Última atualização: 18/06/2018
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Prólogo


Dia de chuva. Como detesto ser acordado com chuva, principalmente se passam carros dentro de uma poça cheia de água; é horrível a sensação, você já é acordado com pensamentos que seu dia será um daqueles difíceis, pois, em dia de chuva, não é fácil conseguir dinheiro na rua e seu risco de vida é maior, acaba passando mais fome do que em dias ensolarados, e se ficar muito embaixo da chuva, fica doente. Mas é o que temos para sobreviver.
Abro meus olhos lentamente, tentando me secar, pois o carro que passou conseguiu me molhar inteiro, mas, com a pouca roupa que tenho, é horrível, não adianta nada me secar, só serve para piorar a situação quando ela está molhada.
– Droga. – Resmungo, irritado, levantando-me do colchão.
O dia ainda está escuro. Por instinto e por passar minha vida praticamente na rua desde que me conheço por gente, conheço exatamente como vai ser o tempo no dia seguinte, essa é uma das vantagens em se morar na rua. O bom é que você é livre, pode fazer o que quiser, na hora que quiser, mas, para se dar bem, você precisa saber exatamente como se portar para conseguir dinheiro. Você pode agir normalmente, trabalhando, ou seja, mostrando seus talentos enquanto o sinaleiro está fechado, ou você pode ser que nem o pessoal que são os líderes do meu bairro, os Trash, como preferem se chamados. Ainda bem que eu, , não faço mais parte desse grupo desde quando eu fugi, o que já faz um bom tempo.
Desistindo de tentar me secar, levanto-me do colchão, fazendo uma careta ao notar que ele está todo molhado. Primeira lição do dia: ir atrás de caixas de papelão para o colchão poder secar.
– Droga, não vai ter papelão este horário em lugar nenhum. – Digo comigo mesmo, coçando meu cabelo.
A rua está deserta. Quase ninguém tinha saído de suas residências, o que facilitaria, em certo ponto, meu trabalho, e as pessoas não ficariam olhando para mim com cara feia. Não que eu tenha vergonha de fazer o que eu faço, até porque essa é minha vida, não tenho por que ter vergonha. Vergonha eu teria se eu fosse como os Trash, roubasse, fingisse, enganasse, aí sim teria vergonha. Mas o único problema é que as pessoas olham para mim com medo de que eu vá assalta-las, elas não percebem que, para ser feliz, nem sempre a solução é o dinheiro. Minha noção de felicidade é ver que, no final do dia, eu tenho um prato de comida, vendo que meu esforço valeu a pena.
– Levou um banho de chuva, ? Já começando o dia com a sorte, não é? – Controlo-me ao máximo para não avançar no filho da puta do .
é o líder do pessoal do bairro, ele é o manda chuva dos Trash. Ele acha que todo mundo tem que obedecer somente às regras dele, mas, para seu azar, eu não obedeço a ninguém.
– Cara, não começa, ok? Não estou com bom humor para ficar aturando suas gracinhas. Vê se cresce e arranja um trabalho decente em vez de ficar perturbando a minha vida.
Desde que larguei o seu bando, ele não me deixa em paz e não se conforma. Posso ter começado a vida nas ruas de um jeito ruim, mas eu era uma criança, repito, criança de apenas três anos que não sabia escolher o melhor rumo a seguir, que não sabia nem seu próprio nome e acabou indo para o mal caminho por ser influenciado. Até hoje arrependo-me de ter aceitado aqueles benditos doces de .
– Olha o respeito, garoto. Esqueceu das suas origens? De como você foi criado e como deve me respeitar?
Olho-o com cara fechada. Meu dia hoje não podia ter começado pior, parece que é o dia do azar na vida de , bem-vindos ao meu mundo, senhoras e senhores! Se você acha que sua vida está passando por momentos ruins, espere só conhecer a minha.
– Eu posso ter começado do jeito errado, , mas eu tive tempo de perceber que eu só me ferrava ficando ao lado de gente idiota como você, de gente que acha que, para ganhar a vida, tem que passar a perna nos outros. Se você pensou que eu seria como você, está enganado e muito sobre meu respeito. Eu, pelo menos, tenho uma chance ainda de seguir em frente, conseguir o quero, e você? Ninguém te quer por perto, aposto que seus amigos riem de você pelas costas.
Essa foi a deixa para que partisse para cima de mim, mas o pior não acontece, pois ele somente segura minha gola da camisa, demonstrando sua raiva que sente. Você deve estar perguntando-se se eu estou com medo... Nem um pouco.
– Escuta aqui, pirralho, eu estou na rua há muito mais tempo que você. Você tem apenas 16 anos, cresce para a vida moleque! Seus sonhos de criança nunca vão se realizar, você nunca vai ter uma família, uma casa, um lar e principalmente nenhum amor. Caras como nós não nascem para ter esse privilégio, eu já te disse uma vez. Quando se está na rua, temos que aceitar o que a gente é, não podemos mudar, e se surge um trabalho, não importa se é do seu agrado ou não, você tem que aceitar ou se não você morre de fome.
me solta, virando para trás. Eu não vou ele deixar acabar com meu sonho, eu ainda vou ter tudo isso, vou ter minha família, eu sinto. Se para ele a vida acabou, a minha acabou de começar.
– Um detalhe, . – se vira de frente para mim antes de sumir rua à fora. – Estamos de olho em você. Não pense que, porque deixou o bando, você está imune às coisas que você fez, e se você fizer qualquer coisa que não está nos nossos padrões, pode se considerar um cara morto. Estamos entendidos?
Não respondo, não aceno com a cabeça, apenas fico encarando-o sério. Ele não vai me intimidar e nem me assustar, afinal eu não tenho medo. Posso ter 16 anos, mas sei muito bem me cuidar sozinho e enfrentar meu destino.
Joguei-me no colchão ainda molhado, pensando sobre as merdas que fiz e que queria esquecer. Eles não vão mexer comigo assim, não irei permitir. Agora eu faço um trabalho decente, apesar de quase não ganhar nada, eu pelo menos sei que ainda tenho a chance de ser um cara bom para a sociedade, e quem sabe talvez apagar todos os erros que fiz no passado.
– Bom dia, garoto. Já está na ativa?
Essa voz é do senhor Joe, ele é dono do café aqui do lado. Sempre me deixa dormir aqui e diz que não é incomodo nenhum, apesar que de já ter me oferecido um lar para morar e eu recusei na época que trabalhava para , coisa que me arrependo.
– Sim, senhor, apesar de não ter começado uns dos melhores. – Faço careta em sinal de desgosto, balançando os braços, mostrando o estrago da chuva, e senhor Joe ri.
– Lá dentro do café tem banheiro, se quiser ir tomar um banho para não pegar resfriado, pode ir sem problemas, e depois te dou uma roupa do café enquanto a sua seca. O que importa aqui é sua saúde.
– Agradeço a ajuda, mas não precisa, logo a roupa seca. Não quero espantar seus clientes com a minha presença, eles com certeza vão se assustar.
De fato, na minha opinião, eu incomodo muitos clientes do Joe, pois fazem cara feia quando olham para mim, logo eu preciso achar um novo lugar para morar.
– Deixe de bobagem, , você não incomoda ninguém. Meus clientes estão acostumados a te ver por aqui, então nem se preocupe, você é de casa.
Joe bagunça meu cabelo em sinal de brincadeira e isso acaba molhando-o, mas o legal é que ele não liga para o que as pessoas pensam do seu jeito. Mas, para mim, Joe é, de alguma forma, parte de minha família.
– Mesmo assim, Joe. Agradeço, mas eu passo. Você sabe como é dia de chuva para quem vive na rua, eu preciso ir logo para tentar conseguir algum dinheiro e garantir minha comida.
– Sempre que precisar, a casa é sua, ! Pode entrar e comer o que quiser, garoto.
– Você também é como um pai para mim, Joe, mas realmente preciso ir antes que comece a chover novamente e...
Sou interrompido por pingos de chuvas que logo se transformam em uma chuva forte. Fecho meus olhos, amaldiçoando-me. Nem adianta tentar me secar, seria perda de tempo. Como só queria voltar a dormir, mas eu estava morrendo de fome. Não comi quase nada ontem, o dinheiro que consegui era pouco para conseguir alguma comida. Não tinha nem dez dólares.
– Garoto, tem certeza que quer ficar nessa chuva?
– Sim, Joe, eu tenho de ir. Não quero me tornar que nem os Trash, não quero ter que roubar para conseguir ter do que comer. Infelizmente essa é minha realidade..
Olho para Joe, que me lança seu olhar, de um lado orgulhoso pela minha atitude, ele sabe o que eu passei com o bando de , então sabe que eu quero ser um cara correto; de outro lado, lança-me seu olhar que parece ter pena de mim, é horrível isso. Não gosto que as pessoas sintam pena de mim, sintam medo, eu sou como qualquer ser humano, poxa. Por que ninguém vê isso em mim? Só porque vivo na rua? Eu não tive escolha.
– Pelo menos leve meu guarda-chuva. – Joe o oferece para mim, fazendo eu me afastar um pouco para trás.
Não porque eu tenho medo, e sim porque eu não posso aceitar isso de Joe. Ele já faz demais por mim, deixando eu dormir aqui, sem medo de que eu possa entrar em sua loja durante a noite como a maioria faz. Eu sei que, para ele, isso não tem importância, mas, para mim, sim. Eu nunca precisei da ajuda de ninguém, sei que posso tomar conta de mim, eu vou achar algo para me proteger da chuva.
– Joe, não posso aceitar.
– E eu estou pedindo para você aceitar algo, rapaz? – Ele pega o guarda-chuva, colocando em minha mão. – Venha me dar notícias, ok?
– Pode deixar. – Sorrio.
Joe é uma das melhores pessoas, senão a única, que me faz sentir que o que disse é bobagem. Eu teria sim uma família, a qual eu vou protegê-los de tudo. A rua do Joe Cofands Games, fica em uma rua bem movimentada da grande cidade de Vancouver, e este período parece que a cidade enche mais de pessoas do que o comum. Não entendo o porquê, só sei que, quando o dia está assim, tem bastante carro na rua, e é minha chance de conseguir dinheiro. Eu preciso de mais alguns dólares para comprar um sanduiche de queijo e presunto, pelo menos. Nem que seja algo pequeno, mas eu preciso colocar algo no estomago.
Chegando até o final da rua onde tem um sinaleiro, quando está no vermelho, vou para o meio da rua. Eu tenho um certo receio no começo, mas, mesmo assim, segurando um guarda-chuva, eu começo a cantar. Eu adoro cantar desde sempre, eu ouço, às vezes, os carros passando com som alto e fico escutando a música. Isso me faz feliz, também. É algo para me entreter, afinal viver na rua é tedioso, e dá medo, preciso de algo para me distrair.
Ao final da música, faço uma breve referência, caminhando até a fileira do meio no primeiro carro, e eu logo reconheço o senhor Richard, ele sempre passa aqui neste horário.
– Hey, , arrasou menino. Andou treinando? – Ele pergunta, sorrindo, e eu sempre me pergunto por que me sento tão à vontade conversando com ele.
– Sempre que posso nos meus tempos livres, senhor Richard. – Sorrio com educação.
– Isso é bom, e você merece um pagamento.
Richard tira dez dólares da carteira e eu sorrio, porque complementa meu dinheiro para comprar um sanduíche, e eu estou grato a ele.
– Obrigado, senhor Richard. Vou aproveitar bem seu dinheiro, não irei gastar em bebida. Prometo.
Ele sorri como se confiasse em mim, e eu fico tranquilo com isso. Olho para seu banco traseiro antes de partir para outro carro e noto que Dona Emma não está presente.
– Dona Emma não veio hoje?
– Tivemos uma pequena discussão ontem, menino. Venho da casa do meu irmão, afinal de contas preciso ir trabalhar.
– Quer uma dica? – Ele me olha, confuso. – Eu não entendo muito de mulheres e essas coisas românticas, afinal nunca tive a oportunidade de conhecer uma garota legal, mas, se o senhor gastar um minuto do seu tempo para comprar um buquê de rosas, creio que isso irá ajudar no relacionamento do senhor.
Senhor Richard sorri para mim, acenando com a cabeça, então ouvimos uma buzina e olho para a frente, notando que o sinal tinha aberto. Eu não me preocupo comigo de imediato, que estou no meio da rua, mas sim com duas meninas que estão conversando tão alegremente que nem perceberam que estão quase atravessando a rua sem ver o sinal.
– Senhor Richard, preciso ir. Dever me chama.
Saio correndo sem perceber o que senhor Richard fala, então sigo em direção às meninas. A morena meio alta para um pouco antes, mas a menina loirinha baixinha, que está sorrindo tão lindamente e conversa distraída com a amiga, nem nota o trânsito.
– Hey, cuidado. – Alerto-a.
Sua amiga ouve, desespera-se vendo a amiga meio longe e a chama. A menina, notando que tinha deixado a amiga para trás, para no meio da rua. Eu só ouço uma buzina, olho em direção ao carro e corro o mais depressa até a garota entre os carros, a tempo de fazê-la me olhar assustada, então seguro em sua cintura em tempo recorde, jogando-a novamente na calçada, segurando o guarda-chuva, impedindo a água de nos alcançar. Para variar, caio em cima da garota.
E não sei porque meu coração parece acelerado como se eu tivesse corrido uma maratona, também pudera né, acho que corri mesmo. A menina embaixo de mim consegue se acalmar, e eu deixo o guarda-chuva de lado. O tempo parece ter parado aqui mesmo para mim.
– Moço, pode sair de cima da minha amiga? – A morena responde pela sua amiga.
Olho novamente a garota embaixo de mim, saindo de cima e ajudando-a a levantar. Enquanto ela arruma seu vestido, que é chique, com certeza, eu a admiro. Seus cabelos são loiros, compridos, um pouco cacheados nas pontas, e ela, ao erguer seu rosto, sorri sem jeito para mim, fazendo-me fazer o mesmo, pois estava concentrado demais admirando seus lindos olhos verdes.
– Obrigada por isso. – Ela diz, ficando com uma corzinha no rosto. – Eu realmente sou muito distraída quando falo demais.
– Tudo bem, só tome cuidado da próxima vez, e olhe quando atravessar. Essas ruas são perigosas.
, temos que ir, estamos atrasadas. – Sua amiga a repreende.
Ela sorri para mim, agradecendo, e se despede, indo de encontro com a amiga. Não sei porque, mas sinto que uma parte de mim foi com ela. E eu espero realmente encontrar essa garota de novo.


Capítulo 1


POV :

O que se pode esperar de uma festa do garoto mais popular do colégio? Muitas bebidas, pegação e farra, não estou certa? Pois bem, existem quatro tipos de pessoas nessas festas: as que dançam loucamente como se não fosse haver o amanhã; as que são tímidas, porém dançam um pouco; as populares, que só pensam em pegar os meninos mais lindos do colégio; e tem eu.
Prazer, sou , uma garota de 16 anos, nerd. Não posso me classificar nem como tímida e nem como a popular, sou daquelas que estudam, que quer uma vida, mas sabe exatamente como equilibrar cada coisa em seu devido lugar. Essa sou eu. Sou daquelas pessoas que sempre estão ali para ouvir os desabafos das amigas por causa de fim de relacionamento e dar os conselhos, mas não sei o que fazer da minha própria vida.
– Hey, , o que está fazendo aqui sozinha?
Eu estou sentada no banco alto do bar da cozinha do mesmo carinha que me dirigiu a fala, pois ele é meu melhor amigo e o cara mais popular do colégio. Devo lhes apresentar meu vizinho: .
– Hey, . Só estou pensando na vida.
– Na vida ou no garoto que está olhando para você ali da sala?
Olho para trás, tentando identificar o ser que me olha, e ele tem jeito de nerd, camisa de nerd, usa aparelho e sorri para mim, acenando freneticamente. Eu não posso dizer que ele é feio, mas também não é lá grandes coisas.
– Vou te matar, . – Olho-o, estreitando os olhos, enquanto meu amigo apenas ri, tomando um gole de sua cerveja. – Sério, você me arruma cada coisa.
– Oras, só estou vendo o melhor para você, cuidando da minha pirralha, não posso? – Ele bagunça meu cabelo. – Até porque eu sei que ele não vai ter nenhuma chance de ficar com você, porque primeiro o cara tem que passar por mim, e o idiota do Ryan tem medo até quando eu chego perto dele. Lembra aquela vez que eu só disse um oi quando o mesmo estava falando com você e ele saiu correndo? – Ri junto do meu amigo.
É impossível esquecer aquele dia. Depois do ocorrido, eu e não conseguíamos parar de rir por mais que eu sentisse uma pontada no coração de fazer isso com o coitado do Ryan.
– É verdade, foi engraçado. – Sorrio um pouco triste, e claro que meu amigo não deixa de perceber.
– Ei, o que foi, ? Por que ficou com essa cara de quem comeu e não gostou? – Reviro os olhos, dando um tapinha no ombro do meu amigo.
– Você sabe que não sou muito chegada a festas, não é? – Ele acena com a cabeça, olhando-me confuso. – É meio-dia ainda, e está chovendo lá fora. Não estou muito no clima.
– Ah, qual é. Deixa o seu lado nerd para quando as aulas começarem, . É férias, porra. Dentro de uma semana, começaremos as aulas, e você não terá outra oportunidade.
– É claro que terei.
E como meu amigo me conhece muito bem, ele vira a cabeça de lado como se estivesse rindo, por dentro, do que eu disse. Mas o que eu não sabia, e só depois entendi o que meu amigo disse, e se ele não fizesse isso, não seria .
, não se atreva. Não estou afim de ficar com ninguém no momento. Você é meu melhor amigo, deveria me proteger, e não me incentivar para os outros. – Ele ri alto.
, é uma oportunidade. E você acha que eu não estou remoendo-me por dentro com tantos caras olhando-te, e eu sabendo que eles são extremamente babacas para ficar perto de você? Você merece alguém muito melhor que eles, porém tem uns amigos que são legais, e quem sabe você aqui não encontra o amor da sua vida?
e seus discursos. Todos esperavam que meu melhor amigo fosse protetor, certo? Mas ele é totalmente oposto. Já perdi a noção de quantas vezes ele me fazia pagar os maiores micos da história em seus encontros. Toda santa vez que ele ia sair com sua namorada, Amberly, ele sempre levava alguém para ficar comigo e sempre me fazia pagar mico. A última vez foi Ryan e ele jamais saiu do meu pé depois disso. Tenho certeza que, apesar de suas atitudes, ele fazia aquilo pois sabia que eu odiava servir de vela.
– Aí estão as minhas pessoas favoritas. – Amber chega abraçando , beijando-o. Reviro os olhos. – O que estão fazendo aqui, com essa festa maravilhosa rolando?
– Estou tentando incentivar a pequena a pegar alguém nessa festa, já que será a penúltima que irei fazer antes das aulas e ela não quer, acredita? – Olha para a namorada.
– Claro que acredito, afinal me contou sobre o carinha que a salvou de ser atropelada no caminho para a sua casa.
. Façam-me o favor de matar ela depois, ok? me olha sério, apertando a namorada em seu abraço.
– Que garoto foi esse, ?
Belo amigo, em vez de perguntar como eu estava, preocupa-se com o garoto que me salvou. Eu mereço!
não gosta nada disso, e eu só quero me esconder num buraco e não sair mais, mas o que eu posso dizer a ele? Nada, afinal ele não é meu pai para me exigir informações. Mas o que aconteceu foi: estava voltando da casa de , pois dormi lá noite passada a pedido de meus pais, coisa que eu estranhei, e estávamos conversando sobre os garotos novos da escola. já estava armando planos para conquistar alguém quando eu quase fui atropelada e salva por um menino, que me chamou a atenção por não olhar a rua, e isso me surpreendeu, afinal não esperava isso vindo de alguém que eu acho que mora nas ruas.
Ele parecia simples, vestia apenas uma calça rasgada nas pernas, uma camiseta branca toda suja de graxa e algumas manchas marrons, possivelmente pela lama da chuva. Sua jaqueta era verde, mas também, além de molhada, estava rasgada nas mangas.
, quando pediu para ele sair de mim daquele jeito, disse que ele era um mendigo e que queria nos assaltar. Mas, na minha concepção, olhando aqueles olhos azuis tão bonitos como o céu, aquele cabelo moreno molhado e as gotas pingando em seu corpo que, apesar de magro, para mim estava ideal, eu senti que ele não queria nos assaltar, parecia que ele queria somente me proteger de ser atropelada e só. Por esse motivo de pensar que o garoto faria algum mal para mim, me chamou para continuar a ir à festa antes que a chuva nos molhasse ainda mais, e eu não resisti e olhei para trás. O menino ainda estava lá olhando-me.
, quem é esse garoto! – exclama parecendo furioso.
Olho Amber, pedindo ajuda, pois assim como eu, sabe que não ficaria em paz até conhecer o tal garoto.
– Era um morador de rua amor. – Amber responde, olhando para o namorado. – Ele só viu as meninas passando no sinaleiro e as salvou, só isso.
– Um morador de rua? – Meu melhor amigo rosna para mim, irritado, e eu engulo a seco. – Você sabia que ele poderia te assaltar, ?
, sei que está preocupado, mas ele não me parecia mau e... – Sou interrompida.
– As aparências enganam, . Ele poderia muito bem pedir dinheiro para você porque te salvou e, como pagamento, iria comprar uma bebida, cerveja, drogas...
– Ele não parecia querer fazer isso comigo, .
Sinto-me mal de falar desse jeito. Ele não me parecia ser o cara que é preconceituoso, e ouvi-lo falar assim, magoa-me muito. Como também é estranha a sensação, mas eu sinto vontade de defender aquele garoto.
– Como pode ter certeza, ? – Meu amigo rebate. – Nunca sabemos o que esperar quando estamos lá fora, não podemos confiar em ninguém.
– Acho que vou embora. – Respondo depois de algum tempo. – Perdi a vontade de ficar aqui, . Avisa a que estou em minha casa, aqui na frente, e, por favor, não apareça.
...
– Por favor, se é meu melhor amigo, deixe-me ficar sozinha. Tchau, Amber.
Atravessando a rua, vou para a minha casa, ou melhor, a mansão de meus pais. As mansões dessa rua ficam próximas ao mar, e minha casa possui três andares, contendo cinco quartos e cinco banheiros. O meu fica no segundo andar, o que é bom, pois aqui só tem meu quarto; o dos meus pais fica no andar de cima. As janelas, do chão ao teto, integram o lado oeste do imóvel, provocando uma vista magnífica para o mar, contendo um enorme jardim na frente da casa.
Eu adoro morar perto da praia, afinal, fora de temporada, poderia muito bem ter ela todinha para mim e descansar aqui, e é para a praia que eu fujo quando meus pais resolvem brigar.
– Cheguei, família. – Anuncio minha chegada assim que entrei em casa.
– Oi, filha, estávamos esperando-te.
Minha mãe diz, lendo revista na sala e me responde sem olhar para mim. Caminho para cozinha, pegando alguma fruta que tem por aqui no fruteiro, sentando ao seu lado, querendo chamar sua atenção, mas a mesma continua lendo sua revista, enquanto papai assiste ao jornal no sofá ao lado, e esse nem nota a minha presença.
– Filha, eu e seu pai conversamos mais cedo e decidimos que iremos deixar você morar sozinha. Acreditamos que você já está na idade certa para isso.
– O quê? – Respondo, assustada. – Mas, quando fiz a proposta, vocês brigaram um monte comigo!
– É por isso mesmo, . Acreditamos que já está madura o suficiente para saber se cuidar sozinha. – Meu pai, ainda olhando o noticiário, fala pela primeira vez.
– Mas...
– Já compramos seu apartamento, filha. Sei que acha que não é a hora, mas somos pais, sabemos quando os filhos estão querendo sair do ninho.
– E quem disse que quero sair? – Exclamo, indignada.
Meus pais nada me respondem, e minha mãe o olhou, parecendo esconder algum segredo, e isso me intrigou. O que eles escondiam que eu não poderia saber?
, vamos dar uma volta? – Minha mãe diz, levantando-se. – Temos que ter uma conversa.
– Ok.
Eu não queria ir, sinto que essa conversa não iria ser boa, e antes de abrir a porta para sair, olho mais uma vez para a minha casa, sentindo um aperto no coração, vendo um serzinho vir correndo da escada em minha direção, latindo.
– Hey, Kitty. – Abaixo-me em seu tamanho, enquanto a mesma apenas balança o rabo. – Mãe, posso levar a Kitty junto?
– Claro.

**


Ao chegarmos no parque, que não é muito longe de casa, demorou uma meia hora de carro, caminhamos um pouco em silêncio, deixando-me ainda mais tensa para a tal conversa. Kitty me olha como quem sabe que eu estou tensa, então se aproxima mais de mim, fazendo carinho em minha perna. Sorrio com isso. Ela anda comportada assim só na frente das outras pessoas, mas comigo ela faz uma bagunça. Todo dia encontro algo revirado no meu quarto, minha cama totalmente bagunçada, e adivinha quem pode fazer essas coisas? É ela mesma. Tem carinha de santa, mas não me engana.
Minha mãe senta em um banco que estava em nossa frente, de frente para o gramado que tem no parque, vendo as pessoas em seus momentos de família, na pista de corrida, o pessoal caminhando e divertindo-se, e Kitty, bom, aproveita minha distração e sobe em meu colo, pedindo carinho, e eu fico agradando-a.
– Mãe, o que a senhora que me falar? – Olho-a meio preocupada, afinal minha mãe não é de sair assim comigo.
– Você já vai saber. Agora, por que não vai comprar uma pipoca para nós duas comermos enquanto conversamos? – Ergo a sobrancelha, mas aceito o dinheiro que ela me dá.

**


– Kitty, quer parar quieta? – Resmungo para meu filhote, que corre enquanto voltamos ao banco. – Esses pacotes vão cair, bebê, e já sabe como eu vou levar uma bronca por ser desastrada, não?
Kitty para de correr, olhando-me com a cabecinha virada de lado como se eu perguntasse por que eu iria levar uma bronca.
– Não tem importância, Kitty. Agora vamos!
Quando chego ao local do parque em que minha mãe estaria esperando-me, noto que ela não está aqui. Ué, por que ela me mandou comprar pipoca para ela ir ao banheiro? Ergo a sobrancelha.
– Ainda bem que nunca saio sem meu celular. – Sento no banco, e Kitty em meu lado. Minha mãe não atende o celular, e minha bateria está quase acabando por eu esquecer de carregar ontem. – Kitty, o que faremos agora? Como vamos encontrar sua vó?
Kitty me olha, parecendo confusa, cansada. Minha mãe sempre tinha me ensinado que, caso de acontecer imprevistos como este, temos que ficar no local e não nos desesperar, que não nos leva em lugar nenhum. Só que eu estou começando a ficar assustada, já está no meio da tarde, e eu estou aqui há um bom tempo esperando, e nada de minha mãe aparecer.
– Kitty, estou começando a pensar que alguém a sequestrou. – Falo com minha cachorra, que agora tentava dormir, aconchegando-se mais em mim. – Ela não atende esse celular.
Arregalo os olhos. Só de ter esse pensamento de minha mãe sendo sequestrada, meu coração acelerou. Eu preciso dar um jeito de falar com meu pai para saber se está tudo bem ou tentar ligar de novo. Eu preciso descobrir onde minha mãe está.


Capítulo 2


POV :

No momento em que entro em um beco da cidade, começa a anoitecer. A luz deixando a cidade, fazendo com ela se torne ainda mais sombria do que já parecia para mim. Encosto-me na parede para comer a única comida que consegui no meu dia de trabalho, e a sensação é boa, apesar de estar morrendo de fome, pois sei que consegui minha comida sem fazer coisa errada. Claro que, para muitas pessoas, morar na rua é errado, mas o que eu posso fazer sendo que eu não tenho uma família? Fui criado na rua desde cedo e sempre estava com . Lembro das sensações de quando eu vi, porém era muito pequeno para saber, só sei que eu chorava muito e chamava por alguém, então apareceu, oferecendo-me doces e, como eu não entendia nada na época, apenas aceitei e o segui quando ele me chamou para ir a algum lugar. Desde então, aprendi coisas que não me orgulho nada disso.
– Conseguiu uma janta, garoto? – Mike, um dos intrigantes dos Trash, pergunta-me, assustando-me.
– Isso não é da sua conta, Mike. – Olho-o, comendo meu sanduíche. – Por que está aqui e como me achou?
Mike é o tipo de cara que separa as brigas que eu tenho com de vez em quando, e não parece concordar com algumas atitudes de , acho que é por ser o mais velho do grupo. E, quando acontecia, às vezes, de extrapolarmos o limite, ele me encarava, preocupado.
– Não importa como te achei, só fico preocupado. Você sabe como é difícil achar comida boa, como é raro ter algum dinheiro aqui, e com você, mesmo tentando fazer o certo trabalhando, sei que anda passando dificuldades, não?
É, eu tenho de admitir que agora as coisas estão mais complicadas, mas eu vou conseguir ser alguém melhor, nem que, para isso, eu tenha que ficar dias sem comer.
– Pelo menos não estou roubando como vocês. – Acuso-o.
– Filho... – Mike se abaixa ao meu lado, enquanto mordo meu sanduíche. – A gente não está fazendo coisa errada, estamos tentando sobreviver.
É claro que é errado, não importa o motivo. Não é justo com quem trabalha e dá o esforço, seu sangue para conseguir sustentar uma família da forma correta, sem precisar fazer atitudes que um dia iria fazê-lo se arrepender, colocá-lo em maus lençóis.
– Então tentem trabalhar para conseguir dinheiro, porque é tão difícil assim para vocês fazerem isso, o que custa fazer um esforço, ter um pouco de força de vontade?
– Já conversamos sobre isso , e você sabe tudo o que eu penso sobre isso.
– Claro que sei. Você pensa que dinheiro cai do céu, mas não é bem assim. Não é da forma fácil que se faz o certo, Mike.
– Às vezes, sim. Mesmo não gostando, temos que fazer.
Eu não vou perder minha fome por causa desse assunto e, sabendo que esse prato é o único que eu consegui hoje, decido encerrar a conversa.
– Mike, eu não quero discutir, ok? Se veio aqui para saber como estou, estou bem. Pode avisar sobre isso, garanto que ele não vai ficar nada satisfeito em te ver aqui comigo. É melhor você ir, antes que alguns capangas apareçam.
– Certo, irei deixar você aí com seu sanduíche, mas só irei deixar claro, menino: isso não era o que eu queria quando eu passei o comando para .
E sai, simplesmente. Fecho os olhos, respirando fundo, tentando me acalmar, eles não vão estragar meu dia, não assim. Mas, ao olhar novamente minha comida, constato que perdi a fome. Embrulho novamente o sanduíche no pacotinho, escondendo no bolso do meu moletom.
Eu preciso pensar, e o bom de se morar na rua é que você pode ir para qualquer lugar e a qualquer hora, não tinha essa de ficar com medo do escuro. Às vezes o escuro é meu melhor amigo.
Chegando próximo a um parque da cidade, sabendo que ainda é permitida a entrada das pessoas, pois algumas estão entrando, somente as acompanho para dentro, não querendo chamar atenção e ignorando os olhares estranhos para mim. Porém, sei que logo eles fecharão o parque e eu vou ter de dormir aqui dentro, mas não me preocupo com isso.
O parque é enorme, tem algumas estátuas em alguns lugares e um amplo gramado. Diria que é um bom lugar para se passear com a família, com alguns bancos meio separados para se sentar. Resolvo parar ali para descansar, sentando em um deles.
Por que a vida tem que ser tão injusta com algumas pessoas? Não é por nada, mas conheço gente que mora na rua e não merece estar aqui, diferente de mim. Vejo, às vezes, pessoas idosas pedindo dinheiro para comer, e já vi pessoas brigando e xingando por ela não ir trabalhar, sem saber o que a pessoa passou para chegar até aqui.
Acho tão errado isso, as pessoas nos veem como um monstro, como um lixo que não pode ser tocado; eu nunca tive amigos, nem sei o que é ter isso, e é a coisa que eu mais queria ter. Quero, de algum jeito, deixar minha marca no mundo fazendo as pessoas felizes, ter uma vida normal.
Um barulho de algo correndo chama minha atenção, fazendo-me parar de pensar na minha vida. Assim que olho para frente, noto uma coisinha minúscula branca e marrom, orelhas com manchas da mesma cor, correndo em minha direção, subindo no banco onde eu estou e começando a fuçar meu bolso do moletom.
– Ei. – Coço sua cabeça e o mesmo me olha, abanando o rabinho. – Está com fome também? Ou está perdido?
O bichinho me responde com um latido, olhando para meu moletom. É, ele está com fome. Tiro o embrulho do pedaço do sanduíche do bolso, vendo que o balanço do rabo aumenta, fazendo-me rir, enquanto tiro o papel da comida. É, eu posso ficar sem comer por hoje.
– Aqui. – Ofereço-o, e o mesmo se aproxima de mim com receio de pegar. – Pode comer e....
– Kitty! – Uma voz feminina a chama.
Olho para frente, vendo uma menina que deve ter 1,53m de altura. Sim, ela é um pouco mais baixa que eu. Seus cabelos são loiros e parecem se mover junto com o vento, enquanto ela corre até mim. Seus olhos, no momento, estão desesperados atrás de seu animal de estimação. Olho para a cachorra e a mesma olha para mim, abanando o rabo, latindo. Sorrio com isso.
– Desculpa, moço. – A menina toca em minha mão, tentando impedir que eu dê o alimento para sua cachorra, e eu sinto um arrepio estranho. – A Kitty só está querendo chamar a atenção.
Olho para a menina e, agora com ela mais de perto de mim, tenho impressão de conhecer a garota de algum lugar. Claro, eu vivo na rua, devo ter visto em algum momento.
– Sem problemas. – Respondo, acordando do transe. – Ela pode ficar com o pedaço que sobrou.
A menina me olha de um jeito divertido. Seu jeito parece de uma menina doce, educada. Isso só de olhar. Dá para saber em sua expressão, pois se fosse outra pessoa, já estaria mandando eu ir embora ou chamando a polícia, mas isso não é isso que acontece. O que acontece é que a menina senta no banco ao lado de sua cachorra e fica agradando-a.
– Ela deve estar com fome mesmo. – Noto um jeito de falar triste e me descubro querendo saber como seria ver ela com um sorriso. – A última vez que ela comeu foi ontem.
Olho para minha comida, finalmente dando-a para a cachorrinha, que logo está comendo com a cabeça apoiada em meu colo. Sorrio com isso e, ao olhar a menina, ela está observando-me. Fico tímido na hora. Eu nunca cheguei a conversar literalmente com alguém e não sei como conversar com ela.
– Ei, você é o menino que me salvou hoje mais cedo, não foi? – Ela abre um sorriso. – Sou , mas pode me chamar de . Obrigada por me salvar – Ela estende a mão, sorrindo, tímida.
É ela. Aquela mesma menina que eu tinha sentido algo estranho ao ver tão perto de mim quando estava trabalhando na rua. Deus tinha ouvido minhas preces para poder vê-la novamente. Não sei por que, mas não parei de pensar nela durante a tarde, e não entendo esse motivo, mas a questão é.... O que ela está fazendo na rua a essa hora? É perigoso demais, para uma mulher, andar sozinha.
– Não vai apertar? – Ela sorri, triste, fazendo meu coração afundar.
– Espero que tenha olhado a rua quando estava indo para casa. – Aperto sua mão.
– Olhei sim. Eu acabei entrando demais no assunto que estava tendo com a minha amiga. – Sorri com isso. – Deveria ter mais cuidado, foi erro meu.
– Sem problemas. Mas, o que está fazendo na rua a esta hora? E cadê sua amiga?
Sei que não devo me intrometer em sua vida, mas eu sinto que devo protegê-la. Mesmo não a conhecendo direito, eu sei que devo! Porém, seu olhar meio assustado me fez pensar que eu estou entrando demais na sua vida, e eu tenho medo de afastar a única pessoa que foi educada comigo além de Joe.
– Desculpe, não queria me meter. E eu me chamo . – Ela sorri.
– Está tudo bem, . Minha amiga não sei onde está, provavelmente na casa do ainda. Mas eu não consigo falar com ninguém, porque meu celular acabou a bateria e eu não posso voltar para a casa. Minha mãe tinha me dito que era para eu comprar pipoca e ficou esperando no banco. Quando eu voltei, ela não estava mais lá e nem atende minhas ligações.
– Já tentou procurar ela pelo parque?
Sua cachorrinha, Kitty, vai para perto da dona, subindo em seu colo, pedindo carinho, e assim a menina o faz antes de me responder, e eu acho essa cena a mais fofa que já tinha visto.
– Não pude, ela sempre me ensinou que, se eu me perder, eu tenho que permanecer no lugar até eles me acharem.
– Há quanto tempo está esperando sua mãe aqui? – Agrado a cachorrinha também.
– Duas horas.
– Isso está estranho, ela já deveria te aparecido. – Ela olha para baixo, sentida, e isso me faz uma ideia ao notar que ela realmente está com medo de andar por aí sozinha. – , não quero parecer um cara que tem segundas intenções, ok? – Ela me olha, preocupada. – Mas, se você me falar onde mora, eu posso te levar até lá. Sei muito bem caminhar por essas ruas, até mesmo no escuro.
– Não quero ofendê-lo, mas eu quero permanecer aqui até ela aparecer, estou com medo que alguém tenha a sequestrado.
Seus olhos azuis realmente me parecem preocupados com sua mãe, mas, se fosse sequestro, eles já teriam retornado; sei bem como isso funciona. Como dizer a ela que sua mãe a abandonou? Não, eu não podia. Não quero vê-la sofrer, apesar de saber que contar a verdade sempre é melhor coisa. Mas, nesse caso, ela acredita realmente que a mãe foi sequestrada, e isso me machuca, dá-me raiva ao mesmo tempo, pois eu sei o que é ser abandonado e sei me cuidar nas ruas, mas e ela? Suspiro, cansado. Tinha duas opções a fazer: ou levantar e ir embora, ou ficar com ela, porque pelo menos sei que vai estar segura.
– Tudo bem podemos ficar e...
– Podemos? – ela me interrompe. – , não precisa ficar aqui. Sei que deve ter vários compromissos.
– Relaxa, hoje não tenho mais nenhum. – Sorrio para acalmá-la. – Aliás, eu prefiro dormir em parque quando o tempo está meio assim, chuvoso, pois pelo menos aqui tem uma ponte para nos escondermos.
Ela me olha com aquele olhar que eu conheço muito bem dos outros de pena. Detesto esse olhar! Obrigo-me a olhar para o outro lado, pois assim a vergonha diminui. Eu me sinto, de verdade, um lixo por não estar com roupas apresentáveis na frente de uma menina como ela. Não quero que ela pense que eu sou um vagabundo, um aproveitador que não trabalha, quero fazer com que ela confie em mim a ponto de não me tirar de sua vida por ser morador de rua.
, é sério, não precisa se preocupar.
Eu também não quero ter que dar a ela uma vida de moradora de rua, mas se precisa ficar até amanhã, o mínimo que eu posso fazer é a fazer companhia, deixar de pensar em mim um pouco e pensar nela, pois isso irá acalmar o meu coração, sabendo que ela estará segura até conseguir voltar para casa no dia seguinte.
– É claro que preciso, afinal a rua é muito assustadora à noite, vai saber o que se encontra em cada esquina. – Olho-a, erguendo a sobrancelha. – Pode haver monstros, fantasmas... – Resolvo a provocar e ela me dá um tapa de leve no ombro, fazendo-me rir.
Rir é algo que eu desconhecia ultimamente, e ela conseguiu me fazer sorrir depois de muito tempo.
– Deixa de ser bobo, fantasmas não existem, muito menos monstros. – Ergue o rosto como se não tivesse medo, e eu tenho de rir. – E eu não tenho medo disso.
– Ah, é? – Olho-a ainda desconfiado. – E se eu te falar que sou um monstro, o que faria agora?
Afinal, em parte do meu passado, eu realmente fui um monstro. Mesmo não querendo, fui obrigado a ser por . São coisas que eu não quero compartilhar com ninguém.
– Isso é impossível, .
– Posso saber o porquê? Você nem me conhece direito.
Devo admitir que estou nervoso para saber sua resposta, mesmo sem saber o porquê de sua opinião ser tão significativa para mim, ela é uma desconhecida ainda que eu estou apenas querendo deixá-la segura durante esta noite.
– Eu sei que você não é! Pode parecer loucura, mas, desde o momento em que eu te vi no sinaleiro hoje, você me pareceu ser diferente. E agora você, que poderia estar fazendo outra coisa mais importante do que ficar comigo, está fazendo companhia para uma desconhecida. Você me parece ter um bom coração.
Fico lisonjeado com suas palavras e me permito ser feliz por um breve momento. São essas pequenas atitudes das pessoas que me mantém firme para seguir com o plano de ter uma família, e eu sei que irei conseguir, mesmo que isso demore um pouco para acontecer.
– Nossa, não sei o que dizer, é muito raro escutar isso, . Já escutei tantas coisas antes, mas nunca um elogio assim. – Sorrio de canto, fazendo ela fazer o mesmo. – Você também me parece ser uma menina legal.
Observo seu rosto durante um tempo até que ela desvia do meu olhar para agradar Kitty, mas tenho quase certeza de que foi para disfarçar o leve rubor que vi em suas bochechas e me pego vendo que gosto de saber que ela fica tímida com algumas coisas que eu digo. É divertido.
Olho para o céu, que está estrelado depois da chuva, isso me faz ter a certeza que amanhã será dia de sol e que já é tarde da noite. Olho para Kitty e vejo ela bocejar, fazendo a dona fazer o mesmo, coçando os olhos. É, já é hora de ir dormir.
– Está com sono, ? – Ela me olha novamente e eu tive certeza pelo seu olhar cansado.
– Um pouco.
– Então vamos achar um lugar para dormir vem.
Levanto do banco onde estava sentando, segurando a mão de , e noto que ela está tremendo um pouco. Às vezes, de noite, o tempo fica frio demais quando chove, e hoje é um desses dias. Apesar do meu moletom já estar um pouco seco, ainda está úmido, porém o tiro e o ofereço para a menina em minha frente.
, não precisa, você vai passar frio.
– Eu já estou acostumado. Não quero ver você doente. – Ela sorri e eu também. – Pode vestir.
Enquanto espero colocar o moletom, pego Kitty no meu colo e fico observando-a, ela é muito fofa. Agrado sua cabecinha e ela balança o rabo, latindo para mim. Não sei se ela gostou muito, porém continuo agradando-a, até que ela lambe meu rosto, fazendo-me rir.
– Ela gostou de você. – Volto minha atenção para . Ela já está com meu moletom, que ficou um pouco grande nela, mas eu gostei. – É raro ela fazer bagunça e se sentir à vontade com alguém.
– Acho que ganhei uma amiga então, não é, Kitty? – Olho para a mesma em meu colo, recebendo um latido e um aceno de rabo. – Vamos então, ?
– Vamos.

**


, Kitty e eu, depois de andarmos uma meia hora pelo parque, encontramos um rio que passa por ali, ele se encontra no meio de uma trilha escondida do parque. Opto por dormimos ali, pois além de ser mais seguro, também evita os guardas nos expulsando daqui do parque. Só que, como está escuro, noto que ainda está com um pouco de medo. Sento ao seu lado na grama, de frente para o rio, enquanto ela observa Kitty tomando água no mesmo.
– Não precisa ter medo, aqui é seguro. – Coloco uma mão no seu ombro, chamando sua atenção.
– Não estou com medo, . – Ela suspira e parece triste. – Só fico pensando em como meus pais devem estar, se estão procurando-me...
Ela não continua a frase. Pelo meu raciocínio, ela acha que os pais dela não estão à procura e a sua mãe sumiu. Eu sabia a verdade, o que sua mãe fez, mas e seu pai, será que concorda com a atitude que a mãe dela?
– É claro que estão. Amanhã, quando você chegar em sua casa, irá ver eles, .
E eu acabo de perceber um certo receio na minha voz, pois não quero que ela se afaste de mim, mesmo indo para a casa novamente, porque foi muito bom ter alguém com quem conversar durante essa noite; deixou ela um pouco mais alegre, mais divertida e tranquila do que costuma ser para alguém como eu. Solitário.
– Eu sei que eles não estão, . Você não os conhece. – Ela deixou uma lágrima escorrer.
Assusto-me ao ver ela chorando. abraça suas pernas, que estão cruzadas, como se aquilo fosse a proteger de todo o mal. Sinto-me péssimo ao vê-la derramar aquela lágrima que logo tratei de enxugar, pois ela não merece chorar. Peguei-me pensando que queria conhecê-la ainda mais.
– Vem, vamos dormir. – Disse, tentando fazer ela se acalmar. – Kitty, vamos dormir!
Chamo a cachorrinha, que logo se aproxima da gente. deita de costas para mim, porém, ao meu lado, Kitty se aproxima da dona, entrando no meio do bolso do moletom para se esquentar, e eu sorrio com isso. Percebo que não está acostumada a dormir no relento, pois mesmo com meu moletom, ela ainda está com frio. Minha vontade é de abraçá-la para a esquentar, mas o que ela pensaria de mim? Ela já está com medo, ficaria mais ainda. Tiro minha camisa branca, cobrindo suas pernas, e levanto dali, indo procurar alguma coisa por perto para fazer uma fogueira!
Não muito longe do rio, encontro um monte de galhos espalhados pelo chão e, quando me abaixo para pegá-los, sinto uma coisinha minúscula cutucando meu braço. É Kitty.
– Kitty, o que está fazendo aqui? – Ela me olha, abanando o rabo. – Sua dona deve estar preocupada com você!
Ela late, olhando para os galhos. Eu posso estar ficando louco, mas tenho a impressão de que ela quer me ajudar a levar, pois se aproxima do monte de galhos, pegando um na boca. Sorrio com isso, agradando-a.
Termino de pegar alguns galhos e os levo até o local em que está, com Kitty ao meu lado com seu galho na boca. Monto a fogueira e faço o fogo com umas pedras que estão por perto. Finalmente está mais quente por ali e me permito deitar ao lado de . Kitty se aproxima, entrando por debaixo do meu braço, fazendo a dona dela se virar de frente para mim, pois Kitty passa por cima da mesma.
– Acho que perdi minha cachorra para você, . – Rio com isso, e ela está quase fechando os olhos. – Boa noite.
– Boa noite, .
Tiro um pouco do cabelo que estava em seu rosto e o cubro seu cabelo com a touca de meu moletom. Só então me permito dormir tranquilo, com Kitty em baixo do meu braço e com a sensação de que quero acordar amanhã e ter ao meu lado, mas ao mesmo tempo com medo de que ela não estará aqui.


Capítulo 3


POV :

Acordo, no meio da noite, assustada com um barulho de passos andando por ali. Pelo visto não sou a única, Kitty também já está acordada e olha para fora da trilha com atenção; , por outro lado, ainda dorme. Como ele consegue dormir sem se sentir inseguro? E, opa... por que ele está sem camisa? Franzo o cenho em confusão, procurando a camisa dele, porque o moletom sei que está comigo, pois em uma atitude que eu achei completamente fofa, e uma atitude muito bonita, que pessoas como minha família não fazem, ele fez; emprestou-me seu moletom, e isso prova para mim que aquele que menos tem é o que mais divide. Localizo sua camiseta em cima de suas pernas e me sinto mal com isso, pois a noite está fria e, quando toco seu peito, confirmando que está gelado e tremendo, sinto-me culpada por ele estar sentindo frio, já não basta a sua comida que deu para minha cachorra.
Com essas atitudes, posso não o conhecer direito, mas sei que ele é uma pessoa boa e que definitivamente não merece estar na rua. Pego sua camisa, cobrindo-o por cima, e ele se mexe um pouco, fazendo-me recuar, pensando que o mesmo tinha acordado.
– Você gostou dele né, Kitty? – Minha cachorra olha para mim com a língua para fora como se estivesse sorrindo. Deito-me de lado, de frente para e Kitty, permitindo-me o observar um pouco. – É, ele parece ser um cara legal.
Faço silêncio ao notar os passos aproximando-se da gente e depois se afastarem. Apoio minha cabeça em cima do meu braço, tomando uma coragem ao extremo de tocar o rosto de e fazer um carinho, é o mínimo que eu posso fazer no momento para retribuir por ele ter me salvo, por estar comigo agora. Quando puder, eu com certeza irei retribuir da forma que ele merece.
dormindo parece um menino calmo, e não um menino cheio de problemas, na rua, que eu tenho quase certeza que já passou por poucas e boas. Eu quero conhecê-lo melhor. Não quero que nosso começo de amizade acabe, porém sei que, se eu voltar para a casa agora, meus pais não vão deixar eu ser amiga dele. Eu tenho que fazer essa escolha: ou voltar para a casa, ter a mesma vidinha chata que eu tenho, ou ficar ao lado de e conhecê-lo melhor, porque não seria possível ter as duas coisas, ou seria?
Os primeiros raios de sol começam a surgir no meio da mata, fazendo-me ficar sentada e me espreguiçar, claro, sem tomar nenhum barulho para acordar , então falo para Kitty ficar com ele e ela me obedece. Fico mais tranquila caminhando até o rio, molho minhas mãos a fim de lavar o rosto para tirar todo o cansaço quando minha barriga começa a despertar para pedir comida.
Comida, eu tenho que dar um jeito de conseguir, mas como? As pipocas que comprei ontem eu esqueci lá no banco, e eu não quero deixar que pense que fui embora.
– Acordada já cedo? – Sua voz de quem acabou de acordar me faz o olhar.
A primeira coisa que reparo é que seus cabelos estão meio bagunçados. Sinto um arrepio na espinha ao ver ele se apoiar em seu braço para me encarar, ele acordado e sem camisa, Deus. Apesar de estar um pouco magro por viver nas ruas, ele tem sua beleza e, principal, um caráter enorme, sem falar naqueles olhos verdes da cor do céu. Meu Deus, eu me perderia em ficar olhando para eles o tempo inteiro, por isso desvio minha atenção ao lago.
– É, acordei agora há pouco com barulho de gente aqui por perto, ainda estava escuro.
Ele ri, dando um agrado em Kitty, que está em seu peito. Essa traidora, aposto que foi ela que o acordou, como sempre tem mania. se aproxima de mim, ficando ao meu lado, enquanto Kitty passa por nós dois, indo até o lago beber água.
– Bom dia. – sorri, olhando para mim ao sentar na grama.
– Bom dia, , dormiu bem?
– Considerando o fato que, no meio da noite, alguém colocou minha blusa sobre mim e passou frio, sim, eu dormi bem. – Rio com sua resposta.
– Eu não estava com tanto frio, e também não queria saber que você ficou doente por minha causa.
faz o mesmo que eu, lava as mãos no rio, passando um pouco de água no cabelo, terminando pelo rosto, então finalmente me olha.
– Claro que estava com frio, você estava tremendo.
– Não estava, não, .
Ele inclina a cabeça de lado, como se dissesse “ah, tá “e eu resolvo ficar quieta, pois sei que ele está com razão, ontem à noite estava realmente meio frio. pega sua camisa, lavando-a no rio, e eu fiquei ali, quieta, pensando na vida. Kitty se aproxima, entrando debaixo do bolso do moletom de e isso me faz rir, agradando-a. Kitty é muito carinhosa e me dói ver ela nessa situação junto comigo, ela deve estar com fome também, e eu só queria poder dar algo a ela e . Se eu estivesse em casa, dona Edite, nossa cozinheira da casa, já estaria preparando um delicioso café da manhã, cheio de Brownie, croissant, pães, bolo... Simplesmente uma delícia. Suspiro, cansada, pensando se alguém sente minha falta lá em casa, será que estão procurando-me? Será que , Allie e Amber estão sentindo minha falta? Afinal, eu saí da casa de brigando com ele.
– No que tanto pensa, ? – me tira dos meus pensamentos e, quando o olho, está colocando sua camisa.
– Em nada especial. – Resolvo não contar para não o preocupar.
– Tem certeza?
Suspiro, cansada. senta de novo no meu lado, olhando-me com atenção com seus lindos olhos. Eu já tinha uma queda por olhos verdes, mas os dele? Meu Deus, aquilo é uma perdição de sanidade. Ele consegue tudo com aquele olhar.
– Só estou pensando em se alguém da minha família ou meus amigos estão procurando-me.
fica um tempo em silêncio, olhando para baixo como se não soubesse me dizer algo, mas sei o que ele está pensando: que provavelmente ainda ninguém está. Suspiro, cansada, olhando para o lado oposto do mesmo.
– Hey. – segura meu queixo, fazendo-me o olhar de novo. – Eles estão te procurando, fique tranquila, ok? Não precisa ter medo, nós vamos achá-los e eu faço questão de te ajudar nisso. Só que antes eu preciso passar em um lugar, tem uma pessoa que me mata se eu não der notícias. – Rio com seu comentário. – Quer ir comigo?
– Quero sim.
– Ótimo, então vamos.

**


Ao andarmos uma meia hora pelo parque até a saída, caminhamos mais uma meia hora, e Kitty, sempre ao nosso lado, às vezes pede para subir no colo de adivinha quem? Minha filha me trocou. acha graça da minha reação e começa a fingir que vai se afastar com Kitty, e eu corro atrás dele. Ficamos nessa, brincando até que eu percebo o lugar que está levando-nos, é o Joe Coffe and Games, e o reconheço; ele fica a uma meia hora de minha casa. O café do Joe não é nem muito grande e nem muito pequeno, simplesmente para mim é aconchegante, e Joe deixou o ambiente mais parecendo uma lanchonete, então o lugar é bem gostoso de ficar, tanto que tinha jogos de graça para jogarmos se ingerirmos pelo menos cinco reais com os produtos da loja, poderíamos ficar o tempo que quisermos ali jogando.
, eu conheço esse lugar. – Olho-o, parecendo uma criança feliz, afinal o café do Joe é meu lugar favorito.
– Sério, ? Eu nunca te vi nessas redondezas. – Kitty o lambe, fazendo-o rir. – Vem sempre aqui ao café?
– Sempre que posso... – Faço um sorriso triste. – Minha mãe não gostava muito que eu saísse de casa.
me olha, confuso, provavelmente não entendendo o porquê de eu nunca sair de casa, mas como eu posso explicar se nem eu mesma entendo? Às vezes eu fugia de madrugada e ia até a casa de para podermos conversar um pouco que seja sem os olhares de nossos pais, e aquilo era muito frustrante, pois eu não tinha uma vida normal, não tinha uma vida de adolescente. Meus pais nunca me deixavam sair com meus amigos, e ainda mais com Allie, que é filha da melhor amiga da minha mãe. Não entendo o porquê disso.
– Porque ela não deixa? – Ele para na frente da porta do café e eu fico na sua frente.
– Não sei.
Falo, sincera, e eu não quero que se preocupe com minha vida, ele já tem muitas coisas com o que lidar.
– Já tentou saber o porquê de ela não deixar?
Iria responder, porém um homem moreno com aparentemente quarenta anos vem até nós, assustando , que vai para meu lado, ficando de frente para o senhor que nos atende.
, até que enfim apareceu, garoto. – Esse mesmo homem o abraça, dando tapinhas nas costas de meu novo amigo. – Já estava ficando preocupado. Onde se meteu, rapaz?
olha para mim, sorrindo sem jeito, e eu acho fofo quando o mesmo coça a nuca. Fico perguntando-me o que aquele senhor é dele, pois assim como eu, não estranhou e nem nos colocou para fora daqui, coisa que muita gente faria.
– Eu acabei dormindo no parque aqui perto ontem, Joe. Desculpe, mas é que conheci alguém que precisava da minha ajuda.
O homem, que até então descobri ser o dono do lugar e que se chama Joe, finalmente olha para mim, primeiro com a sobrancelha erguida, fazendo-me ficar sem jeito e olhar , que sorri para mim. Joe então olha para , que o olha sorrindo de um jeito cumplice, e eu fico confusa. não deixa minha frustação passar despercebida, então já foi logo arrumar as bobagens que provavelmente o homem mais velho na nossa frente está pensando.
– Joe ela é só uma amiga. Não é nada disso. – Joe o olha, ainda não acreditando. – É sério.
– Uma amiga é? Qual o seu nome, menina?
... .
Logo o senhor Joe deixa de sorrir. Será que eu fiz alguma coisa errada? Afinal, eu nunca havia o visto por ali, mesmo ele sendo o dono do lugar.
– Algum problema, Joe? – também estranha o desânimo do homem.
– Nenhum, . Vocês vão querer entrar?
– Não sei, eu tenho que ajudar a achar a mãe dela, ela meio que se perdeu ontem no parque e eu não quis deixá-la sozinha.
Kitty, em seu colo, late. Ela provavelmente também está com fome e isso me faz agradá-la.
– Entrem, quem sabe eu possa ajudar vocês.
É aí que eu tenho uma ideia. Eu ainda estou com meu celular, porém ele está descarregado. Será que seria demais pedir ao Joe um carregador? Mas fico sem jeito e apenas sigo e Kitty até uma mesa. O café ainda está vazio, então não tem problema entrar um cachorro aqui também.

**


Joe nos oferece um milk shake e brownie. Noto os olhos brilhando de e não falo nada, mas acho isso fofo. Ele fica feliz com tão pouca coisa que era bonito de se ver, ao contrário da minha família, que sempre quer o do mais caro, o mais bonito, o mais chique. Nós dividimos o mesmo milk shake, enquanto eu dou para Kitty algumas bolachas que Joe nos oferece.
– Ela estava mesmo com fome. – chama minha atenção para olhá-lo.
– É, ontem ela só comeu o sanduíche que você ofereceu, e repito que não precisava fazer isso.
– Bobagem, . Eu jamais iria deixar alguém passar fome sabendo que eu posso dividir.
Olho , orgulhosa. É raro encontrar alguém com esse pensamento hoje em dia, muitas pessoas são egoístas ao ponto de não dividir nada, nem um simples prato de comida. A porta do café abre, e eu e estamos na janela perto da porta quando meu coração para por um momento. As duas pessoas que passam por ali são e Amber. Eles não estão procurando-me, eles estão sorrindo, felizes, até que Amber me olha e fica apreensiva.
, o que houve?
estranha o fato de eu não responder, mas é que fico sem reação ao ver eles ali. Amber deve ter falado algo no ouvido de , que o mesmo me olha e, quando repara que não estou sozinha, não sorri e não tem nenhuma reação. Droga. Kitty começa a latir, olhando para eles toda feliz, abanando o rabo.
? – Ele, notando que eu não respondo pois estou em choque, olha para trás. – Quem são?
o encara e eu só quero que esse encontro não exista, pois estou ainda muito magoada com ele por ter se referido a daquela maneira e ainda mais por perceber que eu não faço falta, nem mesmo enquanto brigamos, pois enquanto meu celular estava carregado, eu não recebi nenhuma mensagem de , mas eu também não vou atrás.
?
exclama e eu não sei decidir se ele está irritado, surpreso ou confuso, só sei que não quero que presencie esse encontro inesperado.


Capítulo 4


POV :

Estar ali no café do Joe com é legal, pelo menos para mim, pois hoje eu acordei com uma sensação boa. Não sei, parece que estava em casa, simplesmente por ter sua companhia comigo; isso é incrível, pois a conheço há menos de 24 horas. Será possível isso?
Quando estávamos vindo até o café, resolvi brincar com ela que levaria Kitty comigo, e ela foi correndo atrás de mim. Foi divertido, até chegar ao ponto em que Joe nos ofereceu um milk shake e um brownie. Ela ficou me olhando com um olhar diferente e sorrindo, só queria me esconder. Acho que eu realmente estava parecendo uma criança ganhando um presente do Papai Noel, por isso desviei o assunto para Kitty, que estava comendo as bolachas que Joe ofereceu, mas estranhei que ficou olhando para a porta desde que o sino anunciou sua chegada.
Chamei-a, mas ficou olhando para a porta. Resolvi olhar e encontrei um cara alto, parecia rico pela roupa preta e calça jeans que usava, os óculos escuros e um boné. Ao seu lado, uma bela moça ruiva, cabelos compridos enrolados nas pontas e olhos verdes; achei linda, mas não tanto quanto a beleza de , que eu sei que é diferente, não somente por fora, digo por dentro também.
? – O cara a chamou, aproximando-se da gente. – O que está fazendo aqui?
Olho , preocupado, sem entender nada do que está acontecendo, e a mesma apenas engole a seco, desviando o olhar para a comida.
Sem se preocupar se estava metendo-se onde não devia, o cara senta ao meu lado, enquanto eu me afasto para mais próximo da janela, afinal nunca estive tão próximo de muita gente da minha idade, principalmente além de . A menina que está com o rapaz senta ao lado de e de Kitty.
– Hey, . – o respondeu, ainda meio assustada. – Estou tomando um milk shake, algum problema? Aliás, o que está fazendo aqui a essa hora da manhã?
– O mesmo que você e seu novo amigo. – O tal olha para mim, sério, sem nenhum sorriso. – Só tomando café, afinal daqui a pouco eu e Amber vamos visitar os pais dela, mas isso não vem ao caso. Por que você não nos apresenta a seu colega?
O jeito que ela falava de mim parecia que estava intimidando-me. Não sei, parece que minha presença não estava agradando-o, e me senti péssimo por isso, desviando o olhar para a janela.
– Amor, chega. – A menina que está ao lado de respondeu. – Qual o problema de ele ser amigo de ?
– Eu só quero saber, só isso. É alguém crime?
você é meu melhor amigo, e não meu pai.
– E por ser seu melhor amigo eu devo cuidar de você, afinal eu liguei um monte de vezes para o seu celular ontem para pedir desculpas sobre o que falei daquele morador de rua que te salvou, e você não me atendeu, e agora me aparece com um cara? Ainda por cima usando roupas nada apropriáveis e...
, CHEGA! – Amber, a namorada do garoto, repreendeu-o.
Eu só queria ter que ser dali, não queria ser o motivo de ter discutido com seus amigos, e, droga...
Suspiro, cansado. Por que achei que ser amigo dela seria uma boa?
– Você não tem direito de falar assim dele , você não o conhece. Aonde foi meu melhor amigo? Por que essa revolta?
– Porque eu quero seu bem, e ele não é uma boa pessoa, , ele é um mendigo.
Isso foi o cúmulo para mim. Eu já ouvi coisas piores na minha vida, mas mendigo? Não, eu não sou isso.
– Escuta aqui, , você pode falar o que quiser de mim, ok? Mas não me chame assim, você não sabe o que eu passei para estar aqui na rua. Eu posso não ter as melhores roupas, posso não ter dinheiro como vocês, mas eu tenho caráter. Eu não fico xingando os outros apenas por suas roupas, como você. – Ele me olha, enfurecido. – está bem, e é isso o que importa. Eu já estou indo embora para não atrapalhar.
Levantei da mesa, indo até o balcão com Joe. Eu esperava ajudar a encontrar sua casa, mas ela já está segura com seus amigos, por que ela precisaria de mim? tem razão, eu nunca vou ter amigos.
– Algum problema, garoto? – Joe pergunta ao ver meu rosto cansado.
– Não, só estou passando aqui para dizer que, assim que conseguir dinheiro, eu venho te pagar. – Joe ia me interromper para dizer que não precisa, mas fui mais rápido. – Faço questão, Joe. Agora preciso ir.
Saí dali às pressas, sem olhar para trás, mesmo sentindo que está me olhando. Sei que prometi ajuda-la, mas não vou aceitar ser xingado por alguém que nem me conhece. As pessoas tem que entender que não quero fazer mal a ninguém, eu sou que nem elas, droga.
Viro a esquina, com dentes trancados, e entro em um beco próximo que tinha por ali, chutando a lata de lixo.
– Droga de vida. – Passo as mãos pelos cabelos.
?
Olho para meu lado, vendo senhor Richard ali. O que ele está fazendo ali mesmo? Nunca o vi fora de seu carro, nem mesmo agora o vi.
– Senhor Richard? O que está fazendo aqui?
– Eu vi você saindo do café enquanto estava chegando, e parecia irritado. Queria saber se estava tudo bem! E por favor me chame de Richard, tudo bem?
Tentei me acalmar, respirando fundo, e sento no chão, encostando-me na parede do beco, vendo Richard fazer o mesmo ao meu lado. Eu só queria entender o porquê dele se preocupar tanto comigo, ninguém nunca foi assim.
– Eu estava ajudando uma amiga que conheci ontem, tanto que Joe me perguntou onde eu dormi, já que não estava presente quando ele abriu a loja. – Sorri junto com Richard. – Eu estava no parque e conheci , ela estava sozinha com sua cachorra e parecia assustada, dizendo que não podia sair dali, pois sua mãe tinha desaparecido do parque e mandado ela ficar até ela aparecer.
– Isso é estranho. Por que uma mãe sumiria assim do nada?
– Eu acho que ela abandonou , mas não quis falar nada, pois sei que a deixaria mais chateada ainda. Então me ofereci para ajudar a procurar sua casa hoje de manhã, e realmente íamos, mas Joe mandou eu dar notícias e vir para cá com ela antes de ajudar procurar . Até aí tudo bem, mas chegou o amigo dela, , e ficou dizendo ofensas de mim, que não poderia ficar perto porque eu sou um mendigo, segundo ele.
– Esse cara não tem respeito, não? – Richard parecia estar ficando furioso, não o julgo. – Você ainda ajuda a amiga dele, e te trata assim? Mas isso não vai ficar assim mesmo.
Richard levantou do meu lado e parecia determinado em falar algumas verdades para , mas mesmo agradecendo seu apoio, não posso deixar ele fazer isso.
– Senhor Richard... – Ele me olha, cerrando os olhos e eu tratei de corrigir. – Richard, não precisa, eu já estou acostumado, deixe para lá.
– Você vem comigo, , agora.
Não sei por que, mas não ousei desobedecê-lo. Richard caminhou de volta a cafeteria, onde , Amber e ainda estavam comendo, e, ao me ver, veio até mim, deixando Kitty ao cuidado da amiga.
, desculpe-me, não queria que você fosse embora assim. Sinto muito pelo , ele não fez por mal, ele só queria...
– Proteger-te, eu sei, . Mas você já está segura com seus amigos, não tem o porquê de eu continuar aqui.
Para minha surpresa, me abraçou, firme, como quem queria dizer para não a deixas sozinha, assim como sua mãe havia feito. Ao passar o susto, retribui seu abraço, agradando-a no cabelo e nas costas. A sensação de conforto que me tomou foi inexplicável, e, naquele momento, eu percebi que também não queria deixá-la.
, onde está seu amigo? – Richard perguntou para a menina em meu abraço.
Ambos olhamos para ele, e voltou a olhar para mim, confusa como quem perguntasse quem Richard era.
– Richard é um amigo, .
– São daquela mesa. Por quê? – Apontou para a mesa onde estávamos, fazendo Richard olhar para a mesa.
Richard olhou para mim, e pelo olhar entendi que ele não queria nem eu, nem por perto enquanto estivesse falando com .
– Algum problema aqui? – Joe surgiu no meio, olhando para Richard.
– Eu sou um amigo do . Fiquei sabendo do que aconteceu aqui por ele agora pouco, vim resolver umas coisas, se não tiver problema. Prometo não criar escândalo, só quero conversar com o pessoal daquela mesa.
Joe olhou para mim como se perguntasse que era verdade, e eu apenas concordei, mesmo sabendo que Richard não precisava me defender. Por algum motivo, se encolheu no meu colo, abraçando-me mais firme, fazendo-se a olhar.
– Vai ficar tudo bem, .
– Eu sei, mas é que...
, leve lá fora, e os dois me aguardem lá fora. Ouviram bem?
– Sim, senhor. – Respondi, levando comigo.
Sentamos no primeiro degrau da escada, e olhou para trás, vendo Richard conversar com , mas sua feição não era boa, e eu não queria que ela ficasse preocupada com isso, então voltei a distrair ela.
– Então, , você está de férias ou já começaram suas aulas? – Perguntei a primeira coisa que me veio a cabeça.
olhou para mim, virando a cabeça meio de lado, estranhando a pergunta. Apenas dei de ombros, escondendo um sorriso, pois ela tinha ficado fofa, e eu tinha gostado.
– Ainda não começaram, vão começar semana que vem. Mas eu queria que demorasse mais, não gosto da escola.
– Ué, por que não? – Ergui a sobrancelha em confusão. – Lá é legal, tem um monte de gente da nossa idade, amigos de verdade e...
, escola não é bem assim. – Ela me olha, um pouco séria. – Claro que cada um tem seu grupo, mas mesmo assim, lá é cada um por si. Existe muita rivalidade e injustiça naquele lugar.
– Posso te garantir que não é pior do que se viver na rua, . Só quero que continue estudando, está bem? – Perguntei, preocupado, e a mesma apenas sorriu.
– Sabe, , queria que você estudasse lá. Ia ser legal te ver por lá. – Sorri, triste, olhando para a frente.
– Eu não acho que me enquadraria lá, , você provavelmente estuda em uma escola particular e... – Sou interrompido.
– Sabe, eu estudo nessa escola por causa dos meus pais. Eu odeio aquela escola, eu só queria poder ser dona do meu próprio nariz, sabe? Sem ter meus pais cobrando-me por tudo o que eu faço.
– Pois eu já preferia. – Ela me olhou, séria, fazendo-me engolir a seco. – Sinto falta de ter uma família, eu nunca tive. Aqui fora, , você tem que prestar bastante atenção no que você faz, ou, se não, mete-se em problemas, e não temos ninguém para nos defender.
Ficamos nos encarando durante um tempo, e sinto que estamos entrando em um caminho perigoso, afinal ambos discordavam com esse tema da conversa. Ela queria ser livre, eu quero o mesmo, mas com uma família. Porém, quando eu olho em seus olhos, no fundo sei que ela também quer uma família. Sei que algo está a incomodando, só queria que ela desabafasse comigo.
– Esse não vai ser mais seu problema, garoto. – Nem noto que Richard estava ali espiando-nos. – Você vai voltar para minha casa comigo.


Capítulo 5


POV :

É oficial, ninguém vai me entender. Não é que eu não goste de meus pais, é só que... eles não deixam eu fazer minha própria escolha. Eu já tenho dezesseis anos, e eles nunca fizeram nenhuma vontade minha. Pode parecer egoísta, mas, quando eu era criança, eu pedia alguém brinquedo de presente de natal ou aniversário, e eles nunca me deram, só me deram em dinheiro para comprar o que eu quisesse. E isso não é o sonho de uma criança. Eu queria poder levar meus amigos para minha casa; não podia, e isso claro que me decepcionava.
– Senhor Richard, não posso aceitar. – Dá para perceber que está nervoso só pelo seu olhar, e eu não queria que ele se sentisse assim.
– Você vai comigo, entendeu? – Richard se ajoelhou na altura do garoto a minha frente, o mesmo, envergonhado, olhou para o chão. – , só quero o seu bem. Eu vejo você todo dia trabalhando no sol quente para conseguir sobreviver, você não acha que eu e minha esposa já não tivemos essa conversa? – o olha, apreensivo. – Eu não quero mais que amigos como o da façam o que fizeram com você.
– Você não disse que queria uma família agora há pouco, ? Essa é a sua chance, não a deixe passar.
pareceu não estar escutando-nos no momento, e isso me fez querer saber o que tanto ele tinha medo de ter uma família.
– Senhor Richard, Joe também já me ofereceu um lugar para morar, mas... eu não aceitei. Não quero que me leve a mal, adoro o senhor e sua esposa, mas... eu não quero atrapalhar, não quero causar problemas quando algo errado acontecer.
– Nada de errado vai acontecer , pode ficar tranquilo e... – o interrompe com sua decisão já tomada.
– Por favor, Richard, entenda o meu lado.
Richard parecia determinado a fazer mudar de ideia, porém não conseguiu e, ao se dar conta disso, apenas concordou com a cabeça, pegando um bloquinho de papel, anotando um telefone, porque sabia que não seria capaz de fazer mudar de ideia.
– Se precisar de alguma, então, é só me ligar garoto. – Bagunçou os cabelos de , fazendo-o rir. – Cuide-se. E você também, . – Piscou para mim, afastando-se.
– Ele é um cara bacana. – Falei do nada e me olhou, sorrindo, aquecendo-me por dentro. – Deveria ter ido.
– Eu não quero que eles pensem que, se algo sumir da casa deles, fui eu que roubei, entende, ?
– Por que eles pensariam isso? – Olho-o, indignada, e ele revira os olhos. – , não e só porque você está na rua, que você é ladrão.
– Muitas pessoas não pensam assim, e sim sentem medo de mim. Até agora não sei como você não se sentiu com medo. Eu já fiz muita coisa que me arrependo, . Fui influenciado quando era pequeno a não fazer coisas legais, e quando eu me dei conta que aquilo não era bom, decidi parar. Mas tenho medo. – Ele me olha, triste, como se estivesse mesmo arrependido do que vez.
Ver daquele jeito era estranho, pois desde o momento em que a gente se conheceu, ele não pareceu inseguro com nada, nem assustado em estar aqui fora, e isso me fez acender uma luzinha na minha cabeça que queria conhece-lo, porém e Amber me levariam para a casa.
– Medo de quê, exatamente? – desviou o olhar de mim como quem não queria me deixar saber de seu passado.
– Eu... – Ele é interrompido por , que acaba de sair da cafeteria, segurando minha Kitty.
– Vamos então, ? Nós só vamos te deixar em casa, pois já estamos ficando atrasados com o compromisso com os pais de Amber.
se levanta do chão e oferece uma mão para me ajudar a levantar, e eu aceitei de bom grado, encantada com seu cavalheirismo. Ficamos nos encarando durante um bom tempo, e eu não queria ter que o deixas, sabendo que nunca mais posso vê-lo.
– Então é isso. – Ele começa a se despedir um pouco envergonhado. – Fica tranquila que você logo vai ver seus pais. – Sorri, vendo ele fazer o mesmo.
... – fala no momento que eu abri a boca, chamando tanto minha atenção quanto a de . – Desculpe-me, cara. Eu sei que você não faria mal a , só pelo fato de ter salvo ela no sinaleiro e a ter ajudado enquanto passou a noite fora.
– Como sabe disso? – perguntou, ainda sério.
– De ter salvo o sinaleiro pelo Richard, de ter a ajudado a noite pela própria . Só queria dar uma chance para recomeçarmos.
me olha para confirmar se o que estava falando era verdade, e eu conhecia meu amigo, sabendo que, mesmo com essa pose de durão, ele sabia muito bem quando estava agindo errado, por isso concordei com a cabeça para , dizendo que estava tudo bem.
– Tudo bem, desculpado. – Ele sorri, fazendo o fazer o mesmo. – Só quero que prometa cuidar da .
– Pode deixar. A gente se vê por aí? – concordou a cabeça, virando-se em minha direção.
– Claro que sim. – Sorri com isso, abraçando-o forte, logo sentindo seus braços em minha volta e um beijo na cabeça.
– Vou sentir sua falta, . – Sussurrei somente para ele ouvir.
– Eu também, , mas a gente se vê por aí. – Ele faz um carinho no meu cabelo e eu me afasto.
também se despediu de Kitty e acenou para nós, enquanto ia para longe, e eu senti que estava indo para casa com ele pertinho de mim, mesmo somente no meu coração.

**


– Obrigada pela carona, senhor! – Amber agradece ao motorista do Uber, e descemos na frente de nossas casas.
O motorista foi embora, deixando-nos sozinhos encarando o enorme portão de minha mansão que, de repente, pareceu muito grande para mim. Eu não estava sentindo-me confortável em entrar em minha própria casa, agora o porquê disso eu não sei.
– Está tudo bem, ? – pergunta ao meu lado, entregando Kitty a mim. – Parece estar preocupada.
– Estou bem, sim. , minha bateria descarregou, você pode ligar para a ? Preciso conversar com ela. Vocês já estão atrasados demais para o compromisso de vocês.
– Ligo sim.
– Vou pedindo o Uber então, amor. – concorda com a cabeça.
Afasto-me de meus amigos, com Kitty no colo, e um homem alto, de terno e forte se aproxima da casa, e eu estranho, pois nunca tinha o visto ali.
– Posso saber quem é você? – O homem pergunta e eu franzo o cenho.
– Sou filha dos donos da casa. . E você é?
– Olha, menina, os donos da casa se mudaram ontem, e eles só têm um bebê como filho. Lamento, mas não posso te deixar entrar.
O quê? Que palhaçada é essa de eu não poder entrar na minha própria casa? Algo está muito errado nisso.


Capítulo 6


POV :

, quer parar de andar de um lado para o outro no meio de minha sala? E me escutar, fazendo favor?
Bufei, cansada, sentando ao lado de no sofá de seu apartamento. Kitty logo subiu ao meu colo, batucando a cabeça em meu braço para pedir agrado, e eu dei. Tinha pego um Uber mesmo com dizendo que eu podia ficar em sua casa, que era ao lado da minha, mas insisti que ele me levasse até . Precisava conversar com minha melhor amiga sobre não poder entrar em minha própria casa.
, isso é muito estranho. Estou assustada. – confessei, um pouco trêmula.
, meu amor, seus pais estão bem. Vai ver aquele segurança é um babaca e está querendo pregar uma peça em você! Acalme-se.
– Não é só isso, , eu estou começando a achar que meus pais me abandonaram. – revira os olhos. – É sério, não estou fazendo drama.
– Ah, está! – respondeu de forma convicta de alguém que está certa. – , eles são seus pais, não iriam te largar na rua.
– Eles nunca se importaram comigo, e você sabe. – retruquei, deitando-me no sofá, colocando os pés em seu colo. – Não irá ser surpresa eles terem feito isso.
Agora eu queria saber o porquê. Eu não fiz nada de errado.
, fica calma, amanhã você tenta ligar para eles, ok? – Concordo com a cabeça. – Ainda são quatro da tarde, o que acha de irmos à sorveteria aqui perto?
Concordei de imediato em ir, pois um sorvete ainda era uma ótima opção para me distrair, sempre funcionava. Ao chegarmos, escolhemos uma mesa mais para dentro da sorveteria.
– Do que vai querer, ? – perguntou e eu apenas a olhei, e ela concordou, já sabendo o meu preferido.
Da mesa onde estávamos, dava para vermos claramente os carros na rua, mas também notei um rapaz alto, moreno, cabelo liso e olhos castanhos entrar com um amigo e ficar olhando o local até parar os olhos na segunda mesa antes de mim. Nela tinha uma velhinha tomando sorvete tranquilamente com sua carteira à mostra. Minha atenção foi novamente para o cara, seus olhos estavam grudados na velhinha e na sua carteira, então tentou disfarçar, chegando na mesa ao meu lado, esperando o momento certo para atacar. Como eu sabia disso? Uma, porque ele não parava de olhar para a carteira da mulher, e outra, eu sinto algo ruim em seu respeito.
– Pequena , eu comprei de chocolate, porque não tinha de leite condensado. – coloca o sorvete em minha frente. – Hey, está tudo bem? – perguntou quando eu não lhe dei atenção, pois meu foco era o cara.
– Está. – Peguei o sorvete, desviando o olhar para minha amiga. – Só estou preocupada com meus pais, sabe disso.
Eu, sim, estava, mas não nesse momento. Minha preocupação era a velhinha que acabava de se levantar e ia ao caixa pagar seu sorvete.
, eu já falei para você não se preocupar, seus pais estão bem. Sei que são um pouco rígidos, mas eles te amam, eles nunca iam te abandonar.
– Eles estavam diferentes essa semana. Lembra que eu falei que queria morar sozinha e eles não deixaram? – Ela concordou a cabeça, tomando um pouco de seu sorvete. – Eles me liberaram pouco antes da minha mãe sumir no parque. Estou estranhando, .
– Sabe se qualquer coisa acontecer, você pode ficar em minha casa .
– Obrigada, , e...
– Alguém viu minha carteira? – a velhinha falou alto, chamando minha atenção. – Ela estava na mesa.
Noto que o homem que estava ao meu lado tinha colocado algo no bolso e estava saindo meio apressado da sorveteria. Eu já tinha pago meu sorvete, então sai da sorveteria com minha amiga seguindo-me. O cara, notando minha aproximação, começou a correr, e eu notei que ele era morador de rua só pelas suas roupas que pareciam sujas e sujas recentemente, então corri mais rápido e o notei virar a esquina a esquerda, só que ao entrar na mesma esquina depois de atravessar a rua, ele tinha sumido. Coloquei as mãos no joelho, descansando da corrida, mas fiquei desesperada ao sentir que era empurrada para dentro do beco ao meu lado e pressionada na parede pelo mesmo homem de minutos atrás na sorveteria
– Por que está seguindo-me? – Engulo a seco ao olhar o dono da voz. – Você é um tira?
– Não. – Eu estava cautelosa somente pelo seu olhar raivoso. – Eu nem tenho idade para isso.
– Então por que está seguindo-me?
– Isso é obvio, você assaltou aquela velhinha da sorveteria. – ele me apertou mais contra a parede, meus braços começando a doer. Arfei de dor, ficando trêmula. – Por que fez isso?
– Não importa, cai fora, não se mete nessa. – ele me soltou bruscamente.
! – Olho para trás, vendo minha amiga se aproximar e ficando assustada ao me ver com aquele homem. – Sai de perto dela.
– Cala boca. – o rapaz respondeu.
– Eu vou ligar para a polícia se não sair de perto da minha amiga agora e devolver a carteira da velhinha.
– Nem em sonhos vou fazer isso. Vão embora e me deixem em paz e ninguém sai machucado aqui.
, vamos embora cara! – Seu amigo parecia desesperado. – Não precisamos de problemas, vamos embora.
O então em minha frente saiu correndo com o amigo, e eu tentei ir atrás, porém minha amiga me impediu, segurando meu braço. Suspirei alto, detesto esse tipo de gente que quer se aproveitar dos trabalhos dos outros para conseguir se dar bem.
– Você está louca de ir atrás, ? Vamos voltar para a sorveteria e avisar a velhinha que não conseguimos.
É incrível como há diferenças em todo tipo de lugar, como existem pessoas honestas e pessoas desonestas. Na minha escola por exemplo, existem as pessoas populares que querem se dar bem por cima de gente como meus amigos, e eu, querendo colar na prova. Agora, na vida real, aqui fora, existem pessoas que pensam que dinheiro cai do céu, mas não é bem assim. Vejo o quanto meus pais ralam para conseguir manter nossa família, para no final das costas aparecer um cara como esse tal de e acabar assaltando as pessoas. era uma exceção, e isso me fez querer saber mais sobre ele, como ele foi parar na rua, por que motivo? Ele parecia um menino tão gentil, educado, e com certeza não se enquadrava na realidade de onde ele vive. Ele merece uma vida melhor. Só esperava que a vida fosse legal comigo pelo menos uma vez e me deixasse vê-lo novamente. A gente se separou há algumas horas, e eu já estava sentindo uma enorme saudade de . Como isso é possível?


Capítulo 7


POV :

Como hoje é um sábado, os movimentos nas ruas parecem estar equilibrados. Aprendi a saber quando eu teria mais dinheiro e quando não teria apenas pelos movimentos de pessoas nas cidades. Infelizmente eu não tinha um lugar fixo para ficar, porém isso não me fazia falta. Como não trabalhei de manhã por causa de , era melhor começar agora, e apesar de ter comido o que senhor Joe nos ofereceu, eu tinha que garantir o dinheiro de amanhã.
Virando a esquina de onde eu estava, era uma principal e estava lotada de carros. O sinal estava no amarelo, eu tinha que aproveitar. Assim que o sinal deu vermelho, fui para a faixa de pedestres, respirei fundo e comecei a dançar uns movimentos de hip-hop que tinha visto nas TVs da vitrine de uma loja outro dia, e mesmo passando rápido pelo local, consegui gravar os movimentos e os imitar agora. Era a primeira vez que mudava de tática de trabalho, antigamente eu só cantava, agora vamos ver se dançando eu consigo alguns dólares.
Assim que terminei, estava suado, mas mesmo assim carreguei um sorriso no rosto, carro após carro, até o sinaleiro abrir. Algumas pessoas foram gentis, outras nem tanto, fechando a janela assim que eu passava por eles, com medo de que eu fosse assaltá-los. Eles estavam tão errados. Quando o sinal abriu novamente, fui até a calçada, notando que consegui bem pouco dinheiro, não daria para conseguir muita coisa. Odiava dias assim.
Meu estomago roncou, dando um sinal de vida, obrigando-me a fechar os olhos para me conformar que a única refeição que daria para fazer hoje era a que o senhor Joe nos ofereceu de manhã.
– Droga. – resmunguei comigo mesmo.
Em dias assim, quando eu pertencia ao grupo dos Trash, sempre dávamos um jeito de fazer uma vaquinha com o dinheiro que cada um conseguiu para comprar uma comida razoavelmente aceitável, e quando não dava... bem, não me orgulhava de dizer o que fazíamos.
– Dia ruim, ? – Congelo ao ouvir a voz que mais odeio. – Pena que alguns de nós não temos sorte no trabalho, não é?
Olho para meu lado, notando com um sorriso sarcástico que me dava raiva. Quem era ele para falar de trabalho quando ele não fazia um mísero esforço para obter um prato de comida?
– Deixe-me em paz, .
– Calma aí, garotão, eu não vou te obrigar a fazer nada, só quero conversar com você.
Das duas uma, ou ele estava tentando me tirar do sério, ou estava querendo me obrigar a fazer algo que eu não queira. De qualquer forma, eu não iria deixar ele ganhar, não iria cair no seu joguinho novamente. Sei que ele ainda acha que pode mandar em mim, porém está errado; as ruas são públicas, e não dele, como ele pensa.
– Pois eu não quero, . – olhei-o, não demonstrando nenhum sinal de medo. Afinal era isso que ele queria que eu demonstrasse.
– Azar o seu, vai ter que me ouvir, ou vai ser muito pior para você.
Estremeci. Por que será que eu não estava gostando daquela história? O tom que ele falou parecia sombrio, assustador, e quando o usava, nada bom sairia dali. Engoli a seco, olhando para o chão, dando uma brecha para ele falar.
– O que quer me dizer?
– Vai ter que nos acompanhar até nosso local de encontro antigo. Creio que ainda sabe onde é. E não ouse em faltar, está entendendo-me?
chegou mais perto, fazendo-me dar um passo para trás. Eu não entendo o porquê de sempre eu ter essa apreensão quando ele está por perto. Por mais que eu não gostasse de suas atitudes enquanto procurasse trabalho, lembro que quando era pequeno também me acolheu e cuidou de mim como se fosse seu irmão mais novo. Mas agora tudo era diferente. Eu não queria mais seguir seus passos.
– Pode deixar. – respondi, olhando sua mão, notando uma carteira de mulher, e sorri sarcástico. – Quando você vai parar de roubar, cara?
– Isso não é da sua conta, pirralho, só quero que esteja no ponto de encontro quando anoitecer, está bem?
– Nunca descumpri uma promessa contigo.
– Você saiu do time, , e você sabe que fizemos um ritual quando você completou treze anos, fizemos uma promessa e você descumpriu ela, como acha que vou acreditar em você? A partir do momento em que você deixa o time, é nosso inimigo.
Respirei fundo. Quando iria entender que eu não queria ter que deixá-los, só não gostava das coisas que eles faziam? Conhecendo ele como conheço, ele não vai descansar até me colocar na cabeça que roubar seria a melhor opção para caras como nós.
– Eu estarei lá.
Dito isso, e seu amigo que acompanhava quieto a nossa pequena discussão foram embora, e eu pude finalmente fechar os olhos e respirar aliviado, ou melhor não tão assim, porque fosse o que fosse, vindo de nada seria coisa boa, e eu tenho certeza que vou me arrepender disso quando pisar naquele galpão abandonado perto da balada Dance Hour.

**


Como prometido, aqui estava eu, de noite, na frente de um galpão enorme parecendo um celeiro, todo caindo aos pedaços e de madeira. A luz estava acessa lá dentro, e já dava para ouvir a música alta da balada. A rua estava lotada de carros e de gente por ser uma rua comercial. E eu aqui parado sem saber o que fazer.
– Você está aí, , já estava mandando alguém ir atrás de você. – Mike diz, preocupado, e eu sei que ele sabe o rumo da conversa que eu teria com . – Não queria que tivesse vindo, , a coisa não é boa.
– Era de se esperar, Mike. – suspiro, cansado. – Eu não posso fazer nada quanto a isso.
Mike não disse nada, pois sabia que eu estava certo. Ao entrarmos no galpão, noto uma fogueira acena no meio e vários papelões, cobertores e travesseiros em volta. Sento em um onde era minha cama na época em que “morava” ali. estava sentado ao meu lado e me lançava um olhar sério, pronto dizer tudo o que tinha para dizer. Mike sentou em meu outro lado nos olhando com medo, principalmente para .
– Preparado, veloz? – sorri igual quando eu era pequeno, e só pelo fato dele me chamar pelo meu apelido de infância, eu congelei.
– Pode dizer.
Não era coisa boa, eu tenho certeza. Por que raios eu fui concordar em vir até aqui? Pela sua expressão de quem tinha bolado um plano do século, eu claramente percebi que tinha entrado numa fria e não tinha como sair. Merda.


Capítulo 8


POV :

– Eu não vou fazer isso, ! – Respondi, sério, após ouvir o seu plano.
Era absurdo, eu jamais iria fazer aquilo, eu não quero problemas com ninguém. De onde achou que eu iria participar disso? Eu já deixei bem claro que não quero me meter em suas artimanhas.
– Você vai. – Sua voz estava começando a ficar alterada. – Eu estou lhe dando mais uma chance de você entrar no grupo novamente e mostrar sua lealdade.
, eu já falei, eu só não estou com vocês porque eu acho errado o modo como vocês ganham dinheiro. Sim, eu passo dificuldades, mais do que eu passava antes quando estava com vocês, porém agora eu tenho um trabalho honesto, não fico roubando para me embebedar, usar drogas.
– O que você espera com esse discurso ? Isso não vai me convencer a tirar você do plano, até porque eu já matriculei você naquela escola e você vai. Suas aulas começam segunda-feira, e nem pense em faltar.
– E se eu não fizer esse plano?
– Você sabe o que te espera. – Engulo a seco. – Pensando bem, Ethan vai ficar na sua cola somente para eu ter certeza que você irá cumprir.
, não acha que está pegando pesado? – Mike tenta fazê-lo mudar de ideia. – Ele é um adolescente ainda.
– Mas já tem que aprender como as coisas funcionam. A vida não é um mar de rosas.
– Só porque as coisas não deram certo para você, não quer dizer que para o as coisas não deem certo, . Ele tem ainda uma chance de ser alguém na vida, muito melhor que nós.
– Que chances? De passar fome? De ser humilhado por seus amigos ao verem que você está na pior? Eu não quero isso para ele e...
– Dá para os dois pararem de falar de mim como se eu não estivesse aqui? Que saco! , já escutei o que eu tinha para escutar, então estou indo embora.
Saí do galpão às pressas, não queria ser obrigado a escutar o que eles tinham para discutir, apenas queria pensar. Caminhando pelas ruas escuras de Vancouver, caminho até o café de Joe, onde era meu lugar de dormir e ficava perto da escola onde me matriculou. Ao chegar, noto que tinha uns papelões ali na lata de lixo, um travesseiro e uma coberta. Daria uma bela cama para mim. Ao me aproximar da lata de lixo e pagar os papelões, meu estomago dá um sinal de vida ao ver um hambúrguer pela metade ali. Penso mil vezes antes de pegá-lo realmente para comer.
Não consigo entender as pessoas, elas compram a comida para jogarem fora. Se soubessem que tinham tantas pessoas passando fome na rua, não fariam isso.
Sento na minha cama improvisada, começando a comer minha segunda refeição depois de limpá-la. E, enquanto comia, senti-me um sozinho no meio da escuridão. fazia falta.

**


Na segunda-feira, sou acordado por Ethan. não estava brincando quando disse que colocaria alguém para me vigiar, que droga.
, está atrasado. No seu primeiro dia de aula.
– Eu nem queria ir mesmo. – Virei-me de lado na minha cama improvisada no café do Joe. – Ethan, dê um jeito de avisar que eu fui, eu só não quero passar vergonha naquele lugar.
– E quem disse que você irá passar vergonha?
– Eu não sei ler e nem escrever. É claro que eles vão tirar sarro de mim, e olha minhas roupas, cara. Eu não vou.
Apenas sinto um puxão na minha coberta e Ethan levantando-me à força da cama, empurrando-me para andar em sua frente. Bufo, cansado. Por que mesmo eu tinha que fazer essa merda de plano?
– Está entregue.
Paramos na frente da escola Lion School. Era uma escola particular, e eu nem queria saber como fez para eu conseguir entrar ali, aliás não sei nem como ele entrou ali. Fiquei parado, sem me mover na frente do colégio, olhando apenas o fluxo de jovens entrar com seus amigos, rindo de alguma coisa idiota. E eu me senti sozinho novamente.
– Ethan, por favor eu não quero ficar aqui. – Supliquei com o olhar.
– Ei, vocês dois, o que estão fazendo aqui na frente, aqui não é lugar de pedir esmola. Vamos andando. – O guarda do colégio disse, aproximando-se da gente.
Quase ia fazer o que ele pediu, se Ethan não segurasse meu braço e desafiasse o segurança, atraindo alguns olhares para nós.
– Desculpe, não estamos aqui para pedir esmolas, meu irmão vai estudar escola. – O guarda olhou para mim, desconfiado. – Ele começa hoje.
– Como vou acreditar em vocês?
– Senhor, meu irmão mais velho matriculou ontem, pode perguntar para a diretora e...
?
Olho para o lado para a voz feminina que me chamou, ela me olhava, franzindo o cenho confusa por me ver ali. Merda, a coisa seria mais complicada do que pensei, estudava na mesma escola que eu iria estudar.
, para dentro, e leve sua amiga, esses caras são perigosos e...
– Eu conheço ele, senhor Haley. – apontou para mim. – E não é perigoso.
Engulo a seco. não imaginava o motivo de eu ter vindo parar aqui. Só não quero que isso nos afaste, pois eu não estou fazendo porque eu quero, e sim porque sei que vou sofrer algo bem pior se não obedecer ao .
– Tudo bem, garoto, se diz que você não é perigoso, pode entrar, mas saiba que vou ficar de olho.
Apenas assenti, e Ethan se despediu, fazendo-me fechar os olhos até sentir uma mão em meu ombro. Eu estava nervoso, isso claramente dava para notar. Percebi que as coisas ali não seriam fáceis somente pelo guarda que iria ficar de olho em mim, como se eu fosse um bandido, um ninguém.
, vai ficar tudo bem, eu vou estar aqui com você. – Abri os olhos e sorri para , mas acho que apenas saiu como uma careta. – Calma, primeiro dia sempre é assim mesmo. Vem, vamos conhecer a galera. Em que ano você entrou?
Eu, e sua amiga estávamos caminhando pelo corredor da entrada do colégio quando me perguntou, e eu congelei.
– Segundo ano do Ensino Médio.
– Eu, , e Amber estudamos no mesmo ano que você, porém temos que pegar seus horários para ver com quem você ficou na mesma sala.
– Você vai gostar daqui, , vai ser legal te ter por aqui. – sorriu, meio tímida. – Desculpe-me pelo jeito que te tratei quando você salvou a , é só que...
– Está tudo bem, , não é como tivesse sido a primeira vez.
Sei que soou meio grosso, mas é que eu já estava cansado das pessoas pedirem desculpas pelo jeito que me tratam depois de me conhecerem um pouco. Isso cansa.
– Olha, olha, se não são a rainha e a princesa da escola Lion School chegando, minha gente.
se aproxima, abraçando e dando um beijo na cabeça das meninas.
– Que milagre é esse chegar cedo em seu primeiro dia de aula, ? – estava falando, meio divertida, para o amigo, que revira os olhos, rindo.
– Hoje é o primeiro dia de aulas, temos várias gatinhas para ver e...
– E nada! Você só tem olhos para umazinha, meu amor. – A garota ruiva do café se aproximou, beijando-o. – Está proibido de olhar para essas líderes de torcida, idiota.
– Não precisa ficar com ciúmes, gata, sabe que só tenho olhos para você.
– Amber, você tem algo a ver com chegar cedo, né? – olhou com raiva para a namorada, que estava segurando o riso. – Claro que tem!
– Lógico, , você acha que não acordaria tão pontual se não dormisse em minha casa? Meu pai foi bem puxado com o por lá.
– Essa cena eu queria ver. – diz, sorrindo, recebendo um dedo do meio do amigo.
Se eu estava sentindo-me deslocado ali? Estava. Até porque ninguém notou a minha presença. Olho para e fico tenso ao notar que ela estava encarando-me, ela sorri, fazendo sinal para eu me aproximar, e eu neguei com a cabeça, atraindo os olhares dos demais em minha direção.
– Olha quem está aí. – é o primeiro a me dirigir a fala, e sorri com isso. Eu ainda não estava totalmente seguro em sua presença. – O que está fazendo aqui, ? – Ergue a sobrancelha, recebendo uma cotovelada da namorada. – Ai, eu só fiz uma pergunta.
– E-eu... Eu vou estudar aqui.
Todos do grupo de me olharam, espantados, mas tentaram disfarçar. Mas pigarreou, tentando chamar a atenção dos amigos, e eu me senti grato por isso.
– Que massa, cara. – sorri sem jeito. – Vem, vou te mostrar uns amigos meus e...
– Não precisa, eu só vou pegar meu horário e ir para a sala. Não quero atrapalhar.
Eu estava ainda envergonhado por estar no meio de tantos adolescentes, sendo que nunca tinha tido nenhum amigo antes.
– Eu também estou indo para lá, aí depois vamos para o pátio encontrar as meninas e meus amigos. Vai ser legal, vem.
Despedimo-nos das meninas, e eu fiquei ainda nervoso com em meu lado, ele parece outro garoto, diferentemente de sábado. Suspirei, preocupado. E se ninguém me aceitar do jeito que sou aqui?
– Hey, Claire, você está com os horários do meu novo amigo aqui? – segurou em um dos meus ombros e eu me encolhi quando a mulher olhou para mim.
Claire ficou olhando-me, séria, de cima a baixo por causa de meu moletom sujo e meus shorts todo rasgado, sujo também. É por causa disso que não queria estar ali.
– Você é o , certo? – Concordo com a cabeça. – Seu horário está aqui. irá explicar melhor como funcionam as coisas aqui na escola, e seu uniforme está aqui também, menino. Informaram-me que não tem nenhum material escolar ainda, é verdade?
A mulher me entregou o uniforme, e eu o peguei com receio por estar aceitando algo de em que foi comprado com dinheiro vindo de mal caminho.
– Sim, é verdade, mas eu irei conseguir.
– Como? – Claire pergunta e eu engulo a seco.
Ela estava séria e parecia tentando manter uma pose para me intimidar.
– Isso não importa e...
– Claire, como você mesma disse, eu vou ajudá-lo. Agora chega com essas perguntas, temos que ir para a aula. Eu só queria saber se meu pai passou aqui deixando-me minha mochila que esqueci em casa.
– Deixou. – Entregou a mochila para . – Boa aula, garotos.
– Obrigado, vamos .
Seguimos pelo corredor, e eu não me sentia vontade para falar nada.
– E aí, idiota. Como foram as férias?
– Ah, você sabe, bebidas, Amber e festas, e a sua? Ah, Caden, quero lhe apresentar o . Aluno novo do colégio.
Caden olhou para mim, surpreso, e de novo fiquei sem jeito.
– E aí, cara? – Ele sorriu, dando-me a mão para apertar. – Andou esquecendo de malhar?
Sorri, apertando a mão de Caden. Ele até que era legal.
– Pois é... – Sorri, fraco.
– Ele já tem vaga no time, ?
– Ainda não, mas pretendo falar para o torcedor colocá-lo.
– Colocar-me no que?
– A escola tem um time de futebol americano, , você já jogou? – Neguei com a cabeça e suspira. – Tudo bem, não tem problema, mas você irá participar. Agora, qual é a sua primeira aula?
Pego o papelzinho que estava em meu bolso meio sem jeito por causa dos dois olhando-me e me surpreendi com a primeira aula: Artes.
– Artes. – Respondi.
– Legal, é a mesma que a minha.
Caden respondeu e eu me tranquilizei ao saber que tinha alguém comigo na aula. Os meninos olharam para trás e eu fiz o mesmo, notando , Amber e vindo em nossa direção. sorriu ao ver Caden e o abraçou, as outras meninas fizeram o mesmo.
– E aí, meninas, já pegaram o horário de vocês? – Caden pergunta.
– Já, sim. – Ambas respondem ao mesmo tempo.
– E qual a primeira de vocês?
– Biologia. – responde, fazendo bico, fazendo todos rirem.
– É a mesma que a minha, . – fez um toque com ela que comemorou. – E vocês, meninas?
– Vamos ficar separados, amor, tenho Inglês agora.
fez bico e Amber o abraçou, recebendo um beijo do namorado, fazendo-me desviar o olhar para , que me olhava. Meu coração acelerou.
– E a sua, ? – Pergunto, querendo puxar assunto.
– Artes. – Sorri. Ia ser legal ter ela na aula. – E sua?
– Artes também.
– Então somos nós três na mesma sala. – Caden abraçou eu e de lado. – A coisa não vai prestar.
– Coitada da professora e coitado de você, , aturar esses dois juntos vai ser difícil.
Sorri. Afinal, estava notando que eu estava começando a criar amizades, e um dos meus sonhos era isso. Eu pedi licença para ir ao banheiro colocar o uniforme do colégio, afinal tinha ganhado mais uma roupa. Isso era bom para mim. Ao terminar de me vestir, saio do banheiro, encontrando esperando-me, e eu franzi o cenho, ficando atrás dela.
– Tudo bem, ? – A menina em minha frente se vira para mim.
– Tudo sim, o uniforme ficou bom em você, .
– Obrigado, . – Sorri. – Eu estou meio nervoso, porque não sei onde colocar minha outra roupa.
– No seu armário, vem.
Andamos até lá e eu guardei minha roupa no exato momento em que o sinal tocou. Olhei , e ela notou meu nervosismo.
– O que foi, ?
– Só estou um pouco nervoso. É a primeira vez que entro em uma escola. E se ninguém quiser ser meu amigo? Eu não sei ler, , nem escrever.
se aproximou, colocando as mãos em meu rosto e fazendo-me erguer o olhar para ela. Ela estava sendo meu apoio e nem sabia disso.
– Eu e Caden vamos estar junto com você, você pode sentar em meu lado, e eu vou te ensinando. Escrever não é tão difícil assim, e nem ler.
– Para mim é. Eu nunca peguei um livro antes, nem um caderno para escrever. , eles vão tirar uma com a minha cara e...
– Ei, os dois para a sala. – O inspetor da escola apareceu.
– Já estamos indo. Vem, .

**


Chegando na sala de aula, todos olharam para nós. O professor ou professora ainda não tinham chegado. entrou primeiro e me olhou, pedindo que entrasse. Eu fiz isso e todo mundo olhou para mim.
– Galera, quero que conheçam um novo amigo. Esse é , ele é novo na escola, então quero que passem boas impressões, ok? – Todos riram, inclusive eu.
– Chega mais, .
Caden me chamou no fundo da sala, e eu fui. Notei que nos seguiu e sentou na mesma mesa que nós; tinha três lugares, eu sentei no meio dos dois. no meu lado direito, que dava para a parede, e Caden para meu lado esquerdo, no corredor.
– Nervoso? – Caden pergunta e eu concordo com a cabeça. – Normal, primeiro dia é assim mesmo, mas logo logo você se enturma, principalmente porque tem muitas gatinhas por aqui e...
– Caden! – Eu e o menino em meu lado rimos.
– Não precisa ter ciúmes, linda, sabe que só tenho olhos para você.
– Idiota. – jogou uma borracha em Caden, que desviou, rindo.
– Vocês são sempre assim?
– Somos primos. Minha função é irritar a .
– Ele é um irmão que sempre quis ter, mas é um chato.
– Que você ama.
– Quem disse? – ergueu a sobrancelha em desafio.
Caden ia responder, porém olhei para a porta da sala que abriu, mostrando o professor da aula. Ele parecia ter uns vinte e oito anos e parece ser o galã da escola, já que todas as meninas ficaram prestando atenção nele, inclusive .
– Boa tarde, turma. Preparados para mais um ano? – Todos responderam que sim. Olhei Caden, que me olhou da mesma forma, revirando os olhos. – Vejo que temos alguns alunos novos. Apresentem-se.
Congelei. Eu não queria ser notado tão cedo aqui. Olhei , que sorriu, incentivando-me a seguir mais umas cinco pessoas a ir lá na frente. Odeio apresentações.


Capítulo 9


POV :

estava tímido, e eu o compreendia. Viver na rua deve ser complicado, pois sempre tem aqueles que se aproximam de você para fazer você fazer algo que eles queiram, e nem sempre são de confiança, e agora ele estava em volta de um monte de adolescentes que tinham seus problemas, porém acima de tudo, não serão pessoas ruins e que o acolherão.
, o que ele tem? – Caden perguntou ao notar o mesmo que eu ao ver olhando para baixo.
– Ele só não está acostumado com muita gente.
– Conhece ele? – Ergue a sobrancelha e eu o olho. – Digo, onde se conheceram?
– Semana passada. Ele me salvou de um atropelamento.
Decidi contar meia verdade, pois sei que não iria se sentir bem ao me ver falando que ele era morador de rua. Não é que eu tenho vergonha e nada do tipo, mas só quero o proteger.
– Entendi.
Encerramos a conversa quando o último dos alunos novos se apresentou, e eu olhei , orgulhosa, e o mesmo me retribuiu, tímido, caminhando até a nossa direção. Ao se sentar, percebi que ele estava ainda tremendo, então segurei sua mão como uma forma de fazê-lo se sentir bem. me olhou, agradecido, desviando o olhar para o professor, apertando minha mão em um carinho, fazendo-me notar o olhar de Caden sobre nós como quem diz que iria me perguntar algo sobre isso mais tarde, só que ele não tinha com o que se preocupar.
– Como se sentiu? – Perguntei baixinho para , atraindo sua atenção. – Ao se apresentar, vi que você não falou muita coisa.
– Não sou bom com apresentações. Na verdade, não gosto que saibam sobre mim.
– E por que não?
– Porque podem usar isso para me atingir. Contar aos tiras, , eu não quero ser preso.
– Mas...
– Ei aí, turma do fundo. – Todos olhamos para o professor. – Silêncio, não vou repetir de novo. Poxa, estamos no primeiro dia de aula e já querem ser expulsos da sala?
– Não, professor. – Respondemos em coro.
– Ótimo, prestem atenção. Estava falando que, sim, vou começar já com os trabalhos escolares, não temos tempo a perder. – A turma respondeu com “ah” de frustação. – Não me venham com essa carinha.
– Poxa, professor, é o primeiro dia! – Caden resolveu dar o ar da graça, atraindo olhares para si. – Deixa para amanhã.
Toda a turma riu, até mesmo o professor, balançando a cabeça negativamente. Caden era um dos populares da escola, mas era o mais divertido. O que era incrível é que, mesmo indo em festas e não estudando, ele conseguia se dar bem nas provas. Como isso? Boa pergunta. Já eu só consigo ir bem na prova estudando pelo menos um dia antes e ainda com música, é melhor para me concentrar; sem música eu presto atenção até em uma mosca, do que no livro a minha frente.
– O que deixar para amanhã se pode fazer hoje, não é mesmo, Caden? – A sala riu. – Bom, voltando para o trabalho, é em dupla e para entregar amanhã. Eu quero que vocês façam um desenho relacionado à melhor coisa que aconteceu com vocês nessas férias.
Notei tremer e apertei mais a sua mão, o que o fez suspirar. Esse era realmente um passo difícil, mas só queria lhe passar tranquilidade e dizer que eu estava lá, que iria ajudá-lo.
– Podem usar o restante da aula para começarem.
A turma começou a se mover e olhou para mim, engolindo seco, notei que ele estava segurando-se para não chorar.
, você vai comigo? – Fiz uma cara que ele entendeu bem o que eu quis dizer. – Tudo bem, vou procurar outra pessoa.
Caden saiu na sala à procura de alguém para ser sua dupla, e a única que estava sem era Candy, a menina mais nerd da sala. Ela era na dela e era quieta. Do contrário que todo mundo acha, ela é muito legal, porém Caden tem uma implicação com ela, e tenho medo de onde isso vai dar. Mas tirando minha preocupação deles, volto para , que parecia estático em seu lugar.
– Calma, , eu te ajudo.
, eu não vou conseguir. – Sua voz estava trêmula e baixinha.
– Você vai. Não pense negativo, , você tem tudo para conseguir o que quer.
, eu nem tive férias. Como vou desenhar algo que...
– Tudo bem por aqui? – Professor Carl perguntou ao entregar duas folhas para rascunhos para mim e .
estremeceu sob o olhar do professor, que nos olhos confusos. Apenas sorri.
– Sim, professor.
– Tem certeza, ? – O professor apoiou as duas mãos na mesa, encarando-nos e parando seu olhar em . – Rapaz, não precisa ficar tenso, garanto que vai se dar bem com você.
– Não é isso, professor. – respondeu, e eu notei que ele não queria passar uma imagem errada para Carl. – Estou só nervoso com a mudança de colégio.
– Pode ficar tranquilo, aqui todos são legais e se importam uns com os outros.
Carl piscou para nós e saiu distribuindo as folhas, enquanto isso estava pensativo, queria tanto saber o que se passa naquela cabeça. Mas é melhor começarmos logo o trabalho. Peguei alguns lápis de cor, marcadores, compassos, tudo o que precisaríamos para essa aula sob o olhar atento de .
– O que está fazendo, ? – Sorri de boca fechada.
– Vamos começar o trabalho. – Seus olhos arregalaram quando me virei em sua direção com um lápis na mão. – Vamos, , não é tão difícil.
ficou um bom tempo olhando para o lápis até que decidiu pegá-lo e me olhou sem saber o que fazer.
– O que eu faço?
– Agora você desenha.
– Desenhar o quê? , eu moro na rua. Eu não tive porra de férias nenhuma, não sei desenhar, não sei fazer nada. – Ele estava começando a alterar-se, fazendo-me respirar fundo. – Como acha que eu vou conseguir fazer alguma coisa? Eu não vou.
se levantou da cadeira, saindo apressado da sala, enquanto todo mundo o seguia com o olhar. E, após a sua saída, os olhos do professor e toda a classe vieram até mim.
– Algum problema, ? – Professor perguntou.
– Não, nenhum... E-eu, eu posso ir no banheiro?
– Só não demore.

**


Procurei pela escola inteira e só o consegui achar atrás da quadra de esportes. Ele estava sentado no chão, os braços agarrados a sua perna, com a cabeça abaixada na mesma. Eu não o quero ver nesse estado. Queria poder fazer algo para o ajudar, mas o máximo que posso fazer agora é o acalmar. Sentei-me em seu lado, passando as mãos pelas suas costas, chamando sua atenção.
– Desculpe-me. – Pediu ele. – É só que eu estou nervoso ainda com esse lugar, toda essa gente, eles me deixam nervoso.
– Eles não vão te fazer mal.
– Eu sei, mas...
não terminou a frase, fazendo-me me perguntar por que ele tinha tanto medo de pessoas. Será que fora vítima de algo? Estremeci. Ele não merece passar por nada de mal.
Agradei suas costas no mesmo tempo que o sinal anunciou o fim da primeira aula. Vi suspirar, aliviado, e me olhar, enxugando o rosto.
– Você vai voltar para a sala?
– Vou. – respondeu, lançando-me um olhar sério. – Qual aula você tem agora?
– Biologia, e você?
– Duas de Educação Física. – Sorriu, triste. – , eu não quero ficar sozinho. Não aqui.
– Os meninos vão estar com você, fica calmo, ok? – Dei um longo beijo em sua testa.
– Vem, vamos para a sala.
Cada um foi para seu devido canto, e eu me senti sozinha na aula de biologia, perguntando-me como estaria com os meninos... A aula demorou a passar, é um saco quando você não tem a companhia de seus amigos. Só queria que o intervalo chegasse logo.


Capítulo 10


POV :

Eu só queria ir embora. Queria ir embora desse maldito lugar. Por que fui fazer essa merda de plano do ? Eu não queria. Eu preciso sair daqui o quanto antes e...
– Cara, olha a bola. – ouvi gritar.
Mas não consegui desviar e ela me acertou em cheio na barriga, e como não comia muito, doeu pra caramba, fazendo-me cair no chão de dor. Pressionei minha barriga com a mão e logo senti duas mãos me ajudarem a levantar.
– Você está bem, parceiro? – concordei com a cabeça, mesmo sabendo que era mentira. – Tem certeza, ?
– Sim, Caden, eu só não cheguei a comer hoje de manhã, e isso meio que me atrapalhou e...
– Treinador, podemos dar uma pausa? – perguntou. – Estamos mortos.
– Sabem que ainda têm mais uma aula, certo? – concordamos com a cabeça. – Prometem voltar?
– Claro. Só vamos na cantina comer algo. – piscou para mim como se estivesse aprontando algo. – Já voltamos.

**


– Vão querer o quê, meninos?
– Então, tia, eu vou querer um hambúrguer com batata frita, e você, Caden?
– O mesmo.
Todos olharam para mim e eu engoli a seco. Como eu iria falar que não podia comprar nada pois não tinha dinheiro? Não quero que gastem comigo, e sei que os meninos saíram da aula só para comprar algo para eu comer.
– E você, ? – perguntou, pois era o único que sabia de onde eu vim realmente. – Não vai comer nada?
– Não estou com fome. – respondi rápido e notei a troca de olhares entre ambos. – É sério, gente.
– Vê uma porção de batata frita com hambúrguer e um sanduíche para ele, tia, e tem como guardar mais um sanduíche para o almoço?
, não...
, para ser um bom jogador, você tem que estar com sua alimentação certa, e seu preparo físico também. Pode ficar tranquilo, ok? Eu e Caden vamos te ajudar. Eu tenho minha academia em casa e na escola também, podemos usar qualquer hora do dia, e você é meu convidado.
– Eu não quero dar trabalho. – falei baixinho, com vergonha de Caden. Acho que percebeu, pelo jeito que me levou até um lugar mais afastado. – , você sabe que não tenho como pagar esse lanche.
– Mas eu tenho. Aceite, , é um presente por você ter cuidado de aquela noite. Aliás, você tem algo para fazer hoje?
Se eu tinha? Dependia de , que agora colocou Ethan no meu pé. Meu plano de me afastar não deu muito certo, e eu tinha medo do que seria capaz de fazer aos meus novos amigos se eu não cumprisse o que ele falou. Porém não queria também que eles se preocupassem com minha saúde, eu sei me virar.
– Eu tenho que trabalhar à tarde.
– Pois tire esse dia de folga, você vai até minha casa hoje. e o pessoal também.
– Não posso, . – respondi com pesar. – O que seus pais vão achar de você levar um morador de rua para casa?
– Eles nem em casa estão, estão viajando.
– Eu preciso trabalhar e...
– Rapaziada, vamos comer. Temos que treinar muito ainda hoje.
Fomos até a mesa e meus olhos brilharam ao ver o tanto de comida que tinha em meu prato. Se eu conseguisse, se desse para levar para casa, eu ficaria muito feliz. Peguei o hambúrguer e comecei a comer rapidamente, minha fome era enorme, eu não tinha comido direito ontem.
– Cara, calma. Vai passar mal comendo rápido assim.
– Deixa ele, Caden. – respondeu e eu o olhei, agradecido.
– Tudo bem. Bem, voltando ao assunto... – enquanto comia, comecei a prestar atenção na conversa dos meninos. – Eu planejo dar uma festa esse final de semana, topam ir?
– Falou em festa, é comigo mesmo. – respondeu, animado, comendo seu hambúrguer.
– E a Amber? – perguntei, estranhando a animação dele.
Seu sorriso murchou e eu percebi que havia algo errado na relação daquele dois. Coisa que eles não deixavam transmitir, mas que incomodava.
– Cara, eu não sei... Eu a amo, de verdade, mas... Eu não estou mais aguentando essa pressão, sabe, que ela me dá.
– Pressão?
– Sim, , a Amber tem uma família que é bem rica, é uma das mais famosas de Vancouver. Tipo a minha família e da , só que ao contrário de nós dois, que não ligamos para o que nossa família pensa e os modos que elas falam que temos que ter para manter a boa imagem da família. Amber, no caso, digamos que é a filhinha do papai, não de um sentido ruim, mas ela é mimada demais, e seu pai sonha que o namorado dela curse pelo menos o mesmo curso que ele para dar um futuro para filha, mas não quer isso.
– E eu não suporto mentiras. Eu e ela estamos brigando demais nesses últimos dias por causa disso, pois ela acha que, mentindo para o pai que eu faço esse curso, nós podemos ficar juntos, mas a cada ida que vamos lá... Eu não suporto. Tenho vontade de sair correndo quando o pai dela começa a conversar de negócios.
– Ele sabe que você está na escola ainda?
– Sabe.
– Então não vejo motivo para você se preocupar com isso agora, . – aconselhei-o. – Só segue o que você acha melhor para vocês dois e para o relacionamento de vocês. Se você não está feliz mentindo, tenta conversar com ela sobre isso.
– Mas se eu fizer isso... tenho medo do que pode acontecer. – ele suspirou, cansado. – Amber pode ser bem teimosa quando quer e...
– Meninos, aí estão vocês. Vamos voltar para o treino agora, ou querem perder o próximo jogo?
– Claro que não, treinador. – respondeu, confiante. – Estamos indo. Tia, embrulha para a gente até a hora do intervalo?
Não deu tempo nem de terminar de comer, o treinador praticamente nos levou até o campo, e eu até que estava começando a gostar dessa coisa de jogar futebol. Os meninos eram bem pacientes comigo, principalmente , que era o capitão do time.
– Ei, novato.
Estávamos no vestiário, e eu nem cheguei a trocar de uniforme, só quando fui tomar um banho. Foi a melhor experiência para mim, fazia muito tempo que não tomava, e não era porque não queria, mas tinha vergonha, pois o único lugar que eu podia tomar banho seria a praça. Decidi lavar o uniforme e o vesti depois que já tinha que secado. Tínhamos uma hora de intervalo, então deu tempo tranquilamente e até sobrou.
– Hey. – respondi, vestindo a camiseta.
– O que está fazendo sozinho?
Olho para a porta do vestiário e tinha uma menina que estava no time de líderes de torcida enquanto treinamos. Não podia negar, ela era bonita, mas não era meu tipo. Ela vestia uma saia curta do uniforme e uma blusa que não chegava nem na metade da barriga.
– Estou indo encontrar uns amigos. Por quê? – franzi o cenho.
– Só queria lhe dar boas-vindas. – Ela sorriu, maliciosa, e eu engoli a seco. – E quem sabe podemos ser amigos, hãm? – aproximou-se, colocando as mãos em peito, no qual eu a afastei.
– É, quem sabe, agora tenho de ir.
Sai do vestiário rumo ao pátio da escola e, chegando lá, encontro Caden, abraçado com Amber aos beijos, e . Sorri. Essa turminha era gente boa.
– Olha ele aí. – anunciou. – Pensei que ia passar a eternidade no banheiro, cara.
. – o repreendeu, puxando-me para sentar ao seu lado na mesa, e assim eu o fiz, rindo – Não ligue, .
– Está tudo bem, . – sorri para acalmá-la.
, pegamos sua comida lá no refeitório. – estende as batatas e o sanduiche. – Ainda bem que eu não peguei ela com o Caden, porque senão você estaria ferrado.
– Hey! – Caden protestou, fazendo a turma rir, enquanto eu comia umas batatas. – Eu não como tudo isso não.
– Ah, não? – pergunta e Caden fez uma careta engraçada, mostrando o dedo do meio para a prima, que riu. – Lá em casa, quando o Caden vai, a comida vai para o ralo.
– Não tenho culpa se sua mãe faz uma comida maravilhosa.
começou a conversar com Caden e o pessoal sobre a ida na sua casa à tarde e final de semana para a festa de Caden, mas notei que não abriu a boca para opinar em nada, e isso de algum jeito começou a me deixar preocupado. Ela não era tão quieta assim.
– Hey. – chamei-a baixinho, mas ela estava tão distraída em seu próprio mundo que nem notou.
Peguei uma batata frita do prato, olhando de novo para , que estava deitada em cima da sua mochila, na mesa, olhando para a parede. Resolvi, já que estava distraída, aproximar a batata frita de seu rosto e fiz uma coceguinha com ela, afastando-a quando foi coçar. Segurei o riso baixinho e repeti a dose, dessa vez ela olhou em minha direção.
– O que houve, ? – perguntei baixinho. – Ficou quieta de repente.
Ela suspirou, roubando a batata da minha mão, comendo-a, e eu ri, fazendo-a fazer o mesmo. Tirei uma mecha com cuidado em cima do seu olho, enquanto a menina em meu lado me encarava com um olhar triste.
– São meus pais. – ela engoliu a seco. – Eles se mudaram de casa no dia em que te conheci, . – notei seus olhos lacrimejem e meu coração se apertou. – Eu não sei por que, mas eu estou com uma sensação de vazio aqui dentro. Estou sentindo-me sozinha.
Entendo como é essa sensação, eu passei meus dezesseis anos sentindo-me sozinho, perguntando-me por que meus pais não me quiseram? Por que eu tive que morar na rua? Pela história que me contou, ele me achou, e eu achei na rua. Suspirei. Ela não merecia passar por isso.
– Você não está. – agradei seu cabelo, fazendo ela sorrir, e isso aqueceu meu coração. – Eu estou com você. Seus amigos estão com você.
– Mas... diz que eles não me abandonaram, mas por que eu sinto ao contrário, ? – suas lágrimas desceram em seus olhos e eu as sequei. – Sabe, eu nunca fui a filha perfeita que eles tentaram criar, eu queria ser livre, não ter tantas regras, só porque eu era filha do casal mais rico da cidade. – ela sorriu, irônica. – E por isso eles me odiavam. Dizem que...
O sinal do final do intervalo tocou, interrompendo , que suspirou, limpando o rosto.
– Qual a aula de vocês, galera? – perguntou, abraçado a Amber.
A maioria respondeu que era matemática, igual a minha. , , Amber e eu tínhamos matemática. e Caden tinham português. E vamos lá de novo passar vergonha na frente de todos. Eu queria tanto saber ler e escrever.

**


Eu, e estávamos na casa dele que era de frente para o mar, assim como a de , já que eles eram vizinhos. estava na cozinha, olhando a janela que dava em direção ao mar. Queria tanto poder fazer algo para ajudá-la.
– Hey. – cheguei perto dela, fazendo-a pular, curvei-me no balcão que estava separando-nos e ela me olhou. – Tudo bem?
– Tudo sim. – sorri e ela retribuiu. – E aí, o que achou da escola, ? – Ela se curvou no balcão a minha frente, sorrindo sapeca. – Não foi tão ruim, foi?
– Eu nunca tinha passado tanto tempo com o pessoal da minha idade sem eles me julgarem, , eu adorei. – sorri alegre e ela segurou minha mão, fazendo-me estremecê-la, porém apertá-la com mais força. – Mas estou com medo de não conseguir escrever, de não conseguir a ler.
– Você vai, sabe por que? Porque eu vou te ensinar.


Capítulo 11


POV :

Já eram sete da noite, e as ruas em Vancouver nesse horário, principalmente nesse bairro onde morava, eram bem frequentadas, e se eu saísse agora, conseguiria um bom dinheiro para amanhã.
– Bom pessoal, eu tenho que ir.
– Mas já, ? – perguntou. – Dorme aqui hoje, cara.
Eu não podia, não os queria incomodar. Na verdade, não poderia me apegar a eles, porque se eles descobrissem o motivo real que eu estava nesse colégio, iriam me odiar, e eu não queria perder as únicas pessoas em quem eu poderia confiar.
– Sabe que não posso, você já me emprestou suas roupas, não posso aceitar isso também.
, de tarde, quis porque quis me emprestar uma roupa para não ficar de uniforme, e eu não tive escolha a não ser aceitar. O resto da tarde passamos fazendo o trabalho de amanhã da escola, e foi bem paciente comigo ao me ensinar a desenhar e a escrever algumas palavras, confesso que eu estava levando o jeito. Ela me ensinou a escrever meu nome, e eu já fiquei muito feliz por isso.
– Eu não ficaria incomodado, é muito perigoso essa hora e...
– Eu já estou acostumado, conheço bem as ruas de West End. Prometo aparecer amanhã na escola, de verdade.
– Bom, se prefere assim, sabe que pode voltar aqui quando quiser, cara.
se levanta junto com e vamos até a porta. bateu no meu ombro, sorrindo como uma despedida, e me abraçou, que retribuí encostando minha cabeça na sua.
– Vou sentir saudades.
– Eu também, . – beijei seu cabelo. – Mas vamos nos ver amanhã, ok?
– Fique bem essa noite, por favor.
Ela se afastou e eu sorri quando ela olhou em meus olhos. era especial e ela nem sabia disso. Ninguém teria a coragem que ela teve de me ajudar, de ficar perto de mim.
– Vou ficar. – pisquei para ela.
me deu uma mochila com meu uniforme e minha outra roupa, peguei-a, e quando sai da casa, olhei novamente para os dois e acenei, que ficaram ali até a hora que não me veriam mais. Assim que me afastei da casa, caminhei em direção ao centro da cidade, que não era muito longe de onde eles moravam. As ruas estavam um pouco iluminadas, e quando olhei para o céu, vi que hoje a noite era de lua cheia e o céu estava todo estrelado, esse era o maior motivo que eu gostava de morar na rua, de poder notar o céu.
Só que um barulho dentro da minha calça nova me chamou a atenção, e eu não me senti nada feliz por ter feito o que eu fiz. Coloquei a mão no bolso e tirei o objeto dali, engolindo a seco, sabendo que aquele pertence não era meu. Era de . Era um relógio de ouro, e eu sabia que daria muito dinheiro, mas não era para mim, eu não ficaria com esse relógio, era tudo parte do plano de . E eu estou sentindo-me um lixo por ter roubado enquanto eles não estavam vendo. Mesmo eu tendo hesitado, eu fiz. E sei que fiz errado, mas se eu não fizesse isso... muitas vidas estariam em perigo.
Senti um empurrão e quando vi estava em um beco com com um braço embaixo do meu pescoço e uma cara nada feliz. Engulo a seco, sentindo um soco no meu rosto, que me fez cair no chão, tossindo. tomou minha mochila, tirando todos os meus novos pertences, enquanto um capanga pisou literalmente em cima das minhas costas, obrigando-me a ficar no chão. Arfei de dor.
– Olha, olha, senhor . – olho-o de soslaio, arfando de dor. – Conseguiu novas roupas, foi? – fico quieto, tentando me levantar, mas o garoto acima de mim me chuta novamente e eu me viro, conseguindo ficar de barriga para cima pelo menos. – Conseguiu pegar o que combinamos?
olha para mim, derrubando minha mochila no chão, com raiva, abaixa-se até minha altura, tirando um canivete de seu sapato, olhou rindo do objeto para mim, e eu confesso que tremi. Ele nunca tinha agido assim comigo.
– Ainda não. – falei baixo, gaguejando. – Eu preciso de tempo, não é tão fácil roubar vários alunos daquele colégio.
– Eu não tenho tempo, . – aproximou-se com o canivete em meu rosto, fazendo-me afastar a cabeça do mesmo. – Nós não temos. Você sabe o que eu quero, ou melhor, QUEM eu quero, e você tem até um mês para me trazer essa pessoa. Aí quem sabe poderemos conversar sobre você voltar para o grupo.
– Eu não quero voltar para grupo nenhum, , eu quero viver livre de você, porra, me deixa em paz.
Consegui me levantar e avancei no mesmo, derrubando-o no chão. Dei uns bons socos em seu rosto, mas ele conseguiu me segurar, ficando para cima de mim. Pegou o maldito canivete, fazendo-me levar um susto quando parou no meio do caminho do meu peito. Ele pareceu hesitar, e nunca hesitava. Ao contrário de me matar e me deixar soltar minha respiração, ele escutou um barulho da minha calça e, quando alcança o objeto que estava no bolso, seus olhos mudaram para um olhar sanguinário que realmente me deu medo.
– Bom garoto. – sorri para mim, enquanto eu desvio o olhar. – De quem é?
Não respondi, fechando os olhos. Eu não teria coragem de entregar para ele e iria devolver amanhã, mas... o achou antes, e vendo que não respondi, segurou a gola da camisa, obrigando-me a olhá-lo.
– Não me faça perguntar de novo, veloz.
– De um amigo.
– Meu garoto já está voltando às origens. – sorriu, levantando-se. Apoiei as mãos na calçada para tentar levantar, porém ele me dá um outro soco no rosto, fazendo-me cuspir sangue. – Isso é por você esconder de mim esse relógio, que claramente vai resolver um mínimo dos nossos problemas. – Chutou-me na barriga, fazendo-me apertar a mesma com os braços, de dor, e me encolher, arfando. – Isso é para você lembrar do seguinte recado: continue roubando essas coisas pequenas até não conseguir o principal, mas se você tiver uma oportunidade de exercer o que combinamos e não cumprir, ... – ele riu, sarcástico, aproximando-se do meu rosto, fazendo-me olhar bem dentro dos seus olhos, suando. – Você irá pagar caro, está entendendo? E eu não estou falando de dinheiro.


Capítulo 12


POV :

e eu combinamos de passar em e pegá-la para o colégio. Aproveitei e já dei um carinho em minha cachorrinha, Kitty. Estava com saudades, agora erámos apenas eu e ela. Eu sei que uma hora ou outra meus pais iram aparecer, mas não estou preparada para encontrá-los agora. E, bem, eu tenho meus amigos, eles são minha família, e sem eles eu não sou nada.
, aquele ali não é o ? – pergunta, olhando para a calçada.
– O que aconteceu com ele? – pergunta, assustando-se.
Meu coração começou a acelerar ao vê-lo andando mancando e segurando a barriga. Eu sabia, não deveria tê-lo deixado ir.
, para o carro.
Meu amigo fez imediatamente o que eu pedi, encostando o carro na direção de , e eu saltei do carro, indo até o mesmo, que se assustou ao me ver.
, o que aconteceu? – Perguntei, preocupada, pegando em seu rosto. – Meu Deus, quem fez isso com você?
Seu olho estava com um roxo, a sobrancelha estava avermelha e a boca do mesmo jeito. olhou para baixo, parecendo envergonhado, e eu o fiz o erguer o olhar para minha direção. Queria demonstrar de algum jeito que ele podia confiar em mim, que eu irei cuidar dele e ele não precisava ter vergonha disso.
– Ninguém, .
– Ninguém? – Ri, nervosa. – Você não consegue esses machucados sozinho, . O que houve depois que você saiu de casa?
– Nada. Não importa, eu estou legal. está buzinando, a gente se encontra na escola.
– Nada disso, você vem com a gente e vai direto para enfermaria.
...
– Sem “mas”, .
Peguei sua mão, ouvindo-o bufar, mas me seguir. Se ele não se importa consigo mesmo, eu me importo com ele. ficou atrás com , e eu fui na frente com . A cada solavanco que o carro dava, observava fazer careta.
– Tudo bem, cara? – perguntou, olhando-o pelo espelho.
– Tudo, sim. Daqui a pouco passa.
– O que houve?
– Nada que vocês precisem se preocupar.
– Você é nosso amigo. – disse, surpreendendo-me. – É claro que nos preocuparemos com você.
– Foi só uma briga, eu estava no lugar errado e na hora errada. – Sorri, sem jeito.
– Você deveria ter ficado lá em casa, . Isso não teria acontecido.
– Eu estou bem, de verdade, galera.
se encostou no banco, ficando em silêncio e olhando para a rua. Olhei , fazendo-me ter certeza que ele estava pensando o mesmo que eu. Mais tarde teríamos uma conversa com para conseguir convencê-lo que ele poderá ficar na nossa casa, sem problemas nenhum. Eu o entendendo, e também não queria estar dependendo dos meus amigos, de morar na casa deles, mas... amigo é para isso, não? Para nos ajudar em tudo.

**


Cheguei na sala de português, onde teria aula, e notei que cheguei cedo demais. Soube que também teria essa aula, porém o obriguei ir com para a enfermaria. foi para sua aula, e até agora não vi nenhum sinal nem de Amber e nem de Caden, e isso é estranho. E como me vi sozinha com o professor, não seria nada mal fazer uma ajuda ao , certo? Ele entenderia, não é?
– Professor? – Chego em sua mesa e o mesmo me olha, sorrindo.
– Hey, , vejo que chegou mais cedo hoje. No que posso ajudar? – Professor Harry cruzou os braços, olhando-me sério.
– O senhor conhece meu amigo , né?
– Claro.
– Então será que o senhor podia me ajudar com ele? – Professor Harry me olhou, confuso.
– Como assim?
é um garoto de rua, professor, e eu peço, por favor, não conte isso para ninguém e nem para ele que eu te contei, mas é que... me ajudou, e eu queria o ajudar. Ele não sabe ler e nem escrever, eu tenho o ajudado nas tarefas, mas sei que ele precisa de mais alguém o ajudando, algum profissional.
– É sério isso? – Harry perguntou e eu concordei com a cabeça. – Eu bem que estava percebendo na aula de ontem, ele teve algumas dificuldades, mas... nunca imaginaria isso. É claro que eu ajudo, . À tarde eu tenho um tempo livre, posso dar aula de reforço para ele sem problema nenhum, mas irei contar com sua ajuda também.
– Tudo bem, professor. Obrigada, de verdade.
– De nada. – Ele sorriu.
O sinal da aula bateu no momento em que chegou na sala junto com , que só veio deixá-lo e ir para sua aula de educação física. Aproximei-me, e quando fui passar o braço dele por cima do meu ombro, se afastou.
– Eu consigo andar, . – Ele me olhou, envergonhado, e foi para o final da sala, sentando na última carteira do canto da parede.
– Tudo bem, garoto? – Professor Harry perguntou.
– Tudo sim, professor.
Os alunos restantes entraram na aula e eu fui para meu lugar, que era ao lado de . Hoje o único que teria aula com a gente era o Caden, mas ele até agora não tinha chegado. Ouço um gemido, enquanto o professor faz a chamada, fazendo-me olhar para a direção do som. estava com uma mão na barriga e fazendo careta. É, ele era um péssimo ator.
– Hey... – segurei sua mão, atraindo seu olhar. – Tem certeza que está legal?
– Já disse que sim, que saco, , foi só uma briga, eu não estou morrendo por causa disso.
se afastou da minha mão, e eu fui responder ao professor que me chamou meu nome. nunca foi grosso desse jeito comigo, e eu não entendo a dele, eu só quero ajudar, por que ele não aceita minha ajuda? Ele é meu amigo, poxa. Eu já perdi minha família, não posso perder eles também.
– Bom, alunos, abram seus livros na página 10, hoje vamos corrigir a tarefa da aula da passada, e eu vou começar com a matéria, que um dos exercícios incluem uma redação.
Ao decorrer da aula, observo tenso com a explicação do professor, e não só ele estava estranho, como meu primo. Ele sabe que não pode usar óculos e nem boné ou toca na sala e, ainda assim, insiste em usar hoje. também percebeu isso.
– Por que não tira esses óculos, Caden? – perguntou, brincalhão.
– Por que não fica na sua, pirralho?
– Ei, Ade, não precisa falar com ele! – Meu primo nunca foi grosso com ninguém.
– Está tudo bem, . De verdade.
– E não me chame de “Ade”, sabe que não gosto. – Meu primo me olhou, sério.
– Por isso mesmo que vou chamar você assim.
– Ah, não me enche, garota.
Caden levantou da mesa e saiu da sala, mas uma coisa me intrigou ao ver ele mexendo no bolso do moletom dele, hoje não estava tão frio assim para usar moletom. O que Caden está aprontando?
– Eu vou lá falar com ele. – se levanta quando o professor nos olha, estranhando o movimento da sala. – Tudo bem eu ir, professor?
– Claro, garoto, mas não demora que ainda quero conversar com você e com você também, .
As coisas estão estranhas por aqui, e eu não estou gostando disso. Primeiro, Amber e Caden chegam atrasados, depois todo machucado e agindo diferente comigo. O que está acontecendo com todo mundo que eu não sei?


Continua...



Nota da autora: Ishh... pegou pesado agora para o Luke em? ( nosso pp ), Oq será que Max ( Dono do bairro ) está tramando? O que ele quer tanto naquela escola que precise influenciar nosso pp a fazer o que ele não quer? E Jack, será que vai notar o sumiço do seu relógio? Muitas novidades estão por vir amores. Comentem ai embaixo sua opinião. Isso é muito importante para mim! Espero que estejam gostando da fic até aqui <3





Outras Fanfics:
You Me And A Baby
She Forgot Us
Always Forever
Duas Irmãs e os Winchesters


Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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