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Última atualização: 19/09/2020

Capítulo 1

Junho de 2010



Minhas pernas tremiam e eu batia o lápis desesperadamente em cima da mesa. Eu olhava para o lado e via meus colegas de classe concentrados em fazer a prova final do ano letivo. E neste momento eu só queria saber por que todas as fórmulas de geometria haviam desaparecido da minha mente.
O primeiro aluno entregou a prova e foi liberado. Depois mais outro, depois mais outro. Quanto mais pessoas saíam da sala, mais nervosa eu ficava. Niall estava sentado na primeira cadeira da última fileira da sala, bem próximo a janela. E até mesmo o loiro escrevia sem parar na sua prova. Num momento de loucura, levantei e entreguei minha prova com a última questão em branco. Vi Niall arregalar os olhos surpreso. Peguei meu casaco, minha mochila e sai em disparada rumo ao pátio da escola. Eu não acredito que deixei a última questão sem resposta!
Antes que eu pudesse cruzar o portão da saída, ouvi alguém me chamar, mas não respondi.
- ! ! – era Niall me gritando – Margareth!
Parei subitamente ao ouvir meu nome e minha raiva de duplicou naquele instante.
- Do que você me chamou?
- Pelo seu nome, ué. Eu te chamei de , mas você não respondeu.
- Talvez porque eu não queria falar com você. – Me virei e continuei andando.
- Mas por que, ? Você saiu da sala tão estranha. – Niall apressou o passo e tentou me acompanhar na caminhada até em casa.
- Eu estraguei meu boletim! Meu perfeito boletim do Ensino Médio foi manchado no último trimestre do ano! – Eu dizia numa mistura de raiva e vontade de chorar.
- Mas, , não pensa assim, cara. Você é uma excelente aluna! Sempre foi.
- Exatamente! Sempre fui.
- E não vai uma suposta nota baixa que vai tirar isso de você. Relaxa.
- Eu deixei a última questão em branco, Niall. Tem noção? – parei e me virei para ele tentando fazê-lo entender minha angústia – Sabe quando isso aconteceu antes? NUNCA!
Niall me olhava com vontade de rir, mas ao mesmo tempo com medo de levar uma bofetada na cara. E eu segurei o riso, pois não seria uma boa hora para rir e perder toda a credibilidade de minha raiva naquele instante.
Caminhamos por mais uns minutos até entrarmos na nossa rua. Eu, Niall, Robert e Kathleen éramos amigos de infância, morávamos na mesma rua e estudávamos na mesma escola. Não éramos os populares da escola, mas também não éramos excluídos. Mullingar era minha cidade do coração e não esperava sair dali tão cedo. E ter amigos como os meus, era o que me fazia feliz.
- Vamos tocar hoje? – perguntei a Niall quando entramos na nossa rua.
- Vamos. Mas minha corda Sol arrebentou. Preciso comprar uma.
- Não precisa, eu tenho lá em casa e te dou.
- Ok, às 15h?
- Às 15h.
Abracei Niall e me despedi na porta de minha casa. Ao chegar na varanda, já podia sentir o cheiro delicioso do cozido de minha mãe.

***

- Psiu! Ei! ! Psiu! – ouvia meu nome distante em minha cabeça. Alguém estava me chamando? - !
Abri os olhos lentamente e percebi que havia adormecido sob as almofadas em cima da minha cama. Levantei-me num pulo e de onde estava vi Niall acenando para mim pendurado na grade da sacada do meu quarto. Sorri e caminhei até lá para abrir o vidro da porta.
- Como você subiu aqui? - perguntei olhando para melhor amigo - E o nosso código?
- Eu taquei pedra no vidro, mas você não ouviu. – Ele respondeu ainda com dificuldade de se segurar na grade.
- Com esse frio, eu acabei dormindo. Desculpa. - Sorri como pedido de desculpas.
- Vamos para a rua? - Niall perguntou ainda pendurado no parapeito da minha sacada.
- Espere. Vou pegar meu violão.
Me virei e fechei o vidro da porta novamente. Ventava frio lá fora e eu não queria que esse vento frio congelasse o conforto aconchegante de meu quarto.
- E não se esquece da minha corda!
Ouvi Niall gritar antes de se apoiar no telhado que protegia a janela da sala de baixo e pular finalmente no chão. Peguei meu violão e a corda extra que eu tinha prometido dar a ele. O mais rápido que consegui, desci pelas escadas, passei pela sala vazia e silenciosa abrindo a porta da frente e fomos para a praça que tinha ali perto onde costumávamos sentar para tocar. Niall tirou seu violão surrado de dentro da capa.
- Vou tocar POV, do McFLY! - Eu disse primeiro.
- Nossa! Nem se passou pela minha cabeça que você ia tocar essa música. - Niall disse sarcasticamente enquanto pegava o pacote onde a corda sol estava. Abriu um rasgo com seus dentes e tirou a corda de lá pronta para afiná-la ao seu violão. - E eu vou tocar 'Stereo Heart'. Minha música preferida.
Sentar-se na praça e tocar violão era como se fosse nosso ritual diário, e isso incluía dias frios como o de hoje. O termômetro marcava 12°C com previsão de chuvas e rajadas de vento. O som de nossos violões sincronizados entrava pelas janelas dos vizinhos sem que nós nos importássemos. O tempo passava mais rápido quando estávamos juntos. Algum tempo depois, percebi a presença de uma nuvem negra se aproximando, e não demorou muito para sentir alguns pingos cair na minha testa.
– Está começando a chover.
Guardamos rapidamente nossos violões em suas devidas capas e eu ameacei a correr em direção a minha casa, mas antes que eu fizesse isso Niall me impediu:
- Espera! - Niall segurou meu braço – Vem!
Niall pegou minha mão e saímos correndo com nossos violões nas costas. Sentia a caixa acústica bater na parte de trás de minhas coxas me atrapalhando a correr, mas, mesmo assim, Niall não desistia de me puxar pelo braço. Corremos até o início da nossa rua e refugiamo-nos debaixo da marquise de uma antiga farmácia.
- Minha mãe vai me matar quando eu chegar em casa molhada desse jeito! - Reclamei percebendo minha rouba ensopada da chuva.
- Ah! Qual é, ! - Niall e eu tiramos nosso violão das costas - Vamos aproveitar o momento!
Niall pegou na minha mão e me puxou novamente para o meio da rua.
- Niall! Não faça isso! A água está gelada! - gritei em reprovação tentando tampar minha cabeça com a outra mão, mesmo já estando encharcada da chuva.
- ... Curta a chuva! - ele sorria radiante.
Niall abriu os braços, fechou os olhos e levantou a cabeça, deixando a chuva cair em seu rosto. Fiquei parada por um instante olhando aquele garoto alegre e se divertindo me fazendo sentir uma velha ranzinza. Foi quando eu resolvi fazer o mesmo.
A cena era esta: eu e Niall no meio da rua, de braços abertos, tomando chuva. Ele soltava suas gargalhadas e pulava nas poças que se formavam na rua. De repente me sentia aquela criança de 5 cinco anos que um dia eu fui. Tinha me esquecido quão prazeroso era fazer isso. Niall me deu a mão e ficamos tomando chuva como se um resfriado não fosse consequência daquele ato. Niall chutava as poças d'água em mim e corria para que eu fosse atrás dele. Ele se se desviava de mim e me dava uns ‘olés’ na tentativa que eu caísse no chão e de preferência em cima de uma poça bem lamacenta. E adivinha? Ele chegou ao seu objetivo. Escorreguei feito uma jaca podre e fui direto dentro da poça gigante no meio da rua. Niall, como sempre, riu de mim e veio me ajudar.
- Me dá sua mão.
Fiz o que ele mandou e ele me deu um puxão me levantando num único movimento.
- Obrigada.
Ele permaneceu olhando para mim e eu sustentei seu olhar. Aquilo me deixou um pouco constrangida, mesmo sentindo um prazer fora do normal olhar para aqueles penetrantes olhos azuis.
- Já chega de bagunça... Vamos embora.
Tentei disfarçar o desconforto e voltei correndo de leve para debaixo da marquise. Peguei meu violão e caminhamos lado a lado para casa.
- Quero te contar uma coisa.
- Pode falar, Nialler. – Eu andava tranquilamente encarando o chão molhado.
- Tô pensando em fazer uma parada, mas... Queria saber sua opinião. – Niall parecia um pouco incomodado.
- Que parada?
- Lembra uma vez que estávamos tocando violão aqui na rua...?
- Quais delas? Foram tantas. – Eu ri me lembrando da frequência que isso acontecia.
- Uma vez... A gente tocando... Você me disse que eu cantava bem. - Pude ver um breve sorriso se formando em seu rosto.
- É verdade. - Respondi sorrindo também.
- Então...
- Fala, Niall. Fica tranquilo... É segredo?
- Não. Mas você vai ser a primeira a saber.
- Então fala, droga! - Dei um leve soco em seu braço esquerdo.
- Hum... Estou pensando em me inscrever no X Factor.
As palavras vieram a mim como uma metralhadora.
- O QUÊ?


Capítulo 2


A chuva gelada caía forte sobre minha cabeça e escorria sobre meus cabelos. Eu continuava olhando para os olhos azuis de Niall, mas ainda não havia processado o que ele acabara de me dizer.
- Eu tô pensando em me inscrever para a audição do X Factor que vai ter em Dublin. – Ele repetiu, como se percebesse que meu cérebro paralisou por um instante.
- Caramba! – Foi a única coisa que saiu de meus lábios. Eu sentia que meus olhos ainda estavam arregalados devido ao susto.
- Pelo jeito você não gostou da ideia, né? - Niall disse, abatido.
- Não, não é isso! - Segurei o seu rosto com minhas duas mãos e o fiz encarar meus olhos. - Eu acho o máximo!
Meu rosto estava próximo do dele e minhas mãos estavam geladas. Ele tremeu como se eu passasse o frio para ele, então soltei minhas mãos.
- É sério? Você me apoiaria?
- Claro, Nialler! – Voltamos a caminhar - E por acaso alguma vez eu deixei de te apoiar?
- Eu te amo, ! - Niall abraçou meus ombros. - Você é a melhor amiga do mundo!
Sorri como resposta, na tentativa de fazer meu subconsciente reagir melhor do que eu estava. Niall estava feliz e eu precisava ficar por ele. Amigos apoiam um ao outro, não é?
A caminhada finalizou em frente minha casa, quando eu já sentia a chuva mais fraca. O céu estava cinza e isso não estava ajudando na minha mudança de humor repentina. Minha mente estava um turbilhão de sentimentos e eu me cobrava a cada segundo para apoiar Niall.
- Quer que eu explique para sua mãe o porquê de estarmos molhados? - Niall se ofereceu.
- Não, Nialler, não precisa.
- Eu falo que a culpa é minha. Sua mãe não vai ter coragem de brigar comigo... ou vai?
- Não precisa, Nialler, é sério! Não se preocupe, eu me viro.
- Então tá. Qualquer coisa você me grita. - Niall piscou pra mim.
- Ok!
- Tchau, pequena!
- Tchau, pequeno!
Niall puxou o capuz de seu casaco e o colocou na cabeça, depois enfiou as mãos dentro do bolso e continuou sua caminhada até sua casa. Durante míseros segundos, fiquei parada, olhando enquanto ele ia em direção ao final da rua com o violão nas costas. E neste mesmo segundo, a tristeza abalou completamente meu emocional ao perceber que talvez, TALVEZ, eu não fosse ter mais meu amigo por perto. Sacudi minha cabeça para dispersar os pensamentos e dei a volta pelo quintal, para entrar em casa pela porta da cozinha.
- Muito bem, mocinha! Tomando chuva nesse frio?! - Mamãe disse enquanto terminava de passar o café.
- Desculpa, mãe. Será que a senhora pode pegar uma toalha, por favor?
Mamãe fez uma cara insatisfeita e foi buscar a toalha enquanto eu fiquei esperando na porta da cozinha. Passei a toalhas por meus cabelos e enxuguei meu rosto. Uma vontade de chorar subiu por minha garganta e minha vontade era gritar dentro daquela toalha e chorar por algumas horas.
- Vai direto para o banho!
- Sim, senhora!
Obedeci a minha mãe imediatamente e corri para o banheiro. Durante o banho, fiquei pensando nos últimos acontecimentos da tarde. "Ir para o X Factor". Estranho. Eu o apoiaria, é claro, mas estava sentindo algo ruim dentro de mim e não sabia por quê. Um pressentimento, talvez? Depois de alguns minutos, ouvi minha mãe me gritando no andar de baixo e percebi que havia ficado tempo demais debaixo do chuveiro. Quando desci, mamãe estava me esperando na mesa para tomar café.
- Os meninos estavam com você? - Ela perguntou enquanto misturava o açúcar na xícara.
- Não. Só Nialler. - Respondi pegando um pão para mim.
- Estavam tocando violão?
- Sim.
- Imaginei. - Um silêncio predominou. - Ele não quis entrar?
- Não convidei. - Respondi de boca cheia.
- Por quê? Fiz bolo de milho, do jeito que ele gosta!
- Eu não sabia, ué! - Respondi friamente.
- . Aconteceu alguma coisa?
- Meu Deus do céu! Quantas perguntas! Deixe-me em paz! - Peguei meu pão e saí da mesa correndo em direção à escada.
- Só estou tentando conversar! - Mamãe gritou enquanto eu corria para meu quarto.
Entrei ainda comendo meu pão e parei na porta da sacada, olhando os últimos pingos de chuva cessarem. Num segundo depois, o pão perdeu completamente a graça, então o joguei lá para baixo. Vi Spike correr para pegá-lo e devorá-lo num instante.
Sai da varanda e me joguei na cama, com Niall não saindo da minha cabeça.

***

A claridade bateu em meu rosto de leve e eu me revirei na cama. Espreguicei-me lentamente e sentei na cama. "Que horas são? Já amanheceu o dia?" Olhei no relógio: 07:07hs da manhã.
- DROGA! - Gritei enquanto pulava da cama.
Meu horário de entrar na escola era às 07h30min e já eram mais de 7 horas e eu ainda estava na cama. Vesti a roupa num rompante e desci as escadas correndo. Passei pela cozinha e peguei uma maçã para comer no caminho. Apesar do frio, calcei meus patins e sai em disparada para a escola. Passei no portão da escola às 07:43hs. Dei duas pequenas batidas na porta de minha sala de aula.
- Da licença, professor!
Com a cara emburrada, me sentei no meu lugar demarcado. , que se sentava à minha frente, esticou o braço pra trás e me entregou um bilhete. "Chegando atrasada? Aconteceu alguma coisa?" Respondi então: "Não. Só perdi a hora."
, que se sentava atrás de mim, me cutucou e cochichou no meu ouvido:
- , o dever de casa eu coloquei debaixo da sua carteira.
Virei um pouco de lado e cochichei de volta:
- Obrigada, mas eu fiz o dever.
O professor se virou e começou a passar a revisão no quadro para os próximos testes que teríamos nos dias a frente. Isso era o sinal para que a conversa começasse em toda a sala.
- Hey, , dormiu mais que a cama hoje? – Nicky fez uma piada para todos rirem de mim.
- Não, Nicholas, eu apenas me atrasei porque estava trocando a fralda do seu avô. - Respondi de volta.
- Uuuuuuuuh! - A turma o caçoou então.
- Podia ter ficado sem essa, hein, Nicky! - Niall disse gargalhando do outro lado da sala.
- Ei, ei, ei! Já deu de gracinha por hoje pessoal. - O professor interrompeu.
Sorri de lado, zombando da cara de Nicky enquanto ele me olhava com raiva. O tempo passou e logo estávamos no final de mais um dia de aula.
- Gente, o trabalho vai ser na minha casa hoje? - Niall perguntou enquanto guardava seu material na mochila.
- Sim, sim. Às 15h00min. Pode ser pessoal? - disse.
- Ok. - concordou. - Passo na sua casa, tá, ? - Dei de ombros.
- Tá de skate, Niall? - Nicky perguntou.
- Aham.
- Então vamos para casa. Tchau, gente. Até mais!
- Até, galera!
Niall se despediu e acompanhou Nicky de skate. Guardei os patins na mochila e fui a pé com e , como de costume.

***
- ! está aqui embaixo! - Mamãe gritou lá de baixo.
- Estou descendo! - Peguei meu caderno, material escolar e desci as escadas - Mamãe, estamos indo para a casa do Niall fazer trabalho.
- Tudo bem, meninas. Depois se quiserem vir tomar café aqui podem vir. – Mamãe disse simpática.
- Obrigada, tia. A senhora é muito legal. - foi educada.
- 'Bora, . - Agarrei no braço de minha amiga. – Tchau, mãe.
- Tchau, meninas. Juízo, hein!
- Tá! - Respondemos em uníssono.

Alguns metros depois, já estávamos chegando à casa de Niall. tocou a campainha e logo fomos atendidas pelo nosso amigo.
- Hey, . Hey, !
- Hey, Nialler. Os meninos já chegaram? - perguntou pendurando seu casaco.
- Já, estão todos no meu quarto.
Subimos para seu quarto e algum tempo depois, o trabalho já estava pronto. Niall guardou seu material e sentou na cama enquanto nos encarava, sentados no tapete recolhendo os recortes que sobraram para jogar no lixo.
- Bom, pessoal. Eu queria contar uma coisa pra vocês.
Meu coração gelou e eu parei imediatamente o que estava fazendo. Meu ar fugiu por um instante e me desesperei ao perceber que talvez ele contaria para e sobre o X Factor.
- Fala... – disse.
- Então... não sei se vocês sabem, mas vai ter audição para o The X Factor em Dublin. E eu estava pensando em fazer... o que acham? - Niall disse coçando a cabeça, demonstrando certo desconforto e receio da nossa reação. foi a primeira a se expressar.
- Que legal, Nialler! Eu acredito em você! - disse sorrindo enquanto se levantada para dar um abraço nele.
- Ooow! Sério mesmo, cara? - perguntou.
- É... vou tentar pelo menos.
- Maneiro! Vai ser que dia? – questionou.
- Semana que vem?
- MAS JÁ? – Gritei, levantando e assustando a todos, até a mim mesma.
- Nossa! - se assustou.
- Errr... mas assim... tão rápido? - Tentei disfarçar.
- É, . Vou me inscrever pela internet. Se der, hoje mesmo.
- O que seus pais disseram? – perguntou.
-Ah, eles disseram que me apoiam.
- Legal, cara!
parecia feliz com a ideia. Sério mesmo, ? Não vai falar para ele ficar? Dizer que não é boa ideia? Tentar convencê-lo a nunca sair de Mullingar? Grrr! Que droga! Será que era só eu que estava preocupada com Niall? E se ele não passasse? Ele ficaria muito triste. E, sinceramente, ver Niall chorar me faz corroer por dentro. E se ele passasse? Para onde ele iria? Quanto tempo ficaria fora? Acho que esse era o meu maior medo...
- Vocês gostaram da ideia? - Niall perguntou.
- Claro!
Todos concordaram, menos eu. Talvez o silêncio seria a melhor resposta; ou talvez eu só estava confusa com todas essas informações. Disfarçar reações não era o meu forte e eu sinceramente nem saberia fazer isso no momento. Nem eu mesma estava entendendo essa reação negativa. Niall estava empolgado, precisava do apoio de seus amigos, e o que eu estava fazendo? Reagindo negativamente a tudo.
- E você, ? Não vai falar nada? - perguntou.
- Legal, Niall. Já disse que te apoio.
Disse virando as costas e saindo do quarto dele. Desci as escadas correndo e fui em direção à porta da frente para ir embora. Minha mente gritava que eu estava sendo irracional e egoísta, mas a tristeza e vontade de chorar estavam me possuindo.
- Hey... ! - Ouvi Niall me gritar de longe, enquanto atravessava o jardim para ir embora.
- O que é, Niall? - Me virei para ele com raiva.
- Por que você está fazendo isso?
- Isso o quê, garoto?
- Isso! Me tratando desse jeito. Parece que você não está feliz por mim. - Niall me questionou, fazendo uma cara triste e decepcionado. Em segundos, tomei a decisão de continuar indo embora. Eu não estava mais suportando segurar o choro.
- Nada, Niall. É impressão sua.
- Espera!
Niall agarrou firme meu braço e me puxou com força para perto dele, me forçando a ficar. Meus olhos estavam marejados e suas bochechas mais rosadas que o normal. Minha respiração estava incerta e ter Niall assim tão perto de mim, não estava ajudando nem um pouco.
- Para com isso! Você não está feliz por mim? Não concorda? Acha que não vou conseguir? - Ele perguntava com raiva.
- Não, Niall! Não é isso! Eu acho que você vai conseguir!
- Então qual o problema, ?!
- Esse é o problema, Niall! Eu acho que você vai conseguir! - Cuspi as palavras na cara dele, deixando a primeira lágrima escapar. Ele me olhou confuso, piscando os olhos com pressa.
- Hã? Não entendi.
- Deixa pra lá!
Me soltei das mãos de Niall e segui em direção a minha casa. No caminho, deixei as lágrimas escorrerem a vontade, na tentativa de que a angústia também fosse embora. Minha mente era uma confusão que me cobrava uma reação diferente, mas meu coração não permitia. Era uma batalha entre minha razão e minha emoção.
Chegando em casa, tratei a porta da minha casa com a mesma raiva que sentia ao sair da casa de Niall, batendo-a com força.
- ? Que foi? - Ouvi meu irmão perguntar assim que ele me viu entrando pela porta da frente.
- Nada! - Respondi seca, sem olhar para ele.
Subi as escadas correndo e senti que vinha atrás de mim. Cheguei ao meu quarto e a primeira coisa de vidro que vi, eu joguei no chão. Era um porta-retratos. E ironicamente tinha uma foto minha e de Niall.
- QUE ISSO, GAROTA? - gritou comigo ao entrar no meu quarto.
- Me deixa em paz, ! - Gritei pra ele, tentando empurrá-lo para fora.
- Sua louca, você vai se machucar desse jeito!
resistiu à minha tentativa de expulsá-lo e segurou a porta, me impedindo de fechá-la. Soltei o ar com raiva e fui olhar pelo vidro da porta da sacada. Senti minha raiva escorrer pelos meus olhos em forma de lágrimas. Lágrimas quentes. Quentes de ódio.
- Você 'tá chorando? , o que aconteceu? Você não é de chorar.
Senti se aproximar de mim, esperando que eu falasse alguma coisa. Mas eu não respondi.
- Irmã. O que foi? Conversa comigo...
era meu irmão mais velho. Ele tinha 24 anos, a idade de Greg, o irmão mais velho de Niall. e eu sempre nos demos muito bem, ele era um irmão-amigo, aquele que te escuta e te dá conselhos valiosos. Aquele irmão protetor e companheiro. Confiamos um no outro, contamos tudo um ao outro. E eu sabia que não sairia do meu quarto enquanto eu não contasse o que estava acontecendo.
- Vem cá. - segurou minhas mãos e me puxou para nos sentarmos na minha cama. - Me conta: o que está acontecendo?
- Eu não sei...
Abaixei a cabeça e minhas lágrimas continuavam a escorrer. Meu corpo estremeceu e o soluço veio. Com , eu estava à vontade para chorar sem ser julgada. Eu apertava sua mão e as molhava com minhas lágrimas.
- Onde você estava?
- Na casa do Niall... fazendo trabalho com o pessoal. – Tentei respondê-lo.
- Alguma coisa aconteceu para você ficar assim, . - insistia em me fazer falar.
- É o Niall...
- O que ele fez?
- Nada. Ele me contou uma coisa e eu estou assim agora e nem eu sei por quê, . - Com meus dedos da mão direita, tentei secar aquelas involuntárias lágrimas.
- O que ele te contou?
- Ele vai fazer o teste para o X Factor...
- Pro X Factor? Puxa! - parecia surpreso também. - Que bacana! Mas, ... você está nervosa e triste por causa disso?
- É o que parece...
- Mas isso é uma coisa boa. Ele é seu amigo, você deveria ficar feliz por ele.
colocou sua mão acima das minhas, tento me fazer ponderar. Me levantei e fiquei andando pelo meu quarto, como se procurasse um rumo a seguir.
- EU SEI, MATT! Eu estou feliz, mas preocupada também.
- Já entendi. - disse, deixando que o canto de sua boca formasse um sorriso. Eu o olhei sem entender e continuava sorrindo, sacudindo sua cabeça em negação.
- Tá rindo do quê, seu idiota?
- Eu já entendi tudo. Você gosta dele!
- O. QUÊ?
- Você gosta dele, !
- Mas é claro que eu gosto dele!
- Não, . Você gosta dele 'mais do que amizade'.
- Hã? Como assim 'mais do que amizade'? - Eu estava cada vez mais confusa e aquela conversa com o não estava ajudando.
- Você gosta dele. Você o ama. Tipo: menino e menina, se é que você me entende. - tentava, de uma forma sem sucesso, me explicar suas teorias. Ele procurava palavras para tentar me fazer entender que eu estava apaixonada por Niall.
- HAHA! Tipo namorado? Acho que não, . - Me virei encarando a paisagem lá fora da minha sacada. E então, ouvi gargalhar.
- Ai meu Deus! Minha irmã está apaixonada!
- O QUÊ? Repete seu filho da puta! - Fechei minha mão e ameacei dar um soco em .
- Ei, ei! Pode parando, mocinha! Sou seu irmão mais velho, me respeite! - ficou sério e se levantou. Respirei fundo e abaixei minha mão, permanecendo em silêncio.
- ... não precisa ficar assim, nem com vergonha. Essas coisas acontecem. - Eu olhava para enquanto ele falava - Pensa comigo: vocês se conhecem há alguns anos, estudam juntos, moram na mesma rua, fazem as mesmas coisas, ficam o dia todo juntos, isso iria acontecer mais cedo ou mais tarde. - Eu ponderava suas palavras e seu raciocínio parecia fazer sentido.
- Ia? - perguntei.
- Sim, . Isso é natural. A gente passa muito tempo com uma pessoa e acaba se apaixonando por ela.
-'Apaixonando...'
Ri desta palavra. Já havia perdido a conta de quantos livros de romance eu já tinha lido e quantos filmes de comédia romântica eu já tinha assistido, mas nunca tinha percebido que um dia isso iria acontecer comigo, muito menos com o Niall. Digo, eu me apaixonar por ele. E talvez era essa explicação que eu estava precisando. Toda essa minha reação “negativa” era porque eu não queria ficar longe dele. Se ele passasse e se tornasse uma estrela de sucesso, eu poderia perder meu melhor amigo para sempre! Nunca mais nos veríamos todos os dias, nunca mais tocaríamos violão juntos e dificilmente nos veríamos pessoalmente... isso era de cortar meu coração em dois. Mas, ao mesmo tempo, meu lado racional me dizia que eu precisava apoiá-lo, ajudá-lo a seguir seus sonhos e se de fato ele conseguisse o sucesso que tanto almejava, que eu pudesse ficar feliz por ele. Era isso o que se esperava de uma melhor amiga.
- , você já tem 16 anos. Não tem que ficar com vergonha. Niall é um cara legal, eu apoio.
- Para com isso, ! Nossa conversa já deu o que tinha que dar! - Empurrei pelas costas, expulsando-o de meu quarto.
- Olha - parou na porta do meu quarto, segurando pela maçaneta - Pensa nisso: essa é a única explicação por toda sua revolta. É assim mesmo, quando a gente ama uma pessoa, só a ideia de ficar longe dela já é assustadora. Qualquer coisa estou lá em baixo estudando pra faculdade. Pode me chamar quando quiser. Aahh! E junta esses cacos de vidro antes que mamãe chegue. - piscou para mim, se virou e saiu em direção à escada.
- Ei, ! Obrigada. - Ele sorriu de volta.
Fechei a porta do meu quarto e comecei a juntar cuidadosamente os cacos de vidro do porta-retratos. Enquanto os juntava, meditava no que tinha me dito. 'Será que eu estou realmente apaixonada por Niall?' 'É por isso que não quero que ele vá embora?' Acho que ele não estava de todo errado. Joguei os cacos de vidro no lixo e o que sobrou foi nossa foto jogada no chão. Abaixei e a peguei.
Aquela foto foi no ano passado, tiramos em frente minha casa. Foi em uma das tardes que ficamos tocando violão na rua. Olhando para ela, era como se ela tivesse desenterrado memórias que estavam de alguma forma ocultas em minha mente. Aquele dia foi um feriado, um dia ensolarado, uma coisa quase impossível em Mullingar. Sorri ao lembrar que naquele mesmo dia, ele tinha me ajudado a dar banho em Spike. Na verdade, acho que quem mais tomou banho fomos eu e ele. Lembro-me também de que brincávamos de cabo de guerra com a mangueira, disputando-a para um molhar o outro. Memórias. Memórias que jamais seriam apagadas.
Guardei-a na gaveta.


Continua...



Nota da autora: Sem nota.





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