal-gosto.

Me odiando por dentro, eu corri na direção que ela seguira minutos antes. Eu era mesmo um idiota. Era de se supor que, com tudo que eu já passara, eu tivesse aprendido. Ter sido a piada das mulheres da corte quando humano, depois transformado em capacho de Cora, a quem eu acreditava amar e que sempre me tratara como um brinquedo ou como um servo... Eu devia ter desenvolvido um pouco de amor próprio depois de tudo isso, mas lá estava eu, correndo em meio à tempestade atrás da garota que obviamente recusara meu afeto. Mas eu não podia simplesmente abandoná-la. Eu desistira de tentar me enganar, eu não queria morta. Eu a amava. Aquilo era idiota e totalmente masoquista da minha parte, mas não havia nada que eu pudesse fazer quanto a isso. Não havia força no mundo que me impediria de ir atrás dela.
A água camuflara o cheiro de , de forma que era impossível localizá-la. Eu precisava pensar. Para onde ela iria? Por tudo que eu sabia, ela devia estar se sentindo bem miserável agora. Irônico como era eu quem tinha meus sentimentos chutados e ela quem se sentia no direito de sofrer.
Por um momento eu me arrependi amargamente de nunca ter terminado a faculdade de psicologia que eu cursara por uns semestres alguns anos antes. Se há algo que se tem de sobra quando se é imortal, é tempo livre para estudar o que quer que você queira. Eu infelizmente tive que largar o curso após ter transformado um professor de quem eu particularmente não gostava no meu jantar. Talvez se eu tivesse me controlado por um pouco mais de tempo, teria aprendido a prever melhor o comportamento humano.

Oh, claro.

Como eu pude me esquecer? Não dava para analisar como uma pessoa comum, e isso não tinha nada haver com o fato de ela ser uma híbrida. Não, era porque era simplesmente maluca mesmo. Duvido que algum psicólogo fosse capaz de entendê-la algum dia. Mas eu era.
Eu conhecia . E por conhecê-la, conseguia prever o que ela faria. A garota estava acostumada a curar dor com dor. Era praticamente uma gulosa por sofrimento. Era só pensar qual de seus pontos fracos ainda não a havia atingido naquela noite.

Oh, sim. Eu sabia para onde ela correra.

Xx

’s POV


Eu não conseguia mais correr.

Minhas pernas estavam fracas, e meu corpo surpreendentemente quente. Por que eu estava tão quente? O tempo estava tão frio. Tão, tão frio... Havia levado alguns minutos para eu perceber o quanto estava frio. O quanto cada gota de chuva parecia uma pedra de gelo. E, oh, eram muitas gotas.
Minha cabeça doía, e dessa vez não era só de pensar. O que era bom, na verdade. Meu corpo todo estava tão fraco, minha garganta ardendo tanto que eu nem sequer tinha energia para pensar nos meus problemas. O vento e a chuva não paravam, e o frio parecia ser tudo que existia no mundo. Eu queria cair. Minhas pernas ameaçam ceder, mas algo as mantinha se movendo. Só no meio do caminho eu percebera para onde estava indo, e entender não mudou meus planos. Quem se importava? Era para lá que eu queria ir mesmo. Talvez lá eu obtivesse alguma forma estranha de conforto.
Eu atravessei as portas do cemitério praticamente arrastando meus pés. Eu não tinha mais forças para ir contra a tempestade, mas mesmo assim não conseguia me forçar a parar. Não até eu chegar lá...
Eu finalmente cheguei ao túmulo certo. Era uma sorte meu corpo ter aquele caminho decorado, pois minha visão estava debilitada pela chuva. Mas ao desabar ali, com a cabeça encostada na lápide de pedra, ao menos eu era capaz de ler o que ela dizia.

Marie Annette . Minha mãe.

No momento que eu desabei, desabaram comigo os restos das minhas forças. E a chuva ainda me castigava. Eu não achava que pudesse ficar mais encharcada se mergulhasse em uma piscina naquele momento.
Quanto mais frio ficava, mais meu corpo esquentava, e mais fraca eu me sentia. Minha respiração se transformara em um processo lento e ridiculamente frágil. Eu nem sabia mais onde eu estava. Só sabia que estava congelando, e meu corpo doía. Meus olhos estavam quase fechados e aos poucos eu me senti afogar em minha própria consciência. O mundo ia se apagando devagar e, pouco antes de cerrar totalmente os olhos e me entregar à tão acolhedora escuridão, pensei ter visto um anjo me olhando preocupado e chamando meu nome.

Xx

’s POV


- ! – eu exclamei, ao vê-la jogada sobre a lápide da mãe.

Por sorte, eu já havia estado ali antes, o que tornou possível chegar até lá em tempo recorde. Poucos dias após o fatídico e revelador sonho que mudara toda a minha vida, eu havia visitado o túmulo de Marie Annette. Eu conhecia a história de , é claro, mas não sei o que me levou a visitar a mãe dela. Acho que foi a forma estranha que eu arranjei de me sentir próximo a . De vez em quando eu vinha aqui e conversava, às vezes por horas, com a mãe da mulher que eu amava. Mesmo ela não podendo responder, aquilo me causava uma estranha sensação de conforto. Estar perto de alguém tão importante para me fazia sentir importante também.
Eu corri até ela, sentindo um mal-estar dominar todos os meus sentidos. Mesmo antes de tocá-la, eu pude perceber o frágil estado no qual a caçadora se encontrava. Eu me ajoelhei em frente à forma inconsciente de e a segurei em meus braços.

Era como tocar uma fogueira.

sempre fora mais quente do que eu, é óbvio, mas aquele tipo de calor não era saudável. Era febre, e das altas. O frio cortante somado ao emocional abalado de haviam sido o suficiente para derrubar a caçadora.
- ! Abre os olhos! – eu pedi, desesperado, ao reparar no ritmo frágil com o qual seu coração estava batendo – Nem ouse morrer agora, caçadora, você é muito mais forte que isso!
Mas ela não podia me ouvir, e mesmo se pudesse, não adiantaria. Seu corpo estava fraco e sua mente cansada demais para tentar resistir. Em um movimento rápido, eu passei meus braços por baixo de seu corpo e levantei com ela no colo. A pele dela quase literalmente queimava a minha, mas eu apenas a segurei com mais força, deixando que sua cabeça descansasse em meu peito. Eu não a deixaria morrer. Não ali, não assim. Se dependesse de mim, teria uma vida bem longa.

Oh, as ironias da vida.

Naquela manhã mesmo eu ainda acreditava que seria capaz de matá-la algum dia. Que a morte dela me curaria daquela doença que era meu sentimento. Não sei a quem eu estava tentando enganar. Agora, com ela em meus braços, tão frágil, eu pude perceber como seria. Não teria como eu sobreviver sem aquela garota.

Eu era puramente masoquista.

nunca me dera algum motivo para amá-la. Para ser sincero, na verdade ela me dera motivos até de sobra para odiá-la. E eu odiava. O problema é que, por alguma brincadeira do universo, eu a amava ao mesmo tempo. Amava sua fúria, sua força, sua esperteza... Aquele brilho que só ela era capaz de irradiar. E acima de tudo, eu me apaixonara pela garota que ela escondia dentro de si. Eu era capaz de ver, quando olhava fundo nos olhos dela, a pessoa maravilhosa que ela lutava para não ser e sufocava em seu interior com todas as suas forças. Mas ela estava lá dentro, nas sombras, sempre se revelando disfarçadamente por trás de algumas das ações de .
Eu levei cerca de cinco segundos para decidir o que fazer. Tentar encontrar o caminho de volta para o prédio estava fora de cogitação. A chuva dificultaria minha capacidade de localização e não era seguro deixar exposta à chuva por mais tempo. Por uma abençoada coincidência do destino, o cemitério no qual a mãe de estava enterrada era o mesmo no qual estava minha cripta. Não havia escolha a não ser correr para lá.
Eu levei mais tempo para chegar do que levaria normalmente. Cerca de vinte segundos, usando minha máxima velocidade. Até para mim estava difícil enxergar com clareza naquela noite, então por um momento quase me perdi. Tentando combater a sensação de alívio que me possuiu, eu chutei a porta de forma a abri-la, me sentindo grato por finalmente ter abrigo contra a fúria da natureza.
Eu rapidamente atravessei a cripta, carregando nos braços. Não era um lugar muito grande, na verdade. Uns vinte metros quadrados no máximo, composta por paredes de pedra, chão de terra e duas tumbas, uma ao lado da outra. Mas não era a parte de cima que importava. Chegando ao canto mais escuro da cripta, eu levantei o alçapão que me levaria a minha “casa”, em seguida pulando no buraco. Aterrissei no nível inferior o mais delicadamente possível, de forma a não perturbar a garota desmaiada em meu colo.

Ok. O que fazer agora?

Não havia condições de eu levá-la de volta para o prédio através da minha passagem secreta. O túnel era largo o suficiente para apenas uma pessoa, e carregá-la seria impossível e, no estado no qual se encontrava, perigoso.
Ela estava tremendo. Isso era bom, na verdade. Era prova que o corpo dela estava voltando a lutar. Eu precisava aquecê-la, mas como? Meu chuveiro improvisado não tinha água quente. Me decidindo rapidamente, eu posicionei cuidadosamente sobre a cama e corri para um dos baús nos quais eu guardava minhas coisas. Coisas roubadas, mas no momento não se importaria com isso. Encontrando uma toalha limpa, eu corri de volta para o lado dela, cuidadosamente retirando seus sapatos e sua camiseta molhada, seguida pelo short. Eu estava preocupado demais no momento para pensar muito no fato. O que importava agora era aquecê-la, então o mais gentilmente que eu pude, me pus a secar a pele absurdamente quente de . Depois de satisfeito, a levantei e coloquei-a sobre o lado seco da cama de casal, em seguida correndo para pegar velas. Longa história a de como eu consegui essa cama. Para resumir, saiba que envolveu um ataque a um caminhão de mudanças e várias viagens até que eu conseguisse trazer todas as caixas aqui para baixo, de forma a poder montar.
Depois de separar as velas, comecei a empurrar para o lado da cama todos os móveis que ficassem mais ou menos no mesmo nível desta – cadeiras, baús e até mesmo algumas caixas. Satisfeito, coloquei uma vela em cima de cada móvel encostado na cama e as acendi com meu isqueiro. Minha esperança era que o calor das velas fosse o suficiente para combater o frio.
Agora eu precisava de um cobertor. Me voltando novamente para o baú de onde eu tirara a toalha, comecei a procurar algo grosso o suficiente para cobrir . Lembrando que também precisava trocar de roupa, tirei a calça jeans encharcada e coloquei uma calça preta seca, junto com uma camisa de mesma cor que eu não me importei em abotoar. Mais um segundo de procura e finalmente encontrei uma manta de lã no fundo do baú. Perfeito.

Eu devia ter me preparado psicologicamente antes de voltar meu olhar para .

O problema é que, no segundo anterior, todos os meus sentidos estavam voltados unicamente para ajudá-la a melhorar. Eu estava preocupado. Ridículo, eu sei. Um vampiro enfermeiro... Não gosto nem de pensar o que o resto da comunidade vampírica diria se soubesse disso. Mas, independente de tudo isso e sendo o idiota apaixonado que sou, eu havia concentrado todos os meus pensamentos na saúde de . Porém, quando eu me voltei para ela, duas coisas ficaram óbvias para mim.
Primeira, a capacidade de cura de era realmente impressionante. Ao que parece, só o que precisava ser feito para que o lado vampiresa dela começasse a vencer a fraqueza humana era que ela fosse retirada das condições que enfraqueciam seu sistema imunológico. Uma vez longe do frio e da “umidez”, o corpo de começara a vencer a batalha em uma velocidade impressionante para um humano. A respiração dela havia voltado ao ritmo normal, o coração batia de forma saudável e a pele dela brilhava com o suor. Aquilo era um ótimo sinal, de fato. O corpo de estava vencendo a febre. Não havia sido uma pneumonia, ainda bem.
A segunda coisa que eu percebi foi que, bem...

estava seminua. Na minha cama. E desacordada.

Tudo o que eu posso dizer em minha defesa é que eu sou homem. Bom, vampiro, na verdade. Ser do sexo masculino, isso que importa. O fato é que eu realmente duvido que qualquer macho heterossexual no meu lugar não fosse reagir à cena à minha frente como eu havia reagido.
Ela era linda. Eu tentava buscar uma palavra que realmente expressasse o quão perfeita aquela criatura adormecida era, mas eu não conseguia. Meus olhos se demoraram nas curvas que pareciam douradas como ouro graças à luz das velas e eu não pude conter o grunhido necessitado que subiu por minha garganta. Cada centímetro daquele corpo parecia simplesmente delicioso, e eu não entendi como consegui me manter parado, apenas observando, por tanto tempo. A respiração ritmada, porém suave de fazia seus seios subirem e descerem de forma hipnotizante sob aquele fino material do sutiã, que combinava com a calcinha de mesmo tecido. Tudo o que cobria aquelas curvas perigosamente tentadoras eram finas camadas de algodão com rendas delicadas. Ela parecia tão menina... Tão inocente, tão pura usando roupas íntimas que deveriam simbolizar romantismo e ingenuidade, mas que na verdade denotavam uma sensualidade inconsciente porém forte. Não era o tipo de lingerie que eu imaginaria escolhendo, mas de certa forma se adequavam a ela, de forma meio indireta. Pensar naquela ingenuidade secreta apenas renovava a intensa onda de desejo que eu sentia. Minhas mãos comichavam para tocá-la. Céus, aquele corpo havia sido feito para ser tocado. Para ser venerado nos mínimos detalhes por minhas mãos e lábios... Não tocá-la chegava a me parecer uma heresia.
Meus pés me levaram até a beira da cama antes que eu pudesse perceber. Que mal faria, na verdade? Eu só a acariciaria... Nada demais. Eu estava ciente de que o fato de que, quando acordada, me mataria se eu tentasse fazer isso era o que fazia o ato tão errado. Mas, ei, vampiro aqui. Passei décadas sem me preocupar com o que era errado ou certo, por que começar agora? As pessoas à minha volta pareciam estar esquecendo isso aos poucos, mas, essencialmente, eu ainda era mau. Simples assim. O fato de eu amar a garota a minha frente não me fizera mudar de um dia para o outro. Eu ainda era um vampiro, e ainda me sentia capaz de matar qualquer humano sem um pingo de dor na consciência. Por que, então, me aproveitar da caçadora me faria sentir culpado?
Mas eu não queria me aproveitar. Não de verdade. Só tinha essa necessidade insana de tocá-la. Por isso, depois de sentar na beira da cama, ergui minha mão trêmula – eu andava tremendo muito perto dela – e toquei a perna de levemente. Ela ainda estava mais quente que o normal, mas a temperatura abaixara consideravelmente. Eu diria que ela estava com trinta e sete, talvez trinta e sete e meio de febre. Nada preocupante.
A pele dela estava levemente úmida de suor, e eu me vi deslizando meus dedos pela perna dela lentamente. Atravessando o joelho, correndo pela coxa até contornar a curva deliciosa do quadril. Minhas mãos não alcançavam mais longe, de forma que eu empurrei meu corpo para trás, deitando na cama ao lado dela.
Me apoiando de lado em um cotovelo, estiquei a outra mão para afastar uma mecha de cabelo da testa de . Ela parecia tão tranquila dormindo. Eu não lembrava de já ter visto aqueles traços tão relaxados. Quase inconscientemente, passei a traçar os contornos do rosto dela com os dedos, decorando cada traço assim como cada segundo daquela minha experiência proibida para analisar depois, em alguma das minhas noites solitárias.
Como se tivessem vontade própria, meus dedos calmamente começaram a descer pelo pescoço de , passando pela clavícula até chegar finalmente em um dos seios, onde um de meus dedos acidentalmente encostou no mamilo escondido sob o algodão. se mexeu um pouco e deixou escapar um gemido fraco.
Eu me senti grunhir novamente enquanto minha ereção, já bem desconfortável em minhas calças, pulsou dolorosamente. Se ela continuasse fazendo esses sons, eu acabaria fazendo uma besteira. Dessa vez deliberadamente, apliquei um pouco de pressão sobre o mamilo que aos poucos endurecia enquanto acariciava seu seio devagar. Ela soltou uma espécie de ganido baixinho e se contorceu um pouco. Eu engoli em seco.
Eu simplesmente não conseguia parar. Só podia assistir desamparado minha mão descer aos poucos pela barriga de até chegar em sua virilha, poucos milímetros acima da barra de sua calcinha.
Eu passei a correr um dedo da base de um dos seus ossos do quadril até a base do outro, sendo recompensado com um gemido profundo dela e um leve morder de lábios em resposta ao estímulo àquela área sensível.
- Você gosta disso, não é? – eu perguntei – Minha pequena... No fundo tão inacreditavelmente safada...
Ela se contorceu um pouco mais, e eu me perguntei o quão desacordada ela realmente estava. Será que ela podia me ouvir? Se podia, aparentemente gostava de dirty talk2. Eu sorri, satisfeito. Mais uma prova de que aquela garota fora criada especialmente pra mim.
- Você é tão deliciosa... – eu murmurei, continuando a acariciar sua virilha enquanto me inclinava de forma a encostar minha boca em seu seio, mordiscando o mamilo devagar. Ela grunhiu e afastou as pernas levemente.

Aquilo era convite o suficiente.

Devagar, eu posicionei uma perna minha entre as dela, levantando meu corpo sobre o dela sem encostar, me apoiando em meus braços esticados um de cada lado de sua cabeça. Eu me pus a beijar cada centímetro do rosto dela devagar enquanto movia minha coxa entre as pernas dela da forma mais delicada possível, proporcionando o atrito pelo qual, mesmo dormindo, ela praticamente suplicava.
- Você gosta disso, não gosta, ? – eu perguntava, enquanto ela só respondia com gemidos cada vez mais satisfeitos – Eu aposto que você está acordada... Aproveitando cada segundo... Isso mesmo, pequena... Céus, você é tão linda... Eu te amo tanto...

E então eu congelei.

Eu havia dito pra ela de novo. Ok, dessa vez ela provavelmente não estava consciente, mas mesmo assim... Oh. Naquele momento as coisas ficaram claras para mim. Talvez a única chance que eu teria de me declarar sem ser desprezado por ela fosse agora.
- Eu te amo. – eu repeti, parando totalmente os estímulos ao corpo dela – Você pode não gostar disso, mas eu te amo. – eu me inclinei novamente, tocando meus lábios com os dela de forma delicada e carinhosa – Eu te amo, . Eu te amo... Eu te...
- ... – ela suspirou, de forma sonolenta.

Meu coração afundou no peito.

Em cerca de três segundos no total, eu me levantei, a cobri com a manta que eu havia esquecido e me afastei o máximo possível da cama no pouco espaço disponível. O que eu estava pensando, afinal? Claro que ela pensaria no rei dos imbecis. Era ele que ela amava, certo? Ele era a droga da alma gêmea, príncipe encantado, amor escrito nas estúpidas estrelas, toda aquela palhaçada. Claro que a mente dela, mesmo adormecida, voaria para ele. Eu me sentia doente, e olha que isso é fisicamente impossível para vampiros. Meu coração doía. Se ela tivesse acordado e me dado um tapa na cara com toda a sua força, o sofrimento teria sido menos. Eu era um idiota. O que eu pensava? Com tanta mulher no mundo, por que entregar meu coração pra ? Céus, como eu sou estúpido. Eu merecia a dor. Lágrimas de dor e ódio ameaçaram escorrer de meus olhos e eu respirei fundo, travando a mandíbula e me sentando à mesinha que eu mantinha no canto do “cômodo”, puxando um dos vários cadernos amontoados nela e escolhendo uma caneta.

Descontar minha raiva escrevendo era uma característica que eu trouxera de minha vida humana.

Xx

’s POV


Eu sabia que estava de manhã.

Não me pergunte como. Da mesma forma que um vampiro, eu sempre fora capaz de sentir a presença do sol mesmo estando protegida de seus raios. Eu podia sentir que o sol nascera há poucos instantes quando os primeiros sinais de consciência se manifestaram em mim.
Eu abri meus olhos vagarosamente, apenas para encarar um teto de pedra. Pedra. Eu não estava em casa.
Ainda um pouco sonâmbula, me pus a analisar a cama na qual estava deitada. Estava no lado esquerdo de uma cama de casal consideravelmente mais confortável que a minha, e embora tivesse o mesmo tamanho, os lençóis vermelho-sangue não pareciam com nada que eu possuía. À minha esquerda, haviam cadeiras e baús encostados na cama, cada um com um restinho de vela ainda queimando.
Lentamente, me ergui até ficar sentada, e observei o local onde eu estava. Era um cômodo médio, com paredes de pedra e iluminado por tochas nas paredes.

Oh, claro. Eu estava na cripta de .

Esse devia ser o nível subterrâneo da cripta, no qual ele mencionara morar. Era melhor do que eu pensava, na verdade. Para começo de conversa, havia uma cama decente no exato centro do aposento, e um pouco de mobília. Na parede oposta à cama estava uma estante de tamanho considerável, repleta de livros e outros objetos e que aparentava ter sido construída à mão por . Ele fizera um bom trabalho. No lado esquerdo do lugar havia uma mesa rústica no canto mais distante de mim, na qual estava uma TV de quinze polegadas e outras coisas, amontoadas de forma que era difícil identificar o que era o quê. Ao lado da mesa estavam dois baús e um espaço vazio, no qual eu presumia normalmente ficarem os outros dois baús que no momento estavam encostados à cama. As duas cadeiras que continham velas provavelmente pertenciam àquela mesa também.
No canto esquerdo mais próximo a mim, havia uma espécie de abertura na parede que dava para um minúsculo corredor que virava para a direita. Não dava para ver aonde essa passagem daria, mais eu imaginava que seria o banheiro improvisado de . Vampiros não precisam de muito mais que um chuveiro no banheiro, então imaginava que aquilo devia ser o suficiente para ele.
No canto mais distante, do lado direito do aposento, havia uma escada de madeira grudada à parede, que levava para um alçapão no teto. A passagem para o nível superior, era óbvio. No canto oposto estava uma outra mesa, que lembrava uma escrivaninha e aparentava ser tão velha quanto a outra. Sobre essa mesa estavam ainda mais livros, cadernos e uma confusão de canetas, lápis e papéis soltos. Alguns pareciam conter palavras, outros desenhos, mas devido à distância considerável e à iluminação precária, não dava para definir exatamente que desenhos eram. Oh, e é claro. Sentado na cadeira de frente à mesa e de costas para mim, estava .
Ele realmente parecia possuir bastante objetos, e eu me recordei de ouvi-lo dizer que ao longo de sua vida havia mantido seus pertences pessoais no porta-malas do carro, já que ele e Cora viviam pelo mundo. Certamente o conteúdo das mesas e da estante não cabia no porta-malas, que dirá o conteúdo dos baús. Só pude presumir que ele andava roubando, mas no momento eu não conseguia me forçar a me importar.
Lentamente, eu me arrastei até a beira da cama, saindo de baixo da manta que me cobria. Oh. Eu estava vestida apenas de sutiã e calcinha. Bom, isso não importava também. já havia visto mesmo. Visto e se achado no direito de tocar.

Ah, é. Eu sabia.

Não que eu estivesse consciente durante os poucos minutos nos quais ele explorara uma parte considerável de minha pele exposta. Mas eu também não estava totalmente apagada, tanto que eu conseguia me lembrar quase perfeitamente o que acontecera, e agora estava claro para mim que fora ele. Eu havia estado presa naquele fino véu que dividia o dormir e o acordar, de forma que não estava raciocinando. A febre estava cedendo e, entre delírios, eu comecei a sentir seu toque. Eu achava que era um sonho, por mais real que parecesse. Era bom... Eu não conseguia atribuir um rosto ao ser que me tocava em minha imaginação, mas não importava. Aquele havia sido um momento meu, então minha mente não se preocupou em tentar identificar o provedor dos carinhos cada vez mais íntimos. Eu estava gostando, então apenas me deixei levar. Me lembrava de ouvir algumas palavras em uma voz deliciosamente baixa, e lembro que aquelas palavras despertaram em mim um desejo puro, irracional. Eu não estava consciente, afinal de contas, e aquela voz... Eu não conseguia identificar de quem era aquela voz, mas sabia que era um som que fazia meus joelhos tremerem. As palavras proferidas foram aos poucos ficando mais sentimentais até que os toques pararam e ele disse aquilo.

Eu te amo.

E depois repetira. Alguma parte do meu ser sabia que aquelas palavras deviam me causar repulsa, mas essa não foi a parte de mim que tomou controle. Não, minha mente sonolenta havia começado a processar informações e fazer conexões daquela forma lenta e irracional que ocorre quando sonhamos. Amo. Amor. ... Amor me lembrava , e eu me lembro de tentar pronunciar a palavra, mas não sei se consegui.
- Você acordou. – disse , em tom neutro, impassível, ainda sentado de costas para mim.

Oh, sim. Aparentemente eu consegui dizer em voz alta.

Bom, bem feito pra ele.

Mas eu não estava pronta para confrontá-lo sobre aquilo. Não estava com cabeça para discutir os “sentimentos” de ou o que o levara a pensar que podia sair se aproveitando de pessoas inconscientes. Era melhor fingir que eu não sabia de nada, afinal, nada de mais sério havia acontecido.
- Minhas roupas? – foi só o que eu perguntei, minha voz soando fria até para meus próprios ouvidos.
- Encharcadas. – ele respondeu, ainda se recusando a me encarar – Eu coloquei um vestido na beira da cama. Era de Cora. Algumas roupas dela vieram misturadas às minhas quando nós nos separamos na Rússia. Eu pensei em te vestir, mas... – ele deixou a frase no ar. Eu entendi sem que ele precisasse completar.
Realmente, agora eu notara, havia um vestido branco no lado oposto ao meu na cama. Combatendo as ondas de náusea, eu o peguei e me levantei. O pensamento de cobrir meu corpo com algo que Coraline já vestira era o suficiente para me fazer vomitar, mas eu não tinha escolha. A vampiresa era a única criatura no mundo que eu odiava mais do que a . Bom, ela e Paris, talvez. E a tal Hope, se continuasse com aquela campanha, podia facilmente chegar ao topo da minha lista negra.

Oh, céus. Eu estava cercada por vadias na minha vida.

Agora que eu estava de pé, pude ver que na parede na qual a cabeceira da cama estava encostada havia também um espelho de corpo inteiro, do lado direito. No lado esquerdo da cama estava um buraco na parede que eu conhecia muito bem. Era a saída do túnel de ventilação que funcionava como uma das várias passagens secretas da Organização. Era por lá que ia do prédio de volta para cá durante o dia, e por anos eu a havia usado como atalho para vir a esse cemitério visitar minha mãe.
Respirando fundo, eu coloquei o vestido, encarando meu reflexo no espelho. Aquela roupa era à cara de Cora. A vampiresa parecia não ter notado o passar dos séculos, e sempre que eu a vira ela estava usando algum vestido longo, na maior parte das vezes de época. Esse me lembrava um figurino saído de um filme de Rei Arthur. Havia apenas uma saia, é claro, mas as mangas longas presas embaixo dos ombros e o corpete apertado preso com uma fita que vinha entrelaçada desde a linha da minha cintura até o decote discreto me davam a aparência de mulher medieval. Eu só precisaria trançar meu cabelo e arranjar uma tiara e a fantasia de Halloween estaria pronta. O mais impressionante era que Cora nascera séculos depois da Era Medieval terminar. O motivo da escolha de vestidos era um mistério para mim.
- Obrigada, eu acho. – eu disse, no mesmo tom gelado de antes, quebrando o silêncio que se estabelecera entre mim e – Só posso supor que você me encontrou na chuva e me trouxe para cá.
- Era o mínimo que eu podia fazer. – disse ele, parecendo lutar para encontrar a coisa certa a dizer. Subitamente, ele se virou em minha direção, a expressão facial ansiosa e confusa – , sobre o que eu disse antes... Eu só queria que você soubesse que...
- Não. – eu o interrompi, de forma dura e definitiva, aumentando um pouco o tom de voz – Não... Ouse... Repetir. – eu continuei, devagar e claramente – Eu estou disposta a sair daqui e fingir que nunca ouvi o que você me disse, então nem pense em repetir. Eu te proíbo. Você nunca mais vai me dizer aquilo. Não me importa que tipo de fixação estranha é essa que você desenvolveu por mim pra confundir com... Aquele sentimento. Eu não acredito. Eu não acredito que você me... Céus, eu não consigo nem repetir! – eu disse, sentindo meu estômago embrulhar – Você não tem a capacidade de amar, . Você é uma coisa. Uma coisa que faz questão de fazer da minha vida um inferno desde que nos conhecemos. Uma coisa que mata inocentes pra sobreviver sem sequer sentir culpa. Eu sei das coisas que você é capaz. Eu conheço seu passado, e por isso tenho certeza que você é incapaz de sentir amor. Então nem tente me convencer... O que você sente é uma doença, alguma espécie de obsessão. Por isso eu quero você longe de mim. Assim que eu chegar na sede, eu vou dizer para Miles que nossa parceria obviamente não está dando certo e que você resolveu mudar de grupo. Você vai aceitar isso calado, ou eu vou repetir para Roger tudo o que você me disse na tempestade e, acredite, não há chantagem no mundo que vá te manter na Organização se o chefe souber o que você realmente quer. Então fique longe de mim, fique longe dos meus amigos e esqueça o que quer que você esteja sentindo por mim.
Durante todo meu discurso, apenas me observara calado. Seu rosto se contorcera cada vez mais no que pareça ser dor a cada palavra que eu acrescentava à minha rejeição. Junto à dor, havia raiva. Eu reconhecia aquele travar de mandíbula, ele estava irritado também. Os olhos dele brilhavam e aos poucos se avermelhavam. Lágrimas? Ele ia chorar? Não. Eu sabia que ele era como eu. Eu duvidava que fosse o tipo de cara que chorava e soluçava por um coração partido. Mas uma lágrima ou outra derramada em silêncio eu sabia que era possível. O que me surpreendia era o fato de ele nem tentar esconder as lágrimas que ameaçavam escapar. Naquele momento eu percebi que, mesmo sendo o idiota metido e insuportável que era, não tinha vergonha de demonstrar dor. Pelo menos não pra mim. Aquele ato expunha o coração dele para mim de forma tão vulnerável que eu senti o ar escapar de meus pulmões de uma vez só. Era assustador. Ele estava mostrando, sem usar palavras, o efeito que eu tinha sobre ele. não parecia achar necessário esconder aquilo de mim. Não quando ele já declarara o que achava que sentia. Era como um desafio mudo para que eu acabasse com tudo de vez. Minha palavras já haviam começado o trabalho, e nada que eu fizesse poderia fazê-lo se sentir pior.
- Eu... – ele disse, depois de um momento, tentando sufocar o ódio e a dor na voz estrangulada – Esse tempo todo... Eu fiz coisas horríveis. Dessa vez só o que eu fiz foi te dizer...
Ele não completou a frase, e eu desconfiei que não só pelo meu intimato. Ele parecia incapaz de repetir aquelas três palavras no momento, mas, novamente, eu o entendi sem que ele precisasse verbalizar. Tudo que ele fizera para merecer minha crueldade foi dizer que me amava. Era isso que o estava matando. Em todo esse tempo ele fizera coisas horríveis e eu nunca sentira a necessidade de falar assim com ele. Mas quando ele finalmente disse algo que teoricamente deveria amolecer meu coração, eu resolvia agir como um monstro. Minha única justificativa para minha própria maldade era que aquilo era necessário. Sim, eu falara simplesmente o que realmente pensava, mas meu objetivo maior era fazê-lo entender. Ele precisava entender como eu me sentia pra perceber que precisava recuar. Que não estava sendo aceito. Se ele me odiasse ainda mais no processo, melhor. Nossa função era odiar um ao outro, era bom que ele não se esquecesse disso.
Sem dizer mais nada, eu me dirigi às escadas que me levariam ao nível superior. Oh sim, eu podia pegar o atalho do túnel, seria mais rápido. Mas não era isso que eu queria, de forma que comecei a subir às escadas que me levariam à cripta e depois ao lado de fora. Ao sol. Aonde ele nunca seria capaz de me acompanhar. Eu sabia que a simbologia do meu ato não passaria despercebida por ele.
Enquanto eu caminhava para fora do cemitério, os primeiros raios da manhã aquecendo meu corpo, pensei no quão má eu aparentemente era. Era verdade que eu nunca fora um amor de pessoa, mas até àquela manhã nunca imaginara o quão ruim eu poderia ser. Bom, eu tinha motivos. Minha vida era injusta, eu não pertencia a nenhuma espécie totalmente e era forçada a lutar pela segurança de pessoas que nem sabiam que eu existia. Eu nunca ouvira um agradecimento pelas vidas que eu salvara. Minha infância havia sido arrancada de mim por treinos, histórias difíceis, preparação pro meu destino infeliz. nunca tentara fazer da minha vida algo melhor. Do contrário, me dera mais trabalho e ajudara a arrancar de mim a única pessoa que fazia meu mundo parecer um lugar um pouquinho mais iluminado. Então, sim, eu tinha razões o suficiente para ser má. Ele tinha que simplesmente aceitar isso.

O mundo é cruel, e eu sou uma vadia. Se depois de tanto tempo ainda não havia aprendido isso... Bom, é uma pena.

Xx

1 - "Get around" foi um "phrasal verb" difícil de decidir como traduzir. Para alguns pode parecer que significa "estar por perto", mas essa foi a primeira tradução que eu excluí. Segundo os dicionários, quando usado antes de uma pessoa, "get around" significa persuadir, mas não se encaixa bem com o resto da letra. Já que existe outra tradução, a que diz que "get around" quando usado relacionado a um problema tem o mesmo significado de "get over" (ou seja, superar), resolvi usar essa tradução. Afinal, a pessoa a quem o cantor se refere na letra é obviamente um problema e alguém que ele tenta, porém não consegue esquecer. Esse é um dos motivos pelo qual escolhi essa música.

2 - Pra quem não sabe, Dirty Talk é o ato de se falar sacanagens durante atos sexuais. Não há forma menos explícita de se explicar xD Não consegui pensar em uma tradução boa o suficiente, e como muita gente no Brasil usa o termo em inglês mesmo, resolvi deixar assim. Esse termo ainda aparecerá bastaaaante nessa história. O que eu mostrei nesse capítulo obviamente não foi uma Dirty Talk propriamente dita. Foi só uma pequena amostra, já que eu estou guardando a coisa real para capítulos futuros.



Capítulo 10 - Playing With Fire


’s POV

Nós ainda nos víamos nos corredores.

Quero dizer, a sede subterrânea da Organização não é o que se pode chamar de gigante. São quatro andares relativamente grandes, mas ainda assim é um espaço confinado. Pessoas estão sujeitas a cruzarem umas com as outras eventualmente.

O engraçado é que, quanto mais eu tentava evitar encontros casuais com , mais eles aconteciam.

Ele sempre estava por perto. Seja qual fosse o portão de fuga que eu escolhesse, ele sempre estava lá. Era como um imã – não importava o quanto eu queria estar afastada, algo nos atraía para perto um do outro.
Nós não havíamos trocado sequer uma palavra na semana inteira que se passou desde o incidente ao qual eu me referia mentalmente como “A Noite Da Tempestade”. Ele andava saindo para caçar a noite com um grupo de três outros caçadores. Como eu era a única híbrida do lugar – e do mundo, também -, os outros caçadores, todos humanos, saíam em grupos numerosos por medida de segurança. Antes de , eu sempre trabalhara sozinha – com a exceção das vezes nas quais me ajudara. Voltar ao meu estado de caçadora solitária havia sido esquisito. Eu nunca gostei da companhia de , e gostava ainda menos do vampiro em si, mas tinha que admitir que sentia falta de ter alguém lutando ao meu lado. Tudo passara a ser solitário demais sem ele por perto.
Mas a falta de palavras entre nós não significava que nós não conversássemos mais. Não só de vozes vivem as conversas. Calma, eu explico. É que nós ainda nos esbarrávamos, tanto aqui quanto pela cidade à noite. Sempre acompanhados de mais pessoas, nunca sozinhos... Porém toda vez parecia que nós éramos as únicas pessoas no mundo.

Pelo menos era isso que os olhos dele me diziam.

Aqueles olhos expressavam tudo que sua boca não tinha coragem de proferir. Eu os sentia em mim a todo o tempo – me observando quando estávamos no mesmo aposento, me acompanhando enquanto eu atravessava os corredores. Eu sempre sentia quando estava por perto, é óbvio. E sempre acompanhado do pequeno sinal que meu “radar” interior disparava, vinha aquela sensação... Eu sentia seu olhar em mim, queimando minha pele, fazendo minha respiração acelerar.
Eu me esforçava para não responder, juro. Tentava com todas as minhas forças ignorá-lo, mas quase nunca conseguia, e dessa forma travávamos aquela silenciosa batalha de olhares que se tornara tão comum entre nós.
Tudo começara no dia seguinte à tempestade, algumas horas depois de eu deixar a cripta de . Eu estava saindo do escritório de Miles e ele estava entrando, de forma que, por um momento, ficamos sozinhos na ante-sala. Eu não sabia definir a expressão no rosto dele, mas seus globos frios me encararam de forma quase atrevida, me desafiando a desviar os olhos. Eu sustentei seu olhar pelos poucos segundos que pareceram uma eternidade, sentindo aquela corrente elétrica tensa passar por nós. Tantas coisas foram ditas naquele olhar que é difícil separá-las e descrevê-las. Ele demonstrou uma certa dor, seu ódio e seu frio entendimento, enquanto eu o respondi com minha certeza, meu desconforto e minha frieza. Sem dizer nada, ele passou por mim e adentrou o escritório, e eu finalmente fui capaz de soltar o ar que eu inconscientemente havia prendido.
Fora o primeiro de muitos momentos intensos e incômodos que ocorreram pelo resto daquela semana. Era tudo muito estranho. Eu estava acostumada a olhar com irritação, mas agora... Agora, além da raiva, os sentimentos que me dominavam toda vez que eu estava perto de eram desconforto – afinal, eu havia o rejeitado de forma dura após ele ter proclamado seus sentimentos. Altos pontos em desconforto aqui – e, bom... Desejo.
Ficar perto dele podia ser uma situação embaraçosa depois de tudo que havia sido dito, mas ainda assim... Eu o queria. A todo momento, mesmo quando eu não estava ciente disso. Quando a dor e a confusão que eu sentira naquela noite finalmente pararam de me incomodar, eu resolvi analisar o beijo – ok, amasso – que acontecera de forma racional. A primeira conclusão a qual eu cheguei foi o fato de que, sem dúvida, havia sido o melhor beijo da minha vida. A segunda conclusão foi ainda mais simples.

Pro inferno com a razão.

O que acontecera não podia ser friamente analisado porque não era questão de lógica. Fora instinto, desejo, um ato de atração pura tão completamente físico que era difícil explicar. É o tipo de coisa que só dava para sentir.
E, oh, eu sentira. Sentira como nunca havia sentido nada antes. Foi como se minha vida inteira meu corpo estivesse adormecido e finalmente havia o despertado. Despertado cada célula, fazendo com que eu me sentisse completa pela primeira vez na vida. Não havia palavra que definisse tudo melhor do que fogo. Nosso contato físico tinha a capacidade de queimar tudo de forma tão deliciosa que me fizera desejar que aquela sensação nunca acabasse. Ele estava certo. Eu me lembrava das palavras dele no que agora me parecia uma eternidade atrás. Eu te viciaria em mim, caçadora. Sim, ele estava certo. Eu estava viciada. Pensava no que acontecera vinte e quatro horas por dia... A lembrança do beijo de me impedia de dormir, e quando o sono vencia, assombrava meus sonhos. A sensação do corpo dele sobre o meu era tão vívida na minha memória que por vezes me flagrei pensando nisso em público, enquanto conversando com meus amigos ou fazendo qualquer outra coisa. Era só deixar minha mente vagar por um segundo e aquela lembrança voltava a me perseguir, insistente, e só o que eu podia fazer era respirar fundo e apertar uma perna contra a outra, lutando contra a onda de luxúria embaraçosa que me dominava. Eu tentava curar esse desejo irracional dizendo a mim mesma que era um monstro. Que eu o odiava. Que ele era doente a ponto de achar que me amava. Eu devia estar enojada. Havia sido só um beijo e alguns toques. Não havia razão para aquela necessidade absurda.
Mas, ainda assim, ela estava lá. Era como um vício em drogas, igualmente prejudicial. Mas era assim que viciados se sentiam? Não, não podia ser possível. O impulso que eu sentia de simplesmente atacar e devorá-lo até arrancá-lo de meu sistema não podia ser algo normal. Meu corpo chamava por ele, implorava pelo toque dele, e isso me deixava maluca e totalmente lívida. Céus, eu o odiava, eu desprezava a existência da criatura, então porque eu o desejava tanto? Devia ser algo psicológico. O fruto proibido e toda aquela palhaçada. Mas então como explicar a combinação perfeita que meu corpo tivera com o dele? Química, era como chamavam. Química irritantemente maravilhosa, e tudo despertado com apenas um beijo. Imagina como seria se...

Tá vendo? É esse tipo de pensamento que me coloca nessa situação.

Eu atravessava o corredor no momento, em meu caminho para a sala de treinamento. Eu andava treinando mais do que nunca, tentando em vão gastar toda a, ahn, energia que eu andava sentindo. Eu costumava imaginar que era o saco de pancadas. Meu medo, porém, era acabar abusando sexualmente do objeto um dia desses. Deus sabe que, do jeito que as coisas estavam ficando, isso não seria totalmente improvável.
Eu não estava de todo surpresa quando o avistei alguns metros à frente após virar um corredor. Encostado a uma parede, próximo a uma porta, encarava a parede oposta com um olhar perdido, enquanto um grupo de pessoa próximas a ele conversavam. Eu identifiquei três dos rapazes como sendo a nova equipe de , e os outros eram cientistas que eu conhecia vagamente e andava vendo perto do vampiro nos últimos dias. Paris estava entre eles, sem muitas surpresas aí. Claro que a vadia ia estar no meio dos novos amiguinhos de .
Foi fácil perceber o momento no qual ele se deu conta da minha presença. Algo na postura do vampiro pareceu ficar alerta e ele virou o rosto na minha direção. Os braços dele estavam cruzados em frente ao peito de tal forma que ressaltava a quantidade simplesmente certa de músculos que ele tinha. Eu estava convicta de que estava totalmente consciente desse fato. Uma perna dele estava dobrada de forma que seu pé encostava na parede, dando a ele um ar de quem não estava nem aí pra nada. A falta de expressão no rosto que agora me encarava apenas confirmava essa imagem, mas o brilho em seus olhos dedurava o que ele realmente sentia. Seu rosto podia parecer indiferente, mas aqueles olhos me fitavam com o habitual transbordar de promessas eróticas e perigosamente obscuras que me faziam tremer da cabeça aos pés.
Seja forte, eu disse pra mim mesma enquanto, respirando fundo, seguia meu caminho pelo corredor, passando por ele sem encará-lo. Pude ouvir a voz de Paris dos menos de dois metros de distância que nos separavam, e entendi que ela se dirigia a . Os “ahams” e “és” com os quais ele respondia deixavam claro que se tratava de um monólogo da parte dela, e nem mesmo depois de passar por eles eu deixei por um segundo que fosse de sentir os olhos dele queimando minhas costas. Era como se eu pudesse acompanhar o progresso deles por cada parte de meu corpo, me despindo sem o menor pudor. Eu tentei acalmar minha respiração de forma a tentar desacelerar as batidas de meu coração, mas não adiantava. Eu tinha certeza que, se se concentrasse, seria capaz de ouvir os batimentos mesmo daquela distância.
Eu só comecei a me acalmar de verdade após virar outro corredor. Ótimo. Era melhor concentrar meus pensamentos em problemas mais seguros. Meu trabalho, por exemplo.
A situação toda não havia mudado muito em uma semana. Depois da descoberta de que o tal Mestre tinha gente vindo de outras partes do país para ajudá-lo, não fizemos mais nenhum progresso significativo. havia sido informado sobre o vampiro de Nova York após meu fracasso – também conhecido como “total esquecimento devido a problemas pessoais” – em contar para ele. Não por mim, é claro. Eu havia contado tudo – ou quase tudo – para , de forma que nem precisei pedir para ela ligar... A própria se ofereceu. Eu havia contado sobre Hope, sobre minha conversa com , mas evitei mencionar parte do que eu sentira e tudo o que acontecera depois que eu saí do prédio. Ela sabia que eu havia ficado triste, mas não precisava saber que eu havia estado miserável. Ela sabia que eu saíra, mas não precisava saber quem fora comigo ou onde eu passara a noite. Já havia sido difícil demais voltar para a sede e seguir para meu quarto sem que ninguém reparasse no meu estado ou no que eu vestia. Eu havia queimado o vestido de Cora na noite seguinte, é claro. Em um canto afastado de um parque, eu coloquei fogo naquele pedaço de pano como se estivesse incendiando a própria vampiresa. Eu não dancei em volta da fogueira ou algo assim, só... Só assisti ao vestido sendo destruído com um certo prazer cruel.
Eu havia considerado a idéia de entregá-lo a para ver se ela seria capaz de jogar algum feitiço em Cora usando a roupa, mas aquilo geraria perguntas que eu não estava pronta para responder. De fato, eu estava aliviada que parecera aceitar minhas condições tão bem. Não sei se eu teria conseguido cumprir minha ameaça e contado tudo para o meu chefe. Era... Desconfortável demais. Algo que eu preferia que fosse mantido em segredo.
Eu também duvidava que minha ameaçava fosse o que realmente estava mantendo relativamente longe de mim. Não, eu tinha quase certeza que boa parte do distanciamento era vergonha, raiva e, bom... Dor. Não que eu acreditasse nos sentimentos dele. não me amava. Vampiros como ele não podiam amar, eu tinha certeza. Ele não era como , ele não era bom. Ele não podia estar apaixonado por mim, mas... Mesmo se eu não acreditasse, precisava admitir que aquele tipo de rejeição devia doer. O ego de com certeza estava gravemente ferido, assim como o que ele pensava serem seus sentimentos. Não importa o que fosse, devia ser ruim... Não que eu tivesse pena, é claro.

E lá vou eu pensar na sanguessuga irritante de novo.

Ok. Trabalho. É nisso que eu tenho que me concentrar.

Como eu disse, havia ligado para para deixá-lo a par do que acontecia aqui. Essa era a função de uma melhor amiga, na verdade. Eu seria considerada uma vadia ridícula se começasse a xingar a tal Hope e a brigar com , já que eu era a famigerada ex e não tinha direito algum de fazer isso. Eu faria papel de boba e provavelmente iria contra algumas regras de moral. Mas ? estava livre para soltar os cachorros em cima de , e acredite, foi exatamente isso que ela fez. Não que eu tenha pedido para ela fazer isso, eu não era tão baixa assim. Mas como uma boa amiga, ela se achou no dever de me defender. Eu pude ouvir perfeitamente os berros através da porta fechada. é aquele tipo de garota capaz de fazer o cara mais durão do planeta chorar que nem um bebezinho depois de uma bronca dela. Ela me dá medo às vezes.

Oh, sim. Eu tenho orgulho da minha melhor amiga.

Não que tenha chorado. E conseguiu gritar com ele de um jeito que pareceu que eu era a pessoa certa naquela história toda. Ela passou metade da conversa ralhando com ele por “esfregar a puta morta-viva na cara da ”. Mesmo ele não tendo exatamente feito isso. Eu me sentia mal por, de certa forma, estar me escondendo atrás de , mas não havia muito que fazer naquele caso. Alguém precisava falar com sobre o mestre, e já que eu não queria falar com ele tão cedo, era a pessoa mais indicada. Se acabasse tendo que escutar a fúria da minha melhor amiga... Bônus.

Ok, então eu sou uma pessoa horrível. E daí?

As noites de patrulha noturna pela cidade, depois dessa história toda, ficaram estranhamente calmas. Agora que eu estava sozinha, parecia que menos vampiros vinham atrás de mim. Na verdade, eu só andava encontrando grupos com a metade do número dos que eu encontrava quando estava com . Era como se antes, com a exceção da primeira noite nos túneis, eles viessem agrupados de forma a serem o suficiente para nós dois. Três para cada, às vezes um pouco mais... Números que nós podíamos encarar em lutas equilibradas, já que ambos éramos mais fortes que vampiros regulares. Eu era uma híbrida e ele um vampiro-mestre, embora mais novo do que o que presumíamos ser o tal Mestre. Esse, segundo , era um ancião. Um vampiro-mestre realmente velho.
O estranho nisso tudo era que, agora que eu estava sozinha, os grupos deveriam ter aumentado. Eles deviam estar tentando me cercar, mas não... Pelo contrário, os grupos haviam diminuído de forma a manter o equilíbrio. Gilbert sugerira que talvez o tal Mestre estivesse me testando. O colar, agora isso... Talvez ele estivesse brincando comigo antes de seguir seu plano. Mas era difícil ter certeza quando não sabíamos sequer suas intenções com tudo isso. Pra que juntar um exército de vampiros? O que ele queria? Dominar Los Angeles? Não muito provável. Quem sabe o país, ou o mundo. Eu sinceramente esperava que não fosse isso. Dominar o mundo era tão Pinky e o Cérebro. Grandes vilões querendo conquistar o planeta era algo clichê demais, e na minha opinião, muito trabalhoso e sem sentido.

Quer dominar o mundo? Vai jogar War.

Sorrindo com a minha própria piada sem graça, eu finalmente cheguei à porta da sala de treinamento, abrindo-a e adentrando o aposento, me sentindo um pouco mais leve.

Apenas para sentir meu estômago embrulhar no segundo seguinte.

estava lá, virando um bastão habilmente nas mãos de forma distraída. Por um louco segundo, eu não entendi como ele havia chegado antes de mim. A resposta era óbvia, no entanto. Ele havia pegado outro caminho e seguido-o com sua velocidade de vampiro.
- O que você está fazendo aqui? – eu perguntei, me sentindo meio idiota. Primeiras palavras em uma semana. Era com aquilo que eu decidira quebrar o pacto de silêncio?
- Dançando a Macarena, não deu pra perceber? – ele disse, em tom sarcástico, porém largando o bastão e me encarando – É um raciocínio simples, . Essa é uma sala de treinamento. O que alguém viria fazer aqui?

Uhn, não sei. Tornar minha vida um inferno, talvez?

Bom, pelo menos dessa vez ele não tirara a droga da camisa.

- Essa é a minha sala de treinamento. – eu disse, cruzando os braços. Era como se a semana não tivesse acontecido. Voltar a discutir com era simplesmente fácil.
- Não, não é. – ele respondeu, com o sorriso convencido que ele sempre usava quando estava certo.

E ele estava certo.

Ok, teoricamente aquela sala não era minha. Mas havia duas salas de treinamento naquele prédio. Essa, no segundo andar, e uma no quarto, bem maior. Como eu sempre usava essa, o resto do povo daqui só usava a outra. As pessoas evitam me contrariar por motivos óbvios, e como todos sabem que eu dispenso a companhia de quem quer que não esteja no meu estreito círculo de amizades... Geralmente eu sou deixada em paz.

Menos por .

- Ok... – eu disse, me sentando no banco usado para exercícios de aeróbica – Fala.
- Falar o quê? – ele perguntou, inclinando a cabeça para o lado em um gesto de inocência quase convincente.
- Sei lá. – eu respondi – Só não me venha dizer que, depois de me ver no corredor com o que obviamente é uma roupa de ginástica – eu apontei pro meu conjunto de short de lycra azul e camiseta branca – e perceber em qual direção eu vinha, veio parar na minha sala de treinamento por acaso! Então desembucha. Se o que você quer dizer está dentro das regras que eu estabeleci na nossa última conversa, pode falar.
- Não tenho nada para falar, caçadora. – disse , voltando a brincar com o bastão de metal – Acho que ambos deixamos bem claras as nossas posições semana passada. Não tem mais nada para ser dito. Pelo menos não agora.
- Então você veio atrás de mim por quê? – eu perguntei, sem energia para realmente discutir. E um pouco de medo, também. Da última vez que havíamos berrado um com o outro, havia, inadvertidamente, confessado um segredo que eu preferia nunca ter ouvido. Só Deus sabe o que eu podia acabar descobrindo agora.
- Nenhuma razão em especial. – ele respondeu, sem me encarar, mas de forma leve, despreocupada.
- Ok, deixa eu ver se entendi. – eu comecei, respirando fundo – Você me ignora por uma semana, com exceção dos olhares insistentes, e de repente resolve forçar um encontro por... Nada?
- Em primeiro lugar, eu ignorei na mesma quantidade com que fui ignorado, e por exigência sua. – ele respondeu – Em segundo... Por que você sempre procura uma razão pra tudo? Por que as pessoas não podem fazer algo simplesmente por que querem?
- Por que tudo tem um motivo. – eu insisti.
- Nem tudo, . – ele disse, os olhos olhando bem dentro dos meus – Nem tudo.
- Me diz um exemplo, então. – eu desafiei, me forçando a sustentar a intensidade daquele olhar, mais próximo do que havia estado há semanas. Desviá-lo agora seria sinal de fraqueza.
- Uma garota que humilha um cara que a... – sob meu olhar ameaçador, revirou os olhos antes de continuar – Que diz a ela coisas que teoricamente são boas de se escutar.
Ótimo. Se ele tivesse repetido a palavra começada com “a”, eu teria fugido de novo. E ele ainda por cima quebrou o contato visual. Bônus.
- Oh, mas essa garota talvez tenha motivos. Talvez tenha um passado repleto de motivos. Motivos esses que o tal “cara” tão gentilmente ofereceu. – eu respondi, irritada.
- O engraçado é que você realmente é seletiva em relação as suas memórias. Você lembra perfeitamente bem de tudo de ruim que eu já te fiz, e me odeia por isso. Mas quando o assunto é o , você convenientemente esquece todas as merdas que ele fez e fica pelos cantos suspirando como uma donzela apaixonada.
- Eu já te proibi de falar nele. – eu disse, por entre os dentes.
- Ah, é? Notícia relâmpago, . Eu não obedeço a ordens. Nem suas, nem de ninguém. – em um milésimo de segundo, ele estava há poucos centímetros de mim, seu corpo quase tocando o meu – Então não pense que minha distância ou meu silêncio nos últimos dias tem algo haver com suas ordens. Se eu quiser ficar perto de você, eu vou ficar. E se eu quiser dizer a palavra que você tanto teme, acredite, eu vou dizer. Pode me ameaçar, me xingar, o que for. Eu não vou fazer nada que eu não queira.
- Achei que tivéssemos um acordo. – eu disse, dolorosamente consciente da proximidade dele. Nós não nos tocávamos, mas ainda assim era possível sentir o magnetismo.
- Você tinha um acordo. Eu só segui suas decisões porque era o melhor pra mim. Porque eu não me sentia capaz de ficar perto de você sem te atacar. Na maior parte das vezes, com intenção de te bater. Em outras... Bom, você sabe. – ele disse, desviando o olhar brevemente para meus lábios. Oh, eu sabia. Como sabia – Mas não importa. Eu posso acatar a sua vontade e me afastar. Posso não falar aquilo nunca mais, mas mesmo assim... Não se engane, . Você não pode fugir. Só porque não é mais proclamado, não significa que não seja verdade. O fato de estarmos longe um do outro não significa que não haja nada entre nós. , eu te...
- NÃO. DIGA. – eu interrompi, fechando os olhos e respirando fundo.
- Nós precisamos conversar. – ele disse, em voz baixa.
- Nós não temos que fazer nada! – eu exclamei – Porque NÃO EXISTE um “nós”. E não há NADA entre a gente!
- Você não pode negar que tem sim algo entre nós. – subitamente, a seriedade em seu rosto foi substituída por um sorriso leve, provocante.
- Nojo. Repulsa. – eu disse, irritada.
- Calor... Desejo. – ele corrigiu, mordendo o lábio inferior levemente enquanto inclinava a cabeça para o lado e me observava com aquele brilho irritante nos olhos.
- Pára. – eu praticamente implorei, fechando os olhos em seguida – Eu não acredito que você ainda não desistiu.
- Isso te surpreende, não é? – ele perguntou, e eu me vi forçada a abrir os olhos, o encarando de forma questionadora – O fato de eu não ter desistido. Você não está acostumada a homens que não desistem de você.

Eu não tinha uma boa resposta para aquilo.

Felizmente, eu não precisava de uma. No segundo seguinte havia se afastado de forma súbita, e um momento depois eu também fui capaz de ouvir os passos que provavelmente haviam sido responsáveis pela reação dele. Não que fosse necessário, é claro. O grupo que se aproximava nunca entraria aqui...

Oh. Eu estava errada.

- Ahn, oi! – disse o garoto que havia aberto a porta, meio nervoso, assim que reparou que não era o único ocupante do aposento – Desculpa, . É que... É que o disse que vinha treinar aqui e que estava tudo bem se nós viéssemos, e...
- Nós não queríamos incomodar. – disse um dos dois outros garotos.

Que ótimo. O povo daqui tem mais medo de mim do que do vampiro sanguinário.

- Essa sala não é propriedade minha. – eu disse, com a voz calma e no tom mais simpático que eu conseguia – Fiquem à vontade.
Os três – e Paris, eu finalmente notei -, pareceram chocados por cerca de um segundo, antes de assentirem e adentrarem a sala. Não que eu costumasse tratar as pessoas mal ou algo assim... Mas eu também geralmente não era simpática desse jeito. Nem eu entendi completamente o que estava acontecendo. Do nada eu resolvi ser legal com aquelas pessoas, talvez em parte por perceber que até um vampiro conseguia ser mais sociável que eu. Esse é o tipo de coisa que funciona como um tapa na cara.
Os garotos sorriram nervosamente para mim enquanto Paris – agora totalmente visível – simplesmente fingiu não me ver e foi direto para perto de .
- Então, vai me ensinar a lutar agora? – ela perguntou para o vampiro, em tom animado.

Só então eu percebi o conjunto rosa de Lycra mais camiseta. Era como encarar a Barbie Ginástica.

- Claro. – disse , sorrindo abertamente daquele jeito capaz de enfraquecer os joelhos de qualquer ser do sexo feminino. A garota pareceu meio zonza antes de acenar a cabeça lentamente e sorrir hipnotizada. Argh.
Paris obviamente não estava acostumada àquele tipo de tratamento por parte do vampiro. O idiota costumava jogar charme para qualquer criatura que usasse saia, mas nos últimos dias andava fazendo isso menos vezes. Culpa minha, eu imaginava. Então não precisava ser um gênio para entender que a sanguessuga estava tentando me afetar. Coitado. Como se aquilo fosse funcionar.
Não funcionava. Não, nem um pouco. Eu só estava controlando o impulso de voar no pescoço de Paris porque doía ver alguém socando um saco de areia tão mal. É sério.

Não, não é sério.

Uma parte de mim não gostava de ver com Paris. Eu podia não gostar dele, mas... Eu o queria. Queria e havia provado do que ele era capaz, de forma que, de algum jeito, eu desenvolvera esse sentimento de posse. Era um ciúme mais relacionado a egoísmo. Eu não queria que outra garota desfrutasse do prazer proibido que eu não podia.
E, céus, aquilo era ridículo. Paris era simplesmente péssima. Com uma certa satisfação, eu pude notar o esforço que fazia para não parecer obviamente frustrado. A garota era fresca demais até pra dar um soquinho. Mas o idiota insistia no charme, sorrindo e ajudando a megera só pra me irritar.
- ? – ouvir meu nome me despertou daqueles pensamentos desagradáveis. Era o garoto que havia aberto a porta. Eu o reconhecia e aos outros como sendo o novo grupo de caçadores de – Só queria agradecer. Pela sala. – ele acrescentou, sorrindo.
Aparentemente, minha simpatia dera coragem a ele. Eu não me lembrava de já ter trocado uma palavra que fosse com aquele garoto. Huh. estava certa, então. Ela sempre me dissera que, se eu fosse mais legal com as pessoas, elas parariam de ter medo de mim. Eu nunca me importei em seguir o conselho, porque, bom... Eu não estava nem aí pro fato de terem medo de mim. Era até bom, às vezes.
- De nada. Desculpa, seu nome é...?
- Aramis. E esses são Athos e Porthos.

Eu tive que rir.

- Você tá brincando, né? – eu perguntei. Athos, Porthos e Aramis? Era engraçado demais pra ser verdade.
- Não. – disse o garoto, envergonhado – Nós somos irmãos, e nossos pais adoram os três mosqueteiros. Por incrível que pareça, é sério.
O fato de três irmãos trabalharem aqui não me surpreendia. Eu tenho certeza que já mencionei o fato de que quem trabalha aqui geralmente é filho de antigos funcionários. Casos como esse eram comuns nesse lugar, mas mesmo assim...
- Desculpa. – eu disse, porque ainda não tinha parado de rir – É só que... Bom, foi inesperado.
- Não se preocupe, todo mundo ri. – disse Aramis, sorrindo – A gente já tá acostumado.
- Deixa eu ver se eu entendi... – eu disse, aos poucos parando de rir – Vocês tem os nomes dos três mosqueteiros e trabalham juntos caçando vampiros? Espera, deixa eu adivinhar. Você é o mais novo, o Athos é o mais velho e o Porthos é o do meio?
- Certo. Athos tem vinte e cinco, Porthos, vinte e três e eu, vinte e dois. Uma das feiticeiras daqui previu que minha mãe teria três filhos, então ela aproveitou pra ir nomeando cada um na ordem.
- Isso é demais! – eu disse, rindo de novo, porém parando em seguida – Espera... Isso faz dele o D’Artagnan? – eu perguntei, apontando pra .
- Acho que sim. – respondeu ele, dessa vez rindo comigo. olhava para nós confuso. Ele não estava acostumado a me ver conversando e rindo por aí.

Aquilo me deu uma idéia.

- Ei, escuta. – eu disse para Aramis (simplesmente pensar no nome ainda me fazia querer rir) – Já que o saco de areia está ocupado pela principiante ali, eu tô sem ter o que treinar. Posso me juntar a vocês?
Os olhos de Aramis se arregalaram, enquanto , do outro lado da sala, parecia prestes a engasgar. Hoje definitivamente era o dia da Sociável fazer uma inédita aparição.
- Claro! – disse o garoto – A gente só tá praticando alguns golpes com bastões e fazendo alguns exercícios, mas sinta-se livre pra se juntar a nós!
- Obrigada! – eu disse, lançando a ele um raro sorriso gigante. A-ha! Pelo visto não é o único capaz de deixar as pessoas tontas com sorrisos.
Eu segui até uma estante próxima e forjei um show de tentar alcançar a prateleira mais alta para tentar pegar um bastão com uma dificuldade inexistente, me certificando de esticar cada músculo do meu corpo no processo.
Duas coisas me deram certeza de que meus esforços haviam alcançado o objetivo desejado: a dramática pausa no som da respiração de Aramis, que estava mais próximo de mim, e o leve “Ai!” que exclamara ao ser acidentalmente acertado por Paris após parar de prestar atenção no que quer que eles estivessem praticando.

Eu não presto. Sei disso.

Então eu estava deliberadamente tentando seduzir e provocar ciúmes em . O cara que se declarara para mim e o qual eu insisti em tentar convencer de que não existiam chances comigo. O vampiro que eu humilhara e desprezara. Só uma garota com uma doença mental séria resolveria fazer joguinhos com alguém perante esses fatos. Se eu me empenhava tanto em fazê-lo me odiar, em fazê-lo desistir de mim, se eu me sentia tão ultrajada pelo sentimento que ele insistia em proclamar, então porque eu estava ali, querendo que ele me desejasse e se irritasse ao me ver com seus companheiros? Eu realmente não sei. Minha única certeza era que eu não queria com Paris. Eu queria ele de volta em minhas mãos, mesmo eu não tendo a menor intenção de corresponder aos anseios do vampiro. Em momentos assim eu via o quanto eu era egoísta. Céus, eu realmente não prestava. Como alguém no mundo era capaz de gostar de uma pessoa que nem eu? Bom, pelo menos eu não negava quem eu era para mim mesma. Todos, no fundo, tem pelo menos um defeito horrível que são incapazes de reconhecer ou aceitar. A humanidade é dominada pela hipocrisia, e o que mais se vê é gente fingindo ser um anjo de bondade quando não é totalmente assim, negando sentirem o que sentem. O fato de eu nem sequer tentar combater meu lado negro podia fazer de mim uma pessoa horrível, mas ao menos eu era alguém que conhecia inteiramente a si próprio.

Não, isso não justifica meus atos. Mas de qualquer forma, eu não estou aqui pra tentar impressionar ninguém.

Foi por isso que, tentando ao máximo parecer uma donzela indefesa, eu me voltei para Aramis:
- É alto demais... Você pode pegar pra mim?
Com todo o treinamento que eu tinha, um salto seria mais do que o suficiente para alcançar. Não que ele precisasse saber disso.
- Ahn... Claro! – disse ele, rapidamente se aproximando e esticando o braço para pegar o bastão.
- Obrigada. – eu disse em tom leve, forçando um sorriso grato quando o que eu realmente queria era sorrir divertida. Eu podia sentir o olhar de em mim, e isso me dava uma sensação de vitória.
Deixando o bastão de lado momentaneamente, eu levei as mãos aos meus cabelos, como se para ajeitar o rabo-de-cavalo. Eu tirei o prendedor, tendo o cuidado de balançar meus cabelos delicadamente, de forma que eles caíssem por meus ombros de forma rebelde. Umas duas semanas antes, eu me lembro de ter ouvido fazer uma piadinha sobre o modo como meu cabelo balançava. Na época eu pensava ser apenas implicância, mas com o que eu hoje em dia sabia, era fácil deduzir que na verdade ele gostava.
Aramis havia voltado para perto dos irmãos, enquanto me encarava pelas costas de Paris. Fingindo não perceber, eu deliberadamente deixei meu prendedor de cabelo cair. Lentamente, eu me inclinei para pegá-lo, até meu corpo se dobrar na cintura. Eu peguei o prendedor e “penteei” rapidamente os cabelos com os dedos, ainda naquela posição. Em seguida, agrupei os fios em um novo rabo-de-cavalo no alto da cabeça, enlaçando-o com o prendedor e voltando a endireitar o corpo, de forma que o rabo-de-cavalo voou para trás de meus ombros e passou a balançar levemente entre eles.
Eu fiz questão de encarar nos olhos por um momento antes de me juntar aos três mosqueteiros. Eu aprendera a prender o cabelo daquele jeito anos antes, de forma que eu tinha alguma prática. Sempre fizera por achar mais fácil, mas sempre tive consciência de que o procedimento poderia parecer meio erótico para um homem que assistisse, principalmente quando eu estava em minhas roupas de ginásticas. Eu novamente me senti uma vadia, e por um segundo tive vergonha de mim mesma. Encarar era uma admissão clara de minhas intenções. Mas é só o , era o que eu dizia a mim mesma. Quem se importava se ele me achasse uma vadia? Ou se ele se irritasse com o meu mais novo joguinho? Era só . Ninguém realmente importante.
Durante quase todo o meu treino com os meninos, eu me certifiquei de continuar meu plano perverso sempre que possível. Alongamentos propositalmente demorados, mexidas de cabelo, alguns gestos e posições inocentemente sensuais... Eu sabia que estava indo longe demais, mas era divertido. Mas quando eu digo quase todo o treino, eu estou falando sério. Já quase no fim, eu havia esquecido completamente do porquê tivera aquela idéia, para início de conversa. O fato é que, aos poucos, eu descobri que estava me divertindo, não só com o meu joguinho, mas com os três irmãos que eu conhecera. Eu me flagrei rindo, conversando, até ensinando um golpe ou outro. Acabei me distraindo de tal forma que nem percebi quando e Paris foram embora, e permaneci por mais uns vinte minutos com os garotos. Mesmo agora, ao seguir pelos corredores de volta para o meu quarto, eu não conseguia combater o sorriso no meu rosto. Pela primeira vez em séculos, eu me sentia leve.

Acho que, inadvertidamente, eu acabei fazendo amigos.

Os três garotos eram incríveis. Athos, o mais velho, era o mais calado, mas muito simpático. Era bonito, como os irmãos, e era o mais baixo de todos, mas mesmo assim era maior que eu. Ele mantinha os cabelos castanhos cumpridos em um rabo-de-cavalo preso na nuca. Athos tinha uma aura inteligente, responsável, mas quando sorria, seu rosto se iluminava e era difícil acreditar que ele já tinha vinte e cinco anos.
Porthos era o maior e mais forte. Seu tipo físico parecia ameaçador, mas bastavam algumas palavras trocadas com ele para que se percebesse o quão bobo ele realmente era. Eu não conseguia imaginar alguém que conseguisse conversar com ele sem rir de suas piadas. Ele e Athos, para mim, eram o ideal de irmãos mais velhos que eu nunca tivera.
Já Aramis... Eu gostava dos três, mas precisava admitir que Aramis era meu favorito. Ele simplesmente era tão... Garoto. A típica pessoa leve de se ter por perto. Conversar com ele era fácil, e considerá-lo um amigo era mais fácil ainda. Aramis era bem bonito, de uma forma que me lembrava um pouco o Ben Barnes, o príncipe Caspian de Nárnia, e o sorriso de menino, combinado com os olhos castanhos sinceros, tinham um efeito difícil de resistir. Eu duvidava que alguma mulher fosse capaz de receber aquele sorriso sem se sentir ao menos um pouco aquecida por dentro.

Se eu não estivesse tão absorta em pensamentos sobre os três, talvez eu não tivesse sido pega de surpresa.

Aconteceu muito rápido. Em um momento eu estava atravessando o corredor, passando pela frente de um armário de vassouras. No seguinte...

No seguinte uma mão fria tapava minha boca enquanto um braço forte me abraçava pela cintura e me puxava para dentro do armário.

Eu tentei gritar – juro que tentei. Claro que teria sido inútil, com a mão dele cobrindo minha boca, mas eu tentei querer gritar. A verdade é que eu não queria, e só o que eu emiti foi uma espécie de gemido fraco de protesto. Eu não conseguia encontrar em mim forças o suficiente para resistir, para me sentir ameaçada, já que eu sabia quem era meu captor. Só um toque era capaz de gerar impulsos elétricos descontrolados por meu corpo. Só o contato com uma pele me aquecia por dentro daquele jeito.

Claro que era .

Ele me jogou na parte de trás do armário descuidadamente, de forma que minhas costas bateram com força contra a parede, me fazendo soltar um gemido de dor enquanto ele voltava a fechar a porta do armário. Ele estava sobre mim no momento seguinte, suas mãos encontrando meus cabelos com facilidade e seu corpo tenso pressionado contra o meu. Ele provavelmente enxergava perfeitamente naquele breu – já eu, nem tanto.
Mas luz seria desnecessária. Eu não precisava dela para saber quem estava ali comigo.
- Me sol... – eu comecei a dizer, mas nunca cheguei a terminar meu protesto. A súbita invasão dos lábios raivosos de em minha boca sufocou qualquer exigência que eu pudesse fazer.
Meu corpo inteiro pareceu derreter em uma onda de calor. Céus, o beijo dele era melhor do que eu me lembrava. Muito melhor que a insistente fantasia que teimava em me assombrar a todo instante. Ele não me deu tempo para pensar, para reagir. No momento em que nossas bocas entraram em contato, seus lábios começaram aquela dança perigosa, sensual. Não havia palavra melhor para definir o beijo de . Lábios irracionalmente deliciosos. Ansiosos, porém saboreando cada segundo. Com muita força, mas não apressadamente. O ritmo não era o desesperado da primeira vez. Não, embora um pouco daquele desespero prevalecesse, dessa vez parecia estar tentando provar um ponto. Ele me beijava como se tentasse me marcar como sendo dele. E, oh Deus, eu era. Naquele momento eu era. era capaz de apagar cada pensamento que eu tinha quando me pegava desse jeito. Eu me sentia entorpecida... Só o que existia no meu mundo era ele.
Quando eu já pensava que iria desmaiar, ele partiu o beijo, encostando a testa na minha. Eu arfei, sentindo meu corpo tremer enquanto as mãos dele subiram por meus ombros até meu pescoço, e daí para meu rosto. Ele segurou gentilmente, porém com firmeza, minha cabeça de forma a me impedir de tentar movê-la. Como se eu tivesse controle o suficiente para mover um músculo naquele momento.
- Eu não sei quem você pensa que é... – começou ele, em um tom precariamente controlado. Dava para sentir a luta interna que ele parecia enfrentar contra a vontade de simplesmente quebrar meu pescoço naquele momento – Mas dá pra perceber que você se considera superior a qualquer um. Isso porque ninguém quis se dar ao trabalho de colocar você no seu devido lugar. Ninguém além de mim. – uma das mãos dele largou meu rosto e passou a descer pelo meu pescoço de forma devagar e provocante. O tom de voz caiu para não mais que um sussurro – É divertido, não é? Ficar se exibindo... Jogar na minha cara tudo o que eu não posso ter... Provocar ciúmes... – o toque dele continuou descendo, até chegar em meu seio, que ele cobriu com a mão de forma delicada. Delicada até demais; eu gemi de frustração, ansiando pelos toques apaixonados de uma semana atrás, toques esses com os quais ele deliberadamente me punia ao me privar – É tudo um jogo pra você, não é, ? Provocar e fugir; incentivar e humilhar até conseguir me enlouquecer. É isso que você quer... – a outra mão de se juntou à dança pelo meu corpo e desceu até minha cintura, me puxando mais para ele enquanto o polegar da primeira mão desenhava círculos em volta do meu mamilo. Eu grunhi, sentindo a já tão familiar onda de calor abaixo do meu umbigo – Você quer me enlouquecer. Quer que meu desejo não deixe espaço para lucidez em minha mente. Você pode não estar consciente disso, pode não entender, mas é isso que você quer. Sabe por que, ? – os lábios dele roçaram levemente contra os meus – Porque você. É. Uma criaturinha. Egoísta. – ele sugou meu lábio inferior sensualmente, me fazendo soltar um soluço lânguido. Eu estava perdida. realmente sabia como me render.
- Não... – eu tentei negar, sem convicção. Não estava convencida de que ele estava de todo errado. Na verdade, provavelmente estava certo.
- Não? – ele perguntou, com uma risadinha fria, inclinando o rosto até encostar o nariz em meu pescoço. Ele aspirou delicadamente; eu tremi inteira – Então você não estava expondo essas curvas deliciosamente provocante alguns minutos atrás de propósito? – a mão que estava na minha cintura desceu um pouco. Oh-oh – Você não... – a voz dele tremeu um pouco. Ele respirou fundo e desnecessariamente – Você não estava tentando me seduzir? Não estava brincando comigo só porque sabia que não existia nada no mundo que naquele momento eu quisesse mais do que te agarrar e te levar dali? Te jogar em algum canto qualquer e te devorar inteira até você esquecer seu próprio nome? – os lábios dele começaram a deslizar por meu pescoço, chupando e mordiscando, e de repente eu não tinha mais firmeza nenhuma nas pernas. Minhas mãos, esquecidas até aquele momento, agarraram as costas dele como se minha vida dependesse disso. Meu equilíbrio certamente dependia – Oh, ... Eu faria ser tão bom pra você... Eu te jogaria contra a parede e te pegaria como um animal... Com tanta força e com tanto desejo que você não conseguiria separar a dor do prazer e suplicaria pelas duas como uma viciada... Você necessitaria de sexo selvagem do mesmo jeito que eu necessito de sangue... – a boca dele continuava a subir a trilha em direção a minha orelha enquanto sua mão descia, acariciando minha virilha de leve e me fazendo segurar com mais força em seu corpo – Eu me sinto faminto, ... Faminto por você... Mas isso não te dá o direito de me tratar como um palhaço. – ele agora apenas sussurrava no meu ouvido enquanto sua mão descia mais. Ele passou a acariciar em círculos a parte de mim que mais implorava por ele. Eu gemi com luxúria óbvia enquanto encostava minha cabeça em seu ombro, simplesmente me deixando levar. Ele continuou a murmurar de forma esquentada em meu ouvido – Eu posso ter sentimentos por você, mas eu não gosto disso. Eu não gosto de você, , mas isso não me impede de sentir o que eu sinto. Não faz sentido nenhum, mas é a verdade, e eu me odeio por isso assim como odeio você. Então não brinque comigo, amor. – a voz dele agora estava claramente irritada – Eu não sou nem nenhum outro idiota que você conhece. Eu não sou o tipo de cara que deixa uma garotinha metida que nem você manipular e brincar com coisas sérias. Você está acostumada com imbecis, mas eu não sou um deles. Salve seus joguinhos para alguém simplório o suficiente para se deixar cair na sua. Você não me conhece, , então não brinque com fogo. Eu não apenas deixarei você se queimar como me certificarei de que você vai adorar cada segundo disso.

Antes que eu pudesse registrar totalmente o que ele dissera, ele foi embora.

Ainda com as pernas bambas, meu corpo deslizou pela parede até que eu me vi sentada no fundo daquele armário, a respiração ofegante e o corpo ainda fervendo. Eu não conseguia encontrar em mim energia necessária para ter raiva de pelo ataque – eu sabia que havia merecido. Mas eu me sentia sim um pouco irritada com ele no momento, e o motivo me apavorava. Eu tinha raiva de por ele ter ido embora. Cada milímetro do meu corpo implorava pela volta do dele, e eu me sentia uma idiota. Aquela dança perigosa com precisava acabar, mas era como se eu não conseguisse parar. Eu fizera um movimento arriscado ao provocá-lo no treino e ele revidara de forma duas vezes mais eficiente. Com uma sensação de desespero, eu percebi que não pararia por aí. Eu faria outro movimento, apesar de todos os avisos dele, e responderia simplesmente porque nós não conseguíamos parar. A dança precisava continuar e eu temia que ela só parasse quando já fosse tarde demais. Ou pior, que nunca parasse.
estava certo, eu não deveria brincar com fogo. Mas o que eu podia fazer se, sem o meu consentimento, a vontade de me queimar se espalhara por meu corpo como um veneno de efeito rápido? Eu podia me odiar por isso, mas eu queria o vampiro desgraçado tanto quanto ele queria a mim.

Depois de uma vida inteira congelada, eu experimentara o fogo pela primeira vez.

Xx

No geral, levou cerca de duas horas e meia para eu finalmente sair daquele armário, ir até meu quarto, tomar um banho frio excessivamente demorado e juntar coragem para descer até a área exclusiva da minha equipe. A tentação de esquecer o trabalho e me isolar no meu quarto fora grande, mas ir até meu QG não era de todo ruim. Afinal, era o lugar onde todas as poucas pessoas que se importavam comigo estavam reunidas. Eu havia desenvolvido uma sensação de segurança quando pensava naquela sala e nos pequenos laboratórios ligados a ela.
Quando eu abri a porta, porém, tive que franzir a testa. Gilbert, , , Tara e estavam lá, é claro. Mas se encontravam espalhados pela sala, largada no sofá, Tara sentada em uma poltrona, Gilbert em uma mesa no canto e os meninos no chão. O estranho em tudo isso era que à volta de todos estavam pilhas e mais pilhas de livros, textos e coisas que ao menos pareciam papéis – textos que com certeza haviam sido escritos décadas, provavelmente séculos antes. Cada um deles folheava um volume e todos pareciam prestes a se matar de tanto tédio. Bom, todos menos Gilbert. Meu pai postiço era o único realmente engajado no que quer que fosse aquilo.
- Cinco pessoas reunidas em uma sala lendo silenciosamente. Aposto que são contos eróticos. – eu brinquei, pra anunciar minha presença.
O olhar de encontrou o meu com um brilho desesperado, como se ela gritasse “corra, salve sua vida”. Mas eu avistara uma caixa da Dunkin’ Donuts no chão, próxima a , e só aquilo já era motivo o suficiente para ficar. Valia a pena encarar qualquer que fosse a sessão de tortura que Gilbert havia arranjado por uma rosquinha com cobertura de chocolate e granulado colorido.
- Na verdade, sinta-se livre para pegar um livro e começar a pesquisar. – disse Gilbert, sem tirar os olhos do texto.
- Sinta-se livre para afogar a cabeça no vaso sanitário também. É uma alternativa bem tentadora. – disse , erguendo o olhar cansado para mim, porém sorrindo. Eu e o nerd havíamos chegado a um entendimento sem precisar de palavras. Ele entendera o que eu fizera e, embora continuasse o mesmo bobo atrapalhado de sempre, eu podia perceber uma maior maturidade no jeito dele de encarar as coisas.
- Eu tenho que sair pra patrulhar a cidade daqui a pouco. – eu disse, me sentando ao lado de . Era verdade, mas mesmo se não fosse, eu me sentiria tentada a dar essa desculpa mesmo assim. Egoísta? Não, nesse caso era mais um ato de autopreservação. Não dá pra entender a gravidade da situação até olhar para aqueles volumes velhos, poeirentos e gigantes.
- Sair daqui e arriscar a vida lutando contra vampiros sanguinários cruéis ao invés de ficar nessa sala pesquisando. Algumas pessoas têm toda a sorte do mundo. – disse , suspirando.
- Pense pelo lado bom. Talvez algum desses livros esteja enfeitiçado, ganhe vida e esteja a fim de disputar uma batalha de vida ou morte contra você. – eu disse, esticando a mão para a caixa de donuts. Meu favorito com chocolate e granulados estava lá. Sabia que não se esqueceria de mim ao comprar.
- Pra você ter noção do nível que eu já cheguei, eu realmente estou achando isso uma boa idéia. – respondeu , balançando a cabeça.
- Mas o que vocês estão pesquisando? Algo relacionado ao Mestre? – eu perguntei, mordendo minha rosquinha e contendo um gemido. Era a melhor coisa que eu tivera na boca em séculos. Bom, sem contar a língua de . E eu não acabei de pensar isso!

Céus, eu odeio meu cérebro.

- Na verdade, o Mestre. – respondeu – Gilbert encontrou alguma coisa que contradizia a teoria dele para quem é esse vampiro e resolveu radicalizar. Esses são todos os livros e textos com mais de trezentos anos que a Organização tem. São diários de antigos caçadores, treinadores e pesquisadores conservados com magia ao longo dos anos. Nosso trabalho é procurar referências a vampiros e depois checar ali – ela apontou para uma pilha de cadernos modernos – para ver se esses vampiros foram mencionados nos últimos anos. O disse que o tal Mestre devia ter uns trezentos anos, né? Talvez mais?
- Provavelmente mais. – eu respondi, me lembrando das palavras dele – Mas, teoria? Gilbert, você tinha uma teoria de quem poderia ser esse Mestre? – eu perguntei, surpresa. Aquilo era novidade pra mim.
- Não exatamente. – disse ele, parando de ler e tirando os óculos para limpar; sinal claro de nervosismo – Eu encontrei alguns textos uns dias atrás que me chamaram a atenção, então eu pensei que poderia haver alguma possibilidade... Mas não, é impossível, eu deveria ter percebido. E eu encontrei algumas evidências que atestam isso.
- Quem você pensava que fosse? – eu perguntei, confusa.
- Ninguém que você conheça. – ele respondeu, um pouco rápido demais, voltando a ler em seguida. Gilbert só agia assim em duas situações: um, eu não entenderia ou ridicularizaria a teoria dele. Dois, eu me irritaria. De qualquer forma, não adiantava insistir. Eu o conhecia bem demais para me iludir pensando que persistência o faria mudar de idéia.
- Bom, algum progresso? – eu perguntei, para ninguém em particular.
- Não muito. – disse , frustrado. Nós temos uma lista de três vampiros que podem estar vivos e nenhum que com certeza está. Bom, pelo menos nenhum que seja suspeito. – continuou ele, mal-humorado e um tanto irônico. Eu sabia que ele estava se referindo a e Cora. devia ter uns trezentos e cinqüenta, eu não sabia ao certo. Cora estava quase na faixa dos trezentos, mas não era exatamente uma suspeita também. teria sido capaz de sentir a criadora dele por perto.
me passou a tal lista dos candidatos a novo vilão da cidade. Nenhum deles me era familiar.
- Não se preocupe. – disse Tara, pela primeira vez desde que eu chegara, ao notar meu desânimo.
- É, nós vamos encontrar o vampiro psicótico obcecado por você. – acrescentou .
- Vampiro psicótico ficando obcecado por mim... Com certeza isso anda acontecendo bastante. – eu disse, rindo sem humor – Eu devo ter uma placa na testa dizendo “infernize a e ganhe um dólar!”
inclinou a cabeça e me encarou, confusa.
- Esquece. – eu falei, fazendo um sinal com a mão como se dissesse “não é importante”. Tara abaixou a cabeça para esconder um sorriso e foi a minha vez de encarar alguém, porém com desconfiança. Será possível que ela sabia? Não, improvável. Se bem que eu vira ela conversando com uma vez ou outra na última semana...
- E o meu colar? – eu exclamei, de súbito, assustando um pouco a todos. Meus pensamentos estavam começando a voar para ; eu precisava de uma distração.
- Ainda estamos testando. – respondeu , meio sem graça.
- Ainda? Semana passada a Tara me disse que só levaria mais uns dias! – eu exclamei, contrariada. Eu queria meu colar. Não me pergunte porquê, mas eu queria.
- É... Mas aí eu pensei em outra possibilidade. – disse – Entenda, nós estávamos testando contra feitiços que podiam te matar, te adoecer, te jogar em outra dimensão... Mas aí eu pensei “e se for algo menos drástico?” E então nós começamos alguns experimentos com feitiços mais leves.
- O que vocês querem dizer com “menos drástico”? – eu perguntei, me voltando para Tara. Eu sabia que me contaria tudo detalhadamente, desde a invenção dos feitiços, para explicar, e eu não tinha tempo pra isso.
- Hm, menos drásticos, sabe? – disse a loira, envergonhada – Como para fazer seu cabelo ficar azul ou seus dentes caírem.

Eu a encarei em absoluto horror.

- MEUS DENTES CAÍREM? – eu berrei, assustada – Que espécie de mente doentia tentaria fazer isso comigo?!
Coraline ou Paris, com certeza. Talvez a tal Hope. Mas eu estava falando de gente equilibrada.
- Não sei, é só uma hipótese... – disse Tara, em voz baixa.
- Que espécie de mundo é esse? – eu continuei, como se não tivesse sido interrompida – É pedir demais que ele só tente me assassinar ou algo assim?
- . – disse Gilbert, naquele tom que me fazia ficar quieta imediatamente – Em primeiro lugar, a disse que é só uma hipótese. – ele começou, em tom paciente. Paciente até demais – Em segundo... Você não precisava ir caçar vampiros?
Oh. Entendi. Pelo visto eu estava desviando a atenção de todo mundo para a pesquisa e estava sendo expulsa. Bom, eu não queria ficar ali no meio daqueles montes de textos mesmo.
- Ok, tô indo. – eu resmunguei, levantando, dando as costas e seguindo para a porta com o queixo erguido. Muito madura, eu sei.
- Eu vou à cozinha pegar um pouco de água. – Tara anunciou, se levantando e correndo para me alcançar.
Nós começamos a subir a escada em silêncio, até que, por mais estranho que pareça, Tara começou a conversa.
- Então... Você, hm... Você anda falando com o ?
Falando, nem tanto. Dando uns amassos na criatura dentro de armários? Tenho a horrível sensação de que poderia virar um hábito.
- Não. – eu menti descaradamente – Por que falaria? Ele não é mais parte desse time.
- Eu ainda falo com ele. – disse Tara, de forma tímida, mas corajosa. Aquela criatura era irritantemente adorável.
- Eu sei, eu vejo vocês conversando de vez em quando. – eu disse, suspirando. Era hora do discurso – Tara, eu sei que o fato dele estar trabalhando por aqui anda causando essa falsa sensação de segurança em todo mundo, mas você tem que tomar cuidado. O pode parecer bonzinho, mas ele não é. Eu sei das coisas horríveis que ele é capaz, e o passado dele tem mais sangue que o banco de transfusão do hospital.
- Eu sei. – concordou Tara – Eu posso parecer ingênua, mas não sou tão boba. Eu sei que o é mau... Mas, acredite se quiser, eu vejo um pouco de bondade nele. Um potencial... E ele pode não ser bom, mas está aqui, certo? Está no caminho certo.
- Tara, ele não está aqui pra seguir o caminho da redenção. – eu disse, irritada – Ele está aqui porque... – eu controlei minha língua a tempo. Aquele era um fato que eu não queria que ninguém soubesse – Por outros motivos.
- Oh. – disse ela, de forma leve – Ele deve estar conseguindo, então.
- Conseguindo o quê? – eu perguntei, me voltando para ela.
- O que ele quer? – ela respondeu, fazendo uma cara de inocente dedurada apenas pelo brilho malicioso em seus olhos. Tara nunca parava de me surpreender – Ele deve estar conseguindo, porque, bom... Ele ainda está aqui, não está?

Eu parei de andar subitamente.

Ele ainda estava aqui. Eu o havia humilhado de todas as maneiras possíveis. Havia deixado claro como água que os “sentimentos” dele não eram correspondidos – que nunca seriam. E ainda assim ele continuara aqui. Lutando contra sua própria espécie, tomando sangue em pacotes... Por quê? Ok, ele havia provado hoje que não desistira de mim, mas mesmo assim. Era de se esperar que ele percebesse que o teatrinho de “vampiro caçador de vampiros” não ia funcionar comigo. Por que ele havia permanecido nesse lugar, sendo forçado a conviver comigo e ser lembrado todo dia da ferida que eu infringira e que provavelmente ainda doía? Não que ele tivesse sentimentos. Eu ainda me recusava a acreditar nisso, mas... Bom, devia doer mesmo assim.
Ele devia ter um novo plano. É, só podia ser isso. Tinha que ser isso.
- Ele deve ter alguma razão oculta pra continuar aqui. – eu disse, mais para mim mesma.
- Ou talvez ele goste daqui. – disse Tara, sorrindo de leve.
- Tara, é um vampiro. Ele gosta de conviver com vampiros e matar humanos, não o contrário. Não tenha esperanças que ele vá se redimir, é impossível.
- se redimiu, certo? – perguntou ela, os grandes olhos olhando no fundo dos meus. Aqueles olhos... Me lembravam tanto os de alguém, mas meu cérebro se recusava a fazer a conexão – E pelo que eu ouvi dizer, comparado ao que ele foi um dia, foi um monge esses anos todos.
- se redimiu de coração. Não veio até aqui por causa de... – mim, eu acrescentei mentalmente. Não, eu chegara na vida de depois da decisão dele. Com era ao contrário, e eu nem acreditava que ele realmente quisesse se redimir. Eu o conhecia bastante... Tinha certeza que ser um herói não era algo que passara por aquela cabeça oca.
- Bom, não importam os motivos. O fato é que, no fim das contas, está ajudando.
- E por isso você espera que eu vire amiguinha dele? – eu perguntei, confusa.
- Não. – disse Tara, e por um momento ela pareceu séculos mais madura que eu – Só o que eu quero dizer com tudo isso é que... Bom, pode ter um milhão de defeitos, mas não merece ser chutado se não der uma boa razão para isso. Se você não consegue suportá-lo, então só o ignore. Não é o ideal, mas... É melhor do que ser simplesmente cruel. Por favor, não o machuque mais.
Nós havíamos chegado ao corredor e, com um olhar quase suplicante, ela terminou de falar e simplesmente deu as costas, seguindo para a cozinha. Eu só a observei se afastar, sentindo meu queixo cair. Ela sabia. Bom, pelo que ela dissera, eu desconfiava que não em detalhes, mas ela havia percebido alguma coisa. Não que tivesse contado para ela, isso era improvável demais. Ele tinha um ego demasiado gigante para se expor dessa maneira. Se expor para mim já devia ter sido difícil. Mas uma vez dissera que Tara via auras. Devia ter sido isso. Ela conversava com , era próxima de mim... Devia ter reparado que algo estava... Estranho. E com certeza notara a rejeição em .
Ouvir Tara me fizera sentir um pouco de vergonha de mim mesma. Mas eu me recusava a analisar isso e, pelas próximas horas, tentei ao máximo não pensar no que Tara dissera.

Porém naquela noite, eu fui para cama com milhões de perguntas na cabeça.



Capítulo 11 - Dirty Pleasures


’s POV

Meu corpo estava quente.

Deitada em minha cama, eu me entregava àquele prazer proibido e deliciosamente perverso. Eu não tinha outra escolha. Os pensamentos nunca iam embora, atormentando minha mente noite e dia. Pensamentos sobre ele. Sobre seu cheiro, seu toque, sua voz baixa e rouca de prazer murmurando obscenidades em meu ouvido enquanto ele me levava à níveis de satisfação que eu não pensava serem possíveis. Eu já estava além do ponto de negar que pensava sobre isso. Eu
queria que isso acontecesse. Queria mais do que nossos torturantes e roubados momentos juntos. Momentos que não deveriam acontecer, porém insistiam em se repetir. Beijos na chuva, provocações, um armário de vassouras que adquiria a função de esconder duas criaturas a ponto de se entregar a uma atração proibida e perigosa... Esses momentos me faziam querer mais. Meus dias eram gastos na vã tentativa de tentar combater os pensamentos impróprios que me assaltavam nas horas mais inadequadas. Eu me sentia suja quando, estando entre meus amigos, só o que podia pensar era em ser possuída por um monstro. Uma criatura desprezível, mas que despertava em mim desejos impossíveis de se ignorar.
Era mais difícil à noite. Toda aquela tensão sexual não resolvida desenvolvera em mim aquela dor... Aquela necessidade não satisfeita que começara a doer, a corroer, a esquentar meu corpo de forma que eu temia entrar em combustão. Eu sabia que só o toque frio dele seria capaz de apagar aquele fogo torturante que se instaurara dentro de mim, mas durantes as longas e difíceis noites nas quais eu lutava contra a vontade de sair, de procurá-lo e simplesmente me entregar de uma vez, eu precisava me contentar com meu próprio toque insatisfatório. Mas enquanto eu me tocava, eram as mãos e lábios dele que atormentavam meus pensamentos. Aqueles olhos olhando nos meus cheios de malícia, me prometendo o infinito de prazeres com os quais eu sequer sonhava.
Eu chamei pelo nome dele naquele breve segundo de alívio, ao atingir o ponto que, em toda a minha insatisfatória experiência com sexo, eu só conseguira atingir sozinha. Eu sabia que, depois que os leves espasmos passassem, seria pior. A dor voltaria mais forte do que antes, como sempre, reclamando e demandando o contato com o único que realmente poderia saciá-la.
Eu despertei de meus pensamentos pessimistas ao sentir minha cama afundar um pouco. Chocada, eu encarei , lentamente engatinhando por minha cama até estar acima de mim, as pernas entre as minhas e os braços dos dois lados da minha cabeça.
- Co-como... Como você entrou aqui? – eu perguntei, minha voz tremendo. Esse quarto valia como minha casa na sede. Ele não podia entrar sem convite.
- Você chamou meu nome. – ele disse, em voz baixa, sorrindo aquele sorriso atraente e insuportável – Eu aceitei isso como um convite.
- Você estava assistindo? – eu perguntei, mortificada.
- Aham. – confirmou ele, arrastando a palavra de forma que, aos meus ouvidos, soou sensual – Menina má... – disse ele, descendo a mão para minha coxa e erguendo mais ainda a camisola já bem levantada – Se divertindo sem mim... Acho que devo puni-la.
Dizendo isso, seus lábios começaram a descer lenta e torturantemente por meu pescoço enquanto sua mão atrevida descia minha calcinha centímetro por centímetro, como se deliberadamente tentasse me enlouquecer.
- Pára... Eu vou gritar. – eu ameacei, soando vacilante até para meus próprios ouvidos.
- Oh, pequena, você vai gritar... – ele disse, sorrindo e abrindo os botões da minha camisola, enquanto sua outra mão sutilmente escorregava para o meio agora descoberto das minhas pernas – Te garanto que você vai gritar meu nome várias vezes... E de novo... E de novo... – a boca dele desceu pelo vão entre meus seios enquanto um de seus dedos vagarosamente penetrava em mim. Eu senti cada músculo do meu corpo ficar tenso, e por um momento não acreditei que o gemido necessitado que ressoou pelo quarto havia escapado de meus lábios.
- Pára... – eu pedi novamente, mesmo já movendo meus quadris contra a mão dele em puro rendimento – É errado...
- Eu sei. – disse ele, envolvendo um de meus mamilos com os lábios. Eu mordi os lábios para conter um gritinho de prazer – E é isso que faz ser tão bom... Porque você sabe que não deveria. – os movimentos de seu dedo se tornaram mais rápidos, mais intensos, e eu me sentia incapaz de formular um pensamento racional mesmo se minha vida dependesse disso – É bom, não é? Parar de lutar e se entregar à tentação proibida... Me deixar tocá-la mesmo sabendo o quão errado isso é... Mesmo sabendo o quão ruim eu sou... O quanto você me odeia... Te faz se sentir má, não faz? Deliciosamente pervertida... Você não passa de uma garotinha safada, não é, minha pequena?
- Isso não é real. – eu consegui dizer, finalmente entendendo que aquilo era um sonho.
- Não, não é. – ele respondeu – Mas por pouco tempo.

E então eu acordei.

Encarando o teto do meu quarto escuro, eu tentei em vão controlar minha respiração ofegante. Mais um sonho. Mais um sonho incrivelmente real.
Me xingando mentalmente, eu rolei na cama, tentando encontrar uma posição confortável. Não que fosse adiantar, é claro. A necessidade pulsante entre minhas pernas tornava ridícula a mera idéia de conforto.
Era tudo minha culpa, e eu merecia ficar deitada ali, excitada e frustrada. Aqueles sonhos só eram tão intensos e detalhados porque não eram apenas sonhos. Eram fantasias que eu criava durante o dia e que a noite relembrava enquanto dormia. Céus, eu era uma vadia. Já não bastava a primeira parte daquela fantasia em particular não ser apenas imaginação. Não, toda noite aquilo realmente acontecia... Eu tentava me satisfazer pensando naquele estúpido, implorando internamente pela presença dele naquela cama comigo. E tudo isso apenas me deixava mais frustrada, mais desesperada.
Nos últimos dois dias, desde o acontecimento no armário, as coisas, se possível, haviam piorado. Na inútil tentativa de me controlar, de esquecer, eu passara a me ocupar mais do que o normal. Passava a noite inteira na rua, caçando, e quando estava na sede, quase todos os meus momentos despertos eram ocupados por horas e horas com a cabeça metida entre livros. Gilbert finalmente conseguira me arrastar para as pesquisas, que pareciam nunca terminar. Não que estivéssemos fazendo muitos progressos. Já havíamos estudado quase metade daqueles volumes e nada de significativo aparecera até agora.
Mas me ocupar não ajudava muito. Os pensamentos, lembranças e fantasias me atacavam quando eu menos esperava. Era uma sorte eu não ter visto desde aquele dia. Tenho certeza que ele, ao contrário dos meus amigos, perceberia o estado deplorável no qual eu me encontrava.
Eu olhei para o relógio na minha mesa de cabeceira. Quatro da tarde. Eu havia virado a noite anterior na rua, caçando, descontando minhas frustrações, minha raiva e todos os meus problemas nos recém-criados que cruzavam meu caminho. Mesmo depois que o sol nasceu, ainda enrolei bastante até voltar para o meu quarto e dormir, simplesmente porque eu sabia o que me esperava quando eu fechasse aquela porta e me isolasse do mundo. Minha ânsia pelo vampiro me atingia com força total quanto eu não tinha mais nada para pensar. Se já era complicado quando eu estava ocupada, era o verdadeiro inferno quando eu me encontrava sozinha.
Um pouco contra a vontade, eu me levantei, pensando no que fazer. Tomar banho, comer, sair para caçar. Voltar para casa, comer, ir pesquisar com os outros, dormir. Nossa, minha vida era realmente excitante.
Não que eu já tivesse tido uma vida social em algum momento da minha existência. Na verdade, nem uma vida propriamente dita eu podia dizer que tinha. Eu vivia para trabalhar, e quando não estava caçando, estava treinando ou fazendo qualquer outra coisa ligada ao objetivo da minha existência. Claro, antigamente eu até escapava de vez em quando, saía com e ou sozinha, em minhas missões em busca de distração. Ok, de sexo mesmo. Uma garota tem necessidades, e devido às minhas condições especiais, tais necessidades eram ainda mais urgentes para mim. Não que os dois ou três humanos com quem eu havia ido para cama após minha fatídica noite com tivessem realmente dado conta do recado. Faltava a paixão, a força que eu necessitava e que no fundo sabia que só encontraria em um vampiro. Na verdade, um vampiro bem específico.
Era estranho que, nos breves e tórridos momentos que eu passara com eu tivesse me sentido mais satisfeita do que após fazer muito mais com algum outro que tenha vindo antes dele? Era, é claro. E aquilo me assustava.
Eu sentia como se as paredes estivessem se fechando a minha volta. Como se minhas possibilidades de escapar diminuíssem a cada segundo que passava. Escapar dele, eu quero dizer. Do que ele me fazia sentir... Era impossível parar a onda de acontecimentos que parecia nos aproximar cada vez mais um do outro, apesar de todos os meus esforços para o contrário. Estávamos seguindo em direção ao ponto que agora me parecia quase inevitável a uma velocidade tamanha que eu tinha certeza que não seria possível parar sem que a própria inércia nos mantivesse seguindo. Eu já havia nos deixado passar da linha do “longe demais” quando o deixara me beijar naquela tempestade. Era impossível negar, fingir que não existia nada quando a menor proximidade entre nós já despertava o imã que nos ligava. Ignorando totalmente os sentimentos de ódio e de autodenominado “amor”, uma coisa ainda restava e falava mais alto do que qualquer outra força entre nós: desejo. Nós queríamos um ao outro e cada vez se tornava mais difícil combater a irresistível atração de corpos.

É a segunda vez que eu uso um termo de física hoje. Vê-se logo que eu não tô bem.

O que eu não sabia naquele momento era que, em breve, eu ficaria pior.
Muito, muito pior.

Xx

’s POV


Talvez eu esteja enlouquecendo.

Seria o final patético para uma existência que, no fundo, sempre foi patética. Talvez realmente estivesse me enlouquecendo, como eu acusara duas noites atrás. Devia estar funcionando. Por qual outro motivo eu estaria aqui, agora, a seguindo pelas ruas de Los Angeles?
Eu havia cumprido bem o papel de macho com um pouco de dignidade restante na última vez que havíamos nos visto. A colocara contra a parede – literalmente. Dissera tudo que estava entalado em minha garganta, e me sentira bem, vitorioso – orgulhoso de meu próprio autocontrole ao deixá-la naquele armário, ofegante, trêmula e deliciosamente corada. E ainda assim aqui estava eu agora, seguindo-a pela cidade sem ter um bom motivo para isso. A parte mais doentia de mim ainda ansiava pela presença dela, mesmo que só o que eu obtivesse com a proximidade fossem pequenas – porém intensas – gratificações físicas ocasionais e o grande senso de vazio e dor quando ela ia embora ou deliberadamente tentava me machucar.
O mais triste em tudo isso era o fato de ela conseguir. Me machucar, quero dizer. A mim, . – o sanguinário, para alguns. O vampiro que, junto com Cora e , havia sido considerado o terror da Europa por anos. Apesar de ser um vampiro-mestre relativamente novo, eu construíra uma boa fama – terrível, dependendo do ponto de vista – ao longo dos anos. Não havia um pesquisador sobre o assunto que não conhecesse meu nome. Os poucos humanos que sabiam sobre a existência da minha espécie conheciam a minha história e me temiam. Não mais o povo de Los Angeles, é óbvio, mas esse não é o ponto. O que quero dizer é que, apesar de tudo isso, uma mestiça de vinte e um anos consegue me fazer me sentir um lixo. Um ser insignificante, uma criança se comparada a mim. É ridículo o poder que uma garota como ela é capaz de exercer sobre um vampiro como eu.
Mais ridículo ainda é o fato de que, mesmo após os infelizes acontecimentos na minha cripta, eu ainda não tinha deixado de amá-la. Não tinha lógica alguma, é óbvio, e essa era uma das razões que estavam me fazendo questionar minha sanidade. A garota havia sido desnecessariamente cruel. Era amarga, difícil, tinha uma personalidade complicada, negativamente imprevisível e era a contradição em pessoa. Ela havia conseguido ferir os sentimentos de um vampiro, e eu posso afirmar, isso não é coisa fácil de se fazer. Talvez mais fácil com os meus do que com os de outros.

Mas isso é porque eu sou um imbecil.

E ela, um monstro. E ainda tem coragem de dizer que eu sou o monstro. Eu posso ser cruel. Posso ter matado incontáveis inocentes e não ter o mínimo de arrependimento por isso, posso não ter o menor respeito pela vida humana, e posso não querer mudar isso. Meu plano nunca foi ser um herói, e eu não dou a mínima para as pessoas que eu ando salvando graças ao meu novo emprego de caça-vampiros. É tudo por ela, foi por ela desde o começo, mas isso não muda nada. Eu posso ser ruim, mas ela não merece os sentimentos nem de alguém como eu.
Não que isso mude alguma coisa. Amor é uma coisa estranha, eu ando descobrindo. Não importa o que aconteça, ele não vai embora, se é verdadeiro. Era um sentimento novo, que eu antes apenas achara que já sentira. Nunca havia sido assim, de forma que eu andava passando um bom tempo analisando tudo aquilo. Eu aprendi que amor era incondicional. Mais que isso, podia ser imprevisível, inesperado, incontrolável, insuportável e estranhamente fácil de ser confundido com repugnância. É capaz de fazer seu coração parecer pequeno demais para contê-lo, como se ele tentasse escapar de seu peito porque não pertence mais a você.1 Pertence à pessoa que você ama. Hoje eu consigo sentir e, de alguma forma, entender tudo isso.

E ainda assim ela dizia que eu era incapaz de amar.

Eu começava a achar que era ela quem era a verdadeira incapaz ali, e apenas não queria admitir. Minha base para pensar isso era o fato de que, mesmo sendo verdades tudo o que eu disse antes, eu nunca sentira o menor impulso de pisar nos sentimentos das pessoas. Matá-las, tudo bem. Infringir dor física? Também. Mas quebrar o coração de alguém nunca fora algo que realmente me atraiu.

Ha. Como se eu já tivesse tido algum coração para quebrar.

Eu sei, eu sei. Patético. “Ninguém me ama, ninguém me quer”. Entende o quanto isso é ridículo? É só me distrair um pouco e o poeta humano que eu um dia fui, romântico, inocente e há tanto tempo escondido dentro de mim, faz uma dessas aparições, se lamentando e romantizando tudo a minha volta. Eu jurei sufocar aquele lado da minha personalidade no dia em que morri. No dia em que Cora me tirou de uma existência simplória e me jogou em uma falsamente gloriosa. A convivência com ela e com me ajudou a endurecer quase totalmente – só me restou aquela parte, oculta, secreta, mas que bravamente sobrevivia. Sim, de alguma forma, o poeta continuava em meu peito, ansiando pelo amor que mulher nenhuma havia sentido por ele. Um monstro com coração vulnerável, era isso que eu era, afinal. Mas eu sempre fui relativamente bom em negar isso para os outros e para mim mesmo.
Ah, se a comunidade vampírica descobrisse sobre esse meu pequeno defeito... Eu era capaz de ouvir as risadas escandalosas. Mas eu não era aquele poeta sonhador. Não mais. Às vezes, era difícil me convencer disso, mas eu precisava lembrar de quem eu realmente era agora. Não havia mais espaço para sonhos na minha vida.

Dizem que vampiros não sonham. A verdade é que não deveríamos sonhar.

É quando os sonhos começam que todo o resto começa a ruir. Paredes cuidadosamente construídas para manter a culpa longe de nós. Toda a personalidade cruel e indiferente que é necessária quando se é um assassino natural. O endurecimento que se adquire com o passar das décadas, assistindo desespero e morte, sendo o desespero e a morte. Tudo isso acaba quando nos permitimos sonhar, ter esperança. Esperança de sermos mais do que somos, mais do que monstros assassinos. havia se deixado levar por essa noção e aonde isso o levou? Tornou-o um ridículo caçador da própria espécie.

Assim como eu. Mas pelo menos eu tinha motivos egoístas para isso.

Eu não tinha com o que me preocupar, na verdade. Não era como se eu tivesse motivos para sonhar. Eu nunca seria mais do que um desejo proibido para , tinha consciência disso. Esperar por mais seria patético e ingênuo da minha parte. Eu, e uma cripta para dois? Com uma cerquinha branca em volta e amigos vindo visitar nos fins de semana?

Simplesmente não aconteceria.

Eu me forcei a espantar os pensamentos imbecis quando subitamente parou, de frente para uma grade que tornava uma ruazinha deserta sem saída. Parecendo calma, ela se pôs a girar a estaca que carregava nas mãos como se isso fosse a coisa mais normal do mundo.
- Estou começando a achar que você é física, mental e geneticamente incapaz de me deixar em paz. – disse ela. Oh, finalmente havia percebido minha presença. Eu me pergunto que pensamentos a haviam ocupado por tanto tempo de forma a permitir que minha proximidade passasse despercebida.
- Você já parou para pensar que talvez seja você que viva se metendo no meio do meu caminho? – eu rebati, sabendo que, de todos os argumentos que eu poderia ter usado, aquele era um bem fraco. Já não precisando mais me esconder, desencostei da parede da esquina na qual eu me ocultava e me pus a subir a rua, parando em frente a .
- Oh, sim. Vamos fingir por um momento que você não é meu perseguidor oficial. – respondeu ela, revirando os olhos.
- Achei que esse fosse o título do Mestre. – eu disse, em tom neutro. Era incrível como tudo que sempre acabávamos fazendo era discutir. Em pensar que da última vez que eu vira aquela garota ela estava ofegando por mim dentro de um armário.
- Não, ele ainda não partiu para a perseguição. Recadinhos estranhos e capangas idiotas para lutar contra mim, fora isso... Nada. Oh, e presentinhos, claro. Não posso esquecer o colar.
- Por falar em colar, as bruxas já te devolveram? – eu perguntei, simplesmente para manter o tom da conversa calmo.
- Estão fazendo alguns últimos testes. – ela respondeu. Visivelmente evitava me encarar, e sua voz estava apenas um pouquinho fria, mas ainda assim, era o mais próximo de uma conversa normal que eu sabia que nós teríamos.
- Se não apareceu nada até agora, não vai mais aparecer. Se eu fosse você, exigia o colar de volta.
- Não! Eu não quero perder meus dentes! – ela me encarou, com os olhos arregalados em puro pavor.

Ok... O quê?

- Por que você perderia seus dentes? – eu perguntei, com calma. É preciso ser paciente com gente com deficiência mental.
- É uma longa história. – ela respondeu, depois de uma breve pausa. Parecendo voltar a si, continuou – E o que você está fazendo aqui, afinal? Cadê a sua equipe?
- Eles me atrasam. – eu respondi, com sinceridade. Mesmo antes de sair da sede a seguindo, eu já havia decidido ficar sem minha “equipe” naquela noite. Por mais esforçados que os três fossem, não eram capazes de me acompanhar. Eram apenas humanos, afinal.
- Eles são ótimos. – defendeu . Oh, claro, havia me esquecido. Agora eles eram amiguinhos.
- Eles são humanos. – eu retruquei.
- Pobre D’Artagnan, se sente bom demais para os três mosqueteiros. – ela disse, rindo.
- Ha... Ha... Ha... – eu disse, em tom monótono – Sempre soube que seu talento secreto era ser comediante, .
- Eu tenho vários talentos secretos. – ela rebateu, se calando e arregalando os olhos imediatamente após. Eu engoli em seco. Ok, por que aquilo soara tão erótico para meus ouvidos?

Oh, claro. Eu sabia o porquê.

- Você devia ir embora. – disse , dando as costas para mim de súbito. Sim, pelo visto as memórias de nossos últimos encontros não haviam aparecido como flashes rápidos e intensos apenas para mim.
- Minha presença te incomoda? – eu perguntei.
- Sim. – ela respondeu, em tom sincero.
- Por quê? – eu perguntei. Oh, eu simplesmente não sei quando parar. Chega a parecer que eu quero ser machucado.
- Você sabe porquê. – ela respondeu, contrariada – Será que não dá pra deixar tudo isso menos desconfortável para nós dois e simplesmente voltar ao voto de silêncio? As coisas estavam ótimas nessa última semana!
- As coisas estavam horríveis e tensas. – eu disse. Sempre sobrava para mim a tarefa de verbalizar a verdade difícil – Pelo menos agora nós podemos berrar e ferir um ao outro, e não apenas imaginar isso.
- Você não cansa não? – ela perguntou, parecendo exausta – Eu não acho que posso ser mais clara do que eu já fui. Eu quero você longe de mim.
- Você não foi tão clara assim. Na verdade, esses sinais misturados estão me enlouquecendo. Sua boca diz uma coisa, seu corpo diz outra. Você me humilha, você me provoca... Fica difícil te entender.
- Por favor, não me diga que você vai voltar ao discurso do armário. Uma vez foi ruim o suficiente. – ela disse, suspirando.
- Oh. Estamos fazendo progressos. Ao menos você parece ter lembrado que algo aconteceu naquele armário. Resolveu parar de fugir do fato de que temos coisas a discutir? – eu me aproximei dela, diminuindo nossa distância para dois passos, e pareceu se chutar mentalmente. Eu tentei não rir e abaixei o tom de voz – E pelo que eu me lembre... Você não achou ruim...
- Mais um passo e você vai conhecer a ponta afiada dessa estaca. – ela disse, meio nervosa.

Eu dei mais dois passos. Ela não se moveu.

Infelizmente, alguma coisa no começo da rua abandonada fez exatamente o contrário.
A “coisa” se revelou como sendo um pequeno grupo de vampiros – não mais que quatro – começando a subir a ruazinha. Como se combinados, eu e corremos para o primeiro esconderijo óbvio. Era uma espécie de ruela adjacente, porém não muito larga e com cerca de sete metros de distância. Eu a empurrei contra o muro que encerrava o beco de qualquer jeito e me coloquei sobre ela, por mais incrível que pareça, com boas intenções. Meu cheiro ocultaria o dela e a rua era escura demais para que ficássemos óbvios a não ser que algum deles voltasse a visão apurada para nossa direção. Se o grupo que subia a rua não estivesse atento e procurando por uma presença estranha, também não sentiriam a minha proximidade.
surpreendentemente não tentou argumentar, nem me contrariar de qualquer forma. Apenas ficou parada, visivelmente tentando não fazer barulho e apurar os ouvidos. Ela entendera o que eu fizera. Nós estávamos começando a ficar realmente bons nisso antes da noite da tempestade, na verdade. Em entender os planos um do outro, eu quero dizer. Por mais que gostasse de pensar o contrário, nós éramos uma excelente dupla. Nunca em mais de cem anos de existência eu havia encontrado alguém que pensasse como eu em situações de luta ou risco, que compreendesse minhas intenções e ajudasse sem que nem um olhar fosse necessário, como agora ou segundos antes, quando resolvemos que ao invés de lutar – e ganhar, como provavelmente conseguiríamos – havíamos nos escondido. O grupo que se aproximava havia parecido organizado demais, quieto demais, calmo demais. Aqueles vampiros não estavam caçando ou nos procurando. Eles queriam alguma outra coisa, e pura intuição me havia instruído a ficar quieto e me esconder para descobrir. De alguma forma, eu tinha a sensação de que seria importante. , aparentemente, também.
- Mason, as chaves. – disse uma voz autoritária, aparentemente no comando.
ficou subitamente tensa. Quando eu a empurrei, ela havia parado de frente para a parede. Mas eu não precisava ser capaz de ver seu rosto para saber o que devia estar se passando pela cabeça dela.
- Não é ele. – eu murmurei em seu ouvido. Não, não era o Mestre. Eu não sentia a presença de nenhum vampiro-mestre por perto.
- Não estão comigo. – respondeu o vampiro, que só podia ser o tal Mason.
- Apenas arrombe essa droga. – disse outra voz, beirando a irritação.
- O Mestre não ficará satisfeito. – disse o que parecia ser o chefe.
- Achei que o ponto fosse o Mestre não querer mais essa casa. – rebateu o Mr. Irritado – Por qual outro motivo estaríamos bancando o caminhão de mudança?
- Drigger, apenas fique quieto e cumpra as ordens de seus senhores. – o tal Mason voltou a dizer. Eu supunha que ele e o líder do pequeno grupo fossem os mais velhos.
- É isso que dá aceitar a ajuda de recém-criados nessa missão. – disse uma quarta voz, aparentando tédio.
- Eu quero matar alguma coisa! – disse Drigger, lamuriando-se – Vamos lá, nós somos vampiros! Para que servem todos esses poderes se só o que fazemos é seguir ordens e esperar? Quando poderemos partir para a ação de verdade? – eu sorri de leve. Aquele garoto me lembrava a mim mesmo em meus primeiros anos como vampiro. O deslumbre com a própria força, a ansiedade de testar minhas capacidades até o limite... E pelo som da voz dele, o garoto havia sido transformado jovem, provavelmente adolescente.

Ah, a juventude.

- Quer saber? Hoje! – disse a quarta e entediada voz, porém agora não mais tão entediada quanto irritada – Vamos juntar todos e atacar aquele prédio agora mesmo! Quem se importa se nossos poucos números e falta de preparação vão acabar com qualquer chance que temos de vencer? Drigger quer lutar, então vamos todos seguir para uma missão suicida! – exclamou o vampiro, o sarcasmo pingando da voz.
- Hector, controle-se. – disse o chefe, parecendo cansado – E Drigger, apenas cale-se. Não deixarei que a imaturidade de vocês acabe com os planos do meu Mestre. O que Hector diz é verdade. Não estamos prontos. eliminou quase dois terços do nosso exército há três meses atrás, nos túneis, e vêm continuando a nos dizimar noite após noite.
- Eu não entendo por que não simplesmente nos escondemos até estarmos fortes e numerosos o suficiente. Por que o Mestre continua a mandar alguns de nós atrás da caçadora noite após noite? – perguntou Hector.
- O Mestre tem seus planos. – disse o vampiro no comando – Seus planos e seus segredos, nenhum dos quais estou autorizado a revelar. Continuem a provar fidelidade e talvez um dia ele também os inclua em seu círculo de confiança. Até lá, apenas obedeçam. Já temos problemas demais nos organizando sem precisarmos contar com a infantilidade de vocês.
- Vocês exageram demais. – resmungou Drigger – Eles não podem ser tão fortes assim. Não vejo necessidade de tanta preparação, são humanos. E daí se estão armados e treinados? São só humanos. Podemos vencer facilmente em um ataque. Podemos derrubá-la sem toda essa preparação. É só um prédio!
- Aí é que você se engana, Drigger. – disse Mason – Não é tão fácil derrubá-la porque ela não é apenas um prédio. É uma grande e experiente equipe, e nós não chegamos tão longe apenas para estragar tudo agindo impulsivamente. Não estamos falando de derrubar um castelo de areia, Drigger. – o vampiro suspirou antes de continuar – Estamos falando de derrubar a Organização.

Xx

’s POV


Podia ser pior, certo?

Certo. Com certeza. Afinal, eles podiam estar tentando destruir o mundo.

Então por que subitamente aquela sensação de horror se espalhou por cada célula do meu corpo?

Talvez porque a Organização fosse tudo o que eu tinha no mundo, e todas as pessoas que eu amava, com exceção de , faziam parte dela. Com um senso ainda maior de pavor, eu percebi que, depois de nós, o tal Mestre com certeza iria atrás do grupo de caça-vampiro de também.
Eu não conseguia entender como não percebera aquilo até hoje. Claro que acabar conosco era o grande objetivo. Nós éramos a única grande ameaça para a raça deles. Sem a Organização, os caçadores autônomos não seriam o suficiente para impedir os vampiros. Seria como eliminar todos os gatos da face da terra; os ratos – ou morcegos, no caso – se multiplicariam e seria impossível combatê-los. O equilíbrio seria destruído.
- Caçadora? – chamou, me assustando. Por um momento eu havia esquecido completamente onde estava, e com quem estava.
- Huh? – eu perguntei, de forma incrivelmente eloquente, virando minha cabeça para trás e dando de cara com olhos muito mais próximos do que era totalmente seguro para mim.
Eu prendi a respiração. Há segundos – ou minutos, eu havia perdido a noção do tempo em meu breve momento de pânico – atrás, eu havia estado totalmente inconsciente da posição na qual nós estávamos. Minha concentração havia estado toda na conversa dos vampiros, de forma que não tive tempo de me preocupar muito com o resto. , eu presumia, também.
Agora, porém, a coisa ficara mais óbvia. Em uma onda de constrangimento, eu percebi que tinha a parte da frente de meu corpo grudada contra o muro, e um vampiro irritantemente tentador grudado às minhas costas, praticamente me “encoxando”. Para piorar uma situação já ruim, os olhos dele haviam escurecido levemente e olhavam nos meus daquela forma ridiculamente intensa que fazia minhas pernas fraquejarem.
- Ahn... – ele começou a dizer, engolindo em seco – Eles entraram. Pela proximidade só pode ser aquela casa abandonada há uns metros daqui. Só precisamos esperar eles saírem e... E a gente, ahn, entra. Talvez tenha algo interessante lá.

Tem algo interessante bem aqui, eu pensei, me xingando em seguida. Cérebro mau. Cérebro muito, muito mau.

Assentindo com a cabeça, eu me virei devagar. não fez a menor menção de se afastar para me ajudar, de forma que meu corpo esfregou no dele durante todo o movimento, até eu estar cara a cara com ele, ainda espremida contra a parede.
Assim é melhor, eu pensei. Pelo menos assim eu posso vê-lo e evitar que ele tente alguma coisa.

E assim ele poderia me beijar mais facilmente.

Argh! O que há de errado comigo? Eu queria. Há essas horas já poderia tê-lo empurrado e saído correndo, mas lá estava eu, quieta, esperando. Esperando. Porque essa simplesmente era a conclusão óbvia para a situação. Um beijo era o que sempre seguia esse olhar quente que ele me dava.
Se eu estivesse mais atenta e menos, ahn, nervosa, teria reparado no leve brilho divertido nos olhos dele segundos antes de inclinar a cabeça levemente em direção a minha. Como em um reflexo, eu fechei os olhos, prendi a respiração, já antecipando o turbilhão de deliciosas sensações e esperei.

E esperei. E esperei.

Uma risada baixa e provocante me fez abrir os olhos novamente. Lá estava , a poucos centímetros de mim, a cabeça levemente inclinada para o lado e os olhos brilhando de maldade, combinando com o sorrisinho cruel e divertido nos lábios dele.
- O que foi? – eu praticamente cuspi a pergunta, sentindo minhas bochechas corarem de raiva e vergonha. Ele estava brincando comigo e eu, como uma idiota, havia reagido exatamente como ele esperara.
- Nada, . – disse ele, se inclinando em minha direção novamente. Eu prendi novamente a respiração, um pouco assustada, e ele riu novamente, fechando os olhos e balançando a cabeça. Aproximando a boca do meu ouvido, ele sussurrou – Eu não vou beijar você.

O quê?

- Ótimo! – eu disse, tentando ao máximo ocultar minha surpresa, minha confusão e, odeio admitir, minha decepção também.
- Você não entendeu. – disse ele, se afastando um pouco de forma a poder olhar novamente no meu rosto – Eu nunca mais vou te beijar. Pelo menos não até você tomar a iniciativa.
- O quê? – eu perguntei, perplexa. Por essa eu não estava esperando.
- Você ouviu, pequena. – disse ele, sorrindo sacana e colocando uma mexa do meu cabelo atrás da orelha – Eu cansei de deixar as coisas mais fáceis pra você. É confortável, não é? Você espera eu chegar ao meu limite e te agarrar... Assim você tem uma desculpa aceitável para fazer o que quer. “O vampiro mau está me forçando”. – ele continuou, revirando os olhos – Você aproveita o momento tanto quanto eu. Sonha com isso, assim como eu. Mas sabe que é só esperar e eu tomarei a iniciativa por você, levarei toda culpa de forma que a Miss possa fugir depois, virtude brilhando e orgulho intacto. Eu cansei disso, . Então até que você me beije, que você admita que quer... Eu vou me comportar. – ele concluiu, com o sorriso insuportável firmemente no lugar.
- Pode esperar sentado. – foi só o que eu consegui dizer.
- Oh, você não vai resistir tempo o suficiente para que eu possa me sentar confortavelmente. – ele provocou, rindo daquela forma que me fazia querer calar a boca dele.

Com meus lábios.

- Não se superestime tanto, . – eu respondi, da forma mais doce que consegui – Se não te beijar é tudo o que eu preciso fazer para acabar com esse show de horrores entre a gente, não poderia ser mais fácil.
- Eu aposto que você não resiste nem mesmo essa noite. – disse ele, levantando uma sobrancelha.
Oh, um desafio. Se eu tenho uma fraqueza, é a total incapacidade de resistir a um desafio.
- Eu aposto que você não resiste a essa noite. – eu retruquei.
- Vamos esperar para ver. – disse ele, sorrindo confiante.
Ha. Valeria a pena tentar fazê-lo me beijar mesmo se apenas para apagar aquele sorrisinho maldito.
Eu ainda pensava no que dizer em seguida quando o som de passos desviou ambas as nossas atenções. Os vampiros estavam indo embora. Finalmente.
Por um momento eu considerei a hipótese de, ao invés de esperar que os passos sumissem no silêncio da noite, segui-los e descobrir para onde eles iam. Mas logo mudei de idéia. Uma coisa era nos escondermos nas sombras e rezar para que nenhum deles percebesse nossa presença. Outra muito diferente era segui-los. Não existia um só vampiro que não fosse capaz de determinar facilmente quando estava sendo perseguido.
O som dos passos aos poucos foi sumindo. Quando já não era possível ouvi-los, eu empurrei , fazendo com que o vampiro distraído caísse no chão.
- Oh, desculpa. Te machuquei? – eu perguntei, me inclinando um pouco e estendendo uma mão para ele, firmando um sorriso inocente nos lábios enquanto jogava meu cabelo para sobre um dos ombros, deliberadamente expondo meu decote.
- Baixo, . – disse , engolindo em seco e tentando tirar os olhos dos meus seios – Golpe muito baixo.
- Não sei do que você está falando. – eu disse, enquanto ele aceitava a minha ajuda e eu o puxava para cima, deixando que nossos corpos se esbarrassem enquanto ele se levantava – Ops.
- Você está tão desesperada assim para que eu te beije? – ele perguntou, rindo.
- Não fique lisonjeado. Só estou desesperada para calar de uma vez por todas essa sua boca gigante.
- Eu tinha certeza que você se lembraria bem das dimensões da minha boca. – ele comentou, em tom falsamente distraído.
- E você não se lembra das da minha? – eu perguntei, sorrindo e “distraidamente” deixando que a ponta da minha língua umedecesse meus lábios, mordendo o inferior inocentemente em seguida.
- Desista. – disse ele, os olhos se demorando no meu gesto um pouco a mais do que o necessário.
Ok, do jeito que estava eu não conseguiria nada. Melhor esperar e pegá-lo desprevenido depois.
- Quer saber? Vamos entrar de uma vez. – eu disse, de repente, o surpreendendo um pouco ao passar por ele e seguir para fora do beco, parando em frente à única casa abandonada com a porta arrombada da rua – Você consegue sentir alguém aí dentro? – eu perguntei para o vampiro que imediatamente me seguira.
- Não, está vazia. Mas você não vai ligar para Miles antes de entrar? Avisar, ou sei lá. – ele perguntou.
- Não. – eu disse, simplesmente. Ele apenas me encarou, surpreso, e eu revirei os olhos – Se eu deixo ele saber, Miles vai querer se preparar. Vai dizer que é perigoso nós simplesmente entrarmos assim. Vai mandar que façam testes, que analisem tudo antes, assim como fizeram com o colar. E nós não temos tempo para isso, você ouviu aqueles vampiros. Um deles mencionou mudança... Acho que o Mestre estava morando nessa casa abandonada. Se demorarmos muito, tudo de interessante que ainda possa estar aí dentro pode ser levado. Entende? Se ligarmos para Miles, isso passa a ser assunto da Organização, e lá dentro são as regras dele que valem. Aqui fora, são as minhas.
Ele me olhou por um longo momento antes de balançar a cabeça e rir, incrédulo.
- Sabe, você é mais esperta do que eu te dou crédito por ser. – disse ele, e eu estranhamente me vi forçada a desviar o olhar, envergonhada. Acho que esse era o primeiro elogio que ele dirigia a mim sem duplos sentidos ou segundas intenções.
- Que seja. – eu murmurei, e o sorriso dele se alargou – O que foi?
- Você fica bonitinha envergonhada. – disse ele, parecendo sincero – E você acanhada não é uma coisa que eu vejo com frequência.

Aquilo foi o suficiente para acabar com meu momento tímido.

- Isso é porque nada que você diga... – eu comecei, me aproximando dele devagar, com o sorriso mais provocante de que eu era capaz firme nos lábios – Ou faça... – eu parei bem em frente a ele – Costuma me deixar com vergonha.
- Isso é uma grande mentira e você sabe disso. – disse ele, acariciando meu rosto com as costas da mão.
- Ah é? Prova então. – eu disse, lentamente colocando minhas mãos nos ombros dele – Eu sei que eu sei de coisas que poderiam fazer até você corar. – eu conclui, ficando na ponta dos pés, e murmurando no ouvido dele.
- Vampiros não coram. – disse ele, apertando levemente a minha cintura. Eu podia sentir a evidência de seu corpo reagindo à proximidade do meu lentamente cutucando minha barriga.
- Oh, eu faria você corar. – eu disse, adorando a momentânea inversão dos nossos papéis tradicionais. Olhando nos olhos dele, eu preparei minha voz mais sexy antes de continuar, sorrindo – Eu faria você corar... Gritar... Voar.
Por um momento, a única reação de foi me encarar com os olhos levemente nublados e a boca entreaberta. Porém no segundo seguinte as nuvens de desejo deram lugar a um brilho divertido e seus lábios se curvaram em um sorriso enquanto ele se inclinava em minha direção. Dessa vez eu não fechei os olhos, nem reagi de qualquer forma. Apenas encarei aqueles poços profundos lentamente se aproximando dos meus.
- Eu não vou beijar você. – ele murmurou, sorrindo, os lábios quase contra os meus.
- Ah não? – eu perguntei, descendo uma mão lentamente pelo peito dele até chegar a barra de sua calça. Surpreendendo a ele e até a mim mesma, eu deixei que meus dedos roçassem com um pouco de força em sua ereção evidente por cima da calça. Os olhos de se arregalaram pouco antes de se fecharem, acrescentando uma expressão de quase dor ao gemido torturado que ele soltou em seguida – Veremos. – eu disse, logo antes de dar as costas e adentrar a casa abandonada, agradecendo pela porta ter sido arrombada pelos vampiros minutos antes.
Ao entrar no lugar, a primeira coisa na qual eu pensei era que eu devia cumprimentos a pelo bom gosto. A cripta dele era um palácio na frente daquela casa. Visivelmente nenhum vampiro havia se dado ao trabalho de limpar os quilos de poeira acumulados. Havia um pouco de mobília velha e gasta, lixo por toda a parte e manchas vermelhas que eu sabia serem sangue. Não pude evitar tremer ao pensar no que já poderia ter acontecido naquele aposento. Atravessando o que provavelmente era a sala, cheguei a um quarto nas mesma horríveis condições. Com uma certa satisfação, escutei finalmente adentrar a casa e seguir até onde eu estava. Ele havia precisado de alguns segundos para se acalmar, e isso era ótimo.
Ele parou na porta do quarto no qual eu estava, me encarando como se me desafiasse a dizer alguma coisa. Eu abri o sorriso mais feliz que conseguia.
- Não fique parado aí. – eu disse, como se nada tivesse acontecido – Procure por alguma coisa. Algo que ajude a desvendar esse quebra cabeças. – eu disse, me voltando para um móvel com gavetas no canto do quarto. grunhiu de raiva, mas foi até uma escrivaninha e começou a revirar papéis.
Nenhum de nós falou mais nada pelos próximos poucos minutos. Não que a procura estivesse sendo útil – só o que havia por ali eram objetos e documentos que pareciam pertencer ao antigo dono humano da casa. Eu não queria imaginar que fim o coitado havia levado.
Por algum motivo, aquele silêncio estava começando a me incomodar. Nunca era assim entre nós... Não. Na verdade não costumava ser assim entre nós antes das infelizes descobertas dos últimos tempos.
- O que você achou do que eles disseram? Sobre derrubar a Organização? – eu perguntei, de repente, o surpreendendo.
- Por que a pergunta? – ele me encarou, como se custasse a acreditar que eu realmente estava pedindo a opinião dele. Bom, não era como se eu tivesse mais alguém pra quem pedir opinião.
- Curiosidade. – eu respondi, abrindo um armário que cheirava fortemente a mofo e começando a procurar lá dentro – Quero dizer, estava meio óbvio o tempo todo, todos nós fomos muito burros de não enxergar antes. Claro que o objetivo do mestre seria derrubar a Organização. Para que outro motivo ele organizaria um exército? Só acho estranho ninguém nunca ter pensado nisso antes.
- Nenhum de nós quis se dar ao trabalho. – disse , dando os ombros.
- Como assim?
- Bom, sempre pareceu trabalho demais à toa. – esclareceu – Não se engane, muitos pensaram nisso. Mas tornar nossa guerra algo declarado, com lados organizados, sempre pareceu algo muito difícil e perigoso. Muitos vampiros com certeza morreriam, e com as vantagens que vocês têm hoje em dia, não há garantia de vitória. Nossa raça é egocêntrica demais, nunca sacrificaríamos a relativa segurança que temos em uma guerra pelo bem-estar de nossos iguais. Só um vampiro-mestre muito poderoso seria capaz de convencer os outros a se aliarem a ele nessa missão potencialmente suicida. E isso não faz o menor sentido, porque vampiros-mestre costumam ser perfeitamente capazes de fugir de caçadores, se esconderem... Vocês não são realmente um problema para nós, pelo menos não como são para os mais novos. Sem contar que, mesmo se matássemos todos os caçadores, com o tempo mais surgiriam. Então por que se arriscar a esse ponto? Se esse ancião é forte o suficiente para organizar vampiros, fazer com que nossa raça o obedeça e seja tão absolutamente fiel a ele ou ela, é de se imaginar que esse vampiro seria perfeitamente capaz de viver sem nunca ser pego pela Organização.
- Faz sentido. – eu precisava admitir – A pergunta é, se é tão arriscado assim, por que eles parecem tão seguros?
- Esse é o grande problema. – disse – Esse líder, quem quer que ele ou ela seja, tem uma habilidade anormal de controlar aqueles a sua volta. Todos parecem respeitá-lo tanto, obedecem no com a própria vida... Com esse tipo de fidelidade, ele tem chances de vencer. E se ele realmente conseguir... Se o exército realmente aumentar, aí sim... Aí, pela primeira vez na história, nossa raça vai poder aniquilar os caçadores de uma vez por todas. Ainda não explica o porquê de ele ou ela querer se arriscar, já que sem dúvida muitos vampiros morrerão no processo, mas seria possível derrubar a Organização, e depois, provavelmente, os caçadores independentes.
- Até que a humanidade não tivesse mais quem defendê-la. – eu disse, escutando minha voz soar sombria. Não havia muito o que fazer, na verdade. Eu me sentia sombria – E você?
- Eu o quê? – ele perguntou, surpreso.
- Você acabou de dizer que talvez vocês tenham uma chance. Se esse vampiro acabar de se organizar antes que possamos pegá-lo... Se realmente houver uma guerra... O que você vai fazer? Agora você sabe do que tudo isso se trata... Com certeza seria melhor para você se o Mestre ganhasse, teria a liberdade de fazer o que quiser. Iria demorar até que outros caçadores surgissem, e nesse meio tempo vocês poderiam se multiplicar, dominar o mundo.
- Duvido que o objetivo seja dominar o mundo, . – disse , balançando a cabeça – Em primeiro lugar, nós precisamos dos humanos. E em segundo, mesmo que dominássemos o mundo e os tornássemos nossos escravos ou seja lá qual for o plano maléfico de filme B que você está imaginando, não daria certo. Dentre muitos pontos fracos nossos, somos inúteis durante o dia. Seria perigoso demais deixar que a humanidade descobrisse sobre nós. Eu não sei exatamente por que o Mestre quer acabar com os caçadores, mas dominar o mundo está fora de cogitação.
- Isso não responde a minha pergunta. – eu insisti, sabendo que ele estava apenas tentando desviar o assunto – Por que você ainda não correu para o lado da sua raça? Ou será que você já correu, e continua aqui apenas como espião?
Eu nunca antes havia pensado naquela possibilidade, e me odiei por isso. Faria todo o sentido do mundo.
- Para começo de conversa, , eu tenho um acordo com seu chefe. Um acordo impossível de quebrar, que envolve indiretamente o fato de eu trabalhar aqui. Indiretamente, mas envolve, de qualquer forma. E, além disso, duvido que me aceitassem, a essa altura. Todos sabem que eu agora sou um traidor da própria raça. – disse ele, rindo irônico – Mas mesmo sem isso, eu não me meteria nessa história. Eu tenho certeza que, não importa o tamanho do exército e o resultado da guerra, mais da metade daqueles vampiros vai morrer. Eu não sou tão nobre a ponto de morrer pela espécie, e caçadores nunca foram um problema tão grave para mim a ponto de me fazer querer me livrar de todos vocês. Então não, eu não tenho interesse nenhum nessa guerra. Fique tranquila, não vou ajudar seus inimigos.
- Nem a nós. – eu disse – Se você não morreria por sua espécie, não morreria pela nossa também. Se tudo acabar em guerra, você não nos ajudará.

Era uma conclusão óbvia, simples. Porém, de certa forma, finalmente entender aquilo era estranho.

não respondeu imediatamente. Ele apenas desviou o olhar para uma caixa que havia encontrado e pareceu pensar por um momento.
- Não. – ele respondeu, finalmente – Eu não ajudarei vocês. Você sabe o que me fez virar um caçador. Nunca pretendi ser um herói, ... Só o que eu queria era estar próximo de você. Mas se as coisas chegarem ao ponto que você teme... Acho que não tenho razões para morrer por você, tenho? – ele concluiu, em tom frio.
Por um momento, eu quase respondi “se você me ama, você tem”. Mas eu duvidava daquilo, certo? Eu nunca acreditara nos sentimentos dele e aquela era a maior prova de que eu estava certa. E mesmo se fosse possível ele realmente me amar... Depois de tudo o que eu dissera, ele tinha razão em dizer que não havia motivos para morrer por mim. Na verdade, só o que ele tinha eram motivos para me matar.
Então, respirando fundo, eu decidi qual era a melhor resposta que eu poderia dar. Na verdade, era a única resposta que eu poderia dar, naquelas circunstâncias.

Com o queixo erguido, eu me mantive em silêncio.

Porém meu silêncio orgulhoso não durou muito tempo.
- O que... – eu disse, confusa, ao avistar um caderno surrado no fundo do armário. Em outras circunstâncias aquilo não teria sido nada demais, a não ser pelo fato de que eu conhecia aquele tipo de caderno. Capa preta, etiqueta da Organização, datado em números dourados de 1980 a 1982.

Era um diário de caçador.

Eu já me preparava para pegar o caderno quando, sem aviso, me vi sendo empurrada por para dentro do armário.
Ele fechou a porta atrás de nós e eu senti um terrível senso de dejá vu. Porém dessa vez tudo o que fez foi agarrar minha mão e me forçar a me mover para o canto do armário. Era um daqueles armários antigos de parede, que ocupavam todo um canto do aposento, de forma que foram necessários alguns poucos passos até que chegarmos ao fim do móvel, passando por diversos casacões de inverno empoeirados. levou o dedo aos lábios, me pedindo para continuar em silêncio.

Cerca de três segundos depois, meus ouvidos menos apurados também foram capazes de escutar as vozes se aproximando.

- Não posso acreditar que você esqueceu o caderno! – o vampiro cuja voz eu reconhecia como sendo o tal Hector reclamou.
- Como é que eu ia saber que aquela droga de caderno era tão importante para o Mestre? – disse Drigger, parecendo emburrado – Ele tem vários parecidos!
- Bom, aparentemente é importante, ou ele não teria ficado tão irritado por perdê-lo. – disse Hector – Precisamos ir logo, os outros lá fora estão nos esperando. Onde mesmo ele disse que estaria?
- No armário. – respondeu Drigger.
Armário?!” Eu e sussurramos ao mesmo tempo, olhando um para o outro em completo pânico.
Sem aviso, me forçou a me afastar o máximo possível para a parede do fundo do armário, vindo junto comigo de forma que, pela segunda vez naquela noite, eu me vi imprensada pelo corpo irritantemente definido dele. Não que eu estivesse pensando nesse tipo de coisa no momento. Não. Claro que não.

Se você acredita em mim, é mais inocente do que o estritamente aconselhável.

Devido a pouca largura do armário, eu não podia culpá-lo por me pressionar, na verdade. Se tínhamos uma chance de não sermos descobertos, era aquela. Só precisávamos rezar para que os vários casacos grossos entre nós e a porta fossem cobertura o suficiente.
A porta se abriu, seguida de uma exclamação de nojo.
- Argh! Há quantos séculos ninguém abre esse armário? Que cheiro de mofo horrível!
- Prenda a respiração. – disse Drigger – Não precisamos de oxigênio... Não é?
Hector deu um grunhido de impaciência, mas como parou de reclamar, devia ter seguido o conselho do mais novo. Era nosso dia de sorte. Sem respirar, seria impossível o vampiro acabar sentindo meu cheiro.
Me contorcendo um pouco, eu tentei mover meus braços, que estavam presos entre o corpo de e o meu, para nos dar mais espaço. Foi uma péssima idéia, no final das contas, já que agora meu tronco estava colado ao de e eu pude sentir reverberando no peito dele o grunhido que ele abafara, causado pelos movimentos descuidados do meu quadril.
- Pronto. – eu sussurrei no ouvido dele, um pouco envergonhada, quando meus braços estavam finalmente livres. Sem ter outro espaço para acomodá-los, precisei descansar minhas mãos em seus ombros.
- Você tem certeza que está aqui? – eu ouvi Hector resmungar, acompanhado do som de coisas sendo movidas. Eu só esperava que ele não começasse a mover os casacos e que simplesmente achasse o caderno logo. A minha situação não era das mais confortáveis. Meus seios estavam pressionados contra aquele peito perfeitamente duro, e mantinha a testa encostada na parede atrás de mim, de forma que a lateral de seu rosto estava tão próxima a minha que eu era capaz de sentir sua respiração, desnecessária e estranhamente acelerada contra meu pescoço. Para piorar, de vez e quando dava leves e sofridos gemidos contra o meu ouvido, que estavam intensificando as ondas de calor causadas pela pressão que a estaca que trazia no bolso estava fazendo no meio das minhas...

Oh. Meu. Deus.

Meus olhos se arregalaram e eu arfei, surpresa com meu breve momento de total inocência. O sobressalto involuntário que eu dei ao perceber a óbvia verdade fez com que meu quadril se esfregasse mais uma vez contra o dele. Aquilo definitivamente não era uma estaca. Eu não conseguia acreditar que aquele vampiro pervertido e doente estava excitado agora.

Hipocrisia, seu nome é .

Ok, então eu estava excitada também. Mas, oh meu Deus, ele havia começado a se esfregar levemente em mim, tão levemente que provavelmente nem tinha consciência disso.

Oh, merda, aquilo estava ficando bom.

Os movimentos semi-inconscientes de estavam começando a ficar mais firmes, e eu comecei a me desesperar. Me contorcendo de novo, tentei escapar da ereção persistente que estava enviando pequenas ondas de êxtase através do meu clitóris, mesmo com várias camadas de roupas no separando.
- . – ele sussurrou no meu ouvido, a voz um pouco trêmula. Era uma sorte que os outros dois vampiros parecessem ter entrado em uma discussão. A audição da espécie era bem apurada – Pára.
- Parar o quê? – eu sussurrei de volta, ainda me contorcendo e tentando escapar.
- Oh... – ele murmurou, prendendo a respiração e fechando os olhos momentaneamente – Se você... Se você não parar de se esfregar desse jeito contra mim não vai ter força nesse planeta que me impeça de arrancar suas calças.

Aquilo apenas me deixou mais excitada.

- Me ajuda então. – eu pedi, desesperada. Quando eu disse que aquilo estava ficando bom, eu não falei no bom sentido. Estava ficando bom demais. Eu já começava a sentir o impulso de me esfregar contra ele ficando mais forte, mais urgente... Eu sabia o que aconteceria se aquilo continuasse. Eu acabaria gozando dentro de um armário mofado, com um vampiro se esfregando contra mim.

Eu precisava sair dali. Agora.

Ouvindo o apelo desesperado na minha voz, começou a tentar se afastar, também. O problema era que nossos esforços eram sincronizados, então ao invés de aliviar a pressão, estávamos nos friccionando um contra o outro com mais força. Era quase como se fizéssemos de propósito. Na verdade, eu já nem sabia se aquela era ou não a intenção. Ao mesmo tempo em que eu tentava escapar, eu ansiava pela próxima vez que o sentiria roçando em mim.
- Oh, droga... – eu gemi, baixinho, a sensação incrível me fazendo esquecer que não podíamos fazer barulho.
- Shh... – ele murmurou, parecendo nervoso. No momento seguinte eu senti sua mão em meu rosto, tapando minha boca com força enquanto ele cerrava os próprios dentes para também não fazer barulho.
Ambos havíamos congelado no lugar, em um acordo mudo de não piorar ainda mais a situação. Mas não fazia muita diferença, já que ainda nos tocávamos intimamente, sem ter como evitar. Eu podia sentir cada músculo daquele físico enlouquecedor espremido contra minhas curvas, e a pressão deliciosa e insistente na parte de mim que já implorava por ele estava ficando insuportável. Toda vez que o atrito se tornava mais do que eu podia aguentar, eu me movia levemente, o forçando a involuntariamente massagear meu clitóris. Eu então parava, tentando me controlar, mas logo repetia o ato. Aquele ritmo lento e a intensidade da situação e da tensão presente estavam me dando a certeza de que, em breve, eu acabaria explodindo.
Sim, eu tinha noção de onde estava. Do lado de fora do armário, eu podia ouvir as vozes discutindo. Eu sabia que havia ainda mais vampiros do lado de fora da casa, e sabia que devia estar me concentrando no perigo que corria. Mas estar ali, me friccionando no corpo firme do vampiro que eu odiava em busca de um temporário alívio para a tensão sexual que não me deixava dormir à noite... Saber que tinha gente ali perto, que podíamos ser descobertos a qualquer hora... Sentir a mão livre de apertando com força meu quadril enquanto ele mesmo tentava resistir à tentação... Aquilo tudo estava fazendo com que aquela espécie de nó que se desenvolvia no meu útero se apertasse mais e mais... Sim, eu sentia vergonha, mas acima de tudo me sentia tão perto... Tão perto de algo que eu sabia que seria incrível que eu não sabia por quanto tempo eu conseguiria me controlar.
As vozes haviam parado e o som de coisas sendo remexidas voltou. apenas continuava a tapar minha boca, mordendo os próprios lábios com a cabeça encostada em meu ombro. Eu sabia que não estava facilitando a situação para ele, mas eu estava fazendo o possível para permanecer parada.
- ACHEI! – nós ouvimos o berro de Drigger do lado de fora. , por puro reflexo, virou um pouco o corpo na direção do som inesperado, fazendo com que o atrito ficasse muito mais forte do que antes. A mão dele abafou meu gritinho de prazer e surpresa, e eu senti minhas pernas tremerem. Oh céus... Mais um pouco... Mais um pouco e eu atingiria aquele ponto ao qual homem nenhum conseguira me levar.
Eu tinha certeza que os vampiros lá fora haviam voltado a discutir enquanto se afastavam, mas nada nesse mundo conseguiria me fazer tentar prestar atenção no momento. Eu estava literalmente tremendo, e o calor a minha volta começava a ficar insuportável.
A porta lá fora bateu, e meus olhos encontraram os de na escuridão à qual eu já havia me acostumado. Era difícil ver seu rosto perfeitamente, mas aquela expressão de tesão, de ardência já era conhecida demais para que eu não fosse capaz de reconhecer. Eu não podia me mover... Nenhum músculo do meu corpo obedecia a comandos, entregue demais a ele naquele momento, de forma que só o que eu fiz foi encará-lo. Mas acho que minha falta de ação foi mal-entendida por , já que depois de um longo momento ele apenas assentiu com a cabeça e fez menção de se afastar.
- Não! – eu sussurrei, com urgência na voz, agarrando seus ombros com uma força que eu não sabia ainda possuir e o forçando a parar – Fica. – eu pedi, com a voz trêmula e incapaz de encarar seus olhos – Ma-mais um... Pouco.
Vencendo a onda de vergonha e lutando contra qualquer pensamento racional que passasse por minha mente, eu aos poucos ergui meus olhos, encarando os dele. me olhou confuso por um momento. No seguinte, porém, eu pude ver a compreensão se espalhando rapidamente por seu rosto.

O olhar que ele me lançou então me fez gemer baixo de antecipação.

Engolindo em seco e travando o maxilar com força, acenou mais uma vez e extinguiu a pouca distância que havia criado entre nós. As mãos dele encontraram meus quadris e me levantaram um pouco, de forma que eu pudesse enlaçar sua cintura com minhas pernas. Ele então passou a segurar minhas coxas, me pressionando mais ainda contra a parede enquanto eu escondia meu rosto em seu pescoço.
- Assim? – ele perguntou, simplesmente, a voz baixa, rouca e trêmula com precário autocontrole assim que ele começou a se roçar contra mim.
- Isso. – eu sussurrei, apertando seus ombros com força e mordendo a área onde seu pescoço encontrava seu ombro para abafar o súbito impulso de gritar. Ele gemeu profundamente antes de se jogar contra mim com mais força, seus movimentos aumentando em rapidez e intensidade. Vampiros tinham um certo fraco por mordidas no pescoço, eu lembrei.
A postura mais atenciosa de deu lugar ao desejo cego, e o atrito de seu corpo com o meu já quase gerava dor. Não que eu estivesse reclamando, é claro. Uma de minhas mãos havia encontrado sua nuca e agora subia devagar, agarrando seus cabelos e puxando-os com força, como se tentando descontar no ato toda a tensão que se acumulava dentro de mim e ameaçava explodir a qualquer momento.
- Era isso que você queria? – ele perguntou, rangendo os dentes e me apertando com mais força ao sentir minha mão livre descendo por suas costas, o arranhando com vontade – Oh, eu sei que é. Você gosta disso, não gosta? Você gosta do que eu te faço sentir... Do que o monstro te faz sentir... Você sabe o quão má você é, ? O quão safada você é?
Essa era a parte na qual eu devia o estar empurrando, com raiva. Aquela voz, baixa, provocante, me ofendia e me impossibilitava de fugir de verdades que eu tentava ignorar. Mas o jeito dele... O modo como ele tentava me irritar apenas me excitava. Meu ódio me excitava, e pela milésima vez eu me perguntei o que havia de errado comigo. tinha o dom de me fazer desejá-lo como se minha vida dependesse disso.
- Mais. – eu praticamente implorei, lutando contra os soluços que ameaçavam começar. O atrito que a calça jeans causava era tão bom, e eu estava simplesmente tão perto – Eu... Eu preciso... Mais um pouco... Eu...
- Shh... – murmurou ele – Deixa eu cuidar de você, pequena... – ele subitamente parou, voltando a se mover em seguida, os movimentos lentos, porém firmes, mas ainda assim torturantes – Não se preocupa, eu sei o que você precisa... Você está quase lá, não está? – perguntou, segurando meu queixo e me forçando a encará-lo.
Incapaz de suportar a intensidade daqueles infinitos , eu abaixei os olhos, mordendo meus lábios e acenando devagar com a cabeça.
soltou um grunhido baixo, porém animalesco, fazendo um arrepio delicioso descer por minha espinha. Ele puxou minhas pernas com força, me obrigando a tirá-las de sua cintura. Antes que eu pudesse protestar, porém, as mãos dele já estavam na barra da minha calça, abrindo o botão de forma desajeitada e em seguida descendo meu zíper.
- Eu não sou de ferro. – disse ele, logo antes de descer minhas calças um pouco violentamente.
Eu arfei, em uma mistura de surpresa, medo e excitação, e eu não conseguia decidir qual das três sensações era a mais forte. Ele me encarava com aquela expressão faminta de novo, e eu me vi dividida entre fugir apavorada ou simplesmente me entregar.
Não que ele tenha me dado tempo para decidir. No momento seguinte ele havia me virado para a parede, pressionando meus seios contra a mesma com força. Eu ouvi o som do zíper dele descendo e aquilo apenas piorou meu pânico.

E meu desejo.

- Shh, calma, pequena. – ele murmurou no meu ouvido, provavelmente sentindo o meu medo – Eu não vou fazer nada demais. Não hoje. Não assim... – ainda pressionando a parte de cima do meu corpo contra a parede com uma mão, senti sua outra agarrar meu quadril e o apertar contra o dele, de forma que sua ereção se alojou exatamente entre minhas nádegas. Pude ouvi-lo emitir uma espécie de grunhido misturado com chiado – Oh, droga... Tão quente... Tão macia... Você é gostosa demais pro seu próprio bem, . – ele disse, lentamente escorregando a mão no meu quadril para minha barriga – Mas, não... Eu não vou facilitar as coisas pra você. Se eu te comesse aqui, agora, e te fizesse gemer e gritar tão alto que até seus amiguinhos do outro lado da cidade ouviriam, ainda assim eu teria te “forçado”. – ele murmurou, rindo baixo e sem humor enquanto sua mão descia lentamente para dentro da minha calcinha. Ele havia começado a se esfregar contra mim por trás, e a combinação disso, somada com seu jeito explícito de falar, me fez gemer de forma terrivelmente lasciva – Quando finalmente acontecer entre nós, não quero que você tenha desculpas, . Por isso eu vou te enlouquecer, até o dia em que você implorar para que eu te dê tudo, e não apenas essa pequena demonstração.
A mão dele finalmente invadiu minha calcinha e eu literalmente vi estrelas. Meus olhos rolaram para trás e eu me deixei largar contra a parede, de modo que só o peso de contra mim me mantinha em pé.
Com o polegar ele acariciava meu clitóris em círculos enquanto dois de seus dedos me penetravam sem aviso. Ele movia-se devagar, de forma que eu, envergonhada de mim mesma, me vi praticamente me debatendo, mexendo meus quadris como se tentando forçá-lo a parar de me torturar. Meus movimentos inadvertidamente me faziam roçar com mais força contra ele, fazendo com que gemesse e grunhisse baixo no meu ouvido.
- Eu tenho tanta coisa pra te mostrar, pequena. – ele dizia, daquela forma sedutora que me deixava maluca – Tanta coisa que você andou perdendo esse tempo todo... Posso te dar tanto prazer que você não se sentirá capaz de me negar mais nada. Fazer você gozar de novo e de novo... Te mostrar coisas com as quais você nem sonha. Te levar ao limite, ... Te fazer gritar.
A mão dele subiu para o meu seio por debaixo da minha camiseta e os movimentos de seus dedos em mim se tornaram furiosos subitamente. Eu não aguentava mais.
- Por favor... Por favor... – eu soluçava, implorando sem saber pelo quê exatamente. Meu corpo estava queimando, meu interior se contraindo e eu nunca precisara tão intensamente de algo quanto precisava do alívio que só um orgasmo de verdade me proporcionaria.
- É isso pequena... Pode deixar vir... – ele disse, entre mordidinhas em meu pescoço – Goza pra mim... Agora.

Como se meu corpo simplesmente o obedecesse, foi exatamente o que eu fiz.

As estrelas de antes se tornaram verdadeiras constelações. Eu conhecia todo o tipo de metáfora, como explosões de cores, luzes, mas nada disso realmente fazia jus ao que eu sentia. Foi mais forte e mais intenso do que qualquer outra experiência que eu já tivesse experimentado. Foi como atingir outro plano de consciência.
Quando os espasmos acabaram, eu me senti mole. Meu corpo ameaçou deslizar pela parede, mas braços fortes me seguraram e me viraram de modo a estar novamente com as costas para a parede, em seguida ajeitando minhas calças o melhor possível com o pouco espaço disponível. Eu não sei por quanto tempo ele me manteve ali, segura em seus braços, mas aos poucos a consciência ia voltando a mim. Com uma parte meio separada de minha mente, eu sabia que, assim que minhas pernas voltassem a funcionar, eu sairia dali, correndo mortificada. Mas por aquele longo momento eu evitei raciocinar. Eu sabia que, quando o fizesse, a vergonha e o horror com tudo o que acontecera me dominariam por completo.

Alguns segundos depois, eu finalmente perdi a luta.

Com uma sensação de terror, eu me tornei totalmente consciente de minha atual posição. Eu não conseguia acreditar no que havia deixado acontecer, e no que mais poderia ter acontecido. O nojo que eu senti de mim mesma, o desgosto e a decepção me deixaram sem ar por um momento. era um vampiro. Um vampiro sanguinário e cruel, e eu o havia deixado me tocar... Eu havia gostado. Gostado até demais do toque de um monstro.

Aquilo fazia de mim um monstro também.

Dominada pela raiva e pela vergonha, eu o empurrei, fazendo com que as costas dele batessem com força contra a outra parede do armário. Me movendo como um raio, eu saí aos tropeços, afastando as roupas penduradas no meu caminho até estar livre para correr.
Porém, por algum motivo, eu não consegui correr para muito longe. Apenas parei do lado de fora da casa, me encostando em uma parede e tentando respirar. Eu estava apavorada, enojada, arrependida, mas ainda sim, contra a minha vontade, experimentando aquele senso de satisfação que só existe após momentos de extremo prazer. Mas não era nada disso que me mantinha ali, parada, pensando no que fazer a seguir. Junta a todas aquelas emoções conflitantes estava a idéia de que, de alguma forma, havia algo faltando.

Em um momento confuso e bizarro, eu entendi exatamente o que era.

Xx

’s POV


Ela realmente era boa em fugir.

Aquela rotina já começava a ficar ridícula. Fugas, armários, negação...

Oh, e insatisfação.

Era quase engraçada a ironia daquilo tudo. Claro que fugiria e me deixaria ali, confuso, excitado e frustrado. Porém mais ridícula que a minha situação era a idéia de que , mesmo em meus sonhos mais loucos, me daria uma mãozinha naquele tipo de problema.

Mãozinha no sentido literal mesmo.

Oh, aquilo não ajudou muito. Agora eu havia me forçado a imaginar a mão quente de me masturbando. O calor dela quase me surpreendera. Sentir seu corpo quente tão perto do meu foi uma experiência totalmente nova. Eu nunca fiz sexo com uma humana. Nem mesmo quando eu era humano.
É horrível admitir que Coraline foi minha primeira mulher. Mas não, não foi a única, mas se as coisas tivessem corrido como eu queria, teria sido. O problema era que Cora não nascera para ser monógama. Assim que eu fui transformado e entendi que Coraline não me dera essa nova vida pra que pudesse ser minha para todo o sempre, eu tentara arranjar desculpas para as ações dela. Cora dormiria comigo, mas dormiria com também. Totalmente vazio de orgulho, eu tentava me convencer de que aquilo era apenas devido à ligação forte entre criador e criatura. Mas não era apenas e, mesmo depois de ele nos deixar para tentar ser bom, Cora continuou a procurar aventuras. Ela exigia que eu a acompanhasse, que encontrasse mulheres para mim também, e eu a atendia, sentindo raiva e dor pelo fato de que ela não sentia sequer um pingo de ciúmes de mim. Assim, enquanto ela procurava por vampiros, ou homens, ou até mesmo mulheres, eu me contentava com outras vampiresas. Qualquer humana da qual eu me aproximasse se apavorava quando, ao começar a me excitar, minhas presas se revelavam. Forçar alguma nunca foi algo que me pareceu tentador, e a idéia de dormir com uma mulher que não me queria não me atraía. Sempre achei mais interessante a idéia da sedução, da conquista, e assim investia em vampiresas, principalmente as recém-criadas, que ainda guardavam aquele resto de humanidade e que não se assustariam com minhas presas.
Pensar nisso me fez lembrar que, no momento, ditas presas estavam expostas. Não acho que havia percebido. Também não acho que teria se importado se tivesse percebido. Afinal, ela sabe o que eu sou. Deve saber que a proximidade com seu corpo quente, arfante, tentador, faria isso comigo.
Minha ereção pulsou com o pensamento. Sem conseguir resistir, eu apoiei minha testa e uma mão na parede. Minha mão ainda estava molhada com o líquido dela e, como se para me torturar, eu limpei um de meus dedos com os lábios, gemendo de puro prazer com o gosto dela. Vampiros têm uma certa fixação por não apenas sangue, mas também alguns outros fluidos humanos, como lágrimas, saliva e, principalmente, os fluidos lubrificantes naturais femininos. O gosto dela era quase tão bom quanto o de seu sangue. Com um grunhido frustrado, eu abaixei minha mão começando a me tocar e tentando inutilmente imaginar que ao invés de minha mão fria, era a quente de que me acariciava.
Não, aquilo era pouco. O armário ainda cheirava a ela, ao prazer dela, e dessa forma eu me permiti fantasiar.
Na minha imaginação, eu não havia tido tanto autocontrole. Eu relembrei o medo e a excitação que vi naqueles lindos e expressivos olhos, mas no meu devaneio eu não tinha me importado. Eu não havia tido o pouco orgulho que me impedira de possuí-la sem que ela admitisse abertamente que queria isso também. Na minha fantasia, eu a virava de frente para a parede e me alojava atrás dela, mas sem as tentativas de tranqüilizá-la. Não, o que eu murmurava no ouvido dela eram descrições detalhadas de tudo que eu estava para fazer, enquanto minha mão a estimulava com força, alternando entre caricias rápidas e lentas até que ela estivesse no ponto certo, há apenas um momento de distância de um orgasmo. Eu então parava e mandava ela implorar que eu a penetrasse, enquanto uma de minhas mãos apalpava minuciosamente seu seio. Eu continuava murmurando em seu ouvido e me esfregando contra seu corpo até que ela finalmente me implorava, com a voz trêmula e fraca. Eu então descia sua calcinha até o meio de suas coxas, ajeitava seu quadril e me enterrava naquele calor supremo. A partir daí eu tive dúvidas. Eu teria ido devagar, aproveitando o momento ou teria simplesmente me forçado de uma vez, a fazendo gritar de prazer? Como era só uma fantasia, eu me imaginei fazendo os dois ao mesmo tempo, e em poucos segundos me vi chegando a um clímax insatisfatório ao voltar para a realidade e, frustrado, lembrar que ainda estava ali, sozinho. Eu limpei a bagunça de qualquer jeito com um dos casacos abandonados e saí daquele armário, me sentindo pior do que a momentos antes. Eu ainda precisava de alívio. Essa coisa toda com apenas aumentava a cada dia aquela tensão sexual não resolvida dentro de mim, e aquilo estava se tornando insuportável.

Acho que foram os pensamentos frustrantes que me impediram de senti-la perto de mim antes.

Quando eu finalmente senti próxima, já era tarde. Pela primeira vez na nossa relação, eu era o atirado contra a parede. Antes que eu pudesse questioná-la, porém, ela estava sobre mim, e seus lábios contra os meus.

Ela me beijara. Ela.

Esse foi o último pensamento racional que eu tive. No segundo seguinte a maciez de seus lábios contra os meus e as mãos surpreendentemente delicadas segurando meu rosto me fizeram me entregar totalmente. Gemendo satisfeito com a sensação deliciosa que a boca dela me causava eu parti os lábios, levando uma mão para os cabelos dela enquanto com o outro braço eu a agarrava pela cintura e a puxava mais para mim. Pela primeira vez eu apenas a deixei dominar, permitindo que ela me beijasse com força, com vontade, como se tentasse me dizer algo com aquele gesto. Se isso fosse ficção, eu teria entendido qualquer que fosse o recado, mas na realidade eu apenas me senti confuso.
O mais estranho era que, apesar das circunstâncias, o beijo dela não foi exatamente erótico. Eu me senti endurecer novamente contra a coxa dela, óbvio, e me encontrava incapaz de reprimir os gemidos de aprovação que insistiam em subir pela minha garganta, mas essa visivelmente não era a intenção de . Ela me beijava com certa calma apesar da firmeza, com intimidade e um pouco de ódio, sim, mas acima de tudo com determinação. Eu não entendia o que ela queria com isso, mas não estava em posição de reclamar.
Tão subitamente quanto começou, o momento acabou. Ela encostou a testa na minha por um momento, respirando com força, e em seguida ela não estava mais lá. Começara a correr para longe, os cabelos esvoaçando atrás de si de forma quase dramática.
Eu nem tentei segui-la. Se eu bem conhecia , ela queria ficar sozinha, e nem agora nem nunca se sentiria disposta a comentar o que acabara de fazer, muito menos verbalizar seus motivos para isso. Porém naquele momento, aquilo não importava. Só o que eu conseguia entender é que ela me beijara. Ela. Por vontade e iniciativa próprias. Eu havia vencido nossa aposta idiota, mas também não ligava para isso. Aquilo mudava nossa relação de forma talvez até mais drástica do que os acontecimentos nesse segundo armário. Por isso, naquele momento, eu não ligava para apostas, motivos nem nada do tipo. Eu havia tido uma breve e importante revelação.
podia correr. Podia se esconder. Mas ela me queria e sabia que não poderia mais fugir. Ela admitira, para mim e para si mesma, então agora não tinha mais jeito. Não importavam quantas vezes ela corresse, tentando se apegar àquela virtude e pureza inexistentes, mas que ela pensava estarem sendo ameaçadas por mim. Não importavam quantas vezes ela tentasse fugir, orgulhosa e pensando estar por cima da situação. Eu estaria logo no fim da rota de fuga, a lembrando de quem ela era, do quão ruim ela era. Eu a impediria de se enganar, de fingir ser alguém melhor do que ela realmente era. Eu faria se aceitar, e por tabela me aceitar. Toda vez que ela se iludisse, eu a despertaria.
O poeta dentro de mim lutava, gritava tentando me impedir. Parte de mim queria ser o príncipe encantado em um cavalo branco, que fazia tudo parecer bonito e colorido. Mas a vida não era um faz de conta, e não era nenhum princesinha delicada. O que ela precisava na vida dela era alguém que a desafiasse, que a forçasse a parar de fugir, mesmo que isso apenas aumentasse o ódio dela contra mim no processo. Eu já me sacrificara tanto durante toda a minha existência... Que mal faria mais um sacrifício?

Que fosse o príncipe encantado. A partir de agora, eu seria o cavaleiro negro.



Capítulo 12 - Together (To Get Her)


’s POV

Eu me sentia suja.

Por um momento eu desejei que meu corpo estivesse coberto de lama ou algo igualmente nojento. Eu queria que o resto do mundo pudesse ver o quão impura eu me sentia. Estranho, na verdade. Enquanto eu atravessava os corredores da sede, surpreendentemente movimentados naquela noite, eu deveria estar querendo me esconder. Devia estar rezando para que ninguém nunca descobrisse o que eu havia deixado acontecer – e também todo o resto que poderia ter acontecido. Mas, ao contrário, eu queria me expor. Queria usar a desaprovação dos outros como castigo para minha fraqueza. Mas não acho que jamais seria capaz de verbalizar o que acontecera, então apenas me contentava em me desprezar sozinha enquanto seguia para meu quarto. Não, ninguém repararia em minha sordidez. A imundice que eu sentia pelo fato de desejar, de sentir prazer graças a um monstro não era física. Não, a sujeira era algo que poluía apenas minha alma.
Eu realmente não sei como havia agüentado a última hora. A incomum agitação pelos corredores do prédio era minha culpa, na verdade. Depois de rodar sem rumo pela cidade por algumas horas, eu havia voltado para a Sede, determinada a cumprir meu dever. Eu precisava contar tudo que havíamos descoberto para Miles. Nem preciso dizer que, quando a noticia de que a Organização era o principal alvo do mais novo e mais organizado grupo de vampiros que já havíamos encontrado vazou, o caos se instaurou. Não, ninguém chorou em desespero ou saiu correndo, mas... Pessoas subiam e desciam os corredores, entrando na sala de colegas para dividir as novidades ou simplesmente compartilhar o nervosismo. Eu mesma estivera bem ocupada na última hora, contando tudo com detalhes para Miles e tentando fugir das perguntas de Gilbert e de meus amigos. Eu simplesmente não estava com cabeça para a condenação iminente da Organização no momento. O toque das mãos de sobre meu corpo estava gravado na minha mente, de forma excitante e repulsiva ao mesmo tempo. Fisicamente excitante. Mentalmente repulsiva.
Quando fingir que nada estava errado passou a ser coisa demais para suportar, eu pedi a Miles que parasse o interrogatório para que eu pudesse voltar para o meu quarto, tomar um extremamente necessário banho e colocar roupas limpas. Ele me deixou ir, com a condição de que eu voltasse depois. Aparentemente, ainda havia um assunto importante sobre o qual ele precisava discutir comigo.

Só quando eu finalmente pude entrar no meu chuveiro que as lágrimas caíram.

O estranho nisso tudo é que, desde o momento em que eu deixei do lado de fora daquela casa abandonada, eu sabia que acabaria chorando. Pelo que, exatamente, eu não sei, mas durante toda a noite eu tive essa certeza de que, quando estivesse finalmente isolada do mundo, iria chorar. Chorar de medo, talvez. Medo pela atração doentia que eu sentia por . Medo perante a ameaça a Organização, o resumo de tudo que era importante na minha vida. Medo de continuar para sempre me sentindo como sentia desde que fora embora... Não, desde antes disso. Desde que me entendo por gente. Medo de para sempre sentir aquele vazio, aquela escuridão dentro de mim. Medo de não conseguir ser forte o suficiente para lutar contra meus inimigos e contra o maior deles: eu mesma.

Medo de sentir medo.

Sentindo os jatos fortes de água sobre meu corpo, eu ri sem humor. Qual era essa ligação entre a água e o poder de me fazer chorar? A tempestade havia acabado com meu longo jejum de lágrimas. Agora aqui estava eu, chorando embaixo do chuveiro sem um motivo concreto. Talvez eu só precisasse colocar tudo aquilo para fora de vez em quando. Eram tantos problemas... Tantas preocupações e nem um pouco de alegria. Se havia algo que eu aprendera em anos como caçadora é que eu tinha apenas duas alternativas: viver deprimida ou viver com raiva do mundo. Para fugir da depressão, eu aprendera a ser fria, cruel, violenta e irritadiça. Se eu convertesse tudo de ruim na minha vida em ódio, doeria menos. O lado bom do ódio é que ele ocupa tanto sua mente que não deixa espaço para dor. E assim, o que começou como um esforço consciente para me defender se tornou a realidade. Eu me acostumara com aquilo e me tornara essa criatura tão amável que era hoje em dia. Ruim, amarga e por vezes distante. Eu realmente não conseguia entender como ainda assim eu conservara meus poucos amigos. Como ainda assim podia dizer que me amava.
Em um surto de raiva com esse pensamento, eu fechei a torneira do chuveiro, saí do boxe e apenas me encarei no espelho do lado de fora, encharcada e com raiva estampada nos olhos avermelhados pelas lágrimas. O que ele vira em mim? O que ele vira em mim que eu era incapaz de enxergar?
Eu não sofria de falta de confiança, de jeito nenhum. Eu me sentia bonita, agia de jeito sexy propositalmente e não tinha vergonha disso. A verdade era que eu sempre precisara disso. Primeiro para ter alguma satisfação na vida. Ser admirada fazia bem para o humor de qualquer mulher. Mas depois de , passou a ser também necessário para minha auto-estima. Eu estava satisfeita com meu físico, mas me tornara ainda mais insegura quanto ao resto. Eu tentava negar, mas nunca consegui parar de me perguntar se talvez... Se talvez o fato de ter ido embora pudesse ser culpa minha. Devia ter algo de errado comigo. Eu não conseguira mantê-lo por perto, então talvez eu simplesmente não fosse o suficiente. As palavras que usara assim que voltara para a cidade voltaram à minha mente, me acertando bem na ferida pela segunda vez. “Soube que seu precioso também largou você. Nunca passou pela sua cabecinha metida que talvez a temporada que ele passou conosco tenha servido pra mostrar a ele a perda de tempo que era ficar com uma garotinha como você enquanto existem mulheres como Coraline no mundo?” Eu já havia considerado aquela hipótese tantas vezes que ouvi-la em alto e bom som havia doído. Doído bastante.
Aquilo levou meus pensamentos de volta para . , que por algum motivo convencera a si mesmo de que sentia por mim um sentimento que monstros como ele provavelmente eram incapazes de ao menos compreender. E sem motivo. Novamente me perguntei o que eu tinha para atraí-lo tanto. O fato de que eu o maltratava? Era ele doente a esse ponto? Talvez fosse porque eu era tudo que ele não podia ter. Ou talvez ele apenas estivesse confundindo aquela atração monstruosa entre nós com amor. É, devia ser isso.
Me olhando por um último momento no espelho, eu tive o impulso de me esconder. Se era atração que estava provocando tudo aquilo, eu precisava me esconder. Me secando rapidamente, eu abri meu armário, pegando meu blusão gigante favorito do Ramones e as calças jeans mais largas que eu tinha. A maior parte das minhas calças eram jeans justos e bem elásticos para lutar, mas eu mantinha aquela por ser uma das mais confortáveis.
Após me vestir, passei um pente rapidamente nos cabelos e me olhei novamente no espelho, me sentindo ridícula. Aquilo não adiantaria. Se aparecesse na minha frente vestido de dinossauro Barney, ainda assim eu me sentiria atraída por ele. O fato de eu estar vestida como um moleque também não mudaria o que ele sentia por mim. Apenas explicitava o quão idiota eu era.
Eu respirei fundo antes de sair daquele quarto. Meu rosto desinchava com uma rapidez impressionante, de forma que ninguém seria capaz de dizer que eu havia chorado. Devagar, eu segui para o escritório de Miles, me preparando mentalmente para mais uma seção de tortura emocional. Contar tudo que acontecera naquela noite, ocultando apenas os detalhes que obviamente eu nunca teria coragem de verbalizar, era terrível. Já não bastava eu me sentir péssima em ter deixado por as mãos em mim, eu ainda precisava reviver todos os acontecimentos que me levaram àquele armário.
Abri a porta do escritório sem me anunciar, batendo-a com força atrás de mim e simplesmente seguindo para uma das cadeiras em frente à mesa de Miles.
- , onde está sua educação? – perguntou meu chefe, visivelmente chocado com meu comportamento. Não que eu fosse um exemplo de bons modos, mas geralmente era mais respeitosa quando na sala dele.
Eu já me preparava para argumentar que já que ele me conhecia desde bebê, dava para esquecer as formalidades de vez em quando, mas uma voz atrás de mim me impediu.
- Acho que ela jogou pela janela quando me conheceu. – disse . Eu rapidamente virei a cabeça para trás, chocada, percebendo pela primeira vez a presença do vampiro no aposento. Eu estava distraída a esse ponto – Na verdade, eu não acho que esse seja o comportamento adequado para uma caçadora. Garota malcriada. Alguém deveria dar umas palmadas nela.
O brilho provocante nos olhos me fez entender que ele adoraria ser esse alguém. Eu apenas o observei lentamente se desencostar do canto no qual estava e seguir para a cadeira ao lado da minha. Eu estava em choque. Primeiro devido a simples presença dele. Eu não estava preparada para encará-lo tão cedo. Há poucas horas atrás ele havia me levado a um orgasmo dentro de um armário mofado e agora estava aqui, me provocando como se nada tivesse acontecido. Não que eu esperasse que ele estivesse tão mortificado com tudo aquilo quanto eu. Também não esperava que ele fosse legal comigo, que mudasse seu jeito, mas... Aquilo era diferente. Havia um toque de crueldade na voz de , como se ele estivesse se esforçando para me atingir. Ele devia ter mais de mil motivos para querer fazer uma coisa dessas, mas eu não entendia o porquê logo agora. Depois do que acontecera e, principalmente, depois que eu o beijara. Não era isso que ele queria?
E segundo... Bom, segundo era que parte do choque estava sendo causada pela minha própria excitação com a imagem mental de me dando palmadas. Aquela idéia estava me deixando vergonhosamente quente, e eu novamente me perguntei se havia no mundo criatura mais pervertida do que eu.
- Cala a boca, . – eu disse, desviando olhar e em um tom que não era nem de perto o irritado e ameaçador de sempre. Não, eu tinha consciência de estar soando trêmula, talvez quase frágil. A risadinha satisfeita que ele emitiu ao sentar do meu lado me fez entender que ele havia percebido isso. Miles, aparentemente, não.
- Oh, eu deveria saber que era uma péssima idéia. – disse ele, desviando minha atenção do vampiro ao meu lado – Mas realmente, eu não vejo outro jeito. – Miles parecia estar falando apenas consigo mesmo.
- O que é uma péssima idéia? – eu perguntei, franzindo a testa.
Roger olhou de mim para devagar, fechou os olhos, respirou fundo e voltou a nos encarar, agora parecendo decidido.
- Ok. Em primeiro lugar, acho que devo parabenizar os dois. Fizemos mais progressos hoje do que em todos os outros dias juntos. – eu assenti com a cabeça, aceitando os parabéns, e apenas permaneceu parado, de braços cruzados, encarando Miles com uma expressão de imenso tédio. Idiota – Eu chamei vocês aqui hoje por um motivo importante. Os acontecimentos dessa noite explicitaram um fato que eu já vinha observando há um tempo. Uma semana separados e nenhum progresso. Em apenas uma noite, vocês se encontram e damos esse passo gigante!
- Onde você quer chegar, Miles? – eu perguntei, sentindo meu estômago embrulhar. Não. Por favor, não.
- , ... As desavenças entre vocês são óbvias, mas acho que não dá mais para negar que, por mais estranho que seja, de alguma forma vocês são melhores juntos. Só os chamei aqui para avisar que estou os unindo novamente.
Eu gelei. Por um momento bizarro, eu xinguei mentalmente meu próprio cérebro por ter pensado na possibilidade de isso acontecer segundos antes de Miles assinar minha sentença de morte. Como se de alguma forma fosse culpa minha aquilo estar acontecendo.
O que eu faria agora? Ver todos os dias não daria certo. Não agora. Não com tudo o que acontecera... Não quando eu sabia o que sabia.

E sentia o que sentia.

Ele era a manifestação física do conceito de tentação. Tudo naquele imbecil me atraia – a aparência, a voz, o jeito de se mover... Até mesmo o fato de eu odiá-lo como pessoa de certa forma me excitava, por ser proibido, perigoso. Me dava aquela sensação deliciosa de estar desejando algo totalmente errado. E com o que acontecera horas antes... Não. A lembrança do toque dele ainda estava vívida demais em minha mente, e me concentrar naquele assunto ainda me fazia tremer inteira.

Aquilo não podia estar acontecendo.

- Não! – eu exclamei, levantando com um salto – Não, não, não!
- , não seja infantil... – disse Miles, massageando as têmporas.
- INFANTIL? – eu gritei, me controlando pra não quebrar alguma coisa. permanecia sentado, olhando para o próprio colo e parecendo ter um silencioso ataque de riso, por mais estranho que isso soe – Miles, isso NUNCA vai dar certo! Eu não suporto essa criatura! Se você nos colocar juntos de novo, nós vamos acabar... – eu respirei fundo antes de continuar. Nos agarrando? Caindo na cama e fazendo uma besteira sem tamanho? Não dava pra continuar aquela frase assim – Nos matando. – eu acrescentei, finalmente, com a voz fraca. levantou a cabeça e me encarou, sorrindo com uma das sobrancelhas levantadas de forma sarcástica.
- Bem, vocês vão ter que engolir as diferenças! – disse Miles, irritado – Isso não é brincadeira, . A ameaça lá fora é real, e já está mais do que óbvio que vocês dois são muito mais úteis juntos! São os dois caçadores mais fortes que eu tenho, e se queremos ter uma chance de acabar com o Mestre, esse é o único jeito.
Eu encarei meus próprios pés enquanto tentava me acalmar. Miles estava obviamente preocupado, já que ameaçar a Organização era ameaçar a própria vida dele. E eu não podia negar que meu chefe estava certo. Por algum motivo, as coisas pareciam funcionar melhor quando estava por perto.
- Você já o trata como um de nós. – eu disse – Até você ele conseguiu conquistar? Miles, você se lembra de como chegou aqui?
- Minha memória continua perfeita, . – disse Miles, com a voz fria. Eu conhecia aquele tom. Quando eu era criança, ele me fazia querer correr e me esconder atrás de Gilbert. Hoje em dia, apenas me dava raiva – Eu não estou dizendo que confio em . Mas sei que, nesse caso, não há motivos para desconfiar, também. E precisamos dele. Só a força e habilidade dele se equiparam a sua. Isso é maior que todos nós, . É maior que qualquer inimizade que possa haver entre os membros desse lugar. Se queremos vencer, é preciso que você entenda isso. É preciso que os dois entendam isso. – ele se voltou para – Fui claro?
- Como água. – respondeu , surpreendentemente sério – Você está certo, Roger. Eu aceito voltar a trabalhar com a .

Lógico. Era exatamente isso que ele queria.

- ? – Miles voltou a me encarar.
Eu me sentia a ponto de explodir, mas não havia nada que eu pudesse fazer. realmente era nossa melhor chance. Claro, eu ainda podia revelar tudo. Revelar o que ele confessara para mim há pouco mais de uma semana atrás, mas a verdade é que eu blefara. Eu não tinha coragem de repetir aquilo em voz alta, e a idéia de mais alguém sabendo me apavorava. Eu sabia que só havia uma resposta possível para aquela pergunta.
- Ok. – eu disse, de olhos fechados e cabeça baixa. Eu não podia acreditar. Aquilo não podia estar acontecendo.
- Perfeito então! – disse Miles, sorrindo.
Eu tentei forçar um sorriso para ele, mas tenho consciência de que deve ter saído mais como uma careta do que como qualquer outra coisa. Sem dizer mais nada, eu apenas dei as costas e segui para fora daquela sala antes que Miles pudesse me parar.

Xx

- Quer dizer que o Mr. Presas está de volta? – perguntou . Estávamos todos, com a exceção de Tara, reunidos em nossa sala, que ainda tinha livros espalhados por todo o canto. A pesquisa não havia acabado, mas no momento nós apenas conversávamos.
- Exatamente. – eu respondi. Ao sair do escritório de Miles, eu viera direto para cá. Surpreendentemente, eu não havia tido vontade de ficar sozinha, e desabafar ao menos aquela parte específica da noite havia me proporcionado certo alívio. Eu sabia que meus amigos compartilhariam comigo a indignação com o que nosso chefe estava fazendo.
- Bom, não posso dizer que senti falta dele. – disse .
- Pelo visto a gente vai ter que engolir essa. – declarou , sacudindo a cabeça – Sabia que era bom demais pra ser verdade quando você nos avisou que ele havia mudado de equipe.
- O que eu posso dizer? Tudo que é bom dura pouco. – eu disse, suspirando.
- O Miles perdeu a cabeça. – continuou – Ele simplesmente não estava lá. Não estava lá há nove meses atrás, quando e Coraline chegaram aqui. É fácil ficar atrás de uma mesa e ditar ordens.
- Você fala como se você fosse às ruas se arriscar todos os dias. – disse Gilbert, mas seu tom e sua postura eram apenas divertidos, não ofensivos.
- Eu geralmente fico aqui com as minhas armas, sim. Mas afiar estacas e desenvolver armamentos não é só o que eu faço. As coisas depois que passou brevemente para o lado negro da força acabaram nos envolvendo. Ou vocês não lembram? Não lembram das vezes que aqueles três tentaram nos atingir para machucar ? Não podíamos nem ao menos deixar o prédio. Eu lembro de da primeira vez que ele esteve aqui. Todos parecem ter esquecido porque não estavam diretamente envolvidos, mas nós? Foram poucas as vezes que nos encontramos, mas eu lembro bem do que ele é capaz. Por isso eu não acredito nessa besteira de redenção. Eu não sei o que está fazendo aqui dentro, mas não é algo bom. Não importa o que aconteça, quantos vampiros ele mate ou quantas pessoas ele salve... é um vampiro. É um assassino. Nada vai mudar minha opinião quanto a isso.
Eu me senti momentaneamente culpada. Eu sabia muito bem o que estava fazendo aqui. Eu era o motivo para a presença dele entre nós.
Como , eu também lembrava. Preciso admitir que nos últimos tempos, por mais difíceis que as coisas tivessem se tornado entre mim e , ainda assim eu aos poucos começava a conhecê-lo um pouco melhor. A convivência antes da declaração dele, e os poucos momentos após, haviam me revelado algumas coisas sobre a personalidade do vampiro. Agora chegava a parecer estranho lembrar do que ele já havia feito. Odiar já era algo tão comum para mim que eu já não me concentrava mais nos motivos. Mas, sim, eu lembrava. Lembrava de todas as coisas cruéis que ele me dissera na época que Coraline havia arrastado para o lado deles. Eu sempre soube que em parte aquela vontade de me atingir era uma forma que ele tinha de colocar a raiva para fora. Só um idiota não perceberia o quão irritado havia ficado quando sua querida Cora apagara a memória de para que ele esquecesse a pessoa boa que se tornara. Coraline obviamente gostava mais de , mesmo sendo quem se devotara a ela em absoluto durante décadas. Mas não eram só nossas discussões que haviam criado meu ódio pelo vampiro, nem o fato de ele ser um dos culpados, embora involuntariamente, por eu ter perdido meu ex namorado. Não, além de tudo isso ele ainda um assassino, um monstro que nunca se envergonhara de ser o que era. Ele era a coisa que eu era forçada a caçar toda noite.

Minha mente começava a seguir um caminho bem obscuro quando a porta da sala se abriu.

- Ahn... Oi. – disse Aramis, parado à entrada meio sem jeito, sorrindo sem graça.
Aramis era um caçador também. Mas ao contrário de mim, ele nunca esteve sozinho e tivera uma escolha. Vai ver por isso ele sempre parecia tão... Leve. Ali, parado à porta, ele parecia meu total oposto. Tão despreocupado, tão puro, de certa forma. Homem nenhum de vinte e dois anos pode ser considerado puro, na minha opinião, mas mesmo assim... Eu me sentia tão suja naquela noite, e Aramis aparecia assim, tão cheio de alegria natural, que eu não consegui controlar a onda de afeição que senti pelo garoto. Eu queria mais do que qualquer outra coisa no mundo poder ser como ele naquele momento. Eu precisava de um pouco daquela luz, e talvez essa fosse a razão de eu ter me levantado da poltrona na qual eu estava sentada e corrido até ele, sorrindo e o abraçando com força. Ok, não exatamente com força, já que eu não queria quebrar o rapaz, mas com firmeza.
- Opa. – disse Aramis, rindo surpreso – Desse jeito eu vou acabar me sentindo amado. – brincou ele.
- Eu não posso mais abraçar um amigo? – eu perguntei, sorrindo. Era contagiante. Estar perto de Aramis fazia tudo parecer menos complicado.
- Você não costuma abraçar seus amigos. Pelo menos não com freqüência. – disse , e eu fingi não perceber o ciúme em sua voz.

fez o mesmo.

- Gente, esse aqui é o Aramis. Acho que eu o mencionei e aos irmãos pra vocês. A equipe com a qual o estava? – eu disse, tentando desviar do assunto desagradável – Aramis, esses são Gilbert, , e .
- Oi. – disse o garoto, lançando o habitual sorriso bonito e ofuscante.
- Oi. A que devemos a honra da visita? – perguntou , de jeito cuidadosamente simpático.

Cuidadosamente demais para ser sincero.

olhou dos dois garotos para mim com um olhar de simpatia. continuou fingindo indiferença e Gilbert realmente parecia não estar percebendo nada de estranho.
- Oh, eu só quis vir dar um oi pra depois que nos avisaram que o vai mudar de equipe novamente.
- Veio me agradecer? – eu disse, soando miserável até para meus próprios ouvidos. Aramis riu.
- Eu até estava começando a gostar do cara. Tirando os comentários ofensivos e a mania que ele tem de implicar com todo mundo, até que ele é suportável. A gente estava aprendendo bastante com ele, e quando tenta ser civilizado até dá pra conversar direito. Não é à toa que tanta gente por aqui passou a gostar dele.
Oh, é, quase havia me esquecido do fato de que meus colegas de trabalho gostam mais de um vampiro do que de mim. Ok, ao menos tenta falar com os outros, enquanto eu geralmente fico na minha, mas e daí? O insuportável é um vampiro. Pelo menos eu sou meio-humana!
- Você diz isso porque ele nunca ameaçou sua vida no passado. – disse , com um explícito toque de desprezo na voz – Deve ser fácil pra você.
- ! – eu ralhei. Eu podia entender o motivo do péssimo tratamento ao meu novo amigo, mas mesmo assim não podia admitir. Não era apenas pelos sentimentos de por mim (fato que, como regra, eu fingia ignorar), mas também porque ele não estava acostumado com aquilo. Antes de , era o único homem próximo a mim, com a exceção de Miles e Gilbert, que naquele sentido realmente não contavam. Quando chegara, e principalmente quando nós começamos a nos aproximar, o descontentamento de era visível. Foi uma das épocas mais difíceis para nosso bizarro triângulo amoroso – eu, e . Três amigos que se adoravam, mas que ao mesmo tempo sofriam de sentimentos conflitantes. gostava de mim como mais do que uma amiga. sempre fora afim de – que não fazia a menor idéia disso – e sempre tentara negar esse fato para todo mundo, ao mesmo tempo em que fingia não saber o que sentia por mim. E eu? Eu estava me apaixonando por naquela época, amava como um irmão e não queria que nem ele nem se machucassem. Com o tempo se tornara melhor em esconder seus sentimentos, e as coisas voltaram ao normal. Agora, porém, parecia estar transferindo para Aramis o sentimento que tivera por frente ao fato incomum de que outro rapaz estava se tornando próximo a mim.
O clima ruim na sala começava a se fazer impossível de ignorar quando o som da porta se abrindo trouxe a salvação.

Salvação na forma de Tara Maclay.

O sorriso tímido habitual da loirinha murchou assim que ela adentrou o aposento. Com a testa levemente franzida, Tara olhou dos garotos para mim e , como se pudesse ver as nuvenzinhas negras se formando no aposento. Bom, nuvens eu não sei, mas algo ela podia ver. Tara via auras, ou coisa assim, certo?

Minha pobre aura depois daquela noite devia estar parecendo um buraco negro de tão escura.

Percebendo que todas as atenções haviam se voltado para ela, Tara balançou a cabeça como se tentando espantar os pensamentos e se voltou para mim.
- ? Hm... O me pediu pra te avisar que ele está te esperando na sala de treinamento. Ele quer conversar.
- Avisar? – eu perguntei, rindo sem humor – Espera, deixa eu adivinhar... Essas foram as exatas palavras dele, não é? Avisar. Como seu eu não tivesse nada melhor pra fazer da vida do que ir atrás dele.
- , não me bate, mas... No momento você realmente não tem nada pra fazer. – disse . Oh, isso que é amiga. Mas acho que eu não podia culpá-la se o que ela estava sentindo por mim no momento não era exatamente simpatia. Na verdade, era até melhor eu sair daquela sala e levar Aramis comigo. Mesmo eu não me sentindo mentalmente pronta para encarar novamente tão cedo. Oh, céus. Ás vezes eu só queria poder fazer tudo simplesmente desaparecer. Virar “puff”.

Ótimo. Agora eu estou usando onomatopéias na minha mente. Deus, me ajude.

- Melhor ir ver o que ele quer. – eu disse, forçando um sorriso. Me voltando para Aramis, eu suspirei – Desculpa. Nós somos tão ocupados, e quando surge uma oportunidadezinha pra conversar, o morto-vivo atrapalha.
- Não precisa se desculpar. Eu já ia ter que sair mesmo. Miles está reforçando o número de caçadores nas ruas depois da notícia. – disse Aramis.
- Ele ficou um pouquinho bitolado com essa história. – eu concordei, proferindo o eufemismo do milênio.
Com um “tchau” meio sem jeito para meus amigos, Aramis saiu da sala e subiu as escadas junto a mim e Tara, que por algum motivo, que eu desconfiava conhecer, resolvera me acompanhar. Minhas suspeitas se confirmaram quando, ao nos separarmos do caçador no andar superior, Tara imediatamente se voltou para mim.
- Tente não ser dura com ele. E ignore se ele tentar te atingir de alguma forma. – disse ela.
- Oh, então eu devo ouvir qualquer besteira que ele tenha pra me dizer e não revidar? – eu perguntei, sarcástica. Não havia motivos para perguntar de quem ela estava falando.
- Acredite se quiser, ele não quer te machucar, por mais que esteja convencido do contrário. está confuso. As vibrações que ele está emanando são quase impossíveis de decifrar.
- Ok, Tara. – foi só o que eu disse, tentando não soar muito grossa. Eu sabia que, se tentasse falar mais alguma coisa, acabaria sendo rude ou até meio agressiva. Aquele era um assunto que eu não queria discutir com ninguém, muito menos com Tara, que ao mesmo tempo parecia saber tanto e tão pouco. Eu tinha certeza que , assim como eu, não havia dividido os acontecimentos dos últimos tempos com ela, mas a garota era simplesmente sensível demais para esse tipo de coisa. Ela desconfiava que existia mais entre mim e do que nós deixávamos os outros saberem, eu tinha certeza. Mas mesmo assim não queria brigar com Tara. A cada dia eu gostava mais dela. Uma vez que se vencia o exterior tímido, descobria-se uma garota madura, inteligente e bizarramente perspicaz, além de doce, confiável e compreensiva. Aos poucos Tara estava perdendo a timidez comigo e se tornando uma amiga de verdade.
Nós andamos o resto do caminho em silêncio. Tara me deixou na porta, me desejando apenas um “boa sorte” que soou sincero. Deus sabia que era o que eu precisava.
Respirando fundo, eu abri a porta.
- Ok. – eu disse para , que se levantou dos colchões de ginástica nos quais estava sentado assim que eu entrei – Diz logo o que você quer. Eu realmente não estou a fim de conversar.
- Oh, não? – perguntou ele, fingindo confusão – Quer partir logo pra parte do beijo então?
Eu realmente não sei o que me deu. Ok, sei sim. Foi raiva. Raiva daquele sorriso convencido, daquele jeitinho superior, daquelas palavras com a única intenção de me irritar. A soma de tudo isso foi o suficiente para me fazer vencer os poucos metros de distância que nos separavam e lançar meu punho em direção ao rosto dele. , porém apenas o segurou, rindo e prendendo também o outro após minha segunda tentativa fracassada de soco.
- Vamos lá, , você sabe que raiva é a maior inimiga da precisão. – ele disse, entre risos – Acho que preciso voltar a te treinar.
- Oh, é mesmo? – eu disse, logo antes de torcer um pouco os punhos, conseguindo ao mesmo tempo soltá-los e prender os de . Antes que ele pudesse reagir, o puxei para mim pelos braços com força ao mesmo tempo em que o golpeava na barriga com o joelho. Eu o larguei e ele escorregou para o chão com um gemido – E só pra constar... Não ouse encostar um dedo em mim de novo.
- Você não estava reclamando algumas horas atrás. – ele disse, se levantando.
Dessa vez eu me controlei antes de agir por puro impulso.
- Você realmente quer que eu te machuque, não quer? – eu perguntei. Ele havia começado a me cercar, e eu fiz o mesmo, de forma que andávamos como se traçando um círculo no chão, um de frente para o outro – Sempre soube que você era do tipo que gosta de apanhar.
- Engraçado, não fui eu que fiquei toda animadinha com a idéia de palmadas. – ele rebateu, sorrindo daquele jeito irritante.

Aquilo já era demais.

Tenho vergonha de dizer que me descontrolei e parti para cima dele naquele ponto. Minha calma já estava por um fio, e com ele provocando, não tinha como me controlar. Mas era exatamente isso que ele queria. Com uma agilidade impressionante, se desviou de mim, em seguida me prendendo por trás enquanto eu passava pelo buraco no ar antes ocupado por ele.
- Você realmente precisa aprender a controlar seu temperamento. – ele disse no meu ouvido, a voz provocante e eufórica pela luta, enquanto suas mãos acariciavam meus pulsos, que ele prendia contra minhas costas – Pelo visto ele é tão indomado quanto seus hormônios.

Oh, ele estava pedindo.

Com toda a força que eu tinha, lancei minha cabeça para trás, acertando a dele. me soltou imediatamente e eu aproveitei para me virar para ele, imediatamente dando um chute circular. Consegui acertar o peito dele e o vampiro caiu, grunhindo de dor.
- Isso é o suficiente ou você quer mais? – eu perguntei, juntando toda força que eu possuía para me manter relativamente calma – Escuta, , eu realmente não estou no clima para brigar com você. Se dependesse de mim, eu não estaria nem olhando na sua cara no momento. Na verdade, se dependesse de mim você estaria se mudando pra outra galáxia. Mas a Tara me disse que você queria falar comigo, então fale de uma vez!
- Se é assim que você se sente, pode ficar tranqüila, . – disse ele – Eu só queria te avisar que você não vai precisar conviver com a minha tão odiável pessoa nos próximos dias.
- , em primeiro lugar, você não é uma pessoa. E em segundo... O quê? – eu perguntei, confusa.
- Se você não tivesse saído tão cedo da sala de Miles, saberia que eu o avisei que ficarei cerca de uma semana sem aparecer por aqui. Quero resolver umas coisas. Não devo passar mais de três dias fora da cidade, mas disse a Miles que seria mais, começando por amanhã. É que além de tudo eu preciso de um tempo sozinho, para organizar minha cabeça.
Algo no que ele disse não me pareceu totalmente certo, como se houvesse algo que ele estivesse escondendo de mim. Um tempo sozinho? Não. não era o tipo que precisava de tempo para pensar nos problemas. Eu não sabia o que exatamente ele planejava, mas tinha algo ali que ele não estava me contando.
- Pra onde você vai?
- Isso eu não posso te dizer. – ele respondeu, sem me encarar – Mas antes que você pergunte, não tenho nenhum plano maligno ou o que quer que você esteja pensando.
- O que você vai comer? – eu perguntei, antes que pudesse me controlar.
- O quê? – ele me encarou confuso.
- O acordo não vale fora da cidade, certo? E você não vai ter as doações de sangue para beber... Vai poder atacar pessoas.
- Suponho que sim. – ele disse, sorrindo de leve – Claro que eu poderia simplesmente assaltar hospitais, mas sim, eu posso voltar a caçar pessoas fora de Los Angeles. Eu sinto falta disso... Mas por que a pergunta? Vai pedir que eu não mate humanos?
- Eu não vou te pedir nada! – eu exclamei, irritada. Eu não chegaria aquele ponto. Me recusava a pedir o que quer que fosse para aquela criatura.
- Oh, o orgulho. – disse , suspirando – Meu segundo pecado favorito.

O sorriso que ele me lançou tornava desnecessário perguntar qual era o primeiro.

- Você devia tirar uns dias de folga também, sabe? – continuou ele – Aposto que você nunca tirou férias. Te faria bem. – disse ele, seu rosto aos poucos adquirindo certa seriedade – Você pode fingir que não, mas eu sei que você está preocupada e que eu não sou o único dos seus problemas. Essa história toda com o Mestre anda te deixando estressada. E o pior, assustada.
- Não é da sua conta. – eu respondi, irritada. apenas continuou me encarando, como se visse dentro da minha alma – E pára de me olhar assim!
- Assim como? – ele perguntou, a voz neutra.
- Como se você me conhecesse! – eu exclamei, exasperada.
- Eu te conheço, . Te conheço melhor que os seus amigos. Porque eles vêem apenas o que você quer que eles vejam. Já eu... Eu já te vi no seu pior, . Já te vi em seu momento mais cruel, mais frio. Eu vi um lado seu que nem você conhece direito.
- Se você acha que o que aconteceu na sua cripta é o pior que eu posso fazer... – eu ri sem um pingo de humor – Você definitivamente não me conhece.
- Pode até ser. Mas alguém antes de mim já esteve disposto a te conhecer? Conhecer não só o que há de bom, mas também o que há de ruim em você? Me diga, , alguém antes de mim já se interessou em conhecer a verdadeira ?

Eu não sabia o que responder.

- Era só isso que você queria? – eu perguntei, sem encará-lo, fugindo visivelmente do assunto. suspirou.
- Era. – disse ele, em tom meio derrotado. Ele começou a passar por mim de forma a sair do aposento, mas parou de súbito – Por que você está com o cheiro de Aramis? – perguntou ele, com a mandíbula travada.

Droga de super olfato vampírico.

- Não que seja da sua conta, mas eu o abracei. – eu respondi, de forma quase defensiva. Era estranho que ele tivesse demorado tanto para perceber o cheiro do outro caçador.
- Oh, claro. – disse , em um tom que misturava sarcasmo e irritação. Ele me encarou por um longo momento com um brilho raivoso, possessivo no olhar, e eu cheguei a pensar
que ele me agarraria. Na verdade, por um momento eu quis que ele me agarrasse. A de certa forma fria fúria no rosto de , precariamente controlada, me excitou de um jeito estranho. Ninguém nunca me olhara daquele jeito. Talvez por isso eu nunca tivesse percebido o quanto o ciúme me atraía. Era... Boa a sensação de ver um homem irritado daquele jeito com a idéia de existir outro cara na sua vida.
Mas pra minha extrema surpresa e decepção, , depois de um tempo, apenas continuou seu caminho em direção à porta, sem dizer mais nada.
Algo dentro de mim despertou naquele momento. A lembrança de que havia algo que eu ainda precisava fazer e a sensação de que eu não podia deixá-lo ir daquele jeito se misturaram dentro de mim e me deram forças para falar o que era necessário.
- ? – eu chamei, quando ele já estava com a mão na maçaneta, surpreendendo até a mim mesma.
Ele se voltou para mim, confuso, e esperou enquanto eu lutava para botar aquelas palavras para fora. Eu nem ao menos sabia o que exatamente me levara a querer dizê-las, apenas... Apenas senti que devia.
- Não mate ninguém quando você sair da cidade. Por favor. – eu pedi, juntando toda a coragem que eu tinha.
não respondeu. Apenas me olhou por um longo momento com uma expressão indecifrável, depois abaixou levemente a cabeça e saiu da sala.
Eu não tinha motivos de acreditar naquilo. Na verdade, tinha todas as evidências para pensar o contrário. A natureza de , a raiva que ele devia ter de mim pelo modo como eu o tratava... Mas naquele momento eu acreditei.

Naquele momento eu tive certeza que atenderia meu pedido.


Capítulo 13 - The Power Of Tequila


(N/a: Música do capítulo - Oh my God, da Pink)

's POV

Eu odeio livros velhos.

Há duas semanas atrás, se você me perguntasse, eu responderia o contrário, na verdade. Eu sempre gostei de volumes antigos. Mas passar tardes e tardes no meio de milhares de diários de caçadores não é algo exatamente divertido. Eu estava tomando horror àquilo. Alguns diários até tinham passagens interessantes, e admito que acabei aprendendo uma coisa ou outra com as histórias dos que vieram antes de mim, mas a grande maioria era tão absurdamente chata e escrevia tão mal que dava vontade de parar de ler. Não que eu pudesse, claro. Mesmo ainda não achando nada realmente útil naqueles diários, Gilbert continuava dividindo os volumes entre nós e insistindo que procurássemos e anotássemos qualquer coisa estranha. Nomes de vampiros, para o caso de eles aparecerem em mais de um volume, situações estranhas, etc. Qualquer coisa que pudesse nos dar alguma idéia de quem esse Mestre podia ser. Realmente parecia impossível que um vampiro tão velho nunca tivesse encontrado um caçador, mas todas as nossas suspeitas acabavam se mostrando erradas. Ou o vampiro do qual suspeitávamos tinha a morte descrita em outros diários ou se mostrava novo demais para se encaixar no perfil. Ainda tínhamos uma lista de nomes, mas minha intuição me dizia que o nome certo não estava ali.
Fechando o milésimo diário daquela tarde, eu suspirei, jurando para mim mesma que a partir de agora passaria a escrever com mais atenção no meu diário de caçadora, simplesmente para facilitar a vida das gerações futuras caso algum coitado precisasse ler. Os diários eram algo que Miles e os chefes que vieram antes dele sempre insistiram que nós mantivéssemos. Era a única forma de se documentar o conhecimento obtido com o trabalho, e era a única fonte de pesquisas sobre o assunto que os caçadores mais novos podiam ter. Eu confesso que antes de ter que ler todos aqueles cadernos eu apenas colocava notas nos meus, ou descrevia brevemente algum acontecimento fora do comum. A parte mais detalhada de todos os meus diários era a época em que e Cora chegaram aqui e o inferno se abriu abaixo de mim. Mas a partir de agora eu faria algo ao menos um pouco interessante de se ler. Os coitados que viessem depois de mim não mereciam ter que aturar esse tipo de coisa.
Pensar em diário me fez lembrar o que eu achara naquela casa abandonada. Miles me garantiu, de forma até meio grossa, após minha insistência, que era impossível alguém ter roubado um diário. Que todos estavam em posse da Organização. Mas eu sabia o que tinha visto – e escutado. Além daquele diário específico, havia outros em posse do Mestre. Pelo menos havia sido isso que o tal Drigger dissera. Talvez o Mestre tivesse conseguido pôr as mãos em diários que o mencionavam. Mas como ele conseguira? E por que Miles negava?

Minha cabeça começou a doer.

Você já se sentiu como se tivesse tanta coisa em sua cabeça que seu cérebro começa a sofrer com o peso de tudo isso? Era assim que eu me sentia. Por isso espantei os pensamentos, guardando-os em alguma parte distante da minha consciência para analisar quando eu estivesse me sentindo melhor. Era isso que eu andava fazendo nos últimos três dias, desde que saíra misteriosamente da cidade. Fugia ao máximo de pensamentos complicados que envolvessem a ele, ao Mestre, a e a qualquer outra coisa preocupante. Se eu não pensava sobre isso, não existia. Esse era minha filosofia. Até que estava funcionando, de certa forma.

Eu vivo em meu próprio mundinho de negação. E daí?

- Algo promissor? – eu perguntei à , que estava sentada na poltrona à minha frente. Eu e ela havíamos escapado das pesquisas naquela manhã, de modo que Gilbert insistiu que ficássemos sozinhas trabalhando à tarde. E nós havíamos obedecido. Eu era uma híbrida com força sobre-humana e , uma feiticeira até bem poderosa, mas nenhuma de nós ousara desafiar aquele homem na facha dos cinqüenta sem nenhuma habilidade excepcional. Simplesmente havia algo quando Gilbert clareava a garganta, levantava uma sobrancelha e nos olhava como um pai rigoroso que nos fazia sentir como criancinhas levando uma bronca. Não que ele fosse sempre assim. Quando eu era criança, o adulto severo na minha vida era Miles. Gilbert era meu treinador, meu conselheiro e acabou se tornando uma espécie de pai pra mim. Fora Gilbert quem cuidara de mim esses anos todos, e eu sabia que ele me amava como a uma filha. Mas quando ele queria, sabia ser sério e meio intimidador.
- Se você considera promissor trinta páginas sobre o porquê esse cara achava que Keanu Reeves é um vampiro sem alergia ao sol... – disse , coçando os olhos – E eu achando que os diários mais novos fossem ser mais interessantes. Eu não sei o que é pior. Diários velhos com linguagem arcaica ou diários novos mal escritos. Pelo menos antigamente as pessoas não abusavam tanto da língua.
- Mas pelo menos os novos não me fazem ter que pegar o dicionário de cinco em cinco minutos. – eu argumentei – Me passa outro novo.
Sem olhar direito, pegou um dos cadernos de aparência mais nova e jogou descuidadamente na minha direção. Algo caiu de dentro do caderno e ela se abaixou para apanhar, enquanto eu pegava o caderno no ar e analisava a capa. Não era um diário de caçador. Na verdade, todos os funcionários mantinham diários parecidos, mesmo que os mais importantes fossem os de caçadores. Aquele diário era de , que provavelmente o esquecera ali pela manhã.
- , manda outro, esse aqui é o diário do ... – eu disse, levantando os olhos e imediatamente me arrependendo daquelas palavras. analisava com uma expressão um tanto quanto sombria a parte de trás da foto que caíra do diário de trabalho.

Uma foto minha.

Nenhuma de nós falou nada por um tempo. Eu odiava admitir, mas esse era um daqueles momentos. Um daqueles breves momentos que nos forçavam a parar de fingir que não me via como mais do que uma amiga. Eu posso parecer fria, posso ser egoísta às vezes, cruel... Mas há pessoas no mundo cuja existência eu valorizo tanto ou mais do que a minha. era uma dessas pessoas. Eu amava o garoto como um irmão, e ter que admitir que aquela queda dele por mim existia era difícil. Difícil porque nunca haveria nada entre nós, e difícil porque aquilo machucava . Nós três éramos muito bons em fingir que aquele triângulo amoroso não existia, simplesmente porque aquilo era mais confortável para todas as partes. sabia que não tinha chances comigo, não queria ter raiva de mim por tudo isso e eu só queria meus amigos agindo normal comigo.
- Ahn... – eu disse finalmente, desistindo de lutar – É normal amigos carregarem fotos de amigos consigo.
- Oh? – disse , sem expressão – E é normal amigos alterarem dedicatórias de amigos para que essas pareçam declarações? – disse ela, lançando a foto para mim. Era uma foto minha que tirara a cerca de um ano e meio atrás, e me pedira para escrever uma dedicatória no verso. Com o coração apertado, eu virei a foto.

Para , o amigo homem simplesmente perfeito para mim.

Te amo horrores, besta.

xX


O “amigo” estava riscado com uma cor de caneta diferente.
Eu ergui meu olhar para , pensando no que dizer. Esse era um momento raro, na verdade. Não lembro de já ter acontecido mais de duas vezes antes. Era um momento em que não havia fingimento entre nós. Ela não fingia esconder o que sentia, e eu não fingia não saber disso.
- ... Vai ver ele... Vai ver foi alguém que fez isso pra implicar com ele... Talvez...
- Não, . – disse , me interrompendo e se levantando, com uma risada seca – Só... Pára, ok? Não precisa me consolar. Eu não quero que você tente... Só pára, tudo bem? O ... O gosta de você. – ela disse rindo, porém parecendo estar à beira de lágrimas – Sempre foi você. Pra que continuar fingindo que não? Você é a garota diferente. A especial, a mais interessante... Eu? Eu sou só a . A , que está lá o tempo todo. A menina que gosta dele desde criança. A amiga. O nunca nem olhou pra mim. – ela disse, de forma meio amarga – Nunca me enxergou de verdade. Não como mais do que a amiguinha imbecil. Então pra que continuar fingindo?
- ...
- Não! – disse ela, me interrompendo de novo. Eu a conhecia bem demais para saber que ia chorar. Mas não na minha frente – Por favor... Cala a boca. Desculpa, eu... Eu não posso falar com você no momento. – disse ela, logo antes de sair porta a fora como um furacão.
Eu levei as mãos ao rosto, exausta. Mais essa agora. Como era possível que eu fosse capaz de machucar minha melhor amiga sem nem ter que me esforçar pra isso? Eu não sabia como eu podia ter evitado esse tipo de coisa, mas me sentia culpada. E a culpa, somada à tristeza por ver triste, adicionou mais um peso no meu coração. Oh, ótimo.
Eu não agüentava mais. As coisas estavam chegando a um ponto no qual era simplesmente impossível continuar daquele jeito. Eu não suportava mais viver dia após dia me sentindo mal comigo mesma. Cada dia era uma coisa diferente... Quando exatamente eu me tornei esse ser deprimido e patético? Aquilo me irritava.

Oh... Raiva.

Era esse o meu maior combustível, não era? O que me mantinha em pé era transformar a dor em indignação contra o mundo. Era ser a vadia insensível que todo mundo temia. De alguma forma, nos últimos dias eu andava deixando que o mal-estar emocional me vencesse.

Chega.

Desde que voltara, minha vida afundara de vez. Eu chorara duas vezes nas últimas duas semanas. Estava deixando que ele e o resto do mundo me atingissem... Mas chega. Chega de sofrer, aquela não era eu. A verdadeira engolia a dor e seguia em frente. Seguia como a megera cruel e amarga, mas seguia. Eu precisava me concentrar na raiva, na indignação, e esquecer do resto.

Álcool, também, não faria mal no momento.

Eu tinha que sair. Distrair a cabeça. Ir pra algum bar... Alguma boate. Encher a cara, dançar, talvez brigar com alguém. Ou pegar alguém. Oh, esse era um pensamento interessante. Talvez assim eu até conseguisse esquecer de vez o .

É, muito provável. Que não.

Mas mesmo assim valia a pena tentar. Levantando-me e seguindo para o quarto em piloto automático, eu tentei apenas me concentrar naquela idéia. Eu tinha um plano agora, e isso era bom.

Por pelo menos uma noite, eu queria me sentir viva.

Xx

’s POV


Lar, doce inferno.

Não dá pra dizer que eu senti falta de Los Angeles. Certo, em três dias nem que eu quisesse realmente daria tempo de sentir saudades. Mas cá estava eu agora, de volta à cidade e desesperadamente precisando da ajuda do meu amigo Jack.

Jack Daniels.

Estranho, não? É de se pensar que eu, criatura bizarra e masoquista, estaria ansioso para ver antes de me afogar em Whiskey. A verdade é que eu não estava. Eu queria sim vê-la, escutar sua voz, mas antes disso precisava de um pouco de coragem líquida. Digamos que minha viagem me mostrou exatamente o que eu queria encontrar. Algo que dizia respeito a e que eu era forçado a manter em segredo. Eu havia decidido fazer essa viagem na noite na qual me beijou como o primeiro passo do meu novo plano de ação. Sim, um plano anti-heróico, eu admito, mas que com certeza funcionaria melhor do que qualquer coisa que ou outro idiota em um cavalo branco pudessem tentar. Por essa razão, eu saíra da cidade em busca de uma confirmação para uma suspeita séria que eu tinha. E, sim, eu a encontrara. Algo que poderia mudar a vida de drasticamente.

Mas algo que eu nunca poderia revelar.

Pela primeira vez em quase um mês, eu me senti um pouco mal pelo acordo que fiz com Miles. Não o suficiente para me arrepender, claro. Me desculpe se eu não sou um cara bonzinho que se sente mal pelas próprias decisões egoístas. Mas em minha breve viagem eu confirmara minhas suspeitas relativas à verdade sobre e... E agora não me sentia totalmente pronto para encará-la sabendo o segredo que eu escondia. Era melhor que ela nem soubesse aonde eu havia estado, mas isso na verdade era por um motivo diferente. Eu podia apenas imaginar a reação que teria, por isso não revelaria meu paradeiro nos últimos três dias.

Digamos apenas que Nova York é linda nessa época do ano.

Oh, sim. Eu havia estado na cidade do Romeu de . Aproveitara para espiá-lo, inclusive. Cheguei a estranhar que não tivesse sentido minha presença por perto, mas acho que dava para entender. O babaca realmente parecia ocupado. Eu só conseguira o ver uma noite, e no resto do tempo chegava a parecer que ele nem estava na cidade. Talvez o desgraçado andasse passeando no helicóptero que eu vi rondando o pequeno prédio que ele usava como sede pro grupinho de caçadores dele. Oh, sim, eu havia investigado e encontrado o lugar. Estava em Nova York mesmo, por que não tentar descobrir algum podre do príncipe encantado? Eu acabara não conseguindo muita coisa útil, na verdade. Mas pude ver as pessoas com as quais ele trabalhava agora, em especial uma menina. Uma vampiresa recém-criada que, na única noite na qual eu vira , havia andado para cima e para baixo ao lado dele como se preferisse morrer a se afastar. O idiota não parecia a tratar como mais que uma colega de trabalho, mas a imbecil obviamente estava louca por ele. Eu realmente não entendo essas garotas. A vampiresa era linda, e havia algo... Incomum nela. Porque ela, assim como , perdia tempo com um babaca como – que no caso dessa garota nem ao menos parecia interessado – era um mistério para mim. Mas aquilo havia me dado uma idéia do porquê havia ficado tão perturbada na noite da tempestade. Ela havia ligado para lá... Provavelmente acabara conhecendo a concorrente. E se eu estava certo na impressão que tinha sobre essa garota, não devia ter sido uma conversa tranqüila. A vampiresa parecia alguém determinada e que não media esforços para conseguir o que queria.

Eu já gostava dela, na verdade.

Mas como eu gostaria de qualquer mulher que tentasse tirar da jogada, isso não era lá um elogio muito grande.

O fato de eu ter espiado o queridinho de era mais uma coisa que eu precisaria esconder dela, pelo menos até pensar em como minhas descobertas poderiam me ser úteis. Mais uma vez a necessidade de uma dose se fez presente, e eu continuei em meu caminho em direção a uma boate que eu já conhecia há algum tempo. O lugar não era muito grande, mas possuía um bom bar e uma pista de dança decente. O fato de não ser um dos lugares mais badalados da cidade era outro ponto positivo. Los Angeles era conhecida por sua vida noturna, me perdoe o trocadilho. Mas vampiros não eram a única raça que vagava pela cidade durante a noite, e o amontoado de pessoas em bares e clubes podia complicar a vida de alguém que só estivesse precisando tomar um drinque em paz. Por isso eu gostava daquele clube. O lugar nunca ficava nem lotado e nem vazio... Simplesmente perfeito.
Ao atravessar as portas da boate, eu segui direto para meu lugar habitual no canto do bar, pedindo uma dose de Whiskey. Eu não acho que teria sequer olhado para a pista de dança se não fosse aquele cheiro... O cheiro dela.
Eu virei a cabeça e meu queixo caiu. Literalmente. E não só porque estava lá. E dançando.

Não. O problema era como ela estava dançando.

Por um segundo eu duvidei que fosse realmente ela. Eu sempre achei linda, mas no momento ela parecia uma deusa ou algo assim. O cabelo estava solto e levemente bagunçado, balançando suavemente enquanto ela se movia. Em seus pés estavam as habituais botas pretas que iam até logo abaixo do joelho, a partir de onde a calça preta extremamente justa e de cintura ridiculamente baixa começava a aparecer, expondo um pouco de sua barriga e contrastando com a camiseta de alça branca bem decotada. Eu senti uma onda furiosa de ciúmes. Para mim ela estava vestida como uma verdadeira vadia, e pelo modo como ela dançava, aquela parecia ser a intenção. Afinal, ela não estava exatamente afastando os rapazes que se aproximavam dela.
O lado mais primitivo de mim, o que não tinha sequer uma lembrança de humanidade, se enfureceu. O vampiro em mim queria sangue. E sexo. Era a minha propriedade que estava expondo. Ela era minha. Não me importava o que ela achasse sobre isso, e não me importava o porquê de ela ter aparentemente resolvido bancar a biscate por uma noite. O sentimento de posse era mais forte que a racionalidade, de forma que eu virei a dose de Whiskey rapidamente e segui até ela.
estava de costas para mim. Eu lancei um sorriso aos rapazes que a rodeavam e simplesmente deixei minhas presas se alongarem, tentando não rir quando todos começaram a se afastar, com expressões de choque e pavor. Nada preocupante, na verdade. Logo eles interpretariam o que aconteceu como ilusão de ótica, ou bebida demais, ou que eu simplesmente usara presas falsas. Bendita seja a mania dos humanos de tentar explicar racionalmente qualquer acontecimento sobrenatural.
pareceu nem perceber o que acontecera, ou ao menos não se importar. Eu venci a pouca distância entre nós e descansei minhas mãos em seus quadris, por baixo da camisa, grudando em seguida a frente do meu corpo contra suas costas. O corpo dela ficou tenso por um segundo – ela sabia que era eu. Essa era a parte em que me empurrava e ia embora, por isso esperei o inevitável. Mas, para minha surpresa, depois de um momento ela voltou a relaxar, deixando que seu corpo se inclinasse para trás até que estivesse totalmente descansando sobre o meu, sua cabeça encostada em meu ombro.
O choque absoluto durou apenas o tempo que minhas narinas levaram para identificar o cheiro forte que se misturava ao natural dela – álcool. Oh, agora tudo fazia sentido. A caçadora andara bebendo.
Meu corpo havia começado a seguir os movimentos dela, acompanhando a batida lenta da música. Afastando seu cabelo de forma a liberar seu pescoço e sua orelha, eu inclinei a cabeça levemente, falando em seu ouvido.
- O que você está fazendo aqui?
se afastou um pouco e por um momento eu pensei que ela ia embora. Mas a caçadora apenas se virou de frente, colocando os braços em volta do meu pescoço e encostando o corpo novamente contra o meu. Eu olhei em seus olhos, delineados de preto de forma levemente esfumaçada, e só o que eu encontrei lá foi determinação. Quando eu digo “só”, quero dizer literalmente. Com exceção da determinação, não havia nada ali. Ela parecia tão vazia quanto estivera no que agora me parecia uma vida atrás, quando eu a encontrara saindo do banho no dia no qual completaram seis meses de ausência de . Algo acontecera. Eu podia ver claramente o mecanismo de defesa de funcionando. Algo de ruim acontecera e a fizera vir para cá em uma tentativa de fuga.
- Não é da sua conta. – ela respondeu, sem parar de dançar.
- É da minha conta se você está bêbada em uma boate bancando a piranha. – eu disse, sem conseguir manter a raiva longe da voz.
- Não, não é. – disse ela, rindo. Rindo! Não uma risada feliz, longe disso. Uma risada me ridicularizando mesmo – Por quê, ? Ficou irritado, foi? Ciúmes de mim? Ou só raiva porque eu te deixo excitado, mas qualquer um aqui tem mais chances de dormir comigo do que você? – ela continuou, com a boca encostada na minha orelha.
- Você sabe que isso não é verdade. – eu disse, tentando me controlar.
- Oh, não? – ela perguntou, fingindo confusão – Estranho isso. Porque eu vim para cá com a intenção de ficar com um desses caras mesmo. Isso te irrita? Pensar em outra pessoa tocando em mim?
- Se você não me quisesse, não estaria aqui comigo.
- Oh... Ai que você se engana. Eu só não consigo me controlar, entende? Você me quer tanto que chega a ser patético. – ela respondeu, levando minhas mãos de volta para seu quadril – Não dá pra não tentar te provocar. É tão... Fácil. – ela continuou, movendo o corpo grudado no meu de forma lenta e sensual – É isso que te irrita tanto, não é? O quanto você me deseja.
Eu segurei o quadril dela com força, parando seus movimentos.
- Continua com isso e eu vou te mostrar exatamente o quanto eu quero você. – eu ameacei.
- Pra isso você vai ter que me tirar daqui antes, certo? – disse ela, se afastando de mim e seguindo para o bar. Eu grunhi de raiva e a segui.
A alcancei no bar ao mesmo tempo em que o barman colocava um shot de vodka à frente dela.
- O que você está fazendo aqui, de qualquer forma? – ela perguntou, sem precisar se virar para mim – Achei que estava fora da cidade.
- Voltei essa noite. Mas acho que aproveitarei meus dias restantes longe do trabalho. – eu respondi, me encostando no balcão ao lado dela.
- Melhor pra mim. – disse , pegando o copinho a sua frente e o virando todo de uma vez, fazendo uma careta ao bater o copo no balcão.

Chega. Aquilo estava indo longe demais.

- Vem comigo. – eu disse, puxando o braço dela.
- Eu não vou pra lugar nenhum. – ela respondeu, soltando o braço.
- Você vai parar de beber e voltar pra casa. Agora.
- Você não manda em mim. – ela disse, de forma meio infantil – Eu não te devo obediência, nem respeito, nem ao menos satisfação do que faço ou deixo de fazer.
- Nesse ritmo não tem condições de você continuar aqui. – eu insisti. Ela ainda parecia bem, e eu sabia que o fato de ser meio vampiresa influenciava nisso. Mas estava óbvio que, se continuasse desse jeito, ela se embebedaria de verdade.
- Oh, não? – ela perguntou, sorrindo – Me observe!
E com isso, ela voltou para a pista de dança, pegando uma cadeira de uma das mesas próximas à mesma e a arrastando com ela. Ao invés de segui-la, eu apenas continuei encostado ao balcão, com os braços cruzados e um pouco curioso. Não era o único, na verdade. A maioria das pessoas do lugar haviam parado o que faziam para assistir largar a cadeira no meio da pista de dança, enquanto uma música com uma batida sensual começava a tocar. sorriu e levou uma mão ao cabelo, enquanto a outra descansava nas costas da cadeira, seus quadris aos poucos começando a balançar no ritmo da música.

Oh, ela não faria isso... Faria?

Put me on the table...
(Ponha-me sobre a mesa)
Make me say your name...
(Me faça dizer seu nome)
If I can't remember,
(Se eu não conseguir lembrar)
Then give me all your pain.
(Então me dê toda sua dor)

No momento em que ela apoiou as duas mãos nas costas da cadeira, levantou o quadril para trás e rebolou lentamente, imitando o movimento com a cabeça, eu entendi que ela faria isso sim.

I can sit and listen...
(Eu posso sentar e escutar)
Or I can make you scream...
(Ou eu posso te fazer gritar)
Kiss it and make it better...
(Beije e faça melhorar)
Just put your trust in me.
(Apenas confie em mim)

Oh, não. Por favor, não. Eu me senti endurecer mais ainda dentro das calças jeans. Não era como se eu já não estivesse excitado desde o momento em que a vira. Mas a situação agora estava se tornando particularmente dolorosa. Talvez – não, principalmente porque ela fazia questão de olhar nos meus olhos o tempo todo. havia largado a cadeira momentaneamente e erguera as mãos no ar, mexendo os quadris de um jeito que simplesmente me implorava para tocá-los. Ainda fazendo questão de me encarar, ela lentamente foi dobrando os joelhos, descendo o corpo até o chão bem devagar, as mãos descendo por suas pernas e subindo de volta por dentro de suas coxas quando ela lentamente começou a levantar de novo.

Oh my God, go a little slower...
(Oh meu Deus, vá um pouco mais devagar)
Oh my God, what was that again?
(Oh meu Deus, o que foi isso mesmo?)
La da da, let me feel you baby...
(La da da, me deixe te sentir, baby)
Let me in, 'cause I understand.
(Me deixa entrar, porque eu entendo)
Let me feel you baby...
(Me deixe te sentir, baby)
'Cause I understand.
(Porque eu entendo)

Assim que ela estava novamente de pé, uma de suas mãos passou a acariciar o próprio corpo enquanto a outra encontrava o caminho para dentro de seu cabelo, o qual era segurou no topo de sua cabeça enquanto continuava a dançar. A bebida definitivamente espantara todo o resto de inibição que aquela criatura podia ter. Não havia dúvidas de que ela já havia conseguido seduzir cada ser do sexo masculino no lugar, e aquilo me dava raiva. Era pra mim que ela estava dançando. Nenhum desses idiotas tinha direito de olhar.

I understand all,
(Eu entendo tudo)
Now climb my sugar walls,
(Agora escale minhas montanhas de açúcar)
Problem solved, it's dissolved,
(Problema resolvido, estão dissolvidas)
With the solvent known as spit.
(Com o solvente conhecido como saliva)
Lickity lick, not so quick. It's a...
(Lambe-lambe, não tão rápido. É um...)
...Slick ride, make my mink slide,
(...Percurso escorregadio, faz minha "doninha"1 escorregar)
'Cause were all pink inside.
(Porque todos rosados por dentro)

Lentamente, ela começou a liberar o cabelo que prendia no topo da cabeça, de forma que eles cascateavam ao redor de seus ombros. Com a mesma mão ela acariciou o lado de seu rosto, descendo para seu pescoço, seu seio e dali escorregando por seu estômago. Ela estava cada vez mais próxima, e foi só então que eu percebi que estava andando. Estava indo até ela devagar, incapaz de controlar meus próprios passos, e sorriu, ainda mexendo o corpo naquele ritmo provocante. Cada movimento dos seus quadris parecia me puxar mais para perto, até que eu finalmente estava logo à frente dela. me puxou pela jaqueta, fazendo com que nossos corpos se colassem enquanto ela dançava. Virando-se de costas de repente, ela pressionou o corpo para trás, encostando-o contra o meu. A caçadora levantou um dos braços e levou-o para trás, atravessando meu ombro de forma a segurar minha nuca. Com a cabeça encostada em meu outro ombro ela se deixou escorregar pelo meu corpo até o chão, a mão descendo por minha nuca e trilhando o caminho todo até minha barriga. Eu me sentia a ponto de explodir. Precisei travar minha mandíbula com força para que nenhum som necessitado escapasse de meus lábios. O efeito que aquela garota tinha sobre mim não podia ser normal.

This can be really easy...
(Isso pode ser bem fácil)
It doesn't have to be hard...
(Não precisa ser difícil)
Here baby, let me show you...
(Aqui, baby, me deixa te mostrar)
I'll have ya, climbing up the walls.
(Eu vou fazer você subir pelas paredes)

Levantando-se novamente, ela me empurrou para a cadeira, na qual eu caí sentado. No momento seguinte estava no meu colo, de frente para mim e com uma perna de cada lado das minhas. Jogando uma mão para trás e se inclinando até que essa tocasse o chão, arqueou as costas, deixando que as pontas de seus cabelos roçassem no solo. Eu não conseguia fazer nada a não ser olhar. Ela deixou que a outra mão trilhasse um caminho de seu decote até sua barriga antes de se levantar de novo, segurando meus ombros e aproximando o rosto do meu. Eu me inclinei para frente, de forma a beijá-la, mas imediatamente agarrou meu queixo, virou meu rosto para o lado e deu um tapinha fraco em minha bochecha. Rindo, ela se levantou e, apoiando as mãos em meus joelhos, desceu o corpo rapidamente até o chão, se levantando devagar e imediatamente voltando a dançar provocativamente. Bem à minha frente. Só para mim.

You got all the problems
(Você tem todos os problemas)
I think that I can solve.
(Que eu acho que posso resolver)
Why don't you come in here baby?
(Por que você não vem aqui, baby?)
Why don't we sit and talk?
(Por que nós não sentamos e conversamos?)

Ela continuou dançando até o fim da música. Algumas pessoas aplaudiram. Outras assobiaram e gritaram comentários nada respeitosos. Não que parecesse se importar. Me olhando fixamente por um momento, ela deu as costas, seguindo para o banheiro feminino antes que eu pudesse ir atrás dela.

Xx

’s POV


Oh, droga, droga, droga!

Eu estava parada, com as mãos encostadas na pia e me olhando fixamente no espelho com cara de assustada. Que merda eu tinha feito? Oh, sim. Eu havia resolvido dançar exageradamente na frente de uma boate inteira. E o pior. Eu havia feito isso para . Feito isso com .
Ele simplesmente havia me irritado tanto... Quem era ele para controlar o que eu fazia ou deixava de fazer, afinal? Só o que eu sei é que a raiva foi tanta que eu agi sem pensar. Eu queria puni-lo. Deixá-lo com ciúmes, como eu fizera daquela vez na sala de treinamento. Fazê-lo me querer e não me ter, só para que ele sofresse um pouquinho.

Céus, eu devia parar beber.

Se bem que eu não me sentia totalmente bêbada. Estava sóbria o suficiente para reconhecer que me sentia um pouco bêbada, sim, por mais estranho que isso fosse. Mas ainda estava (relativamente) sob o controle do que fazia ou deixava de fazer. Ainda conseguia raciocinar quase normalmente. Eu não estava tão mal assim.

Ainda.

Não estava mais ia ficar. Eu só entrara no banheiro na esperança de que, quando saísse, tivesse ido embora. Eu precisava beber mais. Por ser meio vampiresa, minha resistência a álcool era acima do normal. Eu precisava de bem mais para ficar bêbada de verdade... Talvez de uma garrafa de tequila. Isso. Uma garrafa de tequila seria perfeito.
Só o que eu queria, desde o começo da noite, era me sentir viva. Ou pelo menos sentir alguma coisa. Qualquer coisa além da sensação ruim que já se tornava habitual. Por isso eu viera para cá. Talvez se eu dançasse bastante, bebesse bastante, meus problemas iriam embora, pelo menos temporariamente. Ficar com algum cara – qualquer cara – também seria bom. Eu precisava tirar da minha mente. O quão irônico é o fato de justamente ele ter aparecido por aqui? Com aquela droga de toque arrepiante, e voz sexy, e...

E eu estava perdida mesmo.

A mera proximidade de fora o suficiente para me fazer desistir de outros homens. Nenhum outro seria o suficiente, então só o que me restava era seguir para o bar e me afogar em tequila.

E foi exatamente isso que eu fiz.

Com uma sensação de alívio, vi que não estava por perto. Minha cabeça estava confusa demais para tentar localizá-lo pelo radar, mas não importava. Ele não estava no bar e o bar era o que eu queria.
- Um shot de tequila, por favor. – eu pedi, me sentando em um dos banquinhos. O barman rapidamente colocou o sal e um limão fatiado na minha frente, em seguida enchendo um copinho.
Eu lambi o sal que havia colocado entre meu indicador e polegar e levei o copinho aos lábios, inclinando a cabeça para trás e virando o shot, em seguida batendo o copo vazio na mesa e mordendo uma das fatias de limão.
- Mais uma? – o barman perguntou e eu assenti.
- Deixa a garrafa.
Ele me olhou, com um sorriso sem graça.
- Desculpa a intromissão, mas eu realmente não acho...
Me recusando a prestar atenção no coitado, eu levei uma das minhas mãos a uma barra de metal que contornava o bar, a apertando com toda a minha força, de forma a deformá-la.
- Eu disse “deixe a garrafa”. – sorrindo de forma não muito simpática, eu tentei usar o tom mais paciente que possuía.
Olhando para minha mão apavorado, o barman assentiu firmemente com a cabeça e praticamente correu para o outro lado do bar, deixando a garrafa comigo.

Quem disse que força é a melhor forma de persuasão estava absolutamente correto.

Xx

- E agora, – eu dizia, apoiando um cotovelo no bar – ele acha que pode mandar na minha vida! Mas ele não pode mandar na minha vida, porque é a minha vida! – eu continuei, tendo certeza de que soava bem lógica e tomando mais um gole direto da garrafa. Depois dos seis primeiros shots seguidos, beber direto começara a parecer bem fácil.
- Aham. – respondeu o garçom, me olhando estranho. Por que ele me olhava assim? Como seu eu estivesse bêbada? Era a mesma forma que ele me olhara quando eu contei pra ele que era um vampiro. E que eu não era totalmente humana. E que havia um grupo do mal tentando nos destruir, com um líder que me mandara um colar que podia fazer meus dentes caírem. Era tudo muito lógico, eu realmente não entendia o porquê da descrença. Descrença. Eu ri, encostando minha cabeça no balcão. Descrença era uma palavra engraçada.
- Ok, caçadora, acho que é hora de você ir pra casa. – disse uma voz gostosa ao meu lado. Oh, ! Quando chegou aqui?
- Quando você chegou aqui? – eu perguntei. Ha! Eu ainda consigo falar exatamente o que penso. Eu disse que não estava bêbada.
- Eu precisei sair para arranjar uma coisa, mas depois voltei e apenas fiquei te vigiando de longe. Sabia que não ia poder te impedir mesmo. Mas agora já chega, vou te levar de volta.
- Eu posso ir andando! – eu insisti, me levantando para provar meu ponto. Oh. Quem é o filho da puta que tá girando o mundo?
- Tô vendo que você pode ir andando. – disse , revirando os olhos e me segurando.
- TIRA SUAS MÃOS SEXYS DE MIM! – eu berrei. Ele pareceu surpreso e realmente soltou meus braços. Em seguida sorriu, balançando a cabeça.
- Oh, eu espero que você se lembre disso amanhã. – disse ele, rindo. Claro que eu lembraria. Por que não lembraria?
Erguendo o queixo um pouco, eu peguei a garrafa já com menos da metade do conteúdo e segui para a porta, me concentrando em andar em linha reta. Eu podia chegar em casa sozinha. Eu era . Eu não ficava bêbada. Bêbada. Palavra engraçada...
Eu virei a cabeça para trás, vendo falar rapidamente com o barman e deixar algumas notas sobre o balcão antes de me seguir. Um vampiro pagara minha bebida. Ele devia estar bêbado. Pff! Fracote.
Eu consegui chegar a parte de fora do clube sem tropeçar nenhuma vez. Não que eu esteja bêbada ou algo assim. Não era culpa minha se o mundo estava com vontade de girar mais rápido essa noite.
- , dá pra esperar? – disse a voz gostosa do de novo. E desde quando eu comecei a me referir assim à voz dele?

Ok, então talvez eu esteja bêbada.

- O que foi? – eu perguntei, dando mais um gole na garrafa. Minha cabeça estava confusa. Eu precisava de tequila para clareá-la.
- Você não pode ficar andando por aí nesse estado. – disse ele, correndo até mim. Oh, eu ainda estava andando – Me dá essa garrafa.
- NÃO! – eu gritei, abraçando a tequila como se fosse meu bebê – Eu estou bem.
- Você está praticamente com um sinal de “isca de vampiros” colado na testa. Não tem condições de voltar pra casa sozinha.
Eu parei e me virei para ele. Ok, essa era uma daquelas horas complicadas. Complicadas porque eu tinha que pensar. E meu cérebro não queria pensar. Eu respirei fundo e olhei pra ele.
- Ok. O que você quer de mim?
- Ahn? – disse ele, confuso. Ha! A bêbada surpreendeu o malvadão. Quem é a boa aqui, ein?
Eu sou. E acho que não deveria estar respondendo minhas próprias perguntas retóricas.

Certo, eu estou bêbada mesmo.

estava me olhando estranho agora. Preocupado. Me pergunto o motivo... Oh! Vai ver é porque eu só estou falando dentro da minha cabeça ao invés de respondê-lo. Talvez esse seja o probleminha.
- O que você quer de mim? – eu perguntei novamente.
- Uhn... Te levar pra casa? Eu não quero nada de você, .
Eu ri. Ri um pouco escandalosamente, eu acho. Porque aquela frase era ridícula. “Eu não quero nada de você”. Ha! Como se isso fosse possível.
- Todo mundo quer alguma coisa de mim. – eu disse, quando me recuperei – Querem que eu mate vampiros... Eu tenho que matar vampiros. Ou querem que eu seja feliz mesmo não tendo uma vida. Querem que eu agüente tudo, feliz e sorridente... Meu chefe quer que eu faça o que ele manda sem nunca reclamar. Meu melhor amigo... Bom, meu melhor amigo me quer. E a no momento quer que eu suma da face da terra. Então me diz, , o que você quer de mim?
- É isso então? O quê o fez? Foi isso que te deixou nesse estado, não é? – perguntou , me olhando com... Pena?!
Eu me irritei. Lá estava eu, perguntando o que ele queria e ele resolvia agir como o bom moço preocupado. Argh! Eu não queria a pena dele. Eu queria a raiva. Eu precisava da raiva.

Ele não ia me dizer o que queria? Não precisava. Eu sabia muito bem.

Vencendo a pouca distância entre nós, eu lancei meus braços ao redor do pescoço dele, infelizmente derrubando um pouco do conteúdo da minha garrafa com o gesto. Me esticando um pouco, eu forcei meus lábios contra os de .
Ele não reagiu de imediato, visivelmente chocado, mas eu não desisti. Eu pressionei meu corpo contra o dele e deixei que minha língua tocasse seus lábios, que se abriram quase como por reflexo. Minha língua encontrou a dele e eu senti a já conhecida sensação de rios de lava partindo do meu útero e seguindo para todas as partes do meu corpo.

Eu me senti viva.

E em seguida, irritada.
Eu passara a noite inteira tentando me sentir assim. Chegara a ir a extremos em busca daquela sensação. Sensação que provava que eu não estava morta, que fazia meu coração acelerar e me tornava absurdamente ciente de cada centímetro do meu corpo. A noite inteira tentando e eu só conseguia me sentir assim nos braços de um vampiro.

Eu só me sentia viva nos braços de alguém morto.

Pura raiva me fez beijá-lo com mais força. gemeu contra meus lábios, finalmente se entregando e agarrando minha cintura com uma mão enquanto a outra subia pela minha nuca até meus cabelos, os segurando com força. Bom garoto. Não tem nem metade da graça se você não participar.
E, oh, que graça aquilo tinha. Não graça de engraçado. O fato de um simples beijo ter o poder de deixar minha calcinha úmida não era engraçado. Era desesperador. Mas a língua dele sabia exatamente o que fazer para provocar meus gemidos desesperados. Nós lutávamos por controle sobre o beijo, mas eu já sabia que perderia. Era como se soubesse exatamente o que eu gostava. Ele me beijava como se tivéssemos feito aquilo a vida inteira, e não apenas poucas vezes. Não tinha como não me deixar levar, me entregar à liderança dele por pelo menos alguns minutos.
Ok, ar. Ar se tornara um problema, de forma que eu precisei o empurrar de leve, descansando a testa contra a dele brevemente. Quando novamente me senti pronta para falar, eu me afastei, olhando nos olhos dele. Uh, brilhantes. Eu esqueci o que ia falar por um momento. Ok, o álcool definitivamente não fazia bem para minha capacidade de raci... Racio... De pensar, pronto.
- Tá feliz? – eu perguntei, espantando os pensamentos confusos e lambendo meus lábios levemente ao perceber o quão próximo ele ainda estava – Pronto. Já teve o que queria. Agora me deixa em paz. – eu disse, me afastando um pouco contra a vontade. Eu não queria me afastar. Mas então por que aquela voz estranha na minha cabeça insistia que era isso que eu devia fazer? Beijar era errado. não deveria beijar homem bonito com caninos afiados. O porquê disso eu não lembrava no momento, mas eu devia ter alguma razão.
Voltando a andar, eu dei mais um gole na minha garrafa. O beijo tinha me despertado um pouco, e isso não podia acontecer. Ficar sóbria significava cabeça confusa de novo, e a bebida deixava tudo tão simples... Eu virei a cabeça pra trás e dei um gole ainda maior. Oh... Tonteira. Cambaleando, eu me encostei a uma parede e me deixei escorregar até o chão, me sentando no asfalto com a minha tão fiel garrafa. Acho que ela era minha melhor amiga. A tequila não queria nada de mim. Ela não se mudava para Nova York pelo “meu próprio bem”. Ela não me deixava. Viva a tequila!
Oh, estava se aproximando. Droga. Por que ele não podia simplesmente me deixar em paz?
- Eu já te dei o que você queria, me deixa em paz! – eu reclamei, estranhando minha própria voz. Por que ela soava tão embolada e arrastada?
- Aquilo não era o que eu queria. – disse ele, suspirando e se abaixando até ficar à minha altura. Eu apenas o olhei, meio magoada. Ele não queria me beijar? Por que o vampiro sexy não queria me beijar? – Quer dizer... – ele disse, ao perceber minha expressão – Claro que eu queria, mas não é só o que eu queria. Eu só quero te levar pra casa, tudo bem?
- Não. – eu disse, emburrada. Aquele tom paciente dele, de quem falava com uma criança, estava me irritando – Eu tô bem aqui. Eu tenho bebida, oh. – eu disse, levantando a garrafa na direção dele pra provar meu ponto. Uh, péssima idéia. Antes que eu pudesse reagir, arrancou a garrafa da minha mão e a jogou longe.
- Você já bebeu demais por hoje. – disse ele, sério – Agora me deixa te levar pra casa. Minha moto está aqui perto.
Moto? tem uma moto? Oh, legal!
- Moto? Onde você conseguiu uma moto? – eu perguntei, tentando manter a animação longe da minha voz. Ele riu. Acho que eu não estava tendo muito sucesso.
- Consegui enquanto você se embebedava no bar, e tenho certeza que você não quer saber como. – respondeu ele. Ah, então ele tinha roubado isso também. Vampiro ladrão. É por isso que eu o odeio. Mesmo ele sendo bonito e beijando bem. Ele beija bem... Ei, por que ele não está me beijando agora?
estava me olhando preocupado outra vez. Preocupado e um pouco divertido... Divertido. Outra palavra engraçada. Oh, ele está falando de novo.
- ? Você ouviu o que eu disse? – ele perguntou. Eu mordi meu lábio inferior, meio envergonhada, e neguei com a cabeça. Ele riu de mim outra vez. Eu tenho cara de palhaça, por acaso? – Eu perguntei se você quer ir pra casa de moto, pequena. – disse ele, de forma carinhosa. Ele ficava fofo quando falava carinhoso assim... E por algum motivo eu sabia que não devia estar deixando isso acontecer. Mas eu não me lembrava o porquê, então não devia ser importante, certo?

Certo. E lá vou eu responder minhas perguntas retóricas de novo.

- Ok. – eu disse, tentando fingir desinteresse. Acho que o sorriso gigante e as palminhas que eu dei estragaram o efeito, no entanto.
Ele sorriu novamente. Oh, céus, ele ficava ainda mais bonito quando sorria assim.
- Vamos então. – disse ele, se levantando. Eu tentei fazer o mesmo, mas minhas pernas resolveram não me obedecer.
- Ahn, ? – eu disse, erguendo meu olhar para ele, ciente de que devia estar com cara de criancinha confusa – Minhas pernas não querem se mexer.
- Isso é porque você bebeu feito um peixe, minha linda. – disse ele, rindo. Oh, ele nunca me chamou assim antes. Deve estar se aproveitando do fato de que eu não lembro o porquê não deveria estar deixando ele me tratar assim. Esperto. E ei, ele havia me ofendido!
- Peixes não bebem tequila. – eu disse, revirando os olhos e me achando muito esperta. Ha! Engole essa, . Eu ainda sou capaz de te dar um fora mesmo bêbada. Bem feito! A mãe dele nunca o havia ensinado a não cutucar onça com vara curta? Se bem que a vara dele não era nada curta... E eu vou fingir que não tive esse pensamento.
Olha, havia se abaixado novamente. E agora estava me colocando um braço embaixo das minhas pernas e o outro nas minhas costas. Uh, braços do . Braços fortes do . Um arrepio desceu pela minha espinha. Uh-oh. Aquilo não era nada bom.
- Eu vou te levantar no colo. Preparada? – perguntou ele.
- Sim senhor, capitão. – eu disse, batendo continência e rindo. apenas revirou os olhos, mas sorriu. Ele gostava quando eu fazia piadas.
- Ok. – disse ele, se levantando comigo no colo como se eu tivesse o peso de uma pena. Oh, força de vampiro. Sempre útil – Certo, senhorita , sua carruagem te aguarda. – ele disse, começando a andar um pouco mais rápido do que um humano normal. Na verdade, bem mais. Nós estávamos indo muito rápido. Ou eu estava muito bêbada. Ou talvez ou dois.
- O quê? Eu achei que a gente ia de moto! – eu reclamei, choramingando um pouco. não quer ir de carruagem. Eu quero a... Oh, fora uma piada – Eu quero dizer... Tudo bem. – eu concertei. Ha! Aquilo o enganou, com certeza. Ele só estava rindo porque estava feliz, só isso. sempre estava feliz quando estava perto de mim. Eu tinha sentido a prova disso nas calças dele quando a gente dançou. Ops, eu não devia estar pensando nisso. Fazia meu corpo esquentar todo de novo...
- Sabe, eu realmente espero que você se lembre de tudo isso amanhã. – disse , ainda rindo – Só pra você se envergonhar e saber como é estar no meu lugar. Ser o bobo da história. Você merece saber o quanto é bom. – ele disse, sarcástico. Hm, eu só queria saber o quanto você é bom.

O quê? Foco, , foco!

Nada seguro ficar pensando nas habilidades sexuais do quando os braços sexys dele estão te segurando e sua cabeça está apoiada nesse peito definido, por cima da camiseta. Oh, mas eu sei exatamente como é o corpo dele por baixo disso. Já o vi sem camisa.
Eu senti meu lábio inferior formar um biquinho. Ele não estava sem camisa agora. Por que ele não estava sem camisa?
Ok, então eu queria ver ele sem roupa. Eu admito. Porque no momento eu não tenho culpa, certo? A está bêbada! Não sabe o que está fazendo! Só quer ver o pelado! Grande coisa.
Nós havíamos chegado na moto. Oh, bonita. Toda preta e brilhante. me botou no chão devagar, e eu agarrei seu braço para manter o equilíbrio. Hum, músculos. Mas a jaqueta que ele usava me impedia de apreciá-los direito. Aquela jaqueta precisava ir embora...
- Tira a jaqueta. – eu disse, antes que pudesse me controlar. Ok, quem foi que removeu o filtro entre meu cérebro e minha boca? Ele estava me olhando surpreso e divertido agora... Ok, , pense, pense... – Eu... Eu estou com frio! – exclamei finalmente – Posso usar sua jaqueta?
Ok, então fazia uns trinta graus Celsius essa noite. Espero que o fato de a temperatura nunca incomodá-lo o impeça de perceber isso.

Uh-oh, ele está me olhando daquele jeito provocante e intenso de novo. Acho que minha desculpa não colou.

- Claro, . – disse ele, tirando a jaqueta devagar. Oh, braços expostos! – Eu quero que você se sinta... Quente.
Definitivamente, ele tinha o dom de fazer qualquer palavra soar como a coisa mais absurdamente erótica do mundo.
Eu rapidamente aceitei a jaqueta que ele me oferecia e a vesti. Tinha o cheiro dele. Não pude evitar aspirar o material disfarçadamente. Oh, céus. O simples cheiro dele já fazia meus joelhos fraquejarem.
- Tudo bem aí, ? – ele perguntou, rindo. Certo, era melhor ele parar de rir desse jeito ou eu ia precisar me sentar. Nele, de preferência.

Meu Deus, meus pensamentos são sujos demais.

- Aham. – eu respondi, me voltando para a moto novamente. E só então eu percebi que nós teríamos que montar nela juntos. E eu provavelmente ia atrás, grudadas nas costas dele. Com um vampiro dolorosamente gostoso entre as minhas pernas.

Ops.

Ok, isso soou errado. Eu quero dizer, cada perna minha vai ter que ficar encostada a uma dele enquanto eu monto... Na moto! Oh céus, eu preciso parar de beber.
já havia subido na moto e parecia estar me esperando. Eu olhei pra ele, confusa.
- Só levanta uma perna e passa ela por cima da moto, como se fosse uma bicicleta. – ele explicou. Oh, parecia fácil. O problema é que assim que eu levantei a perna, perdi o equilíbrio e caí no chão. De bunda.

E a noite ficava mais e mais humilhante.

- Ai. – eu reclamei, enquanto ele descia da moto, rindo. Ha, ha. A não tem mais equilíbrio. Vamos todos rir dela.
- Ok, eu devia ter imaginado que isso não era uma idéia tão brilhante. – disse ele, me oferecendo a mão para levantar. Sem ter alternativa, eu aceitei, colocando minha mão sobre a dele. Uau. Eu nunca notara como a minha mãozinha parecia frágil na frente da de . A dele era tão... Forte. Máscula. Meio calejada pelas décadas lutando. Bem... Sexy.

Parabéns, . Agora você tem tara até na mão do desgraçado.

Mas, quer saber, por que não? Eu nem lembrava o porque pegar não era uma idéia tão boa assim. E, caramba, eu queria. Beijá-lo, quero dizer. Fazer um pouco mais também. Muito, muito mais... E eu estava bêbada, certo? Então não era responsável pelos meus atos. Amanhã eu podia simplesmente culpar a tequila por tudo.

Nossa, às vezes eu sou tão esperta que apavoro a mim mesma.

havia me puxado para cima com facilidade, e agora parecia pensar.
- Certo, sem condições de você ir atrás nesse estado. Vai acabar caindo. Acho melhor você... – ele começou a dizer, parando em seguida e engolindo em seco, parecendo ansioso. Eu não entendi o porquê – Acho melhor você, ahn... Ir à minha frente.

Oh. Oh!

Andar de moto com grudado em mim por trás? Deixa eu pensar... Ok, acho que eu podia viver com isso.
- Ok. – eu disse, tentando não me mostrar muito feliz com a idéia – Eu posso dirigir?
- Não, isso você não pode. – disse ele, sorrindo paciente. Minha testa se franziu um pouco e o bico voltou.
- Por quê? – eu perguntei, olhando para .
- Porque você não está em condições, pequena. – respondeu ele.
- Minhas condições são ótimas! – eu reclamei, olhando para meu próprio corpo. Ele não achava que eu estava em forma?
- Suas condições físicas realmente são... – ele parou um pouco, me olhando de cima a baixo como se me despisse. Oh, arrepios – Perfeitas. Mas o que eu quero dizer é que você está bêbada, .
- Não tô. – eu insisti, cruzando os braços, emburrada. Ele tentou prender o riso.
- Está sim. Mas ir na frente é quase como dirigir, eu te garanto. – disse ele.
Eu pensei um pouco. Eu teria um vampiro gostoso atrás de mim de qualquer jeito, então pra que reclamar?
- Ok. – eu concordei, me aproximando novamente da moto. Dessa vez me ajudou a montar, apenas me soltando quando minhas pernas já estavam uma de cada lado do veículo. Eu me sentei e imediatamente exclamei baixo de dor.
- O que foi? – ele perguntou, surpreso.
- Minha bunda tá doendo. – eu disse, inocentemente. sorriu.
- Sua bunda? Oh, por ter caído no asfalto? – ele perguntou. Os olhos dele ficavam ainda mais brilhantes quando ele estava se divertindo às minhas custas. Era fofo – Provavelmente vai ficar com um hematoma aí em baixo.
Quer checar? Uau, o filtro voltou a funcionar. Eu realmente não sugeri isso em voz alta. Que orgulho de mim. Nada de convites a para inspecionar meu traseiro. Excelente força de vontade.
Eu coloquei as duas mãos no guidão, fazendo sons de “vrum vrum”. riu de mim de novo, mas dessa vez foi diferente. Dessa vez ele não estava implicando comigo. riu tão abertamente, de forma tão alegre, que eu não pude evitar encará-lo meio admirada. Uau... Ele ficava lindo rindo daquele jeito, leve. nunca ria assim perto de mim quando eu estava sóbria.
Eu estava tão absorta na minha admiração que nem percebi ele montar na moto atrás de mim até sentir o corpo dele tocando o meu, suas mãos segurando as minhas sobre o guidão. Eu sorri e “inocentemente” deixei que meu corpo caísse para atrás, se apoiando no dele enquanto eu me remexia um pouco no banco, sob o pretexto de ficar mais confortável. Senti respirar forte atrás de mim logo antes de prender por completo o ar e contrair os músculos. Eu tentei não rir. Oh, tadinha de mim. Eu estou bêbada e não tenho controle sobre os meus atos...

Oh, essa seria uma noite interessante.

Xx

’s POV


Ela quer me matar.

Acho que mudou de tática, afinal de contas. Estacas são coisa do passado. O legal agora é matar vampiros por combustão espontânea.

Deus sabe que eu não estou longe disso.

Durante toda a viagem ela insistiu em remexer aquele delicioso quadril, me fazendo quase perder o controle da moto mais de uma vez. Isso sem contar às vezes que ela inclinou a cabeça para trás, descansando-a no meu pescoço e me torturando com sua respiração calma e quente. chegara a encostar brevemente os lábios em minha pele, de forma que quando eu finalmente avistei o prédio da Organização, não pude evitar respirar aliviado. Não sabia por mais quanto tempo meu mantra de “não bata a moto, não bata a moto” adiantaria.
Eu desci do veículo devagar, com cuidado para não afetar o equilíbrio de . Eu ri internamente de mim mesmo. Oh, a que ponto eu havia chegado? Tinha me tornado babá de caçadora bêbada. Isso porque eu estava determinado a não tentar ser o príncipe encantado. Devia ter deixado ela se virar sozinha.
Mas eu não podia. Meus planos teriam que ser interrompidos por uma noite. Quando eu jurei a mim mesmo que seria o cavaleiro negro dela, fizera isso, por mais estranho que pareça, para o bem da garota. Para o meu também, claro, mas acima de tudo porque era isso que ela precisava que eu fosse. Ela não precisava de mais um herói trágico na vida dela. precisava de alguém real, alguém que a enfrentasse, que a forçasse a parar de lutar contra quem realmente era e que a fizesse largar de vez o peso do mundo, o qual ela parecia decidida a suportar mesmo sem nenhuma necessidade disso. Aquela garota tinha um sério complexo de ser heroína e isso me irritava. Eu sabia que, para conseguir tudo isso, teria que trilhar um caminho definitivamente obscuro e potencialmente doloroso. Mas se no fim eu fosse capaz de colocar ao menos um sorriso completamente verdadeiro no rosto dela, valeria à pena.
Porém no momento isso tudo era inútil. Eu não tinha escolha além de bancar a babá dela, por isso a ajudei a descer da moto em segurança, me sentindo um grande babaca. Era a segunda vez que eu me via em uma situação na qual precisava cuidar dela. Da última vez, ela pisoteara meu coração na manhã seguinte após eu ter literalmente salvado sua vida. Confesso que não estava curioso para saber qual seria minha recompensa dessa vez.
Ótimo. Agora eu só precisava levá-la para dentro. Mas o fato de que o prédio ficava trancado durante a noite podia complicar isso.
- ? Você tem as chaves? – eu perguntei.
- Ops. Esqueci. – disse ela, com cara de culpada. Oh, simplesmente perfeito.
- Ok... Você está com seu celular? – eu perguntei. Pelo visto eu não conseguiria levá-la em segredo de volta para seu quarto sem ajuda, então precisava ligar para a única pessoa naquele lugar em quem eu confiava.

Tara. Óbvio.

- Aham. – disse , arrastando um pouco a palavra e sorrindo para mim. Sorrindo para mim. Oh, apesar do trabalho que ela estava dando e do fato de aparentemente ter resolvido me torturar da forma mais cruel possível na moto... Eu não podia negar que estava gostando de vê-la assim. Oh, eu sei, eu sei, eu não presto. Mas em que outra ocasião eu podia ter sorrindo assim e brincando comigo? Sem tentar me ofender, ou me magoar... Não tinha como não gostar daquela versão da caçadora.
- Ahn... Você pode me emprestá-lo? – eu pedi, quando ela não seguiu minha dica inicial.
- Posso. – disse ela, em seguida apontando para o pequeno volume que o aparelho fino fazia no bolso da frente de suas calças – Pode pegar.
Pode pegar?! Oh, ok, assim já era demais. Primeiro as provocações, agora isso? Ela estava tentando... Bom, ela estava tentando me seduzir.

Do que ela estava brincando, afinal? Ela estava brincando?

Oh, se estava, precisava aprender que esse era um jogo para dois. Vencendo o passo de distância que nos separava, eu lentamente deixei que minha mão escorregasse para o bolso dela, puxando o celular e propositalmente deixando que meus dedos acariciassem a parte de sua coxa mais próxima à virilha. fechou os olhos e prendeu a respiração, fazendo uma expressão de prazer que quase me fez perder o chão por um momento. Eu mal a havia tocado! E ela nem tentara disfarçar.
abriu os olhos e eu os encarei atentamente, procurando algum traço de medo, de negação. Só o que eu encontrei foi diversão e... Desejo?

Ela mordeu os lábios devagar e apenas continuou sustentando meu olhar. Oh, sim. Definitivamente desejo.

Juntando toda força de vontade que eu tinha, eu me afastei, procurando rapidamente o número de Tara na agenda e ligando. Eu só esperava que ela ainda não estivesse dormindo.
- Alô? – disse a garota. A voz dela não parecia sonolenta – ?
- Tara? Sou eu, .
- ? O que você está fazendo com o celular da ? – perguntou Tara, parecendo confusa.
- Longa história. Escuta, a está aqui comigo e... Bom, ela não está em condições de subir sozinha. Também não está com as chaves. Você pode descer e abrir os portões pra gente? Eu te explico tudo depois.
- Ok. – disse ela, soando meio desconfiada logo antes de desligar o aparelho.
- A Tara vai descer pra nos ajudar. – eu informei , que ainda estava apoiada na moto. Percebi que ela havia tirado minha jaqueta – Melhor a gente já ir até a porta.
- Ok. – disse , assentindo com a cabeça – Mas minhas pernas ainda estão fracas... Me carrega no colo de novo? – ela pediu, com um sorriso gigante no rosto e piscando os olhos inocentemente.
Por um segundo eu apenas a encarei em choque. Aquela definitivamente não era a caçadora que eu conhecia. O que o álcool não faz com uma pessoa...
Assentindo com a cabeça, eu a ergui em meus braços novamente. de imediato alojou a cabeça confortavelmente entre meu ombro e meu pescoço, descansando uma das mãos em meu peito. Oh, eu podia me acostumar com isso.
Exceto que não, eu não podia. Porque amanhã voltaria a ser a vadia cruel de sempre. Eu não podia me deixar levar ou me apegar demais a esse jeitinho amigável dela, porque simplesmente não era real. Era a bebida agindo, não .
Eu a levei até a porta do prédio. Não demorou muito para avistar Tara saindo do elevador e seguindo até nós. A essa altura, já estava com a cabeça jogada para trás, olhando o céu e cantando uma musiquinha infantil sobre pegar uma estrela, colocá-la no bolso e guardá-la para um dia chuvoso, ao mesmo tempo rindo de alguma piada que só ela parecia entender.
- Oh meu Deus, , o que você fez com ela? – perguntou Tara, assim que abriu a porta e viu o estado da amiga.
- Você devia estar perguntando o que ela fez consigo mesma. – eu respondi, rapidamente entrando no prédio e seguindo para o elevador que nos levaria aos andares subterrâneos da Organização – Tem algum jeito de a levarmos sem que sejamos percebidos? Eu teoricamente estou fora da cidade, e também não acho uma boa idéia mais alguém vê-la assim.
- Oh, Tara! – disse , sorrindo, parecendo finalmente perceber a presença da bruxinha – Eu já te disse que te amo, Tara?
- Entendeu o que eu quis dizer? – eu falei, e ela assentiu. Aquele definitivamente não era o comportamento normal de .
- Nós podemos ir pelo caminho normal mesmo. – disse Tara – Os corredores estão vazios, como sempre. Os caçadores estão pela cidade, e quem ficou no prédio provavelmente já foi dormir. Mas me diz o que aconteceu. – pediu ela, entrando conosco no elevador e apertando a seqüência de botões que revelava o botão secreto.
Durante a lenta descida, eu expliquei a ela o melhor que pude sobre como encontrara assim, sem mencionar os acontecimentos mais embaraçosos. Tara ouviu tudo calada, assentindo e franzindo a sobrancelha um pouco mais a cada segundo.
- Foi por causa do que aconteceu com . – disse ela, quando terminei meu relato e já seguíamos pelos corredores do prédio – As duas encontraram uma foto de no diário de trabalho do e... Bom, você pode imaginar como o clima ficou ruim. Eu sei disso porque a me contou... Ela também não estava em um estado muito bom.
Eu assenti, entendendo. O fato de ser apaixonada por não era desconhecido por mim. Eu sempre fui bom em entender as pessoas, e só um imbecil como não seria capaz de perceber a forma como ela olhava pra ele. Era bem óbvio, na verdade.
Mas isso explicava o que levara a decidir ir a extremos. Eu conhecia a minha garota. Aquela devia ter sido a gota d’água que fez o copo já cheio de transbordar.
- O que a falou de mim pra você? – perguntou , assustando a mim e Tara. Ela havia estado tão quieta durante toda a conversa que eu pensei que ela tinha caído no sono – Aposto que me xingou... Ela me odeia. Mas tudo bem, eu me odeio também...
- Ela não te xingou, e não te odeia. – disse Tara – A te ama.
- Não devia. – continuou – Ela tinha que me odiar. ODIAR!
- , fala mais baixo. – eu pedi, preocupado. Seria difícil explicar a situação se alguém nos ouvisse e viesse ver o que estava acontecendo.
- Por que? – ela perguntou, parecendo confusa.
- Porque ninguém pode nos ouvir. – eu expliquei.
- Oh... Mas eu posso cantar? – ela perguntou, com os olhos bem abertos parecendo meio pidões. Simplesmente irresistível.
- Pode se for bem baixinho. – eu concedi.
- Ok... Row, row, row your boat, gently down the streeeeam... – ela praticamente gritou a última parte, além de alongar absurdamente a sílaba final daquele versinho da música infantil. Irritado, eu dobrei um pouco o braço que a segurava na altura das omoplatas, de forma que minha mão pudesse tapar sua boca, calando a risada escandalosa que seguira a provocação infantil. imediatamente mordiscou minha mão, em seguida deixando que a ponta de sua língua acariciasse minha pele. Oh... Aquela não era uma provocação infantil.
Finalmente chegamos à porta do quarto dela, no qual Tara entrou imediatamente, me esperando fazer o mesmo. Ok, tínhamos um problema agora. Eu não poderia entrar ali sem convite.
- ? – Tara chamou, confusa.
- Eu não tenho convite. – expliquei, em seguida descendo meu olhar para e retirando a mão de sua boca – Caçadora?
- , você gostaria de entrar? – perguntou, de forma meio arrastada, sorrindo e piscando os olhos exageradamente.
- Obrigado, pequena. – eu disse, rindo e passando pela porta. É, realmente não tinha como não gostar dela nesse estado.
- Ahn... O que a gente faz agora? – perguntou Tara, meio confusa. Obviamente nunca havia cuidado de uma pessoa bêbada.

Bom, éramos dois.

- Não faço idéia. Nunca cuidei de um humano assim, e mesmo se tivesse, não seria muito útil no momento. Ela bebeu quase uma garrafa inteira de tequila e Deus sabe o quê antes disso e nem ao menos está passando mal, então imagino que as regras para híbridos sejam um pouco diferentes. – eu disse, observando . Além da aparente tonteira e da óbvia embriagues, a caçadora estava bem. Não ameaçara vomitar sequer uma vez, nem desmaiara... Aquilo era no mínimo incomum – Você pode ir à cozinha e trazer água pra ela? E comida. Chocolate, de preferência.
- Eu vou ver o que eu posso arranjar. – disse Tara – Você pode ir, se quiser.
- NÃO! – exclamou de repente, nos pegando de surpresa – O fica! – ela continuou, parecendo decidida.
Ela queria que eu ficasse? Aquela definitivamente entraria para a lista das noites mais bizarras da minha vasta existência.
- Ahn... – Tara parecia hesitante em sair do quarto. Na verdade, hesitante em me deixar ali sozinho com . Eu não podia culpá-la, na verdade. Ela sabia como eu me sentia em relação à caçadora, e com ela visivelmente fora de si... Era normal que Tara ficasse um pouco desconfiada.
- Confia em mim, Tara. – eu pedi – Eu só vou ficar até ela apagar. Se eu quisesse me aproveitar de , já teria feito isso. Não teria nem ao menos a trazido para cá.
- Oh, não é em você que eu não confio. – disse Tara, com um sorriso misterioso – É nela. Seja forte, ok?
E dizendo isso, ela saiu, me deixando sem entender nada.
Desistindo de tentar decifrar o que Tara havia dito, eu segui para uma cadeira no canto do quarto, observando , que agora estava sentada com as costas contra o encosto da cama e com as pernas cruzadas.
- ? – ela chamou – Por que você tá tão longe? Você me odeia também?
Eu a encarei em silêncio por um momento antes de me levantar e seguir até a cama dela, me sentando ao seu lado, também com as costas contra o encosto da cama e esticando minhas pernas sobre o colchão, sem me preocupar em tirar os sapatos. Como responder aquela pergunta sem mentir? Porque sim, eu realmente tentava ao máximo não mentir para ela. Era apenas o meu jeito, na verdade. Nunca fui um ótimo mentiroso, porque sempre fiz o tipo inconvenientemente sincero. Eu nunca vira razão para não falar exatamente o que pensava, de forma que sempre era o portador das verdades dolorosas. Mas dizer a verdade no momento significaria confessar que, na maior parte do tempo, eu a odiava sim. A amava, óbvio, mas a odiava por isso. Odiava o que ela fazia comigo, o que ela fazia de mim. E odiava como ela me tratava, também.
- Eu não te odeio agora. – eu disse, dando a ela a única resposta sincera que eu podia. Ela pareceu pensar um pouco antes de lentamente assentir com a cabeça, aceitando minha resposta. Em seguida, esticou as pernas paralelamente às minhas e deitou a cabeça no meu ombro. Por um momento eu achei que meu coração voltaria a bater apenas para ser capaz de acelerar.
- Todo mundo me odeia, sabe? – ela disse, em voz baixa – Menos o Gilbert. E a Tara, mas a Tara não odeia ninguém. O me odeia porque eu não sou dele. A me odeia porque o queria que eu fosse, e o resto... Todos os outros me odeiam porque eu faço eles me odiarem.
Eu não soube o que dizer por um momento. Ela nunca havia falado tão abertamente comigo.
- Por que você faz isso? – eu perguntei, finalmente, encostando o queixo no topo da cabeça dela, ao mesmo tempo em que começava a acariciar seus cabelos. Ela não protestou, e eu sabia que devia aproveitar o momento. Gravá-lo em minha mente para poder ficar revivendo durante as horas solitárias em minha cripta. Era o tipo de momento íntimo que a sóbria nunca permitiria que dividíssemos, então só me restava aproveitar ao máximo a chance única que eu tinha de dar carinho a ela.
- Porque eu preciso. – ela respondeu, parecendo longe – Eu preciso ser fria. Distante, cruel... Eu preciso agir como uma vadia com todo mundo porque eu sinto raiva. E eu preciso dessa raiva. Pra continuar caçando, matando. Pra continuar vivendo em função da segurança de pessoas que nem sabem quem sou eu. – ela riu, mas o som parecia mais um soluço choroso do que uma risada – Gente que nem sabe que eu existo... Que nem sabe que vampiros existem. A raiva é meu combus... Combus... – ela tentou, parecendo ter problemas para pronunciar a palavra.
- Combustível? – eu ajudei.
- Isso. É o que me faz continuar seguindo em frente. – ela continuou. falava de forma extremamente lenta, porém ainda assim clara – Se eu derrubar essas paredes que eu construí, se eu... Se eu deixar a raiva de lado, tudo o que sobra é dor. E uma assassina não pode sentir dor. Atrapalha, entende? – eu entendia, talvez melhor do que ninguém. O que me surpreendia era ela ter se referido à matança da minha espécie como “assassinato”. Então no fundo entendia que éramos sim mais do que coisas. Mas pra poder continuar o que fazia, ela precisara convencer a si mesma do contrário – Mas o problema é que de tanto me focar na raiva, ela acabou me dominando. E hoje em dia eu não preciso mais me forçar a afastar as pessoas, a ser ruim com as pessoas. Essa já é quem eu sou naturalmente.
- Você é muito mais que isso. – eu disse, sem conseguir me conter. Porque ela era. No fundo, ela era. Ou ao menos tinha potencial para ser. Eu só precisava fazê-la enxergar isso.
- Se você diz... – disse ela, rindo. Oh, aquela risada não me convenceu. Nem um pouco – Posso fazer uma pergunta? – ela continuou, erguendo a cabeça de forma a poder me encarar e descansando uma mão sobre meu peito.
- Pode. – eu disse, colocando uma mexa do cabelo dela atrás da orelha. continuou me olhando fixamente enquanto umedecia os lábios com a ponta da língua. Eu contive um gemido.
- Por que você não está me beijando agora? – ela perguntou, descendo a mão lentamente pelo meu peito.

Oh. Era isso então.

Só o que ela queria era um pouco de “conforto frio”. Aquele tipo de consolação que nos faz esquecer brevemente os problemas, mas não os resolve. estava bêbada o suficiente para recorrer ao próprio desejo por mim como forma de fugir dos problemas, de esquecê-los. Queria que eu desse a ela uma rota de fuga.
Mas isso era exatamente o que eu jurara que não faria. Ela precisava parar de fugir, de se esconder. No momento, era atrás do álcool que ela se escondia. Dele tirara a coragem e a ele culparia se algo acontecesse entre nós essa noite. Ela havia quebrado nosso padrão na última vez, quando me beijara. Não podia mais me culpar por seus próprios desejos, não podia mais fugir do fato de que também era responsável pelo que acontecia. Agora ela tentava fazer da bebida a responsável pelo que queria. Bem conveniente, de fato. Em um golpe só ela podia conseguir o que queria e sair disso com pose de inocente. Oh, não. Eu não deixaria isso acontecer.
- Porque você está bêbada. Isso seria me aproveitar de você e tenho certeza que está bem ciente disso. – eu respondi, em tom firme.
- E você tem moral agora? – ela perguntou, rindo – Quem se importa se eu estou bêbada? Você me quer. – dizendo isso, se aconchegou mais contra mim, praticamente se deitando sobre o meu corpo enquanto descia a boca para meu pescoço. Claro que eu queria. O corpo dela parecia tão macio, tão quente contra o meu, e seus lábios lentamente roçavam contra a minha pele, tornando difícil raciocinar. Eu hesitei por um bom tempo antes de finalmente empurrá-la um pouco.
- Não assim. Não pra você me culpar por tudo amanhã, se convencer que eu fui um canalha e me aproveitei da situação e ter um bom motivo pra não me olhar na cara nunca mais. – eu disse, juntando todo o autocontrole que eu tinha – Não, . Eu mantenho o que disse quando falei que não te beijaria mais naquele dia. Eu cansei de facilitar as coisas pra você.
- Você realmente vai me afastar agora? – ela perguntou, sorrindo e, antes que eu pudesse reagir, passando uma perna pelo meu corpo de forma a me prender embaixo de dela, em seguida descendo os lábios contra os meus em um beijo firme.
Eu tentei não corresponder. Por cerca de três segundos, na verdade. Mas de alguma forma a língua dela havia conseguido invadir meus lábios, e bastava um toque para que eu perdesse totalmente o controle. Uma de minhas mãos agarrou os cabelos de enquanto com o outro braço eu a prendia contra mim com força pela cintura, de forma a possibilitar que, em um movimento rápido, eu invertesse nossas posições, ficando por cima. Minhas mãos passaram a passear por todas as partes do corpo dela que eu era capaz de alcançar, enquanto as de subiam por debaixo da minha blusa, acariciando minhas costas. Eu senti suas unhas descerem com força por minha pele, e gemi em uma deliciosa mistura de prazer e dor.

Dor.

Dor era o que me esperava se eu deixasse isso continuar.

Eu realmente não sei de onde tirei forças para fazer o que fiz em seguida, mas de alguma forma eu consegui. Lutando contra os anseios desesperados de todo o meu corpo, eu me levantei rapidamente, com a respiração acelerada. Eu não preciso de oxigênio, mas no momento aquilo não importava.
- Não. – eu disse, novamente – Não dá, . Eu não posso facilitar as coisas assim pra sua consciência. Quando acontecer algo entre nós, eu quero que você esteja lá completamente. Quero que você saiba o que está fazendo, que não tenha como negar depois que queria. Eu não quero te ter pra te perder de vez logo depois.
- Ok. – ela me disse, com raiva, alguns segundos depois. Eu respirei aliviado, confiante de que ela tinha desistido – Mas... Eu quero tomar um banho.

Ou talvez não.

- Sinta-se à vontade. – eu disse, apontando para o banheiro. Certo, no estado dela (que eu tinha cada vez mais certeza, não era tão grave assim) eu deveria ajudar. Mas estava muito melhor do que queria aparentar. Bêbada, sim, mas era capaz de falar surpreendentemente bem e tinha controle sobre seus movimentos.
Eu simplesmente não podia entrar no banheiro com ela. Sabia muito bem o que queria.
- Ok. – disse ela, me olhando exasperada antes de tirar a blusa.

É, tirar a blusa.

Eu não pude evitar olhar. Simplesmente era mais forte do que eu. O corpo e era exatamente como eu me lembrava de ter visto na minha cama naquela noite fatídica. Aquela imagem ficara gravada em minha cabeça, de forma que era fácil me lembrar. A barriga linda, a pele suave... Os seios absolutamente perfeitos escondidos por trás de um sutiã branco delicado e revelador... Oh, droga.
Eu estava tremendo. Tremendo como um adolescente virgem. Mas ela estava sorrindo para mim com o sorriso mais pervertido do planeta. Aquela deusa seminua me queria, e eu precisava resistir.

Eu devo ter colado chiclete na cruz, não é possível.

Ela jogou os cabelos para o lado, me dando uma vista privilegiada de seu pescoço. Oh, eu me senti um herói por não atacá-la naquele momento. Enterrar meus caninos naquela pele macia, quente... E sim, os caninos não seriam a única coisa que eu enterraria. Oh, sim, eu era mais do que um herói.
Lentamente, ergueu uma perna na minha direção. Eu ainda estava há poucos centímetros de distância da cama.
- Me ajuda a tirar? – ela perguntou, com a voz baixa e sexy.
Eu engoli em seco. Não me renderia. Não podia deixá-la vencer assim. Se pensava que podia brincar comigo desse jeito, estava enganada. Eu não me deixaria levar pelo joguinho dela. Assentindo rapidamente, eu tirei sua bota, deixando-a cair no chão. então levantou a outra, ao mesmo tempo em que dobrava o joelho da primeira, encostando o pé sobre a cama, e inclinava o corpo para trás, se apoiando nos cotovelos e me encarando com desejo cru, óbvio. A respiração dela estava acelerada, de forma que seus seios subiam e desciam de forma provocante.

Deus, me dê forças.

Enquanto eu retirava a segunda bota dela, me perguntei se Deus ao menos ouvia preces de vampiros. havia começado a descer uma mão pelo próprio corpo em direção do zíper de sua calça, ao mesmo tempo em que mordia quase inocentemente aquele tentador lábio inferior.

É, pelo visto não.

Eu deixei a segunda bota cair e o pé livre de imediatamente se firmou contra a minha barriga, descendo lentamente. Eu não tinha forças para impedi-la. Não tinha forças nem para me afastar dali. O pé dela apenas continuava descendo, devagar, me dando todo o tempo do mundo para fugir. A vadia sabia que eu não conseguiria.
Aquele pezinho atormentador finalmente chegou à minha ereção dolorosamente óbvia, se fixando ali. Eu gemi e fechei os olhos, escutando a risadinha baixa de . De forma torturantemente lenta, ela passou a descer e subir o pé, me acariciando de forma firme e enlouquecedora. Eu estava tão excitado que sabia que mais um pouco e eu acabaria me envergonhando. Sujando minhas calças como um moleque inexperiente. Aquela caricia apenas já seria o suficiente para fazer isso comigo.
No momento em que tive esse pensamento, senti o toque maravilhoso ser removido. Não pude evitar gemer em protesto, abrindo os olhos em seguida e esperando ver rindo da minha cara. Não foi isso que eu vi, no entanto. A caçadora havia se levantado e agora colava o corpo ao meu, colocando os braços em volta do meu pescoço.
- Shh... – disse ela, depositando um beijo longo na pele sensível abaixo da minha orelha – Relaxa... – ela continuou, agora trilhando um caminho de beijos pela minha mandíbula, parando rapidamente para alcançar meus lábios em um selinho antes de continuar, até chegar ao outro lado e descer mordiscando meu pescoço de leve – Você está tão... Tenso... – as mãos dela haviam encontrado meus ombros e os massagearam um pouco, antes de descer até os primeiros botões da minha camisa, que ela começou a abrir – Me deixa cuidar de você...

Ninguém pode realmente me culpar por ter perdido o controle.

Em um movimento brusco, eu a agarrei, levantei um pouco e deixei que ambos caíssemos contra a cama, eu por cima. Ouvi o gritinho de surpresa de com um imenso senso de satisfação, enquanto minha boca atacava a dela de forma faminta e um pouco violenta. Minhas mão subiram pela barriga agora exposta com força, apertando cada centímetro no caminho até chegar aos seus seios. Eu não me importava se a estava machucando, e se estava, não parecia protestar. Ela respondia a cada carícia selvagem minha com a mesma intensidade, com o mesmo fogo. Era por isso que eu tinha tanta certeza que ela fora feita para mim. Por isso a amava.

A amava. Mas ela não me amava de volta.

Esse pensamento insistente foi o suficiente para que eu recuperasse o controle tempo o suficiente para terminar esse raciocínio. Ela não me amava. Nem gostava de mim. Eu era só o desejo proibido, secreto.
Foi então que o orgulho falou mais alto. Eu não podia suportar ser o segredinho sujo de . O erro que ela odiaria na manhã seguinte. Não... Eu não era tão patético a ponto de aceitar as migalhas que ela estava me oferecendo. Não. Para algo acontecer entre nós, eu queria que ela ao menos tivesse total consciência de quem eu sou, do que ela estava fazendo. Ao menos isso eu queria.
Eu parei de beijá-la subitamente, prendendo os braços dela acima da cabeça. se debateu um pouco, tentando se soltar.
- Não pára. – ela pediu, arfando.
- Eu não vou parar... – eu disse – Se você disser que me ama.
Ela me olhou desesperada. Desesperada porque aquela seria uma mentira tamanha que ela não se sentia capaz de contar nem mesmo bêbada. Foi por isso que eu fiz o pedido, na verdade. Porque sabia que a faria parar.
- Se você disser que gosta de mim. – eu continuei. Meu coração se quebrava um pouco mais a cada minuto, mas eu precisava continuar.
Ela me olhou por um momento, fechando os olhos em seguida e voltando a abri-los, respirando fundo.
- Eu... – ela não conseguiu continuar. Não precisava, na verdade. Eu vi a resposta clara nos olhos de . Ela realmente não gostava de mim. Aquilo doeu mil vezes mais do que o fato de ela não me amar. Eu havia cuidado dela, a ajudado, a salvado uma vez, e ela nem gostava de mim? Oh, claro que não. Mas ela amava o idiota que só a fazia miserável.

Eu pensava que eu era masoquista. Agora via que era muito mais.

- Você me quer? – eu perguntei. Dessa vez ela assentiu. Claro, ela me desejava. Me queria. Só isso. Desejo sexual e absolutamente nada mais.
Eu assenti lentamente em compreensão, sorrindo cruel. me olhou um pouco assustada, mas eu depositei um longo beijo em seus lábios, de forma a acalmá-la.
- Você quer sentir prazer? – eu perguntei, e ela corou. Oh, hilário. Disso ela se envergonha – Responda. – eu insisti.
- S-sim. – ela respondeu, vermelha e com os olhos baixos.
- Ok então. – eu disse, a beijando novamente e soltando um de seus pulsos que eu ainda prendia, levando o outro para perto de nossas cabeças – , essa é sua mão. Mão, essa é sua dona. Sejam felizes juntas. – eu acrescentei, antes de me levantar rapidamente da cama e me afastar.
imediatamente se sentou, a compreensão lentamente se espalhando por seu rosto.
- Seu... Seu... ARGH! – ela gritou, pegando uma de suas botas no chão e a jogando na minha direção. Eu desviei, rindo. Oh, a vingança era doce. Muito doce.
pegou a outra bota e arremessou também, errando novamente. Eu comecei a seguir para a porta, rindo sem parar e precisando saltar de um lado para o outro e ás vezes me abaixar de forma a escapar dos objetos da mesa de cabeceira da caçadora, que ela agora atirava continuamente em minha direção.
- EU TE ODEIO! – ela berrou quando eu finalmente cheguei a porta.
- Também te amo, querida! – eu disse, logo antes de bater a porta para me defender de um enfeite de vidro, que eu pude ouvir se quebrando ao bater contra a madeira.
Eu não podia parar de rir enquanto começava a atravessar o corredor. Que se dane o que as pessoas costumam dizer sobre vingança não trazer satisfação. No momento, poucas coisas no mundo me pareciam tão boas quanto àquela sensação.
Eu encontrei com Tara, que segurava uma bandeja, quase no fim do corredor. Oh, céus. Eu tinha me esquecido totalmente que em algum momento ela ia voltar da cozinha. Imagina se eu e não tivéssemos parado?
- Ahn... Achei que você ia ficar até ela dormir. – disse Tara, olhando de mim, que ainda ria, para a porta do quarto de , de onde ainda vinham sons de coisas se quebrando.
- É, eu sei. Mas aí ela resolveu redecorar o quarto no estilo “pós-terremoto”, como você pode ouvir. – eu disse, rindo.
- O que você fez? – ela perguntou, me olhando de forma acusatória.
- Nada. – eu respondi, depositando um beijo na testa dela antes de voltar a atravessar o corredor. Sem olhar para trás, eu continuei – Mas eu sugiro que você vista uma armadura antes de entrar lá. A caçadora está com um humor excelente.
Como se fosse capaz de me ouvir, um barulho mais alto que os anteriores veio do quarto dela.

Agora, mais do que nunca, eu desejava que ela se lembrasse de tudo amanhã. Eu mal podia esperar.

1- Claro que o "doninha" não está no sentido literal. Mas depois de pensar um pouco, eu resolvi manter em português a metonímia da letra em inglês. Levando em conta o resto música, da pra entender o que "doninha" está representando xD



Capítulo 14 - Murphy’s Law


’s POV

Lei de Murphy...

Você sabe como é. O que pode dar errado... Vai dar errado.

Eu odeio como ela pode estar certa às vezes.

Se levarmos em conta o fato de eu ser uma híbrida e minha constituição física ser diferente da de humanos comuns, era de se imaginar que eu acordaria naquela manhã sem ressaca. Com um pouco de sorte, sem memória também. A possibilidade de o contrário acontecer era, de fato, mínima.

Mas para a Lei de Murphy, basta uma fração de chance.

A sensação que eu tive ao acordar naquela manhã foi bizarra. Meu primeiro pensamento ao recuperar a consciência foi que alguém estava apertando o meu cérebro. Não, não apertando, mastigando. Era como se dentes afiados tentassem perfurar meu crânio.
O que eu havia feito para merecer isso? Me recusando a abrir os olhos, eu tentei me lembrar do dia anterior. O diário de e o momento tenso com foram as primeiras coisas que voltaram... Lembrei também da minha decisão desesperada de sair... O que acontecera depois? . estava lá e...

Oh, céus, alguém me mate!

O resto da noite voltou como uma avalanche, de uma vez só e de forma arrasadora. Minha cabeça doeu mais ainda, mas agora, ao invés de torcer para meu cérebro não explodir, eu desejava o contrário. Queria que a minha cabeça estourasse de vez, pois no momento essa era a única saída que eu tinha.
Eu não poderia sair daquele quarto nunca mais. O que eu havia feito, dito... Céus, eu merecia a dor. Eu merecia tanto aquela ressaca... Como eu encararia novamente? Ou até mesmo Tara? Ou meu próprio reflexo no espelho?
A lista das coisas das quais eu sabia que me arrependeria para a vida inteira estava subitamente lotada. Dançar provocante para , com e para todo mundo ver... Fazer papel de bêbada retardada... Tentar seduzir o vampiro. Céus, essa doía. Na noite anterior eu havia me comportado como uma vadia no cio. Só de pensar no que podia ter acontecido... E que só não acontecera porque , por mais estranho que fosse, havia sido o ajuizado e decente de nós dois. Como eu poderia encará-lo? Como eu poderia responder as provocações dele, resistir, fingir desinteresse depois da forma como eu havia agido na noite passada?
Mas isso não era o pior... O que mais me desesperava não era o que eu havia feito, e sim dito.

“Todo mundo quer alguma coisa de mim.”

“Eu preciso ser fria. Distante, cruel... Eu preciso agir como uma vadia com todo mundo porque eu sinto raiva.”

“Se eu derrubar essas paredes que eu construí, se eu... Se eu deixar a raiva de lado, tudo o que sobra é dor.”


Eram pensamentos que me acompanharam por toda minha vida, mas que eu nunca verbalizara. Que eu nunca tivera coragem de verbalizar, por serem tão extremamente íntimos que exteriorizá-los faria eu me expor de forma perigosa. Mostraria pontos fracos meus que eu tentava a todo custo ignorar, eliminar. Aquele lado frágil, que sofria, era meu maior segredo e a grande fonte de todas as minhas fraquezas. E eu o mostrara para de forma total e definitivamente irresponsável.

Agora é sério. Eu nunca mais vou beber.

Demonstrar fraqueza para um inimigo já seria uma grande idiotice. Mas demonstrar fraqueza para um inimigo que clama ter sentimentos por você, sentimentos nos quais você constantemente pisa, consegue ser uma idéia ainda pior.
Desistindo de ficar deitada, eu me esforcei para levantar. Cada parte do meu corpo e mente exigiam que eu permanecesse ali, mas eu lutei. Lutei porque sabia que não merecia a fuga que aquele quarto me proporcionaria. Eu precisava ser forte e encarar o mundo.

Me considere uma viciada em auto-punição.

Eu comecei a me arrastar até o meu banheiro, porém após poucos passos eu já estava correndo desesperada naquela direção, um enjôo inesperado se apossando de mim. Oh, céus, eu odiava vomitar. Mas é claro que agora eu passaria mal, mesmo tendo me sentido perfeitamente bem na noite anterior.

A Lei de Murphy era mesmo uma vadia.

Eu limpei meu rosto rapidamente na pia antes de deixar que minhas pernas trêmulas cedessem, me fazendo escorregar até o chão. Eu fiquei parada ali, esperando minhas forças voltarem até achar seguro levantar novamente.
Ao fazer isso, porém, percebi finalmente que ainda estava vestida com as calças e o sutiã da noite passada. Os flashs de tirando minhas botas me atacaram de novo, e eu senti meu corpo esquentar contra a minha vontade. A expressão precariamente controlada dele, as mãos levemente trêmulas, o modo como ele me olhara enquanto eu me esforçava para enlouquecer o infeliz... Era impossível não reagir à sensualidade daquilo tudo.
Tirando o resto das minhas roupas de qualquer jeito, eu me enfiei embaixo do chuveiro, grata ao sentir a temperatura simplesmente certa da água sobre meu corpo. Eu podia sentir o cheiro forte de bebida em mim e, envergonhada, voltei a pensar em . Ele não parecia ter se importado com isso na noite anterior. Nem com o fato de que minha maquiagem provavelmente já deveria estar meio borrada e meu cabelo, bagunçado. Mas claro que não ligara para isso. Essa era uma coisa que eu sempre achara... Curiosa. Ele sempre parecia me querer, não importa como eu estivesse. Eu podia estar me sentindo um lixo, por dentro ou por fora, mas isso nunca mudava a forma como ele olhava para mim. Como se, não importando a ocasião, eu fosse a coisa mais especial que ele já houvesse visto.

Eu tentei controlar as ondas de culpa que senti.

Não era real, eu tentava convencer a mim mesma. Ninguém nunca havia me olhado daquele jeito, e aquilo mexia comigo de alguma forma. Mas... Era . Eu simplesmente o odiava demais para permitir que gestos como esse, ou como os que ele fizera na noite anterior, mudassem minha maneira de vê-lo. Eu era grata pelo que ele havia feito, é claro. Mais uma vez ele cuidara de mim, e resistira quando podia simplesmente ter se aproveitado da situação. Eu não era tão fria a ponto de não me sentir um pouco tocada por esse tipo de coisa, mas era inútil. Cada ato de , não importa o quão bom fosse, sempre se chocaria contra a barreira de gelo que eu criara em volta do meu coração, que impedia que qualquer coisa o penetrasse. Já havia chegado a um ponto em que não era nem mais decisão minha. Eu não conseguiria derretê-la nem se quisesse, e por isso me sentia culpada quando se tornava impossível ignorar os esforços do vampiro. Eu era simplesmente complicada demais, bagunçada demais... Os anos como caçadora me estragaram de alguma forma, e a partida de fora o golpe final para destruir qualquer resto de normalidade que existisse dentro de mim. Eu era emocionalmente danificada a nível máximo, e não havia nada que pudesse mudar isso.

Ok. Chega de sentir pena de mim mesma.

Terminando meu banho, eu me enrolei na minha toalha favorita antes de voltar para o quarto e me vestir. Minha cabeça ainda doía, e ao seguir para minha mesa de cabeceira para pegar meu pente, finalmente reparei na bandeja depositada ali. Eu peguei o cartão que estava sobre ela.

Vim aqui mais cedo e você estava dormindo. Resolvi não te acordar. Tome os dois comprimidos para dor de cabeça e tente comer alguma coisa. Eu tentei manter o café forte quente com magia, mas não sei se vai funcionar por mais de três horas.

O bilhete não estava assinado, mas a caligrafia era claramente feminina.

Deus abençoe Tara Maclay.

Eu segui as instruções, me sentindo extremamente grata. E um pouco envergonhada também. Na noite anterior, quando Tara voltou para o meu quarto, eu ainda estava no meio de minha crise de raiva. Eu não me lembrava muito bem o que havia dito para ela, mas tenho certeza que não fui muito simpática. Mas mesmo assim ela tentara me acalmar, até finalmente me convencer a parar de destruir meus pertences. Olhando para o chão do meu quarto, eu gemi ao lembrar que teria que arrumar aquilo tudo depois.
O café surpreendentemente ainda estava morno, e eu praticamente devorei os muffins que também estavam na bandeja. Até aquele momento eu não havia percebido o quanto estava com fome.
Eu já havia desistido totalmente da idéia de sair daquele quarto. Eu tinha comida, eu tinha a minha cama, eu tinha uma dor de cabeça matadora. É, motivos não me faltavam para permanecer trancada ali pelo resto do dia.

Aparentemente, a pessoa que agora batia na minha porta não concordava comigo.

Eu grunhi frustrada, olhando o relógio na minha mesa de cabeceira – uma das únicas coisas que eu não havia atirado na noite anterior. Que tipo de pessoa perturba os outros às... Oh. Quatro horas da tarde. Ok, então a errada ali era eu. Me processe.
Respirando fundo, eu disse um “entra” no tom mais alto que consegui. É, eu sei, não é muito seguro sair gritando convites quando se pode ter um vampiro do outro lado da porta. Mas eu já deixara entrar na noite anterior, certo? E, no momento, eu não me importava com quem quer que fosse que estivesse lá fora. Mesmo se fosse o Mestre em pessoa, eu não poderia ligar menos.

Não era o Mestre. Era bem pior.

- . – eu disse, com uma súbita vontade amarga de rir. Ótimo, realmente. Era tudo que eu precisava no momento.
- Hey. – disse , entrando no meu quarto e sentando na beira da minha cama. Aparentemente as coisas entre nós não estavam estranhas o suficiente para fazer se sentir acanhada e reprimir o ato de intimidade. Mas, afinal, é de que estamos falando – A Tara disse que você estava dormindo, então resolvi esperar um pouco. Eu não te acordei, né?

Eu só a encarei, com o cabelo ainda molhado do banho e mordendo o último muffin da bandeja agora vazia.

- É, pergunta idiota. Claro que não. – disse , rindo nervosa. Rindo nervosa. Aquilo era inédito.
- Você quer falar comigo? – não, ela queria jogar tênis. Acho que não posso condená-la pelas perguntas idiotas, afinal.
- É. Hm, escuta... Eu não sei o que aconteceu na noite passada, mas pelo que eu consegui deduzir pelo que a Tara me disse e pela sua cara... Acho que é seguro supor que você resolveu afogar as mágoas em álcool. Por minha causa. – “é seguro supor”. O vocabulário da sempre ficava mais refinado quando ela estava nervosa, era engraçado. E eu realmente me sentia grata por saber que a ressaca estava estampada na minha cara. Isso é tudo que uma garota sonha em ouvir de manhã.

A fica mais culta quando está nervosa. Eu fico mais sarcástica.

- Não... – eu comecei a dizer, mas parei. Essa não era a melhor hora para mentir pra ela – Não por sua causa.
- Eu sei. Eu só queria dizer... Eu só queria dizer que eu sinto muito. – disse , suspirando – Eu reagi mal ontem.
- Você não fez nada. – eu disse, em tom tranqüilizador.
- Esse é o problema, entende? Eu não fiz nada. Só pirei e saí de lá, te fazendo se sentir culpada. – disse , abaixando a cabeça por um momento e parecendo extremamente interessada na barra da saia que usava – E não é sua culpa. Céus, não é nem mesmo culpa do . Eu não posso culpá-lo por gostar de você.
Eu respirei fundo, grata pelo remédio que Tara me deixara estar começando a diminuir minha dor de cabeça. Ou talvez fosse minha rapidez natural de cura. Não importa. A única coisa que importava era que aquela seria uma conversa difícil, e eu precisava que minha cabeça não ameaçasse explodir.
- O não gosta realmente de mim. – eu disse, devagar – É a coisa toda de ser híbrida, entende? Eu tenho uma... Coisa. Uma aura diferente, sei lá. O Gilbert explicou que eu posso ser mais atraente que uma mulher comum para os humanos. Sem contar o fato de eu ser uma caçadora. A única caçadora mulher desse lugar. Você sabe como o tem um certo problema com mulheres que lutam. Lembra daquela vez que a gente descobriu a coleção de quadrinhos dele da Mulher-Maravilha? Então. Pro , eu sou a Mulher-Maravilha.
- Não é só isso, . Ele gosta de você porque você é uma garota incrível. – disse , sorrindo fraco para mim – Uma pessoa maravilhosa.

Eu tive vontade de rir.

- , eu sei que você me ama, mas dizer que eu sou uma pessoa maravilhosa é um pouco de exagero, não? Eu sei quem eu sou, por isso sei que tô longe de ser a melhor pessoa do mundo. Céus, eu devo ter dois defeitos pra cada qualidade. A garota legal aqui é você. Você é uma pessoa melhor do que eu posso sequer sonhar em ser.
- Sabe o que é engraçado? Você se diminui muito. – disse , rindo – E é engraçado porque quem não te conhece pensa exatamente o contrário. Você parece se achar o último bombom da caixa, desculpa a sinceridade. E para algumas coisas, se acha mesmo... Mas para outras é tão insegura. – disse , balançando a cabeça – Você é uma pessoa muito confusa, . Eu te conheço desde que me entendo por gente e mesmo assim... Às vezes não sei se te conheço, sabe? Não consigo te entender.
Eu sabia disso. Ninguém no mundo entendia. Céus, nem eu entendia. Mas... Não. Não era justo dizer que ninguém entendia. Imagens de olhos profundos começaram a invadir minha mente e eu respirei fundo, tentando espantá-las. Não era uma boa hora pra pensar no morto-vivo extremamente perceptivo. Não mesmo.
- O que você está tentando dizer? – eu perguntei, de forma a voltar minha atenção para o assunto em questão.
- Eu tô tentando dizer que você é melhor do que pensa. – respondeu – Talvez não com todo mundo... Ok, risca isso. Definitivamente não com todo mundo, mas com quem você ama... Com quem você se importa, você é uma ótima pessoa. Você cuida dos seus amigos, você... Você luta pela gente. Já deixou claro mais de uma vez que morreria pela gente. Você é incrível, . Se não fosse, eu não seria sua amiga há tanto tempo.
- Obrigada. – foi só o que eu pude dizer, não confiando mais na minha própria voz.
- Pelo quê? – ela perguntou.
- Por tudo. – eu disse, a abraçando em seguida.
- Uau, você realmente anda emotiva nesses últimos dias. – disse , rindo, porém me abraçando.
- Cale a boca. – eu disse, rindo também e a largando – Mas eu só queria te dizer que, quanto ao ... Eu realmente acho que não é tão sério assim. Ele só tá confundindo as coisas. Ele me ama como amigo, mas com tudo o que eu falei antes... Com tudo isso, ele acaba interpretando o sentimento como mais do que é realmente.
- Isso não importa, . É sério. Mesmo se ele não gostar de você assim... Não muda nada. Ele não te amar não o faz me amar mais. O grande problema é que o não me vê como mais do que uma amiga.
- E você não pode culpá-lo. – eu me senti na obrigação de dizer – Você por acaso já fez alguma coisa para mudar isso? Você também não pode esperar que o simplesmente acorde um dia e decida se declarar pra você. Tem que correr atrás também, mandar alguns sinais... E implicar com ele em toda ocasião possível não é um sinal aceitável a não ser que você tenha cinco anos de idade. O é homem, . E um homem consideravelmente retardado. Então a não ser que você faça algo equivalente a usar uma camisa escrita “TE QUERO, ”, ele não vai se tocar. Nunca.
- Você tá falando sério? – ela perguntou, me olhando como se eu fosse maluca. Oh, céus. É nessas horas que eu vejo que e realmente nasceram um para o outro.
- Não, imbecil. – eu respondi, usando o tratamento carinhoso que geralmente tínhamos uma com a outra – Algo equivalente, mas não tão drástico. Foi modo de falar. O que eu tô dizendo é que você precisa deixar seus sentimentos por ele um pouco mais claros. E não faria mal tentar o fazer reparar um pouco mais em você, também. Você reclamou que ele só te vê como a amiguinha de infância, certo? Então. Tá mais do que na hora de mostrar pra ele que a amiguinha cresceu.
- Fácil pra você falar. Como eu faço isso? Ele tem tara por garotas no comando, não é? O que você quer que eu faça, apareça na frente dele com uma fantasia de dominatrix?
- Obrigada pela imagem mental. – eu disse, fazendo uma careta ao imaginar com uma roupa de couro e um chicote e algemado em uma cama. Credo. Uma coisa era pensar nos dois como um casalzinho bonitinho. Outra bem diferente era ter detalhes de como seria a vida sexual deles. Eu conhecia desde que nós usávamos fraldas, caramba! Não queria MESMO imaginar meu irmão postiço fazendo sexo.
- Desculpa. – disse , rindo. Eu não pude deixar de rir também, e dessa forma o clima ruim estava oficialmente superado. Enquanto nós continuávamos a conversar, eu não pude deixar de sentir aquela vontade de poder desabafar com tudo o que eu estava passando. Mas eu não podia. Eu sabia que ela me apoiaria em qualquer que fosse a situação, e isso só piorava as coisas. Eu não conseguia me imaginar contando a ela sobre a minha relação nada usual com . Eu podia imaginar o horror no rosto dela, afinal , assim como eu, conhecera em sua época mais cruel. Mas o maior problema era que, apesar do horror, ela tentaria me aconselhar. Me apoiar, me convencer – e a si mesma – de que minha atração pelo vampiro não era algo doentio. E eu não agüentaria isso. Não agüentaria vê-la tentando me entender.

Não quando eu mesma não entendia.

Xx

Já passavam das seis quando eu finalmente saí do meu quarto. Felizmente , assim como havia dito na noite anterior, não apareceu para me buscar para caçar. Para todos os efeitos, ele ainda estava fora da cidade. Eu só esperava não encontrá-lo pelas ruas naquela noite. Talvez fosse por isso que, para adiar ainda mais o momento que eu teria que sair, eu agora seguia para uma das salas de “aula” do prédio, em busca de Gilbert.
me dissera que, a essas horas, ele provavelmente estava dando uma palestra para os aspirantes a funcionários daqui. Como eu já disse uma vez, trabalhar na luta contra vampiros é um emprego que acaba passando de pai para filho. Por isso os filhos de funcionários interessados, e qualquer outra pessoa que de alguma forma tome conhecimento da Organização e queira se juntar a nós passa por um extenso período de treinamento, seja qual for a função que eles almejem desempenhar. Esse treinamento, além das lições particulares para cada trabalho específico, contém algumas áreas que precisam ser de conhecimento geral. Mesmo quem não quer ser caçador precisa de algumas aulas de defesa básica contra vampiros, além de informações sobre as criaturas em si. Por isso Gilbert e alguns outros muitas vezes davam palestras sobre vários assuntos acerca de vampiros.
Enquanto eu abria a porta da sala e me dirigia para uma das cadeiras ao fundo, eu argumentei comigo mesma que não estava simplesmente fugindo de ao adiar a hora de sair. Eu realmente precisava falar com Gilbert. Durante os dias nos quais esteve fora da cidade, eu havia pedido a ele, em sigilo, que pesquisasse sobre as imóveis abandonados da cidade. Eu tinha certeza que o Mestre havia se apropriado de outro após deixar a última casa, mas não tinha como rodar a cidade toda em busca disso. Como Miles ainda não havia definido um plano de ação diante dessa nova informação, eu fizera o meu próprio. Queria encontrar o desgraçado, e faria isso sozinha.
Gilbert me lançou um olhar confuso ao me ver entrando na sala, e alguns curiosos me acompanharam com o olhar até eu estar sentada no fundo. Algumas pessoas começaram a sussurrar baixo umas com as outras. Claro que eles sabiam quem eu era. A garota diferente, a híbrida. Os novatos não me viam com a mesma freqüência do povo que trabalhava aqui, mas com certeza já haviam ouvido minhas histórias. Eu me sentia um animal sendo observado no zoológico.
- Como eu ia dizendo, – a voz de Gilbert, com um tom levemente autoritário, capturou a atenção de todos novamente – vampiros são seres guiados principalmente por impulsos primitivos. São seres racionais, de fato, mas a criatura dentro deles, o instinto primitivo, os guia como uma forma de subconsciente. Todos têm dentro de si a sede de sangue e a fome de violência, destruição e sexo.

Oh, ótimo. Era essa aula.

Eu fui criada para ser uma caçadora desde criança. Afinal, esse era o sentido da minha existência “única e especial”, certo? Acabar com vampiros. Devido a isso, passei anos e anos da minha vida sendo preparada para esse trabalho. Mais do que qualquer outra pessoa. Isso significa que, ao longo da minha existência, precisei escutar Gilbert falando sobre vampiros por horas e horas em diversas ocasiões. Assim, logo cedo eu desenvolvi uma espécie de mecanismo de fuga: eu entrava numa espécie de transe ocasionado por tédio e não prestava atenção em nada que ele dizia. Tudo o que eu precisava saber era o básico. Estaca mais coração igual a vampiro morto de vez. Uma equação bem simples, de fato. Mas esse era o motivo pelo qual eu sabia consideravelmente pouco sobre as criaturas. me criticara por isso mais de uma vez, mas o problema é que eu não queria aprender. Parecia difícil para os outros entenderem, mas quanto mais eu sabia sobre vampiros, mais difícil era matá-los. Se eu sabia pouco, era quase como se eles não existissem de verdade. E se eles não existiam, não era realmente assassinato.
Mas que sorte a minha. Gilbert poderia estar falando de qualquer coisa – modos de se matar vampiros, histórias de vampiros famosos, lendas falsas –, mas não, ele tinha que estar começando a tratar sobre hábitos sexuais de vampiros.

A Lei de Murphy estava mesmo tendo um dia cheio comigo.

Oh, dessa aula eu me lembrava um pouco. Eu precisara me esforçar intensamente para não prestar atenção. Já não bastava o assunto ser um pouco embaraçoso, ouvir minha figura paterna falar sobre isso era bem mais do que bizarro. Gilbert falando de sexo era a coisa mais estranha do mundo.
- Então é verdade que vampiros podem fazer sexo? – perguntou uma voz esganiçada, pertencente a uma das integrantes de um grupinho de meninas na parte da frente da sala.

E lá vamos nós.

- Hm, correto. – disse Gilbert, retirando os óculos e começando a limpá-los na barra da camisa. Típico. – Vampiros são... Perfeitamente capazes de fazer sexo, ao contrário do que dizem algumas lendas. Há teorias de que a necessidade de sexo está diretamente ligada à necessidade de sangue.
- Mas como, ahn... Você sabe... Funciona? – outra das garotas perguntou. Eu finalmente reconheci aquelas meninas. Já havia as visto aqui outras vezes, provavelmente no intervalo de algumas aulas ou treinamentos. Era um dos grupinhos de idiotas que ficavam dando risadinhas e cochichando quando passava. Integrantes do fã clube dele.

O súbito interesse delas pela matéria de repente passou a fazer sentido.

Eu tentei não levantar e dar uma surra em cada uma. Não que eu estivesse com ciúmes. Eu não tenho ciúmes do . Não tenho! É só que... Bom, ele é um vampiro. E elas estão se arriscando dando mole pra ele, só isso.

É, claro. É só isso, Papai Noel existe e o Ricky Martin é hétero.

- Como assim? – perguntou Gilbert, felizmente me tirando daquela linha de pensamento.
- Bom, o sangue deles não corre, certo? Então como... Você sabe... Eles conseguem? – a garota tentou explicar. Eu revirei os olhos. Meu Deus, era só uma palavra, caramba!
- Ela quer saber como eles tem ereções. – eu expliquei, de forma direta, pronunciando a palavra “proibida”. Pronto, fácil. Não entendo porque as pessoas têm tanto problema em dizer isso.
- Oh, claro. – disse Gilbert, um pouco corado. Eu me senti imediatamente mal por ele. Meu mentor nunca foi muito bom em discutir esse tipo de assunto. Esse era outro motivo pelo qual era tão estranho o ouvir tentar falar sobre isso – Bom, ninguém tem uma boa resposta pra isso. O consenso é que deve ser parte de qualquer que seja o mecanismo que os permite viver após tecnicamente morrer, em primeiro lugar. Algo faz o sangue deles correr quando é necessário, mas não como o de um humano.
- Oh, entendi. – disse a primeira garota novamente – Mas você disse que existem teorias que ligam a sede de sangue ao sexo... É daí que vêm as lendas sobre a mordida?
- Provavelmente. – respondeu Gilbert – Mas não acreditem em nada disso. A mordida de um vampiro dói e eles o fazem para matar. Se vocês pretendem trabalhar aqui, é melhor eliminarem as idéias bobas de algo além disso. – disse Gilbert, de forma abrupta.

Abrupta até demais.

Eu conhecia Gilbert o suficiente para saber quando ele estava mentindo.

Aquilo me fez pensar. Franzindo a testa, eu me lembrei das indiretas de sobre mordidas, e das lendas que eu escutara ao longo dos anos. Mas foi a negação de Gilbert, mais do que qualquer outra coisa, que me fez relembrar uma memória há muito esquecida...
’s POV – OFF

Flashback


Empurrando a porta que estava apenas encostada, a garotinha adentrou o escritório de seu mentor, apenas para franzir a testa em confusão ao não encontrá-lo lá. havia procurado por Gilbert por toda a parte, mas não havia sinal dele em lugar nenhum. O escritório era o último lugar onde ele poderia estar, mas este também estava vazio.
A menina rapidamente analisou o aposento. Nada fora do lugar, exceto na mesa de Gilbert. Nessa estavam espalhados diversos livros de aparência antiga.
Abrindo um pouco a porta que ela acabara de atravessar de modo a olhar o corredor, a menina se certificou de que não havia ninguém por perto antes de voltar a fechá-la e seguir na ponta dos pés até a mesa. Aos oito anos de idade, era extremamente curiosa e tinha a mania de fazer exatamente o que não podia, características essas que a acompanhariam pelo resto da vida. Miles, especialmente, a proibia de mexer em livros que não fossem dados a ela. Era isso, principalmente, que a fazia se sentir tão atraída a fazer exatamente isso.
Escalando a cadeira de Gilbert, precisou se ajoelhar sobre a mesma de forma a poder alcançar direito os livros sobre a mesa. Puxando o mais próximo de si, um volume grande e gasto, a menina começou a folheá-lo. Havia muitas palavras e poucas figuras, de forma que a criança nem ao menos se interessava em ler o que aquele livro continha. Mas, já quase no final, uma figura específica, que ocupava toda uma página, chamou sua atenção. Era o desenho de uma mulher loira nos braços de um vampiro. Ele a segurava pelo quadril por trás enquanto mordia seu pescoço. Mas ao invés de desespero, o rosto da mulher parecia tranqüilo, e uma de suas mãos estava acariciando os cabelos do vampiro que a mordia. Em baixo do desenho, havia apenas os dizeres “O BEIJO”.
- ! – a voz exasperada de Gilbert desviou a atenção da menina. Rapidamente, o homem seguiu até ela, a levantando nos braços de forma a tirá-la da cadeira – O que nós te falamos sobre mexer em coisas que não te dizem respeito?
- O que era aquilo? – perguntou a menina, fingindo não ouvir a bronca de Gilbert – Por quê a moça não se importa de ser mordida?
Por um momento ele apenas encarou os olhos decididos da criança em sua frente, antes de suspirar e se decidir. Gilbert conhecia sua garotinha. Ela não desistiria até entender o que viu.
- Porque... Bom, alguns pesquisadores dizem que os vampiros... Que os vampiros beijam diferente dos humanos.
- Beijam diferente? – perguntou a menina, franzindo o rosto em confusão de forma adorável.
- Isso. Alguns acham que os vampiros podem morder do mesmo jeito que os seres humanos beijam.
- Mas os humanos beijam por carinho, não é? Os vampiros mordem por carinho? – a menina perguntou, sem saber mais o que pensar. Havia sido ensinada que vampiros matavam pessoas ao morder.
- Não, . – disse Gilbert, com urgência na voz, se ajoelhando na frente da menina – Isso é só uma teoria. Vampiros mordem para machucar. Essa é a verdade. – disse Gilbert, ciente de que falava um pouco rápido demais. A verdade é que não tinha certeza disso. Havia relatos de pessoas que haviam concedido que vampiros as mordessem, por prazer. Mas essas pessoas poderiam estar iludidas por vampiros com capacidades hipnóticas, então não dava para dizer ao certo. Mas fosse qual fosse a verdade, não importava. Ele nunca deixaria a menina que ele via como filha pensar em uma mordida de vampiro como algo mais do que uma violência.
- Mas por quê ninguém fala com um vampiro sobre isso? Para confirmar? – perguntou .
- Porque vampiros mentem. Eles não são confiáveis, . São monstros. Nunca confie em nada que um vampiro te disser, ok?
A menina assentiu e deixou o assunto passar. Mas pelo resto do dia, não pôde evitar pensar se poderia haver alguma verdade nas lendas sobre o beijo dos vampiros.


’s POV

Em um estalo, eu percebi que as pessoas à minha volta começavam a deixar a sala.

Uau. Eu estive tão entretida em memórias que eu nem lembrava ter que acabei perdendo a noção do tempo. Fiz uma anotação mental para tentar encontrar aquele livro depois. Com tudo que eu descobrira nos últimos tempos, aquela “teoria” podia muito bem ter um fundo de verdade. simplesmente parecera confiante demais ao falar sobre o assunto para estar simplesmente me provocando.
Me levantando do meu lugar no fundo da sala, segui até Gilbert, que arrumava algumas coisas sobre a mesa.
- Vejo que sua atenção às minhas aulas continua a mesma de sempre. – disse ele, em tom de provocação.
- Oh, você me conhece. Eu sou a pessoa mais atenta do planeta. – eu brinquei. Sabia que Gilbert não se importava realmente com minha falta de atenção.
- A que devo a honra da sua presença? – perguntou ele, finalmente me encarando e sorrindo.
- Queria saber se você já fez a pesquisa que eu te pedi.
Gilbert suspirou, me encarou por um momento e em seguida retirou uma folha de papel de uma das suas pastas, a entregando para mim.
- Isso foi tudo que eu consegui, inicialmente. Ainda pretendo checar algumas possibilidades.
- Isso já é um ótimo começo. – eu disse, passando os olhos rapidamente pela lista de endereços.
- Você realmente pretende correr atrás dessas pistas sozinha? – perguntou Gilbert, com a melhor expressão de pai preocupado.
- Outros caçadores só me atrasariam, você sabe disso. Se, além de me preocupar com a minha segurança eu tiver que cuidar da segurança deles, não vou conseguir nada útil. E eu não sou idiota. Não pretendo atacar nem nada, só investigar. Por isso ir sozinha é mais seguro. Se eu deixar Miles decidir o que fazer, ele provavelmente vai formar grupos e nos mandar procurar de uma vez só. Isso não vai dar certo e apenas chamará a atenção do tal Mestre. Mesmo se fazendo isso conseguíssemos encontrá-los, eles provavelmente conseguiriam matar todo mundo e arranjar novos esconderijos. Nossos caçadores não estão prontos para atacar um ninho de vampiros desse tipo. Não, tudo precisa ser feito com calma. Eu vou investigar, rodear casas abandonadas, até encontrar alguma coisa. Aí sim, quando eu encontrar, decido a melhor forma de agir. Não dá pra arriscar que eles descubram algo, por isso não dá pra mobilizar muita gente nessa missão, chamaria atenção demais. Então eu vou sozinha, e você não vai contar nada para Miles.
- Quer dizer que esse é um daqueles momentos nos quais eu tenho que decidir se a minha lealdade está com a Organização ou com você? – perguntou Gilbert.
- Isso. – eu disse, simplesmente. Não havia razão para negar.
- Bom... Seja o que acontecer, eu estarei sempre com você, . Espero que a essas alturas você saiba disso.
Eu apenas o encarei, sentindo meu coração leve e ao mesmo tempo pesado perante o olhar de Gilbert. Naquele momento, eu percebi que podia reclamar de nunca ter tido uma mãe, mas nunca poderia dizer que não tive um pai.
Porque era isso que Gilbert era. Muito mais do que o biológico. O vampiro que ajudara a me botar no mundo quis me matar. Os caçadores da Organização quase não chegaram a tempo de impedí-lo de destruir a aberração que ele criara.

Eu.

Meu pai biológico morreu tentando me matar, enquanto o homem em minha frente passara a vida inteira cuidando de mim. Um morrera tentando me destruir, e o outro morreria tentando me salvar, se fosse preciso. Não havia dúvidas de que, embora eu não tivesse laços de sangue com Gilbert, ele era meu pai.

tinha razão. Eu realmente estava muito emotiva ultimamente.

Eu não sabia o que mais poderia dizer, de forma que, dando um beijo na testa de Gilbert – ato que o fez corar – eu deixei a sala, seguindo para a rua. O dia estava me saindo extremamente calmo, mas ainda assim carregado de questões emocionais. A conversa com , agora com Gilbert... Era coisa demais para alguém que costumava ser uma pedra de gelo. Eu precisava de distração.

Eu precisava de um pouco de ação.

Xx

Meu plano ao sair naquela noite era, inicialmente, apenas fazer um pouco de investigação. Checar alguns dos lugares da lista de Gilbert e voltar para casa. A noite tinha tudo para ser lenta.

Mas foi então que eu senti aquilo.

Era difícil definir o quê exatamente. O fato é que, enquanto eu atravessava uma rua em direção ao primeiro endereço da lista, me veio uma conhecida sensação. A sensação que sempre me avisava sobre a proximidade de outros vampiros. O problema era que dessa vez ela estava umas cem vezes mais intensa.
Fechando meus olhos, eu tentei lembrar do que me ensinara. Eu precisava me concentrar naquela sensação até definí-la. Eu tive um súbito acesso de raiva contra mim mesma. Se eu tivesse mais prática, não seria tão difícil. Mas desde o dia da declaração de , nós nunca mais havíamos treinado, por motivos óbvios. Mas diante das evidências, estava mais do que claro que isso precisava mudar.

Eu odiava admitir, mas precisava de .

Levou cerca de dois minutos até que eu conseguir me concentrar inteiramente. A essas alturas, a sensação já estava mais fraca, simbolizando que quem quer que houvesse disparado o radar dentro de mim, havia se afastado.
Aos poucos o sinal foi se tornando mais claro dentro de mim. Norte. Ele seguia para o norte.

Mais um segundo e eu entendi que não se tratava de um “ele”.

Eram muitos. Por isso a intensidade. Era um grupo, e se eu me concentrasse o suficiente, sabia que talvez pudesse até contá-los. Meu palpite era algo aproximado a trinta. Um grupo, e dos grandes.

Eu só sabia de um vampiro capaz de organizar tantos outros.

Eu saí correndo na direção deles, tentando vencer a distância que nos separava. Eu ainda não sabia identificar se havia um vampiro mais forte naquele grupo, mas não importava. O Mestre estando ou não lá, aquele grupo era dele, e eu descobriria para onde eles estavam indo. Só precisava ser cuidadosa.
Eu continuei a correr por alguns minutos, até finalmente perceber qual era o único destino possível: uma estrada. Oh, ótimo. Assim que eu chegasse à estrada, perderia a relativa segurança e disfarce que as ruas movimentadas da cidade me proviam. O que significava que eu precisaria manter a distância que nos separava, me guiando apenas pelo “sinal” que eles emitiam. Simplesmente perfeito.
O que o bando de mortos-vivos ia fazer na estrada, de qualquer forma? Eles não estavam de carro. Se estivessem, já teriam se afastado muito e sumido do meu radar há alguns minutos. Aquilo era estranho. E suspeito.

Se minha curiosidade e impulsividade não fossem tão grandes, talvez eu tivesse percebido os sinais de “PERIGO” que meus instintos mais profundos gritavam.

Mas eu pensava estar sendo cautelosa. Já na estrada, a seguia pelo lado de fora com calma. Se eu me esforçasse o suficiente, poderia ver os vultos dos vampiros que seguia, coisa que um humano, com sua visão não tão apurada, não conseguiria. À minha volta, não havia nada além de deserto. Naquela parte da estrada não havia hotéis, nem postos de gasolina ou restaurantes. De vez em quando algum carro passava pela pista antes vazia, e esse era o único tipo de movimento naquela estrada além dos meus.
Se eu olhasse para trás, ainda poderia ver as luzes da cidade se afastando cada vez mais. Já estava me cansando de andar, mas minhas pernas continuavam a progredir como se por vontade própria. No entanto, eu começava a perceber o quão idiota fora aquela idéia. Eu estava seguindo um grupo grande de vampiros por uma estrada deserta. Respirando fundo, eu parei, levando as mãos à cabeça e fechando os olhos. Céus, o que eu estava fazendo? Na melhor das hipóteses, aqueles vampiros poderiam continuar seguindo para o destino deles a noite inteira, e eu tinha minhas dúvidas se conseguiria segui-los por muito mais tempo. Na pior hipótese, aquilo podia muito bem ser uma...

... Armadilha.

Oh, droga.

A conclusão brilhante me atingiu segundos antes da sensação de estar sendo cercada. Eu estava me concentrando tanto na direção a qual o sinal que eles emitiam em mim apontava que parei de prestar atenção na intensidade. Eu não havia percebido o quão perto eles estavam ficando.
Com uma sensação de condenação, eu abrir os olhos, encarando os sorrisos com presas à minha volta.

Eu sou muito estúpida mesmo.

- Oi, pessoal. – eu disse, sorrindo. Nervosismo agora não me ajudaria em nada. Na verdade, demonstrar o quanto a desvantagem me afetava só pioraria a situação – Muito bom encontrar vocês por aqui. A noite estava começando a parecer meio... Morta.
- Nós estamos honrados, Srta. . – disse uma vampiresa atrás de mim. Eu virava a cabeça de um lado para o outro, tentando adivinhar de qual parte do círculo que se formava à minha volta viria o primeiro ataque. Notei que alguns deles carregavam sacolas e mochilas aparentemente vazias. Estranho – Ser caçado pela mestiça é uma honra para nossa espécie. – continuou ela, soando meio sarcástica – Estamos honrados, oh, sim.
- Honrados e decepcionados, na verdade. – disse um vampiro à minha direita – Ouvimos falar tanto de você, . Mas quando a sentimos nos seguir pela cidade e começamos a guiá-la para cá, você não desconfiou de nada.
- Parem. – uma voz autoritária chamou. Virando a cabeça rapidamente, eu reconheci o pequeno grupo de vampiros um pouco afastado do maior que me cercava. Eram os quatro que eu vira na noite na qual eu e encontramos a casa abandonada. Mason, Hector, Drigger e o quarto integrante, que me parecera estar no comando na primeira vez e que falava agora.
- O que foi dessa vez, Godfrey? – perguntou um dos vampiros que me cercavam, parecendo exasperado – Nós não podemos matar a caçadora agora?
- Não foi o que eu disse. Apenas mandei que parassem. – respondeu o vampiro loiro e de aparência jovem.
- Você não é nosso líder. E de qualquer forma... Estamos com fome. – disse a mesma vampiresa que falara antes.
Ao som da palavra “fome”, o mais novo dos quatro outros vampiros – Drigger, eu presumia – deixou suas presas se alongarem e fez menção de pular na minha direção. Imediatamente, o maior dos quatro vampiros o bloqueou, levantando-o pelo pescoço.
- Se controle, Drigger. – disse ele, com a voz que eu reconheci como sendo de Hector.
- Eu estou com fome. – reclamou o mais novo, com a voz estrangulada. Drigger não parecia ter mais de dezesseis anos de idade.
A confusão parecia ter desviado parcialmente a atenção dos vampiros. Aproveitando a oportunidade, eu cuidadosamente levei a mão ao bolso interno da minha jaqueta.
- Hector, largue-o. – disse Godfrey novamente. Esse também não parecia ser fisicamente muito velho; eu arriscaria uns dezoito, dezenove anos. Mas ao contrário de Drigger, o vampiro que eu presumia ser o segundo no comando do Mestre exalava certa maturidade, deixando claro ao primeiro olhar que ele era muito mais velho do que aparentava ser.
Eu não podia esperar mais. Se havia uma chance de eu escapar daquela situação, era me aproveitar daquele momento abençoado de distração. Sacando a pistola, eu disparei o primeiro tiro com bala de madeira, acertando a vampiresa mais próxima a mim no coração.

Isso foi o suficiente para acabar com a distração.

Em questão de milésimos de segundos após o grito final da vampiresa, dois vampiros saltaram sobre mim. Me abaixando a tempo, eu rolei para fora daquela espécie de círculo e consegui acertar mais dois tiros, um em cada infeliz. Visão sobrenaturalmente apurada combinada com prática resultava em mira perfeita.
Mas minha situação estava longe de ser promissora. Eu só tinha mais algumas balas e cerca de vinte e cinco vampiros para enfrentar. O grupo que acompanhava Godfrey não me atacava, porém também não me ajudavam.
Todos esses pensamentos duraram cerca de um segundo, de modo que ao perceber a aparente indiferença do “círculo de confiança do Mestre” (como eu havia escutado Godfrey se referir a si mesmo e a Mason na casa abandonada), eu já havia me levantado e recuava um pouco, com a arma apontada para frente. Eu deveria ter trago mais balas, mas além de não ter imaginado um grupo tão grande, a pistola nunca fora minha arma favorita contra vampiros. Espadas e estacas sempre foram mais divertidas.
Houve um momento de hesitação antes de o grupo voltar a avançar na minha direção. Eles sabiam que eu estava em desvantagem, mas nenhum deles queria ser um dos poucos coitados que levariam um tiro caso decidissem avançar mais violentamente. Mas eu sabia que esse leve temor não os seguraria por muito tempo.
Pensando rápido, eu decidi qual seria a melhor maneira de agir. Em movimentos súbitos, descarreguei a arma nos vampiros mais próximos de forma sucessiva, em seguida correndo para a direção oposta a eles. Não que eu pensasse que tinha chances de fugir. Eu era rápida, mas vampiros eram mais. Só precisava ganhar tempo para pegar minha estaca em meu outro bolso e me reagrupar para o que estava por vir.
Eles me alcançaram em poucos segundos, mas eu já estava pronta. Com um chute consegui mandar para longe o primeiro que chegou até mim, enfiando a estaca no coração do que veio atrás desse. O problema é que eram muitos. Eu consegui nocautear mais dois brevemente e acertar um outro com a estaca, mas o resto já estava próximo demais. Calculando minhas opções, eu me virei, matando uma vampiresa que se aproximava de mim por trás de forma a desbloquear o caminho pelo qual eu voltei a correr. Mas, como eu disse, os outros já estavam demasiado próximos, de forma que mal eu comecei a correr, senti o peso de um deles se chocando contra minhas costas e me levando ao chão. Eu rolei, conseguindo ficar por cima dele e perfurando seu peito com a estaca, mas já era tarde demais. Eu engatinhei para longe do corpo em decomposição, mas um outro vampiro agarrara minha perna, me impedindo de levantar. Eu virei meu corpo até estar sentada no chão e o acertei no rosto com meu pé livre, o fazendo me largar. Não que isso ajudasse, é claro. Os demais vampiros estavam agora perigosamente próximos, e só o que eu pude fazer foi rastejar para trás naquela posição, sabendo que não daria tempo de levantar.
Sentindo meu coração bater mais forte do que nunca, eu respirei o que sabia ser meu último suspiro. Eu ia morrer. Na lateral de uma estrada deserta, por um grupo de vampiros. Eu levaria comigo quantos pudesse, mas sabia que no breve segundo que faltava para eles me atacarem, não haveria condições de evitar o fim iminente. Quando eles atacassem todos juntos, eu não teria a menor chance.
Eu estava nervosa, trêmula, enraivecida. Mas por um motivo que eu era incapaz de entender... Eu não estava com medo. Não conseguia encontrar em mim nem uma fagulha de medo, e isso seria preocupante, se eu ainda tivesse tempo de vida para me preocupar com alguma coisa. Coisas estranhas e desconexas assaltavam minha mente ao mesmo tempo: O amor de . A risada de . O ódio que eu ainda sentia por Coraline, a voz de Gilbert, as palavras reconfortantes de Tara, a visão de chorando...

A sensação dos lábios de contra os meus.

choraria minha morte? E ? Ele se sentiria culpado por ter ido embora? Será que algum deles, ou algum dos meus amigos, me perdoaria algum dia pela minha imprudência? Se havia algo que eu aprendera em toda minha breve e triste vida, é que a morte machuca apenas quem continua vivo. E a minha morte seria culpa exclusivamente minha. Segurando minha estaca com mais força na mão, eu me preparei para o ataque.

Ataque esse que nunca veio.

Como se combinados, todos os vampiros pararam ao mesmo tempo, a poucos centímetros de mim, ainda sentada no chão apoiada em meus braços, e viraram as cabeças para trás.
E então eu senti. A vontade irracional de inclinar minha cabeça em respeito. Era algo que vinha das profundezas do meu ser, e de alguma forma, eu sabia ser algo ligado à minha metade vampiresa. Lutando contra o impulso, eu mantive minha cabeça erguida, olhando na mesma direção dos vampiros, por uma brecha no grupo.

E então eu finalmente o vi.

Parada a uma considerável distância estava uma figura encapuzada, carregando uma sacola de pano escuro. Devido aos consideráveis metros que nos separavam, eu não podia ver seu rosto, nem os contornos de seu corpo com exatidão, mas de alguma forma eu sabia que a figura me olhava, e que a vontade que eu tinha de abaixar a cabeça era algo que ela forçava sobre mim. me explicara isso uma vez. Que vampiros mestres com mais de duzentos anos podiam forçar esse tipo de demonstração de respeito e inferioridade em vampiros mais novos, se assim quisessem. Com uma sensação de auto-aversão, eu entendi que por ser uma híbrida, aquilo também se aplicava a mim.

Eu podia fugir o quanto quisesse, mas nada mudava o fato de que eu era sim, em parte, vampiresa.

De modo súbito, eu senti a vontade de inclinar a cabeça passar, assim como senti o olhar que antes me queimava me deixar para provavelmente encarar seus seguidores. O Mestre apenas balançou a cabeça de um lado para o outro antes de sumir em um vulto veloz em direção à cidade, que estava às minhas costas.

Sem nem sequer olharem novamente para mim, todos os vampiros o seguiram.

Por minutos eu apenas continuei lá, sentada sobre o chão arenoso da lateral da estrada, chocada demais para me mover. Eu simplesmente não conseguia. Era como se o mundo tivesse começado a rodar em outra direção, ou simplesmente saído do eixo. Duas verdades pesadas dominavam minha mente, aos poucos trucidando qualquer outro pensamento racional e fazendo minha cabeça doer. Era simplesmente coisa demais para entender, para aceitar de uma vez só.

Verdade número um? Eu estava viva.

Verdade número dois? Isso só era verdade porque o Mestre me salvara.

Acho que essa era uma boa hora para enlouquecer.

Xx

Eu nem sabia como havia chegado até a sede.

Não era como se eu tivesse prestado atenção no caminho, de modo que só posso supor que meus pés me guiaram até o lugar. Após meus momentos de choque absoluto, eu me levantara e correra. Minha mente confusa me forçava a agir, e por mais que eu soubesse que não devia confiar nela no momento, era isso que eu fazia.
Eu desci pelo elevador e segui meu caminho até meu QG ainda correndo. Chegando à porta, a abri violentamente e adentrei a sala principal, correndo para uma das pilhas de diários ainda espalhadas pelo lugar.
- ? – chamou Gilbert, que até então lia um livro em uma poltrona no canto – , o que houve?
- Eu preciso saber! – eu exclamei, praticamente gritando, ciente de meu tom histérico – Eu preciso de informações. Esses diários tem que ter informações. Alguma coisa, alguma pista. – eu revirava descuidadamente as folhas de um dos cadernos, sentindo minhas mãos trêmulas. Eu estava a beira de um colapso nervoso e sabia disso.
- , o que aconteceu? – perguntou , soando preocupada. Ela, Tara e Gilbert eram os únicos ocupantes da sala.
- Ele salvou minha vida. – eu disse, sem reconhecer minha própria voz – Eu segui o exército do Mestre até a estrada. Eles armaram para me afastar da cidade. Mas o Mestre apareceu, e não os deixou me matarem. NÃO OS DEIXOU! – eu gritei, pegando outro livro e o folheando de forma maníaca – Eu preciso descobrir, eu preciso...
- , devagar! – disse, , arrancando o diário das minhas mãos e me segurando pelos ombros – Respira. O que você disse não fez sentido nenhum.
- EU SEI! – eu gritei, começando a andar de um lado para o outro – Vocês não entendem? NADA faz sentido. Na primeira noite, por exemplo. Nos túneis, um exército de mais de cinqüenta vampiros atacou a mim e ao . Setenta, talvez. Aquele tinha que ser o exército quase inteiro do Mestre, e ele simplesmente os sacrificou. Simplesmente mandou todos de uma vez.
- Porque ele tinha esperanças de te matar. Mas quando não conseguiu, passou a conservar os poucos que sobraram enquanto voltava a aumentar seu exército. O Mestre ainda está juntando vampiros, nós sabemos disso. – Gilbert tentou racionalizar.
- NÃO! – eu gritei frustrada – Vocês não vêem? Ele podia ter me matado hoje, e o número de vampiros naquele grupo era muito menor do que o dos túneis. – eu comecei a explicar, ainda andando de um lado para o outro, meus passos de certa forma violentos – Mas nos túneis eles não atacavam organizados. Atacavam quase individualmente, por isso eu e conseguimos nos safar até eu colocar fogo em tudo. Era como se eles não quisessem me matar. Nos atraíram para uma armadilha e não tentaram realmente nos matar, qual o sentido disso?! – eu exclamei, ciente de que parecia uma neurótica – Mas hoje, sem o comando do Mestre, o novo exército tentou me matar e ele impediu! Qual a lógica desse cara? O que ele quer? Os últimos ataques dele andam sendo cuidadosos... Grupos pequenos de vampiros... Isso depois dele ter sacrificado um exército numeroso. Para quê? Me testar? Brincar comigo? O que ele quer?!
- , se acalma... Ele quer derrubar a Organização, lembra? E por algum motivo tem uma espécie de fixação por você. – Gilbert tentava racionalizar enquanto eu voltava a folhear livros com certa violência.
- Tara? – disse , e a loirinha correu para uma das salas adjacentes, voltando em seguida com um vidrinho de líquido levemente rosado. pegou o vidrinho e veio até mim.
- Bebe. – mandou ela, esticando o recipiente em minha direção.
- O que é isso? – eu perguntei, ainda me sentindo tremer. Eu não conseguia me focar realmente em nada. Todos os meus pensamentos estavam presos aos acontecimentos da noite.
- Uma espécie de calmante. Bebe.
- Eu não preciso me acalmar! – eu exclamei, contrariada.
- , ficar nesse estado não vai te ajudar. – disse Tara, me olhando preocupada.
Contra a vontade, eu peguei o vidro que me oferecia.
- O que tem nesse troço?
- Você não quer saber. Só bebe, ok? – insistiu . Um pouco desconfiada, eu virei o conteúdo do vidro, precisando me forçar para não vomitar pela segunda vez naquele dia.
O efeito foi imediato. Em um segundo, todo o nervosismo se dissipou e eu novamente me vi em controle dos meus pensamentos. O medo, a confusão e a preocupação ainda estavam lá, mas era como se apesar disso meu corpo estivesse tranqüilo e minha mente novamente organizada.
- Ótimo. – disse , certamente notando meu relaxamento – Agora eu quero que você volte ao seu quarto e vá dormir.
- O quê? – eu perguntei, incrédula. No intervalo de poucas horas eu havia descoberto o exército do Mestre, quase sido morta por eles e salva pelo próprio chefe da quadrilha imortal. E queria que eu dormisse.
- Você ouviu. Esse... Calmante vai te fazer apagar em alguns minutos. Você precisa descansar, . Seu comportamento está me assustando. Você não está em condições de falar sobre isso ou agir de qualquer forma no momento. Amanhã, quando você estiver descansada, a gente conversa melhor sobre isso. – disse , em tom calmo – Vem comigo.
segurou meu braço, praticamente me arrastando em direção à saída. Eu fui, me sentindo confusa e contrariada. Eu sabia que não havia nada que eu pudesse fazer. Sabia que, daquele jeito, não conseguiria nada, mas a idéia de ficar parada era insuportável.
me forçou a entrar no meu banheiro e tomar um banho enquanto ela tentava dar um jeito no meu quarto, ainda um lixo graças a meu ataque de raiva com na noite anterior. estava anormalmente séria e calada, e eu sabia o que significava isso. Ela me trouxera para cá porque queria falar em particular comigo.
Quando eu finalmente saí do banho, usando minha camisola branca de alcinhas que ia até pouco abaixo do joelho, estava me esperando sentada na cadeira no canto do quarto que ocupara brevemente na noite anterior.
- O que foi? – eu perguntei, escovando meu cabelo.
- Então você quase morreu. – disse , simplesmente.

Ok, aquilo seria complicado.

- Não pira. – eu disse, me sentando na cama, de frente para a cadeira – Eu sou uma caçadora. Esse tipo de coisa acontece.
- “Não pira”? – disse , cruzando os braços – Por quê não? Você pirou, porque eu não tenho o direito?
- Porque não foi você quem viu o Mestre em pessoa. Quero dizer... Eu só vi uma figura de capuz, mas mesmo assim. Foi bizarro, e ele... Ele me salvou. Eu devo minha vida ao Mestre, o quão errado é isso?
- , eu só quero... – disse , respirando fundo – Só toma cuidado, ok? Esse cara está me saindo mais imprevisível do que eu pensava. Eu tenho medo do que ele possa fazer com você.
- Ele salvou minha vida. – eu voltei a argumentar.
- Ele está brincando com você! Mexendo com a sua cabeça, ... É como se ele soubesse exatamente o que fazer para te atingir. Como se ele te conhecesse.
- Ele me observa, é isso. – eu expliquei – Desconfio que ele me vigie... Que venha fazendo isso por meio de capangas há um bom tempo.
- Talvez ele esteja. Só o que eu estou te pedindo é um pouco de cuidado, ok? Você quase morreu. Entende a gravidade disso? Por que você não foi buscar o antes de ir? Eu sei que ele está na cidade, a Tara me disse.
Bom, por quê eu não havia chamado ? Oh, eu não sei! Talvez porque, além de ter tido pressa na ocasião, a mera idéia de encarar após meu vexame era aterrorizante. Se bem que no momento a vergonha que eu sentira era a coisa mais afastada de minhas preocupações.

O fato de quase morrer faz isso com uma pessoa.

- Desculpa se nas raras ocasiões que não me importuna com sua presença, eu não vou buscá-la. – eu respondi. Aquilo seria suficiente. sabia que eu detestava a criatura e deveria querer a maior distância dele possível. Eu sentia falta da época em que as coisas eram realmente simples assim. Nos últimos tempos eu havia adquirido a péssima mania de colar meus lábios com os do infeliz na primeira oportunidade que aparecia.
Eu e ainda discutimos sobre isso por mais um tempo, até ela finalmente desistir de me fazer entender a importância de reforços e ir embora, dizendo que em poucos minutos a poção, ou sei lá o que era aquela mistura que ela me fizera engolir me faria dormir. O tal calmante fazia a pessoa se acalmar e comumente apagar depois de meia hora. apenas esquecera – novamente – um pequeno “porém”.

Eu não era humana.

De forma que, ao invés de sentir sono, apenas continuei acordada, pensando. Havia algo naquilo tudo que eu sabia que me escapara e agora, com a calma forçada pela mistura de , eu conseguia pensar mais racionalmente.
Os vampiros disseram que haviam me atraído para o deserto. Mas eu tinha certeza que, ainda nos limites da cidade, havia sido cuidadosa o suficiente. Eu tinha certeza que alguns daqueles vampiros eram um pouco mais experientes, enquanto outros simples recém-criados ou com poucos anos como imortais. Mas mesmo os mais experientes... Seriam eles capazes de terem me percebido seguindo-os na cidade, entre milhares de pessoas? Como isso era possível? Eu sabia que vampiros como e me encontrariam em qualquer lugar do mundo, mas isso era porque conheciam meu cheiro, o sinal que eu emitia no radar natural. Claro que o Mestre poderia ter dado um jeito de fazer seus seguidores aprenderem esse tipo de coisa, de alguma forma, mas mesmo assim... Era estranho.
Estranho também era o fato de estarem todos juntos, alguns carregando mochilas ou vazias ou pouco cheias. Para onde estavam indo antes de me encontrarem? E por fim, o próprio Mestre, que havia surgido do nada e...

Oh, Deus.

Ele não tinha surgido do nada. Eu estava caída no chão, de costas para a cidade, e o Mestre chegara lá vindo de algum ponto à minha frente. Ou seja, ele não vinha da cidade. E, como alguns dos seguidores, carregava uma sacola. A dele parecia cheia, enquanto a dos outros, vazia. Ele parecia voltando de um ponto enquanto os outros se dirigiam para lá.

Céus, como eu sou estúpida.

Não era uma armadilha. Ao menos não inicialmente. Os vampiros mentiram para mim, de forma a me despistarem. Eles realmente estavam seguindo para o deserto, e me localizaram apenas quando deixamos a cidade.
Desesperada, eu corri para o banheiro, pegando os jeans que eu largara no chão e tirando de um bolso a lista que Gilbert me dera. Analisando os endereços, eu logo encontrei um, apenas um pouco fora dos limites da cidade. Uma fábrica de tecidos, abandonada desde 1939 e localizada na estrada na qual eu estivera poucas horas antes. Tinha que ser isso. O Mestre não havia estado lá por acaso.

Ele estava se mudando novamente.

Correndo para fora do banheiro da suíte, eu agarrei minhas botas, largadas perto da minha cama, e me pus a calçá-las. Eu não tinha muito tempo. Se o Mestre estava voltando da fábrica com uma mochila cheia enquanto os outros para lá se dirigiam com outras vazias, significava que estavam se mudando de lá. Mas os seguidores haviam tido um obstáculo ao me encontrarem, de forma que para me despistar, talvez, haviam seguido o Mestre de volta para a cidade. Não haviam tido tempo para pegar o que queriam no antigo esconderijo, de modo que teriam que voltar. Eu só precisava torcer para não terem feito isso ainda e para que eu chegasse antes deles. Em meu desespero após ter sido poupada pelo Mestre, havia perdido muito tempo, e a confusão havia me impedido de enxergar o que era agora tão óbvio. Se havia alguma pista sobre aquele vampiro, era na fábrica que ela se encontrava, e eu não tinha tempo a perder. Nem mesmo para trocar de roupa. Após um breve segundo de hesitação, eu peguei meu sobretudo preto, o fechando por cima da camisola. Aquele era o máximo de tempo que eu me permitiria gastar. Pegando uma estaca e as minhas chaves em meu caminho para fora do quarto, eu abri a porta, correndo para os elevadores e torcendo para que nenhum dos meus amigos me visse. Eu sabia que não devia estar fazendo isso. Sabia que era arriscado, mas aparentemente o Mestre me queria viva, não era? Aquilo era abusar da sorte, mas por algum motivo estranho eu não me importava. Não estava preocupada com o perigo que corria. Apenas me sentia decidida a voltar àquela estrada, àquela fábrica.
Eu atravessei os poucos quilômetros que me levariam de volta ao local do meu quase fim correndo. Um ser humano comum não teria agüentado o cansaço de repetir o longo percurso pela terceira vez, mas assim como um vampiro, eu não cansava fácil, de forma que em pouco tempo sabia que estaria lá. Eu só rezava para não encontrar no meu caminho para fora da cidade. Mas pensar que eu veria o vampiro essa noite era uma preocupação tola. Ele provavelmente estava em sua cripta, e se eu não o encontrara mais cedo naquela noite, não o encontraria agora. As chances eram mínimas. Menos de um por cento, talvez.

Mas mal sabia eu que a Lei de Murphy ainda não tinha se divertido o suficiente comigo.


Capítulo 15 - Kissed


(N/a: Música do fim do capítulo: Goodnight Goodnight, do Maroon 5)

’s POV

O sol já havia se posto há quase sete horas.

Não que isso fizesse diferença para mim. Eu ainda me encontrava deitado em minha cama, usando apenas meus jeans e encarando o teto de pedra acima de mim, sem nenhuma vontade de sair.
Meu entusiasmo por ver após a noite de ontem morrera assim que eu acordei há horas atrás. Sim, seria divertido ver a cara dela, após toda a humilhação que ela infringiu sobre si mesma, mas por outro lado... Por outro lado não seria tão divertido assim. A que eu conhecia agiria de uma dessas duas formas: primeira, fingiria não lembrar de nada e me chamaria de mentiroso. Segunda... Bom, a segunda seria fugir do assunto. Eu sabia que ela teria raiva de mim ao lembrar o quanto revelara na noite anterior. Sabia que não iria querer me ver pela frente e, pior do que tudo... Não me agradeceria por nada. Não demonstraria sequer um pouco de simpatia por mim, mesmo depois de tudo o que eu fiz por ela.
Aquilo era cansativo demais, eu me sentia esgotado. Por isso resolvi permanecer aqui essa noite, para não ter chance de esbarrar com ela na rua. Eu havia chegado ao meu limite. Meu orgulho pessoal em relação a amor sempre fora zero, mas aquilo já era demais. Durante toda a minha vida eu fui ou a piada ou o capacho das mulheres que amei, ou pensei amar. Porém conseguia ser pior do que todas juntas, e até a minha falta de orgulho tinha limite. Eu precisava me lembrar de quem eu era, do que eu era. Um vampiro que por anos esteve entre os mais temidos, os mais cruéis... O amor foi a minha fraqueza durante todos esses anos, já era hora de eliminar isso.
O som da porta do nível superior sendo aberta e de passos percorrendo o chão da cripta acima de mim de forma desesperada me fez levantar e correr para a escada que me levaria até lá. Eu reconhecera o cheiro da garota assim que ela atravessara as portas, mas o que diabos Tara queria aqui?
- Aí está você! – disse a loira, em tom aliviado, assim que minha cabeça surgiu pela porta aberta do alçapão no chão – Eu não sabia que isso aqui tinha um andar inferior.
Isso porque ela nunca viera aqui antes. O que podia tê-la trago até aqui a essa hora da noite...? Ei!
- Tara, você tá maluca? – eu exclamei, finalmente me dando conta da gravidade da situação. Em um salto eu estava fora do alçapão e na frente dela – Como você sai de noite, pra um cemitério, sozinha desse jeito? Tem vampiros por aí!
A garota apenas me encarou, com uma máscara de ceticismo por cima do aparente nervosismo que ela parecia não conseguir abandonar. Seja o que fosse que a trouxe até aqui, era grave.
- Tem um vampiro na minha frente nesse exato momento, mas isso não vem ao caso. , a está em perigo.
- O quê? – eu perguntei, qualquer outra preocupação sumindo em um “click”.
- Ela... – Tara respirou fundo – A encontrou com um bando gigante de vampiros que ela estava seguindo e quase morreu essa noite. Só escapou porque o Mestre apareceu e os impediu. Depois disso ela enlouqueceu, voltou para a sede dizendo que queria respostas, que precisava saber, que não entendia o que o Mestre queria... A e eu demos um jeito de acalmá-la com uma poção, e nós pensamos que tinha funcionado, mas... Mas eu fui agora ver como ela estava e o quarto dela estava vazio, . Eu procurei por toda a sede, mas... Ela saiu. Ela saiu e eu sei que ela foi atrás dele sozinha de novo. Por isso eu corri para cá. , só você tem como localizá-la, por favor...
Era como levar um soco no estômago. Entender que eu quase havia a perdido para sempre era um pensamento escuro e doloroso demais. Tudo porque eu me recusara a sair naquela noite. Se eu estivesse nas ruas, se eu a tivesse procurado... A consciência do que poderia ter acontecido com essa noite por estar sozinha me fez sentir doente. Seria tudo culpa minha. Tudo culpa minha por tê-la deixado sozinha. Todos os meus pensamentos sobre limites, e orgulho, e até mesmo tudo que eu sofrera foram totalmente esquecidos. Quem se importa se eu era um babaca que agüentava tudo calado? Quem se importava se eu não tinha um pingo de orgulho ou respeito por mim mesmo quando se tratava de ? Não era um assunto no qual eu tinha escolha, de qualquer forma. Eu nunca optara por me tornar um idiota tão grande, mas em momentos como esse, era mais forte do que eu. Eu precisava encontrá-la.
- Ela sumiu há muito tempo? – eu perguntei, tentando controlar minha própria voz.
- A tinha saído do quarto dela há cinco minutos quando eu descobri que tinha sumido. Acho que no total faz uma meia hora.
- Certo. – eu disse, tirando um papel de um dos bolsos da minha calça, que estava guardado ali há dias – Esse é o número do Aramis. Ele deve estar patrulhando, ligue e peça para que ele e o resto da equipe venham te buscar aqui. Não é seguro ir sozinha. – entregando o papel para ela, eu corri para a porta.
- ! – a voz de Tara me fez virar a cabeça para trás. Ela tirou algo do bolso e jogou para mim. Pegando no ar, eu descobri se tratar do colar que o Mestre enviara para – Eu não quis entregar essa noite, ela parecia perturbada demais. Mas o colar passou em todos os testes e talvez... Talvez a faça parar tempo o suficiente para te ouvir.
Assentindo com a cabeça, eu corri para fora da cripta, atravessando o cemitério em questão de segundos. Comecei a seguir em direção ao prédio da Organização, procurando alguma parte da trilha que o cheiro de criaria. Não precisei me aproximar muito do prédio, já que em uma rua próxima consegui encontrar a trilha, que seguia para trás, em direção a sede e para frente, caminho que eu comecei a seguir.
Em uma parte da minha mente, um tanto quanto desconexa do resto, eu percebi que ainda estava descalço e sem camisa. Não que isso importasse muito. O ar frio da noite não me perturbava, e as feridas que o asfalto infringia na sola dos meus pés enquanto eu corria se curavam quase instantaneamente. Enquanto eu cortava caminho por becos escuros e ruas desertas, de modo a não despertar curiosidade pela rapidez com a qual eu me movia, tive tempo de organizar melhor os pensamentos. Aos poucos, parte da minha preocupação com ia se transformando em raiva. O que ela estava pensando, afinal? Quem ela pensava que era, a Super Girl? Ela já quase perdera a vida essa noite e lá ia ela de novo, arriscar tudo mais uma vez. Doeria parar cinco minutos para me chamar? Ou pelo menos algum dos caçadores... Ela não era toda íntima do Aramis agora? Se o problema era comigo, por que não chamou a ele e aos irmãos? Só de pensar no modo descuidado como ela colocava a própria vida em risco, sem consideração pelos meus sentimentos e dos demais que a amavam... Será que ela sequer pensava no sofrimento que a morte dela causaria a várias pessoas? Como era mesmo aquela frase... “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”. Ser amado implicava um tipo de responsabilidade diferente de todas as outras... A de cuidar também de si mesmo, se não pelo próprio bem, pelo dos que amam.
Mas essa era , não era? Por que eu ainda pensava que ela sequer se importaria com meus sentimentos, ou os levaria em conta antes de sair por aí tentando jogar a vida fora? Vadia egoísta. Se quando eu a encontrasse o Mestre ainda não tivesse a matado, eu mataria.

É. Claro.

Que não.

Em pouco tempo me vi em uma parte deserta de uma estrada, e então entendi. O cheiro de estava ali, recente, assim como o de vários outros vampiros, porém desses o cheiro era mais antigo. Foi ali... Ali que tudo aconteceu. Havia sinais de luta no terreno arenoso, assim como restos de alguns vampiros ainda em decomposição. Em mais alguns minutos tais restos seriam incapazes de serem percebidos por humanos.
Olhando para a frente, pude ver o vulto de correndo à certa distância, e ainda mais à frente os contornos de uma antiga fábrica abandonada. Só podia ser para lá que ela estava indo. E, se eu levasse em conta os diversos aromas misturados de vampiros, aquele lugar havia servido como esconderijo de alguns deles por um tempo.
Me afastando um pouco da estrada para que ela não me visse, eu comecei a correr ainda mais rápido em direção a fábrica. Dessa forma eu era mais de duas vezes mais rápido que , e meu objetivo era ultrapassá-la. Se aquele era o esconderijo do Mestre, tudo fazia sentido. Ela estava realmente tentando encontrá-lo sozinha, e minha raiva, se possível, aumentou ainda mais. Isso porque agora eu sabia algo que ela ainda não havia percebido. A razão real pela qual, segundo Tara, ficara tão enlouquecida ao sobreviver ao ataque. Eu sabia o motivo, e sabia o que ela viera realmente buscar aqui.
Chegando à grande porta da frente, eu virei para trás, vendo ainda longe. Ótimo. Eu adentrei o lugar com certa calma, já que assim que me aproximara do prédio, percebi que, se aquele antes era o esconderijo daqueles vampiros, agora não era mais. O lugar estava vazio e, após escanear brevemente a área, constatei que a falta de objetos pessoais certamente significava que o Mestre se mudara novamente. Pensei em voltar e deixá-la saber disso, mas em um momento cruel, mudei de idéia. Ainda me lembrava da promessa que fizera a mim mesmo, de ser o cavaleiro negro de . A raiva que eu sentia no momento pela imprudência da caçadora me permitiria finalmente começar a agir como tal. Eu a deixaria ir até o fim. A deixaria entrar nesse lugar, assinando o que, em outras circunstâncias, poderia ser sua sentença de morte. Eu precisava me certificar de que ela iria mesmo até o fim para confirmar a bizarra epifania que eu tivera sobre ao descobrir o que era esse lugar. Eu a esperaria aqui, e então a faria entender uma das piores verdades sobre si mesma. Porque não era pelo Mestre que ela realmente procurava. Era algo que ela inconscientemente queria dele e que, essa noite, iria obter.

Só que quem daria a o que ela tanto buscava seria eu.

Xx

’s POV


Eu sabia que havia chegado tarde demais assim que atravessei as portas rangentes da fábrica abandonada. Eu havia o perdido novamente. O Mestre se mudara outra vez, e a única pista que eu tinha se tornara inútil. Ótimo. De volta ao ponto zero.
O barulho de meus passos, ainda que um tanto quanto silenciados pela espessa camada de poeira que cobria o chão, era o único som a ecoar pelas paredes. Aquela nunca havia sido uma grande fábrica, e estava fechada há anos. Eu não era capaz de sequer supor para quê as poucas máquinas espalhadas pelo lugar serviam. A distância entre o chão e o teto tinha cerca de quinze metros, e a única iluminação vinha da luz daquela primeira noite de lua cheia, que penetrava na fábrica fantasma através das grandes janelas de vidro situadas bem no alto.

Foi olhando para essas janelas que eu finalmente o vi.

Um anjo, foi o que a minha mente traidora pensou. Algo dentro de mim se familiarizou com aquela comparação, como se eu já a tivesse feito antes. Devia ser só impressão, é claro. Quando antes eu teria confundido com um anjo?
Mas o problema era que... Ele brilhava. Ok, não exatamente brilhava, como purpurina ou algo do tipo. Mas ali, sentado de lado no parapeito da janela – a lateral do corpo encostando no vidro, uma perna esticada à sua frente enquanto a outra tinha o joelho dobrado, de forma que nele se apoiava seu antebraço enquanto mantinha o rosto virado na direção oposta à minha, encarando pela janela a estrada deserta – parecia reluzir. A única peça de roupa em seu corpo eram as calças jeans, de forma que a luz pálida da lua iluminava sua pele clara, a fazendo parecer quase fosforescente. O brilho azul do luar refletia em e o dava uma certa aura inumana. Não era preciso se conhecer a verdadeira natureza daquela criatura para saber que ele não era uma pessoa comum. era... Lindo. Eu geralmente me esforçava em tentar ignorar isso, mas no momento era impossível.
Lentamente, ele virou o rosto na minha direção, o olhar frio nos olhos profundamente tornando o ambiente ainda mais gelado e, se possível, o deixando ainda mais atraente. Em um movimento rápido e de certa forma gracioso, ele pulou do parapeito, parando perfeitamente em pé apenas um pouco distante de mim como se tivesse pulado centímetros, e não metros. A agilidade, o perfeito mover de músculos por debaixo da pele pálida, a iluminação que ainda o favorecia... Tudo aumentava a sensação de fascínio e perigo que, inesperadamente, me dominara.

Ele era um anjo, sim. Um anjo da morte.

Naquele momento, era cem por cento uma criatura da noite. Forte, vigoroso, perigosamente atraente. A materialização das fantasias mais obscuras e secretas de qualquer mulher. Sinistro e sedutor, carregando consigo a promessa de escuridão, de segredos perversos e deliciosos capazes de manchar sua alma e roubar de uma vez por todas seu pobre coração romântico. naquele momento era medo e encantamento. Delírio e excitação. Sedução e morte.

Por um momento eu pude entender o que atraia tanto as pessoas em vampiros.

Eu não conseguia me mover. Apenas o observava começar a se aproximar, com os pés grudados no chão. Meu corpo tremia. Eu queria perguntar o que ele fazia ali, como ele chegara, mas não conseguia. Não conseguia porque me olhava como nunca antes o fizera. Eu já vira a frieza e a fúria naqueles olhos antes, mas nunca assim. Nunca juntas. Era como se o olhar frio tentasse ocultar a raiva, sem muito sucesso. Ele estava irritado comigo, e eu não sabia o porquê.
Como se lendo meus pensamentos, ele finalmente falou, a voz baixa, neutra e séria.
- Então agora você simplesmente sai por aí sozinha atrás de grupos ridiculamente grandes de vampiros?

Oh. Era isso então.

- Já faço isso há anos. – eu respondi, odiando o tremor em minha voz. Eu estava nervosa. Simplesmente havia... Algo no ar. Na postura de , no jeito dele... Pensamentos sobre o Mestre e qualquer outra coisa haviam se esvaído assim que eu o vi. Eu me vi presa naquele clima tenso que deixava aquela fábrica ainda mais abafada. estava tramando alguma coisa, e praticamente todas as células do meu corpo me avisavam isso, em um surto de antecipação. Pior do que isso... Uma parte de mim se sentia verdadeiramente ansiosa pelo que estava por vir.
- Não, não faz. – continuou – A não ser que antes do Mestre você tenha encontrado grupos tão grandes e organizados. Sei que está acostumada a lutar sozinha... Mas me recuso a acreditar que é burra a ponto de pensar que pode dar conta daquele número de vampiros sem ajuda. Não é isso, não é, ? Então o que te fez seguí-los? Mais do que isso, o que te fez voltar agora, sozinha outra vez depois de ter quase morrido?
Eu não sabia. Até aquele momento, havia culpado por tudo a minha própria urgência em destruir aquela ameaça, e eu sabia que aquele era sim meu maior incentivo. Mas seria o único? Não. Afinal, eu não podia ignorar aquela voz no fundo do meu ser... Aquela voz que me dera forças para seguir meu instinto de correr, descobrir, investigar de forma um tanto descuidada. Qual era a intenção por trás daquela voz? Qual era aquela motivação tão profunda dentro de mim que nem eu mesma era capaz de definir?
- Você não sabe, não é? – continuou dizendo, rindo um pouco ironicamente – Você não faz a menor idéia. Mas eu? Eu faço. – ele estava agora bem na minha frente. Se eu simplesmente esticasse a mão seria capaz de tocá-lo, sentir sua pele fria sob meus dedos. Eu conhecia a sensação de tocar aqueles músculos bem melhor do que eu gostava de admitir – Você me acusou de não te conhecer, naquele dia. Mas a verdade é que cada dia que passa eu percebo um pouco mais o quanto estava certo quando disse que te conheço melhor do que qualquer um. Eu entendo sua cabeça, . Consigo enxergar através da confusão, enxergar coisas que você nem imagina sobre si mesma. E o seu corpo... – ele continuou, erguendo uma mão de forma a acariciar meu rosto. Meus olhos se fecharam como em um reflexo, mas eu não me afastei. A forma lenta, baixa e de certa forma sedutora com a qual ele falava estava tendo um efeito de alguma forma hipnotizante sobre mim – Eu não posso dizer que conheço seu corpo como gostaria de conhecer, mas mesmo assim... – ele estava perigosamente próximo agora, a boca a centímetros da minha orelha e uma mão brincando com o laço que fechava meu sobretudo na frente. Eu ainda não conseguia me mexer. Por que diabos eu não conseguia me mexer?! – Eu já te toquei, não foi? Já provei que não preciso te ter para fazer seu corpo gritar... De certa forma acho que posso dizer que já deixei minha marca... – ele riu, um som baixo e rouco contra meu pescoço que fez todos os pelos do meu corpo se arrepiarem, mas não de um jeito ruim. Percebendo isso, novamente riu daquela piada que só ele parecia entender e beijou a curva do meu pescoço. Um mero encostar de lábios frios que fez meu corpo esquentar todo de uma vez, como se acionado por um botão – O seu coração eu não conheço... Mas, de qualquer forma, não estou totalmente certo de que ele sequer exista.
A voz dele era calma, macia, quase carinhosa... Mas as palavras tinham o claro objetivo de me atingir. Era como ser sufocada por um travesseiro fofo. usava uma arma aparentemente inocente para causar danos, e eu mais uma vez me perguntei qual era o real motivo de toda aquela raiva de mim.
- O que você quer dizer com isso? – eu perguntei, sentindo minha voz falhar.
- Que eu sei o que te fez vir até aqui, . – disse ele, em tom calmo. A mão dele, ainda sobre o laço em minha cintura, o desfez calmamente, como se começar a me despir fosse a coisa mais normal do mundo. E eu não protestei. As mãos dele começaram a descer meu sobretudo por meus braços, expondo meu corpo ainda coberto pela fina camisola ao ar frio daquela noite, e eu nem ao menos tentei impedí-lo. Algo não me deixava empurrá-lo, afastá-lo, e eu sabia não ser apenas puro desejo. Mas também não me sentia capaz de definir o que era. O olhar que me lançou ao deixar meu sobretudo cair no chão, no entanto – um olhar que misturava seca diversão e um certo frio entendimento – deixou claro para mim que ele sabia. O leve acenar de cabeça que ele deu ao se afastar um pouco apenas fortaleceu minha certeza de que havia acabado de confirmar uma desconfiança sobre mim.
- Sabe? E o que é? – eu perguntei, o observando procurar algo no bolso.
- Em parte o óbvio: sua obsessão com o tal Mestre. – disse ele, revelando o colar que ele agora segurava. O meu colar – Mas isso não é tudo.
- Como você... – eu comecei a perguntar, mas o encostar de um dedo de contra minha boca me calou. Meus lábios se partiram um pouco involuntariamente; ele sorriu.
- Tara me entregou. – explicou o vampiro, lentamente me rodeando até estar às minhas costas – Disse que isso te faria parar o suficiente para me ouvir. – ele riu, sarcástico – Tara é uma garota bem inteligente, mas extremamente ingênua para algumas coisas... – lentamente, posicionou o colar em meu pescoço, o fechando. Seus dedos mais frios que o normal passaram então a contorná-lo, me causando arrepios – Ela ainda não entendeu que com você, não funcionam palavras... Apenas atos.
Como um caçador que ronda sua presa, voltou a me rodear, voltando a ficar logo à minha frente e me olhando de cima a baixo. Eu me tornei insuportavelmente ciente do meu estado ridículo – camisola longa, botas e agora aquele colar – mas não parecia querer rir. Não, ele me olhava como sempre.

E aquele olhar tornava a metáfora com caça e caçador ainda mais precisa.

- Sabe, uma coisa pode ser dita sobre esse cara. – disse , descendo a mão pela coluna do meu pescoço devagar – Ele tem bom gosto. O colar fica incrível contra a sua pele. – os dedos dele voltaram a traçar o comprimento do cordão, e eu senti minha pulsação acelerar.
- O que você quer, ? – eu perguntei. Não dava mais para agüentar aquilo. O jeito misterioso de , o modo como ele evitava chegar ao ponto principal (seja esse qual fosse) era uma espécie de tortura psicológica.
- Quero fazer o que eu sempre faço, amor. – disse ele, sorrindo – Te dizer a verdade que você não quer ouvir.
- E qual é essa verdade?
- A razão pela qual você ficou tão perturbada com o que aconteceu. A razão por você estar aqui agora... A sensação.
- Que sensação? – eu perguntei, confusa.
- A que você sentiu ao estar a segundos de morrer... A paz apesar do nervosismo. Foi isso que te perturbou tanto, . Negue o quanto quiser para você mesma, mas por um segundo naquela confusão toda, você quis que acontecesse. E por mais que você ainda não tenha conscientemente percebido, é isso que te apavora. Por um momento você quis morrer, não foi? Sua vida não é sua. Sua alma foi vendida para aquela Organização antes mesmo de você dizer sua primeira palavra. Você odeia sua vida e por um momento sentiu paz com a idéia de ela acabar. Você descobriu que tem um desejo de morte, , e isso está te assustando mais do que qualquer outra coisa no mundo.
- Não... – eu murmurei, não sendo capaz de convencer nem a mim mesma. Porque por mais horror que aquele pensamento me causasse, eu sabia que fazia sentido.
- Não? – perguntou, sorrindo um pouco cruel – Então como você me explica a raiva que você sentiu? Raiva do Mestre por ter salvado a sua vida quando você já a tinha entregado... Raiva de você mesma por se sentir assim. Como você me explica o fato de ter voltado aqui, no meio da noite, às pressas, sabendo de todos os riscos? E acima de tudo, ... Qual outra explicação para você estar parada aqui agora? Comigo? Quando você sabe muito bem o que eu estou prestes a fazer?

E eu sabia. Naquele momento percebi que sabia o tempo inteiro.

Eu estava consciente das intenções de agora, e mesmo assim não conseguia me forçar a me mover. Oh céus, eu realmente queria. Parte da minha mente gritava contra aquilo, mas eu não era capaz de me mover, de nem ao menos pronunciar uma palavra em protesto.
- Como eu disse, palavras não funcionam com você. – continuou , sorrindo – Por isso vou te dar o que você precisa. Você quer a sensação? Eu vou te dar a sensação.
- Você não pode. – eu argumentei, com a voz fraca. Mas eu estava mentindo. Prova disso é que eu já estava sentindo. Havia sentido desde o momento que eu o vi.
- Oh, não? – ele perguntou, com falsa inocência – Então talvez eu esteja errado sobre os sintomas. Eu sempre pensei que estar próximo da morte fosse como uma espécie de... Nervosismo. – disse ele, voltando a me rodear – O primeiro sinal é a dificuldade para respirar... É como se o ar tivesse sumido do aposento de repente. – ele havia parado novamente à minha frente, e agora segurava minhas mãos nas dele, acariciando meus pulsos com os polegares em movimentos lentos e circulares. Eu comecei a arfar, de certa forma surpresa. Nunca tinha pensado em como essa espécie de carinho podia ser erótica – Mas então ele volta todo de uma vez... E você começa a respirar forte, acelerado...
Ele estava tão próximo que eu sabia que podia sentir minha respiração em seu rosto – que como ele disse, estava forte e acelerada. As mãos dele começaram a subir delicadamente por meus braços, passando por meus ombros e pescoço até chegarem ao meu rosto, que ele segurou com uma mão de cada lado enquanto encostava a testa na minha.
- E então você começa a suar frio... – disse , subindo um pouco uma mão de forma a secar a gota de suor que começava a se formar próxima à minha testa. Eu podia praticamente sentir seus lábios se movendo enquanto ele falava. Sua boca estava próxima... Próxima demais para o bem da minha sanidade. Eu lembrava bem demais qual era a sensação daqueles lábios pecaminosos contra os meus – E depois disso seu corpo inteiro começa a tremer. – em um movimento rápido, me virou de costas para ele, me agarrando com força pela cintura de forma a colar meu corpo com o seu. Eu soltei uma exclamação baixa de surpresa e ele riu baixo, de forma meio rouca e sacana, a respiração dele provocando a pele pouco abaixo da minha orelha. Corpo tremendo? Confirmado – Todo o seu ser treme e você não sabe como fazer isso parar... Porque a cada instante a situação apenas... – ele fez uma breve pausa enquanto, lentamente, ia empurrando uma alça da minha camisola pelo meu ombro, enquanto mantinha a outra mão em minha barriga – Continua... – após empurrar a alça, ele afastou meu cabelo do ombro, encostando em seguida a boca contra a minha orelha – A piorar. – ele concluiu, enquanto traçava uma linha do começo do meu pescoço ao fim do meu ombro com os dedos.
A mão que ainda estava na minha barriga me pressionou com ainda mais força para trás, contra o corpo perigosamente exposto dele. Minha camisola era fina, de forma que eu podia sentir os contornos dos músculos perfeitos mais próximos do que nunca. O peito dele se movia devagar com a respiração calma e fria, que eu sentia contra o meu pescoço exposto e que apenas piorava os leves espasmos que meu corpo trêmulo insistia em dar.
- É nessa parte que você percebe o quanto o seu coração está batendo forte... – continuou ele, descendo a mão que antes acariciava meu ombro para agora segurar meu seio, em parte à mostra devido à alça caída da camisola. O primeiro contato dos dedos dele contra minha pele quente me fez gemer involuntariamente – Ele bate como se para gastar todos os batimentos restantes em questão de minutos... Tão acelerado e tão forte que o som dele é tudo que você passa a escutar. – ele estava errado quanto a isso. Tudo que eu era capaz de escutar era a voz baixa e melodiosa de , enquanto sua mão, de forma torturantemente calma, terminava de abaixar o pedaço do tecido que ainda cobria meu seio, o expondo ao ar frio. Não por muito tempo, porém. Logo a mão dele já enconchava meu peito, o apertando nem tão delicadamente e me fazendo soltar uma mistura de gemido e ganido. A mão que me pressionava contra ele era tudo que suportava meu corpo em pé. As mãos dele estavam quase tão frias quanto o vento, e eram fortes. A pele endurecida pelos anos lutando contrastava com a minha, macia e delicada, de uma forma que começava a colocar todos os meus sentidos em sobrecarga – Oh, ... Seu coração bate tão forte que parece bater por nós dois... E com cada batida ele vai bombeando sangue... Sangue que segue na direção contrária a sua cabeça... Porque seu cérebro é o que menos precisa dele no momento. – os dedos dele provocavam meu mamilo de forma quase cruel, e o calor entre minhas pernas começava a se tornar insuportável e em nada ajudado pelas palavras dele. Oh, definitivamente ele não falava mais de morte. Porém, desde o início, seu discurso tivera óbvio duplo sentido – Seu sangue corre rápido... E com ele segue o calor, que parece se concentrar em uma específica parte do seu corpo... – a mão antes na minha barriga começou a descer exatamente para aquela parte – E tudo isso vai te deixando um pouco tonta... E suas pernas vão ficando bambas... – para meu desespero, a mão dele desceu direto para a parte mais baixa da minha coxa que ele conseguia alcançar. Eu gemi, em protesto, porém em seguida ela começou a subir pela parte interna da minha coxa, devagar, porém aos poucos chegando próxima à área que eu mais precisava que ele tocasse – Suas pernas nem ao menos são capazes de te manter em pé sem ajuda... E elas tremem... Cada vez mais...
À medida que ia subindo, a mão dele ia erguendo junto a barra da camisola. Sua outra mão ainda bolinava meu seio com firmeza e certo desespero, como se me tocar desse a ele tanto prazer quanto dava a mim. A prova disso estava, na verdade, pressionada bem firme atrás de mim.
Eu não conseguia pensar. Só o que minha mente processava era que ele estava me tocando de forma deliciosa, atrevida, perigosa... E eu estava deixando. Eu estava querendo. Querendo como nunca quisera nada antes em toda a minha vida. Todo meu corpo, todo o meu ser doía, ansiava, com uma espécie de desejo primitivo que era ao mesmo tempo excitante e assustador. E o que piorava tudo era o fato de eu saber quais as reais intenções dele. Eu devia estar apavorada, enojada... Aquilo era errado e perigoso, porém não havia forças no mundo capazes de me tirar dos braços de naquele momento.
A mão dele subia pelo meu quadril agora, deslizando para o lado até estar espalmada contra o meu ventre. Eu me contorci levemente, desesperada pelo fim da tortura, e grunhiu baixo atrás de mim, um som involuntário que fez um arrepio descer por minha espinha. Com a mão ainda firme contra o meu ventre, ele provocava com o polegar a pele próxima à barra da minha calcinha, sem aparentar pressa nenhuma para adentrar o material. Sua outra mão ainda brincava com meu seio e , calmamente, começou a cheirar meu pescoço, encostando o nariz em minha pele e me fazendo tremer inteira.
- E é isso que você busca, . – disse ele, começando a depositar leves beijos no meu pescoço e ombro, sugando um pouco minha pele cada vez que seus lábios se demoravam em determinada parte – Vai além da sensação de estar viva... É algo que está tão profundo dentro de você que é difícil enxergar. A tentação obscura, o desejo por perigo... – a mão em meu peito subiu novamente pelo meu ombro, o acariciando devagar – Há uma razão por trás de tudo isso. O desejo de morte te assusta tanto quanto te fascina. Ele é bloqueado pelos seus instintos de sobrevivência, mas no fundo sempre está lá. Forte... – beijou meu pescoço outra vez, longamente – Insistente... – os dentes, ainda humanos, mordiscaram minha pele, me fazendo prender a respiração – Constante. – com a mão livre, ele começou a inclinar minha cabeça para o lado levemente, a deixando então cair para trás, contra seu ombro. levou então a mão até a base do meu pescoço, afastando um pouco a corrente do colar. Ele encostou os lábios em minha jugular e eu senti suas presas, agora alongadas, roçando minha pele, me fazendo arder por dentro de forma inesperada. Eu gemi sôfrega, sentindo a respiração de acelerar desnecessariamente – E você não pode correr, não pode se esconder. Porque no fundo, o que você espera da morte não é a paz. É o alívio. – ele fez uma pausa, dando um leve chupão em meu pescoço – O alívio de parar de lutar contra o que você deseja. É no breve segundo que antecede a morte que você encontra esse alívio. – a mão dele que afastara meu cordão enlaçou então meu corpo, me pressionando forte contra o dele. Eu permaneci largada em seus braços, trêmula demais para me mover – Por isso você se deita nos braços dela à espera do beijo final, e então, finalmente... – ele fez outra pausa, deixando a voz cair para um mero sussurro – Você se entrega.

E então ele me mordeu.

Eu exclamei baixo de dor ao sentir as pontas das presas afiadas de rasgando minha pele. Mas ele não parou. Apenas continuou a enterrar os caninos em mim, mas não de forma abrupta. Não à força. O ato de parecia bizarramente cuidadoso, e por mais estranho que isso soe, ele me mordeu de forma... Carinhosa. Como se não quisesse me fazer sentir dor.
Mas eu senti, é claro. Durante os dois segundos que os caninos de levaram para penetrar totalmente em meu corpo, dor foi só o que eu senti. parou momentaneamente e eu esperei. Esperei que piorasse, esperei o arrependimento, o desespero.

Mas quando ele sugou pela primeira vez, eu finalmente entendi.

Era uma sensação diferente de tudo que eu já havia experimentado. Eu não podia honestamente dizer que já não doía, mas era como... Era como se a dor não importasse mais. Havia se transformado em uma espécie de queimação prazerosa, e o gemido que escapou meus lábios surpreendeu até a mim mesma. Não era uma exclamação de dor. Não, muito pelo contrário.
Era o tipo de dor que eu imaginava sexo selvagem tendo. O tipo de dor que é ofuscado pelo prazer mais forte, e que ao invés de diminuir esse, apenas o aumenta de certa forma. Era... Inexplicável. Algo que eu certamente não deveria estar sentindo, mas ao sentir pela segunda vez a leve sucção em meu pescoço, eu deixei de me importar. Os lábios de , fechados sobre as feridas ainda preenchidas por suas presas, acariciavam minha pele de forma sedutora com cada pequeno gole de sangue que ele puxava do meu corpo. E cada gole coincidia com um leve aperto dos meus músculos internos.
Em questão de segundos eu estava ofegando, tremendo, murmurando coisas desconexas. Minha mão encontrou a nuca de como se por vontade própria e a apertou, em um movimento desesperado, na tentativa de trazê-lo mais para mim. Eu senti mais do que ouvi um grunhido excitado reverberar pelo peito dele e, aparentemente sem perceber, começou a se esfregar em mim por trás.

Oh.

Pelo jeito como o volume nas calças de parecera endurecer ainda mais, era fácil deduzir que o efeito da mordida era mútuo. Ele voltou a tocar meu seio e eu gemi novamente, sendo respondida por um ruído de aprovação do vampiro.
O ar naquela fábrica de repente passara a parecer insuficiente, e minha respiração ficava cada vez mais pesada. Em minhas veias parecia correr fogo líquido, esquentando meu corpo em uma velocidade que me assustava. Eu já não duvidava que, se aquilo continuasse, o calor dentro de mim seria em breve capaz de me consumir inteira de forma completa.
Mas eu não conseguia entender. Como as ações de no meu pescoço podiam ter efeitos tão sérios mais ao sul do meu corpo? Era como se o sangue que sugava viesse diretamente do meio das minhas pernas, mandando de volta ondas de eletricidade que faziam meu corpo inteiro tremer. Eu me sentia mais excitada do que me lembrava já haver estado, e ele nem sequer estava me estimulando onde eu realmente precisava. O filho da puta fazia de propósito, eu sabia. Os dedos dele ainda percorriam a barra da minha calcinha, na área extremamente sensível acima do meu útero. Eu começava a pensar que morreria se ele não descesse de vez os dedos frios que contrastavam tão deliciosamente com o meu calor. E então, como um flash, a compreensão do papel da mordida em tudo aquilo invadiu minha mente. Porque, no fim das contas, era isso que ela significava.

Invasão.

estava em mim, e naquele momento eu entendi que esse tipo de contato deve ser, para um vampiro, muito mais íntimo do que sexo. As presas dele estavam em meu corpo e o sangue que corre em mim por um tempo correria também nele. Era uma conexão intensa que eu sabia não ser certo dividir com , mas já era tarde. Eu já o deixara me marcar e sabia, com uma certeza nunca antes sentida, que aquela não seria a última vez. A sobrecarga de sensações que aquele ato provocava era viciante, entorpecente. Eu sabia que o procuraria por mais, mesmo que antes tentasse negar isso para mim mesma de todas as formas possíveis. Meu corpo agora aprendera a perigosa ligação entre dor e prazer, e seguir em frente tentando me esquecer disso, me esquecer dele... Não seria possível.
Minha própria excitação começava a ficar grande demais para suportar. A leve queimação em meu pescoço já começava a ser esquecida em favor da espécie de dor que a ânsia por toque causava entre as minhas pernas. , obviamente ciente do efeito que suas presas tinham sobre mim, enlaçou minha cintura e nos guiou para trás, até as costas dele se encontrarem com uma parede. Um de seus joelhos forçou o caminho entre minhas pernas e, abaixando um pouco o corpo e mudando os ângulos de nossos quadris, ele conseguiu dobrá-lo e apoiar o pé em uma caixa à nossa frente, de forma a me deixar “montada” sobre toda a extensão de sua coxa. As mãos dele encontraram meu quadril e, entendendo meu corpo talvez melhor do que até mesmo eu era capaz, começou a guiá-lo para frente e para trás, até eu finalmente despertar de meu breve estupor e assumir o comando, procurando pela extremamente necessária fricção com uma vontade da qual eu sabia que me envergonharia depois.
Para meu total desespero, quando eu já começava a me aproximar do momento pelo qual cada fibra do meu ser implorava, senti as presas de deixando meu pescoço, e em seguida o som de um soluço que, horrorizada, eu percebi que viera de mim. Não teve como evitar, na verdade. A idéia daquele momento chegando ao fim era terrível.
- Por favor... – eu balbuciei, só em parte ciente do que dizia. Ele havia retirado a perna de entre as minhas e eu começava a me desesperar – Eu preciso...
- Diz. – disse ele, chupando devagar a ferida ainda aberta em meu pescoço. A volta dos lábios suaves dele em minha pele sensível e levemente dolorida me fez soltar uma respiração trêmula – Dessa vez eu quero que você me diga. Do que você precisa, caçadora?
O tom dele era insuportavelmente convencido. Mas algo naquela voz levemente rouca de óbvio desejo não me deixava me importar com isso.
- De você. – eu disse, sem conseguir acreditar em minhas próprias palavras. Era como se minha voz não pertencesse mais a mim, dizendo coisas contra a minha vontade. Mas foram as palavras seguintes da minha voz traidora que me chocaram de verdade – De você... Em mim.
Eu o ouvi prender brevemente a respiração. Suas mãos em meus quadris ficaram momentaneamente tensas, e eu podia praticamente senti-lo engolindo em seco. certamente não esperava que eu fosse ser tão honesta.
Mas a evidente surpresa logo deu lugar a um risinho cínico próximo ao meu ouvido. Eu podia tê-lo pego desprevenido, mas no fim das contas falara exatamente o que ele queria ouvir.
- Eu já estou. – ele respondeu, em tom macio. Como uma serpente tentando encantar sua vítima, hipnotizá-la para que essa não fugisse. Mas não, não era só uma serpente. Era um felino que agora lambia os furos em meu pescoço, fazendo o sangue estancar. Saliva de vampiros tinha o poder de acelerar a cura de ferimentos. Não que eu me importasse com isso. Os movimentos da língua dele botavam fogo em meus nervos, aumentando as ondas de calor com cada carinho – Já estou em você, . Aqui... – ele tocou em minha testa, descendo os dedos em seguida pela lateral do meu rosto – E aqui... – os dedos dele encostaram nas marcas que suas presas deixaram em mim, me forçando a inutilmente conter um gemido. Não era como se ele já não soubesse o que estava fazendo comigo. O idiota gostava de me torturar. Gostava e eu me via incapaz de impedi-lo, pois bastava um toque, uma palavra, um olhar de para me fazer perder o juízo.
A mão dele continuava o percurso rumo ao sul. Ele hesitou brevemente quando chegou em meu seio, mas continuou descendo, agora por meu braço. Ele sabia que não podia dizer com honestidade que estava em meu coração também. Mas não que isso fosse fazê-lo parar. Seus dedos agora traçavam as veias que seguiam para o meu pulso e nas quais meu sangue corria freneticamente.
- Aqui também. Eu já estou em seu sangue, não estou? Embaixo de sua pele, em cada nervo do seu corpo... – a mão dele voltou a descer, agora pelo meu quadril – Mas não é só isso. Não só em sua mente, em seu sangue... Eu estou em você no sentido físico também, e não só com minhas presas... – os dedos dele desceram devagar para dentro da minha calcinha e, sem avisar, ele me penetrou com um dedo, fazendo meu corpo tremer violentamente de choque e prazer.
A mão dele me provocava devagar, negando os toques dos quais eu realmente precisava. Eu gemia e soluçava fraco, frustrada com a tortura constante, e murmurava palavras de conforto em meu ouvido, como se não fosse ele quem estivesse me causando aquele desespero. Eu queria socá-lo, ferí-lo, e ao mesmo tempo queria seu corpo no meu, seus lábios em minha pele, seus olhos escurecidos de desejo olhando dentro dos meus.
- Você me odeia tanto assim? – foi só o que eu consegui perguntar. Felizmente, era inteligente o suficiente para entender do que eu estava falando.
- Shh... – ele murmurou contra o meu ouvido – Não é por ódio, pequena. – ele deslizou um segundo dedo para dentro de mim, acelerando um pouco os movimentos, mas ainda negligenciando meu clitóris – Isso é uma coisa que eu vou te ensinar com o tempo... A ter paciência... A esperar. Boas coisas vêm para quem espera... Em breve eu vou te mostrar isso melhor. Mas por enquanto, vou te dar apenas uma amostra de como vale a pena agüentar um pouquinho de tortura... – os movimentos agora eram rápidos, intensos, e eu precisei morder os lábios para não gritar – Porque essa tortura, essa espera... Resultam em um prazer que você sequer imagina. – dizendo isso, ele pressionou o polegar contra meu clitóris e eu explodi.
Não existe palavra melhor para definir, na verdade. Por todo o meu corpo ocorreram pequenas explosões, resultantes de um orgasmo mais forte do que o que ele havia me dado naquele armário. Ele estava me provocando e parando há tanto tempo... Havia começado a me preparar desde que eu pisara nessa fábrica, com palavras, toques... Havia criado toda essa atmosfera de excitação, me estimulado de tal forma que o desejo foi se acumulando, me deixando sem ar quando o orgasmo me deixou finalmente relaxar. Eu me sentia tonta, minhas pernas estavam fracas, e enquanto o mundo começava a progressivamente escurecer à minha volta, só o que eu podia pensar é que , novamente, dissera que aquilo não passava de uma amostra.

Céus, se podia ficar melhor do que isso, eu não sabia se sobreviveria.

Xx

’s POV


Eu segurei sua forma adormecida em meus braços como se carregasse a mais preciosa e delicada carga do mundo.

Deus sabe que, para mim, era isso que ela era.

Rindo da total insanidade que era a minha vida, eu carreguei até uma espécie de mesa localizada no centro da fábrica, a deitando lá cuidadosamente. Qual era o meu problema, afinal? O que eu fizera para merecer a situação na qual me encontrava nas últimas semanas? Talvez o karma por tudo que fiz no passado tenha finalmente me atingido. Eu sentia o universo rindo sádico às minhas custas, se divertindo com a punição que me fora dada. Porque como se por um castigo por todos os erros cometidos, a caçadora aparecera em minha vida.

Aquilo era cruel, de fato.

Cruel porque aqui estava eu, em frente à personificação de tudo que hoje em dia tinha valor na minha vida, e eu estava condenado a machucá-la. Essa seria minha sina, a sentença que eu assinara ao jurar salvá-la de si mesma no que agora pareciam vidas atrás, em frente àquela casa abandonada. A metáfora do cavaleiro negro nunca me pareceu tão absolutamente ridícula e tão terrivelmente certa. Para ajudá-la, eu teria que machucá-la. Continuar a fazendo sofrer com as verdades duras que eu a forçava a encarar, com as feridas que eu precisava infringir... já estava afundando mesmo antes de me conhecer, e por mais que isso desafiasse a lógica, eu sabia que precisaria arrastá-la mais fundo para a escuridão antes de trazê-la para a luz de novo. Ela tinha fantasmas demais, feridas demais em seu passado, uma vida de traumas emocionais que, se nunca encarados, jamais a permitiriam sair da existência fechada de auto-aversão na qual ela parecia viver. Não, eu precisava forçá-la a enfrentar o pior dentro de si para destruir as barreiras que ela criara. Eu sabia que doeria, como essa noite provavelmente doeu, mas ela não estava sozinha. Machucá-la me rasgava por dentro, e continuaria fazendo isso. Mas eu não era estranho à escuridão ou à dor, então continuaria. Mesmo que minhas ações acabassem por me destruir por completo no caminho para reconstruí-la, eu iria até o fim. Se eu queria continuar tendo o direito de dizer sinceramente que a amava, esse era meu dever. Eu precisava ser forte, por ela e por mim.
Cuidadosamente, eu ajeitei as alças e a barra de seu vestido, que revelavam mais do corpo dela do que meu fraco autocontrole podia suportar. A tentação de seu corpo, seu sangue, seu ser era grande demais... Principalmente agora.
Eu a mordera. E, céus, o sangue dela era puro veneno. Puro, doce veneno que intoxica, vicia, toma conta de cada parte de seu corpo. Eu já tinha uma idéia do quão forte aquele sangue seria, mas eu não podia imaginar a que extremos aquela força iria. Eu não tirara nem um quarto de litro de seu corpo e mesmo assim me sentia totalmente satisfeito. Mais satisfeito do que me sentira drenando humanos por completo. Por isso eu sabia que minha vontade de retornar minhas presas àquele pescoço macio não tinha nada a ver com fome. Era desejo. Eu queria saborear seu gosto novamente, sentir o corpo quente de trêmulo, arfante, ardente contra o meu. Porque sim, ela me queria, no sentindo mais primitivo e intenso da palavra, e por isso o esforço que eu fazia para não tocá-la novamente era quase mais do que eu podia suportar. Lá estava ela, adormecida, vulnerável... O corpo dela cheirava ao meu e a seu próprio desejo por mim, e por um momento egoísta eu quis que estivesse ali para presenciar isso. Mas não estava. Estávamos sozinhos no meio do nada e só o que nos separava era o estranho senso de moral que eu tinha para com ela, mesmo sendo um vampiro, e meu próprio trauma. Afinal, eu lembrava o que havia acontecido da última vez que a tocara dormindo.
Eu me afastei, precisando colocar alguma distância entre nós para o bem de minha própria sanidade. Eu precisaria levá-la de volta para a sede. estava desmaiada, e não por falta de sangue. Como eu disse, tirara muito pouco dela. Meus lábios então se repuxaram em um sorriso involuntário, reflexo do orgulho idiota que eu sentia de mim mesmo. O desmaio foi de prazer, isso era certo. Eu sabia que o único motivo pelo qual ela entrara em um estado de inconsciência tão profundo após desmaiar, no entanto, era outro. A respiração e os batimentos cardíacos dela mostravam que dormira pesado rapidamente, coisa que um desmaio após um orgasmo não faria sozinho. Mas ela tivera uma noite difícil, e tomara alguma espécie de calmante dado por Tara, que não funcionara inicialmente, mas que agora a devia estar mantendo inconsciente. Porém não importava. Eu a havia feito desmaiar. Eu. Difícil não ficar metido ao perceber que a dera prazer a esse ponto.

Prazer em parte provido pela mordida.

Em minha defesa, eu me sentia um pouco envergonhado pelo que fizera. Mas eu nunca disse que era um cavalheiro. Na verdade, não sou nem um cara exatamente legal. Mas a mordida foi o único meio que eu encontrei de agir naquela situação. Eu havia descoberto algo horrível sobre , o mecanismo autodestrutivo que nem ela sabia existir antes dessa noite. Mordê-la foi meu jeito de fazê-la encarar a situação, e de alguma forma superá-la por um tempo. Eu sabia que o desejo de morte de só iria embora completamente quando eu acabasse de destruir as sombras atrás das quais ela se escondia, mas eu tinha certeza que, pelo menos por um tempo, o que eu fizera acalmaria aquela parte dela. não pensaria em morte por um bom tempo. Esse era um efeito colateral de se ter as presas de um vampiro dentro de si, de se saber que a decisão sobre a própria vida ou morte não cabe mais a si, e sim à criatura que no momento se alimenta de seu sangue. A vida de estivera em minhas mãos, e eu obviamente a deixei viver.
Claro que esse não era o único efeito de uma mordida, e era isso que me envergonhava um pouco. Eu sabia que não era certo o que eu fizera com ela, porque, bom...

A sensação podia ser viciante.

Mordidas de vampiros podem ser inimaginavelmente prazerosas. E em um caso como o nosso, onde já se havia atração sexual anteriormente... Podia causar vício. Não um vício destrutivo, doentio, mas o tipo de vício que sensações prazerosas nos causam. A vontade de sentir de novo, o desejo vivo e intenso que por vezes se torna difícil de resistir. iria querer aquilo outra vez, mesmo que de certo fosse negar para si mesma. Eu fora o primeiro a mordê-la, e por mais que aquilo me deixasse insanamente feliz, me fazia também me sentir um pouco mal. Feliz porque, como eu nunca seria seu primeiro homem, ao menos fui seu primeiro vampiro de verdade. E mal porque eu sabia que ela teria raiva de mim por isso, e raiva dela mesma ao perceber o quanto gostara de minhas presas e o quanto as queria de volta.
Mas o que estava feito estava feito e não havia motivos para debater algo que era agora definitivo. Eu precisava me concentrar no agora, e o agora implicava arranjar algum modo de levar de volta. O sol em algumas horas nasceria, mas eu não podia simplesmente abandoná-la ali. Muito menos acordá-la. Se eu prezava a “não-vida” que eu tinha, não seria muito esperto fazê-la me encarar tão cedo. Após acordar, precisaria de algumas horas para superar a vontade de matar. Afinal, mal ou bem eu era um vampiro e a havia mordido. Duvido que ela fosse ficar muito feliz com a idéia quando se desse conta disso.
Eu só tinha uma opção, na verdade, por isso me concentrei brevemente, tentando sentir a proximidade de outros vampiros antes de me dar por satisfeito que era seguro deixar sozinha por alguns instantes e sair da fábrica. Pacientemente, eu esperei que as luzes de faróis aparecessem no horizonte. Não demorou muito, na verdade. Logo um sedan preto velho começou a se aproximar, e eu suspirei, me preparando. Era pedir demais que fosse uma BMW, como a última que eu roubara, mas no momento utilidade era mais importante do que estilo.
Quando o carro já estava bem perto, eu corri para o meio da estrada, forçando o motorista a parar de forma a não me atingir. Assim que ele fez isso, eu corri para a porta do carro, quebrando a janela, abrindo a porta e arrancando o homem do assento, agradecendo a qualquer divindade que me ouvisse pelo carro não ter outros passageiros. O motorista, se recuperando rápido, fez menção de vir me enfrentar, mas me aproveitando da luz dos faróis eu deixei minhas presas se alongarem, o desafiando a dar mais um passo. O homem me olhou como se visse o demônio em pessoa e em seguida correu, como se sua vida dependesse disso. Se o vampiro não fosse eu, provavelmente dependeria.

Eu me permiti sorrir novamente enquanto voltava para a fábrica para buscar . Eu podia não poder mais atacar pessoas, mas andava me divertindo bastante em assustá-las.

Eu a coloquei deitada no banco de trás e consegui prender os cintos, embora bem tortos, ao redor do busto e das pernas dela. Seria mais do que o suficiente para combater pequenos impactos se eu dirigisse com cuidado. Por sorte, isso seria fácil. Eu sabia dirigir desde a invenção do automóvel.
Os carros eram poucos àquela hora da noite, de forma que cheguei rápido à frente do prédio da Organização. Remexendo nos bolsos do sobretudo de , que eu tivera o cuidado de recolher antes de levá-la para o carro, eu encontrei as chaves do portão.
A sensação de dejà-vu ao seguir para o elevador com a caçadora no colo era gigante. Era engraçado como as situações insistiam em se repetir com nós dois.
- Se eu for passar a te trazer para casa toda noite no colo, pequena, espero que você passe a me tratar melhor. – eu disse para a garota adormecida em meus braços, que apenas suspirou e ajeitou a cabeça em meu pescoço. Eu reservei o resto do tempo que o caminho até o quarto dela levava para aproveitar a sensação. Da primeira vez que eu a carreguei, ela corria risco de vida. Da segunda, ela estava embriagada demais para ser ela mesma. Dessa vez a menina que eu segurava era apenas adormecida. Por algum motivo isso me dava uma sensação boa de proximidade.
Tão boa quanto a de entrar em seu quarto sem ter uma barreira invisível para me impedir. Eu havia temido, ao me aproximar, que tivesse retirado meu convite, mas não... Eu continuava tendo passe livre. Eu tinha algumas idéias de como utilizar aquilo em meu favor no futuro, mas não essa noite. Essa noite precisava dormir tranqüila. Se eu iria ou não deixar o mesmo acontecer nas próximas... Bom, isso eu não podia garantir.
Sentando na cama dela com cuidado, eu puxei as cobertas e a deitei sobre o colchão. imediatamente virou de lado, abraçou o travesseiro e murmurou coisas ininteligíveis. Eu sorri, retirando suas botas e em seguida a cobrindo com todos os cobertores disponíveis.
Não havia mais nada a fazer ali, mas eu não me sentia capaz de ir embora. Por isso eu cuidadosamente me deitei ao lado da caçadora, acariciando os cabelos dela e refletindo. A menina perdida e triste que dormia ao meu lado era em quase tudo diferente da infantil e em parte promíscua que eu trouxera para esse mesmo quarto na noite anterior. Em quase tudo, exceto por uma coisa. Ambas precisavam de mim muito mais do que se davam conta.

You left me hanging from a thread we once swung from together
(Você me deixou pendurado por um fio, no qual costumávamos balançar juntos)
I've lick my wounds but I can't ever see them getting better
(Eu lambi minhas feridas, mas não as vejo cicatrizando nunca)
Something's gotta change
(Algo precisa mudar)
Things cannot stay the same
(As coisas não podem continuar iguais)


Não que ela fosse admitir algum dia. Muito menos me pedir ajuda. A barreira que ela criara em volta de si me proibia de me aproximar demais, por isso para realmente alcançá-la eu recorria às áreas da vida dela não tão cuidadosamente protegidas. A raiva, a violência... Era quando brigávamos que eu me sentia mais próximo a ela. Porque quando ela estava enraivecida, não guardava nada. Atirava a raiva acumulada para fora, machucando quem quer que estivesse no caminho. Mas esses ao menos eram os únicos momentos nos quais ela não se escondia atrás de uma máscara.

Her hair was pressed against her face
(O cabelo dela estava grudado em seu rosto)
Her eyes were red with anger
(Seus olhos estavam vermelhos de ódio)
Enraged by things unsaid and empty beds and bad behavior
(Enraivecida por coisas não ditas, e camas vazias e mau comportamento)
Something's gotta change
(Algo precisa mudar)
It must be rearranged
(Precisa ser reorganizado)


Mas ela também não usava uma máscara agora. Dormindo, parecia outra pessoa. Longe estava a caçadora sarcástica e cruel. Eu me virei de lado com cuidado, ficando de frente para ela. parecia tão serena, tão despreocupada, com a cabeça repousando em um travesseiro enquanto abraçava outro contra a frente de seu corpo. Eu ergui minha mão livre e segurei a dela, enquanto silenciosamente comparava a caçadora que eu conhecia com a garota que eu agora encarava.
A que eu via adormecida naquela cama não parecia capaz de pisotear o coração de alguém por raiva e medo dos sentimentos dessa pessoa. Enquanto ela dormia ela não era uma caçadora. Talvez por isso eu permanecesse ali, acariciando seu cabelo macio... Se naquele momento ela não precisava ser uma caçadora, eu também podia esquecer que era um vampiro.

I'm sorry
(Eu sinto muito)
I did not mean to hurt my little girl
(Não era minha intenção machucar minha garotinha)
It's beyond me
(Está além de minhas possibilidades)
I cannot carry the weight of the heavy world
(Eu não posso carregar o peso desse mundo)
So goodnight, goodnight, goodnight, goodnight
(Então boa noite, boa noite, boa noite, boa noite)
Goodnight, goodnight, goodnight, goodnight
(Boa noite, boa noite, boa noite, boa noite)
Hope that things work out all right
(Espero que as coisas se resolvam)


O único barulho no quarto era a respiração calma de , misturada à minha, desnecessária. Só então eu me dei conta que inconscientemente havia começado a respirar na mesma velocidade que ela. Seu coração também batia com muito mais calma, e aquele era um som diferente para mim. Quando estávamos juntos o coração dela sempre acelerava. Fosse por estar lutando, ou tendo ataques de raiva, ou apenas por estar entregue ao desejo, o coração dela nunca batia calmo quando perto de mim, e isso era bom. Era a prova de que, querendo ou não, se sentia viva quando estávamos juntos. E ela precisava disso tanto quanto eu. Eu era observador o suficiente para entender que passara os últimos anos vivendo como um robô. Deixando que as coisas acontecessem, que a maré a levasse... Talvez se distanciar da situação fizesse tudo doer menos... Um pouco como uma anestesia. Mas ela não podia se isolar quando eu insistia em estar por perto. De certa forma eu exigira que estivesse presente de corpo, mente e espírito desde o nosso primeiro encontro, pois ela sempre soubera que eu, assim como ela, era um adversário que necessitava de atenção total para ser vencido. Eu já não era mais seu inimigo, pelo menos não no sentido mais básico da palavra, mas mesmo assim eu ainda a forçava a viver, e ela precisava disso. E quanto a mim... Estar perto dela me fazia sentir vivo também. Quase como se meu próprio coração pudesse a qualquer momento voltar a bater, e a sensação de ser mais que um vampiro estava se revelando algo importante para mim. Era uma troca. Em alguns aspectos era tão morta quanto eu, mas juntos nós nos sentíamos... Vivos.

The room was silent as we all tried so hard to remember
(O quarto estava silêncioso enquanto tentávamos nos lembrar)
The way it feels to be alive
(Como é se sentir vivo)
The day that he first met her
(O dia que ele a encontrou pela primeira vez)
Something's gotta change
(Algo precisa mudar)
Things cannot stay the same
(As coisas não podem continuar iguais)


Eu faria o possível para mantê-la vivendo. E para isso valia qualquer estratégia. Eu precisava mantê-la aqui, dar um sentido a mais à vida dela. Dar a algo que combatesse a vontade secreta de morrer, algo que a forçasse a continuar viva. E era isso que eu daria a ela. Mesmo que significasse fazê-la me detestar tanto que fosse impossível ignorar a sensação. Porque era isso que importava, continuar a fazendo sentir.

You make me think of someone wonderful,
(Você me faz pensar em uma pessoa maravilhosa)
But I can't place her
(Mas não consigo localizá-la)
I wake up every morning wishing one more time to face her
(Eu acordo todas as manhãs querendo vê-la mais uma vez)
Something's gotta change
(Algo precisa mudar)
It must be rearranged, oh
(Precisa ser rearranjado, oh)


Porque se ela continuasse a bloquear e ignorar tudo o que sentia, a garota que eu sabia existir dentro dela, aquela com coração, nunca conseguiria atingir a superfície. E era essa idéia, a de libertar , que me fazia continuar firme em minha decisão de ajudá-la a derrubar os obstáculos que ela mesma erguera. Mas para encontrar a luz, teria que aceitar a escuridão primeiro. Não dizem que a noite é sempre mais escura antes do amanhecer? Não é à toa.

I'm sorry
(Eu sinto muito)
I did not mean to hurt my little girl
(Não era minha intenção machucar minha garotinha)
It's beyond me
(Está além de minhas possibilidades)
I cannot carry the weight of the heavy world
(Eu não posso carregar o peso desse mundo)
So goodnight, goodnight, goodnight, goodnight
(Então boa noite, boa noite, boa noite, boa noite)
Goodnight, goodnight, goodnight, goodnight
(Boa noite, boa noite, boa noite, boa noite)
Hope that things work out all right
(Espero que as coisas se resolvam)


Mas o que me doía mais nisso tudo não era a dor que eu sentiria no processo. Porque no caminho que estava por vir, cada sofrimento de doeria em mim também. Mas o que mais doía era saber que talvez, mesmo com tudo que eu estava disposto a fazer, ela não me deixaria me aproximar. Eu pretendia vencer suas barreiras, sim. Sonhava em encontrar o caminho de seu coração, mas talvez mesmo sem os obstáculos simplesmente se recusasse a abrir a porta para mim. Aquela parte horrível de mim insistia em murmurar esses pensamentos... Que nunca me amaria. Pior, que talvez eu nunca fora amado por ninguém porque simplesmente não merecia. Não era digno.

So much to love
(Tanto para amar)
So much to learn
(Tanto para aprender)
But I won't be there to teach you
(Mas eu não estarei lá para te ensinar)
I know I can be closed
(Eu sei que posso ser fechado)
But I try my best to reach you
(Mas eu faço o possível para te alcançar)


Mas mesmo sem o amor dela, eu estaria lá. Como eu dissera na noite na qual a beijara pela primeira vez, eu estaria lá não me importando se o momento era bom ou ruim. Porque a mim ela não seria capaz de afastar. Minhas próprias palavras ecoavam em minha cabeça... “Eu posso ser seu pior inimigo, ... Mas eu sou tudo que você tem”. Essa era a verdade. No final das contas, eu era tudo o que ela tinha de verdade. As pessoas que ela amava não eram capazes de entender, muito menos de ajudá-la a não se destruir de vez. Mas eu era. Eu era, e por isso nunca a deixaria.

Era uma promessa.

I'm so sorry
(Eu sinto tanto)
I did not mean to hurt my little girl
(Não era minha intenção machucar minha garotinha)
It's beyond me
(Está além de minhas possibilidades)
I cannot carry the weight of the heavy world
(Eu não posso carregar o peso desse mundo)
So goodnight, goodnight, goodnight, goodnight
(Então boa noite, boa noite, boa noite, boa noite)
Goodnight, goodnight, goodnight, goodnight
(Boa noite, boa noite, boa noite, boa noite)
Hope that things work out all right
(Espero que as coisas se resolvam)


- Boa noite, . – eu murmurei, antes de beijar sua testa carinhosamente e me retirar de seu quarto. Daquele quarto eu sairia. De sua vida? Oh, isso ela logo descobriria que não conseguiria me forçar a fazer.


Capítulo 16 - One Step Forward... Two Steps Back


’s POV

Gargantilha?

Não, fina demais.

Cachecol?

Seria excelente. Se os climatizadores da sede subterrânea da Organização não mantivessem a temperatura constantemente amena, é claro.

Eu tinha milhões de motivos para querer matar . Mas, naquele momento, as marcas em meu pescoço eram o mais forte.

Pela milésima vez desde que acordei naquela manhã, eu chequei os dois pontos vermelhos em minha pele pelo reflexo no espelho. É, ainda estavam lá. Meu corpo geralmente cicatriza feridas com uma velocidade impressionante, mas fazer isso em menos de vinte e quatro horas seria pedir demais. Ou seja, eu precisava urgentemente arranjar uma forma aceitável de cobrir meu pescoço sem que parecesse suspeito.

Bem mais fácil na teoria do que na prática.

Mas eu precisava admitir que o motivo pelo qual eu passara a última hora revirando meu quarto em busca de cachecóis e blusas de gola alta era que eu precisava de uma distração. Se eu empenhasse todas as minhas forças em procurar uma solução para aquele problema, eu esqueceria os mais complicados. Melhor ficar obcecada com as marcas no meu pescoço do que, bem... Com o resto.

Resto esse que eu estava fazendo o possível para bloquear.

Eu não tinha outra escolha, na verdade. Encarar tudo o que havia acontecido na noite de ontem seria implorar por uma internação no manicômio mais próximo. Para início de conversa, eu quase morrera. Duas vezes.
Esse era o pensamento que diminuía um pouquinho a minha raiva por . Porque a minha segunda “quase-morte” não foi realmente perigosa. apenas fez um grande teatro para tentar me ajudar a perceber a gravidade do que eu estava sentindo.
É difícil explicar, porém não mais do que é difícil entender. Mas eu finalmente começava a compreender o que exatamente fizera por mim na noite passada. Claro, a primeira coisa que eu senti ao acordar e me lembrar da noite de ontem foi um ódio mortal por . Tendo “boas intenções” ou não, ele me mordera. O filho da puta havia me mordido e para um caçador essa é uma das piores ofensas do mundo. A mordida é o maior símbolo do que faz um vampiro ser um monstro. É por ela que eles se alimentam, sugando a vida de seres humanos. É a coisa que eu aprendi a abominar durante os anos, então o fato de ter me mordido me irritava profundamente.

Principalmente pelos arrepios excitados que percorriam meu corpo toda vez que eu lembrava do que acontecera.

Mas isso não vem ao caso. O que importa é que havia tentado me ajudar. Claro, de sua maneira estranha e deturpada que já me era familiar, mas mesmo assim... Mesmo assim eu conseguia entender as diversas intenções por trás do que ele fizera. A primeira era me assustar, óbvio. Se o vampiro naquela fábrica fosse qualquer um além de eu não teria saído viva dali. Eu teria morrido de qualquer jeito, fosse do modo mais definitivo ou sendo transformada. E, bizarramente, acho que essa proximidade com a morte é parte do que torna uma mordida tão... Intensa. O perigo, o medo... A possibilidade que tanto excita quanto apavora. Eu sabia que a excitação era o bônus do pavor que ele quis instaurar em mim, porque mesmo enquanto eu me entregava àquela deliciosa sensação, parte de mim tinha medo. E era isso que queria, me fazer temer a morte, porque se eu a temesse, talvez esse sentimento fosse o suficiente para reprimir o bizarro desejo por ela que, agora eu sabia, existia em algum lugar dentro de mim, já que meu pouco apego à vida não era o suficiente.
Olhando no espelho agora, eu podia dizer com sinceridade que havia funcionado. Eu não queria morrer, não mesmo. Entretanto, eu sabia que aquele desejo mórbido não era algo constante. Eu não sou nenhuma maníaca suicida, prova disso é que, até a noite anterior, eu nunca me dera conta de que por vezes algo dentro de mim ansiava por destruição. Não, o desejo de morte era algo que aparecia quando eu me encontrava vulnerável. Por hora eu sabia que o “plano” de teria efeito, mas a longo prazo a vontade de botar um fim em tudo isso voltaria. Era isso que me assustava e me fazia entender que eu precisava de perto de mim. Porque, além do medo, eu sabia que ele havia tido ainda outra “boa intenção” além das óbvias mais egoístas como o simples prazer de me morder e me punir pelo que eu quase havia feito comigo mesma.

E era isso que, no fundo, me impedia de ficar totalmente irritada com ele.

Porque por mais que o ato de tivesse tido lados egoístas, ele tentara me ajudar e, mais importante... Havia usado a mordida para mostrar que se importava.
Eu me lembrava dos pensamentos que havia tido enquanto me mordia. Sobre a conexão intensa que o ato estabelecia, sobre como o meu sangue estaria em por algum tempo... O simbolismo do ato não passava despercebido por mim.
Sangue é vida. Por isso vampiros bebem sangue, para continuar vivendo. E se meu sangue estava em , de certa forma minha vida também estava. Ele tirara um pouco da minha vida, a transformando em dele, como se para dizer que a responsabilidade não é só minha. Como se dizendo que eu preciso pensar nele antes de tomar decisões destrutivas e ao mesmo tempo firmando um mudo compromisso de me impedir se eu tentasse.

Era algo um pouco assustador, presunçoso e... Estranhamente fofo.

E era isso que me impedia de sair atrás dele com uma estaca na mão. Porque por mais que a mordida tivesse me irritado, eu sabia que ele havia feito aquilo por mim. E mesmo eu sabendo que nunca o agradeceria pela preocupação que ele tinha comigo, no fundo eu me sentia grata.
Então talvez fosse um surto de maturidade. Ou talvez meu lado bitch simplesmente tivesse tirado uma folga. Mas o que importa é que, por essa razão, eu não estava tão inclinada a matar quanto normalmente estaria.
Aquele pensamento era confuso e novo para mim. Eu não fazia a menor idéia do que faria quando finalmente estivesse cara a cara com . Para ser totalmente sincera, eu temia o que aconteceria quando eu me visse forçada a encarar o vampiro. Nós não tínhamos um diálogo decente desde o dia em que ele saiu da cidade para fazer só Deus sabe o quê... Em uma noite eu estava bêbada e na outra, perdida no encanto sombrio de . Fazia tempo que não tínhamos uma conversa sob circunstâncias normais e eu temia o confronto eminente. Mas eu podia guardar aqueles pensamentos para serem analisados mais tarde.

Depois que eu arranjasse um jeito de cobrir meu pescoço, de preferência.

Nada funcionava direito. Eu apelara até mesmo para maquiagem, mas só o que havia conseguido era fazer meu pescoço chamar mais atenção, deixando óbvio que eu tentava esconder alguma coisa. Eu cheguei a cogitar não esconder as marcas e dizer que eram mordidas de insetos, plano que funcionaria totalmente... Se eu não morasse em uma organização de combate a vampiros onde a mera menção da palavra “pescoço” já deixava todos alerta.
Suspirando, eu olhei com um pouco de dúvida para uma blusa largada em minha cama. Era branca e de gola alta, porém sem mangas, de forma que era um pouco menos suspeito eu a usar quando não fazia frio, mesmo o tecido sendo um pouco grosso. Eu ia morrer de calor com aquilo, mas não tinha outra alternativa. Xingando as presas de mentalmente, eu vesti a blusa, não sem antes colocar uma camiseta levinha por baixo. Ia tirar a mais grossa assim que estivesse sozinha. O material, além de quente, pinicava a pele do meu pescoço, de forma que eu planejava me livrar daquela tortura assim que saísse da reunião.

Não mencionei a reunião, né?

O único motivo pelo qual eu me esforçava em esconder a mordida ao invés de me esconder pelo resto do dia era que Tara havia passado em meu quarto para avisar que Miles convocara todos os caçadores para uma reunião para informar o plano de ação que adotaríamos para encontrar o Mestre. Ao ver minha cara de pânico, Tara me garantiu que ninguém havia avisado Miles sobre meu primeiro acesso de irresponsabilidade da noite de ontem... E que, quanto ao segundo, ela mantivera em sigilo absoluto, a não ser para .
Não dá nem pra explicar o quanto eu me sentia grata a essa garota. Minha equipe teria um ataque se soubesse que eu havia ido atrás do Mestre novamente depois do que quase acontecera, e quanto a ... Não dava para negar que procurá-lo quando havia algo de errado comigo era a coisa mais sábia a se fazer, levando em conta que ele era o único que seria capaz de me ajudar. Então eu não a culpava por tê-lo avisado, mesmo ainda não sabendo como me sentia exatamente em relação aos acontecimentos naquela fábrica.

Eu realmente estou mais razoável do que o normal. Só podia ser efeito do trauma.

Sou forçada a admitir que razoável simplesmente não é .

Assim como o reflexo no meu espelho não era. A gola rolê me dava um ar tão... Sério. Responsável. Principalmente pelo coque meio solto que eu prendera no alto da cabeça com um palitinho japonês para evitar que o cabelo piorasse meu desconforto. Nem mesmo o short larguinho e a maquiagem extra que eu apliquei nos olhos me fazia sentir mais eu.
Respirando fundo, eu ajeitei meu cordão, que havia ficado escondido embaixo da blusa, e saí do quarto. Não, eu não havia retirado o colar com a rosa negra, e nem pretendia. A verdade é que eu havia gostado daquele acessório. É de se imaginar que, depois de tudo que acontecera, eu tomaria horror ao que quer que viesse do Mestre. Porém, de forma talvez um pouco doentia, eu não queria me livrar do objeto. Talvez vê-lo em mim todos os dias me ajudasse a não mais perder o foco, como um sutil lembrete de quem deveria ser o centro da minha atenção dali pra frente. Eu andava deixando , e minhas próprias neuroses desviarem meus esforços do problema mais importante. Meu trabalho era minha vida, eu precisava parar de me esquecer disso.
O caminho do meu quarto até a sala de reuniões era pequeno, porém me vi o percorrendo apressada ao olhar no relógio e ver o quão atrasada eu estava. Droga de cicatrizes. Havia perdido tempo demais tentando cobri-las.
Eu abri a porta devagar, com esperanças de que, se fizesse silêncio, poderia entrar e me sentar sem ser notada. Mas assim que adentrei a sala, me tornei o alvo do olhar de Miles, em pé em uma espécie de palco no fundo do aposento, e de todos os outros homens do recinto. Ou seja, de todos os participantes daquela reunião.

É uma droga ser a única caçadora mulher desse lugar.

Se eu fosse um cara, talvez não me destacasse tanto. Ok, não é verdade. Se eu fosse humana, talvez não me destacasse tanto. Mas sendo quem sou, é meio difícil passar despercebida nesse lugar. Todos sabem meu nome, minha história... E, como se isso não bastasse, ser a única mulher em um grupo formado só por homens torna a atenção meio inevitável.
É algo que eu nunca entendi, na verdade. Não que seja proibido mulheres se tornarem caçadoras, mas nenhuma tenta. Em parte porque Miles, embora tente disfarçar, age de forma a deixar claro que não quer mulheres caçando. Bom, ao menos nenhuma além de mim. E como garota nenhuma nesse lugar é estúpida o suficiente para contrariar o chefe... Nenhuma tenta. É a forma de Miles impedi-las sem parecer sexista proibindo oficialmente.
Ignorando a atenção e lançando um sorriso de desculpas a Miles pela demora, eu segui rapidamente pelas fileiras de bancos até um vazio que eu avistara ao lado de Athos. Meus três mosqueteiros guardaram um lugar para mim? Era meio bonitinho da parte deles.
- Perdi muita coisa? – eu sussurrei para o mais velho dos três ao me sentar ao lado dele.
- Miles como sempre está dando mil voltas antes de chegar ao que interessa. Não se preocupe, você não perdeu nada. – respondeu Athos, sorrindo.
- Agora que a Senhorita resolveu nos dar o ar da graça, podemos continuar. – disse Miles, em tom meio impaciente. Pelo visto minha entrada havia o interrompido no meio de seu discurso. Parte de mim quis chamar a atenção dele para o fato de que, se não fosse por mim e , nós não estaríamos nem sequer tendo essa reunião. Só o que me calou foi a presença dos outros caçadores. Desmoralizar Miles em frente a eles seria implorar por repreensão.

Eu era bem insolente, mas não era idiota.

- Como todos sabem, foi descoberto a cerca de uma semana os objetivos do grupo de vampiros liderado pelo autodenominado “Mestre”. – eu quis novamente interromper para deixar claro que não tínhamos certeza se o Mestre se referia assim a si próprio ou se era coisa de seus seguidores, mas pela segunda vez me segurei. Era estranho ouvir Miles falar desse tipo de coisa aqui e não em sua sala, em particular – Também descobrimos boas pistas sobre os lugares que esses vampiros andam utilizando como esconderijos. O assunto foi minuciosamente discutido e já chegamos a um consenso sobre o melhor plano de ação.
- ? – eu ouvi Porthos, do outro lado de Athos, murmurar para os irmãos em tom sarcástico – Não diga. Achei que ele fosse esperar mais uma semana inteira. Quem se importa se no tempo que ele leva para discutir o assunto, os caçadores dele podiam estar virando lanchinho de vampiro? A segurança de nossos pescoços é supérflua. O importante é Miles resolver detalhezinhos!
Eu ri. Um pouco alto, na verdade, simplesmente porque pensava que ninguém ali além de mim discordava do chefe boa parte das vezes. Mas talvez isso fosse porque até pouco tempo eu não tinha contato com nenhum outro caçador.
Aramis riu também e Athos apenas sorriu. Sorte dele, na verdade. Graças aos sons de nossas risadas, Miles estava olhando feio na minha direção. De novo.
- Senhorita e Senhor Cromwell, se puderem fazer o favor de dividir qual a graça do assunto com os demais... Porque, ao meu ver, nossa situação está mais próxima das lágrimas.
Nós paramos de rir imediatamente, eu por mais de um motivo. Havia acabado de lembrar que, de certa forma, eu tinha me tornado um “lanchinho de vampiro” na noite passada. Droga. Eu tinha conseguido passar quase dez minutos sem me lembrar daquele incidente.
Esse definitivamente não era o tipo de pensamento que eu devia estar tendo no momento, por isso me concentrei em assuntos mais seguros. O sobrenome dos três irmãos, por exemplo. Até aquele momento nunca me ocorrera perguntar. Cromwell... Aramis Cromwell. Era um nome forte. Eu gostava.
- Como eu ia dizendo... – continuou Miles, em tom exasperado, capturando novamente minha atenção – O assunto precisou de tempo para que se chegasse à solução mais eficaz e segura... À primeira vista, juntar alguns grupos e revistar casas abandonadas parecia uma boa idéia... Porém se analisarmos melhor as circunstâncias, torna-se imperativo que não chamemos muita atenção para o que estamos fazendo. – eu senti meu queixo cair. Era isso que eu temia que Miles fosse fazer, mas pelo visto ele havia pensado melhor. Era um milagre – Queremos pegar o Mestre de surpresa, então se começarmos a movimentar muitos caçadores, ele descobrirá que sabemos sobre seus esconderijos provavelmente antes de chegarmos ao local certo. Por isso ficou decidido que, ao menos enquanto nenhuma solução nos parece mais sábia, apenas mudaremos um pouco as rotas de caça de vocês. Dividiremos a cidade em pequenas áreas, localizadas nas proximidades de possíveis lugares nos quais os vampiros podem estar instalados. Colocaremos duas equipes em cada área e às ordens são para agir como sempre. Se notarem movimentação suspeita nas proximidades devem ligar direto para cá e aí sim mandaremos reforços para um ataque surpresa. As listas de equipes e as novas rotas de caça estão com meus assistentes, então se puderem se aproximar organizadamente da mesa no canto da sala, eu agradeço. – algumas pessoas já começavam a se movimentar quando Miles continuou – Mas antes... Gostaria de avisá-los que daqui a duas noites teremos uma pequena recepção para alguns de nossos doadores. Nem preciso dizer que a presença de todos é indispensável.
Eu pude ouvir resmungos de protesto vindos de todas as partes daquela sala e tive vontade de me juntar a eles. Recepções como essa não eram freqüentes, mas eu não podia pensar em muitas coisas mais tediosas.
A Organização não se sustentava sozinha. Para manter esse lugar, Miles e todos os presidentes que vieram antes dele recebiam doações de bem-feitores ricos que de alguma forma sabiam sobre vampiros e tinham ligação com esse lugar. A maioria era herdeira de famílias abastadas cuja história com a Organização vinha de muitos anos. Não que nós não tivéssemos acumulado bastante dinheiro com o passar dos milênios, já que a Organização existe praticamente desde o início da humanidade, mas se tivéssemos que começar a existir sem doações, não sei se iríamos agüentar mais muitos anos. Por isso a necessidade de, de vez em quando, puxar o saco dos doadores, que gostavam de visitar nossa Sede para convencer a si mesmos de que eram parte dessa luta. E nós, caçadores, precisávamos servir de enfeite nas recepções.

Não dá nem pra dizer o quanto eu odeio esse tipo de coisa.

Como aparentemente o discurso de Miles havia acabado, Porthos se levantou, assim como alguns outros representantes de equipes, para conferir os novos horários e locais de patrulha. Eu estava prestes a fazer o mesmo quando Aramis se ofereceu para ir por mim. Eu sorri em agradecimento e alívio. Definitivamente não queria me meter na multidão que agora rodeava a mesa com os assistentes de Miles.
- Então... O que você acha? – perguntou Athos, já que éramos dois dos poucos que continuavam sentados nas fileiras de cadeiras.
- Do plano de Miles? – ele assentiu com a cabeça – Eu concordo que é o jeito mais sensato de lidar com a situação, já que nós não sabemos o número exato de vampiros. Seria suicídio atacar assim, no escuro. Mas de qualquer forma, mesmo sendo o melhor plano, não vai funcionar.
- Também acho. – respondeu o garoto – Esse vampiro tem se mostrado esperto demais para ser pego de surpresa dessa forma. Mas eu achei que Miles fosse pensar em algum plano genial pra acabar de vez com essa ameaça. Pode parecer ingenuidade, mas eu tinha esperanças.
- Eu não. – foi só o que eu respondi, me sentindo um pouco culpada. Em parte, foi minha falta de confiança na capacidade do Conselho de administração de resolver as coisas que me fez cair em uma armadilha na noite passada. Eu só havia resolvido investigar por conta própria porque sabia que qualquer que fosse o plano de Miles, não iria funcionar. O fato de eu estar certa, no entanto, não diminuía minha culpa. Se eu fosse uma boa caçadora, teria ao menos um pouco de fé nos meus chefes, como Athos tinha.
Um pouco da minha culpa devia ter ficado evidente em minha voz, pois agora o mais velho dos Cromwell me olhava curioso.
- O que foi? – eu perguntei, me sentindo um pouco acuada.
- Você estava agindo por conta própria, não estava? – ele perguntou, sorrindo.
- Como você sabe? – eu perguntei, surpresa demais para disfarçar. Eu conhecia aquele garoto há uma semana. Como ele já era capaz de adivinhar esse tipo de coisa?
- Eu tenho dois irmãos mais novos. – ele respondeu, rindo – Acredite, depois de um tempo você vira especialista em perceber quando alguém anda aprontando por debaixo dos panos.
Eu encarei Athos por um longo momento. Não sei se foi o olhar sincero, ou o sorriso amigável, ou os cabelos castanhos levemente cacheados presos no sempre presente rabo-de-cavalo que o dava um ar estranhamente responsável. O fato é que algo naquele conjunto me fez ter certeza de que eu podia confiar nele.
- Ok, isso é segredo. – eu comecei – Mas... Digamos que eu tenha uma lista de endereços que andei investigando.
Não tinha sentido contar para ele como meu plano havia me metido em confusões na noite passada.
- Sozinha? – Athos perguntou, franzindo a testa.
- foi comigo. – eu disse rapidamente. Bom, não era mentira. Ele realmente havia estado lá comigo na segunda vez. O fato de eu não tê-lo chamado era só um detalhe e eu não precisava que Athos soubesse o quanto eu era irresponsável.
- Ele já está de volta? – perguntou Athos – Não o vejo desde o dia que Miles o tirou da nossa equipe. Ele não estava viajando?
- Ele voltou há uns dias para a cidade, mas oficialmente ainda não está trabalhando. Parece que tem umas coisas para resolver. – eu respondi. Perfeito. Havia ao mesmo tempo explicado e tornado desnecessário dar mais detalhes.
- Oh. Bom, melhor assim. Não acho seguro você ir sozinha atrás desses vampiros. – ele disse, e eu senti outra onda de culpa – Se vai continuar, é melhor ter alguém pra te dar cobertura.
- Continuar, huh? – eu disse, sorrindo – Não vai me denunciar então? – meu tom era de brincadeira, mas havia um pouco de apreensão ali também. Eu não estava acostumada a confiar em pessoas que conhecia há pouco tempo.
- Claro que não. – me garantiu Athos, me lançando o sorriso sincero que o deixava ainda mais bonito – Nem te denunciar, nem contar para mais ninguém.
- Bom, você pode contar para os seus irmãos, só não espalhem. – eu garanti.
- Na verdade, eu não acho uma boa idéia Aramis ou Porthos saberem sobre isso. – disse ele, o sorriso murchando. Por aquela eu não esperava.
- Por quê? – eu perguntei, confusa.
- Bom... Aramis é um cara excelente, mas às vezes leva regras à sério demais. – perante meu olhar confuso, Athos continuou – Ele é extremamente fiel à Organização, por isso não gosta de desobedecer ordens. Não acho que ele iria longe ao ponto de te denunciar, claro. Ele, ahn... Gosta muito de você, mas mesmo assim... Acho melhor não deixar ele saber disso.
Eu entendia. Também entendia muito bem o que Athos quis dizer com “gosta muito de você”. Não que eu ainda não tivesse percebido, mas o fato de realmente ouvir aquilo, mesmo do jeito cuidadoso de Athos, tornava tudo mais real.

Oh sim. Eu via problemas no horizonte.

Mais problemas.

- E Porthos? – eu perguntei, simplesmente para mudar de assunto. Eu realmente não queria ter que lidar com aquilo agora. A idéia de que um novo podia surgir na minha vida era tudo que eu não precisava no momento.
- Porthos não está nem aí pra regras. Mas também é melhor deixá-lo sem saber de nada.
- Você acha que ele diria alguma coisa?
- Não de propósito. Sabe, Porthos tem um coração gigante... Mas uma boca maior ainda. – concluiu o rapaz. Eu ri, assentindo com a cabeça em compreensão, ao mesmo tempo em que avistava os outros dois voltando.
- Adivinha? – disse Aramis, assim que estava próximo o suficiente – Você e estão com a gente!
- Nós devíamos ter imaginado. – disse Porthos, enquanto o irmão mais novo me entregava o esquema da nova rota – já trabalhou com a gente, faz sentido juntar nossas equipes.
- Bom, não exatamente juntar. – disse Aramis – Vocês ficam com o lado norte da rota e nós com o sul, mas ainda assim a gente vai se esbarrar de vez em quando! Vai ser divertido.
- Tenho certeza. – que não, eu acrescentei mentalmente. As coisas já seriam complicadas o suficiente com depois da maldita mordida. Ter que fingir normalidade na frente dos Cromwell seria um inferno.
- Bom, como o não está na cidade, pode deixar que a gente cobre a área de vocês essa noite. – ofereceu Porthos. Eu já ia abrindo a boca para dizer que o vampiro na verdade já havia voltado quando percebi Athos piscando para mim e sorrindo. Eu sorri de volta e resolvi me calar. Afinal, talvez fosse bom tirar um dia de folga após todas as emoções da noite anterior.

Não, eu não estou me referindo apenas ao Mestre.

- Por que você não pára de coçar o pescoço? – perguntou Athos, e só então eu percebi que inconscientemente havia levado meus dedos para perto das marcas de mordida escondidas pela gola rolê.
- Alergia ao tecido. – eu respondi automaticamente. Outra meia-verdade. Aquela gola realmente estava me dando coceira.
- Então porque você está usando? – perguntou o garoto novamente.

Uh-oh.

- Eu gosto do modelo. – eu menti descaradamente. Os três não me conheciam a tempo o suficiente para reparar que eu nunca usava aquela blusa.
- Mulheres. Sempre sofrendo pela aparência. – disse Porthos, balançando a cabeça. Eu ri, aliviada por ter escapado. Droga de Athos e sua super percepção. Eu devia apresentá-lo a Tara. Os dois podiam comparar notas.

Foi só pensar na garota e ela apareceu, atravessando a porta da sala agora quase vazia acompanhada de .

- Hey, Sabrina! – disse Porthos, sorrindo enquanto eles se aproximavam.
- Sabrina? – eu perguntei, sem entender.
- “A Aprendiz de Feiticeira”. – Aramis esclareceu. Meu Deus, de onde Porthos havia desenterrado isso?
- Não enche. – eu disse, embora rindo, em defesa da loirinha que agora parecia sem jeito – Ela não parece em nada com a garota da série. Bom, talvez o cabelo.
- Tem razão. A nossa Tara é mais bonita. – disse Porthos, sorrindo para a garota, que se possível ficou mais vermelha. Tara quase não tinha mais ataques de timidez comigo, mas pelo visto eu era uma exceção.

Foi então que eu notei o olhar feio, porém disfarçado, que lançava a Porthos.

Oh. Meu. Deus. Tara e ? Que... Fofo. Se bem que, se eu tivesse lendo corretamente a expressão no rosto de Porthos enquanto ele olhava para a bruxinha, diria que o nerd não era o único interessado na garota. Uau, Tara arrasando corações. Ela havia me contado, quando veio me avisar da reunião, que na noite passada a fizera ligar para os três, para que ela não se arriscasse voltando para casa sozinha. Eu fizera o máximo para bloquear a onda de gratidão que eu tive pelo vampiro ao perceber o cuidado que ele teve com a garota.
Eu não me preocupei em perguntar qual a desculpa que Tara havia dado para estar no cemitério sozinha àquela hora da noite, ou como havia sido conhecer os três. Fiz uma anotação mental para perguntar mais tarde. Ela aparentemente causara uma impressão e tanto em Porthos.
Olhando novamente para , eu não pude culpá-lo por disfarçar a desaprovação. Porthos era mais alto e mais forte, e provavelmente capaz de quebrar no meio usando o dedo mindinho.
- Mais recados urgentes? – perguntou Athos para Tara, sorrindo. Oh, então essa havia sido a desculpa dela para ontem.

Pelo visto não era só eu que gostava de meias-verdades.

- Na verdade... Sim. – disse Tara, olhando para mim – Po-posso... Falar com você? – a gagueira nervosa havia voltado, mas eu imaginava que era só devido a proximidade dos meninos que ela ainda não conhecia direito.
- Claro. – eu disse, puxando a garota pela mão para um canto mais afastado, lançando um “vejo vocês depois” para os meninos, enquanto Tara só sorriu tímida. Notei que apenas se despediu de nós e foi embora.
Quando já estávamos afastadas o suficiente, eu me voltei para ela.
- O que o queria? – eu perguntei. Ele viera com ela aparentemente sem motivo.
- Ahn? Oh, nada, eu acho. A gente se encontrou no corredor e ele se ofereceu para me fazer companhia. – eu sorri um pouco maldosa – O que foi? – Tara perguntou, parecendo genuinamente confusa.
- Nada. – eu respondi, rindo. Se fosse qualquer outra pessoa, eu acharia que era brincadeira, mas Tara realmente parecia inocente. Huh. Pelo visto a senhorita perceptiva sacava tudo o que acontecia à volta dela... A não ser que a coisa estivesse diretamente relacionada à própria.
Eu quase expliquei o interesse óbvio de , mas me segurei. Seria maldade com o garoto não dá-lo uma chance de virar homem e contar ele mesmo o que sentia. Tudo fazia sentido, no entanto. O surto de “coragem” que ele teve na semana anterior, ao decidir assistir a sessão de tortura. Devia estar querendo impressionar Tara. Era bonitinho, de um jeito meio idiota, e eu queria que desse certo. Tara e já estavam há um mês conosco. Mais um pouco e bateriam o recorde de pessoas que ficaram mais tempo na minha equipe. Meu mentor e meus amigos de infância eram os únicos fixos, já que os demais nunca agüentavam a pressão que era trabalhar comigo, mas Tara e ... Podia ser apenas pensamento desejoso, mas eu esperava que aqueles dois não desistissem como os outros. Eu gostava deles.
- Mas então, o que você tem pra falar comigo? – eu perguntei, voltando a atenção para a garota à minha frente.
- Athos acertou, eu tenho mesmo um recado.

Eu franzi as sobrancelhas, meio chateada.

- Tara... Eu sei que você gosta de ser prestativa, mas isso não é bom em excesso. Se você continuar fazendo tudo que te mandam, vão começar a abusar. Já te mandaram me avisar sobre a reunião hoje mais cedo, agora outro aviso... Sério, estão te transformando em moleque de recados.
- Eu gosto de ajudar, e esse é um favor particular, na verdade. – disse Tara – está no nosso QG. Disse que quer conversar com você.

Oh, ótimo. Tudo que eu queria.

- E como ele está? – eu perguntei, precisando saber para o que me preparar – Parece irritado? Sacana? Triste?
- Normal, eu acho. – disse Tara, pensativa – Embora a aura dele tenha um pouco de nervosismo... Ansiedade.
- Isso não pode ser bom. – eu disse, mais para mim mesma do que para Tara.
- Não começa, . – disse a garota, em tom de repreensão – anda agindo de forma bem decente. Até me avisou que você estava segura quando te trouxe de volta na noite passada.
Aham, decente. era um anjo de decência.

Me perguntei qual seria a reação de Tara se eu a mostrasse as marcas frescas em meu pescoço. Que tal a “decência” de depois disso?

Mas claro que eu não faria isso, de forma que só respondi com meu habitual “ok, Tara” e me despedi da garota, seguindo para meu QG. Se estava lá, provavelmente significava que nínguém mais estava. O que era ótimo, já que eu sabia que precisava ter uma conversinha com a criatura antes de ter que fingir normalidade com ele na frente dos outros. Não que eu quisesse ter essa conversinha, mas minha vida é uma merda. Pura e simplesmente, uma merda.
Eu segui o caminho todo até o local onde me aguardava coçando meu pescoço desesperadamente. Não, não por causa da mordida. Pelo visto eu realmente tinha alergia àquele tecido e meu nervosismo parecia estar piorando a situação. Bom, ao menos havia um ponto positivo em ir falar com . Eu podia tirar esse troço e ficar só com a camiseta. Não havia muito sentido em esconder as mordidas dele.
Parada em frente à porta, eu respirei fundo antes de a abrir. Eu nunca sabia o que esperar dessas conversas com . O filho da puta sempre me surpreendia.

Eu tinha a horrível sensação de que dessa vez não seria diferente.

Entrei na sala com o olhar abaixado, de forma a não ter que encará-lo até que a porta estivesse seguramente fechada. Ouvindo o barulho da porta batendo como se esse fosse a assinatura final da minha sentença de morte, eu respirei fundo novamente, me virando devagar e encarando olhos que espelhavam o nervosismo que eu sentia.
Nenhum de nós falou nada por um longo momento. Eu porque sinceramente não sabia o que dizer e ele porque parecia estar me esperando dar um ataque.
- Será que você pode virar de costas por um minuto? – eu me vi perguntando, surpreendendo até a mim mesma. De todas as coisas que eu podia dizer para quebrar aquele momento tenso, era essa que eu escolhia?
não respondeu. Apenas me encarou como se eu tivesse duas cabeças ou algo igualmente bizarro. Eu não podia culpá-lo por achar que eu era louca, podia?
- Essa blusa está me incomodando, eu quero tirar. E não me sinto confortável fazendo isso com você assistindo, mesmo tendo outra por baixo. – eu expliquei. Era como se eu estivesse assistindo a cena de fora, como se a pessoa falando não fosse eu. Encarar depois das últimas duas noites era uma situação estranha demais, eu me sentia de certa forma desconectada.
assentiu, ainda meio confuso, e se virou. Eu soltei o cabelo e tirei rapidamente a blusa com gola rolê, me sentindo meio idiota. Era bem bobo me sentir envergonhada de um ato tão simples na presença de , ainda mais depois da noite de ontem.
- Pode virar agora. – eu disse, dobrando a blusa de qualquer jeito, planejando me livrar dela assim que possível. Foi só tirar aquele instrumento de tortura que a coceira havia parado.
Eu ergui meu olhar para encontrar o de , agora divertido.
- Seu pescoço está meio vermelho. – ele disse, simplesmente. Bom, devia estar mesmo, levando em conta o quanto eu o havia coçado.
- Culpa sua. – eu respondi, tentando manter minha voz leve – Precisei esconder as cicatrizes de alguma forma. Não sabia que a blusa me daria tanta alergia.
- Desculpa. – disse ele, visivelmente tentando não rir.
- Nem ouse rir da minha cara. Se eu tô horrível agora, é por sua causa. – eu respondi, mal-humorada.
- Você não ficaria horrível nem se tentasse. – ele respondeu, o tom surpreendentemente desprovido de malícia, sarcasmo ou qualquer outra de suas características habituais irritantes. Aquilo era bem raro.
- O que você quer falar comigo? – eu perguntei, um pouco desesperada. Simplesmente não podia deixar a conversa seguir por aquele caminho.
- Muita coisa. Mas sei que você também tem muito o que falar, então por que não começa?

Oh, sim, ele tinha que passar a bola pra mim. Covarde.

- Sinceramente? Não sei por onde começar. – eu disse, cruzando os braços. Ele havia me procurado, então ele que falasse alguma coisa.
Por outro longo momento, ele permaneceu calado.
- Como você está? – ele disse, finalmente.
- Bem. Ainda não tentei me matar hoje, então... Bem. – eu respondi.
- ... – ele começou a dizer, de forma meio defensiva.
- Não, é sério. Não tô tentando te provocar ou nada do tipo. – eu suspirei – Eu tô bem. E eu não quero morrer, de verdade. O que quer que tenha dado em mim ontem, foi coisa passageira. – eu disse. Ele não acreditou, claro. Ele sabia, assim como eu, que era o tipo de coisa que ficaria escondido dentro de mim até achar outra oportunidade para se libertar. Mas por hora eu preferia fingir que aquilo simplesmente não existia.

Negação, seu nome é .

- Você está mais calma do que eu pensava que estaria. – ele disse, visivelmente preferindo ignorar minha mentirinha. Pelo visto ele queria me manter tranqüila, ao menos exteriormente. Só Deus sabe a bagunça que eu estava por dentro.
- Tirando a confusão que está minha cabeça, estou estranhamente calma hoje. – eu concordei – Acho que ainda tô meio abalada. Mas você tá falando isso porque eu ainda não tentei arrancar sua cabeça com as minhas próprias mãos?
- Ahn... Sim? – ele disse, em um tom meio tentativo.
- Ok. É melhor você prestar atenção e aproveitar esse meu momento único de total honestidade, porque ele não vai se repetir. – eu o avisei. Era melhor aproveitar que a Bitch aparentemente estava ausente para resolver de uma vez por todas aquela situação – Ouça bem, porque eu vou falar uma vez só. Sim, eu quero te matar pelo que você fez ontem. Você me mordeu, , então acredite, eu estou com raiva. Mas eu também entendo parte dos seus motivos e é por isso que estou te deixando viver. Por isso e porque estava em débito com você. Nos considere quites agora.
- Débito? – ele perguntou, surpreso.
- É. E na verdade nós não estamos quites ainda. – eu disse, sabendo que faltava eu falar uma coisa. Era agora ou nunca. Em qualquer outro dia eu sabia que não diria aquela palavra, mas agora, ainda sob efeito do trauma, eu me sentia mais capaz – ?
- Sim?
- Obrigada. – eu disse, de forma rápida, como quem tira um band-aid com pressa para que doa menos.
- Por te morder? – perguntou, chocado. Eu precisei juntar todas as minhas forças para não bater a cabeça dele na mesinha de centro. Era pedir demais que ele facilitasse as coisas para mim.
- Você nasceu idiota assim ou esse é o resultado de anos de prática? – eu perguntei, sentindo a raiva antes controlada quebrar todas as barreiras até chegar à superfície.
- Sabia que você civilizada era algo bom demais para ser verdade. – disse , revirando os olhos.
- Bom, acho que você tem o dom de despertar meu lado escroto. – eu respondi – Não agradeço pela mordida, imbecil.
- Pelo quê então? – ele perguntou, levantando uma sobrancelha.
Eu precisei morder os lábios para não soltar um ou dois palavrões. Agora que a Vadia estava de volta, era mais difícil falar aquele tipo de coisa. tinha que estragar tudo!
- Pela noite anterior. – eu me forcei a dizer – Por ter me resgatado no bar.
Eu o encarei, o desafiando a dizer alguma gracinha. , porém, não parecia intimidado. Por isso a resposta dele me surpreendeu um pouco.
- Disponha. – ele disse, simplesmente. Mais uma vez, não havia nada duvidoso no tom dele.
Aquilo me pegou desprevenida. Eu já estava totalmente pronta para uma discussão, de forma que eu não sabia o que dizer. Não dava para soltar os cachorros em cima dele quando ele não me dava ao menos um pouco de justificativa para isso. Seria como berrar com uma parede.
- Não precisa ficar sem jeito assim também. – disse e eu percebi que não era a única que não sabia lidar com aquela situação – Eu não fiz nada demais.
- Você foi decente. – eu me vi forçada a dizer, relembrando as palavras de Tara e finalmente entendendo o real significado delas. Por mais difícil que fosse para mim, eu precisava ir até o fim com o meu agradecimento – Eu... Eu praticamente me atirei em você, mas você não se aproveitou da situação. Eu estava em débito com você por isso e por ter cuidado de mim, então considere o fato de eu não estar te espancando por ontem à noite como minha forma de pagamento. – eu continuei. Percebendo que estava sendo meio injusta de novo, eu acrescentei – Mas estou grata de verdade, . E, devo dizer, meio ofendida. – eu concluí, franzindo um pouco as sobrancelhas.
- Ofendida? Ah, não. O que eu fiz dessa vez? – perguntou , exasperado.
- O que você não fez. – eu respondi, a voz entre divertida e confusa – Eu não tô reclamando, mas não dá pra não me sentir um pouco ofendida. Quero dizer, eu realmente estava me esforçando naquela noite e você simplesmente resistiu a todos os meus truques. É um golpe meio sério na auto-estima de uma mulher.
- Você estava bêbada. Mas acredite, amor, tente algo parecido com aquilo quando estiver sóbria e eu não serei tão cavalheiro. – ele disse, em tom meio defensivo. Eu tive vontade de rir.
- Bom, não tenha muitas esperanças. – eu disse, passando por ele e me sentando no sofá, pegando o controle da TV. O clima estava voltando a ficar leve e era melhor que permanecesse assim. Nada melhor do que a televisão para servir de distração.
- Não tenho esperanças, tenho certezas. Você vai acabar se rendendo. – ele disse, do jeito provocante que eu havia sentido saudades.

Saudades? Ok, vou fingir que nunca pensei isso.

- É, talvez. No dia em que os porcos voarem. – eu disse, ligando a TV.

E dando de cara com a abertura da Super Pig.

Também vou fingir que isso não foi um sinal.

- Não fala nada. – eu disse, antes que pudesse fazer alguma gracinha relacionada ao desenho da porquinha voadora.
- Não ia falar. – disse , mas a risada dele me fazia acreditar no contrário.
- O que você quer comigo, afinal? – eu perguntei, me voltando para ele – Duvido que tenha vindo até aqui só pra possivelmente apanhar de mim pela mordida.
- Não vim mesmo. – disse ele, com o tom agora cuidadoso – Eu... Tenho uma proposta para te fazer.
Exatamente no momento em que ele disse isso, eu acabava de mudar de canal. Agora na tela Demi Moore e Woody Harrelson conversavam em uma das minhas cenas favoritas de “Proposta Indecente”.

Ok. Mais tarde eu teria que conversar com e Tara sobre isso. Porque a não ser que alguma delas tivesse jogado algum feitiço estranho no aparelho... Nossa TV estava viva.

E gostava de curtir com a minha cara.

Ok, eu sabia que era só coincidência. Mas mesmo assim voltei para o canal da Super Pig. Era mais seguro ficar só nos desenhos.
- Que tipo de proposta? – eu perguntei, um pouco receosa. Eu não precisava da TV profeta para imaginar que aquela proposta provavelmente seria indecente.
- Na noite passada... – ele começou, ainda de forma cuidadosa – Quando eu mordi você...
- Achei que esse assunto já estava resolvido. – eu o interrompi imediatamente. Achei que já tinha deixado claro para ele que não queria discutir isso.
- Só me escuta, ok? – ele disse, meio irritado – Na noite passada eu bebi apenas poucos goles do seu sangue... E mesmo assim me senti mais saciado do que sentiria se tivesse drenado um humano por completo.
- E o que isso significa? – eu perguntei, um pouco confusa pelo rumo que a conversa estava tomando.
- Que o seu sangue é forte. Muito forte. – ele respondeu, me olhando sério – Mesmo agora eu ainda me sinto mais forte do que o normal. Mais resistente... E só o que eu tomei foram alguns goles...
Oh, não. Eu finalmente havia somado dois mais dois e agora começava a ter uma bizarra desconfiança sobre onde ele queria chegar com aquilo.
- E daí? – eu perguntei, sentindo minha voz fraca.
- E daí que, pensando sobre isso há algumas horas atrás, eu tive uma idéia... – ele respondeu, o nervosismo que eu havia visto em seus olhos quando entrara na sala agora precariamente escondido sob a mascara de segurança que ele insistia em usar – Por isso tenho uma proposta para te fazer. Você poderia passar a ser minha... Fornecedora.

Por um momento eu só o encarei como se ele tivesse acabado de anunciar ter devorado toda a Família Real Inglesa.

No momento seguinte, eu explodi.

- O QUÊ? – eu gritei, levantando do sofá com um salto.
- , não exagera...
- Exagerar? – eu ri, um som agudo que eu não consegui reconhecer – Eu não tô exagerando. Só acho que ando ouvindo coisas. Porque é impossível você ter sugerido o que eu acho que você sugeriu!
- , só pára e pensa, ok? – disse , massageando as têmporas.
- Pensar no quê? Nos prós e contras de virar sua lancheira ambulante?!
- Você está vendo a questão pelo ângulo errado...
- Oh, estou? Então, por favor, me ilumine! Qual ângulo faria essa questão parecer menos ABSURDA?
- Bom, se você por um segundo tirar o foco de você mesma e olhar um pouco para o resto do mundo, talvez você entenda! – ele exclamou, finalmente parecendo irritado.
- Como assim? – eu perguntei, pega de surpresa pela afirmação dele.
- Um ser humano comum só pode doar pouco menos de meio litro por vez e menos de dois litros por ano. E se eu não dreno nenhum humano, preciso de dois litros a cada dois dias. – ele começou a explicar – Entende o que eu tô dizendo? O que um doador normal poderia doar, aos poucos, no período de um ano, é o que me mantém por poucos dias. Você tem noção da quantidade de sangue que Miles anda desviando dos hospitais por minha causa? E mesmo quando alguns dos funcionários daqui se oferecem para doar, é pouco.
- E? – eu perguntei, em tom teimoso, mesmo começando a entender onde ele queria chegar.
- E poucos goles do seu sangue me fortalecem mais do que os quatro, seis litros que um ser humano tem no corpo. – explicou, suspirando como se cansado – E eu tenho certeza que você, como meio vampiresa, se recupera da perda de sangue mil vezes mais rápido do que uma pessoa comum. Se eu passasse a me alimentar de você, esse problema todo terminaria.
- Eu não posso simplesmente te deixar ficar me mordendo, . – eu disse, séria.
- Acho que te provei na noite passada que, se eu não quiser, o processo não dói. – ele insistiu, com um sorrisinho irritante.
- Não é pela dor, é pela intimidade. – eu consertei – Ficar te dando sangue rotineiramente seria algo íntimo demais. Algo que eu não quero ter com você.
Outch. Ok, até eu senti minhas palavras doerem, mas era necessário. Eu precisava ser honesta e precisava que ele entendesse o meu lado.
Por um momento eu achei que ele desistiria. estava com aquela expressão de cachorro chutado que partiria meu coração, se eu ainda me permitisse ter um. Mas eu já devia ter aprendido que não era fácil assim me livrar dele.
- Ok, então. – disse ele, substituindo a expressão machucada por uma mais cruel. Eu suspirei aliviada. Com aquilo eu podia lidar – Quem liga para vidas humanas afinal?

Ou talvez não pudesse.

- Nem tente jogar essa carta, . – eu o avisei – Nós dois sabemos muito bem que você não pode matar humanos em Los Angeles.
- Oh, mas não sou eu que vou estar matando. É você. – continuou ele, sorrindo.
- O quê? – ok, do que ele estava falando?
- Bom, se você recusar a minha proposta, significa que eu vou continuar precisando dos pacotes do hospital... O que é uma pena. Você sabe o quão baixo é o número de doações de sangue, caçadora? E o quão alto é o número de mortes por falta de transfusão? – disse ele, balançando a cabeça com falsa decepção – Como vai ficar sua consciência sabendo que o sangue eu terei que tomar podia estar salvando a vida de uma pessoa?
- Chantagem emocional? Sério, ? – eu perguntei, irritada. Principalmente porque estava funcionando.
- Vampiro, amor. Eu faço o que posso. Esperava que eu fosse jogar limpo? – o sorriso sacana aumentou. Ah, a vontade que eu tive de quebrar os dentes dele naquele momento – E, além disso, só estou falando a verdade. Se você parasse de ser tão egoísta e aceitasse minha proposta, as coisas seriam bem mais fáceis. E não é como se você fosse perder alguma coisa com isso.
- Miles nunca aceitaria. – eu disse, começando a ficar desesperada. Minhas cartas na manga estavam acabando.
- Miles não precisaria saber. – retrucou – Você pode dizer que, por não confiar em mim, vai passar a cuidar pessoalmente da entrega dos pacotes de sangue. É só não ir falar com o contato no hospital e fingir que foi. – ele sorriu – E quanto às doações internas, diga que não acha uma boa idéia eu beber sangue de pessoas que trabalham aqui, tão próximas. Nunca se sabe quando eu posso acabar gostando demais e atacando o doador. Afinal, eu sou um vampiro, e vampiros são feras descontroladas. – ele concluiu, sarcástico.
- As marcas! – eu exclamei. Aquela era a minha última desculpa – Eu não posso ficar cobrindo meu pescoço para sempre!
- Eu não preciso necessariamente morder seu pescoço. – disse , inclinando a cabeça um pouco para o lado e sorrindo, mordendo um pouco o lábio inferior daquele jeito que ele com certeza sabia ser capaz de fazer minhas pernas fraquejarem. Oh, sim. Já usara a lógica e a chantagem, agora só faltava partir para a sedução – Sabe, tem outros pontos bem interessantes no seu corpo... – ele venceu a pouca distância que nos separava e segurou minha mão – Seu pulso, por exemplo... – os dedos longos de passaram a seguir vagarosamente as veias de meu pulso – Eu podia morder seu pulso. Ou talvez mais ao sul... Sabe, minha veia favorita fica bem aqui... – a mão dele havia começado a descer para a parte interior da minha coxa quando eu a segurei. Ele riu – Ok, pulso então. Se bem que eu posso te garantir que a veia da virilha seria bem mais interessante... Para ambos.
- Você... – eu comecei a perguntar, minha garganta subitamente seca – Você pode... – eu não conseguia completar aquela pergunta. Para minha sorte, no entanto, parecia entender aonde eu queria chegar.
- Me alimentar da veia safena? – ele perguntou – Posso. Na verdade, , embora as veias facilitem o trabalho, eu posso te morder em qualquer parte do corpo. – ele disse, sorrindo enquanto posicionava as mãos bem baixas no meu quadril. Aproximando a boca do meu ouvido, ele sussurrou – Qualquer parte.
Ok, eu sabia que devia sair dali. Eu sabia muito bem como essas situações terminavam, de modo que devia estar botando um ponto final na conversa mole daquele vampiro desgraçado. Mas a sensação das presas dele em meu corpo ainda era algo vívido demais em minha memória, impossibilitando que eu me mantivesse indiferente às imagens mentais que invadiam minha mente graças às sugestões dele. Céus, eu queria ser mordida de novo. Me sentia doente por sequer pensar nisso, mas cada fibra do meu corpo implorava por aquele prazer proibido, aquela mistura agridoce de dor e satisfação que enlouquecia meus hormônios e destruía meu juízo.
- Qualquer... Parte? – eu me vi perguntando, minha voz tão trêmula quanto o resto do meu corpo. Ele estava simplesmente perto demais. Eu já sentia aquela espécie de imã tentando me fazer avançar, colar meu corpo com o dele.
- Qualquer parte. – ele confirmou, cheirando meu cabelo de leve e suspirando. Por algum motivo, aquele som renovou a onda de desejo que dominava todos os meus sentidos – E acredite, caçadora... A vontade de enterrar meus caninos em certas partes desse seu corpo está se tornando insuportável. – as mãos dele em minha cintura passaram a me apertar com mais força, a voz caindo para uma espécie de sussurro sofrido – Isso está me matando, pequena. Você não faz idéia...
- Ok. – eu disse, de repente, pela milésima vez naquela noite me surpreendendo com minhas próprias palavras.
deu um passo para trás e me soltou, de forma a me olhar nos olhos e conferir se eu realmente estava falando sério.
Eu estava. havia vencido, como no fundo eu sabia que venceria desde que me fez a tal “proposta”. De que adiantava continuar tentando recusar quando eu não podia negar para mim mesma que queria aquilo? Que queria ele? No fim eu me renderia de qualquer forma e aquilo me assustava. Nossa relação ficava cada vez mais íntima e o ponto para o qual todos esses acontecimentos convergiam era claro. A pergunta que restava era: Eu deixaria que chegasse tão longe? Deixaria que o último grande abismo entre nós sumisse? Seria eu capaz de continuar mantendo longe do meu corpo, da minha cama? Pior que isso... Seria eu capaz de não deixar? De impedir que o que agora me parecia inevitável acontecesse?

Céus, eu não queria as respostas para aquelas questões. Não mesmo.

- “Ok”? – me perguntou, com um brilho meio esperançoso nos olhos, me despertando de volta para a conversa.
- Ok. – repeti – Mas... Só no pulso. – eu me forcei a acrescentar.
- Só no pulso. – ele concordou, sorrindo o sorriso mais pecaminosamente perfeito do planeta e segurando minha mão, me puxando de volta para o sofá.
- O que está fazendo? – eu perguntei, quando ele me fez sentar ao seu lado, ainda segurando minha mão.
- Te dando uma pequena demonstração. – respondeu ele, erguendo meu pulso devagar.
- Mas... Você já me mordeu ontem. – eu disse, tentando manter a ansiedade longe da minha voz. Céus, o que estava acontecendo comigo?
- Eu sei. Mas é só uma demonstração. – disse , e a expressão em seu rosto era o retrato perfeito da falsa inocência – Um... Treino.
- Alguém pode chegar. – eu tentei argumentar, minha voz soando irritantemente frágil.
- Eu vou ser rápido. – ele garantiu, levando meu pulso aos lábios e o beijando languidamente.
- ... – eu disse, no que era para ser um tom de aviso, mas que havia soado mais como uma súplica.
- Shh... – ele sibilou, vagarosamente traçando as veias de meu pulso com a língua. Eu quis mandá-lo parar, mas não podia. Sabia muito bem o que ele estava fazendo. estava aos poucos me arrastando de volta para aquela atmosfera de encantamento da noite passada. Ele precisava me seduzir, criar aquele clima de desejo, de ânsia desesperada, de forma que sua mordida pudesse novamente causar aquelas sensações inexplicáveis em meu corpo.
Quando suas presas finalmente invadiram meu pulso, eu quis xingá-lo. não parara de olhar em meus olhos por sequer um segundo e eu me via incapaz de quebrar o contato visual tão estranhamente íntimo que ele demandava. Aqueles olhos profundos me sugavam, me faziam me perder em sua intensidade de forma que só piorava minha situação. Por isso eu queria xingá-lo. Por que ele não podia fazer doer? Por que não me fazia odiar aquela sensação? Ele era cruel, de fato. Me forçava a apreciar um ato que parte da minha mente, condicionada por meus anos de treino, abominava. Mas por quê? Se ele dizia que me amava, porque me obrigava a confrontar partes de mim que eu detestava, que me assustavam? Como ele queria que eu não o odiasse se insistia em me fazer sofrer?
Ao primeiro gole, as pálpebras de caíram um pouco, acompanhadas por um gemido rouco e baixo que escapou por sua garganta. Eu mesma não pude evitar imitá-lo, a combinação do ato dele com sua reação sendo demais para meus nervos excitados. Oh, eu simplesmente não podia desgrudar os olhos da cena. Visivelmente satisfeito com minha resposta, sugou mais uma vez, dessa vez com mais força, me fazendo tremer e agradecer por estar sentada. Mas quando eu já me preparava para o terceiro gole, ele lentamente retirou as presas de meu corpo, me fazendo choramingar baixinho pela perda.
- Como eu disse, só um treino, minha linda. – ele disse, visivelmente divertido com o efeito que sua pura crueldade tinha em mim. Eu estava prestes a socá-lo quando a sensação de sua língua lambendo as feridas em meu pulso e as estancando me fez perder totalmente a linha de pensamento – Eu já tirei um pouco do seu sangue ontem. Você pode ser uma híbrida, mas mesmo assim é melhor não exagerar.
Eu não sabia se devia dizer algo, ou o quê dizer. Meus olhos permaneciam grudados no rosto dele, mas agora acompanhando o sutil movimento de sua boca enquanto ele lambia os lábios de forma a limpar o pouco de sangue que ali permanecera. também continuava a me encarar, agora aos poucos se aproximando de mim.
- Não. – eu disse, com mais firmeza do que sentia, por mais que minha voz ainda não passasse de um sussurro.
- Por quê, ? Não negue que está tão excitada quanto eu. – ele disse, ainda se aproximando de mim, meio que engatinhando sobre o sofá. Enquanto ele avançava, eu ia afastando meu tronco até encostá-lo no braço do sofá, ficando sentada de lado no móvel com as pernas esticadas à minha frente. não deu atenção à minha tentativa ridícula de fuga, apenas continuando a se aproximar, agora progredindo calmamente por sobre meu corpo meio sentado, meio deitado. Ele sabia que, se eu realmente quisesse sair dali, bastava ter me levantado.
- Pode chegar alguém. – eu protestei, o tom meio nervoso, mas também bizarramente manhoso.
- Relaxa. – ele disse, agora com o rosto próximo ao meu – Só pretendo te beijar. Eu prometo.
- Pro-promete? – eu gaguejei, com os olhos grudados naqueles lábios deliciosos agora a apenas poucos centímetros dos meus. Umedeci os lábios involuntariamente, sentindo minha respiração acelerar. Ele estava perto demais de novo. Meu corpo já começava a disparar os sinais de alerta.
- Prometo. – ele disse, levando uma mão até o meu rosto e colando os lábios com os meus.
Eu imediatamente derreti com a sensação daquela boca contra a minha, gemendo baixinho com a doce tortura que era aquele simples contato. Céus, por que os lábios dele tinham que ser macios dessa forma? Macios e firmes, além de incrivelmente talentosos. Eu realmente podia sentir cada pedacinho do meu corpo se dissolvendo em uma massa trêmula sob os cuidados de .
E, oh, que cuidados. sempre me beijava como se eu fosse a própria existência dele, porém dessa vez era diferente. Nunca antes havia sido tão... Calmo entre a gente. Nenhuma pressa, nenhum ataque de ódio ou vontade de ferir um ao outro. Dessa vez era apenas... Um beijo. Um beijo e tanto.
Em poucos segundos nós havíamos nos ajeitado no sofá, minha cabeça agora repousando no braço do sofá, enquanto eu permanecia deitada sobre o mesmo com ainda em cima de mim. Ele ainda me beijava devagar e sensualmente, e quando eu finalmente permiti o acesso de sua língua, ela pela primeira vez pareceu apenas dançar, ao invés de duelar ferozmente contra a minha. Aquilo era... Bom. Não que eu não adorasse o desejo furioso que nos dominava habitualmente, mas essa calma era boa também. Uma novidade que eu me permitiria explorar naqueles breves momentos que mais tarde eu sabia que acabaria classificando como “momentânea perda de lucidez”.
As mãos dele não permaneciam paradas, embora ele realmente parecesse estar cumprindo a promessa. Uma de suas mãos ainda segurava o meu rosto enquanto a outra passeava por meu corpo, o acariciando intimamente, mas ao mesmo tempo sem parecer exigir mais do que a troca de beijos e carícias. Uma de minhas pernas havia se levantado quase como se por vontade própria e agora enlaçava a cintura de , enquanto uma de minhas mãos segurava seus cabelos logo acima da nuca com firmeza e a outra começava a explorar sua pele por debaixo da camiseta, em toques tímidos que aos poucos iam se tornando mais corajosos. Eu pude ouvi-lo grunhir quando levemente arranhei a parte de baixo de suas costas, e seus beijos se tornaram mais urgentes. A mão que antes segurava meu rosto desceu para minha coxa, a segurando com mais firmeza ao redor de sua cintura enquanto com a outra mão ele levantava um pouco minha camiseta, expondo minha barriga que ele agora acariciava. O quadril dele havia começado a se esfregar levemente contra o meu, mas a pouca velocidade e o fato de ele ainda não ter se aventurado a tentar abrir meu short me tranqüilizavam quanto ao fato de que realmente não pretendia ir muito mais longe do que aquilo. Não que eu não quisesse, mas nas nossas condições atuais, era óbvio que mais cedo ou mais tarde ouviríamos passos se aproximando e precisaríamos parar. seria um total masoquista se começasse alguma coisa só para ser forçado a parar momentos depois.

Tudo o que tínhamos eram esses momentos roubados de amasso naquele sofá e eu pretendia aproveitar o pouco tempo restante da melhor forma possível.

Descendo minha mão que antes segurava a cabeça dele até a altura da outra, que agora segurava a barra de sua camisa, eu comecei a levantar o material, meio desesperada para ter aquele peitoral exposto novamente. Não é como se eu tivesse alguma dignidade restante, de qualquer forma. Estava aos beijos com na sala da minha equipe, sem ter a desculpa de ele ter me agarrado à força. Se eu já cedera a esse ponto, por que negar que queria ele sem aquele pedaço de pano idiota? Já fazia tempo que minha atração pela criatura não era segredo.
Quando minhas mãos chegaram à altura dos braços dele, eu resmunguei, não conseguindo mais subir o material. riu contra meus lábios e levantou os braços, só parando de me beijar quando precisamos passar a camisa maldita por sua cabeça.
Deixando a camisa cair no chão ao lado do sofá, voltou os lábios até os meus brevemente antes de seguir um caminho de beijos por meu rosto até meu ouvido.
- Você gosta disso, não gosta? – ele perguntou, mordiscando o lóbulo da minha orelha – De ficar assim comigo? – minha única resposta foi apertar seus ombros agora maravilhosamente nus – É gostoso, não é?

Por um momento eu não soube se ele se referia ao amasso ou a ele. Fosse o que fosse, a resposta era sim. Mil vezes sim.

O entusiasmo com o qual minhas mãos exploravam as costas nuas de já era uma resposta mais do que óbvia, de forma que eu permaneci calada. As mãos dele agora apertavam meu quadril, subindo até logo abaixo dos meus seios e descendo novamente de novo e de novo, de forma que estava ficando difícil formular frases coerentes.

Por isso o destino escolheu exatamente esse momento para fazer meu celular tocar.

Grunhindo de raiva, eu desci minha mão até o bolso da minha calça, de forma a pegar a droga do aparelho. , porém, não planejava deixar isso acontecer.
- Deixa tocar. – murmurou ele, segurando minha mão e aos poucos descendo a trilha de beijos para meu pescoço.
- Deve... Oh... Deve ser importante... – eu argumentei. E era verdade. Ninguém nunca ligava para o meu celular só para dizer “oi”.
- Isso é mais. – disse , irredutível, descendo os lábios pela coluna do meu pescoço enquanto começava a subir a mão para meu seio. Eu concordava inteiramente com ele, mas mesmo assim o empurrei um pouco e levei o aparelho ao ouvido, presumindo que pararia seu ataque.

Eu estava errada.

- Alô? – eu disse, ao mesmo tempo em que me lançava um sorrisinho cruel e abaixava a cabeça até meu ombro, dando leves mordidas na área enquanto deslizava o rosto para cada vez mais perto da marca de mordida em meu pescoço. Eu só tinha uma expressão para definir minha corrente situação.

F-o-d-e-u.

- ? – eu ouvi a voz de Athos do outro lado da linha – Tá tudo bem?
Ele provavelmente podia ouvir minha respiração acelerada do outro lado da linha. Perfeito.
- Tudo... – eu disse. escolheu esse momento para levar os lábios até as cicatrizes – Tu-tudo... Ótimo... Oh, ótimo... – eu disse, mordendo meus lábios para tentar bloquear os sons que ameaçavam escapar. A leves carícias que a boca de fazia sobre o leve ferimento estava me excitando mais do que eu pensava ser possível. Era quase como ter as presas dele de volta, os leves choques elétricos haviam voltado a correr por meu corpo, partindo daquele ponto específico que agora torturava com seus beijos.
- Tem certeza? Você parece meio cansada, meio doente... – disse o garoto, parecendo confuso – De qualquer forma, não foi por isso que eu liguei.
- N-não? – eu perguntei, de forma meio idiota. Eu já não estava realmente ouvindo o que Athos falava. finalmente havia largado meu pescoço, mas agora descia os lábios para o meu decote, enquanto uma de suas mãos se encontrava bem baixa no meu quadril, de forma que seu polegar começava a invadir a barra do meu short.
- Não. – disse o garoto, e a minúscula parte do meu cérebro que estava realmente prestando atenção nele percebeu o fato de que sua voz parecia nervosa – , nós encontramos alguns vampiros do Mestre.
- Ah... – foi só o que eu disse, encarando com olhos semi abertos levantar o resto da minha camiseta até acima do meu sutiã e puxá-lo um pouco para o lado, revelando um de meus seios.
- Perfeita... – eu o ouvir murmurar, logo antes de descer a boca para meu seio como se estivesse esfomeado.
- Oh, droga! – eu exclamei, agarrando a nuca do vampiro.
- Eu sei, eu sei! – disse Athos no telefone, pensando que eu falava com ele.
Eu não respondi. Na verdade, só bem depois as coisas que Athos falava realmente entrariam no meu cérebro. Por enquanto apenas entravam por um ouvido e saiam pelo outro, sem serem analisadas. A sensação dos lábios de agora em volta do meu mamilo, o atacando impiedosamente, era mais do que eu conseguia suportar.
Eu afastei o celular do ouvido, puxando pela nuca e o beijando com força por alguns momentos, incapaz de resistir. Eu tinha consciência de que Athos falava alguma coisa, mas a vontade de beijar aqueles lábios mágicos era mais forte do que eu.
- Athos? – eu disse, assim que larguei e trouxe o celular para perto novamente – Pode... Pode repetir? Eu... Eu perdi a linha de pensamento por um momento.
pareceu conter uma risada enquanto lentamente voltava a boca para meu seio descoberto, me fazendo ter que cobrir o celular com a mão para que Athos não escutasse meus gemidos.
- Mandaram uma nova carta para você, ! O Aramis deve estar chegando aí para te entregar! – exclamava Athos. Eu ouvia as palavras, mas era incapaz de entendê-las.
- É? Oh... Isso é bom... – eu respondi, meus olhos fixos em , que agora abria o botão do meu short. Oh, tava demorando pra ele quebrar a promessa. Bem que Gilbert me dissera que não se deve acreditar na palavra de um vampiro.
- BOM? – exclamou Athos – , você ouviu o que eu disse? O Mestre te mandou outra carta! Isso não pode ser bom.
- Não... Não pode... – eu disse, sem saber com o que eu estava concordando – Eu preciso... Oh, eu preciso... Desligar. – eu concertei rápido, desligando o aparelho, sem dar a Athos chance de se despedir. estava lentamente descendo seus beijos para minha barriga, e cada vez mais baixo...
- Você... Você prometeu... – eu o lembrei, porém sem fazer nenhum outro protesto.
- Prometi que só ia te beijar. – concordou – E é exatamente o que eu estou fazendo. Só vou... – ele parou por um momento, descendo a boca pela área aberta do meu short devagar – Te beijar...

Em um estalo, eu entendi exatamente onde ele pretendia me beijar.

Ninguém nunca tinha feito aquilo comigo, de modo que eu me peguei dividida entre medo e pura excitação. Sexo oral era uma novidade para mim e eu não sabia como reagir ao que ele queria fazer. A única certeza que eu tinha era que ouvir e entender o que ele havia dito fizera a vontade louca de beijá-lo voltar. Então, antes que eu pudesse me segurar, o puxei para cima novamente, o beijando com ainda mais força e desespero do que da última vez.

E então nós ouvimos as batidas na porta.

- ? – a voz de Aramis perguntou, do outro lado da porta – Você tá aí?
- Oh, droga! – eu sussurrei, em pânico, empurrando . Devo tê-lo pego de surpresa, já que meu movimento o fez cair do sofá.
- ? – Aramis chamou novamente.
- Oh merda, oh merda, oh merda! – eu disse, me levantando do sofá e recolocando a blusa com a gola maldita, que em algum momento durante minha breve escapada com havia caído no chão. O vampiro em questão apenas me encarava sentado no chão, como se as coisas tivessem acontecendo rápido demais para ele.
Aramis bateu na porta novamente e eu agradeci aos céus pelo garoto ter boa educação. Se fosse outra pessoa teria simplesmente aberto a porta e entrado, pegando eu e de surpresa. Estávamos tão entretidos que nenhum dos dois havia escutado os passos descendo a escada e se aproximando da porta.
- O que eu faço? – eu me perguntei, andando de um lado para o outro sem saber como agir. Avistando a camisa de no chão, eu a joguei para ele – O que você tá fazendo parado aí?! Levanta, a gente precisa te esconder!
- Me esconder? Por quê? – ele perguntou, se levantando e vestindo a camisa.
- Porque se o Aramis entra e te vê aqui comigo depois de eu ter demorado para deixá-lo entrar e enquanto eu ainda por cima estou assim – eu apontei para mim mesma, com meu provável cabelo desarrumado, roupas amassadas e totalmente sem fôlego – ele com certeza vai desconfiar. – eu olhei à minha volta, nervosa – A mesinha! – eu disse, ao avistar a mesinha do canto da sala, onde havia alguns livros. A toalha da mesa não ia até o chão, mas se eu conseguisse evitar que Aramis olhasse naquela direção, talvez ele não percebesse os pés de – Anda, se esconde ali embaixo!
- Você quer que eu me esconda embaixo da mesa? – ele perguntou, irritado, porém usando o mesmo tom baixo que eu usava – Oh, que pena que não temos um armário! Você podia me enfiar lá dentro e isso seria clássico!
- , eu não acredito que tô dizendo isso, mas agora não é hora pra sarcasmo! – eu disse, praticamente o empurrando em direção à mesa. Ele me olhou feio mais uma vez, porém fez o que eu pedi.
- ? Eu tô ficando preocupado! – gritou Aramis novamente.
- Entra! – eu gritei, me jogando no sofá e tendo o bom senso de pegar o controle e mudar da Super Pig para um canal qualquer enquanto ajeitava o cabelo como podia e virava para trás para encará-lo.
- , tá tudo bem? – disse Aramis, obviamente surpreso com a minha aparência de alguém que havia corrido uma maratona. Eu estava ofegante, meu cabelo ainda devia estar uma merda e eu provavelmente estava corada.
- Aham. Estava só vendo TV. – eu disse, tentando parecer natural – Alguns programas me deixam nervosa.
- Oh. – disse Aramis, voltando o olhar para a TV atrás de mim e franzindo a testa – Você fica nervosa com o Barney?

Com uma sensação de condenação eminente, eu virei a cabeça em direção à TV. O dinossauro roxo brincava alegremente com as crianças na tela.

Eu havia tirado do Cartoon Network e colocado na Discovery Kids. Grande troca.

Oh, era hoje que eu quebrava aquela TV desgraçada.

- É um episódio emocionante. – eu respondi, sem ter mais o que dizer. O nítido som de alguém tentando conter um surto de risadas veio do canto da sala.
- O que foi isso? – Aramis perguntou, olhando a sua volta.
- Fui eu! – eu respondi, pulando do sofá e indo até ele – Foi um espirro. Eu tô meio resfriada! Atchim! – eu acrescentei, sorrindo um sorriso ridiculamente largo.
- Ooook... – disse Aramis, olhando de mim para a TV ainda ligada de forma estranha. Provavelmente estava se perguntando se eu era retardada. Bom, eu não podia culpá-lo.
- O que você veio fazer aqui, de qualquer forma? – eu perguntei, desesperada para mudar de assunto.
- O Athos não ligou avisando? – perguntou Aramis, parecendo confuso – Eu vim trazer a carta que os capangas do Mestre mandaram te entregar.
As palavras de Athos, que antes não passavam de um monte de sons desconexos, voltaram à minha consciência, agora fazendo sentido.
- Oh. Claro, o Athos avisou sim. Eu tinha esquecido. – eu respondi, um pouco rápido demais.
- , você tem certeza que está bem? – perguntou o garoto, meio desconfiado.
- Ótima! – eu garanti, meu sorriso nervoso firme nos lábios – Cadê minha carta?
Ainda me olhando estranho, Aramis tirou um envelope fino do bolso do casaco, o entregando a mim.
Ao segurar aquela carta nas mãos, meu sorriso murchou, assim como meu nervosismo quanto ao que acabara de acontecer. Olhando meu nome no verso daquele envelope, na caligrafia do tal Mestre, todos os outros problemas pareciam minúsculos. Só quando eu finalmente tive aquela carta em mãos é que a ficha realmente caiu. Ele ou ela havia me mandado outra carta. Aquilo não podia ser bom.
- Nós debatemos entregar essa carta a Miles, mas Athos sugeriu que, como a carta é sua, você deveria decidir o que fazer com ela antes de o chefe por as mãos nesse envelope. Eu concordei. – disse Aramis, em um tom que denotava um pouco de transtorno. Eu me lembrei das palavras de Athos, sobre como Aramis não gostava de desrespeitar regras. Aquilo devia estar sendo um esforço gigante para o rapaz e eu senti uma onda gigante de gratidão por ele e pelos irmãos. Eles podiam estar se metendo em problemas por minha causa.
- Você fez bem. Se entregasse a Miles, essa carta geraria a mesma confusão que a última gerou. Miles ainda não entendeu que o Mestre não quer que eu me machuque. Pelo menos não agora.
- Como assim? – perguntou ele, confuso. Eu me lembrei que Aramis não sabia sobre o fato de o Mestre ter salvado minha vida.
- Nada. – eu disse, sorrindo – E fique tranqüilo. Miles não sabe que eu não saí hoje, então direi a ele que eu recebi a carta diretamente dos vampiros. Só peço que não conte a ninguém sobre isso, ok? Geraria tumulto demais. – e faria Miles acabar descobrindo sobre a carta. É, isso mesmo. Dependendo do conteúdo daquela carta, eu talvez precisasse escondê-la do chefe. Afinal, ele não sabia sobre minha pequena aventura na estrada.
- E o que você vai fazer com ela? – perguntou Aramis, meio nervoso. O medo de estar fazendo uma besteira era óbvio, e eu senti a súbita vontade de tranqüilizá-lo.
- Vou entregar a carta à e Tara para elas fazerem alguns testes. – eu menti, enquanto dobrava o envelope e o colocava no bolso do short – Pra ter certeza que é seguro abrir.
Aramis relaxou visivelmente e eu me senti culpada. Mas eu precisaria mesmo dar alguma desculpa, já que se eu simplesmente não abrisse a carta em frente a ele, o garoto talvez se sentisse ofendido.
Com aquele assunto finalmente resolvido, porém, o mais novo dos Cromwell assumiu uma postura meio... Nervosa. Como se ainda tivesse alguma coisa para falar, mas precisasse juntar coragem para isso, ao mesmo tempo em que provavelmente tentava arranjar um bom motivo para ainda não ter ido embora. Colocando as mãos nos bolsos da calça e assumindo a típica posição “garoto envergonhado”, Aramis passou a olhar em volta da sala, como se esperando que uma solução brilhante para qualquer que fosse seu dilema pulasse de trás de uma cadeira ou algo do tipo. Mas então seus olhos subitamente pararam no canto da sala.

Mais precisamente, na mesinha que ficava no canto da sala.

Eu gelei. Do meu ângulo, naquela distância, eu não podia ver os pés de , mas talvez do de Aramis...
- Aquilo é “Grandes Vampiros Do Século XX”? – perguntou Aramis, se referindo ao livro em cima da mesa. Eu suspirei aliviada – Eu ando tentando pegar esse livro há semanas na biblioteca, mas sempre está emprestado.
- Gilbert costuma monopolizá-lo. – eu expliquei, minha voz um pouco esganiçada. Por um momento eu pensei que Aramis havia encontrado e eu realmente não sabia como explicaria aquela situação.
- Posso dar uma olhada? – pediu Aramis, seguindo para perto da mesa.

Oh, merda.

Antes que o garoto pudesse se aproximar demais do móvel, eu me lancei naquela direção, bloqueando a visão dos pés de com minhas próprias pernas, já que meu corpo agora estava encostado na mesa, minhas mãos se apoiando na superfície da mesma enquanto eu lançava um sorriso para Aramis.
- O que você disse? – eu perguntei, tentando parecer natural enquanto fingia não escutar a risadinha baixa que vinha debaixo da mesa atrás de mim. Aramis balançou a cabeça e voltou a se aproximar.
- Eu perguntei se podia dar uma olhada. – repetiu o garoto, agora bem em frente a mim, apontando com a cabeça para o livro que meu corpo agora ocultava.
- Oh. Claro! – eu disse, pegando o livro atrás de mim e entregando para ele, ainda sorrindo.
- , eu acho que você devia parar de ver programas infantis. – disse Aramis, pegando o livro de forma cautelosa – Não tá te fazendo muito bem.
- Eu sei. – eu respondi imediatamente, assentindo com a cabeça de forma entusiástica. Apenas quando Aramis me olhou alarmado foi que eu realmente parei para entender o que ele havia dito – Quer dizer... Não! Eu tô bem! – eu acrescentei, em tom leve, porém me xingando por dentro. Estava tão nervosa que havia parado de prestar atenção no que o rapaz dizia. Perfeito, . Como se ele já não tivesse certeza de que você é totalmente retardada.
Para piorar meu desespero, Aramis, após me olhar estranho mais uma vez, não se afastou da mesa. Apenas desceu o olhar para o livro que segurava e passou a folheá-lo ali mesmo. Ótimo. Não podia ficar pior.

Quando eu senti o leve toque de lábios contra minha panturrilha, eu decidi que podia sim.

Me esforçando para me mover o menos possível, eu tentei chutar por debaixo da mesa. Aquela realmente não era hora para gracinhas. Mas a criatura rastejante dos infernos visivelmente estava se divertindo com a minha situação complicada e eu não devia estar surpresa por ele resolver piorar ainda mais as coisas. Esse era , afinal. Aquele que nascera com o dom de tornar minha vida um inferno.
- Uau, tem análises sobre vários vampiros famosos aqui. – disse Aramis, visivelmente interessado no que lia. Pelo menos esse pouquinho de sorte eu tinha – Gilbert o pegou para pesquisar alguma pista sobre o Mestre?
- Aham. – eu confirmei, minha voz meio trêmula. havia segurado meu tornozelo para me impedir de chutá-lo e agora além de seus lábios, eu podia sentir seus dentes não alongados provocando a pele da minha panturrilha com mordidas suaves, seguindo uma trilha que aos poucos ia subindo pela minha perna.
- Olha, tem até coisas sobre o aqui! – disse Aramis, divertido.
- É, tem... OH! – eu gritei, surpresa, ao sentir os arrepios definitivamente eróticos que a sensação dos lábios de contra a parte de trás do meu joelho causou. Confie na droga do vampiro para encontrar zonas erógenas até nas partes menos suspeitas do meu corpo. Parte de trás do joelho. Quem diria.
- ? AI! – exclamou Aramis que, ao se assustar com meu grito, acabou cortando o dedo em uma das espessas folhas do livro.
- Você tá bem? – eu perguntei, aproveitando que soltara meu tornozelo para puxar Aramis pela mão para bem longe daquela mesinha antes mesmo que ele pudesse processar o que eu estava fazendo.
- Tô, foi só um corte com papel. – disse o rapaz, balançando o dedo que começava a sangrar para diminuir a ardência.
- Você não quer ir lavar isso? – eu perguntei, tentando não parecer muito ansiosa.
- Não precisa. – disse Aramis.
- Mas tá sangrando! – eu disse, meu tom beirando o de alguém que implora enquanto eu começava a empurrá-lo para o corredor na parte de trás da sala – É só seguir direto, é a última porta do corredor, logo depois do escritório do Gilbert. Nós temos até um kit de primeiros socorros.
- Ok... – disse o garoto, confuso, mas fazendo o que eu mandava.
Quando ele finalmente se afastou o suficiente, eu corri de volta para a mesinha, puxando com pressa.
- Outch! Caçadora, meu braço! – reclamou o vampiro, enquanto eu o levantava.
- Cala a boca! – eu exclamei, desesperada – Você precisa sair daqui!
- Por quê? Diga que eu acabei de chegar. – insistiu .
- Em primeiro lugar, Aramis nem sabe que você está na cidade! Se souber, talvez junte dois mais dois e entenda meu comportamento bizarro desde que ele entrou aqui!
- Mas...
- ! – eu exclamei, desesperada. Do mesmo modo como havia feito com Aramis, passei a literalmente empurrá-lo, mas dessa vez em direção à porta – Nós quase fomos pegos, meu amigo acha que eu tenho algum tipo de distúrbio, o Mestre me mandou uma carta, a TV me odeia e eu REALMENTE NÃO TENHO TEMPO PARA “MAS”! – eu praticamente gritei, abrindo a porta e tentando forçá-lo a sair.
- Eu te vejo amanhã? – ele perguntou, resistindo enquanto eu ainda o empurrava.
- Sim! Que seja! Agora sai daqui! – eu implorei, desesperada. Aramis podia voltar a qualquer instante.
- Ok, ok. – disse , inclinando a cabeça e me beijando breve, porém intensamente. Eu não resisti, mas assim que ele afastou os lábios, o forcei a atravessar a porta.
- Vai logo! – eu disse, porém com bem menos veneno do que pretendia, batendo a porta em seguida e me encostando contra a mesma, respirando aliviada. Por hora estava tudo bem. Amanhã eu teria que me certificar de deixar claro para que o que quer que tenha sido nossa breve escapada no sofá, não havia mudado em nada o nosso relacionamento, mas por enquanto... Por enquanto eu só precisava lidar com Aramis e o que quer que ele estivesse escondendo de mim. Sim, agora que a preocupação com a presença de naquela sala não existia mais, eu podia pensar com mais clareza. Aramis estava ganhando tempo e coragem para falar alguma coisa comigo e eu tinha quase certeza que não seria algo que eu gostaria de escutar. Na verdade, agora que eu pensava sobre isso, no fundo essa era uma das razões por trás do meu desespero para tirar da sala. Não queria que ele ouvisse o que quer que Aramis fosse me falar.
Mais alguns segundos se passaram até que o garoto em questão voltou, um band-aid agora envolvendo seu dedo.
- Vou sobreviver. – ele brincou, gesticulando com a mão machucada.
- Bom saber que a operação foi um sucesso. – eu respondi, sorrindo agora sem o nervosismo de antes. Aramis pareceu mais calmo com o fato, porém apenas permaneceu parado, aparentemente ainda juntando coragem para dizer o que queria.
- Aramis? – eu perguntei, no tom mais simpático que eu tinha – Tem alguma coisa que você queira me dizer?
- Tem. – disse ele, respirando fundo e me encarando – . Eu estava pensando... Sobre a... E... – ele suspirou, deixando os ombros caírem e abaixando a cabeça – Eu sou um inútil mesmo.
- Aramis, o que foi? – eu disse, começando a ficar realmente nervosa.
- Eu tava pensando... Sobre a recepção daqui a duas noites... E imaginei se talvez... Se talvez você... Sabe... Quisesse ir. Comigo. – Aramis ergueu então os olhos para mim, com um brilho de expectativa que me fez me sentir culpada.
- Você sabe que essas recepções não são festas... – eu disse, cautelosa – São só algumas bebidas, uma mesa com comida e gente espalhada por uma sala, conversando ao som de músicas calmas... Não é uma ocasião que precise de acompanhante.
- Eu sei. – disse Aramis, agora mais nervoso que nunca – Mas essa foi a primeira oportunidade que eu vi pra... Pra te chamar pra sair.
Eu o encarei por um momento, tentando não me odiar. Ninguém nunca tinha me chamado para sair. Era algo tão... Normal. O começo clássico de uma relação comum. Eu não tive isso com e os poucos que vieram depois dele foram achados na noite de Los Angeles e esquecidos na manhã seguinte, e na maior parte das vezes eu nem me preocupara em perguntar o nome do meu casinho de uma noite. E eu não queria nem pensar na minha “relação” com , já que era algo que nem existia, com a exceção dos amassos ocasionais. E lá estava Aramis, me chamando para sair como qualquer cara fofo e comum faria. Doía ter que esmagar suas esperanças.
- Aramis... – eu disse, e algo no meu tom de voz deve tê-lo avisado, pois a esperança sumiu de sua expressão – Eu gosto de você. Gosto muito, mesmo te conhecendo há tão pouco tempo. Mas... Eu não posso. Não posso me envolver com você como uma garota normal. – eu expliquei – Eu nem sou totalmente humana, caramba. Eu gostaria de poder te dizer sim, mas... Não. Desculpa, não dá.
- Eu entendo. – disse Aramis, com os olhos baixos – Eu sabia que não tinha chances, mas não custava tentar...
- Ei. – eu disse, erguendo o queixo dele – Você não tem culpa por eu ser complicada, ok? Qualquer garota adoraria um cara como você na vida dela. Eu tenho certeza que tem alguma por aí que vai te fazer feliz de verdade.
Ele apenas assentiu, com um meio sorriso triste e a rejeição mal contida dominando sua expressão. Eu sei que isso é horrível, mas eu senti pena. Pena de ter que rejeitá-lo, e foi isso que me levou a fazer o que fiz em seguida.
Ficando na ponta dos pés, eu encostei meus lábios nos dele. Era o tipo de selinho que alguém daria na própria mãe e minha intenção era transmitir mensagens como “você é incrível, mas nunca seremos mais que amigos”. O ato durou apenas um segundo e, ao quebrar o contato, eu não senti minha pele formigando. Não senti meu coração batendo mais forte e minha respiração acelerando como teria acontecido com... Bom, com .
Aramis continuou sorrindo triste, mas assentiu de leve com a cabeça. Ele entendera meu gesto. Não era um prêmio de compensação, apenas... Apenas um fora mais cuidadoso.
- Promete que se algum dia você mudar de idéia, vai me avisar? – ele perguntou, suspirando derrotado.
- Prometo. – eu garanti, mesmo sabendo que isso nunca aconteceria – Mas... Não espere por isso. Ok?
- Ok. – ele assentiu – É melhor eu ir. Você pode pedir para o Gilbert me emprestar o livro quando ele acabar? – Aramis pediu, apontando para o livro que, em meio à confusão de antes, havia caído no chão.
- Pode levar. – eu disse, pegando o volume e entregando para ele.
- Sério? Gilbert não vai ficar chateado?
- Não. Ele já está com esse livro a tempo demais, de qualquer forma. – na verdade, meu mentor me mataria quando descobrisse. Mas, no momento, eu me sentia tão mal que estava disposta a fazer qualquer coisinha para agradar Aramis.
- Ok então. Te vejo por aí. – disse ele, sorrindo e seguindo para a porta.
- Claro. – eu concordei, o observando abrir a porta e sair dali.
Respirando fundo, eu tirei o envelope do Mestre do bolso, o encarando longamente. Os problemas menores haviam sido momentaneamente resolvidos, agora só restava o que realmente era importante. Decidida a acabar logo com aquilo, eu guardei novamente o envelope, esperando por alguns segundos para dar tempo de Aramis se afastar o suficiente antes de também sair daquela sala, seguindo em direção ao meu quarto. Queria ter certeza de que estaria sozinha ao ler aquela carta.

Algo me dizia que eu não ia gostar de seu conteúdo.

Xx

’s POV


Eu cambaleei para fora daquela sala enquanto batia a porta na minha cara após se despedir com apenas um “Vai logo!”. Céus, aquela criatura era cabeça dura e incrivelmente irritante.

E eu a amava como nunca havia amado ninguém na minha não-vida.

Eu sorri enquanto começava a subir as escadas, um pouco pelo meu próprio masoquismo e um pouco por simples satisfação. Oh sim, eu estava satisfeito. Por mais que tenha me colocado para fora, não o havia feito com a crueldade habitual. Algo tinha mudado enquanto estávamos naquela sala, por mais que não parecesse querer admitir. Era quase como uma espécie de... Trégua. Havíamos agido quase civilizadamente um com o outro na maior parte do tempo e ela nem sequer oferecera resistência quando eu a beijei, além de não ter tido um ataque quando fomos interrompidos. Bom, o ataque ela teve, mas não foi pelo beijo e sim pela possibilidade de sermos descobertos, algo que eu, embora não deixasse ela saber, também temia. Miles havia sido bem claro no meu primeiro dia aqui: não me queria envolvido com a garotinha de ouro dele. Ameaçou me expulsar e quebrar nosso acordo, inclusive. Eu não tinha certeza se ele realmente iria tão longe, mas por enquanto era melhor não arriscar. As coisas estavam começando a dar certo para mim.
Quando eu acordei algumas horas atrás, minha primeira decisão foi vir para cá. Precisava saber como ela estava hoje, como as experiências da noite passada a estariam afetando. Só depois me veio a idéia da proposta. Eu sabia o quanto era errado fazer o que eu estava fazendo, mas não importava. Fazer o que é certo o tempo todo é coisa de gente como Aramis. Meu objetivo ali não era mimar , era enfrentá-la, e o nosso novo acordo podia me ajudar bastante com isso. Ela me odiava por despertar as sensações que eu sabia que despertava, por isso eu precisava insistir, forçá-la a aceitar aquele lado mais obscuro de si mesma. Porque o grande problema para não era a sensação, e sim o que a provocava. O fato de sentir prazer com uma mordida, algo que ela abominava da mesma forma que abominava vampiros... Que abominava seu lado vampiresa. Se nunca aceitasse quem era, nunca me aceitaria ou pararia de sofrer por ser quem era, por levar a vida que levava. Aquela era a maior barreira que eu precisava ajudá-la a derrubar.
Foi por isso que a procurei, por mais temeroso que estivesse quanto à reação dela. Eu esperava que, após o que eu havia feito, me recebesse com gritos, socos, exigências de que eu nunca mais me aproximasse dela... Daí a surpresa que eu tive perante o comportamento calmo da caçadora. Ela ainda estava sob efeito dos diversos choques que recentemente havia sofrido e eu atribuía a isso o fato de ainda estar vivo. Mas o que havia acontecido depois, no sofá, eu não era capaz de explicar. Mas também não era idiota o suficiente para não saber que a mordida tinha bastante haver com aquilo e que eu era um grande filho da puta por forçar aquela intimidade entre nós, coisa que eu pretendia passar a fazer regularmente.

Eu não presto. Isso não é novidade.

Minha falta de caráter não é o que importa. A mordida a excitou, sim, mas o que a levou a permitir que eu a tocasse de forma tão menos violenta que o normal eu não sabia. Era o tipo de situação que ela não podia atribuir apenas ao calor do momento, como nos armários... Havia sido algo calmo, cuidadoso, talvez até mesmo carinhoso. Com certeza havia tido carinho da minha parte, e o fato de ela ter aceitado isso era surpreendente. Os traumas que sofrera naquela estrada pareciam estar segurando um pouco a vadia sem coração que ela costumava ser, e, por incrível que pareça, eu não sabia se isso era bom ou ruim. Era bom porque, dessa forma, ela me tratava menos como um cachorro, mas também era ruim, porque eu sabia que a nova “calma” era apenas mais uma máscara atrás da qual tentava esconder o que sentia de verdade.
Por isso eu agora me encontrava em meio a um dilema. A aparente tranqüilidade de impossibilitava meus planos de continuarem, de forma que eu precisava decidir o que fazer. Se eu deixasse permanecer com aquela máscara, nossa relação podia evoluir bastante, disso eu tinha certeza. Mas o que eu teria seria uma concha vazia, não a caçadora de verdade. Eu já havia chegado à conclusão de que, para ajudar , eu precisaria continuar machucando-a, mas fazer isso seria destruir a calma por trás da qual ela se escondia e, conseqüentemente, acabar com todas as possibilidades de repetir o clima leve que havíamos obtido naquela sala. Eu precisava decidir entre meus planos e a satisfação de tê-la comigo, e isso estava me matando.
Principalmente porque cada fibra do meu ser me implorava para voltar para aquela sala. Havia uma voz sedutora dentro da minha cabeça, me incentivando a esquecer tudo, a pegar o que eu podia ter. “Quem se importa em ter por completo se você pode tê-la no sentido mais básico da palavra?” Por que tentar obter os sentimentos dela se eu podia me enganar com aquela falsa tranqüilidade, aquela aceitação incompleta? Eu não queria estragar a possibilidade de ter outros momentos bons como aquele com . Apenas beijá-la, senti-la contra o meu corpo, seu calor aquecendo minha pele, as batidas de seu coração contra meu peito me dando a falsa impressão de que o meu também batia... Aquilo era melhor do que eu podia imaginar. Eu gostava da raiva, da dor, da paixão violenta que nos envolvia às vezes, mas não queria voltar a ter só isso. Não queria abdicar dos momentos mais... Íntimos. Mais gentis, sem a pressa e a urgência habitual.
Eram esses pensamentos que me faziam procurar desesperadamente um bom motivo para ir até ela de novo. Eu realmente havia dito tudo que precisava? Tinha que haver mais alguma coisa... Alguma boa desculpa para procurá-la outra vez. Não fazia nem cinco minutos desde a última vez que a vi e eu já precisava estar perto de novo. Eu era um imbecil, realmente. Nem conseguia esperar até amanhã...

Amanhã!

Eu não havia combinado com um horário para sair para caçar! Eu precisava voltar. Sério, aquilo era muito importante. Urgente. Eu não podia esperar nem mais um segundo.
Voltei para as escadas, as descendo com pressa e me sentindo um babaca. Minha desculpa não era forte o suficiente para convencer nem a mim mesmo que não estava voltando para aquela sala apenas na esperança de tocá-la novamente.
Eu já estava no meio do caminho quando ouvi a voz de Aramis. Havia esquecido totalmente da presença do garoto. Mas o que ele ainda fazia lá?
As próximas palavras foram deixando tudo mais claro e eu continuei a descer, agora com o cuidado de não fazer algum barulho que denunciasse minha proximidade. Aramis estava confessando seu interesse por .
Eu não sabia se sentia pena ou ódio. Pena porque ele levaria um fora, com certeza. Ódio porque... Bom, eu não gostava da idéia de outros homens querendo a minha caçadora. Como se já não bastasse .
Ouvi a resposta de com uma crescente sensação de ódio. Ela não havia sido tão simpática comigo. Ele a chamava para sair e ela o recusava de forma toda cuidadosa. Eu dizia que a amava e ela me humilhava, me machucava e me tratava como uma criatura asquerosa que não era digna de sequer lamber o chão que ela pisava. Qual era a dessa garota, afinal?
Contrariando meus instintos mais profundos, eu abri a porta da sala, sentindo meu coração afundar com a cena diante de mim. segurava o queixo de Aramis enquanto ia se esticando na ponta dos pés, encostando os lábios nos dele.
Eu nunca saberia ao certo o que me impediu de invadir aquela sala e desmembrar Aramis, como o lado mais primitivo do meu ser implorava que eu fizesse. Mas, ao invés disso, apenas dei as costas e corri escada a cima, experimentando uma raiva que nunca havia sentido antes. Era um ódio tão forte, tão profundo que chegava a ser frio, por mais estranho que isso seja. Oh, eu não precisava agir agora. Eu podia esperar.
Minhas dúvidas acabaram naquele exato instante. Chega de máscaras. Eu estava sendo bonzinho demais com alguém que não merecia isso. O jeito como ela recusara Aramis só fazia o que ela havia feito comigo parecer pior, porque provava que o medo dela não era apenas ser amada. Era ser amada por mim. Se um humano mostrava interesse, ela entendia. Agora se o interesse vinha de mim, do monstro, era algo repulsivo, que precisava acabar. Eu não merecia a compaixão dela, mas ele merecia? E o beijo? Como ela podia beijá-lo, principalmente quando minutos antes estava comigo? não tinha a menor consideração pelo que eu sentia por ela, e eu não ia mais agüentar isso. Eu sentia raiva, dor, ciúmes... Havia sido idiota de pensar por sequer um momento que deixar as coisas com ficarem como estavam era uma boa idéia. Eu não conseguia acreditar que havia considerado esquecer meu plano. Oh, não. Não mesmo. Não havia condições de continuar me enganando. Que se dane a intimidade que eu experimentara com ela naquele sofá. Essa proximidade, aquele carinho, seria algo que eu teria que sacrificar, pelo menos por enquanto. Havíamos dado um passo para frente apenas para seguir com dois para trás. Estava na hora de lançar minha carta final. Aquela que era minha última arma para fazer entender o que ela queria, do que ela precisava.
precisava de mim, mas não me teria a não ser que me procurasse por livre e espontânea vontade. Sem desculpas. Eu precisava empurrá-la pela última vez, fazê-la enxergar o que havia entre nós e, com sorte, conseguir que ela finalmente viesse até mim, pois só assim eu me permitiria tê-la do modo pelo qual meu corpo implorava.

Era hora de fazer entender a quem ela pertence.


Capítulo 17 - The Sour Taste Of Betrayal



[N/a: Esse e os próximos dois capítulos com certeza parecerão confusos em algumas partes. Mas fiquem tranqüilas, com o desenrolar deles tudo (eu espero) será explicado.]


's POV

,

Não tenho palavras para expressar meu desapontamento. Ninguém nunca te ensinou que não é certo entrar na casa dos outros sem ser convidada? É esse o pagamento que recebo por poupar sua vida?
Eu sei que você voltou para a fábrica na noite de ontem. Você em breve descobrirá que sei de coisas com as quais você sequer sonha, doce . Por isso meu conselho é que pare de me procurar. Será inútil. Não estou mais usando as casas abandonadas e não permitirei que me encontre até que essa seja minha vontade.

Isso não é uma ameaça. É um mero aviso.


Eu.


Era a milésima vez que eu lia aquela carta.

Como se já não bastasse eu ter passado a maior parte daquela madrugada relendo, dissecando, analisando cada linha daquela mensagem, essa havia sido a primeira coisa que eu fiz quando acordei, também. Não que eu tenha dormido muito bem. Meu cérebro não havia parado de trabalhar naquela questão por nem ao menos um segundo, de forma que meus sonhos foram infestados de palavras confusas, lembranças estranhas e a constante presença de uma figura encapuzada, me encarando à distância. Assim que meus olhos finalmente se abriram e eu me rendi à certeza de que era incapaz de dormir tranqüilamente com tantas dúvidas em mente, me pus a analisar novamente aquela maldita carta. Mas não importava quantas vezes eu a lesse, o conteúdo permanecia o mesmo. Nenhuma pista genial pulava do papel, nenhuma solução para aquele mistério parecia sair do meio daquele pequeno conjunto de palavras. Por que o Mestre havia me enviado aquilo? Era possível que fosse medo de eu estar chegando muito perto da verdade? Mas como, se eu me sentia ainda no ponto zero quanto à resolução daquela questão?
Talvez o objetivo fosse apenas me intimidar. Apenas me deixar saber que ele sabia o que eu estava fazendo. Era meio assustador, de fato. Uma coisa era ele saber que eu havia seguido seus capangas. Outra bem diferente era saber que eu havia voltado para aquela estrada. E como ele sabia, afinal? O desgraçado, ou desgraçada, devia mesmo ter alguém de olho em mim. Já desconfiava disso, mas agora começava a ter certeza... Eu só podia estar sendo vigiada.
Jogando a carta sobre o colchão da minha cama em pura frustração, eu me levantei e segui até meu armário, abrindo uma de minhas gavetas. Afastando algumas calcinhas para o canto, eu levantei o fundo falso e tirei a pasta que escondia ali. Ok, eu sei que é meio ridículo guardar a carta do Mestre em um lugar tão idiota, mas eu me baseava na idéia de que, sendo aquele um lugar tão óbvio para se esconder coisas, ninguém olharia com mais atenção ao não achar nada de estranho em uma primeira análise. Meu fundo falso estava relativamente seguro.
Voltei a sentar na minha cama com a pasta em mãos, espalhando o conteúdo dela sobre meu colchão e lutando para ignorar certas coisas que estavam ali dentro. Eu guardava tudo naquela pasta. Tudo que eu não queria que o resto do mundo visse, de forma que estava me concentrando para não dar atenção a uma certa foto. Mas era difícil. Os olhos de pareciam me encarar e, por algum motivo, eu tinha a impressão que eles me condenavam. Devia ser a culpa que eu sentia, é claro. Um dos motivos para ter ido embora era que ele queria que eu tivesse alguém "melhor" na minha vida. Ele havia insistido que eu merecia mais do que namorar um vampiro. E aqui estava eu agora, tendo recusado na noite passada minha melhor chance de ter um relacionamento normal. Eu havia dado um fora em Aramis e andava me agarrando com pelos cantos. com certeza me condenaria se soubesse disso.
Não que eu tivesse uma relação com ... Mas havia atração. Atração em um nível que me assustava... Mais do que isso, me apavorava totalmente. Por isso eu me sentia tão culpada ao olhar a foto de . Eu o amava, mas desejava com uma intensidade nunca antes sentida. Desejava como nunca havia desejado ou homem nenhum. Era estranho, assustador e doentio se levarmos em conta que não havia nenhum sentimento da minha parte além de ódio. Eu odiava , eu queria ... E além de tudo, por alguma razão, eu necessitava da proximidade dele mais do que necessitava de ar. Não era apenas questão de gostar, ou de me sentir atraída por ele... Era algo mais. De alguma forma aquela necessidade de estar próxima a crescera dentro de mim sem que eu a entendesse. Como um sexto sentido me avisando que eu precisava daquele vampiro na minha vida, nem que fosse como inimigo.
Balançando a cabeça pra tentar espantar aqueles pensamentos, eu peguei a foto de e a virei para baixo.
- Você não tem o direito de me julgar. – eu disse para o papel, com o máximo de confiança que pude colocar naquelas palavras. Eu sabia que estava certa. Eu amava sim , não tinha como fingir que o sentimento havia sido expulso pela dor... Mas isso não significava que eu não entendesse que, a partir do momento que ele foi embora, havia perdido qualquer possível direito de opinar sobre a minha vida.
Voltando a me concentrar na tarefa mais urgente, eu localizei finalmente a primeira carta que o Mestre havia me mandado. Ninguém sabia que eu a havia guardado, mas eu não consegui me forçar a jogá-la fora. No fundo ainda havia uma vã esperança de encontrar a solução daquele enigma naquela maldita carta.
Eu coloquei a nova ao lado da primeira e analisei as duas. A letra com certeza era a mesma, assim como o tipo de papel e a cor da caneta. Só que não havia nada ali. Nada substancial. Eu nem entendia o porquê do Mestre ter me enviado aquelas cartas, ou o colar que eu ainda carregava no pescoço. Não fazia sentido e era isso que me matava. devia estar certa. Aquele cara só podia estar brincando comigo, bagunçando a minha cabeça.
Suspirando em rendição, eu recoloquei as cartas nos envelopes e comecei a recolocar tudo na pasta. Como eu desconfiava, não poderia mostrar aquela carta para ninguém. Só Tara e sabiam sobre a minha aventura irresponsável e eu preferia que isso continuasse assim. Mesmo sabendo que, levando em conta as circunstâncias, a atitude mais honesta seria contar toda a verdade para Miles. Porque eu havia estragado a pouca chance que o plano dele tinha de dar certo.
Graças a mim o Mestre agora estava alerta à nossa procura pelas casas. Se eu não tivesse sido pega agindo por conta própria, talvez ele estivesse mais despreparado. Não que eu achasse que o plano de Miles funcionaria de uma forma ou de outra, mas agora eu estava em uma posição desconfortável. Todos os caçadores permaneceriam buscando casas abandonadas à toa, enquanto eu saberia que o Mestre já não mais as usava e seria forçada a ficar calada para proteger meu segredo. Miles queria tentar pegar o Mestre de surpresa. Por minha causa, a surpresa havia ido para o espaço.
Mas não era hora de me martirizar. O que estava feito, estava feito. Eu arranjaria outra forma de encontrar aquele desgraçado. Ou desgraçada. Nada me tirava da cabeça que tinha uma mulher envolvida de alguma forma naquela história toda. Aquele colar era simplesmente feminino demais, delicado demais... Eu não conseguia imaginar um homem o escolhendo.
Fazendo uma anotação mental para discutir essa possibilidade com os outros mais tarde, eu continuei a recolher os papéis e fotos sobre minha cama. Ao fazer isso, porém, me deparei com um terceiro envelope.

A carta que Tara me havia me entregado há cerca de um mês atrás.

Com todos os problemas, eu havia me esquecido totalmente daquele envelope. Eu tentei abri-lo, mas minhas mãos novamente não me obedeceram. O que Tara havia dito mesmo? "Você só vai conseguir abri-lo na hora certa". Ela nunca me disse quem havia me enviado aquilo e eu sabia que não revelaria mesmo se eu insistisse mais. Tara era fiel, do tipo que realmente leva o segredo dos outros pro túmulo. E além disso, eu estranhamente não me sentia muito curiosa. Devia ser parte do que quer que Tara havia feito com aquela carta, mas eu tinha aquela bizarra certeza de que não precisava me precipitar. Que descobriria tudo na hora certa.
Por curiosidade, comparei a simples inscrição "Para " na parte de trás daquela carta com a caligrafia do Mestre e suspirei aliviada. Totalmente diferentes. Não que eu desconfiasse de que aquela carta misteriosa pudesse ter vindo daquele vampiro, já que isso faria de Tara uma traidora, mas mesmo assim... Era bom ter certeza. Eu adorava Tara e ela era o tipo de garota que eu nunca imaginaria fazendo nada de errado, mas... Aparências podiam ser enganadoras.

E se havia algo que eu aprendera com meus anos de caçadora, era que não se devia confiar demais em ninguém.

Xx

Eu amava Los Angeles à noite.

Não que eu visse muito dela durante o dia. Passava tanto tempo acordada durante a noite caçando que geralmente dormia até bem tarde. Claro que de vez em quando eu fugia um pouco do prédio da Organização durante o dia, quando sentia falta do sol, mas não era sempre, de forma que eu realmente costumava ver mais a cidade à noite. E precisava admitir que era quando o sol se punha que Los Angeles realmente brilhava. Não eram as luzes, nem as pessoas... Era algo no ar da Cidade dos Anjos que não dava para explicar. Uma eletricidade, uma força que desafiava qualquer um a ficar parado. Algo que te forçava a se movimentar.

Uma energia que eu tentava canalizar sempre que saía para caçar.

Era o que eu estava saindo para fazer no momento. Patrulhar a cidade não era uma coisa que eu podia dizer com sinceridade que gostava de fazer, embora muitas vezes não odiasse também. O que eu odiava era a necessidade de fazer isso. A obrigação de ser uma assassina, de viver para aquilo. Mas tinha que admitir que lutar era algo que eu gostava de fazer, por isso, enquanto descontava minhas frustrações nos vampiros que encontrava, algumas vezes me flagrei me divertindo com isso.

Horrível, né?

Mas inevitável. Por mais que eu abominasse esse fato, eu era meio-vampiresa. E era de conhecimento geral que vampiros tinham sede de violência quase tanto quanto de sangue. Era algo pelo qual a força mais primitiva dentro dessas criaturas ansiava. Pelos extremos. Violência, dor, sexo... Não eram necessidades conscientes, mas sim instintivas. Necessidades essas que a cada dia cresciam dentro de mim.

Quanto mais eu convivia com , mais esse meu lado obscuro parecia despertar.

Não fiquei de todo surpresa quando, assim que atravessei os portões para fora do prédio, vi o vampiro em questão encostado em uma parede, aparentemente me esperando. Talvez fosse o meu pensamento que o tivesse invocado. Ou talvez fosse apenas o fato de que parecia incapaz de ficar longe por muito tempo.
- Estava começando a achar que você não sairia daí hoje. – disse ele, jogando o cigarro que fumava no chão e o esmagando com o sapato antes de se aproximar de mim. Eu congelei por um segundo. O tom de era... Frio. Como se ele estivesse chateado comigo.
Não que eu me importasse... Mas era estranho. Eu já esperava vê-lo essa noite, já que na noite anterior havia "concordado" em caçar com ele antes de expulsá-lo daquela sala. Não que eu pudesse concordar ou discordar, éramos uma equipe novamente... Mas ele perguntou se me veria na noite seguinte e eu disse sim, o que fazia dessa noite nossa volta oficial.
Eu não patrulhava com desde a noite da tempestade, de forma que, quando o sol começou a se pôr, eu comecei a ficar meio nervosa. As coisas iam voltar ao "normal" e eu novamente seria forçada a passar horas e horas com toda noite, agora sabendo o que ele "sentia" por mim. Isso, além das mordidas e do que havia acontecido ontem, me deixava um pouco nervosa. Eu havia saído daquele prédio pronta para lidar com um cheio de indiretas, confiante pelo que eu deixei acontecer naquele sofá... Já tinha me preparado para agir como se nada tivesse acontecido, de forma a deixar claro para ele que eu não queria que nada mudasse mais do que já havia mudado. Por isso aquela frieza estava me assustando um pouco. Me assustando porque eu não fazia idéia do que a causara.
- Não é como se eu tivesse um horário certo para sair. – eu respondi, fingindo indiferença. apenas assentiu e começou a se afastar do prédio. Eu revirei os olhos, irritada, antes de me apressar a acompanhá-lo. Aquilo era meio infantil da parte dele. Ele estava o quê, "de mal" comigo? Por quê?
Bom, eu que não ia perguntar o motivo. Não daria meu braço a torcer e não me importava.

Ok, talvez me incomodasse. Um pouco.

Mas isso era porque eu já havia me acostumado a ter correndo atrás de mim como um cachorrinho. Era estranho vê-lo me evitando. Certo, não me evitando, já que se ele não quisesse me ver, não teria me procurado. Mas estava me dando gelo e eu não estava acostumada com aquilo.
- Pra onde estamos indo? – eu perguntei após alguns minutos, sem agüentar mais o silêncio. Estava tão confusa que não havia me preocupado até o momento com o lugar para o qual parecia estar nos guiando.
- Encontrei com os Cromwell enquanto te esperava. Disse que havia acabado de voltar para a cidade e eles me explicaram a nova rota. Passa pelo meu cemitério. Se eu não achasse Miles um grande idiota, diria que foi atencioso da parte dele pensar em mim. – explicou , dando de ombros. "Meu cemitério". Ouvir aquilo era meio engraçado.
Assim como o fato de que, graças à minha conversa com Athos ontem, o garoto sabia que havia mentido para ele. Mas eu não precisava dizer isso, precisava?
Nós continuamos andando e eu pude observar, pelo canto do olho, pegando outro cigarro. Uh-oh. Aquilo não era bom.
Eu não via problema nenhum em fumar, é claro. Não é como se o cigarro oferecesse algum risco aos pulmões dele. Nem aos meus, já que com a agilidade com a qual eu me curava, nenhum dano sério podia acontecer comigo. O problema era que ele não fumava muito normalmente. Eu só o via fazendo isso quando estava tentando se acalmar, se preparar... Era uma coisa que eu já havia reparado nele, uma espécie de mania. Quando ele estava distraído, por exemplo, costumava tocar ou morder levemente os lábios. tinha uma espécie de fixação oral, então geralmente fumava quando estava nervoso.

Fixação oral.

Ok, "oral" definitivamente não é uma palavra na qual eu devia estar pensando agora. Ainda não havia esquecido o que tinha sugerido pouco antes de sermos interrompidos. Aquela idéia havia grudado na minha mente e não queria sair de jeito nenhum. Sexo oral. A mera noção me deixava ao mesmo tempo constrangida, curiosa e excitada. Aquilo definitivamente era algo que eu nunca tinha feito ou recebido com nenhum cara. Era meio assustador. Mas era, como ultimamente tudo em relação a , excitante ao mesmo tempo.
Eu observei o vampiro levar o cigarro aos lábios perfeitos, deliciosos, macios... Oh, céus. Precisei respirar fundo, tentando acalmar a onda repentina de desejo que senti.

Não, eu não me importava que fumasse. Eu só queria poder ser o cigarro.

Droga. Aquela atração irritante por já estava passando dos limites. Como se já não bastassem os pensamentos sujos em relação à criatura praticamente vinte e quatro horas por dia, essa convivência forçada só pioraria a situação. Era mais fácil odiá-lo e querer distância daquele vampiro quando realmente estávamos distantes um do outro. Mas quando estávamos próximos... Quando ele estava por perto, o desejo bloqueava o ódio. A vontade de atacá-lo era ofuscada pela vontade de, bem... Atacá-lo. Porém de forma mais prazerosa.
- Droga. – resmungou , tentando acender o cigarro. Pelo visto o isqueiro dele não estava funcionando.
Eu dei um tapinha de leve na mão de para afastá-la e peguei meu próprio isqueiro, acendendo o cigarro por ele. assentiu em agradecimento e nós recomeçamos a andar. Eu já via o cemitério de à distância.
Cemitérios definitivamente eram os melhores lugares para se encontrar vampiros. Em primeiro lugar, porque eram excelentes esconderijos, já que geralmente ficavam desertos à noite. Além disso, alguns vampiros, como , gostavam de se esconder em criptas durante o dia, já que essas eram um meio garantido de evitar qualquer luz solar. E também havia o fato de que muitos vampiros "despertavam" para suas novas vidas em cemitérios. Alguns criadores abandonavam os vampiros que criavam por aí e, como o processo de transformação demorava um tempinho, algumas famílias encontravam os corpos "mortos" e os enterravam, sem desconfiar que, em algum tempo, aquela pessoa voltaria à vida.
- Por que você anda com um isqueiro se não fuma? – perguntou , quebrando o silêncio que se instalara novamente entre nós. Oh, pelo visto ele havia voltado a me achar digna de conversar com ele.
- Olha, ele fala! – eu disse, sem conseguir me segurar – Estava começando a achar que um gato tinha comido sua língua.
- A última pessoa que teve contato com a minha língua foi você. – respondeu ele, com um sorrisinho desagradável. Eu apenas revirei os olhos – E eu te fiz uma pergunta.
- Por que eu ando com um isqueiro? – ele assentiu e eu dei de ombros – Sempre se pode brincar de churrasquinho de vampiro.
me olhou feio, mas não disse nada. Bom, foi ele quem perguntou e fogo realmente era um dos melhores métodos de matar vampiros, mesmo que nem sempre o mais prático. Era o tipo de alternativa que eu só usava em último caso, como naquele dia nos túneis. Vampiros eram mais inflamáveis que humanos.
- O que tinha na carta do Mestre? – me perguntou, tão subitamente que eu precisei de alguns poucos segundos para entender a pergunta inesperada. Havia me esquecido que ele estava escondido naquela sala quando Aramis entregou a carta para mim.
- Nada de mais. – eu disse, suspirando – Ele sabe que eu voltei à fábrica ontem, mas não mencionou você. Disse para eu parar de procurá-lo... E que não está mais usando as casas abandonadas.
- Então, resumidamente, nós estamos patrulhando à toa? – perguntou .
- Bom, não à toa. Nós teríamos que sair de qualquer jeito, para matar os vampiros que encontrarmos... Impedir que eles machuquem alguém. Essa história toda do Mestre só acrescentou mais um motivo para as caças noturnas. Mas sim, a mudança de rotas realmente é inútil.
- Ah, se Miles soubesse disso... – disse , divertido.
- Não vai saber. – eu disse, em tom de aviso.
- Não, não vai. – respondeu , parecendo irritado com meu tom de voz – Fica tranqüila, . Eu não ganharia nada contando a Miles que você estragou o "elemento surpresa" do plano imbecil dele.
- Melhor assim. – eu disse, suspirando em seguida – Só não entendo porque o Mestre me mandou essa carta. Ele não precisava me avisar que não estaria mais em casas abandonadas.
- Vai ver ele tentou te despistar... Mas não, não me parece provável. Tem certeza de que não havia algo mais na carta? – perguntou.
- Eu reli aquela droga milhares de vezes. Não tem nada ali. E eu não entendo isso. – eu disse, começando a sentir minha cabeça doer. Eram dúvidas demais, eu estava cansada daquilo.
- Talvez ele só queira te assustar. Afinal, deixou bem claro que anda te vigiando.
- Eu já sabia disso. E talvez ele só quisesse confirmar para me assustar mesmo. Talvez. Esse é o problema, entende? Tudo é "talvez". Eu não tenho nenhuma certeza quando se trata desse vampiro.
- Bom, eu tenho uma. – disse , parando de súbito e mudando o tom para um mero sussurro. Eu o olhei, curiosa – Tenho certeza que têm dois capangas dele nos seguindo no momento. – ele acrescentou, me olhando significativamente.
Só então eu percebi os dois sinais fracos no "radar". Droga, eu devia estar sendo mais atenta. Sempre fui capaz de sentir vampiros assim como eles sentiam uns aos outros, mas para isso não podia me concentrar em qualquer outra coisa, diálogos incluídos.
- Onde? – eu perguntei, também em voz baixa. Não havia tempo para tentar localizá-los sozinha. sinalizou com a cabeça para uma grande estátua a alguns metros de distância.

Eu respirei fundo antes de sacar minha arma de balas de madeira e apontá-la para a estátua.

- Ok, nós sabemos que vocês estão aí. – eu disse, em voz alta e clara – Então nem tentem fugir, porque minha mira é excelente. Saiam de trás da estátua com calma e talvez nós possamos... Discutir isso de forma madura. – "e talvez nós possamos interrogar vocês com altas doses de tortura", seria uma resposta mais honesta. Se aqueles vampiros realmente fizessem o que eu pedi, com certeza seriam a dupla mais imbecil da história.

Por isso eu não devia ter me surpreendido tanto quando, no segundo seguinte, uma das figuras com roupas escuras me levou ao chão.

's POV

Tudo aconteceu muito rápido.

Em um momento estava com a mira apontada para a estátua. No seguinte, porém, dois vultos saíram de trás dela e vieram na nossa direção, nos atacando tão rápido que mal teve tempo de reagir à velocidade dos vampiros. Um deles havia a derrubado no chão enquanto o outro havia me atacado, porém sem a mesma sorte. Eu imobilizei meu atacante – um recém-criado, a julgar pela óbvia falta de experiência – em poucos segundos, já que meus reflexos vampíricos eram bem mais treinados que os de , que só aprendera a lutar como humana.
Mas isso não fazia dela uma má lutadora. Prova disso era o vampiro que a atacara, apesar de ter começado com vantagem, agora se encontrava preso no chão, deitado de barriga para cima, com sentada em suas coxas e prendendo seus braços com as mãos.

Filho da puta sortudo.

Ok, se contarmos o fato que provavelmente dentro de alguns segundos o coitado morreria pela segunda e última vez, não tão sortudo assim. Mas era difícil não ter ao menos um pouco de inveja do futuro cadáver. Eu me lembrava bem demais como era estar naquela posição... Não que ele estivesse prestando atenção nisso. Na situação na qual estava, seria difícil apreciar o calor que irradiava do corpo dela, ou a firmeza daquelas coxas, ou...

Melhor parar por aqui.

Às vezes era difícil me lembrar que devia estar irritado com ela. Mas, de certa forma, aquilo era bom no momento. Eu havia sido imprudente mais cedo. Deixar perceber que havia algo errado atrapalharia meus planos para aquela noite. Para minha idéia desesperada funcionar, eu precisava que ela não desconfiasse da raiva que eu sentia. Pelo menos não agora.
- Pelo visto montar em vampiros é um hobbie seu. – eu disse, incapaz de me controlar. Planos à parte, ela ficava sexy demais irritada pra não aproveitar a oportunidade.
apertou os pulsos do vampiro que ela prendia com força, visivelmente tentando combater a raiva. Ele gritou, e por um momento eu quase me senti mal pelo coitado estar pagando o preço pelas minhas brincadeiras. Quase.
- Cala a boca. – disse , arriscando um breve olhar para mim – Se concentra em imobilizar esse daí.
- Sem problemas. – eu concordei, rindo da irritação dela. Não tinha nenhum problema mesmo. Eu mantinha o recém criado preso de costas contra mim com uma chave de pescoço, e não importava quanto ele se debatesse, não conseguiria escapar. Comparado a mim, vampiro-mestre, ele era só um bebê – Mas não continue nessa posição por muito tempo ou ele pode acabar gostando.
- Já mandei calar a boca. – disse , enquanto tentava fazer com que o idiota que ela prendia parasse de se debater – E você! – disse ela enquanto prendia as duas mãos do vampiro com uma só de forma a poder utilizar a outra. Esse também não conseguiria fugir. Era apenas um pouco mais velho do que o que eu segurava e era tão forte quanto eu – Mais um empurrãozinho e pode dizer adeus à vida eterna! – acrescentou , pegando uma estaca que escondia na bota e a apontando para ele, de forma a reforçar seu ponto. O vampiro ficou quieto, porém visivelmente contrariado.
- Ela é sempre insuportável assim? Como eu me livro dela? – perguntou o infeliz para mim. Oh, aquele era atrevido. E corajoso, devo admitir.
- Diga que a ama. – eu respondi, rindo – É sério, faz ela correr como uma gazela assustada toda vez.
- , a não ser que você queira se juntar ao novato aqui em breve, eu sugiro que fique quieto. – ameaçou , visivelmente irritada. Oh, ela definitivamente não estava com paciência hoje.
- Me juntar no sentido de estar entre suas pernas? Oh, amor, que gentil da sua parte oferecer! – não, eu não conseguia resistir. Mesmo.
- ! – ela exclamou, irritada, apontando a estaca para mim.
- Ok, ok, não vamos partir para a violência. – eu disse, com um sorrisinho sacana. Céus, ela era tão fácil.
- Vocês dois gostariam de mais privacidade? Eu e Drigger podemos sair e voltar mais tarde. – disse o vampiro que prendia, em tom sarcástico, mas parecendo nervoso. O soco que ele levou no nariz em seguida era um sinal claro de que ele deveria ter ficado calado. Eu fiz uma careta em simpatia. Oh, eu sabia o quanto aquele soco doía.
Drigger. Eu lembrava desse nome. Era o vampiro pirralho que eu e havíamos escutado naquele dia, na casa abandonada. Então era esse que eu imobilizava no momento.
- Já que você parece tão ansioso pela minha atenção, acho que seria falta de educação da minha parte te deixar esperando mais tempo. – disse , enquanto o recém-criado gemia de dor – Por que vocês estavam me espionando?
- Não estávamos te espionando... OH! – levantou o punho após socá-lo pela segunda vez, enquanto o coitado xingava em voz baixa – Ora, vamos lá, você sabe por quê! E sabe que eu não vou te falar nada, então pra que se dar ao trabalho?
- Sabe, para alguém tão novo, você até que é bem corajoso. – eu tive que dizer.
- E bem burro. – acrescentou , brincando de girar a estaca na mão – Sabe, você está certo sobre a primeira afirmação, eu sei o porquê. Mas quanto à segunda... Bom, veremos o quanto minha amiguinha afiada aqui pode te fazer falar. – continuou ela, sorrindo cruel – Vamos começar pelo básico. – disse , posicionando a estaca sobre o peito do pobre novato – Quem é seu chefe e o que ele quer comigo?
- Eu não vou te dizer, vadia. – ele respondeu, praticamente cuspindo as palavras.
- Bom, isso não foi educado, foi? – perguntou , enfiando a estaca poucos centímetros abaixo do coração do vampiro. Ele urrou de dor; ela fechou os olhos por um breve momento.
Interessante. Não que eu não já soubesse, mas era interessante presenciar a evidência de que, por pior que parecesse, não exatamente gostava de ver a dor dos outros – mesmo a de um monstro. Não, ela não era tão ruim. Provavelmente não apreciava me causar a dor que causava com suas palavras duras e cruéis, também, mesmo que certamente achasse ser necessário e merecido.

Isso não fazia dela alguém melhor.

Não. A dor que eu sentia era inédita e real e, se ela era capaz de causar aquilo sem aparente remorso... Ela continuava sendo uma vadia.
- Eu só vou perguntar mais uma vez. – disse a caçadora, com a voz dura. Aquela voz que deixava transparecer o quanto ela havia endurecido através dos anos. Aquela voz que explicitava o quanto ela odiava aquilo, assim como odiava o que fazia.

Ela gostava de lutar, de matar em brigas justas. Torturas obviamente a afetavam.

- Eu não posso te dizer! – exclamou o vampiro, enquanto ela retirava a estaca de seu corpo.
- Ele te mataria? – perguntou , voltando a posicionar a estaca contra o coração dele.
- Ele? Oh, não é isso. – o vampiro riu, sem humor – Morte por morte, você já vai me matar de qualquer jeito. Não é questão de medo... É questão de lealdade.
- E se eu prometer te deixar ir se me disser a verdade? – ela ofereceu. Claro que estava mentindo, mas eu duvidava que o coitado fosse perceber isso.
- Mesmo assim... – ele disse, suspirando – Eu não trairia a liderança. Eu sou fiel. Mesmo ele não sendo meu criador.
Aquilo era o que eu temia. Era a prova de que aquela criatura era um mero capanga, não cria do Mestre. Se fosse, a lealdade estaria explicada. A ligação entre um criador e um novo vampiro nos primeiros anos era muito forte.
- E se eu te matar agora? – ameaçou .
- Eu não trairia a liderança. – repetiu o vampiro. Pelo tom dele, era mais uma verdadeira incapacidade do que uma escolha.
Eu precisaria conversar com sobre aquilo, depois. Um recém-criado fiel daquela forma a alguém que não era seu criador... Era perturbador.
- Ok... O que você pode me dizer? – perguntou, de repente.
- Nada. – o vampiro insistiu. revirou os olhos, impaciente.
- Eu já entendi que você não pode me dizer a identidade do seu chefe. Mas tem que ter algo que você se sinta capaz de dizer. Uma brecha em qualquer que seja a ligação estranha que todos vocês parecem ter com ele.
- Não há brechas. – ele respondeu, olhando fixamente para a estaca que agora erguia.
- Bom, se é assim... – ela fez a menção de descer a arma para o peito do vampiro como fizera da primeira vez, mas ele a interrompeu.
- NÃO! – gritou o condenado, parecendo travar uma luta interna entre o instinto de sobrevivência e a lealdade ao Mestre. Alguns segundos depois, ele finalmente disse – Certo. O que você quer?
- Informações. Por exemplo, por que nenhum de vocês fez um ataque significativo ainda? Por que só alguns grupos aparecem de vez em quando para lutar sem motivo aparente? E o mais importante: porque o Mestre me deixou viver naquela noite?
Ele apenas a encarou por alguns segundos, provavelmente tentando decidir o que falar.
- Não faço idéia de porque você pôde viver. Nenhum de nós faz. E quanto aos ataques... Nós não estamos prontos. – o vampiro admitiu o que já sabíamos, de olhos fechados, como se já se arrependesse do que dizia – O Mestre diz que precisamos de reforços... De preparação e de mais tempo... Diz que precisa esperar por ela.
- Ela quem? – perguntou.
- Eu realmente não sei. Só escutei isso sendo dito para Godfrey uma vez... Que precisávamos "dela".
- Isso não ajuda muito. – eu disse – O que mais?
Ele hesitou antes de continuar, soando derrotado.
- Eu não posso te contar quem ele é... Onde ele está... Eu preferiria morrer a contar.
- O que mais? – perguntou ela, com um sorriso doce no rosto. Naquelas circunstâncias, aquele sorriso era apavorante.
- Eu não sei... – se preparou para descer a estaca novamente – EU REALMENTE NÃO SEI! Não tem regras pra isso... Eu não fiz um voto de fidelidade ou algo do tipo. Eu não precisei prometer nada. Não é exatamente nossa escolha... Mas não é contra a nossa vontade, também...
Ele parecia confuso, como se realmente não entendesse como aquilo funcionava. Bom, pelo visto éramos três.
- Você não pode hipnotizá-lo ou algo do tipo? – ela perguntou para mim.
- Não, por dois motivos. – eu respondi, pensando na melhor forma de explicar – Primeiro, vampiros são imunes à hipnose de outros vampiros. Segundo, eu, como a maior parte dos vampiros, não sou muito bom nisso. É um talento bem raro, difícil de aprender. A maioria de nós não consegue nem com anos de treino e se não há ninguém na linhagem com a habilidade, não vale a pena nem tentar. – por "linhagem", eu queria dizer a conexão existente entre um criador, os vampiros que ele criara, os vampiros que esses vampiros criaram, e assim por diante – Quero dizer, eu e temos Cora na nossa linhagem e mesmo assim... Dizem que o talento só é passado por essa ligação, mas eu tentei aprender e quase não consigo. Se consegue, eu nunca fiquei sabendo. Não que isso seja provável, do jeito que ele costumava gostar de se gabar no nosso tempo...
- , cala a boca. – ela me interrompeu rudemente, parecendo irritada. Oh, eu esqueci. era um assunto sensível – Céus, a tendência que você tem de monologar de vez em quando!
- Você perguntou!
- E você podia ter me respondido com um "não, eu não posso". – ela respondeu.
- Você devia saber. Você é imune também, não é? Puxou isso do seu pai. – da última vez que eu estive na cidade, com Cora, havíamos descoberto que a sempre tão útil habilidade da minha ex não funcionava com . Mais uma característica vampírica da caçadora.
apenas me olhou feio por um segundo antes de se voltar para o vampiro momentaneamente esquecido.
- Por que vocês estavam me espionando hoje? – perguntou .

Há! Eu a havia deixado sem resposta!

O vampiro pareceu meio surpreso com a pergunta súbita. Era uma boa mudança de estratégia, na verdade. Ir por tentativa e descobrir o que ela poderia arrancar dele.
- Só estávamos obedecendo a ordens. Não íamos te atacar, nem nada. – disse o vampiro, em tom meio defensivo – O Mestre gosta que fiquemos de olho em você, de vez em quando.
- Por quê? – perguntou – Qual o interesse dele em mim? Por que ficar me vigiando?
- Eu não sei... Eu não posso dizer... – o vampiro parecia confuso.
- Não sabe ou não pode dizer? – insistiu ela.
- Eu não sei de muita coisa e o que eu sei, não posso dizer. – respondeu o vampiro, como se falasse com uma criancinha lerda.
- Então, basicamente, você é inútil pra mim. – disse , irritada. Eu entendia o que ela estava sentindo. Pra uma criaturinha tão insignificante e em óbvia desvantagem, aquele vampiro era muito pouco cooperativo, além de atrevido e persistente.
- Tudo será inútil pra você, . – disse ele, abrindo um sorriso cruel de repente, como se a noção de que era quem realmente estava encurralada ali fosse o suficiente para extinguir seu medo da segunda e definitiva morte – Você não entende? Nada que você fizer vai nos parar. Por que é impossível nos parar. Você pode chorar, pode espernear... Mas suas tentativas ridículas de destruir o Mestre não vão mudar o fato de que a Organização está com os dias contados. – uma parte estranha de mim quis gritar ao meu companheiro de espécie em aviso. Eu podia ver o corpo de tremendo de ódio... Mais um pouco e aquele vampiro receberia uma estaca no coração. Porém talvez essa fosse a intenção; ele sabia que ela o mataria de qualquer jeito, então talvez só quisesse pular a parte dolorosa da tortura – Você se acha tão boa... No fundo você gosta de saber que o Mestre te mantém sob vigilância, porque isso te faz se sentir importante. Mas quando tudo isso acabar você finalmente vai entender o que realmente é: uma mestiça nojenta e patética.

A estaca desceu com tanta rapidez que nem mesmo eu consegui acompanhar o movimento com os olhos.

saiu de cima da carcaça agora vazia que antes havia sido um vampiro e veio em minha direção, os olhos brilhando com um fogo que era pura fúria. Eu larguei Drigger violentamente, fazendo com que ele batesse a cabeça com força em uma lápide e agarrei os ombros de , antes que ela machucasse a mim ou ao recém-criado mais do que o extremamente necessário. Céus, com a raiva que ela estava, podia acabar machucando até a si mesma.

E isso acabaria com meus planos para aquela noite.

- Calma. – eu disse, a forçando a olhar nos meus olhos. E por um momento eu esqueci que ainda estava com raiva dela pela noite anterior. Esqueci que havia prometido a mim mesmo dar a última "chance" a nessa noite, lançar minha carta final para fazê-la entender. Sim, no momento em que meus olhos encontraram os dela, eu esqueci momentaneamente o que devia fazer.
Era a proximidade. O menor toque ou olhar entre nós era o suficiente para despertar as memórias de como podia ser bom nosso contato físico – os beijos, as carícias... Nós combinávamos. Juntos, eu e éramos como um vulcão em erupção: havia força, havia calor e havia um imenso potencial de destruição. Era incrível como a mera lembrança de como poderia ser era o bastante para deixar ambos imóveis e sem palavras.
Eu pude observar a raiva lentamente abandonando . Oh sim, ela conseguia sentir aquele magnetismo também.
- Me solta. – ela disse, depois de um momento, realmente parecendo mais calma. Eu a soltei e ela praticamente voou até Drigger, que ainda tentava se recuperar do mais novo ferimento na testa.

Pelo visto esse também seguiria o companheiro em breve.

's POV

Eu estava cansada. Cansada de todas aquelas ameaças, cansada de nunca conseguir respostas... Cansada de sentir que todos os meus esforços eram inúteis.
O que aquele vampiro havia me dito havia atingido o ponto certo. Eu me sentia patética. De que adiantava tanta força, tanto treino, se o Mestre parecia cada vez mais inalcançável? Nunca antes eu havia sentido como se não pudesse proteger todos à minha volta. De fato, ser a responsável pela segurança de todos sempre foi um fardo que eu abominei, mas era meu dever. Eu havia assistido Homem-Aranha vezes o suficiente para entender que "com grande poderes, vêm grandes responsabilidades". O fato de não poder proteger a todos me fazia odiar ainda mais a noção de que eu devia protegê-los.
Eu levantei Drigger do chão, o segurando pelo pescoço, a estaca firme em minha mão. O vampiro mal protestou, parecendo ainda estar um pouco tonto. Eu tinha a total intenção de matá-lo naquele momento.

Mas quando ele abriu os olhos cor de mel e me encarou com petulância, algo impediu que eu empurrasse minha estaca.

Eu não sabia o quê exatamente havia me parado. Não foi admiração pela rebeldia e coragem dele – não, já havia visto isso em diversos vampiros e nunca sentira piedade. Também não foi a idade daquele menino, que era tão mais novo que eu e há tão pouco tempo vampiro. Ou talvez fossem mesmo esses motivos, mas... Eu não tinha certeza. Só o que eu sabia é que desisti de matá-lo tão subitamente quanto havia tomado aquela decisão.
- Ok, escute com atenção. – eu disse, apertando o pescoço do garoto com mais força. Ele nem ao menos piscou – Eu quero que você volte para o seu chefe e entregue um pequeno recado meu para ele. Diga que eu estou cansada desse joguinho de gato e rato. Que está mais do que na hora desse imbecil tomar coragem e me enfrentar cara a cara. E que se ele não vier até mim, eu vou continuar o caçando, não importa quantos "avisos" ele me mande. E vou matar cada infeliz que ele mandar me vigiar. Eu posso estar de mãos atadas quanto a pará-lo por enquanto, mas pode acreditar. Destruí-lo virou minha mais nova obsessão e quando eu ponho uma idéia na cabeça, não há força no mundo que possa tirar. – dizendo isso, eu o empurrei para trás, fazendo com que ele caísse sentado no chão – Agora vai!
- Não adianta me seguir. – disse Drigger, se levantando e parecendo confuso por eu estar o deixando viver – Não sou idiota. Não irei até o meu Mestre até ter certeza de que vocês não estão atrás de mim.
- Eu sei disso. – eu respondi, irritada. Sabia que, se Drigger estivesse prestando atenção à proximidade de outros vampiros, nunca poderíamos segui-lo sem que ele percebesse. Por isso não havia nem sequer considerado a idéia – Vai logo antes que eu mude de idéia.
Ele então deu as costas e saiu correndo. Ótimo. Pelo visto o vampiro tinha coragem, mas não era estúpido.
- Por que fez isso? – eu ouvi a voz de , curiosa, de algum ponto atrás de mim.
- Estou cansada dessa palhaçada. – eu respondi, ainda observando o vampiro se afastando - Paciência tem limite e a minha sempre teve o tamanho da sua humildade. Quase inexistente.
- O que eu quis dizer foi: por que o deixou viver? – ele reformulou, visivelmente preferindo ignorar minha piadinha – Você não precisava ter mandado um recado. Matar os dois espiões já seria uma mensagem clara o suficiente.
- Não sei. Só... Não consegui matá-lo. – eu respondi, meu tom distante até para meus próprios ouvidos.
Então eu me virei para e finalmente percebi que ele segurava o braço como se esse estivesse machucado.
- O que houve? – eu perguntei, sinalizando com a cabeça para o braço dele.
- Drigger conseguiu me cortar com uma faca antes de eu imobilizá-lo. – respondeu , mostrando a parte interna do braço para mim, onde havia um corte vermelho, que vinha de pouco acima do pulso de até a parte interna de seu cotovelo. O braço dele estava totalmente coberto por sangue – Eu não dei atenção na hora, graças ao calor do momento, mas agora está incomodando.
Eu olhei para a faca ensangüentada próxima aos pés de , onde Drigger antes se encontrava. Estranho. Eu não lembrava de ter visto sangue no braço de antes, mas eu não estava realmente prestando atenção em muita coisa além da minha raiva, então não podia dizer com certeza. E diante da evidência do ferimento do vampiro, não parecia haver outra explicação.
- Em quanto tempo vai fechar? – eu perguntei. O corte parecia profundo, e mesmo sendo um vampiro, perder muito sangue não podia ser bom.
- Pela profundidade, em um ou dois dias. – ele respondeu – A não ser que eu beba sangue.

Oh, estava demorando.

- Você tirou sangue de mim dois dias seguidos. Isso não adianta? – eu perguntei, irritada.
- Ajuda, mas para curar ferimentos sérios com rapidez eu preciso beber sangue imediatamente. – respondeu ele, parecendo tentar controlar a dor – Por favor, . Um gole do seu sangue basta.
Argh! Eu odiava a forma com a qual ele insistia em continuar me forçando a fazer aquilo. Eu estava começando a me sentir um daqueles brinquedos de morder que dão para filhotes de cachorro. Quando eu concordei em virar a "fornecedora" de , não estava contando com o fato de que teria que me transformar em um banco de sangue 24 horas.
- Você está começando a abusar, sabia? – eu disse, tentando controlar minha raiva.
- Achei que nós tivéssemos um acordo. – disse , ainda segurando o braço como se realmente doesse. Dava nervoso ver a expressão de dor no rosto dele.
- O acordo não incluía me morder todo dia! – eu exclamei, porém arranquei a munhequeira que usava para esconder as novas cicatrizes no meu pulso e ergui meu braço na direção dele, não sem antes virar a cabeça para a direção oposta – Vai, acaba logo com isso.
- Não aqui. – disse – O cheiro do seu sangue pode atrair mais vampiros que o cheiro do meu.
- Sua cripta, então? – eu perguntei, irritada. Só queria acabar de vez com aquilo, e nós estávamos mesmo no cemitério dele...

Quando ergueu o olhar até o meu e assentiu, porém, uma sensação estranha me dominou.

Eu me senti em perigo.

Era besteira, eu disse para mim mesma enquanto começava a seguir . Por que eu estaria em perigo? Era só ... Ele não era louco de tentar fazer alguma coisa comigo. Tudo bem que eu era a exceção secreta do acordo dele com Miles, já que como eu não era humana, ele podia me fazer mal sem desrespeitar o pacto, se quisesse... Mas ele não era idiota. Devia saber que não podia fazer nada comigo sem que eu resistisse. E depois de ter tido tantas chances de me machucar nos últimos dias, porque faria algo agora? Era besteira.

Mas mesmo assim, quando eu desci as escadas do alçapão que levava para o nível inferior da "casa" dele, me senti entrando por livre e espontânea vontade em uma armadilha.

fez sinal para que eu sentasse em sua cama e eu o fiz, sentindo meu nervosismo crescer a cada segundo. Algo estava errado. Algo estava muito errado, mas eu não conseguia definir o que era.
Eu soltei uma exclamação surpresa quando, ao invés da sensual provocação que antecedera suas duas outras mordidas, ele simplesmente pegou meu pulso e cravou os caninos nele. Eu ainda assim senti as faíscas de prazer que o contato proporcionava, mas havia doído mais do que das vezes anteriores. Eu lembrei de como havia parecido chateado comigo quando eu saí da sede... Vai ver estava tentando me punir. Filho da puta.
Observei o ferimento no braço de começar a fechar com uma rapidez impressionante, enquanto ele continuava a tirar goles do meu pulso. Pela primeira vez me perguntei se aquele tipo de mordida seria fatal para um humano... Afinal, muitos se suicidavam cortando os pulsos. Será que se mordesse um humano no pulso, as substâncias presentes na saliva dele seriam o suficiente para evitar que a pessoa morresse? Era um caso a se pensar... Mas por que eu estava pensando nisso agora? Eu me sentia confusa... Enfraquecendo... E foi só então que me dei conta que , mesmo tendo prometido tirar apenas um gole, ainda não havia largado meu pulso. O vampiro olhava nos meus olhos enquanto continuava bebendo e era aquilo que estava me deixando tão tonta. Perda de sangue.
- ... Pára... – eu pedi, achando que ele simplesmente havia esquecido que precisava parar. Mas, ao invés de atender meu pedido, ele apenas continuou me encarando, segurando meu braço com mais força.

Eu entrei em pânico.

Tentei puxar meu pulso, mas estava fraca e o movimento só fez a mordida dele voltar a doer. imobilizou meu braço enquanto continuava a beber, e uma sensação gelada começou a se espalhar pelo meu corpo.

Medo.

Eu estava fraca demais para lutar e não conseguia acreditar no que estava acontecendo. Não era possível... não podia estar querendo me matar...
Por que não? Uma voz no fundo da minha mente me perguntou, e eu me lembrei de quem exatamente era. Meu inimigo. Por que ele não poderia querer me matar, se viera para a cidade com esse objetivo? Com raiva de mim mesma, eu percebi que, aos poucos, havia baixado a guarda com . Com o tempo, graças às vezes que ele lutara ao meu lado e cuidara de mim, eu me vi envolta em um falso senso de segurança quando perto do vampiro. Eu não havia começado a acreditar que ele me amava mesmo, mas de certa forma, havia adquirido essa confiança idiota de que ele ao menos não queria me matar.
A escuridão começou a me dominar e eu senti meus olhos se fechando contra a minha vontade. Era o fim. havia conseguido, afinal.
Meu último pensamento antes de me entregar de vez àquela sensação foi o mesmo que eu tivera mais cedo naquele dia.

Uma caçadora não devia confiar demais em ninguém.

Xx

's POV

Flashback


Alguns meses antes, Los Angeles, Califórnia.

- ONDE ELE ESTÁ? – ela gritou assim que escancarou a porta de meu esconderijo com Cora. Oh, definitivamente podia se confiar em para adentrar residências alheias com tamanha sutileza – O QUE VOCÊS FIZERAM COM ELE?
Eu ergui meus olhos do livro que lia e a encarei com calma, sabendo que isso a irritaria mais ainda. Não me decepcionei. Os olhos da caçadora brilhavam de ódio, mas não apenas disso. Dor. Poucas vezes na vida eu havia encarado uma criatura com tanto sofrimento no olhar. A dor que ela parecia sentir era óbvia, selvagem, forte...

Eu não pude deixar de sorrir.

- O que fizemos com quem? – eu perguntei, em meu melhor tom de falsa inocência – "Ele" é um termo muito amplo. Matamos mais de vinte "eles" só no último mês.
- Não me provoca, . – disse , tremendo – Eu sei. Foi Coraline, não foi? Ela apagou as memórias dele. Fez esquecer os últimos anos lutando pela humanidade... Fez ele esquecer...
- Você? – eu completei, fingindo preocupação. Deixando meu livro de lado, eu fui até ela, parando de frente para a caçadora – Pobre . Está magoada por que seu namorado te deixou? Precisa de um ombro amigo para chorar?
A raiva dela parecia aumentar na mesma proporção de sua dor e eu precisei me controlar para não rir.
- Ele não me deixou. – respondeu ela, em tom lívido – A vadia da sua namorada o arrancou de mim à força!
Eu não sabia o que me irritava mais: a ofensa à Cora ou o fato de a caçadora estar certa. Era bom fingir superioridade na frente daquela garota, mas no fundo eu estava machucado também. Cora havia usado seus poderes para trazer de volta para o nosso lado porque era a ele que ela queria. Não que eu não soubesse que eu, no fundo, sempre havia sido apenas o capacho da minha criadora, mas ver a prova disso doía. Cora não parava de insistir que agora nós poderíamos ser uma família feliz, mas não era isso que eu queria. Um dos momentos mais felizes da minha existência como vampiro havia sido quando nos deixara. Eu havia tido esperanças de poder ter uma vida com Cora, mas não era comigo que ela desejava passar o resto da eternidade. Não, eu era apenas o brinquedinho. O verdadeiro sentido da existência de Coraline sempre fora .
Mas ali, vendo a caçadora irritante tão magoada quanto eu, pude me sentir superior. Era como se quanto mais eu aumentasse a dor dela, mais esquecesse a minha.
- Será mesmo? – eu perguntei, aproveitando o leve toque de insegurança que havia se misturado ao tom dela enquanto defendia – Ou será que ele apenas não aproveitou a desculpa para poder te deixar?
- nunca faria isso comigo. – ela disse, tentando soar confiante. Porém, sua voz tremia, deixando o fato de ela estar seriamente abalada com tudo o que havia acontecido ainda mais explícito. Mas ela não estava chorando. Obviamente, não queria me dar esse gostinho. Eu precisava admitir que ela era forte – Ele nunca me deixaria.
- Não? Tem certeza disso, caçadora? – eu perguntei, vendo a insegurança agora nos olhos de . Aquilo era ridículo. Uma garota como aquela não deveria se sentir insegura por nada. Não que eu me importasse, claro. Eu não conseguia entender o porquê daquela fagulha de raiva ter se acendido dentro de mim frente à falta de confiança de , mas não importava. Se ela se sentia insegura, eu devia me aproveitar disso – Talvez ele tenha se cansado de você. Só Deus sabe o quanto você é irritante... Vamos lá, pense bem. Até você se surpreende por ele ter ficado por perto por tanto tempo. – eu continuei, vendo pela expressão dela que estava atingindo o ponto certo – Você sabe o quão insuportável você é. Ficaria realmente surpresa se descobrisse que te largou por vontade própria? Vai me dizer que no fundo não estava esperando que uma hora ou outra ele enxergaria a verdadeira você e iria embora?
- Ele não faria isso. – continuou insistindo, o tom agora, porém, bem frágil. Ela já estava magoada e com a minha ajuda, estava afundando mais ainda – Não depois de... – ela parou, como se de repente se lembrasse de com quem estava falando.

Já era tarde, no entanto.

- Depois de quê? – eu perguntei, o que antes era uma fagulha de raiva se transformando em uma fogueira com a nova informação – Você dormiu com ele?
- Isso não é da sua conta! – ela praticamente cuspiu as palavras.
Eu ainda não entendia o porquê, mas ondas de pura ira começavam a dominar todo o meu ser. Não que eu pretendesse deixar isso à mostra, claro. Não perderia o controle daquela situação. Me forçando a ser frio, eu continuei.
- Vai ver foi isso, . – eu disse, dando a ela um sorrisinho cruel enquanto começava a andar em círculos a sua volta. encarava o chão, como se com medo de perder o controle se olhasse para mim – Vai ver você foi tão ruim que ele não quis mais te ter por perto. Ou... – eu sorri, observando como cada palavra parecia atingi-la como um soco – Vai ver era só isso que ele queria o tempo inteiro. E como você foi vadia o suficiente para dar isso a ele com tanta facilidade, simplesmente foi embora. Talvez, ... – eu continuei, parando novamente de frente a ela – Você simplesmente não tenha sido boa o suficiente.
Ela ergueu o olhar então, e eu me forcei a não recuar por reflexo. Eu havia conseguido transformar a dor em algo mais. parecia... Miserável. E eu senti então um sentimento que não tinha há séculos.

Culpa.

O sofrimento dela havia deixado de ser divertido. Por alguma razão, havia começado a me machucar também.
- Por quê? – ela perguntou, simplesmente, e eu pude notar curiosidade em meio ao turbilhão de emoções que ela exalava – O que eu te fiz? Por que ser tão cruel? – parecia genuinamente confusa agora e eu entendia o porquê. Ela era minha inimiga, sim, mas até aquele dia, nossas brigas nunca haviam sido tão pessoais – Por que você me odeia?


- Porque eu já te amava. – eu disse, para mim mesmo, largando o pulso de assim que percebi que ela havia desmaiado. Lambi a ferida de forma a estancá-la e desci o braço dela delicadamente para a cama.

Oh, a contradição.

Eu não me espantava por ter me lembrado daquele dia há tantos meses atrás enquanto a mordia. A dor que eu havia visto hoje em não havia sido nada nem perto da que ela experimentara após o pequeno truque de Coraline, mas mesmo assim... Antes de desmaiar, havia me olhado com ódio, com desespero, como se...

Como se estivesse se sentindo traída.

Sim, eu sabia que havia acabado de aniquilar qualquer confiança que ela estivesse começando a desenvolver em mim, mas havia sido necessário. Vê-la com Aramis na noite anterior havia me feito perder a paciência. Eu não agüentava mais o jeito como as coisas estavam e por isso havia decidido jogar minha última carta. Eu precisava contar tudo para , fazê-la entender o que eu sentia... Com uma garota normal, uma conversa bastaria. Mas não me deixava nem ao menos pronunciar as palavras "eu", "te" e "amo" na mesma frase, quanto mais me deixar explicar. Se eu tentasse, ela fugiria. Por isso precisava forçá-la a ouvir.

Coisa que só conseguiria se a prendesse.

Suspirando cansado, eu peguei as algemas e correntes que havia escondido embaixo da cama. Oh, sim, eu sabia que eu era doente. E não só por tê-la feito desmaiar, já que esse seria o único jeito de prendê-la sem que ela conseguisse me impedir. Não, o fato de estar a algemando para poder conversar com ela já era doente o suficiente sem contar meus métodos para isso.
Mas eu era um vampiro. O que esperava, flores e uma caixa de bombons? É, como se fosse adiantar. Situações desesperadoras pediam medidas desesperadas e aquele havia sido o único jeito que eu arranjara de fazê-la parar tempo o suficiente para me ouvir. Eu sabia que era errado e que aquilo só a daria mais motivos para me chamar de monstro e dizer que o que eu sentia era doentio. Céus, minhas próprias ações estavam se tornando doentias, mas eu não tinha escolha. Além de todo aquele meu plano para fazê-la aceitar todas as faces ocultas de si mesma e sua própria natureza, um novo fator havia me ajudado a fazer o que fiz. Desespero. estava começando a me enlouquecer e em meu desespero, só o que queria era que ela me escutasse. Aquela história toda estava começando a me corroer por dentro e eu precisava que ela entendesse, do contrário... Eu tinha medo do que podia acontecer. Do que eu podia acabar fazendo.
Eu prendi os braços dela na cabeceira da cama e a observei por um minuto. Havia tirado muito sangue de , de forma que precisava repor de alguma forma. Ela era uma híbrida, mas perda de sangue podia ser sério até mesmo no caso dela. Se fosse humana, provavelmente precisaria de uma transfusão. Mas como era meio-vampiresa, eu tinha outra idéia.

Afinal, vampiros repõem sangue perdido bebendo sangue.

Eu tinha certeza que funcionaria. Se tinha um pouco que fosse de dna de vampiro, teria a característica mais básica da espécie. Eu tinha certeza de que ela nunca havia tentado explorar mais seu lado vampiresa, por puro preconceito e negação de que parte dela era a espécie que a caçadora tanto abominava. Mas eu havia prometido fazê-la encarar seu lado negro, não havia? Então. Beber sangue seria parte daquilo, mesmo ela estando inconsciente.
Eu debati dar meu próprio sangue a ela, mas mudei de idéia. Não queria acabar transformando por acidente. Eu não havia chegado nem perto de drená-la, mas mesmo assim era melhor não arriscar.
Ao invés disso, então, puxei uma caixa de isopor com gelo que eu havia guardado também em baixo da cama e tirei um dos pacotes de sangue que havia roubado horas antes. Fiz uma careta ao sentir o líquido frio dentro do pacote. Sangue gelado não é nem de longe tão bom quanto sangue quente correndo, mas não havia outra opção.
Deixei que meus caninos se alongassem e fiz um pequeno furo no pacote, o levando até em seguida. Levantando a cabeça dela com uma mão, levei o pacote a seus lábios com a outra. Minha teoria era que, como qualquer vampiro, em situações como aquela o instinto de agiria mesmo com a caçadora inconsciente. Porém só respirei aliviado quando, alguns segundos depois, começou a sugar o sangue do pacote por conta própria e até mesmo com certo desespero, voracidade. Oh, eu sabia que ela me mataria quando descobrisse o que eu estava a levando a fazer. Mas realmente não havia alternativa.
Dei a ela o conteúdo do segundo, também, antes de deixá-la descansar. Já havia feito minha parte, agora precisava deixar o corpo de fazer o resto. Eu desconfiava que ela só acordaria dentro de algumas horas, mas isso era bom, na verdade. Eu precisava de tempo para me preparar.
Seqüestrar foi a ação mais impulsiva de uma existência na qual a impulsividade foi sempre um dos meus mais fortes traços. Mas... Não, eu não podia honestamente me defender dizendo que fiz isso apenas devido ao calor do momento. Não, havia tomado minha decisão desesperada ao vê-la com Aramis. Não podia afirmar que houve muito planejamento, no entanto, já que a raiva havia sido meu único grande combustível nas últimas quase vinte e quatro horas. Foi a raiva, a dor e o desespero dos meus instintos vampíricos que haviam me feito cortar meu próprio braço naquele cemitério, enquanto estava de costas e atraí-la para cá. O vampiro em mim estava aos poucos dominando minha parte mais humana e lógica, me levando a tomar esse tipo de decisão idiota e dramática. Mas eu estava no meu limite. Havia chegado ao extremo da minha paciência e, se não fizesse aquilo, temia que faria bem pior. estava aos poucos me fazendo chegar a um ponto que talvez me fizesse machucá-la de verdade e não apenas da forma que meus planos exigiam.
Era engraçado culpá-la agora. Culpá-la por como ela me tratava, quero dizer. Sim, era culpa dela, mas as lembranças que o olhar de haviam despertado me fizeram recordar um fato do qual eu andava esquecido.

Fui eu quem começou com tudo isso.

Antes daquele dia, nossas brigas se resumiam a golpes apenas físicos e provocações mais leves. Frases espertinhas, xingamentos... Antes de Coraline arrancar de , nossos confrontos não passavam disso. Mas naquela noite, dominado pela dor de ver minha companheira tão explicitamente preferindo outro vampiro a mim, eu a havia machucado. Havia usado a dor de contra ela mesma e assim levado nossa relação para um novo plano. A partir daquele dia a ensinei a me odiar e só agora entendia realmente o porquê.
Como eu disse, de certa forma, eu já a amava. Na verdade, acho que ainda não era amor, mas já era algo forte. Uma atração... Um fascínio por aquela garota. Uma assassina impiedosa dentro de uma garota que no fundo era triste e insegura. era tão cheia de nuances, sua personalidade tinha tantos níveis que eu me vi encantado. Ela era forte e frágil ao mesmo tempo. Não demonstrava muitos sentimentos, porém, quando o fazia, amava e odiava com tanta intensidade que chegava a assustar. De uma forma bizarra e deturpada, ela era encantadora. Pelo menos para mim.
Mas eu continuava sendo um habitante da noite, enquanto ela era como a luz do sol. Sim, porque por mais triste que no fundo fosse, por mais que ela caminhasse mais na escuridão do que na luz... Ela brilhava. Como o fogo, como o sol, como tudo que para mim era proibido. Ela não fazia idéia disso, mas possuía uma luz interior que ia contra tudo que um vampiro devia querer.

Talvez por isso eu a quisesse tanto. Sempre fui meio rebelde.

A criatura das sombras que insistia em espiar a luz do dia, mesmo sabendo que não poderia tocá-la. Foi por isso que comecei a odiar tanto e fazê-la me odiar também. Ela me intrigava, me encantava, e quanto mais aquele sentimento crescia dentro de mim, mais meus instintos vampíricos gritavam em protesto, lutavam... Eu havia começado a odiá-la para fazer com que ela se afastasse de mim, para forçar aquele amor que nascia a morrer, pois era errado, ofensivo. era uma híbrida e minha espécie a considerava uma aberração. Aquilo tinha que acabar.
Mas não acabou. Eu e Cora havíamos fugido da cidade após a Organização curar e lacrar as habilidades de Cora. Mas nem os milhares de quilômetros que separavam Los Angeles da Rússia haviam sido o suficiente para me fazer esquecê-la. Eu havia levado comigo no pensamento e foi preciso voltar para essa maldita cidade para finalmente entender que a amava.
Aceitar o fato não melhorou a situação, no entanto. E me declarar apenas conseguiu piorar tudo. Ela havia começado a me humilhar. Pisando em meus sentimentos e simplesmente se recusando a acreditar neles. Isso já seria ruim o suficiente se fosse uma mulher normal, mas ela era uma híbrida. Parte vampiresa, e eu um vampiro-mestre. Pela hierarquia da minha espécie, era um ser insignificante, já que se desconsiderarmos o fato de ela ser uma "aberração", ainda sobrava a questão da idade dela. Vinte e um anos. O equivalente a uma vampiresa da mesma idade. Um vampiro tão inferior nunca poderia me afrontar do jeito que faz sem que eu o matasse por isso. Cada vez que ela me humilha algo em mim grita inconformado, pois eu sou um vampiro-mestre e ela devia me respeitar. Se eu não a amasse, estaria tentando matá-la pelas ofensas, porque era por isso que meus instintos gritavam. O vampiro dentro de mim queria sangue, queria vingança por todo aquele desrespeito.
Eu havia vindo para essa cidade para matá-la por outro motivo. Havia desistido, é claro, mas aquele desejo de aniquilá-la havia começado a aos poucos voltar desde o dia da tempestade. Não era algo consciente, não era algo que eu controlava... Vinha da parte de mim que não tinha sentimentos, da parte que era apenas um monstro. Eu temia esse lado meu, que andava ganhando cada vez mais força. Tinha medo de que me fizesse chegar a um ponto no qual eu não conseguiria mais controlar aquela raiva e acabaria a machucando. Eu não conseguiria viver comigo mesmo se a matasse, mas estava além do meu controle. Por isso havia tomado essa decisão drástica de seqüestrá-la. precisava entender.
Eu a queria, sim, mas já havia prometido a mim mesmo que só a teria se ela viesse até mim. Mas mesmo se ela não viesse, se ela nunca me quisesse, eu precisava que ela ao menos me respeitasse. Por isso falaria com ela. Só o que eu queria era um pouco de reconhecimento, uma admissão de que ela sabia que eu a amava. Queria que ela admitisse e respeitasse esse fato e parasse de me tratar como um cachorro. Pelo menos isso. Uma migalha que fosse de respeito já acalmaria a entidade naturalmente assassina que fazia de mim um vampiro.
Suspirando em rendição, eu chequei as correntes que prendiam . Não adiantava ficar ali, remoendo aquelas idéias, enquanto ela não acordava. Não me ajudaria em nada e só me faria me sentir pior pelo que eu havia feito.
Sentindo uma espécie de aperto em meu coração que há séculos não batia, deixei que minha mão acariciasse o rosto de . Eu havia a machucado de novo, dessa vez de forma mais séria. Tanto física quanto emocionalmente. Eu queria não precisar fazer aquilo, queria poder segurá-la em meus braços e protegê-la do mundo. Queria poder dizer que apesar de tudo que eu já havia feito e do que agora estava fazendo, ela podia confiar em mim. Mas eu já não tinha certeza de que aquilo era verdade. Nossa relação ficava mais disfuncional a cada dia, e por mais que meu amor por ela parecesse ser a única constante, não era o suficiente para afirmar que ela podia confiar em mim. Com tudo que havia me feito passar, nem mesmo eu confiava em mim e eu sabia que aquilo era errado. Meu amor por ela não era saudável, porém, no fundo, nenhum amor é.
Por vezes eu havia me flagrado pensando se era eu quem tinha uma percepção errada sobre tudo aquilo ou se era o resto do mundo que se deixava enganar por tão cruel sentimento. Não me surpreenderia se a primeira suposição fosse a correta, mas me surpreenderia ainda menos se a segunda fosse. Pessoas relacionavam ao amor palavras como bondade, felicidade, pureza... E, admito, estavam certas quanto a isso. Mas eu, criatura da noite acostumada a enxergar o lado obscuro das coisas, era capaz de ver também a outra face daquele sentimento. A face sombria, oculta, sempre escondida e reprimida nos corações que amavam. Oh, o amor podia sim ser bonito. Mas era por vezes também doentio, destrutivo... É impossível não enxergar a crueldade por trás de um sentimento que faz com que a própria existência de um amante dependa da coisa amada. O amor podia ser tão extremo, machucar tanto, que eu me recusava a pensar que fosse tão feliz e colorido. Então, sim, eu devia estar certo. Amar nem sempre era algo saudável.

Amar, na verdade, era uma droga.


Capítulo 18 - Hands Tied


(Música do capítulo: #1 Crush, do Garbage)

's POV

Eu acordei com o som de metal batendo contra metal de leve.

Onde eu estava? Em casa com certeza não era. A cama na qual eu estava parecia bem mais confortável do que a minha.

Aquilo me chamou a atenção.

Aquele pensamento me era familiar. Com certeza já o havia tido antes, só não me lembrava quando... Na verdade, o simples fato de estar acordando nessa cama estava despertando um senso de déjà vu em mim que meu cérebro ainda sonolento não conseguia entender. Eu conhecia aquela cama, assim como aquele cheiro nos lençóis. Era o cheiro de alguém que eu conhecia... Era um cheiro que eu gostava.
Havia um gosto estranho na minha boca e aquele era o único detalhe na situação que não me parecia familiar. Ok, aquilo estava cada vez mais estranho. Mesmo em meu estado de confusão, eu ainda tinha lógica o suficiente em mim para entender que, se eu realmente queria saber onde estava, a melhor alternativa era abrir os olhos. Ainda meio zonza, eu tentei levar as mãos até o rosto para coçá-los.

Apenas para descobrir que ambas estavam presas.

Meus olhos se abriram de súbito e eu inclinei a cabeça para trás, notando finalmente que o barulho de metal que eu havia escutado vinha das correntes que prendiam meus pulsos à cabeceira da cama.
Ok. Eu não ia pirar. Eu não ia pirar. Eu não ia...

- QUE MERDA É ESSA?! – eu berrei.

... Pirar.

Foi então que eu ouvi uma risada baixa vinda do canto do quarto. Oh, eu conhecia aquele som. Eu reconheceria aquele risinho irritante em qualquer lugar do mundo.
- ?! – eu não tinha certeza se aquilo era uma pergunta ou uma afirmação.
- Aí está ela. – ele disse, se aproximando da cama de forma que a pouca luz daquele "aposento" subterrâneo pudesse iluminá-lo – Estava começando a me preocupar.

Foi então que tudo voltou à minha mente.

- QUAL É O SEU PROBLEMA? – eu gritei novamente, agora me desesperando de verdade. Tentei quebrar as correntes que me prendiam, sem muito sucesso – O que significa isso? O que... Que Deus me ajude, , mas se você não tiver uma boa explicação pra isso, eu...
- Vai fazer o quê? – perguntou ele, se sentando à beira da cama e me encarando de forma divertida – Gritar? Espernear? Não se engane, . Eu não sou idiota, essas correntes são super fortalecidas. Nem você vai conseguir quebrá-las.
- O que você está fazendo? – eu perguntei, tentando manter a calma, porém minha voz tremia com uma infinidade de sentimentos que no momento pareciam indistinguíveis. Raiva, medo, desespero... Entre mil outros que eu não conseguia me concentrar o suficiente para definir – Seu... Seu doente! Você me enganou, você... Você podia ter me matado!
- Ora, vamos lá, caçadora. – disse , suspirando entediado – Você sabe muito bem que eu estou no ramo a tempo o suficiente para saber definir o quanto de sangue posso tirar de você sem te matar.
- Não interessa! – eu insisti, olhando pra ele com todo o ódio que eu consegui juntar – Você traiu a pouca confiança que eu tinha em você. Me morder sem o meu consentimento naquela fábrica já foi avançar uma barreira importante, mas eu deixei passar... Mas isso? – eu perguntei, me assustando com a dor que o pensamento me causava. Para minha extrema satisfação, parecia se sentir mal com isso também. Não pior do que eu, é claro. Eu me sentia... Traída. Mais do que isso, violada, de certa forma – Eu mandei você parar e você não me respeitou!
- Me desculpe por isso. – ele pediu, sério – Mas eu não vi outro meio de conseguir te trazer para cá e te imobilizar por tempo o suficiente. Eu não queria precisar te machucar, mas você não me deixou nenhuma outra escolha. Porém acho que de certa forma é até bom saber que você teve medo. Significa que seus instintos de sobrevivência ainda não cederam às suas tendências autodestrutivas. – acrescentou , me lançando um olhar duro – E na verdade, pensando bem, eu não deveria estar me desculpando por nada. Se levarmos em conta o quão vadia você anda sendo comigo desde que àquela tempestade, acho que fica bem claro que você merecia muito mais. Eu estou sendo até gentil. Qualquer outro vampiro no meu lugar já teria acabado com você faz tempo.
- O que é isso, ? – eu perguntei, de súbito mudando de estratégia. O que ele havia dito fizera uma curiosidade definitivamente mórbida se apossar de mim. Eu podia ouvir meu tom de voz soando baixo, perigoso e intrigado – Por que você está me dizendo isso? Por que eu estou aqui? Por que eu estou presa aqui?

Eu estava começando a desconfiar do que aquilo tudo se tratava.

- Nada de mais. Só quero ter uma conversa com você. – ele respondeu, e eu esperei que ele acrescentasse alguma coisa. Quando isso não aconteceu, eu reagi da forma mais inesperada possível.

Comecei a rir.

- Espera... – eu disse, entre risadas meio maníacas. Eu estava nervosa e somada a isso estava a completa bizarrice daquela situação – Você está me dizendo que me atraiu para cá, me fez desmaiar e me acorrentou a sua cama porque quer conversar? – eu ri de novo. Céus, aquilo era ridículo – Graham Bell perdeu tempo inventando o telefone. Seqüestrar pessoas para conversar realmente é um método muito mais rápido!
- Oh, sim, porque você atenderia um telefonema meu. Porque você pararia para conversar comigo. No momento em que eu começasse a abordar o assunto, você sairia correndo. Está fora da sua lista de "assuntos permitidos". – ele disse a última parte de forma tão amarga que eu não pude evitar me encolher um pouco.
- , se você tirou uma quantidade absurda de sangue meu apenas para falar o que eu acho que você quer falar, eu... Espera. – eu interrompi a mim mesma, pela primeira vez tendo aquele pensamento – Você tirou uma quantidade absurda de sangue de mim. Como eu estou me sentindo bem?
- Você... Tá sentindo algum gosto diferente na boca? – ele perguntou, me encarando um pouco apreensivo.
- Estou. Meio metálico e... – ok, espera um pouco, metálico?

Oh, droga.

- Não. – foi só o que eu consegui dizer, quando a possibilidade se fez presente na minha mente.
- Você preferia que eu te levasse para um hospital?
- Você me fez beber SANGUE? – eu disse, respondendo a pergunta dele com outra. Eu senti meu sangue gelar. Oh, não. Eu não podia acreditar que havia bebido sangue humano. Tive vontade de vomitar, de colocar aquilo para fora de mim. A simples noção de ter bebido sangue me fazia sentir suja, como um vampiro. E em pensar que por um momento eu realmente havia pensado que não dava para ter mais raiva de .
- Não fique tão horrorizada. – disse ele, revirando os olhos – Você é meio vampiresa. Cresça e aceite o fato. Eu nem precisei te forçar a engolir, você tomou por conta própria. E nem tente fingir que não gosta do sabor. Me diga, caçadora, quantas vezes você já se flagrou lambendo algum de seus ferimentos?
- Por quê? – eu perguntei, decidida a driblar a pergunta constrangedora – Tinham outras maneiras. Você não precisava ter me mordido. Uma pancada na cabeça enquanto eu estava distraída me deixaria inconsciente. Por que me morder? Por que me fazer beber sangue?
Houve uma pausa então, na qual pareceu decidir como explicar. Por fim, ele me encarou sério antes de responder.
- Porque no dia que encontramos aquela casa abandonada, eu jurei que te faria encarar o pior sobre você mesma.
Aquilo definitivamente não era o que eu estava esperando ouvir. Encarar o pior sobre mim? Eu não entendia. Por que queria uma coisa dessas? Eu tinha consciência de que havia lados meus que eu preferia ignorar. Mas a razão disso era simplesmente autoproteção. Se eu parasse para fazer alguma espécie de meditação para obter autoconhecimento, sabia que acabaria abominando a mim mesma.
- O que... Como... – eu tentei perguntar, sem muito sucesso. Sacudindo a cabeça, eu me decidi pela questão mais importante – Por quê?
- Porque eu sou um imbecil. – ele respondeu, olhando para o próprio colo – A Tara uma vez me disse que eu não sou aquele que você ama e sim aquele do qual você precisa. – eu precisei me controlar para não perguntar desde quando Tara sabia tanta coisa. Mas podia supor que se ela sempre parecia tão perceptiva comigo, o mesmo devia acontecer quando estava com – E ela estava certa. Você precisa de mim, . Precisa que eu fique do seu lado... Precisa que eu cuide de você, mas ao mesmo tempo precisa que eu seja aquele que arranque seus mecanismos de fuga. Minha intenção quando tudo isso começou foi ser a primeira pessoa na sua vida que não fica sentada observando você se destruir e ao mesmo tempo fingindo que não há nada de errado. Eu me recusei e assistir você fugindo de mim, de você mesma, da sua vida. Você construiu tantas armaduras a sua volta que às vezes fica difícil enxergar a garota por baixo delas. Mas eu consigo. E é por isso que resolvi que te forçar a acordar. As barreiras que você construiu são resistentes demais para que alguém as quebre... É algo que só você pode fazer. Mas para isso você tem que encará-las... E encarar os motivos para as ter construído. Se eu conseguisse te levar a fazer isso, então talvez... Talvez essas barreiras desabassem e os obstáculos desaparecessem. Talvez você deixasse para trás essa existência na qual é intocável e permitisse que eu te alcançasse. Mas o problema é que cada dia fica mais difícil continuar. – ele fechou os olhos e respirou fundo – Cada dia fica mais difícil ficar perto de você. Está chegando a um ponto que eu não consigo mais suportar ser continuamente humilhado. Eu tô no meu limite, .
Dizer que o que eu senti naquele momento foi como um soco no estômago não seria uma comparação muito acurada. Não, o que eu senti foi mais parecido com um atropelamento. Como se meu corpo tivesse sido golpeado por algo pesado.

Eu tô no meu limite, .

Eu era tão desprezível que nem mesmo um vampiro me agüentava mais. Até ele eu havia conseguido afastar. Mas eu já devia saber, é claro. Eu ainda não era capaz de acreditar nos sentimentos dele, mas... já passara tempo demais convencido de que me amava. Mais cedo ou mais tarde ele acabaria percebendo que eu não valia a pena e desistiria. Assim como desistiu.
- Eu te vi com Aramis ontem. – ele acrescentou, em voz baixa, e aquilo me despertou da minha onda de auto-aversão.
- E? – eu perguntei, sem emoção. Eu me sentia fria. Já não me ligava a mínima para o que havia ou não escutado.
- E aquela foi a gota d'água. – respondeu ele – A diferença no tratamento que você deu a ele e no que você reservou para mim. Por isso precisei te trazer aqui. Tenho coisas entaladas na garganta que preciso que você escute. Quero esclarecer essa situação de uma vez por todas.

Como sempre, sabia as palavras mágicas para me tirar do meu estado de frieza e me lançar ao surto de raiva.

Como em um estalo, eu senti meu corpo inteiro "despertar" do marasmo que a repugnância comigo mesma havia criado e entrar em estado de alerta. Oh, agora eu tinha certeza do que ele queria com aquilo tudo. queria desrespeitar as regras que eu havia imposto naquela manhã após a tempestade.
- Ah, é? – eu respondi, sorrindo sarcástica para ele – Problema seu. Eu não quero escutar o que você tem pra dizer, . Da última vez que eu estive nesse lugar eu te disse que nunca mais deixaria você repetir aquilo.
- Eu sei disso. – ele respondeu e, pela expressão no rosto dele, eu pude perceber que não era a única me lembrando daquela manhã – Por isso você está presa aí agora. Você vai escutar o que eu tenho pra dizer, e se meu único meio de conseguir isso é te prendendo aqui, vou aproveitar ao máximo a oportunidade.
Senti uma nova onda de pânico me invadindo. Oh, não. Eu sabia o que ele ia dizer, mas não tinha para onde correr. E eu não podia... Não suportaria ouvir aquilo de novo.
, aparentemente percebendo meu desespero, se aproximou de mim, sentando-se agora bem próximo e inclinando o rosto para bem perto do meu, enquanto olhava nos meus olhos com uma intensidade que eu já conhecia. Eu tentei ser forte e fiz o máximo para sustentar aquele olhar.
- Eu te amo. – ele disse, devagar.
Não foi uma declaração emocionada. Foi a simples verbalização de um fato, mas o efeito sobre mim foi o mesmo. Meus olhos se fecharam e eu virei o rosto na direção oposta, sem conseguir encarar aquilo. Coloquei minha melhor expressão de nojo em meu rosto, na vã esperança de que aquilo fosse o fazer parar.
- Olha pra mim. – ele continuou, em tom de ordem, e segurou meu queixo de forma a me forçar a virar meu rosto em direção ao dele novamente. Eu abri os olhos e a raiva que os meus continham não era nada se comparada com a dele – Eu. Te. Amo. Já tá mais do que na hora de você parar de fugir disso. – ele parecia desesperado e eu comecei a ficar com medo – Não é como se fosse escolha minha. Não é como se eu já não tivesse tentado arrancar esse sentimento de dentro de mim inúmeras vezes. Eu gosto disso tanto quanto você, caçadora. Se eu pudesse escolher, te apagaria da minha mente de uma vez por todas, mas não posso. Eu estou me afundando em você, . Chegando tão fundo que já não consigo mais ver a superfície. Isso é doentio? É. Eu não nego. Você é tudo no que eu penso. Está em todos os meus sonhos, em todos os meus pesadelos... E não dá mais pra suportar o que você faz comigo. Suas ofensas só aumentam a minha raiva, mas não atingem o que eu sinto por você. Às vezes eu acho que nada conseguiria atingir. E isso é perigoso, . Nós, vampiros, não somos seres muito simples. Amar e ter raiva de alguém com a mesma intensidade pode ser fatal. Se as coisas não melhorarem, eu temo o que pode acontecer. Meu amor por você pode acaba