Última atualização:22/05/2020

Prólogo

T. S. Eliot, estava absolutamente errado.
O mundo não terminava nem com uma explosão, nem com um suspiro.
Ele terminava em dor.
Foi rápido, brutal. Como um corte de navalha. A dor lancinante se tornou todo seu mundo, se espalhando por seu corpo em uma velocidade vertiginosa. O simples ato de respirar enlouquecia suas sinapses nervosas. Tudo se tornou dor. Pungente. Excruciante. Desesperadora.
Que se repetia em um loop infinito, sem começo ou fim. Ela não sabia quanto tempo se passou. Se um minuto ou torturantes horas. Cada segundo se esticava como fios de seda prestes a se romper. Ela já não tinha forças para aguentar. Estava esgotada demais.
Se não fosse por sua morte iminente, teria percebido várias coisas. O vermelho que a rodeava a afogando pouco a pouco. A voz tomada pelo desespero que gritava seu nome. As mãos geladas que sacudiam seu corpo, em busca de algo, qualquer coisa.
Não breve o suficiente, seu corpo começou a sucumbir. Estava caindo feliz em um manto negro de esquecimento com ligeira dormência, mas sobretudo alívio. Não havia mais dor ou sofrimento. Tudo estava acabando. Ela estava acabando. Sumindo dessa existência, como flocos de neve derretendo ao sol.
Ela percebia a verdade agora, reconhecia quem a chamava, mas ela não podia voltar, mesmo que quisesse seguir sua voz.
Tudo estava acabado.


Capítulo 1

Érico Veríssimo disse: ‘Quando os ventos de mudança sopram, umas pessoas levantam barreiras, outras constroem moinhos de vento.’ Eu não sabia qual dessas pessoas eu me tornaria, a que levantava barreiras ou a que construía moinhos, eu esperava que no fim me tornasse a última.

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amava clichês. Em sua opinião eles tinham uma péssima fama. Mas, se bem escritos faziam histórias fantásticas. Seu gênero favorito era fantasia. Não poderia ser diferente ela amava histórias que fugiam à sua realidade ótima, porém monótona. A ideia de uma pessoa comum viver uma realidade fantástica ou ser jogado em algo assim era bastante atraente. Livros de fantasia urbana adolescente sempre pareciam começar da mesma maneira. Garota se muda para cidade do interior e conhece garoto misterioso que tinha um segredo com certeza bem sobrenatural ou garoto novo chega a cidade e tem um segredo… você entende a ideia. amava ler clichê, mas vivenciá-los não era algo tão agradável assim. E era isso o que a vida dela se tornou desde que seu pai recebeu uma promoção no trabalho.
Parecia estupidez não achar fantástica a ideia de mudar de país e viver o sonho americano sem ser barrado na fronteira ou correr qualquer risco de ser extraditado. Claro que ajudava o fato de seu pai ser um homem branco natural da Inglaterra e não outro latino. Em teoria era incrível, mas na prática era bem menos glamouroso do que parecia.
— Ei, tudo bem? — indagou seu irmão batendo levemente em seu ombro, desviando seus pensamentos para a realidade.
— Sim, sim, tudo bem. Falta muito para chegarmos?
— Pela hora... — começou olhando para o relógio. — menos de meia hora pelo menos.

Menos de meia hora...

Tudo aconteceu tão rápido. Em um momento sua vida era perfeitamente normal e ótima, muito obrigada. Família, amigos e o conforto de sua própria rotina, mas de um instante para o outro tudo isso foi arrancado; tudo o que ela conhecia, todos que ela conhecia de repente estariam a um oceano de distância.
Foi doloroso deixar tudo para trás. Sua família numerosa, com todos seus primos que adorava, sua amada avó, a escola que estudou a maior parte de sua vida e suas amigas queridas. Principalmente quando foi confrontada com a visão da casa em que cresceu, vazia, nua de tudo que poderia alegar como deles, quase chorou - algo que se recusou a fazer desde que recebeu a notícia.
Se fechasse os olhos, ainda poderia sentir seus dedos tocando as paredes pela última vez, respirar o aroma de alfazema que tanto ela associava com seu antigo lar, ver as antigas marcas de bola no quintal. Doía imaginar outra família morando naquela casa tão cheia de lembranças boas para ela. Essa foi a razão que a fez querer chorar mais: a despedida final de um longo e bom capítulo de sua vida. Algo que não voltaria.
Seus olhos arderam, ela respirou fundo para evitar as lágrimas. Tentando não chamar atenção para si, ela empurrou os ridículos óculos escuros no nariz. Em apenas um mês, tudo mudou e ela ainda estava lidando.
Quando recebeu a notícia que seu pai conseguiu um emprego nos Estados Unidos e que em razão disso todos iriam se mudar, a vontade de se rebelar e dizer que não iria foi grande. Era horrível abandonar o que tinham pelo desconhecido. Contudo, a esperança nos olhos de sua mãe ao ouvir a boa nova e a alegria do seu pai com a promoção a contiveram.
Como ela poderia fazer algo contra isso? Ir para Forks era o melhor para sua família em tantos sentidos, que a ideia de cogitar algo diferente disso a enchia de culpa. Mas racionalmente saber o que era melhor, não a fazia se sentir bem por deixar sua vida para trás. Não a fazia menos triste. Mas ela teria que lidar, afinal, qual era a alternativa?

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Depois que o avião pousou em Port Angeles, em pouco tempo todos estavam confinados em um carro de aluguel indo em direção à nova casa. ainda estava inconformada com sua (falta de) sorte em morar em uma cidade do interior, cujo o índice pluviométrico era maior que o da vila da chuva em Naruto. Tudo cortesia de uma antiga amiga de faculdade de sua mãe que cantou louvores da cidadezinha, mas conseguia ver a verdade: era tudo inconveniente.
Seus pais iam trabalhar em Seattle, o que garantiria maior tempo na estrada e custo com a gasolina para ambos. No entanto, a amiga (que devia ser da onça, para dar esse tipo de sugestão) vendeu a cidade como ‘muito econômica e pacífica’ com ‘ótimas escolas’ e os pais de caíram como patinhos.
Contudo, depois das várias horas de viagem em uma máquina pressurizada, de ter que lidar com as paradas em suas conexões e levar sua mochila em todos os cantos, como uma tartaruga; sem contar com a confusão de ter de lidar com um fuso horário zoado, ela estava moída demais e pronta para chegar em sua casa. Tanto era assim, que se mostrassem a ela um barraco e dessem um colchonete ela choraria de felicidade. Diferente da maioria das pessoas, seu cansaço com certeza diminuiu um pouco do seu mau humor e alguma da sua antipatia geral para o lugar.
Quando chegaram à frente do lugar onde iriam morar em Forks, o seu novo lar, foi mais fácil encarar e apreciar a beleza da casa e todo o cuidadoso trabalho de reforma que ela sabia que havia sido feito. Sua mãe passou semanas em Forks tendo a ajuda da sua amiga, que por sorte era decoradora e arquiteta.
A casa era linda por fora e por dentro. Havia tudo o que e sua mãe sempre comentavam querer, após assistir muito ‘Irmãos a Obra’ e outros programas do tipo no Discovery Home and Health. Elas sempre sonharam com o conceito aberto ou os móveis claros e planejados, contudo nunca houve dinheiro ou tempo suficiente para isso no Brasil.
e sua mãe eram pessoas muito diferentes, com gostos, sonhos e metas distintas. Havia até mesmo um pouco de falta de afinidade nelas, certo distanciamento. O fato dela ter passado boa parte de sua vida mais na casa da sua avó que em sua própria não ajudava. sempre admirou a mãe e o trabalho que ela exercia como essa figura distante, inalcançável e por isso mesmo inacessível. Ela nunca estaria à altura de uma super mulher como sua mãe e muito menos seria capaz de atender as expectativas dela.
Era frustrante.
Principalmente quando sua mãe parecia querer que entrasse em um molde que ela não cabia. Por isso, não foi uma grande surpresa quando seus hormônios adolescentes começaram a se fazer presentes em sua puberdade, a tornando rebelde e responsiva, que seu relacionamento tenha se deteriorado.
Então, em uma madrugada insone de sábado depois de um longo dia as duas se estabeleceram no sofá, quietas, sem nenhuma briga, provocação ou a sensação de desconforto e inadequação, apenas silenciosas, assistindo um programa de reformas. Isso se repetiu por algumas semanas, até que se pronunciou comentando o quão medonho era o enfeite de um dos quartos antes da reforma e sua mãe logo concordou, de repente estavam comentando o que gostavam ou não gostavam e por fim pareciam concordar mais do que discordar.
Depois disso sua mãe sugeriu assistir outros programas desse gênero, vendo vídeos no youtube ou revistas sobre o assunto, esse se tornou o único assunto que elas falavam ou discutiam que não terminava em briga. E passou a só falar sobre isso com sua mãe, pois parecia ser o único assunto em que podiam concordar.
Até o dia em que ouviu escondida sua mãe falar com sua amiga arquiteta pedindo dicas de programas ou revistas, qualquer coisa diferente e interessante sobre o tema. Naquele dia, a mãe de confessou para a amiga que se esse era o único tema que mãe e filha poderiam conversar então ela queria estar bem preparada.
Após ouvir aquela conversa, não podia mais negar. Ela estava agindo como uma pirralha mimada, sem de fato ouvir o que sua mãe tinha a dizer e sem falar o que sentia. Naquela noite elas tiveram sua primeira conversa sincera em um longo tempo. Finalmente conseguiram dizer o que sentiam e pensavam, ainda que fosse aos trancos e barrancos, algo que felizmente não resultou em nenhuma briga.
Com rapidez viu as coisas pelo que realmente eram. Sua mãe não queria que ela fosse ninguém além de si mesma, mas como elas nunca conversaram de verdade, sua mãe tinha apenas a si mesma e suas próprias experiências para se basear. E traçou um caminho que, na cabeça dela, lhe traria a mesma felicidade para que havia conquistado. Depois dessas conversas, sua mãe não demorou a perceber que o caminho para a felicidade da filha era um diferente do que ela tinha trilhado.
A relação delas melhorou muito a partir desse momento. Elas continuaram conversando sobre reformas ou designers de interiores, mas apenas porque era uma rotina que ambas adoravam partilhar, mas também passaram a compartilhar pensamentos e sonhos. Tudo que antes elas calavam. Aqueles momentos que elas passaram a ter nos últimos anos planejando uma reforma que nunca aconteceria, cheios de tanta cumplicidade, entesourou em sua memória com carinho.
No entanto, agora era real. Os planos e projetos se transformaram em realidade. estava honestamente feliz com isso. Talvez, todas aquelas mudanças pudessem ter alguma consequência boa. Mas apenas se ela não encarnasse uma mocinha de uma novela mexicana em tempo integral.
Estava muito claro como sua mãe queria que as coisas dessem certo, que tudo fosse perfeito. Era nítido em cada detalhe daquela casa e em especial no seu próprio quarto. Na escrivaninha e na cama, nos lençóis e nas luminárias, em cada canto daquele lindo quarto. Ela tentou muito fazê-la feliz, então como podia tentar menos em ser dessa forma? Como qualquer pensamento de rebelião poderia sequer ter cruzado sua mente?
não desejava menos que a felicidade para sua mãe. Olhar para aquele quarto a fez lembrar porque aceitou sem protestos ir para Forks em primeiro lugar. Sua mãe, na verdade, seus pais sempre tinham sido investidos em sua felicidade. Eles fariam de tudo por ela e seu irmão. Sacrificariam qualquer coisa. E não faria menos por eles.
Lembrar como sua mãe tinha sido triste, frustrada, desesperada mesmo, no Brasil e o quanto ela se transformou ao saber da mudança, como ela estava animada e cheia de esperança; lembrar o quanto isso era importante para ela e o quanto o trabalho dela era importante, tanto para ela, quanto para um monte de gente. Era o que a fez fingir com o melhor da sua capacidade estar feliz com tudo isso.
Mas ver tudo o que sua mãe fez naquele lugar. O carinho com que ela de alguma forma transformou tudo isso em realidade, a fez lembrar também que fingir não era o suficiente. Que sua mãe não fez tudo aquilo para comprar sua aquiescência, afinal isso ela já tinha. Ela fez tudo isso porque a amava e porque sua felicidade era o mais importante para ela. E essa era a forma dela dizer isso. Depois de compreender essa verdade simples, foi fácil perceber sua estupidez. Porque fingir estar feliz não era o suficiente, nunca seria. Essa paródia de felicidade que ela criou, não era o que sua mãe desejava para ela. Ela queria a coisa real e estava tentando através desse gesto demonstrar isso.
É claro que não havia um botão que ela poderia apertar e se tornar magicamente feliz, mas a forma como ela estava fechada a tudo, apenas fingindo, tampouco ajudaria. Ela precisava deixar de fingir e tentar de verdade. Se abrir para esse novo lugar e aceitar todas as oportunidades de fazê-lo seu novo lar, aceitando tudo de bom que Forks poderia lhe proporcionar. Começando por esse quarto.
Sentando na cama e traçando com carinho o desenho do jogo de cama lilás, depois olhando para o quarto e por fim para sua mãe, abriu o maior sorriso que já deu desde que tinha recebido a notícia de sua mudança.
— É perfeito, mãe! — disse com animação real.
— Que bom que você gostou! — falou sua mãe deixando a soleira da porta e indo sentar ao seu lado.
— Gostar? Eu adorei! — disse cheia de um entusiasmo que não sentia há muito tempo — Obrigada. — terminou de forma silenciosa, ainda com um sorriso no rosto.
Sua mãe a abraçou, jogando as duas para a cama e fazendo rir do movimento repentino. Olhando em seus olhos sua mãe disse cheia de sentimento, algo que a surpreendeu:
— Eu que agradeço.
franziu o cenho confusa com a declaração. Talvez sua mãe agradecesse por parar de agir como alguma garota Emo ou por apreciar um pouco seu trabalho duro, ou por milhões de outras coisas que ela nem imaginava, por isso não pode deixar de indagar.
— Por quê?
— Por entender — respondeu sorrindo. Acariciando seus cabelos continuou — Você vai ser muito feliz aqui. — Parecia um pouco uma promessa, misturada com esperança.
— Espero que sim — disse com sinceridade, porque, afinal, o que mais ela poderia dizer?
Quebrando um pouco o clima, sua mãe soltou uma exclamação, aparentemente se lembrando de algo, fazendo as duas sentaram na cama de novo.
— Não sei como pude esquecer! Sabe a minha amiga que mora aqui em Forks? — Começou animada ao que acenou ainda surpresa pela mudança súbita. — Ela tem cinco filhos quase da sua idade, duas são meninas, uma delas eu tenho certeza que tem a sua idade, o que significa que talvez possam estudar juntas. Acho que pode ser uma ótima ideia convidar minha amiga e suas filhas para um brunch — disse a última palavra de forma tão esnobe e convencida que fez rir apesar de tudo.
— Eu não sei se é uma boa ideia mãe — disse um pouco amuada, encabulada por ser jogada em uma versão platônica de um encontro às cegas organizado por sua mãe, nem menos, para que ela encontrasse uma amiga.
, faça isso pela sua mãezinha querida do coração? — falou com um olhar de cachorro que caiu do caminhão de mudança.
— Tudo bem! — respondeu falsamente a contra gosto, revirando os olhos.
viu sua mãe se levantar animada e sair do quarto, já ligando o telefone para falar com a amiga e marcar o tal brunch.
Isso vai ser tão embaraçoso! Se jogou de costas na cama já imaginando todas as formas possíveis desse encontro se tornar um dos momentos mais constrangedores de sua vida.

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Capítulo 2

O mundo era um lugar sem surpresas. Até que ele deixou de ser. E aquela visão foi apenas o começo.< br>
Edward Cullen


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Purgatório.

Essa deveria ser a definição para High School, Edward Cullen contemplou não sem uma grande dose de aborrecimento. Pelo menos, quando chegasse o momento do acerto de contas com o criador, essas horas intermináveis, entre adolescentes descerebrados e super excitados, poderiam ser debitados de alguns de seus pecados. De certo, com toda probabilidade em qualquer caso.
Conteve um profundo suspiro depois de ouvir, mas um pensamento errante e mesquinho de uma garota, a respeito do “sobrepeso” de outra menos bonita e popular que passava por ela. Os garotos não eram melhores, só conseguiam pensar em sexo e em meios de consegui-lo.
Ser obrigado a ouvir o zumbido incessante das mentes desses adolescentes, dia após dia era a definição de agonia. Era intelectualmente doloroso estar preso a um mar de mentes cheias de hipocrisia, ignorância, inveja e tantas outras mediocridades que apenas humanos conseguiam ter em tamanha abundância.
Em quase um século de vida Edward escutou tudo o que a humanidade tinha a “dizer”. E não estava nenhum pouco impressionado. Muito em breve ele parou de se surpreender. A mente humana era um lugar simples.
Obviamente existiam muitas nuances, mas nas décadas em que viveu tendo esse dom (ou seria maldição?), havia apenas três coisas que os humanos sempre desejavam: dinheiro, poder e sexo. Não necessariamente nessa ordem. Claro haviam vários espectros mais elaborados desses desejos, vertentes por assim dizer, mas no fim se resumia a isso. A High School, em particular, parecia colocar sob uma lente de aumento tudo o de mais baixo e raso que poderia se extrair da humanidade.
Era muito difícil ter alguma empatia ou algum tipo de simpatia por uma raça que só mostrava seus traços mais vis. Era triste e patético. Talvez estivesse sendo um pouco duro e cínico demais. Sua mãe com certeza esperaria que ele fosse um pouco mais generoso em seus próprios pensamentos sobre os humanos. Contudo, depois de mais de seis meses lidando com figuras irritantes como sua detestável ex-fangirl Jessica Stanley ou o pseudo popular e inconsciente Mike Newton, Edward se sentia menos que caridoso.
Ser um leitor de mentes que não poderia apenas desligar seus poderes, sempre criava alguma medida de desconforto às pessoas que sabiam sobre sua habilidade. Todavia, sua família se acostumou à falta de privacidade e para eles era na maior parte do tempo, uma reflexão tardia. O fato de Edward ser tão discreto sobre os pensamentos dos outros podia também ter algo a ver com a facilidade que sua família exibia de estar em sua presença.
Quando tentava desconectar seus pensamentos de todos a sua volta, acabava por focar seus poderes em sua família. Fácil e natural como o amanhecer de um novo dia. Era confortável, instintivo quase. Por mais que tentasse bloqueá-los e na maior parte do tempo conseguia quando havia outras mentes para se concentrar, no fim toda vez que sua atenção se desconectava dos estranhos em seu entorno e sua concentração escorregava, seus poderes, como se magnetizados, sempre se voltavam para sua família.
Talvez isso fosse porque as mentes de seus irmãos, de sua família como um todo, eram já um caminho conhecido. Uma estrada sem surpresas, que ele havia percorrido milhares de vezes e que o enchia de um sentimento de acolhimento, por mais estranho que esse conceito fosse.
Embora ler seus pensamentos ainda fosse tão desconfortável e invasivo, quanto qualquer outra pessoa que ele tivesse o mínimo de intimidade, eles tinham sido sua família por tanto tempo que ouvi-los era como estar em casa, um lugar conhecido que o deixava confortável e a vontade. Edward conhecia tanto eles, de dentro para fora, que estar em seus pensamentos muitas vezes parecia menos invasivo do que de fato deveria ser.
Mesmo se não estive ouvindo os pensamentos de Rosalie, Edward sabia que ela estava pensando em coisas como sua empresa de perfumes, sua própria beleza e seu sucesso. No entanto, por baixo de todas as camadas de futilidade e vaidade, havia pensamentos obscuros e sombrios que ela não permitia dominar a sua mente e isso apenas por pura força de sua vontade. Tão ácida, egoísta ou rasa como Rosalie gostava de se mostrar e muitas vezes o era, ela também guardava profundidades ocultas e poucas vezes vistas ou sequer usadas. Uma grandeza de caráter que na maior parte do tempo ela escondia e fazia quase todos esquecerem com sua atitude ruim e seu egoísmo incontido.
Era por coisas como essa que Emmett fazia tanto sentido com Rosalie. Haviam poucas pessoas no mundo que eram tão abertas e verdadeiras sobre si mesmas, como seu irmão era. Emmett tinha o coração de uma criança (e na maior parte do tempo agia como uma também) carregando essa inocência aberta e quase ingênua. Ele era a pessoa mais verdadeira e honesta que conhecia. Emmett era talvez a única pessoa que Edward poderia ler os pensamentos, sem se sentir um intruso, sem sentir que estava violando a privacidade, primeiro porque Emmett não se importava e deixava isso muito claro e segundo porque Emmett era aquele tipo raro de pessoa que se não falava o que estava pensando, com certeza agia sobre seus pensamentos quase de imediato.
Nesse momento Emmett estava animado com a próxima corrida de Rally (uma competição regional) que participaria como mecânico. Óbvio que com o segredo deles e a necessidade de manter um baixo perfil, era uma impossibilidade Emmett ser um piloto, como teria preferido. Mas ele era do tipo que encontrava a felicidade onde podia de forma muito fácil e natural. E agora ele só conseguia pensar em superar um talentoso mecânico rival, algo que apesar de causar uma irritação superficial o estava enchendo de entusiasmo pelo desafio inesperado. Apesar de seus pensamentos simples e honestos, Emmett tinha mais profundidade emocional do que aparentava, algo do qual Rosalie sempre se beneficiou.
Sua mente se voltou então para Alice que sem dúvida estava... ansiosa.
Alice era muito boa em dissimular suas emoções. Com uma natural personalidade efusiva e sua incontrolável animação, a maioria das pessoas tendia a não perceber quando ela estava escondendo algo.
Mas não Edward.
Desde o momento em que se encontraram pela primeira vez, eles só clicaram, por assim dizer. Edward e Alice eram almas irmãs. Mesmo Carlisle não tendo criado Alice ou Jasper, como criou ele, Esme ou Rosalie e através de Rosalie, Emmett. No entanto, era como se ela e Jasper sempre tivessem feito parte da família, como se tivessem sido criados pelo mesmo sangue, o de Carlisle.
Esse senso de afinidade que sentiam um pelo outro, talvez tenha surgido por causa de suas habilidades. Afinal, Edward era quem melhor entendia como os poderes de sua irmã funcionavam. Ele era uma das únicas pessoas no mundo que conseguia compartilhar em primeira mão as visões de Alice. E embora Alice não tenha o mesmo insight sobre seus próprios poderes, não como ele tinha, ainda assim ela compreendia melhor que a maioria das pessoas como era ter um poder incontrolável, com a capacidade de incomodar as pessoas a sua volta por experiência própria.
Porém, sua ligação com Alice era de alguma forma mais profunda que simples senso de empatia pelos poderes do outro. O fato de Alice já ter tido visões sobre eles sendo uma família e em particular deles dois como irmãos, ajudou muito em seu caso, já que ele viu as mesmas visões que ela. Independente disso havia algo sobre Alice que os ligou de forma definitiva e profunda desde o primeiro momento. Eles eram uma verdadeira equipe, com suas conversas privadas e secretas, que só os dois conseguiam ter devido aos seus poderes e a grande sintonia que compartilhavam.
Com seus pensamentos e poderes voltados a Alice ele podia ouvi-la fazer um esforço consciente e bastante artificial em pensar sobre sua nova linha de roupas para a grife Masen. Esse ato mecânico e a falta de interesse absoluto nesses pensamentos eram uma clara manobra de deflexão. Ela só estava pensando nisso para ocultar algo dele e ela fazia isso melhor do que qualquer pessoa.
E o que quer que fosse que ela estava escondendo, isso só poderia ter a ver com uma de suas visões. Visões essas que raramente ela sentia necessidade de esconder dele. Contudo, Alice vinha passando cada vez menos tempo ao seu lado, em um esforço, ele não tinha dúvida, de não ser pega desprevenida tendo uma de suas visões repentinas.
Edward estava ficando cada vez mais curioso, porque esse mistério do futuro o envolvia. Talvez Alice estava prevenindo qualquer interferência de sua parte. Algo que sem dúvida ela achava que seria bom para ele e não queria que nada atrapalhasse essa visão de se realizar. Afinal, ela não estaria tão determinada a evitá-lo se não fosse por isso. Ambos confiavam demais um no outro para ser diferente.
O que Alice escondia dele tinha tudo a ver com a atual estadia da sua família em Forks. Foi ela quem sugeriu que viessem passar um tempo em Forks e que os irmãos voltassem à escola. É claro, que eventualmente faziam isso, mudavam de cidade e começavam tudo de novo começando pela High School. No entanto, Alice sugeriu isso mais cedo do que o esperado e apesar de ser um pouco incomum de sua irmãzinha ela tinha, como sempre, conseguido convencer todos eles a fazer o que ela pedia. Era por culpa dela que retornaram a Forks e que os quatro foram obrigados a voltar ao purgatório chamado, High School.
Jasper era o único deles além de Esme e Carlisle que não precisava passar pela indignidade de reprisar a High School. Ele tinha sido transformado com um pouco mais de idade que eles e apesar de não parecer tão mais velho que seus irmãos, Jasper era esperto o suficiente para usar isso como desculpa para não ter que voltar a escola. Enquanto eles estavam “estudando” Jasper estava no seu escritório em Port Angeles investigando algum caso.
Ele possuía uma pequena agência de detetives no lugar e sempre resolvia casos para quem não podia gastar muito dinheiro. Jasper adorava ter a oportunidade de usar suas habilidades para resolver os casos e Edward sempre que podia o ajudava – nessas horas ter a capacidade de ler a mente de todos era uma ótima vantagem – sobretudo quando sabiam que havia algum vampiro fora da linha no caso.
Há milhares de anos sua raça não passava de um bando de criaturas bestiais, predatórias e selvagens. Os vampiros não conseguiam conter o feroz instinto de territorial e competitivo. Apenas a ligação entre verdadeiros companheiros conseguia superar o forte sentido de competição que possuíam. Três membros era o número máximo que os clãs conseguiam manter por longos períodos de tempo e no final geralmente essas unidades também ruíam à competição e a violência interna.
Mas tudo mudou quando descobriram que a morte não precisava ser um meio para o fim da sua sede de sangue. Um humano não precisava ser morto para que sua espécie pudesse se alimentar. Foi através dessa descoberta que surgiu uma nova era de iluminação e o tempo das trevas de sua raça terminou. Os clãs começaram a crescer e se fortalecer, a unidade competitiva violenta dissolvida, criando longas e estáveis ligações entre os membros.
Assim eles puderam constituir famílias reais, cultivar laços de amor, fraternidade e amizade, para além da ligação entre companheiros, aliás, mesmo as ligações entre companheiros se tornaram ainda mais fortes e profundas. Sua natureza instintiva bestial, territorial e assassina soterrada por esses novos laços e sentido de unidade mais profundo.
Sua espécie lutou por muito tempo para criar um modo de vida onde eles seriam mais racionais e no controle do que a condição de meras bestas, ao qual eles eram reduzidos, quando perdiam o controle de sua sede e caiam na loucura da luxúria de sangue. Foi apenas através do domínio e da racionalidade que sua raça de fato conseguiu evoluir, crescer e prosperar. Criando comunidades, evoluindo social e cientificamente.
A fim de manter esse novo modo de vida, as leis estabelecidas de não matar humanos era uma de suas leis primordiais, assim como aquelas que envolviam manter o anonimato de sua raça. Principalmente ao se misturarem a raça humana, conservando assim a própria sanidade através do controle do monstro que existia dentro de todo o vampiro.
Obviamente haviam vários de sua espécie que se achavam acima de leis e regras. Que pensavam menos da humanidade, só por que eram diferentes. Matando indiscriminadamente e na maior parte do tempo sem nenhum controle. E era atrás de vampiros como esses que ele e seu irmão sempre ficavam de olho em suas investigações. Ainda que não fosse o objetivo principal de suas investigações, afinal haviam vampiros mais qualificados e especializações que assumiam essa responsabilidade de forma primordial e oficial.
Todos esses pensamentos, no entanto, eram apenas uma mera distração. Uma grande e elaborada distração. Se fosse pouco mais de um mês atrás pensamentos como esses seriam naturais, um padrão inevitável que se repetia de tempos em tempos na sua mente imortal. Pois, a cada dia a rotina dos acontecimentos em sua vida, o fazia se sentir mais e mais entediado. No entanto, um mês atrás Edward havia descoberto o que sua pequena irmã escondia dele com tanto afinco ou pelo menos parte desse mistério.
E mesmo não querendo evocar essa memória, não pôde resistir em visitar a visão que Alice deixou escapar. Ele estava preso a pensamentos semelhantes aos que teve poucos minutos antes a respeito dos seus irmãos e sua vida em Forks, quando como uma bomba, a visão explodiu em sua cabeça. Inesperada ela coloriu seus pensamentos de forma vibrante, interrompendo os tons monótonos e cinzentos que permeavam sua mente.
‘Um humano... não uma humana, sentada embaixo de uma árvore, abraçando o próprio corpo de cabeça baixa, enquanto a chuva aumentava cada vez mais. Alice ia em direção à humana segurando um guarda-chuva que colocou bem em cima da cabeça da garota.
— Se continuar nessa chuva vai acabar ficando doente — disse deixando transparecer preocupação sincera, apesar do tom levemente irreverente.
Os cabelos castanhos molhados de chuva pingavam grudados em sua cabeça. Ela levantou a cabeça, mas antes que pudesse ver o seu rosto a visão foi interrompida de forma abrupta.’

Apesar do deslize, Alice conseguiu com habilidade e brusquidão desviar seus pensamentos começando a soletrar o alfabeto em hebraico; conseguindo com sucesso manter a identidade dessa garota um mistério para Edward. A forma como ela interrompeu sua visão não era algo simples e nem fácil de se fazer. Exigia muita concentração e sempre lhe rendia uma desagradável dor de cabeça. E essa atitude por si só foi confirmação mais que suficiente para ele, que Alice estava escondendo algo e que isso só podia ter algo a ver com essa garota.
Uma garota que não parava de invadir seus pensamentos com uma aleatoriedade tão desconcertante, que Edward foi obrigado a conscientemente se distrair com pensamentos inócuos e desnecessários tanto quanto poderia. Era apenas uma tentativa inútil de não se obcecar com essa visão e o que ela o fazia sentir. Porque toda vez que lembrava da garota sentia um estranho e forte senso de proteção e pior de antecipação.
Como a visão de uma garota humana poderia prender tanto da sua atenção? O fazia questionar que tipo de efeito essa menina em carne e osso teria sobre ele. A simples ideia de um dia ter que descobrir o perturbava de forma intensa.

-§-


acordou mais descansada e relaxada do que se sentia desde que havia recebido a notícia da mudança. Por isso, não ficou muito surpresa ao ver no relógio do criado mudo que passava e muito das duas horas da tarde. Depois de uma viagem cansativa. Das várias rodadas de pizza. Dos e-mails trocados com sua família e amigos. E por último e não menos importante de ter gasto boa parte da madrugada fazendo uma das coisas que mais gostava, ler uma boa fanfic, não era de se admirar que ela acordou tão tarde.
Ela precisava admitir que parte do seu humor mais calmo e melhor se devia a leitura tarde da noite. Nada conseguia mudar seu humor tão rápido, quanto mergulhar em uma história e nas emoções de personagens fictícios. E depois de aterrissar em Forks e começar a perceber que estava muito longe de casa, uma boa leitura era tudo o que ela precisava no momento.
Logo, estava mergulhada em seu computador vendo a última atualização (que ela estava esperando há semanas e a deixou muito feliz) de uma das suas fics favoritas, do fandom de Night Fall, sua série favorita de livros. Isso fez um monte para melhorar as coisas e a tirar um pouco do seu humor sombrio. Ainda não era perfeito, mas pelo menos era algo. Algo para distraí-la e acalmar seu coração antes de encarar a realidade de uma nova vida.
E agora cá estava ela, em um estado de espírito muito melhor. Depois de um bom banho, de escovar o cabelo e os dentes se sentia renovada e cheia de energia. Desceu as escadas indo direto para a cozinha para tomar um café da manhã/almoço/lanche, mas antes de sequer abrir a geladeira percebeu o aviso na porta da geladeira.
, já fizemos algumas compras, prepare algo pra comer e faça o jantar do seu irmão, seu pai e eu fomos resolver coisas do trabalho só voltamos à noite.
Bjs Mamãe.
Ps.: Seus livros novos da escola estão na mesinha da sala”

Apesar de adorar cozinhar, a ideia de fazer o jantar de Liam era bastante desanimadora no momento, por isso pegou apenas uma maçã e se dirigiu à sala a fim de levar esses livros ao seu quarto. Mal olhou os livros enquanto os pegava nem um pouco curiosa para olhar através do seu novo material escolar. Em seu caminho para o quarto, voltou para cumprir o dever sagrado de toda irmã mais velha: implicar com seu irmãozinho.
— E aí lendo o que? — disse entrando sem nenhuma cerimônia e já pegando o livro que tinha certeza que devia ser de sua nova escola como os que sua mãe deixou para ela, mas foi surpreendida — Ué?! Vinte mil léguas submarinas, mas você já não leu esse?
— Já! — Liam respondeu mal-humorado, tirando o livro de suas mãos. Ele sempre ficava mal-humorado quando interrompiam sua leitura.
— Curioso, achei que estaria se deliciando com os livros novos que mamãe pegou da escola, aliás, nós acabamos de chegar com um dia de antecedência como sabiam que estaríamos aqui?
Liam revirou os olhos, claramente exasperado com sua presença, algo que divertiu que não pôde deixar de sorrir para a expressão do irmão.
— Mamãe pegou no começo da semana só que ela esqueceu no escritório, hoje mais cedo ela se lembrou. Se você estivesse acordada saberia — disse irônico.
— Eu imaginei, só perguntei pra te irritar mesmo — revelou sem conter a risada.
O suspiro irritado que Liam deu, só serviu para aumentar sua diversão.
— Mas falando sério… — Ao olhar cético do irmão continuou — Juro sem brincadeiras — disse com uma cara séria, mas ainda com um brilho de diversão em seus olhos, que não fez nada para diminuir o ceticismo de Liam — Como eu estava dizendo… Onde estão seus livros? Imaginei que já estivesse se preparando para seu primeiro dia de aula, afinal isso é tão sua cara — falou a última parte sem conter o revirar de olhos e o leve deboche em seu tom.
Depois de mais um suspiro irritado ele resolveu responder.
— Elucidando a sua dúvida... — iniciou com ironia — eu não estou lendo os livros da escola porque eu não recebi os meus.
— Ah, devia ter imaginado — respondeu no mesmo tom — Mas então qual é a dos livros, eles não tinham os seus?
— É, basicamente — disse aborrecido, sem dúvida com a presença dela atrapalhando sua edificante leitura. — A escola da reserva ainda não tinha livros pra mim, vou pegar os meus só segunda-feira mesmo — completou sabendo que não sairia dali sem uma resposta decente.
Reserva…? Que reserva?
Repetiu sua pergunta em voz alta para o irmão, que deu mais um longo suspiro antes de responder.
— A reserva indígena de La Push.
— Reserva indígena, é?! Eu tenho até medo de imaginar onde ela fique. — Seria apenas a sua sorte, ter que estudar mais longe de casa do que pensou. — Mas eu achei que a gente ia estudar em Forks e não em La Push — comentou intrigada.
— Eu vou estudar em La Push e você em Forks — replicou.
demorou ainda alguns segundos para processar a informação antes de falar.
— O quê? Você tá brincando, né?! — pediu ainda incrédula, rindo nervosamente, esperando muito ter ouvido errado.
— Não, eu não estou, papai me disse hoje antes de sair.
Isso não pode estar acontecendo! Pensou ainda sem acreditar no que ouvia.
Era uma coisa boa que deixou seus livros e sua maçã em uma cadeira no quarto de Liam, caso contrário teria deixado tudo cair no chão. Seu estômago revirou de forma desagradável e de repente parecia muito mais difícil executar o simples ato de respirar. Sem pensar saiu apressada do quarto de Liam. Precisava de ar. Agora!
— Ei , onde você está indo? — indagou Liam seguindo a irmã.
Diminuiu o ritmo do seu passo e tentou respirar fundo.
— Eu preciso dar uma volta, respirar um pouco — respondeu com suavidade, a voz um pouco trêmula.
— Você tá bem? — Liam se aproximou agora observando seu rosto com preocupada atenção.
— Sim, só… só preciso de um momento sozinha ao ar livre pra pensar. Eu não esperava por isso, essa notícia me pegou desprevenida e você sabe o quanto eu detesto ser pega de surpresa — disse com a face mais composta que pôde montar, tentando não preocupar Liam, mas querendo desesperadamente sair logo dali.
Liam franziu o cenho não muito convencido, mas vendo o quanto estava ansiosa para sair decidiu não pressionar a questão.
— Tudo bem… — começou devagar ainda olhando a irmã. — Não está esquecendo o celular, né?!
O bolo que se formava na garganta a impediu de responder, por isso apenas mostrou o celular que por sorte ela tinha colocado no bolso traseiro da calça jeans.
— Qualquer coisa me liga que eu vou te buscar… — A essa altura já estava na porta para sair da casa e mal pode ouvir seu irmão falar enquanto fechava a porta.
não possuía ilusões sobre como seria seu primeiro dia de aula. Na melhor das hipóteses conseguiria não terminar o dia sem pagar algum mico e na pior… bom era melhor não pensar. Mas ser uma aluna nova em uma cidade pequena onde todos se conheciam desde as fraldas com certeza a faria parecer uma atração circense. Isso não a incomodava tanto quando achava que Liam estaria lá dividindo a atenção do público com ela, mas agora...
Seguiu andando sem rumo perdida em sua angústia emocional. Todas as coisas que ela se negou a pensar. Todos os sentimentos que ela reprimiu, que ela engoliu em silêncio, pareciam agora fervilhar sob sua pele e queimar.

-§-


Depois de andar por algum tempo, a chuva começou a cair sem se dar conta. Ela parou encostando-se a uma árvore, não suportando mais o peso do próprio corpo. O desejo de fugir crescia ao mesmo tempo que seu corpo pesava mais e mais, a fazendo desabar. Estava cansada demais para sequer dar mais um passo. Por isso, permaneceu sentada nas raízes da árvore, cercada pela própria miséria.
Com certeza, estava fazendo uma grande cena por muito pouco. Se ela não amarrasse tão fortemente as emoções que sentiu ao saber da notícia ou qualquer traço de emotividade… se ela ao menos tivesse permitido a si mesma a oportunidade de chorar ao longo dessas semanas, sua reação à última notícia teria sido bem menos dramática e patética. Ela se negou tudo isso e agora lá estava ela, chorando no meio da chuva como um grande clichê ambulante.
Melodrama adolescente à parte, ela não se importava com a cena que estava fazendo. Nem tão pouco com a chuva molhando sua roupa e se misturando com as lágrimas quentes que caiam de seu rosto. Mesmo que ela detestasse a chuva ou estar molhada. Naquele momento ela só precisava sentir mais profundamente e com a maior dose de drama possível. Ela só precisava tirar a pressão.
Desde o dia que a notícia da mudança havia sido dada, se encontrou lutando com a rebeldia, injustiça e a necessidade de fazer um escândalo, por ter tudo o que ela tinha como certo arrancado de forma tão abrupta dela. O sentimento de abandono e solidão, de ser deixada para trás, muito embora fosse ela a pessoa que seguiria e deixaria todos para trás, a perseguiu.
sempre teve sua família. Embora nunca tivesse amigos íntimos que estivessem fora do seu âmbito familiar. Sua família era uma presença tão constante que essa falta era sufocada de forma fácil e esquecida com deliberação. Sempre sentiu falta de ter amigos que fossem próximos. Em quem poderia depositar sua confiança, como a que tinha em seu âmbito familiar, mas nunca conseguiu conquistar isso. Suas amizades tinham o infeliz hábito de serem sempre casuais e careciam de um sentimento de pertença, de troca e de confiança, que não poderia ser fabricado ou mesmo imaginado.
Até conhecer Tina e Lígia, quase dois anos atrás. Sua amizade com as irmãs Santos chegou perto disso, tão perto que era quase perfeito. Claro que não foi ideal. Haviam muitas coisas que ela não era confortável em discutir com as irmãs. Momentos em que se sentia deixada de fora, pois nada superaria a ligação fraternal que as duas tinham uma com a outra. Ou ainda àquelas vezes que agiria de forma tola ou inexperiente perto das duas, mas tudo isso tinha mais a ver com ela do que com o valor que a amizade das três possuía.
Além do mais, sempre quis a coisa real, sempre quis algo que fosse verdadeiro. E coisas reais eram também imperfeitas e por isso belas em sua própria maneira. Para essa beleza residia no simples fato de ser dela e apenas dela. Sua amizade foi algo que elas construíram ao longo do tempo (sem interferência de terceiros), que se tornou forte e verdadeira a sua própria maneira.
Mas ali em Forks ela não tinha nada. Sem suas amigas ao seu lado. Sem seus primos ao virar de um corredor. Sendo um rosto desconhecido, em um mar de estranhos. Ela estava sozinha e sem sua rede de segurança. E agora nem mesmo teria Liam por perto.
A ideia de tentar se engajar em busca de novas amizades nem ao menos soava animadora. Pois, sentia (sem dúvida de modo irracional) que essas ligações seriam efêmeras e não durariam, fosse por alguma outra mudança inesperada ou pela barreira do tempo que no fim acabava com todas as ligações de uma forma ou de outra. De que valia tentar, se poderia evitar o desgosto completamente, quando as coisas de forma inevitável seguiriam seu curso natural. Assim como sentia que sua amizade com Tina e Lígia. Ela já podia até ouvir a contagem regressiva para o fim dessa amizade também.
Talvez fosse uma visão pessimista. Mas naquele momento ela precisava ser pessimista, precisava chorar, precisava se sentir viva e real de alguma forma. Mesmo que fosse através da dor, pois era melhor que a dormência que esteve alojada em seu peito ao longo das últimas semanas. Silenciando tudo que sentia, fingindo uma resignação que não era real, agindo como se ir para Forks não fosse a pior coisa para o seu mundo. Por mais dramático e irreal que essa afirmação poderia ser.
Amanhã depois de represar todas essas emoções ela seria otimista e pararia de agir como uma adolescente dramática, quando havia muitos e mais sérios problemas no mundo.
Amanhã ela voltaria a tentar.
Mas agora ela só sentiria e choraria. Ela só libertaria as emoções que com afinco ela negou.
Por isso, ela ficou ali enrolada em si mesma. Banhada pela chuva que esfriava seu corpo até os ossos enquanto as lágrimas esquentavam suas faces, esperando que sua alma fosse lavada de alguma forma.
Estava tão perdida no momento que nem percebeu que não estava mais sozinha.
— Se continuar nessa chuva vai acabar ficando doente — uma voz feminina disse em um tom preocupado e ao mesmo tempo irreverente.
E apesar de não desejar ser flagrada chorando, sua curiosidade falou mais alto a fazendo levar a cabeça e esperando que essa estranha confundiria suas lágrimas com a chuva que ainda caia.
No entanto, quando seu olhar cruzou com o da desconhecida todos os pensamentos a respeito de quão patética ela parecia sumiram da sua mente.

-§-


Capítulo 3 – Problemas no paraíso

Meu paraíso de racionalidade ruía, enquanto a gana de ver sua simples imagem pulsava no mesmo ritmo que o sangue em minhas veias, queimando minha razão, como a fome de sangue sempre queimava minha garganta, deixando em seu rastro apenas o desejo.<

Edward Cullen


Seu corpo despertou com mais dificuldade do que gostaria ou admitiria a qualquer um. Havia dias que era invadido com uma vontade visceral de permanecer dormindo desde o momento em que o sol saía até ele se pôr. Pior, um simples cochilo à tarde ou mesmo nas horas da madrugada, algo que a maior parte da sua família praticava para melhor se ajustar aos horários humanos, o deixava mais cansado e esgotado, e por consequência, bastante irritável e mal humorado. Sem dúvida Jasper pegaria no seu humor com os poderes dele, já que assim como as suas habilidades, Jasper não poderia suprimir os próprios dons. E acabaria por deduzir o motivo por trás do seu humor menos que brilhante e isso era tudo o que ele menos queria.
Detestava preocupar qualquer membro da sua família. E tinha que admitir, gostava demais de viver em negação. Mas nem ele mesmo poderia continuar fingindo, não sem uma boa dose de desconforto, que seu sono e cansaço durante o dia, ou que sua sensibilidade à luz do sol, cada vez maior, estavam se tornando perturbadoramente parecidas às de um vampiro recém-criado ou pior. E ele não podia ignorar que esses eram sintomas de um problema maior, um problema que preocupava muito sua família. Pois, cada dia mais as finas paredes de seu autocontrole trincavam, o tornando a cada momento mais suscetível a ouvir o canto da sereia que era a luxúria de sangue.
O som da voz de Jasper o impediu de mergulhar em pensamentos ainda mais sombrios.
— Peter me avisou pra termos cuidado. — disse Jasper seu tom contundente demais para não ser outra coisa do que uma chamada de despertar para a realidade.
Havia momentos que em que odiava a capacidade que Jasper tinha de lê-lo e tirá-lo de seus humores no momento certo. Outras vezes, ele amava porque era um salva vidas, literalmente. No entanto, em momentos como esse, ele era capaz de sentir os dois, sem qualquer remorso. Porque ao mesmo tempo que era chato ser monitorado tão perto, era também uma prova da preocupação do seu irmão mais velho. Mas era isso que irmãos eram, criaturas afetuosas e irritantes. E esse comportamento adoravelmente irritante era sem dúvida, o resultado de anos de total má influência de Alice Cullen.
— Ele me avisou que perderam uma dupla de renegados em Minnesota.
Isso surpreendeu Edward. Vampiros renegados geralmente agiam sozinhos. Eram muito dominantes e territorialistas para dividirem seu espaço ou tempo com outros vampiros. Sádicos, eles matavam e torturavam, mas não bebiam de suas vítimas até a morte para assim não ficarem a mercê da luxúria de sangue e sua irracionalidade, nascida do instinto desenfreado por sangue.
Renegados eram um grande problema em sua sociedade. Arrogantes, dominantes, manipuladores, obcecados por poder e controle. Eles não possuíam nenhum respeito pelas suas leis e menos ainda pela vida. Eram bem articulados e inteligentes, por isso conseguiam escapar por algum tempo das sentinelas, mas no fim sempre eram pegos.
— Você acha que eles estão vindo pra cá?
— Pouco provável. Pela forma como Peter falou eles devem estar perto de encurralá-los. Mas um aviso nunca é demais, Peter sabe que gosto sempre de estar preparado.
— De fato — Edward bufou com humor do eufemismo — Nosso pai então já foi informado?
— Falei com ele pouco antes de te acordar, ele vai avisar ao resto da família.
— As Sentinelas não devem demorar muito de qualquer forma, Peter é um ótimo caçador.
— Sim.
— Eu vou seguir Simpson, tenho certeza de que hoje ele sai da toca. — começou Edward mudando de assunto.
— Você vai ficar bem? — Jasper indagou seriamente.
— Pode ir atrás dele sem se preocupar Jasper, eu vou revistar cada canto da casa dele, tenho certeza que ele guarda os seus pequenos troféus lá.
Jordan Simpson não apenas matava suas vítimas. Mulheres jovens, com requintes de crueldade. Como descobriram que ele gostava de guardar lembranças delas, com frequência algo físico, desde uma mecha de cabelo a um dedo.
— Quando o pegarmos o tribunal vai precisar de um caso forte — Edward continuou — com provas sólidas que possam incriminá-lo assim não vai haver nenhuma possibilidade de que ele saia impune. Se eu souber onde todas as provas estão escondidas vai ser bem mais fácil para a polícia achar, com uma pequena dica anônima — sorriu com sarcasmo no último comentário, fazendo seu irmão espelhar o gesto.
— Você está certo. Cuide disso então. — Ele estava abrindo a porta quando pareceu se lembrar de algo — Ah, dê uma olhada nas outras propriedades relacionadas a ele também.
Com a ajuda de um contato, eles conseguiram uma lista com a localização de todas as propriedades que pertenciam a Simpson e qualquer associado ou parente dele.
— Eu já estou com a relação de todas elas, não se preocupe.
— Ótimo, mais tarde a gente se encontra e se achar qualquer coisa me ligue.
— O mesmo vale para você, caso ele dê problemas. — Jasper apenas acenou em aquiescência e saiu.
Quando Jasper resolveu abrir sua agência de investigação, algo que fez pouco tempo após Alice e ele se tornaram parte da família Cullen, Edward logo mostrou interesse em fazer parte desse projeto. No entanto, sendo ainda jovem como um vampiro e tendo nenhuma companheira todos foram relutantes em acreditar que essa ideia seria sábia, afinal mais cedo ou mais tarde eles poderiam se deparar com casos como o de Jordan Simpson.
Contudo, Jasper assegurou que se seu irmão mais novo seguisse suas ordens eles poderiam trabalhar juntos. O fato que Jasper poderia monitorar e manipular suas emoções e julgar quando ele era mais estável ou não para lidar com uma situação, foi o maior motivo para o patriarca da família Cullen concordasse e por conseguinte o resto dos membros da família.
Através dos milênios a sociedade vampírica evoluiu de simples criaturas maníacas por sangue, que matavam indiscriminadamente e não conseguiam estabelecer vínculos ou viver em comunidade. Para seres de mente superior que ultrapassaram seus instintos mais básicos, que os impediram de estabelecer relações, evoluir e crescer como indivíduos e comunidade. E tudo isso apenas foi possível quando ficou claro que o vício no sangue, que advinha de matar um humano e os tornava maníacos, era o que os impedia de agir com racionalidade e os permitiu viver para além de seus instintos mais básicos.
Haviam lendas, diversas delas, que diziam que os deuses tinham presenteado os vampiros com companheiros verdadeiros, no momento que eles abandonaram os velhos hábitos de matar humanos e serem guiados puramente por instinto. Outros como seu pai, que acreditavam na ciência mais do que em lendas, achavam que esse foi o salto lógico em sua biologia. Quando o fator que tornava os vampiros mais competitivos e menos racionais foi retirado da equação, eles poderiam criar laços e como as criaturas intensas e perenes que eram, capazes de conexões ainda mais poderoso do que as frágeis ligações humanas. Alguns ainda acreditavam que a explicação sobre os companheiros verdadeiros nada mais era do que propaganda do seu governo apenas mais um artifício para manter a todos na linha.
Vampiros eram antes de tudo predadores e como tal caçar fazia parte de sua essência. Mas com as leis e principalmente a evolução de sua espécie caçar humanos, sua principal presa, não era mais uma opção. À vista disso, a maior parte dos vampiros com frequência participavam de excursões de caça à animais em regiões muito distantes de quaisquer áreas habitadas ou frequentadas por humanos. Era uma forma saudável para lidar com a necessidade natural de caça.
Em um ambiente comum e bem alimentados, vampiros com mais de um ano de existência não tinham problemas em dividir seu espaço com humanos. Agora quando um vampiro estava em modo de caça eles perdiam o controle com facilidade e se tornavam mortais para qualquer humano que cruzasse acidentalmente seu caminho. Era por isso, que as reservas de caça eram sempre monitoradas com regularidade por seus funcionários (vampiros obviamente), para que não ocorresse nenhum incidente.
Nada desafiava mais o controle de um vampiro médio quanto o ato da caça. Graças a isso, as Sentinelas, guardiões da lei e ordem dentro da comunidade vampírica, em sua maior parte eram formadas por vampiros com mais de um século de idade ou que já tivessem encontrado seus companheiros. Salvo poucas exceções apenas vampiros com esse perfil, eram considerados seguros o suficiente para lidarem com o ato da caça de forma regular entre humanos. E isso era apenas porque uma caça sempre tinha a possibilidade de acabar envolvendo um humano e não um vampiro.
Matar um vampiro que tenha quebrados as leis não era um problema. Por mais correto que fosse dar a oportunidade de julgamento a um renegado, nem sempre era viável. A maioria dos renegados era perigosa demais, envolvidos demais em seus jogos de poder e na diversão de matar para se importarem em seguir regras, tão pouco em ajudar a preservar o sigilo da própria existência. Uma das leis máximas de sua espécie. Já os maníacos pela luxúria de sangue sempre causavam bagunças de grandes e devastadoras proporções para os humanos. Perdido na própria sede constante, eram puro instinto e extremamente perigosos, para humanos e vampiros em igual medida. Havia, claro, exceções, mas eram raros e distantes entre si.
Muitos vampiros caçados morriam presa das Sentinelas. Em parte porque era difícil resistir a uma boa caçada e em parte, Edward supunha, para colocar medo em todos os vampiros que pensavam que era uma boa ideia matar humanos. Nada colocava maior temor nos corações de jovens vampiros, do que histórias envolvendo as caçadas das Sentinelas e a forma brutal como elas abatiam vampiros maníacos ou os renegados. Ambos ameaçavam o modo de vida que sua comunidade tinha estabelecido.
Por isso, Jasper e Edward prestavam uma espécie de serviço público em sua comunidade quando suas investigações resultavam em descobertas de crimes envolvendo maníacos ou renegados. Quando eles conseguiam provas que seus casos envolvessem vampiros eles imediatamente passavam suas investigações aos seus contatos dentro das Sentinelas.
As únicas exceções aconteciam quando eles não tinham certeza se o assassino era humano ou vampiro. O fato de que apenas um deles era qualificado o suficiente para ser parte das Sentinelas, os faziam tentar permanecer com casos que envolvessem apenas humanos. Algo que ajudava a manter seus instintos sobre controle. Investigar um humano não colocava eles no tipo de alerta que o sentimento de caça iniciava.
Mesmo que às vezes investigassem casos de assassinatos (algo que, de fato, não acontecia com tanta frequência). Esses tipos de casos os colocava em uma situação delicada onde poderiam correr o risco de entrar em modo de caça, como a morte geralmente fazia. Por isso, ambos tinham decidido que em investigações críticas como essa quando Edward se envolvesse Jasper iria monitorá-lo ainda mais de perto. E agora, seu irmão acreditava que ele era instável demais para lidar com Simpson cara a cara.
E Edward não discordava dele.
Afinal, depois de estudar esse caso por dias. Ver relatórios cheios dos corpos quebrados de suas vítimas, provas concretas do sadismo de seu assassino, de assistir as consequências de sua crueldade nos rostos das famílias das vítimas, era quase demais. A ideia de cortar a jugular daquele lixo humano, se banhar em seu sangue, mas não sem antes aterrorizar esse assassino, com uma iminente e dolorosa morte, era muito tentadora.
E Jasper não precisava dele por perto. Não apenas sentindo, mas tendo que exercer seus poderes, para conter o desejo, por morte, sangue e vingança que Edward teria se confrontado por Simpson. Seu irmão precisava de total atenção para melhor superar os seus próprios desejos e não fazer justiça com as próprias mãos.
Eles valsavam em um delicado e perigoso equilíbrio, ambos sabiam, principalmente em casos como esses. Mas esse trabalho proporcionava o tipo de propósito que precisavam em suas existências, ele ainda mais que Jasper. Algo que os fazia se conectar com o mundo humano, algo que tornava ambos um pouco humanos. Embora com Alice e sua família Jasper se sentisse aterrado, conectado com esse mundo. Ele ainda queria ter algo que fosse só seu, se conectar com os problemas humanos foi sua saída, assim como curar humanos tinha sido a do pai deles.
Edward por sua vez não fazia esse trabalho apenas por satisfação pessoal. Apesar de ter sua família, ele era diferente de Jasper. Ele não tinha sido abençoado com uma parceria eterna. Com tudo o que havia em seu passado e sem muitas esperanças para seu futuro, ele precisava mais do que qualquer coisa dar sentido a sua existência e se conectar com os humanos, se importar com eles de alguma forma. E essa foi a única forma que tinha encontrado de controlar a própria sede de sangue, por mais arriscado que esse caminho também fosse.
Colocou sua jaqueta enquanto saia do quarto de hotel no centro de Seattle, com a lista das propriedades ligadas à Simpson. Enquanto seguia para o primeiro endereço da lista, não conseguiu deixar de lembrar que mais uma vez havia sonhado com ela, a garota mistério de Alice. Contudo, dessa vez o sonho pareceu ganhar chocantes contornos de realidade ou Edward apenas sentia que era mais real do que todas as outras vezes que sonhou com ela. De qualquer forma, parecia tão real, que por um momento, apenas um momento ele teve a certeza que poderia romper a barreira dos sonhos e tocá-la de verdade.
E como ele desejou tocá-la!
A única coisa que o impediu de ceder a esse desejo foi perceber a total insanidade do ato, insanidade essa que se espelhava em sua necessidade premente de tocá-la, algo que ele sabia que se cedesse apenas alimentaria mais esses sentimentos e necessidades. Edward não tinha percebido que ao longo deste mês em que ele compartilhou da visão de Alice, em meio às suas inúteis tentativas de desviar seus pensamentos constantes desta completa estranha, ela tinha não apenas tomado seus pensamentos de assalto, mas de algum modo estava se tornando o objeto de um profundo fascínio e desejo.
Edward poderia dizer que como ser humano, tinha sido um jovem idealista e romântico. Cheio de equivocadas ideias sobre a vida e sobre as pessoas. Ele também era emocional e pior, muitas vezes passional, essas qualidades em seus primeiros meses como vampiro foram sua ruína de muitas formas. Todavia, conforme o tempo passou ele conseguiu superar esses traços de sua personalidade humana, se tornou mais calmo, mais racional e ponderado, embora sua teimosia, algo que seu pai não cansava de salientar, se manteve intacta.
E ele gostava assim.
Ele apreciava não ser um escravo de suas emoções ou desejos, de não mais se iludir com devaneios tolos e irreais tão próprios da juventude, de poder ver as situações com a clareza que só a sua calma racionalidade poderiam proporcionar. O único momento em que tudo se tornava tão nebuloso e visceral quanto os primeiros momentos em que se tornou um vampiro, era quando seu desejo de sangue superava qualquer racionalidade, quando a ideia de beber até a última gota era uma tentação quase boa demais para resistir.
E era por esse motivo que ele passou a ter um domínio de ferro sobre suas emoções e desejos. Ele nunca mais queria sentir tão fora de controle sobre si mesmo ou seus desejos que tudo se tornaria pouco mais que uma névoa difusa em sua mente. E correr o risco de ser reduzido a uma massa incoerente movida apenas por desejos. Uma coisa vulnerável e patética. Algo que não poderia se permitir ser.
Mas bastou uma simples visão de uma humana para desequilibrar seu autocontrole e desafiar sua racionalidade. Era perturbador como abalado ele se tornou por ela ou quão intrigante era a sensação que sempre o ultrapassava toda vez que sonhava ou pensava na visão de Alice. Nesse último sonho a sensação foi ainda mais forte, uma sensação de reconhecimento. Edward sentia como se a conhecesse, em um nível elementar. Algo profundamente enterrado nele a reconhecia como algo... Algo que ele sequer poderia nomear.
E ele temia o dia em que fosse capaz de fazê-lo.
Hoje foi tão real, Edward se sentiu tão próximo a ela. Como se ela estivesse a um suspiro de distância e não fosse uma visão em um futuro para ele desconhecido. Toda vez que sonhava ou pensava naquela visão gostava de imaginar que aquela garota não era real, que era apenas um sonho ou um delírio. Porque pensar o contrário o enchia de uma pesada inquietação.
Logo hoje quanto mais seus pensamentos se voltavam à misteriosa estranha mais real ela se tornava, mais viva e mais próxima de alguma forma. Isso fazia que seu estúpido desejo de que tudo fosse apenas um sonho, apenas uma ilusão se esmaecer como uma miragem. E na sua aceitação de que ela era real, ainda mais firme depois daquele último sonho, a tentação de abandonar sua missão de vasculhar as propriedades ligadas à Simpson e correr de volta a Forks na esperança de encontrá-la só aumentava.
Por um segundo, seu desejo de vê-la era tão forte, tão intenso que ele precisou parar e respirar fundo, se centrar e recuperar seu autocontrole e foi com um esforço literalmente sobre-humano que conseguiu retomá-lo.

-§-


Capítulo 5 – O Brunch

Amigos são realmente uma das coisas mais incríveis que existem, eles são aquelas pessoas que conseguem mudar tudo para melhor de um momento para o outro, quando nossa família não pode. Amigos são a família que não compartilha do nosso sangue e Alice se tornou essa pessoa para mim desde o primeiro dia que nos conhecemos, mesmo que na época eu não tenha percebido isso.

Swan


Quando o olhar de ) cruzou com o da garota desconhecida por um momento ela sentiu uma forte impressão de déjà vu, mas a sensação desapareceu de maneira tão repentina como nuvens em um céu de março, a fazendo se sentir com os joelhos um pouco fracos e com a cabeça muito leve.
E agora na casa da menina, Alice era seu nome, de banho tomado e saindo da suíte com apenas um roupão, ) não poderia afastar surrealismo de toda a situação. Afinal, a forma como ela, uma criatura de natureza cautelosa, cegamente seguiu uma completa desconhecida para a casa dela, era tão fora do personagem para si mesma, que só poderia ser encarado com profunda estranheza. O fato de Alice explicar que não haveria ninguém em casa, conseguiu aliviar um pouco da ansiedade e o resquício de cautela que sentiu ao se encaminhar para a casa da garota. De qualquer forma, a moça de cabelos espetados, inspirava uma profunda confiança em , por mais incompreensível que fosse esse sentimento.
Havia algo em Alice que convidava a confiança, fosse o jeito como ela falou com ela ou seus lindos olhos cor de avelã, ou talvez algo tão simples e fútil, como o fato dela ser linda. E Alice era de fato linda, de um jeito delicado e feminino, era pequena, muito pequena (pequena demais também para causar muito estrago, supôs) com um rosto miúdo e traços suaves. Gentileza, alegria e uma energia nervosa incontrolável pareciam sair de seus poros, mas também havia um monte de sinceridade quando ela demonstrou preocupação com sua saúde estando no meio daquela chuva. Foi fácil confiar em Alice Cullen, mesmo que fosse em igual medida estranho.
Abandonou seus pensamentos, já se resignando em vestir suas roupas molhadas e menos que limpas, que ela jogou em uma cadeira no quarto de Alice. Contudo, para sua surpresa suas roupas não estavam mais à vista. Antes que pudesse sair do quarto para chamar por Alice e perguntar sobre suas roupas, viu disposta sobre a cama um conjunto de roupas, com seu celular ao lado delas e logo abaixo na mesma linha de visão, sapatos (botas na verdade), aos pés da cama. Se as roupas colocadas ali não foram indício o suficiente para ela, Alice apenas confirmou suas suspeitas com um bilhete ao lado da roupa que ela pegou.

Não se preocupe com suas roupas ou tênis, as roupas estão na lavadora e o tênis secando, eles serão devolvidos assim que estiverem limpos e secos. Enquanto isso pode ficar à vontade pegando essas roupas emprestadas, bem como a bota. Estarei te esperando na cozinha, é só seguir o bom cheiro que eu tenho certeza que vai achá-la :D

Alice C.


Se vestiu com rapidez ainda desconfortável com toda a situação de incomodar uma completa estranha para ajudá-la. As roupas eram lindas e se ajustavam a ela como uma luva, bem como as botas, o que em si era um pouco curioso. Já que duvidava que Alice vestisse o mesmo número que ela, sem dúvida essa roupa deveria pertencer a outro membro da família. Esse pensamento só aumentou seu nível de desconforto.
Decidida a não deixar esse sentimento dominá-la, seguiu as instruções de Alice e desceu guiada pelo seu nariz até a cozinha. Enquanto andava não conseguiu deixar de notar a beleza da casa, o lugar todo era lindo e grande, bem maior que sua casa (que não era tão pequena assim). estava de fato encantada com sua própria casa, mas a casa de Alice parecia saída de uma dessas revistas que mostravam a casa dos famosos, mas sem a frieza e artificialidade da maioria dessas casas, pelo contrário, havia muita vida, aconchego e um ar natural de casa, que a transformavam de fato em um lar habitado por pessoas e não uma simples vitrine de beleza decorativa.
Como Alice tinha escrito foi bem fácil seguir seu nariz com o incrível cheiro que vinha da cozinha. Alice estava terminando de arrumar a ilha da cozinha já dispondo pratos com sopa sobre o balcão, cogitou mostrar alguma educação e recusar a sopa que parecia deliciosa, mas sua educada recusa morreu de forma vergonhosa quando o som indigno e alto de seu estômago faminto fez uma aparição indesejável. Alice riu divertida, virando para trás com um olhar tão malicioso que a fez achar que Alice sabia exatamente o que pretendia fazer. Resignada decidiu se sentar em uma das cadeiras e ignorar o constrangimento.
Muito em breve ambas estavam sentadas uma de frente para a outra saboreando uma deliciosa sopa. O silêncio também foi muito bom, reconfortante e pacífico. Algo que a deixou mais à vontade, contudo era fácil ver o quanto Alice estava ansiosa para falar, mas conseguiu respeitar esse momento, algo que relaxou e acalmou a mente de mais do que ela poderia dizer.
O silêncio foi rompido enquanto e Alice estavam dividindo a tarefa de lavar e secar a louça.

— Mas então... O que estava fazendo no meio de uma chuva dessas? — Alice indagou hesitante ainda parecendo focar sua atenção no prato que lavava.

pausou por alguns segundos a secagem do outro prato, pesando o que deveria dizer. Agora, depois de estar mais calma e centrada, se sentia ridícula por toda aquela cena. Não, se sentia ainda mais ridícula depois daquela cena. Chorar na chuva porque se mudou para um lugar que não queria era tão clichê que doída, além de ser dramático de um jeito bem embaraçoso.

— Foi uma coisa idiota... — começou dando um suspiro resignado — Estava com saudades de casa... — revelou. Agora que o som das palavras saiam da sua boca, não podia negar o quão patéticas eram.

Uma parte de queria tomar as palavras de volta, Alice era virtualmente uma estranha que não precisava e não deveria querer se envolver em seu drama pessoal. No entanto, não pôde ignorar esse sentimento que lhe dizia que Alice se importaria, que ela era confiável e não estava apenas sendo educada, mas que de fato estava interessada em ouvir. E de qualquer forma, seria muita pretensão de sua parte imaginar que poderia saber o que ia na cabeça ou no coração de alguém de uma forma ou de outra. Por isso, observou as reações de Alice, enquanto continuou a secar o prato, ou melhor, fingia secar só para ter algo para fazer com suas mãos.

— Você não precisa falar nada se não quiser... mas se quiser pode usar meus ouvidos. — falou dando um sorriso no final que foi difícil não retribuir.

Seu julgamento poderia ser equivocado, mas ela confiou em Alice, mais que isso, ela quis confiar em Alice. Contudo, não sabia como dar voz a toda sua angústia e dilema atual, sem parecer tola ou muito infantil. Além do mais, os acontecimentos do último mês, bem como seus pensamentos, giravam em uma confusa mistura em sua mente e organizar suas ideias de uma forma que fizessem sentido, era mais complicado do que imaginou. Mas antes que pudesse falar de novo e acabar com o longo silêncio que tinha seguido a declaração de Alice, ela voltou a se manifestar.

— O que acha de um pouco de chá?
— O que? — indagou confusa com a mudança repentina de assunto.
— Gostaria de um pouco de chá? — enunciou de forma mais lenta dessa vez.
— Ah, sim, sim. Chá, sim parece uma ótima ideia. — Sorriu ainda um pouco confusa.
— Ok.

Alice deixou a última louça para ela secar e iniciou a nova tarefa andando com calma em torno da cozinha. Decidida a ajudar e querendo algo para fazer, depois que secou os talheres perguntou para Alice, onde encontraria canecas para o chá, o açúcar e colheres. Não foi difícil seguir as instruções de Alice e logo estava ajeitando a ilha para seu inesperado chá.
Isso lhe permitiu o tempo e a calma tão necessários para conseguir organizar seus pensamentos e decidir o que e como diria o que queria dizer a Alice. Porque ela queria dizer, percebeu, ela queria muito dizer e enfim desabafar com alguém que poderia ver as coisas de fora e dar-lhe uma nova perspectiva sobre tudo o que tinha acontecido, mas principalmente ela só queria tirar esse peso do peito, se livrar dessa angústia.
Assim que Alice voltou servindo o chá para ambas ainda sem a atenção focada em , foi fácil começar a dizer o que tinha acontecido com ela, falar sobre esse último mês e sobre tudo o que tinha precedido a decisão da mudança. apenas narrou os fatos, os acontecimentos, tentando manter certo distanciamento, sem revelar suas opiniões ou sentimentos a respeito desses acontecimentos.
Por mais que estivesse vulnerável e se sentindo um pouco carente, ainda era muito cedo para se expor totalmente a uma completa desconhecida. E de qualquer forma, ainda era mais fácil narrar os acontecimentos, do que revelar seus sentimentos e pensamentos menos que nobres, sobre tudo o que estava acontecendo. Alice parecia ser uma garota inteligente, ela poderia ser capaz de ler nas entrelinhas, preencher os espaços em branco e entender o que aconteceu, sem que tivesse que verbalizar algumas coisas das quais ela não tinha nenhum orgulho.
Falar sobre tudo o que aconteceu, mesmo não revelando tudo o que pensou ou sentiu, foi um alívio. O elefante pesando em seu peito havia desaparecido, bem como boa parte da angústia que se agarrou a ela nesses últimos dias e explodiu em um rompante de impulsividade e atitude dramática e infantil.

— Sabe... acho que você não precisa se sentir envergonhada por isso, se quer saber a minha opinião.

E como pensou, Alice leu muito bem nas entrelinhas, o que fez não conseguir conter um tímido sorriso pelo apoio.

— Mudanças são sempre... complicadas. — A última palavra foi dita com um notável cuidado, como se ela mudasse de ideia sobre o que ia dizer no último momento. — Digo isso por experiência própria.
— Sério? — indagou cética.
— Sério — respondeu sorrindo — Minha família viaja muito, já mudamos de estado diversas vezes e eventualmente de países. Mudamos para Forks, pouco mais de seis meses. Então sim, eu sei como é ter que alterar toda sua vida de um momento para o outro, sentir que está começando de novo, deixar tudo o que conhece para trás, incluindo seus amigos, e ter que lidar com um monte de estranhos e uma cultura totalmente diferente da sua. Pode ser esmagador, eu sei. Mas depois de um tempo, as pessoas se acostumam com você e você para de ser novidade e consegue alguns amigos no meio do caminho, agora se você tiver sorte vai conseguir fazer algumas conexões bem reais e até duradouras.
— E como você está se saindo?
— Hmmm... Vou admitir que Forks nem de longe foi nossa melhor parada... — não pôde deixar de fazer uma cara arrogante quanto ao comentário — mas parece que hoje minha sorte deu uma grande guinada para melhor — terminou com um grande sorriso fazendo espelhar seu gesto depois de ouvir sua declaração.

A ideia de ter conseguido fazer uma conexão real com Alice, por mais louca que fosse, afinal elas acabaram de se conhecer, a cada minuto que passava com a outra garota, parecia mais uma realidade do que uma mentira reconfortante. Alice não inspirava só confiança, quanto mais falavam sobre nada e tudo ao mesmo tempo, percebia que falar com Alice, estar com ela, era como estar com uma velha amiga, mais que isso, era muito parecido com estar com família de verdade. Não parecia tanto com se conectar e sim com se reconectar com alguém querido e perdido. E poderia ser loucura ou carência, não se importava, só estava grata que seu caminho e o de Alice haviam se cruzado e que sua amizade incipiente parecia tão cheia de promessa de se tornar algo muito maior e melhor.
O pensamento de ter Alice ao seu lado, como sua amiga, para enfrentar esse assustador primeiro dia de aula, tornou aquele dia triste e cinzento um pouco menos ruim e depressivo, como se pequenos e pálidos raios de sol aparecessem de repente no céu, para iluminá-lo ainda que com timidez, espalhando um pouco de conforto em seu peito.
Enquanto lembrava de beber um pouco seu chá, ouvia Alice falando um pouco mais sobre como era viver em uma cidade pequena e os últimos acontecimentos das celebridades americanas. Foi só depois de vários minutos que percebeu que ambas tinham conversando em português e que Alice continuava falando sua língua.

— Espere! Você fala português?! — interrompeu um tanto estupidamente, ainda admirada com essa descoberta.
— Sim, pensei que você já tinha notado. — respondeu rindo.

Era ridículo como não percebeu antes, mas em sua defesa, Alice foi a primeira pessoa com quem interagiu desde que chegou nos Estados Unidos. E ela ainda precisava se acostumar que não estava mais no Brasil.

— Eu não... estava... — começou a balbuciar desconcertada, pela sua flagrante falta de atenção.
— Tudo bem, acho que eu entendo. — desconsiderou Alice ainda rindo.

Não podia deixar de encarar Alice com uma mistura de surpresa e admiração. Talvez esse fosse um dos motivos que tenha se sentido tão à vontade e que Alice tenha conseguido trazer conforto para ela de maneira tão rápida. Talvez, inconscientemente ouvindo Alice falar sua língua pátria a tenha feito de alguma forma se sentir em casa.

— Me desculpe... é que... não é muito comum as pessoas saberem português e conseguirem falar ele tão fluentemente.
— Eu imagino.
— Como você... quer dizer, onde aprendeu?
— Nós já moramos no Brasil, há alguns anos atrás, foi assim que aprendemos a língua. Ainda temos a nossa casa lá.
— Sério?! Então todos sabem português! — disse contente e surpresa. Seria incrível de verdade conversar na sua própria língua com outras pessoas além da sua família.
— Sim, todos nós. — respondeu parecendo muito satisfeita.
— Me fale mais sobre a sua família. — pediu se sentido um pouco animada com a perspectiva de conhecer mais pessoas que falavam português na pequena e interiorana Forks.
— Bom, meu pai Carlisle é uma pessoa única, adotou a todos nós...
— Nossa! — disse surpresa mais por descobrir que Alice era adotada do que por qualquer outra coisa.

Era difícil conciliar a imagem da garota alegre, vivaz e animada a sua frente, com a de uma criança órfã. Pensar nisso sem dúvida mudava muito sua perspectiva sobre Alice, a fazendo ainda mais incrível do que pensou de início. Afinal, alguém que conseguiu lidar com esse tipo de questão e ainda assim tinha se tornando tão brilhante como ela, só poderia ser uma pessoa muito forte. E isso também lhe dava um monte de perspectiva sobre sua situação atual, afinal ela tinha muito por ser grata, ela tinha seus pais e irmão, e mesmo com o resto de sua família tão distante no momento, todos estavam vivos e bem e ela sempre que quisesse poderia falar com eles por telefone ou pela internet.
Alice continuou a falar sobre sua família, como ela se estabeleceu com Carlisle adotando primeiro Edward e mais tarde com Esme adotando a própria Alice e seu irmão Emmett, e também como os gêmeos Hale, sobrinhos de Esme, ficaram sob sua tutela depois do terrível acidente de carro que os pais de ambos sofreram. E como depois seu último irmão apareceu como uma grande surpresa para toda família. Enquanto Alice contava sua história familiar, pôde perceber que havia uma quantidade de desconforto na outra adolescente que não conseguia identificar.
Mas quando Alice começou a falar do relacionamento romântico que Rosalie e Emmett mantinham e do seu próprio relacionamento romântico com o primo/irmão, Jasper, fez mais sentido o desconforto de Alice. Afinal, ela poderia entender que tipo de escândalo seria para manter relações românticas entre primos (o que na cabeça de eles eram) mesmo que não fossem parentes de sangue de fato.

— Eu sei bem como é isso — revelou , assim que Alice pausou sua conversa depois da revelação de seu romance com Jasper.
— Sabe?
— Sim, minha família é bem grande, muito grande, então já rolou algum relacionamento entre primos. Aliás, um dos meus tios, se casou com uma prima nossa de segundo grau, foi um escândalo na época, pelo que minha mãe contou, porque eles se casaram ao invés de ter apenas um namoro inconsequente, mas hoje em dia eles estão muito bem casados e com dois filhos e a família não liga mais pra isso. Para mim não é nada demais, tem gente que liga, mas não é da minha conta, então acho que não tenho o direito de julgar. Isso deve ter sido um escândalo quando vocês chegaram, mesmo que vocês quatro não sejam parentes de sangue.
— Ah, sim, foi. Mas nós já passamos por muitos lugares com todos os tipos de pessoas e culturas, então hoje em dia isso mais nos diverte do que nos afeta.
— Que bom. Mais poder para vocês!

-§-


Foi notável que sua volta para casa foi mais seca e muito mais agradável do que sua saída intempestiva, já que nesse momento tinha o prazer de contar com a presença radiante e animada de Alice Cullen. Outra coisa que notou era que os Cullen seriam provavelmente seus vizinhos mais próximos, já que a caminhada entre a residência Cullen e sua casa demorou apenas quinze minutos. Talvez ela e Alice poderiam até mesmo combinar de ir juntas a escola de vez em quando.
Apesar de já começar a anoitecer, não havia nenhum carro estacionado na casa, o que queria dizer que seus pais ainda não tinham chegado em casa. Melhor assim, dessa forma não precisava explicar suas horas de desaparecimento para eles, já era constrangedor demais ter que explicar a seu irmãozinho o comportamento infantil e exagerado que ela tivera.
Quando chegaram ao batente da porta para se despedirem com um abraço, notou, por uma das janelas da sala, seu irmão sentado olhando para fora com um livro na mão, nesse momento sentiu a culpa pesar em seu estômago como uma indigestão. Tinha esquecido de ligar para Liam e pelo menos avisar que estava tudo bem. Ele sem dúvida havia ficado esperando uma ligação dela e se preocupou o suficiente para decidir esperá-la olhando pela janela. Ela iria ter que pedir um monte de desculpas pela sua total falta de consideração. Suspirou lamentando sua falha e se soltou dos braços de Alice.
As duas se despediram, com Alice prometendo que se veriam muito em breve e que poderia contar com ela no seu primeiro dia de aula. Embora as garantias de sua nova amiga conseguissem diminuir sua ansiedade que esse primeiro dia já estava trazendo, bem como conseguisse alentar seu coração, não diminui o sentimento de culpa que tinha se alojado de forma desagradável em seu estômago. Por isso, encurtou a despedida das duas já se encaminhando para dentro da casa indo enfrentar a fera.

-§-


— Bom ver que conseguiu dar o ar da sua graça por aqui. — O tom de inegável sarcasmo não foi perdido para .

Foi a primeira coisa que ouviu ao entrar em casa, dessa vez nem poderia reclamar. Liam estava mais do que certo por estar chateado. Ela o deixara preocupado e esperando, sem saber quando ou se ela chegaria. Seria difícil pedir desculpas, pois não era um hábito frequente de sua relação. Os dois eram bons em brigar, mas o mesmo não poderia ser dito sobre pedir desculpas um para o outro. Não por orgulho e sim porque nunca foi necessário, já que nenhum dos dois conseguia ficar muito tempo zangado ou brigado com o outro. podia contar nos dedos de uma mão a quantidade de vezes que um dos dois ou os dois tiveram que pedir desculpas um para o outro. Mas a bola agora estava na sua mão e seu irmão merecia ouvir isso.

— Sinto muito de verdade, Liam — disse em uma voz apenas alta o suficiente para ele ouvir.
— O que? — Liam indagou surpreso.
— Me desculpe, por ter esquecido de ligar e avisar que eu estava bem e por ter te preocupado sem motivo.

Liam estreitou os olhos para a declaração da irmã.

— Você tá pedindo desculpas, para que eu não conte nada para a mamãe e o papai, não é?!
Se havia uma coisa que podia conta com Liam era para manter seus segredos, pois ele os mantinha, tanto quanto ela mantinha os dele, por isso a ideia de que ele contasse para seus pais sobre seu pequeno ataque, nem passou por sua mente. Talvez a situação fosse séria o suficiente para Liam acreditar que tinham que quebrar seu tácito pacto de manter os segredos do outro, mas achava que não. Embora não fosse fazer mal pedir para manter isso em segredo, só para garantir.

— Na verdade, isso nem me passou pela cabeça, por isso realmente apreciaria que você guarde essa situação toda para si mesmo. Eu só pedi desculpas, porque de fato sinto muito, não foi minha intenção preocupa-lo.

Ele fez um som indistinguível quase incrédulo, mas não realmente.

— Ok, tudo bem! Eu sou um santo mesmo, deveria ser canonizado!

riu com o exagero da declaração. Agarrou Liam antes que ele pudesse fazer qualquer coisa e tascou um beijo em seu rosto, algo que fez o garoto mostrar uma careta de desagrado. Liam odiava receber beijos de sua irmã mais velha.

— Você é o melhor irmão do mundo! — disse rindo e apertando mais Liam no pescoço.
— Tá, tá, chega, antes que eu mude de ideia — reclamou se desvencilhando dela.

Em sua cama refletiu sobre o incomum e turbulento dia que teve. Como uma montanha russa, cheia de altos, baixos, curvas e desvios alucinantemente íngremes para adicionar a emoção, seus sentimentos estiveram em toda parte. Mas, depois de conhecer Alice havia surgido em seu peito, entre todos os sentimentos conflitantes que sua vinda à Forks trouxe, um fio de excitação que não havia estado ali antes. quase estava ansiosa para seu primeiro dia de escola e poder reencontrar a outra garota.
Sim, as coisas ficariam bem e esse sentimento ela só poderia agradecer a Alice Cullen.


Teaser 1 - As inseguranças de Alice Cullen

Nota inicial: Oi, pessoas! Isso não é exatamente um capítulo, como vocês vão poder notar isso é um teaser. Eu sempre gostei da ideia de teasers nos capítulos e fiquei feliz por poder fazer um. Nessa história vão haver teasers e eles serão basicamente ou de cenas mais aleatórias que podem desviar um pouco da história principal e por isso não seriam considerados um capítulo. Ou ser uma cena ou cenas pelo ponto de vista de outro personagem ou focados em outro personagem que não seja Edward e Bella. Eles também vão servir como a minha tentativa de conseguir recuperar minha inspiração escrevendo algo um pouco diferente e ao mesmo tempo fazer algo para não deixar vocês tanto tempo sem atualizações. Espero que gostem desse pequeno teaser.


§§§

Quando você enxerga tão claramente o futuro, viver no presente se torna o verdadeiro desafio.
Alice Cullen


Era muito difícil ser Alice Cullen.

— Me fala de novo.
— Vai ficar tudo bem, não se preocupe. — O riso escondido na voz era fácil para Alice distinguir.
— Não ria, é sério!
— Desculpe amor, mas a forma como você está se preocupando é claramente exagerada. Você já viu tudo o que pode acontecer, já revisou seu próximo encontro de todos os ângulos possíveis, você sabe de todas as preferências dela, fez uma extensa pesquisa, já sabe dos programas de televisão e livros favoritos dela. Na verdade, se bem me lembro, você me obrigou a assistir algumas séries e filmes que eu não pedi, só pra conseguir ter o que falar com ela.

Alice fez uma careta para a descrição de seu marido sobre sua, como ele mesmo colocou, pesquisa.

— Você me faz parecer uma stalker — disse amuada com a ideia.
— Porque você é, mas não se preocupe, eu ainda te amo!
Seu marido teve a audácia de rir logo depois de dizer algo tão terrível.
— Jasper!
— O que?! Eu te amo querida, mas você agiu como uma stalker.
— Eu só quero que seja perfeito!
— Eu sei e vai ser ótimo. Você só precisa relaxar e deixar as coisas acontecerem naturalmente.

Alice fez um ruído de desgosto que seu marido conseguiu escutar do outro lado da linha.

— Eu sei que é um conselho batido, mas é verdade. Você sabe dos interesses dela, sabe como essa conversa vai ser, em sua maior parte, você só precisa relaxar agora e deixar as coisas fluírem.
— Jasper, é ela… — disse em um suspiro.
— Eu sei querida. Eu melhor que ninguém sei como você já se sente sobre ela.

E Jasper sabia mesmo. Não apenas porque ele era um empata e literalmente experimentava tudo o que ela sentia, mas porque ele era sua alma gêmea e seu companheiro eterno. Ninguém entendia tão bem quanto ele, que apesar de seus poderes serem dons preciosos, eles também eram um fardo enorme. Para ela não era apenas sobre saber o que iria acontecer e sim sobre experimentar esses acontecimentos em uma pequena janela no tempo. Seu corpo podia ficar no lugar, mas sua mente e coração estavam sempre um pouco mais a frente, quando a visão envolvia seu próprio futuro. Foi assim com Jasper, ela o viu muito antes dele aparecer e o amou muito antes de se encontrarem.
E agora era .
Ela já era sua amiga em seu coração, muito antes de terem se conhecido. Por isso, ela se esforçava tanto para ganhar sua afeição e amizade. Jasper estava certo, ela havia totalmente stalkeado para ter a certeza de que apreciavam as mesmas coisas e teriam o que conversar.

— Só seja sincera sobre o que sente e pensa. Você não precisa ser perfeita. Humanos não são perfeitos, ninguém é na verdade. Faça o melhor, mas não tente demais ou force demais as coisas. Há beleza nas falhas Alice...

Há beleza nas falhas....
Alice sorriu, ele sempre dizia isso quando ela tentava usar suas visões para impedir qualquer coisa de dar errado. Ele a impedia de sempre ficar vivendo o futuro. E desperdiçar seu talento em uma tentativa inútil de alcançar uma perfeição frágil e vazia. Ele a fez enxergar de verdade o presente e sorrir para o passado. Jasper a aterrava e a ensinou a apreciar os momentos um de cada vez, sem tentar antecipar tudo a todo o momento.
Ele era de fato perfeito para ela.
O último mês mais ou menos, se divertiram fazendo todas essas coisas humanas e juvenis por causa de . Vendo séries, lendo livros ou assistindo algum filme no cinema. Tudo porque ela queria se aproximar mais de . Mas Jasper não permitiu em nenhum momento que ela fizesse essas experiências apenas sobre sua nova amiga. Ele a fez descobrir o que gostava e o que não gostava, o que de tudo aquilo combinava ou não com ela. Jasper como sempre estava certo, precisava ser mais ela mesma e ser sincera sobre suas opiniões e gostos reais com . Ela precisava ser verdadeira.

— Eu te amo.
— Eu sei.

Alice riu, à clara referência ao filme de Star Wars que tinham visto semana passada, antes de desligar o telefone. Respirou fundo. Tudo iria dar certo e se não desse, com certeza elas ririam muito disso no futuro.


Capítulo 5 – O brunch

Afinidade é um sentimento engraçado, até mesmo um pouco particular ao meu ver. Para mim não é apenas sobre gostar das mesmas coisas que uma pessoa, mas também encontrar diferenças entre vocês, coisas em que vocês não concordam ou não combinam perfeitamente, mas que de alguma forma se encaixam, transformando em algo que as unem
Swan



§§§


Sua imagem no espelho a encarou incomodada e não pôde fazer nada além de suspirar, então assentiu para si mesma com resignação. As roupas espalhadas por toda a parte era a prova de seu esforço em escolher o look perfeito para esse malfadado encontro. trocou de roupa pelos menos umas três vezes, penteou os cabelos umas duas e verificou se estava com cecê pelo menos outras três vezes.
Era ridículo!
Isso era apenas um encontro amigável armado por sua mãe com a filha da amiga. na verdade nem fazia questão de conhecer a garota. Isso não era um primeiro encontro romântico com o cara mais quente da escola nem nada. Era absurdo o nível de preocupação que ela reservou para esse momento em particular. Precisava relaxar. Sem dúvida a coisa toda não passaria de um encontro empolado e desconfortável, com alguém que ela mal falaria nos corredores da escola.
Verificou o relógio no celular em cima da mesinha e se voltou para a bagunça no quarto. Agarrou todas as roupas espalhadas e enfiou em um dos armários que ainda era apenas um esqueleto do que devia ser. A maioria das malas ainda descansavam em um canto no quarto, aguardando sua preguiça sumir para serem desempacotadas.
desceu as escadas envolvida pelo cheiro de café, pão e bolo vindos da cozinha e se animou na hora. Estava morrendo de fome! As três bananas que comeu quando acordou não encheram nem um terço do seu estômago.
Suspirou feliz com o cheiro.
Apesar de tudo, esse brunch tinha uma vantagem definitiva, a comida. Sua mãe com certeza estava fazendo um esforço para que esse brunch fosse um sucesso, pensou. viu com apreciação uma pilha de panquecas na bancada ao lado do fogão. A fumaça ainda saía delas. Chegou a salivar um pouco. Ia sobrar para congelar! Mal podia esperar para comer.
Ao lado das panquecas, havia também um bolo de cenoura, um prato cheio de biscoitos amanteigados, outro com ovos mexidos e torradas. não pode deixar de pensar que horas exatamente sua mãe acordou para ter feito um banquete desse tamanho. Pobre Liam, se ele visse todas as delícias que a mãe deles preparou, ele teria pensado duas vezes antes de ir com seu pai para Port Angeles.

— Querida, pode arrumar a mesa? — Sua mãe disse sem sequer se virar do fogão.
— Indo! — fez sinal de sentido enquanto pegava a toalha de mesa. A visão de toda aquela comida melhorou significativamente seu humor.
— Pode colocar aí no balcão mesmo.
— Não vai fazer na sala de jantar?
— Não, aqui parece bem mais aconchegante e informal — disse se virando ligeiramente e sorrindo satisfeita.
— Tudo bem!
— Eu colhi umas flores no jardim. Agora temos um jardim, dá pra acreditar! — Sua mãe falou animada fazendo rir — Coloque o vaso na mesa também.

Logo a mesa estava posta. Tinha até rabanadas ou melhor torradas francesas (como faziam desse lado do continente), notou com surpresa e nem era natal! Se tudo o mais desse errado, a comida a salvaria de qualquer fiasco. Depois disso não demorou muito para a campanhia tocar.
Sua mãe foi atender e aguardou na cozinha ajeitando sem qualquer necessidade o cabelo.
Uma mulher entrou na cozinha ao lado da sua mãe. O rosto em forma de coração, traços suaves, testa alta e uma expressão convidativa. Ela era linda, não o tipo de beleza que se via em mulheres nos dias de hoje, excessivamente magra ou artificial, não. Era como uma dessas atrizes de filmes dos anos 50. Olhar para ela era como ver uma bela foto antiga, quase podia vê-la em tons de preto e branco. Mas o que realmente chamava a atenção era o sorriso. Fez pensar nos afagos e carinhos de sua mãe e avó, uma qualidade intangível que a acalentou.
Mas foi quando desviou seu olhar que ela teve uma surpresa.
Atrás da amiga de sua mãe, estava a última pessoa que ela poderia imaginar adentrando sua cozinha, com uma cesta de piquenique nas mãos.

— Alice?!

O seu choque não poderia ser mais evidente em sua voz ou em seu rosto congelado em uma careta de descrença.

!

Alice nem deu a chance de reagir antes de envolver seus braços nela, em um abraço de um braço só.

— O que... está acontecendo?

Para alguém tão pequeno Alice tinha um aperto bem forte. apenas se contentou em dar umas batidinhas com uma das mãos ainda confusa demais para fazer muito mais que isso.

— Surpresa! — Alice anunciou se desvencilhando dela e esticando os braços de maneira teatral, fazendo involuntariamente rir.
— Eu estou um pouco lenta hoje, o que tá acontecendo? — indagou olhando todas as mulheres na cozinha.
— Vocês se conhecem? — indagou sua mãe logo depois.
— Nos conhecemos ontem na verdade Sra. Stewart. estava passeando e acabamos nos esbarrando e conversando um pouco — respondeu Alice sem nem piscar sorrindo de maneira secreta para — Desculpe por não ter te avisado nada ontem . Quando minha mãe me avisou desse brunch e depois de encontrar a única pessoa nova na cidade, eu sabia que só poderia ser você que iria encontrar, mas achei que seria legal fazer uma surpresa. E aí, gostou?!

riu do absurdo e da coincidência da situação. Alice era a única pessoa a fazer o primeiro dia de aula soar menos assustador e mais antecipatório. A única a melhorar seu humor no último dia. O fato de que Alice era a única pessoa que fez o primeiro dia de aula soar menos assustador e mais antecipatório ajudou muito seu humor no último dia. E agora ela brotava do nada em um café da manhã metido a besta onde o desastre era o convidado de honra. E mais uma vez salvava seu dia só com a sua presença. Ia acabar que tinha tudo para ser um desastre e salvava mais uma vez o seu dia só com a sua presença. Ela ia acabar ficando mal acostumada com o time perfeito de Alice Cullen para melhorar seu dia.
riu do absurdo e da coincidência da situação. Alice era a única pessoa a fazer o primeiro dia de aula soar menos assustador e mais antecipatório. A única a melhorar seu humor no último dia. E agora brotava em um café da manhã metido a besta (o qual o desastre prometia ser o convidado de honra por sinal) só para salvá-la com a sua presença ali. Ia acabar ficando mal acostumada com o time perfeito de Alice Cullen para melhorar seu dia.

— Adorei! — Dessa vez abraçou Alice, agora mais corretamente.
— Isso é um alívio saber que vocês já se conhecem e estão se dando bem. — sua mãe disse com um sorriso nos lábios.
— Eu te falei que elas iam se dar muito bem. — Sra. Cullen disse com bom humor.

As meninas se separaram e sua mãe conseguiu apresentar adequadamente a mãe de Alice para ela. Logo, todas as quatro estavam sentadas desfrutando de um ótimo brunch. Com várias frutas tropicais, compotas, brownies e waffles, cortesia da Sra. Cullen. E eram um verdadeiro crime de tão bons.
A conversa fluía com facilidade. Assuntos desde o tempo à vida em Forks, flutuavam no ar da cozinha junto com a fumaça do café e do chá aquecendo o ambiente. Alguns risos também eram ouvidos. No fim as coisas foram muito melhores do que poderia ter antecipado. Não houve silêncios desagradáveis ou conversa engessada. Era tudo natural, convidativo e familiar. A recordava um pouco dos cafés da manhã na casa da sua avó, mas com bem menos barulho. A repentina lembrança de casa foi como uma agulha de gelo atingindo seu peito e esfriando seu bom humor de forma eficaz.

— Hey, ! — Alice chamou a distraindo da sensação desagradável.
— O que?!
— Porque não me mostra seu quarto?

A pergunta repentina a fez desviar definitivamente seus pensamentos de sua antiga casa.

— Ah, eu não sei Alice, ainda está tudo uma bagunça, mal desfiz minhas malas pra falar a verdade.
— Melhor ainda! Eu sou ótima com arrumação, não é mamãe?!

Esme riu do eufemismo.

— Minha filha mais nova é uma planejadora e organizadora quase compulsiva, tenho certeza que ela pode ajudar você a organizar suas coisas em pouco tempo.
— Sim! — Alice bateu palmas animadamente. Ela parecia já imaginar por onde começar.

Isso suavizou as arestas geladas em seu peito.

— Ok, vamos lá.

Arrumar suas coisas com Alice foi uma experiência totalmente nova. Ela não só era organizada, mas muito criativa. E fazia tudo com um entusiasmo de dar inveja. Se não fosse por Alice, ela só teria todas as coisas desembaladas daqui há uns seis meses, isso se ela forçasse as coisas. Tirando cozinhar, não era nem um pouco afeita a tarefas domésticas, muito menos ao tipo de arrumação mais sistemática que Alice era capaz de realizar, isso aos seus olhos era bastante admirável. Foi bem mais fácil também fazer esse tipo de tarefa enfadonha acompanhada de uma ótima conversa.
Curiosamente, elas tinham muita coisa em comum. Entre filmes, séries e livros, não houve falta de assunto para discutir. E mesmo quando não concordavam era divertido discutir e debater com alguém tão inteligente, animada e bem humorada como Alice. pensou com um pouco de humor que havia encontrado sua alma gêmea. Principalmente quando descobriram serem fãs da mesma saga de livros, Night Fall.
Esse foi o momento que a loucura realmente começou.
era uma apaixonada/fanática por Night Fall. Eles foram os primeiros livros que ela leu de verdade, com mais de 100 páginas (sem figuras) e com uma quantidade de capítulos superior a 15, então ela sabia que mesmo quando ficasse mais velha e lesse livros mais sofisticados, eles ainda seriam uma série que ela guardaria em seu coração. sempre foi uma garota sonhadora, que amava contos de fadas, quando ela ficou um pouco mais velha, uma história de vampiros cheia de romance, parecia o próximo passo lógico.
A história possuía todos os elementos de um conto de fadas moderno, foi amor à primeira vista desde a primeira página. Tudo era convidativo. O romance impossível. O rapaz misterioso surgindo na nova cidade. A garota ingênua e tão comum, arrastada em uma trama de segredos e mistérios sobrenaturais muito além da sua insípida realidade.
não teve nenhuma chance.
Ter que esperar um ano por um novo livro da saga era um sofrimento real. Mas depois de ler seu segundo livro e vasculhar a internet por qualquer sinal de Night Fall ou informações sobre o próximo livro, descobriu algo que explodiu sua mente. Começou com uma pequena história que na época acreditou que era produção da própria autora da série. Talvez um pequeno petisco para os fãs da saga. Mas depois que terminou ela descobriu que na verdade aquilo era não algo feito pela autora da saga, mas sim por um fã.
Foi dessa forma que ela conheceu o incrível universo das fanfictions. Um lugar onde o limite era a imaginação. E foi outro buraco de coelho onde ela caiu muito feliz. Ler aquelas fanfics realmente foi algo muito importante para ela, na época em que as coisas não estavam tão bem com a sua mãe e que ela não tinha tantos amigos próximos.
O mundo das fanfics foi seu porto seguro, um lugar que a protegeu, a acalentou e a confortou. Lá ela conheceu muitas pessoas fantásticas, criou teorias malucas, teve discussões tão incríveis quanto terríveis, mudou de ideia (várias vezes e sobre tudo), começou a pensar sobre as coisas mais criticamente e a analisar tudo sob o sol. O mundo parecia crescer, se ampliar e sua visão dele felizmente seguiu o mesmo caminho.
Era por isso que mesmo Night Fall não sendo a melhor coisa já escrita na atualidade, ela ainda a amava, porque Night Fall abriu seu mundo de uma forma que ela nunca imaginou e por isso ela era grata.

— Eu acabei o último livro publicado e estou morrendo pra saber o que vai acontecer agora. — Alice comentou dramaticamente.

Qualquer um que olhasse o semblante desolado da garota acharia que ela via o fim do mundo bem diante de seus olhos.
riu.
Agora depois da arrumação as duas se encontravam deitadas na cama de olhando para o teto.

— Quer dizer eu comecei a ler tem poucas semanas e devorei eles em menos de duas semanas. Agora estou sofrendo de uma terrível e inenarrável crise de abstinência . Você não entende! Eu preciso saber o que acontece depois ou vou literalmente morrer de curiosidade. — Alice terminou tampando com uma mão pra cima parte de seu rosto em uma pose exagerada de drama que fez rir de novo.

virou de lado para encarar o perfil de Alice com o travesseiro seguro em seus braços.

— Infelizmente não tem muito o que eu possa fazer por você, cara companheira. Temos que esperar e ir bolando teorias sobre o rumo da história. Tem uma.... — mordeu o lábio.
— O que?! — Alice virou de imediato, com os olhos esbugalhados, o que em um rosto tão pequeno a fazia parecer uma lunática.
— Bom...

contraiu involuntariamente o rosto. Seria muito ridículo falar com sua nova amiga, sobre fanfiction? Sempre tinha gente para criticar e falar que era coisa de criança, reduzir fanfic a uma produção de segunda ou pior compará-las a fake news. Claro que existiam coisas muito mal feitas (mas muita gente era jovem e só estava aprendendo e se divertindo), mas havia também verdadeiras obras de arte que não deviam em nada para um livro publicado, com a vantagem de que era de graça.
nunca teve coragem de falar para suas amigas mais próximas sobre seu amor por fanfics. Nenhuma das duas era tão afeita a leituras, Lígia não gostava de romances e Tina detestava o gênero de fantasia/sobrenatural. Elas viam sim, filmes e séries, mas ambas tinham pouca paciência para leitura em uma base regular. Por isso, apresentar as fanfics parecia um exercício de inutilidade que acabaria por constrangê-la de alguma forma se não na realidade então em sua própria imaginação.
Mas Alice era diferente, ela era tão apaixonada por Night Fall, quanto a própria . Ela não parecia o tipo que julgava o coeficiente de inteligência de alguém com base em seus gostos de leitura. E se Alice gostasse teria uma amiga no “mundo real” com quem compartilhar seu amor por fanfics em geral e fanfics de Night Fall em particular. Isso nunca aconteceu!

— Só um minuto.

levantou, já buscando seu notebook e colocando em cima da cama, onde mais uma vez deitou agora de barriga para baixo, Alice seguiu seu movimento.
Ela entrou em seu computador e no site onde lia a maioria de suas fanfics preferidas com seu login e senha.

— O que é isso? — Alice indagou curiosa.
— Você já ouviu falar em fanfiction?
— Hm, ouvi um pouco por alto.

explicou de forma simples todo o conceito de fanfiction para Alice que parecia mais interessada e animada a cada palavra. sorriu.

— Você disse que queria saber o que acontecia depois, bom eu não sei. Mas tem uma menina, uma ficwriter escrevendo uma história sobre o que poderia acontecer depois daquele livro e ela é muito boa mesmo!
— Oh my God!!!! — Era a primeira palavra que Alice falava em inglês, percebeu — Eu preciso ver isso agora!

Na próxima uma hora e meia as duas meninas ficaram deitadas com a cara de frente ao computador lendo a fanfic que indicou.

— Cadê o resto? — Alice indagou assim que terminou de ler.
— Então a autora ainda não postou. Esse foi o último capítulo que ela atualizou ontem. A fic ainda tá bem no começo, por isso que não tem muitos capítulos, mas essa autora geralmente não atrasa. Eu sigo ela há mais de um ano e ela nunca abandonou uma fanfic. Ela provavelmente vai postar semana que vem.
— Ah não! Eu vou ter que esperar tanto pra ler outro capítulo? — soltou dramaticamente.

O olhar desolado com uma dose de desespero de Alice, fez querer rir, mas ela manteve uma cara séria, com dificuldade.

— Nem reclama, ela não demora tanto e é uma das autoras que postam com mais frequência que eu sigo no fandom. Muitas autoras não são tão regulares ou abandonam suas histórias, ou tem bloqueios homéricos. É complicado quando você tem uma vida pra variar, sabe?! — comentou sarcasticamente.
— Hmm... — Alice fez um muxoxo amuado — E agora o que eu faço até a próxima semana?
— Lê outra fanfic? É isso o que eu faço, posso te indicar várias. — sentiu-se animada catalogando mentalmente suas fics preferidas para indicar a nova amiga — Tem histórias que seguem o cânone, tem UA...

Ela explicou os meandros do mundo das fanfics enquanto Alice ouvia com atenção. Era bom ser ouvida e era melhor ainda partilhar uma de suas paixões mais secretas com alguém do mundo real. Havia algo em Alice que deixava desarmada, estar com a outra garota era como estar em casa e ser afagada por alguém que amava. Ela gostava da sensação.
A conversa foi interrompida pela mãe de chamando as duas meninas para almoçar. Depois de receber a ligação do marido avisando que ele e o filho esticariam a visita a Port Angeles até Seattle, Fanny resolveu esticar o encontro pelo resto da tarde. A decisão foi recebida com comemoração pelas duas meninas que depois do almoço subiram novamente ao quarto de . Fanny e Esme permaneceram na cozinha colocando a conversa em dia.

— Eu adoro essa fanfic, mas não sei…. se fosse eu faria diferente. — começou falando dos pontos negativos e positivos de uma das histórias que ela acabou de indicar.
— Nossa, isso ia ser incrível! Night Fall nos anos 20! Isso precisa acontecer! — Alice exclamou animada e empolgada com a ideia.
— Infelizmente não tem nenhuma assim. Tem até umas histórias de época deles, mas é tudo ou na idade média ou na era vitoriana e com todos humanos. Eu só queria uma história onde eles são vampiros e vivem essas aventuras históricas que eu tanto adoro. Eles como humanos não têm a mesma graça pra mim. Eu me apaixonei por essa série justamente porque eles são vampiros. O que é totalmente uma das melhores coisas sobre esses personagens.

Alice riu.

— Então você gosta de vampiros?
— Eu adoro fantasia, é meu gênero de livros favorito. O mundo normal é tão absurdamente chato que eu acho que precisa de um pouco de magia e os livros nos dão isso, sabe?! — Alice assentiu — Mas respondendo a sua pergunta, sim. Eu adoro vampiros! Você poderia dizer que eles são o meu tipo de “monstro” favorito — disse rindo fazendo o sinal de aspas com a mão.
— E porque você gosta deles?

Alice pareceu realmente curiosa com sua pergunta, por isso refletiu seriamente sobre sua pergunta.

— Eu não sei bem. Só que sempre teve algo sobre vampiros que me fascinava, o mistério, o perigo, o ar sensual que é atribuído a eles na maioria dos cânones. Eles são fascinantes, instigantes, apaixonantes de um jeito sobrenatural. Acho que parte do apelo é que eles são essas criaturas atemporais, que viram o mundo passar por incríveis transformações e devem saber tanto sobre o mundo e as pessoas, tendo a sabedoria de um velho e um corpo quente pra caramba!

riu na última parte, fazendo Alice espelhar seu gesto.

— Eu acho que se não tem nenhuma fanfic de época com os personagens de Night Fall como vampiros você deveria totalmente escrever uma. — Alice mudou de assunto pegando desprevenida.
— O que? Eu escrevendo uma fic?
— Porque não, ia ser incrível ler uma história com todas essas ideias que você tem! Eu tenho certeza que ela ia ser incrível.
— Não, nem pensar! Eu não sou uma escritora.
— Bom pelo que eu entendi ninguém é um escritor profissional, todos são apenas fãs que adoram a série, acho que esse é o pré-requisito básico pra escrever uma fanfic, não é?!
— Bem é, mas... — começou incerta.
— Então é só escrever! Eu te ajudo na revisão de texto e posso te ajudar na pesquisa também, eu adoro coisas de época e entendo um monte dos anos 20. — Alice disse isso de um jeito estranhamente convencido, um sorriso secreto grudado em seus lábios, que foi estranho e cativante ao mesmo tempo.

Havia algo no ar que não conseguia captar, mas a sensação chegou e se foi muito rápido para ela processar.

— Não, nem pensar, eu iria morrer de vergonha! E não vamos mais falar nisso — continuou quando Alice ameaçou retrucar.

A conversa rapidamente se desviou sobre o próximo filme de super heroína que as meninas estavam interessadas em ver e o assunto morreu. Mas o brilho nos olhos de Alice mostrou que ela não desistiria tão fácil dessa questão, ela só teria que esperar uma próxima oportunidade.
O tempo passou voando para as duas meninas e logo estava na porta da frente de casa se despedindo com um abraço de sua nova melhor amiga.
O dia de hoje tinha estabelecido algo que suspeitou desde seu primeiro encontro com Alice. A forma como elas se encaixavam, como elas combinavam, não em tudo, (graças a Deus, não havia nada mais chato do que alguém que concordava em tudo com você) um pouco de discussão e combatividade saudável entre amigos era sempre ótimo e estimulante. Alice quase parecia sua alma gêmea, se o conceito de almas gêmeas incluíssem amigos como irmãos também. nunca teve uma afinidade tão forte ou rápida com alguém como a que ela experimentou com Alice. E não apenas isso, mas Alice era familiar de uma forma que ela não conseguia descrever. Era como se ela e tivessem se conhecido desde o berço. Como se fossem sempre amigas.
Ela nunca imaginou que depois de tudo o que aconteceu nas últimas semanas, hoje ela estaria ansiosa com a perspectiva de começar na nova escola, mas ela estava. A visita de Alice provou que Forks poderia se tornar sim o seu novo lar e que ela poderia sim ser feliz lá.

§§§


— Já o encontrou, Edward?
— Sim e você terminou o trabalho?
— Já está feito. — A voz de Jasper saiu calma e sem emoção. Ao fundo o som de sirenes ecoava cada vez mais próximo de onde Jasper estava.
— Então agora só falta denunciá-lo, pode deixar isso comigo.
— Sem rastros como sempre.
— É a minha especialidade. — O sorriso presunçoso na sua voz foi inconfundível.

Depois de mais de seis horas de buscas nas propriedades de todas as pessoas ligadas a Simpson, Edward por fim havia encontrado o que procurava em uma cabana de caça nos limites de Seattle. Agora só precisava encontrar a pessoa certa para informar a polícia.
Respirando fundo, ele relaxou sua mente e permitiu que ela se abrisse, se expandisse para além dos limites humanos alcançando todos os humanos próximos da área. Focou sua atenção nas pessoas que como ele, ainda caminhavam pela rua. Havia um humano há dois quarteirões, na pior parte da cidade, por isso não se surpreendeu ao perceber que se tratava de alcoólatra inveterado. Obviamente seu tipo não serviria aos seus propósitos.
Foi um pouco mais longe. Um casal voltava de carro de uma festa de gala. O homem fantasiava com o encontro que teria mais tarde com sua amante, já a mulher calculava quanto dinheiro conseguiria arrancar no acordo do divórcio, assim que o caso do marido fosse desmascarado. Ambos agiam com superficial cordialidade. A dissimulação humana não era algo que o chocasse ou surpreendesse mais. Não depois de ser um leitor de mentes por tanto tempo. Se desviou do casal, afinal eles serviriam tanto quanto o bêbado.
Acelerou sua busca pelas mentes de todos que estavam mais perto, atrás da pessoa certa. Um viciado em jogo. Não. Uma prostituta. Muito menos! Nenhum deles serviria, aumentou seu raio de busca, cinco, dez, quinze quilômetros... Um homem gerente de uma lanchonete, voltava para casa muito depois da hora, ele estava cansado do dia fatigante, seus pensamentos turvos e anuviados pelo sono e cansaço.

George tinha que me alugar novamente pra falar da última briga com a namorada?! Eu devia ter fechado antes dele começar a contar a história. Molly vai ficar bem irritada quando eu chegar em casa. A imagem de um poste sem luz e uma rua escura surgiu. Preciso ligar pra companhia de luz, esse parque agora vive escuro! É um perigo para as pessoas, imagine se assaltam alguém por lá. Logo Molly e minha garotinha também estarão frequentando o parque, definitivamente eu preciso fazer algo, amanhã...

Um bom samaritano. Era tudo o que ele precisava. Se chegassem a descobrir quem ligou nunca suspeitariam de Artie Harris, o gerente de uma lanchonete, casado e com uma filha para nascer. Ele era uma opção, muito segura. Seria mais fácil conter seus instintos perto de uma pessoa boa, alguém que tinha uma família que precisava dele. Uma família que ficaria destruída se ele morresse.
Seguiu os pensamentos até o homem em questão e em poucos segundos apenas cinco passos o separavam de Artie Harris e do seu objetivo. Tocou sua mente com um cuidado e uma lentidão estudada. Uma coisa era acalmar os humanos e fazerem eles não resistirem a aproximação de um vampiro e se deixarem submeter, para que o vampiro se alimentasse e depois apagasse todo o interlúdio de suas memórias. Mas o que Edward fazia agora, no entanto, exigia muito mais talento e habilidade do que um vampiro médio era capaz de manipular.
Edward ia convencer a mente de Artie através de sugestão para que ele executasse uma tarefa muito específica. Isso era algo bem mais complexo do que pedir alguém para ficar parado e não resistir a sua aproximação. Era como hipnose. Ele iria se conectar a sua imaginação e não a mente consciente. A mente iria aceitar o que a imaginação criasse por mais bizarro que fosse, entretanto, Edward sabia que nenhuma sugestão no mundo poderia levar ninguém a fazer algo contra seu caráter moral, contra a sua vontade. Um santo hipnotizado, ainda seria um santo.¹
E era exatamente por isso que Artie Harris era a pessoa perfeita para concluir seus objetivos. Ele era um cidadão de bem, o tipo de pessoa que teria a consciência de denunciar um assassino se a oportunidade se apresentasse diante dele. E agora Edward estava dando essa oportunidade a Harris, mesmo que ele não soubesse disso.
As palavras fluíram da sua mente a dele e logo fizeram eco em seus lábios. A leve conexão que ele precisaria manter para induzir Harris estava estabelecida. Depois disso não foi tão difícil convencê-lo a seguir até uma cabine telefônica e repetir as palavras que condenariam definitivamente Jordan Simpson.
Agora era hora de liberar Harris. Rápido assim, simples assim. Com suas habilidades, como leitor de mentes, para ele era muito fácil, manipular a mente humana. E fazê-los acreditar em suas ilusões e mentiras. Ele era tão talentoso, que quase os fazia ultrapassar seus limites morais para acatar sua vontade. Ainda conseguia lembrar com uma assustadora riqueza de detalhes o quão poderoso se sentiu quando conseguiu dominar um humano completamente.
Podia ver no olho da sua mente, ele na mesma posição que agora, drenando de toda vida um humano. A sensação inebriante de poder que era ainda mais doce que o sangue em seus lábios. O quão forte e poderoso se sentia. Era como estar no topo do mundo, vendo as formigas rastejando abaixo de seus pés. Foi o melhor momento de sua existência como vampiro. Era intoxicante, embriagador, viciante... um prazer quase hedonista. O sangue em seus lábios, quente e fresco, um prazer insidioso que tornava o momento ainda mais intoxicante. O sentimento o atingiu com uma saudade dolorosa e uma queimação funda no estômago.
E agora no presente, bem ali na sua frente um humano de sangue quente se postava diante dele, acessível, tentador, pronto para atender o simples pedido de ficar parado e não reagir enquanto saciava a sua sede. Uma pequena dose sem dúvida não causaria qualquer estrago permanente. Apenas uma dose do gosto do sangue descendo com prazer pela sua garganta, aquecendo seu corpo, inflamando imediatamente cada célula do seu corpo com mais vida e mais rapidez do que o insípido sangue frio que ele era obrigado a suportar, não faria qualquer mal. Não havia nada de ruim em experimentar. Tirar uma pequena prova.

Mas e se eu não conseguisse me controlar? E se eu o matasse?

Sua consciência se intrometeu o impedindo de dar um passo à frente. Um sussurro irritante. Consciência estúpida!

E daí, se ele morresse, o mundo era cheio de humanos. Eles povoavam esse mundo como baratas, eles eram apenas um grande Buffet pronto para ser servido. Um a mais um a menos, não faria diferença.

Porque ele precisava liberar aquele humano? Ele só continuaria com uma vida tola, medíocre e curta. Tão curta...

Eu estaria fazendo um favor a ele o livrando de uma existência inócua. E ninguém precisa saber. Ninguém da minha família ia precisar se preocupar com um pequeno deslize como esse.

Ele era o único leitor de mentes da família. Ele só precisaria sumir com o corpo, uma tarefa muito simples de realizar, talvez enterrá-lo no mato. Ou melhor, queimar a loja com seu corpo drenado dentro. A polícia viria e provavelmente alegaria um curto circuito, logo o caso seria esquecido. Ele poderia fazer isso e cobrir com eficiência seus rastros com cuidado e diligência. Graças a um amigo ele sabia como os Sentinelas operavam e usar quaisquer deslizes deles em benefício próprio.
Um passo à frente e um pedido para ele inclinar seu pescoço, pedido que o humano obedientemente acatou, mal sabendo o quão perto do fim ele estava. Suas presas se alongaram em antecipação, então quando estava pronto para cravar elas no pescoço do humano…
A imagem dela saltou de forma repentina em sua mente como uma bomba o paralisando. Ela estava na mesma posição vulnerável da visão de Alice. Enrolada em si mesma, chorando sozinha. Uma frágil humana que ele não apenas queria tocar, mas que ele queria desesperadamente proteger.
Edward recuou em choque, sacudido até o núcleo com a imagem mental e principalmente com o sentimento inesperado que ela evocou. A visão dela fez a névoa vermelha, que ele não percebeu nublando sua mente, subir e se dissipar. Sua razão chegou logo em seguida.
O que eu estava fazendo! Matar um inocente. Ele quase caiu na teia que a luxúria de sangue envolveu sua mente. E depois? E se um dia ele a encontrasse? Ela se tornaria outra vítima? Apenas mais uma estatística?
Recuou enojado com a simples ideia de machucá-la. Edward rosnou uma ordem para liberar o humano...
Humano não. Artie Harris. Casado. Com um filho a caminho. Se lembrou e repetiu como um mantra em sua cabeça, até que ele pudesse se afastar o suficiente.
Alguns quilômetros depois, Edward se encostou em um beco abandonado. Agora ele conseguia recordar com clareza o que quase aconteceu. Estava fora de si. Ele estava mal, sabia disso já há algum tempo. Contudo, seu frágil controle estava se deteriorando mais rápido do que todos imaginavam. Antes ele sempre pôde se controlar o suficiente para parar a si mesmo, sem intervenções externas. E agora, lá estava ele.
Controlar um humano. Não, controlar uma pessoa sempre era arriscado. Era uma tentação em si mesmo, ele sabia disso, todos sabiam. Por isso, mesmo os vampiros que tinham essa habilidade de forma mais acentuada usavam ela com muita parcimônia e cuidado. Era por isso, que ele era tão cuidadoso com as pessoas que submetia ao seu controle.
Ele sempre era muito seletivo, procurando escolher pessoas decentes, inocentes. Saber que elas tinham famílias, que eram pessoas boas, decentes, que não mereciam morrer, tornava o trabalho mais fácil. Colocava a tentação à baila, a vontade, o desejo era sempre inevitável, mas ele ficava em um lugar longínquo de sua mente onde não o afetava com tanta força. Ele era capaz de se controlar, pois estava sempre ciente do que estava fazendo, apesar do desejo, da vontade insana de sangue ser como uma entidade viva, sempre espreitando nos recessos mais sombrios de sua mente.
Seu monstro pessoal.
Porém, há alguns minutos atrás ele se perdeu. Não era mais ele. Era a fome. O desejo de matar, a cobiça pelo poder. Aconteceu apenas uma vez antes. E foi o suficiente. Destruiu tudo o que ele era e restou apenas o arrependimento que carregaria pelo resto da eternidade.
Naquela época ele estava com tão consumido pela dor, pela raiva, pelo ódio mesmo, que foi facilmente engolido no frenesi da luxúria de sangue. O que apesar de não justificar seu ato abominável, foi compreensível, se ele poderia usar uma palavra tão branda para explicar o que ele fez naquela noite.
No entanto, aqui e agora, cheio de sangue, ele por um segundo estava tranquilo. E talvez isso tenha sido sua queda, o fazendo abaixar a guarda. Ainda assim era grave demais! Estremeceu apenas com a lembrança de como ávido ele era. Como o perigoso predador nele levantou sua cabeça feia e deixou o monstro que ele era surgir. Não houve mais que um breve suspiro de racionalidade que foi brutalmente ofuscado pelo mais cru instinto.
Ele esteve tão perto, tão perto de dar o passo derradeiro. Então a visão dela surgiu como fogos de artifício iluminando sua escuridão interior. No momento mais inesperado, porém quando mais precisou. Era a mesma visão, a mesma postura, só a mesma imagem como um filme diversas vezes visto e ainda assim, naquele momento obscuro sua imagem foi luz, iluminando sua mente, sua alma. O fez lembrar quem ele era.
Apenas a sua memória de um momento roubado, salvou sua vida. Em silêncio ele a agradeceu. Esperava um dia ter a oportunidade de fazer isso cara a cara. O pensamento desse possível encontro afastou os últimos resquícios obscuros de sua mente.
Talvez, apenas talvez, se ele a encontrasse poderia se banhar um pouco na sua luz.
Se tivesse sorte.
Muita sorte.
¹ Trecho adaptado de O Mentalista Episódio 18 "Russet Potatoes", “Em Transe” em português .


Continua...



Nota da Autora: Bom, e aí. O que acharam? Gostaram, odiaram? Alguém curtiu Jasper e Alice? Me falem o que acharam, estou curiosa para saber. Sentiram que faltou alguma coisa? Desejam ver alguma coisa que ainda não aconteceu na história ou que não aconteceu em Crepúsculo, mas que você gostaria que acontecesse aqui? Podem falar que se eu puder incorporar sua ideia na história, vou fazer isso e dar o devido crédito.
E para aqueles que querem saber mais da história, pegar alguns spoilers de novos capítulos, interagir comigo, me cobrar novos capítulos ou interagir com outras leitores e elaborar teorias malucas, vou deixar o link do grupo que eu criei para as minhas histórias, lá também vou tentar deixar todos atualizados sobre a minha escrita: Facebook
O grupo ainda não tem nada além de uns banners porque ainda não tem quase ninguém, mas conforme aparecer gente eu vou respondendo as perguntas ou falando sobre atualizações.



Eu não escrevo nenhuma dessas fanfics, apenas scripto elas, qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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