Última atualização: 13/07/2021

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Capítulo 11 - Viagem

Perfect, do Ed Sheeran, tocava no rádio e cantarolava baixinho enquanto dirigia. Prometeu para Clara que daria boa noite pessoalmente para ela naquele dia e estava a caminho da casa de Damon para cumprir, após deixar em casa. Só de pensar nela, um sorriso bobo estampava seu rosto, já havia revivido o encontro em sua mente várias vezes e cada vez que se lembrava, parecia ainda melhor.

Não podia negar, sentia alguma coisa pela professora de história, embora ainda não soubesse o que era exatamente. Já tinha amado intensamente antes, e achava que ainda estava longe disso - se lembrava bem dos seus primeiros momentos com Luce e do quanto ele estava feliz na época -, mas o que havia acabado de acontecer era ainda melhor na opinião dele. Tinham tantas coisas em comum e se deram tão bem de primeira, que ele tinha de admitir que estava surpreso. tinha uma personalidade cativante e ele se sentia rendido, mal podia esperar por uma segunda vez, mas não queria parecer ansioso, embora tivesse deixado claro, antes de sair do carro, que tinha um bom pressentimento sobre eles e que aquele não seria um primeiro e último encontro. Se não era uma indireta de que deveriam sair de novo, então ele não sabia o que era.

Pensando em todas estas coisas, chegou ainda avoado na casa de Damon e o irmão percebeu quando o recebeu na porta. É claro que provocar era divertido, mas Damon também se sentia feliz pelo gêmeo.

- Não precisa dizer nada, está estampado na sua cara - ele disse ao dar passagem para o irmão, que riu enquanto entrava.
- Estou tão bem-humorado que posso aguentar suas piadinhas hoje, Damon.
- Eu não vou fazer isso... Dessa vez. Só dessa vez, porque eu realmente gosto da e acho ela ótima.
- Ela é - enfiou as mãos nos bolsos da calça, encolhendo os ombros. - Não acredito que vou dizer isso logo pra você, mas eu gosto mesmo dela. E antes que ameace me dedurar, ela já sabe, porque eu já contei.
- Quem é você e o que fez com o ? Isso é sério mesmo? Ah, cara! Não acredito! Que orgulho do meu irmãozinho!
- Já me arrependi. Onde está a Clara? - começou a caminhar em direção aos quartos e Damon foi atrás.
- Espera, ! Beijou ela, não é?

parou antes de abrir a maçaneta do quarto do irmão, onde a sobrinha estava dormindo enquanto as obras no quarto dela não ficavam prontas. Se virou para Damon, sério, e o outro levou como um sim a reação dele. Seu sorriso poderia ser um tanto presunçoso, mas também estava feliz por ver que eles estavam dando certo.

- Não vou responder.
- Não precisa... Estou feliz por vocês, espero que dê tudo certo.
- Foi só um encontro.
- Ah, claro que foi! E você, logo você, está só usando uma menina legal e depois vai dispensar ela. Me poupe, , eu te conheço melhor do que você mesmo.
- Tá, tá, não ligo.

abriu a porta e entrou no quarto, mas se deparou com Clara já dormindo, para sua grande frustração. Fechou a porta novamente sem fazer barulho e saiu, sem se importar se Damon ainda estava atrás dele.

Quer parar com isso? É sufocante!
- Desculpa, é o hábito. Prometi que não ia fazer piadinhas. Então só... Não sei o que dizer além de piadas... Se divirta.
- Hum... Obrigado. Bem, se me der licença, vou pra casa, meus livros não se escrevem sozinhos.


Já fazia dez minutos que estava hesitante em tomar o celular do carregador ao lado do travesseiro e mandar uma mensagem. Estava tarde e ele já tinha escrito umas boas centenas de palavras apenas naquela noite, estava inspirado, mas também estava com sono e com muita dúvida se deveria ou não mandar uma última mensagem para . Pelo horário, ela já estaria dormindo, mas ele se sentia na obrigação. Foi ele que tomou a atitude de chamá-la para sair, ele que a beijou primeiro, não queria que ela pensasse que ele estava apenas curtindo ou algo do tipo, porque não estava.

Após enviar uma mensagem, deixou o celular de lado e tentou dormir, embora ainda estivesse revivendo tudo. Ainda não podia acreditar como tudo tinha dado certo e o fato de ser correspondido tornava as coisas ainda mais surpreendentes.

acabou por adormecer um pouco depois, mas a sua mente ainda estava trabalhando a todo vapor. Ele tinha certeza de que estava em um dos seus sonhos malucos, mas este era diferente. Estava em uma torre, dava para ver o céu à noite e estava com ele, lhe dizendo sobre a constelação de Andrômeda, da qual ele ouvia com atenção. Parecia estar se divertindo, tal como ela, mas também estava se perguntando em que época estavam, devido aos trajes de festa que vestiam, mas muito mais antigos do que ele podia datar.

De qualquer forma, não importava, era apenas um detalhe. Tudo o que realmente importava era a garota ali com ele e como ele queria beijá-la. Mesmo sabendo o quanto era errado, ele o fez mesmo assim e a sensação era a mesma de estar acordado. O problema era que ele sentia que tinha algo errado, como se não devesse estar fazendo aquilo.

- Eu não deveria - ele interrompeu o beijo ao se afastar e olhou confusa.
- Nenhum de nós deveria.
- Não, eu realmente não podia. , eu não sei explicar o que houve comigo quando te vi lá, mas estaria sendo imprudente fazendo isso com você, não é certo, eu deveria ter contado…
- Contado o quê?
- Eu... - ele espremeu os olhos, cerrando o punho. - Eu sou... Eu sou casado.

Antes que ele próprio pudesse assimilar o que disse, instantaneamente a cena mudou e agora ele estava em um palácio. Conhecia aquele lugar, tinha certeza de que era a França, mais especificamente Paris. Não importava, o que realmente importava para ele era a sensação que tomava conta de si todas as vezes em que seus lábios se encontravam com os dela, e era impressionante como, em todas aquelas visões, sempre era tão fiel ao que ele via diante dos seus olhos quando estava acordado.

E, logo depois, a cena mudou novamente; agora era um casamento, ele era o noivo. precisou se situar por um instante, ao mesmo tempo que era novo, era extremamente familiar, ele conhecia aquela igreja e conhecia aquela que caminhava em sua direção com um longo e chamativo vestido branco, feito pelo melhor alfaiate da cidade, com véu e uma grinalda de flor de laranjeira, que simbolizava a pureza, embora soubesse que ela já não era tão pura assim. Levou a mão ao medalhão pendurado em seu pescoço, que fora um presente que lhe deu semanas antes, e o apertou, estava ansioso para que pudessem ficar a sós logo. E então, após a desposar, tirou aquele longo véu do rosto dela, jogando-o para trás a fim de contemplar o rosto que ele julgava ser o mais lindo de todos que já viu. Queria beijá-la na frente de todos, mesmo sabendo que quebraria o protocolo estabelecido.

Ele sempre teve um certo desprezo pelas regras, então não esperou mais nenhum segundo para beijá-la, o que ele não soube como terminou, pois acordou no exato instante. Estava ofegante, suado e com calor. Precisou se situar novamente, tendo certeza de que estava na sua casa, no seu quarto.

se livrou do moletom que estava usando e se levantou da cama, indo até o banheiro para lavar o rosto. Se sentia um pouco tonto e confuso com tudo o que viu, além de se sentir extremamente cansado, notando as olheiras no seu reflexo. Por que estava vendo aquelas coisas? Talvez fosse sua mente de escritor lhe pregando peças, ele sabia que isso acontecia de vez em quando, mas estava piorando. Não achava certo envolver nesses sonhos, a conhecia há pouco tempo, mas não conseguia controlar seu subconsciente. Além, é claro, do fato de ela ser fiel à imagem da garota dos seus sonhos, literalmente, algo que ele ainda não havia esquecido.

E, justamente por isso, se questionou naquele instante se realmente estava começando a nutrir algum sentimento por ou a queria ter por perto apenas pela coincidência bizarra. Jurou para si mesmo que passaria o resto da vida solteiro após o término do seu relacionamento com Luce um ano antes, e de fato ainda estava, mas não contava com o fato de conhecer alguém, muito menos alguém com quem ele se sentisse extremamente familiarizado. Tinham muito em comum e ele adorava a companhia dela, mas estava se questionando se era apenas isso ou se de fato gostava dela. Ele já não tinha certeza.

Voltou para o quarto e se deitou novamente, ainda se questionando sobre o assunto. Não queria brincar com os sentimentos de , caso ela tivesse algum; nunca fez isso com mulher alguma e ela não seria a primeira, justamente ela. precisava ter certeza de que não estava sendo enganado pela sua própria mente antes de qualquer coisa, e apesar de se questionar ser uma boa ideia, ouvir a opinião de outra pessoa também era bom, especialmente de Diana, que sempre era tão sensata e dava os melhores conselhos. Sabia que Diana não o julgaria, então decidiu ir até ela quando o dia amanheceu. Era oito horas da manhã quando ele adentrou na casa de Damon, sabendo que todos já estariam acordados para o café da manhã.
Não tem mais casa, inferno? - Damon resmungou ao ver o irmão entrar, enquanto vestia o casaco, já estava atrasado para ir ao trabalho.
- Bom dia para você, Damon, onde estão as meninas?
- Clara ainda está dormindo, Diana está na cozinha. Se veio tomar café da manhã, está atrasado.
- Só queria falar com ela, não se preocupe tanto com a minha alimentação.
- Eu estou cagando para o que você come ou deixa de comer, , estou cagando - Damon procurava pelas chaves do carro no sofá, jogando as almofadas de um lado para o outro, apressado para sair logo.
deixou com que o irmão se irritasse sozinho e foi até a cozinha, onde Diana estava guardando algumas louças sujadas durante o café. Ela sorriu ao ver o irmão mais velho, notando que ele parecia um pouco abatido.

- Parece que alguém não dormiu direito à noite.
- Você acertou em cheio - se sentou no banquinho da ilha e bocejou. - Dormi pouco e mal, foi uma noite longa.
- O que aconteceu?
- À essa altura, o fofoqueiro do Damon já deve ter te contado que eu saí com a ontem.
- Na verdade não, você vai ter que se explicar melhor - Diana esboçou um largo sorriso ao saber daquilo, imaginou que fosse um grande passo. - Me conta tudo, todos os mínimos detalhes.
- Não tem tanta coisa assim - ele riu da felicidade dela, se lembrando do dia anterior e se sentindo um pouco melhor por pensar em como se divertiu. - Tivemos um dia temático de Harry Potter, literalmente, até vimos a peça, ela também gosta muito. Depois eu... Bom, eu acabei dizendo para ela o que eu estava sentindo e fui correspondido, o que foi ótimo.
- Eu sabia! Eu tinha certeza que ela também sentia alguma coisa. Por favor, não me diz que a noite terminou com cada um indo para o seu canto. Ao menos beijou ela, não beijou?

desviou o olhar para o lado e não conteve o sorriso que escapou dos seus lábios ao se lembrar daquele momento em questão. Estava nervoso, mas não o suficiente para estragar tudo e a forma com que lidou com tudo tão naturalmente tornou a experiência ainda melhor.

- Não precisa dizer nada, esse sorriso já entregou tudo.
- Ana, ela é incrível, é sério. O problema sou eu.
- Hum... - Diana deixou a louça de lado e se apoiou na pedra de mármore, percebendo que ele murchou como uma flor que não recebia a luz. - Por que você acha isso?
- Agora eu não sei se realmente gosto dela ou se apenas a quero por perto porque ela é idêntica à pessoa que sempre está nos meus sonhos. Deve ter uma resposta cientifica para isso, não tem?
- Sentimentos não são científicos, - Diana disse, compreensiva.
- Eu gosto muito da companhia dela, de conversar com ela sobre tudo, ela é divertida e linda, mas será mesmo que eu tenho algum sentimento ou é a minha mente me pregando uma peça?
- É um bom questionamento.
- Não quero que ela se machuque por minha causa, Ana. Eu não sei muito bem o que fazer.
- Bem, acho que eu não posso apontar o que você deve ou não fazer, já que eu só estou vendo por fora. É apenas a minha opinião, mas você sorri ao falar dela e isso é lindo, não acho que seja apenas uma peça, como você gosta de chamar. Então, se você pensa assim, deve tirar um tempo para pensar melhor, eu faria isso se fosse você, colocar as ideias no lugar e ter certeza do que você sente. É muito gentil da sua parte se preocupar com isso e com os sentimentos dela, justamente por isso eu tiraria um tempo pra pensar sobre o assunto antes de tomar alguma decisão equivocada.
- Não é uma má ideia, mas não quero que ela pense que estou me afastando ou algo assim, porque não é a minha intenção.
- Ela não vai pensar isso. Eu não conheço a tão bem assim, mas se ela é tão incrível como vocês dizem, então eu acho que ela entenderia. Já que a mamãe está vindo divulgar o livro novo dela aqui, você poderia ir junto. Vai distrair a sua mente, além de promover a sua imagem também.
- Está falando como a Louise - sorriu, fazendo Diana rir e dar de ombros com a comparação. - Não quer ser minha nova empresária?
- Nem pensar! Quero criar vacinas e nada mais, ela é ótima no que faz.
- É... Você tem razão, eu acho que vou ligar para a mamãe e perguntar se eu posso ir com ela.
- Perguntar? Você é um homem de vinte e seis anos que ainda pergunta as coisas pra mãe?
- Certo, certo... Eu vou informar que vou com ela? Está melhor?
- Ah, com toda a certeza! Espero que te faça bem e você não faça nenhuma besteira.
- Eu não vou, só quero ter certeza de que estou fazendo o melhor para mim e pra ela também.

Diana conhecia melhor do que qualquer pessoa, poderia dizer que ele era seu melhor amigo, além de irmão, porque era com ela que ele sempre ia conversar. A relação com Louise, neste ponto, ainda estava abalada devido aos acontecimentos do passado. Diana sabia que tinha boas intenções, ele sempre foi assim, mesmo que às vezes pudesse se prejudicar por causa disso. Ele gostava de pensar mil vezes antes de tomar decisões importantes, assim como ela, o que ela julgava como uma atitude inteligente. Torcia pela felicidade dele acima de tudo e esperava que ele tirasse boas conclusões dessa viagem e voltasse com a cabeça no lugar para que tudo ficasse bem.


Alguns dias depois
Eloise recebeu a ajuda de com a bagagem enquanto entrava no apartamento do filho. O hotel era confortável, mas não se comparava ao aconchego de uma casa cheia de personalidade como era a dele, então ela não recusou quando a convidou para passar o dia com ele antes de seguirem para os compromissos que começariam no dia seguinte, em Manchester, e se seguiriam por três semanas.

- Por hoje serve - disse após deixar a mala no quarto de hóspedes. - Se a senhora quiser tomar banho, comer ou descansar, nem preciso dizer que está em casa, não é?
- Estou descansada, filho, pode ficar bem tranquilo, mamãe vai fazer o jantar hoje - Eloise estava tão contente por estar ali, que tinha de se conter para não dar pulinhos de alegria. - O que você vai querer?
- Mãe…
- Não, não, é o mínimo, quero passar um tempo com o meu filho, não vou fazer nada exagerado, mas acredite quando digo que não estou nem um pouco cansada.

se deu por vencido, sabia como Eloise gostava de estar sempre ocupada e também de mimar os filhos, mesmo que ele fosse um homem adulto, barbado, independente e com quase vinte e sete anos. Não podia reclamar, gostava da atenção que recebia, mesmo que não concordasse com o fato de ela querer cozinhar após um vôo longo em uma quinta-feira à noite.

- Mãe, se importa se eu sair? Preciso resolver uma coisa antes de irmos - ele apertou as chaves do carro na mão, esperando o aval dela.
- Vai, não quero tomar seu tempo. Não se preocupe, sei onde fica tudo. Vai, vai, vai - Eloise abanou as mãos, apontando para a saída, o fazendo rir, então girou nos calcanhares e saiu.

Ele ainda não tinha contado para sobre a sua decisão e gostaria de contar pessoalmente, apenas não tinha coragem, mas sabia que não tinha mais tempo e precisava contar logo. É claro que não esperava contar abertamente que estava confuso e estava tirando um tempo para si, não era isso, não queria que ela pensasse o que não deveria, apenas queria vê-la mais uma vez antes de ir, já que passaria semanas fora.

Quando chegou em frente ao edifício em que morava, pegou o celular e discou o número dela, informando que estava ali e pedindo para que ela descesse, já que ele não sabia qual era o andar ou o número do apartamento, pegando de surpresa. Ela estava de pijama, enrolada no seu roupão, então teve que trocar de roupa rapidamente para ficar, no mínimo, apresentável, e só então saiu, descendo os lances de escadas em pulos, se perguntando que diabos estava fazendo ali sem avisar que viria.

chegou ao lado de fora e viu esperando encostado no carro. Ele sorriu quando a viu e ela retribuiu, abrindo os braços para o cumprimentar com um abraço, que foi retribuído. Por um instante, até perdeu a coragem de ir viajar, o sorriso dela na direção dele o fez esquecer por um instante da confusão de sentimentos que ele sentia e tudo ficou muito claro. Quando a própria juntou os lábios dos dois em um beijo calmo, ele já nem se lembrava mais o motivo de estar ali.

- Sem querer parecer grossa, mas por que você veio aqui? - perguntou após o beijo, ainda estavam abraçados.
- Queria ver você - sorriu de canto, estava perdendo a coragem, mas sabia o que tinha que fazer. - E... Bem, te dizer uma coisa, prefiro contar pessoalmente.
- Você quer entrar? Está um pouco frio aqui fora. Se for algo importante, não se preocupe, estou sozinha, os meninos saíram com o Jake.
- Tudo bem, está mesmo frio.

Eles se separaram e foi na frente para mostrar o caminho. não esperava ter que subir três lances de escadas que pareciam íngremes, tanto que já sentia calor quando chegou no último andar, parando para respirar antes de entrar. riu ao vê-lo ofegante daquela forma, ela estava acostumada, mas não podia negar que era cansativo, podia até ouvir mentalmente Thomas reclamando que ela deveria se mudar para um lugar térreo.

- Me dá só um minuto, por favor - tirou o casaco enquanto se abanava. - Eu não sabia que você morava no último andar, por que não tem elevador?
- É uma pergunta para a qual eu já desisti de procurar uma resposta - disse enquanto abria a porta, deixando ele entrar primeiro para poder trancar em seguida. - Com o tempo você se acostuma, eu me acostumei.

não percebeu o que disse, não soou pretensiosa, mas sim, temendo mais ainda que ela pudesse não compreender.

- Está tudo bem, ? - perguntou ao notar que ele não parecia muito à vontade. - Você parece meio tenso.
- Estou bem - ele sorriu de canto, tentando parecer um pouco mais relaxado. - Vou ser breve, só queria te dizer uma coisa.
- Claro... Hum... Vamos nos sentar então.

Eles foram até o sofá e se sentaram. deixou o casaco de lado e se virou para , que estava pronta para ouvir o que ele tinha para contar. Estava atenta, como se fosse importante ou secreto, e ele não deixou de achar adorável, todas as reações dela despertavam aquilo nele.

- Vou passar umas semanas fora - ele começou a falar. - Minha mãe literalmente acabou de chegar na cidade, está promovendo o novo livro dela pelo Reino Unido e pela Irlanda e eu decidi ir junto. Vai ser bom pra mim sair um pouco e... Pensar. Só achei que seria interessante avisar pessoalmente, já que são três semanas.
- Hum... Tudo bem, eu espero que você se divirta - disse com sinceridade. - Se for para Edimburgo, já aviso que é um lugar lindo.
- Já estive lá antes, eu adoro a Escócia - ele sorriu por notar outra semelhança entre eles.
- Mas afinal, , pensar exatamente em quê? Não quero ser invasiva, mas sou curiosa.
- Todos somos curiosos - ele sorriu de canto. - Só preciso colocar algumas ideias no lugar, vai ser ótimo pra mim.
- Viajar é realmente esclarecedor, acho que você faz muito bem em respirar novos ares.

Ela estava reagindo tão bem que se sentiu mal por pensar o pior, estava sendo o contrário e ele não esperava por isso.

- Eu posso te perguntar uma coisa, ? - ele baixou o olhar e encarou os próprios dedos se entrelaçando uns nos outros nervosamente.
- Claro!
- Você acha que... Eu sei que é muito cedo, mas... Você acha que pode dar certo? Digo... A gente... Lá na frente... Você me entendeu, certo?
- Eu entendi - sorriu de canto, compreensiva, mas a pergunta lhe pegou de surpresa. - Eu não sei... Quero dizer, estou sozinha há muito tempo, tenho medo de estragar as coisas, mas eu acho que se a gente quiser, então pode ser que sim... Eu sei o que eu sinto, mas acho que o buraco é mais embaixo.
- Eu não acho que seria você a estragar tudo - murmurou, deixando transparecer a sua insegurança. - Só não quero que seja um problema para nós daqui a um tempo…
- , eu percebi que você é tão inseguro quanto eu, mas está tudo bem e vai continuar assim. Só vai curtir a sua viagem, tá bem? Ficar pensando no futuro deixa qualquer um enlouquecido.

tinha razão e ele sabia disso. Estava expondo toda a sua insegurança sem o menor motivo enquanto ela estava lidando com tudo de uma maneira mais tranquila, o que o deixava ainda mais perdido e frustrado consigo mesmo pela sua irritante mania de sofrer por antecedência.

- É sério que você está há tanto tempo assim sozinha? - questionou na tentativa de mudar o foco da conversa. encolheu os ombros e riu, raramente falava sobre seus interesses amorosos.
- Sim, já faz um tempinho - ela sorriu fraco e se ajeitou no sofá. - Uns quatro ou cinco anos, eu acho…
- Impossível, eu não acredito em você. Está mentindo pra mim, não está? - ele riu e viu ela franzir o cenho.
- Mas por que eu mentiria pra você, ?
- Porque é impossível caras não terem interesse em você por tanto tempo.
- Ah, é totalmente possível, acredite - riu por perceber que parecia um pouco indignado com o que ouviu. - Eu só não conheci pessoas legais durante este tempo. Nada que durasse mais do que uma noite.
- É totalmente clichê o que eu vou dizer, até parece uma frase que eu colocaria em algum livro, mas é quase impossível acreditar nisso. Quando te conheci, eu tive quase certeza de que você tinha alguém, depois que te vi com o Carter, realmente achei que vocês eram um casal. Você nem tem noção do quão feliz eu fiquei quando soube que vocês não tinham nada.
- O Carter? Bom... Talvez em algum momento dos meus dezesseis ou dezessete anos, eu tive uma quedinha por ele, mas não rolou nada, ele é como um irmão pra mim. Não, sem chances - ela esboçou um sorrisinho fraco, sem ter noção do quão aliviado se sentiu naquele momento. - De qualquer forma, ... Eu acho que ter esperado esse tempo todo possa ter valido a pena…

se xingou mentalmente, odiava quando criava coragem repentina em situações desnecessárias. Ele já sabia o que ela sentia e ela achava que não era necessário repetir a cada cinco minutos, ou ele poderia se entediar ao saber que tinha uma garota insistente e irritante na cola dele.

- Desculpa, eu não... Eu não quis…
- Você tem razão, talvez tenha mesmo.

rompeu a distância entre os dois quando a beijou. Era o que ele queria ouvir, com todas as letras e pontuações necessárias. Saber que ela, de fato, nutria algum sentimento por ele o fazia se sentir muito melhor do que antes, agora precisava apenas ter certeza quanto ao seu para que não a magoasse. Mesmo com tudo, sabia que passar aquelas semanas viajando seria bom, assim ele poderia tomar algum tipo de atitude mais ousada quando voltasse, tendo certeza de que as três semanas fariam tão bem para quanto para ele.

repousou suas costas no encosto do sofá sem interromper o beijo, enquanto se esticou um pouco. Sentiu quando os dedos gelados dela tocaram a sua nuca, mas ele não se importou, era o toque mais carinhoso que ele já sentira. A mão dele desceu até a coxa dela, coberta pela calça jeans, usando de uma firmeza que ainda não havia experimentado. E embora ele fosse respeitoso até o momento, ela sabia que ele poderia oferecer muito mais. Ela encontrou o zíper da jaqueta que ele estava vestindo e o abriu. notou, mas não se importou, se afastou um pouco para que ele próprio tirasse a jaqueta, a deixando ao seu lado. Em seguida, sua boca foi de encontro ao pescoço dela, intercalando entre beijos e chupões leves. mordeu os lábios para conter um gemido quando sentiu o arder na sua pele de um chupão, mas o momento entre os dois foi interrompido quando ela ouviu o barulho da chave na trinca da porta. Empurrou para que se sentassem novamente e em seguida passou as mãos pelos cabelos, torcendo para que estivessem penteados o suficiente. - Mas o quê... - se quer conseguiu terminar sua pergunta, a porta da sala se abriu revelando Thomas, William e Jake.

O que ele menos queria era ver a surpresa estampada nos rostos dos rapazes, especialmente de Jake, que parecia ainda mais surpreso que os outros dois, já que não sabia do envolvimento do seu primo com sua melhor amiga. Thomas, a fim de não constranger os dois, exagerou uma naturalidade, cumprimentando os dois com um aceno de cabeça, enquanto William não poupou uma encenação.

- Ah, não, não! Não quero nem pensar no que estava acontecendo aqui! - ele cobriu os olhos com as mãos, fazendo uma careta enojada. - Estou cego!
- William! - Thomas repreendeu a atitude do caçula ao notar que parecia bem constrangido. - Para com isso, você não viu nada demais!
- Boa noite - Jake cumprimentou um tanto sem graça. e responderam da mesma forma. - A gente pode descer caso vocês…
- Não, está tudo bem, não estão atrapalhando nada - se levantou prontamente, colocando um sorriso no rosto. - É bom ver você, Jake, está muito sumido.
- Obras, , muitas obras ao mesmo tempo estão me deixando surtado. Me desculpa.
- A gente achou melhor beber aqui para o William não dar vexame em público - Thomas exibiu a sacola com bebidas que estava carregando. - Mas acho que o Will já passou vergonha o suficiente.
- Que nojo! - William fez menção de vomitar, estava verdadeiramente enojado. - Eu não estou preparado para o que vem depois, é sério.
- Eu acho melhor eu ir - se levantou, colocando a sua mão sobre o ombro de e ela olhou para ele. - Minha mãe está me esperando, ela vai passar a noite na minha casa.
- Tudo bem - sorriu de canto um pouco chateada por ter terminado daquela forma. - Eu vou te acompanhar até o carro. Vamos.
- Boa noite, pessoal - acenou brevemente ao passar pelos rapazes, sendo correspondido por Thomas e Jake, mas não notou o olhar de William pesando sobre ele.

se virou para fechar a porta e foi tempo o suficiente para que se adiantasse em descer o primeiro lance de escadas o mais rápido possível. Ela tentou acompanhar, mas eram degraus pequenos demais até mesmo para os pés dela, poderia tropeçar se fosse mais rápido. Então, deixou ele ir na frente até mesmo para evitar qualquer tipo de desconforto. Quando chegaram no carro dele, um silêncio desconfortável pairou entre os dois e percebeu que parecia visivelmente aborrecido com o que havia acabado de acontecer.

- Sinto muito, ... Mesmo - ela não sabia como se desculpar, estava de mãos atadas e tão constrangida quanto ele.
- Está tudo bem, , você não precisa se desculpar por nada. Eu só achei a reação do seu irmão um tanto... Exagerada. Quero dizer, ele está transando com a minha irmã e nem por isso eu me exaltei, não é? Ele não pode falar muita coisa.
- Ele sempre foi assim, não muda nunca... Eu vou falar com ele, Will tem essa mania de bancar o irmão ciumento e eu não gosto disso. Me desculpa, do fundo do meu coração.
- Eu já disse que você não tem que se desculpar por nada - ele a puxou pela cintura e tratou de colocar um sorriso no rosto para que ela se sentisse melhor. colocou seus braços ao redor do pescoço dele e sorriu também. - Posso não ser tão radical quanto ele, mas vou me vingar agora mesmo - disse fazendo ela concordar e rir, então lhe deu um longo beijo de despedida.

não queria que ele fosse embora, estava adorando estar na companhia dele. Já fazia muito tempo que não se sentia tão à vontade com alguém, mas as coisas com estavam fluindo de uma forma leve e natural e ela estava feliz por isso, pois temia se envolver em algum tipo de confusão que custasse sua saúde mental, que já era debilitada o suficiente por conta do magistério. Felizmente, estava acrescentando ao invés de subtrair algo dela.

- Não deixe de dar notícias - ela disse após o beijo enquanto ainda continuavam abraçados. - Todos os dias, ok?
- Você quem manda - ele riu ao concordar com a cabeça.
- Boa viagem, , espero que te faça muito bem.

o abraçou e pôde perceber toda a sinceridade que ela carregava nas suas palavras. Estava mais do que feliz por ela ter compreendido que era necessário, mas pensou também que seria mais difícil agora que ele se sentia um pouco melhor por aqueles minutos que passou com ela. Se sentia bem com o abraço dela e agora torcia para que as três semanas passassem rápido para que ele pudesse voltar e os dois pudessem estar juntos outra vez.

- Obrigado, . Se cuida - ele disse ao se separarem, deixando um beijo na testa dela.
- Pode deixar, eu vou.

se afastou para que abrisse a porta do carro e entrasse em seguida, então se despediram com um breve aceno e entrou novamente, enquanto ele deu partida para ir embora. A ficha parecia cair conforme ela subia aquela escada que parecia infinita, entendeu que passaria algumas semanas fora e talvez parecesse durar muito mais tempo do que realmente seria. Apesar do inconveniente ocorrido, ela se sentia nas nuvens por terem compartilhado sentimentos de forma madura e por quase terem passado de meros beijos. Ela queria muito, mas entendeu que ainda não era a hora certa e que teriam um momento a sós para que pudessem desfrutar um da companhia do outro sem que ninguém os atrapalhasse.

entrou em seu apartamento novamente e foi como se todo o encanto tivesse caído por terra naquele mesmo instante, pois se lembrou de que os três quase a flagraram em um momento íntimo. Ainda que Thomas e Jake tentaram ser os mais educados possíveis para não constranger nenhum dos dois. Ela viu que esqueceu a jaqueta no sofá, e foi até lá pegar para deixar no quarto, mas não sem antes chamar William para que ele a acompanhasse.

- A gente não pode conversar outra hora? - o mais novo perguntou, mas pôde jurar que viu uma veia nervosa pulsando no canto da testa dela, como se fosse um desenho.
- Agora, Will! - apontou para o corredor do quarto dela e ele concordou, indo na frente.
- , espera aí - Jake pediu calmamente e se virou para ele. - Desculpa se pareci inconveniente ou algo assim, só não sabia que vocês estavam juntos.
- Tudo bem, Jake, você não fez nada de errado - sorriu compreensiva. - Bem... Não somos um casal, a gente só…
- Relaxa, você não tem que se explicar pra mim. Meu primo é um cara legal, você merece ser feliz.
- Obrigada, Jake - ela alargou ainda mais seu sorriso antes de se virar e seguir pelo pequeno corredor.

entrou em seu quarto onde William a esperava e deixou a jaqueta sobre a cama, tentando não demonstrar que o perfume que a peça de roupa soltou era o melhor que ela já sentiu. Se virou para William, fechando a cara e ele percebeu que tinha cometido um erro.

- Por que você fez aquilo?- Eu realmente não queria ter essa conversa. Não poderiam ter vindo para o quarto? - William torceu o nariz aborrecido. - E não tenta me enganar dizendo que não rolou nada entre vocês.
- É, não rolou, porque você fez questão de nos deixar constrangidos, McQueen! Precisava de tudo isso?
- Então, vocês realmente iam? Ai meu Deus, eu não quero ter que pensar nisso.
- Então não pense, não é da sua conta com quem eu me envolvo, William! Para de me atrasar! - estava gesticulando freneticamente, como sempre fazia quando estava nervosa. - Será que você ainda não entendeu que eu realmente gosto do ? Você não percebeu que eu estou realmente feliz? Deixa eu te contar uma novidade: eu não sou virgem! Surpresa! Pois é, eu já transei com outros caras antes, ele não seria o primeiro.
- Desculpa, ok? Eu sei que eu exagerei... É que eu fico preocupado com você, não quero qualquer cara tentando se aproveitar de você. Eu mataria quem fizesse isso.
- Eu entendo a sua preocupação, Will, ok? Mas nem meu pai faz mais isso, e você sabe como o meu pai era protetor quando eu era adolescente. Eu acho que tenho idade o suficiente para escolher com quem eu vou relacionar.
- Você está certa. está chateado?
- Sim, está. Ele disse que você não pode dizer muita coisa, já que está transando com a irmã dele e ele não está errado.
- Touché - William colocou as mãos na cintura, se dando por vencido. - Me desculpe.
- Não é só comigo que você tem que se desculpar - disse por fim, saindo do quarto e dando a conversa como encerrada por ali.


"Você esqueceu sua jaqueta aqui, mas pode ficar tranquilo, porque vou cuidar muito bem dela”
leu a mensagem de e só então se deu conta de que realmente voltou pra casa sem jaqueta. Ele sorriu, achou divertida a forma como ela se referiu à peça de roupa como se fosse uma pessoa. não se deu ao trabalho de negar que já estava sentindo saudades dela antes mesmo de ir.

- Nada de celular na mesa, - ele guardou o celular no bolso da calça rapidamente e voltou sua atenção para o seu jantar quando Eloise chamou sua atenção, embora não tivesse notado que foi brincadeira dela.
- Desculpa, mãe, me distraí.
- Se distraiu? Sei - Eloise sorriu. - Sinto que você esqueceu de me contar alguma coisa, e a última vez que te vi sorrindo assim foi…
- Quando eu estava namorando com a Luce - completou e soltou um longo suspiro, não gostava de lembrar da ex. - Eu sei, mas te garanto que não tem nada a ver com ela.

Eloise não queria soar invasiva e desrespeitar a privacidade do filho. não era a pessoa mais aberta do mundo nem mesmo com a sua própria mãe, então ela achou melhor que ele contasse tudo no próprio tempo, embora tivesse alguma noção do que estava acontecendo, ela podia ver os sinais que dava mesmo sem perceber.

Acho que estou me apaixonando - ele admitiu de repente e Eloise abriu um largo sorriso.
- Meu Deus!!! - a mais velha exclamou não se contendo de felicidade. - Por quem???
- Você conhece ela.
- Não diz, eu vou adivinhar - Eloise espremeu os olhos para se concentrar, fazendo mais força do que de costume. - É aquela menina bonita e simpática que toca violão e cantou com você?
- Te contaram, aposto que foi o Damon.
- Não, eu juro! Eu nem me lembro o nome dela. Não fala que até o final do jantar eu vou lembrar, mas de qualquer forma, dá pra perceber que você está diferente, eu percebi.
- Ela é incrível, mãe, é sério. Eu acho que não tem nada que eu não goste nela ainda - sorriu de canto. - Ela me faz muito bem.
- , estou tão feliz por você - Eloise disse com toda a sinceridade, sorrindo. - Você merece toda a felicidade do mundo, filho, e ela parece ser uma ótima pessoa.
- E é, ela é ótima, eu acho que o problema sou eu... - sentiu que sua felicidade momentânea começou a diminuir por se lembrar de como realmente se sentia. - Eu só quero ter certeza que gosto mesmo dela antes de qualquer coisa, decidi ir com você para não cometer nenhum erro.
- E por que você tem dúvidas, ? Ela não sente o mesmo?
- Ela me disse que sim, mas eu não quero correr o risco. Quero fazer as coisas do jeito certo. Quando estou com ela, não tenho dúvidas do que sinto, mas depois passa, sabe? E eu começo a me questionar, eu não quero que ela crie expectativas se eu não puder corresponder. Faz sentido?
- Faz, filho, faz sim - Eloise sorriu, compreensiva, tendo certeza de que deu a educação certa para o seu filho mais velho. - Mas deixa eu te contar uma coisa: ficar se questionando muito não é bom. Quando eu conheci o seu pai, eu também fiquei muito insegura, porque achava ele "legal demais pra mim" - ela fez aspas com os dedos, mencionando as exatas palavras que havia usado trinta anos antes. - E mesmo ele me dando todas as chances do mundo, ainda não deu certo e passamos um tempo separados; eu conheci outro rapaz, você sabe dessa parte. Nós dois sofremos estando separados, eu amava ele, já tinha certeza, e passar por um relacionamento abusivo só reforçou isso. Precisamos passar muito tempo separados, pular a cerca algumas vezes e descobrir que estávamos esperando dois meninos lindos para só então percebermos que não podíamos mais ficar separados. Minha insegurança quase me custou o homem que eu amo a vida toda. Se eu não estivesse com o Henry, não teria vocês e a minha vida seria uma porcaria.
- Hum... Entendi, eu não posso ficar longe dela, caso contrário, teremos gêmeos - tentou descontrair, fazendo Eloise rir. - É sério, eu entendi. Eu não posso ficar me questionando se realmente gosto dela ou não, caso contrário posso perder a mulher da minha vida.
- Exatamente. Caso seja ela, é esse ponto. Vocês são jovens, têm a vida inteira pela frente, mas precisam tomar cuidado para não perder toda a sua vida nos lugares errados.
- Eu vou pensar nisso, mãe, eu prometo. Obrigado... - ele sorriu por se sentir melhor.
- Lembrei! - Eloise disse de repente. - É , não é? É um nome lindo.
- Sim, é o nome dela... É lindo mesmo.
- Sabe o que vai ficar lindo? Acrescentar Jones no final.
- Mãe! - riu encolhendo os ombros.
- O quê? E está errado? Pode me agradecer depois, vou me lembrar desta conversa daqui alguns anos.

Capítulo betado por Madô



Capítulo 12 - Noite da pizza

- O que ela pediu mesmo? - Jake repassava a lista pela milésima vez, mas sempre esquecia algum ingrediente que Katie pedira para que eles comprassem.
- Jake, você deveria ter anotado - disse enquanto procurava por molhos de tomate na prateleira do mercado.
- Felizmente, vocês têm a mim - Thomas vinha logo atrás com o carrinho de compras, estava mais entediado do que de costume. - E não é tão difícil assim fazer pizza caseira.
- Tom, tem alguma coisa que você não sabe fazer? Não precisa humilhar a gente - Jake se virou para o amigo, começando a andar de costas.
- Eu não sei falar francês - Thomas respondeu dando de ombros, se preparando para virar o carrinho no corredor.

encontrou os molhos de tomate e jogou no carrinho antes de irem para o próximo corredor. A noite de sexta-feira seria por conta de Katie e Jake, sendo que a mais nova sugeriu pizzas caseiras e a ideia foi abraçada por todos, então os três foram às compras enquanto Katie já adiantava algumas coisas em casa. Eles já tinham comprado quase tudo, mas ainda faltava encontrar um queijo apropriado e, ao encontrar, poderiam finalmente ir para oficializar o início de sexta-feira à noite.

Só não esperavam, ao virarem o corredor, encontrarem com Damon, Diana e a pequena Clara, que também estavam fazendo algumas compras. Logo que se deram conta do encontro, Damon foi o primeiro a se aproximar.

- Oi, pessoal! De todos os lugares do mundo, este era o último que esperava encontrar vocês - ele disse bem-humorado.
- Eu venho neste mercado desde... Sempre - fez um breve cálculo para ter certeza. - Porque eu meio que morei aqui quase a minha vida inteira.
- Acho que somos nós os intrusos, Dam - Diana disse ao se aproximar também, estava segurando uma cesta cheia de alimentos e acompanhada por Clara.
- Provavelmente... E, então, quais são os planos de vocês pra hoje? - Jake perguntou, animado, ao mudar de assunto de repente.
- Vamos maratonas Dora, a Aventureira. Vai ser bem legal - Damon não parecia muito animado com a ideia, o que fez os outros rirem.
- Não deve ser tão ruim assim. Oi, Clara! - Tom acenou para a pequena, que se escondeu atrás das pernas de Diana. - É, acho que ela se esqueceu de mim.
- Ela só se faz de tímida. É tão descarada quanto eu - Damon olhou para trás, procurando pela menina. - Vem aqui, filha, deixa eu te apresentar o seu primo.

Clara se aproximou timidamente, olhando para aquelas pessoas altas e intimidadoras para ela. Jake não conhecia a prima de segundo grau, pois aquela era a primeira vez de Clara no velho continente.

- Este é o seu primo, Jake.
- Oi, gatinha, tudo bem com você? - Jake sorriu, mas Clara não parecia muito feliz.
- Papai, ele não é criança - ela olhou para cima, pedindo colo. Enquanto todos riam, Damon pegou a filha nos braços.
- Tem razão, vamos arrumar uns amiguinhos pra você, eu prometo. Você se lembra do Tom? É o doutor que foi te ver quando você estava doente - Clara negou, não era surpreendente que uma menina de três anos tivesse uma memória longa. - E a ? Acho que você ainda não conhece ela.

Talvez fosse o fato de já ter visto inúmeras fotos de Clara com , mas já se sentia familiarizada com a menina, tendo a familiar sensação de que já a conhecia antes, assim como todos os outros membros da família que ela conheceu.

- Conheço - Clara olhou para , que parecia um pouco surpresa. - O casamento, papai.
- Que casamento, amor? - Damon franziu o cenho, nem sempre entendia o que Clara queria dizer.
- O casamento dela - ela apontou para , que por sua vez tinha certeza que sempre foi solteira.
- Mas eu não sou casada, Clara - disse compreensiva para a menina, que negou com a cabeça.
- É sim. Eu vi, tia.

olhou para Damon e ele para ela, praticamente se desculpando pela fala da filha. Pensou que talvez Clara tivesse confundido com outra pessoa, o que seria totalmente compreensível, mas chamá-la de tia pegou a todos de surpresa, principalmente a própria , que sabia que tinha potencial para ser uma tia de consideração algum dia.
- Parece que alguém prevê o futuro - Damon tentou descontrair, mas acabou piorando a situação quando percebeu que ninguém riu. - E como foi esse casamento, filha? Você se lembra?
- Que cor era o meu vestido? - questionou, demonstrando curiosidade.
- Branco e bem grande - Clara disse com convicção, como se fosse algo recente. - O tio chorou.
- Você só tem um tio, filha, estou começando a ficar preocupado com você.
- O tio , papai!

ouviu Jake murmurar algum xingamento impossível de entender, Thomas arregalou os olhos, embora tentasse disfarçar. Diana e Damon se olharam brevemente enquanto pareceu estática por um momento. Havia dito aquilo para Clara?

- Quem te disse isso, filha? Foi o seu tio? - Damon perguntou, como se adivinhasse os pensamentos de .
- Não, pai, eu vi! Eu juro que eu vi!
- Ah, certo, certo. Vai ali com a sua tia, ok? Está muito pesada - ele colocou Clara no chão e a mesma foi até Diana, então Damon se virou para . - Me desculpa, eu não sei o que aconteceu, .
- Hum... Tudo bem... Eu também não entendi muita coisa... - parecia um tanto atordoada.
- Às vezes, ela fala algumas coisas que simplesmente não fazem sentido, essa ainda foi leve perto de outras que ela já me disse. Eu sinto muito mesmo.
- Fica tranquilo, ela é só uma criança - tentou sorrir, mas não tinha certeza se conseguiu.
- Ok, agora que o clima bizarro já passou, eu estou convidando vocês para irem lá pra casa. Vamos fazer pizzas caseiras, Katie também vai querer vocês lá - Jake entrou na conversa para amenizar o clima. - Não vou aceitar não como resposta. Vocês vão?
- Por mim tudo bem - Damon deu de ombros e olhou para a irmã. - Ana?
- Certo - Diana não queria ir propriamente, mas não queria ser indelicada ao dizer não.

Não gostava de estar cercada de pessoas. Gostava dos primos, é claro, e também gostava muito dos irmãos Thompson, mas estar cercada de pessoas era sufocante para Diana, que só aparecia nas reuniões de família esporadicamente, sempre dizendo que estava ocupada com o trabalho. O problema era que ela estava de férias e não tinha desculpas para inventar, sendo assim, tinha a obrigação de ir.


Manchester
observava a maquiadora terminando de preparar Eloise para a entrevista. Ela já tinha participado de algumas ao longo do dia e aquela era a última, mas diferente de , Eloise sempre parecia animada. Ele pensou que, certamente, já estaria desejando a morte caso tivesse que passar o dia todo atrás de câmeras e microfones.

- Sam sugeriu de você aparecer comigo nesta última - Eloise disse sem abrir os olhos, fazendo se desencostar da mesa que estava apoiado. - Acho que ele gostou da ideia de você vir.
- Sam e Louise são a mesma pessoa - ele sorriu de canto ao se lembrar da irmã, que adorou a ideia quando soube, embora não pudesse comparecer em todos os eventos, mas o liberou para ir. - Mas não sei, mãe, estou meio sumido da mídia desde que me mudei.
- Por isso mesmo! Vai ser ótimo essa coisa de mãe e filho!
- Acho que não vou poder dizer que não, não é?
- Exatamente, querido.

Quando Eloise estava pronta, praticamente obrigou a estar apresentável também, e só então seguiram para o estúdio de uma TV local onde seria a entrevista. Foram bem recebidos, assim como os membros da equipe de Eloise que os acompanhavam. Havia alguns fãs na entrada da emissora e eles pararam para atender. O maior assédio era em cima de Eloise, mas alguns fãs de também estavam lá, pedindo fotos e autógrafos para ele, que atendeu ao máximo de pedidos que conseguiu antes de entrar. Foram levados ao camarim para que pudessem aguardar com tranquilidade.

- Já fazia algum tempo que eu não passava por toda essa loucura - admitiu ao se sentar no sofá que lá tinha.
- É bom, não é? A gente se sente vivo - Eloise se aproximou, mas não se sentou para não amassar o vestido.
- Mãe, eu não sou tão extrovertido quanto a senhora pensa - riu de si mesmo, provavelmente sua timidez já era uma marca registrada. - Não é que eu não goste dos meus fãs, eu gosto, só não sei lidar com eles sem parecer um estupido.
- Como posso ter filhos tão diferentes? Já pensou em trocar de lugar com o seu irmão? Ele iria adorar.
- Com toda a certeza... Já pensei nisso, admito.

Eles continuaram conversando para passar o tempo até que foram chamados ao estúdio. Não era um programa de auditório, se quer seria ao vivo. Havia dois banners grandes com a capa do último trabalho de Eloise e duas poltronas, uma de frente para a outra, perante as câmeras.

- Boa sorte, mãe. Vai ser incrível - disse após dar um abraço em Eloise, que agradeceu e foi até a poltrona reservada para ela.

Logo depois, a jornalista que faria a entrevista entrou no estúdio acompanhada por alguém que lhe passava algumas instruções, com as quais ela concordava distraidamente com a cabeça. espremeu um pouco os olhos ao olhar para a mulher, que parecia ter quase a mesma idade que sua mãe, não que fosse familiar, mas sua aparência remetia à outra pessoa.

- Não, não pode ser - deu de ombros ao perceber o quanto parecia ser improvável. - Impossível.
- Olá, boa noite! - ela cumprimentou a todos alegremente com um sorriso no rosto. - Eloise?
- A própria - Eloise se levantou e estendeu a mão para a cumprimentar.
- É um prazer, sou Elizabeth Thompson, mas pra que tanta formalidade, não é? Pode me chamar de Lizzy, se quiser. Vou fazer a entrevista com você hoje.
- É um prazer te conhecer, Lizzy - Eloise sorriu educadamente enquanto imergiu nos próprios pensamentos.

O sobrenome, a aparência, o sorriso e até mesmo o tom de voz... pensou que poderia ser uma coincidência bizarra ou que talvez estivesse criando uma obsessão exagerada pela garota com quem estava saindo, mas podia jurar que Lizzy tinha algum grau de parentesco com . Observou a jornalista se sentando na outra poltrona enquanto conversava com Eloise, mas antes que pudesse tirar conclusões, Lizzy notou que ele estava ali, fazendo com que se desviasse o olhar, mas já era tarde demais.

- Ah, oi! Eu não te vi aí, me desculpe.
- Tudo bem, o foco é ela - apontou discretamente para Eloise, que riu.
- Vem aqui, filho, não seja tão tímido - Eloise fez sinal para que se aproximasse e ele foi, mesmo contra sua vontade.
- Filho? - Lizzy não conteve o espanto. - Ele é seu filho?
- Sim, é o meu bebezinho - Eloise puxou para que ele se curvasse, deixando um beijinho na bochecha do filho.
- Mãe! - resmungou fazendo careta ao se erguer de novo.
- E tem outro igualzinho. Fiz dois de uma vez para ter certeza - Eloise disse divertida, deixando Lizzy ainda mais surpresa, incapaz de imaginar que aquela mulher tinha gêmeos, e ainda por cima adultos.
- Nossa, é quase impossível de acreditar - Lizzy riu, mas sempre passava pela mesma situação quando mostrava seus filhos. - Se bem que ninguém acredita quando digo que tenho um filho de quase trinta anos.
- Mentira! - Eloise exclamou, espantada, e as duas entraram em uma conversa de mães.

se afastou sorrateiramente, mas estava pensando em quantos anos Thomas tinha. Ele não sabia a real idade dele, mas imaginou que o rapaz tivesse mais ou menos a mesma idade de Jake, que já estava beirando os trinta anos também. Tudo fazia muito sentido para , mas ele não queria ser indiscreto e pedir para ver os filhos de Lizzy para ter certeza de que não estava louco.

- Depois da entrevista, podemos continuar essa conversa. Quero saber como é possível ter gêmeos adultos e continuar linda e jovem, mas vamos começar - Lizzy se ajeitou em sua poltrona, conferindo no celular uma última vez as perguntas que pretendia fazer.

E, em menos de três minutos, a entrevista começou com um ambiente leve e descontraído, Lizzy sabia como fazer o entrevistado se sentir à vontade, enquanto Eloise sabia muito bem como ser o centro das atenções por onde quer que fosse. Certamente, Damon e Louise tiveram a quem puxar, eram desinibidos como os seus pais. apenas observava, torcendo para que Eloise se esquecesse que ele estava lá, o que deu certo, pois ele ficou o tempo inteiro atrás das câmeras sem ser chamado para participar da entrevista.

No final, quando terminaram, Lizzy agradeceu Eloise mais uma vez e logo elas retomaram a conversa animadamente, como se nem tivessem parado. observou Lizzy pegar o celular e mostrar algo para Eloise que, na empolgação, soltou um grito eufórico ao ver alguma coisa que chamou sua atenção, assustando as pessoas ao redor.

- Desculpem - ela apaziguou ao ver alguns olhares tortos na sua direção. - Não posso acreditar nisso! , vem ver.

Embora já desconfiasse, se aproximou para ver o que era. Na tela, tinha uma foto de Lizzy com o seu marido e seus três filhos. William, e Thomas, para acabar com qualquer desconfiança da parte de .

- Que mundo pequeno - ele riu, devolvendo o celular para Lizzy.
- Não acredito que você é a mãe deles!!! Como isso é possível??? – Eloise continuava muito surpresa.
- Vocês estão me assustando - Lizzy também riu, mas era realmente estranho. - Vocês conhecem os meus filhos?
- Lizzy, imagino que você saiba que o seu filho namora com a minha filha. Quero dizer, eles não namoram até onde eu sei, mas estão juntos, se é que você entende.
- Você é a mãe da Louise? - Lizzy sorriu de orelha à orelha. Finalmente poderia saber um pouco mais sobre sua possível nora.
- Sou, além dos meninos, eu tenho mais duas meninas também e uma delas é a Lou - Eloise sorriu ao se lembrar das filhas. - Eu sei que é muita coincidência, mas Louise sempre liga dando novidades, ela realmente gosta do William, ele parece ser um bom menino, mas ainda não o conheci. Quanto à , tive o prazer de conhecer ela pessoalmente, é uma querida. Ela e o são…
- Amigos - interrompeu imediatamente sua mãe, não tinha coragem de dizer para Lizzy que estavam se tornando mais do que isso. - é uma grande amiga.
- É, isso. Amigos - Eloise corrigiu a postura, estava ciente de que quase cometeu um erro.
- Pessoal, eu conheço a minha filha melhor do que ela mesma - Lizzy sorriu e olhou para , se levantando. - Então, você é o , eu já ouvi falar de você há umas semanas, mas desmentiu e jurou até a morte que eram apenas amigos.
- Ela não mentiu, Lizzy - encolheu um pouco os ombros, não sabia exatamente o que dizer justamente para a mãe de .
- Eu sei que não, mas vou ressaltar de novo: eu conheço a minha filha - Lizzy sorriu, dando uma piscadinha pra eles.
- Lizzy, eu te proíbo de ir embora sem deixar o seu número de telefone ou ao menos ir comigo tomar um café. É uma ordem - Eloise se levantou. - Temos muito o que tratar, eu quero saber tudo sobre os seus filhos antes de aprovar os dois. Se bem que eu já aprovo…
- Deus, me ajude - colocou uma das mãos no rosto, fazendo as duas mulheres rirem.


Depois de muita insistência da parte de Eloise, Lizzy acabou por aceitar estender a conversa para fora do estúdio, acompanhando mãe e filho no jantar em um restaurante que ela própria sugeriu. não queria ir, mas não teve outra opção, já que sua mãe praticamente o obrigou e ele não queria ser indelicado dizendo que não, além de parecer que estava fugindo da mãe de . Pensou que talvez estivesse mesmo e torcia para que em nenhum momento o assunto fosse a vida amorosa dele. Então, enquanto as duas falavam sem parar, ele se limitou a jantar em silêncio, hora ou outra olhando o celular por debaixo da mesa sem ser notado. Mas quando Eloise pediu licença por um instante para ir ao toilet, ele desejou não ter ido naquela viagem, se sentindo extremamente desconfortável por estar ali sem .

- Há quanto tempo vocês se conhecem, ? - Lizzy perguntou, puxando assunto. Ela gostaria de voltar pra casa sabendo um pouco mais sobre ele. - Você e a .
- Pouco tempo. Uns dois meses, eu acho... - ele não parava de bater a ponta dos dedos na mesa nervosamente e Lizzy percebeu o quão nervoso ele parecia estar.
- Você está muito tenso. Relaxa, não é como se eu proibisse a minha filha de fazer amigos. Ela já é adulta, sabe se cuidar sozinha - ela riu para descontrair, na esperança que ele relaxasse um pouco.
- Isso é bizarro - ele passou as mãos pelo rosto e cabelos, se sentia desconcertado. - Lizzy, eu... Desculpa, só estou um pouco surpreso com tanta coincidência acontecendo de uma vez. Ontem mesmo, estive com a e hoje conheci você de repente, sem ela aqui... Eu juro que não sou nenhum babaca.
- Eu acredito em você, , dá pra perceber que não é - Lizzy sorriu, estava começando a ter certeza de que eles combinavam. - Fique tranquilo, eu só quero ver a feliz, e se vocês são apenas amigos, está tudo bem também.
- Não vou mentir pra você, não somos apenas amigos, eu só quero ter certeza antes de qualquer coisa para não brincar com os sentimentos dela. Não sou esse tipo de cara.
- Bem, eu fico muito aliviada em ouvir isso. Fica tranquilo, já tem minha aprovação, se quer saber - ela disse divertida e não sabia se agradecia ou cavava um buraco para se esconder, apenas ficou estático, o que fez Lizzy gargalhar. - Meu Deus! Vocês são perfeitos um para o outro!

E enquanto ela não podia se conter de rir, Eloise voltou para a mesa, revezando o olhar entre a mulher rindo e o filho estático, embora estivesse rindo também, porém bem mais contido.

- Tenho certeza de que não contou uma piada. Ele não é o filho piadista - Eloise disse ao se sentar. - Ou contou?
- Tenho a aprovação da Lizzy, o que é ótimo - tentou parecer o mais natural possível, embora soubesse o quanto era embaraçoso.
- Ela seria louca se não aprovasse! - Eloise retrucou quase em um tom de ofensa e se virou para a outra. - Que bom que vocês já tiveram essa conversa, finalmente posso expressar o quanto eu amei a e o quanto eles são fofos juntos. E olha que naquela época eram só amigos!
- Deus, me ajude - escondeu o rosto nas mãos, mas de repente sua vida amorosa era o assunto principal.

Não era tão ruim assim e ele sabia disso. É claro que não esperava conhecer a mãe de antes de engatarem um relacionamento sério, mas ali estava ele, vendo ela e sua própria mãe conversando como se fossem melhores amigas de longa data. Eloise era uma pessoa extremamente sociável e amigável e, pelo visto, Lizzy também, mesmo que a conversa entre as duas fosse sobre seus filhos e todas as qualidades de cada um. Não podia reclamar, aprendeu várias coisas sobre naquela conversa. Descobriu que ela teve apendicite quando tinha cinco anos, que ela herdou o dom musical de seu pai (embora ele soubesse), que ela ganhou uma bolsa de estudos em Yale, mas recusou para ir para Oxford ficar com o irmão. Ela tinha uma bagagem extensa e pensou que gostaria de conhecer um pouco mais, porém vindo da própria .


- Tira a mão! - deixou um tapa na mão de Damon quando o mesmo ameaçou encostar na borda da pizza, que estava quente e ele afastou imediatamente.
- Dá um tempo, !
- Se você encostar nessa pizza, eu juro que vou fazer você comer ela todinha!
As pizzas estavam prontas, mas precisavam esfriar um pouco antes de serem degustadas. Damon, se aproveitando da curiosidade, queria ser o primeiro, mas estava vigilante e não deixaria ninguém se aproximar enquanto não fosse a hora.

- E eu vou deixar ela fazer isso - Katie, que estava apoiada no balcão, disse do outro lado da cozinha.
- Você é chata que nem o , por isso combinam tanto - ele disse alto o suficiente para todos ouvirem, se afastando dela com um sorriso presunçoso nos lábios. - Cunhadinha.
- Quê? - Katie exclamou surpresa. Thomas, Jake e Diana voltaram suas atenções para os dois.
- Ah, valeu mesmo, Damon. Muito obrigada! - esboçou um sorriso sarcástico, fuzilando o rapaz com o olhar. - O fato de você ser idêntico a ele não me impede de querer te socar agora mesmo. Eu não sou tão boazinha quanto você pensa.
- Senti firmeza - Jake se apoiou na ilha da cozinha par ver mais de perto. - E não é mesmo. Cuidado, primo.
- É só marra, eu duvido - pensou que ele até podia ter o mesmo sorriso que , mas soava muito mais irritante nele ali mesmo.
- Damon, você não vai aguentar cinco minutos trocando farpa comigo. É sério, estou falando para o seu bem - alertou em um tom muito sério, quase uma repreensão, fazendo Damon mudar a sua postura imediatamente, mas então ela começou a rir. - Não acredito que consegui te dobrar no meio!
- Isso é incrível! Estou impressionada - Diana disse rindo, sabia que era preciso muito jogo de cintura para lidar com o seu irmão. - Dam, ela é pior do que você.
- Não posso acreditar - Damon bateu com a palma da mão na testa. - Por favor, largue o sonso do meu irmão e fique comigo agora mesmo, somos perfeitos um para o outro.
- Não, valeu, você não faz o meu tipo - ela deu de ombros e riu. Por mais que fossem idênticos, não era a mesma coisa. - Mas obrigada pelo convite.
- Como assim, você e o estão juntos? - Katie, que se sentia como um peixe fora da água naquela conversa, ainda estava processando a informação. - Quando ia me contar?
- Não estamos juntos, Katie - se defendeu, embora soubesse que estava mentindo. - É só…
- Eles trocam uns beijinhos de vez em quando e o está mais bobo do que o normal. Resumindo: estão juntos. De nada - Damon se afastou ainda mais, indo para o lado de Jake apenas por segurança.- Eu acabei de descobrir que te odeio - disse diretamente para ele, que apenas riu e mandou um beijo no ar antes de ir ver se Clara estava bem na sala de estar.
- Também te amo, cunhadinha!

ainda estava sem entender o que havia acabado de acontecer. Ela não era do tipo de ficar quieta quando se tornava o assunto de uma conversa, talvez tivesse aprendido pelos anos se defendendo das piadas sem graça de William e pensou que Damon fosse uma versão mais velha dele. Não queria falar abertamente sobre o que tinha com , preferia ser discreta como sempre, mas sabia que agora teria que se explicar com Katie.

- Estou perplexa, eu juro, mas até que vocês combinam - Katie mudou em segundos, sorrindo de repente. - Ah, que fofos! Eu posso até imaginar.
- Tom, por favor, me ajuda - escondeu o rosto nas mãos, mas Thomas ergueu as mãos em redenção.
- Eu não tenho o que dizer, maninha, não dá pra defender vocês ultimamente - ela entendeu que ele se referia ao dia anterior e quis sair correndo dali.
- Será que a gente pode desviar a atenção de mim só um pouquinho? Por favor.
- Com o Dam aqui vai ser bem difícil, mas podemos tentar, - Diana riu e agradeceu mentalmente por ter alguém sensato na família. - Podemos falar sobre Lou e Will, talvez ele esqueça.
- Lou e Will? - Katie, novamente surpresa, perguntou. - Gente, o que está acontecendo aqui? Por que eu sou a última a saber das coisas? Vocês também estão com alguém? - olhou para Thomas e Jake, que negaram. - Ainda bem.
- Katie, eu moro aqui, você provavelmente saberia - Jake disse como se fosse óbvio.
- Vou te dizer, Katie, eu prometo - Thomas concluiu, por fim, e Katie fez um coração com as mãos na direção dele que riu ao retribuir o gesto.

nunca ficou tão feliz por ouvir o toque do seu celular. Pegou o aparelho no bolso e viu que era sua mãe ligando, o que a fez ter ainda mais pressa para saber o que era. Saiu rapidamente da cozinha, indo para o cômodo ao lado, mas ao ver Damon e Clara, deu meia volta e foi em direção ao corredor que levava ao banheiro e quartos, então atendeu em seguida.

- Oi, mãe.
- , eu não acredito que você não me contou!
- Do que você está falando? - pensou em todas as coisas que havia feito de errado desde 1999 e que sua mãe ainda não sabia, como a vez em que quase quebrou o braço de William enquanto brincavam em 2003.
- Por que não me disse que seu amigo estaria em Manchester com a mãe dele? Se bem que ele não é só um amigo, não é?
- Eu não sabia - ela disse a verdade, mas sentiu o coração acelerar no peito. - Me explica direito, mãe, não estou entendendo.
- Minha entrevistada de hoje foi ninguém menos do que Eloise Jones, conhece? Claro que sim, ela disse. Então, eu vi ela chamando de bebezinho um homem feito, dizendo que era o filho dela, o que eu não acreditei. Quando mostrei meus filhos para ela: surpresa! Ela te conhecia. Que mundinho pequeno! Quando conheceu a Eloise?
- Há um tempinho atrás na casa do ... - esfregou os olhos com a mão livre, mas parou quando percebeu o que disse. - Não que eu tenha ido lá para... Você sabe.
- Ah, tenho certeza. Acho que ele vai esperar o casamento. Tímido, não é?
- Muito - ela não podia acreditar que realmente estavam tendo aquela conversa.
- Eu só liguei para contar essa coincidência incrível e dizer que ele é um fofo, filha, amei ele. Jantamos todos juntos e pude o conhecer. Estou realmente feliz por você.
- Mãe...
- Não adianta negar, , ele me disse que vocês não são apenas amigos. Espero que a próxima vez em que eu ver vocês dois, seja em um almoço de família.
- Claro, vamos sim - tentou descontrair, mas sentia o estômago revirar de tamanha ansiedade. - Mas, pra isso, ele precisa me pedir em namoro, certo?
- Acho que vai acontecer mais rápido do que você pensa, filha - Lizzy riu, mas antes que pudesse perguntar algo, ela se despediu. - Boa noite, meu amor, te amo!

Lizzy desligou e precisou de mais alguns segundos para processar. Já fazia uns bons anos que não apresentava ninguém para os pais e não esperava fazer tão cedo, mas aparentemente o destino estava dando uma forcinha para os dois. Era bom saber que sua mãe havia gostado de , mas pensou em como ele provavelmente se sentiu desconfortável e desprevenido com o acontecimento, o que ela pensou que talvez tivesse sido divertido e que ela gostaria de ter visto.

Nem foi preciso esperar muito para ter um sinal de vida de , pois foi afastada de seus pensamentos quando chegou uma mensagem dele. Ela riu ao ver o conteúdo, imaginando que ele pensou ao menos dez vezes antes de contar pra ela, mas fazer uma piada com isso parecia ser mais arriscado ainda.

"Já estamos na fase de sermos apresentados aos pais um do outro?”
"Eu conheci a sua mãe”
"EU NÃO ESPERAVA POR ISSO”


gargalhou conforme as outras mensagens chegaram, queria poder ter visto a cena mais do que tudo. Sua mãe era uma pessoa fácil de agradar, então tinha certeza de que não precisou se esforçar para ser adorável e encantar Lizzy. E ele não só enviou as mensagens, como logo em seguida chegou uma foto dos três juntos, estando no meio das duas com toda a sua altura. realmente não esperava por aquilo, mas não podia negar que estava adorando.

"As notícias correm rápido na minha família. Não se preocupe, ela amou você ❤️”

Ela enviou a mensagem com um sorrisinho bobo no rosto, mas tratou de corrigir a postura logo em seguida. Era uma mulher adulta, tinha que agir como tal, e não como uma adolescente apaixonadinha. Ela achava que já tinha passado dessa idade há muito tempo.

- Ora, ora, ora.
- Que susto, Damon! - se virou para o rapaz que estava parado na entrada do corredor com um sorriso divertido nos lábios. - Não tem graça.
- Nem adianta disfarçar, eu vi o sorrisinho.
- Não sei do que você está falando - ela cruzou os braços para parecer mais segura ao falar.
- Você sabe que eu gosto de implicar com as pessoas, não é?
- Tenho pena do .
- Às vezes eu também tenho, não é muito fácil me aguentar - Damon riu de si mesmo ao dar de ombros. - De qualquer forma, só estou brincando com você, espero que saiba. Eu acho que vocês podem dar certo, está muito feliz, eu sinto isso.
- Você sente? Você é algum tipo de médium ou algo assim?
- Gêmeos são interligados, . Todo mundo tem o seu carma, e o meu é ter dividido o útero com o - ele riu e cruzou os braços também para dar continuidade. - Eu sinto as emoções ele, ele sente as minhas. É uma história muito longa, então vou pular a parte que não importa, mas resumidamente: nossa mãe passou por um relacionamento abusivo antes de nos ter, esse cara tinha um irmão que era amigo dela, e até hoje é, quando éramos crianças costumávamos chamar ele de tio Ryan. Houve um dia em que minha mãe convidou o Ryan para um almoço de domingo e ele aceitou e se ofereceu para fazer as compras, quis ir junto e ele deixou, tínhamos uns oito ou nove anos na época. Eles estavam demorando e eu comecei a ficar muito mal, mas não sabia explicar direito, meu pai ligou para o Ryan e ele não atendeu. Eu não sei explicar, mas eu senti que tinha acontecido alguma coisa ruim, fiquei com muito medo... Eles tinham batido o carro, o air bag do não funcionou, Ryan colocou o braço na frente e se machucou feio, quebrou. De qualquer forma, poderia morrer pelo choque do air bag em uma criança ou pelo impacto da batida, mas como Ryan fez isso, ele saiu ileso, só com alguns machucados leves. Depois, ele me contou que sentiu medo, porque o Ryan apagou e ele não conseguia se mexer, mas contou exatamente tudo o que eu senti. Eu sei que é bizarro, mas eu realmente senti e nunca vou esquecer, a maioria das pessoas não entende, mas sempre foi assim. Então sim, eu sinto as emoções do meu irmão.
- Isso é bem... Profundo, não para não dizer bizarro, tenho que admitir.
- E, sendo assim, eu sinto a felicidade dele ultimamente. Ele está muito feliz.

procurou na feição de Damon algum sinal de que ele só estava brincando como sempre, mas ele parecia bem convicto do que estava falando. Obviamente, não contaria uma história tão chocante se não fosse verdade, então, achou que não tinha motivos para desconfiar dele.

- , ele gosta mesmo de você - Damon continuou quando percebeu que ela não iria dizer nada. - Eu não brincaria com uma coisa tão séria.
- Eu sei - encarou por um momento as botas impecavelmente limpas dele. - É recíproco, Dam.
- É claro que é - ele sorriu de canto, o que fez ela sorrir também. - Agora, é melhor voltar para a cozinha antes que eu volte a infernizar a sua vida.
- Eu sabia que não ia durar muito - riu e rolou os olhos. - Você é patético, Jones.
- Vai se acostumando, vai me ver muito ainda.
- Deus tenha piedade de mim - ela disse ao passar por ele, voltando pra cozinha e ele foi logo atrás.

Quando chegaram na cozinha, era como se não estivessem ali antes. Jake e Katie seguravam algumas fotos que mostravam para Thomas e Diana. imaginou que se tratava da infância deles, já que se lembrava de mencionarem que eram próximos quando crianças.
- Eu quero ver isso! - pegou uma foto da mão de Jake, ele ia protestar mas ela o ignorou. - Ah, que coisa linda! Jake, olha como você era gordinho e fofo! E essas duas cópias aqui…

A foto em questão era com Jake, e Damon, os gêmeos provavelmente na casa dos cinco anos, enquanto Jake era um pouquinho mais velho e vestia o uniforme da seleção da Inglaterra; já os gêmeos estavam vestidos iguais, com a mesma camisa que Jake usava. Os três estavam abraçados e se perguntava o motivo de aqueles três adultos serem tão distantes dos três meninos sorridentes naquela fotografia.

- Eu lembro desse dia, era um amistoso ou algo assim - Damon olhou para a foto e sorriu nostálgico. - Jake chorou porque a Inglaterra perdeu, fomos brincar com ele e a tia Sarah tirou essa foto.
- Eu posso imaginar o Jake chorando por causa de futebol até hoje.
- Não é só futebol!!! - Jake retrucou ofendido, fazendo com que risse ainda mais dele.
- É a primeira vez que não sei distinguir os dois, estão idênticos aqui.
- Assim você me insulta, . Sou o da direita, é o que está quase caindo - Damon apontou para os dois, tinha certeza do que estava falando.

Por ser uma foto espontânea, Jake estava rindo com os olhos vermelhos de chorar, Damon também ria ao olhar na direção do primo enquanto realmente parecia que estava prestes a cair, pois olhava na direção do chão, embora estivesse rindo também. focou nele por um instante, achando que ele era uma criança adorável e não tinha mudado muita coisa. Ainda tinha o mesmo sorriso e espremias os olhos para gargalhar. Ela não podia encontrar nenhum defeito.

Thomas pegou uma fotografia também, na qual Katie e Jake estavam com duas meninas, que ele automaticamente reconheceu como Louise e Diana. Louise fazia uma careta divertida ao mostrar a língua para a câmera, mas Diana estava do outro lado da fotografia, quase afastada das outras crianças e não sorria, apenas como se estivesse obrigada a ficar ali imóvel. Ela parecia um pouco abatida e usava um lenço cobrindo sua cabeça. Thomas tentou não demonstrar, mas sentiu que tinha algo de errado, não parecia a mesma pessoa que estava ali na sua frente naquele exato momento. Diana estava distraída conversando com Katie, mas percebeu que Thomas olhava para ela, então resolveu dar atenção para ele, indo ver a fotografia também. Seu sorriso se desmanchou, ela se lembrava muito bem daquela época e odiava reviver aquilo.

- É você? - Thomas perguntou, mas se arrependeu logo em seguida por perceber que era uma pergunta retórica.
- Sim - Diana respondeu naturalmente. - Sou eu.

Ele não sabia exatamente o que dizer ou se deveria perguntar, mas não teve tempo de escolher um ou outro, pois Diana deixou a cozinha alegando que ia ver se Clara estava bem, mesmo com Damon garantindo que estava. Katie, ao ver a foto que Thomas pegou, percebeu imediatamente o que era, mas achou melhor não dizer nada, pois não achava certo expor algo que Diana preferia guardar.

- Vamos comer? A pizza já deve estar gelada - ela começou a guardar todas as fotos, tendo ajuda de Damon.
- Talvez agora a não arranque a minha mão.
- Talvez eu arranque.
- Vou lavar as mãos - Thomas deu um passo para trás, mas Jake se virou pra ele rindo.
- Sério, Tom?
- Força da profissão - ele deu de ombros e deixou a cozinha, mas mudou o caminho e foi até a sala.

Diana estava se certificando de que Clara havia dormido, então desligou a TV, só então percebeu que Thomas estava ali.

- Já pode comer - ele avisou e ela concordou com a cabeça, mas Thomas sentiu que precisava perguntar. - Ana, o que aconteceu?
- Eu tive leucemia - Diana respondeu de uma vez, o pegando de surpresa. - Leucemia Linfoide Aguda Philadelphia.
- O risco maior é em adultos - ele completou, seus conhecimentos em oncologia eram limitados.
- Por isso estou viva - Diana sorriu sem humor. - Eu não era uma criança cheia de autoestima e vontade de viver, deu pra perceber na foto que isso me incomoda.
- Não precisa me contar, Ana, eu entendo - Thomas disse com sinceridade, não queria invadir o espaço dela. - Eu respeito o seu espaço.
- Eu sei - e de fato Diana sabia, era como se ele já tivesse dito aquilo antes. - Obrigada.

Thomas sorriu em agradecimento e os dois voltaram juntos para a sala para dar continuidade à noite de sexta-feira.

Capítulo betado por Madô



Capítulo 13 - Surrender

Aberdeen, Escócia. Fevereiro de 1848
A catedral de Saint Nicholas estava cheia naquele domingo de manhã. O Bispo John recitava a citação bíblica sobre a Última Ceia para os seus fiéis que ouviam atentamente (ou quase todos). , que ouvia com atenção o sermão enquanto a sua mão passava pela sua barriga já visível de seis meses de gestação, olhou de relance para o seu marido e parecia estar ouvindo também. Ao lado dele, Damon e Charlotte como sempre estavam comparecendo apenas para não serem mal vistos pelos moradores locais, a pequena Clara no colo do pai também não parecia que realmente gostaria de estar ali. No banco de trás, Louise sorriu quando a mão de William encontrou a dela sorrateiramente, ele não via a hora de ir para casa e poder estar a sós com a mulher por quem estava perdidamente apaixonado e podia chamar de esposa, enquanto ao lado deles, Thomas e Diana ouviam com atenção, mas em suas cabeças tinham questionamentos que não batiam com o que era recitado pelo homem de idade avançada. Por mais que fossem quatro casais diferentes, todos eles tinham algum em comum: aquele homem velho e corcunda tinha algo estranhamente familiar e, hora ou outra, tinham certeza que ele se dirigia exclusivamente para aqueles dois bancos em questão.
Nos bancos do outro lado da catedral, um rapaz de cabelos pretos e pele clara estava sentado no primeiro banco e parecia mais à vontade do que qualquer um ali. Ele já tinha ouvido aquele sermão pelo menos quinhentas vezes; era o preferido do Bispo e ele sabia disso. Não que fosse um homem religioso, mas também não era nem um pouco das trevas, apenas sabia que deveria estar ali, afinal, era como se aqueles jovens precisassem de uma babá para continuarem no caminho certo para quebrar aquela maldição de vez. Ele pensou que estava tudo bem, afinal, estavam todos casados e felizes, não tinha muito com o que se preocupar já que Carter e Lucinda estavam fora da vista há algum tempo. Tudo estava perfeitamente bem.
Ao final, ele observou os quatro casais se levantando um por um para irem embora. Riu pela forma preocupada que tratava a sua esposa sempre que ela levava a mão à barriga, como se o bebê fosse nascer a qualquer momento, mas parecia tranquila e feliz, o que ele sabia que era ótimo para que tudo terminasse bem. Diana, ao se levantar, notou que ele estava ali e acenou para ele, que acenou de volta. Ele estava feliz por ela, provavelmente era a pessoa que ele mais gostava dentre todos ali, sabia que ela sempre estaria destinada a estar com Thomas e cabia a ele cuidar para que fosse exatamente assim.
Ele esperou a catedral esvaziar, o que não demorou muito, e ao final de alguns minutos se viu sozinho com o Bispo. Arrumou a postura quando percebeu que ele tinha algo sério pra falar.
- Não me olhe assim - pediu ao sentir o olhar do homem pesando sobre ele. - Estão todos bem.
- Está tudo muito quieto, não é bom - o Bispo desceu do altar e se aproximou do banco em passos lentos. – Carter e Lucinda não desaparecem simplesmente.
- O que é ótimo! Significa que dessa vez, vai dar tudo certo! - ele se levantou. - Não se preocupe, tudo dará certo.
- Não, não é tão simples assim, você está falando do criador da maldição, ele não deixaria tudo tão fácil - o Bispo andava em círculos completamente imerso nos seus pensamentos, mas de repente parou. - O bebê.
- O que tem o bebê?
- Eu soube que é uma gravidez de risco.
- Ela pode sobreviver. Se ela sobreviver...
- A maldição será rompida - John olhou para o rapaz. - Se ela morrer, terão só mais uma chance, Jesse.
- Mesmo que ela morra, o senhor disse que ainda terão mais uma chance. Está tudo bem, vamos fazer de tudo para que ela viva, e caso ela não resista, não se preocupe, eu estarei na próxima vida garantindo que tudo ficará bem. O senhor já sabe onde vai reencarnar? Você sabe, já está com uma idade avançada.
- Espero que longe de você - o homem respondeu por fim e Jesse riu, deixando a igreja logo em seguida.

...

Julho de 2019
William abriu os olhos devagar, precisando de alguns segundos para se situar e perceber que aquele quarto escuro não era seu. Não era de se espantar, ele andava dormindo por ali algumas vezes nos últimos dias. Olhou para o lado e viu que Louise não estava lá, então decidiu que se levantar seria melhor do que esperar ela voltar. Pegou suas roupas no chão e se vestiu rapidamente para então deixar o cômodo. Nem precisou procurar por Louise, a música do The Hoobastank vinda da cozinha indicava que ela estava lá, e quando chegou percebeu que ela estava preparando o café da manhã enquanto cantava animadamente, fazendo-o rir.
- Era minha vez de preparar o café hoje - ele disse ao entrar na cozinha, fazendo com que Louise olhasse pra ele.
- Você dorme demais, Will, morreríamos de fome - ela sorriu e ele concordou, sabia que ela tinha razão. - Além disso, eu não podia acordar tarde, tenho alguns compromissos hoje.
- Imagino que cuidar da carreira do não seja tão simples assim.
- Não é sobre o , um amigo chegou ontem na cidade com a banda dele, vão dar início a parte britânica da turnê, queria ir vê-lo.
- Ah, isso é legal. Qual é o nome da banda?
- The Sidewalk - Louise respondeu à pergunta com naturalidade, mas William arregalou os olhos quando pareceu finalmente acordar. - O que foi?
- Está brincando! É sério?
- É muito sério - Louise riu da expressão surpresa dele como a de qualquer pessoa. - Jesse é um amigo de longa data, e no caso da Diana é mais do que amigo.
- Ah, meu Deus - William torceu o nariz quando entendeu o que ela quis dizer. - Eu não consigo imaginar a Diana com alguém tão diferente dela, é sério.
- Jesse é uma das melhores pessoas que eu conheço e foi ótimo para a Diana, ainda são bons amigos. Nunca vi a Diana tão feliz quanto o tempo em que eram um casal.
- Isso é realmente impressionante, mas eu fico feliz por ela. Tom que se cuide - William riu ao se lembrar do irmão, mas percebeu que pela feição de Louise, ela não entendeu. - Ah... É que... Eles são amigos, não é? E combinam com essa coisa de ciência e tals...
- Acho que Diana nunca me contou nada sobre ele.
- Vocês não são como os meninos, não é?
- Como assim, Will? - Louise se virou parar mexer o bacon fritando na panela.
- Os gêmeos. Eles parecem ser bem unidos, praticamente inseparáveis pelo pouco que sei deles.
- É verdade, eles são mesmo. Eles brigam o tempo inteiro e sempre é um querendo mandar no outro, mas é pura implicância de irmãos, eles não vivem um sem o outro, é assim desde sempre.
- E você e a Diana?
Por ela estar de costas, William não viu que Louise pareceu entrar em um transe por um instante. Ela desligou o fogo e se virou para ele. William percebeu que a feição dela havia mudado um pouco e Louise parecia um pouco chateada.
- Eu amo a minha irmã mais do que tudo e mataria quem tentasse fazer mal a ela.
- Mas...
- Mas coisas acontecem, Will - ela se encostou no balcão e cruzou os braços. - Pessoas se afastam e está tudo bem. Não tivemos uma infância como a das outras crianças, nenhum de nós quatro, os meninos se uniram ainda mais, mas nós não tivemos a mesma oportunidade.
- Eu sinto muito, Lou - William não sabia o que dizer, era triste saber que em algum momento da vida elas se afastaram. - Seria grosseria minha perguntar o motivo?
- Eu conto, mas você não pode contar para ninguém, nem pra Diana.
- Não vou contar.
- Diana foi diagnosticada com Leucemia aos seis anos de idade e isso mudou a nossa vida pra sempre. É claro que eu entendia que ela poderia morrer e que ela precisava de toda a atenção dos nossos pais, mas quando se tem seis anos, é inevitável não se sentir deixada de lado.
William continuava sem palavras, aquilo era cruel demais para se assimilar de uma vez só. Fosse pelo que aconteceu com Diana ou a forma como Louise se sentiu, ela não merecia aquilo. Não podia imaginar como uma garotinha aprendeu a lidar com a solidão tão cedo e tão bruscamente.
- Eu não tenho rancor de ninguém, não tem motivo para ter, eu amo a minha família e vivo por eles, mas depois que ela se curou, nunca mais foi a mesma coisa. Eu mudei, a Diana mudou... Mas é a vida, não posso desejar ter a mesma ligação que os meninos tem, eu sei que não dá mais.
- Eu sinto muito mesmo, eu não sei nem o que dizer.
- Está tudo bem, Will, não sinta - Louise sorriu na tentativa de acalmá-lo. - Como eu falei, eu não guardo mágoas de ninguém, amo a minha família e é o que importa.
William foi até Louise e a abraçou. Ele sabia como ela se sentia, sabia como era se sentir sozinho, deixado de lado e menos importante do que os seus irmãos. Não podia imaginar o que ela passou, mas conhecia a sensação. Se pudesse apagar aquilo da memória dela, com certeza o faria.
- Eu sei como é se sentir sozinho - ele disse ao se afastar, passando as mãos carinhosamente pelo rosto dela. - Mas isso é história para outro dia, agora só quero que você se sinta melhor.
- Já estou, Will - Louise colocou sua mão sobre a dele e sorriu. - Obrigada.
- Eu beijaria você, mas ainda não escovei os dentes.
- Então trata de ir pra casa, escovar os dentes e vestir uma roupa bonita, você vai comigo para ver o Jesse.
- E-eu?
- Sim, você mesmo. Não se preocupa, ele não morde. Diana vai junto, então trata de melhorar essa cara de tristeza.

...

O café da manhã no apartamento de normalmente era movimentado. Ela estava sempre atrasada para ir ao trabalho, além de sempre ter algum assunto para tratar com William, mas naquele dia tudo estava muito silencioso. Ela e Thomas comiam em silêncio, ambos com seus próprios pensamentos no dia anterior e enquanto se lembrava da ligação de sua mãe, Thomas não parava de pensar no que Diana lhe contou e ele se sentia péssimo; tinha a impressão de ter soado invasivo quando ela claramente estava incomodada por se abrir sobre um assunto delicado. Gostaria de poder se desculpar sem parecer insistente.
O silêncio só foi interrompido quando William e Louise entraram pela porta da frente. Ele estava com pressa e esbaforido, sem dizer que estava murmurando sozinho, o que despertou a atenção dos irmãos mais velhos e fez Louise gargalhar.
- Aconteceu algo? - Thomas perguntou, só então William percebeu que ele estava ali.
- Oi, Lou. Bom dia. - cumprimentou.
- Bom dia, pessoal! - Louise respondeu alegremente. - Como podem ver, Will está no meio de um surto.
- Louise, você não pode simplesmente mandar eu me vestir porque vou conhecer o Jesse Birdwhistle! Eu nem sei o que vestir!
- Eu já te disse, o Jesse não morde. Não se preocupa, você estará lindo de qualquer forma - ela sorriu pra ele e William foi em direção ao seu quarto para procurar uma roupa.
Louise nunca esteve ali e também nunca ficou sozinha na companhia da família de William. Era estranho, de repente ela se sentiu tímida por estar a sós com e Thomas, que pareciam bem confusos com o que estava acontecendo, então decidiu se explicar.
- Conhecem The Sidewalk? - perguntou e os outros dois concordaram. - Jesse é um amigo de longa data, está na cidade para alguns shows pelo país. Como hoje não tem compromissos, vamos almoçar juntos e a Diana vai também. Convidei o Will, mas não sabia que ele ia ficar tão... emocionado.
- Talvez ele desmaie durante o almoço, mas é só jogar um pouco de água na cara dele que resolve - respondeu bem-humorada, fazendo Louise rir enquanto concordava. - Faz tempo que não te vejo, Lou, está meio sumida.
- Sumida, sim, porém estou de olho em todos vocês - Louise riu e deu uma piscadinha para ela. - As notícias correm rápido na família.
- Ah... - entendeu do que se tratava. - Ele disse, não é?
- Não exatamente, mas eu adivinhei. Nem preciso dizer o quanto estou feliz.
- Acho que todos estão.
- Não, , eu realmente estou feliz. Qualquer dia eu te conto a história inteira, mas posso dormir em paz sabendo que finalmente o acertou alguma coisa na vida.
- Por que tenho a impressão de que às vezes estou me metendo numa furada?
- Não está, eu juro! Mas é melhor que ele mesmo conte as cagadas que já fez.
Louise mudou rapidamente de assunto, voltando a falar sobre sua amizade com Jesse até que William voltasse. Estava todo de preto, o que fez Louise rir, ele realmente estava levando a situação muito a sério, como se Jesse fosse o primeiro ministro britânico ou algo assim. Não podia negar que estava achando adorável.
- Como estou?
- Como se estivesse perto de encontrar com um astro do rock - ela riu. - Está ótimo, Will. Vamos, ainda tenho que buscar a Diana.
- Se divirta, Will, não fique tão paranoico.
- É, ou vai assustar o rapaz - Thomas completou a fala de e os dois riram. William apenas revirou os olhos.
- Vamos, Lou, ou eles não vão me deixar em paz.
- Tchau, pessoal, foi um prazer!
Eles se despediram e foram embora. e Thomas se entreolharam, provavelmente pensando a mesma coisa.
- Há quanto tempo estão juntos? - ele perguntou.
- Menos do que você imagina. Estão indo rápido demais - se levantou, pegou seu prato e foi colocar na lavadora.
- Eu percebi, mas não é nenhuma surpresa, sabemos como o Will se joga de cabeça nas coisas. Espero que dessa vez dê certo.
- Eu também...

...

Jesse estava tão acostumado com a sua insana rotina que estar sozinho era, no mínimo, estranho. Estava sempre cercado de pessoas, mas estar sentado sozinho naquela mesa de restaurante de hotel apenas esperando Louise e Diana era angustiante. Já fazia algum tempo que não via as meninas e sabia que estava errado em não buscar notícias desde então, mas imaginou que tudo estivesse bem, caso contrário ele já saberia.
Então ele as avistou chegando, mas para sua surpresa não estavam sozinhas. Reconheceu o rapaz que vinha entre as duas, aquele que não via há 170 anos. Claro que não era o William vitoriano que ele conheceu, mas ainda assim era o mesmo de antes; porém com roupas do século vinte e um. Anos antes, quando conheceu Luce e Charlotte, as ex namoradas dos gêmeos, ali ele já soube que algo estava para acontecer, mas teve certeza quando viu William, entendendo que agora estava muito mais perto e ele precisava se apressar e descobrir um pouco mais sobre aquela nova versão.
Diana foi a primeira a encontrar Jesse ali. Apressou o passo para chegar mais rápido e Jesse a recebeu de braços abertos em um abraço caloroso. Poderia passar séculos, mas Diana sempre seria a sua favorita.
Sempre seria a sua garota, mesmo que estivesse destinada a outro homem.
- Está ótima, Baby Ruiva - ele disse ao se afastarem e Diana sorriu.
- Você também, Jess.
- Jesse, você está horrível - Louise se aproximou logo em seguida com William. - O que você passou no cabelo?
- Descolorante - Jesse passou a mão pelos cabelos descoloridos e riu. - Lou sempre tão direta, doce como um limão.
- Também senti sua falta, fofinho - Louise mandou um beijo no ar na direção dele, que fingiu pegar.
- Vejo que trouxeram um amigo? - Jesse se virou para William que parecia estar congelado ali. - Oi, sou o Jesse.
- William - ele respondeu brevemente com um aperto de mão rápido.
Não durou mais do que três segundos, mas William se viu sentado em banco de uma igreja antiga. Olhou para o lado e viu Jesse lá, antes de ser puxado de volta para a realidade. Jesse observou a reação dele, sabia que William tinha visto algo, mas sabia que ainda não era o momento de testar a memória do garoto que parecia mais jovem do que ele se lembrava.
- É um prazer te conhecer, William. Vamos nos sentar? Temos tanta coisa pra conversar!
Os quatro se sentaram e Jesse sinalizou para que uma garçonete viesse anotar os pedidos deles, logo em seguida ele próprio começou a puxar assunto. Ele sabia que tinha muito com o que se atualizar.
- Ana, Lou me disse que você vai para Oxford em setembro.
- Recebi uma bolsa de estudos e a proposta de dar continuidade à minha pesquisa remunerada, finalmente vou me formar - Diana riu, estava ansiosa para voltar às aulas.
- Tenho certeza de que você vai se sair muito bem, ruiva - ele sorriu para ela e depois se virou para William. - E você? É amigo da Lou?
- Eu não o traria aqui se fosse só meu amigo, Jess - Louise pontuou, pegando a mão de William por debaixo da mesa.
- Vocês namoram?
- Não exatamente, mas quem sabe um dia - ela olhou para William que apenas concordou com a cabeça.
- Então eu me sinto na obrigação de te conhecer melhor, William - olhou diretamente para William que se encolheu um pouco na cadeira. - Você tem irmãos?
- Tenho três.
Uma interrogação surgiu na cabeça de Jesse. Ele deveria ter apenas dois como em sua primeira vida, mas não teve tempo de imaginar, pois Louise se intrometeu na conversa.
- Mas que porra de pergunta é essa, Birdwhistle?
- Baby Ruiva número dois, eu preciso começar por algum lugar, não é? - Jesse sorriu para ela e Louise fez uma careta em resposta. - Quero a ficha completa dos três, preciso conhecer toda a sua genealogia.
- Jesse, você vai assustar ele - Diana riu, mas Jesse não se importava se iria assustar ou não. Poderia estar falando em tom de brincadeira, mas era tudo verdade.
- É a intenção, Ana.
- Hum... bom... Tem o Thomas que é médico, a que é professora de história e o Carter, mas ele não mora aqui e é só meu meio irmão, temos mães diferentes.
O sorriso de Jesse se desmanchou no mesmo instante. Não fazia muito sentido pra ele, aquilo não tinha acontecido em nenhuma vida. Carter e Lucinda sempre voltaram como pessoas sem grau de parentesco, tanto é que ele não chegou a conhecê-los de tão rápida que foi a passagem dos dois pelas vidas de todos, simplesmente não tinha nexo justamente nessa vida terem parentesco. E se ele não morava na Inglaterra, então onde morava?
- Família grande, legal - ele tentou relaxar na cadeira para não demonstrar que estava um pouco tenso. - Onde ele mora?
- Para de ficar perguntando da vida dele, queremos saber de você - Louise entrou na conversa, apoiando os cotovelos sobre a mesa. - Está fazendo o que além de estragar o cabelo?
- Shows, muitos shows. Você sabe como é a minha vida, Lou, é uma loucura sem tamanho, mas parece que ultimamente o universo está conspirando para fazer dar tudo errado. Acredita que o cantor que faria a abertura da turnê no resto da Europa contraiu gripe suína? Quem ainda pega essa gripe hoje em dia?
- Aparentemente ele. Sinto muito, Jess, mas vocês vão achar alguém em breve.
- Tomara que sim, Ana, mas até agora não encontramos alguém que realmente gostamos. Estou começando a ficar irritado com isso.
- Eu conheço alguém - Louise se tornou o centro das atenções na mesa. Sabia que poderia dar errado, mas não via problema em arriscar.
- Lou, eu faço qualquer coisa para você me levar até essa pessoa. Quem é?
- Como sou uma lady misericordiosa, Jesse, não vou pedir nada em troca. Ele está bem aqui, diante dos nossos olhos - ela olhou para William que franziu o cenho.
- Eu?
- Jesse, ele gravou um cover pra mim! Você precisa ouvir!
- Então você é músico, Will?
- Não sou músico, eu só toco por diversão - William estava quase sem ar ao responder.
- E é absurdamente talentoso! - Louise pegou seu celular e procurou pela música que William enviou pra ela semanas antes, entregando o celular para Jesse em seguida.
William sentia como se fosse desmaiar a qualquer minuto. Era ruim o suficiente ouvir sua voz gravada, mas cantar para alguém que entendia de música parecia ser mil vezes pior. Ele não se sentia bom o suficiente e digno de tamanha atenção, ser um astro da música já não era mais um sonho e tocar era só um passatempo relaxante. Se arrependeu de ter feito aquele cover e imaginou que Jesse iria odiar. Ele tinha cara de quem falaria sem papas na língua.
- Que foda! - o músico disse admirado enquanto ainda ouvia a gravação. - Cara, você é muito bom!
- Também estou impressionada, Will - Diana sorriu para ele. - Escondeu esse talento o tempo inteiro?
- Ele é ótimo, eu disse! É ou não é o próximo John Mayer?
- Se depender de mim, sim. Will, quero fazer um teste com você amanhã, deixa seu telefone comigo que vou te ligar ainda hoje.
- Quê? - William estava incrédulo, mas Jesse não percebeu, estava extasiado com o que ouvia, além de ser uma ótima oportunidade para conhecer melhor o garoto e se aproximar dele.
- Você tem talento, dá pra perceber. Por mim, te levaria comigo agora mesmo, mas preciso de toda uma aprovação. Não se preocupe, eu posso fazer a coisa funcionar. Você tem empresário?
- Não!
- Claro que tem! Estou bem aqui - Louise corrigiu a postura, fingindo estar em uma reunião importante. - Louise Jones, empresária e assessora. Muito prazer, senhor.
- E como você vai administrar duas carreiras tão diferentes ao mesmo tempo, senhorita Jones? - Jesse entrou no personagem. Louise riu com ar de impaciência.
- Posso fazer muitas coisas ao mesmo tempo.
- Então tudo bem. Will, será um prazer trabalhar com você.
- E-eu não tenho nenhuma música minha - William estava tremendo e começando a suar frio, torcendo para ser alguma pegadinha.
- Não é um problema, vamos trabalhar nisso também. Relaxa, cara, vai dar tudo certo. Hoje mesmo eu te dou uma resposta, só preciso desse áudio na minha mesa agora mesmo.
- Parabéns, Will, agora você tem um emprego. Será um prazer administrar a sua carreira.
- Boa sorte, Will, Lou é bem exigente. é a prova viva disso - Diana comentou e Louise concordou rindo.
- Eu pego no pé dele, mas é por uma boa causa. Vou fazer o mesmo com você, se prepare para o salto que sua vida vai dar, baby.

...

- Está se divertindo? - perguntou ao trocar de posição no sofá para ficar mais confortável, deixando o celular bem na frente do seu rosto.
- Hoje foi legal, minha mãe passou a tarde toda em uma sessão de autógrafos. Foi divertido, já fazia tempo que eu não participava de uma - respondeu. Estavam em uma chamada de vídeo para poderem se ver.
- Deve ser uma loucura, a mão deve cair de tanto escrever.
- A gente aprende a ser ambidestro quando isso acontece - ele disse divertido, a fazendo rir junto. - O pior é que eu gosto desse caos todo. Me sinto vivo.
- É claro que sim, é o que você escolheu pra sua vida. Me sinto assim na sala de aula, todo início de ano letivo dá aquele frio na barriga pra conhecer meus novos alunos.
- Está com saudades da escola?
- Muita! Não vejo a hora de voltar a trabalhar. Esse ano não viajei, não fiz nada, me sinto como em Phineas e Ferb. São três meses de férias que não passam nunca.
- Quando eu voltar, vamos fazer algumas coisas para passar o tempo. O que você acha?
- E o que isso inclui?
- Eu não sei, é o que você quiser. Uma maratona de Harry Potter talvez?
- Vou adorar! Alguns programas ao ar livre também cairiam bem - sorriu, a ideia era empolgante.
- Está certo. Eu vou pensar em alguma coisa legal - sorriu também.
Só tinham se passado alguns dias, mas sentia falta de estar com ele pessoalmente, por chamada de vídeo não era a mesma coisa. Ela se sentia patética por sentir falta de passar horas conversando cara a cara com ele, e sentia falta também de como ele abria os braços para recebe-la com um abraço. Queria que aquelas três semanas passassem o mais rápido possível para que ele voltasse logo.
- O que foi, ? - perguntou ao perceber que ela parecia estar pensando em algo.
- Nada não.
- Está pensando em alguma coisa, não é?
- Ah, eu não quero ter que dizer isso agora - ela riu e olhou para os lados, tendo certeza de que ninguém estava ouvindo a conversa dela, mas não tinha como, já que estava sozinha. - É muito cedo ainda.
- Agora eu quero ouvir. Diz, estou curioso.
- Não força, ... - continuava rindo, mas apenas para esconder seu nervosismo.
- , acho que a gente pode falar o que pensa um pro outro. Se você me contar, eu conto alguma coisa também. - ele parecia confiante de um jeito novo e ela gostou da proposta.
- Não acredito que vou dizer isso, mas talvez, só talvez, eu esteja com saudades - ela pensou que a tela estava congelada por um instante, mas logo em seguida abriu um largo sorriso. - Era isso, agora é a sua vez.
- Hum... Bom, eu ia dizer a mesma coisa. A primeira coisa que vou fazer quando voltar, será ir te ver.
- Por favor, eu vou querer muito - disse com toda a sinceridade, ela queria mesmo. - Fazia muito tempo que eu não dizia isso pra alguém, é até estranho ser correspondida.
- Já falei que acho que você está mentindo pra mim. É impossível não gostar de você, , estou rendido, é sério.
- Ai, não fala assim, eu nunca sei como responder um elogio - ela riu enquanto passava a mão livre pelo rosto, desviando o olhar da tela por um instante.
- E você acha que pra mim é fácil dizer tudo isso? Queria ter um superpoder no qual eu estralo os dedos e posso fazer uma mulher se apaixonar por mim.
- Você pode tentar agora... Se bem que no meu caso... Eu acho que não vai precisar - ela mordeu os lábios. - Desculpa, acho que também estou rendida.
Um silêncio pairou entre os dois, mas não era um silêncio ruim, era como se estivessem um na presença do outro. se sentiu bem ao colocar para fora o que estava guardando. Depois de ouvir de tantas pessoas que gostava verdadeiramente dela, pensou que talvez ela mesma deveria contar antes dos outros, embora ele já soubesse.
- Você ainda tem dúvidas de que possa dar certo? - ela perguntou após alguns segundos que pareceram durar uma eternidade.
- Estava preocupado por ser cedo demais, mas... Não, acho que não tenho mais nenhuma dúvida.
- Vão ser semanas bem longas.
- Eu sei, mas vai valer a pena quando eu voltar, eu prometo.
- Com certeza vai.
Eles continuaram conversando por um bom tempo até precisar desligar, mas continuou deitada no sofá por bastante tempo; se sentia com dezesseis anos outra vez. Não podia pôr em palavras como estava se sentindo bem, estava feliz consigo mesma por não ter se privado de conhecer alguém que fosse tão bom para ela. estava obtendo êxito em levantar a autoestima dela não só fisicamente, mas em geral. Ela estava mais feliz e mais confiante também, tudo porque ele estava lhe dando a segurança necessária para que ela pudesse mostrar para as pessoas quem realmente era.
estava tão imersa em seus pensamentos que se quer notou que William havia acabado de chegar. Ele ficou fora o dia todo, mas ela já estava se acostumando com isso, já que ele estava dedicando boa parte do tempo a estar com Louise.
- Está viajando na maionese, não é? - ele riu ao notar a forma que ela estava deitada, então despertou.
- Onde você estava, Will? Passou o dia todo fora de novo.
- Você não vai acreditar no que aconteceu comigo - ele pediu espaço no sofá e se sentou ao lado dela quando ela se ajeitou.
- Ganhou na loteria?
- Ganhei, quase que literalmente - William riu, ainda estava processando tudo. - Durante o almoço com o Jesse, ele disse que o cantor que abriria os shows do resto da Europa ficou doente, estavam sem um número de abertura. Na minha frente, Louise falou sobre mim e mostrou pra ele aquele cover que eu fiz. Jesse adorou, disse que gostaria que fosse eu a abrir os shows. Pediu a música e garantiu que ainda hoje me daria uma resposta para fazer um teste amanhã.
- Will, isso é incrível!
- Foi bem legal - William sorriu, mas notou que ele não estava totalmente feliz.
- O que foi?
- E se der errado? Eu queria ir pra faculdade. E se depois eu não progredir? Não tenho nenhuma música minha. , eu não sou um artista.
- Will, me escuta. Um artista não é quem desfila roupas caras em um tapete vermelho ou estampa revistas de fofoca, um artista é quem faz arte. Você tem um dom, só vai precisar desenvolver um pouco mais. Não se preocupa, você vai conseguir, sim, tem muito potencial! Se o Jesse em pessoa gostou de você, já é parte do caminho andado. Pense em tudo o que você pode conquistar.
- Eu sei qual seria a primeira coisa que eu faria se desse certo.
- Se desse certo? Vai dar certo. Pense positivo... O que vai ser?
- Não posso contar, é uma surpresa pra você - William sentiu uma empolgação repentina. Se fosse para retribuir tudo o que fez por ele, então ele iria. - Quer saber? Vou tentar. Quero dizer, não vou estar sozinho, né? Vai ter toda uma equipe me apoiando.
- Exatamente! Assim que se fala - sorriu. - Estou muito feliz por você, Will, mas admito que vai ser bem solitário não ter você aqui.
- Ei, ei, ei! - Will colocou as mãos sobre os ombros dela. - Nada de pensar nisso, está bem? Eu vou voltar pra casa, não vou deixar você sozinha. Inclusive, posso até deixar o namorar com você para que você não fique sozinha.
- Obrigada pela permissão, eu realmente não faria se você não deixasse - ela riu enquanto secava a lágrima solitária que escorreu de seu olho. - Só quero que você vá e seja muito feliz.
abraçou o caçula, o pegando de surpresa, mas ele retribuiu. Estava orgulhosa, era um passo gigante, mesmo que isso custasse estar longe por uns bons meses, mas ainda assim era um sinal de que William estava crescendo e amadurecendo aos poucos.
O momento dos dois foi interrompido quando o celular dele tocou. Era de um número desconhecido, mas William sabia do que se tratava. Engoliu a seco e atendeu, sentindo um frio incomum na barriga.
- Alô?... Oi, Jesse... - ele olhou para que parecia tão aflita quanto ele. - O resto da banda também gostou? O que você quer dizer com todo mundo gostou? - Jesse listou desde os integrantes da banda até a gravadora, para a surpresa dele. - Ah... Que bom, eu fico muito feliz que tenham gostado de mim... Teste amanhã? Posso... Tudo bem então, eu vou com a Lou. Muito obrigado, Jesse, de verdade... Até amanhã.
William desligou e olhou para novamente. Ela pulou do sofá, erguendo os braços em comemoração, ele se levantou também e foi puxando-a novamente para um abraço apertado. Ver que estava tão feliz quanto ele, o motivou ainda mais a agarrar aquela oportunidade e nunca mais soltar.

...

A banda The Sidewalk havia sido criada em meados de 2008 na cidade de Boston, Massachusetts, por Jesse Birdwhistle e outros três rapazes, mas foi apenas em 2014 que a banda foi apresentada ao mundo, desde então Jesse viu a sua - longa - vida de pernas para o ar. Tinha que administrar uma banda, se apresentar e ficar de olho nos que já havia conhecido na época, os irmãos Jones, mas agora ele sentia que tudo estava muito perto de acontecer e ele teria que vigiar mais de perto. Por isso, decidiu contar tudo o que descobriu, ao seu velho amigo e parceiro, do que ele chamava de "a fantástica saga de dois adolescentes irresponsáveis e suas vidas subsequentes." Jesse havia se juntado ao padre John em 1787 quando ele próprio ainda tinha o desejo de ser padre também. Claramente a situação havia mudado.
- Você está um pouco mudado desde a última vez que te vi, Jesse - John entregou para o rapaz uma xícara de chá quente e se sentou no sofá ao lado dele na pequena sala de sua casa, nos fundos de uma igrejinha em Londres. - Qual é o sobrenome da vez?
- Birdwhistle. Bem, já faz uns dez anos, não é? Achei que para a última vida eu poderia dar uma mudada no visual e também fazer uma loucura - ele riu e bebericou a bebida, mas torceu o nariz quando percebeu que estava quente.
- Para alguém de duzentos e poucos anos, até que você está bem - o homem riu e Jesse foi obrigado a concordar, abençoando a alquimia.
- O senhor é mais velho do que eu.
- Engano seu, só tenho setenta e cinco.
- Em cada dedo, só se for.
- Eu morro e volto junto com eles, filho, sou apenas um humano.
- O senhor deveria experimentar a alquimia para garantir que dessa vez vai dar certo, assim talvez eu volte a envelhecer.
- Quer desistir?
- Não enquanto eu não tiver certeza de que eles estão bem - Jesse olhou para o homem que fez um breve aceno de cabeça. - Hoje eu conheci o William.
- E como ele está?
- Igualzinho na primeira vida, não mudou nem o corte de cabelo. Acho curioso ele e a Lou estarem apenas na segunda vida deles, até parecem mais jovens do que os outros... De espírito, não sei...
- O Lorde Rodwell foi bem direto quando lançou a maldição, ele previu que outros viriam, o que não faz sentido pra mim, mas ele viu.
- Falando no demônio - Jesse percebeu a repreensão no olhar de John por falar aquilo. - Esqueci que você voltou a ser padre, desculpa. Falando no Carter, eu arranquei algumas informações do William e tenho novidades pra você. Eles são irmãos.
- Quê? - o homem grunhiu e franziu o cenho. - Jesse, você não pode brincar com isso.
- Não estou brincando, foi ele que me disse. São meio irmãos, parece que ele não mora por aqui. Ainda não consegui descobrir muitas coisas além de que William e Louise estão juntos, mas agora o menino voltou com um talento musical e eu o chamei para abrir os shows da minha banda. Vou me aproximar dele e descobrir mais sobre eles nessa vida.
- Você não sabe nada sobre os outros dois casais que faltam?
- Não, por isso mesmo vou levar ele comigo. De resto, tudo está na mesma: Luce seguiu a vida dela desde que terminou com , Damon e Charlotte não deram certo e Clara está bem. Só faltam dois, o que acontece depois disso?
- Carter e Luce voltam, assim como foi em Paris, assim como deveria ter sido em Aberdeen.
- Como assim? A versão deles do passado retornará? Os atuais simplesmente deixam de existir?
- Eu não sei o que esperar dessa vez, estou de mãos atadas. Acredito que se lembrarão, mas não sei o que esperar agora que Carter é parente de um deles, já Lucinda sempre foi muito, muito poderosa.
- E como os outros vão te conhecer?
- Virão até mim quando for necessário, como sempre foi.
- Eu queria ter vivido 1666 para ver essa merda toda acontecendo - Jesse riu da própria piada, mas foi novamente repreendido. - Quero dizer, sobreviver à Revolução Francesa foi o suficiente pra mim. É, foi bom.
- Jesse, não haja como se eu tivesse te obrigado a fazer isso, você se ofereceu.
- Eu sei o que eu fiz, só estou meio entediado de viver tanto tempo. Acho que quando isso acabar, vou tirar umas férias.
- Você não muda nunca - John riu e Jesse concordou rindo também. - Só continue de olho neles, preciso saber sobre e , eles são o problema a ser resolvido, não tenho notícias dela desde que ela nasceu.
- Pode ficar tranquilo, padre, enquanto eu estiver vivo, eles vão estar todos muito bem-comportados! Se tudo der certo, o senhor pode ir em um dos meus shows de camarote como forma de cortesia.
- Então tomara que dê tudo errado.


Capítulo 14 - Tudo dando certo

A respiração de William estava ofegante e suas mãos tremiam. Nunca tinha sido observado por pessoas tão importantes e por isso mesmo ele não podia errar nada e perder aquela oportunidade única em sua vida. Corrigiu a postura no banquinho e respirou fundo antes de começar a tocar Why'd You Only Call Me When You're High do Arctic Monkeys, música que ele escolheu para apresentar já que ele conhecia muito bem e tinha dado até um pouco da própria personalidade para a canção nas outras vezes que havia tocado. Atrás do vidro estavam todos os integrantes do The Sidewalk, além do empresário e outras figuras importantes como o diretor de turnê da banda e um produtor da gravadora, todos atentos para saber o que aquele rapaz tinha a oferecer. Louise estava junto torcendo para que desse tudo certo.
Quando terminou de cantar, ele percebeu que as pessoas trocavam olhares entre si, mas William não entendeu o que queriam dizer. Ele olhou para Louise, mas ela também não sabia de muita coisa, portanto não poderia o ajudar.
- Will, pode nos dar licença um minuto? Lou, acompanhe ele até lá fora - Jesse pediu educadamente e Louise concordou, chamando William para sair.
- Eles odiaram - ele disse quando deixaram o estúdio.
- Eles não odiaram, Will, só estão conversando. Fica calmo - Louise sorriu pra ele, mas William estava muito aflito. - Ei, olha pra mim - ela se aproximou e colocou as mãos no rosto dele. - Vai dar tudo certo.
- E se não der?
- Então não será o fim do mundo. Você é talentoso e pode ter outras oportunidades, mas eu tenho certeza que você vai conseguir.
William se aproximou um pouco mais, encostando a sua testa na dela e fechou os olhos para sentir o toque dos dedos dela carinhosamente no seu rosto. A cada dia que passava, tinha certeza de que já não era somente uma coisa física. Louise era especial, ela lhe fazia muito bem e aquela era a primeira vez na vida que William podia se imaginar acordando ao lado de alguém todos os dias.
- Obrigado pelo que você está fazendo por mim - ele falou em um sussurro, sem sequer abrir os olhos.
- Você merece, Will.
- Não, não mereço...
- Shh... Não vamos falar disso, nunca vamos chegar em um acordo, só vamos nos concentrar para que dê tudo certo.
William sentiu os lábios dela se chocarem contra os seus em um selinho demorado. Estavam em um corredor cheio de câmeras, era o máximo que poderia, mas ele retribuiu mesmo assim, sem intensificar.
- Vai dar tudo certo, eu prometo - Louise disse ao se afastarem.
- Eu espero que sim.
Eles precisaram esperar por mais alguns minutos muito longos e só depois Jesse deixou o estúdio também. Estava sério, como se trouxesse más notícias, e William pensou que o sonho tinha acabado ali mesmo, antes de começar. É claro, quem se interessaria por um amador?
- Hey, Will, me tire uma dúvida, cara. Você já se apresentou em público? - ele perguntou diretamente para o mais novo.
- Bem... Não. Quero dizer... Na escola eu participava dos projetos, mas...
- Não é a mesma coisa, não é? Eu sei. E você compõe?
- Eu já tentei, mas eu não consigo...
- Certo... - Jesse parecia pensativo. - A banda gostou muito de você, assim como eu.
- Mas... - pelo tom de voz dele, Louise sabia que tinha mais coisas envolvidas.
- Ele nunca se apresentou, Lou, e não tem músicas próprias... Olha, eu quero muito que seja você, está bem? Vou te ajudar, mas eu preciso que você componha, pelo menos, uma música. A produção daquele cover está impecável, o que agradou muito a eles, mas eles querem mais.
- Jesse, eu não sei se eu consigo...
- É claro que consegue, você tem muito talento. Só uma, Will, nós vamos continuar com a parte britânica da turnê e eu vou segurar eles, enquanto isso você vai fazer a sua parte e logo nós nos vemos, está bem?
- Tudo bem - William se sentia extremamente frustrado consigo mesmo e sua incapacidade para compor músicas. - Tudo bem.
- Ah, cara, não fica assim! Você está dentro, só precisa mostrar do que é capaz. Vou te dar um incentivo, está bem? Quero que você vá ao show de amanhã para ver como é, leve a sua família para se sentir seguro. Vou te mostrar como é a correria de um dia de show e depois vocês podem curtir à vontade, é por minha conta a diversão, te garanto que vai te fazer bem. O que me diz?
- Hum... Obrigado. Que horas devo estar aqui?
- A gente vai te buscar - ele sorriu. - Quando digo a gente, me refiro à Louise. Agora vai e descansa, amanhã você vai ser um astro por um dia.
- Você o ouviu, tem que ir pra casa agora. Jesse, muito obrigada pelo que você está fazendo por ele - Louise agradeceu com toda a sinceridade e Jesse assentiu com a cabeça.
- Ah, não é como se a vida dele dependesse disso. Apenas sinto que... Will é um cara especial, vamos ser bons amigos.
- Você tem certeza que já não me conhecia antes? - William espremeu os olhos um pouco confuso.
- Cara, eu sou da Califórnia! - Jesse respondeu prontamente. - Seria bem impossível eu te ver por lá, não acha?
- Eu sei, estou brincando. Obrigado, Jesse.

...

Eram raras as vezes em que William subia os lances de escada sem reclamar da quantidade de degraus, mas ele se quer notou, estava envolvido em pensamentos negativos quando entrou em casa. Encontrou os irmãos preparando o almoço juntos, o que o fez se sentir um pouco melhor, sabendo que os dois estariam ali para ele, não importava o quê.
- Finalmente você voltou - disse ao notar que ele estava ali. - Como foi?
- Uma grande porcaria - ele respondeu desanimado.
- O que aconteceu, Will? - Thomas perguntou ao deixar de picar alguns legumes.
- Eles gostaram de mim, mas querem mais conteúdo. Me pediram para compor uma música e só então vão me dar uma resposta - William soltou um longo suspiro. - Já era.
- Não é o fim do mundo, você pode compor.
- Não, . Eu não consigo compor nada, nunca consegui! Estou perdido, não sei o que fazer, vou perder o único emprego que tive na vida!
- Você poderia ir para Manchester - Thomas sugeriu. - Não é como se não tivesse pessoas na família para ajudar, não é?
- Verdade! O papai vai adorar! - se empolgou com a ideia. - Will, você tem que ir para Manchester, ele pode ajudar você a compor e produzir!
William ponderou por um instante a hipótese. Não queria abusar da boa vontade do padrasto - pois sabia que era bem pouca, assim como a dele, mas era a melhor solução. Tendo alguém experiente para lhe auxiliar seria uma grande ajuda e ele poderia aprender muita coisa, apesar de Lewis não ser a pessoa mais paciente de todas, mas mesmo assim a tentativa poderia valer a pena.
- Só se você e a Louise forem comigo.
- Vai apresentar ela pra família? - cruzou os braços e sorriu. - Que avanço...
- É, talvez... Vou falar com o Lewis antes de qualquer coisa. A propósito, espero que tenham roupas descentes, amanhã temos um show pra ir. O próprio Jesse disse para vocês irem, assim eu posso me sentir mais seguro, mas ele não sabe as pestes que vocês dois são.
- Eu não sou seu segurança, e muito menos sua babá.
- Tá bom, Tom, vou chamar a Katie e o Jake pra eles fingirem serem vocês dois. Todos sairão felizes.

...

O dia seguinte de William foi o dia mais diferente e corrido de sua vida. Observou a montagem do palco, conheceu melhor os integrantes da banda, com os quais ele se divertiu muito e foi bem recebido, almoçou junto com eles e ficou para a passagem de som no período da tarde. Provavelmente o ápice foi quando Jesse o chamou para cantar junto. William não conhecia muitas músicas da banda, mas aceitou mesmo assim por conhecer a canção sugerida por Jesse. Não podia negar que gostou da situação, mesmo diante de uma arena vazia a sensação era boa, o estômago doeu de ansiedade por imaginar aquele lugar lotado de pessoas e que um dia poderia ser o palco que ele se apresentaria. Era um salto enorme, mas William podia se imaginar fazendo.
- Você não está pensando em me fazer cantar para milhares de pessoas hoje, não é? - perguntou para Jesse que riu.
- Eu não posso, mas seria legal ver a sua reação. Se bem que você sempre foi bom em lidar com pessoas, não é, Will?
- O quê? - William franziu o cenho, sem ter certeza se ouviu certo. - Mas você nem me conhece.
- Não seja idiota, eu te conheço de vidas passadas - Jesse disse naturalmente enquanto encaixava o seu microfone no pedestal para poder tocar a próxima música.
- Do que você está falando? - ele afinou a voz até ficar estridente e Jesse riu.
- É brincadeira, cara, estou brincando com você, essas coisas não existem. É só um palpite dizer que você sabe lidar com as pessoas, porque Louise disse que você é desinibido. Fica frio, eu não observei você a vida inteira.
- Ah, eu fico muito aliviado em saber que você não é um espião soviético ou algo assim. Muito obrigado.
- Espião soviético? Só se for pra chutar a bunda de alguns nazistas, mas eu não preciso me envolver em polêmicas e estragar a minha carreira, não é? Agora senta lá e presta atenção na música pra você ver como se faz. Anda.
William desceu do palco e foi até a primeira fila de cadeiras, se sentando em uma delas para continuar observando a passagem de som. Recebeu uma mensagem de perguntando que horas deveria ir e se Jake e Katie poderiam ir junto, pois ela não se conteve ao contar para os amigos a novidade. Após receber um sim do líder da banda, Will respondeu que poderia, o que deixou ainda mais feliz e animada para o show.

...

Diana já tinha passado a parte mais difícil que era o acesso ao backstage, agora andava pelos corredores da arena procurando pelo camarim. Os portões já estavam abertos e o lugar começava a encher para um grande show que estava para acontecer. Ela já tinha quase certeza de que estava perdida quando encontrou o camarim, mas para o seu azar, foi barrada pelo segurança que vigiava a porta.
- Mas eu tenho acesso! Não seja injusto, você sabe quem eu sou! - ela insistiu, mostrando o crachá pendurado no seu pescoço, mas ele negou mesmo assim.
Diana pegou o seu celular e mandou uma mensagem para Jesse, informando que ela já estava ali, mas por algum motivo não podia entrar. Não demorou um minuto para que Jesse abrisse a porta, convidando a amiga para entrar e a cumprimentando com um abraço apertado.
- Está linda como sempre, Ana.
- Obrigada, Jess - ela sorriu. - E você está...
- Pronto para levar esta cidade ao chão, baby. Fique à vontade. Onde estão os outros?
- Vão vir depois, eu quis vir na frente para dar oi.
- Sempre atenciosa, não é? Você é mesmo um docinho, Diana.
- E você é um exibido - ela gargalhou e então olhou ao redor para encontrar os outros integrantes da banda.
Não foi muito difícil, estavam ali mesmo e, para sua surpresa, William estava junto. Era uma cena um pouco bizarra, ele, Martin e Paul estavam dançando algo que Diana não quis arriscar adivinhar enquanto Jim gravava tudo.
- Perdi alguma coisa? Will vai mesmo abrir os shows?
- Talvez, é um grande talento. Quero que ele se acostume com a gente rápido, deixei ele ficar.
- Oi, Diana - William acenou de longe ao notar que ela estava ali, fazendo com que os outros quatro olhassem pra ela.
- Oi, Will, eu não sabia que você estaria aqui hoje - ela disse ao se aproximar, com Jesse atrás dela.
- Sou uma caixinha de surpresas, cunhada - ele disse divertido, fazendo-a rir também. - E estes são meus novos amigos.
- Não é como se eu já não conhecesse a cada um deles, sabe? Sou a fã número um.
Diana cumprimentou os rapazes um por um, gostava tanto deles quanto gostava de Jesse. Apesar do relacionamento deles não ter dado certo, ela ainda os considerava bons amigos e adorava estar no camarim junto com eles, sempre rendia boas risadas.
- Ainda nem tivemos tempo de conversar desde que cheguei, não é? - Jesse se sentou ao lado dela no sofá enquanto observavam a brincadeira dos meninos. - Como vai a faculdade?
- Começo em setembro meu PhD - Diana olhou para ele e viu um sorriso sincero se formando no rosto dele.
- Ana, é maravilhoso! Estou muito feliz por você. Já tem lugar para ficar? Já fez amigos?
- Não e sim - ela riu da careta de confusão que ele fez. - Ainda não procurei um lugar por lá, estou morando com o Damon enquanto isso. E apesar de não ter feito tantos amigos assim, o irmão do Will também estuda lá e até que somos amigos, já recorri a ele quando precisei de um médico particular.
- O irmão do Will, é? Esqueci o nome dele. Will não falou muito sobre os irmãos depois do almoço.
- O nome dele é Thomas, ele também está fazendo o doutorado dele, mas em pediatria. Ele é bem legal.
Então tudo estava correndo como deveria ser, Diana já tinha encontrado Thomas e era questão de tempo até que as coisas começassem a fluir, mas Jesse sabia que com eles tudo sempre foi mais devagar, que o interesse nunca vinha de primeira, então poderia esperar um bom tempo até que as coisas começassem a dar certo entre os dois.
- Que bom que você vai ter uma companhia. Espero mesmo que ele seja legal, ou vou ser obrigado a usar a força.
- Jess, você não sabe brigar.
- Mas se for necessário, eu brigo, sei táticas de guerra, baby ruiva - ele deu uma piscadinha para ela.
- Guarde as suas táticas, não vai ser necessário.
- Vamos ver se não. Escute, vai ter uma festinha depois do show em comemoração à essa parte da turnê, quero que você vá.
- Festinha, Jesse? A gente sabe o que rola nas suas festinhas - Diana disse em tom de repreensão, mas Jesse apenas riu.
- Eu juro que vou me comportar! Eu até chamei o Will pra ir, e olha que ele é menor de idade. Eu chamei até a família dele que eu nunca vi na vida, basicamente só faltava você. Se não tiver você, então não vai ter graça nenhuma. Diz que vai, por favorzinho - ele juntou as mãos em súplica, fazendo Diana rir e concordar.
- Está bem, mas no primeiro sinal de pó, estou saindo.
- Só a poeira que vai levantar enquanto dançamos a noite inteira, meu amor, fique tranquila!

...

A boate escolhida pela banda ficava no centro de Londres e era uma das mais badaladas, mas naquela noite em especial, a área VIP estava destinada apenas aos integrantes da banda e seus convidados, que não eram poucos. Jesse finalmente conheceu as novas versões de , Thomas e Katie, de quem não tinha notícias há muito, muito tempo. Também conheceu Jake, e este sim era uma novidade para ele, mas mais do que isso. Jesse hora ou outra o observava, tinha alguma coisa diferente que irradiava dele, mas ele não sabia exatamente o que era, embora soubesse que era bom. Ele estava se divertindo com enquanto dançavam juntos e ela estava se divertindo muito. Jesse estava curioso para saber um pouco mais sobre aquele rapaz e o que ele poderia oferecer.
Jesse sabia que deveria estar curtindo a festa como sempre fazia, mas estava se sentindo como uma babá de todos eles. Tentava descobrir mais sobre as novas versões de , Thomas e Katie e estava curioso em relação ao mais novo membro do grupo de amigos, Jake. Também mantinha seus olhos atentos na conversa animada de Thomas e Diana com seus drinks, e também em Louise e William que faziam mais do que conversar. Agradeceu mentalmente por e Damon não estarem ali, caso contrário seria mais duas dores de cabeça pra ele que mal podia se concentrar em sua própria festa.
Ele se aproximou de e Jake, sendo ela a primeira a notar. sabia o artista que ele era e talvez por isso se sentia tão intimidada perto dele, embora o tivesse achado bastante divertido e gentil.
- Ah, não precisam parar de dançar. Só quero conhecer a família do Will - ele deu um gole na sua bebida e disse auto o suficiente para ouvirem. - Ele é um moleque bem legal.
- Você é o único que acha isso, cara - Jake, que a certa altura já estava alterado, gargalhou exageradamente e o acompanhou, rindo também.
- Não fala assim dele, Jacob - ela defendeu o mais novo e olhou para Jesse. - Obrigada por nos convidar!
- O prazer é todo meu! Os amigos da Ana e do Will são meus amigos também! Divirtam-se, crianças.
Tudo parecia estar bem e Jesse não via motivos para se preocupar sem razões óbvias.
- O seu amigo Jesse é bem legal - Thomas disse para Diana ao notarem que Jesse estava por perto.
- Ele é incrível! - Diana bebericou seu drink.
- Como vocês se conheceram?
- Meu pai é tatuador. Quando eu estava em Harvard, ele conheceu o Jesse e se tornaram amigos. Comigo foi uma conexão imediata. Não demos certo como casal, mas eu o amo como um dos meus irmãos.
- Casal? - Thomas perguntou surpreso e Diana concordou rindo, já estava acostumada com o espanto das pessoas quando descobriam. - É bem... Atípico.
- As nossas aparências não dizem quem nós somos e debaixo daquele monte de tatuagem e descolorante, tem um cara de um coração incrível. Jesse é meu melhor amigo e eu o amo.
- Não me leve a mal, eu não quis soar como se estivesse julgando vocês. Foi muito legal da parte dele me convidar sendo que nem me conhecia - ele bebeu tudo de uma vez, precisando de alguns segundos para não engasgar com o álcool cortando sua garganta, o que fez Diana rir. - Então você acha engraçado? Eu duvido que você consiga beber tudo de uma vez.
Diana afastou o canudo e bebeu todo o drink de uma vez. Não bebia para se embebedar, apenas para socializar, então também precisou se conter para não fazer uma careta exagerada, mas Thomas riu dela mesmo assim.
- Eu vou pegar mais bebidas pra gente, gostei disso. Eu já volto - ele pegou o copo dela e então foi em direção ao bar.
- Se divertindo, ruiva? - Jesse se aproximou de repente, fazendo Diana se assustar.
- Você me assustou, Jess - ela levou uma das mãos ao peito, mas riu. - Sim, estou me divertindo muito. Obrigada por me chamar.
- Não sei, você ainda parece meio... Sóbria. Quer que eu batize a água?
- Eu não estou totalmente sóbria - ela deu um empurrãozinho de leve nele. - Estou me divertindo como não fazia há um tempo.
- Que bom, seu amigo parece estar ajudando - ele olhou na direção do bar e viu Thomas pedindo bebidas.
- E é só um amigo mesmo - Diana rebateu, pois entendeu o que ele quis dizer, conhecia Jesse muito bem.
- O quê? Eu não disse nada, mas ele é um cara alto e bonito, tenho que admitir que seria o meu tipo.
- Jess...
- Apenas se divirta sem se preocupar com as consequências. Apenas hoje, está bem? - ele colocou uma das mãos no ombro dela. - Não pense muito nas consequências, elas não importam no final.
- É um trecho de uma música nova?
- Não, Ana, é meu conselho pra você. Me agradeça depois, está bem?
Antes de Diana perguntar o que ele queria dizer com aquilo, Thomas voltou e devolveu o copo cheio para ela com a mesma bebida de antes.
- Divirtam-se - Jesse disse por fim antes de se afastar dos dois.
- Cara engraçado - Thomas o observou sumindo no meio das pessoas.
- Será que você se importa se a gente dar um tempo daqui? Acho que estou ficando surda.
Thomas concordou, também já estava se sentindo sufocado estando ali, então juntos decidiram que o mais interessante seria ir para o lado de fora um pouco, tomar um ar antes de voltarem. Por ser verão, não estava frio e sim uma noite agradável. Diana atravessou a rua e se sentou na calçada, convidando Thomas para se juntar a ela. Ele se sentou ao lado dela e deu um gole generoso na sua bebida, que parecia ainda mais forte do que a anterior.
- Cuidado ou vai embora carregado.
- Essa é a intenção.
- E os seus irmãos?
- Vou dar trabalho para eles hoje - ele sorriu e bebeu mais um pouco. - As voltas que o mundo dá... você deveria fazer o mesmo.
- Mas eu estou fazendo - Diana sacudiu o copo na frente dele e Thomas gargalhou. - Já é muito mais do que eu faria.
- Você me entendeu, Ana. As pessoas nos acham extraordinários pelas nossas carreiras, mas se esquecem que também somos seres humanos e cansamos como qualquer um. Essa não é uma responsabilidade que eu quero carregar.
- E nem eu.
A forma que ele pensava e se expressava não era muito diferente dos princípios de Diana. Ela não se achava tão expressiva quanto ele, sabia que era por opção própria, mas gostava de sentar e ter longas conversas com ele. Podia afirmar que estavam se tornando bons amigos, o que era bom, já que ela nunca foi cercada de amigos. É claro que tinha uma razão muito complexa para tal, mas uma coisa que Diana aprendeu com Jesse foi que às vezes ela precisava se soltar um pouco e arriscar. Não fazia isso com frequência, mas por que não dar uma chance para ele? Afinal, desde a primeira vez que se viram, Diana se sentia muito bem com Thomas, se sentia leve e sem preocupações. Ela não era totalmente cética como pedia a sua profissão, acreditava na energia que as pessoas poderiam transmitir e a dele era muito boa.
- Por que escolheu medicina? - ela perguntou ao esticar as pernas e arrumar a saia amassada.
- Porque eu amo cuidar de pessoas - ele respondeu com sinceridade, sorrindo sem mostrar os dentes. - Quando a tinha cinco anos e nossos pais estavam separados, ela teve uma apendicite e eu não queria sair do lado dela durante os dias em que ela ficou internada. Foi uma época difícil pra gente, mas acho que foi ainda mais pra ela, a saúde dela foi afetada de várias formas, e eu como irmão mais velho queria proteger, mas não sabia como. Conforme o tempo foi passando, descobri que aquela era a minha vocação, então comecei a me preparar muito cedo para a faculdade e pulei um ano na escola. Foi atendendo de área em área que percebi que a pediatria era o caminho certo a seguir. Me identifiquei desde o primeiro dia.
- É uma história muito bonita - Diana sorriu, adorava ouvir pessoas contando suas próprias histórias como autobiografias. - Ter o trabalho dos sonhos é como estar apaixonado.
- É mesmo - ele sorriu com a comparação, pois era completamente apaixonado pela sua profissão. - Me sinto na obrigação de perguntar o porquê de biomedicina.
O sorriso no rosto de Diana se desmanchou devagar conforme várias lembranças da sua infância lhe vinham em mente. Ela não foi uma criança como as outras e aquilo influenciava sua personalidade mesmo depois de vinte anos. Não falava nunca sobre o assunto porque não queria olhares pesarosos em sua direção, não queria ouvir de ninguém que sentia muito porque não sentiam de verdade. As pessoas que realmente sentiam eram seus irmãos que estiveram com ela durante todos os momentos que seus pais que foram essenciais durante todo o tempo, e de resto ela não fazia questão de aceitar condolências, afinal, ela venceu a morte mais de uma vez.
- É complicado - ela deu um gole da sua bebida. - Eu quero contar pra você, mas...
- Tudo bem, não precisa. Me desculpa, eu não quis parecer invasivo, assim como aquele dia na casa da Katie.
- Não está, é sério - Diana olhou para ele e percebeu que Thomas parecia se sentir culpado. - Eu prometo que vou te contar toda a história um dia, mas eu ainda preciso de mais um tempinho. Acredite, eu não sei me expressar tão bem quanto nos meus artigos publicados.
- Que por acaso são incríveis. Sim, eu fui atrás e li todos - ele sorriu com a expressão de espanto no rosto dela. - Bem que meu amigo Dean me disse que você era o Einstein da nossa geração, mas depois de ler sobre a biologia do câncer do seu ponto de vista, percebi que você é a Diana e pronto. Se ganhar um Nobel de medicina algum dia, estarei lá pra te aplaudir.
- Obrigada, Tom, isso significa muito pra mim - Diana não conteve o enorme sorriso que se formou nos seus lábios com tudo o que ouviu.
- Só estou falando a verdade - Thomas novamente bebeu tudo de uma vez e então se levantou, estendendo a mão para ela. - Levanta, já descansamos muito. É uma festa e vamos aproveitar.
Diana imitou o gesto e bebeu tudo em um único gole, segurou a mão dele e pegou impulso para se levantar, então voltaram juntos, afinal, a noite ainda estava longe de acabar.

...

Alguns drinks e uma dose de coragem depois, Diana podia dizer que finalmente estava curtindo a festa como alguém despreocupado. Estava alegre e com mais álcool no organismo do que normalmente teria, mas não estava preocupada com isso, apenas queria se divertir como Jesse havia indicado. Ela achava curioso como sempre fazia o que ele lhe aconselhava, como se as palavras dele fossem hipnóticas o suficiente para que ela entrasse em transe, mas sabia que não era nada disso, era apenas a razão se sobressaindo mais uma vez. Alheia ao que acontecia ao seu redor, tudo o que importava era se divertir e dançar com o rapaz com quem já estava há horas desfrutando da companhia.
Thomas se sentia livre pela primeira vez em muito tempo. Estava sempre tão amarrado em seus deveres que se esquecia o quanto era importante se divertir de vez em quando. Talvez fosse o álcool agindo, mas ele sentia que estava compensando as noites em que deixou de se divertir para estudar ou trabalhar. De qualquer forma, já não se importava mais com todo o resto.
Estava muito quente lá dentro, fosse pelo aglomerado de pessoas ou por estarem dançando há tanto tempo, mas para ele o que realmente esquentava era ter uma garota tão bonita, absurdamente inteligente e divertida ali dançando com ele. Diana não era nenhuma dançarina, mas sabia como se mexer depois de muitos drinks, quando se tornava desinibida, mostrando um lado que quase ninguém conhecia. Ela também estava satisfeita, estava mais do que feliz por ter escolhido a pessoa certa para se divertir naquela noite. Beberam, conversaram sobre a vida, riram e, acima de tudo, estavam se divertindo, mas por que não admirar o - quase - doutor que estava com ela? Jesse tinha razão, ele era alto e bonito, e Diana não tinha motivos para dizer não. Sentiu a mão dele repousando sobre a sua cintura discretamente, a puxando para mais perto, Diana o fitou com um sorrisinho atrevido nos lábios, quase como se estivesse dando permissão para mais quando ela colocou seus braços ao redor do pescoço dele.
- Seria uma loucura? - Thomas perguntou como se lesse os pensamentos dela.
- Seria, mas sinceramente? Eu não me importo.
- Eu também não - ele disse por fim antes de seus lábios se chocarem contra os dela em um beijo.
Efeito de toda a bebida ou não, algo diferente aconteceu.

Aberdeen, Escócia. Março de 1848.
A neve caía no jardim do Balmoral Castel, cobrindo toda a grama verde e bem cuidada, que se transformou em um extenso tapete branco. Da janela aberta do quarto, Diana observava os flocos que repousavam na sua mão esticada como se estivessem descansando, o que a fazia sorrir. O inverno poderia ser rigoroso, mas ela amava a natureza e todos as suas belezas, poderia passar horas ali observando sem se cansar, e só não fez isso porque a porta do cômodo se abriu bruscamente, fazendo com que ela se assustasse e fechasse a janela, mas então viu Thomas fechando a porta e tirando neve dos ombros logo em seguida. Isto significava que estava na hora de contar pra ele o que ela descobriu durante o período em que ele esteve viajando.
- Precisamos que alguém resolva o problema com esta porta - ele disse ao notar que ela tinha se assustado.
- Com toda a certeza, ou sempre que você entrar, pensarei que é um intruso - Diana riu e então foi ajudar o marido a se livrar da pesada capa que o aquecia quando estava lá fora. - Como foi a viagem?
- As visitas da Rainha Vitória são bem... Cansativas, se podemos chamar assim. Estou exausto.
- Então imagine ela que reina sobre tantos países - Diana respondeu com bom humor e Thomas concordou rindo, tinha que admitir que a monarca tinha mais responsabilidades do que ele que trabalhava na jurisdição da câmara dos Lordes escoceses.
- Creio que ela não tenha uma recepção tão calorosa em sua casa quanto eu tenho - ele fez um carinho no rosto dela e Diana sorriu ao sentir o toque dele. Era extremamente agradecida por ter um marido tão carinhoso e diferente dos outros homens.
- De certo que não - Diana disse ao se afastar, pendurando a capa em um cabideiro próximo. - É um pouco solitário quando você precisa viajar. É claro que o fato de nossas famílias serem ligadas graças a nós e nossos irmãos facilita muito, mas não deixa de ser um pouco solitário de qualquer forma. Não poder sair livremente sem a companhia do marido é bem... Frustrante.
- Diana, você não só pode como deve ser livre. Não serei eu a pessoa a te aprisionar em uma vida infeliz - Thomas se aproximou dela novamente e Diana não fez questão de recuar. - Eu sou privilegiado por ter me casado por amor com a mulher que eu mesmo escolhi e amor não é sinônimo de posse.
- Eu me sinto muito bem sempre que você reafirma isso, Tom, mas não quero que as pessoas pensem o que não devem sobre você. Fico feliz que a base do nosso casamento é o respeito, confiança e reciprocidade, e justamente por te respeitar, esperei ansiosamente para que você voltasse e assim talvez podemos retomar nossa rotina amanhã mesmo.
- Não com toda essa neve - ele riu e ela concordou, provavelmente duraria muitos dias ainda. - Não se preocupe, vou te recompensar pelos dias em que estive fora.
- Eu também vou te recompensar. Eu tenho uma coisa para te dizer - Diana mordeu os lábios, estava ansiosa para contar. - Deve ter notado que não estou usando minhas roupas habituais.
- Está me deixando curioso, Diana - Thomas havia notado que ela estava com vestimentas para dormir e talvez por isso não tivesse deixado os aposentos.
- Não era exatamente o que eu estava planejando para agora, mas não posso negar o quanto fiquei feliz com esta descoberta maravilhosa - Diana caminhou até o seu grande espelho, e se virando para ficar de lado, colocou as mãos na barriga que quase não tinha forma, apenas uma curvatura muito discreta. - Eu estou grávida, Tom.
Diana olhou para o marido, esperando para saber qual seria a reação dele diante da novidade. Ele queria muito ter filhos, mas escolheu esperar o tempo de Diana, e aquele tempo finalmente havia chegado. O sorriso que se formou nos lábios dele era tudo o que ela precisava para saber que ficariam bem, mesmo com todos os riscos que poderiam correr em uma gravidez.
- Diana, isso é... Isso é... - palavras não eram suficientes para expressar toda a felicidade que ele sentia.
- Eu sei que você queria ter filhos o quanto antes e eu estou feliz por saber que eu e meu irmão vamos criar nossos filhos juntos.
- Ainda estou tentando assimilar - Thomas se aproximou e também olhou para o reflexo no espelho, colocando as mãos na barriga dela. - Obrigado por me tornar o homem mais feliz do mundo.
- Temos que escolher os nomes - Diana sorriu, colocando a sua mão sobre a dele. - Louise acredita que eu já esteja no terceiro mês.
- Então ainda temos muito tempo para tal - ele disse por fim, se aproximando ainda mais e então a beijou.<


Capítulo 15 - Liverpool

Setembro de 1665.

- Admito que conheço Damon a minha vida inteira, mas nunca estive nessa parte do castelo - ela disse quando adentraram na torre, indo até a abertura que deveria ser uma janela. - Apenas vi de longe.
- Costumávamos brincar aqui quando crianças, ou passar tempo quando crescemos um pouco. Gosto muito daqui - olhou pra fora, vendo a grama verde perfeitamente cortada. - Céus, parece uma eternidade.
- É compreensível, ele se casou e tem uma filha. Imagino que os afazeres da vida adulta tenham tomado o tempo dele.
- De fato que sim, tal como eu, apenas queria voltar aqui mais uma vez. Quando eu era criança, costumava dizer que ficava mais perto das estrelas.
- Eu amo as estrelas e constelações, é realmente inspirador - se apoiou no parapeito para ver o céu, feliz por ver algumas constelações. - Veja só, é Andrômeda.
- Não consigo identificar - espremeu os olhos, mas não era realmente bom em identificar a olho nu.
- Siga o meu dedo - ela se aproximou um pouco e esticou o braço o máximo que pôde. tentou acompanhar. - Está vendo aquelas duas estrelas alinhadas, onde se tivesse mais uma na outra ponta seria um triângulo?
- Sim, eu consigo ver! - ele sorriu, entendendo a referência.
- Imagine que aqueles são os pés de Andrômeda - ela esticou o outro braço. - Agora seguindo para a direita, acompanhando os meus dedos, tem mais duas, imagine que são os joelhos.
- Certo. Joelhos. Estou vendo.
- Seguindo para baixo, tem mais duas. Temos a parte de baixo do corpo dela. Agora se você seguir em linha reta, tem todo o tronco até a cabeça. Por fim, essa linha em vertical forma os braços, é como se ela estivesse deitada. Consegue ver?
- Consigo, é lindo. Realmente, ela parece estar deitada - disse sem tirar os olhos do céu, não queria perder de vista a constelação.
- Conhece a história de Andrômeda?
- Não, para ser honesto. Eu não conheço.
- Andrômeda era a filha de Cassiopeia e de Cefeu, governantes da antiga Etiópia. Quando Cassiopeia se gabou de ser mais bela que as Nereidas, filhas do deus marinho Nereu, Poseidon indignou-se e enviou o monstro Cetus, a Baleia, assolar o reino dos etíopes. Aconselhados pelo oráculo de Ammon, que sentenciou que o sacrifício da sua filha à Baleia era o único modo de apaziguar o deus, o rei e a rainha agrilhoaram Andrómeda a uma rocha perto do mar. No entanto, Perseu, apaixonado, chegou a tempo de resgatá-la, montado sobre Pégaso, o cavalo alado. Perseu conseguiu salvar Andrómeda do seu destino cruel, mostrando a horrível cabeça de medusa à Baleia, e imediatamente o monstro se transformou em pedra.
- Nossa. Que história incrível! Eu realmente não conheço muito sobre mitologia. Onde você ouviu sobre isto?
- Meu irmão me contou, mas eu também procurei nos livros - ela encolheu os ombros, se afastando. - A ligação entre astronomia e mitologia é algo fascinante pra mim.
- Agora é para mim também - admitiu, olhando para cima mais uma vez.

...

2019

A viagem para Manchester era longa, mas sempre agradável. sempre tinha uma playlist pronta para cada ocasião e a de viagem era uma de suas favoritas. A música da vez era Wouldn't Be Nice? do grupo The Beach Boys e ela cantava junto com William e Louise, que aceitou o convite para ir junto e conhecer a família de William, o que era um grande passo não só para ela, como pra ele também, que nunca havia apresentado ninguém para sua mãe e estava feliz por Louise ser a primeira.

- Tenho medo que nossa mãe enfarte ou algo assim quando conhecer a Louise - William comentou rindo.
- Ela tem o coração fraco? - Louise perguntou assustada, mudando sua feição de repente.
- Will, para! - gargalhou. - Não se preocupe, Louise, ela não é muito diferente da Eloise e sabe que você existe, vai adorar te conhecer. Will é dramático assim mesmo, mas você se acostuma.
- Já me acostumei com as brincadeirinhas dele - Louise rolou os olhos e se desviou quando ele esticou o braço para trás afim de provocar. - Sai, McQueen!
- Ah, olha só pra vocês, já estão brigando e tudo mais - sorriu e notou que os dois se sentiram envergonhados pelo comentário dela. - Afinal, vocês são o quê? Já pode chamar de casal?
- É, , chame do que você quiser - William disse impaciente. - Apesar de eu achar que você também já virou par, não é?
- É verdade, está todo apaixonadinho - Louise se colocou no vão entre os bancos da frente. revirou os olhos, mas acabou rindo.
- Talvez seja um par, eu ainda não sei... - disse com sinceridade, não via motivos para esconder o que sentia.
- É claro que é, saiba que eu nunca mais me sentei naquele sofá.
- William! - a mais velha repreendeu imediatamente. - Para sua informação, não aconteceu nada, está bem?
- Obviamente, porque chegamos primeiro.
- E mesmo se tivesse acontecido, fui eu que comprei o sofá e faço o que bem entender com ele.
- Isso não faz muito o tipo do - Louise opinou enquanto fazia uma cara pensativa. - Quero dizer, ele é mais... tradicional. Estou surpresa, mas feliz que ele está saindo da zona de conforto.
- Não acredito que estou tendo essa conversa com vocês - gostaria de poder se afundar no banco e sumir da vista deles.

Ela tentou mudar de assunto, mas reproduzia a fala de Louise mentalmente. Ela não sabia muito sobre os relacionamentos anteriores de e isto despertou curiosidade nela, embora soubesse que nunca iria perguntar. Ele nunca falava sobre o passado, então não podia compreender o que Louise queria dizer com sair da zona de conforto.
Depois de mais uma hora de viagem, finalmente chegaram ao destino. Fazia sol em Manchester e eles pensaram que seria um desperdício passar o resto do dia dentro de casa, então já estavam planejando uma visita à praia no pôr-do-sol. Foram recebidos na entrada da casa por Lizzy e Lewis, a primeira se questionava quem era a garota saindo do banco de trás do carro, mas quando viu os dedos dela se entrelaçando com os de William, soube finalmente quem era Louise.
- Oi, mãe. Oi, Lewis, eu quero apresentar uma pessoa - William disse timidamente, o que era novidade. - Está é a Louise. Lou, estes são meus pais.
- É um prazer conhecê-los - Louise respondeu com a mesma timidez.
- O prazer é todo nosso, Louise, não acredito que finalmente estou te conhecendo pessoalmente! – Lizzy, que não podia se conter de felicidade, apertou a mão de Louise calorosamente.
- Que bom que você é real, Louise, eu estava com medo de ser delírio do garotão - Lewis disse bem humorado e Louise riu, mas William rolou os olhos.
- É real, tá bom? Muito real - ele exibiu os dedos entrelaçados dos dois. - Vamos entrar e nos esconder das piadinhas do meu pai.
- Nossa, ele me chamou de pai - Lewis disse após os dois entrarem e então se virou para que ainda estava lá. - Você viu isso?
- Eu vi, mas pelo visto vocês nem notaram que eu estou aqui, não é?
- E tem como não notar este espetáculo de mulher que nós fizemos? - ele deu um abraço apertado na filha. - Olhe só, está maior do que eu.
- Não é uma tarefa muito difícil, não é mesmo, querido? - Lizzy comentou em tom de provocação, fazendo com o que o marido olhasse sério para ela quando soltou a filha.
- Vocês gostam de me provocar.
- É só a verdade, pai - riu e foi cumprimentar sua mãe com um abraço também. - Estava sentindo muita falta de vocês.
- Também sentimos a sua, filha, temos que colocar as novidades em dia - Lizzy disse ao soltá-la.
- Como por exemplo, o seu namorado que eu não sabia da existência até sua mãe contar.
- Ele não é meu namorado, pai - riu e então entrou, tendo os dois em seu encalço como cães farejadores.
- Viu, Liz? Ela não tem namorado, já posso ficar em paz?
- Mas também não é só um amigo - ela se virou e teve que conter a vontade de rir com a expressão de choque no rosto do seu pai que ainda morria de ciúmes dos namorados dela. - Calma, senhor Thompson, estou sendo bem tratada.
- Está mesmo! Ele é a coisa mais fofa que eu já vi.
- Sei, sei. Esses são os piores - Lewis rolou os olhos. - Peço licença para as senhoritas, vou ver o que aquele bastardo tem para me dizer de tão importante que teve que dirigir três horas para vir me contar.
- A senhora deveria ir também, mãe, é uma novidade incrível - disse quando seu pai já tinha sumido de vista pelo corredor da casa.
- Você não vem? E por que seu irmão não veio?
- Eu já sei o que é - sorriu. - Tom foi para Oxford, segundo ele estava com saudades e quer limpar a casa, mas na verdade ele anda bem estranho e avoado nos últimos dias, achei melhor nem questionar.
- Depois eu ligo pra ele. Vou lá saber qual é a grande novidade que Will tem para contar - Lizzy girou nos calcanhares e seguiu pelo mesmo corredor.
foi até o sofá e se sentou para esticar as pernas cansadas pelas três horas que passou dirigindo. Pegou o celular no bolso para se distrair um pouco e viu que havia enviado uma mensagem uma hora antes, então ela respondeu se desculpando pela demora, mas dizendo que havia acabado de chegar em Manchester, algo que ela havia se esquecido de mencionar anteriormente, e, para sua surpresa, recebeu uma mensagem muito melhor do que esperava:
"É sério? Estou em Liverpool até amanhã."
Liverpool ficava a cinquenta minutos de carro de Manchester e entendeu perfeitamente o que ele quis dizer, estava insinuando que deveriam se encontrar e ela não ousou negar o convite. Queria muito poder vê-lo um pouco, afinal, já não o via há quase duas semanas, então não pensou duas vezes antes de aceitar.
"Só preciso descansar um pouco antes de ir. Me espera ❤️"
Mas na verdade, a ansiedade tomou conta antes mesmo que ela pudesse relaxar. Sim, estava ansiosa para que pudesse vê-lo novamente e passar a tarde toda com ele, seria a melhor forma de passar aquele lindo dia de verão, coisa rara em terras britânicas. foi afastada por um instante de seus pensamentos quando ouviu gritos, mas entendeu que era sua mãe urrando de felicidade, provavelmente havia acabado de descobrir o que havia acontecido, então ela se levantou e foi até o estúdio particular de seu pai onde os quatro estavam reunidos. Teve que prender a risada quando viu William sufocado no abraço de Lizzy.
- Tá bom, mãe, já pode me soltar - disse com a voz abafada, tossindo em seguida, então se soltou.
- Filho, eu estou tão feliz por você! Era o que você queria quando era mais novo.
- É verdade... - ele sorriu de canto quando se lembrou dos anos em que queria ser um artista. - Se não fosse pela Louise, nada disso teria acontecido, ela me apresentou à banda.
- Você é mesmo um anjo, Louise, obrigada.
- Will merece, tem muito talento - Louise sorriu e foi abraçada por ele.
- Eu só preciso de uma única música, por isso vim aqui. Lewis, consegue me ajudar? Só uma.
- Até dez, garoto, estou impressionado. Vamos fazer umas musiquinhas e te tornar o cara mais rico da Inglaterra.
deixou que curtissem a novidade juntos e saiu do estúdio sem chamar a atenção. Foi até o carro para pegar as pequenas malas dos três e levou para seu antigo quarto. Pegou uma troca de roupa e colocou na sua bolsa, afinal, não tinha a mínima ideia de que horas voltaria pra casa. Tentou sair discretamente, mas foi notada por eles que saíam do estúdio no momento em que ela passou por lá.
- Onde vai, filha?
- Hum... Ao futebol, pai, até mais tarde - caminhou em passos rápidos para sair dali o mais rápido possível, sem notar os olhares confusos deles.
- Ela disse futebol? E tem isso aqui nesse fim do mundo? - William questionou confuso.
- Manchester City e Manchester United, para sua informação - Lewis rebateu em tom de ofensa, ele adorava assistir aos jogos dos dois clubes da cidade. - Mas é claro que ela não foi.
- Você ainda tem dúvidas? Uma pena que não podemos obrigar ela a nada - Lizzy riu, sabia que não podia fazer muito.
- Tenho as minhas suspeitas, mas vou esperar ela voltar para dizer - Louise disse pensativa, atraindo todos os olhares para ela. - É sério, se for o que estou pensando, ela pode ter ido fazer uma visita à Penny Lane, se é que vocês entendem.
- Não entendo - William respondeu, mas Louise apenas riu. - Você não vai mesmo contar?
- Não quero levantar falsas informações, lamento.

...

estacionou o carro do outro lado da rua do hotel em que estava hospedado com sua mãe, então ela enviou uma mensagem para ele informando que havia acabado de chegar. Não demorou muito para que surgisse em sua vista atravessando a rua e indo até o carro. Ela não se conteve e saiu rapidamente do carro, e em questão de segundos, recebeu um dos melhores abraços de sua vida. Estava tão feliz que tudo o que fez foi rir alto e sem vergonha alguma.
- Não entendi - disse rindo também, ainda abraçado à ela.
- Estou no meu lugar favorito com a minha pessoa favorita. Não posso explicar o quanto estou feliz - ergueu seu olhar na direção do dele.
- Então eu sou a sua pessoa favorita? - ele perguntou e não conteve o sorriso que se formou no seu rosto.
- Bem, agora é! Por que ficar negando, não é? Meu Deus, achei que morreria de saudades a qualquer momento - ela apertou o abraço e retribuiu.
- Eu também senti sua falta, - ele se curvou um pouco para deixar um beijo no topo da cabeça dela. - Muita falta.
Se ele ainda tinha alguma dúvida quanto aos próprios sentimentos e também em relação aos sentimentos dela, havia acabado de cair por terra. Ver a felicidade dela por estar ali era tudo o que ele precisava para desejar voltar o mais rápido possível.
- Você quer entrar?
- Não, eu só quero aproveitar esse dia lindo.
- Então vai ter que entrar para que eu possa trocar de roupa, essa jaqueta está me matando de calor - ele se afastou para poder tirar a jaqueta.
- Então por que está vestindo?
- Eu ia acompanhar minha mãe em uma entrevista, mas... Bom, ela vai entender - ele a tomou pela mão e então atravessaram a rua em direção à entrada do hotel.
- , isso não é certo, você não pode desmarcar de repente - protestou enquanto entravam.
- Na hora em que ela te ver, vai entender totalmente. Não se preocupe, talvez ela até queira ir junto.
Eles pegaram o elevador em direção ao quarto dele e só então notou que era a primeira vez que seus dedos estavam entrelaçados com os dele. percebeu o olhar dela pesando.
- É uma surpresa para mim também.
- Estou me sentindo uma idiota, mas não posso evitar.
- Digo por experiência própria: reprimir nossas vontades não é nada bom. Acredita se quiser, também não faço isso há muito tempo e estou adorando que seja com você.
- Ai, , parece que você saiu de uma comédia romântica adolescente - disse fazendo ele rir com a comparação.
- E isso é bom ou ruim?
- Maravilhoso, me sinto uma adolescente de novo.
- Tipo em 17 Outra Vez?
- Pode-se dizer que sim, adoro esse filme - ela sorriu e então as portas do elevador se abriram no andar dele, para que pudessem sair juntos.
Foram até o quarto em que ele estava hospedado. não deixou de notar que ele era organizado, talvez até mais do que ela, que não se importava com uma bagunça de vez em quando. Enquanto procurava por uma roupa em sua mala, se sentou no confortável sofá, ao pegar o celular no bolso do vestido, notou que estava cheio de mensagens de William perguntando onde ela estava, o que a fez rir.
Enquanto foi em direção ao banheiro para se trocar, ela tirou os breves minutos para responder.
"Não é da sua conta onde eu estou, a irmã mais velha sou eu"
"P.S.: Não tenho hora para voltar xoxo"
se assustou quando a porta do quarto se abriu abruptamente, mas relaxou quando viu que era Eloise. Ou ao menos relaxou em parte, afinal, a escritora não esperava encontrar uma visita no quarto do filho, mas ao contrário do que ela esperava, Eloise abriu um largo sorriso ao notar que estava ali.
- , oi! Não esperava te encontrar.
- Oi, Elo - sorriu timidamente e se levantou do sofá. - Vim visitar os meus pais e como estava perto...
- Eu conheci a sua mãe! te contou? Você se parece tanto com ela! Que mundo pequeno, não é?
- Sim, muito pequeno - as duas riram juntas, e então apareceu no quarto novamente, já vestido com roupas mais leves.
- Filho, você vai assim mesmo? Parecendo um turista? - Eloise perguntou ao notar as vestes dele.
- Vem, mãe, vamos conversar um pouco - abriu a porta e então Eloise o acompanhou até o lado de fora. Ele fechou a porta e se virou para ela. - Se importa se eu não for? Eu não sabia que ela estava por perto, foi de última hora e... Bom, eu que pedi para ela vir.
- Eu não me importo, , inclusive acho que você deveria voltar com ela para Londres.
- Voltar?
- Você veio porque estava perdido, mas aparentemente já se encontrou, certo? - ele concordou ao balançar a cabeça e Eloise sorriu. - E ela não viria por qualquer coisa... Vai pra casa, filho, e vê se não vai se sabotar. Eu sei que você sofreu muito quando a Luce terminou com você, mas olha só a chance que a vida tá te dando. Olhe só a pessoa incrível que o destino colocou no seu caminho.
- Eu não penso mais na Luce e no passado - admitiu, aquela conversa o deixava estranhamente nervoso e ansioso. - Porque eu só penso nela - apontou para o quarto e Eloise sorriu.
- Eu fico feliz por isso. Agora vai, não deixa ela esperando. Vai, vai, vai!
Eloise praticamente o empurrou para dentro do quarto e seguiu seu caminho. entrou aos risos, despertando a atenção de que antes estava preocupada sobre o que poderiam estar conversando.
- Ela me pediu pra voltar pra Londres com você - se explicou.
- Voltar? Você tem certeza? Eu não vim aqui pra te pedir para voltar.
- Eu tenho certeza, eu quero voltar - ele se aproximou e segurou as mãos dela. - A não ser que você dirija muito mal, terei que pegar um trem.
- Que besteira, eu dirijo muito bem! - protestou aos risos.
- Eu não duvido.
E depois de algumas risadas, o assunto parecia ter morrido de vez, mas o silêncio que pairou entre eles não era ruim e nem constrangedor. levou suas mãos ao rosto dela, admirando toda a beleza e genuinidade dela antes de juntar seus lábios aos dela em um beijo que começou lento, mas que se intensificou conforme o momento pedia e só se afastaram quando precisaram respirar.
- Você tem alguma sugestão de lugar para irmos? Que não seja Penny Lane ou Strawberry Fields? Já fui ontem - perguntou ao se afastarem. – E, por favor, não diga o túmulo de Eleanor Rigby, eu não gosto de cemitérios.
- Droga, agora não tenho mais nenhuma ideia - se fingiu de frustrada, fazendo-o gargalhar. - Anfield! Que tal?
- O que é Anfield?
- Eu deveria imaginar que você não conhece. É o estádio do Liverpool, mas eu não acho que hoje tenha jogo.
- Eu prefiro a morte do que ver futebol outra vez.
- Eu estava brincando, mas da outra vez foi bem conveniente, não é? - cruzou os braços, se fingindo de ofendida.
- Mas é claro, olha só no que deu - disse rindo e ela concordou após rir também. - Então que tal a praia?
- Se eu soubesse, teria trazido um biquíni. Vamos.

...

A praia escolhida por eles foi Formby Beach, uma das mais famosas de Liverpool. Por ser verão, muitas pessoas aproveitavam o fim de tarde na areia ou na água, muitas crianças brincavam por toda parte, transformando o lugar em um ambiente para toda a família. e se sentaram na areia fofa e até um pouco quente, ela entrelaçou seu braço ao dele e deitou a cabeça em seu ombro, fechando os olhos por um momento para sentir a brisa e se concentrar no barulho do mar que ela amava, além, é claro, de desfrutar da companhia dele. se sentia verdadeiramente em paz, precisou dirigir por algumas horas para encontrar a calmaria, mas estava valendo a pena até agora. Gostava de admirar o pôr-do-sol, mas não imaginava que estaria compartilhando com outra pessoa. Nenhum relacionamento anterior - não que tenham sido muitos - causou a mesma sensação nela, comparado ao que ela estava sentindo. Não sabia dizer se era amor ou não, talvez fosse cedo demais para tal, mas sabia que tinha potencial e, para falar a verdade, ela queria muito que isso acontecesse e torcia para que aquele momento fosse o marco e o start que ela precisava.
olhou para ela e sorriu, depois tirou um instante para admirar a vista também. Depois da tempestade vinha a calmaria, e aquela era a tal calmaria que ele tanto procurava. Um ano antes não poderia se imaginar sentado ali olhando as ondas, feliz e com alguém que ele gostava, sendo esta última totalmente fora de cogitação um pouco antes. Ele demorou muito para superar seu último relacionamento e só agora podia dizer que tinha superado totalmente e estava bem, sem necessidade de fazer comparações, afinal, namorou sete anos com Luce, tinham muitas histórias juntos e ela era uma pessoa bem diferente de , com interesses completamente diferentes. Apesar de tudo, seu sentimento de raiva pela forma como acabou já era quase nulo, ele não precisava mais sentir aquilo. Estava bem, estava leve, estava feliz. Só havia se passado dois meses desde que haviam se conhecido, ou talvez nem isso, mas pareciam muitos anos, pois ele não entendia como as coisas poderiam mudar tão rápido. Ali estava ele sem qualquer receio, apenas vivendo o momento que lhe foi oferecido. Aquela era uma lembrança que ele guardaria pra sempre.
- Se me disser em que está pensando, eu digo também - disse ao abrir os olhos, erguendo a cabeça para olhar pra ele.
- Estava pensando que você chegou no momento certo - confessou, percebendo o olhar de curiosidade dela. - Eu passei sete anos em um relacionamento, foi muito difícil me acostumar com uma vida sozinho outra vez, eu nem lembrava mais como era. Não estou dizendo que você veio para tampar um buraco, mas sim para me acrescentar. Eu parei de me privar e de sabotar a mim mesmo ultimamente desde que te conheci.
- Sete anos é muito tempo - disse compreensiva e ele concordou. - Você foi feliz com ela?
- Fui, eu conheci a Luce na faculdade, foi tudo muito rápido. Os dois últimos anos que foram difíceis, o relacionamento caiu na rotina e já não era a mesma coisa, além de ela ter a profissão dela e eu a minha, que não batiam, então ela achou melhor terminar. Por mais que eu esperasse, não queria de fato, doeu da mesma forma.
- Eu entendo... Não é fácil superar, mas... Você conseguiu, é o que importa.
- Mais do que isso - ele a encarou. - É curioso como a gente pensa que não vai ser feliz outra vez, mas eu não posso explicar como eu estou feliz por você estar aqui comigo. Um ano atrás eu diria que era impossível.
- Um ano atrás eu poderia andar na sua frente com uma melancia na minha cabeça e você ainda não me notaria - ela disse para descontrair, fazendo-o gargalhar.
- Notaria, sim, seu senso de humor me chamaria a atenção. Além disso, estar de coração partido não quer dizer ser cego, eu com certeza teria notado uma garota tão linda.
- Mas não seria a mesma coisa.
- Será?
- Seja racional, .
- Eu não quero ser racional, quero saber no que você estava pensando, porque eu já contei sobre mim e agora é a sua vez.
- Eu não tenho muito o que contar, eu era uma menina muito tímida - desviou o olhar, encarando os próprios pés afundando na areia fofa. - Eu estava pensando que algo assim, como estar aqui agora, nunca iria acontecer comigo porque eu priorizei outras coisas. O seu durou sete anos, os meus juntos não chegaram em dois - ela riu de si mesma ao se lembrar daquelas coisas. - O primeiro foi quando eu morava em Manchester, e ele até que era bem legal, mas eu ainda era muito ingênua, terminei quando fui aceita em Oxford, e não sofri tanto assim, só fiquei triste no começo, mas passou rápido. Eu acho que eu não amava ele.
- É meio difícil ter certeza do que é esse tipo de amor com dezessete ou dezoito anos - disse no mesmo tom compreensivo que ela havia usado antes.
- Eu concordo... E depois tive mais um na faculdade, esse foi mais intenso, mas durou apenas seis meses porque ele trancou o curso e decidiu terminar comigo. Eu fiquei mal, mas também não durou muito, e depois não tive nada sério com ninguém, talvez por opção própria, eu não sei direito... De qualquer forma, agora estou aqui pensando que em nenhum deles me senti tão bem quanto me sinto agora com você, até o jeito que você olha pra mim é diferente.
- É porque eu gosto de você de verdade, . No começo era só uma sensação de que eu te conhecia de algum lugar, além é claro, de ter te achado linda - ele sorriu um pouco sem jeito, tal como - Mas depois eu percebi a pessoa incrível que você é. Precisei de muitos empurrões, é claro, mas sou grato por cada um deles.
- Talvez eu tenha uma quedinha por caras tímidos assim - ela deu uma piscadinha e viu ele esboçar o típico sorriso sem jeito que ele costumava fazer um pouco antes de pegarem mais intimidade.
- Meu irmão pegou toda as desinibições pra ele e me deixou sem nada. Me surpreende ser eu aqui e não ele, você provavelmente colocaria ele no lugar no dele.
- O Damon não olha pra mim da mesma forma que você, , e eu notei isso desde o dia em que te conheci, soube que nunca iria confundir vocês - sorriu por finalmente contar aquilo pra ele. - Vocês podem até ser idênticos, mas aquele dia na casa da Katie... Eu não sei explicar o motivo... Não era, era você. Faz sentido?
- Faz... Porque eu me senti da mesma forma. Me desculpe se pareci um maníaco perseguidor que te assustou naquele dia.
- Ah, o que é isso! Suas táticas de sedução são ótimas, infalíveis! - os dois riram juntos, no começo ele não tinha ideia de como ela era divertida. - Deram certo!
- Mesmo? - franziu o cenho, achando que era uma brincadeira, mas ela concordou. - Eu não estava tentando nada, mas tudo bem.
- Ai, merda! Achei que você estava tentando me conquistar - baixou a cabeça, fingindo estar desapontada.
- Eu não tentei nada naquele dia, não quer dizer que eu não tenha tentado depois - ele sorriu e então esticou o pescoço para beijá-la.
E parecia que eles sempre teriam assuntos para conversar. Fosse para se abrir sobre sentimentos ou rirem juntos de alguma história da infância, a companhia um do outro nunca ficava entediante, muito pelo contrário, tornava as coisas ainda melhores entre eles. E talvez por isso não se deram conta de que já havia anoitecido enquanto continuavam ali conversando sobre tudo o que podiam.

- Aquela é Andrômeda - apontou para a constelação no céu e acompanhou com o olhar. - Você conhece a história?
- É claro. Andrômeda era a filha de Cassiopeia e de Cefeu, governantes da antiga Etiópia. Quando Cassiopeia se gabou de ser mais bonita que as Nereidas, filhas do deus marinho Nereu, Poseidon se indignou e enviou o monstro Cetus, a Baleia, para assolar o reino dos etíopes. Orientados pelo oráculo de Ammon, que sentenciou que o sacrifício da sua filha à Baleia era o único modo de acalmar o deus, o rei e a rainha prenderam Andrômeda a uma rocha perto do mar. Mas Perseu, apaixonado, chegou a tempo de resgatá-la, montado sobre Pégaso, o cavalo alado. Perseu conseguiu salvar Andrômeda do seu destino cruel mostrando a cabeça de medusa à Baleia, e imediatamente o monstro se transformou em pedra. É realmente uma história incrível, eu amei quando você me contou.
- O quê? - franziu o cenho ao olhar pra ele. - Eu não te contei essa história.
- Claro que contou, , eu não saberia se você não tivesse me contado...
- Não, , eu não te contei - ela parecia confusa e levemente desnorteada, de repente já não sabia se tinha contado ou não.
- Que estranho, eu... Eu podia jurar que... - também estava desnorteado, podia se lembrar dela contando, mas não via o momento exato em que aconteceu. - Acho que estou ficando louco.
- Se você soubesse a frequência com que eu faço a mesma coisa, não diria isso. Está tudo bem - sorriu para que ele se sentisse melhor.
- Você não sente como se a gente se conhecesse há muito mais tempo?
- Sim, mas... A gente se dá tão bem, não é? Acredito que seja isso - ela não queria comentar todas as vezes em que viu ou sonhou com coisas estranhas sobre eles. - E espero que com o tempo se torne ainda melhor.
- Eu também espero - ele sorriu e envolveu um braço ao redor dela novamente. - Quer voltar pro hotel? Imagino que esteja com fome.
- Você acertou em cheio - ela admitiu rindo e então eles se levantaram para irem embora.

...

acabou por aceitar o convite de para que jantassem juntos. Ela não era uma grande fã de frutos do mar, mas comeu mesmo assim, mais para fazer companhia pra ele do que qualquer outra coisa. Ainda sentia a areia nas pernas e apenas queria ir para a casa dos seus pais para se banhar e cair na cama, estava exausta.
- Eu acho que é hora de ir - ela disse ao terminar de juntar a sujeira que fizeram na bandeja, então se levantou bruscamente da cadeira.
- Não... Fica, passa a noite aqui - ele pediu com tanta educação que ela hesitou.
- Eu não sei, , preciso mesmo tomar um banho e me livrar de toda essa areia, e...
- Depois daquela porta tem uma coisa chamada chuveiro - ele apontou para a porta do banheiro e ela riu. - Muito útil para tirar areia do corpo.
- Tudo bem, você me pegou, eu trouxe uma troca de roupa porque não sabia o que esperar - ela admitiu e notou que ele sorriu enquanto seu rosto demonstrava uma leve surpresa. - Eu vou até o carro pegar.
concordou e então pegou suas chaves e deixou o quarto, pegou o elevador e ao sair foi até o carro estacionado do outro lado da rua para pegar a sua bolsa onde a roupa estava guardada, em seguida voltou para o hotel. Já no quarto, não viu por lá, mas ao ouvir o chuveiro ligado, decidiu se sentar na mesma cadeira de antes para esperar a sua vez. O seu celular tocou e ela viu o nome de sua mãe na tela, por mais que não quisesse atender, sabia que deveria, afinal, deixou os pais preocupados.
- Oi, mãe - ela disse ao atender e afastou um pouco o aparelho do ouvido, esperando os gritos dela.
- , onde você está? - Lizzy soou mais preocupada do que furiosa e então percebeu que ela era uma mulher de vinte e cinco anos e não uma adolescente. - Ficamos preocupados, sua desculpa foi ridícula.
- Estou em Liverpool, mãe... - ela olhou para os lados antes de diminuir o tom de voz para continuar falando. - Com o . Ele está na cidade e, bem... Eu queria vê-lo, só não queria me explicar. Conheço bem o senhor Thompson.
- Já entendi - ela riu do outro lado da linha, não podia julgar sua filha por fazer as mesmas coisas que fez quando ela era jovem. - Acho que seu pai já sabe que você é adulta, , não se preocupe com isso.
- Não sei se ele sabe... De qualquer forma, já estou avisando que não vou voltar pra casa hoje, vou ficar aqui com ele.
- O quê? - Lizzy ergueu o tom de voz, mas não em sinal de repreensão e sim de surpresa, fazendo com que afastasse o telefone do ouvido de novo, dessa vez rindo. - Filha, eu sei que no momento o meu sonho é ser avó, mas, por favor, se protejam, pra você ainda é cedo.
- Relaxa, mãe, eu não acho que vá acontecer alguma coisa - riu, realmente não sabia. - Ele me pediu pra ficar, mas... Não por causa disso, é porque ele realmente queria que eu ficasse. Não pude dizer que não, eu não consigo dizer não.
- Entendo... , seja sincera, minha filha... O que você sente por ele?
- É cedo para dizer que me apaixonei, mãe? - ela confessou de repente, sem ter noção do sorriso que Lizzy abriu do outro lado da linha.
- Não tem essa de cedo ou tarde, o que importa é o que você sente.
- Eu não sei se devo contar pra ele - falava cada vez mais baixo, não queria mesmo que pudesse ouvir.
- Não fique se forçando, conte quando se sentir pronta... É melhor eu desligar, não é? Não quero atrapalhar vocês. Até amanhã.
- Obrigada, mãe - ela agradeceu com sinceridade e sorriu mesmo que Lizzy não a visse. – Amanhã provavelmente terei uma surpresa pra vocês.
- Que surpresa? , veja bem o que você está aprontando.
- Não se preocupa, é uma coisa que você vai gostar. Até amanhã, mãe - desligou após ela se despedir também e então notou que havia acabado de sair do banheiro, acompanhado pelo vapor que vinha logo atrás.
Ela tentou não olhar muito, mas não podia deixar de notar que ele estava bem fisicamente, se lembrava de ouvir ele dizendo alguma vez que tempos antes estava focado na academia, mas que recentemente não tinha o mesmo foco; de qualquer forma ele continuava bem. Estava acostumada a vê-lo sempre muito bem vestido, e não em uma calça velha de moletom e sem qualquer parte de cima. desviou o olhar antes que ele notasse, estava distraído enquanto esfregava a toalha contra os cabelos molhados.
- Tem toalhas limpas no banheiro - ele comentou e ela assentiu. - Está tudo bem, ? Você parece um pouco tensa.
- Eu estou bem - ela sorriu e se levantou, pegando a bolsa na outra cadeira. - Com licença, é a minha parte favorita do dia.
gargalhou quando ela passou por ele. inalou o perfume de banho recém tomado misturado com desodorante masculino e entrou no banheiro. Deixou a bolsa sobre a pia e apoiou as mãos sobre a mesma, encarando o seu reflexo no espelho. Seu cabelo estava uma bagunça e ela estava levemente queimada de sol, além, é claro, de quase ter passado uma grande vergonha instantes antes.
- Se controla, - sussurrou para si mesma. É só um cara muito gato e legal, mas ainda não é o momento, ela pensou ao invés de falar, então começou a se despir.

A água do chuveiro estava bem quente, do jeito que ela gostava. se permitiu relaxar um pouco enquanto lavava o cabelo para se livrar de vez da maresia. A última imagem que viu antes de entrar no banheiro ainda estava em sua mente e ela seria hipócrita se dissesse que era inapropriado ou não era bom o suficiente, porque era sim, ao menos para ela que nunca foi exigente em relação aos homens com quem se relacionou. Disse para sua mãe que não sabia se realmente aconteceria algo, mas já tinha mudado de ideia, podia imaginar as mãos dele descobrindo o seu corpo, a pele dele se chocando contra a sua e a sua boca colada na dele. Os beijos eram bons na opinião dela, mas sabia que ele tinha mais para oferecer e estava louca para provar.
O fato de estarem saindo, porém não dormindo, não era estranho para . era um cara tranquilo, e ela preferia assim também, pois antes não se sentiria confortável o suficiente para ter relações com ele. Agora era diferente e ela queria, não se importava de estar pensando naquilo.
tentou não demorar, mas também não foi rápida o suficiente para que ele pensasse que ela não sabia tomar banho direito. Ela desligou o chuveiro e se enrolou em uma das toalhas enquanto secava o cabelo com a outra. Felizmente, sua escova estava sempre na bolsa para situações como essa, então ela poderia sair do banheiro sem se preocupar se estava parecendo uma varrida qualquer. A dúvida seguinte era se deveria sair daquela forma, para que se vestir se ela pretendia tirar logo em seguida? Metade do trabalho já estaria feito.
- Por que eu sou assim? - ela murmurou quando a consciência falou mais alto e ela acabou por vestir a calcinha. - Sutiã nem pensar.
O short e a camiseta larga não pareciam muito convidativos e se odiou por isso, desejando estar mais atraente. Tem um cara lindo ali do outro lado da porta enquanto eu estou tão linda quanto a minha bisavó indo para a missa, ela pensou e bufou em reprovação enquanto dava uma última conferida no espelho, ficando muito insatisfeita com o que estava vendo, então saiu do banheiro, deixando a sua bolsa e a toalha molhada no sofá. já estava deitado na cama - e totalmente vestido -, tinha colocado um filme para se distrair enquanto ela estava tomando banho. Ele olhou para e fez sinal para que ela se deitasse ao lado dele, e ela assim fez. Se aproximou devagar e então passou um braço ao redor dos ombros dela enquanto ela também usou de um dos seus braços para abraça-lo. Até tentou prestar atenção no filme, mas não conseguia, o perfume que ele exalava era tentador o suficiente para que lutasse contra a própria vontade.
prestava atenção no filme, mas então sentiu os lábios dela contra o seu pescoço, deixando leves beijos no local. Ele sentiu todos os pelos do corpo se arrepiando, e decidiu retribuir ao se inclinar, colocar uma das mãos sobre o rosto dela e dar início a um beijo nem um pouco recatado, exatamente como queria, o que foi o suficiente para que ele desligasse a televisão. Trocaram de posição e ele colocou o seu corpo parcialmente sobre o dela para não jogar todo o seu peso sobre ela. Sentiu os dedos de tocando a sua nuca enquanto ele fez uma trilha de beijos até o pescoço dela, onde não se conteve ao deixar ali um chupão ardido que fez com que gemesse. Ela sentiu a mão dele subindo até o seio esquerdo dela e apertando de leve por cima da camiseta, a estimulando. Eles retomaram o beijo um tanto apressados e pensou que se quer ela precisava de preliminares para se estimular, estava com os hormônios à flor da pele, desejando que se livrassem daquelas roupas o mais rápido possível.
Trocaram de posição novamente e se sentou no colo dele. Entre beijos, ela estava se deliciando com as mãos firmes dele passeando pelas suas coxas e apertando a sua bunda. Até se esqueceu de como ele era tímido fora dali, mas aquela mão boba compensava, isso sem contar que tinham sincronia entre si, como se não fosse uma novidade para os dois. era sempre cauteloso, mas simplesmente sabia o que fazer com , como se aquela não fosse a primeira vez em que dividia a cama com ela e ver que ela estava gostando tornava as coisas ainda melhores.
Se afastaram por um instante para que ela o ajudasse a tirar a camiseta, lançando em direção ao chão e em seguida ele fez o mesmo com ela. Ela já estava sem sutiã e ele não foi nem um pouco tímido ao tirar um breve instante para admirar a garota que era só dele.
- Você é linda, - disse em um sussurro, seus lábios roçaram nos dela e ele percebeu que ela esboçou um largo sorriso.
Foi que retomou o beijo, mas se surpreendeu quando ele primeiramente desceu até o seu pescoço e depois se insinuou para voltarem à posição anterior. Não podia explicar o prazer que tomou conta do seu corpo quando ele desceu do pescoço para os seus seios, começando a chupá-los com vontade. não conteve os gemidos que escaparam, mas tentou ser discreta, embora fosse muito difícil quando a língua dele tocava o bico enrijecido. Foi ela própria que trocou outra vez de posição depois, agora ficando por cima, pensou que ele já tinha se divertido e agora era a vez dela. Começou com chupões leves no pescoço afim de provocar, mas então se afastou ao se erguer um pouco, apoiando o peso do seu corpo sobre os seus braços. tinha uma ótima visão dali, não era algo para se contestar, além de poder ver que os olhos dela brilhavam de malícia quando ela pressionou sua intimidade contra a dele, começando a se movimentar devagar logo em seguida. Ele fechou os olhos de tamanho prazer e gemeu quando ela foi mais rápido, rebolando com um pouco mais de força. estava satisfeita com a reação dele, mas queria mais, se debruçou sobre ele, retomando um beijo enquanto repetia o seu movimento bem devagar com o auxílio das mãos dele que apertavam suas coxas como um prêmio.
- Olha só quem não tem nada de santo - ela disse entre os selinhos que deixava e viu que ele sorriu. - Estou surpresa, .
- Então não fique - ele respondeu ofegante e então se levantou para ficar sentado.
foi para o lado para se livrar do seu short que ela julgou brega demais para o momento, enquanto ele tirava a calça de moletom. Não demorou muito para que estivessem aos beijos novamente, com o desejo aumentando a cada segundo, pedindo mais do que meros toques, e sim que estimulassem um ao outro antes de continuarem, se livrando das últimas roupas que vestiam. olhou pra ele, procurando por uma reação, mas estava ocupado o suficiente se deliciando com as mãos ágeis dela, o que a deixou satisfeita para continuar até que ele também quase alcançasse o ápice, mas a parou, antes que não pudesse mais se controlar.
- Eu não trouxe uma...
- Que se foda, eu vejo o que faço depois - ela rebateu antes mesmo que ele terminasse de falar. Ela jamais incentivaria o sexo sem proteção, mas não queria que aquele momento acabasse ali. - Só mostra pra mim o que você sabe fazer, hum? - deixou um selinho nele antes que ele se colocasse por cima.
Ela abriu as pernas de modo que ele ficasse confortável. Fechou os olhos e mordeu seus lábios quando ele penetrou devagar e começou a se movimentar, entrando e saindo repetidas vezes. Seus corpos entraram em sincronia, eram um só e não existia mundo lá fora, eram apenas os dois e mais ninguém. cravou as unhas curtas nas costas dele e rebolou repetidas vezes quando ele estava dentro, fazendo com que ele gemesse em resposta.
- Puta merda - xingou baixo em resposta antes de intensificar com um pouco mais de força, tendo a permissão de para fazê-lo. Ela não estava acostumada a ouvir ele xingar, mas achou sexy.
Ela o puxou pela nuca para um beijo afim de abafar os gemidos de ambos, que ficavam cada vez mais difícil de conter a cada instante, conforme se aproximavam do orgasmo. ergueu um pouco o quadril, quase como se pedisse mais, se deliciando com o movimento que fazia a cama ranger enquanto ele a ajudou ao segurar firme suas coxas, e só então, um pouco depois, ela chegou ao ápice primeiro; ele foi depois e caiu ao lado dela.
Estavam ofegantes e seus corpos suados, o banho já não valia de nada, mas então se olharam e sorriram um para o outro. se aproximou e deitou sua cabeça sobre o peito dele enquanto os cobria com o lençol.
- Nossa - foi tudo o que ela conseguiu dizer antes de respirar fundo. - Foi...
- Foi - concordou antes mesmo que ela terminasse de falar, acariciando os cabelos molhados dela com a sua mão.
- Você nem tem ideia do quanto que eu queria enquanto tomava banho. É só nisso que eu pensava - admitiu, já não tinha motivos para não dizer.
- Eu pensei nisso enquanto você vinha para Liverpool, mas não queria forçar a nada se você não quisesse.
- Você é um fofo - sorriu e ergueu a cabeça para olhar pra ele.
- Não era bem isso o que eu queria ouvir, mas obrigado - ele riu e deixou um beijo no topo da cabeça dela.
- Tem razão, não é isso o que se diz depois do sexo, não é? - riu e se virou totalmente pra ele, se apoiando nos seus cotovelos e aproximando o seu rosto do dele. - Você foi ótimo e essa foi a melhor que eu já tive, se você quer saber.
- Ah, eu realmente não quero saber das outras, vamos pular essa parte - disse com bom humor, fazendo gargalhar. - Você também foi ótima, .
- Eu já posso te apresentar pra minha família amanhã, hein? - ela perguntou em um sussurro, a ponta do seu nariz tocou na do nariz dele e seus lábios roçaram nos dele também. - Apresentar oficialmente.
- Seu pai é ciumento? - ele perguntou após dar um selinho nela e concordou com a cabeça.
- Sim, mas... Ele vai ter que se acostumar, de qualquer maneira - ela sorriu, e após dar mais um beijo rápido nele, se deitou de novo entre os braços dele, tendo a sensação de praticamente estar em casa.


Continua...



Nota da autora: OIEEEEE como vocês estão?
DE LONGE esse é um dos meus capítulos preferidos e nem preciso dizer o pq né? A praia e o que veio depois... nossaaaa ahahahah finalmente aconteceu! E eu achei líndissimo!
Espero que estejam curtindo a evolução deles. É um desafio pra mim, é um casal muito diferente do convencional, mas eu gosto muito da maneira que eles funcionam, espero que gostem também <3 xoxo



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