Última atualização: 25/01/2020

Capítulo 1

“I'd walk through fire for you
Just let me adore you
Like it's the only thing I'll ever do
"
harry styles – adore you

Ele.

Estive por um bom tempo tentando me recordar da última vez em que me senti amado. É difícil pensar até porque há uma linha tênue entre amar e ser amado.
Uma pergunta simples:
“Quando foi a última vez que você se sentiu amado?”
Uma aula de filosofia com um palestrante idoso me pareceu bem entediante, eu passei 50 minutos inteiros pensando que eu só queria encostar no muro da universidade e fumar um cigarro, porém os últimos dez passei pensando no quanto eu possuo uma vida miseravelmente sem graça.
Era pra eu estar satisfeito no momento. Estou de fato encostado na parede fumando, mas diferente do usual, me sinto perturbado.
O filho da puta é bom no que faz. E só de pensar que achei graça na hora que ele falou pra cambada de pessoas “Eu estou aqui para ajudar vocês a serem seres pensantes”.
Pois é meu velho. Você conseguiu.
Soltei a fumaça da minha boca para cima, junto a um grande suspiro. Tentei observar o sol entre uma árvore, mas estava impossível… o calor que fazia nessa cidade estava pior que o usual. Tirei meus óculos de sol da minha cabeça e o coloquei nos meus olhos na tentativa de fazer meu olho arder menos.
- Obrigada Vô… Fica com Deus e até amanhã… tchau! - A menina descia de um taxi branco sorridente e atravessava a rua em direção a universidade. Sem discrição a observei.
Ela usava um vestido florido curto (até demais) e um tênis branco (também branco demais) e seu cabelo era castanho escuro e curto, na altura do pescoço. A menina era pequena e tinha um corpo diferente do que eu estava acostumado a ver nesse lugar cheio de meninas ricas e magricelas.
Não que eu esteja reclamando das ricas e magricelas, longe de mim cuspir no prato que comi.
Mas eu sempre me atraí por novidades.
A olhei por cima dos óculos enquanto dava uma última tragada. Ela pareceu perceber e me olhou rapidamente, depois logo seguiu para dentro da universidade.

_______

Ela.

Em uma escala infinita, desde pequena, eu daria dez para a minha autoestima. Quando alguém me observa, sempre paro pra refletir se minha calcinha não está presa no vestido, se minhas pernas não estão depiladas ou se há batom no meu dente. E mesmo que eu não esteja com nenhuma dessas coisas, ainda acho que há algo de errado comigo.
A questão da minha autoestima é: Por mais que as pessoas me digam que eu sou bonita e agradável, eu não possuo provas concretas de que isso é real.
Nunca fui popular na escola, nunca namorei, nunca fui cobiçada e nunca chamei a atenção por onde passava. Além do mais, o tanto de homens ou moleques (como você preferir) que me trocaram por mulheres altas, magras e bundudas me faz pensar de que não, eu não sou bonita.
Eu devo ser uma boa… amiga.
Mas já foi a época de eu chorar e me preocupar com isso. Depois que comecei a faculdade comecei a passar mais tempo me preocupando com o que eu quero ser do que com o que as pessoas pensam que sou.
Profundo, não é?
A questão é que hoje eu decidi vir pra faculdade em um sábado, porque tenho que terminar um trabalho que envolve costura. E eu ainda não achei uma máquina que roubasse meu coração, portanto tive que vir na segunda unidade da minha universidade, que não fica muito longe da minha unidade, para usar o atelier.
E me chamou atenção que na porta havia um jovem fumante, na faixa dos seus vinte e três anos. Ele era muito bonito, de fato. E por mais que tenha me observado (ou arrancado um pedaço bem grande), ele era muita areia pro caminhão que sou com meus 1,55 metros de altura.
Mas será que minha calcinha ‘tá presa?
Que seja, tenho trabalho a fazer.
- Bom dia – Falei ao segurança de dois metros que ficava em frente as catracas.
- Bom dia! - Ele me respondeu educado.
- O senhor sabe me dizer onde fica o atelier daqui? - Eu o pergunto enquanto passava na catraca
- Terceiro andar do lado direito. Do lado da sala de arquitetura. - Sorrio como agradecimento e ele continua – Pode pegar o elevador aqui da frente ou ir pelas escadas lá atrás.
- Obrigada!
Depois de pegar o elevador pacientemente até meu destino, cheguei ao aconchegante atelier que tinha um cheiro de tecido e madeira. Me lembrei da época em que eu tinha uns treze anos e amava sentir o cheiro de livros. Hoje é a mesma coisa, mas com tecidos e lojas de departamento.
Estiquei o tecido que levei na grande mesa de madeira e retirei todos os moldes da sacola. Eu teria que fazer um vestido de ceda com manga ¾, tamanho plus size. Nos mínimos detalhes cortei o tecido e ansiosa para a melhor parte de se fazer moda, coloquei meus airpods no ouvido, sentei-me na cadeira em frente à máquina, e comecei a unir os tecidos.

_______

Ele.

Terminei meu cigarro e parti depressa para dentro da universidade. Observei os fundos, onde havia umas árvores e uns bancos e não encontrei nada. Olhei para as catracas e vi Paul me olhando com um sorriso sacana no rosto.
- Mais uma ? - disse o segurança rindo e negando com a cabeça – A menina me pareceu muito educada… tenha dó e poupe-a dos seus rolos – continuou o homem.
- Credo. Desse jeito parece que eu fico com as meninas e as jogo na sarjeta. Só quero conhecer ela melhor. - Eu respondi me encostando na catraca enquanto cruzava os braços.
- Não disse isso. A única coisa é que você já ficou com metade dessa universidade, duvido que ela vai cair no seu papo – Falou o homem achando graça.
- Não custa tentar – Falei rindo enquanto tirava meus óculos de sol do rosto – Pelo seu papo, creio eu que o senhor sabe pra onde ela foi – Continuei enquanto erguia as minhas sobrancelhas duas vezes sorridente.
Ele apenas riu abafado e negou com a cabeça de novo.
- Atelier. Do lado da s... - Nem esperei e sai andando em direção as escadas.
- Já sei. Te devo uma Paul! - Falei alto pra ele ouvir.
- Espera! - Paul disse e eu parei e olhei para trás.
- O que?
- Não aborreça a menina!


Capítulo 2

Ela.

Quando entrei na faculdade, sempre imaginei que eu seria um caos em costura, pois já havia tentado costurar inúmeras vezes antes e sempre acabava estragando mil fronhas de travesseiro, que eram minhas cobaias quando se tratava de máquinas de costura. Contudo, depois que comecei a ter aulas, descobri uma paixão enorme… costurar enquanto ouvia Billie Eilish se tornou uma terapia.
Estava terminando de costurar a jaqueta quando meu cabelo caiu na minha cara. Quase me machuquei na agulha.
- Cuidado, gatinha! - ouvi uma voz e pulei da cadeira derrubando a linha e meu elástico de cabelo. - Vai acabar se machucando aí – o homem que estava na porta da faculdade estava encostado no batente com os braços cruzados me olhando.
Fiquei parada com cara de tacho achando o moço a pessoa mais aleatória do mundo. Ou sei lá, ele estava me cantando com esse “gatinha” e eu só não estou acostumada. Ele se aproximou e encostou do lado da máquina. Percebendo que eu estava sem graça, passou a mão cheia de anéis no cabelo e olhou para mim.
- Desculpa te observar, não quis parecer uma maníaco – Ele sorriu bonito. (bem bonito por sinal)
- Não tem problema. Ver as pessoas costurando também me atrai – eu falei tentando brincar e pareceu que funcionou. Ele então riu fraco..
- Confesso que vim na intenção de te cantar. Mas quando te vi aqui costurando, acabei distraído. - Ele disse sincero, o que me deixou apavorada.
Craque como sou, decidi mudar de assunto.
- O que te fez querer observar eu costurando? - Perguntei curiosa.
- Por mais clichê que isso pareça… - ele começou e eu terminei adivinhando.
- Sua avó? - falei sorrindo
- Touché – ele começou a rir – Mas sendo sincero, ver você costurar desse jeito me lembrou das tardes em que eu passava sentado do lado dela desenhando, enquanto ela costurava uns pijamas pra uma empresa que trabalhava. - Ele disse pensativo.
- Você morava com ela? - eu perguntei apoiando o cotovelo na mesa e segurando a cabeça com a mão, numa tentativa de mostrar interesse no assunto (que de fato me interessava) e de descansar as costas.
- Morava. Mas quando ela morreu eu tive que ir pra casa do meu pai – Ele me pareceu não aborrecido, mas indiferente. Decidi então, não tocar no assunto.
Um silêncio apareceu no ambiente e eu acabei me levantado da cadeira em frente a máquina. Me pus em frente dele e falei:
- Então você disse que desenhava enquanto sua avó costurava… Posso adivinhar sua faculdade?
Ele riu leve e disse:
- Pode.
- Minha intuição me diz arquitetura.
- Um ponto pra você. - Ele me falou sorrindo.
- Bom, então já que você veio aqui, se infiltrou na minha sala e foi bem aberto ao falar suas intenções comigo. Farei o mesmo. - Eu disse corajosa (aliás não sei de onde me veio coragem).
- Pode falar então, mas já vou avisando que eu não sou um homem fácil – Ele falou brincando
- Se você faz arquitetura, suponho que desenhe bem. Visto que desenhava quando pequeno com a sua vó. - Desencostei da mesa e peguei a jaqueta, lhe mostrando.
- E então? - Ele pareceu ainda não entender e eu continuei.
- E então que eu preciso bordar essa peça aqui à mão. E eu não sei o que faço.
Eu esperei ele já ter entendido o que eu queria, mas ele ainda pareceu em dúvida.
- Será que você poderia desenhar algo num papel, qualquer coisa que te inspire, e me dar para eu bordar?
Ele finalmente entendeu e deu um riso nasalado.
- Não me importaria de fazer. Até porque é uma jaqueta bem bonita… - Ele falou e em seguida deu um passo na minha direção ficando perto – Mas não acha que antes de me pedir favores, precisa primeiro me chamar pra sair?

_______

Ele.

Eu não sou de clichês. Definitivamente não.
Não dizendo que não gosto de Shakeaspere. O cara era massa demais.
Mas digo que, quando vejo algo clichê, admiro, mas sempre aceitei a realidade.
Acontece que a vida não é definitivamente um clichê.
Digamos que o planeta terra foge do romantismo e vive pelo realismo.
O realismo mais foda possível.
Pois pense. Eu posso agora, largar esse pincel das minhas mãos, parar de fazer minha pintura para aquela menina, ligar para qualquer pessoa no meu celular, sair para tomar whisky e ficar chapado.
Além de beijar muitas bocas.
Modéstia à parte eu sou muito lindo.
Contudo, estou aqui. Pintando com aquarela no estúdio da minha faculdade um quadro pra , vulgo a menina que faz moda.
Não ligo de verdade de fazer esse favor pra ela, até porque está claro minhas segundas intenções com ela e a mesma me pareceu bem sem rumo em relação a criatividade.
Combinamos de sair depois da apresentação do trabalho dela, como uma troca de favores. Ela com a turma de amigas dela e eu com os meus amigos. Mesmo ela tendo negado um date, fiquei satisfeito com a proposta.
- Não é proibido fumar aqui dentro, vizinho de sala? - Uma voz aparece atrás de mim.
Era ela. Toda de preto, com um casaco bem grande já que fazia frio lá fora e uma bota de salto, o que a fazia um pouco (repito. Um pouco) mais alta.
- Bom dia pra você também, parceira de estampas. - Eu disse deixando o pincel na mesa e continuando com o cigarro na mão – Você está incrivelmente estonteante hoje. – Eu dou um sorriso depois que dou uma tragada.
- Obrigada. E você está incrivelmente descoberto e relaxado para quem está dentro de uma faculdade. - Ela diz rindo enquanto tira o casaco e o coloca na cadeira.
- O que você achou? - Eu falei abrindo os braços enquanto olhava para o meu abdômen descoberto – Vantagens de ser filho do dono.
- Ah entendi. Explicado então o porquê de tantas tatuagens. - Ela não pareceu se importar com o fato de eu ser filho do dono e continuou – O dinheiro que você pagou em todas pagaria o meu aluguel por dois anos – Ela disse observando os rabiscos e rindo.- E aliás, gostei da borboleta. – Concluiu. Ela observando minha tatuagem no abdômen.
- Bom, pra sua tristeza, princesa… Meu melhor amigo é tatuador, então oitenta por cento dessas tatuagens foram de graça – Eu disse pegando o pincel de volta – E não imaginei que você teria essa imagem de mim – Eu falei botando a mão no coração fingindo tristeza.
- Que imagem? - ela perguntou preocupada enquanto pegava seus materiais da bolsa.
- De filhinho de papai que não tem onde gastar o dinheiro e então gasta fazendo uma tatuagem por semana.
- Eu nunca acharia isso – ela disse séria – Estava brincando, de verdade, e sou a prova viva de que pai rico não faz do filho um playboy.
- Estava brincando, – Eu disse voltando a pintar – Mas que história é essa de “prova viva”?
- Não me chama assim – Ela disse rindo e parando do meu lado observando a pintura.
- De ? - Eu repeti rindo fraco – Ah tenha um pouco mais de senso de humor. É um bom apelido – Eu disse dando de ombros e passando o pincel fino sujo de tinta no nariz dela. Ela revirou os olhos e limpou com a minha camiseta que estava na cadeira.
- Jogo sujo – eu falei rindo.
- Continuando o assunto – Ela voltou por meu lado e disse – Meu pai tem uma ótima condição financeira e eu decidi sair da barra de saia dele com dezoito e trabalhar pra pagar meu aluguel com a minha mãe.
- Oh, então você é uma menina independente? - Eu disse enquanto pintava.
- Bom, quase. Ele ainda paga minha faculdade porque sabe que eu não tenho condições. Mas se Deus quiser ano que vem eu já consigo pagar. - Ela falou enquanto pegava um pincel.
- Ei ei ei! Não toque na minha arte – Eu disse dando um tapa leve na mão dela, que já estava quase metendo o pincel no quadro.
- Eu só ia esfum…
- Não. Você opina e muda depois. Agora não pode mexer.
- Mas você acabou de começar o quadro . Só está fazendo o fundo ainda.
- O fundo também é importante – eu disse tirando o pincel da mão dela – E você nem sabe o que eu estou pintando.
- Não sei mesmo, o que é? - ela perguntou sentando na mesa.
- Você não confiou em mim pra pedir um favor? Então confie em mim pra fazer uma estampa. - Eu disse apagando o cigarro na parede e o jogando no lixo – Por que você não vai pra sala de costura fazer algo e quando eu terminar eu te chamo?
- Você está me expulsando? - Ela falou indignada.
- Estou. Vai lá.
- Vou, mas só porque tenho uns tecidos sobrando e estou louca pra fazer uma peça. - ela disse saindo com a bolsa na mão e deixando seu casaco na cadeira.

_______

Ela.

Eu gosto das coisas naturais. Gosto de conhecer alguém que nunca pensei que fosse conhecer, gosto de beijar aqueles que tenho sentimento e namorar quando puder dizer um eu te amo verdadeiro. Não gosto de pressa, nunca gostei.
Estou ciente das intenções dele comigo e por mais que o ache lindo de morrer e simpático, não sou fácil desse jeito. Contudo, tem sido tão natural conversar com ele... Depois que nos conhecemos eu peguei seu número e conversamos por telefone… foi quando fizemos um trato, ele faz a estampa no quadro, eu passo pro bordado e assim que eu apresentar o trabalho, nós saímos juntos… Mas como não confio em desconhecidos, disse que levaria minhas amigas.
Bom, enquanto o Picasso tatuado está na outra sala, decidi pegar um tecido guardado no meu armário e fazer alguma peça.
Falando em tatuagens…
Que corpo.
Tatuado, digo.

Continua...



Nota da autora: Sem nota.


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