Abstinência


Última atualização: 31/10/2020

Capítulo 1 — Acorde, Bela Adormecida.

Após a explosão do celeiro, a coisa mais inteligente que poderia ter feito era usar o que lhe restou de força para se mandar da cidade. Não sabia muito bem para onde ir, mas imaginou coordenadas aleatórias em sua mente e deixou que seu poder fizesse o resto. Mal sentiu seu corpo retornar à forma original e apagou, sem ao menos conseguir enxergar onde estava.


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estava preocupada com o estado do rapaz que encontrou na beira de sua piscina dois dias atrás.
Não poderia levá-lo ao hospital sem ter de responder perguntas para as quais não obtinha resposta e sua única opção era usar os velhos livros de sua avó e torcer para que o rapaz acordasse uma hora ou outra.
Levá-lo para dentro não foi uma tarefa difícil, limpar e medicá-lo também não. Mas precisava que ele acordasse para responder suas perguntas.
O rapaz era bonito mesmo com todos os hematomas que havia em seu rosto e corpo. se perguntava como ele havia parado em seu quintal e por que estava naquele estado. Além de começar a se questionar sobre a construção de um muro nas imediações do terreno.


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Exatamente seis dias após ter encontrado o rapaz, ele acordou.
Ela estava entrando no quarto com a tigela de sopa com a qual ela o alimentaria quando percebeu a cama vazia, e seu coração acelerou. Agora teria suas respostas ou seria morta pelo estranho do qual passou os últimos dias cuidando.
— Quem é você? — Ouviu uma voz masculina perto da janela e seu olhar identificou seu paciente.
, e você? — Ela perguntou, tentando ignorar o medo e colocando a tigela na mesa de cabeceira ao lado da cama.
— Por que está cuidando de mim?
— Bom, você apareceu todo quebrado no meu quintal, eu não podia simplesmente te deixar morrer lá. — Disse e viu ele se aproximar. Quando finalmente olhou em seus olhos, percebeu que acordados, o azul parecia reluzir uma luz própria. — Pode me dizer seu nome ou alguém que eu possa entrar em contato?
. — Ele respondeu se sentando na cama e pegando a tigela. — Obrigado. E não há ninguém para contatar.
— Certo, . Você se lembra como veio parar no meu quintal? — Perguntou direta e viu que ele relutou antes de responder.
— Não.
— Bom, neste caso devemos procurar a polícia. Você estava muito machucado quando lhe encontrei e dormiu por quase uma semana.
Os olhos de se encheram de alerta enquanto a colher parou no meio do caminho até sua boca.
— Não podemos contatar a polícia.
— E por que não? Você é um criminoso fugitivo? Se for, tudo bem, eu não conto nada para ninguém, só vá embora. Não quero problemas.
— Eu não estou fugindo da polícia. — Ele constatou, sincero. — Mas há pessoas que podem estar atrás de mim. Eu não posso ser encontrado, não agora.
— Uma gangue?
— Eu chamaria de seita.
— Você está fugindo de bruxas? — A mulher perguntou com humor.
— Algo do tipo.
— Ok, então, . Você provavelmente não está em condições de sair correndo por aí ainda, e eu fui criada para não largar pessoas doentes por aí. Então sinta-se convidado a ficar até estar melhor. Mas por favor, não quero problemas com suas bruxinhas.
— Obrigada, .
— Se precisar de algo, eu estarei no andar de baixo. Tome um banho. Enquanto você estava apagado eu comprei algumas roupas que provavelmente vão te servir, estão naquelas sacolas ali. — Apontou. — E não ache que vai se safar de me explicar como chegou aqui. — Foi a última coisa que disse antes de sair do quarto.


A casa da família era grande e solitária. Desde a morte da avó, que havia criado a garota, parecia que o número de cômodos havia duplicado e o vazio também.
morava ali sozinha. Não precisava se preocupar com dinheiro, pois a herança de sua família poderia pagar por três vidas inteiras. Era ela quem cuidava do imóvel e do terreno meticulosamente, pois nunca se perdoaria se a mansão perdesse seu brilho algum dia.
As terras da família, pelo contrário, eram ocupadas por plantio e duas famílias, que vinham cumprindo o mesmo papel por gerações. Os integrantes das famílias Moore e Trimble eram quase uma extensão da família , que agora era constituída apenas pela jovem . Moore e Trimble ocupavam metade das terras com agricultura familiar e a outra metade era destinada ao plantio de flores. Era dali que vinha o sustento daquelas famílias, e somente com flores e alguns vegetais vendidos para o abastecimento da cidade cinco crianças haviam conseguido se formar na faculdade. Mas mesmo estes que foram para fora estudar voltaram para a cidade, e por isso uma pequena vila havia se instituído nas terras um pouco afastadas da cidade.
Ao contrário do que se espera ao ouvir sobre uma casa gigantesca ocupada por apenas uma pessoa, a mansão não esconde grandes segredos ou alimenta rumores pela cidade.
Apenas guarda uma jovem solitária que os moradores de Sandim definiam como dócil e querida. Além de inteligente, afinal era parte do conselho legislativo da cidade.


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Tempos depois, estava preparando um bolo para saciar sua vontade de doce quando entrou na cozinha. Antes mesmo de ele atravessar as portas do cômodo, a mulher conseguiu sentir sua presença.
— Essa casa não é grande demais para não ter ninguém além de você? — Ele perguntou, fazendo-a parar de misturar a massa que tinha em mãos e encará-lo.
— Não é muito educado da sua parte bisbilhotar a minha casa. — Ela apontou, vendo-o adquirir uma pose de quem pede desculpas. — Mas a casa é grande porque a família também era.
— E onde estão?
— Por que não responde a minha pergunta de mais cedo, e depois eu decido o que lhe contar.
— Porque você não acreditaria no que eu tenho para dizer.
— Tente.
— Eu provavelmente vou me arrepender disso depois. — suspirou e se sentou num banquinho.


Capítulo 2 — Sua falta de fé é perturbadora.

— Existe uma história sobre a cidade de Ipswich — ele começou. — Durante a época da caça às bruxas, cinco famílias fizeram um pacto de proteção. Assim continuariam vivendo suas vidas sem correrem o risco de serem perseguidas.
— O que uma lenda sobre bruxas tem a ver com você parando no meu quintal quase morto?
— Eu sou filho de uma dessas famílias — ele falou, fazendo a garota rir. — Eu estou falando sério.
— Bruxas não existem, . Era só uma desculpa da igreja católica para perseguir aqueles que iam contra ela.
— Bruxas existem, .
— Então me prove.

realmente tentou fazer algo, mínimo que fosse para provar que sua teoria era verdadeira. Porém a semana de descanso ainda não fora suficiente para se recuperar e sua força ainda era escassa.

— Ironicamente, agora não posso lhe provar. Ainda não me recuperei.
— Então, para mim, você é só um maluco e está usando o mês de outubro — ela respondeu simples e abriu o forno, colocando o bolo lá.
— Se me permitir ficar por tempo suficiente, posso lhe convencer de que estou falando a verdade.
— Por enquanto, me conte outras coisas. Por que veio parar aqui? E melhor, como?
— O poder é vicioso, . E eu me deixei seduzir por ele.
— Isso não responde nenhuma das minhas perguntas, .
— Eu não era um cara bom. Eu queria mais, precisava de mais. Eu machuquei pessoas para chegar aonde queria. E aí, quando eu estava quase lá, fui parado.
— Você então é um bruxo mau? — ela perguntou com um sorriso maroto emplastrado nos lábios.
— Eu fui ambicioso.
— Você está sendo otimista, não está? — ela perguntou, mas não esperou uma resposta antes de continuar. — Você tem cara de quem não presta, . De quem se faz de bonzinho, mas de santo não tem nada. Reconheço esse tipo à distância.
— Algum ex-namorado? — ele perguntou com um tom malicioso.
— Não, não tenho ex-namorado — ela respondeu rápido.
— E de onde vem tanta experiência em julgamento de caráter, ?
— Pare de me chamar assim — pediu. — E a minha vó sempre me alertou sobre pessoas como você.
— Então a sua avó era uma mulher muito esperta.
— Uma das pessoas mais espertas que eu já conheci. — mal terminou de falar e tomou um susto com a campainha. — , preciso que volte para o seu quarto e finja que não existe, ou vamos ter problemas.
— Por… Certo, eu sou um cara estranho na sua casa. Faz sentido. — Eles não se prolongaram e seguiram para a parte da frente da casa, onde subiu para o andar de cima e esperou os passos cessarem para abrir a porta.
, você está sumida. Vim ver se você está bem. — Era Matthieu Trimble, seu amigo de infância.
— Ah sim, é que estive… Estudando algumas leis. Você acredita que nossa cidade criminaliza o uso de lingeries sensuais na noite de núpcias?
— Por que você estava estudando esse tipo de lei? Está pensando em se casar com alguém?
— É meu trabalho como conselheira, aconselhar. E o nosso código penal tem muitos problemas.
— Você está cozinhando? — Matt perguntou enquanto entrava na casa.
— Sim! Estou assando um bolo.
— Visitas?
— Só me deu vontade.
— Mãe perguntou de você. Faz mais de uma semana que não dá as caras. Pediu pra eu vir ver se você tava ao menos viva.
— Diga aos seus pais que estou bem e viva! Só muito ocupada e também ajeitando as coisas para a noite das bruxas.
— Você não devia se explorar tanto, sabe disso, não é?
— Eu sei que eles não me queriam lá, Matt. Então vou me fazer útil.
— E vai discutir uma lei sobre lingeries sexys com aquele bando de homens velhos?
— Não. Se eu fizer isso, com certeza serei expulsa do conselho.
— Então por que estava lendo sobre essa lei?
— Eu estava lendo sobre todas, ela só estava lá.
— É bolo de quê?
— Limão.
— Ah, então nem vou me oferecer para ficar e lhe fazer companhia. Eu odeio bolo de limão.
— Não tenho culpa pelo seu mau gosto, amigo.
— Então, quando vai aparecer lá?
— Em breve? Não sei, quando eu me sentir mais confortável em largar os estudos. Ou no dia das bruxas, o que vier primeiro.
— Você está esquisita, . — Ele se aproximou da amiga e segurou seu rosto com uma mão, fazendo-a olhá-lo diretamente. — Tem algo te incomodando?
— Tudo isso que eu te falei me incomoda. E agora você está me incomodando com toda essa proximidade. Isso é desrespeitoso — ela disse, afastando o amigo de si.
— Você deveria sair mais — ele retrucou.
— Não vamos discutir sobre meus princípios e educação de novo, não é?
— Não, porque eu já estou de saída. Mas você realmente precisa abrir essa cabeça e esse coração. Você parece uma senhora no corpo de uma garota.
— Você sempre diz isso, querido. Mas eu já lhe expliquei que não existe homem para mim em Sandim.
— Até depois, . — Ele tentou se aproximar para dar um abraço na garota, mas ela lhe afastou.
— Até depois, Matt.

A porta mal havia sido fechada e apareceu na sala.

— Você faz jogo duro com esse cara.
— O quê?
— Juro que eu parecia estar ouvindo uma senhora de 80 anos — ele disse, fazendo-a encará-lo indignada.
— Eu não tenho culpa, fui educada assim.
— Você foi criada só pela sua avó? — perguntou curioso e viu ela afirmar com a cabeça enquanto caminhava até a cozinha. — E os seus pais?
— Eles gostavam de fazer trabalhos voluntários pelo mundo afora com a igreja. Acabaram contraindo uma doença no leste asiático e faleceram quando eu ainda era muito jovem.
— E a escola?
— Fui educada em casa.
— Você só sai de casa para ir à igreja? O tal Matt também é de lá?
— Eu vou à cidade às vezes e à Vila quase todos os dias.
— Então estamos longe da cidade?
— Alguns bons quilômetros.
— E você gosta de morar aqui?
— Sim! Essa casa é da minha família desde muito antes da minha avó nascer.
— Mesmo estando longe de todos?
— Eu tenho privacidade suficiente para manter um cara desconhecido em casa sem ficar mal falada. — Ela deu de ombros. — Cidade pequena tem muita gente fofoqueira. Só apareço por lá quando precisam de mim.
— E quando isso acontece?
— Quando reúnem o conselho para alguma reunião.
— Você tem um cargo político?
— Todas as famílias poderosas de Sandim têm um membro para representar seus interesses políticos.
— Quantos anos você tem exatamente?
— Dezessete e três semanas.
— Como eles permitem isso?
— Você está agora numa cidade cheia de peculiaridades.
— Não posso reclamar, afinal a história que eu tenho para contar é muito mais esquisita.
— Conte-me sua história, .
— Eu cresci fora de Ipswich, não sabia muito sobre mim, sabe? Fui adotado pelos quando ainda era muito pequeno e eles também não sabiam muito sobre mim.
"Minha pré-adolescência foi muito incomum. Eu descobri que tinha poderes e eles eram tão incríveis e sedutores.”
— Esse papo de bruxaria de novo?
— É a verdade.
— Você sabe que eu não vou acreditar nisso, não é?
— Vem aqui — ele pediu esticando a mão.
— Não?
— Prometo que não vou ser desrespeitoso que nem o seu amigo.
— Pra quê?
— Eu vou te mostrar que estou falando a verdade.
— Mostra de longe.
, por favor…
— Eu não. — Cruzou os braços e se acanhou mais para o balcão.

se levantou do banco e foi até a garota escorada no balcão. Ela revirou os olhos, mas esticou a mão na direção do rapaz, que a pegou sutilmente.

— Eu não consigo fazer nada muito elaborado agora por causa das minhas encrencas — ele explicou enquanto a palma da mão de virada para cima se enchia de água.
— O que é isso?
— Bruxaria? — ele respondeu divertido e ela não conseguia desviar os olhos de sua mão agora cheia de água.
— Isso é loucura — ela constatou.
— Eu não discordo de você — ele falou, soltando a mão da garota, deixando-a sentir agora somente o gelado da água em sua palma enquanto escorria para o chão.
— Mas se bruxos existem…
— Não vamos pensar nisso agora, ok? — ele pediu. — Eu posso te explicar tudo o que eu sei, mas agora o seu bolo está pronto.
— Você nasceu com isso? Ou aprendeu? — ela perguntou, secando a mão no avental que usava.
— Quando fazemos 13 anos, temos uma amostra de poder. Ela dura até os 17. Quando fazemos 18, acontece a ascensão, quando recebemos nossos poderes por completo — explicou enquanto via a garota puxar a forma e enfiar um garfo no bolo atestando seu cozimento.
— E isso tem alguma contraindicação?
— Quanto mais a gente usa, mais rápido envelhecemos.
— E quantos anos você tem?
— 18.
— Você parece ter mais que isso. O que você andou fazendo por aí? — perguntou, colocando o bolo no balcão.
— Eu não sou bonzinho, . Fiz muitas coisas ruins.
— Você vai continuar fazendo? — Ela parou o que estava fazendo e seu olhar encontrou o de .
— Sinceramente, eu não sei. Meus objetivos falharam, então eu não sei o que vou fazer de agora em diante.
— Você já se formou?
— Não.
— Esse deveria ser seu objetivo, então.
— Eu não posso simplesmente ir atrás da minha antiga vida agora. Preciso encontrar um lugar para começar do zero.
— Bom, Sandim é um lugar maluco, mas é um bom lugar para se começar do zero. E se você prometer que vai ser bonzinho, eu até posso te ajudar.
— O quão poderosa você é aqui, ? — ele perguntou enquanto ela colocava um pedaço de bolo na sua frente.
— Espero que goste de bolo de limão, .
— Você pode me responder?
— Não sei se é prudente dar tantas informações sobre mim para um bruxo desconhecido.
— Eu gosto de bolo de limão — ele falou por fim e ela sorriu.
— Para alguém que passou seis dias sem mastigar, qualquer coisa deve servir.
— É você quem cozinha?
— E limpo, arrumo, lavo e passo.
— Como você mantém uma casa deste tamanho sem um trabalho?
— Minha profissão é herdeira — ela respondeu e riu em seguida. — As terras da minha família são muito férteis. Vendemos flores.
— Você tem um belo jardim, pelo que pude ver.
— Você pode ir lá fora vê-lo de perto se quiser. Mas, se ver algum carro, se esconda.
— O que você acha que as pessoas fariam se soubessem que eu estou aqui?
— Algumas pensariam que você é um interesseiro, outros já começariam os preparativos para o casamento.
— Cidade pequena, não é?
— Com o tempo a gente acostuma. De qualquer forma, eu vou ter de arrumar uma história pra você, caso resolva ficar.


Continua...



Nota da autora: Olá, jovens!
Atualização de Halloween na história que começa perto do Halloween veio muito a calhar!
Quase não saía, na verdade, eu ia estar bem atrasada, mas milagres acontecem e aqui estou!
Espero que estejam gostando.
BRB.



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