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Última atualização: 23/11/2020

Capítulo 1

O rabo felpudo de roçou a perna de Rhosyn e a trouxe de volta à realidade como se fosse mágica.
Sua mente viajava para longe enquanto segurava o cabo da colher de madeira que mexia dentro da panela a lentilha fumegante. Seu pai, novamente, havia se atrasado para fazer o jantar, logo seus dotes culinários estavam se aperfeiçoando de tempos em tempos. Sequer lembrava-se da última vez que havia compartilhado uma refeição com ele.
Não o culpava por trabalhar tanto, já que o sustento de ambos saía do bolso dele, mas o culpava pela sua ausência, pois sentia falta dos cuidados do pai. Não chegou a conhecer, de fato, a sua mãe. Na verdade, conhecera, mas não se lembrava muito dela devido à sua pouca idade quando aconteceu o acidente. Também não se lembrava do acidente.
Foi instantâneo, ela não sofreu, seu pai dizia, quando perguntava sobre o que ocorreu. Nunca soube, verdadeiramente, o que havia acontecido antes do acidente ou o que tinha o causado, mas se privava disso, para o bem da sua saúde mental, e apenas contentava-se com o que sabia. Ela não havia sofrido, ponto.
O miado fino de a despertou, trazendo sua atenção para ela outra vez.
— O que você quer? — Perguntou, como se ela entendesse, mesmo que às vezes tivesse a impressão de que sim. — Fome? — A gata ronronou, não dando muita importância para o que ela falava. — Eu acabei de te dar comida. — Estalou a língua no céu da boca, vendo-a passar no meio de suas pernas. — Carinho? — Outro miado. — Ah, sim. Eu entendo.
Nunca foi alguém sociável, poderia contar em uma só mão as amizades que teve no decorrer dos anos. No entanto, depois da escola, elas diminuíram ainda mais. Normalmente, conversava apenas com Thalia e raramente com Thomas, mas não podia dizer que tinham um vínculo, como melhores amigos. Eles apenas estavam lá, não eram chatos e conversar com eles de vez em quando era bom.
Contudo, conversar com era muito mais fácil.
Desligou o fogo, vendo que a lentilha já estava pronta para servir. Estava faminta. A mesa estava posta para um e não se demorou ao terminar o seu prato. Nunca gostou de fazer qualquer refeição sozinha, por isso não se alongava. Resolveu deixar a panela tampada em cima do fogão. Mais tarde seu pai chegaria, provavelmente cansado, e então a comida estaria ali apenas para ser esquentada.
Suspirou ao notar o ambiente silencioso exceto pelos miados que soltava de vez em quando. Estava entediada, sem absolutamente nada para fazer. Depois do último ano do colegial, e ainda dois anos e meio depois — pensou envergonhada —, estava oficialmente desempregada e sem nenhum compromisso. Era angustiante, mas seu pai fazia questão de lhe manter assim, pois, em suas palavras, ele já trabalhava o suficiente para os dois.
Suspirou e fez carinho no topo da cabeça da gata, vendo os olhos pequenos se fecharem em deleite.
— O que vamos fazer agora? — Escorou a cabeça em seu braço que estava apoiado na mesa de madeira. — Que tal irmos caminhar? — ronronou como se reclamasse. — Ok, o tempo está mesmo um pouco estranho. Vamos ver TV então. — Mas a gata ainda não parecia satisfeita, e sorriu quando a viu deslizar até a entrada do apartamento, como se quisesse dizer uma única palavra. — Elevador?
Ah, sim.
Foi como se tudo o que cogitasse planejar para aquela noite desaparecesse de sua mente e como se a lesse. Sim, elevador. Prontamente, se levantou, pegou seu casaco que estava sobre o aparador na sala, vestiu-o e saiu do seu apartamento com em seu encalço.
O clima estava gelado e provavelmente as ruas escorregadias pela neve recente, mantendo os moradores aquecidos em frente às lareiras de suas casas. Morava na cidade de Portland, Oregon, em um prédio situado no centro, com uma vista magnífica para as montanhas cobertas de neve. Seu apartamento era pequeno e com poucos cômodos. As paredes eram da cor pastel e lhes traziam conforto, assim como os móveis antigos, que cheiravam à casa de seus avós. A recente poeira estava ali de propósito, é claro.
A vizinhança era esquisita, mas legal. E amava Portland, admitia; também o seu prédio. Mas principalmente o elevador dele.
Morava ali desde que se lembrava e por isso tinha uma quantidade exorbitante de histórias das horas em que passava dentro daquele cubículo de metal que ia de cima a baixo no prédio. Os dedos curiosos haviam decorado o lugar de cada botão no painel luminoso e os vizinhos conheciam por isso.
Desde muito nova, costumava sair do seu apartamento logo cedo, ou apenas quando estava chateada ou entediada demais para ficar em casa. Rumava certeira ao elevador e apertava, no painel, todos os andares que podia. Era reconfortante o silêncio da cabine, a não ser pela melodia conhecida que saía da pequena caixa de som, e era um bom tempo para pensar em tudo. Além do mais, também adorava o frio na barriga que sentia quando a cabine se movia. Era, em sua opinião, a melhor parte.
Por isso, conhecia todos os inquilinos e era conhecida por todos eles também. No início, acabou arrumando discussões entre seu pai e o zelador do prédio, mas conforme os anos foram passando, seu passatempo foi ficando comum e ninguém mais dava tanta importância assim. Para a sua felicidade e a do seu pai, que pôde fugir das reclamações nas reuniões do condomínio.
As portas do elevador já estavam abertas quando chegou com , como se as saudassem. Com um olhar cúmplice direcionado à gata, apertou os três primeiros botões: quatro, três e térreo. Em seguida, as portas se fecharam e a típica melodia começou. Seu coração se aqueceu imediatamente, como um abraço gostoso.
— Acho que, de novo, papai vai demorar para chegar, . — Sentiu a pelagem branca roçar em suas pernas, mesmo por cima do jeans azul escuro. — Podemos passar bastante tempo aqui... O que você acha? — Pôde ouvir o miado agudo quase em concordância.
estava na sua família há muitos anos. Talvez logo depois de ganhar a sua primeira bicicleta, com seis anos, após a morte de sua mãe. Simplesmente aparecera no seu apartamento como se alguém a tivesse largado ali e seu pai não pestanejou quando pediu para ficar com o filhote. No final, acabou se tornando a sua melhor companhia. Mas era triste pensar que já fazia quatorze anos... quantos anos um gato normalmente vive? Nunca parou para pensar que já estava ultrapassada.
Segundos depois, o elevador soou, chegando ao primeiro andar que havia escolhido, e então fechou-se novamente, partindo para o próximo e depois para o último. O prédio normalmente era bem quieto, então não estranhou e aproveitou o tempo para escorar-se no fundo da cabine, apenas balançando a cabeça no ritmo de uma música que cantava mentalmente. Depois de um tempo, ao som mental de Every Breath You Take, com os dedos tamborilando no tecido escuro que forrava o metal da cabine, as portas se abriram novamente, pela terceira vez, e por elas entrou o Sr. Blander.
! — Cumprimentou-a, trazendo seu guarda-chuva encharcado para o lado de dentro. Quando havia começado a chover? — Brincando no elevador novamente? — Sorriu sem graça para o homem, vendo-o retribuir.
Sr. Blander era o vizinho do andar debaixo do seu. Não era muito alto, quase não tinha pescoço e o que restava dele era escondido pelo cachecol colorido. Mas, de todo, não era um senhorzinho chato. Na verdade, ele nunca havia reclamado das vezes em que ela havia obstruído as suas viagens com um passeio pinga-pinga para o seu apartamento. Apenas sorria e cumprimentava. Diversas vezes já vira seu pai mantendo uma conversa com ele, e os dois se davam bem.
Pé no saco mesmo era Morris, uma baixinha rechonchuda que sequer olhava para e reclamava semanalmente para o zelador de sua peregrinação pelo prédio. Queria acreditar que no fundo ela era legal já que também tinha um gato, mas estava enganada e sabia disso. No fim, apenas ignorava os sermões que já não eram mais tão frequentes ou sequer rígidos.
— Até mais! Boa viagem por aí... — Tirou o chapéu em uma pequena reverência e ela o acompanhou com os olhos até que as portas se fechassem no oitavo andar.
— Obrigada... — Respondeu, para si mesma, fazendo gestos como se ainda estivesse conversando com o Sr. Blander. Ouviu outro miado de e entendeu prontamente o que ela queria. — Ok, hora de uma nova combinação. — Relaxou os ombros, passando as mãos pelos cabelos volumosos e s em uma tentativa falha de ajeitá-los. — Que tal... sete, quatro, um e.... — Pensou por alguns segundos, seus olhos viajando pelo painel. — Zero? Hum, pode ser esse. — Murmurou, consigo mesma, lembrando-se que já fazia algum tempo desde a última vez que havia escolhido aquele andar.
Escorou-se novamente no fundo da cabine, colocando as mãos no bolso do casaco de forma despreocupada. Iria para o estacionamento, mas nunca gostou de ir ao estacionamento porque sempre entravam mais pessoas do que deveria. Até gostava quando tinha companhia, mas, na maioria das vezes, apenas passava o tempo em silêncio ou escutando alguma música. E aquela era uma boa hora para botar os seus fones de ouvido, se não tivesse os esquecido, junto ao seu celular, em cima da sua cama.
captou um piscar de luz repentino, algo normal por ali, no entanto, um barulho estranho, como uma batida oca, chamou a sua atenção e o seu semblante sereno foi embora. Repentinamente, as luzes do elevador começaram a piscar em intervalos curtos de tempo e um medo terrível se apossou de si. Num ímpeto, pegou e a segurou no colo apenas por precaução. Ok, aquilo não havia acontecido antes.
Em questão de segundos, sentiu tudo tremer e seu coração acelerou como nunca. Batia tão rápido que achou que teria um ataque cardíaco e morreria ali mesmo, com a sua gata no colo. , apesar da tensão, conseguia sentir seu sangue correndo rápido e uma pressão absurda fez sua cabeça doer, mantendo-se por alguns segundos. Sentia vontade de vomitar.
Porém, de modo estranho, tão rápido como começou, logo tudo se acalmou e voltou ao normal.
— Tudo bem. — Acariciou a pelagem branca de , mas não sabia se queria tranquilizar ela ou a si mesma. — Acho que acabamos de passar por um terremoto! — Com a mão livre, aproveitou para arrumar novamente os fios rebeldes do cabelo, que esvoaçaram com o episódio aterrorizante.
Achou que o elevador logo voltaria a descer para o próximo andar, já que o sétimo estava sem inquilino desde a saída de Anne, a antiga zeladora, então não teria ninguém para compartilhar a viagem. Porém, da forma mais tranquila possível, a campainha soou e a melodia pausou. E alguém esperava do outro lado, pacientemente.
Era um homem. Desconhecido.
nunca o havia visto por ali e isso a fez congelar no lugar. Talvez fosse o novo inquilino, ou algum familiar..., mas ela conhecia todos que moravam ali, em cada andar. Ou alguém não lhe comentou sobre o novo vizinho, ou... Não sabia, na verdade, mas um pressentimento não muito legal a incomodou. Ainda mais quando ele entrou calmamente, encarando-a com semblante de poucos amigos, e escorou as costas na lateral do elevador como alguém que já estava acostumado a fazer aquilo.
Sem tirar os olhos dele, percebeu que o homem desconhecido fitava o chão e a possa de água que o sr. Blander havia deixado com o guarda-chuva molhado como se os analisasse profundamente e isso lhe deu brecha para examiná-lo. Suas vestes chamaram a atenção de . Não eram roupas usuais, muito pelo contrário. Ela tinha a impressão de que aquele homem veio direto da corte real, onde havia acabado de tomar um chá com a Rainha, e a medalha que carregava no peito com os dizeres “Intermediador Real” apenas salientava a sua imaginação.
Estreitou os olhos e tentou retomar algum evento que estaria acontecendo pela cidade, o que era bastante comum, mas não se recordava de nenhum. Muito estranho, pensou. Sua gata miou como se também estivesse desconfiada, então resolveu desviar o olhar para que não fosse pega no flagra por ele, batendo o pé conforme a melodia calma ainda reverberava baixinho pelas caixas de som.
Com seus devaneios, não tinha reparado que o elevador havia começado a descer para o quarto andar. Mas ao recobrar a consciência, assustou-se quando olhou para o painel e notou que já estavam no segundo, sem pausa alguma. Um vinco de preocupação criou-se entre suas sobrancelhas e logo estavam no primeiro andar. O rapaz não pareceu se importar.
— Mas o quê? — Sussurrou, apreensiva.
Pigarreou, chamando a atenção do homem, e quando resolvera perguntar se ele sabia o que estava acontecendo, o elevador soou avisando que haviam chegado no andar zero. Um silêncio constrangedor e repentino marcou o local. Num desconforto palpável, seu olhar se encontrou rapidamente com os olhos do homem desconhecido, vendo o semblante nem um pouco preocupado dele, e sem conseguir realmente explicar como aquilo aconteceu, caiu.
Um grito mudo ficou preso na sua garganta e um solavanco em seu estômago quase a fez colocar toda a sua janta para fora quando desceu pelo buraco do chão.
Exatamente: um buraco no chão do elevador.
Recusava-se a abrir seus olhos e ver aonde estava caindo, mas desejou que aquilo acabasse de uma vez. O vento passava pelo seu rosto e a única coisa que sentia eram os pelos macios de em seus braços. Pelo menos ela ainda estava lá. Naquele momento, achava que fosse cair eternamente, como se tivesse sido expulsa de uma aeronave, pulado de um avião, ou como nos sonhos que costumava ter quando caía num vazio, mas sem destino algum.
Para baixo, para baixo.
Foi como se tudo desaparecesse e a única coisa que existia era a gravidade puxando seu corpo para um chão que nunca chegava. Então aquela era a sensação de morrer? De todos os modos possíveis, nunca pensou que aquela seria a forma que morreria. Mas então, no instante seguinte, ela parou. Simplesmente parou, como se estivesse flutuando.
Ficou alguns segundos suspensa no ar, com os olhos ainda fechados, sem coragem alguma para abri-los, e em seguida caiu novamente. Daquela vez, o chão estava logo ali, tão perto que sentiu o baque duro nas costas. Não doeu tanto, mas incomodou o suficiente para que soltasse um muxoxo dolorido, fazendo com que pulasse dos seus braços. Sua respiração estava acelerada e não se encontrava pronta para levantar e encarar o que estava acontecendo.
— Certo, respira. — Dizia, a si mesma, tentando se acalmar. — Respira.
E quando julgou ser seguro o suficiente para olhar em volta, quase fechou seus olhos novamente pela luz do sol queimando suas retinas. Estreitou-os e conseguiu, por fim, encarar a imensidão azul. Estava olhando diretamente para o céu.
Não estava chovendo?, pensou.
Estava confusa e tentando se acostumar com a claridade que dificultava seus pensamentos, quando tentar enxergar deixou de ser um problema. Algo estava lhe fazendo sombra. Na verdade, alguém estava lhe fazendo sombra.
— Ei, garota, você vai ficar aí deitada? Temos coisas para fazer! — A voz desconhecida murmurou. Era uma mulher mais velha. Ela carregava uma cesta de frutas e parecia usar um avental.
— O quê?
— Levante e vá buscar mais flores! — E saiu pisando fundo.
se levantou confusa, com seus pensamentos num turbilhão fazendo sua cabeça doer. Ouviu alguns cochichos e risadinhas e quando finalmente olhou ao redor, levou um grandessíssimo susto. Aquilo jamais seria o elevador de onde caiu. Ao olhar ao redor, percebeu que ele muito menos estava ali por perto. Apenas via o céu lá em cima e nenhum buraco por onde havia caído, nem mesmo qualquer porta próxima de onde estava.
Ao redor, casebres um ao lado do outro eram cercados por flores e gramas verdinhas. O vento era fresco, mas não era frio, nem quente. O aroma agradável tinha cheiro de maçã fresquinha e pôde ver crianças correndo e brincando por ali. Definitivamente, não estava no seu prédio. Nem no seu bairro. Nem em Portland. não conhecia nada daquele lugar.
Estava perdida.
E havia acabado de cair de um elevador.


Capítulo 2

Um ano atrás, havia sonhado que estava dormindo, o que soava ridículo e redundante, mas, no meio do seu sonho, um buraco se abria entre os lençóis e ela caía sem parar para dentro dele. Talvez aquilo tivesse sido um aviso para o que estava acontecendo, porque ela jurava que não havia botado nada demais dentro daquela lentilha.
Era real. Ela sabia. Mas estava sendo extremamente difícil de acreditar. Era tudo verde, tudo limpo, o céu tão azul quanto em uma pintura com cores vivas. O sol brilhando parecia até mais perto, mas jamais poderia dizer que estava quente, o que era curioso, pois também não estava frio. Aquele vento... Tinha cheiro de maçã vermelha e suculenta, daquelas que fazem um barulho crocante quando são mordidas.
As crianças corriam uma atrás das outras em uma brincadeira, talvez pega-pega, ou talvez corriam. As árvores cheias e fartas balançavam lentamente e pareciam dançar. Havia uma melodia alegre que soava longe, mas que era possível ser escutada de onde estava mesmo com os burburinhos animados. Era um banjo? Não sabia dizer.
Sentiu cócegas na perna e só então percebeu que suas calças estavam rasgadas. Não se lembrava onde havia conseguido aquele rasgo, mas, ao olhar para baixo, pôde ver as flores acarinhando a sua pele. Eram brancas, vivas, fortes e brilhosas, que nasceram entre as gramas e a estrada de pedra. Nunca havia visto nada igual. Oras! Nunca havia visto nada daquilo antes! Teve vontade de encostar a ponta do nariz nelas, mas não havia tempo para isso. Precisava saber onde estava.
Em um pensamento assombroso, cogitou estar morta e que então estivesse no céu. Pensou se poderia encontrar a sua mãe ali, mas tudo parecia muito real. A ideia de estar no paraíso não lhe passava confiança. Tinha algo a mais que mexia com o seu interior e a deixava incrivelmente curiosa e sem fôlego a cada passo. Era perfeito demais.
Sem perceber, já havia caminhado alguns metros. Ao olhar para trás, ainda conseguia ver o lugar exato onde antes tinha caído: em um jardim arredondado, no final de uma rua sem saída. Parecia uma praça, daquelas onde os pais passam o dia inteiro com as crianças em um final de semana. Continuou a caminhar lentamente, prestando atenção em todas aquelas pessoas que iam de um lado para o outro. Algumas sorriam enquanto conversavam, outras apenas sorriam e outras ainda conversavam sozinhas. Existia um grande tumulto, talvez haveria alguma comemoração.
Aproximou-se de uma casinha, avistando uma menina que regava as plantas com um regador de vidro muito bonito e diferente. Ela vestia uma saia longa e marrom, quase como um vestido, uma camisa branca com babados e botões e um avental. Havia voltado para o século 19?, pensou. E só então percebeu que todos se vestiam daquele mesmo jeito. Se pudesse dizer, a cada passo que dava, tudo se tornava ainda mais estranho.
Não tinha voltado no tempo, certo? Esperava que não!
Bateu duas palmas em um tom baixinho para não chamar a atenção das outras pessoas. A menina então se virou, parando de regar as flores e lhe encarou curiosa. Ela parecia simpática, tinha o cabelo preso e um pouco bagunçado, e os olhos se fechavam quando ela sorria. Mostrou-lhe a fileira de dentes brancos e então se aproximou do pequeno cercado de madeira que apenas servia para enfeitar o casebre. Qualquer um conseguiria pulá-lo, mas, em sua recente percepção, não acreditava que alguém ali realmente se preocupava com isso.
— Olá! — Ela disse, pendendo a cabeça para o lado direito. — Posso ajudar?
Reparou no forte sotaque britânico dela e ficou aliviada por, pelo menos, falarem a sua língua. Estava na Inglaterra? Era uma opção.
— É... Acho que sim. — Aquela frase lhe pareceu mais uma pergunta do que uma afirmação. — Poderia me dizer que lugar é esse? Acho que estou um pouco perdida.
A moça simpática deu uma risadinha baixa, tampando a boca com a mão desocupada.
— Estamos na vila de Reynah... — Ela gesticulou, gentilmente, ainda achando graça. sentiu-se boba e envergonhada. — Mas é claro que a senhorita já sabe, pois é uma Intermediadora Real.
— Uma... O quê? — Franziu as sobrancelhas, confusa.
não era ignorante, mas poderia afirmar com toda a certeza do mundo que não fazia nenhuma ideia do que aquela moça estava falando. E poderia apostar que seu rosto, por si só, expressava o seu alvoroço.
— Uma Intermediadora Real... Alguém que trabalha para o Rei! — Afirmou, novamente, porém um pouco mais lentamente. — Eu vi a senhorita caindo junto com aquele outro moço. Você é nova? Tudo bem ser nova.
entreabriu os lábios quando a menina terminou de falar. Ela lembrava muito bem daquele rapaz que havia dividido o elevador consigo. Lembrou-se também do broche escrito “Intermediador Real” e se recordava vividamente das roupas estranhas dele. Quer dizer que ele havia, literalmente, acabado de tomar um chá com a Rainha? Mas por que tinha caído junto com ele? Também não se lembrou de tê-lo visto quando se levantou.
Apavorou-se e soltou um suspirou pesado, deixando transparecer o seu pânico.
— A senhorita é uma Intermediadora, não é? — A moça perguntou, dessa vez levemente confusa. Seu sorriso havia sumido do rosto ao ver a expressão assustada de . — Porque não teria como você cair se não fosse alguém importante que trabalha para o Rei! — A cor aos poucos foi sumindo do rosto corado dela e então... — A não ser que... Não! Não pode ser!
— Não pode ser o quê? — deu um passo para trás, pávida. Estava com medo da resposta e não sabia muito bem o que esperar.
— A senhorita... Você por acaso veio do mundo humano?
Só podia ser brincadeira!
De todas as coisas que poderia sonhar em acontecer, entre elas: ficar famosa, virar cirurgiã, ganhar o prêmio Nobel por ter inventado algo que nunca ninguém havia pensado, jamais imaginou que existisse um outro mundo e que, de fato, fosse parar nele.
— Mundo humano? Como assim mundo humano? — Exasperou-se e sua respiração tornou-se ruidosa. — Eu não estou no mundo humano?
— Céus! Você é do mundo humano! — A moça simpática começou a se abanar como se de repente tivesse ficado muito quente e largou o regador ao lado, sobre a grama, para que pudesse abrir o pequeno portão. — Eu não acredito. Depois de séculos... — Suspirou pesado. — Venha, entre antes que desconfiem de você. — Deu espaço para que passasse. — Vamos logo!
sentiu-se ser puxada pelo pulso e foi arrastada para dentro do casebre. Que Deus a protegesse.

[...]


— Juliette! — Gritou, quando entrou em casa e em seguida fechou a porta. Trancou-a, para ser mais exata. — Juliette, Sophie, venham cá, por favor! — Espiou pelas janelas através das cortinas. — Alguém viu a senhorita? Quando caiu. Não acredito que não reparei nas suas roupas.
— Uma senhora somente. E algumas crianças. Mas não acho que eles tenham desconfiado de alguma coisa. — Suas mãos se entrelaçaram em um claro sinal de desconforto. — Talvez algumas outras pessoas também, mas por que isso seria ruim?
— Ai, meu Deus. — Caminhou de um lado para o outro com as mãos na cintura, parecia mesmo preocupada aos olhos de . — Meninas, pelos céus, venham logo! — Gritou, outra vez. — Essas garotas... Não sei o que faço com elas. São tão dispersas que provavelmente nem nos ouviram entrar. — Suspirou e desatou a falar sem pausas. — São minhas irmãs mais novas. Tenho Sophie, a mais nova, e Juliette que é a do meio. Acabei ficando responsável pelas duas desde.... — Com o semblante triste, desfez o nó do avental e o colocou sobre a cadeira. — Ah, mil perdões pelos meus modos! — Disse, de repente, recuperando-se, e gentilmente se aproximou. — Não sei onde estava com a cabeça... me chamo Eloise.
— Sou . — Conseguiu dizer, ao mostrar-lhe os dentes, mas aquilo jamais seria considerado um sorriso.
— Muito prazer. Eu seria mais condolente e menos falante com a senhorita, mas não temos muito tempo. Precisamos resolver a sua situação, é claro... Uma humana. Na minha casa. — Dispersou-se por alguns segundos. — Quem diria, quem diria. — Balançou a cabeça e soprou um riso. — Mamãe me mataria se ainda estivesse viva.
sentiu-se acuada. Estava em pé ao lado da porta enquanto absorvia tudo o que ela falava em pleno pulmões. Sentia-se culpada pela situação, mas, por outro lado, não tinha culpa nenhuma e sabia disso. Em que momento pensou que fosse cair do seu elevador direto para um outro mundo? Nunca! Já lera todos os tipos de fantasias, mas nada se comparava àquilo.
De repente, uma moça baixinha apareceu pela porta dos fundos, a qual julgou ser Sophie. Ela vestia uma roupa parecida com as vestes de Eloise e, enxugando as mãos no avental, arregalou os olhos e se acuou ao notar a presença de uma estranha. Em seguida, outra menina veio em seu encalço, Juliette, provavelmente, e as duas pararam no meio do cômodo com semblantes confusos. Todas as três eram extremamente parecidas. Os cabelos acobreados e os olhos verdes eram características marcantes na família, pelo que pôde perceber. Com exceção de Sophie, as outras duas eram altas, mas evidentemente eram mais velhas também.
— Elo? — Juliette chamou. — Aconteceu alguma coisa? Quem é ela? — Fez um movimento com a cabeça, apontando para .
— Essa é . — Disse, aproximando-se delas. — Acredito que eu vá assustar um pouco vocês duas, mas... Estamos com um problema.
estremeceu com o tom de voz dela.
— Problema? — A mais nova perguntou. — Isso nunca é coisa boa.
— E não é. — Retrucou, virando-se para . — Com todo respeito.
Estreitou os olhos na direção das três irmãs, mas sabia que Eloise não tinha culpa em falar daquela forma. Afinal, era a intrusa.
— Fale logo, Eloise! Está me deixando nervosa. — Juliette gesticulou apressada enquanto segurava uma vasilha.
... — Apontou para a única morena entre elas. — Ela é humana. — Disse, sem delongas.
Juliette, que ainda segurava a vasilha de cerâmica, empalideceu, deixando-a cair no chão de madeira e tampou a boca com as duas mãos. Sophie, no entanto, ergueu uma sobrancelha, parecendo não acreditar. Em nenhuma circunstância imaginou que algum dia veria aquela reação ao dizer que era humana. Entretanto, também nunca pensou em alguma situação na qual se veria explicando ser humana.
— Uma humana, Elo? — Juliette sussurrou, mas o tom era alto. Não fazia ideia que alguém podia gritar ao mesmo tempo em que sussurrava. — E você trouxe uma humana para a nossa casa? E se descobrirem? Sabe onde estamos nos metendo? Não... Sabe onde você está nos metendo?
— Acho que Julie tem razão... — Sophie falou, mesmo que ainda parecesse um tanto cética. — Na verdade, como você descobriu isso?
— Acredito que seja o suficiente somente olhar para as vestes dela, Soph. — Juliette juntou a vasilha do chão. Por sorte, não quebrara com a queda. — Como a senhorita veio parar aqui? Na verdade, como ninguém reparou na senhorita vestida desse jeito?
A pergunta havia sido direcionada a , mas aparentemente nenhuma palavra saía de sua boca. Tudo o que conseguiu emitir fora um grunhido constrangedor ao tentar explicar, então Eloise resolveu intervir:
— Acho que agora não devemos nos preocupar com isso. — Abanou as mãos. — Temos que achar algum modo de mandá-la de volta para casa. — Suspirou cansada. sentia pena de Eloise mesmo não a conhecendo. — Mas não faço ideia de como fazer isso.
— E você acha que nós duas sabemos? — Pela primeira vez, a mais nova elevou o tom de voz. — Você, mais do que ninguém, sabe que isso é assunto Real. Se alguém sabe, esse alguém é o Rei.
— Se o Rei souber que estamos abrigando uma humana, podemos morrer por isso! — Juliette bradou.
— Morrer? — finalmente falou. — Por quê?
— Ora, humanos não são bem-vindos aqui há séculos. — Eloise explicou, ao puxá-la para sentar-se à mesa, sendo seguidas pelas outras duas meninas. — Há muitos e muitos anos, tudo isso aqui também era de vocês. O Reino pertencia a uma família mista e todos viviam bem.
— Mas os humanos se revoltaram. — Juliette interveio, com cautela. — Eles não queriam compartilhar a autoridade conosco. Então instalou-se uma guerra. Os humanos eram mais fortes, no entanto, éramos mais espertos e, no fim, ganhamos a batalha. O castigo foi o banimento da raça humana do Reino e, desde então, vivemos escondidos.
— É por isso que existem os Intermediadores. Eles fazem o intermédio entre o Reino e o mundo humano, visitando lá fora de tempos em tempos, viajando por meio dos elevadores. — Eloise era calma e explicava tudo com clareza. — Nunca mais soubemos de nenhum humano que teria voltado à Reynah.
— Além de mim.
— Além da senhorita. — Assentiu. — Por isso pensei que fosse uma Intermediadora Real quando a vi. Compreende tudo isso?
— Sim. — Assentiu, embora toda a situação parecesse absurda. — Mas não é tão difícil ir embora, então... É só acharmos o elevador, não é? — perguntou, com um fio de esperança brilhando em seus olhos.
— Seria somente isso se não soubéssemos que ele fica dentro do castelo, em um dos quartos secretos que somente um Intermediador Real teria autorização para entrar. E o Rei. — Juliette falou.
— Nem mesmo o príncipe deve saber onde fica. — Sophie pontuou, ao descansar o rosto nas mãos que estavam sobre a mesa.
— Tem que haver outro jeito. — se levantou da cadeira e sentiu seu peito doer ao pensar que poderia ficar ali para sempre. A ideia de nunca mais voltar para casa a assombrou e pareceu cortar o seu coração. — Meu pai... Ele vai ficar preocupado. Eu preciso voltar!
— Não se preocupe com isso agora, senhorita... O tempo aqui passa diferente do tempo no mundo humano. Um dia aqui é como um segundo lá. Não sabemos como, apenas sabemos que é assim desde a batalha. — Eloise também se levantou, aproximando-se de . — O importante é nos acalmarmos e acharmos uma saída. Tudo vai se resolver.
— Eu não teria tanta certeza disso. — Juliette pontuou. — Não quero que me entenda mal, senhorita, mas percebe que estamos nos metendo em uma encrenca gigantesca?
assentiu e seus olhos se encheram de lágrimas.
— Podemos escondê-la aqui. Não será tão difícil, afinal, não é como se recebêssemos muitas visitas... Aliás, como a senhorita veio parar aqui? — Sophie indagou.
— Tudo bem se não quiser responder... — Eloise interviu.
— Não... Tudo bem. — Disse. — Acho que devo pelo menos uma explicação a vocês. — Acalmou a mais velha e então explicou sobre o episódio do elevador de forma sucinta. — E então eu caí e parei no fim da rua.
— Estranho.
— O que é estranho?
— A senhorita não deveria ter caído aqui. Deveria ter caído no castelo, onde todos os outros Intermediadores caem.
estreitou os olhos, confusa.
— O que aconteceu, então?
— Parece que a senhorita teve sorte. — Juliette disse.
— Não sei se posso chamar isso de sorte...
— Tem razão. Mas em sua posição, tenho certeza que podemos afirmar que a senhorita teve uma bela vantagem. — Eloise explicou, com cautela. — Não gostaria nem de imaginar o que aconteceria caso alguém desconfiasse.
Um silêncio desconfortável pairou no casebre, então suspirou. Seu semblante estava cansado e preocupado.
— O que eu faço, então? Como eu posso voltar para casa?
— Não sabemos agora.
— Mas nós podemos ajudar. — A mais velha procurou o olhar das irmãs, buscando o apoio das duas. — Podemos pensar em alguma coisa... Juntas.
— Eu... — achou que pudesse chorar a qualquer momento. — Isso não pode estar acontecendo. — Repetiu a frase por pelo menos três vezes seguidas. — O que foi que eu fiz?
Sentiu-se abraçada por Eloise e então se permitiu descansar o rosto no ombro dela. Estava apavorada com a ideia de permanecer ali como uma intrusa, e pior: de não conseguir nunca mais voltar para casa. Seu estômago se apertava somente com a ideia de não ver mais o seu pai. Tudo bem que ele tinha os seus defeitos e não era nem um pouco presente, mas, qual é, era o seu pai ali, a sua única família. Não podia ficar ali para sempre.
— Nós iremos ajudar a senhorita a voltar para casa. — Eloise disse, novamente, dessa vez com um sorriso afável iluminando o rosto, como se lesse os seus pensamentos. — Não há nada que nós três juntas já não conseguimos fazer.
— Bom...
— Não há nada. — Enfatizou, cortando a frase de Sophie, que pareceu entender ao se calar imediatamente.
levantou o rosto molhado e sentiu-se um pouco mais leve ao perceber o olhar compadecido das três em sua direção. Fungou e limpou as lágrimas, mas logo seu rosto virou abruptamente para o lado ao ouvir um miado conhecido. Era ! Mal tinha lembrado dela ao sair sem rumo em direção às casas.
— Um gato? — Juliette perguntou, curiosa.
— Uma gata. . — corrigiu, com um sorriso, e fungou. — Ela caiu comigo, mas perdi ela de vista quando vim até aqui. — Aproximou-se de e acariciou a pelagem macia. — Onde você estava, hein? — Ela a respondeu com um miado. — Não fuja mais de mim.
— Ela parece entender o que você fala. — Eloise constatou, com um sorriso.
— Sinto isso às vezes. — Respondeu, de forma afetuosa. — Acho que temos uma ligação, sabe? Nós duas. Não sei se conseguiria passar por tudo isso sem ela.
— Então acredito que temos duas novas inquilinas! — Bradou Juliette, parecendo emocionada. — Melhor irmos preparando os aposentos. E um banho! Vou prepará-la um banho quente. — E saiu limpando o canto dos olhos disfarçadamente.
— Precisamos de roupas novas se quisermos mantê-la em segredo aqui. — Sophie aproximou-se de e a pegou no colo. — Olá, senhorita ! Está com fome?
— Não se preocupem tanto comigo. — antecipou. Sentia uma leve quentura no peito e uma sensação breve de segurança, como se soubesse, lá no fundo, que tudo iria dar certo. — Posso ajudá-las nos afazeres domésticos também. Não quero ser um estorvo.
— Não será um estorvo! Mas uma ajudinha extra será bem-vinda. — A mais velha assentiu. — Sinta-se em casa, querida. Vamos fazer o possível para que se sinta acolhida no tempo em que estiver aqui. E pode ter certeza que vamos encontrar o caminho para sua casa, nem que para isso tenhamos que fazer uma visita ao Rei.
sorriu pela primeira vez desde que aterrissou ali e somente naquele resto de dia permitiu-se descansar e ser cuidada pelas três irmãs, pois teriam um longo caminho pela frente.


Capítulo 3

Alguns dias haviam se passado. não sabia dizer exatamente quantos deles, mas ainda não tinha se completado duas semanas desde o dia em que pisou pela primeira vez em Reynah. Ou melhor: desde o dia em que caiu em Reynah. Pensava constantemente em como havia parado ali, mesmo depois de mais de dez anos peregrinando pelo elevador. Talvez tivesse sido o botão zero. Mas, na sua cabeça, isso não fazia sentido nenhum, pois sempre soube que aquele era o botão do estacionamento.
Desde que chegara ali, passara diversas noites acordada, tentando achar alguma explicação plausível para tudo o que estava acontecendo. Cogitou que estivesse em coma, uma vez que realmente havia caído do elevador, mas direto para o chão e batido com a cabeça. Pior do que isso: pensou, também, que pudesse ter morrido e ido para o céu. No entanto, sentia tudo de modo cem por cento real, como se fosse apenas outro dia normal em casa com , tirando o fato de que não estava em casa e que não tinha nada de normal naquilo. Em outras palavras, sua única convicção era que tudo aquilo estava acontecendo, só não sabia como.
Quanto a Eloise, sentia-se grata. Sorte a sua quando resolvera bater no portão dela para pedir ajuda. Não sabia se outra pessoa teria a mesma reação que ela teve ao tomar conhecimento de que era humana. Além disso, Juliette e Sophie também foram extremamente receptivas e, eventualmente, o sentimento de intromissão foi se findando conforme se aproximou das meninas. Mesmo assim, gostava de ajudá-las nas tarefas diárias de manter o ambiente limpo e organizado, e também nas hortaliças, de onde Eloise tirava o sustento das, agora, quatro meninas.
Mas, não, não era de dinheiro que estava falando, pois, inexplicavelmente, ali não existia dinheiro. Com sustento, queria dizer alimento. Aparentemente, todos plantavam e colhiam as suas próprias comidas. Todos tinham eletricidade e água potável de graça. Todos possuíam móveis e roupas, mas era como se ninguém ao menos pensasse em cobrar por isso. No entanto, era normal que o carpinteiro, casualmente, trocasse um móvel por trigo ou milho, o mesmo fazia a costureira. E, surpresa, observou que tudo ocorria da melhor maneira possível.
Aos poucos, fora reparando que ninguém se importava em ter mais do que o outro e quando perguntou, pasma, para Eloise se ninguém nunca roubara alguma hortaliça sua ou qualquer outra coisa, Eloise riu e perguntou como assim? de uma maneira adoravelmente confusa. Foi nesse momento que entendeu por que os humanos foram banidos de Reynah.
Assim, os dias foram correndo naturalmente. Suas roupas estavam guardadas no fundo de um baú velho que ficava embaixo da cama e elas estavam tão no fundo que uma dúzia de tecidos antigos as cobriam. Naquele momento, usava um vestido verde musgo com um sapato extremamente confortável. Juliette a ensinou a prender o cabelo em uma trança que formava um coque baixo e esse fora o seu penteado favorito e mais prático, sem contar que durava absurdamente.
Estava, de certo modo, feliz ali. Seu coração se acalmou o suficiente, mas apenas porque confiou nas palavras de Eloise ao dizer que, a cada dia em Reynah, um segundo se passava lá fora, e isso a fez parar de pensar em como seu pai reagiria quando não voltasse para casa naquela noite. Sim, demorou a acreditar nisso, porém, quem , alguém que literalmente caiu do elevador para um mundo totalmente diferente, era para duvidar de Eloise?
Poderia parecer estranho pensar que um ano era, na verdade, um pouco mais do que seis minutos onde vivia, mas ela aprendeu a não mais questionar quando descobriu que, em Reynah, eles demoravam o dobro do tempo para envelhecer. Com isso, também soube que o Rei tinha, na verdade, 96 anos, a Rainha tinha 92 e o príncipe 52.
— Noventa e seis? — Perguntou, apavorada. Eloise riu enquanto comia mais um cookie.
— Sim. — Juliette deu de ombros e bateu com o pano na perna de quando viu a expressão dela de confusão. — Você está pensando como se eles realmente tivessem noventa e tantos anos!
— Mas e eles não têm? — Ergueu uma sobrancelha.
— Sim, mas não é como se tivessem, entende? — Tentou explicar. — Na verdade, parece que eles têm um pouco mais do que quarenta. Mas quando tinham quarenta, era como se tivessem vinte, e quando tinham vinte...
— Tá, tá, eu entendi. — Apoiou o rosto na mão que estava escorada na mesa, mas a expressão confusa ainda não deixara seu rosto. — Quer dizer então que a Rainha tem... quarenta e seis anos?
— Isso. E o Rei tem quarenta e oito. — Eloise disse.
— E o príncipe tem vinte e seis. — Juliette comentou, e suspirou encantada.
— O príncipe, han? — riu. — Ele é bonito? Céus, não consigo agir como se ele tivesse realmente vinte e seis anos. Na minha cabeça, ele ainda tem cinquenta e dois.
— Quando a senhorita o vir, vai mudar de ideia. — Sophie apareceu com um livro em mãos e lançou o sorrisinho meigo na direção das três. — Juliette ficaria uma fera se a visse suspirando por ele também. Mas eu concordo, ele é muito bonito.
Um pano saiu voando na direção de Sophie, que pegou no ar e jogou de volta.
— Não é bem assim. — A do meio justificou. — Eu o acho bonito e só. Inclusive, não gostaria de me casar com um príncipe e me tornar uma princesa... A ideia de governar um Reino não me parece muito divertida.
Eloise riu e a acompanhou, mas outra questão rodeou seus pensamentos.
— E vocês? Quantos anos têm?
— Achei que nunca fosse perguntar. — Elo deu um tapinha carinhoso no braço de . — Sophie tem treze, Julie tem vinte e eu tenho vinte e nove. Agora você pode multiplicar por dois. — enrugou a testa numa leve demonstração de confusão.
— Achei que vocês se apresentavam como se tivessem já quarenta anos ou sei lá.
— Não. Quanto menos melhor. — Riu dela. — Por exemplo, se fosse ao contrário, você se apresentaria como se tivesse quarenta e dois anos para que ninguém suspeitasse... Mas como não é, pode dizer que tem vinte e um, normalmente.
— Então se eu ver o príncipe, ele vai dizer que tem vinte e seis e não cinquenta e dois? — perguntou. — Agora fiquei curiosa sobre ele.
— É bem provável que você veja o príncipe bem cedo. Ele sempre anda pelo Reino. — Sophie riu de boca cheia, mas isso fez Eloise se sobressaltar. — Calma, é só cookie na minha boca. — Ela entreabriu os lábios para mostrar o conteúdo mastigado, mas a mais velha a ignorou e se levantou abruptamente da cadeira.
— O que aconteceu? — Juliette perguntou, preocupada, trocando olhares com .
Eloise procurava algo em cima do móvel da sala, revirava alguns papéis amarelos e parecia realmente eufórica. De repente, olhou para o relógio, assustando-se com a hora. Ela, então, virou-se para a entrada e observou algo pelo vidro da janela, fechando a cortina em seguida. Todas estavam em silêncio absoluto, esperando que a mais velha se manifestasse e explicasse o que estava acontecendo. Foi quando ela puxou, de dentro de uma gaveta da cristaleira da sala, uma carta amarelada selada majestosamente com um selo vermelho e com um laço dourado em volta, que Juliette obteve o mesmo comportamento, assim como Sophie.
— Ok, talvez vocês estejam me assustando. — Ainda sentada, observava as três meninas lendo a carta, após Elo quase rasgá-la ao abrir o selo com velocidade. — Alguém pode me dizer o que está acontecendo?
— Meu Deus! — Eloise colocou a mão na boca e lançou uma última olhadela para o relógio. — Já passou da hora... O que a gente vai fazer? Ele não pode vê-la aqui.
— Gente? — Tentou uma última vez quando percebeu que era o objeto da conversa. — Eu ainda estou aqui...
, vá para o seu quarto e não saia até alguma de nós pedir! — Juliette disse, baixinho, já a empurrando da cadeira.
— Não! — Embraveceu. — Eu quero pelo menos saber o que está acontecendo.
— É o príncipe. — Sophie disse, tranquilamente. — O príncipe está procurando uma esposa.
— E por que ele iria vir até aqui procurar uma esposa? — Perguntou, confusa.
— Porque o príncipe faz questão de... como é mesmo? — Julie questionou, retoricamente. — Convidar pessoalmente cada senhorita do Reino acima de dezoito anos para o baile real.
— Quer dizer que...? — Já sabia o que aquilo queria dizer, mas gostaria que elas confirmassem.
— Quer dizer que o príncipe vai chegar aqui em poucos minutos. — Eloise disse, ajudando Juliette a empurrá-la. — E ele não pode saber que a senhorita está aqui conosco.
— Mas ele não vai saber que eu não sou daqui. — Sorriu amarelo, e essa foi a sua última tentativa de permanecer fora do quarto.
— Acredite, ele vai saber! — E a porta foi fechada rente ao seu rosto com um baque surdo.
bufou impaciente e se sentou na cama, vendo que dormia tranquilamente ali. Aquele era o quarto de Sophie, que estava dormindo no quarto de Juliette por enquanto, então, naqueles dias, aquele era o seu quarto. Apesar de não parecer muito com o seu, o ambiente rústico combinava com o seu gosto. As paredes eram de madeira, mas foram pintadas da cor gelo, já o chão, que também era de madeira, era escuro, mas não fora pintado. O ambiente era limpo, bem arejado, não era pequeno e tinha uma cama extremamente confortável. Aquilo bastava para ela, que já se acostumara a acordar com aquela imagem todos os dias.
Um grande tumulto foi ouvido e sentiu-se nervosa de repente. Ouviu-se cavalos do lado de fora e o barulho áspero de rodas diminuindo a velocidade sobre a estrada de pedras. Logo o murmurinho aumentou e diminuiu rapidamente, então passos pareceram adentrar o casebre de Eloise, foi quando o seu coração se acelerou. Pensou em se esconder dentro do armário, no meio das roupas, mas duvidava que o príncipe seria grosseiro o suficiente para entrar no quarto de uma dama. Não o conhecia, mas sabia um pouco sobre etiqueta.
Algumas vozes foram ouvidas, masculinas e algumas outras femininas. , mesmo com o ouvido colado na porta, não conseguia ouvir nada além de chiados abafados. Mordeu os lábios em expectativa e curiosidade. Droga, queria tanto saber sobre o que estavam falando. Além disso, queria ver o rosto do príncipe. Era quase impossível acreditar que um homem de cinquenta e dois anos tivesse, na verdade, vinte e seis. Deu uma volta no quarto enquanto roía a unha do polegar, tentando espantar a curiosidade.
Uma risada soou, atiçando-a ainda mais. Dane-se. Ela queria ouvir o que eles estavam falando. Só uma fresta por entre o batente e a porta não iria entregá-la. Ninguém iria saber que estava ali, escondida, ou que havia vindo do mundo humano. Mas o pensamento fez seu estômago gelar ao lembrar do que Juliette disse quando soube que era humana. Se o Rei souber que estamos abrigando uma humana, podemos morrer por isso. Suspirou. Não, ninguém iria morrer. Porque sabia fazer as coisas silenciosamente. Já havia escapado muitas vezes do seu apartamento, silenciosamente, para que pudesse passar alguns minutos dentro do elevador enquanto o sono não vinha. Não seria uma porta que iria desafiá-la.
Cuidadosamente, com os lábios entre os dentes, girou a maçaneta e fechou os olhos fortemente quando ela fez um click. Esperou alguns segundos e, quando notou que a conversa continuou do lado de fora, abriu a porta apenas um pouco, o suficiente para que pudesse enxergar o que estava acontecendo ali na sala. Tinha certeza de que apenas metade do seu rosto estava à mostra, então soltou a maçaneta e se apoiou no batente, observando e tentando ouvir o que eles estavam conversando. Seus olhos passaram de um por um, até caírem em Eloise.
Se pudesse dizer com base nos dias em que a conhecia, Elo estava extremamente nervosa e desconfortável. O semblante dela, na maioria das vezes, era sereno, mas ali estava ele, todo contorcido pela preocupação. Os dedos, do mesmo modo, dançavam um no outro como se aquilo tirasse um pouco da tensão que estava a incomodando. Quase pôde sentir pena dela, mas não teve tempo, pois estava mais preocupada em achar o príncipe. Não que quisesse de fato vê-lo, mas estava curiosa sobre a sua aparência. E nada mais. Apenas nunca havia visto um príncipe de perto, nem um que parecesse ter vinte e seis anos quando tinha cinquenta e dois. Ugh, aquilo ainda não parecia fazer sentido.
— Gostariam de um chá? — A mais velha ofereceu.
— Não, estamos bem. Obrigado!
— Já comentei que a senhorita tem uma bela casa? — O outro homem disse, simpático.
— Agradeço o elogio, milorde. — Eloise agradeceu, dando um meio sorriso.
Um silêncio desconfortável sobressaiu, mas Juliette descruzou as pernas e logo comentou:
— O tempo está agradável hoje, não acha, milorde?
Mas até mesmo segurou o riso. Nunca apreciara muito calor nem muito frio em Reynah, era até absurdo um comentário daqueles, mas pensou que fora apenas para amenizar o clima entre eles. Buscou com os olhos um rosto que pudesse ser do príncipe, mas ninguém ali parecia ser novo o bastante para aparentar ter menos do que trinta anos. Começou a duvidar que as meninas estivessem falando a verdade quando, subitamente, seu coração falhou uma batida.
Um rapaz passou pela porta de entrada. Ele carregava uma espada dourada e reluzente na cintura e sua roupa era um pouco mais sofisticada do que a roupa do Intermediador Real que vira no elevador. Os cabelos, escuros, possuíam tantos cachos que eles se fundiam um nos outros, mas o que realmente chamou a sua atenção fora os olhos: verdes e expressivos. Céus, achou que fosse sufocar quando percebeu que não respirava. Imediatamente, todos na sala se levantaram e se curvaram para ele. soube que aquele era o príncipe.
Talvez as meninas tivessem razão. Ele era mesmo bonito.
Um sorriso bobo apareceu nos seus lábios quando o sorriso ladino dele surgiu sem aviso prévio. Ele também se curvou, com uma mão na espada e a outra nas costas em um sinal de respeito e isso, automaticamente, fez aumentar um ponto em uma contagem mental que fazia. Sem delongas, ele ficou ereto e se aproximou.
— Boa tarde, senhoritas. — Ele disse, e o sotaque britânico quase a matou.
Mais uma vez seu estômago pareceu afundar e por pouco não proferiu um uau, mas conseguiu segurar a tempo.
— Majestade. — Eloise disse, e pôde notar que o nervosismo dela aumentou consideravelmente. — É uma honra tê-lo por aqui.
— Agradeço o seu gesto, senhorita. — Sorriu mais uma vez e sentou-se na poltrona de couro falso que ficava, exatamente, de frente para onde estava. — Lindo dia lá fora, não acham? — Ele suspirou e parecia... feliz? — Faz algum tempo desde a última vez que visitei a vila.
— Víamos o senhor com mais frequência antigamente, majestade. — Sophie disse, fazendo o príncipe assentir.
— Isso é verdade. Mas logo irei assumir o posto do Rei, então preciso estar mais presente no castelo. — Contou, ajeitando-se na poltrona. — Mas não vim para tomá-las o tempo ou conversar sobre coisas chatas. — Riu. — Vim, pois gostaria de convidá-las para o baile Real. Estou procurando por uma esposa, como sabem, e tenho a intenção de conhecê-las melhor. — Ele disse, mas a voz rouca e baixa parecia deixar aquela simples frase intensa.
— Seria uma honra, majestade. Eu e minhas irmãs faremos questão de irmos ao baile Real. — Elo comentou, com um sorriso pequeno. — É claro que somente Juliette irá como pretendente, pois Sophie ainda é muito nova e eu já estou velha demais. — Era uma sentença triste, mas sabia que ela não se sentia triste em dizê-la. Era apenas uma constatação.
— Como queira, senhorita. Mesmo assim, ficarei feliz em recebê-las. — O príncipe sinalizou para o homem que estava de pé ao seu lado e ele as entregou três convites. — São apenas vocês três, senhorita?
Por um breve momento, havia esquecido daquele grandessíssimo detalhe. Imediatamente, fechou um pouco mais a porta, observando Eloise afirmar repetidamente com a cabeça, pegando os convites com uma reverência em agradecimento. Ninguém proferiu uma só palavra de confirmação além de acenos repetitivos e talvez por isso o príncipe desconfiou, juntando as sobrancelhas, mesmo que estivesse sorrindo ainda, em um claro sinal de que estava confuso acerca do comportamento suspeito delas.
— As senhoritas estão bem? — Ele perguntou, curvando o tronco para frente para prestar uma atenção maior nelas. — Parecem um pouco pálidas.
— Sim. — Juliette afirmou, mas a sua voz saiu um pouco arranhada pelo desuso e então ela tossiu para limpar a garganta.
Mas, como se algo conspirasse em desfavor, resolveu descer de sua cama e sair pela porta. Ela miou baixinho no exato momento em que Julie, ruidosamente, limpou a garganta, e foi na direção do outro cômodo. Simples assim. O olhar de , então, acompanhou minuciosamente a gata, mas logo voltou a encarar o príncipe que, mesmo por baixo da tosse, pôde ouvir o miado fino. Pelo canto de olho, ele captou o movimento do bichinho, mas como se fossem ímãs, os olhos dele pararam em cima de , que paralisou e não soube mais o que fazer além de arregalar os seus.
Se perguntassem a ela o que estava sentindo naquele mesmo momento, ela, com certeza, diria medo. Mas estava bem longe de ser isso. De fato, seu coração batia tão acelerado que, mais um pouco, infartaria. Seu sangue, se fosse possível, fazia um barulho ensurdecedor contra seus ouvidos, e achou que não poderia mais suar em Reynah, mas viu que estava errada quando sentiu as palmas das mãos escorregando no batente de madeira.
No entanto, inacreditavelmente, a única coisa que conseguia pensar em meio àquele turbilhão de sentimentos era em como os olhos verdes pareciam mais charmosos quando estavam sorrindo, porque, pela primeira vez naquele dia, ela viu o príncipe sorrir com diversão, e cada parte do rosto dele deixava expressamente claro que ele não esperava por aquilo.
Ele, então, tossiu para disfarçar a risada que provavelmente prendeu na garganta, e perguntou novamente:
— Desculpe, senhoritas, mas têm certeza que são só vocês três que moram nesta casa? — E ergueu uma das sobrancelhas, dessa vez parecendo um pouco mais sério.
— Somente nós três, majestade. — Sophie respondeu, no lugar da mais velha, exibindo um sorriso simpático. A resposta foi curta, deixando claro que não havia mais espaço para outros comentários, mas o príncipe parecia empenhado.
— É claro que se houvesse outra dama morando aqui com as senhoritas, contariam a mim, a sua majestade. Estou certo?
arrependeu-se de ter aberto aquela porta no mesmo instante. Eloise demorou para responder daquela vez, mas afirmou novamente, trocando um olhar preocupado com as outras duas irmãs. Ela não havia arriscado nenhum olhar na direção da porta, para a sua sorte.
— Tudo bem, então. — O príncipe disse, com o tom de voz calmo, o que deixava a situação ainda mais alarmante. — Acredito que nossa tarefa aqui terminou, senhores. — E se levantou, deixando boquiaberta. — Nos vemos no baile Real, então, senhoritas. — Curvou-se para elas, e arriscou um olhar rápido para o cômodo onde estava escondida.
— Obrigada pelo convite, majestade. — Eloise disse, por último. Ela se curvou também e se levantou junto com os outros. — Nós iremos acompanhar os senhores até o portão.
— Obrigado. — Ele disse, simples, e apontou para a porta. — Depois das senhoritas, é claro.
As três se retiraram do casebre, uma a uma saindo da sala e passando pela porta, e o príncipe, encarando o chão, sinalizou para que os homens que estavam em sua presença também se retirassem. Quando o último saiu, soltou um suspiro aflito e viu o príncipe levantar o olhar em sua direção após apertar levemente a ponta do nariz. Ele, de modo divertido, pendeu a cabeça para o lado direito e, com aquele mesmo sorriso zombeteiro, encarou-a pelo que pareceu uma eternidade para, somente então, curvar-se em um sinal de respeito e ir embora.
Mas que droga havia acabado de acontecer ali?


Capítulo 4

dobrou a ponta da página, incapaz de continuar com a leitura quando, mais uma vez, a imagem do príncipe inundou seus pensamentos naquela tarde ensolarada.
Não havia comentado com ninguém sobre o episódio excêntrico, onde o príncipe, em uma reação inesperada, curvou-se diante de si com uma expressão debochada após flagrá-la escondida entre o vão da porta do seu quarto. A culpada era , a sua gata, que fez barulho ao miar despreocupada quando se cansou de sua soneca e resolvera perambular pelo casebre em uma ótima ocasião. Mas não podia enganar a si mesma nem se quisesse, pois no fundo sabia que não deveria estar com o rosto à mostra ao bisbilhotar uma conversa que não era direcionada a si.
Sentia-se mal por esconder um detalhe tão importante de Eloise, mas, ao mesmo tempo, não queria contar para não apavorar as três. Simplesmente decidiu ignorar e seguir como se nada tivesse realmente acontecido, e então outra semana havia se passado. Nada de novo acontecera e se perguntava constantemente quando que iriam procurar pelo elevador que a levaria embora e o mais importante: como fariam isso. No entanto, ela confiava nas meninas e apenas tentava não trazer o assunto à tona todos os dias. Precisava ser paciente.
Apesar disso, sentia-se bem ali com elas. Se não fosse pelo seu pai, não faria questão de voltar, e somando isso ao fato de que menos de trinta segundos haviam se passado no mundo real, não estava tão empenhada na tarefa de procurar o caminho de volta. Ou seja: a ideia de permanecer ali durante bastante tempo não parecia mais tão assustadora quando vista por esse lado. Na verdade, sentiria falta quando voltasse, pois aprendeu a gostar de Reynah e se tornou estranho pensar que ali não era a sua verdadeira casa quando se sentia tão pertencente àquele lugar.
, estamos indo ao centro trocar algumas mercadorias. — Eloise comentou, quando se aproximou com as meninas atrás. Todas seguravam cestas de palha feitas por elas mesmas. — Vai ficar bem sozinha?
sorriu e levantou o livro que segurava quando disse:
— Não se preocupe, tenho tudo o que preciso aqui. — Impulsionou a cadeira de balanço e descansou as mãos em cima do colo.
Soube que existia alguns escritores em Reynah e os livros eram tão bons quanto aqueles que estava acostumada a ler em casa. Nos dias calmos, aquele era o seu passa tempo, junto à aula de crochê que Eloise ministrava de vez em quando.
Assim, as três assentiram e se despediram dela, saindo pelo portão de madeira em direção ao centro. nunca foi até lá com elas, nem sozinha, pois ainda tinham receio de que alguém pudesse reconhecê-la da queda ou desconfiar de algo que pudesse colocar todas elas em perigo diante do Rei. Seu sotaque americano era forte e seu jeito ainda não estava tão habituado ao jeito deles. Era melhor que permanecesse dentro de casa, ou no máximo ali onde estava, no quintal, enquanto lia um bom livro e observava o movimento do lado de fora.
Respirou fundo, sentindo o costumeiro cheio de maçã fresca antes de voltar à leitura. Foi em algumas páginas depois que ouviu o barulho de rodas freando no chão de pedras e sua atenção se voltou para fora do portão novamente. Seu coração, por um momento, parou quando notou que havia uma carruagem se aproximando e, pelo emblema, reconheceu ser uma carruagem do Rei. Sua mente travou e já não sabia mais nem como viver, por isso ficou ali parada enquanto assistia o cocheiro descer da carruagem.
E ele caminhava na sua direção.
Viu-o parar em frente ao casebre e colocar a mão dentro do bolso do lado de dentro daquele uniforme que usava. Ele, então, anunciou, alto:
— Com licença. Ouçam. — Limpou a garganta com um pigarro alto e imponente, mas parecia um tanto encabulado. — O príncipe, a sua majestade, fez questão de escrever esta carta direcionada à senhorita escondida no quarto em frente à poltrona da sala deste casebre. — Leu na carta. — Estou aqui para entregá-la.
Mas estava sem reação. Levou alguns longos segundos para que recobrasse a sua consciência e, enfim, levantou-se cortês da cadeira de balanço, deixando o livro sobre ela. Direcionou-se com cautela até o cocheiro, que aguardava pacientemente, prestando meia reverência a ele e, ao final, pegou a carta que fora estendida em sua direção, apertando-a contra o peito. Mas não disse nada, muito menos agradeceu, pois sua voz sumira. Ele pareceu não se importar e não demorou a dar meia volta, entrando na carruagem e partindo para a direção contrária.
Uma pequena multidão observava a cena com certa curiosidade, mas não aparentavam dar muita importância, uma vez que era normal o príncipe se dirigir pessoalmente às pessoas do Reino. Assim, logo que a carruagem sumiu de vista, a multidão se dissipou como se fosse apenas mais um dia normal em Reynah. E de fato era, o que aliviou sua apreensão. A última coisa que gostaria era levantar suspeitas.
, em seguida, correu para dentro do casebre e se trancou no quarto. Não se sentia tão ansiosa desde o dia em que fora para trás do colégio com Andrew, um garoto que gostou no segundo ano do ensino médio, para dar o primeiro beijo. Não foi uma experiência tão boa, mas lembrava vividamente que ficou tão nervosa que roeu todas as unhas de uma das mãos. E ali, sentada na ponta da cama, com aquela carta em mãos, ela estava prestes a fazer a mesma coisa. Não conseguia achar um motivo plausível para que o príncipe tivesse lhe escrito uma carta e estava com medo de abrir e ler algo que definitivamente não iria gostar.
Ouviu arranhar a porta do quarto e pulou de susto. Suspirou antes de deixá-la entrar e então acariciou os pelos claros quando ela se deitou ao seu lado. Permaneceu alguns minutos encarando-a enquanto tomava certa coragem para abrir a carta. Mil coisas passaram pela sua mente quando encarou o selo majestoso que brilhava no papel amarelado. Imaginou que aqueles seriam seus últimos minutos em Reynah. Imaginou que, nesse exato momento, Eloise e as meninas haviam sido raptadas para dentro do castelo para serem executadas pelo crime de abrigar uma humana dentro de casa sem o consentimento do Rei.
Meu Deus.
choramingou e removeu o brasão de Reynah do papel. Sentia cócegas no estômago e se atrapalhou ao abrir a carta, pois suas mãos tremiam consideravelmente. Podia jurar que uma gota de suor escorreu pela sua têmpora esquerda. Fechou os olhos quando, enfim, conseguiu abrir a carta, e suspirou fundo antes de começar a ler.

Senhorita desconhecida,
Eu, o príncipe, ponderei seriamente o motivo que a fez se esconder de mim, mas a situação trouxe-me diversão e me vejo inapto a parar de retomar àquela noite. Adoraria voltar hoje mesmo e obter pessoalmente a sua explicação, mas devido a complicações no Reino, temo que isso não será possível.
Por isso, estou lhe enviando um convite para o Baile Real, não da maneira como gostaria, mas seria uma honra recebê-la para que possamos conversar e nos conhecer.
Aguardo ansioso pela sua resposta.
H.


A letra cursiva e elegante findou-se com a letra H, e considerou que aquela fosse a inicial do nome do príncipe, mas ainda estava desacreditada até mesmo para lembrar que não havia questionado Eloise sobre o nome dele. Olhou de soslaio para e então jogou-se de costas na cama, deitando-se com a carta sobre o peito.
— E agora, ? — Sussurrou. — O que eu faço?
A gatinha ronronou e se alongou antes de voltar à mesma posição. sentou-se novamente e então se levantou, começando a andar de um lado para o outro dentro do quarto. Aquilo a ajudava a pensar em momentos de aflição e aquele era um momento de aflição.
— Não posso ir ao baile. — Disse, para si mesma, como se isso fosse óbvio. — Seria muito arriscado. Mas... — levantou um dedo na direção da gata. — Preciso responder o príncipe. Não seria educado deixá-lo sem respostas. Tenho que ser breve e recusar. — Choramingou novamente. — Onde eu fui me meter, ? Como eu vou falar isso para a Elo?
Colocou a carta dentro da gaveta da penteadeira e a fechou lentamente, ainda ponderando sobre a situação. O príncipe a escrevera convidando-a ao baile, o que era o máximo, e por isso o seu coração estava apertado pensando que teria que recusar a proposta, pois não podia negar que estava ansiosa para conhecê-lo. Mas não seria inteligente arriscar, por mais que isso a deixasse triste. Ir para casa era sua prioridade e deixar as meninas em segurança também.
As meninas.
Ainda teria que contar a elas sobre isso e nem sabia por onde começar.
Juliette ficaria uma fera.
Suspirou fundo pela última vez antes de ouvir um barulho do lado de fora. Arrumou o cabelo rapidamente em frente ao espelho e rumou para a sala, vendo que Eloise havia acabado de chegar com as meninas e as cestas vieram cheias. Juliette estava um pouco descabelada e com as bochechas coradas, enquanto Sophie revelava um rasgo na saia do vestido. se aproximou sorrateira delas, como alguém que não havia acabado de ler uma carta que recebera do príncipe, e então sorriu.
— Como foi? — Perguntou, mansa, escondendo as mãos que ainda tremiam.
— Foi ótimo. Conseguimos trocar tudo o que levamos. — Eloise comentou, animada.
— Vou buscar linha e agulha para costurar isso. — Juliette comentou, após lavar as mãos na pia da cozinha, indo para o quarto de . — Onde estão mesmo, ?
— Na primeira gaveta da penteadeira. A da direita. — Respondeu. Espiou-a entrar no seu quarto e por um instante pôde respirar aliviada por ter guardado a carta na última gaveta e não na primeira. — Embaixo dos tecidos.
— Pegamos muitas maçãs. Acho que vou fazer uma torta hoje. — Elo comentou, enquanto lavava as frutas e as colocava dentro de uma bacia. — Ficou lendo até a gente chegar?
A pergunta a pegou de surpresa, o que fez com que demorasse alguns segundos para respondê-la.
— Fiquei sentada ali fora... — Deu de ombros e se aproximou dela. — Precisa de ajuda?
— Pode cortar as maçãs.
Captou, com o canto do olho, Juliette sair do seu quarto já com a linha e a agulha em mãos, e então ela começou, silenciosamente, a costurar o rasgo da saia de Sophie.
— Como que isso aconteceu? — perguntou, para a menor.
— Me enrosquei em um caixote de cenouras. — Riu enquanto contava.
— E não é a primeira vez. — A mais velha cantarolou, como se quisesse relembrar Sophie.
— Não é como se eu quisesse rasgar as minhas roupas. — Deu de ombros.
— E não é como se eu quisesse costurá-las também. — Juliette puxou-a pelo vestido para que ela parasse quieta. — Vou te espetar se não parar de se mexer. — Ralhou, irritada, e todas se olharam como se estranhassem a reação exagerada dela.
— Ok. — Eloise disse, incerta. — Vamos preparar o jantar.

[...]


resolveu se banhar antes do jantar e então logo todas se reuniram para comer como qualquer outro dia. No entanto, as três estavam silenciosas demais para um dia qualquer e isso a despertou certa preocupação, principalmente, quando flagrava os olhares cúmplices que elas trocavam durante a refeição, como se guardassem um segredo. Apesar disso, não ousou perguntar, apenas comeu em silêncio e arriscou um comentário ou outro elogiando a comida.
Depois de longos minutos maçantes, recolheu a louça e a lavou. Ouviu cochichos de Eloise e seu coração se apertou ao pensar que elas estavam querendo esconder alguma coisa, ou pior: que ela era o assunto da conversa. Quando terminou, Juliette passou ao seu lado, pegou a torta de dentro da geladeira e colocou sobre a mesa. Tudo em silêncio. pigarreou quando trouxe os talheres da sobremesa e todas se serviram. Ainda em silêncio.
— Está uma delícia, Elo. — Disse, ao se sentar no sofá.
As três estavam encolhidas e apertadas no outro sofá, o que deixava a situação ainda mais esquisita, fazendo com que um sentimento de antecipação doesse no seu peito. Era possível ouvir a comida sendo mastigada dentro da sua boca e sempre odiou ouvir o barulho de comida sendo mastigada, fosse por ela mesma ou por qualquer outra pessoa. Mas ignorou. Sentia que qualquer palavra que falasse a mais acarretaria uma terceira guerra mundial.
Estava prestes a se levantar para lavar o resto da louça, quando Juliette perguntou, em um tom de deboche misturado com irritação:
— Não quer mais um pedaço da torta, senhorita desconhecida?
Imediatamente, a coluna de paralisou e ela caiu sentada novamente quando a situação se tornou muito clara.
— Então vocês encontraram a carta. — Fechou os olhos e jogou a cabeça para trás, num sinal de arrependimento e frustração.
O que faria?
— Nunca fui muito boa em saber qual é o lado direito e qual é o lado esquerdo. — Juliette falou, mas ainda era possível perceber a conotação irritada.
— Eu iria contar... — Começou, num tom defensivo, deixando a louça em cima da madeira da mesa de centro.
— Mas não contou.
— Deixe-a falar, Julie. — Eloise interrompeu.
— Mas não contei. — Suspirou vencida. — Eu não consegui encontrar nenhuma forma de contar isso para vocês.
— O príncipe te viu? — Sophie perguntou, curiosa. Não aparentava estar brava. — E não fez nada?
— Na verdade, ele se curvou e riu. — Contou, envergonhada. — Também fiquei surpresa, mas aparentemente ele achou engraçado me ver escondida no quarto.
— Você sabe o que isso teria nos causado se ele tivesse contado para o Rei? — Eloise falou, dessa vez ela parecia bastante preocupada e não lhe tirava a razão. — Isso é muito grave! Se ele soubesse quem você é, não hesitaria em te delatar. Além disso, não era para você estar escondida dentro do seu quarto?
— Eu fiquei curiosa. — Sorriu sem graça e então sentiu sua garganta apertar. — Não sabia que ele iria me ver. A culpa foi da que saiu do quarto.
— Da . — Eloise riu desacreditada. — Era ela quem estava espiando pela porta? , o príncipe poderia saber que você é uma humana!
— Mas ele não sabe. — Juliette interrompeu, suspirando alto. — Ele só achou engraçado ela se escondendo. Estranho, não? — Estreitou os olhos na sua direção e com um suspiro disse: — Não estamos bravas com você pela carta, entenda. Estamos chateadas porque você nos escondeu isso. Algo muito grave.
— Sim. — Elo concordou. — Isso poderia ter acabado mal. Muito mal. Para todas nós.
— E você já faz parte da família agora. — Sophie completou. Apesar da idade, ela era muito madura. Talvez isso tivesse a ver com o fato de todos terem o dobro do que aparentavam. — O que torna tudo ainda mais difícil.
— Me desculpem. — Disse, por fim. — Só não queria preocupar vocês por algo que eu achei que passaria.
— Como assim? — A do meio perguntou. — Você achou que o príncipe iria esquecer?
— É... Sei lá. — Deu de ombros, fazendo desenhos invisíveis com o pé no tapete da sala. — Não achei que fosse receber uma carta dele.
— É de Harry que estamos falando, , ele nunca esquece de nada. — Eloise comentou, com o sotaque britânico esticando a frase.
— Não é como se eu o conhecesse. — Explicou-se, mas seu coração se aqueceu quando ouviu o nome dele e logo o H no final da carta fez sentido. — O nome dele é Harry?
Juliette riu, mas dessa vez continha um quê de diversão no tom da risada.
— Harry Edward Styles. — Ela mordeu o lábio, segurando o riso que ainda insistia em sair. — Não acredito que você está trocando cartas com o príncipe e nem sabia o nome dele.
— Eu não estou trocando cartas com o príncipe. — Revirou os olhos, mas sorria. — E ele também não sabe o meu.
— Mas vai! — Eloise bradou, levantando-se do sofá, onde as três se apertavam, e sentou-se bem ao seu lado, como quem quer contar uma super novidade.
— Como é? — Virou-se para ela e sua testa enrugou pela confusão.
. — Sophie gargalhou e se levantou para buscar mais torta. — Isso vai ser interessante.
— Então? — perguntou, prestando cem por cento da sua atenção na mais velha, que ainda não havia explicado.
— Então. — Ela logo começou. — Já faz um pouco mais de três semanas que você está aqui e sem querer tirar as suas esperanças, , mas não tínhamos nenhuma ideia de como nós iríamos achar o elevador.
— E por que você está sorrindo enquanto diz isso? — Questionou, soprando um riso desacreditado.
— Não tínhamos.
— O quê?
— Não tínhamos nenhuma ideia. — Juliette continuou. — Mas então eu achei a carta.
— E tivemos uma ideia.
— Lá vamos nós. — Sophie lambeu o doce da colher e riu.
— Por que eu estou com um mau pressentimento? — Estreitou os olhos para elas.
— Ainda estamos pensando melhor sobre isso, mas, basicamente, tivemos essa ideia de.... Talvez você vai achar loucura, , mas tente entender: esse é o melhor jeito de conseguirmos achar os elevadores e levar você para casa. — Eloise disse, calmamente, tentando não a assustar. Assim que concordou, ela desatou a falar: — Pensamos em você ir ao baile e conhecer o príncipe. De repente, trocar algumas cartas com ele e se aproximar. Seria a melhor maneira de você achar o caminho de volta...
Sua cabeça pareceu dar algumas voltas ainda grudada no pescoço.
— E antes que você diga alguma coisa — Julie completou. — O príncipe é a pessoa que mais conhece o castelo, depois do Rei e da Rainha, e é o único capaz de, literalmente, levá-la para casa.
— Vocês querem que eu use o príncipe? — Perguntou, abismada. — Não. Nada disso!
— Eu avisei. — Sophie cantarolou.
— Não queremos que você o use. — Juliette revirou os olhos, mas tentava achar alguma outra forma de dizer aquilo. — Ele vai ser... a sua ponte para casa. Apenas isso.
balançou a cabeça negativamente e se recostou no sofá. Tinha vontade, sim, de conhecer o príncipe e se aproximar dele, mas não queria usá-lo como ponte para voltar, isso seria errado e faria mal tanto para ele quanto para ela mesma. Mas, se pensasse com o cérebro, elas até que tinham razão. O problema era fazer o seu coração parar de atrapalhar o seu raciocínio.
— Você quer ir para casa ou não? — Juliette pressionou. — , essa pode ser a sua única chance.
— Mas é claro que... — Eloise interrompeu e olhou feio para Julie. — Se você não quiser, nós iremos entender e achar alguma outra alternativa. Sabe que pode confiar em nós.
Concordou com ela. Concordou porque sabia disso e confiava cegamente nelas, afinal, elas eram a sua família, mas também sabia que Eloise havia dito aquilo apenas para que não se sentisse tão pressionada a fazer algo contra a sua vontade. E faria? Quer dizer, ela tinha tudo ali: a manteiga, o pão e a faca. Mas o que faria com aquilo? Pois, por mais que a situação parecesse apavorante, ela não tinha a intenção de desperdiçar uma oportunidade como aquela e fazer as três procurarem por uma solução que talvez nem existisse.
Não iria fazer apenas para si, mas também por elas. A sua família.
Além disso, seu pai sempre lhe disse para nunca desperdiçar comida. E nada melhor do que um pão quentinho com manteiga.
— Tudo bem. — por fim, suspirou. — O que eu preciso fazer?


Capítulo 5

O terceiro papel amassado atravessou a sala de estar, pousando no chão, bem longe da lixeira.
Juliette que, sentada no sofá, lia um livro, rangeu os dentes, irritada. Olhou de esguelha para Eloise, a qual tricotava um suéter, e recebeu um olhar compadecido, como um pedido mudo para que não fizesse ou falasse nada. Ela respirou fundo e voltou a ler, escutando o riso divertido de Sophie. Por outro lado, apoiada na mesa da sala de jantar, já havia queimado todos os neurônios que um dia teve.
Primeiro, porque ela nunca havia escrito uma carta. Nunca precisou, na verdade, pois sempre usou o seu celular e não era exatamente algo muito comum mandar cartas onde vivia. Segundo, porque ela estava escrevendo uma carta para o príncipe. Ou seja, não bastava uma, mas duas coisas que não estava lá muito habituada. Dessa forma, até a saia do vestido azul já estava amassada, porque, inconscientemente, apertava, com uma mão, o tecido da saia enquanto com a outra mão tentava escrever no papel amarelado. Com uma pena.
Ah, sim, essa era mais uma das coisas que deixavam a situação cômica. Em alguns minutos, teve que aprender a usar uma pena, molhando a ponta no tinteiro, algo que pensou que só existia em filmes. Mas não. Ali estava ela, escrevendo com garranchos, tentando achar alguma forma de deixar aquela carta apresentável o suficiente para que pudesse enviar ao príncipe. No entanto, nada parecia bom. E lá se ia outro papel para o lixo.
— Por Deus, , você vai acabar com todos os nossos papéis. — Juliette bradou, virando-se para ela.
— É mais difícil do que parece. — Choramingou, pegando outro papel.
Santo Deus. Não imaginava que uma coisa pequena como aquela daria tanta dor de cabeça, ainda mais quando sabia perfeitamente o que escrever.
— Escreva qualquer coisa. — Sophie interveio, tirando sarro da situação. — Aposto que Harry está ansioso esperando pela sua carta. Nem vai prestar atenção em como você escreveu ela.
Pensou em amassar outro papel e jogar em Sophie, mas não era imprudente. Muito pelo contrário, ela era bastante sensata, por isso apenas ignorou a mais nova e se debruçou sobre os papéis novamente. Em seguida, molhou a ponta da pena no tinteiro e torceu para que aquela fosse a última vez que escreveria uma carta naquele dia.

Príncipe Harry,
Estou lisonjeada pelo seu convite. É claro que as circunstâncias que nos trouxeram a esse ponto não foram as melhores, mas garanto que irei ao seu baile. Peço desculpas pela situação que o fiz presenciar, mas temo não poder explicá-la agora, espero que entenda. Quem sabe um outro dia?
Atenciosamente, senhorita desconhecida.
PS.: Espero que as complicações que o impediram de convidar-me pessoalmente ao baile já tenham sido resolvidas, não me pareceu divertido quando mencionou sobre elas.


Leu a carta mais uma vez e então a fechou, trançando um laço verde em volta, apenas um charme para demonstrar importância. Ao fim, havia terminado a carta com uma pergunta disfarçada, agora o pobre rapaz se sentiria obrigado a escrever de volta. Mas, claramente, aquele era o plano desde o início, pois, de outra forma, não teria motivos para enviar uma resposta a Harry mais elaborada do que um “agradeço, mas não posso comparecer ao baile... meus motivos? Bem... são meus. Adeus”.
— Acho que terminei. — Pronunciou, em voz alta.
— Finalmente. — Juliette ironizou, mas sorria.
— Vamos enviá-la agora! — Eloise saltou do sofá, deixando o crochê de lado, e pegou a carta das mãos de .
— Mas já? — Perguntou, contrariada. — Não querem esperar um pouco?
— Para que perder tempo? — Sophie apareceu também.
— Tudo bem. — Suspirou, por fim. Não adiantava discutir quando elas eram três e era... bem, uma. — Mas não quero que vocês três leiam.
Juliette gargalhou, fechando o livro que estava lendo.
— Pode ficar tranquila, senhorita, isso é algo pessoal seu. — A mais velha disse, completando ironicamente: — E do príncipe.
— Vou confiar em vocês, então. — Cruzou os braços, estreitando os olhos para elas. É claro que ignoraria o comentário sem graça.
Eloise sorriu, pegando a cesta em cima da bancada da pia.
— Estamos indo. — Anunciou, jogando um beijo no ar. — Ainda precisamos trocar algumas coisas no centro.
parecia um pouco apreensiva quando se levantou para acompanhar as três até o portão, mas o olhar que ganhou de Juliette a confortou.
— Não se preocupe. Vai dar tudo certo!
— Vamos aguardar a resposta do príncipe. — Sophie vibrou. — Mal posso esperar.

[...]


No dia seguinte, um homem a cavalo trouxe o que todas estavam esperando: a carta do príncipe. Ele foi sucinto ao deixar o papel na caixa de correios do lado de fora do casebre e logo foi embora, galopando em um cavalo marrom. Um alvoroço se formou na sala quando Eloise entrou com o papel amarelado em mãos e logo ele foi estendido para , que mal podia esconder a ansiedade. Ela tremia quando pegou a carta.
Ponderou se leria ela na frente das três, mas pelo semblante curioso delas, resolveu que sim, leria ali mesmo. Então abriu-a cuidadosamente, com medo que pudesse rasgá-la com algum movimento brusco e por fim sentou-se na poltrona da sala. Na mesma poltrona em que Harry, dias atrás, havia sentado.

Senhorita desconhecida,
Confesso que já li a sua carta mais vezes do que me orgulho em dizer. Aliás, entendo que não queira me contar agora sobre o motivo que a levou a se esconder de mim, mas preciso dizer que estou extremamente curioso quanto a isso, por isso irei aguardar ansioso pela sua explicação. Mal posso esperar para vê-la no baile Real. Inclusive, uma pergunta vem me distraindo durante essa semana: a senhorita acha que verde ficaria melhor com dourado ou com prata? A Rainha, minha mãe, insiste em dizer-me que verde combina melhor com prata, mas eu discordo.
Afetuosamente,
H.
PS.: As complicações já se resolveram, sim. E não, não são nenhum pouco divertidas, mas aprendi a conviver com elas. Obrigado por se preocupar, senhorita desconhecida.


Com um sorriso, terminou de ler a réplica e as três irmãs a encaravam com um semblante divertido.
— Ainda não acredito que ele realmente respondeu a carta. — Comentou. Aquele maldito sorriso ainda não deixara o seu rosto. — E me fez uma pergunta. Quer dizer que ele quer que eu responda, certo?
— Hum. — Juliette concordou. — “Confesso que já li a sua carta mais vezes do que me orgulho em dizer”. — Engrossou a voz, como se arremedasse o príncipe. — Acho que temos alguém interessado.
revirou os olhos.
Ela também estava interessada no príncipe desde o momento em que pôs os olhos nele, mas não era como se quisesse se casar com Harry. Depois do que Eloise disse, ela pensou bastante sobre o assunto. Ainda não tinha a intenção de usar o príncipe como ponte para encontrar o elevador que a levaria de volta, mas pretendia conquistar a amizade dele até que se sentisse segura o suficiente para confessar o motivo que havia lhe trazido até ali.
Queria ser amiga de Harry e então ele poderia lhe mostrar o caminho para casa sem que usasse ele e sem que precisasse o deixar sem nenhuma explicação.
Era um bom plano, apesar de não saber se iria dar certo, mas parecia ser a melhor forma de voltar para casa: honestamente. E Harry parecia ser alguém bom, não seria justo fazer qualquer coisa senão ser honesta com ele. Entretanto, era óbvio que isso a deixava com os nervos à flor da pele.
Ele ainda era um príncipe, e a beleza dele era capaz de lhe tirar o fôlego; seria estranho se não estivesse nervosa. Mas, por outro lado, lá estava ela, escrevendo mais uma carta ao príncipe.

Príncipe Harry,
Preciso lhe dizer que sou grata por estar respeitando a minha decisão sobre ainda não lhe contar o motivo que fez com que eu me escondesse da vossa majestade. Sobre a sua pergunta, eu realmente prefiro verde com dourado, mas acredito que a Rainha tenha mais senso de beleza do que eu. De qualquer forma, tenho certeza que os dois ficariam perfeitos.
Atenciosamente, senhorita desconhecida.
PS.: Fico feliz em saber que tudo se resolveu. Adoro finais felizes. Vossa majestade também? Inclusive, estou lendo um livro muito interessante que eventualmente encontrei na estante de Eloise, mas acredito que não irá gostar, pois se trata de um romance.


Então, em certo ponto, naturalmente, as cartas iam e vinham. Como um hábito. E lá se iam mais duas semanas.

Senhorita desconhecida,
Primeiramente, preferia que não se dirigisse a mim novamente como vossa majestade, acredito que já podemos diminuir a formalidade, não acha? Também gostaria de ressaltar que acho muito injusto que a senhorita saiba meu nome enquanto eu ainda não sei o seu, acho que estou em desvantagem. E por falar nisso, não é necessário agradecimento, creio que o motivo diz respeito somente a você. Além do mais, sempre gostei de mulheres misteriosas. Devo dizer também que a senhorita tem um ótimo gosto, alguém já lhe disse isso?
Afetuosamente,
H.
PS.: Adoro finais felizes, mas admito que romance não é o meu gênero literário favorito, admiro muito mais um suspense. No entanto, fiquei curioso a respeito do livro. No mais, aprecio que agora sabemos uma curiosidade um do outro. Logo, logo não será mais senhorita desconhecida para mim, apesar de gostar da ideia de ser o único a chamá-la assim.

Príncipe Harry,
Como você preferir. Confesso que me sinto um pouco estranha em lhe referir como “você” e não como “vossa majestade”, mas aceito. Quanto ao meu nome... Gosto de senhorita desconhecida e você também disse gostar de mulheres misteriosas, então não vejo problema em permanecer assim, o que acha? Agradeço o elogio, mas garanto-lhe que meu senso de decoração não é muito bom, porém gosto de como o dourado fica ao lado do verde, acredito que o contraste fica bonito. Aliás, como andam os preparativos para o baile?
Afetuosamente, senhorita desconhecida.
PS.: Finais felizes são os melhores, sem dúvidas, mas um suspense também me agrada bastante. O livro se chama O Amor Em Poesia, e acredito que você irá gostar, pois, apesar de se tratar de um romance, também há suspense. Talvez, se você quiser ler o livro, eu lhe digo o meu verdadeiro nome. Até lá, Edward, serei a senhorita desconhecida para você.

Senhorita desconhecida,
Fico feliz que tenha deixado as formalidades de lado, mas admito que gostaria de lhe chamar pelo seu nome de batismo. Acredito que as coisas ficam mais interessantes a esse ponto, apesar de apreciar um mistério. Sobre a decoração, concordo plenamente com a senhorita, pois o contraste ficaria perfeito. Aliás, estamos todos ansiosos para o baile. O Rei e a Rainha não veem a hora de conhecer a futura princesa.
Afetuosamente,
H.
PS.: Foi a primeira carta que me mandaste com “afetuosamente”. No entanto, senti que a senhorita me subestimou quando me desafiou à leitura, não acha? Aqui vai uma frase “não é sobre o que você faz para as pessoas, mas sobre o tempo que costuma dedicar a elas”. Pois então, aguardarei ansiosamente pela próxima carta onde poderei saber o seu nome. Aliás, gostei quando me chamaste de Edward.

Príncipe Harry,
Essa carta trouxe-me muitas surpresas. Primeiramente, devo dizer que essa será a última carta que trocaremos antes do baile, pois, como a data se aproxima, creio que estará bastante ocupado e não tenho a intenção de lhe tirar o foco. Mas algo me chamou a atenção: disseste-me que o Rei e a Rainha não veem a hora de conhecer a futura princesa... entretanto, como você, o príncipe, se sente quanto a isso?
Aproveitando o momento, devo lhe dizer que me surpreendi por reconhecer a frase pertencente ao livro que lhe indiquei. Sinto que temos outra coisa em comum. Então, como lhe prometi, farei o que me pediu, mas aviso que o meu nome do meio deverá ficar para um outro dia, junto com o principal motivo que nos trouxe até aqui. Por enquanto, nos vemos no baile, Edward.
Afetuosamente,
.

,
Aprecio a sua preocupação referente ao baile e confesso que estou ansioso para o grande dia. Ainda, preciso dizer que não me sinto seguro para responder a sua pergunta por cartas, mas assim que nos vermos, posso garantir que lhe responderei. Acredito que a espera é uma grande virtude entre nós dois.
Afetuosamente,
Edward.
PS.: Seu nome é tão bonito quanto uma rosa em seu melhor estado. Estou ansioso.


[...]


A manhã do grande e tão esperado dia havia chegado. Os cavalariços encostaram com a carruagem no centro de Reynah e relembraram o povo do que os aguardava naquela noite. Houve uma movimentação maior após o anúncio e todos corriam feito loucos para realizarem as preparações finais. No casebre, Juliette dava os últimos retoques nos vestidos, enquanto Eloise polia os sapatos. lia um livro ao mesmo tempo em que devorava uma maçã que, inacreditavelmente, parecia melhor do que todas as outras que já havia comido, divertindo-se com as piadas que Sophie contava. Eram um pouco sem graça, mas , frequentemente, ria de coisas sem graça.
Assim, o dia passou rapidamente e, com um frio na barriga, as três deixaram o casebre após entrarem na carruagem elegante que o Rei dispôs àqueles que não possuíam uma própria. Não era de se queixar, pois tanto o interior quanto o exterior daquela diligência deixavam qualquer um de olhos esbugalhados, tamanha a beleza. Parecia de ouro, constatou, pois cada canto reluzia e mostrava seu reflexo polido dentro do coche. Mesmo quem não soubesse, deduziria rapidamente ser propriedade do Rei.
O farfalhar nos vestidos era constante, pois a estrada não era exatamente regular, mas as conversas animadas abafavam o barulho. , com sua vestimenta na cor verde escura, apertava as mãos uma na outra enquanto respondia as constantes perguntas de Sophie, que parecia não querer fechar a matraca tão cedo. As outras três vestiam cores distintas: azul, rosa e marsala. Nenhuma parecia com a outra, exceto pelo comprimento longo, inclusive os corpetes eram dissemelhantes, dando um toque único a cada uma delas.
Bem, principalmente à , que sentia os seios estourando de tão apertados, não acostumada àquele traje único. Esperava que Harry não tivesse uma má impressão sua, pois não tinha o propósito de atrair a atenção dele para além do seu colo. Esperava, também, conseguir respirar dentro daquele corpete, ou desmaiaria após poucos minutos. A verdade era que ela agradecia por ter nascido no século 21 e não precisar vestir constantemente aquelas peças tão apertadas.
— Será que o cocheiro nos escuta do lado de fora? — Juliette perguntou, de repente usando um tom mais baixo do que antes.
— Acho que não!
— Então... precisamos de um plano.
— Concordo.
Plano? Perguntou-se, mentalmente.
— Eu estava pensando em, quando chegarmos, Eloise disfarçar, como se quisesse conhecer o castelo, e procurar alguma passagem. Todo mundo sabe que existem passagens secretas lá.
As três estavam curvadas para frente, armando como se fossem profissionais, e ainda estava escorada com as costas no banco estofado, divertindo-se com elas. Estava curiosa em onde entraria naquela arquitetação.
— Eu poderia passar mais despercebida do que Eloise, sabe? Por ser menor e mais ágil. — Sophie disse, e então escorou a cabeça no ombro da mais velha num carinho disfarçado. — Sem ofensas, mana.
— Francamente, Sophie... Menor eu concordo, mas mais ágil? — Rosnou Elo.
— Algo assim. — A mais nova deu de ombros, ignorando-a divertidamente. — Juliette, então, chamaria a atenção dos rapazes e do príncipe. — Disse, zombeteira.
— Ah, claro! — ralhou. — Eu não prometo nada.
— Ahan. — Juliette revirou os olhos, mas voltou a atenção nas irmãs. — Acho que podemos fazer isso, o que acham?
— Eu acho que vocês estão se precipitando. — comentou, baixinho.
— Não falei com você. — Jullie rebateu, maldosa. — E então?
— Por mim tudo bem. — Eloise assentiu, e Sophie disse algo similar.
embraveceu e resolveu não falar mais nada, apenas fechou os olhos até sentir as rodas da carruagem parando aos poucos, arrastando-se no chão de pedras. Em instantes, a porta do coche foi aberta pelo cavalariço que vestia um uniforme branco e chique, e quando a poeira baixou, elas puderam observar o imenso castelo acima das longas escadas que, à primeira vista, fizeram os sapatos delas apertarem somente com a ideia de ter que subi-las. Mas o pensamento não durou, obviamente, pois a visão que tinham as deixou sem ar, e não era pelo corpete apertado.
Uau, chiou em pensamento e ouviu alguém falar “Pelos Seres”, no entanto não viu quem; estava mais preocupada em olhar toda aquela imensidão de pedras. Era antigo, isso ela podia constatar claramente, mas ao mesmo tempo era elegante, como se não importasse a quantidade de anos que havia se passado desde a construção do palácio, pois ele continuava magnífico. E essa era a palavra certa para descrevê-lo.
Também era incrivelmente iluminado, com tochas que acompanhavam a subida e terminavam na grande entrada, onde dois homens altos e robustos se encontravam. De longe, ela não pôde distinguir se eram estátuas realistas ou lacaios enormes. O paisagismo também não ficava para trás e as flores estavam bem cuidadas e muito verdes. E então, chochada, percebeu a decoração: verde e dourado, com luzes que se espalhavam por toda a grama. Sorriu, pensando na decisão de Harry e se perguntou se havia o influenciado com a carta. O seu coração imediatamente aqueceu.
Logo mais, as meninas iniciaram a subida, segurando no tecido do vestido para que pudessem dar um passo atrás do outro sem tropeçar nele, e imitou-as, preocupando-se em olhar para os pés e para os lados, não querendo perder nenhum detalhe da visão mais bonita que já tivera em toda a sua vida. Em pouco tempo, elas estavam no topo, sendo incitadas a adentrar pela porta grande de madeira escura.
— Não acredito que estamos aqui. — Sophie sussurrou, ganhando uma cotovelada de Jullie.
A mais velha se virou para elas e colocou o dedo em frente aos lábios, dizendo para que se mantivessem em silêncio, pois logo iriam ficar cara-a-cara com o príncipe e isso fez seu estômago gelar quando finalmente a ficha havia caído: iria se encontrar com Harry. Pela primeira vez na noite, ficou nervosa.
Eloise foi a primeira da fila, seguida por Juliette, Sophie e, por fim, , que ainda estava um pouco apavorada. O hall era grande, apesar de estreito, e suas paredes continham desenhos dourados e lampiões acesos em todo o seu comprimento, e ali elas se enfileiraram com as outras meninas, as quais pareciam tão nervosas que sentiu-se um pouco melhor por não ser a única. Mas, de fato, era a única a ter um motivo preocupante.
Então, com uma rapidez que a deixou tonta, uma outra porta se abriu logo à frente e por ela uma melodia alta soou, atraindo a atenção de todas. Um silêncio interrompeu e se espalhou pelo hall, fazendo todas as meninas se calarem. Um outro homem, parecido com os do lado de fora, segurava uma espécie de cajado, o qual estava apoiado no carpete vermelho, exatamente no topo de outra escada que descia e não conseguia enxergar o fim.
Aos poucos, uma a uma foram adentrando o cômodo e seus nomes eram ditos em voz alta pelo lacaio. entrou em choque e segurou na saia de Sophie, que a encarou preocupada.
— O que foi?
— Meu nome. — Disse, simplesmente. — O que eu falo?
— Não se preocupe. — Sussurrou para ela. — Eles não vão saber quem você é. Além do príncipe, é claro. Apenas lembre-se de forçar o sotaque. E de não tropeçar. Seria vergonhoso.
Assentiu horrorizada, tentando controlar a respiração e assim percebeu que o nome de Eloise fora dito em plenos pulmões e ela desceu. Em seguida, Juliette fez o mesmo, seguida por Sophie, e logo era a vez de , que observou a menor pisar no último degrau, lá embaixo. O lacaio a encarou, esperando que dissesse o seu nome, mas ela não conseguia dizer. Nada.
A boca secou e, instintivamente, sua língua molhou os lábios. Nervosa, percorreu o local com os olhos, que pararam no mezanino, onde o Rei a encarava curioso. Não só o Rei, como também a Rainha e o... príncipe. Harry lhe encarava com uma sobrancelha arqueada, parecendo tão bonito — e divertido — que fez uma correção mental: aquela era a visão mais bonita que já havia tido em toda a sua vida. Um suspiro trêmulo deixou seus lábios e ela, enfim, apresentou-se. Segundos depois, o lacaio gritou:
.
E a porta atrás de si se fechou. Era a última dama a entrar no palácio.


Capítulo 6

respirou fundo e por um breve momento se esqueceu de como andar. Achou que rolaria escada abaixo no primeiro passo que daria, pois sua pernas tremelicavam. Vamos lá, pensou, tentando enviar algum comando ao seu cérebro para que ele voltasse a funcionar. Tudo bem que Harry estivesse lá em cima, tão bonito, junto ao Rei e à Rainha. Tudo bem se todos eles estivessem examinando atentamente os seus movimentos... só não podia agir como a droga de uma garota humana. Não podia levantar suspeitas deixando seu nervosismo transparecer justamente quando as três pessoas mais importantes de Reynah a observavam.
Pela última vez, respirou profundamente e então, após quase um minuto paralisada no mesmo lugar, voltou a andar. Reverenciou-se na direção do mezanino, ignorando os batimentos cardíacos estourando dentro do peito, e tentou descer com calma as escadas, levando a mão esquerda ao corrimão de madeira. Em segundos, os mais tortuosos de sua vida, estava lá embaixo junto às meninas.
Tentou não olhar novamente para o mezanino, mas sentia que estava sendo observada constantemente. Não ficou surpresa quando começou a sentir os ombros tensos, e logo as suas costas doeram. Estava bastante apreensiva, e apesar de terem passado dias trocando cartas, ela nunca havia ficado cara-a-cara com Harry e, por mais que quisesse muito ir para casa, conhecer o príncipe estava se tornando uma tarefa inquietante.
O plano inicial era conhecê-lo, aproximar-se o suficiente para contar de onde veio sem temer ser executada pelo Rei e conseguir a ajuda do príncipe para voltar para casa. Fim. Mas também sentia que queria conhecer ele porque tinha vontade de conhecer Harry. Almejava conhecer Edward, aquele com quem trocara cartas, e ambicionava a sua amizade desde a primeira delas. Não era apenas sobre tirar proveito. Tinha outras intenções e ali estava a sua chance.
— Não sei como me portar em uma situação dessa — comentou, com Eloise, a qual cobria o rosto com um leque floral da mesma cor que o seu vestido: marsala.
— É verdade — ela respondeu, parecendo se lembrar de algo. — Esqueci de passar algumas instruções. Apenas sorria e não tropece — gesticulou elegantemente. — E fique ereta. Postura é tudo hoje em dia.
— Eu imagino — assentiu, endireitando as costas que ainda doíam.
Alguns cavalheiros que pareciam nobres faziam par com outras damas e esses conversavam alegremente. Era um dia festivo e muito agradável, com uma brisa fresca que entrava pelas janelas abertas e tirava alguns fios do cabelo de do lugar. Mas ela não se importou. Na verdade, ela nem reparou, pois a aparência do interior do castelo foi capaz de tirar o seu fôlego e captar totalmente a sua atenção. Novamente sorriu. Tudo era verde com dourado, como do lado de fora.
As toalhas que cobriam as mesas eram musgo, os enfeites nas pilastras e nos petiscos eram como ouro, e achou engraçado estar vestindo a mesma cor da decoração. Bem, quem imaginaria, certo? Relaxou as costas, esquecendo-se por um momento quem a observava, e então decidiu se afastar das meninas, que conversavam com algumas pessoas. Seria por apenas breves minutos, tão somente para contemplar o resto do salão.
Havia uma música clássica que tocava superficialmente e uma torre jorrava champanhe por cima de taças de cristais que exalavam elegância. Outros homens, que imaginou serem lacaios, apoiavam-se atrás das pilastras, acerca de três metros longe um do outro, e estavam sérios dentro das casacas azuis com botões dourados.
Bem acima, quase no topo do salão, acompanhando o pé direito extremamente alto, havia algumas pinturas. Eram os retratos da primeira família real e toda a sua descendência, inclusive Harry estava pintado em um dos quadros, mas ela constatou ser apenas uma imitação barata à beleza dele. Riu, pensando em voltar para onde as meninas estavam, quando sentiu que alguém havia se aproximado.
— Não achei muito bom — ele disse. Céus, ela reconhecia aquela voz. — Achei que meu nariz ficou um pouco grande.
Era Harry, o príncipe, e ele havia parado bem ao seu lado, olhando para o mesmo lugar que antes observava. Ela teve que respirar fundo, evitando olhar para aqueles olhos intensos, e então respondeu:
— Na verdade, achei que o seu nariz fez jus ao retrato, vossa majestade. — Forçou um sotaque que não era seu.
Harry soltou um riso e a encarou, trazendo o rosto de para ele. Ela também sorria.
— Você acha? — Ele arqueou as sobrancelhas, parecendo se divertir.
— Talvez. — Levantou um dos ombros, em um charme não intencional. — Se eu disser a verdade, vossa majestade me perdoaria?
— Talvez. — Ele riu novamente, imitando a sua resposta. — Mas pelo que me lembre, deixamos de lado as formalidades.
— Por carta — pontuou, suspirando com o sotaque britânico forte dele. — Não sabia se o mesmo valeria quando nos encontrássemos.
— Pois tem a minha confirmação, senhorita desconhecida — Harry respondeu, e estendeu a mão para ela. — Gostaria que me concedesse essa dança. Poderia?
quis gritar que sim, mas achou que fazer isso seria demais para um momento daquele. Então apenas corou, encaixou os seus dedos na palma estendida e se deixou ser conduzida para o meio do salão, onde outros casais dançavam. Imediatamente, a mão do príncipe rumou à sua cintura, segurando com leveza, enquanto a outra se entrelaçava na sua e, sem delongas, os dois passaram a se movimentar no ritmo da valsa.
Evitou olhar para ele, preocupando-se em admirar por cima do ombro alheio, mesmo que ele fosse quase vinte centímetros mais alto que ela. Com isso, conseguia enxergar apenas o topo da cabeça das outras pessoas. Não que isso importasse naquele momento, enquanto dançava com o príncipe, mas queria muito ter outra coisa para onde pudesse olhar, pois sentia que seu coração estouraria a qualquer momento e, como o esperado, havia chegado a hora em que o espartilho começara a atrapalhar a sua respiração.
— Está quieta — ele constatou. — Imaginei que seria um pouco mais falante, já que as suas cartas continham bastante conteúdo.
— Possuía bastante tempo para escrevê-las também — explicou, arriscando um olhar para o rosto dele, encontrando os olhos verdes lhe encarando intensamente. Péssima escolha.
— Entendo. — E se calou, continuando a conduzi-la pela multidão colorida.
— Se não me falha a memória, vossa majestade... Digo, você — corrigiu-se — me deve uma resposta. Não é mesmo? — Tentou puxar algum assunto, vendo que as coisas ficariam estranhas se não tomasse alguma atitude.
— Ah, isso é verdade — Harry afirmou. — Qual era mesmo a pergunta? — Tinha a impressão de que ele estivesse adiando o momento.
— Lembro-me que escreveu em uma das cartas que o Rei e a Rainha estavam ansiosos para conhecer a princesa. Questionei o que você achava sobre isso. — Em um movimento desajeitado, acabou pisando o pé de Harry e viu o nariz dele frisar. — Perdão. — Não conteve o riso, disfarçando com uma mordida no lábio.
— Pisar o meu pé não vai me fazer falar, senhorita — ele brincou. Aquele sorriso era tudo.
— Não? — Encenou uma decepção. — Puxa!
O príncipe acabou rindo também e, assim que tentou respondê-la, a valsa se findou. Com uma rápida checada, ele permaneceu segurando em sua mão e a carregou pelo salão, tentando não ser visto por muitas pessoas.
— Venha comigo.
E jamais recusaria.
Com as mãos entrelaçadas, eles correram pelo salão, mas não tão rápido para que não chamassem a atenção dos convidados, embora todos estivessem muito bem distraídos com seus pares, ao dançarem uma nova valsa que se emendou. Assim, eles entraram na primeira porta à direita, logo depois do primeiro lacaio ao lado da escadaria, seguiram por um corredor comprido e apertado, entraram em outra porta à esquerda, subiram uma escada aos tropeços e, por fim, adentraram a última porta. De repente, estavam do lado de fora, mas... não exatamente?
— Onde estamos? — perguntou, curiosa, mas a baixa luminosidade não a deixava ver com clareza. Apenas tinha certeza de que não eram paredes que cercavam o local, mas sim vidros espessos e foscos. O cheiro era ótimo, mesmo que ali fosse abafado.
Sentiu a presença de Harry se distanciado e percebeu que ele acendia algumas lamparinas.
— Senhorita desconhecida, — ele começou, então estendeu os braços para o ambiente — seja bem-vinda ao melhor lugar deste castelo: a estufa.
Sem palavras, apenas o acompanhou, sem tirar os olhos da imensa variedade de flores e plantas. Elas se estendiam pelos vidros até no topo e precisou desviar de algumas para que não acabasse esbarrando nelas. Seu nariz coçou e amaldiçoou a rinite. Mais alguns passos e eles haviam passado por uma árvore. Céus, pensou, como que isso coube aqui? E então ela notou que havia muito espaço, sendo que o local se arredondava lá em cima, com vidros que não refletiam. Era simplesmente maravilhoso e seu suspiro trouxe Harry de volta para realidade. não soube, mas ele a encarava como se fizesse parte da estufa.
— O que achou? — perguntou, curioso, e seu rosto expressava admiração, o que foi capaz de desnorteá-la por alguns segundos.
— Esse lugar é fantástico — murmurou, encantada. — Se eu tivesse a opção, poderia viver aqui tranquilamente. — riu sem graça e tocou em uma flor colorida.
— Essas são alstroemerias — explicou, ao se aproximar. Ele agarrou-a pela cauda e a retirou com delicadeza, voltando-se para . — Elas significam amizade — a colocou sobre a sua orelha, inclinando-a para que não caísse — e lealdade.
Sem graça, desviou os olhos para as mãos de Harry. Uma pontada doeu no seu coração, pois apesar de ter sido presenteada com aquela flor, não estava sendo cem por cento sincera com ele ao entrar na estufa. Queria poder contar sobre tudo e isso a entristeceu.
— É linda — respondeu, mas sua voz saiu num sussurro. Ela pigarreou e continuou: — Vejo que sabe um pouco sobre flores.
Harry pareceu deslumbrá-la por alguns segundos a mais e, por fim, disse:
— Costumava ser trazido aqui pela Rainha sempre que ela fugia dos compromissos. — Arrumou os cachos, que pareceram se bagunçar ainda mais na corrida até ali. — Tive uma aula ou outra. Mas sei poucas coisas... — Ele deu alguns passos e retirou outra flor. — Essa aqui, por exemplo, chama-se amor-perfeito. Ao contrário do que parece, ela está associada com pensamentos e recordações.
— Não esperava por isso. — Sorriu verdadeiramente, sentindo-se surpresa.
— Exatamente. — Ele devolveu o sorriso e se virou totalmente a ela, entregando-lhe a flor. — Acredito que lhe devo algum dos meus pensamentos, não é mesmo?
— Acho que devo concordar com a vossa majestade. — Ela sentou-se em um banco que havia bem embaixo da copa da árvore, sendo acompanhada por ele.
Harry apoiou os braços nas coxas, inclinando-se para frente, e parecia pensar. podia ver que a mandíbula se contraía de vez em quando, então preferiu ficar em silêncio, dando o tempo que ele precisava para começar a falar. Pressentia que aquele era um assunto delicado. Levou alguns segundos até que a primeira palavra soasse:
— Sabe... — o príncipe falou, encarando qualquer coisa que não fosse . — Eu fui feito com esmero. Sempre ouvi isso dos meus pais. — Suspirou.
Ela não entendeu de prontidão, pois acabou se distraindo com o silêncio, mas logo recobrou a memória e passou a ouvi-lo atentamente, emitindo um ruído para demonstrar que estava escutando.
— Eu sou o único filho, o sucessor do trono, o príncipe Harry — continuou, virando a cabeça para que pudesse vê-la. — Eu sempre tive uma vida regrada. Às sete da manhã, eu tinha aulas de etiqueta; às nove, era o piano; às dez, eu treinava a minha escrita; às onze, eu pintava... e assim por diante — relatou, com pesar. Não parecia feliz e não precisava vê-lo para perceber. — Eu não tive uma infância como qualquer criança e minha adolescência foi cheia de treinamentos. Sabia que sei usar mais de vinte tipos de taças e copos diferente?
— Não sabia — confessou. — Na verdade, eu nem sabia que existiam tantos tipos...
riu pela primeira vez desde que aquela conversa se iniciou e sentiu que precisava dar a Harry algum tipo de apoio silencioso, então levou a sua mão às costas dele, fazendo um carinho leve. Ela lembrou que talvez eles, de Reynah, não estivessem acostumados àquele tipo de afeto, pois Harry era um príncipe e uma dama qualquer, mas ele pareceu não se importar. Pelo contrário, ele suspirou satisfeito.
— Agora, imagine eu decidindo com quem me casar. Não soa ridículo? — perguntou, sincero.
— Não — ela disse, simples, atraindo a atenção dele.
Claramente, o príncipe não esperava por aquela resposta.
— É a primeira pessoa a me falar isso — ele riu, parecendo incrédulo.
— Aposto que fui a única para quem perguntou — provocou.
Harry endireitou a postura e encostou as costas no banco, fazendo com que recuasse a mão para o colo, ficando um pouco sem jeito ao ser alvo do olhar intenso.
Touché — ambos riram, até o silêncio predominar entre os dois.
— Sabe, Harry... — ela começou, atraindo a atenção dele novamente. — Não acho que deva se casar com alguém por quem não sinta amor. Um casamento não é como um contrato de uma empresa, é sobre carinho e cumplicidade. E sua futura esposa precisa compartilhar disso com você, ou viverá infeliz.
O príncipe a encarou confuso e , inicialmente, não entendeu por que, então devolveu a curiosidade ao franzir as sobrancelhas.
— Contrato de uma empresa? — ele perguntou, com uma careta.
sentiu o estômago afundar. Não era óbvio?
— Sim — disse, por sorte não gaguejando. — Uma expressão que meus pais usavam para falar sobre algo ruim. — Encenou uma desculpa e torceu para que desse certo, ou sairia da estufa direto para a forca.
— Ah, entendo — ele assentiu. suspirou e parou de suar. — Eu sei que parece fácil visto de fora... Mas o Rei é um pouco difícil. Na visão dele, nós precisamos da esposa perfeita, aquela que também foi feita com esmero. — Fechou os olhos por um momento.
continuou a observá-lo e reparou que ele estava ainda mais bonito do que no dia em que o viu na casa de Eloise. Céus. Sentiu seu coração acelerando aos poucos. Naquela noite, os cabelos estavam mais arrumados. Eles foram penteados para trás e caíam para o lado, como se não se decidissem aonde iriam. A barba havia sido feita, mas o rosto, ainda assim, não estava liso. A roupa, por outro lado, parecia ter sido feita sob medida, pois servia perfeitamente. Era um terno bordado, azul com dourado, e alguns broches enfeitavam-no. Harry era tão bonito que doía olhá-lo, pois não parecia real.
Assim que os olhos verdes se abriram, pigarreou e desviou o olhar, mas sentiu que as bochechas começaram a corar.
— Não vai mesmo me dizer de onde a senhorita é, certo? — o príncipe perguntou, baixinho, depois de um tempo, deixando a voz ainda mais rouca.
— Creio que não — afirmou, rodando entre os dedos a flor que havia ganhado.
Harry a encarou pensativo.
— Seu sotaque é diferente.
Ela tentou pensar em alguma resposta, mas se dissesse que era de outro reino, arriscaria mentir descaradamente, pois não sabia se sequer existia outro reino. Também não podia contar de uma vez que era humana. Portanto, permaneceu calada. Ele que tirasse as suas próprias conclusões.
— Nunca vi a senhorita pelos arredores — disse, novamente, e cada vez parecia mais intrigado, deixando preocupada. Precisava sair dali. — Mas tanto faz. Serei paciente. Deve ter os seus motivos, não irei pressioná-la quanto a isso.
sentiu que as costas começavam a doer novamente, então relaxou os ombros.
— Obrigada, Harry — disse. Ele assentiu. — Sobre o Rei... Não acha que ele mudaria de ideia se contasse sobre como se sente com o casamento?
— Sinceramente, não sei — confessou. — Mas temo arriscar.
— Pois deveria. — Encarou-o afetuosamente. — É sobre você, o príncipe, que estamos falando, sobre a sua felicidade. Como o Rei estará daqui a cem anos? E como você estará daqui a cem anos? — disse, sabendo que acertara ao mencionar a quantidade duplicada dos anos como uma nativa de Reynah. Harry pareceu refletir seriamente. — Você foi feito com esmero, majestade, mas já está feito. O papel do Rei e da Rainha acabou no exato momento em que você virou um homem responsável.
O príncipe sorriu para ela e procurou pela sua mão, que descansava em cima do colo.
— Alguém já lhe disse que a senhorita é uma ótima conselheira? — Deixou um beijo perto do pulso, sem tirar os olhos dela. — Talvez possa me ajudar a escolher uma pretendente.
— Seria divertido — ela riu. A esperança de que pudesse ir para casa floresceu quando ela pôde vislumbrar a chance de uma futura amizade com Harry. — Mas terá que me prometer uma coisa.
— Qualquer coisa.
Sua respiração falhou.
— No final, terá que ser com alguém que goste.
— Não sei se posso prometer isso, — disse, seriamente.
— Essa é a minha condição. — Deu de ombros. Os olhos dele estreitaram em sua direção. — Vamos lá, Edward, tenho certeza que alguma dama conseguirá amolecer o coração do príncipe.
Ele riu divertido e fez um carinho em sua mão.
— Tudo bem. Acho que isso pode acontecer. — O príncipe tentou fechar o sorriso, mas não conseguia, seus lábios repuxavam automaticamente. Estava feliz. Ambos estavam.
assentiu, e no movimento de sua cabeça, a flor que estava atrás de sua orelha resvalou e o príncipe agiu de modo automático ao arrumá-la novamente. Ele se aproximou dela e ajeitou o cabelo preso e , que se bagunçou no ato repentino, mas não reparou o quão próximo ficaram até que pudessem sentir a respiração um do outro. Os sorrisos, enfim, desapareceram, e a estufa pareceu mais abafada do que antes.
Sentiu que precisava se refrescar, então deixou a outra flor que segurava sobre a saia do vestido e começou a se abanar, soltando a mão de Harry. Imediatamente, ao reparar que havia deixado a planta cair, ela se abaixou para pegá-la, mas não contava que o príncipe fizesse o mesmo e as mãos se tocaram como em um clichê gostoso.
Mas, então, inesperadamente, ambos caíram na gargalhada.
Harry ria tanto que a barriga começou a doer e não conseguia mais respirar, pois a risada vinha desenfreada. Naquele momento, era como se eles tivessem uma ligação e a cena que se antecedeu parecera tão absurda tanto para ele, quanto para ela. Aos poucos eles foram se acalmando e um sorriso largo tomou o lugar das gargalhadas. O coração dela ainda estava acelerado e o príncipe ainda sentia o estômago estranho. Mas os olhos se encaravam como se dependessem daquele afeto. Como se dependessem daquele contato inocente.
E poderiam ficar por muito tempo ali, se Eloise não tivesse aparecido e enfiado a cabeça pela porta ao gritar o nome de .
— Estou aqui embaixo. — Saiu de trás da árvore e apareceu para a mais velha.
— Pelos céus, estávamos te procurando, achei que alguém havia.... — Eloise quase completou a frase e completaria se o príncipe não tivesse aparecido também. — Oh, majestade. — Curvou-se diante dele. — Não sabia que estava aqui também.
— Não se preocupe, já estávamos voltando — ele disse, ajeitando a roupa elegante. — Espero que ninguém tenha dado falta do príncipe — riu.
— Na verdade, todos estão procurando pelo senhor, majestade. Inclusive o Rei — Eloise comentou, sem graça.
— Droga — ele esbravejou, e foi a primeira vez que o escutou esbravejar. — Preciso retornar ao salão, . — Ele se virou para ela e pegou novamente em suas mãos, segurando-as contra si como se não quisesse mais soltá-las.
— Acho que sim — concordou com ele, e deixou um carinho nos dedos alheios com o polegar.
— Podemos nos ver novamente? — Harry perguntou, parecendo ansioso.
— Mande-me uma carta e eu pensarei se vossa majestade merece me ver novamente — brincou, arrancando um riso soprado dele.
— Escreverei o mais rápido possível. — Deixou um beijo em cada mão de e se afastou de costas, não querendo desconectar o olhar.
Ao chegar à porta, ele se reverenciou, como fez na primeira vez em que a viu escondida no quarto, e fez o mesmo para Eloise, que retribuiu em respeito. Então desapareceu pelo corredor, deixando suspirando.
Que noite, amigos.
— Juliette vai surtar quando souber.
— Com certeza — riu.


Capítulo 7

— Vocês fizeram o quê? — Juliette berrou já dentro de casa.
sabia que ela iria surtar, mas não esperava tanto. Elas estavam retirando os vestidos umas das outras, pois jamais conseguiriam fazê-lo sozinhas. Na verdade, não sabia se existia alguém que conseguiria levar as mãos para trás, nas costas, com um corpete tão apertado. Se alguém havia sequer tentado um dia, provavelmente morrera no caminho.
— Não grita, por favor — pediu baixinho. Ainda possuíam vizinhos e não seria nada agradável se alguém soubesse que ela havia passado tanto tempo sozinha com o príncipe.
— Não me peça para não gritar, , isso só irá servir como motivação para meus próximos gritos — sentenciou, livrando-se das peças rapidamente. Talvez estivesse tão animada quanto .
Ela revirou os olhos, sentindo o corpete ficando cada vez mais frouxo.
— Obrigada, Sophie — agradeceu. — Nós apenas ficamos conversando. Ele contou um pouco sobre a vida dele e foi só isso.
— E foi só isso — imitou. — , o que aconteceu não foi “só isso”. Foi muito mais! — Vestiu um pijama de malha e sentou-se sobre uma perna em cima da cama. — Estamos falando do príncipe.
— Eu sei! — pontuou, indo pegar uma peça de roupa dentro do seu armário. Quer dizer, dentro do armário de Sophie. — Mas não aconteceu nada demais.
A verdade era que ela estava muito mais eufórica do que deixava transparecer. Tão agitada que parecia ter tomado algumas xícaras de café durante o caminho de volta. Seus pensamentos estavam a mil e não se aguentava mais de ansiedade para ler a carta do príncipe. Pensando bem... se é que ele mandaria uma.
— Ih — Sophie murmurou, arqueando as sobrancelhas de modo curioso. Provavelmente estava observando as suas feições. — O que foi? Está com uma cara...
riu. Talvez houvesse alguma forma de esconder as suas emoções delas, mas Sophie era tão ardilosa que bastava uma fração de segundos para denunciar os seus pensamentos. Estava ficando cada vez mais fácil de ser lida pelas meninas, o que não soava ruim, afinal, estavam cada vez mais próximas.
— Ele prometeu me enviar uma carta — contou, sentando-se, já vestida, ao lado de Juliette. — Estou um pouco ansiosa.
Recebeu um empurrão que quase a fez cair da cama.
— Um pouco, sei — Julie debochou. — , se você ainda não percebeu, eu vou lhe contar agora: Harry está caidinho por você.
Sua gargalhada quase a assustou.
— Não fale besteiras, garota. — Fez uma careta. — Não nos vemos assim.
Ela revirou os olhos como se tivesse escutado baboseiras.
— Acho que está certa — Eloise disse, e apontou para ela como se dissesse “viu só?”. — Harry não parecia apaixonado... Ele só estava feliz. Talvez não tenha tanto contato com outras pessoas.
— Eloise, às vezes eu penso o quão ingênua você pode ser, mas eu ainda me surpreendo. — Levantou-se da cama, preparando um discurso. — Você acha que o príncipe não tem contato com outras pessoas? Ele é o príncipe, Elo, ele não precisa fazer esforço para isso.
— É verdade — Sophie afirmou. — E é muito difícil ganhar a mesma atenção que a recebe dele.
— Exato! — Juliette exclamou. — E ainda, vocês acham que Harry iria passar tanto tempo com ela, no baile que foi feito exclusivamente para ele, se não estivesse afim dela?
— Vocês, definitivamente, não sabem o significado de uma amizade entre um menino e uma menina — reclamou. — Nem tudo é segundas intenções. Nós apenas conversamos como duas pessoas normais que gostam da companhia um do outro. Além disso, ele nem queria aquele baile.
— Não dê bola para ela, . Juliette só quer alimentar a fantasia que ela criou em cima de vocês dois — Eloise cantarolou, deitando-se no meio da cama.
— Ei! — ela reclamou, mas não retrucou. — Talvez. Mas eu ainda acho que o príncipe sente alguma coisa pela . — Deu de ombros.
— Ele não sente — pontuou, deitando-se também, e apoiou a cabeça na barriga da mais velha. — Também não pode sentir. Não sei se vocês lembram, mas eu vou embora.
As meninas ficaram em silêncio, como se tivessem se esquecido desse detalhe. Falar em voz alta fazia com que aquilo parecesse real e ainda mais próximo de acontecer, e a tristeza a acometeu.
— Você podia ficar — Sophie, de repente, falou.
As outras três se sobressaltaram.
— O quê?
— Você podia ficar — repetiu. — Você mesmo disse que o seu pai passa mais tempo trabalhando do que em casa.
suspirou. Talvez devesse mesmo ficar. Mas não teria coragem.
— Ele ainda é meu pai, Soph, não conseguiria deixá-lo sozinho. — Franziu o nariz. — Mas não quero pensar nisso agora. — Sentiu Eloise acariciar seus cabelos e logo Juliette se deitou ao seu lado, seguida por Sophie. Estavam as quatro na cama de , no entanto, parecia muito mais acolhedor do que apertado. — Vocês vão me fazer chorar.
Então elas riram e, em seguida, passaram tanto tempo em silêncio, perdidas em pensamentos, que adormeceram juntas.

[...]


Dois dias depois, uma movimentação tirou as quatro meninas do sofá da sala. Juliette, aos tropeços, parou no portão da casa e voltou eufórica, com uma carta em mãos e um sorriso prepotente. Sophie pulava ansiosa e Eloise preparava um chá para elas como alguém que faz pipoca para ver um filme.
riu e pegou a carta, trêmula, não se demorando em abri-la. Com um sorriso no rosto, ela leu:

,
Mil perdões pela minha demora em lhe escrever. Caso não saiba, o príncipe também precisa arrumar a bagunça do baile. E como eu sou o príncipe, passei os últimos dias limpando o salão e ganhando uma crise alérgica pelo pó. Mas, antes tarde do que nunca, certo? Pois vim aqui, humildemente, convidá-la para passar o dia comigo. Gostaria de levá-la para um passeio a cavalo amanhã após o meio-dia. Preciso lhe mostrar um lugar.
Aguardo ansiosamente pela sua resposta.
Com amor,
H.
PS.: Não consigo mais olhar para o livro O Amor em Poesia sem lembrar de você. A propósito, deixo ele sobre minha cabeceira para que eu possa ter uma boa lembrança antes de adormecer.


sentiu as bochechas esquentando à medida que se ouvia os uivos das meninas ao tirarem sarro da carta. Mas não podia negar, ainda estava de queixo caído. Harry era um galanteador barato e ela gostava disso. Não seria nada mal passar o dia inteiro com ele e com o seu charme encantador.
— Isso está sendo bem divertido. — Sophie vibrou. — É como ler um livro, mas está acontecendo de verdade.
— Sim! — Juliette abraçou uma almofada e fingiu se derreter no sofá. — Vocês dois são uns fofos. Aonde será que ele vai te levar?
— Não sei... — respondeu ao se sentar à mesa. — Não faço a menor ideia. Não acho que seja à estufa, pelo menos.
— Deve ser algum lugar secreto — Sophie palpitou com um ar zombeteiro. — E só ele sabe onde fica.
— Talvez — suspirou, puxando uma folha onde escreveria sua resposta.
Estava tão ansiosa que precisou respirar fundo antes de apoiar a pena sobre a carta.

Príncipe Harry,
Gostaria de poder dizer que senti pena de vossa majestade, mas a verdade é que eu achei a situação inteira muito engraçada... Essa foi a melhor coisa que ouvi em anos, pode acreditar. Apesar disso, adoraria passar o dia com você. Aguardo ansiosamente a sua chegada. Até amanhã.
Com amor,
D. (acho que vou me despedir assim também)
PS.: Isso quer dizer que você se lembra de mim todos os dias antes de dormir? Sinto-me lisonjeada, majestade. Afinal, acho que vou fazer o mesmo. Fique sabendo, então, que a partir de hoje o mesmo livro estará sobre minha cômoda.


Como o combinado, ao meio-dia aguardava a chegada do príncipe. As meninas, contra a sua vontade, enfeitaram-na como uma boneca. Estava com um vestido leve, azul e florido, com mangas curtas e bufantes e um decote que era comportado. O vestido ia até quase os seus pés, os quais calçavam uma sapatilha da cor pérola. Seu cabelo, oh céus, estava preso em um coque e nem se lembrava da última vez que isso acontecera.
Depois de muitos elogios de Juliette, finalmente concordou: estava até bonita. Mas, após se olhar mais do que o necessário no espelho, ela acabou ficando neurótica. E se estivesse arrumada demais? E se não estivesse tão arrumada e sua roupa fosse imprópria para o passeio? No entanto, além disso, outra coisa a perturbava. Por que raios queria ficar bonita para Harry? E essa foi a última pergunta que rodeou a sua mente antes de ouvir o tumulto do lado de fora.
— O príncipe chegou — Eloise comentou quando voltou para dentro de casa. Alguns fios esvoaçaram quando ela pulou na cozinha.
sentiu o estômago pesar e o coração se acelerar imediatamente. Deu uma última olhada para as meninas e sussurrou um “desejem-me sorte”, enquanto as três acenavam dramaticamente para que ela fosse logo e não deixasse Harry esperando, plantado do lado de fora. É claro que elas queriam empurrá-la para o pobre rapaz, estavam morrendo de vontade de espiar alguma interação entre os dois, nem ao menos tentavam disfarçar a euforia.
Então ela simplesmente foi, sem saber o que esperar. Ao chegar ao lado de fora, o sol, por um breve momento, obrigou-a a estreitar os olhos e precisou colocar a mão em frente à luz para enxergar melhor. Obrigada por isso, pensou quando o viu; lá estava ele, em pé, enquanto acariciava o cavalo, esperando-a chegar. Ele nunca parecera tanto como um príncipe quanto naquele momento com a sua roupa majestosa. Não soube distinguir se aquele traje era especial para montaria, mas pensou que sim, o que a fez vacilar ao lembrar que estava de vestido.
Assim que Harry a viu, seu sorriso não pôde ser maior e imediatamente ele contornou o animal para abrir o portão. Ela riu, não se contendo com o ato cavalheiro, e passou pelo portão, ficando ao lado dele. encolheu os ombros e o cumprimentou-o com um “oi” tímido. Sem delongas, Harry procurou pela sua mão e deixou um beijo singelo no pulso.
— Senhorita — disse sorrindo. — Está radiante.
— Você também não está nada mal, majestade — brincou, mordendo os lábios quando ouviu o riso soprado dele.
O cavalo relinchou como se estivesse envergonhado pela conversa sem graça dos dois, fazendo o vestido de balançar. Ela riu, fazendo carinho nele. Era um belo cavalo, para falar a verdade. A pelagem marrom era brilhante e lisa, demonstrando que era bem cuidado.
— Francis é um tanto... oferecido — Harry comentou, achando graça da situação entregue do animal.
— Certamente o dono dele o treinou bem — zombou, arriscando um olhar de canto para o príncipe.
— Certamente. — Harry arqueou uma sobrancelha, permanecendo com um sorriso ladino. — A senhorita, pelo visto, entende bastante sobre treinamentos de cavalos?
— Pelo visto — imitou-o. — Vossa majestade não?
Harry disfarçou a risada com uma tossida.
— Temo que não tanto quanto a senhorita, vejo — brincou, aproximando-se dela. — Aliás, fugindo um pouco do assunto... Creio que estamos sendo observados.
disfarçou e olhou ao redor como se estivesse admirando a paisagem, pegando no flagra três meninas empilhadas na janela, por trás da cortina, olhando para os dois. Ela segurou o riso e voltou a atenção a Harry.
— Não sei o que faço com elas — sussurrou, já que estavam próximos à janela.
Ele, então, encarou-a pelo que pareceu poucos segundos e se inclinou na sua direção.
— Permita-me. — Levou a mão até seu rosto e tirou dali alguma coisa com a ponta do polegar. — Finja que está nervosa sob meu toque.
Fingir? Ela pensou. Precisava fingir que estava nervosa? Céus, se ele soubesse...
— E agora? — perguntou incerta. Não sabia se ele acreditaria que pudesse corar as bochechas por querer.
Ele, novamente, aproximou-se, dessa vez ficando rente ao seu ouvido.
— Agora deixe que elas pensem que falei alguma coisa romântica no seu ouvido — soprou e vacilou nos próprios pés. Harry estava querendo matá-la antes mesmo daquele passeio.
Mas se ele quisesse bancar o esperto, não podia ficar para trás. Engoliu a timidez antes de arriscar.
— Queria saber o que você pensou em me falar, príncipe. — Levantou os ombros. — Ou vai deixar só na minha imaginação?
O príncipe riu desacreditado, estreitando os olhos na sua direção. Os olhos dele brilhavam.
— Acho que aqui não é o lugar apropriado para isso. Quem sabe depois? Quando estivermos, você sabe, a sós — provocou de volta, deixando-a vermelha.
Ela viu, de canto de olho, as meninas se apertando na janela da sala.
— Vamos ver se é tão bom de lábia quanto aparenta ser. — Empinou o nariz e deu um meio sorriso.
— Você é inacreditável — ele abaixou o tom de voz.
— Só quero deixar as coisas mais divertidas — explicou-se, vendo que já estavam falando baixinho, quase em sussurros.
— E conseguiu. — Ele encarou-a nos olhos. — Gosto quando faz isso.
suspirou surpresa.
— Eu sei — disse, apenas. Seus olhos se desviaram rapidamente para as meninas e então se voltaram para Harry. — Temos muita plateia por aqui.
O príncipe estreitou as sobrancelhas, parecendo pensativo de repente. Ela procurou em sua mente alguma coisa que tivesse feito ou dito de errado.
— Certo — concordou, perdendo a pose provocativa. — Devemos ir, então? — ele perguntou ao conduzi-la para perto do cavalo, o qual esperava pacientemente enquanto devorava as gramas da calçada.
assentiu, levando as mãos à pelagem escura do bicho. Como não havia outro cavalo por ali, ela constatou que iriam cavalgar no mesmo, então teria que pensar em como subiria ali, pois, por mais que não fosse a sua primeira vez andando a cavalo, sempre usava um banquinho para que pudesse subir. Não foi preciso, no entanto, usar um banquinho, pois Harry, sem aviso prévio, pegou em sua cintura e a levantou, colocando-a facilmente sentada sobre as costas do animal.
Com um murmúrio surpreso, agradeceu timidamente, sentindo as bochechas corarem quando Harry subiu também, ficando logo atrás. Eles não se encostavam muito, mas ela imaginou que aquela aproximação fosse um tanto íntima para um príncipe. Uma sensação de que gostaria que fosse a primeira a compartilhar daquele momento com ele incomodou-a. Honestamente, ela não sabia por que estava se sentindo tão eufórica, mas, no fundo, não queria saber, pois tinha medo do que iria descobrir.
Estava sentada de lado sobre as costas de Francis, algo que imaginou ser adequado para uma dama que usava vestido. Em virtude disso, sua coluna estava começando a incomodar, pois olhar para frente, e não para o lado, na direção de suas pernas, parecia a coisa certa a fazer, mesmo que precisasse se dobrar em mil jeitos diferentes. A verdade era que olhar para o lado significava ter uma visão de Harry que, podia jurar, não iria lhe fazer bem. Além do mais, não confiava muito na sua imagem de perfil, muito menos com ele tão perto assim.
As mãos do príncipe logo rumaram ao seu lado, segurando nas rédeas do cavalo. Isso fazia com que os braços dele, ao mesmo tempo, segurassem sua cintura indiretamente. Um arrepio subiu na sua espinha, terminando na sua nuca. Esperava que Harry não estivesse prestando atenção à sua pele nua, ou saberia que estava arrepiada.
— Pronta? — ele perguntou bem próximo, quase em um sussurro.
— Sim — respondeu, arriscando um olhar para o lado dele, vendo-o atento ao seu rosto.
Os lábios dele estavam apertados numa linha fina e com um aceno simples ele manejou as rédeas para que Francis começasse a andar. Não soube por quanto tempo ficou olhando para o rosto de Harry, mas tratou de recobrar sua consciência rapidamente e voltou a observar o caminho. Percebeu, então, que era a primeira vez que saía de casa. À frente, algumas pessoas curiosas espiavam os dois com semblantes intrigados. baixou o rosto, envergonhada por ser o centro das atenções.
— Todos estão olhando para nós — comentou em um sussurro.
Harry soprou um riso contido, mantendo uma expressão divertida.
— Tenho certeza de que todos estão olhando para você.
Seu estômago revirou.
— Você é o príncipe aqui. — Virou seu rosto para frente, dando-o a visão do seu perfil.
— E? — perguntou. O balanço do trote fazia com que o peito dele tocasse em seu braço de tempos em tempos. — Todos estão acostumados a me ver pelo reino, não é nenhuma novidade... Agora, eles estão acostumados a lhe ver? Se sim, então retiro o que eu disse.
Estreitou os olhos, pensativa.
— Pensando bem — ele continuou —, não sei se alguém se acostumaria com a sua beleza.
arregalou os olhos e o seu coração a traiu ao pular com força no peito.
— Eu não diria isso. — Mordeu o lado de dentro da bochecha, tentando segurar um sorriso.
— Então deveria se admirar mais — ele disse. — Ou talvez ninguém tenha sido sincero o suficiente com você.
Ela pigarreou e resolveu voltar ao assunto anterior. Estava começando a ficar encabulada.
— Não costumo sair muito, sabe? — confessou, mas não disse o porquê. Harry levantou as sobrancelhas em uma expressão presunçosa. — Mas mesmo assim... Eu não sou importante para chamar atenção dessa forma.
— Eu não diria isso. — Deu de ombros ao imitá-la.
o encarou pelo que pareceu ser muito tempo. Harry era um príncipe e estava ali. Com ela. Enchendo o seu ego, elogiando a sua aparência como ninguém havia feito antes. E, nesses momentos, ele não parecia ser o príncipe, mas sim, Edward, alguém que estava lhe conquistando facilmente com todo o seu charme e simpatia.
— O que foi? — ele perguntou, encarando seus olhos.
— Você não parece um príncipe.
Harry levou a mão ao peito, como se tivesse sido atingido.
— Essa doeu! — Fingiu dor.
— Não! — gargalhou ao se corrigir. — Não foi isso o que eu quis dizer.
— Você disse algo bem parecido. — Torceu os lábios e o sotaque britânico a incomodou.
Tinha que ser tão bonito?
— Eu quis dizer que você é muito gentil para um príncipe. — Deu de ombros.
— Você conhece algum outro? — ele perguntou divertidamente.
— Bom... — Pensou. — Alguns ainda tentam falar comigo, sabe como é. São muito insistentes.
Ele riu gostosamente.
— Deve ser porque é sobre você que estamos falando.
— Ora, Edward, não puxe tanto o meu saco. — Empurrou-o levemente no peito com seu ombro.
Ok, senhorita, vou ser o mais ogro possível — declarou em um tom falsamente sério. — Aliás, você estava falando...? Ah, claro, dos príncipes imaginários que correm atrás de você.
, boquiaberta, acertou-lhe um tapa no ombro. Fraquinho, é claro.
— Prefiro o meu príncipe gentil. — Enrugou o nariz.
Harry riu e apertou os braços em volta da sua cintura.
— Seu, é? — Um maldito sorriso ladino enfeitava aquele rosto bonito. — Não sabia dessa história.
Sua bochecha virou em um vermelhidão só e decidiu virar o rosto para frente, na direção do caminho, cruzando os braços e deixando a nuca aparente. Harry riu gostosamente e permaneceu em silêncio, divertindo-se às custas dela. Só então começou a prestar a sua atenção na estrada à frente, e céus, era de tirar o fôlego. Como no lugar onde vivia com as meninas, a rua era de pedras. O número de casas já estava diminuindo e o gramado começava a tomar conta. A vista que tinha era de um verde vivo e puro com flores que pareciam cheirosas sob o olhar e de árvores que nasciam saudáveis e duravam muitos anos. Tinha a impressão de que nada ali morreria algum dia.
Francis, o cavalo de Harry, começou a cavalgar ao comando do príncipe, que assistia, com admiração e em silêncio, contemplar a vista com tanta emoção. O vento fresco passou a bagunçar o coque dela, levando os fios de cabelo rebeldes para trás, os quais faziam cócegas no rosto de Harry, mas ele não se importava; o riso de , que logo virou uma gargalhada alegre, valia muito mais do que qualquer coisa que ele tivesse em mente. Nunca havia conhecido alguém como ela e podia dizer com certeza: em tão pouco tempo, aquela mulher estava fazendo um estrago no seu coração. Mas a pergunta era: ele estava preparado para isso?


Capítulo 8

nem percebeu quando haviam chegado ao destino.
Foi apenas quando o trote ficara mais lento que ela notou que o cavalo não podia mais ir adiante. Estavam de frente a um barranco de pedras soltas, não muito inclinado, mas o suficiente para que soubesse que teria que pedir ajuda ao príncipe quando subissem. Sentiu Harry descer de Francis e o observou amarrando o cavalo em uma árvore ali. O nó que ele havia feito deixou-a surpresa e confusa ao mesmo tempo. Perguntou-se se o príncipe conseguiria desfazê-lo depois.
Em seguida, ele se aproximou e, de modo cavalheiro e respeitoso, colocou-a no chão quando a carregou pela cintura. Por uma fração de segundos, percebeu os olhos dele se desviando como se estivesse tímido, então pigarreou ao amaciar o tecido do seu vestido. Espreguiçou-se, sentindo suas costas reclamarem, e viu que o príncipe ria, mas tentava disfarçar. franziu o nariz, segurando um sorriso também, e olhou ao redor.
— Chegamos? — perguntou.
Harry assentiu.
— Precisamos subir aqui, então chegamos.
Ela mordeu o lábio inferior, pensando nas diversas maneiras de passar vergonha ao tentar subir sozinha pelas pedras. O príncipe pareceu notar.
— Vou ajudar a senhorita, não se preocupe. — Então começou a subir como se fosse experiente. Provavelmente era. — Não é tão difícil quanto parece. — Ele riu ao notar sua careta preocupada. — Bom, é um pouquinho, mas nada muito impossível.
— Nada muito impossível — ela imitou, dando ênfase à palavra. — Certo, não sei se fico feliz em ouvir isso.
Ela escutou o riso de Harry e logo ele estava com a mão estendida na sua direção. ficou encarando aquele gesto por alguns segundos, até que a voz dele soou divertida.
— É para pegar a minha mão, senhorita.
quis se esconder, mas assentiu e aceitou a palma estendida. Em seguida, foi puxada para cima. Teve que segurar em Harry com as duas mãos, pois, de alguma forma, os seus pés escorregavam sobre as pedras toda vez que se apoiava em uma para tomar impulso e subir em outra. Todavia, para a sua surpresa, ele era bem firme. Não tinha dúvidas de que o príncipe fosse forte, mas ele sequer vacilou e aguentou todo o seu peso, que o puxava para baixo. Em instantes, estava sendo puxada uma última vez, dessa vez para o topo.
Apenas teve tempo de tomar fôlego, antes de perdê-lo novamente.
— Bem-vinda — ele disse simples, gesticulando para a vista.
Ela não se lembrava de ter visto algo tão bonito quanto aquilo. Sentiu-se comovida, com lágrimas que brotaram nos seus olhos. O príncipe pareceu perceber, pois logo se aproximou dela, passando um braço em volta dos seus ombros. se encolheu um pouco ao encará-lo, vendo seus olhos intensos sobre ela. Então riu, tentando espantar aquela tensão.
— É lindo — disse, suspirando. — É Reynah inteira?
Harry a encarou, respondendo depois de algum tempo.
— Sim.
assentiu. Bem, ela não conseguia parar de olhar para aquela vista. Lá embaixo, ela conseguia ver toda a vila, inclusive o castelo, que ficava um pouco mais afastado e até parecia pequeno daquela distância. Era dia de feira, então também era possível ver as tendas e as pessoas caminhando, apressadas, para lá e para cá no centro. Uau, era isso.
— Gostou? — ele perguntou, não se afastando de .
— Estou sem palavras. — Foi sincera. Ele pareceu gostar. — Como descobriu esse lugar?
— Ser príncipe têm suas vantagens. — Repuxou o canto da boca num sorriso convencido que aprendeu a gostar.
Harry tinha aquele jeito maroto de um menino novo, mas, ao mesmo tempo, ele exalava maturidade em cada passo, demonstrando todo o seu charme naquele vai e volta que passava de um homem maduro a um garoto atrevido. Ela gostava disso.
— E quais seriam as outras? — Arriscou um olhar para ele, mas quase engasgou ao vê-lo tão perto.
Harry a encarou por alguns segundos a mais antes de responder e podia jurar que os olhos dele pairaram sobre seus lábios antes de voltar para cima.
— Conheço muitas pessoas — falou, afastando-se.
sentiu um repentino desapontamento.
— Desde quando isso é uma vantagem?
— Desde quando você não se sente mais sozinho. — Harry sentou-se na beirada do morro, sendo acompanhado por . Os dois balançavam as pernas suspensas.
— E isso melhorou? — O príncipe a encarou um pouco confuso. — Digo, você não se sente mais sozinho?
Ele continuou com os olhos grudados nos seus, como se observasse atentamente a sua reação.
— Agora não mais.
— Eu vinha bastante aqui quando me sentia preso — confessou de repente, deixando-a um pouco tonta pela mudança brusca de assunto. — Aqui é como um refúgio, sabe?
Ela assentiu, sabendo muito bem do que ele estava falando, pois ela mesma tinha o seu próprio refúgio, um que havia a levado para Reynah. Harry encarava à frente e desse jeito ela podia ver o perfil dele. A barba por fazer era perfeita e se pegou imaginando como seria se ela arranhasse o seu rosto quando Harry lhe beijasse. O quê?
— Entendo. — Pigarreou, assustada consigo mesma.
— Aqui é onde consigo ter as coisas sob controle. É onde vejo tudo, sinto tudo.... — Fechou os olhos por um momento, fazendo prestar atenção nas coisas ao redor, ouvindo sons que provavelmente não ouviria no centro da vila. — Ouço tudo.
— Fico feliz que tenha me trazido para cá — confessou ao encará-lo.
Harry abriu os olhos e retribuiu seu olhar intensamente.
— Eu também.
Sorriu agradecida.
— Quando minha mãe morreu — começou, atraindo a atenção dele —, eu criei uma espécie de esconderijo para mim. Todas as vezes que me lembrava dela, eu ia até lá e passava horas pensando no porquê aquele lugar mexia tanto comigo.
— E descobriu?
— Não. Mas parei de tentar. — Sentiu a mão suar com o que estava prestes a dizer. — E agora estou aqui. Com o príncipe de Reynah.
Harry não entendeu e ela agradeceu por isso.
— Que bom que hoje você está aqui. Comigo. — Sorriu ao pegar na mão dela. — Sinto muito pela sua mãe.
— Eu também — disse verdadeiramente. Ela sentia. Muito.
Mais alguns instantes de silêncio se passaram, até que ele finalmente falou:
— Trouxe alguns lanches! — Foi bonitinha a forma que ele tentou quebrar a tensão.
— Oh, maravilha — disse sorridente, lembrando que seu estômago reclamava de fome. — Esse aqui já está me incomodando. — Alisou a barriga.
Harry soltou uma risada gostosa ao descer o morro. Em poucos minutos, ele voltou carregando um cesto que provavelmente estava preso a Francis. Ele se inclinou sobre a grama, deixando o cesto ali em cima, então o abriu e tirou de dentro dele uma toalha vermelha. Com ela, Harry cobriu um pedaço da grama e, em seguida, montou um piquenique simples.
Daquela forma, o príncipe parecia à vontade, como se estivesse acostumado a fazer aquilo. Harry estava tão lindo que se assustou com a boca seca e resolveu desviar o olhar antes que fosse pega no flagra. Nunca tinha sido assim com nenhum garoto antes. não achava que era do tipo que corava e sentia as pernas bambas, mas descobriu recentemente que sim.
Reparou que ele se aproximou silenciosamente, então constatou ser seguro encará-lo outra vez. Harry se agachou ao seu lado e lhe estendeu a mão.
— Me daria a honra de saborear um dos meus sanduíches, senhorita? — perguntou baixinho.
riu e aceitou a mão dele para que pudesse levantar. Logo depois, estavam ambos sobre a toalha. Harry comia, pacientemente, um punhado de morango, enquanto encarava devorando um sanduíche. Ela sequer teve tempo de sentir vergonha, pois, se ficasse sem comer por mais algum tempo, provavelmente desmaiaria com a pressão baixa.
Ao final, suspirou.
— Nossa — disse a Harry. — Estava muito bom.
Ele riu.
— Obrigado. Você estava uma graça. Quer uva? — ofereceu-lhe em um potinho e ela assentiu, no entanto, não esperava que Harry pegasse um grão e levasse até a sua boca.
Demorou alguns segundos para que entendesse o que estava acontecendo antes de abrir os lábios e comer a uva. O príncipe repetiu o ato, dando-lhe, literalmente, na boca. Estava sendo alimentada por Harry e aquilo soou extremamente engraçado na sua cabeça. Tão engraçado que não pôde segurar a risada, contagiando ele também.
Se alguém lhe dissesse que, naquele dia, o príncipe de Reynah lhe daria umas uvas na boca, provavelmente coraria primeiro antes de rir. Muito. Oras, não é que a ideia não fosse mesmo muito boa, pois era, mas não estavam tão próximos a tal ponto. Bem, eram realmente bem próximos... Mas não taaaanto.
Depois de um tempo, ele suspirou.
— Bom, espero que agora me conte o que é tão engraçado — disse ao colocar o pote sobre a toalha novamente. — Porque não é justo você rir tão bonito assim e não me contar o porquê.
O sorriso dela vacilou por uma fração de segundos, mas logo se recompôs novamente.
— Na verdade, achei engraçado o fato de que estava sendo alimentada por um príncipe. — Repuxou a boca de um jeito sapeca. — Bem, agora que eu falei, não foi tão engraçado... É só que não parece que um príncipe faria isso. Não sabia que estávamos tão próximos assim.
— Acho que hoje você escolheu o dia perfeito para me criticar — ele disse, fingindo estar abalado, mas a covinha não deixava o seu rosto bonito. — Mas sério, quantos príncipes você conhece? Do jeito que fala, até parece que conhece um punhado deles — brincou, passando a língua pelos dentes. — E, sim, estamos muito próximos.
revirou os olhos.
— Primeiramente, fico feliz que estejamos tão próximos, sabe. Gosto da ideia de ser amiga do príncipe. — Arrancou um punhado de grama, disfarçando o sorriso fácil. — Em segundo: conheço alguns príncipes, já disse. — Mordeu o lábio inferior.
Harry balançou a cabeça e se deitou sobre a grama. Tranquilamente.
— Hm. Que pena.
Ela estreitou os olhos, imitando-o, mas diferente de Harry, que olhava para cima, virou o rosto na direção do príncipe.
— Como assim? — perguntou a ele, concentrada nas expressões serenas.
Serenas demais. O que ele quis dizer com “que pena”?
— Como assim o quê? — ele devolveu sem desviar os olhos do céu. — Você viu como aquela nuvem se parece com um passarinho?
— O que você quis dizer com “que pena”? — insistiu. — E não mude de assunto.
— Ah, nada. — Ele sorria. Dava para ver: Harry estava adorando aquilo.
— Não me venha com essa, Edward. — Ela empurrou o seu ombro, fazendo uma careta. — O tom da sua voz não me deixa acreditar em você.
— Bom... — Harry murmurou. — Que pena.
grunhiu, arrancando uma risada do príncipe, então se arrastou até que ficasse bem do lado dele, com o seu braço colado no de Harry.
— Harry — ela chamou baixinho, ainda virada para ele. Silêncio. Haaaaaaarry.
— Hmmmmm. — Podia sentir o sorriso dele.
— O que você quis dizer com “que pena”? — perguntou outra vez.
— Por que você quer tanto saber? — Ele a encarou com uma expressão divertida. Argh.
— Porque você usou um tom diferente quando falou.
— E você conhece todos os tons que eu uso agora?
— Claro que não, mas...
— Então? — Ele ergueu as sobrancelhas com aquela maldita expressão de quem sabe tudo, mas não vai contar nada.
— Não vai me contar mesmo? — projetou o lábio inferior para fora numa expressão de quem está prestes a fazer birra.
— E o que eu ganho com isso? — Harry sorriu de lado.
As suas narinas dilataram.
— Seu aproveitador. — Olhou para cima, dando a Harry a visão do seu rosto de perfil. — O que você quer? — perguntou claramente à contragosto, franzindo o nariz.
— Hm. — Ele ponderou. — O que você está disposta a me dar que eu não tenho?
arregalou os olhos, tímida de repente. Seu pensamento voou para algo impróprio, mas pigarreou para não deixar transparecer. Se Harry lesse seus pensamentos, que Deus a ajudasse, ele provavelmente sairia correndo dali o mais rápido possível. Encarou-o novamente antes de responder.
— Não sei. — Deu de ombros. O príncipe a encarava atento, passeando com seus olhos em todos os cantos do seu rosto. — No que você está pensando?
Harry pareceu prender a respiração antes de soltá-la lentamente. Piscou várias vezes seguidas, como se algo incomodasse por baixo das pálpebras, então sua mão fez o trajeto até o rosto dela, onde acariciou a pele macia. , por outro lado, ficou sem reação. O calor da pele dele parecia fogo sobre a dela, queimando sua bochecha, seu nariz, seu queixo e então seus lábios, os quais se entreabriram para aquele carinho repentino.
— Sua gata.
Ela não entendeu de início.
Hm?
— Hm?
— Quero a sua gata. — Sorriu de lado, parecendo nem um pouco afetado.
Oras, minha gata?
— Você só pode estar brincando. — Sua voz se elevou.
— É isso ou eu não conto para você. Nada mais justo.
— Por que a minha gata?
— Por alguns motivos, óbvio. — Ele se apoiou em um braço, virando seu corpo para o dela. A mão de Harry continuava no seu rosto, num carinho tranquilo.
— E quais são? — disse entredentes.
— Primeiro: eu não tenho nenhum bichinho. Seria legal um animalzinho em casa. — riu. Aquilo era um palácio, por Deus. — Segundo, se não fosse por ela, não teríamos nos conhecido. Acho que é a troca ideal.
— Minha resposta segue a mesma: não! — resmungou. — Trocar a minha gata por uma resposta... Só pode estar brincando.
— Pois bem, acho que vou ter que pegá-la mesmo assim!
arregalou os olhos, irritada demais para pensar em qualquer coisa e, num ato impensado, ela mordeu a mão do príncipe que pairava sobre seu rosto. Harry abriu a boca em um grito mudo ao se levantar imediatamente, estreitando as sobrancelhas enquanto balançava a mão no ar.
— Por que fez isso? — perguntou a ela.
Só agora se deu conta. Mas que burra. Por que tinha que ter mordido a mão dele?
— Bem, você queria pegar a minha gata...
— Eu estava brincando, sua boba. — Ele colocou o dedo na boca, chupando o local dolorido, bem onde ela havia mordido.
Sem querer, sentiu sua nuca arrepiar ao pensar que a boca de Harry estava no mesmo lugar em que a sua estava antes. Havia sido beijada indiretamente. Puff, pensou, como se ele ao menos considerasse isso. Revirou os olhos.
— Você pareceu bem sincero.
— Bom, esse é o ponto — rosnou baixinho, nitidamente bravo.
se levantou também, já planejando alguma forma de pedir desculpas, então apoiou seu rosto no ombro de Harry.
— Não sei o que me deu. — Ele não respondeu. — Não tive a intenção de te machucar, mesmo. Só não queria que você pegasse a minha gata — disse baixinho.
Harry estava olhando para frente, ignorando-a. Parecia bem magoado.
— Hm.
— É sério, Harry — choramingou. — Desculpa. — Enroscou os braços no pescoço dele. — O que mais você quer que eu faça? Quer que eu cante? Eu vou cantar.
Ele continuou mudo, então ela começou, de fato, a cantar. Cantou a primeira música que lhe veio em mente, alto até demais. Venceria pela chatice, que seja. Foi quando ela sentiu Harry se balançar. Na verdade, ela viu que ele segurava o riso. Safado.
— Não acredito que você está rindo de mim! — Soltou-o ao empurrá-lo, mas ria também.
— Linda, você canta tão mal que ou eu choro, ou eu rio. Prefiro rir.
— Que ultraje! — Levou a mão ao peito, num falso descontentamento.
— Ah — falou num tom ameaçador. — Você sabe o que é ultraje? — Harry perguntou quando se virou para ela e nos seus olhos continha malícia.
achou que deveria correr ou, pelo menos, se afastar, mas seu coração berrava “provoque-o”.
— Claro que eu sei. É quando alguém of-
Isso é um ultraje! — E Harry se atirou sobre ela, levando suas mãos por toda a sua barriga, arrancando gargalhadas sinceras de alguém que morria de cócegas. — Tem certeza que ainda quer me ensinar o significado da palavra?
— Harry! — ela gritou, caindo na grama, mas não conseguia parar. Era tão bom mexer com ele, pois ele também mexia com ela. — É quando alguém — risadas — ofende outra — risadas — pessoa — gargalhadas.
Harry soltou um rosnado falsamente bravo e, sem avisar, ele lhe mordeu. Sim, o príncipe havia lhe mordido. E pior: no seu pescoço.
— Você não... Fez isso! — abriu bem os olhos para logo estreitá-los.
— Eu sim, fiz isso! — E lhe mordeu novamente, arrancando mais risadas dela, contradizendo totalmente a sua feição.
tentou pará-lo com as mãos, segurando as dele que, a todo custo, tentavam lhe torturar nas costelas. Harry, então, entrelaçou as suas mãos nas dela, levantando ambas acima da cabeça de , deixando-a encurralada.
— E agora? — ele perguntou.
A resposta mais sensata seria pedir para que ele parasse, mas ela não se divertia tanto há muito tempo, por isso, num ato de coragem, ela o imitou:
E agora?
Harry gargalhou maldosamente.
— Você vai ver, sua fedelha!
E passou a mordê-la novamente, dessa vez, dando várias mordidas seguidas em seu pescoço, chegando ao rosto. Em meio a gargalhadas de ambos, não soube quando exatamente, mas, em algum momento, parou de se debater nos braços de Harry. Seu sorriso foi, aos poucos, morrendo, dando lugar aos ofegos que se misturavam aos ofegos do príncipe. As mordidas foram diminuindo, dando lugar aos beijos, que se tornaram molhados.
Ela imediatamente percebeu a situação íntima que estavam. Sem forças para lutar contra, relaxou, fechando os olhos. Harry cheirou todo o cumprimento do seu pescoço, desde o ombro até a sua orelha.
— Seu cheiro é tão bom — sussurrou.
— Obrigada — disse quase sem voz.
— Disponha.
Sentia que os beijos que ele distribuía estavam tomando proporções perigosas, até que os sentiu no canto da sua boca. Em um momento, o príncipe pareceu retomar a consciência. Ele a encarou como se estivesse em dúvida, esperando uma resposta sua. soube o que ele estava esperando no momento em que viu os olhos verdes descerem para a sua boca.
— Sim — silabou a ele.
Harry ofegou e, numa batida do coração, alcançou os lábios dela num beijo voraz, como se esperasse por isso há muito tempo. só soube acompanhá-lo, ainda com as mãos presas, e sentiu-se derreter sob a língua dele. Deus, ela estava ficando louca de desejo com apenas um beijo. Agradecia por estar deitada, pois seus joelhos fracos a trairiam caso estivesse em pé.
De modo agressivo, ele tomava tudo dela. Seu gosto, seu cheiro... Seu coração. Podia jurar que existia um certo desespero em seus lábios, como se quisesse gravá-los um no outro para que relembrassem depois. E, dificilmente, esqueceria daquilo. Na verdade, Harry era difícil de esquecer. Seu beijo, então, era como uma cicatriz.
Aos poucos, a intensidade diminuiu e logo eles se afastaram um do outro, permanecendo, no entanto, com as testas encostadas numa carícia gentil. Quando abriu os olhos, encarou uma imensidão negra, pois a pupila de Harry estava tão dilatada que tomara quase todo o verde. Ela se assustou e tomou impulso para se levantar, deixando um príncipe confuso para trás.
— Aconteceu alguma coisa? — ele perguntou, dando espaço para que ela se sentasse ao seu lado. — Fiz algo de errado?
Se não estivesse envergonhada, ela riria. Algo de errado? Não, você fez certo até demais. Talvez eu precise respirar um pouco, não sei onde meu fôlego foi parar.
— Não. Não é isso. — Tentou soar calma. Não fazia ideia se estava conseguindo. — Eu só... Não sei se devemos fazer isso, sabe?
Harry arqueou as sobrancelhas.
— Posso saber o porquê?
— Bom... Somos amigos, não somos? Tenho medo que isso estrague o que estamos construindo — explicou.
Ele sentou-se reto ao lado dela e encostou o rosto no ombro dele.
— Não concordo.
— Como assim?
— Simplesmente não concordo. — Olhou-a de cima. — Você gostou, eu gostei. Imagino que não apoiaria sua cabeça em meu ombro se estivesse se sentindo estranha com o nosso beijo.
ficou pensativa. Aquilo era verdade. Ela não estava se sentindo estranha. Seu maior medo, sinceramente, era gostar demais e acabar se machucando. Ou o contrário. Logo ela iria embora e como deixaria Harry depois disso? Seria mais fácil ir embora sabendo que havia deixado apenas um bom amigo para trás, mas jamais conseguiria deixá-lo caso se apaixonasse por ele. Quanto menos se envolvesse, menos difícil seria.
— Entendo. — Aninhou-se contra ele. — Mas não acho que isso irá acabar bem. — Suspirou. — Penso que sua futura esposa não iria gostar que o príncipe mantivesse contato com uma amiga a qual ele já beijou.
Harry deu uma risadinha.
— Creio que não.
riu também, mas seu estômago estava embrulhado.
— Então acredito que chegamos a um consenso.
— Na verdade — o príncipe se afastou de repente —, eu gostei do seu beijo e prefiro não me privar disso. Queria poder beijá-la outras vezes. — Seus olhos pareciam transbordar sinceridade. — Mas, se você não quiser, eu vou respeitar a senhorita e não tocarei mais no assunto.
Ela não soube o que dizer nos próximos trinta segundos e tudo pareceu seguir em câmera lenta. adorava a sinceridade do príncipe, mas havia sido pega de surpresa.
— Bem... O que podemos fazer, então? — ela perguntou, engolindo a saliva que se acumulou na boca. — Quer dizer... Isso não pode acontecer quando encontrar uma esposa.
— Decerto. Mas enquanto não encontrarmos, creio que podemos continuar com isso. — Harry pendeu a cabeça para o lado, estudando seu rosto. — O que a senhorita acha?
, primeiramente, odiou Harry ter usado a palavra “encontrarmos” quando se referiu à procura pela sua futura esposa e odiou ainda mais ter odiado isso. No entanto, ela não podia negar que estava completamente atraída pelo príncipe. Harry era gentil, engraçado, um cavalheiro inato, extremamente respeitoso e bonito demais. Como ela poderia ignorar aqueles olhos verdes que, naquele momento, mergulhavam numa imensidão escura? Ele a queria, dava para ver apenas pelo jeito firme que falava.
— Mas não teríamos um relacionamento?
— Não.
Aquilo doeu, mas ela não demonstrou.
— Certo. — Assentiu brevemente, vendo o príncipe umedecer os lábios com a sua resposta. — E os beijos aconteceriam...?
— Quando quiséssemos, mas escondido — ele silabou. A voz estava rouca.
— Só até encontrarmos a futura princesa.
— Exatamente.
E mais do que antes, quis voltar para casa. De preferência, antes de ver Harry se casar. Oh, céus, onde havia se metido?
— Tudo bem. Podemos fazer isso.
Harry se agitou, de repente tornando-se ofegante. Mas antes que ele agisse, ela o parou.
— Mas com uma condição — disse. O príncipe a encarou ansioso. — Um beijo por dia.
Viu uma veia saltando na testa de Harry e aquilo lhe deu uma falsa sensação de poder.
— Um? — ele perguntou estarrecido. — Isso não faz sentido. Por que não mais?
Para ela, fazia total sentido. Estava impondo limites a si mesma.
— É um ou nenhum. — Olhou para as unhas com a expressão falsamente debochada.
Ele soltou um grunhido como se estivesse lutando consigo mesmo, então bufou frustrado.
— Tudo bem — ele disse, atraindo o olhar de , que sorriu em vitória. — Mas começa a partir de agora.
E, sem avisar, beijou-a novamente, arrancando um suspiro dos seus lábios. Ela sequer conseguira responder, porém foi o melhor, pois se tivesse falado algo, seria um grandessíssimo sim, por favor. Ele a tomou pela segunda vez, esmagando seus lábios em um beijo sedento. Céus, Harry era totalmente diferente daquela forma e não sabia se ria por ser bom demais, ou chorava por ser bom demais. De qualquer forma, ele era fantástico. Sabia que, o menor tempo que duraria, ao final estaria devastada.
Quando o beijo se findou, Harry ainda estava de olhos fechados. As mãos dele estavam uma de cada lado do seu rosto, prendendo-a como se estivesse com medo de que fugisse.
— Acho que posso me acostumar com isso — disse assim que recuperou o fôlego, sentindo a voz tremida quando ouviu ela sair da sua boca.
— Eu adoraria me acostumar com isso, querida — ele sussurrou com um maldito sorriso brilhando nos lábios.
sentiu o rosto esquentar ao passo em que ouviu a gargalhada de Harry.
— O quê? — perguntou, envergonhada sob o olhar intenso.
— Acho uma graça você me beijar duas vezes, mas só ficar corada quando te chamo de querida. — Ele beijou demoradamente o canto da sua boca antes de se afastar.
Seguiu-o com os olhos, vendo lentamente como Harry, em sua roupa impecavelmente branca, inclinava-se para trás, apoiando-se nas próprias mãos. Ele virou a cabeça para e projetou o queixo na sua direção como se perguntasse por que ela estava o encarando daquela forma. Em segundos, Harry havia voltado a ser o Harry de antes, aquele que a via apenas como a sua amiga. No mesmo instante, percebeu que estava completamente ferrada, porque a sua vontade era dizer-lhe o quão bonito era e que seu coração estava em frangalhos.
— Você não parece um príncipe assim.
Ele gargalhou e ela quase chorou.
— É sua culpa. — estreitou os olhos, curiosa. —Você faz eu me sentir muito melhor do que um príncipe.
É. Ela estava completamente ferrada.


Continua...



Nota da autora: Sim, eu demorei horrores para atualizar, mas juro para vocês que tentei postar antes. Bom, de qualquer forma, estou aqui e MUITO feliz com esse capítulo porque ele é de MORRER. Talvez eu tenha achado ele um pouco rápido demais, ainda estou decidindo, mas não queria enrolar muito o relacionamento dos dois. O que vocês acharam? Muito rápido para um beijo? Os próximos, a partir daqui, vão focar no objetivo principal da PP: ir para casa. No mais, espero que gostem e comentem MUUITOOO, porque eu surto com cada um de vocês. Prometo responder cada comentário e doar um pouquinho do meu amor para vocês. Beijos, beijos e até a próxima! Obrigada por tudo, vocês são demais mesmo! <3

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