Última atualização: 27/10/2020

Prólogo

A vida sempre foi uma caixinha de surpresas para mim. As coisas nunca pareceram sair da melhor forma, e tudo sempre pareceu como se fosse explodir em um caos a cada minuto que passava. Quando ele veio falar comigo, no corredor, eu pensei que tinha encontrado tudo que sempre pedi. Ele tinha um sorriso fácil e olhos azuis que criaram borboletas no meu estômago. Infelizmente, essas borboletas causaram um terremoto ainda maior na minha vida quando ele me apresentou seu melhor amigo. Nunca pensei que teria coragem de machucar quem mais me amava, e agora, mesmo depois de morta, a vida ainda está me cobrando por todas as escolhas erradas que fiz. E aquela noite foi a pior decisão que eu tomei.


Capítulo Um

Eu acho que nunca realmente tive medo de morrer. Nunca encarei a morte como algo terrível que eu precisasse temer ao sair de casa, ao dormir, ao ficar doente, ou apenas ao viver. Não fazia muito sentido ter medo de algo que inevitavelmente aconteceria. Por outro lado, eu tinha medo de coisas mais idiotas. Eu tinha medo de ficar sozinha. Eu tinha medo de decepcionar minha mãe, mesmo que ela nunca tenha parecido se importar o suficiente com o que eu fazia. Eu tinha medo de perder meus poucos amigos. Eu tinha medo de viver errado. Eu vivi errado? Talvez eu apenas tivesse desperdiçado a minha única chance de existir de uma maneira idiota.
Meu maior medo nunca foi morrer, mas sim não viver o suficiente.
E era isso que eu pensava encarando aquelas pessoas andando de um lado para o outro como se realmente estivessem atrasadas. Eu não conhecia ninguém, mas podia afirmar que eles não tinham para onde correr. Eles estavam mortos. Nós estávamos mortos. Então por que parecia que eu estava mais morta do que todos ali?
- . – John disse assim que se sentou ao meu lado.
Não levei meu olhar até ele para precisar saber que meu amigo parecia tão focado quanto eu estava, encarando todas aquelas pessoas.
- Por que eles fingem tanto em parecer vivos? – perguntei, realmente curiosa. Talvez John soubesse responder, ele estava lá há mais tempo do que eu.
- Acho que é para não enlouquecer. – assenti, confiando em suas palavras. Eu acho que entendia esse sentimento. Eles estavam tentando parecer vivos porque estavam com medo de perceber que estavam mortos. - Vai pegar outro Caso?
- Acho que sim. – dei de ombros, finalmente o encarando. Seu rosto era tão sereno que quase me fazia acreditar que estávamos realmente no céu, e John era apenas um anjo. - E você?
- Algo novo também. – assenti, voltando a olhar para minha frente. - Como você está? – senti seu olhar preocupado pairando em cima de mim.
- Bom, é meu aniversário, né? Parabéns para mim. – bati palmas com uma falsa animação.
- Não estou falando sobre isso. – é, eu sabia que não. Nem era meu aniversário real, mas apenas a data que eu havia sido atropelada por um motorista bêbado. Com um plus adicional, na semana do meu casamento. - Quero que me diga a verdade, . – virou seu corpo para ficar em frente ao meu, mas eu permanecia imóvel.
- Eu não sei, John. – respondi com sinceridade. – Eu não sei se consigo sentir alguma coisa ainda.
- Oh, não seja tão amargurada, . – tentou brincar. – Você não está tempo o suficiente aqui para esquecer seus sentimentos.
- Foi isso que aconteceu com você? – o encarei e ele permaneceu sorrindo, como se aquela não fosse uma pergunta muito direta ou ruim. Mas era, certo? Eu tinha perguntado, literalmente, se ele ainda se lembrava como era ter sentimentos.
- Eu só tento ver as coisas pelo lado bom...
- Você sempre tenta ver tudo pelo lado bom, mesmo que não exista. – o interrompi.
- Sempre tem lado bom em alguma coisa, . É como queimar um bolo, por pior que ele pareça, tem alguma parte perdida no meio daquela massa que deve ter dado certo. E, acima de tudo, você aprendeu e vai ser mais fácil acertar da próxima vez. - sorri, de maneira sincera dessa vez, porque John era capaz de fazer isso com qualquer um.
- Mark me chamou dessa vez, o quão estranho é isso? – pelo jeito que John vacilou, eu pude perceber que sim, talvez fosse um pouco estranho, mas sinceramente, o que de pior podia me acontecer?
- Não deve ser nada demais. – resolveu dizer após um tempo em silêncio, muito mais longo que o normal.
- O Esquecimento é tão bom como dizem? – resolvi mudar de assunto quando, mais uma vez, uma mulher que parecia ter em torno de 80 anos ganhou minha atenção ao fundo do Salão. Ela parecia muito mais animada do que a maioria das pessoas ao seu redor. Talvez morrer tenha sido bom para ela.
- Eu imagino que sim, afinal, não estamos todos tentando consegui-lo? – assenti lentamente, porque eu acho que aquela era a coisa certa a responder. Afinal, eu queria esquecer, não queria?
Eu queria esquecer minha família caótica. Eu queria esquecer meus dias de universidade, que eu ficava no quarto sem aproveitar minha vida. Eu queria esquecer o dia que eu o conheci. Eu queria esquecer o dia que me entreguei. Eu queria esquecer o dia em que chorei por ele. Eu queria esquecer o dia em que eu fiz a pior decisão da minha vida. Eu queria esquecer o dia que estraguei meu noivado. Eu queria esquecer o dia em que machuquei a única pessoa que me fez bem. Sim, eu queria esquecer.
Mas no fundo, desde que eu havia morrido, eu não conseguia me impedir de lembrar.
*

- Olá. – disse, assim que fechei a porta atrás de mim. Como eu esperava, Mark estava sentado em uma grande cadeira branca atrás de uma mesa tão espaçosa como deveria ser para o suposto Líder daquele lugar. Eu não costumava fingir nenhuma simpatia por ele. E Mark não parecia se importar em ter que lidar com toda a minha fúria. Talvez ele estivesse acostumado. Eu não me importava o suficiente para querer descobrir.
- Obrigado por vir. – caminhei em sua direção e ele me apontou o sofá à sua frente.
- Não é como se eu tivesse muita opção, não é mesmo? – e estava lá. Anos de amargor que eu nunca tinha tido a coragem de soltar. - Pode me dizer rápido? Eu tenho uma morte muito atarefada.
- Imagino que tenha. – não sorriu, mas também não fechou a cara. Ele parecia muito mais um robô do que morto. Talvez fosse assim que as pessoas ficassem quando conseguiam o Esquecimento. Ou pior, quando não conseguiam, mas já estavam mortos tempo o suficiente para se esquecer de sentir coisas. - O seu próximo Caso é mais complicado que o normal...
- Uau, aparentemente, vocês estão empenhados em destruir a vida das pessoas né? – falei ironicamente. – Quer dizer, dar um Caso complicado para o pior Anjo realmente não me parece uma boa ideia.
- Você é um bom Anjo. – afirmou parecendo realmente sincero, mas quem sabe? Não é como se tivesse algum sentimento para ser lido naquele rosto. – Confiamos que apenas você conseguirá resolver isso.
- Claro... – revirei os olhos, tentando trazer o máximo de cinismo para conversa. – Enfim, você precisava me chamar aqui para falar isso? – continuei, ao perceber que ele não tentaria brigar comigo. O que era muito mais irritante.
- Não... – indiquei para que ele continuasse, e eu percebi que esse era um dos momentos que a pessoa iria respirar fundo para se preparar antes de contar algo ruim. Mark só permaneceu me encarando, ele não respirava, então não tinha muito o que ele fazer antes de contar seja lá o que ele estivesse pensando. – Você vai voltar, .
E estava ali, mais uma daquelas sensações que eu só conseguia me lembrar, e não mais sentir. Se eu tivesse um coração, ele teria parado. Se eu estivesse uma respiração, ela teria saído errado e virado uma tosse. Mas tudo que eu conseguia fazer era piscar e encará-lo.
- Voltar? – perguntei, torcendo para que eu tivesse entendido errado.
- Eu sei que é difícil, voltar tão rápido...
- Não, você não sabe de nada. – gritei, o interrompendo. Levantei-me da cadeira em um pulo, e sim, eu sei que seria capaz de quebrar tudo ao meu redor, matar aquele homem com as próprias mãos, mas não havia nada ali para estragar. Nem ninguém vivo para morrer.
- , me escute. – voltou a apontar o sofá, mas o ignorei. – Eu sinto informar que eu já tomei minha decisão. Você precisar pegar suas papeladas hoje mesmo...
Não esperei que ele terminasse e sai da sua sala, batendo a porta atrás de mim com mais força do que as pessoas estavam acostumadas a usar na Central. Os poucos rostos que estavam ao redor me encararam com pena, como se fosse apenas mais uma pessoa que tivesse enlouquecido naquele lugar.
*

- Voltar? – perguntou John, assim que eu contei sobre a minha reunião com Mark.
Estávamos em um lugar afastado da confusão de corpos indo e voltando, literalmente, para a morte e para a vida. Nunca pensei que o céu fosse ser daquele jeito, mas para ser sincera, nunca pensei muito em como ele seria de qualquer forma. Não vim de uma família muito religiosa, então tudo que eu sabia sobre Deus era o básico que qualquer pessoa conhecia. Ele tinha criado o mundo e pedíamos coisas para Ele em momentos de desespero.
Ele não existia, aparentemente, ou se existisse talvez eu não tivesse sido boa o suficiente para encontrá-lo ainda. Mesmo assim, eu estava desesperada, então, no fundo, eu pedia para que Deus matasse Mark e colocasse seu corpo em um inferno pior do que esse.
- Eu não posso fazer isso. Eu não consigo. – disse, derrotada, antes mesmo de começar a lutar.
- Claro que consegue. - o encarei, nervosa, procurando qualquer tipo de emoção no rosto do meu único amigo, que sinalizasse que ele estava brincando. Não encontrei nada. Se fosse possível, ele estava mais fechado do que já esteve antes.
- Vocês enlouqueceram. – o repreendi. - Como eu vou voltar tão rápido? Eu não posso não voltar e não correr para ele... Eu preciso saber o que aconteceu depois que eu morri.
- Você quer, mas não precisa saber, . Já se passaram três anos, seja lá o que tenha acontecido, não importa mais. - ele não podia realmente estar falando sério comigo.
Levantei-me, mais uma vez abandonando uma conversa naquele dia. Eu amava John, eu realmente amava. Ele tinha me ajudado em todos os meus momentos naquele lugar, mas as vezes eu esquecia que o garoto era quase um advogado de defesa se tratando de Mark e a Central.
Ele, acima de qualquer pessoa, sabia que eu não poderia voltar à vida. Ele sabia porquê eu o contei tudo. Contei toda a minha vida, todas as minhas escolhas e todas as razões que me fizeram morrer tão jovem. Então ele sabia. John tinha que saber que eu correria para . Eu correria para o que sobrou da minha vida, nem se fosse apenas para ter certeza que eu estraguei tudo. Eu voltaria como um assassino sem coração volta para o local do crime, só para ver se ele conseguiu terminar o que começou.
Então ele não podia dizer que não importava, porque eu sabia que sim. me amava e eu queria saber se ele tinha se apaixonado de novo. Se ele guardava nossas fotos no mesmo álbum de sempre. Se ele, às vezes, visitava o meu túmulo e pensava em mim. Eu precisava saber se ele tinha me tirado da sua vida ou se ele tinha me perdoado. Eu precisava saber, porque eu não queria me esquecer. Eu não queria me esquecer o que era ser amada. Eu não queria que ele me esquecesse.
Nesse impulso, eu corri para o lugar onde eu conseguiria minha nova vida. Já sabia andar por todos aqueles andares. A Central era como um grande prédio com andares infinitos, você nunca sabe se chegou no primeiro, mas sabe que, com certeza, não está no último. Era quase um looping infinito. John me mostrou todos aqueles corredores, então eu sabia o que fazer para encontrar o Departamento de Realocação, mesmo que não tivesse esperado Mark terminar de falar.
O Departamento, diferente de todos os outros andares, não era uma confusão completa. Tudo era milimetricamente organizado, ainda que com o mesmo branco do resto da Central. Diminui o passo e aproximei-me lentamente de uma grande recepção com o mesmo balcão branco de sempre. Sentia falta da sensação de respirar fundo antes de fazer uma loucura. Acho que aquela era sensação de que eu mais senti falta hoje.
- . – a mulher à minha frente disse com mesmo sorriso robótico, antes mesmo que eu me aproximasse por completo. Queria saber como ela sabia meu nome, mas sabia que era inútil perguntar. - Eu estou feliz que tenha vindo tão rápido.
- Quanto mais cedo começar, mais cedo termina. - tentei soar confiante, e não parecer como se eu estivesse prestes a, literalmente, desmoronar.
- Eu imagino que seja verdade, mas quem sabe como o tempo funciona? Eu nem me lembro mais. – assenti, quase que com pena. Eu não queria virar um robô como ela. - Bem, venha. Eu tenho um corpo perfeito para você. – ela se virou e eu a segui pelo que parecia um necrotério. De longe, o lugar mais assustador que eu tinha visto nos últimos tempos. Todas aquelas gavetas guardando corpos de pessoas mortas. Corpos que outras pessoas usavam como hospedeiros.
- Os nossos corpos vêm todos para cá? – perguntei, evitando olhar ao meu redor, me focando nas costas à minha frente.
- Sim, claro. - pelo jeito que respondeu, eu já deveria saber desse tipo de coisa. John deve ter deixado todos os lados sórdidos da Central de fora da minha apresentação, e eu o agradeci mentalmente por isso. - É mais prático caso a gente precise voltar.
- O meu está aqui também?
- Ah, com certeza, mas você morreu há pouco tempo então não serve ainda. – assenti, sabendo que ela não ia ver meu gesto, e ignorando seu comentário, que poderia ser maldoso em todos lugares, mas não na Central. – Mas esse aqui sim.
Quando ela apontou para uma das gavetas à minha frente, eu não abri. Ela pareceu perceber que eu não estava tão confortável quanto ela naquele lugar e resolveu me entregar uma pequena pasta, não deveria ter mais do que duas páginas.
- É sobre o meu Caso? – encarei o papel, pensativa.
- Ah, não. Eu só cuido da Realocação. Esse será seu novo corpo. – continuei a encarando, esperando mais informações que não vieram. - Vamos lá, abra. Eu adoro ver o rostinho de vocês nesse momento.
- Claro. – aquela mulher era louca. Eu tinha certeza disso. Abri a pasta e a primeira coisa que vi foi a foto de uma mulher, que deveria ter a mesma idade que eu, cabelos negros e um sorriso brilhante. Tudo que eu conseguia pensar era se ela ainda estava ali. Como será que ela morreu tão nova? Será que ela ficaria chateada de eu usar o corpo dela?
- Ela é linda, não é?
- É. – respondi, ainda olhando para aquele rosto que logo seria meu. – Ela ainda está aqui?
- Isso importa? – mais uma vez, aquilo deveria ter sido rude, mas não foi.
- Para mim importa.
A mulher voltou a andar, mas dessa vez para fora daquela sala de corpos, e eu voltei a segui-la. Estava esperando que ela me respondesse. Mas, sinceramente, eu já tinha me arrependido de perguntar. E se ela tivesse passado do meu lado em algum momento? Agora eu procurava seu rosto na minha cabeça, para saber se já tinha esbarrado com ela pelos corredores.
- Você viaja amanhã. – ignorou completamente minha pergunta.
- É só isso? – guardei a imagem na pasta. – Uma foto e só?
- Tem o nome dela também, você pode usá-lo ou inventar outro para você. Sinceramente, isso é o de menos. – pelo jeito que ela me encarava, eu deveria ficar feliz em saber tudo aquilo.
- Alguma regra que eu deva saber?
- Nada que você já não saiba. – assenti, sem ânimo.
Agradeci pelos piores momentos da minha morte e resolvi correr de volta para John. Não queria ir embora chateada com ele. Tecnicamente, eu iria morrer de novo, então iria aproveitar e me despedir de quem eu gostava. Se eu tivesse feito isso três anos atrás, talvez hoje fosse mais fácil. Pensando nisso, eu queria que o amanhã não fosse tão terrível como está sendo agora.
*

Assim que voltei ao andar que ficava geralmente, não demorou muito para que eu encontrasse John no mesmo lugar de sempre. Observando-o de longe eu gostava de imaginar como tinha sido a sua vida. Ele parecia mais novo do que eu, mas não menos de vinte anos. Ainda assim, ele estava lá há bem mais tempo. E odiava perceber que quanto mais tempo eu o conhecia, menos ele parecia com o menino que encontrei no meu primeiro dia aqui.
Aproximei-me dele lentamente, passando minhas pernas pelo banco para sentar virada para ele. John me encarou com o mesmo sorriso de sempre, mas era sincero? Feliz? Triste? Eu não podia mais afirmar com tanta certeza.
- Acho que não falta muito para eu ir embora. – comentei, olhando para a pasta que estava em minhas mãos, no meu colo. Sentiria falta dele nesse meio tempo.
- Eu vou te visitar. – o encarei, surpresa. – Eu vou estar com um novo Caso, então vou ter passe livre para ir e voltar. – explicou.
- É uma menina ou um menino? – John não era um Anjo como eu, na verdade, eu considerava seu trabalho mais difícil. Ele precisava cuidar da vida da pessoa, e quase que preparar terreno para um Anjo. Quando ele percebesse que a pessoa estava pronta para se apaixonar, nós entramos em cena.
- Na verdade, ela é adulta já. Mulher. – assenti. Não era muito comum, geralmente, eles cuidavam de adolescentes, mas não resolvi perguntar mais sobre.
- Então não vai nem ter tempo para você sentir minha falta? – brinquei, algo que eu raramente fazia, mas estava nervosa então estava agindo da maneira menos pessimista que eu conseguisse.
- Definitivamente, eu vou sentir sua falta. – seu sorriso era tão largo que surgiram marcas ao redor dos seus olhos. E eu fiquei muito pior do que estava antes, pensando no dia que ele perderia aquele sorriso e seria como todos os outros robôs naquele lugar. – Talvez seja ótimo para você.
Eu sabia que ele apenas estava tentando ser gentil. Um dos grandes problemas em um Anjo voltar, era o fato de muitos irem atrás de seus familiares, por esse motivo tinham regras muito claras nas quais pessoas com menos de dez anos de morte não voltavam. Eu tinha três. Não entendia por que as regras não estavam funcionando naquele Caso.
- Eu vou correr para ele. – avisei em um sussurro. Não era uma possibilidade. Era um fato. Eu iria estragar tudo.
- Se eles te mandaram para lá, é porque eles acreditam que você não faria isso. Vai dar tudo certo. – eu vi quando ele pegou minhas mãos e se aproximou para um abraço que deveria ser reconfortante, mas não era. Aquele abraço não era nada para mim, e nem para ele. Eu já estava morta tempo o suficiente para esquecer o que era sentir o abraço de alguém.
*

Depois do que poderiam ter sido horas ou minutos com John, e alguns passeios para poder ver quem de novo tinha morrido, eu resolvi que já estava na hora de encarar a realidade: Eu estaria viva em pouco tempo. Despedi-me de John da maneira menos sentimental que consegui, mas no fundo eu sabia que só não estava chorando porque isso não era mais possível.
Voltei ao mesmo lugar assustador para encontrar aquela senhora com apenas a foto do meu novo corpo na mão. era o seu nome. Lindsay. Ele estava escrito atrás da foto. Eu decidi que o usaria. Ela merecia ter seu nome respeitado, já que seu corpo não estava sendo.
Assim que cheguei na frente da sala e estava pronta para abrir a porta, escutei a voz de Mark vindo de lá, “Ela precisa fazer isso”. Ouvi, e sem muita paciência, entrei. Mark parou de falar assim que me viu. Eu não me importava sobre o que eles estivessem conversando, e, principalmente, sobre quem, eu apenas sentia pena da pessoa. Esperava que ela não tivesse sua vida arruinada como a minha estava sendo.
- ... – Mark começou, mas gesticulei para que ele parasse.
- Não torne tudo pior do que já está sendo. – o interrompi e virei-me para a mulher. – Só acabe logo com isso.
Mark pareceu entender, ele saiu da sala sem nem me olhar por uma última vez.
- Eu estou pronta. – sinalizei, esperando por mais instruções.
Ela estendeu sua mão para mim e eu segurei. Eu poderia imaginar que fosse fria. Ela me puxava para uma porta que eu não tinha reparado que estava ali.
- Está nervosa? – perguntou, olhando para mim, enquanto andávamos por um imenso corredor. Eu não respondi e ela voltou a falar. – As pessoas, geralmente, ficam. Olhares confusos e muitas perguntas.
- Eu estou bem. – menti. – Eu só quero acabar logo.
- Talvez não seja de todo mal. – aparentemente todos compartilhavam daquele pensamento. Talvez eu fosse pessimista sobre tudo aquilo, ou talvez só eu tivesse sentido ainda que aquilo seria terrível. – Eu entendo que você tenha uma relutância a fazer parte desse mundo, mas...
- Eu morri um dia antes do meu casamento. Um dia antes. – confessei, cansada, e parei de andar. Não esperei que ela olhasse para mim para continuar a falar. – Onde estava o meu Anjo? Por que ninguém resolveu salvar a minha vida?
Era óbvio que eu odiaria todos naquele lugar. Era óbvio que eu odiaria Mark. Era tão óbvio para mim, porque, no final de tudo, foi a minha vida que acabou. Ninguém nunca entenderia.
- Você já deveria saber que tem coisas que estão além do nosso entendimento, . – sua voz não tinha soado tão dura desde que a conheci. – Acima de tudo, tem escolhas que não podemos interferir. – ela sabia de tudo. Pelo jeito que ela me encarava, aquela mulher sabia das escolhas que eu tinha feito. Seu olhar praticamente me culpava por tudo que tinha dado errado comigo.
Voltamos a andar em completo silêncio, e não demorou muito para que ela parasse e voltasse seu corpo para mim.
- Chegamos. – apontou para a porta. Assim que entramos, não me surpreendi ao perceber que não tinha nada lá além da cor branca e uma cadeira que parecia muito como a de um consultório dentário. – Você vai apenas se sentar e dormir.
- Anjos não dormem. – respondi, como se fosse óbvio.
- Nessa sala sim. – quando tentei andar, não consegui. Acho que era a última parte do meu corpo consciente, tentando se salvar de uma tragédia. Se eu me sentasse naquela cadeira, algo de terrível aconteceria comigo. Isso era tão óbvio que até meu corpo morto resolveu reagir em autodefesa. – Algum problema? – perguntou, percebendo que eu não tinha me movido ainda.
- Eu não posso fazer isso. – ela me encarou com seus grandes olhos vazios. – Eu vou estragar tudo.
- Eu não posso ajudar, . – sua frieza me deixou mais triste do que eu já me senti em toda a minha vida. Eu nem estava brava. Eu sabia que se ela estivesse um coração, ela entenderia, mas ela não tinha.
Obriguei meus pés a me obedecerem e caminhei até a cadeira. Lembrei-me da sensação de respirar fundo, deitei, e assim que fechei os olhos, a última coisa que eu consegui ouvir foi uma voz dizendo “Eu sinto muito”, depois disso, tudo desapareceu.
Eu estava morrendo novamente, e dessa vez com a certeza de que quando eu abrisse meus olhos de novo, talvez fosse muito pior do que morrer pela primeira vez.

Capítulo 2

Assim que abri meus olhos, tudo que eu vi foi um telefone e um senhor mal encarado do lado de fora da cabine em que eu estava. Pelo o jeito que ele me olhava, provavelmente eu já estava parada lá por mais tempo do que o necessário. Senti uma bolsa em minhas mãos, que não estava lá antes, e finalmente pude respirar depois de tantos anos. Eu podia sentir o ar entrando dentro dos meus pulmões, eu quase poderia ouvir meu coração batendo se quisesse. A sensação de sentir algo de novo era como se sentir em casa. O único problema era que tudo estava diferente. Meu reflexo me lembrava que eu estava ali apenas de passagem. Eu não estava na minha casa. Eu estava no corpo de outra pessoa. , uma mulher morena, alta e bonita.
Assim que abri a porta, consegui sentir algo vibrando de dentro da bolsa e percebi que alguém estava ligando para mim, ou pior, a pessoa estava ligando para . Ninguém ligava mais para . Ela estava morta. Eu estou morta.
- Alô? – assim que o levei ao ouvido, barulhos de pessoas gritando era tudo o que eu conseguia escutar do outro lado. - Oi, senhora ? Está vindo? – era uma mulher do outro lado. Talvez fosse o meu “Caso”. – Está com algum problema para achar o endereço do prédio? – perguntou, parecendo preocupada. - Ahn... – pensa rápido, . – Sim, estou na verdade. Poderia me dizer o endereço por favor? – tentei soar mais confiante do que eu estava no momento.
- Claro, imaginei que sim. Enviarei o endereço novamente por mensagem. Esperamos que chegue antes do horário de almoço. – antes que eu pudesse tentar perguntar algo, eu já não escutava mais nada.
Fiquei encarando o celular durante alguns segundos, até sentir que as pessoas esbarravam em mim e sequer pediam desculpas. Eu até poderia pensar que estava na Central de novo, até me lembrar que aquela era apenas uma cidade caótica e que eu estava sentindo o toque de todos aqueles estranhos.
Os prédios pareciam muito maiores do que eu me lembrava. Nem de longe eu estava acostumada a andar por aquela parte da cidade. Eu não trabalhava perto da área comercial, no máximo passava por lá quando tinha que pegar o metrô para encontrá-lo. Antes que eu pudesse me segurar, procurei ao meu redor um pequeno sinal de seus olhos claros. Aquilo me enlouqueceria mais rapidamente do que a própria morte. Mas como era de se esperar, ele não estava por perto. O que era algo óbvio para o meu cérebro, mas nem um pouco para o meu coração. Mark não faria aquilo comigo, se eu estava lá, significava que ele deveria estar do outro lado do país. Encontrei um banco e me sentei, preparando-me para abrir a pasta e finalmente descobrir o que eu tinha que fazer para sair daquela cidade antes que eu enlouquecesse.
Passando pelas folhas tudo que eu podia ler eram endereços, provavelmente, da minha nova casa e de lugares que eu precisava visitar para ajudar a pessoa. Nada que eu conhecesse, aliás. Isso era ótimo, eu não começaria a chorar a qualquer momento e teria que inventar alguma mentira. Quando eu cheguei na última folha, já cansada de tanto mistério, finalmente encontrei.
. Eu reli. .

2012, Agosto.


Eu aguardava na ante sala do escritório de já fazia alguns minutos. Eu gostava de evitar ao máximo estar na mesma sala que ele e . Meu noivo nunca entendeu como a chave virou de “amigos” para “pessoas que não ficam três segundos sem discutir estando em um mesmo lugar”. Eu também não entenderia se não soubesse da história toda, e não sabia. Ninguém sabia. Infelizmente, aquele segredo me manteria ligada ao melhor amigo do meu noivo para sempre.
A décima secretária de parecia muito focada em suas unhas para tentar iniciar alguma conversa comigo, então só me restava encarar a decoração sóbria e branca do luxuoso prédio das empresas . Não era nem um pouco surpreendente ter seguido os passos do pai, pelo visto, ele estava se saindo bem.
- Você tem certeza de que quer se casar? Principalmente com ela. – a voz de soou por detrás da porta, e pela primeira vez desde que eu havia chegado lá, a ruiva à minha frente levou seu olhar até mim. – Ela é chata, mandona, meio psicótica, eu gostaria de te lembrar, e principalmente, louca. Não se case com escritoras. Elas são tão ruins quanto compositores. Ela é praticamente uma Taylor Swift sem o violão, se vocês terminarem ela pode escrever uma trilogia sobre o quão ruim você é.
Foi impossível não bufar ouvindo seu grande monólogo sobre como eu era a pior pessoa mundo. Não era nada que eu já não tivesse acostumada a escutar, e, sinceramente, não era algo que eu me importava muito. A opinião de sobre mim perdera a validade há alguns anos já. Ainda assim, ele sabia que eu estava do outro lado da porta. Ele sabia que eu ouviria tudo aquilo. Ele queria que eu ouvisse porque ele queria que eu fosse lá para gritar com ele. Levantei-me, ajeitando a minha saia, e resolvi dar ao garoto o que ele queria: atenção. - Eu poderia escrever um livro sobre o quão ruim você é. – sorri ao abrir a porta e encontrar sentado na cadeira à frente de , que estava jogado, despojado, com os pés em cima da mesa como se ela não tivesse custado mais do que o meu salário de dois meses.
- – eu odiava quando ele me chamava por apelidos como se ainda fossemos amigos. Como se ainda estivéssemos na faculdade. Como se ele não estivesse me destruído da pior maneira possível. – Eu li o seu livro e suponho que o homem que morre no vigésimo capítulo seja eu. - Estou surpresa por saber que você usa seu cérebro para algo mais produtivo do que arrumar apelidos estúpidos para levar garotas inocentes para cama. – cruzei os braços, o observando ainda de longe. - Elas não parecem nada inocente na minha cama. – sorriu e eu revirei os olhos como resposta. Antes que eu pudesse continuar aquele ping pong de ofensas, resolveu interceder como sempre fazia. - Vocês podem parar? – levantou-se e caminhou até o meu lado, pegando na minha mão. Não acho que tenha reparado quando o olhar de seu amigo caiu sobre aquele gesto tão rapidamente que talvez nem ele mesmo tenha percebido que fez. Mas eu percebi. Meu corpo ainda costumava ser muito consciente sobre tudo que fazia ao meu redor. Essa era uma mania que, infelizmente, eu não tinha perdido ao longo dos anos. – Você vai ser o padrinho. – avisou, antes de me puxar para fora do escritório sem nem mesmo se despedir ou ouvir alguma resposta.
- Eu disse que era uma péssima ideia convidar . – comentei ao seu lado, o seguindo em direção ao corredor.
- Vocês precisam parar com isso, quer dizer, daqui alguns meses ele será padrinho do nosso casamento. – chamou o elevador ainda sem me olhar. - Sobre isso: não estou certa que eu tenha concordado. – entramos no elevador, ele não sorria mais ou segurava mais a minha mão. Sempre tínhamos problemas quando o assunto envolvia seu melhor amigo. - Eu nunca vou entender esse problema entre vocês dois. Algum dia, eu espero que vocês dois me falem como vocês foram de colegas para completos estranhos de um dia para o outro. – foquei meu olhar nos botões e tentei não parecer tão afetada com aquela pergunta, como eu estava realmente.
- Nunca fomos tão colegas assim. – murmurei após o silêncio me consumir muito mais do que a irritação do meu noivo.
Mentir para estava entre uma das coisas que eu mais odiava fazer. Eu ia me casar com ele, não acho que mentir seja pré-requisito para um casamento bem sucedido. Ao mesmo tempo, contar a verdade também não ajudaria em nada no nosso relacionamento.
- Podemos mudar de assunto, por favor? – o encarei e percebi quando soltou o ar em uma respiração pesada.
Seus olhos azuis vieram até o meu rosto e tudo parecia tão certo. Seu cabelo loiro, seu rosto de menino sem nenhuma marca de idade, seu nariz que parecia perfeitamente esculpido... Tudo em estava no lugar correto. Não era surpreendente que a única coisa fora dos eixos na sua vida fosse eu. - Tudo bem, . – ele saiu assim que o elevador chegou ao térreo.
Não olhou para trás, não olhou para mim ou fez algo. Ele apenas saiu.
Atualmente.

Tudo que eu conseguia fazer era encarar aquele pedaço de papel nas minhas mãos. Olhei ao redor, esperando que surgisse alguém que me dissesse que era uma pegadinha. Alguém diria , parabéns, você caiu direitinho na nossa brincadeira.” e começaríamos a rir como se fosse a piada do século. surgiria com um buquê de rosas dizendo que me ama e não estaria lá porque ele sequer existiria. Talvez eu até estivesse grávida de uma menininha e tudo seria perfeito.
Amassei o papel e o joguei na primeira lixeira que vi na rua. Eu queria gritar. Eu queria me jogar dentro daquele lixo se isso fosse possível também. Eu queria que o primeiro carro que passasse pela rua me atropelasse. Eu queria que ambulância atrasasse. Eu queria morrer, e dessa vez de verdade. Para sempre. Sem segundas vezes. Sem John. Sem Mark. Sem . Apenas a simples e bonita morte. Eles sabiam que eu enlouqueceria naquele lugar. Eu correria para na primeira oportunidade que tivesse e eles me mandam para o trabalho do seu melhor amigo? Que espécie de mente doentia pensa nisso? Mark pensa. É claro.
O celular voltou a tocar dentro da bolsa e por muito pouco ele não foi para a lixeira junto com o resto das minhas coisas. Eu não estava mais desesperada, apenas nervosa e totalmente enfurecida.
- Alô! – seja lá quem estivesse do outro lado pareceu entender claramente meu tom de voz, pois, não respondeu nada de imediato. Era tudo um completo silêncio. - Eu achei que já era para você estar aqui. – eu reconheceria aquela voz mesmo depois de anos. Respirei fundo tentando não despejar anos de raiva apenas naquela frase, mas logo ele voltou a soar incrivelmente arrogante como sempre. – E então? – vamos, , responda, brigue, faça algo... - ? – foi tudo que eu consegui dizer. Eu sabia quem era do outro lado. Eu não poderia me esquecer da última voz que eu ouvi antes de morrer. Ainda assim, eu queria que ele negasse. Eu precisava que ele dissesse que era engano. Tinha que ser o maldito de um erro. - Senhor para você, ou pior, se você não chegar em menos de uma hora, será apenas ex-chefe. – ele não tinha mudado naqueles anos. Nada. E tão rápido eu fiquei com raiva, logo o desespero bateu. Eu não posso fazer isso. Eu o odeio, eu odeio o fato dele ser tão inútil ao ponto de precisar de mim para ter alguém, quer dizer, se ele não fosse tão idiota, egocêntrico, metido e infiel, nós não teríamos esse problema. Eu não teria esse problema. Eu não gosto de ter problemas e eu não gosto dele, principalmente. Ele não me deu chance de resposta e desligou o telefone.

*

Teve uma razão para eu não reconhecer nenhum dos endereços. O escritório de não era mais no antigo prédio. Se fosse, eu reconheceria. Aquele era mais um detalhe idiota que minha mente não conseguia apagar nem mesmo com a morte. - Olá, deseja alguma coisa? – a morena atrás da mesa levantou o seu olhar até mim e perguntou, com um sorriso simpático no rosto.
Eu tinha o plano de chegar na recepção e me apresentar, pedir uma autorização para subir até o escritório do e matá-lo com as minhas próprias mãos. Mas eu travei, eu só parei e fiquei a encarando quando percebi que iria sair da minha boca: “Oi, eu sou .
- Precisa de ajuda? – voltou a perguntar, menos simpática do que antes.
- . Ele está me esperando. – resolvi deixar as apresentações para um momento que eu não estivesse prestes a vomitar.
- Ah, claro, você deve ser a secretária nova. – assenti, sem me importar se ela veria ou não. – Você está atrasada, ele acabou de chegar. – entregou-me um crachá. – Não parece com o melhor humor. – aproximou-se por cima do balcão para sussurrar.
- Eu não acho que ele tenha um humor bom no geral. – respondi e ela lançou um olhar que me confirmava tudo que eu precisava saber sobre depois de três anos: ele ainda era um babaca de marca maior.
- Boa sorte. – voltou a se sentar, agora com um sorriso preocupado.
Eu já tinha evitado o meu reencontro com o o suficiente para saber que não tinha mais volta. Eu teria que passar por isso. Não adianta fugir, certo? É o que John falaria para mim naquele momento. Tudo que eu queria era o meu amigo do meu lado falando que tudo ficaria bem. No fundo, eu sei que ele estaria mentindo apenas para me confortar, mas era isso que eu precisava. Eu precisava de um amigo para mentir para mim.
Assim que parei na frente de sua porta, algo me avisou que a partir daquele dia nada mais seria como antes. Não podia me enganar, eu estava assustada como nunca estive na vida. Nem mesmo quando percebi que era um Anjo, quando John me disse que eu tinha morrido. Nada. Aquilo não se comparava com nada.
Respirei fundo pela última vez e bati na porta, esperando que ele me mandasse entrar.
- Até que enfim... - como sempre, me surpreendendo. Ele a abriu, e eu me senti como se estivesse sendo atropelada novamente. Talvez eu estivesse pálida. Talvez estivesse vermelha. Azul. Amarela. Eu não sei, mas seja lá o que ele viu, fez com que ele parasse. - Ahn… . - levou seu olhar até o meu crachá preso na blusa. Confuso. Ele parecia confuso agora e não mais furioso. Era estranho ver ele me encarando e me chamando por algo que não fosse meu nome, mas ao mesmo tempo, era muito melhor do que ouvir sua voz me chamando depois de três anos.
- . - repeti o seu gesto, ainda sustentando seu olhar.
Ele continuava lindo, mas estava diferente. Os olhos pareciam mais escuros do que eu me lembrava. O rosto tinha mais marcas de expressão ao redor dos olhos como se ele estivesse cansado. Seu cabelo estava milimetricamente arrumado com gel. Será que também tinha envelhecido tanto? Será que seus olhos estavam mais escuros também? Seu rosto de menino pareceria de um homem agora?
decidiu parar com a nossa brincadeira perigosa de encarar e virou -se em direção à sua mesa, deixando a porta aberta e me convidando para entrar.
- Esse é o seu primeiro trabalho, certo? - estava de costas ainda, então não viu quando assenti, mas eu não me importava muito. No fundo, estava com medo de vomitar se abrisse a boca. - O gato comeu sua língua, ? - olhou por cima dos ombros.
- Não, . – falei, séria.
- Senhor . – corrigiu, finalmente sentando em sua cadeira e ficando de frente para mim.
Eu não me aproximei muito. Eu me lembrava da última vez que tinha falado com ele. Nós discutimos, como sempre. Será que se eu contasse para ele que eu era , ele acreditaria? Será que ele iria se importar? Pedir desculpas? Implorar pelo meu perdão?
- Claro, senhor . - eu ouvia a minha voz em um tom desconhecido para mim, mas soava robótico.
- Não entendo por que a empresa me mandou alguém inexperiente, mas também não me importo. - ele não parecia estar falando comigo, então não respondi. - De qualquer forma, você não deve durar muito.
- Se é o que você diz. - respondi de maneira impulsiva e isso pareceu chocá-lo, mas rapidamente ele mascarou sua surpresa.
E eu sabia disso. Eu percebi esse relance. Eu percebi essa mudança porque eu o conhecia. Eu o conhecia há anos. Mas ele não sabia disso.
- Você não me parece muito feliz em estar aqui, . – comentou, jogando seus pés na mesa. Segurei ao máximo a vontade de revirar os olhos para aquela cena.
- Você não parece feliz que eu esteja aqui também, . - e aquela foi a coisa mais sincera que eu disse em anos, talvez até mesmo antes de virar um Anjo.
- Realmente, eu não estou. - e estava lá, aquele olhar profundo que me fez chorar por noites. Que foi capaz de destruir toda a minha vida. Estavam lá aqueles olhos azuis, que por anos foram tão claros, mas agora pareciam poluídos.
Será que também me olharia dessa maneira? Droga, será que sequer falaria comigo? "É claro que não, sua idiota, você está morta", ouvi minha voz soar no fundo da minha mente.
- Já te disseram que você é meio estranha? Fica aí toda quieta, me encarando como se eu tivesse matado seu gato. - riu com a sua própria piada, mas não o acompanhei.
- Já me chamaram de coisas piores. - respondi.
- Imagino que sim. - deu de ombros, se endireitando na cadeira e apoiando seu rosto nas mãos, me encarando mais profundamente. - Já disseram que você é bonita também?
Ah, não. Dessa vez foi impossível não revirar meus olhos. Eu sinto que até sorri por alguns segundos, mas não foi um sorriso feliz e eu não acho que ele tenha percebido, porque sinceramente, nem eu mesma saberia dizer, porque aquele não era o meu corpo. Aquele não era o meu sorriso. Era o sorriso da e eu esperava que o sorriso dela sinalizasse para exatamente o que eu queria: eu te odeio.
- Receio te dizer que suas cantadas baratas não funcionarão comigo. - o alertei. - Onde fica a minha sala? - resolvi encerrar aquele assunto antes que ele tentasse fazer qualquer comentário idiota de novo.
- Naquela mesa. - ele apontou para um pequeno espaço com nada mais que uma mesa, computador e uma cadeira. - Infelizmente para você, bem perto de mim. Algum problema? - levei meu olhar até ele e neguei. Fui até o meu "escritório", joguei a bolsa em cima da mesa e me sentei na cadeira. Senti o olhar de seguir todos os meus movimentos.
- Um aviso: não vou para cama com você. - o sorriso dele ficou maior e eu quase pude me lembrar de como ele era bonito. Mas rapidamente tentei ficar distante desse tipo de pensamento.
- Eu nem disse nada, . - tentou soar inocente, mas nada naquele sorriso poderia parecer inocente.
Era um sorriso que me lembrava de todas as escolhas ruins que eu fiz ao longo da minha vida. Era o sorriso que me lembrava que eu estava morta. Era o sorriso que não me permitia esquecer, que acima de tudo, eu merecia estar morta.

~*~


Estar na mesma sala que fez com que eu quisesse estar morta de novo. Eu nunca quis tanto na minha vida perder a noção dos meus sentidos e sentimentos. Eu sentia meu braço arrepiar a cada respirada de . Eu tinha que me lembrar que não podia gritar com ele, eu não podia dizer para ele todas as palavras que eu repassei durante esses três anos morta. Eu simplesmente não podia fazer nada além de ser autoconsciente sobre todos os seus pequenos movimentos. Meu corpo ainda parecia responder ao seu menor movimento como fez em todos esses anos. O que era, no mínimo, engraçado e irritante, já que aquele era o corpo de . Talvez eu estivesse presa nele para sempre, mesmo depois da morte.
Eu precisava do esquecimento. Eu nunca quis tanto esquecer a minha vida como naqueles minutos. Eu não me importava em perder todos os bons momentos com . Eu só queria esquecer a merda daqueles olhos azuis. Eu morreria para isso e ainda sei que não seria o suficiente. Nem mesmo a morte me separou dos efeitos que causava em mim durante todos esses anos.
- O que está fazendo? - estávamos em silêncio por um tempo, apenas em companhia das teclas de seu computador e as buzinas do lado de fora.
- Nada. – respondi, sinceramente. Meu computador continuava desligado na minha frente.
- Eu gostaria de lembrar que você deveria estar trabalhando e que seu chefe está na mesma sala que você. - levantei meus olhos até seu rosto e lembrei-me do quanto ele era sério em seu trabalho. Eu não duraria nem cinco dias como sua secretária. - Você ao menos sabe o que uma secretária faz? Ou meu pai não se importa mais em contratar pessoas com um bom currículo?
Seu pai? Do que ele estava falando? Eu tinha sido contratada pelo Senhor ? Ele deve ter notado minha expressão confusa e se levantou, parecendo nervoso. Aquilo me irritou. não tinha o direito de ficar nervoso com a minha presença em sua sala. Eu estava lá apenas por causa da sua incapacidade de amar qualquer coisa. Sempre sua culpa, .
- Eu preciso sair. Apenas anote os recados. - fechou a tela de seu notebook e saiu sem me olhar por uma última vez.
Assim que fechou a porta atrás dele, eu relaxei. Apesar disso, não respirei fundo como queria fazer. Não queria sentir o seu perfume tão perto de mim. Eu não queria mais uma lembrança para me assombrar. Após alguns longos minutos apenas sentada encarando ao redor, sabendo exatamente o que eu estava procurando com o meu olhar, resolvi levantar da cadeira e começar a andar pelo grande escritório. A mesa ficava na frente de uma grande janela, e ao lado dela, a mesma estante de livros de anos atrás. Passei minha mão por todas aquelas lombadas, sabendo que não deve ter lido nem metade do que estava guardado. era o amigo leitor, enquanto seu amigo saía à noite para frequentar quantas festas conseguisse.
Antes que pudesse voltar minha atenção para outro lugar, algo fino me chamou a atenção. Eu reconheceria aquele livro, provavelmente, de olhos fechados, apenas sentindo a textura das folhas. Aquele era o meu livro. Eu havia escrito aquelas letras e decidido pela cor azul turquesa da capa. Nunca tinha reparado nele na estante, as poucas vezes que eu estive ali só tinha atenção para as nossas discussões.
Peguei o livro, e ao abri-lo, senti meu coração parar, mas não como da última vez. Eu ainda estava viva e respirando. Eu continuava viva, meus dedos continuavam passando as folhas lentamente como se meu cérebro quisesse fixar as lembranças de senti-las. Por mais que eu quisesse reler cada página e me lembrar de todas as emoções dele, eu não estava pronta para continuar lendo, eu sei que desabaria a qualquer momento se fizesse. Coloquei o livro no mesmo lugar e voltei a observar à minha volta. Não tinha nenhuma foto. Nada parecia pessoal além do meu livro.
- . - a voz de John surgiu atrás de mim. - Eu sinto muito…
- Você já sabia? - virei-me para olhá-lo. John não parecia sereno como sempre. Algo dentro de mim sabia o motivo.
- Eu não podia te contar… - o encarei, incrédula, e ele parou com as explicações.
- Não podia contar? - sorri sem humor. - Você era a única pessoa naquele lugar que eu confiava. Como ficou sabendo disso? Quando, hein, John?
- No dia que Mark falou com você, ele me chamou para conversar mais cedo. Não posso dizer nada mais, apenas que Mark confia em mim e isso é tudo. Ele queria que eu te ajudasse a se sentir o melhor possível.
- Fazer eu me sentir bem? Como você está se saindo até agora? - eu queria chorar naquele momento. - Mark quer que eu estrague tudo, não é?
- Claro que não, . - respondeu rapidamente. - Ele sabe que você pode fazer isso.
- E você? Acha que eu posso fazer isso? – perguntei, irritada, me aproximando dele. Nossos olhos quase não piscavam mais. John me encarava quase que culpado e eu podia dizer que tudo no meu olhar era raiva.
- , tudo isso é muito maior do que você pode imaginar, envolve muitas pessoas e envolve as vidas delas. - ele tentou puxar meu braço para perto, mas me afastei.
- Eu sei como o sistema funciona… - ele não começaria uma aula ali, não agora. Eu não aguentaria seu discurso naquele momento. - Não tente me ensinar como ser um Anjo, você nem ao menos é um.
- Existem coisas que são maiores do que outras, e por mais que a nossa amizade seja algo enorme para mim, eu não posso te contar como e por que eu fiquei sabendo. - apesar de parecer bastante chateado por ter escondido isso de mim, e apenas ele sabia o quanto isso era importante, ele não parecia arrependido de não ter contado. - Eu espero que entenda…
- Eu vou superar o fato da única pessoa que eu confiei, depois de muito tempo, ter escondido algo assim de mim. - e eu iria, mas não naquele momento. Eu estava magoada demais para isso.
- Eu espero que sim. - John sorriu de lado e passou as mãos pelos cabelos, bagunçando-os mais. – Eu preciso ir, já está no corredor. - eu não respondi ou esbocei qualquer reação, e ele apenas sumiu na minha frente, poucos segundos antes de a porta abrir.
- Você parece pior que antes. - falou ao me observar parada no meio da sala. Não tinha nenhuma chance em eu permanecer naquela sala por mais alguns segundos sem surtar. Eu precisava de espaço.
Não respondi seu comentário e passei por ele sem me preocupar com qualquer outra coisa que pudesse sair da sua boca. Com a ajuda das placas de sinalização espalhadas pela parede, não foi muito difícil achar o banheiro. Eu nunca fui do tipo de chorar, mas quando fazia, eu simplesmente chorava por todas as coisas na minha vida. Era como se eu juntasse tudo que acontecia em um pedaço de mim e quando eu chorava tudo ia embora. Tudo era levado da minha vida e depois o novo ciclo começava. Andei por todo andar sem soltar uma lágrima, mas assim que ia me aproximando da porta do banheiro, eu já as sentia sendo formadas. Eu só precisava chegar a um lugar calmo e silencioso para externar todos os sentimentos guardados por três longos anos. Eu rezava para que ele estivesse vazio, eu realmente precisava de um tempo sozinha ou enlouqueceria. Assim que abri a porta do banheiro, percebi que eu estava sozinha. Eu só queria chorar. Eu precisava chorar.
Na Central, quanto mais tempo a gente ficava lá, íamos perdendo a capacidade de sentir qualquer coisa. Eu lembro que nos meus primeiros dias, eu chorava toda hora, mas depois de um tempo, é como se não tivesse mais lágrimas para sair. Eu lembro que sentia meu peito doer de saudades de , mas depois, já não tinha mais nada. Eu sabia que o amava e sentia sua falta, mas meu corpo não parecia mais saber transformar isso em algo real.
Apoiei minhas mãos na bancada de mármore do banheiro e finalmente pude encarar meu reflexo. era linda, muito mais bonita do que na foto, mas aquela não era eu. Fechei meus olhos, esperando que quando eu abrisse, iria encarar meu verdadeiro corpo. Quando abri, eu vi uma mulher me olhando pelo reflexo.
- Está tudo bem? – perguntou, parecendo genuinamente preocupada.
- Parece tudo bem para você? - me apoiei na pia e respirei fundo mais vezes do que eu lembrava ser possível.
- Você parece péssima. - ela não disse aquilo de uma maneira rude, apenas sincera. - Você é nova aqui? - foi até o meu lado e percebi que começou a retocar seu batom.
- Sim. – respondi, ainda sem levantar meu rosto para encará-la. Eu não queria que ela me visse daquele jeito. Só queria esperar que ela fosse embora para poder voltar a sofrer sozinha de novo.
- Você é a nova secretária do senhor , não é? - aquilo tinha me chamado a atenção. Rapidamente levantei meu olhar para encará-la. - Quer um pouco de maquiagem?
- Não, obrigada. - recusei educadamente. - Como você sabe que eu sou a nova secretária dele?
- Bom, elas costumam surtar no banheiro também. - deu de ombros. - Mas acho que você bateu o recorde, tipo, um dia foi o suficiente.
- Ele é tão babaca assim com todo mundo? – perguntei, realmente curiosa.
- O quê? Não. Claro que não. - rapidamente respondeu. - Ele é um ótimo chefe. Todo mundo gosta dele… - a encarei, esperando que ela voltasse a continuar, porque aquilo não fazia sentido algum. Se ele era tão legal, então por que era tão comum todas as suas secretárias chorarem no banheiro? - Ah, qual é? Vamos dar um desconto, não deve ser nada legal que seu pai contrata babás para ficar de olho em você. Todo mundo seria um pé no saco.
- Espera, o quê? O pai dele realmente contrata as suas secretárias?
- Bem, você sabe, certo? Ele contratou você também. – disse, finalmente virando-se para mim. - Não é? - ela parecia confusa agora, provavelmente porque percebeu que eu não fazia ideia do que ela estava falando.
- O pai dele não me contratou. - pelo menos, eu achava que não. Ele contratou? Eu não saberia dizer.
- Ah, não? - ela me estudava com seus olhos agora, procurando algum tipo de informação que tinha perdido. Queria dizer para ela que não encontraria nada, eu estava muito mais perdida do que ela. - Isso é estranho. - comentou.
- O que é estranho? - automaticamente perguntei, logo mudando de assunto, tinha algo mais importante para saber daquela conversa. - Por que o pai dele contrata as suas secretárias?
- Para ficar de olho nele. - começou a guardar as suas coisas em uma pequena necessaire, e eu queria que ela parasse. Aquela conversa não poderia acabar tão rápido. - O senhor costuma sumir às vezes, sem avisar para ninguém.
- E para onde ele vai?
- Como eu vou saber? - riu. - Tem boatos de todos os tipos pelo corredor. Alguns falam que ele casou em uma praia, outros que ele virou pai e tinha que ir assumir o filho, que ele é gay e estava fugindo com um amante. Nada me parece muito real, se quer saber…
- É claro. - assenti. Não parecia muito real para mim também. não faria nenhuma daquelas coisas, ele definitivamente não era gay, e, bem, se ele fosse casado, não precisaria de mim. Eu precisava saber sobre os seus sumiços, talvez assim eu pudesse ir embora mais rápido daquele lugar. - Ele costuma aparecer namorando?
- ? Namorando? - ela sorriu como se eu tivesse contado uma grande piada. - Nunca vimos durar mais do que um dia com alguém.
- E algum amigo? – perguntei, antes que pudesse me segurar. Eu sabia o caminho que estava seguindo, apenas não conseguia parar.
- Nenhum. é solitário na maioria das vezes. - encolheu os ombros. - Acho que você vai descobrir mais coisas, se durar muito tempo.
- Eu espero que sim. - tentei sorrir, mesmo que tudo que eu conseguia pensar era que não deveria visitá-lo mais.
- Eu tenho que ir agora, você pode me chamar para almoçar se quiser.
- Claro, eu me chamo . - o nome saiu facilmente dos meus lábios dessa vez.
- Não seja tão má que nem as outras secretárias, . Ele é um cara legal, apenas parece machucado por alguma coisa. - “Ou alguém”, completei em minha mente.
Ella sorriu e se desencostou do balcão, indo em direção à porta, deixando-me sozinha e mais confusa do que antes. O que ela me descreveu não era nem de longe o que eu conhecia. Talvez ele se sentisse culpado por ter feito o que fez. Aquele pensamento fazia eu me sentir mais aliviada, afinal, ele também tinha que ter suas consequências.

~*~


- Você mexeu na estante? - eu sequer tinha fechado a porta completamente quando ouvi a voz nada amigável de .
- Eu não sabia se tinha uma regra para não mexer, eu gosto de livros. - encolhi os ombros, tentando não parecer afetada pelo seu tom de voz sério. Fui até minha mesa e sentei, logo, abrindo a tela do notebook apenas para ter um obstáculo entre nossos rostos distantes, mas parecendo nunca longe o suficiente para eu me acalmar.
- Tudo bem, eu também gosto. - o encarei surpresa. Ele não gostava de livros, eu sabia disso. Pelo menos, não o antigo . - Você está livre para pegar qualquer um, menos o azul turquesa que olhou.
- Como descobriu? - perguntei após alguns segundos de absoluto silêncio, nem mesmo ele estava focado no trabalho.
- Eu sou bastante observador, . - senti seus olhos em cima de mim, mas não o encarei. Eu não me sentia pronta ainda para voltar a encará-lo, não depois de descobrir o pouco da sua vida nesses anos. Eu tinha muitas perguntas sem respostas. Tudo que eu queria era perguntar pelo . Todos esses anos, eles não se falaram mais?
- A autora dele morreu, não foi? - levantei minha cabeça e vi quando ele piscou, surpreso com a pergunta, mas algo mais passou pelos seus olhos. Foi rápido, mas eu notei. Eu tinha medo de que ele soubesse o que estava se passando nos meus também, então apenas desviei rapidamente para a janela atrás dele.
- Não falamos sobre o livro, a autora ou qualquer coisa que lembre esses assuntos. – respondeu, parecendo forçadamente sereno. Seus dedos voltaram à ativa e sua atenção estava de novo no computador, mas eu sabia que ele não poderia estar mais desligado de seu trabalho do que naquele momento.
- Tudo bem. - eu também não achava que era um assunto que queria colocar à tona de novo.
- Onde você estava? - ainda odiava silêncios depois desse tempo todo.
- Banheiro. - eu não queria prolongar aquela conversa, mas ele parecia discordar.
- Aposto que ouviu muitas fofocas no corredor já. - ouvi sua risada, um pouco menos nervoso, mas eu não o acompanhei. - O que achou?
- Fiquei enojada, no mínimo. - não respondeu, mas sim gargalhou. E aquilo me atingiu mais do que qualquer coisa nos últimos três anos. Eu não me lembrava a última vez que ele tinha rido daquela maneira perto de mim. Ele parecia sincero, algo que ele deixou de ser comigo nos nossos últimos anos juntos. E, como se fosse possível, eu o odiei mais ainda. Eu não queria vê-lo feliz. Eu precisava que ele sofresse. Por pior que isso parecesse, eu só queria que ele estivesse sofrendo tanto quanto eu. Sua risada me deixou muito mais estressada do que antes.
- O que é tão engraçado?
- Você realmente parece que desenvolveu um ódio por mim em poucas horas.
- Desculpa não ser mais uma das suas secretárias que acabam caindo no seu papinho e se apaixonando. – sorri, convencida, mesmo sabendo que eu não era tão imune assim, mas felizmente meu coração tinha conseguido desenvolver algum tipo de proteção depois de alguns anos.
- Não diga isso tão rapidamente, . - encarou-me com seus olhos, que pareciam quase divertidos, com aquela conversa rápida. Mais uma vez, eu senti uma necessidade quase impossível de fazê-lo sofrer, contando quem eu era. Teve um momento que eu morreria para ganhar aquele sorriso na minha direção, mas eu morri, e agora eu só queria lembrá-lo disso para que ele parasse de sorrir para mim.
- Quando eu posso ir embora?
- Eu tenho uma reunião amanhã e quero que você dê uma última revisada no meu texto para apresentação, quando terminar pode ir embora.
- Só isso? - não pensei que seria tão fácil ir embora daquele lugar, mas ele não parecia muito feliz com o meu trabalho para me pedir para ficar.
- Não é como se você tivesse sido contratada para realmente trabalhar, não é? - acho que mais uma vez a surpresa tomou meu rosto, porque logo ele se levantou e veio até minha mesa.
- Eu sei que meu pai acha que preciso de ajuda, mas eu não quero mais babás. Eu quero secretárias, então, pelo menos por enquanto, até eu me cansar de você, apenas seja uma. - o sorriso que ele me lançou não era sincero. Era o sorriso que ele dava quando queria esconder alguma coisa.
Antes que eu pudesse avisá-lo que eu não fazia ideia do que ele estava falando, saiu da sala sem olhar para trás. Tinha algo naquela frase que eu precisava descobrir. O pai de nunca pareceu próximo o suficiente para se importar ao ponto de querer alguém de olho no seu filho. Além disso, como assim ele precisava de ajuda? Ele parecia bem para mim. Infelizmente, bem demais para alguém que tinha feito o que ele fez. Mas eu também sabia que ele era um bom mentiroso, todos nós. Eu só precisava descobrir qual era a mentira dessa vez, e eu precisava fazer isso tudo antes que meu ex-noivo aparecesse por aquela porta e eu estragasse tudo. Porque eu iria. Eu sempre fiz questão de estragar tudo com .

Capítulo 3

O apartamento era tão fabuloso quanto eu poderia imaginar. Paredes claras, um grande sofá escuro, uma bancada separando a sala da cozinha e o quarto simples, mas tão bonito quanto o resto. Ele era lindo, mas era tão morto quanto. Como se fosse apenas uma extensão do lugar que eu estava antes, como se fosse um lembrete que eu não tinha ganho uma segunda chance. Aquela não era uma nova vida para mim, não era nada sobre mim. Era sobre . Sobre a vida dele.
Eu terminei a revisão do texto em menos de meia hora e logo depois tinha deixado a empresa, sem ao menos olhar para trás. Tudo que eu queria era fugir e nunca mais pisar naquele lugar. Mas eu não podia, certo? Fugir da morte nunca é uma opção, afinal, estamos sempre caminhando em sua direção. Era apenas cômico que eu parecia estar no mesmo lugar antes de tudo dar errado. Eu nem queria fugir da morte, eu apenas queria fugir de . Porque dessa vez eu sabia, eu tinha certeza de que daria errado. Muito pior do que da última vez.
Apesar de todas as circunstâncias, era bom ficar sozinha de novo. Naquele apartamento sem graça não tinha barulho de conversas ou gritos angustiados de pessoas que acabaram de descobrir que estavam mortas. Não tinha nada além do som da minha respiração, algo bom de se ouvir depois de três anos sem respirar. Ao mesmo tempo, eu também tinha mais tempo para pensar. E isso nunca foi algo bom para mim. Eu era aquela pessoa que pensava demais sempre. Todas as noites, eu inconscientemente repassava todos os momentos da minha vida apenas para tentar corrigi-los. E desde que eu havia trocado de roupa e me jogado no sofá, eu estava me afogando em meus pensamentos. Tanta coisa que eu estava quase me levantando para anotar. Eu precisava organizar antes de começar a surtar. Organize, .
Eu precisava ajudar . Então descubra por que o pai dele acha que ele precisa de ajuda. Será que também precisa de ajuda? Não. Não pense isso. Apenas não comece. Volte a organizar seu pensamento, . Não surte. Apenas respira. Respire como se fosse a última vez. Descubra o que aconteceu com ele nesses anos. E ? O que aconteceu com ele? Não. Não. Esqueça-o. Apenas esqueça. Você não vai aguentar pensar no . Você não deveria esquecê-lo. Não esqueça. Você precisa esquecer. Você não pode esquecer.
As vozes na minha cabeça discutiam e eu já sentia meu ar faltar. Eu sentia meu coração rápido demais. Descontrolado demais. Tudo estava saindo do controle. Eu já não sabia mais o que eu tinha que sentir naquele momento. Culpa. Medo. Saudade. Tristeza. Raiva. Arrependimento. Tudo estava vindo ao mesmo tempo. Eu precisava me lembrar de respirar. Eu podia respirar. Eu não estava morta. Parar e respirar. Eu estava morrendo de novo? Eu sentia que estava morrendo, sem ar, mas por que parecia tão ruim daquela vez? Eu não lembro de perceber o ar indo embora dessa maneira. Eu estava morrendo. Eu não podia morrer, eu precisava respirar. Por favor, lembre-se de respirar. Não morra. Não morra. Respire. Eu ouvia minha voz dizer para respirar, mas meu coração batia rápido demais. Era tudo rápido demais. Meus pensamentos. As vozes. Minha respiração. A dor no peito. Apenas respire. Você não está morrendo… Você está viva…
- , você precisa respirar. - não sei quanto tempo demorei para perceber que aquela não era mais a minha voz. Olhei para o lado e vi John me encarando, preocupado.
- Eu não consigo… - sussurrei sem certeza se ele estava mesmo no meu sofá ou se eu apenas tinha morrido novamente.
- Respire, . É apenas uma crise. Você precisa se lembrar de respirar fundo e acalmar sua respiração.
- Eu não consigo respirar. - eu não sabia se realmente estava falando aquilo ou apenas morrendo. Por que estava doendo tanto? Morrer não era assim. Droga, pare de doer. Pare. Pare. Pare. Respire. Respire. Respire. Eu sentia as lágrimas descendo pelo meu rosto. Eu não lembrava de chorar na primeira vez que morri. Então por que eu estava chorando agora? Por que estava tão difícil de suportar aquela morte?
- , olha para mim. - alguém parecia me chamar, mas estava distante demais. Eu não sabia quem era. - Por favor, . - duas mãos me puxaram e mais uma vez havia John. Aqueles olhos castanhos acolhedores. - Olhe para mim, você está me vendo? – assenti, ainda chorando, mas eu sentia minha respiração mais devagar. Talvez ela estivesse indo embora de vez. - Lembre-se de respirar. Não precisa ter pressa, eu estou aqui. Apenas nós. Pense apenas em mim, certo? Você consegue pensar em mim? Apenas em mim.
John. Eu tinha focar em John. Descreva-o exatamente como você costumava fazer para ter seus pensamentos controlados. Apenas John. Seus cabelos escuros arrumados com uma franja, o olhar castanho e marcante. A pele branca e sem defeitos. Ele não tinha barba, mas uma pequena pinta decorava seu rosto do lado esquerdo na bochecha. Seu nariz não era muito fino. Seus dentes eram meio tortos. Quando ele sorria de verdade, tinham marcas ao redor dos olhos. Aquele era John. Ele estava comigo. Eu estava respirando. Eu não estava morta. Estávamos no meu novo apartamento temporário sentados no sofá. Eu estava viva. Pelos próximos dias, eu estava viva.
- Você está de volta? - perguntou após longos minutos apenas me observando. Suas duas mãos seguravam os meus ombros no lugar, me ajudando a ficar parada e parar de tremer. As lágrimas não saiam mais na mesma velocidade que antes.
- Eu achei que estava… - eu não sabia o que dizer. Eu nunca tinha sentido aquilo antes. Como se meu corpo fosse pequeno demais para guardar tudo de uma vez. Eu já tive crises, mas nunca daquele jeito. - Eu estava morrendo?
- Não, . Está tudo bem, você não estava morrendo.
- Eu não posso fazer isso, John. Simplesmente não consigo. Hoje foi horrível. Toda vez que sorria era como se algo quebrasse dentro de mim. - vê-lo bem me machucava, por pior que isso me tornava. - Eu realmente não quero ver feliz. - assumi em um fio de voz, pela primeira vez, em voz alta.
- Por que é tão ruim assim? - encostei minhas costas no sofá. Meus olhos estavam focados na televisão desligada à minha frente, mas eu ainda sentia meu amigo me analisar.
- Odiar é a última coisa que eu me lembro antes de morrer. Odiá-lo foi a última coisa que eu senti. - não sei se aquilo faria sentido para John, mas era a única coisa que eu conhecia. Passei três anos desejando ver aparecer na Central. Três anos esperando que ele tivesse o mesmo fim que eu. Três anos foi tudo que eu precisei para me tornar na pior pessoa que eu conhecia, afinal, quem desejava a morte para alguém? E durante três anos desejar isso foi a única coisa que me manteve bem. - Pode me julgar, eu sei que eu me tornei uma pessoa vazia, sem coração.
- Bem, realmente isso não é algo legal de se pensar sobre alguém. - deitou ao meu lado. - E não é bom você se sentir assim sobre ele agora.
- É por isso que eu vou estragar tudo, John. Eu me vi várias vezes hoje contando a verdade para ele. Eu só queria ver se ele se sente tão culpado quanto eu…
- Você não pode fazer isso. - elevou sua voz, parecendo muito mais preocupado do que o normal. - Não pode contar quem você é, .
- Eu sei, John. Eu não vou quebrar nenhuma regra. - o acalmei.
- Qual é o seu plano então?
- Meu plano? - o encarei com um sorriso falso. - Meu plano é não surtar. Apenas não surtar como eu fiz agora.
- Não é um bom plano. - avisou John, claramente brincando agora. O ar ao redor parecia menos pesado do que antes. Ele virou seu corpo para mim e me encarou atentamente. - Seu plano é o seguinte, . Antes de tudo, esqueça o … - antes que eu pudesse interrompê-lo, e eu iria, ele se adiantou e tampou minha boca com a sua mão. - Me escute, mulher. Apenas esqueça seu ex-noivo, você sabe que consegue fazer isso. Vire amiga de , e quando você conhecê-lo de verdade, saberá como ajudá-lo. Confie em mim.
- Você se esqueceu de um detalhe. - comentei após alguns segundos com a minha boca livre de novo. - Eu conheço . Eu fui sua amiga e eu o conheço o suficiente para saber que não posso fazer ele se apaixonar por alguém. Eu já estive nisso antes, John.
- Não se esqueça de que você não estaria aqui se ele não fosse capaz de amar alguém. - ele me lembrou como se aquilo fosse algo que minha mente não ficasse me avisando a cada segundo desde que eu cheguei. Como se eu não tivesse que jogar lá no fundo esse sentimento terrível e errado de ciúmes que me consumia aos poucos apenas para me lembrar que eu precisei morrer para que ele pudesse amar alguém.
- Eu acho que vou dormir. - levantei-me em um impulso rápido, querendo sair daquela conversa. - Nos vemos amanhã?
- Vou aparecer se você precisar de mim. - era apenas isso que eu precisava saber para conseguir dormir, ou, pelo menos, tentar dormir depois de três anos pela primeira vez.

***


Eu acordei sabendo que aquele dia seria muito pior do que o primeiro. A claridade que entrava através das cortinas me lembrava que realmente nada daquilo era um pesadelo. Eu estava viva, respirando, e com uma péssima dor de cabeça. A noite de sono tinha sido tão ruim quanto eu imaginava. Os sonhos eram flashes incômodos do meu último dia viva, da minha primeira vez na Central, a voz de ao fundo e os olhos azuis de me assombrando. Uma grande bagunça sem sentido, mas que me manteve acordada por mais tempo do que eu gostaria.
Mas quando cheguei na empresa eu percebi que por pior que fosse lidar com aqueles pesadelos, ainda assim era melhor do que a realidade. Quando abri a porta, já estava em sua mesa tão arrumado quanto ontem. Eu tinha que ter ficado na cama porque lá era um ambiente seguro. No máximo, o teria em meus pesadelos, mas poderia discutir com ele. Naquela sala, eu era . Eu não podia ser nada além de sua nova secretaria. Segurei minha respiração, focada apenas em não surtar. Esse era o plano por enquanto.
- Bom dia. - falou , me tirando do transe que estava. - Você pode entrar, . Eu não mordo...
- Por favor, nem continue. - o interrompi rapidamente, indo em direção ao meu lugar. Eu não queria lidar com seu humor naquele horário. Eu sequer queria lidar com ele.
- Uau, você realmente não gosta de mim. – sorriu, fechando a tela do seu notebook. Já estava sentada em minha mesa, mas evitando o contato direto com seus olhos.
- Você pode me demitir se quiser. - o lembrei, realmente querendo que ele fizesse. Eu iria fracassar nesse caso, mas não é como se eu me importasse o suficiente.
- Na verdade, eu não posso e você sabe disso. Meu papai não me permitiria. - seu tom era afiado. - Mas eu não te demitiria de qualquer jeito.
- Prefere me fazer sofrer ao seu lado, não é? - pela primeira vez, olhei em seus olhos. Eu queria que ele me enxergasse, eu queria que ele visse tudo o que eu não tinha dito naquela frase, mas que eu gostaria dizer. Eu queria vê-lo pedir desculpas, mas ele não fez. Obviamente, ele não fez nada disso. apenas mascarou seu rosto com um sorriso como sempre fazia.
- Eu quero te levar em um lugar hoje. - mudou de assunto, mas sem perder a diversão nos olhar.
- Eu tenho alguma opção?
- Não, você não tem. - respondeu e se levantou da cadeira, pegando seu terno e notebook.
- Posso pelo menos saber para onde?
parou e me encarou, parecendo pensar se me diria, mas resolveu se calar e apenas apontou a porta com uma falsa reverência. Saí na sua frente, mantendo uma boa distância entre nós dois. Eu conseguia perceber quando as pessoas sorriam em sua direção parecendo verdadeiramente felizes. Não era aquele sorriso falso que damos para o chefe que odiamos. As pessoas gostavam dele.
- Não precisa correr como se eu fosse sequestrar você. - parou ao meu lado, esperando o elevador.
Permaneci focada nas portas de metal à minha frente, aguardando silenciosamente.
- Tinha tempo que eu não despertava um ódio tão genuíno em alguém. - quando olhei para o lado, seus olhos estavam em mim, me analisando. Mas antes que eu pudesse respondê-lo, o barulho da campainha avisou do elevador. Nós entramos e o ar parecia muito pior do que antes. Nunca mais iria reclamar de não respirar depois de passar tanto tempo sentindo o perfume dele perto de mim. A sensação era muito pior do que qualquer coisa que eu senti estando morta.

*


- Posso te fazer uma pergunta? – perguntou, sem tirar os olhos da estrada.
O tratamento de silêncio tinha durado apenas o caminho até o estacionamento. Meu rosto estava vidrado na paisagem do lado de fora. Eu queria que fosse apenas porque estava com saudade de sentir o vento nos meus cabelos, mas não era. A única razão para eu estar tão focada naqueles prédios era que a outra opção era encará-lo e eu não podia fazer isso. Não quando ele parecia tão bonito.
- Para onde estamos indo? - ignorei sua pergunta quando notei que estava reconhecendo alguns caminhos.
- Eu respondo se você responder. - encolhi os ombros sem vontade de responder e sem me importar se ele iria ver ou não. - Por que você me odeia tanto?
É claro. não estava acostumado a ter mulheres o odiando tão gratuitamente. Ele sempre precisava estragar tudo antes, e ele não tinha feito isso comigo ainda. Quer dizer, com . Respirei fundo, juntando toda a força que eu tinha para respondê-lo.
- Você só parece alguém que me magoou. Não é nada pessoal. - menti e percebi quando seu olhar caiu sobre mim.
- Ex-namorado? - ri sem diversão. Eu realmente não podia acreditar que aquilo estava acontecendo comigo.
- Um amigo. - forcei meu olhar na minha frente.
- Bem, às vezes, isso é pior. - eu podia sentir que ele estava mais tenso do que queria mostrar.
- Para onde estamos indo, ? - voltei a perguntar. Eu estava reconhecendo o caminho cada vez mais e eu não estava gostando nada daquilo.
- Estamos indo pegar o que é meu.
- E isso seria? - o encarei pela primeira vez desde que estava ao seu lado. Eu me amaldiçoei no mesmo momento que percebi que eu nunca o tinha visto daquela perspectiva. Geralmente, eu estava no banco de trás apenas observando a dinâmica entre ele e .
Mas lá estava eu. Morta. E odiando cada centímetro do meu corpo por achá-lo tão atraente. Ele era ainda mais bonito visto de perfil. Seu rosto era perfeitamente moldado. Ele tinha uma beleza capaz de matar caso você encarasse por muito tempo. E eu fiz. Eu fiz mesmo quando sentava no banco de trás, eu costumava encarar o reflexo de seus olhos no retrovisor. Eu me lembro de me odiar logo depois e me sentir um monstro.
Culpa e ódio voltaram a todo vapor. Como se eu nunca tivesse morrido. Como se eu ainda fosse a mesma .
- O que seu amigo fez? - sua voz me tirou do meu transe e eu decidi focar a atenção nas minhas mãos em meu colo. A paisagem conhecida na janela estava me deixando mais nervosa a cada segundo.
- Para onde estamos indo, ? - ignorei sua pergunta.
- Me responda e eu direi, . - senti sua atenção em mim, mas continuei fingindo atenção nas minhas unhas.
- Eu já respondi e você não fez. Eu apenas me lembro de um idiota.
- E eu disse que estou indo buscar algo que é meu. Acho que temos nossas respostas então.
- Bom, seu pai sabe? Acho que preciso mandar algum tipo de relatório para ele. Sou sua babá, certo? - não sei se era essa a melhor jogada, mas era a única que eu tinha.
- Não é inteligente seguir por esse caminho, eu estava começando a gostar de você. - minha mente me dizia para permanecer focada no meu colo, mas eu precisava olhar para ele.
Levantei minha cabeça, encontrando seu olhar sobre mim e um sorriso divertido. Ele sempre sorria. Todas as vezes. E todos eram falsos, mas ainda assim, belos.
- Por que você precisa de uma babá? - voltei a olhar o caminho.
- Não sei, pergunte para o meu pai.
- Você sempre precisou de secretárias para ficarem de olho em você? - aquele era um começo. Eu não me lembrava de ter comentado nada desse tipo.
- Você tem muitas perguntas, . - revirei os olhos com impaciência.
- Você não tem nenhuma resposta, .
- Ok, vamos lá. Temos um longo caminho ainda, então vamos brincar. Você tem direito a três perguntas. - ele parecia gostar do que estava acontecendo. Eu odiava. Mas era aquilo ou nada, e eu precisava terminar aquilo. Como um band-aid em um machucado, eu precisava puxar depressa e a dor não iria durar por muito tempo.
- Por que você precisa de babás? - “Por que você foi embora naquela manhã?” era a pergunta que eu queria fazer.
- Eu passei por alguns problemas e desaparecia por um tempo. Meu pai só quer ficar de olho em mim, mas ele não se importa o suficiente para ligar, então paga alguém para fazer isso. - a sinceridade dele me pegou de surpresa. Até mesmo a raiva em sua voz quando disso era algo que ele não fazia muito, ao menos perto de pessoas que acabou de conhecer. - O que seu amigo fez?
- Traiu minha amiga. - a mentira saiu facilmente. Se fosse antigamente, ele perceberia. Ele sempre soube quando eu mentia para apenas para agradar meu namorado. Eu notava seu olhar me repreendendo todas as vezes que isso acontecia. Mas lá estava eu em um corpo que ele não conhecia. - Por que você teve problemas? - “Você ainda fala com ?”
- Coisas ruins aconteceram. - fugiu da pergunta e reparei quando seu aperto no volante aumentou. Os olhos azuis vidrados na estrada. - Você gostava dele?
- Gostava mais do que eu deveria. - a resposta veio rápido demais. Olhe para a estrada, . Não ouse olhar para ele agora. - Você está feliz? - a pergunta escapou rápido demais e logo me arrependi.
O tópico mudou e ele percebeu. Ele notou que minha voz não parecia tão dura e eu percebi quando ele, mais uma vez, olhou para mim. Eu nem precisava estar vendo-o para saber quando sua atenção era minha. Mais um poder que eu aperfeiçoei ao longo dos anos.
- Eu não mereço ser feliz. - ouvir aquilo quebrou algo dentro de mim tão brutalmente que eu quase fui capaz de ouvir. Era isso que eu queria, não era? infeliz como eu fui pelos últimos anos, mas ainda assim doía. Aquilo doeu e eu não consegui esconder. - Você é capaz de perdoar seu amigo?
Fechei os olhos concentrando minha respiração em leves arfadas de ar. Eu estava prestes a despejar tudo. Eu estava na porra de uma corda bamba que não parava de balançar e prestes a me levar para o abismo. Eu seria capaz de perdoá-lo? Não, eu não era. Quando ele foi embora naquela manhã, algo morreu, alguma parte minha morria a cada dia que passava. Então não, eu não o perdoaria porque eu ainda o odiava. Eu o odiava por ter me deixado para trás. Eu me odiei por tanto tempo depois daquele dia.
Eu me odiei quando era . Eu me odiei quando era um Anjo. E eu continuava me odiando enquanto estava sentada ao seu lado. Eu odiei todas as versões de mim graças a ele.
- Não. Eu não sou capaz de perdoá-lo. - respondi após o silêncio.
- Entendo. - suspirou. - Você parece alguém que eu conhecia.
Oh, não. Não. Não. Pare.
- Eu acho que ela ia gostar de você. – parou, parecendo se lembrar de algo. - Na verdade, ela amaria você. As duas poderiam abrir um grupo apenas para me odiar.
- Quando chegamos? - o interrompi, mudando de assunto antes que aquilo me matasse. Ele estava falando sobre mim. Eu não precisava pensar muito para perceber isso. E eu não saberia lidar com isso agora.
- Poucos minutos. - ele não tinha tirado os olhos da estrada desde a minha última pergunta. Eu não tinha outra opção a não ser encará-lo. A paisagem do lado de fora ficava cada vez pior, cada vez mais conhecida.
- Certo. - resolvi encerrar qualquer conversa.
O silêncio sempre foi mais seguro com . Eu deveria ter descoberto isso antes, quando nos encontramos pela primeira vez. Eu deveria ter permanecido em silêncio e talvez assim ele tivesse indo embora rápido o suficiente para que eu ficasse tão intoxicada com sua presença.
"Mas ele ainda estaria do lado dele", a mesma voz de sempre me lembrou. Aquela voz que não deixava nada sobre ele passar despercebido. A voz que eu fiz questão de enterrar depois daquele dia, mas que era muito alta às vezes.
Fechei os olhos, tentando me afastar daquele carro. Eu costumava fazer isso na Central. Não era dormir porque isso não era possível, eu apenas desligava. Pense em cores. Eu me focava em descobrir todas as cores do mundo e assim não teria nem um outro pensamento.
Branco. Tudo o que eu vi na morte. Preto. O céu quando eu morri. Vermelho. Quando eu o encontrei pela primeira vez. Azul. A cor de seus olhos. Verde. . Cinza. A manhã que tudo virou de cabeça para baixo. Amarelo. Seu cabelo.

- Chegamos. - ouvi a sua voz me chamar e abri meus olhos lentamente. Estava com medo do que eu iria ver. Sempre era ruim. Todas as vezes que eu abria os olhos, algo dava errado. E daquela vez não foi diferente.
Eu sabia onde estava. A pequena lanchonete à beira de uma estrada no meio de uma praça agora estava abandonada e o mato crescia de forma desorganizado como se fizesse meses que ninguém se importava em cuidar. Como se estivesse morto, assim como eu. Sem vida. Aquela era mais uma parte minha que tinha morrido nesses anos. O meu lugar favorito. O nosso lugar. me pediu em namoro em alguma mesa lá dentro.
- O que estamos fazendo aqui? - não sai do lugar enquanto já tinha tirado o cinto de segurança e se preparado para sair, mas assim como eu, permanecia encarando a lanchonete.
- Eu vou comprar o lugar. – disse, sem emoção. Voltei a fechar meus olhos. Pense em cores, .
- Vai terminar de destruir tudo, não é? – soltei, esperando que ele entendesse. Eu queria que ele se machucasse. Você não merece ser feliz, .
- É o que eu faço de melhor. - antes que eu pudesse responder, ele saiu, parecendo decidido a fazer o que ele queria.
Aquela era mais uma parte minha e de que ele pegava para ele. E, mais uma vez, eu estava lá para assistir tudo. Eu deixei.
- Não merecemos a felicidade. - um suspiro me escapou e eu não fui capaz de segurar as lágrimas.

Passado


O corredor da Universidade parecia sempre lotado, não importava o horário ou a minha vontade de não esbarrar em ninguém. Eu estava sempre batendo no ombro de alguém e abaixando meu olhar ao pedir desculpas, mesmo que nunca fosse minha culpa. Eu não fui criada para ser corajosa, mas sim para ser perfeita. E no final, eu não era nenhum dos dois.
- Ei. - senti um esbarrão e vi todos os meus livros caírem no chão. Aquela não era a primeira vez, nem esperei para ver se a pessoa ficaria para me ajudar. Eles nunca ficavam.
- Foi mal. - quando vi duas mãos de abaixando para me ajudar, olhei para cima, surpresa apenas a tempo de encontrar dois olhos azuis em minha direção. - Eu não te vi. - sorriu ao me entregar o resto dos papéis que estavam jogados.
- Tudo bem, foi minha culpa. - não tinha sido, mas eu ainda me desculpei porque talvez fosse. Lá no fundo, eu sempre me sentia culpada de alguma coisa.
- Você faz literatura comigo, certo? – acenei, concordando.
Vendo-o de perto, o reconheci. . O garoto que virou assunto depois de passar pela porta no primeiro dia de aula. Nem por um minuto eu pensei que ele se lembraria de mim, mas lá estava ele sorrindo em minha direção e me reconhecendo no meio da multidão. Aquilo acendeu algo dentro de mim.
- Eu sinto muito pelo esbarrão, mas eu preciso ir. - tinha que sair da sua frente antes que aquele sentimento crescesse dentro de mim.
- Ei. - me chamou assim que eu virei de costas. - Eu te desculpo com uma condição.
Estávamos no meio do corredor, mas as pessoas apenas passavam ao nosso redor sem parar. Eu o encarei por cima dos ombros, tentando buscar qualquer tipo de piada na sua voz, mas ele parecia sério.
- O quê? – perguntei, confusa.
Eu não me importava se ele iria me desculpar. Sinceramente, ele nem lembraria do meu rosto nos próximos dois minutos depois que cada um seguisse o seu caminho, mas ainda assim, eu queria entender o que ele estava fazendo. Eu não era corajosa o suficiente para dizer que eu não me importava, mas tampouco corajosa o suficiente para apenas sair de lá sem respondê-lo. Eu não queria que ele me achasse sem educação porque eu precisava que as pessoas pensassem coisas boas sobre mim, mesmo que eu nunca fosse descobrir.
- Você pode sair comigo e me ajudar a passar na matéria. – pisquei, ainda confusa, tentando entender o que ele estava querendo.
- Você quer sair comigo para que eu te ajude a passar? – repeti, mesmo que soasse idiota. Se eu dissesse em voz alta, talvez entendesse.
- Na real, eu só quero sair com você mesmo, . A ajuda é uma desculpa para isso acontecer. - oh, ele sabia meu nome. Virei-me completamente em sua direção.
- Como você sabe meu nome? - foi a única coisa que me ocorreu perguntar.
- Ok, não me ache um perseguidor. - brincou e um sorriso lindo surgiu no seu rosto. Talvez ele não se lembrasse de mim nos próximos minutos, mas eu com certeza me lembraria dele. - Talvez eu apenas tenha entrado nessa aula para descobrir seu nome.
- Ah. - saiu como uma surpresa e eu senti minhas bochechas esquentarem.
- Isso não é bom, né? - se aproximou e seus olhar agora parecia menos divertido. - Eu realmente não sou um stalker esquisito.
- Eu não disse isso. - até porque eu não achava realmente. Eu estava me sentindo, pela primeira vez na minha vida, como alguém importante. estava em aula apenas para descobrir meu nome e isso tinha sido a coisa mais legal que alguém já tinha me dito. Nem minha mãe costumava frequentar as reuniões por minha causa. Era a primeira vez que alguém prestava atenção em mim.
Um sorriso escapou pelos meus lábios e eu pude ver quando ele percebeu.
- Eu aceito. - tentei soar confiante. - Podemos sair e você pode me perdoar pelo esbarrão. – brinquei, apertando mais ainda os livros no meio peito, tentando abafar o som do meu coração acelerado. Eu estava mais nervosa do que estive em toda a minha vida, mas igualmente feliz.
- Amanhã depois da aula? Eu posso te esperar no corredor e vamos juntos para aquela lanchonete da praça aqui perto. - o jeito que seu rosto se acendeu com um sorriso, parecendo verdadeiramente empolgado, era uma imagem que eu nunca me esqueceria.
- Claro. – respondi, tentando não parecer tão afetada.
- Mal posso esperar, . - ele foi se afastando ainda de frente para mim e com um largo sorriso no rosto. Eu não poderia estar diferente também.
Mesmo quando tudo desse errado, e com certeza daria, porque garotos como ele não reparam em pessoas invisíveis como eu, ainda assim me lembraria daquele momento com carinho. A primeira vez que alguém me notou no meio da multidão. Eu faria de tudo para ganhar mais sorrisos daquele.

Presente


Apenas ouvi a porta do motorista bater e abri meus olhos para observar se sentando no banco e apertando o volante com tanta força que seus dedos ficaram brancos. Ele parecia querer gritar.
- Eu não entrava lá há anos. - sussurrou e eu não tinha certeza se ele queria uma resposta, então permaneci calada. - Você já se sentiu como se não pudesse mais lidar com o corpo que você está? Eu nem sei quando foi a última vez que me olhei no espelho sem querer socar meu reflexo.
- Por que está me dizendo tudo isso, ? - nossas vozes pareciam igualmente quebradas, quase silenciosas demais, e totalmente perdidas em um mar de coisas não ditas.
- Eu não sei, . - virou seu rosto em minha direção e tudo que eu vi foram seus olhos azuis me analisando profundamente como se soubesse quem eu era por de trás daquela farsa. - Você me lembra alguém.
- Quem?
- Uma amiga que eu magoei. - sua testa descansava no volante, mas seu rosto ainda estava virado para mim.
- Eu não estou me sentindo muito bem, você se importa de me deixar aqui? - tirei o cinto, já me preparando para sair daquele carro. Eu não aguentaria voltar ao seu lado. Suas palavras rodavam na minha cabeça e embrulhavam meu estômago. Eu precisava vomitar o meu café da manhã antes que eu apenas vomitasse todas as palavras que eu queria.
- Você sabe voltar? – assenti, abrindo a porta sem esperar por uma despedida, mas assim que coloquei uma das minhas pernas para fora, uma das suas mãos agarrou meu cotovelo, me fazendo parar.
Minha pele queimou. Eu realmente senti como se tivesse a deixado em cima de fogo. Deve ter doido nele também, pois rapidamente eu já estava livre.
- Fale com seu amigo. Grite com ele, faça algo se você realmente gosta dele. Faça isso tudo antes que seja tarde demais, . - eu não tive coragem para encará-lo.
- Já é tarde demais, . – respondi, saindo do carro e fechando a porta atrás de mim com força.



Continua...



Nota da autora: Mais um capítulo revisado e esse está completamente diferente do outro. Esse era mais um daqueles capítulos que eu escrevi sendo uma jovem de 15 anos, mas que não envelheceu bem haha. Ele tinha zero contexto e eu sempre pulava ele quando queria reler a história, mas acho que consegui mudar tudo que eu queria com esse. Eu tive que mudar os flashbacks também para dar um jeito em alguns furinhos no roteiro passado (algo compreensível em uma história escrita em 5 anos). Enfim, espero que estejam gostando e fiquem bem <3




Outras Fanfics:

Em andamento:
Harmonias & Ruídos

Ficstapes:
13. Love Drunk (Ficstape #155 - DNA - Little Mix)
03. Soundcheck (Ficstape #051 - The Ride - Catfish and The Bottleman)
03. Without The Love (Ficstape #018 - DEMI - Demi Lovato)


Nota da beta: Olha, eu tô sem estômago para essa história! Eu fico tão nervosa, eu não consigo imaginar essa situação que ela se enfiou! E confesso que eu não aguento mais de curiosidade em saber se vai ter uma explicação detalhada do que aconteceu, porque dá para tentar imaginar, mas não tenho mais certeza nem de quem sou eu, lendo essa fic hahahaha maravilhosa demais, já estou apaixonada por esses personagens, não dá para negar <3

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