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Última atualização: 07/04/2020

Capítulo 1

Aumento da pressão sanguínea. Ritmo cardíaco acelerado. Picos de energia. Pupilas dilatadas. Excitação.

Essas são apenas algumas das reações e respostas do corpo quando a adrenalina é liberada no organismo. Para , adrenalina era muito mais do que um simples hormônio. Era o que fazia seu corpo funcionar perfeitamente. Somente nesses momentos, quando estava realmente no seu limite, era quando ela se sentia ela mesma, em toda a sua essência. Era a sua droga e, ao mesmo tempo, sua libertação. Era a única coisa que a impedia de pirar dentro de sua mente caótica.
Não é à toa que os médicos injetam uma dose de adrenalina nos pacientes em casos de parada cardíaca. É o que faz o coração voltar a bater. E era assim que se sentia nesse momento, como se estivesse voltando à vida.
A pista de corrida passava como um borrão em sua volta. O vento forte batia no seu corpo, atravessando o macacão especial de automobilismo recém-comprado e fazendo os pelos do seu braço e pescoço se arrepiarem. A sensação de liberdade fazia a garota sentir como se estivesse voando. E ela praticamente estava. O ponteiro de velocidade da sua motocicleta marcava 240 km/h e ela se perguntou se era possível acelerar ainda mais. Bom, ela estava prestes a descobrir.
Deixar as coisas apenas na imaginação não era muito o seu forte - dificilmente deixava de fazer algo que queria. Quando acelerou ainda mais, a pressão jogou seu corpo para trás e ela precisou se agarrar firme no guidão para não ser jogada da moto. Se não fosse pelas luvas, provavelmente poderia notar as juntas de seus dedos ficarem mais brancas devido à força com que apertava a direção.
Seu coração bombeava o sangue do seu corpo num ritmo tão frenético quanto as batidas de uma música eletrônica repetitiva. Quem precisa de drogas quando se tem isso? Ela estava em transe.
As curvas na pista eram seu momento favorito do percurso. Ela e a moto se inclinavam juntas, como se fossem uma coisa só, e quando seu joelho quase encostou-se ao chão, em uma curva mais fechada, ela pôde sentir o calor que subia da pista quente. Ela sorria dentro do capacete, não podia evitar. Como sentia falta dessa sensação. poderia ficar ali para sempre, dando voltas e voltas sem parar. Ela era incansável.
Do outro lado da pista, na arquibancada, estava , seu irmão mais velho. Seu coração também batia acelerado, mas por outro motivo. Ele estava puto. Como é que ela lhe apronta uma coisa dessas? Se ela não explodisse a cara no asfalto até o final dessa maldita corrida, certamente ele mesmo seria responsável por matá-la. era um homem intimidador naturalmente, mas no estado em que se encontrava, com a raiva emanando de seus poros, as pessoas do local tinham medo de sequer se aproximar dele, era como se o instinto de proteção falasse mais alto. Naquele momento, era como um predador em caça, seus olhos mortais estavam focados na sua presa. Ela estaria morta assim que ele pusesse suas mãos nela.
Ao assistir o marcador digital do telão sinalizar com um estrondoso som que aquela seria a última volta da competição, cerrou a mandíbula. Antes mesmo dos segundos finais, ele já estava posicionado imóvel na linha de chegada.

– Ei, senhor. Você não pode ficar aqui. É apenas para credenciados – um rapaz alto e magrinho tentou lhe chamar atenção, mas lançou-lhe um olhar assassino que fez com que ele recuasse, assustado, e desistisse em seguida. Novamente, o instinto de sobrevivência falava mais alto, era inconsciente.

Quando a moto de ultrapassou a linha de chegada, ela freou abruptamente, derrapando de leve a roda traseira do veículo.
Respirou fundo, sentindo finalmente a descarga de endorfina passar por cada parte de seu corpo. Ainda ofegante, desceu da motocicleta elegantemente, recebendo os "parabéns" e apertos de mãos de algumas pessoas presentes ao redor.
queria matar a todos; quem eles pensam que são para encorajá-la daquela forma?
No momento em que retirou o capacete, seus cabelos pretos se libertaram, caindo sobre as suas costas e ombros como uma cascata. Ela subiu o olhar para o placar digital, abrindo um enorme sorriso após analisar seu tempo, orgulhosa de si mesma.
Ela estava em êxtase. Seu corpo inteiro formigava. Sentia-se tão leve, como não se sentia há tempos. Para ela, não havia palavras capazes descrever essa sensação. Não precisava de mais nada. Era como se ela tivesse acabado de sair de uma tarde no SPA e não de uma tensa e cansativa corrida de moto – para não dizer perigosa.
Esse sentimento, entretanto, durou menos de um segundo, pois logo em seguida sentiu um aperto forte na parte superior do seu braço, puxando seu corpo contra a sua vontade para longe dali, ignorando algumas pessoas que continuavam vir animadas parabenizá-la.

– Ei!! – ela reclamou indignada tentando puxar seu braço para si, mas quando levantou o rosto e viu quem era, abriu um sorriso quase infantil. – , não acredito que você veio.

Ele a puxava rápido demais, fazendo com que ela tropeçasse nos próprios pés. Apenas quando estavam longe o suficiente da pista, ele a soltou de forma brusca.

– Não acredita que eu vim? – ele ironizou. – Não acredito que você veio! Qual é o seu problema? Está tentando se matar de uma vez, é isso? – ele praticamente gritou.

O tom grave e ameaçador de faria qualquer um sair correndo com o rabo entre as pernas. Mas não . Claro que não. Ela o encarava com certo tédio.

, se você for começar a me dar sermão uma hora dessas, eu vou precisar de uma bebida, mas eu acho que está um pouco cedo demais pra isso, não? – ela respondeu brincalhona. Ele, entretanto, não achou a menor graça e permaneceu sério.

respirou fundo. Ela sabia que a raiva dele não duraria muito tempo; estava acostumada com o instinto superprotetor de seu irmão e sabia muito bem como amolecê-lo. Ela não só era imune ao potencial perigo de , como era a única pessoa do mundo que o tinha nas mãos. E embora 90% do tempo sentia vontade de socá-lo, ela o amava mais que tudo no mundo.

– Olhe para a minha cara e veja se eu pareço estar brincando – ele bufou. – Como se eu tivesse tempo para aturar as suas irresponsabilidades.

Ok, talvez 95% do tempo ela sentisse vontade de socá-lo. Ele continuou:

– Você pode pular de paraquedas, bungee jumping, estourar a cara nas suas competições de luta... aprontar tudo o que apronta comigo, eu já estou acostumado, mas agora você foi longe demais – seu rosto começava a ficar vermelho e esperou uns minutos até perceber que sua respiração foi ficando mais ritmada. A mudança seria imperceptível para qualquer outra pessoa que escutasse a conversa, mas não para ela. Ela o conhecia bem demais.
– Desculpe, . Mas você precisa entender que eu não sou mais uma criança. E, além disso, eu ainda estou esperando você me dar parabéns, porque não sei se você notou, mas eu venci a corrida – sabia que estava brincando com fogo, mas quando queria podia ser bem irônica também.
– Você não venceu porque tem boa técnica, mas sim porque não possui nenhum escrúpulo – ele disse com desdém e viu torcer o canto da boca. Apesar de saber que ela era orgulhosa demais para se magoar, mesmo assim ele se arrependeu do que falou. – Desculpe, mas você não pode fazer isso comigo. Não tenho mais idade para isso, meu coração não é tão forte quanto o seu, criança – assim como previu, se rendeu.

Ela se incomodou por ser chamada de criança. Ele sabia que ela odiava quando usava esse termo, mas no fim decidiu relevar.

– Eu sei que você é um idoso de 31 anos, . Não precisa ficar me lembrando disso o tempo todo – ele a encarou com repreensão, mas acabou cedendo com o que parecia ser um sorriso. sorrindo? Isso sim era uma novidade, pensou , mas decidiu não brincar mais com a sorte.

A verdade é que ela era a única pessoa do mundo que importava a ele e ele tinha um medo irracional de perdê-la. Sabia que era excessivamente preocupado e controlador quando se tratava da irmã, mas ele tinha motivos mais que suficientes para ser assim. E se ela acabasse se machucando pra valer... ou coisa pior? Não. Só o pensamento fazia com que ele perdesse o juízo e seu corpo tremesse. Se algo de ruim acontecesse com ela, ele não se perdoaria nunca. Ela era a sua criança, sua irmãzinha, era tudo na sua vida. E apesar de ser um homem frio e calculista, ele sabia muito bem que era a única capaz de esquentar seu coração de gelo. Sem ela, ele congelaria de vez.

– Venha, vou te levar para almoçar – ele disse já passando a mão pela sua cintura a fim de guiá-la para o carro. Queria tirá-la dali o mais rápido possível.
– Onde vamos? – ela perguntou animada, já imaginando a resposta.
– Onde você acha? – ele viu abrir um sorriso juvenil, como uma criança que acaba de receber o presente que queria. Não tinha jeito, ela sempre o ganhava. Era encantadora demais e sabia muito bem como usar isso a seu favor. Ele estava mesmo perdido com essa pirralha.

***


Após trocar de roupa, a levou ao restaurante Alinea, um dos melhores de Chicago e preferidos de , que dizia amar o lugar por ter a melhor sobremesa de toda a cidade. Embora o estabelecimento só recebesse clientes com horário reservado, eles tinham passe livre por estarem presentes na lista de "visitantes VIPs" do local.
Nessas horas, ter um sobrenome importante e a carteira recheada, tinha lá suas vantagens afinal, pensou .
A recepcionista do restaurante os recebeu com um sorriso.

– Olá , que bom vê-lo novamente – disse a ruiva, simpática até demais para o gosto de , que a olhou de rabo de olho. – Vou levá-los até a mesa – quando a moça se inclinou para pegar os cardápios, deixou os seios à mostra de maneira provocativa, fazendo com que o seu decote ficasse propositalmente no campo de visão de . quase rosnou e quis voar no pescoço da ruiva de farmácia, mas ele foi mais rápido, passando a mão pelas suas costas a guiando pelo salão adentro em direção às mesas.

Apesar de autoritário e maníaco por controle, arrancava suspiros femininos por onde quer que passasse. não as culpava, afinal, ele era um homem realmente bonito. Mas ela tampouco facilitava a vida de suas pretendentes, que em sua opinião, nunca eram boas o bastante para ele, pois estavam sempre se aproveitando do seu dinheiro ou do status que seu nome trazia. A verdade é que ela também era possessiva e ciumenta demais com . Tinha medo de ser trocada ou deixada de lado na vida do irmão. Como se isso fosse possível...
Muitas vezes, nem se dava ao trabalho de espantar as mulheres. Elas mesmas desistiam de se aproximar dele ao notarem que estava por perto – apesar da estatura, ela também podia ser bem intimidadora; vai ver era de família.
Não que ligasse muito para isso. Na verdade, ele até se divertia. O que ele menos queria na sua vida era um relacionamento. Sua irmã muitas vezes o ajudava, expulsando todas as suas pretendentes de seu apartamento nas "manhãs do dia seguinte". Era um dos hobbies favoritos de . E considerando a lista de hobbies da menina, era também um dos mais seguros.
Eles se sentaram e fizeram seus pedidos de sempre. Ela foi a primeira a falar:

– E então... vamos brindar a minha magnífica vitória de hoje? – sabia que o estava provocando, mas tinha acordado em um péssimo dia e, pra falar a verdade, o mau humor de a divertia.
– Para o seu próprio bem, eu vou fingir que nem ouvi isso – ele retrucou, fazendo ela deixar escapar uma gargalhada e então continuou: – Eu não quero mais saber de você correndo, seu novo brinquedinho será posto à venda amanhã, quer você queira ou não! - ele disse firme, se referindo a sua moto.

Ela arqueou uma sobrancelha, em sinal de desafio.
sabia que estava pisando em terreno perigoso. Sua irmã era teimosa e tinha um orgulho que mal cabia em si. Ele tinha plena noção de que se lhe dissesse para não fazer uma coisa, aí sim que ela o faria. Garota mimada. Sempre conseguia o que queria. Normalmente ele a deixava livre para fazer o que bem quisesse. Já tinha desistido de tentar domá-la. Entretanto, deixava ela fazer desde que fosse sob as suas condições. Se ela queria saltar de paraquedas, tudo bem, ele contrataria o instrutor mais capacitado do país para treiná-la. Mas aquilo era demais e ele sabia. Seus hábitos estavam piorando e se tornando cada vez mais perigosos e autodestrutivos. Saltos de paraquedas não eram mais o suficiente para ela e corridas de moto era uma linha que ele definitivamente não estava disposto a deixar ela cruzar.

– E quem você pensa que é para me dizer o que eu devo ou não fazer da minha vida? – ela respondeu, dessa vez claramente mais irritada.
– Você sabe muito bem quem eu sou. E o que eu sou capaz de fazer – ele disse em um tom ameaçador que conhecia bem. Não que fizesse alguma diferença para ela.
– Experimente! – ela o provocou, fitando seus olhos de maneira desafiadora.

Quando o clima na mesa começou a ficar pesado, o garçom chegou com os pedidos de cada um. Comeram em silêncio.
era orgulhosa e sabia disso, mas estava abusando. Ela sempre fora uma mulher independente e segura de si. Tinha sua própria empresa e desde que saiu do colegial nunca precisou contar com o dinheiro da família para nada. Ganhava bem o bastante com seu trabalho e com as competições que normalmente vencia. Nunca levou desaforo para casa ou aceitou ordens de homem nenhum. Apesar de ouvir mais do que qualquer um e respeitar sua opinião, ela jamais colocava as vontades de outra pessoa acima das suas próprias quando se tratava da maneira como iria viver sua vida. Muitos viam isso como egoísmo, mas a verdade é que ela se respeitava, respeitava seu corpo e suas vontades. Tudo bem, pode até ser que seja um pouco de egoísmo, mas cada um com os seus defeitos. E quando se tratava de defeitos, tinha vários. Mas ela também era uma pessoa bondosa, lutava com unhas e dentes pelo que achava que era certo e justo. Vivia envolvida em diversas causas sociais e era fiel em suas amizades e a todas as pessoas que amava – não que a lista fosse muito grande. A verdade é que tinha suas cicatrizes incuráveis, mas novamente, quem não tinha?

– O nosso pai sabe que está metida nisso? – cortou o silêncio, pouco depois de pedir a conta. – Ele sabe que está correndo?
– E desde quando o papai se importa com o que eu faço? – ela disse, carregando propositalmente o deboche na voz quando pronunciou "papai".
– Você sabe que isso não é verdade, mas não vou discutir com você. Pelo menos não agora – sabia que essa era uma das cicatrizes de .

A garota respirou fundo. Sua família um dia foi feliz, ela sabia disso. Ela viu fotos antigas de quando era apenas uma pequena criança e podia jurar que a imagem a fazia lembrar aquelas famílias de comercial de margarina. Sua família já foi feliz. Hoje, sequer poderia ser considerada uma família. Depois que sua mãe morreu vítima de um câncer, quando tinha apenas 5 anos, seu pai, Russell, foi ao inferno. Ele se tornou uma pessoa fechada e fria, que não sabia nada da vida dos filhos e que não se importava com mais ninguém, nem mesmo com os filhos. , com apenas 11 anos, era quem ajudava a babá a tomar conta da irmã. Russell, entretanto, canalizou toda a sua energia no trabalho. Durante anos, as crianças mal o viam em casa – e até hoje isso não mudou tanto. Em menos de 20 anos, Russell havia construído do zero um império de hospitais e era considerado hoje um dos homens mais influentes no ramo de negócios nos Estados Unidos, conforme citava a última edição da revista Time.
trabalhava com o pai, na área administrativa da Rede de Hospitais. sabia que ele estava sendo treinado para se tornar o próximo CEO da empresa, sucessor de seu pai. Ela tremia só de pensar nessa palavra. Hoje, Russell era praticamente um estranho para ela e não podia negar que sentia medo ao se questionar se um dia isso aconteceria com .
Mas não, não havia como. Crescer em uma casa com um pai ausente, lidando com a recente perda da mãe fez com que os irmãos criassem um elo indestrutível. Eles eram tudo um para o outro - e coitado do infeliz que tentasse se colocar no caminho dos dois. Por mais complicada que fosse essa relação, eles realmente se amavam e se preocupavam um com o outro.
Os irmãos já estavam do lado de fora do restaurante, esperando o manobrista trazer o carro de volta quando o celular de apitou no bolso de seu terno, sinalizando uma nova mensagem de texto. O visor do aparelho notificou que se tratava de um número desconhecido. franziu o cenho antes de abrir:

"E aí, cara. Não interessa quais são seus planos para hoje à noite, cancele-os. Isso não é um pedido. Não sei o que anda fazendo, mas tenho certeza de que precisa de um pouco de agitação e álcool na sua vida. Essa cidade não é a mesma sem mim. Te espero no The Underground às 23h. – ."

não pôde deixar de rir com a mensagem. era mesmo um canalha cheio de si. E tinha finalmente voltado da França, onde passou os últimos quatro anos correndo na famosa competição automobilística 24 horas de Le Mans.
O amigo era o atual campeão da NASCAR e também o mais próximo que tinha de um irmão. Quando se mudou para a Espanha, ele e eram inseparáveis – época da vida de que era constituída mais por borrões do que por lembranças propriamente ditas, devido à alta quantidade de álcool que era acostumado a ingerir.
Quem diria que em poucos anos ele deixaria de ser o jovem inconsequente, amante de festas, mulheres e bebidas para se tornar o homem de negócios que, conforme gostava de lembrá-lo, não sabia como se divertir.

– Ei... Terra chamando! – lhe chamou atenção estalando os dedos, já sentada no banco carona do carro que ele sequer tinha percebido que chegou.

olhou para e para a mensagem no celular em sua mão e, por um rápido momento, uma ideia passou pela sua cabeça. Deus queira que ele não tivesse ficado maluco também.

***


Quando deixou na porta de seu prédio, tudo o que a garota podia pensar em fazer era tomar um bom banho quente. O ponteiro do relógio mostrava que não passava das três horas da tarde, mas ela já se sentia exausta. Pudera, depois de uma corrida de moto e discussões irritantes com , precisava mesmo descansar. O que mais queria fazer era vestir seus pijamas, assistir uma série de comédia qualquer na Netflix e encerrar a sexta-feira ali mesmo, espremida em meio ao edredom de sua tão confortável cama e um balde de pipocas. Mas é claro que não a deixaria fazer isso - a melhor amiga era super baladeira e podia ser bem persuasiva quando colocava uma coisa na cabeça. Certamente a arrastaria para alguma boate ou pub essa noite. Quantas vezes já não ouviu da boca da amiga que "sextas não foram feitas para ficar em casa."
Ao entrar no prédio, apertou o número 25 no painel do elevador e segundos depois a porta se abriu, revelando logo de cara a ampla sala de seu loft. Ela olhou para o ambiente impecavelmente decorado de maneira bem minimalista, todo em tons de branco e cinza. Era o seu refúgio. A parede de vidro panorâmica ia de uma ponta a outra da sala, deixando a atmosfera bem iluminada e proporcionando uma bela vista do Lago Michigan, que adorava observar. O loft duplex ficava no último andar do prédio, o que fazia com que as pessoas na rua parecessem pequenas formiguinhas aos olhos dela.

– Senhorita , chegou tão cedo em casa – Amélia surgiu da cozinha, a cumprimentando com a voz doce que tinha.
– Não fui ao escritório hoje, Amelinha, estava com – ela explicou, preferindo esconder a parte da corrida de sua tão preocupada e amorosa "babá". – E quantas vezes eu já lhe pedi para não me chamar de senhorita ou pelo sobrenome? Pelo amor de Deus, você trocou minhas fraldas. Precisamos de mais intimidade que isso? – ela disse rindo e viu Amélia abaixar a cabeça, envergonhada.
– Desculpe, querida. É o costume, você sabe... Pelo que bem se lembra, eu trabalhava para o seu pai e ele nunca me deu muita liberdade para intimidades e primeiros nomes.
– Sei muito bem, morei naquela casa por anos. Mas não se esqueça que eu te resgatei de lá, então como agradecimento, por favor, chega dessas formalidades – lançou uma piscadela para a mais velha, que sorriu em resposta.

Amélia era uma mulher baixinha de uns 50 anos, que fora contratada para ser babá de quando ela ainda era um bebê recém nascido. Acompanhou toda a infância e trajetória da doença de sua mãe junto da família . Hoje, 25 anos depois, era ela quem cuidava do apartamento de , deixando tudo em ordem e ajudando a jovem como podia, com almoço e limpeza.
A ideia de levar Amélia para trabalhar no apartamento de veio de , como era de se esperar. Era a condição dele para "deixar" morar sozinha. Se sentiria mais confortável se tivesse algum adulto por perto zelando por ela. Como se ela precisasse disso. tentou resistir, argumentando que já não era mais uma criança, mas acabou se dando por vencida. A verdade é que ela gostava demais da babá e não achava a ideia de toda ruim. Amélia era a figura mais próxima que ela tinha de uma mãe e sentia um carinho genuíno por ela. Fora que sua comida era deliciosa e não sabia muito bem o porquê, mas a fazia se lembrar de sua mãe.
subiu para o quarto e foi tomar seu tão desejado banho. Quando entrou no chuveiro, ficou alguns minutos apenas sentindo a água quente escorrer pelo seu corpo, batendo em seus ombros e aliviando parte da tensão que se instalava ali.
Ela pensou na discussão que teve mais cedo com o seu irmão e respirou fundo. sabia que muitos não compreendiam essa sua obsessão por viver do jeito que vivia – e fazia parte desses "muitos". Mas ela não podia evitar. Durante anos frequentou psicólogos e até mesmo psiquiatras, mas a verdade era que ela não fazia nada daquilo para se machucar ou para desafiar a morte. Pelo contrário, ela fazia justamente para se sentir viva. Tinha hobbies incomuns, fazer o que? Ela não gostava de preocupar o seu irmão, tampouco gostava de brigar com ele - fato que infelizmente vinha se tornando cada vez mais frequente.
gostava da sua vida. E gostava mais ainda de sentir o prazer dos riscos que corria. É claro que hora ou outra poderia acabar se dando mal, mas ela tentava não pensar muito sobre isso. Ela nunca seria esse tipo de pessoa, que deixa de aproveitar a vida por medo de todos os fatores negativos que podem vir a acontecer.
era destemida. Fearless. Taylor Swift ficaria orgulhosa dela.
Depois de pelo menos uns trinta minutos no chuveiro, falhando na tentativa de relaxar, ela decidiu que era hora de sair. A água do planeta não tinha nada a ver com seus problemas.
se enrolou numa toalha branca e macia e se posicionou na frente do grande espelho acima da pia, analisando seu corpo ainda molhado. Os hematomas antigos presentes em seus braços, costas e costelas já estavam aderindo tom esverdeado, próximos a sumirem por completo. Finalmente. Notar que os machucados já estavam quase desaparecendo fez com que ela ficasse ao mesmo tempo satisfeita e incomodada. Não que ela gostasse de sentir dor ou de ter marcas roxas pelo corpo – longe disso – mas o fato de estarem sumindo significava que ela estava há tempo demais afastada das competições de luta que tanto gostava. Daria um jeito nisso logo, logo. Ela suspirou, tentando não pensar no vazio que já começava a sentir dentro do peito.
Depois de colocar uma roupa confortável, deitou na cama com seu notebook no colo e decidiu trabalhar um pouco. Ela poderia até ser imprudente em seus hobbies, mas isso não fazia dela uma irresponsável por completo. Não tinha a vida ganha e precisava trabalhar pra se manter. Pra falar a verdade até tinha, se considerar o legado da sua família, mas preferia trabalhar mesmo assim. Viver dependendo dos outros... até parece. Ela era a fundadora e presidente de sua própria empresa – a Wild Events Ltd – que era considerada uma das maiores e mais sofisticadas organizadoras de festas e eventos de Chicago.
A ideia de começar o negócio surgiu de uma brincadeira dela com , quando ainda moravam na Espanha – onde viveram dos 18 aos 21 anos. Brincadeira essa que elas levaram muito a sério. Hoje, as duas eram sócias e estavam expandindo a marca para cada vez mais lugares.

***


só percebeu que caiu no sono quando acordou com o celular vibrando do seu lado. Merda, por quanto tempo tinha dormido? Estava mais cansada do que imaginou. Ainda sonolenta, ela fechou o notebook que continuava apoiado nas suas pernas. Seu corpo todo doía devido a má posição em que dormiu. Ela se xingou mentalmente. Depois de se alongar e estalar o pescoço, foi checar a mensagem recebida.

"De:
Não tive notícias de você o dia inteiro, espero que não esteja fugindo de mim. Fique bem gostosa e me espere na entrada do seu apartamento em uma hora. Lembra daquele DJ gato que eu tive um casinho em NY? Ele estará tocando hoje na The Underground. Não quero desculpas esfarrapadas. Até daqui a pouco. (Corre que eu sei que vc já está atrasada)"


olhou no relógio que já marcava 21:30h. Droga! Sabia que não tinha como escapar dessa, então decidiu se levantar de uma vez.
Ela penteou os cabelos rapidamente, que já estavam quase secos, e procurou no seu armário uma roupa que fosse bonita e ao mesmo tempo confortável. Optou pelo clássico preto. Calça e jaqueta de couro, com uma blusa decotada na medida. Olhou no espelho satisfeita com a imagem. O básico era sempre uma boa pedida, não há nada que um pretinho não resolva, afinal. Colocou uma bota de salto alto e passou uma maquiagem leve, caprichando um pouco mais nos olhos, que já eram demasiadamente expressivos. Ela ficou pronta poucos minutos antes de tocar o interfone.
Quando entrou no carro de , uma chuva fraca já começava a cair, deixando o tempo um pouco úmido - típico de Chicago.

– Olha só quem pela primeira vez na vida não está atrasada. Ainda bem que não precisei gastar minhas forças te arrastando da cama, você sabe que eu sempre venço nessas horas – disse fazendo rir.
– Só quando eu estou com preguiça de discutir com você.

A amiga revirou os olhos.

– E então? Como estou? - ela se virou para , com a empolgação emanando pelos poros.
- Animada demais? - a garota respondeu, levando um tapa estalado de .
- Fala sério. Eu demorei umas duas horas só para escolher o vestido certo. Essa noite tem que ser perfeita. Damien colocou nosso nome na lista VIP.

achou graça da animação da amiga. Ela era a ansiedade em pessoa.

– Damien Quem?
– O DJ que eu falei. Lembra? Moreno, olhos claros, tatuado... Eu te falei dele pelo menos umas 50 vezes - explicou, indignada.
– Ah sim, claro! O rapaz de New York. Algodão doce na Brooklyn Bridge, claro que me lembro dele – concordou.

invejava o fato de se envolver tão rápido em suas relações. Ela realmente se entregava e vivia um romance mais lindo que o outro, com caras realmente legais que na grande maioria das vezes a tratavam como a princesa que ela era. Apesar de ainda não ter encontrado o homem que realmente fosse o certo – se é que isso existia – ainda assim, suas relações eram melhores que as de , que normalmente não passavam de casos de uma noite, sem direito a café da manhã. Ela então observou a amiga. O vestido prateado contrastava lindamente com a pele negra de . O cabelo cheio, que cada hora estava de um jeito, agora encontrava-se armado para cima, em um black perfeito, preso em um dos lados com finas tranças embutidas. O batom vinho deixava um pouco mais sexy o seu semblante quase infantil. poderia ser modelo de tão linda que era, ainda por cima era extremamente alta e magra. Realmente, Deus não era justo.

– Não existe um mero mortal que chegue aos seus pés hoje, amiga. Damien estará com a mulher mais linda da boate – disse e viu sorrir em agradecimento, parecendo agora um pouco mais aliviada. Só um pouco.
– Olha só quem fala... A femme fatale já está preparada para partir uns corações hoje?
– Espero que sim. Desde que não seja o meu – brincou.

De repente, sem esperar, uma onda de euforia atravessou o seu corpo e ela se sentiu como se sentia antes de um salto de paraquedas. Um frio na barriga incomum fez seus pelos do braço se arrepiarem. Não entendia o motivo, mas algo lhe dizia que essa noite não seria uma noite qualquer.


Capítulo 2

As grandes malas de viagem continuavam jogadas no canto do quarto – mesmo lugar em que as colocou três dias atrás, quando chegou de viagem. Ele ainda estava se acostumando com a diferença de fuso horário e, por isso, passava grande parte do dia dormindo. Arrumar bagunça não era sua prioridade.
O rapaz encontrava-se parado de frente para o espelho situado no canto do aposento. Sua roupa estava impecável – simples, mas de bom gosto – do jeito que ele gostava. Hoje, tudo o que desejava era se embebedar e terminar a noite com uma mulher gostosa na sua cama. A típica noitada americana que tanto sentia falta. E, é claro, mal podia esperar para rever o velho amigo.
sabia que durante os anos em que esteve fora, tinha se tornado o característico "homem de negócios". Ele não se surpreendeu, afinal, alguém ali tinha que amadurecer. E sempre foi o mais responsável e sério dos dois. E com o pai que tinha... Bom, era de se esperar. Mas ele não podia negar que sentia falta do amigo. Eles cresceram juntos, frequentaram a mesma escola, o mesmo campus na faculdade, iam para as mesmas festas e não se separavam. Quando decidiu se tornar piloto de stock car, anos atrás, foi um dos poucos que lhe incentivou. Ele devia muito ao amigo.
Seu relógio de pulso marcava 22:30h. Qualquer outra pessoa no seu lugar já estaria atrasada, mas sabia que chegaria lá com tempo de sobra. Dirigir dentro do limite de velocidade não era algo que o rapaz estava acostumado a fazer.
Chegou à garagem e observou a fileira de automóveis a sua disposição. Ele sempre precisava parar um minuto para admirar aquelas belezinhas. não era o tipo de pessoa que esbanjava dinheiro com meras futilidades, mas seus carros eram praticamente seus filhos. E para ele, quanto mais, melhor. Ele optou pelo Maserati preto, um dos preferidos da sua coleção.
Para , estar atrás do volante era como estar em casa. Ali, ele sentia-se preenchido pela sensação de conforto e segurança que só sentimos quando estamos em um ambiente familiar. A estrada era o refúgio de . Para ele, dirigir era uma ação quase natural, como respirar. Era algo que parecia ter sido programado em seu sistema motor no momento em que ele nasceu. Ele nunca se sentia tão à vontade como quando estava pilotando um carro – seja para ir ao mercado ou em uma corrida que durava 24 horas.
Já no caminho da boate, foi obrigado a parar em um sinal vermelho. Ele aproveitou para observar a chuva fraca de Chicago escorrer pelo vidro do carro. Como sentia falta daquela cidade. Não que Le Mans não fosse um lugar encantador, mas a frieza típica dos franceses estava quase fazendo com que ele se tornasse uma pessoa igualmente gelada. Quase. Porque sempre foi um homem quente – em todos os sentidos da palavra. Ele era como seu próprio sol. Tinha um sorriso capaz de aquecer o ambiente e as pessoas ao seu redor. Para , não existia tempo ruim. Ele era do tipo que topava tudo e aguentava as consequências depois. Um pouco imprudente, talvez. Desapegado com o mundo, ele sempre preferiu viver o momento... E se o momento incluísse festas e mulheres bonitas, melhor ainda.
Quando o farol passou de vermelho para verde, pisou fundo no acelerador, dirigindo de maneira segura e experiente. Aquelas ruas que ele conhecia tão bem ainda estavam vivas em sua memória, logo, o caminho não foi um problema. Em poucos minutos, ele pôde observar a fachada The Underground a sua frente.
Mesmo do lado de fora, já era possível escutar um som abafado de rock clássico remixado com uma música eletrônica qualquer. Um conglomerado de pessoas bem vestidas ocupava a calçada, formando uma grande fila para entrar na boate. A elite de Chicago amava aquele lugar.
saiu do carro, entregando a chave para o manobrista e atraindo olhares curiosos de alguns presentes no local. As mulheres, como de costume, sorriam para ele de forma sedutora, já imaginando como seria terminar a noite ao seu lado. Onde quer que estivesse, se tornava o centro das atenções, seja pela beleza inquestionável ou pela sua áurea e postura confiantes. Ele analisou as mulheres do local, mas nenhuma, apesar de bonitas, lhe chamou muita atenção. Nada que um pouco de álcool não resolvesse.
Ao invés de se posicionar no fim da fila, caminhou em direção a lateral da casa noturna, onde ficava a entrada VIP. Ele foi um dos investidores da boate quando o projeto ainda estava no papel, logo, tinha passe livre para entrar e sair quando bem entendesse.

– Ora ora, será que estou vendo uma assombração? Não é que o senhor finalmente resolveu dar o ar da graça – um homem forte, de uns dois metros de altura, o cumprimentou com um aperto de mão e batidas nas costas. Era o segurança mais antigo do estabelecimento. – Achei que tivesse se tornado um francesinho metido à besta de nariz em pé.
– Jamais, meu amigo. Você sabe muito bem que não esqueço as origens - o rapaz sorriu genuinamente.
– É muito bom tê-lo de volta, . Aproveite a noite. Pelo visto, a casa vai encher hoje.
– Com certeza irei. Ah, e a propósito, hoje é o dia dos reencontros. também virá.
– Será que voltamos no tempo e eu não percebi? Aquele filho da mãe desapareceu. Só sei que está vivo pelas entrevistas em revistas de negócios – o segurança grandalhão disse, animado.

O rapaz deu de ombros.

– Algumas coisas nunca mudam.

Quando adentrou o local, foi como se realmente tivesse voltado quatro anos no tempo. O barulho ensurdecedor da música fazia o chão tremer e ele mal podia ouvir os próprios pensamentos. Demorou uns segundos para sua visão se acostumar com as luzes coloridas que preenchiam o ambiente. O lugar já estava lotado.
avistou uma plaquinha com seu sobrenome escrito em cima de uma das mesas da área VIP, indicando que o local estava reservado para ele.
Sem parar para se sentar, caminhou até o bar, onde fez questão de pedir o melhor whisky disponível ali. Sem pestanejar, o barman voltou em poucos segundos, estendendo o copo para ele. Ainda encostado no bar, estudou o ambiente. Seus olhos percorreram a pista de dança, onde mulheres rebolavam de maneira provocativa e nada inocente. Alguns casais se agarravam explicitamente, outros ainda estavam se provocando. deu um gole no conteúdo alaranjado do copo, sentindo líquido descer quente pela sua garganta.

– Eu não sei o que você está bebendo, mas o que acha de pagar um para mim? – uma voz feminina e melosa demais falou no ouvido de .

Ele se virou para analisar a mulher. Ela tinha longos cabelos loiros e escorridos que batiam quase na sua bunda. E que bunda, diga-se de passagem. Ela era gostosa. Nada extraordinário, mas o suficiente para chamar a atenção de . E pela maneira como ela se inclinava em cima dele, ele também não precisaria de muitos esforços para conseguir alguma coisa com a loira. Os seus seios estavam praticamente à mostra pelo decote da blusa rosa e ele quase não conseguiu tirar seus olhos de lá.

– E por que eu deveria lhe pagar uma bebida? – disse com um sorriso safado e provocador, tomando mais um gole do whisky em suas mãos.
– Porque assim eu vou ter pelo que te agradecer. E acredite, eu posso te agradecer de várias maneiras – a loira respondeu, mordendo os lábios em seguida. Sutileza é uma virtude esquecida. Não que se importasse muito com isso. De conservador, ele não tinha nada.

Quando já estava preparado para dar uma resposta, notou uma figura conhecida passar pela entrada da boate. Apesar de um pouco diferente do que se lembrava, ele soube imediatamente que se tratava de . Ele então se virou para a moça – que nem fez questão de perguntar o nome – e deu uma última golada no whisky, depositando o copo vazio no balcão.
Ele segurou seu queixo com a ponta dos dedos, abrindo um sorriso cafajeste que fez as pernas da loira falharem.

– Infelizmente, esse agradecimento vai ter que ficar para outra hora – lançou-lhe uma piscadela e antes de se dirigir ao encontro do amigo, pôde notar a loira com a mais hilária cara de ué que já tinha visto.

***


A música que tocava na boate era tão alta que impedia de pensar com clareza. Apesar de eletrônico não ser seu gênero musical favorito, ela não podia negar que o DJ fazia um bom trabalho. Pelo menos, todos pareciam estar gostando.
A pista de dança estava lotada. Todas as pessoas ali aparentavam estar em sintonia, movendo seus corpos de acordo com a batida repetitiva da melodia. Todos menos ela. nunca estava em sintonia com ninguém, a não ser com ela mesma. Ela não via as coisas da mesma maneira que o resto do mundo. Na verdade, o mundo que ela enxergava era só dela e ninguém, jamais, conseguiu fazer parte dele. E mesmo assim, ali estava ela, tentando se encaixar no meio de toda aquela gente.
Enquanto todos na pista de dança rebolavam e pulavam freneticamente, se movimentava devagar. Era como se a música que ela ouvia não fosse a mesma que preenchia o ambiente naquele momento. Ela rodopiava devagar, quase em câmera lenta, dançando de acordo com a sua própria música.
A garota bebeu o último gole de vodka do seu copo e se virou para , que dançava animada do seu lado.

– Vou pegar outra bebida – ela disse.
– Quer que eu vá com você?
– Não precisa. Eu já volto.

A amiga a olhou desconfiada, mas deu de ombros, voltando a dançar enquanto de longe paquerava o DJ que, afinal, era um grande motivo delas estarem ali.
foi abrindo espaço no meio da multidão, ignorando alguns olhares masculinos pelo caminho. Ao chegar ao bar, ela se dirigiu ao atendente.

– Uma tequila e uma vodka com gelo, por favor – o rapaz concordou, separando os copos e servindo a garota no balcão.

Ela virou o copo de tequila de uma só vez, sentindo o álcool ser absorvido pelo seu sistema. Seus sentidos já começavam a ficar comprometidos e se sentia cada vez mais leve. Aquela noite estava longe de ser ideal, mas nada que não pudesse aturar se estivesse um pouco bêbada. Ela só queria fugir dos seus problemas. Esquecer a relação de merda que tinha com seu pai, esquecer a discussão com seu irmão, esquecer que nenhuma pessoa no mundo era capaz de entendê-la. Esquecer, principalmente, essa ânsia por adrenalina que consumia seu corpo 24 horas por dia. Que não a deixava agir e fazer coisas como uma pessoa normal.
Ela pegou o outro copo e se virou, com o objetivo de voltar para a pista de dança, mas foi interrompida por um braço forte, que a segurou pela cintura.

– Eu perguntaria se você vem sempre aqui, mas eu certamente me lembraria de você se tivesse te visto outras vezes – uma voz vibrou no ouvido da garota. Ela ignorou a cantada extremamente batida e levantou os olhos para observar o rapaz.

Ele era alto e bem forte, sua estatura fez lembrar dos lutadores de MMA que ela conhecia. Ele tinha a cabeça raspada e uma barba por fazer. Não era muito o seu tipo, mas era sexy o bastante para ela lhe dar uma chance, caso ele merecesse. Resolveu, então, entrar no jogo.

– Você não deve ser muito observador – ela levou o copo até a boca, bebendo um gole do líquido transparente e sentindo a garganta arder.

Ele sorriu.

– Em geral, não sou. Mas você não é do tipo de passa despercebida
– Então me diz, de qual tipo eu sou? – arqueou uma sobrancelha.
– Ainda estou tentando descobrir - ele respondeu.
– Então somos dois – ela disse, observando o rapaz sorrir satisfeito pela resposta.
– Meu nome é Frank – o jovem disse, estendendo a mão para , que o cumprimentou de volta, mas em silêncio. – Não vai me dizer o seu?
– Ainda estou decidindo se você merece - ela provocou.
– E o que eu preciso fazer para merecer?

pensou por um momento. Estava cansada de ter sempre as mesmas conversas com pessoas que não valiam a pena. Dessa vez, ela queria estar com alguém que fizesse loucuras para estar com ela. Até onde ele estaria disposto a ir por ela?

– Me diga uma coisa, Frank... Você gosta de jogos? – ela perguntou, passando os dedos pelo tronco do rapaz de forma sedutora. Ele provavelmente já estava fantasiando mil coisas imundas a seu respeito. sabia muito bem o efeito que causava nos homens. Testosterona is a bitch.
– Mais do que você pode imaginar – ele respondeu.
– Então faça o seguinte: feche os olhos e conte até 10. Se você conseguir me encontrar novamente até o final da noite, eu te digo o meu nome e quem sabe podemos nos conhecer melhor.

O rapaz a olhou confuso. Ele queria tê-la agora, ali. Não queria ter que esperar. Entretanto, mesmo contrariado, fez o que a garota falou. Algo na voz dela, misteriosa e sensual, fez com que ele a obedecesse.
sorriu, satisfeita. Assim que ele começou a contar em voz alta, ela desapareceu.

***


Depois de pelo menos duas horas de conversa, uma garrafa de vodka e outra de whisky, já se encontravam vazias jogadas sobre a mesa de e . Os dois gargalhavam, dividindo histórias inusitadas sobre tudo o que aconteceu nos últimos quatro anos em que estiveram longe. não conseguia se lembrar da última vez em que riu tanto. Provavelmente também tinha sido com . Para os dois, a sensação era de que o tempo não tinha passado; a antiga amizade permanecia intacta.

– Eu não acredito que você fez isso! – gargalhava, inconformado com a história que estava ouvindo.
– Estou lhe dizendo, cara. Depois dessa festa que eu dei, a síndica do prédio trocou a fechadura do meu próprio apartamento. Tive que passar dois dias dormindo no meu carro e o pior: era a véspera da competição – também ria. – Até hoje não consigo virar o pescoço para o lado esquerdo sem sentir dor.
– Eles provavelmente agradeceram aos Deuses quando você se mudou de volta.
– A comemoração deve estar rolando solta até hoje – se serviu mais um copo de vodka, terminando com a última garrafa disponível no balde de gelo. – Mas e você... Vai me dizer que passou todo esse tempo solteiro se afundando em trabalho? Não acredito que vou precisar te ensinar a chegar em mulheres de novo. Se continuar careta do jeito que está, vai acabar ficando para o titio.

deu de ombros.

– Não encontrei ninguém que valesse a pena insistir. E mesmo assim, as poucas mulheres com quem pensei em ter casos mais sérios, minha irmã colocou para correr. já me dá trabalho por todas elas. – apenas a menção ao nome da irmã fez se ajeitar mais tenso na mesa. Apesar disso, o carinho era palpável em sua voz. notou a diferença.

tentou vasculhar na memória em busca de algo que o fizesse lembrar da irmã de . Ele se lembrava que durante alguns anos, antes dele viajar para a França, estava morando em algum outro país longe daqui. A única recordação que tinha dela era a de uma adolescente de 15 anos que vivia trancada no quarto, nas poucas vezes em que esteve na casa de . Ele se lembrou também do quão superprotetor o amigo era com a irmã caçula.

? Nossa, eu não a vejo há pelo menos uns 10 anos. Como ela está? Continua aquela adolescente rebelde?
– Pior do que pode imaginar – seu tom de voz era quase triste e uma ruga de preocupação se formou em sua testa. – Inclusive, agora que você está de volta, talvez você possa me ajudar com uma coisa – a apreensão repentina de deixou curioso. – Eu sei que o que eu vou pedir pode ser um pouco demais, mas acredite, eu não te colocaria no meio disso se não estivesse tão desesperado.
– Sou todo ouvidos – não conseguia imaginar com o que poderia ajudar a irmã de Ric.
– Eu não sei o quanto você se lembra da , mas ela sempre foi uma garota um pouco... intensa - ele pareceu escolher bem as palavras e se perguntou porquê. - De uns anos para cá, ela tem se dedicado a alguns hobbies um pouco inusitados, por assim dizer. Digamos que ela é meio aventureira demais. E, bom, a questão é que agora ela está insistindo nessa história de correr de moto. Hoje mesmo ela chegou em primeiro lugar em uma competição amadora onde quase se matou – a raiva já estava presente na sua voz. – Eu sei que não posso mais impedi-la porque ela vai fazer de qualquer jeito, mas ela não sabe andar de moto e se você pudesse dar umas aulas para ela, e talvez... tentar fazê-la desistir dessa idiotice?

precisou de uns segundos para absorver tudo o que o amigo dizia.

– Eu entendo sua preocupação. No entanto, eu não sei se você notou, mas eu piloto carros, não motos – disse de maneira óbvia.
– Eu sei disso, mas lembro que durante uns anos você se dedicou a motos também. E é o melhor que eu conheço... São apenas algumas aulas, assim ela aprende o básico e eu não fico tão preocupado.
– Eu achei que você tinha dito que ela venceu a competição.
– E venceu.
– Ninguém vence uma competição, mesmo que amadora, sem saber pilotar uma moto, explicou. Isso não era evidente?
– Você diz isso porque não a conhece.
– Meu amigo, você não está me escutando direito. Não é possível pilotar uma moto em uma corrida e ainda por cima chegar em primeiro lugar sem ter o mínimo de técnica. Ela provavelmente já teve aulas sem você saber.
, é você quem não está me escutando – o tom de se tornou levemente ameaçador, o que fez com que ficasse em estado de alerta. – não é parecida com nenhuma outra pessoa que você possa conhecer. Durante muitos anos eu quebrei a cabeça tentando entender como ela é tão boa em tudo o que faz... Como ela consegue em um dia fazer coisas que pessoas estudam e treinam anos para conseguir. E então, um belo dia, eu entendi. Não é porque ela é irresponsável ou uma garota-prodígio. É simplesmente porque ela não sente medo.
engoliu em seco e, por algum motivo desconhecido, sentiu os fios de cabelo da nuca se arrepiarem. Ele sabia que o amigo não estava mentindo.
, então, continuou:

- Quando ela sobe na porra da moto, ela não precisa de técnica para vencer. O seu próprio instinto a faz acelerar o máximo que consegue e ela vence a maldita corrida. Ela faz tudo com tanta confiança... Ela não calcula, não estuda, não hesita... Ela simplesmente vai lá e faz. E isso me mata de preocupação. Acredite, hora ou outra, ela vai acabar se matando - ele deu um gole maior do que o recomendado em sua bebida.

não conseguia relacionar em nada a descrição atual de com a garota que um dia ele conheceu. Ele se dava conta agora de que talvez nunca tivesse de fato falado ou prestado atenção na irmã do amigo. Quem teria? Ela era apenas uma criança naquela época.

– Por que você ou seu pai não a proíbem então? Perderam os colhões?

riu. Uma gargalhada cínica e sarcástica que quase deixou com raiva. Qual era o problema dele?

já passou da fase de aceitar meras proibições. A gente poderia tentar acorrentá-la e trancá-la em um quarto escuro, mas até a última vez em que eu chequei, isso é contra lei.
– Se vocês que são família não conseguem fazer ela desistir, o que te faz pensar que eu vou conseguir? – perguntou, tentando entender o amigo.
– Porque talvez se ela ouvir de alguém de fora o quanto isso pode ser perigoso, de um profissional da área... Diga que ela não tem futuro, que não leva jeito... Invente qualquer coisa. Mas o importante é que lhe ensine o básico para ela não estourar a cara no asfalto. Conhecendo ela tão bem como eu a conheço, sei que em pouco tempo ela vai se sentir entediada e mudará seu foco.

respirou fundo pensando à respeito. Desde quando tinha se tornado babá de criança rebelde? Ele sentia vontade de socar por ter cogitado que ele se envolvesse nisso. Por outro lado, ele sabia que tinha muito pelo que agradecer a , por tudo o que o amigo já havia feito por ele. Maldito miserável. Ele sabia que não teria como negar o pedido. só estava onde estava hoje por causa de . Ele nunca teve tanto dinheiro como tinha e quando seus pais foram contra o sonho dele de se tornar piloto, foi o responsável por lhe dar de presente o primeiro carro de corrida da sua vida. Foi por causa dele que começou a treinar e se tornou campeão do esporte que tanto amava. E nunca tinha pedido nada em troca. Pelo menos não até hoje...

– Vou pensar a respeito – ele disse e concordou com a cabeça.

tinha plena consciência de que o que estava pedindo não era pouca coisa. nunca teve alguém tão próximo para desenvolver o sentimento de preocupação dentro de si. Ele nunca precisou cuidar de ninguém além de si mesmo e duvidava que um dia iria entender esse sentimento de preocupação que ele sentia pela irmã. Para piorar, a próxima temporada da NASCAR estava chegando, seria em poucos meses. Dificilmente perderia tempo com qualquer outra coisa que não fosse treinar para a competição.
Ainda assim, aquela era sua melhor opção no momento. Situações desesperadas pedem medidas desesperadas. E era um homem mais do que desesperado.
Se aceitasse fazer parte do seu plano, ele seria "contratado" para dar aula para e, ao mesmo tempo, a convenceria a desistir dessa estupidez. Quem sabe ela não o escutaria? Não seria o irmão superprotetor falando, mas sim alguém mais experiente no meio.
decidiu que não precisava resolver isso agora, e então, se levantou para ir até o bar pegar mais bebida e, quem sabe, encontrar uma mulher com quem pudesse minimizar sua tensão. Por alguma razão, ele não conseguia parar de pensar na maneira como falava da irmã, como se ela fosse um caso perdido. A verdade é que nunca resistiu a um belo desafio e, naquele momento, ele se sentia desafiado.
Estava quase chegando ao balcão do bar quando notou um movimento incomum na porta da boate. Na entrada, um amontoado de pessoas se formava; algumas gritando coisas que ele não foi capaz de entender enquanto outras corriam agitadas de um lado para o outro. Que diabos estava acontecendo? Curioso que era, resolveu ir até o lado de fora para entender o motivo da agitação.
A chuva, que no começo da noite era fraca, agora caía quase como uma tempestade. As pessoas do lado de fora, encharcadas com o temporal, gritavam e corriam aflitas. Dentre o caos que se formava, conseguiu compreender algumas das frases que se destacaram:

"Alguém chame a polícia!!"
"Pelo amor de Deus, tirem essa moça de lá!"
"Ela está tentando se matar?"
"Se ela escorregar, vai cair!"
"Cadê os seguranças?"
"Alguém por favor sobe lá!!!"


, ainda sem entender direito o que estava acontecendo, percebeu que todas as pessoas do lado de fora olhavam para cima. Ele saiu de uma vez, sentindo seu corpo se molhar inteiro quase que imediatamente pela chuva. Seguiu o olhar de todos ao seu redor para cima e, quando o fez, sentiu seu coração acelerar na mesma hora.
A pelo menos uns 15 metros de altura do chão, uma mulher estava em pé na beirada da marquise de vidro da boate.

Mas que porra era aquela?

Ao contrário do que parecia, ela não estava ameaçando se jogar dali, na verdade, a garota parecia se divertir, dançando e rindo despreocupadamente, enquanto a chuva caía sobre ela. De imediato, entendeu o desespero de todos. A chuva apertava cada vez mais, tornando quase impossível enxergar direito e o vidro onde a menina estava em pé parecia frágil demais, a ponto de se quebrar em mil pedaços a qualquer momento. Quantos quilos será que aquela plataforma aguentava? E o pior: por quanto tempo?
A segunda preocupação o atingiu como uma porrada logo em seguida. Aquela superfície provavelmente estava escorregadia com a água e a garota estava tão próxima do limite... Ela poderia escorregar num piscar de olhos.
Assustado, ele tentou procurar por algum segurança no local, mas não encontrou ninguém.

– Como ela conseguiu subir ali? – ele gritou, nervoso, mas ninguém pareceu prestar atenção. Todos estavam distraídos e apavorados demais, ninguém pensava com clareza.

Ele olhou em volta, tentando organizar os pensamentos. Ninguém parecia estar fazendo nada para tirar a garota de lá.
procurou por qualquer coisa que pudesse servir como uma escada. Ele, então, notou uma árvore alta, que tinha seus galhos apoiados bem próximos da marquise. Aquilo tinha que servir, não tinha outra opção.
correu até lá e escalou a árvore rapidamente, como costumava fazer quando era criança. Alguns galhos, entretanto, se partiram com o seu peso. Ele tentou manter a calma para subir com cuidado.
Quando estava alto o bastante, ele se posicionou em um dos troncos que o deixava o mais próximo possível da marquise, quase na altura de onde a garota estava. Ele até poderia subir na plataforma, mas não confiava na capacidade do vidro de aguentar o peso dos dois. Que bela merda. Ali, seu corpo estava apenas um pouco abaixo do dela, que continuava em pé rodopiando e dançando ao som da música que, por conta do nervosismo, mal conseguia ouvir.

– Ei! – ele gritou, chamando a atenção da moça, que pela primeira vez pareceu notar que ele estava ali. Ela se virou para ele, inicialmente em susto.

Ele observou a garota se aproximar devagar, com o salto batendo a apenas alguns centímetros da margem da sacada. Qualquer movimento errado e ela estaria no chão. estremeceu com o pensamento.
Ela parou próxima dele e no momento em que ele foi capaz de estudar seu rosto, ela abriu um sorriso sinistro e excitante. Puta merda. sentiu um frio na espinha e precisou se agarrar mais forte no galho da árvore para não cair.

– Você não é bem quem eu estava esperando, mas também serve. Venha! Vamos dançar – ela o chamou com os dedos e mordeu os lábios inferiores. Por um segundo, esqueceu o que estava fazendo. O cérebro dele praticamente entrou em pane. A voz da garota, mesmo abafada pelo barulho da chuva e da música, era calma e sensual.

Espera, ela disse que ele também servia? Ela estava esperando alguém ali? Desde quando aquele era um lugar apropriado para encontrar alguém?
Ele encarou a menina, intrigado.
Ela se virou, rodopiando mais algumas vezes, gargalhando alto e rebolando no ritmo da música. Jogava seus longos cabelos pretos encharcados de um lado para o outro, que voavam e batiam na sua pele como um chicote. A cena toda era fora do comum. Bizarra demais. Extraordinária.
Quem era aquela mulher? Será que ela não percebia o perigo que estava correndo?
Naquele mesmo momento, o salto da sua bota derrapou no vidro, fazendo a garota escorregar de leve e quase cair. O coração de praticamente parou.

– Opsss! – ela falou com a expressão de uma criança que fez besteira, gargalhando alto novamente.

não sabia se era por culpa da chuva e da altura em que se encontrava, pela quantidade de álcool que tinha ingerido ou pelo perigo que corria, mas toda vez que a garota sorria, seu coração dava um sobressalto em uma fração de segundos e uma sensação estranha se concentrava na boca do seu estômago.

- Você precisa descer daí. Está escorregadio, vai se machucar! - o rapaz gritou, mas ela não parecia se preocupar com isso.
- As pessoas podem se machucar o tempo todo. Que diferença faz aqui em cima ou lá embaixo?
- A diferença é que está muito perigoso aqui.- ele gritou, como se fosse óbvio!

Ela riu.

- Ai, você está parecendo até o meu irmão. Não pode fazer isso, é perigoso fazer isso! - ela disse imitando muito mal a voz grossa de um homem e se não fosse a tensão do momento, teria rido. - O perigo é um velho amigo meu. Nos conhecemos de longa data. E eu até que gosto de estar na presença dele, você não? - ela deu uma piscadela sensual para . Porra. Ele sentia seu corpo trêmulo e de alguma forma sabia que não tinha nada a ver com o perigo.

Ela voltou a dançar, o ignorando. De repente, um forte instinto de proteção o atingiu como um soco. Ele precisava tirá-la dali em segurança. E de preferência o mais rápido possível. Naquele instante, tudo se resumia a isso.
tentou não racionalizar aquele sentimento que o preencheu. Ele subiu mais um pouco, apoiando seu pé na beirada da marquise, com o mínimo de peso possível e estendeu sua mão para ela.

– Por favor, me dê sua mão. Você precisa descer – ele tentou convencê-la.
– Mas eu estou me divertindo tanto aqui – ela fez um biquinho. piscou algumas vezes. Ele estaria encantado, se não estivesse tão apavorado.

Definitivamente, tinha algo errado com aquela garota. Ou ela estava extremamente bêbada, o que por incrível que pareça, não era o que parecia; ou ela era completamente insana. Talvez uma perigosa mistura das duas coisas.
Ele precisava de uma nova tática.

– Eu prometo que vou te levar para um lugar ainda mais divertido, o que acha? – disse e viu os olhos da garota brilharem de curiosidade.
– Para onde? – ela perguntou animada.

Ele pensou por um momento.

– Para onde você quer ir? – perguntou. A garota o encarou, parecendo considerar sua pergunta.
– Se hoje fosse o seu último dia na Terra, o que gostaria de fazer? - ela perguntou, como se fosse a coisa mais comum para se dizer naquele momento.

Ele precisou processar o que ouviu por um momento. Que tipo de pergunta era aquela? Havia tantas coisas que gostaria de fazer... Tirar a menina dali era uma delas.

– Podemos fazer o que você quiser. Você diz, eu faço.

Eles se entreolharam em silêncio, enquanto a garota decidia se ia com ele ou não. Ela o fitou desconfiada, com os olhos cerrados.

– Eu só quero me divertir um pouco, mas todo mundo que eu conheço acha que eu sou maluca – ela disse com um tom de voz que partiu o coração de . Ele não sabia o porquê, mas foi tomado pelo desejo alucinado de abraçá-la. Ela parecia estar sofrendo por algum motivo desconhecido.
– Eu não acho que você é maluca. – ele disse, sincero.
– Isso porque você não me conhece.
– Então me deixe conhecê-la – apenas quando as palavras saíram da sua boca, percebeu o quanto elas eram verdadeiras. Ele queria conhecê-la. Mas precisava tirá-la dali.

Havia algo nela, algo que ele não sabia dizer o que, que fazia com que um frio percorresse a sua espinha. Talvez isso se devesse apenas ao fato do medo cada vez maior dela cair daquela altura. Uma queda como aquela poderia até mesmo ser fatal. O rapaz estremeceu com o pensamento.
Não sabia se eram seus longos cabelos pretos – que estavam completamente molhados, grudados por todo o rosto, pescoço e costas. Não sabia se era o brilho surpreendente de seus olhos grandes, que pareciam ainda mais misteriosos por conta da maquiagem preta borrada em volta deles... Ela era convidativa demais. Exótica demais. Louca, talvez. Mas diferente de tudo o que já tinha visto. Havia algo nela e ele não sabia dizer o quê, mas naquele momento decidiu que queria descobrir.
Foco. Precisava deixá-la em segurança primeiro.

- Acredite, você não quer me conhecer - ela disse e parecia rir de uma piada interna que só ela conhecia.
- E por que não?
- Por que eu vou virar a sua vida do avesso - de alguma maneira, aquilo soou como uma promessa.

Ele não soube o que responder. Sua mente já estava completamente desordenada.
precisava convencê-la. Precisava tirá-la dali e, para isso, tinha que fazer com que ela confiasse nele. Ele desejava que ela confiasse nele.

– Me diga o que quer fazer que eu faço, não sou um homem de quebrar promessas. Mas para isso, precisamos descer - sua voz era quase uma súplica.

Ele estendeu a mão novamente. Ela o olhou desconfiada, antes de aceitar segurar.
Devia estar fazendo uns 5 graus ali fora. Se não estivesse tão nervoso, provavelmente estaria congelando de frio. Entretanto, quando a garota segurou sua mão, a pele dela estava quente, causando um formigamento quase instantâneo no local.
Ele a puxou rapidamente, agarrando sua cintura. A menina entrelaçou os braços pelo pescoço de e enterrou seu rosto ali. Agora, ele sentia toda a sua pele formigar. a apertou contra o seu corpo o mais forte que podia, como se o gesto provasse pra ele que ela finalmente estava em segurança. Estava protegida, com ele. Uma sensação de alívio invadiu seu corpo e ele voltou a respirar. Só percebeu agora que estava segurando o fôlego, em sinal de nervoso. O corpo inteiro de queimava e ele segurava a menina tão forte em seus braços que agora devia ser ela que não deveria estar conseguindo respirar direito. Mas a garota não reclamou.
Toda aquela atmosfera era extraordinária e estranha para . Ele não sabia quanto tempo tinha ficado ali, provavelmente poucos minutos, mas parecia uma eternidade. A chuva caía forte sobre os dois. Eles estavam entrelaçados um ao outro e o encaixe ali era tão perfeito que por um minuto ele se esqueceu que deveriam descer. Que porra estava acontecendo ali?
Estando tão próxima dele, pôde sentir um cheiro adocicado e floral que parecia intensificado por causa da chuva. Ele demorou alguns segundos para começar a descer da árvore.

– Segure-se firme, ok? - ele pediu e contrariando o que ele esperava, ela obedeceu, colando ainda mais seus corpos. Ele sabia que aquele não era o momento oportuno para se sentir excitado, mas não pôde controlar seu corpo quando sentiu a perna da mulher se firmar contra a sua cintura. Puta merda. Isso não estava certo.

Ela era pequena e leve, o que favoreceu o caminho até o chão, sustentando o peso dos dois.
Quando ele finalmente colocou os pés no chão, puxando ela consigo, eles quase foram engolidos por uma multidão de pessoas que correram para ver se estava tudo bem. Era possível ouvir o barulho de palmas ao fundo. Ele abaixou seu rosto, para checar se ela estava bem e a proximidade dos dois fez sentir novamente uma sensação estranha no estômago. Ele percebeu que a garota ria divertida com a situação e pela primeira vez, ele conseguiu rir também, aliviado por estarem em segurança.
Subitamente, sem que ele estivesse preparado, a garota foi arrancada de seus braços, levando para uma escuridão que ele nem sabia que existia. não era uma pessoa agressiva, tampouco raivosa, mas naquele momento ele sentiu uma raiva profunda de quem quer que fosse que a tinha tirado dele.

– Amiga, está tudo bem com você? Você se machucou? Quase me mata de susto! – uma moça morena e alta a abraçava preocupada, checando seu rosto freneticamente à procura de algum sinal de ferimento.
, fique calma. Está tudo bem, eu só estava tentando me divertir – a garota, que só agora percebeu que não sabia o nome, tentava acalmar a amiga.
– E desde quando isso é diversão? - a mais alta disse irritada.
– Pra mim é! – ela revirou os olhos e deu de ombros.

A amiga, agora mais calma, virou-se para com um sorriso envergonhado.

– Desculpe, nem te agradeci. Muito obrigada por ter tirado essa encrenqueira de lá. Você foi muito corajoso.
– Sem problemas, fico feliz que esteja tudo bem – o rapaz disse contrariado, sem tirar os olhos da mulher que há poucos segundos estava em meus braços.

Ela se virou para e sorriu novamente. Outch. Todas aquelas sensações voltaram com tudo. Era quase como um soco no estômago toda vez que ela sorria para ele.

– Posso pelo menos saber o nome do meu herói? - ela perguntou rindo um pouco debochada. Ele riu junto.

estava achando encantador e incrível o fato da garota não estar nem um pouco abalada com a situação que acabara de acontecer. Pelo contrário, ela parecia achar graça e fazia pouco caso do acontecimento.
Subitamente feliz com o interesse dela por ele, tratou de responder.

– Pode me chamar de .
– Certo, – ela sorriu, um sorriso doce e cativante que novamente aqueceu todo o corpo de . Ele se surpreendeu em como o seu nome soava mais bonito pela voz dela. Ele precisava ouvir isso de novo. – Meu nome é...
!

Uma voz grave e furiosa vibrou atrás de , impedindo a garota de concluir sua frase. Ele se virou, encontrando o olhar assassino de em direção a menina parada a sua frente.

O que diabos estava acontecendo ali?

caminhou rapidamente, cruzando em passos largos o que restava do aglomerado de pessoas. Ele agarrou a garota pelo braço de maneira bruta, o que fez com que sentisse a urgência de pular no pescoço de . Quem ele pensava que era para tratá-la daquela forma? Ninguém, jamais, deveria encostar nela dessa maneira. Um desconhecido instinto protetor novamente tomou conta de seu corpo, fazendo com que se dirigisse até , pronto para tirar a menina de suas mãos agressivas. Mas foi mais rápido, virando-se para ele.

– O que diabos aconteceu com a minha irmã? – praticamente gritou, fazendo parar estatelado onde estava.

Irmã? O que? Sério, o que é que estava acontecendo ali?
E então, se lembrou das palavras de mais cedo:
"Eu não sei o quanto você se lembra da , mas ela sempre foi uma garota um pouco... intensa."
"Digamos que ela é meio aventureira demais."
" não é parecida com nenhuma outra pessoa que você possa conhecer."
"Não é porque ela é irresponsável, ou uma garota-prodígio. É simplesmente porque ela não sente medo."

E então, lembrou da menina minutos atrás dizendo algo que ele não havia dado tanta importância, mas agora parecia se encaixar como a peça final de um quebra cabeça confuso.
"Ai, você está parecendo até o meu irmão. Não pode fazer isso, é perigoso fazer isso!"
É. Ele definitivamente estava fodido.

***


estava há pelo menos uns 20 minutos ouvindo gritar. Sua cabeça começava a latejar e ela estava quase abrindo a porta do carro e pulando do veículo em movimento. Qualquer coisa que a fizesse parar de ouvir sermão às 4 horas de manhã.
Em outro momento, provavelmente estaria discutindo de volta, mas a verdade é que estava exausta e só queria chegar em casa para dormir.

– Você ao menos está ouvindo uma palavra do que estou dizendo? - ele perguntou, enraivecido.
– Hm? - ela o olhou, quando percebeu que ele havia lhe direcionado uma pergunta e esperava pela resposta. Na verdade, não estava mesmo prestando atenção
– Eu realmente não sei mais o que fazer com você - bufou, mais pra ele do que para ela, mantendo os olhos firmes na rua a sua frente.
, por favor. Não foi nada demais. Eu só estava dançando! - ela repetiu mais uma vez a frase, calmamente, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Já era pelo menos a quinta vez que falava isso.
– Só estava dançando? Você sequer percebeu que se caísse dali poderia ter morrido?
– Mas não morri, não é? Aliás, não sei se a queda seria fatal, talvez uns ossos quebrados – ela riu baixo e deu de ombros.
– Você realmente acha isso engraçado? Não satisfeita em colocar a sua vida em perigo, ainda colocou outra pessoa em risco. Não quero nem imaginar o que teria acontecido se não estivesse por perto.

revirou os olhos. Não gostava da ideia de ser vista como "salva" por quem quer que seja. Ela não precisava disso. Mas admitia que ficou bem surpresa ao saber que o homem que se empenhou a tirá-la de lá era amigo de seu irmão. Não teve muito tempo para se despedir ou falar qualquer outra coisa com ele depois que apareceu, já que em poucos minutos ele estava a arrastando para dentro do carro, onde começou a despejar um discurso que já havia ouvido inúmeras outras vezes. Ela respirou fundo.
Não que realmente tivesse algo para ser dito ao rapaz, tinha apenas ficado curiosa para saber mais sobre . Ele era bonito e realmente havia se arriscado para tirá-la de lá, só por isso mereceria um crédito. Não é qualquer um que faria isso para "salvar" uma desconhecida. Ugh, só a palavra lhe causava enjoo. não precisa ser salva. Estava longe de ser uma donzela em perigo.
Quando chegaram à porta de seu prédio, parou o veículo, mas mantinha os ombros tensos. Sua mão agarrava o volante e o seu olhar pairava perdido no painel do carro à sua frente. Não parecia realmente estar olhando nada.
sentiu uma pontada no estômago quando percebeu que seus olhos estavam marejados. Teve vontade de se socar. Odiava ser responsável por causar dor ao seu irmão. Naquele momento, odiava ser quem era.
Um nó começava a se formar em sua garganta quando ouviu dizer:

– Eu gostaria que você se preocupasse um pouco mais comigo. Que pensasse em mim antes de agir da maneira imprudente que você age. Você tem noção do que se tornaria a minha vida caso alguma coisa acontecesse com você? - ele dizia isso sem olhar para ela. Os irmãos nunca foram muito bons com as palavras e sentimentos. - Você é a única pessoa que eu tenho nessa vida e eu não suportaria viver em um mundo onde você não está.

O bolo na garganta de parecia sufocá-la. Ela deixou uma lágrima solitária escorrer pelo seu rosto. Droga. Odiava chorar na frente das pessoas. Até mesmo seu irmão só havia visto ela chorar pouquíssimas vezes. Demonstrar vulnerabilidade não era muito um de seus fortes. Ela respirou fundo antes de falar, a voz um pouco fraca:

– Me desculpe por ser assim. Eu juro que se pudesse escolher, seria a melhor irmã do mundo para você - foi tudo o que conseguiu dizer. E era a mais pura verdade. Mas ela não podia escolher. Ela era o que era, mesmo que se sentisse quebrada a maior parte do tempo.
– Ei! - ele se virou para encará-la e segurou seu rosto com as duas mãos de um jeito terno. - Eu não quero que você seja nenhuma outra pessoa nesse mundo, ouviu bem? Eu te amo, exatamente do jeito que você é! Eu só preciso que você me dê alguns dias de paz, pirralha. Do contrário, quem vai acabar tendo um ataque do coração sou eu!

fungou e ele sorriu fraco, soltando seu rosto. Sabia que não era fácil para ela também. Sabia que seu comportamento era só reflexo de uma vida com medos e traumas. Foi o jeito que a mente dela criou para fugir um pouco da realidade. Por mais que soubesse que ela o amava, entendia que existia um buraco em seu coração que ele jamais seria capaz de preencher. Infelizmente, essa era a maneira que ela encontrou de fazer esse vazio sumir. E ele precisava ter paciência. Em um piscar de olhos a raiva havia sumido e dado espaço para a empatia. Ele respirou fundo. Realmente, o tinha nas mãos. Nem mesmo conseguia ficar bravo com ela por mais de alguns minutos.

– Anda! Dê o fora daqui! Vá tomar um banho e descanse. Você está assustadora! - ele disse e abriu a boca fingindo indignação, gargalhando em seguida.
– Boa noite, panaca!

Ela se despediu e subiu para o seu refúgio particular. Tomou um banho rápido e caiu na cama, apagando sem muito esforço.

***


Uma claridade irritante parecia se concentrar bem nos olhos de ainda fechados. Ele resmungou, apertando suas pálpebras com força. Por Deus, seria possível que havia esquecido de fechar o blackout novamente? Quando fez menção de se virar para proteger o rosto dos raios de sol, sentiu um peso em um de seus braços.
Abriu os olhos devagar, esperando suas pupilas se adaptarem a luz que entrava em seu quarto. Seu olhar focou na mulher deitada adormecida ao seu lado. Os cabelos enrolados caiam sobre as costas nuas da moça e flashes da noite passada começaram a surgir como cenas de um filme em sua mente.
Álcool. Gargalhadas com . Mais Álcool. Chuva. Medo e um sorriso intrigante que estava bem vivo na sua memória fez seu estômago revirar, intensificando o enjoo proveniente da ressaca que sentia.
Não teve muito tempo de processar o que tinha acontecido noite passada, depois que levou embora da boate. Havia bebido mais um pouco para ajudar a adrenalina baixar e acabou voltando para casa com uma mulher que, para ser bem sincero, não se lembrava do nome. nem sempre era um cafajeste com as mulheres, mas de fato o álcool e a ressaca não ajudavam muito.
Tentou puxar pela memória o nome da moça para não passar nenhum constrangimento, mas tudo o que sua mente insistia em se lembrar da noite passada era do arrepio que sentiu quando a irmã do seu melhor amigo sorriu pra ele. E de seus grandes olhos expressivos borrados pela maquiagem. E da sensação do corpo dela conta o seu.
balançou a cabeça tentando espantar os pensamentos. Se levantou um pouco, o que fez a mulher ao seu lado se mexer.

? - ela perguntou sonolenta.

Avary? Alisson? ADDISON! Tinha quase certeza que esse era seu nome. Droga, e se não fosse?

– Bom dia! - disse, sentando na lateral da cama e vestindo sua cueca boxer que estava no chão.
– Que horas são? - ela perguntou, o obrigando a olhar no relógio disposto em seu criado mudo.
– Onze e meia.
– Droga, estou atrasada. Tenho um almoço - a mulher, possivelmente Addison, se sentou no colchão, cobrindo o corpo com o lençol, parecendo um pouco envergonhada.

não entendia essa história das mulheres se cobrirem depois do sexo, afinal, ele havia visto muito mais do que aquilo apenas algumas horas antes. Deu de ombros, não se importava muito. Na verdade, a possibilidade da moça não se prolongar mais do que o necessário na sua casa o agradou bastante. Mesmo assim, ainda tinha modos.

– Bom, fique a vontade para tomar um banho se quiser. Tem toalha limpa dentro do armário na suíte. Leve o tempo que precisar. Estarei na cozinha se precisar de mim. Precisa de uma aspirina? - perguntou, dando um sorriso amigável para a moça. Sua cabeça latejava.
– Não, está tudo bem, obrigada - ela respondeu.
– Certo! - ele se levantou e foi em direção à sala, dando privacidade para a moça se arrumar.

Ao chegar à sala, encontrou algumas peças de roupas jogadas pelo chão e sobre os móveis. Tratou de pegar no bolso de sua jaqueta seu celular para ver se havia algo importante. Uma mensagem recebida 25 minutos atrás fez seu coração dar um solavanco. Era de .

"E aí, cara. Espero que esteja bem. Olha, me desculpe por sair daquela maneira ontem sem me despedir. Como deve ter percebido, estava um pouco nervoso. Sinto que não te agradeci como deveria por ter tirado minha irmã de lá, sei que vc não fazia ideia de que se tratava da , mas mesmo assim, gostaria de retribuí-lo de alguma forma. Topa um almoço hoje? Por minha conta! Me avise.
Obrigado novamente! "


pensou por um momento. Uma parte dele só queria passar o dia inteiro deitado na cama jogando videogame, enquanto se recuperava dessa maldita ressaca que fazia sua cabeça latejar irritantemente. A outra parte, entretanto, estava muito curiosa para encontrar o amigo e, quem sabe, saber um pouco mais sobre . Certamente, depois do episódio de ontem, ela seria pauta de boa parte da conversa entre os dois.
Antes mesmo de racionalizar, já sabia qual parte iria ganhar.
Digitou rapidamente uma resposta para o amigo:

"Irmão, não se preocupe. Não foi nada! Espero que ela esteja bem. Me diga onde te encontrar, consigo chegar em uma hora."

Após apertar o enviar, tratou de ingerir duas aspirinas e uma boa dose de café. Só assim para aguentar o dia sem tanto sofrimento.

***


Quando chegou no restaurante indicado por , não muito longe de sua casa, não demorou a encontrar o amigo sentado em uma mesa reservada no salão do restaurante. Ao perceber sua presença, se levantou, o cumprimentando com um aperto de mão amigável e um tapinha nas costas. Ambos se sentaram e já trataram de fazer seus pedidos. Estavam famintos.

– Então, irmão - começou, um pouco sem graça. - Queria te agradecer por ontem. Eu realmente não fazia ideia de que estava na boate. Foi uma infeliz coincidência, mas de qualquer modo, obrigado! Não gosto de pensar no que poderia ter acontecido se... - não completou a frase e percebeu a íris do amigo se tornar um pouco mais escura com o pensamento. Pra ser bem sincero, ele mesmo não gostava de pensar na possibilidade, mas era engraçado ver como o durão que conhecia parecia desmoronar quando o assunto era a sua irmã.

Ele sabia que tinha muito mais na história e que o episódio que havia presenciado ontem era apenas uma parte pequena do todo, a superfície de um problema maior - como a ponta de um iceberg.

, de verdade, não precisa se preocupar com isso. Fico feliz que ela esteja bem! Nada aconteceu. Ela foi um pouco inconsequente, estava bêbada. Nós mesmos não éramos muito melhores do que isso na idade dela.

Não que ele fosse muito mais velho que ela, mas sabia que aos 25 anos tinha muito menos escrúpulos e juízo do que hoje.
revirou os olhos e suspirou.

– Como eu disse ontem, a não é uma garota muito fácil. Ela vive se metendo em encrencas e tendo ideias perigosas como a que você teve a chance de ver.
– O que mais ela já aprontou? - percebeu a curiosidade estampada em sua própria voz, bem mais presente do que gostaria. Por sorte, não pareceu ter notado nada além de uma pergunta casual.
– Tirando a história da competição de motos que te contei ontem e coisas básicas como saltos de bungee jumping e paraquedas... - ele se lembrava bem do que o amigo havia dito ontem sobre a irmã estar interessada em competir nas corridas, e para ser sincero, a história dos saltos radicais não o impressionava muito, mas também não parecia impressionar , então esperou que ele continuasse. - Às vezes ela se aventura em ralis, escaladas, base jumping e até mesmo Wing Walking. Ela está constantemente metida em casas de lutas clandestinas de MMA. Perdi a conta de quantas vezes a tirei desses lugares.

lançou-lhe um olhar um pouco incrédulo. Se recordava perfeitamente da estatura física da menina e não parecia se encaixar nem um pouco com alguém que tivesse qualquer habilidade com luta.

– Sei o que está pensando. Ela parece pequena demais, né? Mas é o que dizem... Você devia ver o outro cara!

gargalhou, mas parecia tenso demais para achar graça. De fato, não conseguia imaginar a menina em uma briga física. De repente, a ideia de alguém a machucando o incomodou de um jeito estranho. Novamente, não estava preparado para essa sensação. Ele pigarreou e tomou um gole de água.

– Sei que pode parecer um problema simples de resolver.... Deve estar pensando que eu poderia ser mais duro com ela ou simplesmente proibi-la. Acredite, já passei por todas essas fases. tem uma personalidade forte e contrariá-la só faz com que ela tenha a reação oposta! Pra ser sincero, não sei muito bem como ela aceitou sair daquela marquise ontem com você.
– Se te conforta, não foi muito fácil convencê-la - se lembrava bem do desespero que sentiu quando percebeu que a menina parecia não querer ouvi-lo. E pior, o quanto parecia apreciar o momento de perigo em que se encontrava. Mais uma vez, ele sentiu um frio na espinha ao lembrar das cenas do dia anterior.
– Não conforta - suspirou. - Olha, cara, sei que ontem te pedi para dar umas aulas de direção de moto para , mas esquece isso. Sei que é complicado, a competição da NASCAR está chegando e eu não quero te meter no meio disso...
– Eu ajudo! - o interrompeu quase que desesperado. o olhou desconfiado por um segundo. Droga! Não precisava ter respondido tão rápido. O que diabos havia de errado com ele, afinal? A ideia de não passar um tempo maior perto dela o fez sentir levemente angustiado. Ele pigarreou novamente. - Quer dizer, não seria um problema muito grande, afinal, serão só algumas aulas e se isso for fazer você se sentir melhor, eu ajudo!

o estudou, ainda um pouco desconfiado pelo interesse repentino de em dar aulas para sua irmã. Até ontem, ele não parecia tão animado com a ideia. Decidiu, então, que era coisa da sua cabeça. No fim, ele só estava sendo um bom amigo, como sempre fora. E era exatamente disso que também estava tentando se convencer.

– Bom, obrigado! De qualquer forma, precisarei convence-la primeiro. não é de aceitar ajuda de muito bom grado - ele riu sozinho dando de ombros e concordou. Seria um teste interessante, certo? Se ela aceitasse, talvez significasse que gostaria de passar um tempo com ele também. Se não... Por um momento, a ideia dela não aceitar o incomodou mais do que deveria. A lembrança de uma frase dita pela mulher na noite passada lhe acertou em cheio.
- Acredite, você não quer me conhecer.
- E por que não?
- Por que eu vou virar a sua vida do avesso.


realmente não sabia onde estava se metendo, mas para ser sincero, não podia negar que estava ansioso para descobrir!


Capítulo 3

Já passava das sete da noite quando se deu por vencida. Havia tirado o dia para não fazer nada, apenas existir. E seu objetivo tinha sido concluído com muito êxito até agora. Entretanto, estava incomodada. Batucava as mãos e as pernas enquanto zapeava pelos canais da TV à cabo, apertando os botões do controle desenfreadamente sem nem dar tempo da tela focar na programação antes de mudar pra próxima. Por quanto tempo ela poderia continuar fazendo isso antes de queimar o aparelho?
Ela bufou.
Olhou o celular mais uma vez para constatar que nada havia mudados nos últimos 10 minutos. Nenhuma mensagem de . Ele não deu sinal de vida nem para perguntar se ela estava bem. Se estava viva.
E se ela tivesse passado mal e se engasgado com o próprio vômito noite passada? Quanto tempo levaria até que encontrassem seu corpo, já que parecia não se importar em saber como ela estava? A irritação foi tomando conta de si.
Ela sabia que deixava morto de preocupação pelas coisas que fazia. E sabia também que ele ficava puto com isso. Mas achou que as coisas tinham ficado bem entre eles ontem à noite, não tinham?
Então porque é que ele não havia mandado uma mensagem?
Eles se falavam todos os dias, nem que fosse um SMS perguntando se as coisas estavam bem! O silêncio só podia significar que ele estava chateado com ela, sabia disso! E era orgulhosa demais para mandar a mensagem primeiro.
Odiava brigar com . Essa era a única coisa que realmente tirava a menina do seu habitual estado de indiferença. Decidiu desligar a TV de uma vez ou acabaria tendo um prejuízo financeiro desnecessário.
Foda-se!
Se levantou e pegou as chaves do carro na bancada da cozinha.
Chegou ao prédio de poucos minutos depois, não sem antes passar na confeitaria preferida dele para comprar uma bomba de chocolate para cada um, além de outros doces. Não iria pedir desculpas, mas não precisava viver em pé de guerra com o irmão. Fazia tempo que não passavam uma noite tranquila um ao lado do outro, assistindo um filme de terror qualquer e comendo besteira.
Passou pela portaria cumprimentando o porteiro já conhecido. Obviamente ela era a única que tinha passe livre para subir sem precisar ser anunciada.
Quando parou de frente para a porta do apartamento de , tocou a companhia. Poderia usar sua própria chave, mas era sábado à noite e não queria correr o risco de se deparar com alguma cena desagradável protagonizada pelo seu irmão e alguma biscate, como já havia acontecido antes. Alguns segundos depois, abriu a porta, vestindo apenas uma calça de moletom, seu rosto amassado de sono. Estava dormindo, ela constatou um pouco mais aliviada.

– Vim em sinal de paz! - disse levantando a embalagem com a logomarca da doceria conhecida. Ele a encarou sério por alguns segundos e abriu a porta dando passagem para ela entrar.

O apartamento de era impecável. Parecia ter saído de uma revista de decoração e certamente não parecia ser habitado por um homem solteiro de 31 anos. Tudo estava milimetricamente no lugar, refletindo exatamente a personalidade perfeccionista do irmão. Depois diziam que quem era doida era ela.
Riu baixinho e se virou para ele, que continuou calado.

– Como não falou comigo o dia inteiro, vim checar se estava vivo, porque até onde eu sei, seu silêncio não significa boa coisa - ela disse, tentando manter o tom casual.
– Ora, achei que ficaria feliz por eu largar do seu pé. Não era isso que queria?
– Quero. Mas não significa que precisamos ficar brigados. Sabe que não é sobre isso.

deu de ombros.

– Só estava cansado, muita coisa na cabeça - disse com pesar.
– O senhor está exigindo muito de você na empresa? - já se acomodava confortavelmente no sofá, como se a casa fosse sua, o que praticamente era, já que vivia ali, até mesmo quando não estava.

Apoiou a sacola com os doces na mesa de centro e tratou de começar a abrir as embalagens de plástico, oferecendo uma para o irmão, que aceitou de bom grado.

– Também, mas não quero falar sobre isso agora.

se preocupou com o tom de voz do mais velho. Detestava vê-lo sofrer e detestava mais ainda saber que parte desse sofrimento era ela mesma quem causava.
Ele caminhou até o sofá e se jogou ao lado da irmã, que se aninhou em seu peito enquanto procurava algo para assistir na TV.
Era estranho pensar como o tempo passava rápido. Há poucos anos, ela era apenas uma adolescente mimada e rebelde que vivia trancada no seu quarto ouvindo músicas emo. Hoje, havia se tornado uma mulher independente que ele não sabia mais como controlar.

– Rick and Morty? – ela sugeriu, já selecionando um episódio aleatório da série que tanto gostavam.

Lá para o terceiro capítulo, os dois já gargalhavam juntos com alguma piada non-sense típica do desenho. Apesar do sofisticado – às vezes, nem tanto – humor, se identificava muito com algumas análises da série, e poderia facilmente parafrasear citações como: "ninguém existe por um propósito, ninguém pertence a lugar nenhum e no fim todo mundo vai morrer." Por mais que soasse trágico, era bem coerente com a filosofia da menina. A grande verdade é que não entendia a fixação das pessoas pela luta contra a falta de sentido do universo e a busca de razões para a existência. Ela não compreendia muito bem o paradoxo humano da incessante busca de significado em um mundo indiferente e desprovido de sentido.
Quando todas as embalagens já se encontravam vazias pelo chão e o clima entre os dois parecia finalmente estar tranquilo, se levantou para ir embora, mas antes, se lembrou de uma informação que recebera mais cedo.

, sei que não quer falar sobre isso, mas os organizadores da competição que eu participei ontem entraram em contato comigo - ela notou na hora os músculos do irmão se tencionando. Quase se arrependeu, mas continuou. - Parece que alguns patrocinadores do evento ficaram curiosos e me convidaram para outra corrida na semana que vem. Gostaria que fosse comigo, como meu acompanhante - ela verbalizou o pedido que a fez compartilhar tal informação.

tinha ficado animada com o e-mail que recebera naquela tarde. Sabia que, no fim, iria de um jeito ou de outro, mas gostaria de ter o apoio do irmão.
Ele demorou quase um minuto para responder, enquanto arrumava a bagunça que a caçula havia feito em sua casa.

– Claro que eu vou com você, criança. Ou você acha que vou te deixar fazer essas loucuras sem supervisão?

abriu um sorriso aliviado. O que ela mais amava em era que ele poderia ficar puto e querer matá-la muitas vezes, mas no fim sempre estava ao seu lado. A aceitava do jeito que ela era. Realmente não sabia o que tinha feito para merecer em sua vida.

– Sobre isso, queria mesmo falar com você... - ele começou dizendo. Parecia receoso. já se preparava para um novo sermão ou para ouvi-lo dizer que tinha arrumado um comprador para sua nova moto. Por isso, quando ouviu as palavras seguintes do irmão, precisou de um tempo para assimilá-las. - Conheço uma pessoa que não se importaria em te ensinar mais sobre corridas e sobre como realmente se pilota uma moto dessas.

piscou umas três vezes em silêncio.

– Como assim? - ela perguntou. O que aconteceu com o de 24 horas atrás que estava batendo o pé dizendo que ela não iria mais correr? Da onde vinha aquela ideia, afinal? A menina se encontrou desconfiada em questão de segundos.
- ele disse, simplesmente.

Cada vez menos aquela conversa fazia sentido na cabeça da garota. não era o amigo dele que a tinha tirado da marquise da boate na noite anterior? O que ele tinha a ver com corridas?
Quando viu que parecia ainda mais confusa, bufou.

é piloto campeão da NASCAR. Ele se aventurou um tempo em corridas de motos e embora não seja sua especialidade, entende bastante. Conversei rapidamente com ele, que topou te dar umas aulas básicas. Quem sabe assim você ganha alguma prática e não se arrebenta toda em algum acidente - wle parecia visivelmente mais irritado agora. Claramente ainda não estava confortável com a ideia dela competir. E ela nem esperava que estivesse.

Porém, não era isso que a deixou intrigada naquele momento. Tinha ficado estranhamente interessada no rumo que a conversa estava tomando. Então quer dizer que o bonitinho da noite passada também curtia umas corridas? Isso fez com que seu interesse por ele aumentasse um pouco mais. Não tinha parado muito tempo para pensar sobre o rapaz depois da noite anterior, mas agora, a ideia pareceu instigá-la.
Ele tinha aceitado lhe dar aulas... O que significava que ele não havia se intimidado pelo episódio da noite anterior, pelo contrário, apesar disso, ainda estava disposto a passar um tempo com ela. Um interesse dentro de si cresceu subitamente. adorava testar as pessoas, então decidiu ver até onde o interesse dele realmente ia.

– Ok! - ela disse por fim, fazendo estranhar o fato de ter aceitado tão rápido. - Mas com uma condição... - ah, é claro que algo ainda estava por vir, do contrário, não se trataria de . - Ele poderá me dar aulas, desde que a primeira seja amanhã. Às 11h. Mande o endereço da minha casa.

arregalou levemente os olhos, rindo de maneira sarcástica em seguida.

, são quase onze horas da noite! Não posso pedir isso para ele num prazo tão curto. Não é como se ele não tivesse mais nada para fazer da vida. Sem chance! - ele disse de maneira óbvia.
– Então, sem chance de acontecer. É assim ou nada feito! - ela disse confiante com o queixo levemente em pé, cruzando os braços na frente do corpo.

Argh, sabia ser extremamente insuportável quando queria! Ela estava fazendo isso justamente porque sabia que ele provavelmente não poderia.

– Por que você precisa ser assim o tempo todo? - disse, bufando. - Sua mimada irritante!

riu alto e revirou os olhos.

– Fale com seu amigo, se ele topar, ótimo! Eu estarei o esperando às 11h! - ela disse, mandando um beijo estalado no ar enquanto saía de seu apartamento.

Por Deus, será que ele não poderia ter um único dia de paz?
Quando entrou no seu carro, pensou em ir direto pra casa. Mas ainda estava cedo, era sábado e só ela sabia o quanto precisava relaxar. Por isso, decidiu estacionar o carro em um bar desconhecido que encontrou pelo caminho. Dizem que só se cura uma ressaca com outra... e claro, uma boa noite de sexo também ajuda. Não estava super produzida, mas confiava plenamente na sua capacidade de descolar algum cara gostoso para aliviar sua tensão. E sabia perfeitamente que uma mulher sozinha em um bar sempre acaba chamando muita atenção nesse mundo sexista em que vivemos. Hoje, se aproveitaria desse fato.
Sem pensar duas vezes, desceu do carro e adentrou o lugar. Logo, o cheiro de cerveja e cigarro se fez presente. O espaço não era grande, mas estava bem cheio. Se dirigiu até o bar, sentando em uma das banquetas altas ali dispostas.

– E aí, gata? Como posso te ajudar? - o barman jovem demais perguntou cheio de segundas intenções em sua voz. Ela fingiu que não percebeu.
– Uma cerveja long neck, por favor - pediu.
– É pra já! - poucos minutos depois, o menino voltou, lhe entregando a garrafa já aberta. Ela levou até a boca, bebericando um gole do líquido amargo.

Observou o ambiente por alguns instantes. já teve sua fase baladeira. Anos atrás, saía praticamente de segunda a segunda. Entretanto, mesmo naquela época se sentia mais como um peixe fora d'água. Ou talvez a analogia que se encaixasse melhor a ela, seria a de um pássaro aprisionado, infeliz por não se sentir pertencente. Todas as pessoas ali pareciam confortáveis, realmente parte daquele lugar, daquele ambiente, do grupo de amigos aos quais se encontravam. nunca sentiu isso. Tinha em sua vida pessoas que amava genuinamente. , , até mesmo Amelia. Mas pertencer... não, isso já era demais. Os únicos momentos em que sentia se encaixar em algo era quando estava com a adrenalina pulsando pelo seu corpo. Deus, seria possível que já estivesse com saudade da sensação?
Ela balançou a cabeça, tratando de afastar os pensamentos. Não queria acabar no telhado do bar novamente.
Quando estava prestes a pedir a segunda cerveja, sentiu uma mão tocar a sua cintura por trás. A figura do homem que se posicionou ao seu lado, a poucos centímetros de distância dela, não era nada mal.

– Posso te oferecer seu próximo drink? - ele perguntou. Os cabelos cacheados caíam pela sua testa, dando-lhe um ar quase adolescente. Entretanto, a camisa social preta e o maxilar marcado criavam um grande contraste. Gostoso! sorriu com o que viu.
– Depende, qual você sugere? - perguntou interessada. Dizem que pode se descobrir muito sobre uma pessoa de acordo com o que ela pede em um bar.
– O que você tiver na sua casa - ele respondeu confiante, abrindo um sorriso sacana.

foi surpreendida com a ousadia do rapaz, mas não pôde deixar de admitir para si mesma que gostou. Perder tempo pra quê, não é mesmo? Afinal, ambos sabiam que estavam ali para isso.
Enquanto ela fazia sua análise mental, o rapaz continuou:

– Desculpe, talvez tenha me apressado um pouco demais - ele disse, parecendo estudá-la também.

Ela inclinou a cabeça para o lado.

– Na minha casa só tem Vodka - abriu o sorriso mais sacana que conseguiu, vendo o rosto do rapaz se iluminar, esquentando uma parte dentro dela em expectativa. Bom, na dúvida entre a paixão e a vodka, é bom ter cuidado com a ressaca. Mas ele serviria por hoje. - Me chamo - se apresentou, estendendo a mão.
– Caleb! - ele segurou, já puxando a moça para fora do bar.

Aquela noite estava apenas começando. E ela esperava que terminasse muito bem!

***


segurava o telefone com as duas mãos se sentindo levemente desnorteado. A sala em que se encontrava estava cheia. Conversas e risadas altas se misturavam com a música pop que tocava no ambiente. Tinha ido para uma festa na casa de um colega chamado Vincent, o qual não via há um tempo. Apesar da preguiça e de ainda estar se recuperando da ressaca da noite anterior, achou uma boa ideia aceitar o convite e rever alguns amigos. Estava na cidade há poucos dias e era um cara bem sociável, conhecia muita gente e tinha muito papo para pôr em dia. O ponteiro do relógio ainda marcava meia noite e todo mundo já parecia ter os sentidos bem alterados pela bebida. Mas não era nada disso que deixava no estado em que se encontrava. Uma nova mensagem de tinha pego o rapaz de surpresa. Sentiu uma leve sensação de Deja Vù enquanto relia pela quinta vez as palavras no visor do telefone:

" De:
E aí, cara, tudo bem? Falei ainda pouco com a sobre as aulas. A boa notícia é que ela até que topou. A má... bom, ela disse que só faria se vocês começassem amanhã. Do contrário, nada feito. Sim, minha irmã é uma pirralha mimada. Não se sinta obrigado a fazer isso caso tenha algum compromisso ou outros planos. Mas se por acaso ainda estiver dentro, encontre-a às 11h. Te enviarei a localização do apartamento.
Muito obrigado e desculpe incomodar.
Ps: Caso decida ir, mantenha suas mãos imundas bem longe da minha irmã ou eu te arranco todos os dedos com um alicate de unha. Está avisado!"


engoliu em seco mais uma vez. De repente, a gola da sua blusa parecia sufocá-lo. Deu um longo gole na cerveja que estava em sua mão e o líquido desceu pela garganta com dificuldade.
Não sabia se atribuía isso ao fato de parecer indiretamente intimado pela menina ou se era pela consideração final de . Não que ele de fato fosse colocar suas mãos imundas na irmã mais nova do seu melhor amigo, mas só a ideia parecia fazer algo se remexer desconfortavelmente dentro dele.
Ela estava o testando, afinal? Não sabia por que, mas algo lhe dizia que sim! Sabia que se aceitasse, iria parecer desesperado, como se não tivesse nada mais importante para fazer da sua vida. Por outro lado, talvez não tivesse mais nada que quisesse fazer da sua vida amanhã além de revê-la.
Se ele fosse, ela teria a confirmação de que ele possivelmente estava interessado nela, não é? Se não fosse, bem, correria o risco de perder a sua chance. Ele queria isso? Mas que chance, por Deus? A menina mal havia entrado na sua vida e já estava mexendo com a sua cabeça e fazendo joguinhos mentais sem nem ao menos falar com ele. Ele não sabia como, mas tinha certeza de que aquela condição imposta por ela tinha sido para testá-lo. Era como se de alguma forma já conhecesse a garota e isso parecia muito a cara dela.

Pirralha mimada! - murmurou baixo as palavras do amigo.

Ainda estava olhando para a tela do celular quando Anne, uma loira com quem havia ficado algumas vezes, sentou ao seu lado.

– E aí, . Preocupado com algo? - ela perguntou, tentando puxar assunto.
– Problemas de trabalho - ele mentiu, bloqueando o telefone. Definitivamente não queria ter que lidar com aquilo agora.
– Talvez eu possa te ajudar a relaxar, como nos velhos tempos... - ela se aproximou mais dele, tocando levemente em seu ombro com a ponta dos dedos. Parece que alguém estava querendo um remember. riu.

Ele levantou o olhar e encarou a menina. Anne era uma menina legal. Muito bonita também. Tinha se divertido com ela nos momentos em que estiveram juntos. Entretanto, por algum motivo, hoje ela parecia ter o cabelo da cor errada. E seus olhos claramente não eram tão expressivos.
Ele balançou a cabeça. Por que raios estava fazendo comparação mental da mulher a sua frente com a irmã caçula do melhor amigo? Ele devia estar ficando louco.

– E então? - ela perguntou, quando viu que ele não fez menção respondê-la.
– Desculpe, Anne, mas hoje não vai dar. Preciso ir para casa, tenho um compromisso amanhã de manhã.

Ele sentiu vontade de se socar. Como assim tem um compromisso amanhã? Ainda não havia decidido se iria ou não. Ficou irritado instantaneamente por isso. não estava o obrigando a ir, nem mesmo estava. Foi apenas uma condição. Ele poderia simplesmente negar e passar uma noite agradável ao lado de Anne.
Por que então tudo o que ele pensava naquele momento era na ansiedade de ver a morena novamente amanhã?

– Bom, você tem o meu número! - ela lançou uma piscadela e saiu em seguida quando viu que não conseguiria nada ali, deixando sozinho e ainda mais frustrado.

Ele deu um gole final na cerveja e decidiu ir embora sem se despedir de ninguém. Não achava que alguém fosse realmente se importar, afinal. Inventaria uma desculpa depois.

***


Já de banho tomado, estava deitado em sua cama. Havia digitado e apagado a mensagem para o amigo algumas vezes. Pensou em dizer que não poderia ir e finalmente colocar um ponto final nessa história, mas quem ele estava querendo enganar? No fim, a briga era inútil. Ele sabia que iria, só precisava fazer isso soar o mais casual possível.
Só estou ajudando um amigo. Ele repetia o mantra na sua cabeça.
O que não deixava de ser uma verdade, certo? era quase como um irmão para ele e havia o ajudado demais no início de sua carreira. Era visível como a preocupação com a irmã caçula o atormentava. Pudera, pelo pouco que ouviu e viu dela, se fosse ele nos sapatos de , certamente também estaria preocupado.
Era isso, então. Estava se metendo nessa pelo amigo. Única e exclusivamente. Embora soubesse que no fundo aquela não era uma verdade absoluta, serviria como a sua desculpa. Com essa conclusão, digitou rapidamente a mensagem: "Sem problemas, cara. Não tinha nada programado mesmo. Estarei lá."
Resolveu ignorar a última parte da mensagem de . O que ele diria, afinal? Quando apertou o botão de enviar, um calafrio estranho percorreu seu corpo.
sabia que precisava dormir, estava realmente exausto. No entanto, contrariando toda a racionalidade e sem que ele pudesse ter muito controle sobre seus atos, se pegou digitando " " no campo de busca do Google. Não sabia o que esperava encontrar, talvez suas redes sociais. Mas a primeira matéria lhe chamou atenção logo de cara:

"Com apenas 24 anos e donas um negócio milionário, as empreendedoras e sócias de Chicago, e Videl, integram lista da Forbes Under 30".

abriu um pouco a boca, claramente surpreso e se sentindo levemente intimidado pela menina. Talvez o dom fosse de família mesmo.
Não que ele não tivesse suas conquistas profissionais. Era um ótimo corredor e sabia disso. E era também muito responsável com sua carreira, não foi a toa que chegou tão rápido no lugar onde estava. Entretanto, o mérito de liderar uma empresa e ter um grande destaque por isso fez com que a admiração de por crescesse mais um pouco.
O texto contava um pouco sobre a trajetória das meninas e sobre a empresa do ramo de produção de eventos. Ficou bastante impressionado com os nomes e os portes dos clientes que faziam parte do portfólio de sua marca. Entretanto, não havia sido nenhuma dessas informações que fez engolir com dificuldade, sentindo de repente a boca seca.
Na imagem que ilustrava a matéria, estava ao lado de uma mulher - que lembrou se tratar da amiga que estava naquele dia na boate. usava um vestido longo de gala na cor preta, colado perfeitamente no corpo, realçando suas curvas de uma maneira que fez seu coração falhar uma batida. Nos lábios pintados com um batom vermelho vivo, ela sustentava aquele sorriso que não saía de sua cabeça desde quando pusera os olhos nela, na noite anterior. Os cabelos cor de noite estavam ondulados, todos jogados para apenas um lado de seu rosto, servindo como uma bela moldura para aqueles olhos que lhe causaram novamente arrepios. Carregados em uma maquiagem preta, eles pareciam um pouco mais escuros do que se lembrava. Mais uma vez, hipnotizante. Imediatamente, sentiu uma necessidade avassaladora de vê-la vestida daquela forma ao vivo, embora não tivesse muita certeza se poderia confiar nos seus instintos caso isso viesse a acontecer.
Uma ansiedade tomou conta de si quando pensou novamente que a veria no dia seguinte. Ele se sentia como um adolescente na puberdade indo para o primeiro encontro da sua vida. Que nem mesmo havia sido combinado com a garota, e sim com o irmão dela. Deprimente.
Se sentiu patético naquele momento. Por isso, decidiu tratar de guardar o telefone para finalmente tentar dormir.

***


detestava ter que dirigir devagar. Ele não era necessariamente imprudente no trânsito, mas quando a sua carreira dependia de ser o mais rápido nos volantes, isso se tornava um hábito. Por esse motivo, ele estava muito irritado no banco do motorista, enquanto conduzia seu carro lentamente pelas ruas de Chicago, seguindo o GPS na direção de um endereço o qual ele nunca havia ido antes. A verdade era que naquela manhã acabou despertando mais cedo do que o necessário e a antecipação fez com que não conseguisse aguardar o tempo correto para sair de casa, portanto, estava bem adiantado para o horário combinado com . Para compensar, pegou o caminho mais longo e dirigia devagar tentando, pelo menos, não chegar tão cedo e parecer um idiota. Não sabia muito bem o que esperar da irmã de hoje. No fatídico dia em que se conheceram, duas noites atrás, ambos estavam um pouco bêbados e as circunstâncias não foram pra lá das mais comuns. Hoje eles estariam sóbrios, conscientes e seguros - pelo menos até subirem na moto. Não saber o que esperar fazia com que batesse os dedos inquietos no volante do carro. Desde quando ficava tão nervoso para encontrar uma mulher? Por Deus! Ele mal estava se reconhecendo.
Quando chegou ao destino final que o GPS indicava, estava apenas três minutos adiantado do horário combinado. Ok, não era tão mal assim.
Desceu do carro e se apresentou na portaria, tendo o portão aberto pelo porteiro imediatamente. Ela havia liberado a sua entrada? O pensamento deixou surpreso. Será que deveria esperá-la descer? Ou subiria?
Ele bufou, desconhecendo mais uma vez a onda de questionamentos inseguros que insistiam em surgir na sua mente.
Quando entrou no elevador, percebeu que o andar referente ao apartamento da menina era nada menos do que o último. Que obsessão era aquela que tinha com altura?
Alguns segundos depois, a porta se abriu novamente revelando de imediato o interior de uma sala de estar, o queixo de caiu um pouco. A vista panorâmica do maior lago da cidade preencheu sua visão e hoje, particularmente, fazia um dia lindo de sol. Era de tirar o fôlego.
Quando deu um passo para dentro, ainda em dúvida, um homem desconhecido mais ou menos da sua altura se colocou à sua frente. Que diabos era isso? Será que estava no lugar certo?
Pensou em checar o endereço, mas se conteve. Tinha certeza de que era ali.

– Posso ajudar? - o rapaz desconhecido perguntou com segurança, como se fosse dono do local. Ele vestia uma calça jeans, mas estava sem camisa, o que deixou levemente desconfortável.

Pôde notar o desconhecido o fitando de cima abaixo, um pouco provocativo, como se tentasse o intimidar. O orgulho de pareceu crescer um pouco dentro do peito e ele levantou o queixo.
Pigarreou antes de falar.e

– Ahn, estou procurando por ? - Ele disse, mas percebeu que soou como uma pergunta.

Antes que o rapaz - que imediatamente classificou na sua cabeça como extremamente abusado - pudesse responder, entrou no seu campo de visão, vindo de outro cômodo do apartamento. Abriu um sorriso surpresa, parecendo animada, o que fez ele prender a respiração por um breve momento. Todas as sensações da noite em que a conhecera voltaram de uma só vez e ele simplesmente não entendia o motivo de se sentir tão estranhamente agitado na presença dela.
Percebeu que a mulher vestia apenas uma camisa branca de algodão que ia até a metade de suas coxas, como um largo vestido. E nada mais. Seus cabelos pretos estavam presos em um rabo de cavalo, com alguns fios caindo soltos e ele sentiu que começara a suar frio. Que merda era aquela que estava acontecendo? Se tivesse pregado uma peça nele, faria questão de quebrar todos os dentes do amigo. Quando pensou em falar algo, ela se pronunciou.

– Não é que você realmente veio - ela disse parecendo sorrir sincera e a irritação dele foi embora tão rápido quanto chegou.

Ela estava diferente da imagem que guardava na sua mente, tanto do momento em que se conheceram, quanto do retrato que viu na noite anterior. Linda de um jeito totalmente novo. Sem a maquiagem escura, tinha um rosto quase inocente e parecia pelo menos uns cinco anos mais nova.

– Oi! - cumprimentou, ainda um pouco incerto de como deveria se portar, alternando o olhar entre a figura pequena que agora se encontrava parada bem na sua frente e o rapaz abusado ao seu lado. Será que eles eram namorados? Por um segundo, aquela ideia o incomodou mais do que o necessário.

Ela, parecendo notar o desconforto de , lançou-lhe um sorriso sacana. Parecia se divertir com a situação. Agora ele entendia perfeitamente porque o amigo vivia chamando a menina de irritante.
Ela então se virou para o homem desconhecido que o atendeu segundos atrás.

– Caleb querido, acho que já está na hora de você ir embora - ela deu uma piscadela para o rapaz.

não sabia se sentia alívio por ela estar mandando o cara pastar ou incomodado pelo jeito íntimo com que tratou ele.

– Que isso, minha gata, achei que iríamos passar o resto da manhã juntos - ele respondeu de uma maneira que fez se sentir imediatamente irritadiço.

Ele nunca foi um cara agressivo, pelo contrário. Achava brigas físicas um comportamento extremamente retrógrado. Então estranhava todas as sensações novas que estavam surgindo como uma avalanche dentro de si num período tão curto de tempo.

– Bom, como pode perceber, você achou errado. Tenho um compromisso agora. E, por favor, não me chame assim. Não sou sua gata - ela respondeu confiante e segurou o riso.
– Por que não remarca? Tenho certeza que o camarada aqui não irá se importar, certo irmão? - o rapaz debochado se virou para , que sentiu suas mãos se fechando fortemente. Definitivamente, o cara era abusado. Antes que pudesse responder, a garota assumiu a frente.
– Primeiro, não direcione para outra pessoa a decisão de algo que eu já falei que não vai rolar - seu tom era ameaçador e agradeceu por não ser ele no lugar do infeliz. - Segundo, você já está começando a me irritar agora, então, por favor, se poupe da humilhação, pegue sua camisa - ela caminhou até o sofá, voltando de lá com um pano escuro amassado nas mãos, o que julgou ser a blusa do homem, entregando com uma certa rispidez. - E dê o fora da minha casa!

Ela terminou de falar com o olhar fixo no homem e soube que ele não iria discutir. Como poderia? Ele próprio estava um pouco embasbacado.
Quando Caleb fez menção de entrar no elevador do qual ele mesmo havia acabado de sair, concedeu passagem. Sentiu o orgulho do rapaz ferido e imediatamente ganhou uns pontos extras com ele.
Quando a porta do elevador se fechou e os dois ficaram a sós no apartamento, ele se sentiu novamente ansioso. parecia validá-lo com um olhar analítico.

– Entre! Fique à vontade - ela disse com um sorriso animado enquanto caminhava em direção ao que percebeu se tratar de uma cozinha americana.

A acompanhou, observando a menina enquanto ela pegava uma maçã em uma cesta de frutas.

- Então, ... - se prolongou um pouco mais que o necessário nas sílabas de seu nome, pronunciando cada uma de maneira arrastada, como se soubesse exatamente que aquele fato iria lhe causar um arrepio estranho. - Um gato comeu sua língua, foi? - ela riu alto.

Não sabia se era o seu raciocínio que estava mais lento na presença da mulher ou se ela realmente conseguia oscilar o humor tão rapidamente que o deixava confuso. Há um minuto atrás estava fuzilando o tal Caleb com o olhar. Agora estava rindo pra ele? Não que ele estivesse reclamando, só estava mesmo tendo dificuldade para acompanhar.
o analisou com certa curiosidade. Ele parecia um pouco diferente do que ela se lembrava. Talvez um pouco mais... tímido?
Quando falou com no dia anterior, ela sabia que existia uma grande chance do rapaz não aparecer hoje em sua casa no horário sugerido. Mas, ao contrário do que imaginou, ali estava ele. E ela não podia negar que estava extremamente satisfeita com isso.
limpou a garganta antes de falar.

comentou comigo que você precisava de umas aulas de direção de moto e, bom, eu estava devendo umas pra ele, então aqui estou - tentou falar do jeito mais casual possível, dando de ombros.

O sorriso que ela abriu, entretanto, deixou claro que não havia acreditado em uma palavra sequer que saiu de sua boca. Droga! Precisava se fazer mais convincente.

– Sei - ela disse de um jeito desconfiado e ele sentiu vontade de agarrá-la bem ali, a fim de calar sua boca presunçosa. - Vamos colocar alguns pingos nos i's aqui, certo? Eu não preciso de absolutamente nada. provavelmente deixou claro para você que a ideia partiu dele e, convenhamos, eu conheço meu irmão suficientemente bem para saber que se trata de um plano idiota para me fazer desistir da ideia de correr. Ou para que ele próprio se sinta mais confortável com isso, já que acha que eu não sei pilotar uma moto - deixou a boca se abrir um pouco, novamente surpreso. Se pensava que estava no controle, bom, parece que sua irmãzinha está a alguns passos na frente ele.

riu, percebendo pela reação de que a sua teoria estava certa no fim das contas. realmente não mudava nunca.

– Se sabia disso, por que aceitou então? - ele perguntou, curioso.
– Eu não aceitei exatamente, como você deve saber bem... Claro que sabe, do contrário não estaria na minha casa às 11 horas da manhã de um domingo. Estava curiosa para saber até onde você iria para... ajudar o meu irmão. Se teve todo esse esforço pra vir até aqui de última hora, provavelmente estava devendo pra ele uma das grandes - ela admitiu de um jeito debochado, deixando claro que sabia que o motivo dele estar ali pouco tinha a ver com .

Quando ele ficou sem saber o que dizer, ela gargalhou novamente.
Que serzinho petulante. queria mesmo calar a boca dela. E pensava em várias maneiras com que poderia fazer isso! Balançou a cabeça para afastar os pensamentos. No fim, a garota o surpreendeu mais do que ele imaginou.
Já que havia sido testado, exatamente como ele imaginou previamente, faria o mesmo com ela. Decidiu juntar o pouco orgulho que ainda tinha e resolveu entrar no jogo também.

– Bom, acredito então que o meu trabalho aqui não seja realmente necessário - disse de maneira cordial, fazendo franzir a testa, incerta. - Aproveite seu domingo! - lançou-lhe um sorriso amigável e se virou em direção ao elevador.

Ela não o impediu. Droga! Quando estava prestes a entrar no mesmo, ouviu sua voz disparar da cozinha:

– Você não precisa ir embora, sabe? me contou da sua experiência na área automobilística, talvez você tenha mesmo umas dicas interessantes para me passar, se quiser. Vou participar de uma corrida importante no próximo sábado. Já que está aqui, não vamos fazer disso um tempo perdido - ela despejou tudo de uma vez. precisou piscar duas vezes para assimilar o que ouviu. Como uma pessoa tão pequena conseguia falar tão rápido?

Não pôde negar, entretanto, que sentiu certo alívio. Ela também queria que ele estivesse ali, mesmo que apenas para as aulas. Ter ciência daquilo fez com que ele sorrisse convencido. Ponto para ele!
o avaliou de longe, enquanto mordia a maçã. Ele estava de costas pra ela e parecia ponderar se ficava ou não. Não entendeu muito bem o porquê, mas estava ansiosa pra saber qual seria a decisão de .
Quando ele finalmente se virou de volta, ela abriu um sorriso sincero. Se olharam de maneira cúmplice e ela percebeu imediatamente que um trato silencioso tinha se firmado ali entre os dois. Entretanto, sabia que precisava acertar as arestas, por isso, caminhou lentamente na direção de , que permanecia estático, apenas a observando.
Parou quando se encontrava a uma distância mínima de um palmo entre eles, levantando o queixo para encará-lo nos olhos. Sentiu engolir em seco e sorriu por isso. O homem era bem mais alto que ela e a proximidade fez com que ele precisasse abaixar o rosto em sua direção para fitá-la.

– Se vamos fazer isso, quero que saiba que eu não suporto mentiras. Conheço meu irmão bem o bastante para saber que ele pediu para você me desencorajar. Considere desde já que isso não vai acontecer! Então, ou você me ajuda pra valer, ou você se manda agora mesmo!

Ele apenas concordou com um leve aceno de cabeça. Mesmo que quisesse dizer algo, sua voz provavelmente não sairia, então nem se deu ao trabalho. estava alerta, a menina estava perto o bastante dele para que pudesse sentir o calor de seu hálito batendo em um sopro contra a sua face.
Algo nela o fazia sentir como uma criança de cinco anos recebendo bronca do pai. Desde quando havia se tornado tão frouxo a ponto de não conseguir responder uma pirralha de praticamente um metro e meio?
Quando ela abriu um sorriso quase imperceptível, ele foi obrigado a descer seu olhar para os lábios de , os fitando pela primeira vez com uma atenção incontestável. Sua boca estava molhada e avermelhada por conta da maçã que comia. Deliciosa!
O coração dele pulsava contra seu peito de um jeito incômodo e sentia seu autocontrole se esvaindo assim como água escorre pelas mãos. Estava há poucos minutos na presença da garota e a curiosidade de sentir seu gosto já era tanta que desejou beijá-la como nunca antes quis algo na vida! Deus, ele estava mesmo fodido! De repente, se lembrou das palavras de : "mantenha suas mãos imundas longe da minha irmã ou eu te arranco todos os dedos com um alicate de unha"
Apesar de completamente contra a sua vontade, ainda tinha amor pela vida, por isso se afastou um pouco da garota. lançou-lhe um sorrisinho sacana e mordeu a maçã deliciosamente devagar bem na sua frente, passando a língua pelo canto dos lábios em seguida, enquanto ainda olhava para ele. Ele estremeceu. Caralho. Como ela conseguia fazer uma cena como aquela se tornar a mais irritantemente sensual que já havia visto na vida? Aquela mulher o levaria a loucura sem nem mesmo ter a intenção de fazê-lo. Ou talvez tivesse. Na verdade, ela parecia saber exatamente o efeito que causava nele. E estava brincando com a sorte. Sentiu um desconforto crescer no meio de suas pernas, fazendo suas mãos novamente se fecharem em um punho, forçando-as a ficarem coladas em seu corpo, enquanto ele se concentrava em respirar para colocar os pensamentos em ordem. Caso contrário, não demoraria muito para segurar os cabelos pretos da mulher e puxá-la contra si.
O pensamento, só o pensamento, deixava seu sangue quente. Alguns segundos se passaram no mais absoluto silêncio.
, agora um pouco mais longe, o encarava contemplando aquela deliciosa atmosfera que se formara ali. Ele era mesmo lindo, cada parte do seu rosto parecia ser a personificação de um maldito Deus grego. Quando percebeu que ele a encarava com o olhar transbordando luxúria, se pegou pensando sobre como seria ouvi-lo gemer seu nome com uma voz rouca no seu ouvido. O pensamento a fez tremer. O que o irmão diria caso ela acabasse na cama com seu melhor amigo? Já podia imaginar a confusão que seria. Não que ele realmente precisasse saber, caso isso acontecesse. Se for algo apenas casual, tinha certeza de que não se importaria em guardar segredo.
A ideia de ter um relacionamento escondido com o melhor amigo de seu irmão fez com que uma onda de adrenalina passasse subitamente pelo seu corpo. O frio na barriga se fez presente e ela sentiu todos os pelos do braço se arrepiarem. Aquela sensação, apesar de tão familiar, jamais havia surgido daquela forma antes, sem que ela realmente estivesse em uma posição de perigo real. não teve tempo para estranhar o sentimento, porque soube, naquele momento, que levaria para a sua cama mais cedo ou mais tarde. Precisava sentir mais daquilo. Ela estava absolutamente curiosa.
notou a íris de ficar mais escura e, ao mesmo tempo, mais brilhante. Precisava sair dali, mas ambos pareciam presos naquela conexão estranha que se formara. Uma conexão que o assustou pra caralho. Ele não podia estar atraído por ela. Não podia. Quando ela fez menção de finalmente dizer alguma coisa, ouviram um toque de celular invadir o ambiente.
O susto o fez respirar fundo e se afastar mais da garota, que agora caminhava novamente para a cozinha, já colocando o aparelho em seu ouvido. O que raios tinha acabado de acontecer ali? Por uma fração de segundo pôde notar que também o olhou com desejo. não era nada inexperiente quando se tratava de mulheres, pelo contrário, então já havia reconhecido aquilo em outros momentos. Mas nunca daquela forma e, definitivamente, nunca tão recíproco. Ele passou a mão nos cabelos para acalmar os pensamentos.

– Bom dia, irmãozinho - ela disse olhando de rabo de olho para , que novamente ficou tenso. - Sim, está aqui - silêncio. - Estou ciente, - silêncio. Ela revirou os olhos. - Certo, te ligo mais tarde, então. Amo você! - notou seu tom de voz se tornar mais terno.

Ela desligou o telefone e olhou para ele novamente.

– Eu vou me trocar e já volto, ok? Fique à vontade! - ela deu uma piscadela para ele e caminhou até a escada, subindo lentamente para onde imaginou que deveria ficar o seu quarto.

Conforme ela subia os degraus, o rapaz teve uma visão ainda mais privilegiada de toda a extensão da sua coxa e início da bunda. De repente, todo o sangue do seu corpo ferveu novamente e ele se sentiu meio febril. Tratou de desviar o olhar rapidamente. Não precisava de mais constrangimentos por hoje!
Quando finalmente estava sozinho na sala, conseguiu respirar com tranquilidade desde que pisara dentro do apartamento. Reparou na decoração de muito bom gosto e percebeu que, na verdade, a casa era bem diferente do que ele imaginou que seria o lar de .
O loft não era enorme, mas todo o espaço era muito bem aproveitado e as cores claras davam uma boa vibe para o local, principalmente quando combinado com a boa iluminação natural que se fazia presente. Sem contar a vista que de longe era o mais impressionante no aposento. Mal conhecia , mas tinha certeza de que ela havia escolhido o local justamente por causa da vista.
Chegando mais perto da parede de vidro que mostrava boa parte da cidade, reparou uma estante fixada a uma das paredes na lateral da sala, decorada com alguns bons livros, entretanto, não foi isso que chamou sua atenção, mas sim um porta-retrato ali presente.
Na imagem, ele notou três pessoas. Uma delas não teve dúvida de que se tratava de seu melhor amigo ainda criança. Arriscaria dizer que na foto devia ter entre oito e nove anos. Apesar do tempo, percebeu que ele ainda tinha traços que lembravam aquele menino. Ao seu lado, estava uma mulher mais velha, muito bonita, com uma criança ainda mais nova sentada em seu colo. era praticamente um bebê na fotografia, com uns dois ou três anos. Seus cabelos pretos estavam presos em uma maria chiquinha. Ele sorriu com a imagem. O olhar, apesar de extremamente inocente, muito o lembrava o atual. Ela ria na foto.
Era um registro muito bonito. A moça mais velha, que julgou ser a mãe dos dois irmãos, tinha traços bem semelhantes à . Ele sabia por que sua mãe havia falecido quando ainda era criança, vítima de alguma doença. Talvez câncer? O amigo raramente falava algo sobre a mulher... nunca foi muito aberto no quesito emocional. De repente, sentiu um aperto no peito. Ele tinha uma boa relação com seus pais, apesar de alguns leves desentendimentos, mas não imaginava como deveria ter sido difícil para os dois crescerem sem a mãe. Muito por isso, provavelmente, os irmãos eram tão ligados um ao outro.
Se lembrou de conversando com , momentos antes, e da maneira como seu tom de voz mudou quando isso aconteceu. Sabia que ela deixava o amigo maluco e que sempre viveram em pé de guerra, mas era nítido o quanto se amavam.
Tratou de se afastar do retrato, não queria ser pego bisbilhotando.
Achava estranho pensar que embora sempre tivesse sido tão próximo de , não se lembrava muito de na adolescência ou mesmo na infância. Ele sabia que ela sempre fora um pouco isolada e não interagia muito com pessoas externas. E um pouco rebelde também, por assim dizer. Bom, isso pelo menos não havia mudado muito.
Ele riu com o pensamento.
Não sabia dizer quanto tempo tinha ficado divagando, talvez uns quinze minutos, mas quando desceu, ela vestia uma calça jeans escura, blusa branca e botas sem salto. Seus cabelos agora estavam soltos e bem penteados, caindo como uma cascata escura e brilhosa pelas suas costas e ombros. Não havia nada de absolutamente esplendoroso na sua figura, nenhuma super produção, mas ainda assim sentiu o ar escapar um pouco dos pulmões.
Será que em algum momento iria se acostumar com a visão da mulher a sua frente? Precisava dar um jeito nisso ou teria problemas.

– Pronto para ir? - ela perguntou, sorrindo.

Assentiu devagar, sentindo que aquele seria o início de um longo dia.


Capítulo 4

Quando chegaram na garagem, observou analisar com curiosidade sua moto. Ela realmente não entendia muito sobre a parte técnica de veículos, apenas confiou no atendente da loja quando ele sugeriu um modelo da marca Suzuki. E pra ser sincera, pelo menos até agora aquela lindeza não havia a deixado na mão.

– É uma bela máquina que você tem aqui! - disse enquanto admirava a motocicleta.
– Ela corre bem - deu de ombros.
– Ela não apenas corre bem - ele revirou os olhos. - Esta moto é fabricada pela Suzuki desde 2001. Tem uma potência de mais de 191hp, com mais de 12.000 rpm. Tem um motor DOHC, refrigerado a líquido de 16 válvulas. Correr bem é apenas um detalhe - ele disse, com um brilho maior nos olhos.
– Uau, agora eu sei exatamente como homens se sentem quando mulheres falam sobre maquiagens. Você sabe que eu não faço a menor ideia da língua que você está falando, certo? - riu, divertida.

bufou, rindo também em seguida.

– A diferença é que eu não uso maquiagem. Ou seja, você também não deveria dirigir uma moto dessas - ela o encarou com os olhos cerrados, demonstrando uma falsa indignação. - Certo, então a primeira lição já começa agora! Para ser uma boa corredora, você precisa se conectar verdadeiramente com o seu veículo. Precisa conhecê-lo, saber sua história. Se você realmente quer ser a melhor, essa belezinha aqui precisa ser sua melhor amiga daqui pra frente! Pode parecer simples, mas esse é um dos ensinamentos mais importantes que você poderá receber. Uma vez que você conhece realmente sua moto, saberá exatamente como controlá-la.

assentiu, interessada pela maneira como falava. Ele então continuou:

– Esse modelo lidera a linha de motos esportivas focadas em desempenho. A discussão para seu desenvolvimento começou justamente aí... As capacidades fundamentais que fazem uma ótima moto, foram destiladas em três palavras: Correr. Curvar. Frear - ele disse levantando um dedo de cada vez enquanto pontuava as palavras. - Essa máquina foi desenvolvida para correr melhor, curvar melhor e frear melhor do que qualquer outra moto superesportiva. A potência da velocidade você provavelmente já conheceu, de maneira imprudente, diga-se de passagem! - revirou os olhos com o comentário. - Quando a marca resolveu criar um redesign desse projeto, eles buscaram oferecer um modelo mais compacto, com uma manobrabilidade mais ágil e uma excelente sensação de frenagem, que é muito útil tanto para se frear de maneira mais brusca em pistas de corrida, quanto em trechos mais curtos e desnivelados, como estradas de terra - ele explicou. - Foram adicionados também eletrônicos avançados que não são muito complicados de se utilizar, além da aerodinâmica refinada que reduz o atrito em altas velocidades nas pistas de corrida e melhora o conforto do piloto.

Aquele havia sido o discurso mais longo que ouviu o rapaz dizer. Escutar ele falar de maneira tão apaixonada sobre o assunto fez seu coração se acelerar um pouco. Ele parecia ainda mais lindo agora.

– Já pensou em mandar currículo para a loja? Daria um bom vendedor, já estou convencida, leve meu dinheiro! - disse de maneira divertida, levantando as mãos como se estivesse rendida e riu alto. Ela gostou de como o som ecoou em seus ouvidos.
– Engraçadinha! Já pilotou com alguém na garupa?

negou.

– Certo, então espero que se garanta porque fará isso agora. Quero sentir como você controla... a moto - percebeu aquelas palavras soarem deliciosas na sua mente e algo dentro dela se agitou. - Sabe onde fica o autódromo Chicago Motor Speedway? - ele perguntou.
– Sim. Já assisti corrida lá algumas vezes - ela disse.
– Ótimo, treinaremos lá! - ele respondeu, se aproximando mais da garota. Levantou o dedo indicador na frente do seu nariz, apontando para ela de maneira desafiadora. - Dentro dos limites de velocidade, mocinha, se ultrapassar os 90 km/h não irei te ensinar mais nada - ele disse de forma rigorosa. Para , aquilo havia soado exatamente como .

Ela se incomodou. Não estava acostumada e nem gostava de receber ordens de alguém daquela maneira, mas, ainda assim, se deu conta naquele momento de que não queria que ele desistisse. Então apenas bufou, assentindo.

– Achei que só credenciados pudessem treinar lá. Não tenho permissão.
– Lição número dois: não esqueça com quem você está falando - respondeu óbvio, dando um sorriso travesso que fez rir junto.

colocou um capacete e entregou outro para ele. Quando ela subiu na moto, inclinando os braços para segurar a direção, sentiu um solavanco dentro do peito. A posição fez ela empinar levemente a bunda, deixando o cós de sua calça jeans descoberto pela barra da blusa, expondo uma pequena faixa de pele próxima ao seu cóccix. Novamente, sentiu um calor se concentrar no meio das suas pernas e se censurou mentalmente por ficar duro tão rápido apenas com a imagem da mulher. Era humanamente impossível se concentrar em qualquer outra coisa além do fato de que ela ficava ainda mais gostosa naquela posição, em cima da moto.
Engoliu em seco antes de se posicionar atrás dela no veículo. Ele deveria estar nervoso por andar na garupa de alguém inexperiente pela primeira vez. Mas, na verdade, todo o seu nervosismo se devia apenas ao fato de que ficaria tão próximo de pelos próximos minutos. Precisava urgentemente controlar os pensamentos ou isso sairia de seu controle.
Eles deram partida.
Enquanto guiava os dois pelas ruas de Chicago, ele se manteve o mais longe dela quanto era possível. Tentava com sucesso não encostar na mulher mais do que o necessário, usando a alça de apoio atrás do banco traseiro para se segurar. Concentrou-se em avaliar dirigindo. De fato, ela dirigia bem. Freava um pouco mais forte do que o necessário às vezes e suas curvas ainda eram um pouco abertas, mas sabia que o fato de estar com um peso a mais na moto também dificultava o processo. Se perguntou se ela realmente nunca havia feito aulas com ninguém antes.
Pararam em um sinal vermelho. Embora fosse pequena, percebeu que a garota conseguia controlar a moto com maestria. Ela virou o rosto para trás para tentar olhá-lo através capacete.

– Que horas são? - perguntou alto.

Ele demorou para processar a pergunta de . Pra que diabos ela queria saber o horário agora? Tirou a mão do apoio traseiro da garupa para checar a hora no seu relógio pulso.

– Meio dia e vinte.

Ele mal havia terminado de falar e a garota arrancou a moto com tudo. Seu corpo foi jogado para trás pela força da aceleração e, devido ao susto e por estar com a mão solta, acabou por reflexo segurando firme na cintura da mulher.
Apesar do barulho do motor, ele ouviu gargalhar alto. Filha da puta! Ela havia feito aquilo de propósito.
não sabia se ficava puto ou intrigado por perceber que ela queria que ele a tocasse. E queria que ele soubesse disso!
Segurou firme a cintura de , na altura de suas costelas. Se na chuva, que se molhasse de uma vez, não é mesmo? Levou a outra mão para a lateral de seu quadril, apertando de leve o lugar. Sentiu seu sangue praticamente borbulhar. Suas mãos formigavam pedindo por mais contato. Queria explorar o corpo dela tanto quanto fosse possível, mas se segurou.
percebeu que a bunda de estava agora a centímetros dele, fazendo com que sua ereção voltasse repentinamente. Caralho, aquilo estava excepcionalmente gostoso. Se ela se inclinasse um pouco mais, certamente roçaria nele. Esse era o único pensamento que tomava sua mente naquele momento. Sua boca estava seca. Nunca tinha conhecido uma mulher que causasse essas reações em seu corpo. Se o pouco contato que tinham já fazia ele praticamente entrar em combustão, não queria nem imaginar o estrago que a garota faria com a sua mente caso ele realmente a tivesse.
Ele precisava tê-la. Precisava sentir mais dela.
Ao mesmo tempo, precisou se concentrar para não errar o caminho. Achou que seria divertido provocar quando percebeu que ele fazia o possível para se manter distante dela - provavelmente por respeito ao seu irmão - mas agora tinha quase se arrependendo. As mãos firmes do homem seguravam ela tornando um desafio focar em qualque outra coisa que não fosse na área de sua pele que queimava com o toque.
Sentia a pressão das coxas dele contra as suas e ela imediatamente ansiou por mais contato. Para seu azar - ou sorte - eles haviam chegado ao destino final.
desceu rapidamente da moto, retirando o capacete e ajeitando os cabelos. Deus, ele era lindo! Fez uma nota mental de agradecer ao seu irmão por ter um amigo tão gostoso.
Tirou o seu capacete também e tentou domar os próprios cabelos bagunçados.

– Venha, vou liberar nossa entrada - disse, andando por um caminho que parecia conhecer bem. o acompanhou.

Chegaram a uma guarita, vigiada por um segurança uniformizado que pareceu extremamente animado e surpreso ao avistar . O cumprimentou com familiaridade.

– Não acredito no que estou vendo, então é verdade que está mesmo de volta? - o segurança perguntou, sorrindo.
– Sim, Isaac, por hora estou. Voltei há poucos dias - respondeu simpático.
– Parabéns pela última vitória, cara! Acompanho todas as suas corridas - o mais velho disse, com certa admiração na voz, como pôde perceber.
– Poxa, cara. Obrigado! Fico muito feliz em saber disso.
– Então, a que devemos sua visita hoje? - perguntou o segurança, por fim.
– Isaac, será que poderia liberar umas horinhas para nós treinarmos? - apontou para si mesmo e em seguida para .

Pela primeira vez o segurança pareceu notar a presença da mulher ali. A cumprimentou com um aceno de cabeça cordial, mas parecia desconfiado.

– Não quero me meter em nenhuma confusão, . A pista está reservada para um treino às três - Isaac respondeu, receoso.
– Não vai, prometo! Às três estaremos fora daqui - respondeu, animado.

O segurança pareceu ponderar um pouco antes de responder.

– Certo, só até às três. Pelos velhos tempos - se deu por vencido, apertando um botão no controle que retirou de um dos compartimentos do colete, fazendo o portão se abrir.

notou como parecia ser querido. Não apenas como profissional, mas como amigo do mais velho. tinha uma aura simpática e calorosa, certamente o tipo de cara que não distinguia o tratamento entre um segurança e alguém numa alta posição de autoridade. Ele certamente faria amizade com qualquer pessoa que se relacionasse por mais de cinco minutos. o admirou por isso.
Ele era quase como o oposto dela. Não que fosse destratar alguém por posição hierárquica ou social, longe disso, mas num geral as pessoas pareciam ter um pouco de medo de se aproximarem dela. Como se ela vestisse uma armadura imaginária que dizia "mantenha-se longe". Uma armadura que ela mesmo havia colocado em si e estava muito bem, obrigada!
não! era acolhedor, expansivo, carismático. Enquanto ela afastava, ele era um convite. Era quase possível perceber o calor emanando de seus poros. Quando sorria, ele praticamente brilhava. Percebeu que seria fácil demais gostar de . Céus, ela torcia para que não acabasse se queimando com seu fogo!

***


Estavam há duas horas treinando. O rapaz passou um bom tempo ensinando questões técnicas sobre o funcionamento da moto que, ao contrário do que ela imaginou, tinha sido bastante interessante. Talvez devido à forma como ele lhe explicava. percebeu que gostava de ouvir o homem falar e, convenhamos, isso era bem raro. Ela normalmente morria de preguiça das pessoas. Ela deu algumas voltas no percurso do autódromo, aplicando na prática as dicas passadas por ele e percebeu como de fato o controle sobre o veículo melhorava bastante. Toda vez que ela completava o circuito, ele a analisava e passava novos exercícios. A interação entre os dois fluía bem. Entre uma provocação e outra, percebeu que com pouco tempo, havia evoluído consideravelmente e se sentia mais segura ao pilotar.

– Acho que por hora estamos bem. Avançamos bastante - ele disse, satisfeito.
– Concordo. Aposto que agora consigo ganhar de você sem muito esforço em uma corrida - ela disse, desafiadora.

virou os olhos. É óbvio que isso viria uma hora ou outra.

– Acho que o sol sua na cabeça está te fazendo delirar - ele respondeu, irônico.
– Ganho de você assim - ela estalou os dedos para demonstrar o que queria dizer, mantendo-se confiante na provocação.
– Eu nunca perco! A quantidade de troféus que eu tenho em casa comprovam isso. Qualquer dia eu te mostro - ele lançou-lhe uma piscadela. A ideia de ter em seu apartamento fez sua mente voltar para lugares perigosos, mas ele tratou de afastar os pensamentos. Sabia que poderia ter soado arrogante, mas aquilo era a mais pura verdade.
Prove-me! - ela arqueou uma sobrancelha. - O perdedor paga o almoço.

Ele se sentiu realmente desafiado. Era muito competitivo e sabia que usava as palavras certas para convencê-lo. Sentiu-se ainda mais encorajado pela possibilidade de poder almoçar com ela. Mesmo assim, achou melhor se esquivar da proposta. Não iria dar o braço a torcer. Ela era uma encrenca ambulante e ele sabia disso.

– Não sei se notou, mas só temos uma moto - ele disse, constatando o óbvio.
– Você sabe muito bem que tem umas ali disponíveis para treinamento - ela apontou com a cabeça para um acostamento com pelo menos umas dez motos enfileiradas. - Que foi? Está com medo de perder para uma amadora?

sabia que, de fato, era para isso que as motos estavam ali. Já precisou utilizá-las algumas vezes no passado. Ele ponderou por um momento. o mataria se sequer imaginasse que ele estava competindo com a sua irmã caçula. Incentivando uma atitude quando deveria, na verdade, desestimular. Literalmente o contrário do que havia pedido para fazer. Apesar de se sentir atiçado pelo desafio, ele tinha amor à própria vida.

– Não sei se é uma boa ideia - respondeu, por fim.
– O não precisa saber, será o nosso segredinho - ela piscou, como se pudesse ler exatamente o que passava na mente dele. O jeito sacana que a menina falou fez fantasiar mil coisas na sua cabeça, crescendo em si o desejo de compartilhar esse e outros segredinhos com ela. Seu coração já se mostrava mais agitado dentro do peito.

sabia que estava quase o convencendo. Por isso, decidiu dar a cartada final:

– Vamos lá, quero saber do que é capaz. Do contrário, vou achar que não é tudo isso o que dizem - ela deu um sorriso safado e o duplo sentido das palavras fez o rapaz estremecer. Precisou se segurar para não avançar nela ali mesmo e provar do que era capaz exatamente do jeito que gostaria. Maldita! Ela sabia exatamente o efeito que causava nele e estava testando seu autocontrole.

observou a íris de ser tomada por um brilho desconhecido de excitação. Sorriu satisfeita por isso. Ele deu um suspiro, que mais soou como um rosnado, e seguiu em direção às motos estacionadas. Ela havia ganhado. O frio na barriga em consequência da adrenalina começava a se fazer presente dentro dela.
Quando ele voltou, já pilotando a moto, ficou levemente intimidada pela segurança e habilidade com que ele fazia isso. Ele parecia maior ali, mais confiante. Se pegou umedecendo os lábios com a língua, reflexo do desejo que cresceu pelo homem naquele momento.

– Uma volta - ele disse, firme.

Ela assentiu, tomando lugar novamente na direção de sua moto. O coração já batia frenético em antecipação, exatamente como se sentia nos minutos anteriores ao auge da adrenalina.

– Pronta? - perguntou, vendo a abrir um sorriso confiante em confirmação.

Em menos de um segundo, os dois deram a largada praticamente juntos.
A moto de ganhava velocidade mais rápido, o que deu a ela uma vantagem inicial. O circuito não era tão grande, então ela sabia que essa vantagem seria essencial para a sua vitória. Se conseguisse se manter na velocidade, teria dificuldade em alcançá-la.
O vento praticamente cortava a sua pele, uma vez que não estava com a vestimenta adequada para correr, mas ela não se importou. Como sempre, se deliciava com a sensação de êxtase que tomava conta de seu corpo quando estava em alta velocidade.
Pelo retrovisor, pôde notar praticamente colado nela. Acelerou mais um pouco, aumentando a distância entre os dois.
Ali, conseguiu entender exatamente o que quis dizer quando se referiu a . Ele mesmo se considerava uma pessoa muito competitiva, mas não esperava que a mulher fosse levar a disputa entre os dois tão a sério. Ela não estava brincando mesmo. Seu marcador de velocidade já passava dos 200 km/h. De fato não queria perder, mas temia que se acelerasse mais, faria a mesma coisa. Ela realmente não se preocupava com o risco. Não parecia sentir medo ou hesitação. Acelerava como alguém que fazia aquilo há muitos anos. Hoje, a corrida já era parte da vida de e ele se sentia totalmente confiante naquela situação, mas lembrava-se perfeitamente que demorou um bom tempo para estar seguro o bastante para atingir tal velocidade.
Seu sentimento alternava entre preocupação e deslumbre pela garota enquanto assistia ela pilotar a motocicleta daquele jeito. A pista já passava como um borrão pela visão dos dois.
também gostava da adrenalina e dos desafios, do contrário, não teria seguido a carreira que seguiu. Mas diferente de , ele não gostava porque se sentia preenchido ou completo, mas sim transbordado. Para ele, era algo natural e leve, como comer ou respirar. Já fazia parte de sua vida, então não nutria exatamente um vício pela sensação como notou que acontecia com a menina, que acabava sendo negligente com sua própria segurança muitas vezes, exatamente como na noite em que se conheceram. Ele sentiu novamente um frio na espinha como acontecia toda vez que se lembrava daquela noite e do perigo que ela correu, sem parecer se importar. Exatamente como acontecia naquele momento da corrida.
De repente, a ideia dela se machucar atingiu com tudo. Onde ele estava com a cabeça pra aceitar uma coisa dessas? Aquela garota conseguia mexer com seu discernimento com uma facilidade que ele não se lembrava de já ter acontecido antes. Se realmente fosse manter uma proximidade dela pelas próximas semanas, precisaria ficar atento a isso, do contrário, acabaria cedendo a outras maluquices como essa.
Pensou em desistir da corrida ali mesmo, mas sabia que aquilo só deixaria mais irritada... ou convencida! Como poderia ganhar sem competir em velocidade?
Já haviam passado por algumas curvas e ele sabia que aquele ainda era o ponto fraco da mulher. O circuito já chegava ao fim e eles se aproximavam da última curva - e também a mais fechada. Como estratégia, decidiu que aquele seria o momento da ultrapassagem. Sabia que acabaria fazendo a curva mais aberta. Dessa forma, sendo mais habilidoso, poderia assumir a liderança cortando por dentro.
E foi exatamente isso que aconteceu. Na percepção de , até que fez a curva bem, mas ele obviamente era mais experiente, então fechou ainda mais, segurando firme para não derrapar a roda traseira. Seu joelho praticamente raspou no chão e, dessa forma, ultrapassou a mulher nos últimos metros do percurso.
Ambos diminuíram a velocidade até pararem completamente. desceu da moto primeiro, tirando seu capacete com um sorriso vitorioso.
fez o mesmo mas seu semblante, diferente do dele, era de irritação. Odiava perder! Teve vantagem a maior parte do tempo! Como ele conseguiu ultrapassá-la no final? Sentia seu orgulho ferido.
se aproximou dela, aquele maldito sorriso sacana estampado nos lábios. Ela pôde notar que ele estava adorando. Era mesmo um prepotente filho da mãe! queria socá-lo.
Ele chegou próximo o suficiente dela e começou a falar:

– Sua última lição do dia: conheça as fraquezas do seu adversário e, em nenhuma hipótese, o subestime... ah, e não seja tão convencida! - disse, piscando galanteador enquanto apertou de leve o queixo da garota com a ponta dos dedos, provocando-a.

rosnou, emburrada, e deu um tapa estalado em sua mão, tirando-a do seu rosto. gargalhou alto!

– Sorte sua que estou com fome e sem força para discutir. Vamos logo almoçar! - disse, por fim.

***


Quando chegaram ao restaurante sugerido por , sorriu satisfeita. Era um lugar muito bonito, pequeno, mas de um excelente bom gosto. Sentaram-se em uma mesa localizada na parte externa do estabelecimento, com vista para o pier de um lago. Não se lembrava a última vez que havia feito um dia tão bonito em Chicago, ensolarado, mas não tão quente a ponto de ficar desconfortável. Era primavera, o que fazia com que as árvores presentes ali estivessem bem coloridas, com folhas verdes e flores de diversas cores. Daquele ângulo, a luz do sol iluminava um pouco os cabelos e os olhos de , que na opinião de , estava tão bonito que até sentiu vontade de tirar uma foto dele, para registrar aquele momento. A garota estava longe de ser romântica. Na verdade, era o oposto disso, uma vez que não acredita muito nesse tipo de amor e na bagagem que vinha com ele. Mas ela também sabia apreciar as belezas de vida e estava de parabéns nesse quesito. Se realmente os religiosos estivessem certos e existisse um Deus responsável por tudo isso, certamente ele havia caprichado muito no homem a sua frente. Quando a garçonete chegou para atendê-los, soube que ela partilhava do mesmo pensamento, pois logo tratou de encarar com um sorriso carregado de segundas intenções.

– Boa tarde, meu nome é Dolores eu serei responsável por atendê-los hoje - ela se apresentou. - Farei o possível para lhes proporcionar a melhor experiência hoje - disse a última parte olhando diretamente para .

teve vontade de enfiar o dedo na garganta e gorfar bem ali. Claramente sororidade era um conceito desconhecido para algumas mulheres, visto que a tal Dolores estava dando em cima do homem bem na cara dela. Não que ela realmente se importasse. A única pessoa do mundo da qual sentia ciúme era , mas e se eles estivessem juntos? Isso seria no mínimo falta de respeito, certo?
A moça tinha traços latinos, pele morena e um corpão, mas realmente não pareceu sequer reparar. Quando finalmente tinham feito seus pedidos e a tal Dolores-Sem-Noção se pôs para longe dali, foi a primeira a falar:

– Os inconvenientes que me desculpem, mas sutileza é essencial, e claramente uma arte que nem todas as pessoas dominam - ela disse, revirando os olhos em deboche.

a encarou confuso.

– Do que está falando? - perguntou.
– Qual é, vai fingir que não percebeu? A garçonete estava doida para te servir muito mais do que o almoço, se é que me entende. Aposto que ela vai anotar o próprio número de telefone na conta para te entregar.

Ele riu.

– Não reparei. - deu de ombros.

E ele realmente não havia reparado. Provavelmente em qualquer outro momento teria notado o que estava se referindo, mas hoje sua atenção estava tão incontrolavelmente fixada na garota a sua frente que qualquer outra mulher passaria despercebida por ele. Será que isso não era óbvio para ela?
Ela decidiu mudar de assunto.

– Então, . Conte-me um pouco sobre você - perguntou casualmente, apoiando o queixo sobre as mãos, mas se surpreendeu ao perceber que queria realmente saber mais sobre o rapaz.
– O que quer saber? - o canto de seus lábios se curvou em um sorriso amigável.
– Como conheceu meu irmão? Como foi que escolheu ser piloto automotivo? Por que voltou para Chicago? O que mais gosta e menos gosta no seu trabalho? - disparou de uma só vez.

se surpreendeu. claramente o deixava mais confuso que camaleão em dia de arco-íris. Uma hora demonstrava indiferença e fazia joguinhos com ele e no minuto seguinte parecia interessada em saber todos os detalhes de sua vida. Ele precisou pensar por um momento.

– São muitas perguntas. - disse, tentando manter a simpatia.
– E você vai responder todas elas - por mais que tenha ela tenha falado sorrindo, percebeu que soava como uma ordem. Ela era realmente muito impositiva. Devia estar acostumada a dar ordens e duvidava muito que alguém a contrariava. Será que ela também era autoritária assim na cama? O pensamento fez a cabeça de girar por alguns segundos e ele perdeu o foco.
– Já te disseram que você é muito mandona? - ele provocou e viu a mulher revirar os olhos novamente, bufou impaciente e se inclinou um pouco mais na mesa enquanto aguardava a resposta de .

O breve sinal de proximidade fez o rapaz ficar em alerta. A ação inocente de fez ter uma visão um pouco mais privilegiada do decote da garota. Como se a sua sanidade já não tivesse sido suficientemente testada hoje! Ele precisou se forçar a desviar o olhar e limpou a garganta antes de voltar a falar.

– Conheci ainda no fundamental da escola. Tinha me metido em encrenca por esquecer de levar um dever de casa e ele me emprestou o dele para copiar. Desde então nos tornamos amigos - deu de ombros. percebeu que aquilo era mesmo bem a cara de , sempre preocupado com todo mundo. - Também dividimos o campus da Chicago University, mas eu acabei trancando meu curso de Direito para me dedicar ao automobilismo. E respondendo a próxima pergunta, eu não escolhi ser piloto. Foi o automobilismo que me escolheu. Existem coisas na vida que simplesmente são, porque tem que ser. É parte de quem eu sou! Tentei fugir disso por um tempo, muito por pressão dos meus pais. Mas depois de um tempo percebi que ignorar isso era também ignorar parte do que sou, então quando saí da faculdade me dediquei cem por cento ao esporte. Voltei porque estava com saudade de casa. Meu trabalho hoje é em Le Mans, não tenho muito controle sobre isso, mas não pretendo ficar tanto tempo longe novamente. Tenho bons motivos para estar aqui.

Ele disse a última frase olhando fixamente nos olhos de , com uma intensidade que não estava ali antes e ela se pegou segurando o ar por um momento. Não costumava se afetar dessa forma por praticamente nada, então estranhou a reação do próprio corpo. Talvez estivesse certo antes, o excesso do sol devia estar realmente começando a afetar seus sentidos. Bebeu um gole de água para ajudar a afastar os pensamentos.

– Qual era a última pergunta mesmo? Ah, o que eu gosto mais e menos no que eu faço? - ele continuou e a garota assentiu, confirmando. - Provavelmente o que gosto mais é a sensação de estar atrás do volante, a adrenalina, o controle... o fato de precisar me superar a cada corrida. O desafio. Não há nada melhor no mundo pra mim. Como se ali eu pudesse ser eu mesmo - percebeu que pelo menos nesse quesito ele era muito mais parecido com ela do que imaginava. Ela conhecia bem a sensação da qual ele se referia e se sentia exatamente da mesma forma. - A pior parte provavelmente é a pressão. Tenho uma equipe muito grande comigo, fãs, patrocinadores, mídia, contratos... muito dinheiro envolvido. Não posso me permitir errar, estar inseguro ou mesmo ter um dia ruim. Muitas vezes é um pouco solitário, dado que passo muito tempo treinando, longe da minha família e amigos. É um esporte muito individual. Mas os ônus fazem parte. Não saberia fazer outra coisa, ou mesmo ser outra coisa.

o encarava admirada. Não sabia dizer quanto tempo tinha ficado o olhando, mas ele não parecia se importar. a encarava de volta, como se ela fosse um quebra cabeça complicado que ele não fazia ideia de como começar a decifrar. Quando a garçonete chegou com seus pedidos, foram obrigados a sair do transe que até então nem haviam percebido que estavam. Porque raios aquilo insistia em acontecer quando estavam juntos?
Após alguns segundos comendo em silêncio, fez menção de se pronunciar novamente.

– E você, , o que faz quando não está se arriscando em telhados de boates? Qual é a sua história? - ele perguntou, interessado.

Ela percebeu que aquela era a primeira vez que ele dizia seu nome em voz alta e gostou de como soou.

– O que quer saber? - ela repetiu propositalmente o que ele havia perguntado antes, arqueando um pouco a sobrancelha.
– O que quer me contar?

pensou por um momento. Não era muito de compartilhar detalhes da sua vida com nenhuma pessoa que não fosse ou .

– Não sou muito boa com isso - disse, por fim.
– Conversas? - perguntou, confuso.
– Falar sobre a minha vida. Principalmente com estranhos - deu de ombros. se incomodou.
– Não diria que sou exatamente um estranho.
– Também não é exatamente um amigo.
– O que eu sou, então? - perguntou se sentindo estranhamente ansioso.

Ela o observou por uns segundos. Para , pareceram horas. Percebeu os olhos da moça estudarem todo o seu rosto lentamente e ele se sentia quente. Provavelmente começaria a corar sem que tivesse controle.

– Ainda estou me decidindo - ela disse, por fim.
– Por favor, me deixe saber quando tiver uma resposta.
– Não se preocupe, você certamente será o primeiro a saber - ela disse com um sorriso levemente pervertido e quis agarrá-la bem ali. Cada palavra que saía da sua boca era um combustível para a sua imaginação.
– Isso não é muito justo, sabia? Você me fez perguntas, eu respondi. Não acha que eu merecia o mesmo? Não sei se te ensinaram, mas essa é a base das interações sociais - seus lábios caíram para baixo, numa falsa mágoa que fez sorrir nasalado.
– Nunca te contaram? A vida não é muito justa! E eu não estou nem aí para as interações sociais - ela tentou parecer despreocupada, mas percebeu seu corpo ficar levemente mais tenso. Foi a vez dele arquear uma sobrancelha em sinal de desafio. Ela suspirou. - Certo, uma pergunta! Pense bem antes de escolher.

O rapaz sorriu vitorioso. Mesmo que não estivesse completamente satisfeito, sentia que aquele já era um avanço enorme com . Refletiu um pouco sobre qual pergunta faria.

sentiu o coração se agitar em antecipação. Ele a encarou, sorrindo malicioso antes de falar.

Se hoje fosse o seu último dia na Terra, o que gostaria de fazer? - o brilho presente em seus olhos passava longe da inocência.

Ela sorriu de volta, lembrando-se da noite em que se conheceram. Por Deus, como que seu irmão tinha um amigo como e ela sequer havia sabido da existência antes? Os amigos de nunca foram muito de seu interesse, mas uau...
Com esse pensamento, contrariando a sua própria racionalidade tão característica, falou:

– E se ao invés de te responder, eu te mostrar?

***


A Willis Tower é um arranha-céu localizado bem no centro de Chicago, sendo considerado, até 2014, o mais alto edifício de toda a América do Norte. O terraço do prédio situa-se a uma altura de 442 metros do chão, o equivalente a um prédio de 110 andares, e era exatamente nesse lugar que e se encontravam agora, sentados em uma mureta de concreto no ponto mais alto do edifício, com uma garrafa de vinho nas mãos, que bebiam direto do gargalo. Eles observavam o azul claro do céu se misturando às nuances de laranja escuro, rosa e lilás, em um pôr do sol de tirar a voz. Era quase como uma pintura se materializando viva bem à frente dos dois. O sol já começava a encostar nos prédios baixos, colorindo toda a arquitetura da cidade num lindo e majestoso tom dourado. Não utilizavam o termo golden hour à toa, pensou .
Ele observou as luzes douradas tocarem a pele de praticamente em uma carícia, fazendo seus cabelos negros ganharem uma tonalidade nova de castanho quase avermelhado. Suas bochechas, provavelmente também graças à ajuda do vinho, estavam levemente coradas. sentiu uma vontade quase irracional de beijar cada centímetro da sua face. Caracteriza-la como linda nesse momento era um eufemismo. Ela estava ridiculamente deslumbrante. O rosto de , para , estava se tornando quase um entorpecente. Viciante. Um remédio que ele passou a vida inteira sem saber que precisava.

– Então, respondendo a minha pergunta, basicamente quando você não está se arriscando em telhados de boates, decide se arriscar em telhados de arranha-céus? - ele riu.

deu de ombros, bebericando mais um gole do vinho direto da garrafa.

– É como dizem: as pessoas deveriam ver o pôr do sol pelo menos uma vez por dia.
– Como você conseguiu acesso a esse lugar, afinal? Espero que a gente não esteja fazendo nada ilegal. Tem uma clausura bem específica do meu contrato que informa que em hipótese alguma eu posso ser preso - ele disse, fazendo a mulher soltar um riso alto.
– Não se preocupe. Venho aqui há um bom tempo e nunca vi uma alma-viva nesse lugar do prédio. Se não formos pegos não seremos presos - ela disse e viu os olhos do rapaz se arregalarem um pouco em receio, o que fez ela rir ainda mais alto. Ele amaldiçoava o fato de que seu coração parecia querer pular do peito sempre que ouvia a risada de . - Ano passado saí algumas vezes com um cara que era responsável pela área administrativa do edifício. Fiquei com a chave por um tempo porque nos encontrávamos aqui vez ou outra. Não deu certo com ele, mas, pelo menos, fiz uma cópia da chave pra mim antes de terminar. Ele se mudou para Nova York no fim das contas - ela deu uma piscadela, mostrando como aquela tinha sido uma ideia genial. riu.
– Por que não deu certo? - ele perguntou, curioso.

Ela deu de ombros, desinteressada.

– Ele esperava de mim mais do que eu tinha para oferecer.
– Juízo? - perguntou, fazendo a mulher sorrir novamente.
– Não, uma relação exclusiva. Eu não namoro - disse, séria.
– É uma condição médica ou... - brincou, fazendo ela rolar os olhos.
– Não me sinto à vontade sendo namorada de alguém. Na verdade, eu não quero ser nada de ninguém. Nunca. Eu não acredito no amor. Pelo menos não nesse amor romântico que normalmente as pessoas acreditam e passam uma vida inteira procurando. Isso só serve pra iludir e decepcionar. É uma besteira - ela falou como se fosse a coisa mais simples do mundo. precisou pensar por alguns segundos.
– Não acho que se trata de acreditar ou não. Não estamos falando sobre o Papai Noel, sabe? É um sentimento. Existem estudos sobre isso e tudo mais.
– O "amor" - fez aspas com os dedos. - É uma apenas reação química e hormonal que obriga as pessoas a se reproduzirem. Depois disso, vai desaparecendo aos poucos, deixando apenas corações partidos. Eu estou muito bem assim, obrigada! Um a cada três casamentos acaba em divórcio. Os outros dois só se mantém porque as pessoas são medrosas demais e tem pavor de ficarem sozinhas - ela disse tão didática como se tivesse ensinando a uma criança de 5 anos o ABC. Bebeu mais um gole do vinho, enquanto voltava a encarar o horizonte.

não fazia o tipo romântico, mas ele já havia se apaixonado antes, quando era mais novo. Pelo menos, achava que tinha se apaixonado. O relacionamento terminou porque ela se mudou para fazer mestrado em outro continente e, se tinha algo que ele realmente não acreditava, era em relacionamentos à distância.
Desde então, nunca tinha se envolvido seriamente com ninguém. E para ser bem sincero, esperava que as coisas continuassem assim. Ele gostava da sua liberdade e do fato de que a única obrigação que tinha era com o seu trabalho. Entretanto, se pegou questionando o que será que tinha acontecido para ter uma visão tão fria sobre o tema.
Ele sabia que ela não iria contar mais nada então decidiu simplesmente mudar de assunto.

– E você costuma vir sempre aqui? - perguntou.

Ela demorou um segundo para entender a súbita mudança na conversa. Gostou um pouquinho mais de por isso. Odiava ter que ficar falando sobre temas íntimos.

– Venho menos do que gostaria. Normalmente quando as coisas lá embaixo ficam um pouco pesadas eu gosto de vir para cá para pensar. O ar parece mais puro, sabe? - ela disse, enquanto encarava o horizonte.

percebeu rapidamente que aquele lugar devia ser algo bem pessoal para ela.

– E você traz muitas pessoas aqui? - perguntou, curioso.

Ela pensou por um momento, lançando-lhe um breve olhar de rabo de olho.

– Na verdade, não! Nunca tinha trazido ninguém aqui antes, nem mesmo - ela cerrou os lábios em uma linha e franziu o cenho.

Na verdade, não entendia muito bem o motivo de ter trazido até o seu lugar favorito na cidade. Simplesmente tinha se deixado levar pelo momento, coisa que não acontecia com muita frequência.
Ele ficou sem reação por um tempo, novamente surpreendido.

– Certo... só estranhos então? - disse, vendo a mulher abrir um sorriso sincero.
– Entenda como um agradecimento às aulas de hoje.
– Achei que o almoço tinha sido um agradecimento - ele provocou.
– Se preferir, podemos ir embora agora mesmo! - ela disse, um pouquinho mais irritada.
– Não! Obrigado por ter me trazido. Prometo não contar pra ninguém - ele disse e assentiu.
– É bom mesmo, do contrário, seria muito fácil fazer a sua morte parecer um acidente.

Foi a vez de gargalhar.

– Acho que já temos segredos demais para apenas um dia juntos - ele disse, se referindo também à corrida que apostaram mais cedo.

o encarou um pouco mais interessada e deu outro gole longo no vinho.

– E algo me diz que estamos apenas começando! - ela piscou pra ele e se levantou, caminhando em direção ao parapeito de concreto no limite do terraço.

ficou surpreso. O que ela queria dizer com aquilo? sabia provocá-lo e ele se irritou ao perceber que desejava, no fundo, que ela estivesse certa.
Quando chegou no guarda-corpo, suas duas mãos se apoiaram no suporte e, em um impulso, jogou seu corpo para cima. Num movimento rápido, ela estava de pé na mureta que deveria ter no máximo quatro palmos de largura.
levantou-se num sobressalto.

– O que você pensa que está fazendo? - perguntou sério, o coração já acelerado. Se não era maluca, certamente era suicida.

Ela riu alto.

– Aproveitando um lindo pôr-do-sol? - respondeu, dando um giro no melhor estilo bailarina apoiada em apenas um dos pés.

Seu coração pulou. Estar perto de era praticamente um estímulo constante. Ela deveria andar com uma placa pendurada no pescoço dizendo "proibido cardíacos". Por mais que ele estivesse nervoso demais, percebia que os movimentos da mulher eram graciosos, confiantes. Certamente não era a primeira vez que ela fazia aquilo - e ele não sabia se essa constatação o aliviava ou assustava mais. Céus, o que aquela mulher estava pensando?

, isso não tem graça! Desça daí, por favor!
– Por que você não vem até aqui me tirar? Achei que essa era o seu papel na nossa relação - ela sorriu, travessa. Como uma criança que sabia que estava quebrando as regras.

se aproximou com passos desconfiados, já se sentindo levemente enjoado. Por que se sentia num maldito Deja-Vù?

– Achei que não tínhamos uma relação.
– Não seja medroso, venha até aqui! Quero te mostrar uma coisa - ela pediu.

Ele se aproximou lentamente da mulher, que ainda se encontrava em pé na mureta, no limite do terraço, a uma altura de mais de 400 metros do chão, sem qualquer proteção. Engoliu em seco. Ela era louca. Gostosa, com certeza. Mas louca.

– Da próxima vez, preciso me lembrar de que álcool e altura não são uma boa combinação pra você! - ele disse, tentando se manter tranquilo, mas só pensava no quanto queria que a garota descesse logo dali.

Ela estendeu uma mão em sua direção.

– Se não vier até aqui não terá uma próxima vez. Vamos, suba! - pediu. arregalou os olhos em surpresa.
– Você está louca! Não vou subir aí, desça você!
– Pelo que me lembro, , quando nos conhecemos você ficou devendo uma promessa de me levar para fazer algo ainda mais divertido. Achei que era um homem de palavra. Ande logo, suba! - disse, provocando-o.
– Essa é a sua ideia de diversão? Sem chance! Eu estava me referindo a jogar Uno ou algo do tipo - ele se manteve firme. - Se você está querendo se matar, que faça isso sozinha. Eu vou ficar bem aqui.

Ela continuou o encarando de maneira intensa, a mão continuou estendida no mesmo lugar. Ele não sabia dizer o que acontecia com seus neurônios quando o fitava daquela forma. Intimidadora e tão confiante, como se não tivesse dúvidas de que ele faria exatamente o que ela queria que fizesse. era problema! E sempre foi um cara que, apesar dos pesares, fugia de problemas desnecessários. Por isso, estranhou quando todos os átomos do seu corpo pareceram ferver em êxtase ao olhar para a mulher.

– Péssima ideia. Essa é definitivamente a pior ideia que você já teve e até onde eu sei você tem muitas ideias ruins - ele disse.

Ela sorriu, ainda com a mão estendida. Tão linda! Ele suspirou, só podia estar realmente enlouquecendo. O sangue corria quente pelas veias de , seu coração parecia querer rasgar o peito. Sem se reconhecer em seus próprios movimentos, segurou a mão de . Percebeu que estava tremendo um pouco. Com cuidado e contando com a ajuda do apoio da mulher, subiu no parapeito.
permaneceu com a mão entrelaçada a dele, como se para mostrar que estava tudo bem. quis rir. Era ele quem deveria estar tomando conta dela, não o contrário.
Ele observou atônito a paisagem da cidade inteira diante de seus pés, agora com o sol quase desaparecendo no horizonte. O muro não era tão estreito assim e certamente não estava tão perigoso como no dia da chuva, mas ainda assim seu coração batia acelerado por estar de pé naquela altura, sem nada para proteger caso ele caísse. Qualquer desequilíbrio e seria o fim. Ele sentia seu sangue sendo bombeado freneticamente por todo o seu corpo e o frio na barriga aparecia fortemente toda vez que olhava um pouco mais para baixo.

– Eu amo essa sensação - começou a falar, ainda olhando para o mar de prédios a sua frente. - Essa mesma sensação que você está sentindo agora. Quando me perguntou o que eu gostaria de fazer se esse fosse meu último dia... bom, essa é a única resposta. Antes de morrer quero estar me sentindo... viva.

Ele demorou um pouco para responder.

– Acho que entendo o que quer dizer. Eu não penso muito nisso, mas sei que meu trabalho é perigoso e eu me arrisco todos os dias. Qualquer movimento errado e já era. Mesmo assim, não me importaria se correr fosse a última coisa que eu fizesse em vida, estaria feliz - ele percebeu que nunca tinha falado aquilo em voz alta pra ninguém antes. Seus pais foram contra seu sonho no início justamente porque não gostavam da ideia de que seu único filho trabalhasse com algo tão arriscado. Mas ele pouco se importava com o risco, a possibilidade de não fazer aquilo, para ele, era muito pior.
– Você tem muito medo de alguma coisa? - ela perguntou.
– Altura. E por algum motivo que nem os deuses saberiam explicar, olha onde estou, pela segunda vez.

Ela riu.


– Eu também tinha, até um dia que percebi que o medo nada mais é do que um limitador das nossas ações. E essa percepção me assustou mais que qualquer outra coisa. Hoje eu me sinto completamente atraída pela altura.
– Sabe que eu nem percebi? - ele ironizou, mas riu em seguida, satisfeito pela declaração da menina.

era louca, definitivamente. Tudo nela gritava para que ele se afastasse. Então por que diabos ela parecia a mais perfeita das criações divinas?
Ele a encarava praticamente hipnotizado. Seu fascínio por aquela moça parecia crescer a cada segundo. Alguma coisa nela, no seu sorriso, no seu modo de encarar a vida, na maneira com que ela constantemente o colocava em situações inusitadas, provocando-o e tirando seu controle.... algo nela fazia com que seu interesse crescesse num nível nunca antes experimentado, ou mesmo previsto. Ele não podia estar sentindo nada disso, apesar de não saber o que era. Ela era a irmã caçula do seu melhor amigo. Isso só o traria problemas.
Ela se virou para ele num movimento tão delicado que foi quase imperceptível. Sua mão, que até então ainda estava entrelaçada a dele, subiu praticamente em câmera lenta, encostando na face de em um carinho tão leve que fez todos os pelos do rapaz se arrepiarem.
sorriu, apreciando aquela atmosfera que novamente permeava entre os dois. Ela mal encostava seus dedos na barba por fazer de , enquanto ele trilhava com seus olhos um caminho minucioso por toda a face da mulher. Olhos, bochechas, nariz, queixo, se permitindo demorar um pouco mais na boca... retomando o contato visual após uma breve avaliação. Imóvel, ela somente o fitava de volta, tentando entender o que se passava com eles naquele momento.
percebeu que ela parecia tão envolvida quanto ele. Merda! Estava tão perdidamente atraído por aquela mulher. Sua cabeça gritava que precisava se afastar, jamais o perdoaria se descobrisse que ele colocou as mãos na sua irmãzinha. Mas seu corpo parecia implorar por mais contato.
Percebendo a briga interna que ele parecia enfrentar, se aproximou mais um pouco, encostando o nariz no dele e, como um reflexo, ambos fecharam os olhos. Apreciaram em silêncio por alguns segundos o momento de proximidade. Seus perfumes se misturando numa fragrância viciante. Suas bocas praticamente roçavam e precisou abrir um pouco a sua para facilitar a passagem de ar que parecia impossível àquela altura, já que o oxigênio passava com uma dificuldade quase incômoda entre eles. Era praticamente possível ouvir seu coração batendo contra o peito e, dessa vez, nada tinha a ver com a altura do lugar em que ainda se encontravam. sequer se lembrava de onde estava!

– Qual foi a coisa mais louca que já fez na vida? - ela perguntou, a voz entrecortada pela tensão que se formara no ar.
– Para ser sincero, acho que estou fazendo.

Ela sorriu, a boca roçando levemente na dele, fazendo o sangue de praticamente borbulhar. Precisava sentir seu gosto. Precisava daquilo como precisava de ar para viver.

– Ótimo! O que acha de... mais um segredo?

Foi o que bastou. Em um movimento preciso, puxou pelo pescoço, acabando finalmente com o pouco espaço que restava entre os dois.
Seus lábios macios e quentes se chocaram com uma urgência maior do que esperava. Quando suas línguas se encontraram, arfou, completamente despreparado para o choque elétrico que sentiu passar pelo seu corpo. Após o primeiro movimentar de suas bocas em uma sincronia absolutamente deliciosa, quase programada, as mãos de agarraram seus fios de cabelo. O encaixe entre os dois foi ridiculamente perfeito.
Agarrou-a ainda mais pela cintura e o beijo foi se aprofundando gradativamente. Eles se exploravam com a curiosidade de quem parecia ter esperado uma vida inteira por aquele momento. O gosto do vinho ainda estava presente em suas bocas, fazendo tudo ficar ainda mais delicioso... intenso demais para que fosse interrompido. Puta merda, ele se sentia como um náufrago, que após dias à deriva, finalmente havia encontrado terra firme. Ele era o filha da puta mais sortudo do mundo por ter aquela mulher em seus braços. mordeu levemente seus lábios inferiores, fazendo o corpo de se incendiar imediatamente e um gemido rouco escapar pela sua garganta.
O som foi como um combustível para os ouvidos de , fazendo a mulher pressionar ainda mais seu corpo contra o dele. segurava sua cintura, puxando-a contra si. Pareciam querer se unir em um só corpo. Quanto mais ele explorava seu toque, seu gosto, mais tinha certeza de que aquela mulher tinha sido feita pra ele. Única e exclusivamente para ele. O destino só podia estar de brincadeira.
Deliciosos como nunca tinham provado antes. Como tinham conseguido viver tanto tempo sem aquilo? O beijo ganhava um ritmo frenético, quase violento.
Merda. Ter o corpo dela colado no seu era mais gostoso do que ele tinha imaginado. Seu calor, sua maciez, seu cheiro... estava elétrico, quase irracional.
Quando os dois precisaram de ar, desceu seus lábios até o pescoço da mulher, beijando lentamente cada centímetro e pedacinho de pele dali. Não queria se separar dela. Queria prolongar aquele momento. Queria sentir e provar mais e mais dela e duvidava que um dia se sentiria completamente satisfeito. Ele trilhou um caminho de beijos que foi de sua boca, passando pelo queixo, bochecha, pescoço, ombros, e voltando novamente para cima pelo mesmo caminho. Mordeu de leve o lóbulo de sua orelha, sentindo vibrar em seus braços.
Aquilo não era normal, ele tinha certeza. Nunca tinha experimentado aquilo na vida. Tinha passado os últimos dias praticamente sonhando com aquele momento. Estava encantado, fascinado por uma menina que estivera próxima dele praticamente a vida inteira e nunca havia prestado atenção antes. Era tudo o que lhe faltava... perder a cabeça pela irmã do melhor amigo, com quem conviveu a vida inteira.
percebeu que as mãos do rapaz seguravam seu rosto como se ela fosse feita de porcelana. Ele, na verdade, temia que aquele momento fosse apenas fruto de sua imaginação fértil. De um desejo tão oculto que, até poucos dias, ele nem sequer sabia que existia dentro de si. Não era justo existir uma pessoa como ela no mundo.
Queria mais dela. Precisava sentir como era o encaixe de seus corpos por completo. O gosto de outras partes de seu corpo, a maciez da sua pele em sua mão. Precisava e ansiava por aquilo como um viciado. A partir de agora, ele sabia, seria sua droga.
voltou a unir suas bocas, dessa vez, ficando somente com os lábios encostados por um momento, ambos com a respiração extremamente desregulada.
Quando se separaram, cedo demais, seus olhares se encontraram com um brilho completamente novo.
foi o primeiro a quebrar o silêncio:

– Retiro o que eu disse. Parece que essa foi, na verdade, a melhor ideia que você já teve.

gargalhou, sem esconder uma expressão convencida como se dissesse "eu avisei." Eles se entreolharam sorrindo, sabendo que aquele não seria, nem de longe, um evento isolado.


Capítulo 5

A semana havia passado num piscar de olhos. Rápido, mas ainda assim de maneira torturante. estava exausta. Mal podia acreditar que finalmente já era quinta-feira, embora sequer tivesse tido tempo para notar os dias correndo rapidamente, de tão atarefada que ficou.
O ritmo de trabalho na empresa estava mais frenético do que nunca. Ela e entravam e saiam de reuniões de planejamento com clientes importantes, uma atrás da outra. Todo início de mês era a mesma coisa. Definitivamente, precisava de férias. É claro que, como dona da empresa, poderia fazer aquilo a qualquer momento. Mas ela gostava do seu trabalho. E convenhamos que não seria a melhor ideia do mundo ficar com o tempo ocioso, mesmo que por um período curto. Mente vazia é oficina do Diabo, já dizia seu irmão. E se a dela já era daquele jeito quando cheia, não queria nem imaginar o estrago que seria caso ficasse vazia.
Massageou as têmporas com a ponta dos dedos enquanto analisava pela milésima vez a planilha de orçamento final para um evento que ocorreria dali a quinze dias, enquanto relacionava com todas as cotações ainda pendentes de pagamento. Sua cabeça parecia querer explodir e a visão já começava a ficar embaçada devido ao cansaço. Estava na hora de um break.
Notou que o ponteiro menor do relógio já apontava 21h. Estava destruída e faminta. Nem ao menos tinha conseguido almoçar direito naquele dia. Comeu apenas um muffin de blueberry com uma coca-cola no táxi enquanto corria apressada de um compromisso para o outro. A constatação fez automaticamente seu estômago roncar em um barulho alto que se ela não estivesse sozinha, certamente se envergonharia.
a mataria se descobrisse que estava sem comer direito por conta do trabalho. Ele conseguia ser pior do que uma mãe super-protetora.
Felizmente, a semana cheia impediu de pensar na corrida que já estava chegando e, consequentemente, em . Não sabia quando iria ver o homem novamente, mas ficou bem desconfiada com o fato de que, após o beijo que compartilharam, ele se manteve estranhamente calado durante todo o trajeto até o seu apartamento, onde a deixou antes de ir embora.
Ele não a procurou depois do ocorrido, o que ela não achou nem de longe uma atitude ruim. Infelizmente, vivia com o carma de ter que lidar com homens grudados no seu pé que nem chiclete velho - e isso era algo que ela definitivamente não apreciava muito. Por que as pessoas não conseguiam encarar beijos, sexo e afins apenas como um ato físico? Sem complicações e apegos desnecessários.
A falta de interesse por parte de , entretanto, era sim uma surpresa.
Seu palpite era que aquela atitude - ou no caso a falta dela - provavelmente se dava em virtude da amizade que o corredor nutria com seu irmão. No fim das contas, não tinha dado com a língua nos dentes e se manteve fiel a promessa de guardar segredo. Do contrário, já teria dado um jeito de gritar com ela na primeira oportunidade que tivesse.
Não que ela realmente se importasse, no fim, seria pior para do que para ela. já estava bem familiarizado com o seu comportamento para saber que aquele beijo, apesar de muito bom, não tinha significado absolutamente nada pra ela. Mas possivelmente, do jeito que era ciumento e protetor, as coisas ficariam bem feias pro lado de caso ele descobrisse. Quer dizer, o beijo tinha sido ótimo na verdade. Ela queria repetir? Com certeza. Dificilmente se interessava por alguém a ponto de querer ficar mais de uma vez com a mesma pessoa. Não podia negar que, por algum motivo que fugia de sua compreensão, de fato se sentiu confortável na presença de . Ela tinha até mesmo baixado a guarda e compartilhou coisas sobre si que não compartilhava com outras pessoas, e isso sim a deixava extremamente confusa.

Para o bem de sua sanidade, daqui pra frente ela precisaria se lembrar de evitar ingerir álcool na presença de um cara gostoso como . Aquela era uma combinação perigosa e, justamente por isso, se sentiu daquela forma. Era isso, a única explicação: ele era atraente demais e ela tinha bebido, apenas por isso compartilhou informações íntimas com ele. Não precisava se preocupar, em poucos dias enjoaria dele, tinha certeza. Provavelmente depois que o tivesse em sua cama. Pelo menos era o que acontecia em 100% dos casos. O que a incomodava, entretanto, era a incerteza constante palpitando na sua cabeça fazendo ela se questionar se deveria conversar com à respeito do que tinha acontecido. Ela não era uma filha da puta total, não queria que o irmão brigasse com o melhor amigo por uma coisa boba como aquela, que não tinha significado nada. E pra ser bem sincera, por mais que não tenha falado nada até agora, ela não tinha como confiar totalmente nele. E se eventualmente ficasse sabendo, que fosse por ela, certo?
No último domingo, quando chegou em casa, ela recebeu uma mensagem do irmão perguntando se tinha ido tudo bem com . Ora, tudo tinha ido mais do que bem! Mas obviamente não podia responder aquilo para ele, então apenas concordou e mudou de assunto.
Ao mesmo tempo, seria uma pena se decidisse não se aproximar mais dela antes de ter a chance explorar mais do corpo delicioso do corredor. Não estava se importando se parecia uma menina mimada, querendo transar logo com o melhor amigo do irmão, dentre tantos homens no mundo. Quando colocava uma coisa na cabeça, dificilmente mudava de ideia. E era só dizerem que ela não podia fazer algo, que aí sim que iria fazer.
E esse era provavelmente outro motivo que a deixou mais interessada no rapaz do que se lembrava estar por qualquer outra pessoa há muito tempo. A sensação de fazer algo escondido e teoricamente errado fazia algo se agitar no seu interior. Mas no fim ela sabia que esse seria só mais um de seus casos que já começavam com uma data de validade próxima. também já havia se envolvido com inúmeras colegas suas, afinal. Várias vezes ela teve que lidar com o ciúme que isso lhe causava e, como eram suas conhecidas, nem mesmo podia colocá-las pra correr como costumava fazer. Ele que aguentasse agora. As necessidades de uma mulher também precisam ser saciadas e algo dizia que saberia saciar as dela muito bem.
Três batidas na porta chamaram a atenção de , tirando-a de seus devaneios. A figura de Brigitte, sua secretária, projetou-se parcialmente na sala, apenas com a cabeça se fazendo presente no espaço da porta entreaberta.

– Senhorita , já estou indo embora. Precisa de mais alguma coisa? - perguntou, solicita.
– Não, Bri. Muito obrigada. Já era para você estar em casa. Só porque eu me mato de trabalhar não significa que você precise fazer o mesmo.
– Não se preocupe, todo início de mês é mais corrido por aqui e fico feliz em ajudar. Não sei se viu o recado que deixei em sua mesa… a senhora estava em reunião então não quis incomodá-la, mas seu irmão ligou mais cedo e pediu que entrasse em contato com ele quando pudesse, disse que não era nada urgente.
– Não tinha mesmo visto. Obrigada por avisar, vou fazer isso agora.

Ela assentiu, se despedindo antes de sair.
Mal tinha falado com naquela semana, já que ambos ficaram muito ocupados. Sempre se sentia um pouco culpada quando isso acontecia. Pegou o celular rapidamente e começou a discar os números tão conhecidos, mas se interrompeu. E se fizesse uma surpresa pra ele? O restaurante preferido de ficava apenas a poucos quarteirões dali e ela também estava praticamente urrando de fome. Se corresse, poderia passar lá antes do lugar fechar para pegar uma comida pra viagem e os dois jantariam juntos.
Animada com a ideia, desligou logo o computador e saiu apressada.

***


Quando chegou ao prédio de , praticamente precisou fazer um malabarismo para conciliar sua bolsa nos ombros e toda a comida que carregava nos braços antes de apertar o botão que chamava o elevador. Ela tinha o péssimo hábito de, sempre que estava com muita fome, acabar exagerando no pedido.
O elevador chegou e em poucos segundos ela estava no andar do irmão, comemorando por incrivelmente não ter derrubado nada. Caminhou até a porta de , ouvindo soar lá de dentro uma narração esportiva vindo possivelmente da TV. era fã de futebol americano e provavelmente deveria estar assistindo a uma partida. Dessa vez, invés de tocar a campainha, procurou pela chave do apartamento na sua bolsa, abrindo a porta rapidamente, já se colocando para dentro do cômodo.

– O delivery chegou! - disse animada, enquanto se equilibrava para conseguir fechar a porta segurando todas as sacolas em seus braços. - Foi aqui que pediram um fettuccine à bolonhesa? Espero que sim porque estou praticamente desmaiando de fome. , será que dá pra você vir aqui me ajudar com essas bolsas? Seria uma pena se a comida caísse e…

Se perdeu no meio da frase antes de completá-la no exato momento em que se virou e, para sua surpresa, não foram os olhos de que encontrou a encarando. Aquele olhar era mais quente. Seu coração praticamente pulou do peito. Eram os olhos de .
Se encararam por alguns segundos silenciosos, ambos surpresos demais para formularem uma frase coerente. Ele estava sentado confortavelmente no sofá do irmão, inclinado levemente para frente com os cotovelos apoiados nos joelhos. Segurava uma garrafa de cerveja nas mãos. Seus cabelos estavam ligeiramente bagunçados - um bagunçado bem sexy, ela diria - e a blusa branca marcava perfeitamente os músculos de seu braço naquela posição. Puta merda, estava mais gostoso do que se lembrava. Mas o que diabos ele estava fazendo ali na casa de àquela hora? Droga, deveria mesmo ter ligado antes. Ela notou que parecia tão desorientado quanto ela, ainda a encarando.

– O que… - começou dizendo, tentando externalizar a pergunta que gostaria de fazer, mas seu irmão finalmente apareceu na sala.
? O que está fazendo aqui? - perguntou, também surpreso e levemente confuso.
– Comida... Quero dizer, decidi vir te ver e trouxe comida, estava com fome. Não sabia que tinha companhia - ela fitou novamente, que se mantinha estático e sério.

se aproximou dela, finalmente percebendo a quantidade de sacolas que a mulher carregava. Segurou todas rapidamente com uma facilidade invejável. e ainda se olhavam, um pouco desconfortáveis. Ele não expressava qualquer emoção em seu rosto, o que deixou levemente aflita. Será que ele tinha falado algo? Não, não reagiria daquela forma caso ele tivesse aberto a boca sobre o que aconteceu. E certamente não estaria segurando uma cerveja e sim uma compressa de gelo em cima do seu olho roxo.

– Estava com fome e resolveu comprar o restaurante inteiro? - disse, rindo. Totalmente alheio ao desconforto que pairava entre os dois.
– Pois é… Olha, eu posso voltar outra hora - ela disse. Talvez essa fosse mesmo a melhor decisão. Incrivelmente, sua fome tinha sumido como num passe de mágica.
– O que? Por quê? Claro que não! Eu e já estávamos mesmo cogitando pedir uma pizza. Os Patriots estão ganhando de lavada. Venha assistir com a gente! Quer uma cerveja? - ele disse, espalhando toda a comida na mesa.

Ela ficou em dúvida por alguns segundos. permanecia calado, mas mantinha o mesmo olhar que parecia estar fixado nela. sentiu o estômago revirar e decidiu cortar o contato visual, voltando-se novamente para .

– Não quero atrapalhar vocês - ela disse.
– Desde quando você se importa em atrapalhar alguma coisa, pirralha? - perguntou e ela rolou os olhos. Ele precisava usar esse apelido na frente das pessoas?

Encarou novamente, pedindo silenciosamente por uma confirmação de que estava tudo bem. Como resposta, ele curvou os lábios em um sorriso mínimo de canto de boca. Quase imperceptível.
Era isso, ela ia ficar. Não só ficaria como o confrontaria assim que tivesse a chance. Tinha sido só um beijo, pelo amor de Deus. Não precisava de uma atitude tão evasiva por parte dele. Precisava deixar isso claro para ele o quanto antes.

– Ok então, vou aceitar a cerveja. E traga pratos porque se eu não começar a comer em no máximo dois minutos vocês correm sério risco de vida.

***


– Fala sério, não entendo a obsessão que as mulheres têm com esse cara. Eu sou muito mais bonito que ele, não sou?

ouviu perguntar inconformado, enquanto apontava para a TV, que exibia a imagem em close do quarterback do New England Patriots, recebendo como resposta uma gargalhada alta de .

– Irmãozinho, se você é mais bonito que o Tom Brady, eu sou mais bonita que a Gisele Bündchen - ela disse, ainda rindo alto. - Você já me viu desfilando para a Victoria Secrets? Não! Então não se iluda. Ambos sabemos que isso não é verdade. Não é mesmo, ?

Ela se virou para , arqueando uma sobrancelha. Já tinha perdido a conta de quantas vezes naquela noite tentou provocar o rapaz, que se manteve sério, como em todas as outras vezes anteriores.

– Ei, me tira dessa. Eu não tenho nada a ver com isso, muito menos com a auto estima elevada de - o que responderia? Que para ele nem mesmo a beleza da Gisele Bundchen se comparava a dela? Isso seria piegas demais. E certamente também não poderia responder que adoraria vê-la desfilando apenas de lingerie, com certeza receberia um belo soco no nariz se dissesse tal coisa na frente de .
– Não seja maluca, Gisele é uma das mulheres mais lindas do mundo - disse.
– Sim e quem está comendo ela é o Tom Brady, não você. Acho que isso já responde sua pergunta.

Dessa vez foi quem riu alto, recebendo um olhar feio de .

– Desculpe, . Mas ela tem um ponto - ele disse.
– Onde estava com a cabeça quando te convidei pra ficar? Faça algo de útil antes que eu me arrependa e pegue outra cerveja pra gente, pirralha - disse

se manteve sentada na mesma posição em cima poltrona e nem sequer tirou os olhos da TV antes de responder o irmão:

– Estamos no século vinte e um, seu troglodita. Minhas ancestrais não queimaram seus sutiãs à toa! Vá você pegar sua própria cerveja.

Ao contrário do que esperava, gargalhou - provavelmente porque ele já tinha antecipado uma resposta malcriada por parte da irmã.
Pela primeira vez na vida, naquela noite pôde observar a interação entre os dois irmãos de perto, e estava achando tudo extremamente curioso. Conhecia desde que se entendia por gente e, mesmo assim, poucas vezes tinha o visto brincar e implicar tanto com alguém daquela forma. O amigo, que sempre foi tão sério e reservado, parecia uma pessoa completamente diferente quando estava ao lado de . Fato esse que devia ser consequência unicamente do poder da presença dela, uma vez que esse efeito também se estendia a ele próprio.
mal se reconhecia quando estava perto da garota. Não entendia as respostas estranhas que seu corpo dava, sem sua permissão, toda vez que ela o fitava interessada, ou quando ouvia o som delicioso da sua risada. Não entendia porque se sentia como um adolescente inseguro e envergonhado toda vez que ela o pegava no flagra a encarando. Também não reconheceu a agitação incomum que ocorreu no seu interior quando se surpreendeu vendo ela atravessar aquela porta mais cedo, tão espontânea e tão linda, sem perceber o quão sexy estava com seus cabelos levemente desalinhados e os olhos expressivos o encarando da forma mais curiosa do mundo.
E definitivamente já tinha desistido de tentar entender o motivo do calor que tomava conta de si e revirava o seu estômago toda vez que se lembrava daquele beijo. Aquele maldito beijo que não saía da sua cabeça há quatro dias. Ele tinha repassado a cena como um filme em replay várias e várias vezes. Mesmo quando não queria ou não esperava, a imagem tomava conta da sua mente. Aquilo não estava certo, ele não deveria se sentir daquela forma apenas com um beijo.
virou o resto do conteúdo da garrafa, dando violentas goladas até terminar a bebida em poucos segundos.

– Pode deixar que eu vou pegar mais cerveja - ele disse, se levantando. Precisava sair dali pelo menos por alguns segundos. A presença de não fazia bem a sua sanidade. Tê-la tão próxima novamente só fazia com que aquelas lembranças que ele evitava a todo custo pensar voltassem ainda mais fortes.

Ao chegar à cozinha, abriu a geladeira tirando de lá três garrafas de cerveja bem geladas e as colocou enfileiradas no balcão. Onde estava o abridor? Procurou rapidamente em cima da pia e na gaveta de talheres. Quando decidiu abri-las na mão, uma voz ecoou nos seus ouvidos, tomando conta do ambiente. Uma voz que fez todos os pelos da sua nuca se arrepiarem.

– Está fugindo de mim, corredor? - perguntou. Ele se virou e a encontrou encostada no batente da porta, olhando pra ele de maneira investigativa.
– Eu não qualificaria isso como fugir. Só vim buscar mais cerveja.
– É mesmo? - ela começou a se aproximar dele devagar, fazendo um aviso de alerta começar a apitar forte na mente de . - Então porque eu estou com a impressão de que você está a noite toda desconfortável com a minha presença?
– Por que eu estaria? - ele perguntou, evasivo.

chegava cada vez mais perto dele, a sobrancelha arqueada em seu semblante desafiador de sempre.

– Me diz você, .

Mais alguns passos. Ele não conseguia se mover.

– Não há motivos para estar desconfortável, tirando o fato de que você fica me provocando na frente do seu irmão e eu sei que você claramente não se preocupa muito com isso, mas eu pretendo viver para ver o resto dos meus dias, então seria bom se você parasse com isso.

Ele disse sério e sentiu vontade de rir. O fato dele confirmar que realmente estava incomodado com as provocações dela apenas a instigou mais a continuar. Ele realmente não havia falado nada para , afinal.
Num último passo, eliminou o que restava da distância entre eles. Colou seus troncos e, com a ponta dos dedos, começou a trilhar um caminho lento e provocante pelo tórax de . Ela sentiu o corpo inteiro dele se enrijecer, o que a agradou ainda mais.

– Agora não estamos mais na frente do meu irmão. Ainda vai fugir de mim? - encarou os olhos de tão perto e só então percebeu o quanto sentia vontade de beijá-lo novamente. Ele a olhava com a mesma intensidade que se lembrava e ela adorava isso. Adorava ver a maneira como ele a desejava. Não porque precisava de qualquer autoafirmação, mas ser desejada por um homem como faria bem para o ego de qualquer mulher.

Ele levou a mão até o braço de , numa calma ilegítima que não demonstrava a real urgência que sentia de encostar nela novamente. Subiu lentamente com os dedos por toda a extensão de sua pele desde o pulso, em direção ao seu ombro, deixando em um rastro quente pelo caminho onde tocou. Quando chegou até o pescoço, posicionou a mão na lateral de seu rosto, tocando levemente o polegar em seu lábio inferior, onde também pairava seu olhar. Ele encarava seus lábios como se eles fossem a coisa mais intrigante do mundo. Céus, como ela queria beijá-lo agora. Por reflexo da antecipação que sentir, umedeceu os lábios com a língua, deixando em um estado de urgência.

– Eu não estou fugindo… mas eu acho que você deveria.
– Por que eu deveria fugir? - ela perguntou e sua voz saiu entrecortada.
– Porque se você não se afastar no próximo segundo, eu não responderei mais por mim.
– Então é bom você saber que eu não sou o tipo de mulher que costuma fugir de algo.

Ela estava prestes a avançar para finalmente beijá-lo, se esquecendo completamente de onde estavam, quando ouviu o barulho dos passos de se aproximando da cozinha, fazendo com que ela se afastasse furtivamente.

? Você não ia ao banheiro? - se surpreendeu quando viu que ela estava na cozinha, alternando o olhar entre os dois, levemente desconfiado.
– Sim, eu ia… eu vou! Mas antes lembrei que precisava falar com - ela tentou desconversar, dando de ombros como se não fosse importante.

continuou com o olhar suspeito.

– É mesmo? Falar o quê com , posso saber?

não era boa mentindo. Omitindo, com certeza, mas mentir não era muito seu forte. Ela ficava nervosa e sempre se enrolava nas histórias. E pra piorar, sabia dizer exatamente quando ela estava mentindo. Ela não conseguia pensar em nada convincente. Droga, por que não conseguia pensar em nada? Quando começou a ficar aflita, fez menção de responder e ela suspirou aliviada.

– Ela veio até aqui me convidar para assistir a corrida no sábado - ele disse.

Espera… o quê?! o encarou boquiaberta enquanto ele sorria maroto. Qualquer mentira mal contada seria melhor do que essa. O que ele pensava que estava fazendo? Precisava reverter essa situação logo!

– É, pois é. Mas estava me dizendo que já tinha outro compromisso. Uma pena, fica pra próxima, então - ela disse, fingindo um desânimo inexistente.

definitivamente não queria que ele fosse para a corrida. Por que raios ele queria ir para a corrida? Não tinha sido convidado porque eles não tinham intimidade pra isso e não queria de maneira nenhuma passar para ele qualquer impressão errada. E até onde ela sabia, se encontrar dois finais de semana seguidos com um homem indiscutivelmente passava a impressão errada! Ela não fazia isso, essa era uma das suas regras de ouro. Por que diabos ele foi falar isso?

– Na verdade, eu estava prestes a te dizer que meu compromisso não é tão importante quanto a sua corrida. Pode ter certeza que eu vou - ela arregalou os olhos enquanto ele sorria divertido, como uma criança levada, achando graça da situação. sentiu vontade de esganá-lo. Filho da mãe irritante!
– É muita gentileza sua, mas não precisa! - ela foi bem enfática, mas ele parecia mesmo estar se divertindo, pois claramente segurava o riso.
– Eu faço questão! - reforçou, lançando-lhe uma piscadela imperceptível.

Argh, que idiota! Ele iria lhe pagar por isso.
continuava encarando a discussão entre os dois achando tudo extremamente estranho.

– O que está acontecendo aqui? - questionou. Desde quando eles estavam tão próximos a ponto de convidar para a corrida? Isso definitivamente não era do feitio dela.
– Nada!
– Nada!

Os dois responderam ao mesmo tempo e alargou o sorriso, fazendo cerrar os olhos ainda mais desconfiado, não comprando absolutamente nada daquela história.
Para evitar piorar ainda mais a situação com , decidiu desconversar. Depois daria um jeito naquela situação.

– Vamos logo, a cerveja está esquentando e o jogo já deve estar acabando… eu não quero perder o final! - ela saiu apressada da cozinha, sendo seguida pelos dois.
, você não ia ao banheiro? - a provocou quando chegaram na sala, achando muita graça do nervosismo recente da mulher. Pela primeira vez não esteve no controle da situação e ele não podia negar que adorou ver a reação desconcertada dela.
– O que? Ah, é! Banheiro.

Ela lançou-lhe um olhar assassino e saiu apressada em direção ao corredor. gargalhou alto. observou extremamente duvidoso o comportamento do amigo.

– Por acaso está acontecendo alguma coisa que eu não sei? - perguntou.
– Apenas que a sua irmã é maluca. Mas tenho certeza que disso você já sabe - ele deu de ombros e voltou a sentar no sofá.

, apesar de contrariado, fez o mesmo e decidiu deixar essa história de lado, por ora.
voltou da sua falsa ida ao banheiro logo em seguida, sentando-se ao lado de .
Ele lhe lançou um sorriso malandro e convencido, fazendo ela revirar os olhos em cólera.

– Você era muito mais interessante quando estava me ignorando - ela murmurou baixinho, apenas para que pudesse ouvir, cruzando os braços em sinal de irritação. Ele precisou novamente segurar o riso ao ver fazendo pirraça.

Definitivamente, aquilo seria interessante. E ao contrário dela, ele mal podia esperar para a corrida.

***


? ? ! - gritou, tentando sem sucesso chamar a atenção da amiga sentada à sua frente! Ela notou que estava extremamente distraída naquele almoço de sexta-feira e isso era algo raro de acontecer, uma vez que era sempre tão focada.
– Que susto! Precisa gritar? - exclamou, finalmente parecendo notar .
– Precisa, já que estou te chamando há cinco minutos e você não me ouve. O garçom já trouxe a conta, eu já paguei e você continua aí com essa cara de quem tá tentando descobrir a raiz quadrada de Pi!
– A raíz quadrada de Pi é 1,77. Meus problemas não tem nada a ver com equações matemáticas.
– Por que eu ainda me surpreendo por você saber essas coisas? O que aconteceu para te deixar assim tão distraída hoje, então? - perguntou , curiosa.
– Desculpe! Só estou um pouco preocupada.
– Com o que? Aconteceu alguma coisa no trabalho que eu não estou sabendo?
– Não, está tudo bem no trabalho - revirou os olhos e continuou brincando com os próprios dedos, completamente distraída.
– Você só fica preocupada assim quando é coisa de trabalho. Se não é trabalho, o que pode ter acontecido para… AI, MEU DEUS! - ela gritou de novo, fazendo pular de susto na cadeira. - Você está grávida?
– O QUE? - foi a vez de gritar. - Claro que não! Está ficando maluca?
– Ufa! - exclamou com as mãos no peito, suspirando em alívio. - Por mais que eu ache que seria uma ótima tia, ainda está muito cedo pra isso!
– É melhor a gente mudar de assunto porque essa linha de raciocínio está indo pra um lugar bem estranho.
– O que houve então?
– Estou preocupada com a corrida amanhã.
– E desde quando você fica preocupada com essas coisas? Olha, por mais que eu não aprove esse tipo de comportamento lunático seu, tenho certeza de que dará tudo certo - disse, tentando soar motivadora, mas só fez com que a encarasse indignada.
– Você pretendia me confortar ou me ofender com esse comentário? - ela perguntou, fazendo rir. - E eu não estou preocupada com a corrida em si, quem me dera meu problema fosse só esse.
– Quer fazer o favor de desembuchar logo de uma vez? Desde quando você esconde de mim o que está acontecendo na sua vida? - disse, dessa vez parecendo realmente chateada.
. Esse é o meu problema! Ele deu um jeito de se convidar para assistir a corrida amanhã e eu não quero que ele vá! Estou desde ontem tentando pensar em uma maneira de fazer ele desistir de ir sem ter que envolver o meu irmão nessa história. E preferencialmente sem ter que olhar para aquela cara convencida dele. Até agora não descobri como, então se quiser me ajudar, fique à vontade! - ela despejou tudo de uma vez, sua voz não escondia a irritação.
– Espera… não é aquele amigo gatinho do que deu uma de herói no cavalo branco e te tirou da marquise da The Underground na semana passada? - perguntou confusa.
– O próprio - cruzou os braços, irritada.
– E por que eu não estou sabendo da história completa?
– Por que não há nada para saber. É uma história completamente sem graça, na verdade - continuou a encarando irredutível, fazendo bufar. Sabia que a amiga não iria desistir enquanto ela não contasse tudo. - Ok, resumindo: o meu irmão teve a brilhante ideia de pedir para me dar umas aulas de corrida porque ele trabalha no meio automobilístico. A questão é que eu só aceitei porque queria dar uns beijos nele, o que acabou rolando no domingo. Até aí tudo bem, apesar dele ter ficado um pouco estranho depois, eu não estava me importando muito, mas ontem à noite fui até a casa do e estava lá. E com a cara mais lavada do mundo, ele se convidou para ir na corrida e agora eu não sei como fazer ele desistir dessa ideia idiota.

Ela resumiu tudo, enquanto a fitava com uma feição desconfiada.

– E por que você simplesmente não fala que não quer que ele vá? - a amiga perguntou.
– Eu falei! Acredite, ele é realmente irritante, ficou rindo da situação bem na minha cara! Só não o fiz engolir aquele sorrisinho presunçoso dele porque eu não queria deixar meu irmão mais desconfiado do que já estava. Ele não pode nem sonhar que eu e o nos beijamos. Você conhece o , não quero que ele vá preso por homicídio.
– Certo. E desde quando você gosta dele? - perguntou, fazendo a encarar confusa.
– De quem?
– Do !
– O QUE? - ela praticamente gritou novamente. - Por acaso tinha algum tipo de droga alucinógena no seu almoço, amiga? Você não está fazendo sentido hoje.
– Eu que não estou fazendo sentido, ? Desde quando você se importa com algum cara dessa maneira?
– Você só pode estar brincando! Eu passei as últimas 24 horas pensando em maneiras de assassinar o sujeito e você me fala uma coisa dessas.
, não vem com esse papinho pra cima de mim não que não cola, ok? Eu acho que como sua melhor amiga, tenho total liberdade de dizer que te conheço bem demais! O fato de você me dizer que passou as últimas 24 horas pensando nele já mostra muito sobre essa situação toda.
– Pensar em maneiras de assassinar alguém é diferente de pensar em alguém. Talvez a sua mente extremamente romântica não consiga perceber a diferença, mas acredite, ela existe.

relaxou o corpo na cadeira e cruzou os braços, o canto dos lábios curvados em um quase sorriso mostrava que ela claramente estava achando graça da situação. O que estava acontecendo com as pessoas, afinal? Ontem, rindo bem na cara dela e hoje, . Normalmente ela não precisava se esforçar tanto pra impor respeito e ninguém tinha o hábito de achar graça dela. Seria possível que estava perdendo o jeito da coisa?

– Eu acho ótimo, se quer minha opinião - disse.
– Não quero!

se manteve emburrada e a ignorou novamente, continuando com a sua linha de pensamento:

– Talvez esse seja o nascimento de uma sementinha de emoção que foi plantada no seu coração e está prestes a florescer. É o que dizem: antes tarde do que nunca - disse, parecendo estranhamente animada. Por que tudo com ela tinha que ser tão romantizado? Às vezes pensava que vivia num mundinho cor de rosa que só acontecia na cabeça dela. Como elas duas foram acabar se tornando melhores amigas era mesmo um mistério do universo.
– Não crie muitas esperanças, amiga. Eu nunca gostei de jardinagem, dá muito trabalho e sempre tem uma erva daninha pronta pra acabar com tudo.
– Talvez nunca tenha gostado justamente porque até hoje não encontrou uma flor que te chamou atenção. Mas sempre tem uma primeira vez pra tudo, não é? E uma vez que a gente encontra essa florzinha que toca nosso coração, a gente começa a amar jardinagem. Cuidar de um jardim dá trabalho mesmo. Tem que cuidar do solo, arar a terra, regar as plantas no tempo certo. Podar as folhas, adubar, manter os insetos prejudiciais longe. Não é fácil, mas é uma atividade prazerosa e recompensadora.
– Estou confusa, nós ainda estamos falando sobre sentimentos?
– Se for sobre os seus sentimentos pelo , sim!
– Meus sentimentos pelo se resumem em duas coisas: tesão e revolta.
– Tá aí uma combinação perigosa - riu, mas manteve-se séria. - Amiga, por que você precisa ficar tão na defensiva? Não me lembro de ter te visto tão afetada por alguém a ponto de ficar distraída desse jeito, ainda mais em um restaurante - a encarou confusa. - Você ama comer, ou seja, o negócio é sério.
– Você fala como se eu nunca tivesse me interessado por nenhum homem antes. Nós duas sabemos que isso passa.
– Por Deus, . Diga o nome de pelo menos um cara que você tenha realmente se apaixonado.
– Eu estou muito sóbria pra ter essa conversa agora - a encarava com a sobrancelha arqueada. Argh, como ela era insistente. Talvez por isso elas tivessem se tornado melhores amigas, porque ao contrário das outras meninas, nunca se deu por vencida após as falhas tentativas de afastá-la. Acabou a conquistando na base do cansaço. - Certo, deixa eu pensar. Já sei... Lorenzo!
– Você gostava de transar com o Lorenzo, . Mas não era apaixonada por ele! - disse, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.
– Como você pode ter certeza disso?
– Porque quando você precisou deixar Barcelona e voltar para Chicago, nem sequer se afetou ao terminar o pseudo-relacionamento de vocês. Não sofreu, não derramou uma única lágrima solitária. Ao contrário dele, pobrezito, que provavelmente até hoje está despedaçado.

pareceu ponderar por um minuto. Ela sempre achou que se tivesse um dia se apaixonado por alguém, esse alguém era Lorenzo. O caso que teve com o espanhol certamente era o mais próximo de um relacionamento sério que ela já tinha vivido. Eles dividiam pratos em restaurantes e ela até permitia que ele a abraçasse enquanto dormia. Seria possível que não tivesse sido isso?

– Eu não teria ficado com o Lorenzo por um ano inteiro se não eu gostasse realmente dele.
– Você ficava com outras pessoas também!
– Nós nunca dissemos que seríamos exclusivos, você sabe que monogamia não é um conceito que me atrai, amiga.
– Por ele vocês teriam sido exclusivos sim! Mas ele escolheu não te perder. Isso é paixão. Porque quando você realmente ama alguém, dificilmente vai aceitar dividi-lo com outra pessoa. O Lorenzo pode ter te conquistado um pouco mais do que os outros, mas você não era apaixonada por ele. Em breve notará a diferença.
– Por que raios a minha vida amorosa se tornou pauta aqui? Tudo o que eu queria era uma maneira de fazer com que o desistisse de ir na corrida amanhã!
– Deixe ele ir na corrida. Se não te afeta tanto, tenho certeza que isso não fará diferença - propôs, desafiadora.

era orgulhosa, isso não era nenhum segredo. estava longe de representar para ela mais do que apenas um cara por quem nutria uma enorme atração física. E apenas por isso, decidiu que estava certa. Não iria mais gastar mais tanta energia mental divagando sobre esse assunto. Se ele queria tanto ir para a corrida, que fosse! Ela faria questão de mostrar para ele que isso não significava absolutamente nada. Que ele não significava absolutamente nada. E quando isso acontecesse, poderia tirar de vez da cabeça essa história de sentimentos.
Era disso que ela precisava: esquecer homens, esquecer e se manter focada no prêmio. E se tinha uma coisa que ela fazia com maestria, era vencer uma competição!

***


O dia da corrida havia chegado.
A alta temperatura em Chicago fazia com que os raios de sol tocassem o asfalto, aquecendo a camada de ar logo acima dele, criando uma espécie de espelho proveniente do calor. Na arquibancada, as pessoas começavam a tomar seus lugares enquanto os pilotos caminhavam de um lado para o outro, impacientes e ansiosos. não estava nervosa - pelo contrário, ela se sentia surpreendentemente confiante ao passo que terminava de vestir o macacão que foi entregue à ela estampado com seu número de identificação.
Ela sabia que aquele tipo de competição servia como porta de entrada para que muitos pilotos pudessem finalmente realizar o sonho de se tornar profissionais no ramo automotivo. tinha sido pega de surpresa quando foi convidada a participar dessa corrida por um dos olheiros que assistira ao seu último circuito - ou Track Day, como os corredores gostavam de chamar. Mas, diferente da semana anterior onde a maioria correu apenas por hobbie, ali os pilotos pareciam estar muito mais preparados e motivados a ganhar. Era de se esperar, uma vez que diversos patrocinadores estariam realizando avaliações e dispostos a investir na carreira automobilística de poucos sortudos. O clima de competição no ambiente era palpável. Um clima que particularmente adorava, pois provocava o seu lado mais característico.
Mas não queria e muito menos sonhava em seguir carreira automobilística. Estava ali única e exclusivamente porque gostava da sensação de correr. Sentia prazer na competição e gostava de se superar. Rivalidade e desafio despertavam uma necessidade de se provar e testar ainda mais seus limites! A adrenalina era o remédio para a sua sanidade e assim como qualquer outro competidor ali presente, daria o melhor de si durante o circuito.
Enquanto colocava suas luvas, notou alguns olhares críticos e curiosos direcionados à ela. De fato, aquele era um ambiente majoritariamente masculino, mas não se importava. Além dela, pôde reparar em apenas outra mulher se preparando pra correr. Isso sempre acontecia, ela já estava bem acostumada para falar a verdade. Na maioria dos ambientes que frequentava em razão de seus hobbies, ela normalmente era a única mulher. Fato esse que nem sequer a intimidava, pelo contrário, fazia ela se sentir ainda mais estimulada. Adorava ver os olhares de julgamento se transformando repentinamente em surpresa e admiração quando ela provava que a genital que carregava no meio das pernas não a impedia de ganhar de muitos marmanjos arrogantes.

– Cinco minutos, pessoal! Tomem seus lugares - a voz grave de um dos rapazes da equipe de staff ecoou no ambiente, fazendo os competidores começarem a seguir para a pista. Alguns se despediam de seus treinadores e acompanhantes, ouvindo palavras motivadoras.

Para , a motivação começava a surgir à medida que seu coração se agitava numa energia de antecipação. O aumento da frequência cardíaca era o primeiro sinal que seu corpo dava ao mostrar que ela estava pronta pra enfrentar o que quer que viesse a seguir. Como ela amava essa sensação!
Com o capacete nas mãos, caminhou até a pista onde aconteceria a corrida e se posicionou ao lado de sua moto que agora, graças a , ela sabia exatamente como controlar. Aquele seria o momento em que poderia colocar em prática todas as dicas instruídas pelo rapaz, uma semana antes. Saber disso surpreendentemente a confortou. Ela se sentia mais confiante que o habitual e no fundo tinha que admitir que isso se devia ao breve treino que teve com . Tinha certeza que iria performar melhor do que na corrida anterior.
Durante a aula, dias atrás, tinha se comportado de maneira contrária ao que ela imaginou que seria a princípio. Por mais que soubesse que seu irmão havia pedido para ele desencorajá-la, não o fez. Ele se empenhou verdadeiramente em fazer ela ser melhor, adquirir técnica e se sentir mais confiante na motocicleta e também na pista. Em nenhum momento ele pareceu subestimá-la, pelo contrário, a desafiou, testando e estimulando sua capacidade. Ao contrário de , que sempre a via como uma criança irresponsável, não parecia enxergá-la como uma menina indefesa e incompetente, muito menos como uma bonequinha de porcelana. E ela realmente adorava isso. Adorava ver como ele não parecia se intimidar perto dela ou mesmo agir como se ela fosse um objeto frágil. Ele tinha aceitado correr contra ela, mesmo que hesitante de início, e o melhor: não tinha deixado ela ganhar. Ainda que fosse extremamente competitiva, se excitava com o fato de que ele também era, talvez tanto quanto ela. também tinha uma alma livre e inconsequente. No fim das contas, eles não fossem tão diferentes assim. Por mais que tenha notado a preocupação dele para com ela em vários momentos, algo nos olhos de parecia queimar quando via ela o desafiar de volta. Ele também gostava disso.
Como um instinto à mera lembrança do corredor, ela se pegou procurando por ele na arquibancada e, sem muito esforço, seus olhos foram puxados para a figura de como um ímã. Ele não estava longe dali, de pé em uma das fileiras frontais da arquibancada, ao lado de . usava um óculos escuros e vestia uma camisa preta. Só Deus sabe o quanto ela amava homens vestidos de preto. Apesar de não poder ver seus olhos em virtude dos óculos, sabia que ele estava olhando para ela. Um sorriso quase imperceptível se fazia presente em seu rosto, a lateral dos lábios levemente curvada. Ao perceber que ela o encarava, o rapaz levou os dois dedos - indicador e médio - até a testa, em um gesto de saudação, como se a cumprimentasse num aceno de continência. Ela sorriu em resposta, fazendo ele alargar seu próprio sorriso.
Era estranho estar sendo observada por em um momento como aquele. Desde que se entendia por gente, sempre foi uma mulher que fugia de intimidade. Era uma ação inconsciente, um ato praticamente involuntário, quase programado. Como consequência, pouquíssimas pessoas participavam de momentos que eram verdadeiramente importantes para ela. Evitava a todo custo que gente estranha entrasse na sua vida e, definitivamente, não compartilhava seus segredos íntimos com ninguém. E isso também contemplava ter pessoas participando de momentos como aquele. Com exceção de , que sempre dava um jeito de caçá-la onde quer que estivesse, nenhuma outra pessoa que conhecia já havia visto ela competir. Quando estava em uma pista, em um ringue ou em qualquer outro lugar que trazia aqueles sentimentos obscuros para a superfície, era quando ela conseguia ser ela mesma. Sem máscaras, sem armaduras, sem fingimentos. Ela não precisava se controlar ou fingir ser uma menina comportada, uma mulher de negócios... não precisava atender às expectativas de ninguém. Eram os únicos momentos em que ela se permitia perder o controle a ponto de querer explodir. Ser observada em um momento como esse era como abrir a guarda e deixar alguém conhecer uma parte importante dela, uma parte que ela tentava a todo custo esconder. E estava ali, ultrapassando todos os limites invisíveis que ela impôs.
Mas ela não se importava. Tinha se convencido que isso não iria mudar a relação entre eles. Ela não se permitiria estar vulnerável como esteve em outros momentos, até mesmo com , mesmo que brevemente.
Respirou fundo. Precisava focar. Precisava tirar de sua cabeça.
Ao lado de , seu irmão se encontrava em uma postura incomplacente. Os braços cruzados na altura do peito, lábios fechados em uma linha reta e fina acompanhavam uma leve ruga de preocupação que se concentrava entre as suas sobrancelhas. Aquele típico semblante de que ela conhecia bem e que ao contrário do que deveria, despertava nela uma vontade quase incontrolável de rir. Não por desrespeito, mas por saber que não tinha jeito. Ele nunca iria se acostumar com as ideias dela - e nem mesmo fingia estar confortável. Mas ele estava ali. Sempre estaria ali para ela e era isso que importava. nunca concordava com ela, mas sempre a apoiava.
A primeira sirene tocou estrondosa, o que indicava que todos os competidores deveriam se colocar imediatamente a postos.
subiu na moto, colocou o capacete na cabeça e ajustou a cinta jugular em seguida. Suas mãos tocaram o guidom e ela se posicionou confortavelmente no veículo. Já sentia o entusiasmo da antecipação vibrar no seu estômago. As batidas ritmadas do seu coração bombeando sangue para todo o seu corpo. Ela podia praticamente sentir o caminho do seu sangue percorrendo veia por veia de seu corpo numa sensação quase eletrizante. Cada vez mais forte. Cada vez mais rápido. A contagem regressiva começou.

Um minuto.
Ela respirou fundo.

Trinta segundos.
Abriu e fechou os dedos das mãos num leve alongamento.

Dez segundos.
Estalou o pescoço.

Cinco segundos.
Segurou firmemente o acelerador.

Três.
Frio na barriga.

Dois.

Focou a visão na pista.

Um. acelerou.

***


Na arquibancada, observava a moto de sem piscar. Ela ganhou velocidade rápido e sem muito esforço alcançou a posição no quarto lugar, próxima o bastante do terceiro colocado, longe o suficiente do quinto. Pilotava a moto com destreza, assim como ele se lembrava - talvez com ainda mais rigor do que ele se lembrava.
Toda a carreira de girava em torno de competições como aquela, então, ele já estava acostumado a assistir à corridas. Desde cedo, nutria o hábito de ver os circuitos para que pudesse treinar por observação. Era uma prática bem comum no meio automobilístico. Assistia com o objetivo de estudar os pontos fortes e fracos dos seus adversários em pista e muitas vezes também para analisar seus próprios movimentos, acertos e falhas em gravações. Assistia para prestigiar colegas de profissão e também para se distrair. Naquele momento, entretanto, pouco importava toda a experiência em acompanhar corridas, estava mais nervoso do que o habitual.
Sabia que estava preparada. Ao contrário do que acreditava, a mulher tinha uma ótima intuição para pilotar a moto e, como o próprio amigo fez questão de destacar, ela não tinha medo de estar na pista - o que no caso de , apesar de preocupante, era também uma vantagem.
Outra vantagem era que a maior parte dos competidores parecia subestimá-la. Enquanto esperava a corrida começar, minutos atrás, notou não só alguns olhares nada agradáveis direcionados à , como também ouviu um bocado de comentários que despertou nele vontade de rir em deboche. “Alguém avisa que ela errou o endereço da competição de culinária”, “A primeira marcha é para baixo, ok?”, “Essa daí deveria era estar na minha garupa”. Esse último, particularmente, o irritou ainda mais e ele quis fazer o infeliz engolir a própria língua. Poderia simplesmente responder atravessado e calar a boca de todos ali, mas preferiu deixar fazer isso sozinha ao se mostrar bem mais preparada que a maioria. E era exatamente isso o que ela estava fazendo.
No início de sua carreira, ele participou algumas vezes daquele tipo de corrida, pilotando tanto motocicletas, quanto carros. Podia inclusive reconhecer algumas das figuras ali presentes que representavam marcas de patrocínio. Era questão de tempo até ele próprio ser reconhecido, mas não se importava. Hoje o foco era ela. Desde o maldito dia em que se conheceram, era o foco.
Mais uma volta se completava. estava agora lado a lado com o outro piloto, disputando acirradamente a posição no terceiro lugar. A cabeça de estava a mil, o coração palpitando. É só manter o ritmo. Mantenha o ritmo que a sua moto fará o resto do trabalho. ganharia espaço quando chegasse na reta principal do circuito. Ele sabia que era o momento em que ela não teria receio de acelerar para adquirir velocidade, pois não precisaria lidar com as curvas que ainda eram seu maior ponto fraco. Ela provavelmente chegaria próximo dos 300 km/h ali.

– Segura o ritmo, só mais um pouco - ele murmurava para si mesmo, tentando conter o nervosismo.

Como previu, quando eles alcançaram a reta mais longa, acelerou ainda mais, ultrapassando e assumindo a posição no terceiro lugar! comemorou junto com uma parte do público que provavelmente torcia contra o piloto que ficou para trás.
o encarou e bufou irritado, desaprovando sua reação. Será que ele não podia ver como ela estava indo bem? Será que era assim que seus familiares se sentiam quando o assistiam correr? parecia estar pronto para matar a primeira pessoa que cruzasse seu caminho. Ele certamente nunca havia visto o amigo naquelas condições emocionais. Desde que chegaram ao autódromo, estava monossilábico e com cara de poucos amigos.

– Ela está indo bem, . Está tudo bem - ele tentou acalmar o homem ao seu lado.
– Estará tudo bem quando essa merda de corrida acabar e eu ver que minha irmã está inteira. Não era nem para ela estar aqui, pra começo de conversa - bravejou num tom grave e raivoso.
– Você é um bom irmão por estar aqui para ela.

deu de ombros, pouco disposto a se distrair com papo furado, os olhos raivosos grudados na corrida. não conseguia entender muito bem a relação intensa entre e . Eles brigavam, se provocavam e não se entendiam… mas no fim, ali estava , acompanhando a irmã até mesmo em um momento de evidente incômodo e perceptivelmente perturbador para ele. Desde sempre a relação entre os dois foi assim conturbada, ele se lembrava do amigo reclamando de durante algumas fases na adolescência, mas ao mesmo tempo sempre se portou de forma extremamente ciumenta, possessiva e protetora. O mais curioso era que tinha certeza que o que via do relacionamento dos dois era uma parte pequena e superficial da história.
Depois de aproximadamente 15 minutos, a corrida entrou na sua fase final e a última volta estava prestes a ser anunciada no telão. manteve sem dificuldade sua posição, mas tentava agora ultrapassar o segundo colocado, entretanto, esse parecia bem mais disposto a manter seu lugar na classificação. Ela estava forçando ultrapassagem, forçando talvez até demais.
começou a ficar tenso quando notou que a roda da frente da moto de estava praticamente tocando a roda traseira do seu adversário. O piloto não cedia espaço e a mulher também não parecia inclinada a reduzir. Por que diabos ela estava forçando daquele jeito? Terceira colocação era bom o suficiente para uma corrida inicial. Sua voz interna praticamente gritava em alerta
se afastou minimamente do competidor à sua frente apenas para se deslocar lateralmente e acelerar ainda mais, praticamente alinhando os guidões das duas motocicletas. Ambos continuavam a acelerar, a ponto da distância para o primeiro colocado diminuir consideravelmente.
As duas motos estavam muito próximas e, naquela velocidade, qualquer toque seria o suficiente para desestabilizar o controle e causar um grave acidente. A garganta de fechou com o pensamento e ele prendeu a respiração. Seu estômago revirou fazendo ele se sentir subitamente enjoado.

– O que caralhos ela pensa que está fazendo? - gritou furioso ao seu lado, parecendo ter a mesma percepção da situação que ele.
– Está tudo bem, não vai acontecer nada - disse mais para si mesmo do que qualquer coisa, sem tirar os olhos da pista.
– Para o inferno que está tudo bem! Ele vai derrubá-la se ela continuar forçando dessa maneira - o corpo do amigo tremia de raiva e a espinha de gelou.
, presta atenção em mim. A é boa! Eu sei que você não quer ouvir isso, mas ela é! Ela sabe o limite, está tudo bem - tentou fazer com que sua voz não vacilasse, mas na verdade ele estava mesmo tentando se convencer do que dizia, pois ficava mais nervoso a cada segundo que passava e a mulher não desacelerava.
– Qual é o seu problema? Você não vê o que está acontecendo? A culpa é sua! - rugiu. - Você disse isso pra ela, não disse? Você incentivou esse comportamento? Eu só te envolvi nisso para você desencorajar , não jogar álcool e atear fogo! Se algo acontecer a ela, a culpa será sua.

engoliu em seco, sem saber como reagir a um tomado por emoções e preocupação.

– Nada vai acontecer nada à ela, . Ela não vai cair.
– Me ouça bem, a partir de hoje eu não quero sonhar que você está encorajando a continuar com essa ideia absurda.
– Me desculpe, , mas não vou mentir para a sua irmã. Se ela me perguntar, eu direi a verdade.
– Você vai fazer o que eu estou mandando! - seu tom era alto, ameaçador e autoritário. - Não pense que por você se achar o rei das pistas você sabe o que é melhor para ela. Você não sabe, você não a conhece! Ou você faz o que eu estou mandando, ou você não colocará os pés no mesmo ambiente que nunca mais. Não ouse me desafiar sobre isso porque irá conhecer uma versão minha que eu nunca te mostrei.

ficou alguns segundos sem reação. O clima entre os dois era de briga e algumas pessoas próximas espiavam a cena. Ele tentou manter a calma, falando um pouco mais baixo:

– Eu entendo a sua preocupação, mas você está subestimando a capacidade dela. Eu sei que não a conheço como você e, acredite, eu sei que esse é um esporte perigoso. Mas você me pediu para treiná-la e foi isso o que eu fiz. Você pode não confiar em mim agora, mas aqui você vai ter que me escutar, porque eu vou te dizer exatamente o que ela vai fazer - sua voz transmitia segurança e ele apontou para a pista, fazendo acompanhar seu gesto com o olhar. - vai desacelerar um pouco, deixando o cara pensar que ganhou vantagem. Está vendo aquela curva ali? - ele indicou com os dedos. - É o arco mais fechado do percurso, e é nela que vai ultrapassá-lo cortando por dentro, poucos metros antes de cruzar a linha de chegada. Ela vai finalizar a corrida em segundo lugar e quando isso acontecer, você deveria pelo menos parabenizá-la.

o encarou com olhos mortais, esbravejando palavras aleatórias antes de voltar seu olhar para a pista novamente.
tinha arriscado um palpite, sugerindo que iria ultrapassar seu oponente da mesma forma que havia perdido a disputa para ele na semana anterior. Não sabia explicar exatamente o motivo de acreditar nisso, mas algo na sua mente ressaltava que era exatamente o que ela iria fazer. Não era a primeira vez que aquilo acontecia, mas ele parecia saber exatamente o que se passava na cabeça de . E isso o assustava. Era como se já a conhecesse, como se pudesse prever seus movimentos, mas, ao mesmo tempo, se surpreendia com praticamente todas as suas ações. Como isso era possível?
Não se surpreendeu, no entanto, quando deu o primeiro sinal de que estava prestes realizar exatamente a estratégia que antecipou. Ela desacelerou levemente, deixando o terceiro colocado ganhar uma pequena vantagem. O circuito estava quase no fim e a curva da ultrapassagem se encontrava bem próxima. estava ansioso, afinal, curvas fechadas não eram exatamente o ponto de maior domínio da mulher - e justamente por isso sabia que seria a maneira que ela iria escolher para ganhar. Criatura desajuizada. Aquilo podia dar muito errado, mas ele confiava nela. Precisava confiar.
Eles estavam cada vez mais próximos da curva. Ela teria que acertar o tempo correto para fazer a ultrapassagem e precisaria se inclinar mais do que o outro piloto para dar certo.

– Espera mais um pouco… mais um pouco - ele murmurava, seu coração parecia querer explodir. - Agora!

Exatamente no momento certo, inclinou mais a moto na curva, acelerando novamente. Seu joelho praticamente raspou no chão e ela conseguiu realizar a ultrapassagem. Perfeita. Ela tinha sido perfeita.
Ele gritou comemorando enquanto ria alto, sem conseguir conter a euforia. Toda a arquibancada vibrava impressionada. Ao seu lado, suspirou pesado, finalmente soltando a respiração que estava presa.
Essa é a minha garota! O pensamento veio tão rápido e claro na cabeça de , mas ele mal teve tempo de se censurar por isso, pois cruzou a linha de chegada logo atrás do primeiro colocado. Ele estava admirado com a sua performance na corrida. Seus olhos caíam maravilhados sobre a mulher enquanto ela tirava o capacete e apertava a mão de algumas pessoas que iam parabenizá-la pelo resultado da prova.
saiu em disparada até a irmã e o acompanhou. Desceram as escadas da arquibancada e à medida que se aproximavam da pista, só conseguia reparar no sorriso vitorioso estampado no rosto de . Era diferente dos outros sorrisos que já havia visto dela. Um sorriso novo. Um sorriso que combinava ainda mais com seu rosto. Um sorriso capaz de destruir mundos e reconstruí-los em seguida. Tão linda. percebeu que gostava daquele sorriso, talvez ele tenha se tornado seu preferido até agora. Se soubesse antes que aquele sorriso existia, teria deixado ela ganhar a disputa entre os dois na semana anterior. Não se importaria de deixar ela ganhar todas as competições dali pra frente, desde que pudesse ver aquele sorriso de novo.

! - gritou animada quando notou o irmão. Correu em sua direção, o envolvendo em um abraço apertado. - Viu só, irmãozinho? Eu não me matei e ainda cheguei em segundo lugar.
– Você quer uma estrelinha dourada por isso? - perguntou sarcástico, se desvencilhando dela.
– Não, só um parabéns está de bom tamanho!
– Parabéns, pirralha. Mas que fique claro que eu não assistirei a mais nenhuma corrida sua ou qualquer outra maluquice que inventar. Não tenho mais condição emocional para isso.
– Você já disse isso antes - ela revirou os olhos.
– Desta vez há testemunhas - riu e ela pareceu notar pela primeira vez.

Seus olhares se encontraram e titubeou por alguns instantes, sem saber o que fazer. sorriu, tentando decifrar os próprios sentimentos. Queria abraçá-la, queria gritar o quanto estava orgulhoso, queria dizer o quanto ela tinha sido impecável na corrida. Mas quando o olhava, ele só conseguia pensar em como a mulher era maravilhosa de um jeito que ele jamais pensou ser possível.
Ela arqueou o cenho, parecendo saber exatamente o conflito interno que ele estava passando. Ou talvez esperando qualquer pronunciamento de sua parte. Ele precisou limpar a garganta antes de falar.

– Parabéns! Você foi incrível - adotou o tom mais casual que conseguiu naquele momento, fazendo a garota abrir um sorriso quase tímido. Outro sorriso novo.
– Obrigada, tive um bom professor - ela brincou.
– Interessante, foi ele quem te ensinou aquela técnica fenomenal de ultrapassagem que você usou no final? - provocou.
– Foi sim, mas ele é muito convencido, então é melhor não encher muito o seu ego.
– Vocês querem parar de conversar em terceira pessoa? - se manifestou, fazendo os dois rirem.

estava pronto para fazer um comentário, mas foi interrompido por um homem que se aproximou. Ele precisou piscar algumas vezes para ter certeza de que a pessoa era quem parecia ser. Não era possível que aquilo estava acontecendo. Preferia não ter reconhecido a figura o fez querer arrancar fora os próprios olhos só para se poupar de ver a cena que viria a seguir. Quando as pessoas diziam que a felicidade dura pouco, elas não estavam brincando.

– Ora ora, se não é a estrela do dia. , certo? - o homem perguntou num familiar tom bajulador. revirou os olhos.
– Em carne e osso. E você é… ? - estendeu a mão, cumprimentando-o. Analisou sua imagem por alguns segundos. Ele vestia uma camisa social elegante e os cabelos pretos estavam penteados para trás, com alguns fios grisalhos se destacando de maneira sexy. Ele parecia ser pelo menos uns 12 anos mais velho que ela, mas estava completamente conservado, se permite a observação.
– Sebastian Reeves, muito prazer - ele a cumprimentou de volta. - E que surpresa agradável vê-lo por aqui, . Desistiu da NASCAR e voltou para as corridas em duas rodas? - o tom de sarcasmo era presente na voz.
– Pena que não posso dizer o mesmo, Reeves. Estou apenas acompanhando .

A mulher arqueou uma sobrancelha, estranhando o timbre colérico de , totalmente desconhecido para ela. era sempre tão gentil. O que será que estava escondido por trás da feição desagradada do corredor?

– Está muito bem acompanhado então, devo ressaltar. Como sempre, não é mesmo? - Sebastian se voltou novamente para que o encarou desconfiada, estranhando todas aquelas provocações e farpas trocadas. - Não tive a chance de me apresentar depois da sua última corrida, . Por isso fiz questão de te oferecer a oportunidade de correr hoje.

A moça se surpreendeu, conectando só agora o fato de que Sebastian Reeves se tratava da pessoa que a convidou para correr ali.

– Ah, peço desculpas. Não reconheci seu nome e falamos apenas por e-mail.
– Não há o que se desculpar, senhorita . Fiquei bastante impressionado com o seu resultado na semana passada e devo dizer que mais ainda hoje.

colocou as mãos nos bolsos dianteiros, se movimentando impaciente. Ele sabia exatamente onde Reeves pretendia chegar com aquela conversa e sua vontade era de carregar para fora dali.

– Desculpe interromper… - interviu. - Mas você tem algum objetivo com essa conversa?

Tem, pensou , um objetivo que você não vai gostar muito, .

! - repreendeu o tom rude de . - Perdoe os modos grosseiro do meu irmão, senhor Reeves.
– Está tudo bem, e pode me chamar de Sebastian. Na verdade, eu gostaria de convidá-la para almoçar, assim nós podemos conversar um pouco sobre o seu histórico profissional e, é claro, suas expectativas no automobilismo, .
– Não! - foi a vez de intervir impositivo, fazendo encará-lo surpresa e levemente irritada. - não tem nada para falar com você.

O homem riu e rolou os olhos. assumiu novamente uma aparência desafiadora.

– Eu acho que eu já deixei claro que não gosto que falem por mim, - a mulher manifestou mau humorada. - Por favor, Sebastian, sinta-se à vontade para continuar.
– Eu trabalho como olheiro buscando talentos pela Pramac Racing, uma equipe da Honda na MotoGP. Sou ex-piloto da categoria, mas infelizmente uma lesão me impediu de continuar nas competições. Nosso time está buscando por novos nomes para estrearem a liga principal sob o nosso patrocínio e treinamento. Seria muito interessante ter alguém como você na nossa equipe, se isso for do seu desejo, é claro.
– Definitivamente não! - se pronunciou novamente, autoritário.
– Qual é o problema de vocês dois hoje? - praticamente gritou, a paciência se esvaindo.
– Permita-me perguntar, senhorita - Sebastian interrompeu. - Hoje você conta com alguma equipe de treinamento?
– Não.
– Sim.

Ela e responderam ao mesmo tempo. estava irritado de um jeito que não havia presenciado até aquele momento. Até mesmo não se lembrava de ter visto o amigo tão nervoso.

não precisa do seu treinamento, Reeves. Eu sou responsável por treiná-la. Não é à toa que estou aqui hoje.
– Como ela mesma fez questão de destacar, , acho que a moça pode falar por si mesma. Por acaso a Gibbs Racing está entrando na modalidade de motociclismo agora?
– Não. Não é a minha equipe de stock car que está treinando . Eu estou treinando . Devo lembrá-lo que também já fui campeão na Moto Grand Prix?
– Ora, não precisa. Eu me lembro bem disso. Lembro também que abandonou o campeonato no meio da temporada como um garotinho mimado.

O tom da conversa começava a ficar tenso.

– Escute aqui, Reeves - se aproximou do homem num gesto quase furioso. Seus olhos assumiram um tom que fez ficar atenta para uma briga eminente. – Não pense que vai conseguir me ofender com essas provocações porque nós dois sabemos o que aconteceu naquela temporada. Fique longe de , eu não darei um segundo aviso.

O tom na voz de deixou a mulher hesitante. Normalmente, estaria pronta para dar uma resposta atravessada em uma situação como aquela, mas tinha mais na história que ela ainda não sabia, então preferiu se conter - por ora.
Sebastian sustentou o olhar raivoso de por alguns segundos e sorriu em provocação, antes de se virar novamente para , assumindo um tom calmo.

– Acredito que esse não seja o melhor momento para um almoço, senhorita . Mas como disse, eu e minha equipe ficamos bastante interessados no seu desempenho e gostaríamos de bater em uma hora mais oportuna. Quando puder e se desejar, me ligue - Sebastian entregou um cartão de visitas que foi aceito rapidamente por . - Se me dão licença, tenham todos uma boa tarde.

Apenas quando Reeves estava longe dali, se pronunciou irritada.

– Eu não sei qual bicho mordeu vocês dois hoje. Com o eu já estou acostumada, mas ... - ela apontou o dedo indicador para , num gesto desafiador. - Não pense que você tem o direito de agir dessa maneira e tentar controlar qualquer coisa que me envolva. Não me interessa qual seu passado com esse homem, não ouse nunca mais me envolver nas suas picuinhas, me ouviu bem? Eu sou perfeitamente capaz de tomar minhas próprias decisões.
– E é exatamente isso que me preocupa.

Os dois se encaravam irredutíveis. achou melhor intervir.

– Vamos embora, . Acho que já deu de confusão por hoje.
– Eu não vou pra lugar nenhum com vocês, caso não tenha ficado claro. E eu acho bom os dois pararem de criancice e principalmente de tentar me controlar. Passar bem!

Ela deu as costas, jogando seus cabelos pretos e saiu a passos firmes dali, deixando para trás dois homens completamente atônitos.


Capítulo 6

Dizem que o sono é como um gato: ele só vem até você quando você o ignora. Naquele momento, estava claro porque sempre foi uma pessoa que preferiu cachorros. Se o sono fosse como um cachorro, ele certamente não estaria sem conseguir pregar os olhos às 04:15h da manhã.
Não sabia dizer se a sua mente estava projetando coisas, mas tinha certeza que podia ouvir em alto e bom som o barulho do seu coração batendo ritmado e lentamente contra o peito enquanto esperava, em meio ao silêncio e ao desespero, o sono chegar. Nada. Sua mente estava um caos e ele se revirava na cama ao mesmo tempo em que a escuridão da noite assumia um tom de cinza, até que finalmente as cores do dia começavam a aparecer, entrando pelas frestas da janela do seu quarto.
Alguns dias haviam se passado após a corrida e, desde então, não conseguia dormir direito. A sua insônia, entretanto, nada tinha a ver com ansiedade ou estresse. Na verdade, sua recém-adquirida incapacidade para dormir, tinha nome, sobrenome e um belo sorriso convencido: . E não havia chá de camomila no mundo que o fizesse tirar aquele sorriso da cabeça para que, finalmente, conseguisse pegar no sono.
Ele virou-se na cama novamente, tentando conter a frustração de, pela primeira vez na vida, não estar sendo capaz de controlar a própria mente diante de uma situação.
sempre fora um homem calmo e despreocupado. Poucas coisas conseguiam tirar a sua paz e equilíbrio interior. Seus dias normalmente passavam sem grandes desafios ou insatisfações. Exceto, é claro, quando estava competindo. , no entanto, vinha cumprindo muito bem a promessa que fizera no dia em que se conheceram. Ele não podia nem dizer que não foi avisado, afinal, desde o primeiro momento, a mulher havia dito que viraria a sua vida do avesso e claramente estava fazendo jus à sua palavra sem o menor esforço. O que não esperava era que não apenas a sua vida, mas todo o mundo, parecia girar de maneira diferente desde que a garota se fez presente. Uma prova disso era que ele, que sempre dormiu como um bebê, precisava aceitar o fato de que agora tinha insônia. Maldição!
É normal sentir que está verdadeiramente ligado a uma pessoa antes que de fato passe algum tempo fisicamente junto dela? Nada daquilo parecia normal na cabeça de e ele sentia vontade de se socar toda vez que, sem a sua permissão, seus pensamentos voltavam para . De novo e de novo.
Pensava nos grandes e expressivos olhos da mulher, que atuavam como um espelho para absolutamente tudo o que acontecia dentro daquela mente louca dela. Uma mente que ele desejava conhecer mais, explorar cada espaço, pensamento, desejo, insegurança, medo e lembranças ali presentes. Ele poderia ficar horas mergulhado no seu olhar, estudando e decifrando cada uma das emoções que se passava dentro de seus olhos. E o sorriso dela? Ah, deveria ser proibido existir qualquer coisa tão entorpecente quando o sorriso de . Ninguém tinha a menor chance diante dele. Ela seria capaz de escravizar o mais poderoso dos homens apenas com o seu sorriso. Era algo absolutamente dominador.
sabia que precisava ficar longe dela. Definitivamente, não tinha nada naquela história que indicasse que aquilo iria acabar bem. era irmã mais nova do seu melhor amigo. Amigo esse que era extremamente protetor com a garota e faria questão de lhe quebrar todos os dentes se soubesse metade das coisas que ele pensava a respeito da sua irmãzinha. , entretanto, era o menor de seus problemas. Poderia lidar com ele, caso fosse necessário. Com é que as coisas não seriam tão fáceis. Tudo nela alertava que ele iria sair dessa com o ego ferido e o coração partido. Sim, ele estava admitindo, ainda que para si mesmo, que seria mais fácil ter todos os dentes quebrados pelo seu amigo do que se permitir ser magoado pela mulher. A dor física pelo menos ele poderia suportar. Ele tinha medo... medo de todas aquelas sensações novas, de tudo o que sentia quando estava perto dela, de todas as reações e respostas incontroláveis do seu corpo e, principalmente, medo de onde aqueles sentimentos eventualmente acabariam o levando. Será que é covardia reconhecer o medo? Ele não iria se apaixonar por . Ele não podia se apaixonar por , não importava o quanto ela tentasse invadir seus pensamentos, ele não iria permitir isso.
Era , por Deus. Não precisava de com tantas mulheres dispostas a assumirem esse papel de muito bom grado. Não precisava de , precisava de uma distração. E de uma boa noite de sono para compensar o cansaço.
Ou, nesse caso, de uma boa dose de café preto.
E foi o que fez quando desistiu de tentar dormir e caminhou a passos lentos até a cozinha. O relógio já marcava 05:30h da manhã e sabia que precisava canalizar toda a energia mental em algo produtivo. Decidiu então que sairia para correr - tinha tempo que não fazia isso e era uma atividade que sempre conseguia acalmá-lo.
Após parte da cafeína começar a fazer efeito no seu organismo, direcionou-se até o banheiro da suíte, onde fez sem pressa a sua higiene matinal. Abriu a quarta gaveta do guarda-roupa, tirando de lá uma bermuda e uma camiseta sem mangas. Calçou seus tênis e em poucos minutos estava na rua, iniciando a prática do exercício físico que tanto gostava. Para ele, a corrida funcionava quase como uma terapia e era exatamente disso que ele precisava para diminuir, ainda que minimamente, a sua frustração.
O céu nublado e a chuva fina que caía nas ruas de Chicago pareciam um retrato perfeito do humor de naquela manhã. Na maior parte do tempo, era um homem que se sentia totalmente confortável na própria pele, logo, não se lembrava de já ter estado tão irritado consigo mesmo. Fazia tempo que não chovia em Chicago, para ser mais exato, o último dia de chuva havia sido exatamente o dia em que conheceu . Seria aquela mais uma coincidência desagradável do destino só para lhe fazer lembrar da mulher?
O rapaz inalou fortemente o ar gelado da cidade, sem perder o ritmo da corrida, chegando rapidamente até o Chicago River. Determinou então que iria pensar em qualquer outra coisa que não fosse a irmã mais nova do seu amigo. Uma hora livre de : era exatamente o que ele precisava. Seria como o início de uma desintoxicação para o seu cérebro que já parecia tão viciado em pensar nela.
Voltou sua atenção ao tempo úmido que fazia as pessoas abrirem seus guarda-chuvas, enquanto andavam apressadas para o trabalho. já sentia saudade das pistas. Faltava pouco para começar a segunda etapa da temporada do ano da NASCAR e em breve ele estaria tão ocupado que não precisaria pensar em ou em qualquer coisa que não fosse seu empenho para conseguir uma boa classificação e, futuramente, mais um prêmio. Ele poderia suportar mais algumas semanas até lá. Talvez fosse visitar seus pais novamente, distrair a cabeça com outro tipo de problema. Do jeito que se encontrava, até mesmo ouvir as reclamações de seu pai lhe traria mais alívio do que toda aquela situação maluca que vivia.
Ultimamente, com seus recém completados 30 anos, seus pais começavam a colocar pressão para que ele “desse um jeito na vida”. E por “dar um jeito na vida” entendia-se dedicar-se profissionalmente a algo mais seguro, casar e dar-lhes netos.
Mesmo depois de tanto tempo, não saberia dizer se seus pais sentiam orgulho das conquistas dele como piloto, ou se simplesmente deram-se por vencidos. Certo dia descobriu uma pasta que sua mãe guardava com incontáveis recortes de jornais e revistas que continham menções a seu nome e que, segundo ela, separava para mostrar às amigas depois. Sua mãe era uma mulher adorável e exageradamente preocupada.
Com seu pai as coisas já não eram assim tão fáceis. Ele se esforçava muito para fingir que estava satisfeito com o rumo profissional do filho, mas não importava quantos prêmios ganhasse ou quanto dinheiro ele tivesse, o senhor nunca se impressionava. já estava acostumado a decepcionar seu pai que por ser um senhor conservador de 67 anos, gostaria que ele tivesse seguido o que chamava obstinadamente de “profissões honrosas”: direito, medicina ou qualquer coisa voltada para o mercado financeiro.
quase foi responsável por uma terceira guerra mundial quando comunicou a seus pais que estava trancando da faculdade de direito para se dedicar às pistas.
“Essa história de correr não dá futuro", seu pai dizia. “Não é uma escolha inteligente seguir uma profissão que não conseguirá mais exercer quando seu corpo deixar de acompanhar a sua mente”. “Com sorte, um atleta bem sucedido se aposenta aos 35 anos e olhe lá. Não demora para serem esquecidos depois disso”.
Talvez, o dia que de fato ganharem netos, eles se tornem mais flexíveis. Não que isso fosse de maneira alguma uma prioridade para ele agora.
Três anos atrás, seus pais haviam se mudado para uma pequena fazenda no interior de Indiana, localizada a algumas horas de Chicago. O verdadeiro sonho de aposentadoria longe da cidade grande.
Quando a chuva começou a apertar, ensopando a sua blusa e misturando-se com o suor que já escorria pela testa e pescoço, decidiu que era hora de voltar.
Com a sua dose diária de endorfina regulada, tomou um bom banho morno e se permitiu, pela primeira vez naquela semana, verdadeiramente relaxar.
Vestiu uma roupa qualquer e se jogou na cama. Respirou fundo algumas vezes, percebendo que sua mente estava mais silenciosa após a corrida, como um monstro finalmente domado. Fechou os olhos. Quando estava finalmente prestes a pegar no sono, o toque repetitivo do seu celular tomou conta do ambiente. Seria possível que ele não teria um minuto de paz?
O visor do telefone indicava o nome de sua assessora, Mia Hayes. Ele atendeu sem hesitar.

– Bom dia, flor do dia. Espero não ter te acordado – a voz conhecida da mulher soou no aparelho. Normalmente, Mia tinha uma grande habilidade em animá-lo. Hoje isso não seria possível nem com a melhor notícia do mundo.

Quem dera eu tivesse dormido, ele sentiu vontade de dizer.

– Bom dia, Mia. Não se preocupe, já estava acordado.
– Que ótimo. Estou te ligando para saber por que ainda não foi buscar o terno que eu separei para você na Hugo Boss.
– Ora, essa é fácil. Porque eu não estou sabendo de nenhum terno que eu tenho que buscar na Hugo Boss.
! – ela chamou atenção. – O terno que eu te avisei três semanas atrás que deixei reservado para o Prêmio Laureus¹. O evento é hoje à noite. Não me diga que você esqueceu!
Merda, mil vezes merda! Tinha sim esquecido completamente daquela maldita premiação. Três semanas atrás a sua vida ainda não tinha se tornado um completo caos e confusão.

– Me desculpe, Mia.
– Céus, onde eu estava com a cabeça quando aceitei te assessorar? Você é a pior pessoa do mundo para lidar com a mídia. Como se esquece do prêmio mais importante do ano que, à propósito, você está concorrendo na categoria principal?
– Simples, porque eu não ligo pra isso. O único prêmio que me importa é o que eu recebo no pódium.
, por favor, não vamos ter essa conversa novamente. Esses eventos são importantes para a sua imagem e, consequentemente, para que seus patrocinadores permaneçam felizes com você, certo?
– Eu tive uma semana péssima, Mia. Será que só esse eu poderia pular?
– Não, não poderia! E que história é essa de ter uma semana péssima? Você está de férias, por Deus. Se não sabe, o objetivo de férias é justamente descansar e não se estressar. O que aconteceu?
– Nem queira saber. Se eu estou de férias, tecnicamente, eu não preciso me comprometer com nenhuma obrigação voltada para o trabalho até o início da temporada, o que inclui ir nesse evento hoje – tentou argumentar.
– Boa tentativa, , mas você vai no evento. Nem que para isso eu tenha que ir até Chicago te arrastar pelos cabelos. É isso o que você quer? Eu prometo que se eu tiver que pegar um vôo da França até aí, farei da sua vida um verdadeiro inferno.

sentiu vontade de rir pela primeira vez no dia. O que estava acontecendo com as mulheres a sua volta? Todas aparentemente estavam empenhadas em mandar nele. Sua assessora trabalhava na sua equipe há quase cinco anos e eles sempre tinham aquele tipo de discussão. A verdade era que não via sentido em qualquer coisa que tivesse a ver com imagem e vida pública. Não foi pra isso que escolheu ser piloto, mas sabia que era um ônus bem desagradável do seu trabalho. Mia era realmente uma santa por aguentá-lo tanto tempo.

– Eu não vou ganhar o prêmio mesmo, não sei por que você faz tanta questão.
– Com essa atitude derrotista, não vai mesmo. Mas não importa se vai ou não ganhar, você está concorrendo. Terão repórteres e pessoas importantes lá, incluindo representantes de marcas, possíveis patrocinadores e seus adversários.
– Você tinha a intenção de me motivar? Porque juro que não funcionou.
– Vou mandar entregar o terno no seu apartamento. Esteja pronto às oito da noite e faça o que você faz de melhor: usar seu charme e conquistar as pessoas. Se precisar de mim, estarei atenta ao telefone o tempo todo.

bufou, sabia que aquela seria uma discussão perdida.

– Eu vou te demitir por isso.
– Ótimo, assim eu ganho uma indenização alta o suficiente pra passar uns meses nas Maldivas e descansar minha mente de você. Até lá, faça o que eu estou mandando. Boa sorte na premiação, o discurso aprovado caso você vença já está na sua caixa de e-mail. Faça o favor de imprimir e levá-lo com você.

riu, despedindo-se de Mia.
Certo, então agora não só ele não conseguia dormir, como teria que ir a um evento que em nada o agradava apenas para fazer média com a imprensa. O que poderia fazer aquele dia piorar?

***


Deu uma última olhada na imagem refletida no espelho e aprovou o resultado. O terno escuro escolhido por sua assessora era de muito bom gosto e caía perfeitamente em seu corpo. Optou por vestir uma blusa social e colete também pretos e completou o traje com uma gravata da mesma cor. Nada muito chamativo, mas ainda assim elegante o suficiente. O clássico era sempre uma boa pedida, principalmente quando não se deseja chamar muita atenção. sabia que não teria como fugir daquele compromisso, então que terminasse com aquilo logo de uma vez ao invés de ficar se torturando mentalmente durante todo o processo. Quanto mais cedo chegasse ao evento, mais cedo poderia ir embora.
Não que fosse de todo ruim, afinal, ele gostava de festas, champagne de qualidade e de conversar com pessoas que partilhavam da sua mesma paixão por esporte. O que não gostava, no entanto, era toda a formalidade, atenção e “puxa saquismo” que aquele tipo de premiação prometia. Principalmente em um dia que seu humor não estava dos melhores.
Quando chegou à garagem, fez questão de escolher o carro menos extravagante que possuía, uma vez que não queria dar aos repórteres motivos para falarem mais do que o necessário. Poderia simplesmente pedir um Táxi ou um Uber, mas sempre preferia estar no volante. Por isso, optou por pegar a chave do seu Porsche Mission, que era o modelo mais casual se comparado ao McLaren ou sua tão querida Lamborghini.
Muitos dos carros da sua coleção ele nem ao menos tinha comprado. Diversas vezes recebia como presente de marcas em troca de um pouco de publicidade. Não que ele se importasse, afinal, realmente amava aquelas belezuras.
Dirigir pelas ruas de Chicago era sempre um prazer e não demorou muito para chegar ao luxuoso hotel cinco estrelas que sediaria o evento naquela noite. O tapete vermelho já estava montado na entrada do local, que estava lotado com alguns seguranças, muitos convidados bem vestidos e diversas celebridades e figuras importantes do mundo esportivo e da mídia em geral - alguns sorrindo em diferentes poses para fotos e outros conversando com repórteres ali presentes. Muitos repórteres e jornalistas, diga-se de passagem.
respirou fundo tomando coragem antes de descer do carro e entregar sua chave para o manobrista, sendo praticamente cegado pelos flashes disparados por câmeras presentes em toda parte. Pouco importava há quantos anos era obrigado a frequentar esse tipo de evento, nunca se acostumaria com os holofotes. Por sorte, Fórmula 1 não era exatamente um esporte de grande massa, então outras personalidades mais famosas estariam no foco das atenções, como jogadores de basquete e futebol.
Colocou seu melhor sorriso convincente no rosto - que talvez em outro momento convenceria mais - e caminhou até a entrada, informando seu nome e entregando o convite para o segurança.

! - um repórter com microfone da ESPN chamou sua atenção assim que ele pisou no tapete. - Se importaria de conversar um pouco com o canal da ESPN F1?
– De maneira alguma – tentou soar cordial. – Seria um prazer.
– Primeiramente gostaríamos de parabenizá-lo pela sua recente vitória na corrida de Le Mans. É uma conquista e tanto! Pouquíssimos pilotos da NASCAR já arriscaram esse feito.
– Muito obrigado, ganhar Le Mans foi um dos capítulos mais importantes da minha carreira. Não é uma disputa fácil e foram muitos anos de preparo.
– E quais serão seus próximos passos após essa grande conquista? – o homem perguntou e notou uma pequena aglomeração de repórteres se formar ao seu redor, todos com microfones direcionados a ele.
– Agora será um momento de novos desafios com a NASCAR. Nós ainda temos duas corridas importantes e quero me despedir dessa temporada com um lugar no pódium e um novo título de campeão da stock car.
– Sabemos que está concorrendo ao prêmio de Atleta Masculino do Ano – um jornalista diferente falou e concordou com a cabeça. – Como você mesmo destacou, o último ano foi um período de grande destaque na sua carreira no automobilismo, que sempre foi muito impressionante considerando que você foi um dos pilotos mais novos a conquistar tantos prêmios importantes diferentes. Como se sente sendo um dos atletas prestigiados no Prêmio Laureus e quais são as suas expectativas para essa noite?
– Me senti muito honrado com a indicação, é um prêmio muito importante e espero poder voltar para casa com ele, mas nunca se sabe. Temos grandes nomes indicados e com certeza todos eles merecem – sorriu simpático, tentando ao máximo não transparecer que na verdade não dava a mínima para aquilo.

respondeu mais algumas perguntas sobre a sua carreira e tirou umas fotos antes de se despedir com um aceno e entrar, finalmente, no hotel.
Todo o salão havia sido impecavelmente transformado em um nobre espaço para a premiação, com mesas perfeitamente bem decoradas e grandes luminárias de cristal espalhadas pelo teto. A cenografia, em tons de azul escuro e roxo, presenteavam o ambiente com uma atmosfera clássica e luxuosa. No ponto de maior destaque do espaço, estavam um palco não tão alto e um grande telão onde era possível assistir recortes curtos de vídeos dos melhores momentos de diversas modalidades e categorias esportivas que aconteceram durante o último ano, passando rapidamente em looping
Ao ver a quantidade de gente que preenchia o local, respirou fundo, sabendo que aquela seria uma longa noite. Buscou algo que pudesse acalmar seus sentidos, apanhando da bandeja de um garçom um copo de whisky, degustando logo em seguida a bebida de cor de âmbar praticamente de uma vez, que desceu quente pela sua garganta.

– Grande ! - ouviu seu nome ser pronunciado pelo dono de um forte sotaque britânico e sorriu ao ver o anfitrião da noite vindo em sua direção para cumprimentá-lo.
– Como vai, Hugh? - deu-lhe um aperto de mão firme.

Todo ano, uma celebridade era convidada para apresentar a premiação e naquele dia Hugh Grant² seria o responsável por conduzir o evento no palco.

– Completamente nervoso, não vou mentir. Ser o anfitrião de uma noite como essa, com tantos nomes que tenho como ídolos, não é uma tarefa nada fácil.
– Imagino que não, mas tenho certeza de que se sairá bem – sorriu motivador.
– Ora, mas certamente não é nada comparado aos seus últimos feitos. Devo dizer que sou um grande fã e minha aposta está em você nessa noite, mas não conte para ninguém - disse de maneira cordial e brincalhona.

riu.

– Agradeço as palavras, mas é bom que Hamilton não ouça isso, do contrário poderá te acusar de anti-patriotismo – ele brincou, levando consideração que ambos os homens haviam nascido no Reino Unido.
– Lewis Hamilton é um ótimo automobilista, mas depois de Le Mans, acho que está claro quem merece o prêmio da noite.
– Fico honrado apenas com pela comparação a um nome como Hamilton, mas convenhamos que o difícil, na verdade, será tirar esse prêmio das mãos do Messi. Não está fácil pra mim esse ano, meu amigo.
– Devo que concordar com você nessa. Ainda assim, fica aqui minhas congratulações pela nomeação. Preciso ir para o backstage agora, mas aproveite a noite!

Assim que se despediram, tratou de ir atrás de um garçom para pegar outra bebida. Só assim para aquela noite entediante se tornar minimamente mais suportável.
Caminhava apressado pelo grande salão quando de repente e sem qualquer preparação prévia, seus olhos pousaram sobre uma figura feminina que conversava gesticulando animadamente com um homem mais velho. Seus músculos congelaram imediatamente e ele travou no lugar onde estava. Nem se ele quisesse se mover conseguiria, dada a surpresa que o paralisou diante daquela imagem tão inesperada. Aos poucos, toda a música e murmurinho que se faziam presentes foram ficando cada vez mais baixos até sumirem completamente na sua cabeça. Não era possível. Ele sentiu seu sangue arrefecer nas veias e a saliva secar da boca à medida que seus olhos analíticos fixaram-se na mulher. Precisou piscar algumas vezes apenas para garantir que o que via naquele momento não era fruto de uma alucinação projetada pela sua mente. Mas ele tinha certeza, era ela! Sua própria mente não seria capaz de criar uma imagem tão bela quanto àquela.
Nessa altura, poderia reconhecer em qualquer lugar e sob qualquer circunstância. Mesmo em meio a uma multidão incontável de pessoas, seus olhos iriam se magnetizar nela assim como um ímã atrai o ferro. Seu ar praticamente desapareceu dos pulmões, inicialmente, ainda pela surpresa que aquele momento carregava e, em seguida, por notar com detalhes o quão arrebatadoramente maravilhosa ela estava. E ele pensava que ela não poderia ficar mais bonita do que se lembrava. Maldição, … Essa mulher certamente seria a sua ruína.
O delicado vestido longo de seda azul marinho desenhava perfeitamente seu corpo, ressaltando convenientemente as curvas que ele desejou de imediato poder tocar. Busto, cintura, quadris. Como se aquela visão já não fosse teste suficiente para a sua sanidade, uma fenda nada discreta deixava à mostra um belo pedaço significativo de pele que ia até mais ou menos a metade de uma de suas coxas. Ele engoliu em seco. A elegância, beleza e sensualidade de naquele momento, não poderia jamais ser comparada a nada que já tinha visto. Seus lábios, pintados num provocativo batom vermelho escuro, movimentavam-se sedutoramente, mesmo sem se dar conta, enquanto ela falava e sorria. A cena toda parecia acontecer em câmera lenta diante dos olhos de e ele se sentiu levemente sufocado pela gola da camisa. Era como se a mulher puxasse um gatilho imaginário, pronta para disparar, dizimando todo e qualquer resquício de racionalidade que ainda lhe restava.
Como se percebesse que estava sendo observada tão intensamente, girou lentamente o pescoço e seus os olhos vagaram pelas pessoas ao seu redor até que subitamente cravaram-se nele. Seus olhares se encontraram e, de repente, eles estavam sozinhos no salão. Tudo ao redor transformou-se em um conjunto de borrões preto e branco meramente insignificantes. Ele precisou de alguns segundos para se recuperar do choque que foi ter o olhar dela sobre ele. Tão abrasador quanto na primeira vez que a viu.
O homem posicionado à frente de , que julgava conhecer, mas que agora não passava de um simples coadjuvante da cena, continuava falando animadamente com a mulher que não parecia mais estar ouvindo. Ela juntou as sobrancelhas e uma ruga de curiosidade formou-se no centro de sua testa. Sem conseguir se conter, ele abriu um sorriso em resposta, sentindo a necessidade de umedecer os lábios com a ponta da língua.
Caminhou a passos lentos, aproximando-se cada vez mais de , que ainda o encarava com um semblante de total confusão. Ele não podia evitar, sentia-se como um daqueles insetos que eram guiados inconscientemente pela luz. era a sua luz e ele seria conduzido até ela mesmo que isso resultasse na sua total destruição. Quando chegou próximo o suficiente, o senhor que a acompanhava pareceu reconhecê-lo e desviou seus olhos da mulher apenas por um segundo, para cumprimentá-lo.

, que prazer recebê-lo essa noite – o homem, que agora pôde identificar como sendo Dieter Zetsche, saudou-lhe cordialmente. Era ninguém menos que o CEO da Daimler, uma das empresas organizadoras do evento, fabricante de automóveis e acionista de marcas como Mercedes-Benz, Mitsubishi e Renault.
– Senhor Zetsche, o prazer é todo meu – reverenciou com um aceno de cabeça.
– Permita-me lhe apresentar, esta é , uma das responsáveis pela produção impecável do evento essa noite.

Era isso, então. A empresa de estava organizando a premiação. Não estava surpreso, ainda que impressionado.

– Senhorita , é um prazer – sem desviar seus olhos dos dela, pegou uma de suas mãos respeitosamente, depositando um beijo demorado na pele macia. Sentiu vibrar levemente sob seu toque antes de puxar o braço de volta para si.
é um dos indicados e favoritos ao prêmio de Atleta do Ano hoje – Dieter explicou à ela. pareceu vagamente surpresa.
– É mesmo? Bom, então nesse caso, desejo muito boa sorte, – ela disse sorrindo para , que precisou conter o impulso físico que sentiu de puxá-la para mais perto.
– Tenho pra mim que a disputa esse ano será uma das mais difíceis que já ocorreram – o mais velho começou dizendo. – Temos muitos nomes incríveis concorrendo, mas com as suas últimas vitórias, acredito que garanta uma boa vantagem, .
– Seria uma honra senhor Zetsche, mas acho que é muito otimismo da minha parte esperar vencer do melhor do mundo.
– Não seja modesto, . Não é como se você não tivesse conquistado inúmeros prêmios importantes no ano passado também. De qualquer forma, parabéns pela indicação. Preciso ir agora, sabe como é, muitas pessoas para cumprimentar ainda. , querida, muito obrigado por tudo novamente. Voltaremos a nos falar. Aproveitem a noite.

Os dois despediram-se educadamente do senhor, antes de voltarem a se fitar. Sustentaram o olhar um do outro por um breve momento e foi a primeira a quebrar o silêncio.

– Bom, aqui estamos novamente em um encontro inesperado. Seria essa uma enorme coincidência ou apenas má sorte? – ela sorriu.
– Definitivamente má sorte, mas acho que já estou começando a me acostumar a te encontrar em tais circunstâncias. Talvez isso queira nos dizer algo.

Ela tombou a cabeça levemente pro lado, divertida.

– O que eu diria é que você está me perseguindo, devo me preocupar?
– Você sempre deve se preocupar quando eu estou perto de você, – um sorriso pervertido brincou em seus lábios. – Nesse caso, entretanto, quem parece estar perseguindo alguém aqui é você. Ou não imaginou que eu pudesse ser um dos convidados da maior premiação esportiva do ano? Não acredito que me deu tão pouco crédito, acho que estou ofendido – brincou.
– Tudo bem, espertinho… – ela riu. – Para ser sincera, a responsável por esse evento era a , mas ela teve intoxicação alimentar e não pôde vir, me pediu de última hora para comparecer em seu lugar – ela explicou.
– Sendo assim, agradeça a por mim. Você não imagina o quanto a minha noite acaba de ficar mais interessante.
– Pode deixar, ela vai adorar saber que você aprecia sua indisposição – eles riram.
– Prêmio Laureus, huh? É um belo de um cliente, parabéns.
– Parcialmente, sim. Não conseguimos cem por cento da cota neste ano, estamos dividindo com outras duas empresas. Mas esperamos que isso mude no ano que vem. Por isso, minha presença essa noite acabou sendo indispensável.
– Imagino que sim. Certamente vão conseguir.

Ela agradeceu o incentivo.

– E você, Atleta do Ano? Está nervoso? – ela perguntou, encarando-o interessada.

Ele deu de ombros, torcendo o nariz em uma careta.

– Na verdade, não muito. Fui praticamente ameaçado pela minha assessora a estar aqui hoje. Não posso dizer que sou fã desse tipo de compromisso. É claro que se soubesse da sua presença antes, tanto esforço não seria necessário.
– Está tentando flertar comigo, ? – perguntou, sem conseguir conter o riso que escapou-lhe dos lábios.
– Depende, está funcionando?

Naquele instante, parou gentilmente um garçom que passava pelos dois com uma bandeja de champagne. Ele tomou uma taça para si e ofereceu a outra a que aceitou receosa.

– Eu estou trabalhando, não é certo beber – explicou.
– E desde quando você se preocupa com o que é certo a se fazer? – questionou ele, desafiador.
– Pensando por esse lado, até que você tem um ponto! – sorriu, movendo a taça na direção dos lábios, deliciando-se do conteúdo com um gole delicado. observava atento cada um dos movimento que ela fazia. A presença de incitava sua mente a agir como se estivesse sob efeito de entorpecentes. Achava incrível o que essa mulher era capaz fazer com ele. Normalmente, conseguia se controlar em qualquer situação sem perder a cabeça. Mas ao lado dela, suas emoções transbordavam de tal maneira que o assustava. Seu corpo se transformava em um maldito traidor da sua mente. Ele mal podia se lembrar dos motivos pelos quais precisava manter-se longe dela, já que tudo o que conseguia pensar era no quanto queria puxá-la para mais perto. – Quer parar de fazer isso? – ela pediu.

uniu as sobrancelhas, em dúvida.

– Fazer o que?
– Me olhar desse jeito, como se quisesse dizer alguma coisa – ela disse, fazendo ele soltar um riso grave.
– Desculpe, não consigo evitar. Talvez eu queira te dizer alguma coisa.
– Então, diga.

esperou. Mas como dizer tudo o que gostaria, sem assustá-la? Como dizer que não conseguia parar de pensar nela? Que ela o deixava totalmente desarmado diante da própria racionalidade? Como dizer que não importava o quanto ele tentasse afastá-la de sua mente, bastava um segundo ao seu lado para que se permitisse ser comandado por ela da maneira que a mulher bem entendesse? Ele estava perdido. Estava perdido e era um maldito covarde porque não seria capaz de dize-lhe absolutamente nada daquilo.
Não tinha percebido a respiração acelerada até que deu um passo em sua direção, obrigando-o a prender o ar de uma vez.

? – ele girou o pescoço num sobressalto em direção à voz que pronunciou seu nome, encontrando a figura de um menino na casa dos vinte anos sorrindo animado para ele. – Não acredito que é realmente você. Desculpe interromper, me chamo Andrew Baggett, também sou piloto, mas na categoria inaugural da NASCAR. Você é uma inspiração e um exemplo para mim, sou um grande fã.

sorriu em agradecimento, tentando se recuperar do susto e esforçando-se para não parecer ranzinza por ter sido interrompido por um desconhecido enquanto estava com .

– Muito obrigado, Andrew. Fico muito agradecido por seu apreço.
– Parabéns pela indicação de hoje, estou torcendo pra você. Será que se importaria de conversamos um pouco? Seria muito importante para mim ouvir umas dicas suas – o menino perguntou, ansioso.

encarou receoso, não desejando nem um pouco despedir-se dela ali, mas sabendo ao mesmo tempo que não deveria ser rude com o garoto. direcionou a ele um sorriso encorajador como resposta.

– Está tudo bem, eu preciso mesmo trabalhar. Nos vemos depois, – lançou-lhe uma piscadela inocente, antes de se dirigir para longe dali. Ele observou a figura da mulher se afastar, até o momento em que ela sumiu do seu campo de visão.

***


document.write(Serena) agradecia internamento o fato de que até então tudo estava seguindo conforme o planejado e toda a sua equipe fazia um excelente trabalho, sem nenhuma surpresa indesejada. Até aquele momento, a única surpresa com a qual precisou lidar foi a presença de no evento, mas ela não poderia de forma alguma qualificá-la como indesejada. Pelo contrário, no momento em que pôs seus olhos nele, ela o desejou como nunca antes pensou ser possível. Ele estava mesmo a personificação do pecado naqueles trajes, encarando-a como se pudesse comê-la viva bem ali. Sentia o corpo efervescer apenas com a lembrança.
Havia até se esquecido de que ainda estava com raiva dele pelo atrevimento do último contato que tiveram durante a corrida, pois quando os olhos intensos do homem faiscaram contra os seus, tudo o que ela conseguiu pensar foi em como ele era absolutamente ridículo de tão lindo.
Vez ou outra, enquanto caminhava pelo salão no objetivo de garantir que todas as responsabilidades do evento estivessem sendo devidamente cumpridas, se pegava espiando ou buscando por ele dentre a multidão. Em alguns momentos, encontrava o rapaz conversando distraidamente com alguém. Em outros, seus olhares se cruzavam. Sempre que isso acontecia, ela mal conseguia conter o súbito aumento de sua frequência cardíaca que a denunciava traiçoeiramente.
Num período de intervalo entre uma categoria de premiação e outra, aguardava satisfeita por ver o cronograma sendo cumprido sem nenhum tipo de contratempo. Faltavam apenas três anunciações até o último prêmio da noite, no caso, o prêmio que disputava.
Recebeu algumas mensagens de , questionando se tudo estava correndo bem. Sabia que a amiga estava triste por não poder estar presente no evento de um dos clientes pelo qual praticamente deu sangue para conseguir, então fez o possível para animá-la com as boas notícias. Sem pensar muito bem, também passou-lhe o recado de , sabendo que isso iria diverti-la.

"O QUE? Não acredito que aquele pedaço de mal caminho está aí. Meu Deus, quase valeu a pena ficar doente. Adoraria ver a sua cara! Não me decepcione, , seja boazinha com o rapaz! Será que se ele ganhar vai mencioná-la no discurso? Ai meu Deus, seria tão romântico! <3 - "

gargalhou, como sempre, com a empolgação da amiga. Era cômico como era praticamente tudo o que ela própria não era.
Apoiada com a lateral do corpo no balcão do bar, a mulher assistia a banda contratada embalar em uma nova canção lenta desconhecida. Talvez fosse alguma do The Cranberries, não saberia dizer, mas alguns convidados dançavam em pares no centro da pista. Tomou mais um gole moderado do champagne que segurava, quando sentiu um sopro ecoar contra o seu ouvido, anunciando inesperadamente o tom grave da voz que foi responsável por arrepiar-lhe todos os pelos da nuca.

– Você está absolutamente linda hoje! – ela virou o rosto, deparando-se com os olhos de bem próximos aos seus. Eles pareciam brilhar em chamas, assim como absolutamente tudo nele. O perfume amadeirado do rapaz preencheu suas narinas subitamente e ela sentiu a cabeça girar. – Desculpe, queria dizer isso desde o momento em que coloquei meus olhos em você essa noite.

sorriu satisfeita com a confissão.

– Você também não está nada mal – admitiu.

Ele estendeu uma de suas mãos até ela, a palma virada para cima.

– Me dê a sua mão! – pediu. Ela cerrou os olhos, desconfiada.
– Não. Pra que? – questionou, fazendo bufar em sinal de impaciência.
– Eu não estou te pedindo para casar comigo, , estou apenas tentando te convidar para dançar. Me dê logo a droga da sua mão – apesar da ordem, seu semblante era doce e riu, ponderando por um momento, antes de ceder e entrelaçar seus dedos aos dele.

Ele a guiou segura e lentamente até a pista de dança, girando-a em um movimento preciso antes de encaixar suas mãos na curva da cintura da mulher. Ela sorriu, tentando ignorar o calor que sentiu em virtude do formigamento presente no pedaço de pele onde ele tocava. Encaixou as duas mãos atrás do pescoço de , adicionando outra qualidade à personalidade do corredor: ele sabia conduzir perfeitamente bem. Mesmo na iluminação baixa, seus olhos pareciam vidrados nela.

– Quer dizer então que hoje é você quem vai dar as ordens, ? – ela perguntou, provocativa. Por uns segundos a mente de fervilhou com a possibilidade de obedecendo suas ordens. E ele tinha algumas ideias bem específicas do que gostaria de ordenar a ela.
– Bom, hoje estamos no meu ambiente, então isso conta pontos ao meu favor, não?
– Tecnicamente, o ambiente é meu, já que a minha empresa foi responsável por ele. Em parte.

sorriu, sendo incapaz de conter o impulso que o fez levar uma das mãos até o cabelo de , afastando os fios calmamente do pescoço. Ele afundou seu nariz no local, aspirando o perfume da mulher em um torturante caminho que ia da ponta da orelha até os ombros descobertos de , finalmente alimentando o vício no gesto que desejou fazer desde o início da noite. Ela sentiu toda a sua pele se arrepiar com o toque mais íntimo.

– E se, apenas essa noite, ninguém precisasse dar ordens? – ele perguntou, a voz abafada contra a sua clavícula, levemente mais rouca em razão do desejo que fazia seu corpo doer. percebeu o coração acelerar perigosamente contra o peito.
– Uma trégua?
– Uma trégua.

Ela suspirou, sentindo ele encaixar os lábios quentes na curva do seu pescoço, depositando um beijo demorado ali. Precisou agarrar-se um pouco mais forte aos ombros de , do contrário, perderia o equilíbrio.

– Eu posso lidar com uma trégua.

Os dois moviam-se lentamente ao som da música, os corpos encaixados de tal maneira que a fez se questionar como era possível sentir-se tão parte de alguém como naquele momento. Definitivamente, aquela sensação era algo totalmente novo para ela.

– Você acredita em destino? – ele perguntou, fazendo refletir por um momento.
– Não – disse, simplesmente.
– Por que não?
– Acho que não gosto da ideia de não controlar a minha própria vida.
– Você não controlou nosso encontro hoje e, ainda assim, cá estamos – ele afastou-se minimamente apenas para fitá-la nos olhos. deixou escapar um sorrisinho.
– Está querendo dizer que estávamos destinados a nos encontrar hoje?

deu de ombros.

– Talvez. Eu quase desisti de vir hoje, mas aparentemente, às vezes, os momentos em que não esperamos nada acabam sendo os que têm maior importância.
– Eu acho que as pessoas acreditam naquilo que esperam que seja verdade. É mais fácil acreditar no que desejamos com ardor.
– No que você acredita? – ele perguntou. Os olhos de pareciam querer decifrar cada segredo de sua alma e por um breve momento sentiu-se exposta, como se ele pudesse ler cada um de seus pensamentos. O que mais a assustou, no entanto, foi que, pela primeira vez, ela não quis fugir.
– Eu acredito que a vida é uma sucessão de acontecimentos sem relação causal, mas isso não faz dos momentos menos importantes. Algumas pessoas simplesmente são corajosas o suficiente para irem atrás daquilo que desejam. Quando uma coisa dá errado, é muito fácil culpar o destino, porque é mais fácil simplesmente aceitar e desistir do que lutar por aquilo que se quer. Se estamos dançando agora é porque você tomou a decisão de me convidar e eu a de aceitar. Isso não faz o momento ser menos especial do que se fosse uma força desconhecida maestrando tudo isso, na verdade, isso faz ser ainda mais especial – a escutava atentamente, como se ela fosse o quebra-cabeça mais complexo que ele estava obcecado para decifrar. – Eu acredito que esperar que a vida seja sempre dirigida por algo que está fora da nossa capacidade de ação nada mais é do que destruir toda a possibilidade de vida.

sorriu, admirado. Naquele momento, ele percebeu que não havia mais como tentar manter-se longe dela. Não havia mais medo de acabar com o coração partido. Na verdade, seria um privilégio ter seu coração partido por . A ideia de não tê-la para si era desesperadora e sufocante para que ele pudesse aguentar. Como poderia uma noite tão indesejada tornar-se, de repente, algo pelo qual ele trocaria o resto dos seus dias, apenas para senti-la ali com ele? Não queria soltá-la, não seria nem mesmo capaz de soltá-la. Mais que qualquer coisa no mundo, queria provar os lábios dela contra os seus novamente. Queria se embriagar com o perfume floral que ela usava, que ele apreciava com tanta devoção. De repente, precisou lutar desesperadamente para encontrar a força e o controle necessários para não acabar de uma vez com o espaço entre os dois. Como era possível que ao lado de , ele passasse a se sentir como um menino de treze anos no primeiro encontro de sua vida?

– O que foi? – ela perguntou, encarando-o desconfiada.
– Você me deixa nervoso – admitiu.

Com um sorriso brincando nos lábios, arqueou a sobrancelha, numa falsa indignação.

– Eu te deixo nervoso? Por quê?
– Você parece ter todas as respostas.
– Num geral, eu tenho – ela gargalhou, convencida. Seus dedos alcançaram a nuca de , num carinho inocente que o obrigou a fechar os olhos. Ela notou um singelo e quase imperceptível sorriso surgir em seus lábios. Céus, ele era lindo. Cada miserável centímetro da sua face era merecedor de admiração.

Quando ele abriu os olhos novamente, suas íris brilhavam tanto que simplesmente não conseguia desviar o olhar. Sentiu um frio subir por sua espinha.

– Ainda acho que é um erro me aproximar demais de você, mas, mesmo sabendo disso, não consigo me conter – ele disse seguro, os olhos fixados profundamente nela, como se tivesse acabado de contar-lhe um segredo que há muito o atormentava.

sentiu o coração vibrar e, sem perceber, estava puxando-o para mais perto.

– Às vezes nós fazemos coisas que sabemos que são erradas, mas que, de alguma maneira, também parecem certas.

Quando estavam prestes a encostarem os lábios, esquecendo-se completamente de onde se encontravam, uma nova interrupção fez xingar mentalmente todos os palavrões conhecidos do seu vocabulário.

? Desculpe, ai meu Deus. Eu sou muito sua fã. Não acredito que te encontrei aqui. Me perdoe, não quis interromper, mas poderia tirar uma foto comigo?

Ele desejou negar apenas pela inconveniência, mas sabia que nesse tipo de evento era mais propício coisas assim acontecerem. E esse era só mais um dos motivos pelos quais ele odiava essas premiações.

– Hm, claro! – respondeu, afastando-se de a contragosto para, em seguida, tirar uma selfie com a moça que agradeceu-lhe repetidamente.

Quando ela se afastou, ria divertida.

– Por acaso eu entrei em alguma realidade paralela onde você é realmente famoso?

Ele revirou os olhos, fazendo uma careta como resposta ao uso do termo. Na mesma hora ela percebeu que a atenção não era algo que ele gostava.

– Vamos embora daqui! – ele pediu, os olhos carregados de expectativa. franziu o cenho.
– Como assim? Por quê? – perguntou confusa.
– Porque eu corro sério risco de perder a cabeça e arruinar a minha carreira se alguém ousar nos interromper novamente. Preciso ficar sozinho com você agora ou irei enlouquecer – novamente, seu olhar sobre ela parecia querer queimá-la. A imposição de suas palavras, colocadas de maneira autoritária e assertiva fez algo no estômago de se revirar.
– Mas o prêmio da sua indicação ainda não aconteceu – ela lembrou-lhe.
– Eu não me importo.
– Mas e se você ganhar e não estiver aqui?
– Eu não me importo.
– Se a sua assessora descobrir ela irá te matar.

riu. Aquela sim era uma verdade, mas, novamente, não importava.

– Permita-me explicar claramente o que acontece aqui, ... não há absolutamente nenhuma condição, acontecimento ou obrigação que vá importar mais pra mim nesse instante do que estar a sós com você. Fica ao seu critério!

pensou por um momento, mordendo a lateral dos lábios em sinal de hesitação. Ela fez uma breve análise de . Ela poderia ir embora, afinal, todo o trabalho já estava perfeitamente encaminhado e correria bem sem ela. Enquanto ponderava, levou uma das mãos até a lateral de seu rosto, tocando-a em um leve carinho na bochecha e encostou delicadamente o polegar no contorno de seus lábios. Ela fechou os olhos, sentindo apele arder. O simples contato fez todo o seu corpo parecer se incendiar. Quando abriu, estava decidida.

– Vamos!

***


document.write(Oliver), deixou o maxilar cair um pouco. Não apenas porque o carro era lindo ou caro - o que de fato era, mas ela definitivamente não se importava muito com aquilo. Sua admiração se deu simplesmente porque imaginou como deveria ser incrível dirigir um veículo como aquele. Obviamente ela não entendia muito de carros, mas presumiu que a potência do motor poderia facilmente atingir os 300 km/h. Só a ideia fez uma ansiedade surgir dentro de si.
, como se soubesse exatamente no que ela pensava, soltou um riso grave, chamando sua atenção.

– Gostaria que você olhasse pra mim do mesmo jeito que olha para o meu carro – disse, fazendo sorrir.
– Desculpe, é só que… uau!
– Gostaria de dirigir? – ele perguntou e a mulher arregalou levemente os olhos.
– Está falando sério? – ele não podia estar falando sério.

Como resposta, jogou a chave pra ela, que pegou o objeto no ar ainda boquiaberta.

– Só tente não nos matar, por favor! – ele lançou-lhe uma piscadela, antes de dar a volta no veículo, direcionando-se até banco do passageiro.

piscou algumas vezes em completo choque. Normalmente homens não eram tão bonzinhos quando o assunto era outras pessoas dirigindo seus carros - em especial, mulheres dirigindo seus carros. Apesar de achar aquilo absolutamente ridículo, ela até poderia entender se o carro fosse aquele carro! Provavelmente se ela tivesse um carro como aquele, também não deixaria outras pessoas chegarem perto. Mas não. mal a conhecia e estava tranquilo com a ideia dela dirigir seu carro? Não sabia muito bem qual conclusão tirar daquilo. Ele realmente conseguia quebrar todas as suas expectativas.
Achou melhor entrar logo no veículo, antes que ele pudesse se arrepender. Por dentro, era tudo tão incrível quanto por fora. Bancos de couro e o painel mais moderno que ela já tinha visto fizeram com que se sentisse levemente insegura.

– O seu gosto por automóveis e motos é provavelmente a coisa mais sexy em você, se é que é possível escolher apenas uma.

revirou os olhos, mas mesmo assim deixou escapar um sorriso.

– Não é exatamente por qualquer automóvel. Está mais para um gosto por velocidade – explicou, enquanto ajeitava os espelhos.
– Mesmo assim, eu amo esse seu olhar.

Ela o encarou de rabo de olho, com um sorriso levemente pervertido pairando nos lábios. Era verdade que não conseguia escolher apenas uma coisa que mais gostava na mulher, mas com certeza percebia como seus olhos ganhavam um brilho extra em situações como aquela e isso o deixava realmente louco. Havia presenciado essa reação alguma vezes desde que a conhecera: logo na primeira vez em que a viu, dançando na chuva, em cima da marquise da boate. Em seguida na corrida que competiram um contra o outro e, por último, na competição que ela disputou apenas há poucos dias. Hoje, novamente, o brilho estava lá. Faiscando em excitação e euforia. Completamente arrebatador. Apenas agora ele percebia que gostava tanto daquele brilho diferente no olhar de simplesmente porque eles despertavam-lhe identificação. Não apenas por ela própria, como se ela tivesse finalmente baixado a guarda e permitido que ele lhe conhecesse mais a fundo, mas também identificação com ele próprio. Porque era exatamente assim que ele também se sentia, quando estava prestes a competir. Era como se pudesse perceber que eles, na verdade, eram mais parecidos do que poderiam imaginar.

– Pronto? – ela perguntou, prestes a dar partida no carro.
– Apenas se você tiver.

sorriu, acelerando em seguida.
Infelizmente, alguns carros ainda circulavam pelas ruas de Chicago, apesar de já ser tarde, impedindo-a de exceder um pouco mais o limite de velocidade. É claro que também não seria nada legal tomar uma multa no nome de . Mesmo assim, a sensação ainda era boa. Em algumas retas mais vazias, ela se permitia acelerar um pouco mais. O carro praticamente deslizava sob o asfalto e obedecia seus comandos facilmente. Decidiu ali que um dia se daria o luxo de comprar um daqueles, como seu próprio prazer egocentrista.
Compartilhavam um silêncio confortável dentro do espaço limitado. parecia tranquilo ao seu lado, olhava distraído pela janela, vez o outra a guiando por um caminho desconhecido. Tomada por uma curiosidade nada usual - porque num geral outras pessoas pouco lhe interessavam - ela sentiu vontade de perguntar pra ele:

– O que fez você migrar da Moto GP para a NASCAR? – ele a encarou, tentando interpretar o motivo por trás da pergunta. – Tem a ver com o cara do outro dia, não tem? Sebastian Reeves? O que aconteceu?

deu de ombros, como se não fosse nada demais. Mesmo sem saber o motivo, tinha certeza de que ele estava tentando minimizar a importância daquilo.

– Sim e não. A fórmula 1 sempre foi a minha prioridade e maior interesse. Mas é um esporte mais difícil de entrar, muito mais competitivo e bem mais caro também para se treinar sem patrocínio. Eu gostava de competir no Grand Prix, mas foi muito mais importante para que eu pudesse fazer contatos.
– E onde Reeves entra nisso? – insistiu. apertou o maxilar e ficou ainda mais curiosa para saber a história toda.
– Por que o interesse? – questionou, com um pouco menos de paciência. também começou a ficar irritada com a atitude evasiva do corredor.
– Porque se você vai agir como se tivesse qualquer direito de mandar em mim, eu pelo menos mereço saber o motivo. Acredito que você me deve no mínimo uma explicação.

De repente, percebeu a raiva daquele dia voltar a ela. não estava muito diferente.

– Eu não te devo absolutamente nada – disse, o tom de voz completamente frio e indiferente. O oposto do que ela estava acostumada. Era a primeira vez que ele reagia dessa forma com ela e percebeu imediatamente que não tinha gostado.
– Tudo bem – deu de ombros, fazendo encará-la com os olhos cerrados. Desde quando desistia assim tão rápido das discussões? – Se você vai ser idiota quanto a isso e não vai me contar, talvez eu pergunte diretamente pra ele. Ainda tenho o cartão.

contraiu os músculos e cerrou a mandíbula.

– Revees não é um cara legal, . Não pense que as intenções dele são puras e boas.
– Como poderei julgar se eu não sei o que aconteceu? Se não posso confiar em você para me falar, ouvir o outro lado da história pode ser o suficiente.

Ele bufou, impaciente. era mesmo uma menina mimada e atrevida. Seria possível que não pudesse pelo menos uma vez na vida deixar um assunto pra lá?

– Você não vai mesmo desistir, não é? – disse e observou o olhar de censura do homem. Merda, ele conseguia ficar ainda mais gostoso quando estava com raiva.
– Não.

Ele soltou um riso irônico, respirando fundo algumas vezes em seguida.

– Reeves já foi meu treinador, logo quando comecei nas competições oficiais de Moto GP – disse, fazendo fitá-lo surpresa. Lembrava-se que o clima entre e Sebastian era de tanta hostilidade que ela imaginaria o oposto. – Na época, ele estava frustrado porque tinha acabado de sofrer um acidente que o obrigou a se afastar das pistas e, por isso, fez uma coisa muito errada. Tão errada que foi o suficiente para me fazer abandonar a temporada. Àquela altura, já tinha muito dinheiro e contratos envolvidos, então é claro que ele ficou puto e até hoje não me perdoou pela decisão. Não que eu espere ou deseje seu perdão. Acredite, aquele homem não merece que eu gaste nem o mais desprezível dos meus pensamentos com ele.

pensou por um momento. Parecia uma boa explicação, ainda que não completa. Continuava curiosa a respeito do que tinha de fato acontecido naquela temporada.

– E você não vai me contar o que ele fez?
– Um dia. Não agora porque, na verdade, nós chegamos – disse, apontando com o dedo indicador para um prédio de arquitetura baixa logo a frente na rua.
– Seu apartamento?

– Sim. Imaginei que se você gostou desse carro, talvez quisesse ver os outros.

Eles se entreolharam e piscou, fazendo-a sorrir. Sabia que aquela parecia uma desculpa bem imbecil para se levar uma mulher até a própria casa, exceto que no caso deles, não era. Ela sabia que genuinamente pensou que ela iria gostar de ver os carros que ele, sendo um piloto famoso, possuía. Bom, ele não estava nem um pouco errado. De qualquer forma, não era como se ela não quisesse ver outras coisas também.
Quando estacionaram na vaga que ele indicou e desceram do carro, se sentiu ainda mais animada. Toda a tensão da recém-discussão simplesmente evaporou. Ela parecia ter entrado em uma concessionária de primeiro mundo ou, talvez, num daqueles festivais para amantes e colecionadores de automóveis. Não eram muitos, tinha cinco carros ali, mas ainda assim, todos eram de cair o queixo. Não saberia dizer qual era o mais bonito, ou qual parecia ser o mais rápido. Eram todos bem incríveis.

– São todos seus? – ela perguntou, vendo assentir.
– Todos os dessa parte, sim. Aqueles lá pertencem aos outros moradores. Esses dois eu ganhei de patrocinadores – ele indicou dois dos veículos com os dedos. – E esses aqui já ficavam em Chicago antes de eu me mudar.
– Imagino que em sua casa na França deva ter mais? – ela perguntou e sorriu envergonhado, olhando para os pés. sentiu um impulso desconhecido que a fez querer apertar as bochechas dele e isso a desconcertou por um momento. O que raios estava acontecendo com ela?
– Tem bem mais do que isso lá. Não me orgulho, é o meu guilty pleasure. E não pense que sou um esbanjador babaca – disse, fazendo sorrir.
– Não penso. Não é apenas o seu trabalho, é também a sua paixão. Por isso é tão bom no que faz.
– É a minha única paixão. E cartas de baralho, é claro!
– Cartas de baralho? – ela perguntou, divertida.
– Sim, eu amo comprar decks novos. Tenho uma coleção de pelo menos uns cem. Dos mais vagabundos aos mais caros. Mas parte deles estão em Le Mans também – lamentou.

achou graça, entretanto.

– É um interesse bem excêntrico. Eu tenho uma coleção de livros… Bom, na realidade de um só livro. O Mágico de Oz – contou, enquanto caminhava por entre a pequena fileira de carros na garagem.
– Você tem uma coleção de edições de O Mágico de Oz? – ele questionou curioso, observando assentir um pouco envergonhada
– Sim, tenho trinta e dois livros, pra ser mais específica – alargou os olhos em surpresa, fazendo sorrir. – O Mágico de Oz é possivelmente uma das séries existentes com o maior número de edições já publicadas, sabia? Os livros originais possuem quatorze histórias diferentes, algumas são bem raras. Cada uma delas deve ter sido publicada pelo menos umas dez vezes. Os mais famosos, bem mais do que isso. Como os livros são de 1.900, são mais de cem anos de publicações. Não sei se um dia vou conseguir completar e mesmo que eu conseguisse encontrar todas, a primeira edição do primeiro livro custa uns cinquenta mil dólares.
– Eu não sabia disso, é bem interessante na verdade – ele disse, sincero. – Algum motivo especial pela preferência?

deu um sorriso triste, desviando o olhar de antes de voltar a falar, fingindo estar distraída com a atenção presa nos carros.

– Minha mãe lia para mim quando eu era criança. É uma das memórias mais vivas que eu tenho dela, já que eu era muito nova quando… aconteceu – percebeu que ela voluntariamente evitou usar outro termo ali e isso fez seu coração apertar tristemente. – Muito do que eu me lembro sobre ela não tenho como garantir se são realmente lembranças ou apenas imaginação da minha mente, sabe? Mas isso, eu tenho certeza. Ela lia pra mim quase todos os dias antes de dormir, mesmo quando já estava muito doente. Depois de um tempo, eu comecei a ler pra ela. Na verdade, eu já tinha todas as frases decoradas – sorriu doce com a lembrança, ainda sem encará-lo. Mesmo sentindo um nó na garganta, sorriu junto. – Ela tinha uma edição bem antiga, verde musgo com as letras amarelas. O livro tinha sido passado da minha bisavó para a minha avó e depois da minha avó para a minha mãe. Infelizmente essa edição acabou se perdendo – percebeu seus olhos escurecerem e ele soube que tinha algo na história que ela estava omitindo. O tom de era tão triste que se tornava quase que completamente esmagador para ele aguentar. Sentia como se seu coração estivesse prestes a se romper. – Enfim, tenho procurado a edição correta, mas é mais difícil do que pensei. No fim, acabou se tornando uma pequena coleção que me faz lembrar dela.

Antes que fizesse menção de chorar, respirou fundo, levantando o rosto com seu semblante já recuperado. Um sorriso forçado pairando nos lábios.
Ele queria abraçá-la. Queria acolher sua dor e alinhá-la em seus braços, dizendo que tudo ficaria bem. Queria levar seu sofrimento embora. Mas sabia que ela não se sentiria confortável de compartilhar esse tipo de intimidade física com ele. Pelo menos não ainda. E sabia que não gostava de demonstrar vulnerabilidade. Por isso, ele tentou apenas transmitir toda a sua verdade e tudo o que sentia quando soltou um baixo "Eu sinto muito". E ele sentia. Sentia por ela precisar passar por essa perda ainda tão nova. Sentia por não poder protegê-la da dor.

– Está tudo bem, foi há muito tempo – mentiu, tentando não dar a devida importância àquilo, domando novamente seus sentimentos atrás da armadura que sempre vestiu. – Mas então, qual é o seu preferido? – ela perguntou, indicando com a cabeça os carros logo à frente.

Percebendo seu desejo em mudar de assunto, não precisou pensar para respondê-la.

– A Mclaren, com certeza – respondeu, indicando com o dedo um carro vermelho que fez se lembrar daqueles modelos usados pela franquia Velozes e Furiosos. Ou, talvez, um Transformers disfarçado. Pra ela, não era o mais bonito, mas parecia ser o mais veloz e, de fato, era o que mais chamava atenção ali. – É uma escolha difícil, mas esse foi o primeiro carro que eu comprei com o meu dinheiro. Foram anos de economia até conseguir finalmente investir nessa belezura. Os modelos da Mclaren são considerados os mais rápidos do mundo, podem chegar até 450 km/h.
– Uau! – exclamou. – Talvez você me deixe dirigir um dia.
– Talvez.

Eles se entreolharam. então caminhou em sua direção a passos firmes. Quando chegou próxima o suficiente, espalmou as duas mãos no abdômen de , sentindo ele se contrair sob o toque. Lentamente, levou os lábios até a altura do ouvido de , sussurrando sedutoramente:

– Talvez agora você queria me levar lá pra cima.

Ele sentiu todo o seu corpo vibrar, sendo obrigado a apertar fortemente a lateral da cintura de .

– Talvez.

***


A mulher observava o apartamento de com curiosidade. Era um pouco mais amplo do que o dela e o de , ou talvez fosse apenas impressão, dado que não possuía muitos móveis no seu interior. Todo decorado em tons de preto, branco e vermelho, a sala espaçosa contava apenas com um grande sofá e um painel com televisão. Algumas caixas ainda estavam empilhadas nos cantos.
Em uma das paredes, ela estudava com interesse uma fileira de troféus alinhados nas prateleiras. Tinha diferentes prêmios de primeiro, segundo e terceiro lugar, mas ela notou uma quantidade muito maior dos de primeira colocação. <
br>– Nossa, tem um troféu aqui de 1997 – exclamou, surpresa. – Quantos anos você tinha?

caminhou até ela, oferecendo-lhe uma taça com um drink que tinha acabado de preparar.

– Tinha sete anos. Foi uma corrida de kart.
– Aos sete anos, minha maior façanha provavelmente foi comer terra.

Ele gargalhou.

– Comer terra é uma ótima façanha. Uma vez em um acampamento de verão eu ganhei um concurso de quem comia mais torta de morango. Até hoje fico enjoado quando vejo uma daquelas.

Foi a vez de rir alto.

– Sabe… um dia ainda ganho de você em uma corrida – ela arqueou uma sobrancelha, fazendo o rapaz sorrir novamente.
– Não duvido.
– Estou falando sério! – ela reforçou, cruzando os braços na frente do corpo.
– Eu também estou.

Ela o observou por alguns segundos, analisando suas intenções um pouco melhor.

– E você também estava falando sério quando disse que me treinaria para o Moto GP. Digo, você realmente faria isso?

a estudou. Certamente não iria gostar nem um pouco de saber que ele treinaria a sua irmãzinha para uma competição como àquela. Não que as que participou anteriormente tenham sido menos perigosas, mas no Grand Prix as coisas com certeza seriam mais competitivas. Conhecendo , entretanto, sabia que ela iria dar um jeito de entrar sozinha, então melhor que fosse sob a sua supervisão, certo? E, de preferência, bem longe dos olhos de Sebastian Reeves.

– Se você realmente quiser...

ingeriu um gole da bebida que segurava, antes de responder convicta:

– Eu quero.
– Então eu treino. Mas saiba que isso não é brincadeira. Esse não é o tipo de competição que você pode simplesmente fazer o que te dá na telha. Você terá que me ouvir e me obedecer, independente do que eu disser, do contrário, nada feito. Consegue se comprometer com isso?

Ela rolou os olhos, como uma garotinha mimada.

– Não vou mentir dizendo que vai ser fácil, mas prometo que farei o possível – ela riu.

estendeu o copo até ela.

– Então, temos um acordo?

encostou sua taça na dele, em um brinde.

– Temos um acordo!
– E eu não quero estar perto quando você contar para o .

Ambos gargalharam, sabendo que aquilo realmente não seria nada agradável.
Novamente, se pegou observando a coleção de troféus de . Eram muitos e, mesmo assim, sabia que não eram todos. Sentiu vontade de assistir ele competir pra valer um dia. Não acompanhava muito corridas de Fórmula 1, mas algo lhe dizia que dali pra frente elas se tornariam um grande interesse seu. Só havia visto pilotando uma vez e lembrava-se do quanto ele parecia seguro e experiente lá. E ainda mais gostoso, se é que isso era possível. Acreditava que atrás do volante de um carro, ele deveria ser ainda mais impressionante. Lembrou-se das pessoas elogiando-o mais cedo no evento, como se realmente o admirassem e o respeitassem como profissional. Bom, não era difícil admirar .

– No que está pensando? – ele perguntou, curioso, com os olhos fixos nela.
– Estava imaginando se você foi o vencedor do prêmio no evento de hoje – disse, fazendo rir.
– Talvez seja melhor não pensar nisso.

Quando as risadas cessaram, ela demorou alguns segundos para cortar o silêncio.

– E se, para compensar, eu te desse um outro prêmio hoje? – perguntou, provocativa. arqueou uma sobrancelha, a mente já entrando em combustão enquanto imaginava o que a mulher queria dizer com isso.

repousou sua taça sobre a prateleira, afastando-se lentamente de . Quando chegou próxima do balcão da cozinha, virou-se novamente para ele. Sua íris agora possuía um brilho quase animalesco, que fez precisar tomar um longo gole da bebida, seco de desejo. Sem que ele pudesse se preparar para o que vinha a seguir, levou calmamente as mãos até a lateral do seu vestido, abaixando o zíper de forma quase dolorosa. Seus dedos abriam lentamente a peça, expondo pouco a pouco a pele da lateral dos seios, passando pela costela, cintura e quadris… Os músculos de congelaram com a cena, assim como o seu raciocínio. Caralho.
A mulher o fitava com uma intensidade que ele não sabia se sustentava seu olhar ou se assistia ao que era possivelmente a imagem mais sensual e erótica que ele já havia visto em toda a sua vida. Seu coração batia fortemente contra o peito, que subia e descia com ferocidade. Ele sentiu a saliva secar da boca quando, num gesto final, deixou o vestido de seda deslizar pelo seu corpo, caindo de uma vez em volta dos pés, ainda de salto. Tudo parecia mover-se em câmera lenta.
praticamente viu vermelho. Seu sangue bombeou e, por um segundo, sentiu-se como um predador pronto para dar o bote. A imagem de parada diante dele, vestindo apenas um conjunto de lingerie de renda preta foi a gota final para a sua sanidade, transbordando ali todo o desejo que sentiu por ela desde o momento em que seus olhares se cruzaram pela primeira vez.
Seus braços tremiam com a adrenalina e quando seu cérebro foi finalmente capaz de processar o que acontecia, ele rosnou, como um animal, antes de acabar de vez com o maldito espaço entre os dois. Não saberia dizer quem buscou o outro primeiro, mas quando suas bocas se encontraram, num choque quase brutal, foi como uma catarse física explodindo em volta deles.
agarrou violentamente os cabelos de que, num impulso, suspendeu-se no ar com as pernas entrelaçadas ao redor da cintura de . Ele sustentou seu peso por um momento, antes de apoiá-la na superfície da bancada da cozinha, apenas porque queria ter as duas mãos livres para explorar o corpo que tanto o atormentou e o consumiu nas últimas semanas.
Ele devorava sua boca, fazendo ofegar contra o beijo. Ela passou os braços ao redor de seu pescoço, cravando as unhas fortemente em seus ombros. Ele não conseguia pensar em mais nada. era toda a sua mente, tudo o que existia e já existiu pra ele. Tomava-a tão profundamente com os lábios que chegava a doer, percebendo que seu gosto conseguia ser ainda melhor do que ele se lembrava. Suas línguas moviam-se numa sincronia assustadora, como se fizessem aquilo por anos e, ao mesmo tempo, desejando explorar cada pedaço desconhecido no outro.
Num ato de desespero, afrouxou a gravata de , jogando-a em qualquer lugar da sala e fazendo em seguida o mesmo com o colete e a camisa. Precisou se concentrar para não arrebentar todos os botões de uma vez com a urgência que sentia. Afastou-se por um breve momento, apenas para apreciar pela primeira vez a figura do homem sem camisa. A visão era a perdição. era capaz de tirá-la do seu estado de controle em uma fração de segundos.
Enraivecido pela distância, ele puxou novamente pra si, dessa vez, levando sua boca até o pescoço da mulher, trilhando um caminho de beijos e mordidas por toda a extensão da pele exposta. Orelha, clavícula, ombros… Ele sentia-se enlouquecido pelo sabor, o cheiro, a temperatura e textura de seu toque. Tudo parecia ter sido feito sob medida para ele. Ela havia sido feita para ele, não havia outra explicação para desejar tanto alguém quanto desejava aquela mulher. Cada gesto que fazia, cada frase que falava. Nem em suas melhores fantasias, seria capaz de criar alguém como . Buscou os lábios dela novamente, apertando seu traseiro com força. Ouviu ela gemer contra a sua própria boca e sentiu seu membro pulsar dolorosamente.
Ele a queria. Desejava possuir tudo de . Jamais sentiu seu sangue ferver daquela maneira. Tinha pressa, sede, urgência, ao mesmo tempo que queria prolongar aquele momento para que nunca tivesse fim.
Suas mãos deslizaram livremente até o fecho de abertura do sutiã de renda, liberando imediatamente os seus seios. Ele a observou com adoração, como a obra-prima mais preciosa existente no mundo. O desejo irrefreável e admiração completamente expressa no olhar.
desceu a boca por todo o colo de , fazendo a mulher arquear involuntariamente o corpo, completamente entregue. Os lábios entreabertos buscavam facilitar a entrada de ar, fazendo seu peito se encher e se esvaziar em desespero. A mão de agarrou com violência seus cabelos mais uma vez, puxando-os para traz. abocanhou um de seus seios, deliciando-se com o sabor de sua pele. Em resposta, pressionou seu corpo contra o dele, o máximo que ainda era possível. Estimulado, ele continuou provando o contorno perfeito da carne de seu seio, mordendo delicadamente o bico já duro de prazer. gemeu deliciosamente e sentiu todos os seus pelos arrepiarem-se com o som. A mulher conseguia atear fogo em cada átomo de seu ser.
Ele voltou a procurar os lábios dela, sendo recebido com a mesma voracidade. arranhava a pele exposta de suas costas e, com as mãos firmes, ele desceu lentamente por todo o desenho do corpo da mulher. Ombros, seios, cintura, bunda, puxando-a para si, pressionando seu pau com força contra a entrada da mulher. O lado selvagem de controlava todas as suas ações. Ele perdeu os sentidos, não precisava mais de ar, desde que pudesse explorar mais e mais de .
Quando seus dedos alcançaram o centro de suas pernas, ela se contorceu, pedindo por mais contato. Uma onda de prazer arrepiou o corpo de quando acariciou seu clitóris levemente, ainda por cima do tecido. Ela arfou contra a boca de .

– Diga pra mim o que você quer, .

Seu polegar brincava com o ponto mais sensível da mulher, enquanto um dos dedos acariciava sua entrada.

– Quero... você. Eu quero você. Eu preciso...

tremeu quando ouviu a voz entrecortada de script>document.write(Serena), pedindo por ele.

– Boa menina! – ele afastou sua calcinha para o lado, mergulhando dois dedos de uma vez na sua intimidade. Ela sufocou um gemido mais alto, prendendo o lábio inferior entre os dentes fortemente. Com a mão livre, tocou em sua boca, obrigando-a a liberar o pedaço de carne que prendia. – Não ouse me privar de seus gemidos essa noite. Quero ouvir você gritar. Quero ouvi-la perder a cabeça e gritar meu nome – sem aviso prévio, ele escorregou mais um dedo para dentro da mulher, começando a bombear com força.

Dessa vez, obedeceu, deixando escapar um grito que praticamente levou a beira da loucura. Com o polegar, ele fazia movimentos circulares numa pressão enlouquecedora, penetrando-a com os outros dedos. Ela estava tão molhada. Era tão quente e macia que ele imediatamente imaginou como seria estar completamente dentro dela. Queria senti-la por inteiro. Estava completamente consumido pelo desejo. era o inferno. Era o paraíso e ao mesmo tempo o inferno.
A mulher começou a mexer os quadris contra os dedos dele e foi incapaz de não sorrir em malícia e excitação. Ele aumentou a pressão e a velocidade das estocadas. Deliciava-se com o som de seus gemidos cada vez mais altos, perdida em luxúria. Apenas a imagem do semblante de completamente entregue ao prazer fez seu peito arder e seu membro latejar ainda mais. Quando percebeu que ela estava perto de atingir o ápice, a mulher segurou firmemente sua mão. não teve tempo de questionar se tinha algo errado, porque logo em seguida ela encostou os lábios em seu ouvido, sussurrando com uma voz sensual completamente embriagante.

– Eu quero gozar com você dentro de mim – disse, mordendo levemente o lóbulo de sua orelha. Foi a vez de deixar escapar um suspiro rouco tão sonoro quanto os dela. Ele não sabia quanto tempo ainda seria capaz de aguentar sem possuí-la.

Levou os dedos que há segundos estavam dentro dela até os lábios, provando o seu sabor, um sorriso provocativo brincando nos lábios. tremeu observando a cena com a certeza absoluta de que nunca havia visto nada tão erótico quanto aquilo.
Porra. O gosto doce e afrodisíaco da mulher tomou conta dos sentidos de e ele soube que poderia se alimentar apenas dela pelo resto da vida.

– Você é deliciosa, em todos os sentidos existentes da palavra.

voltou a grudar seus lábios, suas unhas desceram por todo o abdômen do rapaz, sentindo seus músculos se contraírem pelo toque. Posicionou os dedos na sua entrada, tocando seu membro por cima da calça. fechou os olhos, sem conseguir conter outro gemido baixo que lhe escapou.
Com uma lentidão torturante, abaixou seu zíper, empurrando para baixo o tecido da calça que ajudou a empurrar para longe. Ela mordeu os lábios, brincando com o elástico da boxer preta que vestia com um sorriso de falsa inocência. Ele abriu os olhos, a íris faiscaram sombriamente contra ela.

– Não me provoque, – advertiu, fazendo-a sorrir.
– Ou o quê? – provocou. Antes que ele pudesse responder, ela mordeu lentamente os lábios inferiores de , se livrando de vez da peça de roupa. – Vai me dar umas boas palmadas?

urrou, puxando brutalmente a mulher contra si. entrelaçou novamente as pernas ao redor da cintura de , que a levou de encontro a parede mais próxima, chocando sem delicadeza as costas da mulher. mal teve tempo de reclamar do impacto, quando outro ponto de dor se concentrou na lateral de sua cintura. O som de tecido se partindo preencheu seus ouvidos.

– Você acabou de rasgar a minha calcinha? – questionou, indignada. E ainda mais excitada do que achou que seria possível. gostava da dor, gostava que não a tratava como uma bonequinha de porcelana.
– Eu disse para não me provocar!

Ele tomou ferozmente a boca dela para si e, sem qualquer aviso prévio, invadiu de uma só vez. Ela gemeu longa e profundamente com a dor e prazer que tomou conta de si. Antes que ela pudesse se recuperar totalmente, ele saiu completamente de dentro dela, tornando a invadi-la ainda mais fundo. O ar desapareceu totalmente de seus pulmões e se não fosse por sustentando seu peso, pressionando-a contra a parede, certamente teria desabado.

– Droga, . Você é tão quente. Tão molhada e apertada... – ao sair novamente de dentro dela, tomou a pele do seu pescoço entre os dentes, mordendo o local sensualmente. Com uma força prazerosa, tornou a deslizar para dentro dela violentamente. gritou, a expressão mais fascinantemente sensual que ele já havia visto. – Você gosta disso, não gosta? Você gosta forte, quente… Você gosta da dor.

Os gemidos de já estavam incontroláveis, ela murmurava coisas sem sentido e se agarrava a ele como se sua vida dependesse disso.
Ele voltou a movimentar-se, dessa vez, numa velocidade quase desesperada. Fechou os olhos, delirante, enquanto entrava e saía de , preenchendo a mulher num movimento descontrolado e primitivo. Céus, não iria aguentar muito tempo.

– Não… não para! – ela suplicou, apertando os ombros de com a força que ainda lhe restava.

Ele estremecia involuntariamente, aproveitando a sensação inexplicável de finalmente estar dentro dela. Nunca nada foi tão prazeroso, não havia como controlar o desejo de tomá-la o mais profundo quanto fosse possível. Encostou sua testa na dela, agarrando-a ainda mais firme.

– Goze pra mim, – ordenou firmemente, percebendo todo o corpo da mulher se enrijecer enquanto o orgasmo se formava.

sorriu perverso e continuou a acelerar os movimentos, sentindo delirante pedindo por mais.

, eu vou.... eu vou… – sua voz se perdeu quando ele aumentou ainda mais o ritmo e a força das estocadas.
– Goze pra mim, linda. Agora!

Numa última entrada profunda dentro dela, o obedeceu. Seu corpo entrou em combustão, explodindo em prazer enquanto gritava o nome de . Ela tremeu descontroladamente por alguns segundos, estimulando o homem ainda mais, que estremeceu quando o orgasmo também lhe atingiu. Porra. Ele tinha certeza que nunca havia experimentado algo como aquilo.
Apertou em seus braços, que agora completamente relaxada, quase não conseguia manter as pernas firmes ao redor de . Ficaram assim por alguns segundos, enquanto acalmavam a respiração ofegante. Quando ele sentiu o corpo da mulher ficar ainda mais mole, caminhou calmamente com ela em seus braços até o quarto. Aninhou o corpo de delicadamente sobre a cama. Ela não reclamou, sorrindo pra ele de forma doce e fechando os olhos pesadamente em seguida.
Ele achava que já havia alcançado o ápice da noite, mas aquela imagem fez perder o fôlego de repente. Observar completamente suada, com os cabelos emaranhados e selvagens em volta do rosto, nua e completamente entregue em sua cama, esquentou seu peito de tal maneira que ele sabia que, dali pra frente, não seria mais o mesmo. tinha tomado para si uma parte de que ele jamais seria capaz de recuperar. Ao deitar-se do lado dela, tomando-a pela cintura com o braço, teve certeza de que nunca tinha se sentido assim antes. E aquela constatação era completamente assustadora.
Pegou no sono rapidamente, afundado no perfume delicioso da mulher que tinha se tornado o ponto de foco não convidado em seu mundo, sentindo-se inteiro possivelmente pela primeira vez na vida.
O que não esperava, entretanto, era o quão rápido o vazio iria voltar a preenchê-lo quando, ao acordar na manhã seguinte, se perceber completamente sozinho.

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¹ O Prêmio Laureus do Esporte Mundial (Laureus World Sports Awards) é um prêmio concedido anualmente aos esportistas de maior destaque durante o ano anterior. Criado em 1999 com o patrocínio e parceria da Mercedes-Benz, IWC Schaffhausen e Vodafone, a lista de nominados é ecionada por jornalistas esportivos de diversos países do mundo. As categorias de disputa são: Atleta feminina do ano, Atleta masculino do ano, Equipe do ano, Revelação do ano, Retorno do ano, Para-atleta do ano e Atleta de ação do ano. Dentre os esportes contemplados estão o futebol, basquete, atletismo, judô, tênis, ginástica, natação, boxe, skateboarding, automobilismo, dentre outros.
² Hugh Grant é um ator e produtor britânico que foi realmente o apresentador do Prêmio Laureus em 2020 :)




Continua...



Nota da autora: Genteeeee, o que dizer desse capítulo? Eu nem sei!!! 😱Até agora, esse foi o mais desafiador pra escrever, com certeza, mas também o meu preferido por motivos óbvios :x HAHAHAHHAH Queria dizer apenas que eu tô cada vez mais apaixonada por esse boy e eu quero um pra mim, é pedir muito? hahahahhaha
Foi o primeiro capítulo focado 100% nos dois e eu não queria que ficasse forçado nem massante, espero de verdade que vocês gostem! Agora o que o futuro espera pra esse casal…. muitas emoções ainda! Bem do jeitinho que a gente gosta!
Muito obrigada a todas vocês por lerem e, principalmente, por tirarem um tempinho para comentar. Sempre fico muito feliz e motivada com isso e é muito importante saber o que vocês estão achando!
No mais, gratidão novamente e qualquer coisa que precisarem é só me chamar! ♥
Beijosss e até a próxima atualização!



Nota de Beta: É pedir muito não, viu? Oliver Knight é tudo de bom. Adorei toda a demonstração de sentimentos dos dois, a tensão sexual na festa foi demais pra minha sanidade mental e quando chegaram ao "vamos ver"... Guria, que perfeição de cena, estava esperando por isso desde o início, mas foi surpreendente de todos os jeitos possíveis. E preciso comentar: Gostaria que você olhasse pra mim do mesmo jeito que olha para o meu carro, gente, eu ri demais quando ele falou isso, por que ela nem deu bola de verdade pra isso, adorei.
Quero mais capítulos recheados de surpresas assim, Yasmin. Perfeito demais.

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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