Última atualização: 30/08/2018

PRÓLOGO

Quando uma pessoa morre, ela não descansa, não encontra com os amigos mortos e principalmente não dorme para sempre, elas simplesmente arrumam um emprego. Existem dois tipos: Os Ajudantes e os Anjos. Os Ajudantes são os que te acompanham por vários momentos, eles te ajudam a tomar decisões, a fazer escolhas e principalmente a não cometer tantos erros, mas às vezes as pessoas não os escutam e tudo começa a dar errado, e quando isso acontece considera que o Agente fracassou no “caso” e você o perde. Eles são a sua intuição, você decide se segue ou não. E é ai que os Anjos entram, quando você esbarra em alguém na rua, quando conhece alguém no trabalho ou sente alguma coisa por alguém. Anjos não fazem as pessoas se apaixonarem por outras, eles apenas deduzem quem são os seus pares ideais e dão uma “ajudinha” para tudo funcionar, mas às vezes apenas não funciona e no final as pessoas se separam e, assim como o Agente, os Anjos também fracassam.



UM.

O salão parecia maior cada vez que eu passava por lá. Eu nunca me acostumaria com aquele lugar, com aquelas pessoas e com o fato de todos ali estarem mortos, apesar de parecer tudo tão vivo. Eu nunca achei que o céu, paraíso ou qualquer que seja o nome, parecesse como aquilo. Não que eu achasse que eu iria para um lindo campo com lírios e borboletas por todos os lugares, mas um local com filas e senhas também não era como eu achei que fosse.
- . – John disse assim que chegou ao meu lado. Ele era a única pessoa que eu tinha criado um vínculo desde que eu cheguei àquele lugar. Ele era engraçado, bonito e totalmente encantador. Ele tinha belos olhos castanhos e cabelos escuros, era uma beleza simples, mas ainda sim fazia todas as garotas recém-chegadas suspirarem. – Vai pegar outro caso? – Perguntou.
- Eu acho que sim, apesar de eu achar que posso ser rebaixada a qualquer momento. – Eu tinha um trabalho, assim como todos os mortos. – E você?
- Adolescentes com baixa autoestima. – Ele sorriu e eu o acompanhei. Nós não trabalhávamos juntos, na verdade o meu trabalho dependia do trabalho dele. John era um Agente e eu era um Anjo. Ele tinha a missão de ajudar no destino das pessoas e eu a de fazê-las encontrar um amor verdadeiro. Eu não era a melhor nisso.
- Eu sinto muito por você. – Pessoas com baixa autoestima era um dos piores casos que um Agente poderia arrumar. Pessoas assim não fazem boas escolhas e acabam não conseguindo pontos para conseguir um Anjo. – Eu também não estou muito contente sobre o meu próximo caso, se isso ajuda a te fazer sentir melhor.
- Eu fiquei sabendo, parece que nenhum Anjo conseguiu ajudar esse caso. – Tudo cada vez ficava melhor. Eu tinha recebido um chamado mais cedo para que eu me dirigisse até o Líder, era como chamava o homem que decidia quem nós iríamos ajudar. Eu ainda não entendia o porquê de eu estar sendo realocada para outro caso tão rápido, e principalmente o porquê de ficar logo com uma das lendas do departamento. Eu não era boa em ser um Anjo, todos sabiam disso, os meus casais sempre se divorciavam com menos de um ano de casado. Eu era uma piada naquele lugar. – Boa sorte. – John disse assim que chegamos à grande porta que dava acesso a maior sala de todo o lugar. Ele se aproximou de mim e beijou a minha testa como sempre fazia quando nos despedíamos.
- Olá. – Disse assim que fechei a porta atrás de mim. Lá estava ele, como sempre, sentado em uma grande cadeira. Ele tinha uma aparência bem velha e era considerado por todos ali um Rei. Pra mim, ele era apenas ele. – Eu deveria começar a chorar agora ou depois?
- Vamos apenas conversar, pequena . – Apontou a cadeira a sua frente e eu me sentei sem nenhum tipo de postura ou qualquer coisa que parecesse como se eu tivesse interessada naquela conversa. – Parece que as fofocas já chegaram ao seu ouvido, estou certo?
- Talvez. – Respondi olhando ao redor de toda a sala. – Porque você ainda insiste nisso? Eu não sou um Anjo.
- Você apenas pensa de um jeito errado. – Lá vamos nós. Sempre tínhamos essa mesma conversa. – Você precisa parar de pensar desse jeito.
- Eu não vou mudar minhas táticas, só porque você acha que elas não funcionam. – Eu era uma escritora antes de morrer e eu tinha um noivo. Nós iríamos nos casar, mas um bêbado me atropelou um dia antes, quando eu voltava da despedida de solteiro. Nosso relacionamento era tido como modelo, nós nos amávamos e não precisávamos ser diferentes para isso acontecer. Eu sempre acreditei que as pessoas precisam ser iguais para ser perfeitas uma para o outro, mas eu era a exceção à regra naquele lugar. – Eu sou a prova de que pode funcionar.
- Você é uma pequena estatística . – Bufei. – As coisas não funcionam assim. O amor não é algo simples. Nunca foi.
- Foi simples comigo e eu tentarei fazer ficar simples para todos os meus casos. – Aquela não era uma simples discussão de ideais, era muito mais do que isso. Era a minha vida. Ou morte. – É por isso que você vai me entregar o “Homem que não se apaixona”? É assim que o chamam? Isso é tão estúpido.
- Eu entendo todo o seu ódio por esse lugar, mas nós não temos culpa. Não decidimos a vida das pessoas. – Ele estava certo. Mas eu tinha o direito de ficar brava com eles, com quem quer que seja. – Esse não será um simples caso.
- Porque vocês não me rebaixam logo? Eu adoraria cuidar de adolescentes. – Quando Anjos são rebaixados eles passam a cuidar de Primeiro Amor e isso era o pior que você poderia conseguir. A probabilidade de um Primeiro Amor ser o seu Verdadeiro Amor é tão pequena que você nunca conseguiria concluir ou fracassar totalmente um caso para ser realocado para outro, você ficaria preso ali para sempre e nunca conseguiria o que todos procuram: O esquecimento. Quando você conclui um caso, junta um casal e eles conseguem o conhecido “feliz para sempre”, apagam a sua memória e você poderá recomeçar toda a sua vida. Isso soava péssimo para mim no começo, mas conviver com a saudade de quem você ama é bem pior do que não se lembrar que um dia já amou.
- Eu não farei isso. – Ele colocou suas mãos na mesa, e se aproximou de mim. – Mas essa é a sua ultima chance, , faça isso funcionar ou você ficará presa no passado pelo resto dos seus dias.
- Quando eu começo? – Minhas mãos não paravam quietas e eu fazia questão de deixar toda a minha atenção nelas, como se todas as respostas estivessem ali.
- Isso será mais complicado do que o normal. – Ele finalmente conseguiu a minha atenção e eu já começava a pensar no quão problemático os próximos meses seriam. – Isso é raro, para alguém que chegou há menos de 10 anos e principalmente para alguém que ainda está tão ligada emocionalmente com a sua antiga vida, mas eu acho que fará bem para você. – Eu já tinha uma ideia de onde toda aquela conversa levaria. – Você vai voltar à forma humana. – Anjos não voltavam para a terra, apenas ajudávamos a pessoa de uma boa distância. Não conversávamos com humanos, eles não nos viam, éramos invisíveis a qualquer pessoa. A única regra era não ir atrás da sua família. – E então?
- O que? – O olhei como se aquilo não fosse verdade. Talvez uma grande piada. Eu não gostava da ideia de voltar. Todos nós sabíamos que o primeiro lugar que eu iria seria atrás dele. – Isso não vai funcionar.
- É lógico que vai. – Idiotas. – Você começa a se preparar assim que sair daqui.
- Eu não vou. – Eu estava morta há menos de três anos, e isso era tão pouco tempo para qualquer coisa. Eu nunca conseguiria fazer aquilo. Voltar para a terra não te faz um humano, você continua morto. Você morre duas vezes.
- Vá arrumar sua nova vida. – A porta atrás de mim abriu com um estalo, mas eu permanecia sentada. – Confie em mim, .
- Eu só não mando você para o Inferno porque você já está no céu. – Me levantei e saí sem ao menos olhar para trás.
Voltar para a terra era algo que precisava de muitos preparativos. Você constrói uma nova vida, uma nova personalidade, nova história e a pior parte: Um novo corpo. Quando você apenas ajuda à distância você não precisa se preocupar com tantos detalhes, você apenas acompanha a pessoa por um tempo, ninguém te vê, você é apenas você, mas quando você precisa ser vista tudo muda de forma e você precisa se transformar em um novo alguém, a única diferença é que você continua morto. Algumas pessoas gostavam da ideia de ter um novo corpo, eu apenas achava doentio você ter uma nova aparência. Eu gostava do jeito que eu parecia. No inicio da minha vida, eu era bem vaca com a minha aparência e principalmente porque deixava que as pessoas interferissem no jeito que eu me via, mas depois de um tempo eu apenas comecei a me aceitar, em um processo muito lento, mas eu consegui atingir uma marca interessante de amor próprio. Eu era loira e tinha olhos verdes considerados bonitos, mas que por culpa de um grande problema de visão ficavam escondidos por trás de óculos que eu era obrigada a usar desde que eu me entendia por gente, mas apesar disso eu amava usá-los. Eu era feliz parecendo desse jeito e eu não estava nem um pouco adepta a ideia de parecer de outra forma, mas apesar da minha cabeça dizendo o quanto aquilo era estúpido as minhas pernas pareciam animadas para ir em direção à sala onde todo o processo aconteceria.
Aquele lado já era conhecido por mim, mas a ideia de eu estar lá por uma razão própria e não apenas para tentar me esconder não me agradava. Diferente de todo o resto, ali era bem mais aconchegante e com menos pessoas, não havia correrias ou barulhos, era apenas calmo. Uma mulher com aparência jovem, mas que eu apostaria que era bem mais velha do que eu, aguardava com um sorriso atrás de um grande balcão. Ela sabia que eu iria.
- . – Disse sorrindo. - Eu estou feliz que tenha vindo tão rápido.
- Quanto mais cedo começar, mais cedo termina. – Eu tentei soar não tão rude quanto eu gostaria. Ela me parecia o tipo de pessoa que não merece ser destratada.
- Eu tenho o corpo ideal para você. – Ela se virou e começou a apontar para varias gavetas que tinham ali. Eu não consegui perceber de longe, mas eu estava assustada com a ideia daquele lugar parecer um necrotério. – Não é um necrotério.
- Você consegue ler mentes? – Ela percebeu o tom de desdém, mas assim que virou a cabeça em minha direção apenas abriu um sorriso e voltou à atenção para sua frente.
- Eu entendo o quanto você odeia tudo isso... – Ela parou por um instante e pegou uma pasta, e se virou para mim. – Mas isso é para o seu bem.
- Já me falaram isso e adivinha? Eu não estou muito certa a acreditar. – Ela colocou a pasta encima do balcão e apontou para mim. – O que é?
- Sua nova vida. – Ela parecia bem mais animada do que eu. Talvez ela já estivesse acostumada com todo aquele processo, mas isso não diminuía o fato da felicidade dela ser um pouco irritante para mim. Depois de morta as pessoas ficam ranzinzas. Eu abri a pasta e apenas um único papel se encontrava lá. Nele tinha apenas um nome e uma foto.
- Quem garante que eu não vou encontrar nenhum familiar dela? – Ela era bonita e era bastante diferente de como eu parecia.
- Nunca te falaram que você parece muito alguém que já conheceu?
– Claro.
– Não há nenhum familiar dela vivo ou qualquer coisa e se tivesse você apenas seria muito parecida com ela.
- Quando eu começo? – Eu não conseguia tirar os meus olhos da foto daquela mulher. Ela seria eu em tão pouco tempo. Eu acho que poderia vomitar se fosse possível.
- Amanhã. – Sorriu. – Você tem o resto do dia para se acostumar com a sua nova vida e estudar tudo o que você precisa. – Ela se abaixou e pegou alguns papeis e entregou para mim. – Aqui está tudo o que você deve saber sobre você. Volte amanhã no horário que está ai e você poderá começar.
- Aqui tem alguma coisa sobre o meu caso? – Em nenhum momento ela tinha tocado nesse assunto e eu já começava a ficar preocupada. Toda vez que iríamos começar algo novo nós tínhamos o direto de estudar a pessoa e descobrir tudo que ela gostava, não gostava e desejava e assim poderíamos ter uma base para o acerto ser maior. Nunca me ajudou, de qualquer forma.
- Não. – Ela já não sorria mais. – Você não pode saber nada sobre a pessoa quando você vai para a terra.
- Isso é algum tipo de regra? – Ela assentiu. – Eu posso me matar?
- Você já está morta, . – Riu. Eu preferi não dar muita atenção para o seu continuo bom humor e apenas sai dali o mais rápido que eu pude.
Assim que eu cheguei a um lugar que não estava tão movimentado eu encarei a pasta por longos minutos até decidir se eu estava preparada para aquilo. Eu tomei coragem e pensei que talvez não fosse tão ruim assim e comecei a ler o papel.

Nome: .
Idade: 25 anos.
Viveu no século dezenove.
Perdeu os pais em um acidente de carro.


“Nós morremos por amor
Nós vivemos por amor
Mas nunca amaremos de novo”

Inacreditável. Você ganhava um novo corpo, uma nova vida e a única coisa que as pessoas se preocuparam em informar era seu nome, idade e morte dos seus pais. Era apenas inacreditável.



DOIS.

Faltavam menos de 24 horas para eu ganhar uma nova vida. Se eu estava animada com isso? Não. Além do fato de estar morta, existem muitas outras coisas ruins em ser um Anjo. Você não come, não dorme, não sente... Você é apenas vazio. John sempre insistiu em dizer que existiam lados bons em ser um de nós, eu nunca acreditei muito nele. Diferente de John, que ajudava alguém, eu geralmente não conseguia ao menos fazer com que duas pessoas que tinham tudo para dar certo, realmente darem certo. Era tudo uma piada. Isso me fazia questionar o porquê de não ser um Ajudante, talvez eu não fosse ser tão inútil e tão amarga com as coisas ao meu redor. Eu não sabia como eles acham que eu poderia ser menos do que rude com aquele lugar. O fato de ter que ajudar em um final feliz fazia com que eu quisesse vomitar. Eu me perguntava onde estava o meu Anjo quando um bêbado me atropelou, onde estava o meu Anjo quando toda a minha vida simplesmente desmoronou, onde estava o meu Anjo guardando o meu final feliz... Talvez ele apenas fosse tão ruim quanto eu.
- Eu daria a minha vida pra saber o que tanto você pensa. – John disse. Estávamos sentados um de frente para outro. Sempre fazíamos isso quando o tédio começava a surgir, conversávamos sobre tudo ao nosso redor.
- Sorte a minha que você não tem mais vida. – Respondi e ele sorriu o que me fez sorrir. Era impressionante o quanto nós éramos apenas... Eu não sei. Eu gostava dele.
- Eu vou sentir sua falta. – Eu também iria, mas eu resolvi não dizer então apenas assenti. Ele sabia o que aquilo significava. – Você é tão rabugenta que às vezes eu esqueço que você era escritora de romances... E noiva.
- Eu era melhor do que isso. – E eu era mesmo. – Eu só não aceito tudo o que está acontecendo.
- Eu acredito que tudo acontece por alguma razão maior, . – O olhei com desdém. – Já entendi.
- Ótimo. – Não seria a primeira vez que entraríamos nessa conversa – Eu vou poder falar com você, quando eu for humana?
- Por quê? Você sentiria a minha falta? – Riu e eu dei um leve tapa no seu braço – Eu acho que sim. Você precisa se comunicar de alguma forma.
- Ótimo, eu acho que surtaria se não pudesse. – O sorriso que eu dei talvez tenha parecido com uma careta.
- Talvez seja ótimo pra você. –Eu sabia que ele apenas estava tentando ser gentil. Um dos grandes problemas em um Anjo voltar para a Terra era o fato de muitos irem atrás de seus familiares, por esse motivo pessoas com menos de 10 anos de morte não voltavam. Eu tinha três. Não tinha lógica nenhuma eu voltar, mas pensando bem não tinha lógica eu ser um Anjo e tinha menos lógica eu morrer um dia antes do meu casamento, e olha onde eu tinha parado.
- Eu tenho medo de correr para ele. – John sabia de toda a minha história e por isso eu sabia que quando ele dizia aquelas coisas eram apenas para tentar me confortar.
- Se te mandaram para lá é porque eles acreditam que você não faria isso. – Bom, eu não acreditaria tanto assim se fosse eles – Vai dar tudo certo. – Ele pegou as minhas mãos e me trouxe para perto dele e me abraçou até que eu ficasse praticamente deitada na sua perna – Você sabe o que acontece com um Anjo se ele beija um humano, certo?
- Eu não vou nem tentar entender o que você está tentando insinuar com isso. – Eu levantei meu olhar até ele, mas permaneci na mesma posição.
- Eu só quero que tenha cuidado. – Eu deveria ter anotado aquilo de: Ter cuidado.

~*~

Depois de longas horas de conversas com John e alguns passeios para poder ver quem de novo tinha morrido, eu resolvi que já estava na hora de encarar a realidade: Eu estaria viva em pouco tempo.
Assim que cheguei a sala pude ouvir Mark, o Líder, e a mulher de ontem conversando sobre algo; “Ela precisa fazer isso.” Foi a ultima coisa que Mark disse, antes de perceber que eu estava lá. Aproximei-me, lentamente, esperando que eles me dissessem para voltar depois, mas eles sorriram como se pedisse para eu chegar mais perto.
- ... – Disse – Vejo que está preparada...
- Não. – O interrompi. Realmente, um discurso era tudo que eu não queria ouvir naquele momento – Só quero começar, para poder acabar logo com isso.
- Algum dia, você irá mudar sua opinião sobre esse lugar.
- Eu estou pronta. – Eu, nem ao menos, demonstrei alguma reação sobre o que ele disse. Aquilo não iria acontecer. A mulher – que eu não sabia o nome ainda – estendeu a mão para que pudesse me levar ao local. Eu a peguei e pude ver Mark indo embora. Eles nunca deixavam de sorrir, e isso era muito irritante.
- Está nervosa? – Perguntou olhando para mim, enquanto andávamos por um imenso corredor. Eu não respondi e ela voltou a falar – As pessoas, geralmente, ficam. Mãos soadas, olhares confusos e muitas perguntas. Você é diferente, nem se quer demonstra alguma dessas coisas.
- Eu estou bem. – Mentirosa. – Eu só quero acabar logo com isso.
- Talvez não seja de todo mal, . – Porque todos falavam aquilo? Sim, eu concordo que talvez eu tenha uma tendência a ser tão pessimista com tudo que envolve aquele lugar, mas voltar a ser humano apenas para morrer depois não me soa uma coisa boa – Eu entendo que você tenha uma relutância a esse mundo, mas...
- Eu morri um dia antes do meu casamento. Um dia antes. – Parei de andar e não esperei que ela olhasse pra mim para continuar – Onde estava o meu Anjo? Porque eu tenho que ajudar as pessoas, se ninguém me ajudou? Eu não sou hipócrita de dizer que me importo com alguém, porque eu não faço. Não mais.
- Algumas coisas não precisam ser explicadas. – Quando ela olhou pra mim, o sorriso dela não estava mais lá.
- O meu problema, e o da metade da população, é achar que final feliz existe. É apenas o final. – Eu não esperei uma resposta, ou qualquer sinal que ela tivesse me escutado, e apenas continuei seguindo em frente.

~*~

- Chegamos. – Estávamos paradas de frente a uma porta, e eu já poderia imaginar o quão clichê aquilo seria. Eu entraria naquilo e, milagrosamente, aparecia em qualquer lugar na cidade. – Isso não é um portal.
- Sério que você não lê mentes? – Perguntei.
- Eu sou um Anjo, não uma fada. – O sorriso dela era cativante, na verdade, tudo nela te trazia uma paz, até mesmo pra mim. Os cachos em cor preta desciam em camadas pelo seu ombro e o seu intenso olhar era de um castanho que eu não sabia se existia na Terra. Talvez seja algo de Anjo – Você vai se sentar naquela cadeira e irá dormir.
- Anjos não dormem. – Respondi como se fosse óbvio.
- Nessa sala sim. – Ela apontou pra grande cadeira, tão branca quanto à sala, e eu fui até lá. Fiquei parada entre ela e a poltrona e meu corpo inteiro, simplesmente, parou de funcionar. – O que?
- Eu não posso fazer isso. – Não sei se dizia aquilo para avisa-la ou apenas porque eu precisava dizer aquilo em voz alta – Quer dizer... Eu vou atrás dele. – Pela primeira vez, desde que eu tinha chegado àquele lugar, minha voz não saía tão forte e confiante. Eu tinha voltado aos tempos que eu era apenas uma garotinha. – Eu não sou boa nisso... Porque vocês estão fazendo isso comigo? – Me virei para poder olha-la – Era pra eu aprender alguma lição? Eu já aprendi... Eu não quero ficar longe do John, eu não quero me apegar alguém apenas para morrer de novo. Eu não quero morrer mais. - Os olhos delas não demonstravam mais alguma alegria, tudo o que eu podia distinguir era pena.
- Eu queria poder ajudar, , mas eu não posso. – Nem mesmo sua voz tinha conseguido me acalmar. Eu não sei como não tinha começado a chorar como um bebê ainda – Você poderá se comunicar com a gente, com John e com todos aqui. Agora, eu preciso que você se sente e tente relaxar. – Voltei a ficar de frente para cadeira e pude sentir suas mãos nos meus ombros como se ela quisesse transmitir algum conforto – Eu sinto muito. – Foi a ultima coisa que eu ouvi antes de sentar e fechar meus olhos.



TRÊS.

Cabine telefônica. Foi esse o primeiro lugar que eu apareci. Eu estava um pouco tonta, ou talvez cansada, da “viajem”, na verdade era uma sensação diferente de tudo, mas eu não prestei muita atenção nisso porque a sensação de sentir o ar entrando nos seus pulmões é algo maravilhoso e muito melhor do que qualquer coisa. Eu respirava. Eu sentia. Eu estava viva. A roupa que eu usava não era, definitivamente, alguma que eu usuária normalmente. Era uma calça e um blazer preto, tudo formal demais, e um salto alto muito desconfortável, além de uma pequena mala com um nome de no chão. Eu peguei a mala e resolvi sair de lá, já que um senhor do lado de fora não parecia muito contente com uma mulher atrapalhando sua ligação. Assim que abri a porta consegui sentir algo vibrando de dentro da bolsa e percebi que alguém estava ligando para mim – para – era desesperador. Eu já não sabia se respirar era algo tão maravilhoso assim.
- Alô? – Assim que o levei ao ouvido, barulhos de pessoas gritando era tudo o que eu escutava.
- Onde você está? – Era uma mulher e ela não me soava muito feliz. – De qualquer forma, eu não quero saber, só venha para cá. É o seu primeiro dia de trabalho e o seu chefe está louco atrás da nova secretária.
- Ir aonde? – Definitivamente, aquela não era uma pergunta inteligente, mas eu não tinha nenhuma ideia melhor.
- Ha-há Temos uma empregada engraçadinha. – Antes que eu pudesse tentar perguntar algo, eu já não escutava mais nada.
Eu não conhecia muito bem aquele lado da cidade, mas eu já tinha passado por lá algumas vezes. Prédios e mais prédios eram tudo o que se via. Pessoas andavam apressadas de um lado para o outro como se corressem para algo melhor, mas eu sabia que não. Eu precisava de um lugar calmo para abrir a pasta e talvez planejar um suicídio, o que desse menos trabalho para mim. Andei por alguns minutos até que pude ver um grande restaurante.
Epicerie Boulud. O letreiro dava entrada a algo parecido com uma grande loja de doces, pães e bolos. Era bastante grande e aconchegante. Não sabia se tinha dinheiro dentro daquela mala, mas como eu tinha um emprego talvez eu também tivesse dinheiro. Ou não, mas eu rezava para que sim. Eu não tinha percebido que estava parada por tanto tempo observando aquele local até que senti alguém esbarrando em mim ao sair. Eu tinha me esquecido o quão bom era sentir o toque de alguém. Não que eu não pudesse sentir John, ou outros mortos, mas sentir alguém vivo era muito melhor. Você passa dar valor as pequenas coisas da vida depois que morre. Adentrei ao espaço e percebi que ele era divido por dois andares. Era muito mais bonito do que parecia ser. Sentei em uma pequena mesa no fundo, onde não tinham muitas pessoas, e pela primeira vez pude reparar em tudo a minha volta, exatamente como fazia antes de morrer. Casais, famílias, senhores e jovens andavam por aquele lugar sem prestar a mínima atenção em quem estava a sua volta. Eu nunca entendi como as pessoas conseguiam ser tão desatentas às vezes. Olhe para o lado, menino que está lendo no balcão, a menina ao seu lado está sorrindo esperando que você fale com ela. O livro em suas mãos é o seu favorito. O jeito como ela sorrir ao ver as páginas sendo virada, ela sabe exatamente o que acontecerá com o personagem principal, pois ela já sentiu as mesmas coisas que você ao ler essa frase. Ela apenas quer que você se vire e diga “Oi”. Os melhores romances são aqueles que nascem de um bom livro. Ele não me ouviu, ele não ouviu a respiração dela, ele não a ouviu de nenhuma maneira. O garoto do livro levantou-se e saiu sem olhar para trás. E a menina? Esperou, esperou e esperou. Talvez, assim como ela, eu tenha esperado que ele voltasse, mas ele não fez e ela foi embora. Eu gostava de criar histórias para pessoas desconhecidas, mas diferente das páginas de um livro, na vida real eu não podia moldar o final, eu sequer podia bater no garoto por deixa-la escapar. A pasta em cima da mesa agora tinha toda a minha atenção, eu não estava muito certa em abri-la, mas eu fiz e lá tinha: Uma chave, um celular e um papel, o abri torcendo para que tivesse algo de relevante escrito nele.
“Você não podia receber nenhuma dessas informações antes de voltar, por inúmeros motivos, e agora que isto está em suas mãos você tem tudo o que precisa para essa jornada, , você se chamará a partir de hoje – como você já sabia – e trabalhará como secretária pessoal na empresa do seu caso: ”.
. Eu reli. . Aquilo era uma piada. Uma grande e infeliz piada.


2012, Agosto.

Eu já era noiva do há dois anos, mas com a correria dos meus livros, nós adiamos o casamento por todo esse tempo, mas finalmente começávamos a preparar a festa. Nos casaríamos em Dezembro, que mesmo com a proximidade com datas comemorativas, sempre foi algo que eu quis fazer. Eu nunca entendi o porquê das pessoas serem tão más sobre casamento, talvez se parassem de fazer péssimas escolhas de maridos ou de mulheres não existiriam tantos divórcios no mundo. Eu tinha feito à escolha certa. era o certo.
- Você tem certeza que quer se casar? Principalmente com ela. – A voz dele era algo tão irritante que se não fosse para aguentá-lo eu não sei se me manteria a uma distancia de menos de 1 km. – Ela é chata, mandona, meio psicótica, eu gostaria de te lembrar, e principalmente louca. Ela é completamente pirada. Não se case com escritoras. Elas são tão ruins quanto compositores. Ela é praticamente uma Taylor Swift, sem o violão, se vocês terminarem ela pode escrever uma trilogia sobre o quão ruim você é.
- Eu poderia escrever um livro sobre o quão ruim você é. – Sorri, ao voltar para perto do , que estava sentado de frente para ele. Eu não parei pra pensar muito quando ele me convidou para ir ao escritório do dar a notícia do nosso casamento. No fundo, eu queria ver a cara dele. Eu gostava de vê-la quando eu ganhava e principalmente quando isso incluía sua derrota.
- . – Eu odiava quando ele me chamava por apelidos. – Eu li o seu livro e suponho que o cara que morre no vigésimo capítulo seja eu.
- Estou surpresa por saber que você usa seu cérebro para algo mais produtivo do que arrumar apelidos estúpidos para levar garotas estúpidas para cama.
- Para uma escritora você não possui um vocabulário muito amplo. – era a pior espécie de homem que eu já tinha convivido em toda a minha vida.
- Vocês podem parar? – , percebendo que aquilo não teria fim, levantou-se para dirigir-se a saída. – Você vai ser o padrinho. – Disse antes de fechar a porta atrás de nós – Vocês precisam parar com isso, quer dizer, daqui alguns meses ele será padrinho do nosso casamento.
- Sobre isso: não estou certa que eu tenha concordado. – Entramos no elevador, ele não sorria mais ou segurava a minha mão. Sempre tínhamos problemas quando o assunto envolvia seu melhor amigo.
- Eu nunca vou entender esse problema entre vocês dois. – Oh não. – Algum dia, eu espero que vocês dois me contem. – Eu sentia o ar ficando pesado em todo o elevador. As coisas não podiam ir para esse caminho. Eu não gostava do final dele, ou pior, do seu começo. – Afinal, você é minha futura mulher e ele é quase meu irmão.
- Eu não gosto dele e pronto não há um motivo especial para isso. – Eu odiava mentir, mas eu prometi que se ainda não tinha contado para ele – e para ninguém – não seria eu quem faria. sempre percebia como eu ficava quando esse assunto vinha à tona e mesmo assim nunca me pressionou para dizer nada. Ele apenas mudava de assunto. E era por isso que eu gostava tanto dele. era calmo, não tinha surpresas, não tinha problemas. Ele era como as nuvens, sempre estão lá não importa se um dia é ensolarado, sempre terá uma nuvem para te ajudar, ou se está nublado. Ela sempre estará lá, apenas se moldando as mudanças, mas nunca sendo a mudança. não mudava. Ele era uma linha reta no meio de tantas curvas.
- Tudo bem, . – Ele saiu assim que o elevador chegou ao térreo. Não olhou para trás, não olhou para mim ou fez algo. Ele apenas saiu.


Atualmente.
[...] Você poderá comunicar-se com John, mas não brigue com ele. John sabia quem seria o seu caso e por isso fomos tão misteriosos sobre tudo. Ele só queria o seu bem, não se esqueça. A chave dentro dessa bolsa pertence ao seu apartamento e o seu endereço está escrito ao fim desta folha. , não estrague tudo e boa sorte.
Boa sorte? Não estrague tudo? Eu não acredito que eles tenham feito isso, não comigo ou com . Todos sabiam que a probabilidade de eu voltar correndo para era enorme e fazer com que eu fique perto do melhor amigo dele apenas piorava tudo. Eu não estava normal ainda. Eles sabiam disso, John sabia disso, qualquer pessoa morta naquele lugar sabia disso.
- A senhora pedirá algo? – Um garçom, que eu poderia jurar estar parado ali por muito tempo vendo meu desespero, perguntou parecendo preocupado. Bom, eu também estaria se fosse ele. – A senhora está bem?
- Não. – Eu sequer levantei meu olhar para o seu rosto – Onde fica o banheiro?
- Segue o corredor, primeira porta a direita.
- Obrigada. – Joguei todas as coisas de volta para dentro da bolsa e fui o mais rápido que pude falar com John.
O banheiro não era menos bonito que o resto do restaurante e não menos cheio também. O grande espelho cobria toda a parede, e as mulheres se alinhavam uma ao lado da outra, para poder se ver. Os boxes atrás delas era a última coisa usada por ali. Fui até o fundo, onde tinha um último espaço vazio para ir e foi primeira vez que eu pude me olhar e sim, eu ficava bonita naquela roupa. Toda a minha aparência soava muito mais forte do que como eu era eu nem sequer posso me imaginar vestindo algo diferente do que eu estou usando agora, nada diferente de roupas chiques e pretas, nada de saias ou vestidos e principalmente nada que usaria. Pela segunda vez naquele dia, o celular vibrava dentro da pasta e eu não estava mais desesperada, apenas nervosa e totalmente enfurecida. O número de pessoas não era tão grande como antes e eu podia falar normalmente ao celular.
- Alo. – O outro lado da linha não estava mais com barulhos. Era um completo silencio.
- Eu achei que já era para você estar aqui. – . Eu reconheceria aquela voz mesmo depois de anos. – E então? – Vamos, , responda, brigue, faça algo...
- ? – Péssima resposta.
- Senhor para você, ou pior se você não chegar a menos de uma hora será apenas ex-chefe. – Eu não posso fazer isso. Eu o odeio, eu odeio o fato dele ser tão inútil ao ponto de precisar de mim para ter alguém, quer dizer, se ele não fosse tão idiota, egocêntrico, metido e infiel nós não teríamos esse problema. Eu não teria esse problema. Eu não gosto de ter problemas e eu não gosto dele, principalmente. – Porque não desligou? Venha agora. – Eu não respondi por que eu não gosto de xingar pessoas e eu o xingaria. Muito. Eu poderia escrever um livro de palavras feias direcionadas ao .
Eu ainda me lembrava do endereço do escritório dele. Apesar, de eu não ir muito para aquele lado da cidade por motivos óbvios, mas eu também não poderia me esquecer de todas as vezes que me obrigava a acompanha-lo para ir visitar seu amigo, ou quando eu ia sozinha por causa de alguma sessão de autógrafos na livraria daquele bairro, de qualquer forma, eu não gostava de ir muito para lá. No fundo da bolsa tinha algumas notas de dinheiro e foi como eu paguei o taxi. Eu ainda tinha conseguido ver a livraria que há quatro anos eu tinha feito minha primeira sessão de autógrafos.
A empresa não tinha mudado nada desde a última vez que eu tinha ido até lá. Grande e assustadora era como eu a gostava de defini-la. As pessoas que trabalhavam nela não eram nem um pouco convidativas para mim. Homens de negócios que se achavam o rei do mundo, secretárias que só estavam interessadas em casar com homens ricos e dinheiro, muito dinheiro, mais dinheiro do que eu já tinha visto em toda a minha vida.
- Olá... Eu sou... ... – A morena atrás da mesa sequer tinha olhado para mim. – Com licença, você pode parar de prestar atenção na sua interessantíssima cutícula e olhar para mim. – Ela não parecia contente, mas eu já tinha a sua atenção. – Obrigada, então eu sou a nova secretária do... ...
- Senhor . – Uma voz feminina me interrompeu. – Para você, apenas senhor. – Eu me virei para encara-la e ela era a personificação de tudo o que eu imaginava daquela empresa: Ruim. Eu poderia apostar que ela já esteve na cama do Senhor , ela é exatamente o tipo dele. Ela seria perfeita para ele e seria tudo tão simples. Ela nunca recusaria e todo o seu dinheiro. Ela era a resposta para todos os meus problemas. Eu só deveria ser legal. Eu deveria apenas ser como o traidor do John. Eu deveria fazê-la gostar de mim. Eu posso ser legal, às vezes.
- Eu sou . – Estendi minha mão para um comprimento, mas ela sequer fez menção de responder. Eu precisava engolir a vontade de arrastar o cabelo ruivo dela pelo saguão. – Então, oi.
- O Senhor está esperando você. – Ela se virou e começou a andar, mas eu não me movimentei para segui-la. Eu não estava muito confiante sobre revê-lo. – Está esperando um convite? – Ela se virou e eu quase pude sentir as moléculas do shampoo dela na minha garganta. Qual é a função de fazer viradas de cabelo? Além de claro, quase quebrar o pescoço.
- Se ele vier com uma maravilhosa cesta de café da manhã e uma pitadinha de tudo o que há de bom no mundo, eu aceitaria. – Ok. Agora ela não parecia contente. A ruiva se aproximou de mim e o salto dela a fazia ficar tão alta que eu não sabia se eram os silicones que tinham criado algum tipo de inteligência para gritar comigo ou apenas ela era alta demais perto de mim.
– Não faça gracinhas, não fale comigo e principalmente, não sorria. Você está perto de perder o emprego.
- Foi só uma piada. – Eu nunca conseguiria ser simpática com alguém como ela, eu não era simpática nem com a minha família, talvez eu precisasse arrumar outra pessoa para ficar com . Alguém tão desnecessário como ele.
- Apenas me siga. – Eu já tinha evitado o meu reencontro com o o suficiente pra saber que não tinha mais volta. Eu teria que passar por isso. Ela praticamente corria na minha frente e eu apenas me arrastava, torcendo para que eu acidentalmente morresse, quer dizer, eu já morri antes isso não é tão difícil de acontecer comigo. – É aqui. – Ela parou na frente de uma grande porta de correr preta, exatamente como eu me lembrava. Nada tinha mudado desde que eu morri. Eu não reparei muito quando ela bufou e saiu, me deixando ali parada e sozinha. Talvez, se eu corresse...
- Até que enfim. – Era ele. Eu não me virei porque eu não acho que conseguiria me mover. Na verdade, eu já não tinha tanta certeza se eu ainda estava viva porque respirar não era mais uma opção. – E então? Quando vai começar a implorar para não ser demitida? Eu espero que você seja melhor implorando do que a última secretária.
- Boa tarde, . – Eu não sei era a raiva de ter de volta toda a arrogância dele perto de mim ou apenas o fato de tê-lo próximo, mas eu já não estava mais com medo. Toda a raiva que eu sentia enquanto estava morta voltou e apenas direcionada no verdadeiro culpado da minha morte: . – Isso não vai se repetir. – Eu finalmente me virei para ver como os anos tinham sido com ele. era todo o caminho errado do mundo. Ele continuava a mesma coisa de sempre: bonito demais, arrogante demais, tudo demais para mim. Os seus cabelos não eram mais desgrenhados como da última vez que eu vi e eles estavam mais escuros que o normal e os olhos... Ah era muito desnecessário com aqueles belos olhos claros.
- Eu espero que não. – Ele nem por um minuto prendeu seu olhar em mim e no fundo eu estava o agradecendo por isso. Se ele olhasse pra mim por mais de cinco minutos, eu perguntaria sobre . – Você vai ficar parada na porta? – Respire. Respire. Respire. – Você está me cansando... – Eu não esperei que ele terminasse seu incrível monólogo de homem-rico-mas-ainda-bancado-pelos-pais. Bati a porta o mais forte que pude atrás de mim e não sentei na cadeira que estava a frente da sua mesa. O quanto mais longe melhor. deveria vir com um aviso de perigo.
- O que eu tenho que fazer? – Pela primeira vez, desde que eu o vi, ele prestou atenção em mim. Atenção demais. Ele não costumava encarar pessoas, eu sabia disso porque eu o conhecia, mas seus olhos tinham escurecidos. Ou era a luz. Ou era apenas a minha cabeça. Por um minuto, eu pensei que ele tivesse percebido que eu era a . O jeito como ele me olhou por breves segundos foi como se ele conseguisse ver que eu estava morta por dentro. – Você pode parar. – Desviei meu rosto e foquei nos quadros que estavam a minha direita. Eu não me lembrava deles.
- Parar com o que? – Eu conhecia aquele tom. Ele começaria a flertar em pouco tempo. – Você é mais bonita que a última secretária.
- E mais inteligente também. - Eu não sabia se ele estava sorrindo, porque eu não me atrevia a olha-lo, mas eu poderia apostar que sim. – Onde fica a minha sala? – Na verdade, “Onde eu me escondo para ficar longe de você para poder planejar sua morte?”.
- Naquela mesa. – Ele apontou para um pequeno espaço com nada mais que uma mesa, um computador e uma cadeira. – Bem pertinho de mim. – Eu não demorei muito tempo olhando para a minha “sala torturante” e foquei minha atenção apenas no homem a minha frente. – Algum problema?
-Um aviso: não vou para cama com você. – O sorriso dele tinha ficado maior e talvez, remotamente em um universo paralelo, mais bonito.
- Não é assim que se fala com seu chefe. – Eu podia perceber que a mania de brincar com a pequena bola de beisebol que o avô dele tinha lhe dado continuava mesmo depois de anos. – Eu poderia te demitir se eu quisesse... – Ser demitida não era ruim, mas não tinha outro jeito de acabar logo com essa missão sem trabalhar naquela empresa. – Mas eu não vou... Por enquanto.
- Obrigada, senhor. – Eu espero por céus que aquilo tenha soado sarcástico o suficiente para ele.



QUATRO.

[...] Na verdade, eu não escrevia nada há exatos dois meses e coincidentemente fora nesse mesmo tempo que toda a montanha-russa do meu relacionamento apenas ia para baixo. Sem mais surpresas, sem mais subidas, sem mais o bom frio na barriga ao ver uma nova descida. Apenas o medo, desespero e a vontade de que aquilo terminasse logo para que eu pudesse me divertir em algum brinquedo mais seguro [...]
- O que você está fazendo? – Estávamos em silêncio por um bom e maravilhoso tempo, mas eu conhecia o suficiente para saber o quanto ele detestava ficar calado.
- Nada... – E de certo, eu não estava mesmo. Eu não sabia como ser uma “secretária do ou qualquer coisa dele. Então, eu apenas abri o Word e comecei a reescrever algumas partes do meu livro porque era isso que eu sabia fazer.
- Eu gostaria de lembrar que você trabalha e que seu chefe está na mesma sala que você. – poderia ser o pior em tudo, mas quando estava no trabalho ele era o cara mais responsável que eu conhecia. Eu nem sei como ainda não tinha sido demitida. – Você ao menos sabe o que uma secretária faz? – Disse já não prestando mais atenção no computador. Ele me olhava com uma expressão séria.
- Eu tenho que anotar os seus recados? – “Ou apenas ir pra cama com você?”.
- Anotar os recados, organizar a minha agenda, revisar meus textos para a reunião e... Não deixar com que mulheres entrem nessa sala. – Mulheres? Porque eu esperava algo diferente dele? – Quem te contratou? Meu Deus.
- Deve ter sido ele mesmo. – Dei de ombros e voltei a atenção para a tela na minha frente.
- Meu Deus. – Repetiu, fechando a tela do seu notebook e se levantando. – Eu tenho que ir no andar de cima. Anote os recados e se alguém ligar falando que está grávida de mim apenas diga que eu viajei para Bahamas, sei lá, invente algo. – Assim que fechou a porta atrás dele, eu relaxei. Nos últimos minutos, em que ele estava na sala, eu apenas queria voltar a estar morta.
Levantei da cadeira e comecei a andar pelo grande escritório. A mesa de ficava na frente de uma grande janela e ao lado dela a mesma estante de livros de anos atrás. Aproximei-me dela e a única coisa em que eu pude prestar atenção foi no pequeno livro na quinta prateleira. Eu nunca tinha reparado nele ali. O peguei e ao abrir eu senti meu coração parar, mas não era como da ultima vez, eu continuava lá. Eu continuava viva, meus dedos continuavam passando as folhas lentamente como se o meu cérebro quisesse fixar as lembranças de senti-las. “Ao , a minha prova que o amor pode ser leve e perfeito. A minha linha reta no meio de tantas curvas”. A primeira frase do meu primeiro livro. Por mais que eu quisesse reler cada pagina e me lembrar de todas as emoções dele, eu não estava pronta para continuar lendo, eu sei que desabaria a qualquer momento se fizesse. Coloquei o livro no mesmo lugar e voltei a observar a minha volta. Alguns retratos deram lugar a quadros e outros foram trocados por fotos mais recentes, mas ainda sim eu conseguia reconhecer cada centímetro daquele lugar, mesmo indo ali poucas vezes.
- ... – A voz de John surgiu atrás de mim me fazendo quase derrubar a foto que eu tinha pegado. – Desculpa...
- Você fez tanta besteira ultimamente que eu não sei sobre o que você está se desculpando. É a foto? Ou o fato de ter me escondido algo assim? – Me virei para olha-lo. John não parecia sorridente ou feliz como ele sempre foi. – E então? – Cruzei os braços. – Quando ficou sabendo?
- No dia que você foi falar com Mark. – O olhei incrédula. – Eu sei... Eu não podia te contar...
- Não podia contar? – Eu nem o encarava mais. – Você era a única pessoa naquele lugar que eu confiava. Como ficou sabendo disso?
- Ah... – John olhava em volta como se tentasse achar alguma resposta perdida naquele lugar, Ele estava prestes a mentir. Eu sabia disso. – Mark confia em mim...
- Vamos tentar de novo. – O interrompi. – Só que desta vez você não tentará mentir, então John como você soube?
- Eu não posso contar. – Respondeu rápido.
- Não pode contar? – Assentiu. – Você não tem a mínima noção da sorte de já estar morto, ou eu mesma mataria você John.
- ... – Tentou puxar meu braço, mas eu me afastei. – Tudo isso é muito maior do que você pode imaginar, envolve muitas pessoas e envolve as vidas delas.
- Eu sei como o sistema funciona... – Ele não iria começar uma aula ali, não agora. – Não tente me ensinar a como ser um Anjo, você nem ao menos é um.
- Você não sabe a missa metade, . – Ele me olhava sério. – Existem coisas que são maiores do que outras e por mais que a nossa amizade seja algo enorme pra mim eu não posso te contar como e por que eu fiquei sabendo. – Apesar de parecer bastante chateado por ter escondido isso de mim, e apenas ele sabia o quanto isso era importante. Ele não parecia arrependido de não ter contado. – Eu espero que entenda...
- Eu vou superar o fato da única pessoa que eu confiei, depois de muito tempo, ter escondido algo assim de mim. – E eu iria, mas não naquele momento. Eu estava magoada demais pra isso.
- Eu espero que sim. – John sorriu de lado e passou as mãos pelos cabelos bagunçando-os mais. – Eu preciso ir, já está no corredor. – Eu não respondi ou esbocei qualquer reação e ele apenas sumiu na minha frente poucos segundos antes de abrir a porta.
– Você não parece nada bem. – Disse me observando enquanto passava por mim para ir até a sua mesa.
- Foi a palidez, os olhos fundos ou a boca roxa que te fez pensar isso? – Respondi com ironia indo em direção a porta.
- Eu só disse que você não parecia bem... Mulheres são tão sensíveis às vezes. – Ele levantou as mãos como se tivesse se desculpando. – Eu não disse que você parecia morta.
- Bom, talvez eu pareça. – Disse antes de abrir a porta para sair daquela sala. Eu iria desabar a qualquer momento e eu não era boa nisso. Eu nunca fui do tipo de chorar, mas quando fazia eu simplesmente chorava por todas as coisas na minha vida. Era como se eu juntasse tudo que acontecia em um pedaço de mim e quando eu chorava tudo ia embora. Tudo era levado da minha vida e depois o novo ciclo começava. Andei por todo andar sem soltar uma lágrima, mas assim que ia me aproximando da porta do banheiro eu já as sentia sendo formadas. Eu só precisava chegar a um lugar calmo e silencioso para externar todos os sentimentos guardados por três longos anos.
O banheiro estava calmo e apenas uma mulher retocava a sua maquiagem. Eu pude reparar quando ela me olhou de canto de olho, mas não fez nenhuma menção de falar comigo. Eu a agradeci mentalmente por isso. Conversar era a última coisa no momento que eu pensava em fazer. Apoiei as minhas mãos no mármore e evitei me olhar no espelho, a minha aparência apenas me lembraria de tudo o que eu estava passando e ainda tinha que passar e eu não queria chorar ainda. Não com ela ali dentro.
- Você é a nova secretária do ? – Não a encarei, mas a percebi olhando animada em minha direção. Eu já não gostava tanto dela como antes.
- Sim. – Disse simplesmente, esperando que ela me achasse antipática demais e saísse do banheiro.
- E já está vindo aqui chorar? – A encarei. – É um recorde.
- Eu não estou chorando. – Ela riu com a careta que eu fiz. Apenas desgostando mais a cada milésimo de segundo e contando...
- Não precisa ficar na defensiva. – Bufei e voltei minha atenção a mármore. Nunca ao espelho. – É bem normal as secretárias dele chorarem pelos cantos da empresa... – Ela tinha voltado a retocar o brilho labial. Ela parecia bem mais nova do que todos ali dentro. Seu cabelo mais longo e mais escuro que o meu. Tudo nela soava novo demais para estar ali e apesar dela parecer simpática, eu não queria falar com ela.
- Eu não estou chorando. - A interrompi, mas ela apenas fingiu que não me ouviu e continuou arrumando seu longo cabelo.
- Geralmente, não acontece na primeira semana a não ser que você já tenha caído pelos encantos dele... – Ela me olhou assustada. – Isso já aconteceu?
- O que? Não. – Eu estava mais defensiva do que gostaria.
- De qualquer forma, isso acontecerá. Não tenha uma alma viva nessa empresa que não tenha se apaixonado por ele. – Eu apenas a encarava como se ela fosse louca e bem, ela era.
- é difícil demais para alguém ama-lo. Nunca vou entender isso. – O corpo sarado dele deveria ajudar ou os olhos. Definitivamente, eram aqueles olhos. Eu os odiava.
- Na verdade, elas choram porque perceberam que o teste de gravidez deu negativo e adeus pensão milionária, mas é fofo você achar que isso tem algo a ver com amor. – Riu me fazendo voltar prestar atenção nela e não nos atributos físicos do meu chefe. – nunca se envolveu de verdade com alguém. – Deu de ombros.
- Nunca? – Eu nem lembrava mais que tinha ido ali para afogar as minhas mágoas, a mera menção da vida amorosa dele me lembrou de que aquilo tudo era o meu “trabalho” e que quando mais cedo começasse mais cedo terminava. “Vamos, , você apenas quer saber se ele ficou com alguém, por mais de uma noite, depois de tudo.” Alguém gritava no fundo do meu cérebro. Eu resolvi ignorar, de qualquer maneira.
- Não. Eu já perdi as contas de quantas secretárias entram por aquela porta. – Ela apoiava as costas no balcão de mármore e olhava para frente, mas sempre virando para mim. – É sempre a mesma coisa: Elas chegam, eles transam e elas saem. Simples e prático. – Eu imaginava o número de mulheres que tenham feito isso talvez seja o mesmo de número de Anjos que fracassaram naquele caso. E eles são muitos. Eu ainda tinha a imensa curiosidade de saber como ele conseguiu o primeiro. Os Ajudantes só deixam as pessoas que eles sabem que podem amar. E eu conhecia o suficiente pra saber que ele não sabia o que era gostar de outra pessoa, além dele. – No que está pensando?
- Em como alguém pode se apaixonar por ele. – Eu sabia bem como aquilo acontecia. Na verdade, a minha duvida é: Como ele poderia se apaixonar por alguém?
- Ele é tão gostoso que eu acho impossível não acontecer. – Disse. – A propósito, eu sou Ella.
- . – Ela sorriu se desencostou do balcão e foi em direção à porta. - Você é meio mal educada, mas podemos superar isso, já que você é a única pessoa nessa empresa que talvez seja interessante conversar. – Riu, o que me fez rir junto antes dela sair do banheiro, me deixando, finalmente, sozinha. Não esperei muito tempo para matar a minha curiosidade. Logo, alguém entraria lá.
- John. – Chamei esperando vê-lo em qualquer lugar. – Como isso funciona? Abracadabra. Eu não sei. John eu te perdoo. Preciso falar com você...
- Isso é um banheiro feminino, – Ele apareceu na minha frente me fazendo pular de susto. – Desculpa...
- Tudo bem, John. – O interrompi. – Como conseguiu um Anjo? Eu fiquei sabendo que os relacionamentos dele não duram nem uma semana. Eu o conheço há mais de dez anos e eu sei que é impossível fazer com que ele se importe com alguém além de si próprio.
- ... – Lá vem a mentira. – Nós, Ajudantes, não tentamos entender como o processo funciona, ele apenas dá certo. Nossa missão é ajudar a pessoa a tomar decisões, ser alguém melhor e prepara-lo para o amor. Se você está aqui é porque ele pode amar alguém... Ou já amou. Depende do ponto de vista.
- Você fugiu horrores da pergunta, mas vou relevar. – John vinha se esquivando de tudo sobre a minha missão e eu odiava a impressão que eu tinha sobre isso. – Pode ir, já que você não vai ajudar mesmo.
- Boa sorte, . – Ele se aproximou para beijar a minha testa e eu deixei, mas ele fez diferente das outras vezes e beijou minha bochecha. – Você sabe que eu não faria nada para te magoar. – Foi a ultima coisa que ele disse antes de sumir.

~*~

- Você mexeu na estante? – Eu sequer tinha fechado a porta quando ouvi a voz – nada amigável – de .
- Bom... – Eu não sabia o que fazer então eu fiz o que todo mundo faz quando não sabe o que dizer: Menti. - Não.
- Vou perguntar de novo e se você mentir você nem precisa voltar amanhã. Você mexeu na estante, ?
- Eu gosto de livros. – Respondi sem levantar meu olhar do chão. Eu odiava quando as pessoas brigavam comigo. Principalmente, ele.
- Tudo bem, eu também gosto. – Desde quando? – Você pode pegar qualquer livro da estante, menos o que você olhou hoje. – Voltei para a minha mesa e fingi estar interessada na tela do computador, mas o silêncio que se formou naquele lugar apenas era forte demais pra eu aguentar.
- Como descobriu? – O modo como ele tinha falado comigo, com tanta acusação, sobre mexer no meu livro apenas me deixou incomodada. Eu nem sequer sabia que ele o tinha, eu nunca tinha reparado, apesar de saber que ele já tinha lido. – Sabe... Que eu o peguei? Era só um livro... – Disse mais para mim do que pra ele.
- Eu sou bastante observador, . – É eu sabia disso. – Só não gosto que mecham nele. – Os seus olhos sequer se moviam da tela do seu notebook.
- A autora dele morreu não foi? – Eu não sei por que tinha perguntado aquilo, mas eu não pude evitar. Na verdade, eu nem sabia se era algo tão relevante ainda. Já tinham se passado três anos, mas o modo que ele agiu me fez perceber que era algo muito importante. Ele fechou os olhos como se precisasse entender a pergunta. Nenhum músculo se movia, mas sua respiração era audível em qualquer lugar daquela sala. Eu quase podia tocar a tensão daquele lugar. Eu não sabia como deveria reagir com aquilo. Ele ainda parecia se importar mesmo depois de tanto tempo... É isso que chamam de culpa? Talvez...
- Não falamos sobre o livro, não falamos sobre a autora do livro e não falamos sobre nada que lembre qualquer um desses assuntos. – Respondeu depois de um bom tempo em silêncio. Seus dedos voltaram a ativa e sua atenção estava de novo no computador, mas eu sabia... nem ao menos escrevia algo ali.
- Tudo bem. – Eu também não acho que era um assunto que eu queria colocar a tona, de novo. Ele pareceu bem sentido quando eu fiz.
- Onde você estava? – ainda detestava silêncios.
- No banheiro. – Eu não acho que quisesse falar com ele, apesar de também odiar silêncios. – Fui abordada por uma garota. Ella.
- Aposto que ficou sabendo de todas as histórias sobre as minhas secretárias. – Riu, um pouco menos nervoso, mas eu não o acompanhei. – O que achou?
- Fiquei enojada, no mínimo. – não respondeu, ele gargalhou. Eu não achei que ele algum dia pararia de rir e aquilo estava me irritando profundamente. – Qual é a piada?
- Por enquanto, nenhuma, mas quando você estiver apaixonada por mim será engraçado. – Agora quem ria era eu. Se soubesse com quem ele estava falando ele acharia tão hilário... – Qual é a sua piada agora?
- Você não entenderia. – Respondi parando de rir. – Quando eu posso ir embora?
- Não tem nem três horas que você chegou. – Disse surpreso e fechou seu notebook. – Eu tenho uma reunião amanhã e quero que você revise o meu texto para apresentação, quando terminar deixe na minha mesa e poderá ir.
- Só isso? – Talvez a única função de se existir o cargo “Secretária pessoal de ” seja procriar mesmo.
- Quer fazer algo, além disso? – Ele estava flertando. Eca, eca.
- Não nessa vida. – Talvez na antiga, mas eu não cometo o mesmo erro duas vezes.
- Vamos nos lembrar disso daqui algumas semanas. – Ele se levantou e pegou seu casaco. – Sabe, vocês não duram mais de um mês sem ir para a minha cama. – Ele não tirava o sorriso do rosto, nem parecia o cara que surtou minutos atrás sobre a minha morte.
- Eu nunca vou parar na sua cama. – O imitei. – Nem se a minha vida depender disso, Senhor . – Disse com o sorriso mais irônico que eu poderia dar. – Ele se aproximou da minha mesa e apoiou suas mãos nela. Ficando próximo demais.
- Talvez a sua vida dependa disso. – Eu me afastei com a pequena aproximação como se a mera presença do hálito de menta que saia da sua boca me queimasse. – Quero o texto pronto para amanhã, . – Ele sorriu pela última vez e saiu.

~*~

O apartamento era fabuloso. Paredes claras, sofás escuros, uma grande bancada separando a sala da cozinha e o quarto era simples, mas tão bonito quanto o resto. Tinha um bom estoque de comida na geladeira e o grande armário no quarto era recheado por inúmeras roupas, além de outras coisas importantes. Eu tinha terminado a revisão do texto do em menos de meia hora e logo depois tinha deixado a empresa, sem ao menos olhar para trás. Se eu pudesse nunca mais voltaria naquele lugar. e todo o seu dinheiro me trazia péssimas lembranças. Eu não era tão chata com tudo, mas a morte me fez ficar meio fechada e apenas piorou o problema que eu tinha em demonstrar sentimentos. Eu não confiava em ninguém, não demonstrava nada para alguém ou fazia qualquer coisa que envolvesse uma segunda pessoa. Eu tinha virado uma rocha de gelo com um muro em volta. John tinha sido a primeira pessoa a entrar na minha fortaleza depois de tudo acontecer.
- ? – John apareceu do meu lado no sofá. Eu tinha acabado de trocar de roupa e já usava um vestido liso branco bem diferente das roupas de antes, mas eu me sentia bem mais confortável. – Está melhor? – O olhei, mas não respondi. Apenas voltei a atenção para a tigela com cereal e leite que eu estava comendo. Eu odiava cereal, mas tinha tanto tempo que eu não comia algo que aquela era sem duvida a melhor refeição da minha vida. – ... Eu sinto muito.
- Tudo bem, John. – Respondi. – Está tudo maravilhosamente bem, excluindo é claro o fato de ter que ajudar o cara que acabou com a minha vida e que coincidentemente é melhor amigo do meu ex-noivo. Isso é tão hilário. – Sorri com deboche. – Não parece, mas eu estou gargalhando por dentro.
- Você já pensou em algo para ajuda-lo? – Ajudar? Eu precisava de ajuda, mas ninguém se importava com a noiva jogada na estrada. Nunca. Ninguém.
- Não. – Disse, simplesmente. Eu tirava a colher de dentro da tigela e observava atentamente o cereal caindo de volta na mesma. Como alguém comia aquilo? Era nojento.
- Eu acho que seria bom você, sei lá, se tornar íntima dele... – Eu ri, ou melhor, eu soltei gargalhadas como não tinha feito a muito tempo. – , é serio.
- Isso foi tão engraçado que eu quero arrancar seus olhos fora. – Disse entre risos. – John, John... Querido John.
- Se você odeia tanto ele porque não acaba logo com isso? – Pela primeira vez, ele não parecia simpático. Na verdade, seu tom era no mínimo acusatório demais para ele. O encarei e pude reparar que ele estava diferente. Ele parecia desgastado, seu cabelo não estava mais apenas desarrumado de um jeito bonito, agora parecia como se ele não mexesse nele há semanas e seu olhar estava um pouco mais fundo que o normal. John não tinha mais a beleza viva de antes, apesar de ainda estar lindo. Ele soava cansado.
- O que aconteceu com você? – Perguntei preocupada. – Você não parece bem.
- Eu estou ótimo, . – Virou sua cabeça para frente como se não quisesse que eu o olhasse. – Não mude de assunto.
- Não minta para mim. – Virei seu rosto para que eu pudesse vê-lo. – E então?
- Problemas com o meu caso. – Ele não mentia, eu pude perceber isso. – Só, .
- John... - O chamei, mas ele já sorria. O sorriso mais bonito que alguém poderia ter. – Qual é a da barba? – John nunca deixava a barba aparecer, mas agora ele estava e eu consegui perceber agora que prestei atenção.
- Está legal? – Perguntou passando as mãos por ela. – Estou tentando algo novo.
- Tentando conquistar alguém? – Perguntei rindo, mas John voltou a fechar a cara. – Foi só uma brincadeira.
- Não foi engraçado. – Para Ajudantes o amor era algo distante e impossível. John não era do tipo que falava sobre seus relacionamentos quando vivo, na verdade, ele não falava nada da sua vida.
– O que foi? A Amanda Seyfried se esqueceu do nosso Querido John? – Ele não queria rir, mas não conseguiu. Aquela era a nossa piada. – Você é um idiota, não deveria ter mentindo pra mim.
- Eu omiti, é diferente. – Sorriu. – E, de qualquer forma, você não viria se soubesse.
- Definitivamente. – Se eu soubesse que teria que ajudar , eu sequer me aproximaria daquela sala. – Eu acabaria com você.
- Tão amável para uma escritora de romance.
- É a minha maior qualidade. – Ri e me deitei no sofá jogando as minhas pernas em cima dele. – Eu não sei o que fazer sobre . Eu fiquei sabendo que ele nunca ficou com alguém por mais de dois dias e unindo isso ao fato de eu ser um péssimo Anjo. Eu não posso entender como vim parar nisso.
- Eu já disse o que você precisa fazer. - Fingi estar vomitando com a mera menção de ficar perto do . – Não exagere, você precisa se tornar íntima dele e só assim poderá dar seus maravilhosos conselhos amorosos...
- Às vezes, você é tão gay. – O interrompi e ele deu um tapa na minha perna.
- Cala a boca. O fato é que você precisar ser simpática e se aproximar dele e só assim concluirá isso. – Parecia tão simples com ele falando, mas não era. – E então? Vai tentar parar de ser tão chata com isso? Você precisa superar, .
- Eu só quero dormir por tudo o que eu não dormi nos últimos três anos. – Sorri e fechei os olhos. – Pode ficar se quiser.
- Eu tenho um caso ainda, . – Assenti. – Eu nem poderia ficar vindo aqui te ver, mas você não vive mais sem mim. É difícil ser tão legal.
- Desde quando você faz a linha convencido? – Ri.
- Eu ando mudando recentemente. – Ele riu como se lembrasse de algo. Ele andava tão misterioso.
- Eu percebi. A barba mal feita, os sorrisos e todas essas coisas. – Eu diria algo como “apaixonado”, mas eu não queria que ele ficasse bravo como da última vez que mencionei isso. – Se não fosse sua aparência cansada eu até diria que você é o cara mais bonito do século.
- Século? Uau. – Rimos. – Isso foi o mais próximo de um elogio que você me deu, em anos.
- Eu não sou tão ruim. – Eu estava de olhos de fechados e apenas senti quando ele deixou as minhas pernas no sofá e se levantou. – Até logo, John.
- Até mais, . – E eu já não sentia mais sua presença na sala.

~*~

Eu acordei cedo e resolvi não chegar atrasada no segundo dia de trabalho ou se cansaria de mim e eu seria demitida na primeira oportunidade. Eu estava vestida exatamente como no último dia, a única diferença era que no lugar das calças estava uma saia de cintura alta preta. Eu me sentia pelo menos um pouco eu hoje. Eu tinha decidido tentar. John estava certo e eu precisava superar aquilo ou eu nunca sairia daquele lugar. O plano para o dia era tentar achar alguém naquela empresa que se apaixonaria, mas o problema era que ele não era do tipo que se apaixona. Eu sequer sabia se ele era do tipo que tem coração. Assim que cheguei a empresa meus olhos foram levados diretamente para Ella e conversando perto do bebedouro. Eu conseguia ver o jeito que ela o olhava como se ele fosse o melhor que o mundo podia oferecer, como se ele fosse o mais próximo do paraíso, que ela estava exatamente como eu olhava para . Eu estava tão louca para sair por aquela empresa perguntando por ele que a mera lembrança me fez perceber que se eu o encontrasse tudo estaria perdido. Eu precisava do esquecimento. Eu precisava esquecer como era ser amada por alguém e como era amar alguém. Eu tinha que começar a agir como um Anjo, afinal eu era um. E foi quando eu ouvi a risada de e pude perceber; Ella seria a chave para o meu esquecimento.
- Boa tarde. – disse ao entrar em sua sala. Eu já estava lá há algum tempo apenas aguardando. – Achei que se atrasaria.
- Não. – Eu seria legal com ele, assim como John me aconselhou. Eu só precisava tentar um pouco mais. Foi tantos anos sendo rude com que era difícil agir diferente.
- Você não é muito a minha fã, certo? - Perguntou e sentou em sua mesa, apoiando sua cabeça em suas mãos como se aguardasse ansiosamente a minha resposta.
- Eu vou perder o emprego? – Sorri sendo acompanhada por seu sorriso.
- Não, ainda. Eu gosto de pessoas sinceras. – Ele tinha pegado a bola de beisebol e ficava a jogando no ar. Eu nem me lembro de quando aquela mania começou, mas ele adorava fazer.
- Digamos então que eu não sou muito fã de homens como você. – Ou apenas de você. Definitivamente, eu não era fã dele.
- Homens irresistíveis? – Ah aquele sorriso.
- Não, homens que se acham reis do mundo só porque conseguem levar muitas mulheres para a cama. – Ou que fogem quando a única coisa que deveriam fazer era ligar. Apenas uma ligação.
- Dizem que ódio é o sentimento mais próximo do amor. – Sim, diziam.
- Eu não sou fã de clichês. – Dei de ombros.
- De vez em quando, é sempre bom um clichê para alegrar a vida. – Ele pegou a bola no ar e trouxe a cadeira mais próximo da mesa dele e abriu seu notebook. – Preciso que você saia comigo hoje. – Eu não respondi e continuei mexendo no computador como se eu estivesse fazendo algo importante.
- Tudo bem. – Ele sorriu, mas não olhou para mim. Eu não tinha muita opção e eu tinha que começar a por meu plano em prática. Claro, quando eu tivesse um. – Aonde?
- A empresa quer abrir outra filial na cidade e eu preciso de alguém para anotar as coisas para mim. – Outra filial da Empresa era tudo que o mundo precisava. era o cara mais rico que eu tinha conhecido e tirando que ele agora usava blusas e calças sociais e o cabelo sempre arrumado, na época da faculdade o cabelo desgrenhado e seus jeans quase disfarçavam a fortuna da família.

2006, abril.

Era a minha primeira semana trabalhando na secretaria da direção. Eu era obrigada a trabalhar em algum serviço na faculdade, já que ganhava uma bolsa que ajudava nas despesas, mas não era nenhum problema. Na realidade, eu até que gostava. Poucas pessoas iam até ali e eu poderia dividir o tempo entre ler e anotar recados. A semana tinha se passado mais rápido que o normal para mim e mais um mês estava indo embora tão rápido quanto chegou. Como nos outros dias, o corredor estava tranquilo, apenas alguns alunos andavam por ali entretidos demais com algo para reparar no pequeno balcão onde eu ficava.
— Com licença. – Uma voz rouca me fez levantar meu olhar do livro. Os maravilhosos olhos claros foram a primeira coisa que eu vi. Quem poderia ter olhos tão bonitos como aquele? Era tão lindo... – Oi. – Riu, me fazendo perceber que eu o estava encarando. Droga, . Controle-se.
— Olá... – Disse fechando o livro. – Como eu posso ajudar? – Perguntei tentando permanecer normal. Mas sejamos francod: eu não agia normal naquelas situações. Ele era o típico garoto bonito: cabelos encaracolados, com o mais belo sorriso e possivelmente uma tatuagem que existe em todos os romances da minha estante. Eu até poderia escrever um livro sobre ele. Uma trilogia, talvez.
— Você trabalha para a diretora? – Ele não parava de sorrir, nem por um minuto.
— Não... Sim... – Deus. – Mais ou menos. Eu só arrumo papéis.
— Então... Eu poderia pedir um favor para a garota dos papéis? – Ele estava apoiado no balcão e um sorriso encantador brincava nos seus lábios. Eu nunca tinha ficado tão encantada por alguém. – Gostou de mim?
— O quê? – Eu derrubei o livro no chão com o movimento brusco que tinha feito. Eu era uma idiota. – Não... Quer dizer, eu não te conheço. Eu só... Desculpa. – Bufei não porque estava com raiva dele, mas porque estava com vontade de enfiar minha cabeça em um buraco de formigas. – Pode pedir.
— Guarda esse envelope e entregue para a diretora, tudo bem? – Ele tirou um papel do bolso e o entregou para mim. – Apenas para a diretora. Diga que é do Senhor . – Assenti e o guardei dentro de uma pequena pasta. Eu apenas estava tentando evitar qualquer tipo de contato visual com o garoto à minha frente. – Eu até perguntaria seu nome, mas eu sei que não faltarão oportunidades para eu descobri-lo. – Eu não o olhei, mas podia apostar que ele estava sorrindo. – Até mais, menina dos papéis.

Alguns dias depois...

Eu estava sentada em uma das mesas da lanchonete do campus da faculdade, como sempre fazia todos os dias após a aula de Literatura. Era um bom lugar para ir, apesar de ser um pouco movimentando demais. Eu não era muito fã de lugares cheios. Nunca fui. Eu estava na mesa que ficava ao lado de uma grande janela de vidro e quase não reparei quando alguém sentou na cadeira a minha frente.
— Oi. – Levantei meu olhar e o logo o reconheci. Ele era o garoto da minha aula de Literatura. Eu tentei não agir estranho como, geralmente, fazia ao falar com um garoto bonito. Correção: Maravilhoso. Ele era maravilhoso. – Eu sou... . – Ele sorria e eu podia reparar que estava nervoso, pois eu estava, um pouco, assim também.
. – Sorri olhando para todos os lugares menos para ele. Eu precisava parar de ser assim. – .
— Eu assisto a uma aula com você. – Disse nervoso. – Literatura.
– É eu sei. – Ri. – Não que eu tenha reparado em você, quer dizer, não seria ruim reparar. Você... Eu já te vi por lá. – Completei nervosa. Eu não conseguia fechar a minha boca quando ficava desconfortável numa conversa.
– Eu reparei em você. – Eu devo ter ficado vermelha, pois pude sentir todo meu rosto queimar. – Eu reparei demais, na verdade.
– Ah... – Eu tentava formular alguma resposta rápida. Vamos, pense. – Obrigada? – Tentei evitar o sorriso confuso que possivelmente aconteceu, mas não tinha muito como evitar com ele sorrindo para mim daquele jeito.
– Olha... Eu não sou o melhor com isso e eu sei que nós nunca nos falamos, mas eu não sou louco. Eu só... Acho você à pessoa mais encantadora que eu já vi. – As mãos dele não paravam em um lugar sobre a mesa e poderia entender o quão nervoso ele estava agora. – Eu te vejo por aí, sempre com vários livros de um lado para o outro do campus. E eu tenho quase certeza que me apaixonei por você. – O olhei alarmada. – Eu sei que não nos conhecemos, mas eu ainda estou tentando entender o porquê de achar seu sorriso o mais bonito da faculdade. Droga, isso nem faz sentido pra mim. É por isso que eu estou aqui. Você aceita sair comigo? Uma saída para eu poder dizer se eu encontrei o meu amor à primeira vista ou apenas estou agindo como um gay. – Riu nervoso. – Não me leve a mal... Isso é novo pra mim, mas acontece, certo? Muitas meninas já se apaixonaram sem ao menos falar comigo. Não que eu seja do tipo galinha, mas acontece... Eu estou falando demais? Desculpa. – Eu olhava para todas as mesas, pessoas ou qualquer coisa daquele ambiente apenas para não ter que encarar o garoto de cabelos loiros e bagunçados na minha frente. Meu coração estava acelerado demais para uma situação normal e como alguém reagiria diferente? Eu era nova naquilo de ser elogiada. Quer dizer, ele estava me elogiando, certo? Eu nem sabia. – Eu deveria ficar preocupado em não ouvir uma resposta? – Perguntou sorrindo. Eu deveria estar calada por um bom tempo. Como eu era idiota.
– Não. – Respondi rápido e pude ver seu sorriso desaparecer. – Quer dizer, eu respondi a sua pergunta... A segunda, sobre você ficar preocupado. Não precisa se preocupar. – Eu gesticulava com as mãos como se tentasse fazê-lo entender. Mas nem eu estava entendo o que estava dizendo. – Eu quero sair com você. – Terminei antes que falasse mais coisas do que gostaria.
– Eu acho que eu estava certo. – Sorriu de lado. – Eu acho que encontrei a minha garota.

Atualmente

– Posso te fazer uma pergunta? – Perguntou sem tirar os olhos da estrada. Nós já estávamos dentro do seu carro indo em direção ao lugar onde ficaria a nova empresa. Eu não achei que seria tão ruim, até porque eu já tinha ficado perto dele por dois dias em uma sala, mas a sensação de não poder correr dele por estar em um carro em movimento era claustrofóbica.
– Claro. – Olhei para a janela procurando um pouco de ar que não tivesse apenas cheirando ao seu perfume. Eu iria vomitar...
– Nós nos conhecemos? – Minha respiração ficou tão descompassada que eu não pude evitar tossir ao ficar engasgada com o meu próprio ar. Ele pareceu ter reparado, pois logo olhou para mim. – Você está bem?
– Eu estou bem. – Disse rápido demais. Eu precisava me acalmar e voltar a respirar normalmente. Não disse mais nada, torcendo para que ele voltasse toda a sua atenção ao caminho, mas eu sabia que ele não ficaria muito tempo calado.
– E então... – Disse.
– O quê? – Fingi não saber sobre o que ele dizia, mas eu sabia bem sobre o que ele estava falando.
– Fale a verdade, . – Ele aproveitou o engarrafamento e se virou completamente para mim. – Você age como se me conhecesse, não gosta de mim e você é a primeira secretária que age como se eu fosse seu amigo e não seu chefe. Não que eu me importe porque você é quase da minha idade, mas é tão estranho... Às vezes, eu sinto como se te conhecesse também.
– É impressão sua. – Minha voz soou firme, mas no fundo eu não estava tão convicta da minha resposta. – Eu não te trato como meu chefe porque você me dá a liberdade para fazer diferente. Se for um problema pra você...
– Não é um problema. – Deu de ombros voltando seu olhar para a estrada. O carro não andava nem pouco centímetros. Era torturante. – Eu gosto. – Sorriu daquele jeito que apenas ele conseguia fazer.
– Tudo bem. – Eu implorava para que ele mudasse de assunto antes que eu entrasse em um colapso. – Quando chegamos?
– Eu não faço ideia. – Riu e eu quase ri junto, mas logo desisti. Eu não poderia ceder àquela risada.

O resto do caminho foi em total silêncio. Era um recorde nós ficarmos juntos em um lugar, por tanto tempo, sem dizer nada um para o outro. No fundo, eu estava louca para começar algum tipo de conversa, nem que fosse apenas para brigar com ele. O silêncio, ainda assim, foi mais seguro. Eu poderia deixar escapar algum tipo de informação sobre o passado dele e não teria como explicar. Ao chegarmos ao local, eu pude reconhecer onde eu estava. Eu já tinha estado lá antes... Com .
? – me chamou ao perceber que eu estava parada no mesmo lugar. Nada estava muito diferente, exceto, é claro, pelos imensos caminhões que estavam por todos os lados. Alguns anos atrás, lá era apenas um local afastado da cidade. Ele me levou até lá para um piquenique de comemoração sobre o meu livro. Eu não podia acreditar que estava destruindo mais uma parte do meu relacionamento. – Você vai ficar parada? – Ele riu nervoso e eu conseguia entender. Minha feição deveria estar um misto de surpresa e tristeza ao ver aquele lugar tão diferente de anos atrás. A pouca grama agora dava lugar a terra e tinha cercas por todos os lados protegendo o local.
– Porque está fazendo isso? – Ouvi minha própria voz perguntar, mas não tentei evitar. Eu estava com raiva dele. deveria saber o que aquele lugar significava para o seu melhor amigo.
– A obra? – Perguntou. – Para de agir tão estranha. Os sócios estão olhando. – Ele virou seu rosto para o resto dos homens que estavam lá como se tentasse explicar que nada de tão importante estava acontecendo ali.
– Aqui não é muito afastado para uma empresa? – Pela primeira vez, eu o encarava. Aqueles olhos tinham um misto de incerteza e confusão. Eu queria tanto chorar. – Você não pode construir aqui. – Tentei soar firme.
– Por que não? – Ele estava ficando impaciente. Eu podia ver suas pernas se mexendo como se quisesse que eu parasse de agir daquele jeito. – Droga, .
– Porque não. – Respondi como se fosse óbvio. E era. – É muito afastado... – Completei tentando fazer parecer que aquilo tinha algum fundamento.
– Ótimo, diga isso para os caras de terno ali. – Ele procurou minha mão para segurá-la, mas eu me afastei tão rápido o quanto eu pude. – Ei, calma. – Riu. Eu não esbocei nenhum tipo de reação. Apenas dividia a atenção entre andar e olhar para todos os lugares do ambiente que eu conseguia.
– Esta é . – Disse ao nos aproximarmos dos cinco homens que estavam parados em uma roda conversando. Eles eram muito mais velhos do que nós dois e eu poderia imaginar o quanto isso era difícil para . Não deveria ser fácil ser o mais novo e, ainda sim, o mais importante da empresa. Sem dizer, o fato de ser filho do dono. Eu me lembrava bem dos problemas familiares que ele tinha, uma vez ou outra, sempre pendido ajuda para . – Ela tem algumas objeções sobre a filial. – O olhei e apenas pude ver o sorriso confiante nos seus lábios. Ele não podia estar falando sério. Eu não iria me meter naquele problema. Eu não saberia o que dizer, nem se quisesse.
– E então, senhorita? – O senhor mais baixo me olhou esperando que eu dissesse algo importante.
– Senhorita, . Pode dizer para eles o que disse pra mim há pouco. Eu achei interessante a sua ideia sobre esse local. – me encarava como se me encorajasse a dizer algo. – O problema com a locomoção... – Começou a dizer.
– Ah sim... – Voltei meu olhar aos sócios e me preparei para inventar uma história. Afinal, segundo os jornais: eu era uma das melhores do estado. – Eu entendo senhores, que o projeto de abrir uma filial em um lugar afastado tem o objetivo de impulsionar a economia local e ter alguns privilégios fiscais cedidos pelo Governo. É louvável, até. Mas eu não acho que esse seria o lugar ideal para uma Empresa . – Sorri vitoriosa e pude ver o sorriso de me encorajando a continuar. – A locomoção daqui até o centro comercial da cidade é muito complicada. Levamos duas horas daqui até a empresa...
– Três. – Interrompeu. – Mais de três horas, . – Sorriu.
– É claro, senhor. – Eu segurava o sorriso. Eu não podia acreditar que ele estava fazendo aquilo. – O que eu estou querendo informar, senhores, é que tempo é dinheiro. Além disso, esse é um parque importante para as pessoas da cidade. Eu não acho que elas estejam contentes sobre a Empresa e essa é a ultima coisa que queremos.
– Meu pai odiaria saber que seu maior patrimônio está sendo alvo de críticas. – terminou de dizer. Os sócios trocavam poucas palavras entre si. Eu não pude acreditar que tinha dito todas aquelas coisas. Eu nem sabia se fazia sentido ou era apenas um amontoado de palavras sem conexão algum. – Algo a mais para ser dito, ?
– Não, senhor. – Eu queria rir, assim como poderia apostar que ele também, mas apenas desviei meu olhar ao perceber que estávamos naquilo por tempo demais.
– Nós precisamos ir. – Disse ele. – Mais alguma coisa? – Os sócios negaram com a cabeça e foi o suficiente para ele dar as costas para ir embora. sabia como fazer quando precisasse ser o filho do chefe, por mais que ele odiasse ser.
– Por que mentiu? – Perguntei enquanto andávamos até o carro. Ele olhou para mim e deu de ombros como se aquilo já me respondesse. – O congestionamento não durou nem uma hora quanto mais três.
– Por que não queria a empresa aqui? – Disse ao abrir a porta do carro. Ele fingiu não ter escutado a minha pergunta.
– Porque não. – Sentei no banco do passageiro e não demorou muito para ouvir a sua risada. – O quê?
– Esse foi exatamente o mesmo motivo pelo qual eu menti. – Não pude evitar rir junto com ele. E mais uma vez nos olhávamos por tempo demais. Alguns segundos depois, ele voltou seu olhar para a estrada e eu poderia afirmar: Ele sabia que nós nos conhecíamos.



CINCO.

O resto da viagem de volta no carro foi, silenciosamente, normal. Apenas a voz do locutor no rádio era ouvida. Eu não me importei, afinal, falar com , por livre e espontânea vontade, nunca será uma opção para mim. Quando chegamos à empresa, ele avisou que sairia para almoçar. Por um breve momento, achei que ele fosse me convidar, — não que eu quisesse — mas ele apenas pediu para eu ir até o escritório e começar a pesquisar terrenos para construções de prédios e deixar uma lista em sua mesa. E lá estava eu: atrás da tela de um computador, trabalhando para o herdeiro da empresa . Não pude evitar bufar e revirar os olhos, enquanto anotava o décimo telefone de empreiteira naquele dia. Como eu tinha parado ali? Eu era um anjo e não uma das secretárias dele! Joguei minha cabeça em cima dos papéis e fechei meus olhos apenas para tentar esquecer tudo aquilo, mas a paz não durou muito, pois, segundos depois, pude ouvir batidas na porta.
— Pode entrar. — disse sem ânimo, arrumando o meu cabelo que estava bagunçado devido a minha posição.
— Soube que não estava e vim te convidar para almoçar. — Ella disse, apenas com a cabeça dentro da sala. Ela sorria e eu tive que concordar em ir. Eu não aguentava mais aquela sala. — E então? — perguntou animada.
— Tudo bem. — dei de ombros.
Ella era o tipo de garota que eu conheci durante toda a minha vida nas minhas sessões de autógrafo. Ela desandava em falar sobre qualquer coisa, do tempo à relacionamentos, mas eu não podia negar que ela era uma boa companhia. Apesar de não calar a boca nem por um minuto por todo o caminho a pé que fizemos até um pequeno restaurante à algumas quadras da empresa. Ela contou sobre sua faculdade de economia, a traição do seu primeiro namorado e até deve ter mencionado algo sobre sua família, mas era informação demais e eu me perdi no meio da conversa. Eu não estava acostumada com isso. Durante toda a minha vida, meus amigos se resumiam a homens, e até mesmo depois da minha morte, o único amigo que eu tive foi o John. No fundo, eu sabia: mulheres eram bem mais falsas do que o sexo masculino, e eu não precisava ser amiga de alguma para saber disso, eu apenas sabia. Tudo era uma competição velada de quem tinha a melhor roupa, a melhor maquiagem ou o melhor namorado.
— [...]e ai eu disse: “Eu sinto muito por ter me apaixonado por você”. — Ella gesticulava ao meu lado ao sentarmos à mesa. — Ele ficou com a minha melhor amiga. Eles eram uns idiotas! — terminou colocando seus braços na mesa. — E você?
— Eu o quê? — a olhei confusa. Eu devia ter perdido algo da conversa. Droga!
— Você namora ou algo assim? — ela me olhava animada, como se esperasse alguma história louca de ex-namorados. E bem, eu tinha essa história. Mal sabia ela o quanto...
— Eu sou... — parei ao perceber o que iria dizer. — Eu era noiva. — foi inevitável não ficar triste ao dizer tal coisa em voz alta. Eu não tinha mais um noivo. Eu não tinha mais o ... Eu precisava entender aquilo.
— Eu sinto muito. — ela percebeu que eu tinha ficado abalada e, pela primeira vez, ela não sorria mais. A situação ficou muito pesada e eu quase agradeci ao garçom por ter chegado para anotar os nossos pedidos.
— E então? Há quanto tempo você trabalha na empresa? — o silêncio me incomodava profundamente e eu precisava falar algo. Não era uma boa ideia perguntar aquilo, até porque eu sabia bem o caminho que estava seguindo, mas eu precisava saber. Eu precisava tê-lo de volta.
— Há... Acho que três anos. — eu não pude evitar me mover na cadeira, ficando com a postura ereta. Eu estava totalmente prestando atenção agora.
— Eu vou te perguntar uma coisa e eu não quero que você pergunte nada sobre, tudo bem? — assentiu voltando a ficar animada. — Você conhece algum... — eu achei que seria fácil perguntar sobre ele. Eu finalmente saberia algo, mas seu nome não saia da minha boca. Eu tinha evitado seu nome durante todas as últimas horas como humana. E agora ele, apenas, não podia ser dito.
— Se eu conheço...? — me encorajou a falar. Respirei fundo inúmeras vezes até decidir se era aquilo que eu queria. Saber sobre ele apenas me faria perguntar cada vez mais sobre seu paradeiro. Começaria ali um ciclo sem fim.
— Algum amigo do . — completei depois de um certo tempo apenas olhando ao meu redor. — Alguém que sempre vem até a empresa...
— Amigo? — ela pareceu pensar. — É difícil alguém visitá-lo. Não sabemos muito sobre a sua vida, além das saidinhas com as secretárias.
— Ah... — eu não pude evitar o despontamento na minha voz.
— Mas tem algumas fofocas na empresa. — deu de ombros e bebeu um pouco do suco que o garçom havia deixado ali. — Um amigo de infância, ou qualquer coisa assim. — deu de ombros como se aquele comentário fosse sem importância.
— Amigo de infância? — sorri voltando a ficar animada. — Só isso?
— Algo sobre alguma namorada também. — disse por fim, voltando sua atenção para o suco. A palavra namorada doeu mais do que o meu acidente. não era do tipo que namorava, mas ... — Você precisa provar esse frango. É tipo a melhor coisa do mundo! — ela dizia animada sobre os pratos que o garçom tinha trazido. Eu nem sequer olhava mais em sua direção. Ele estava namorando? Ele tinha me superado? Eu tinha morrido para ele?... — a ouvi me chamar, mas eu tinha medo de ao piscar os olhos, as lágrimas começassem a sair. — Você está bem?
— Não. — eu nem sei se ela tinha escutado a resposta. No fundo, eu só precisava dizer em voz alta:“Eu não estou bem!”.
— Tem alguma coisa a ver com o amigo do ? — perguntou ela receosa. — Eu não tenho certeza... São só fofocas. — finalmente eu tirei o meu olhar do horizonte e encarei aquela pequena garota de cabelo longo e escuro. Eu precisava dele mais do que qualquer coisa, naquele momento. Eu não sei como seria encontrar com ele e sua namorada. — Você vai chorar?
— Eu não estou chorando. — respondi firme e balancei a minha cabeça, como se quisesse afastar todas aquelas lembranças que invadiam a minha mente. — Eu estou bem.
— Eu sinto muito... — ela pareceu sincera ao colocar a sua mão em cima da minha sobre a mesa, em um sinal de querer me confortar. — Você o conhece? — soou incerta. — Se não quiser responder, tudo bem... — completou rápido.
— Talvez. — suspirei. — Muita coisa mudou desde a última vez que eu o vi. — abaixei a cabeça e foquei toda a minha atenção na comida à frente, como se todas as respostas estivessem ali.
— O frango é ótimo. — riu, tentando mudar de assunto.
— Eu espero que sim. — sorri de lado.
— E então... — parou. — Como está sendo trabalhar com o ?
— Suportável. — disse a fazendo rir.
— Mas ele é o cara mais bonito que você já viu, certo? — suspirou. Eu quase poderia vomitar. — Aqueles olhos... E os cabelos? Eu queria vê-los ao acordar. É sempre tão arrumado. Será que é algo liso bagunçado? Eu aposto que sim...
— É encaracolado. — disse sem pensar, ao lembrar-se da sua aparência na faculdade. — Eu acho... — tentei consertar rapidamente ao sentir seus olhos sobre mim. — Eu apostaria em algo meio cacheado.
— Sério? — olhou confusa. — Eu acho que é liso. — o jeito que ela falava dele era, no mínimo, apaixonado, e não precisava ser um anjo para perceber isso.
— Você gosta dele? — perguntei, a fazendo voltar sua atenção para mim.
— O quê? Não! — riu nervosa. — É claro que não! — bufou passando o olhar por todo o restaurante.
— Me soa o contrário. — dei de ombros.
— Ele nunca prestaria atenção em mim, de qualquer jeito... — comentou, com o olhar triste.
— Eu acho que você... — não era um problema pensar nos dois juntos, mas falar aquilo com certeza não me fazia feliz. — Você deveria tentar ficar com ele. — afastei todos os mínimos pensamentos bons que eu tinha sobre ao terminar de dizer aquela frase. Eu não me importava com aquele cara. Não mais.
— Eu acho que você é louca. — revirou os olhos. — É sério. Eu nem faço o tipo dele.
— Por quê? Você é bonita, engraçada. Talvez queira alguém assim. — disse tentando parecer entusiasmada, e eu até deveria ficar, mas algo me impedia de dizer aquelas palavras como se elas soassem verdades para mim. — Eu posso te ajudar...
— Você é o quê? Um cupido? — riu voltando atenção ao canudo do seu refrigerante. — Eu vou acabar perdendo meu emprego.
— Eu sou uma ótima cupido, só pra constar. — sorri de lado. Eu poderia ouvir as risadas de todos os anjos ao me ouvir dizer aquela frase.
O resto da conversa se resumiu em Ella falando sobre qualquer coisa. Por um breve momento, eu quase nem lembrei o porquê de estar ali. Era como se eu fosse a , mas isso não durava muito, pois logo ela me chamaria de e toda a minha missão voltava à tona. O assunto sobre não durou muito e eu resolvi deixar para lá, mas era bom saber que eu já tinha começado a fazer algo sobre o meu caso. Cada hora que eu passava naquele lugar era uma tortura pra mim. Todas as vezes que o telefone dele tocava meu coração disparava com a mera possibilidade de ouvi-lo chamar pelo . Qualquer coisa e eu sempre o esperando vê-lo por lá. Como será que ele estava agora? Será que tinha a mesma barba mal feita ou finalmente tinha desistido de usar lentes e se rendido aos óculos? E a sua suposta namorada? Cada segundo perto do seu melhor amigo e a única coisa que eu queria era perguntar: “E o meu noivo?”.

2006, abril.

Já tinha passado algumas semanas desde que havia me convidado pra sair, e eu não poderia medir o quão feliz eu estava. Ele era o garoto mais gentil, fofo e bonito que eu já havia conhecido, e mesmo depois de algumas semanas, eu estranhava o fato dele se interessar por mim, quer dizer, eu não vou mentir e dizer que a cada segundo eu não me preparava mentalmente para o dia que ele chegaria a mim e diria “eu cansei de você”.
Felizmente, esse dia ainda não havia chegado.
— Mãe, eu sei... — era a terceira vez que eu repetia aquela frase e eu não aguentava mais. A sra. conseguia ser a pessoa mais teimosa que eu conhecia. Foi só dizer que eu tinha um encontro que, provavelmente, já teriam convites do meu casamento rolando pela cidade, e eu nem sabia disso ainda. — Ele é só um amigo, céus! — disse entre os dentes, revirando os olhos. — Ah! Pode deixar, eu vou tentar não estragar nada. — a respondi com desdém. Aquele era um dos principais motivos pelos quais tinha a deixado: a relação com ela não era a melhor que alguém poderia ter. Ao me virar para a porta, pude ver sorrindo se escorando nela. As mãos no bolso da calça jeans e o sorriso encantador que faria qualquer garota sorrir de volta tão rápido quanto possível. — Eu preciso ir, mãe. — desliguei o celular sem esperar uma resposta. — Está ai há muito tempo? — perguntei receosa, torcendo para que ele negasse. O quão ruim seria se ele tivesse escutado minha conversa? E se ele tivesse percebido que é sobre ele? Céus! Como eu não pude reparar que tinha alguém na porta? Minha tremenda falta de atenção era muito inoportuna às vezes. Principalmente quando isso inclui garotos loiros e encantadores.
— Você quer dizer o suficiente para ouvir sobre o “apenas amigo”. — fez aspas ao dizer as últimas palavras e riu. Foi inevitável a vermelhidão tomar conta de todo o meu rosto, e eu apenas o vi sorrindo mais largamente por isso. — Eu não vou mentir dizendo que gostei de ouvir aquilo. Amizade não é bem o que eu quero, mas ainda assim é algo a ser trabalhado. — não tirei as mãos do meu rosto, por mais que quisesse vê-lo, ou apenas dar uma espiada no meu sorriso predileto, mas a vergonha era demais pra isso. — Ei... — se aproximou e puxou minhas mãos. — Eu não vou trabalhar nisso hoje. — riu. — Chega de fazer você ficar vermelha. Eu prometo.
— Eu não sei porquê você faz isso. — sorri ao levantar meu olhar para ele. Ele era tão bonito, principalmente quando deixava a barba aparecer, como hoje.
— Eu gosto quando você fica me olhando assim. — comentou se aproximando cada vez mais, e o sorriso cada vez maior e mais bonito.
— Eu não consigo evitar. — ri. — Você é tão... bonito. — eu disse tão baixo que se ele não tivesse tão próximo eu tenho certeza que não escutaria.
— Eu poderia te beijar agora. — sussurrou passeando o olhar por todo o meu rosto. — Mas eu não vou, porque quando eu começar não acho que eu vá conseguir parar. — se afastou, mas ainda segurando as minhas mãos.
— Tudo bem. — foi impossível não ficar desanimada. Um beijo dele era a única coisa com que eu sonhava nos últimos dias. — Para onde vamos? — perguntei sendo puxada para fora do quarto, tendo tempo apenas de fechar a porta atrás de mim.
— Você vai conhecer meu melhor amigo. — respondeu se virando para mim. — Ele é quase um irmão, nos conhecemos há anos.
— Hum, legal. — um encontro a três era realmente tudo o que eu queria, mas a animação dele com aquele encontro era tão contagiosa que talvez não fosse tão ruim. Ele poderia ser tão legal quanto o e poderíamos ser amigos, ou talvez ele me odiasse e destruísse meu relacionamento.
— Ei, ! — chamou, me fazendo voltar a atenção para ele, que abria a porta do carro para eu entrar. — Eu queria saber o que você tanto pensa quando não presta atenção na nossa conversa. — comentou assim que eu sentei no banco do passageiro ao seu lado.
— Eu sou um pouco avoada. — disse.
— Então eu posso repetir tudo o que eu disse antes? — perguntou sorrindo.
— Desculpa. — eu precisava parar de fazer aquilo no meio das conversas. — Estou toda ouvidos.
— Era sobre o , meu melhor amigo. Talvez você já tenha o visto pelo campus. — batia as mãos no volante tranquilamente. — Já ouviu falar?
? — procurei qualquer pessoa com aquele nome na minha mente, mas não encontrei nada. Não era de se espantar, eu nunca fui do tipo que conhecia muitas pessoas na faculdade. Nem falar com a minha colega de quarto eu fazia. — Eu acho que não. — respondi.
— Vocês vão se dar bem. — sorriu ao desviar sua atenção da estrada para mim, mas não por muito tempo. — Ele está ansioso pra conhecer a garota de quem eu tanto falo. — desviei minha atenção para a janela apenas para evitar que ele visse meu sorriso. Se alguém me dissesse meses atrás que eu estaria naquele carro com alguém como , eu apenas riria da cara dela.

~*~

A lanchonete já era conhecida por mim. havia me levado lá algumas vezes e eu já sabia que aquele era o seu lugar favorito para sair. O lugar estava tão lotado quanto deveria em um sábado à noite. Adolescentes, alguns alunos da faculdade, famílias e em uma das poucas mesas com apenas uma pessoa estava ele: o garoto que eu conheci na secretaria, aquele que me chamou de “menina do papel” e que, por algum motivo, estava sendo o destino do caminho pelo qual eu estava sendo puxada pelo . Por favor, não... Por favor, não se conheçam, não sejam melhores amigos! Por favor, não faça isso comigo, vida...
— Foi mal a demora. — comentou se sentando de frente para ele. E eu permaneci ali, parada, e, talvez, com uma cara bem idiota. O moreno não dirigiu seu olhar ao seu amigo quando notou a nossa presença, como eu esperava, mas sim a mim. Aqueles olhos... Eu não poderia descrevê-lo nem se eu tivesse todas as palavras do mundo ao meu dispôr. Eles eram a ruína de qualquer pessoa. E quando ele sorriu... Tudo dentro de mim desmoronou tão rápido que eu não sabia como ainda estava de pé.
— Tudo bem, . — abaixou o olhar para o amigo sentado à frente, sem desmanchar o sorriso. Eu não fazia ideia de quanto tempo eu tinha o olhado, mas não foi o suficiente para notar. — Ela vai ficar em pé? — apontou para mim com a cabeça, o fazendo rir.
... — me puxou para sentar ao seu lado. Eu estava dura e totalmente desconfortável, e eu nem fazia ideia do porquê. — Este é o . está é a .
— É um prazer, . — a voz dele dizendo meu nome apenas piorou o meu estado. Qual era o meu problema? está do meu lado. Céus! Por que logo ele tinha que ser o seu melhor amigo? Por que logo aquele garoto? Por que logo o dono daqueles olhos?
— Oi. — respondi ao perceber que todos aguardavam ansiosamente qual seria a minha resposta. Voltei totalmente a minha atenção para as minhas mãos sobre a mesa. Elas deveriam ser interessantes o suficiente pra me fazer esquecer os olhos daquele ser humano. Eu estava perdida.
, vá buscar os nossos sorvetes. Você conhece o meu favorito e o dela também, eu imagino. — pude vê-lo olhar para mim com o canto dos olhos, mas não ousei deixar minha cabeça se virar para ele. Eu quase não percebi quando o xingou de algo e saiu rindo. Ok, eu estava sozinha com ele. Eu não sou boa nisso. — A garota dos papéis, quem diria? — riu. — Você é sempre calada assim? — cruzou os braços sobre a mesa e focou totalmente seu olhar em mim.
— Não. — respondi seca ainda sem o olhar.
— Então o problema sou eu? — pude vê-lo sorrindo.
— O quê? Não! — respondi rápido, finalmente o olhando. — Eu só... estou calada. Sim, é isso.
— Que bom, quer dizer, eu achei o problema era eu. E eu não quero ter problemas com a garota do meu melhor amigo. — ele parou por um momento de sorrir, mas não tempo o suficiente para deixar seu semblante triste ou cabisbaixo, mas ao ouvi-lo dizer aquelas palavras, eu quase fiquei triste. Na verdade, eu nem sabia como estava. Ser a garota do era tudo o que eu queria, foi tudo o que eu sempre quis ao conhecê-lo, mas ouvi-lo dizer aquilo quase me fez ficar triste.
— Eu também não. — respondi voltando a atenção para as minhas mãos. Ele me fez esquecer tudo o que eu sentia ao lado do , ele anulava todas as borboletas, porque com ele eu apenas sentia algo muito maior e mais incômodo do que simples cócegas na barriga. Era quase impossível de segurar todo o terremoto que ele causava em mim. Eu jamais esqueceria o efeito daqueles olhos...



SEIS.

Eu já assistia ao terceiro filme sobre comédia romântica e comia meu terceiro pacote de pipoca de manteiga. Tão tedioso que eu queria atirar na minha cabeça apenas para saber se o céu estava mais animado do que aquele lugar. Eu tinha passado o dia almoçando com Ella e a tarde no escritório sem nenhum sinal de , segundo a minha colega de almoço, era comum depois de um dia fora aparecer uma mulher na empresa à procura dele e de todo o dinheiro que ele poderia dar. No fundo, eu torcia pra que isso não acontecesse porque não tinha paciência para cobrir qualquer tipo de romance do meu chefe. Levantei para ir até a cozinha colocar outro saco de pipocas dentro do micro-ondas e ao voltar quase o deixei cair ao ver John sentado no meu sofá.
— O que faz aqui? – Perguntei assustada.
— Olá pra você também. – Eu não acho que aquilo tenha sido um sorriso, pois pareceu como uma careta de dor.
— John, você está bem? – Coloquei o saco em cima da mesa de centro e fui me sentar ao seu lado. Ele andava muito estranho ultimamente. – Aconteceu alguma coisa?
— Eu estou legal, . – Murmurou. – Só preciso de um tempo.
— É algo sobre o seu caso? A menina é difícil assim? – Me aproximava dele a cada pergunta, era impossível esconder a preocupação na minha voz.
— Estamos bem. – Respondeu.
— Você parece tudo, menos bem. – Levantei do sofá e peguei suas pernas apenas para deita-lo. – O que está acontecendo?
— Nada, . – Tossiu algumas vezes.
— Você não sai daqui hoje sem me dizer a verdade. – Cruzei os braços. – Não minta pra mim. Eu achei que fossemos amigos. – O olhei tentando não demonstrar quanto abalada estava com ele ali tão fraco e abatido à minha frente.
— Eu só preciso descansar. – Pediu. – Se continuar perguntando eu terei que ir embora. Por favor, pare.
— Tudo bem, descanse. – Disse indo para o quarto. – Qualquer coisa, me chame. – Não esperei uma resposta e sai da sala o mais rápido que pude. A ideia do John doente era no mínimo surreal. Ele está morto – a mais tempo do que eu – ele não deveria sentir, sofrer, ficar doente ou qualquer coisa que o deixe como ele está agora. Eu não queria que ele fosse embora, queria que ele ficasse bem e que ficasse do meu lado. Era naqueles momentos que eu percebia o quanto eu era nova naquilo tudo e o quanto eu dependia do John para entender as coisas à minha volta. Só tinha uma pessoa que poderia me responder sobre isso e sinceramente, eu mataria meu amigo se descobrisse que isso é possível apenas por me fazer ter que falar com o Líder.

Já havia passado alguns minutos desde que eu tinha decidido conversar com o Mark, apesar de achar que ele tinha problemas o suficiente para querer conversar com alguém que sempre discutiu com ele. De qualquer forma, eu precisava saber o que estava acontecendo com John. Ao passar pela sala, eu não pude deixar de bufar ao ver que já não tinha mais ninguém lá. Ele tinha ido embora sem sequer se despedir de mim. Idiota. Porque mesmo eu estava me preocupando com ele? Me joguei no sofá, fechei os olhos e só os abri quando percebi que já não estava mais sozinha.
— Hoje é o dia nacional de invasão ao meu apartamento? – Perguntei encarando o teto sem me preocupar com quem estava lá. Provavelmente era alguém morto o suficiente pra entrar sem precisar se anunciar para o porteiro.
— Você queria falar comigo, . – Ouvi a voz grossa e inconfundível do Líder ao meu lado. – O John deve ser realmente importante, pra você resolver conversar com alguém que você detesta.
— É, tanto faz. – Dei de ombros. – Senta ai. – Apontei para o espaço vazio ao meu lado.
— Eu estou bem, . – Sorriu. – O que quer saber?
— O que está acontecendo com o John? Ele está estranho... – O encarei. – E com estranho eu quero dizer quase doente. – Completei
— Como eu poderia explicar isso...
— Sem metáforas, por favor. – O interrompi. – Eu só preciso saber o porquê.
— Eu gosto de metáforas. – Riu; o que me fez revirar os olhos. – Eu não acho que seja ético eu contar o motivo.
— Quem liga? – Murmurei.
, o sistema é diferente para Anjos e Ajudantes. – Lá vamos nós. – Anjos têm suas regras e Ajudantes outras, algumas mais severas do que outras. Regras tão duras que interferem em coisas que você não poderia imaginar.
— Você está tentando me dizer que John quebrou uma dessas regras? – Perguntei curiosa. – O que acontece agora?
— Ora bolas, eu não sei. – Riu e eu apenas bufei. Quem dizia “Ora bolas”? – John é um Ajudante experiente e ele sabe o que está fazendo, mas mesmo para nós, os mortos, existem coisas que não podemos lutar contra. E são elas que nos destroem.
— Ele vai ficar bem, certo? – Eu não queria soar tão abalada na frente dele, mas eu poderia começar a chorar a qualquer momento.
— Eu espero que sim, . – Respondeu sério. – Mas talvez a sua ideia de estar bem seja diferente da dele.
— Obrigada. – Suspirei derrotada. – Por ter vindo.
— Eu sempre estou por perto. – Sorriu sumindo logo em seguida, me deixando a sós com todas as duvidas que surjam na minha cabeça. No fundo, eu sabia o quão perigoso era quebrar as regras. Eu não poderia imaginar quais eram as dos Ajudantes, e eu esperava que não fosse tão ruim quanto as nossas.

~*~

— Hoje, nós vamos almoçar juntos para você me falar sobre a procura de terrenos da empresa. – disse sem tirar os olhos do computador. Eu havia passado o resto do sábado e domingo sem noticias do John, o que estava acabando comigo, e almoçar com meu chefe era a ultima coisa que eu gostaria. – Está me ouvindo? – Assenti sem sequer levantar meu olhar até ele. – Você está bem? – Perguntou fechando o seu notebook passando a me encarar.
— Sim, estou bem. – Forcei um sorriso sem muito sucesso.
— Quer o dia de folga? – soava preocupado, o que apenas piorava totalmente a situação. Foram tantos anos fazendo questão de lembrar o quão ruim ele era que eu quase me esqueci do quão bom ele poderia ser.
— Não precisa se preocupar comigo. – Respondi séria. – Eu estou bem.
— É engraçado. – Riu abrindo novamente a tela do computador, mas sem tirar o sorriso do rosto.
— O que é tão engraçado, ? – O encarei, mas me arrependi ao ver o maravilhoso sorriso que ele tinha nos lábios. Eu odiava tanto aquele sorriso.
— Você é a primeira mulher que me odeia sem ter ido pra cama comigo. – Sorriu de lado.
— Claro. – Tentei soar normal, mesmo que no fundo eu apenas quisesse morrer. Tão rápido e doloroso como aconteceu da última vez.

Janeiro, 2012.

Desde a noticia da volta do , eu e brigávamos constantemente, seja por motivos reais ou apenas sobre qual filme assistiríamos naquela noite. No fundo, eu sabia que o problema não era ele, minha TPM ou qualquer outro hormônio, mas sim a volta do seu melhor amigo. Eu nem me reconhecia mais e, sinceramente, ter mantido um relacionamento foi o máximo de normalidade que eu tinha conseguido fazer durante todos aqueles dois anos. Eu não conseguia mais escrever nada sem querer me matar segundos depois, eu não era mais uma pessoa agradável de conviver. Eu não me reconhecia mais e mesmo assim não havia saído do meu lado, mas agora com a volta do seu amigo, eu não sabia o que aconteceria na minha vida. Ele apenas bagunçaria tudo outra vez, como ele sempre se ocupou em fazer e eu sempre me ocupei em deixar que ele fizesse. Eu poderia perder tudo, e aquilo estava me matando. Eu não podia perder .
— Eu não sei o que está acontecendo com você. – Dizia andando de um lado para o outro, impaciente. – Você não é mais a de anos atrás. Eu não conheço mais o amor da minha vida.
— O que você quer que eu faça? – Respondi nervosa.
— Para de tentar me afastar de você. – Ele se aproximou, mas eu apenas dei um passo para trás.
— Talvez você devesse se afastar de mim, talvez eu não seja tão boa como você pensa. – Eu tentava, inutilmente, segurar as lagrimas, mas eu já a sentia descer sem nenhum pudor pelo meu rosto. – Talvez você mereça alguém melhor. – “Alguém que não tenha feito o que eu fiz” completei apenas na minha mente.
— Você é perfeita pra mim. – Sorriu segurando o meu queixo e levando meu olhar até ele. – Eu só quero entender o que aconteceu entre a gente. O que aconteceu com você...
— Eu sinto muito. – Disse entre soluços. – O problema é... – Desviei meu olhar. – Os livros. – Completei tentando soar o mais convincente possível. – Eu não sei lidar com tantas pessoas esperando tanto de mim. Eu fico confusa e não aguento segurar mais isso. Eu não consigo escrever mais nada. – Tudo o que eu fazia em relação a ele, por todos os dois anos, destruía o meu coração. Eu mentia, o enganava e por muitas vezes já cheguei perto de contar a verdade, mas o problema era que eu destruiria tudo. Eu quebraria o coração do homem mais importante da minha vida, em todos os sentidos, e não apenas em relação a mim, mas ao seu melhor amigo também.
— Eu amo você, , então não adianta que eu nunca vou sair do seu lado. Haja o que houver você me aguentará até o ultimo dia das nossas vidas. – O seu sorriso foi a ultima coisa que eu vi antes de sentir seus lábios tão lentamente passando por cima dos meus. Eu gostaria de escrever como as borboletas invadiram todo o meu corpo ao sentir suas mãos passando pela minha nuca, ou o quanto eu fiquei sem ar ao sentir nossos corpos colados, mas a única coisa que eu sentia ao beijá-lo depois da noticia da volta do seu amigo era culpa. A minha grande companheira por todos aqueles anos.

Fevereiro, 2012.

— Eu estou tentando escrever. – Tentei segurar a risada ao sentir os beijos do no meu pescoço. Ele estava atrás de mim enquanto eu tentava escrever, pelo menos um pouco, naquela semana, na minha mesa. Eu me sentia bem como não estava há muito tempo.
— Eu posso escrever pra você. – Respondeu rindo. – Eu fiz literatura na faculdade.
— Sério? Eu achei que só assistia àquela aula por causa de uma menina. – Virei para o olhar.
— Ah é, tinha isso também. – Riu – Valeu a pena.
— É claro que sim. – Assenti. – Mas é sério, eu preciso escrever.
— Eu preciso de um favor. – Pediu puxando a cadeira mais próxima para sentar ao meu lado.
— Você é tão interesseiro. – Ri. – Diga. – Fechei o notebook me virando para olha-lo.
— Eu tenho que dar uma saída e eu tinha prometido buscar no aeroporto... – Eu podia afirmar que a boca dele continuava a se mexer e dizer algumas coisas, mas a mera menção da presença do , e toda a paz que eu sentia estava se esvaindo lentamente do meu corpo. – Você está me ouvindo? – Perguntou impaciente.
— Desculpa. – Balancei a cabeça como se quisesse que todas as lembranças fossem embora. – Pode falar.
— Eu preciso que você o busque no aeroporto. – Levantei sem me preocupar em afastar e passei por ele em direção ao quarto. – O quê?
— Eu não vou. – Disse tentando me manter firme.
— O quê? – Me seguiu. – Porque não? Ele é seu amigo...
— Ele não é nada meu. – O interrompi, me virando para encarar o dono dos mais belos cabelos loiros de toda a cidade. – Só conversávamos por sua causa.
— Vocês eram amigos. – Comentou. – Não sei qual é o problema, . – Terminou impaciente.
— Eu e ele não temos nada em comum. – Respondi me sentando na cama atrás de mim e deixando todo o meu olhar cair sobre os meus pés. – Ele era o típico bad boy e eu a garota invisível da sala, nós não gostamos das mesmas coisas e ele, definitivamente, não é nada meu.
— E você quer que ele fique lá sozinho? – Sentou ao meu lado.
— Ah... Existem taxis pra isso. – Tentei sorrir. – E ele é rico. – Completei esperando que aquela informação soasse importante.
— Eu estou com problemas com a minha irmã, , por favor. – Pediu. Eu nunca soube dizer não para o , seja porque eu sempre o amei, ou porque eu achava que tinha o dever de tentar ser a melhor pra ele mesmo depois de tudo.
— Tudo bem. – Respondi. – Eu vou.
— Eu amo você. – Beijou-me com um sorriso nos lábios que foi impossível não sorrir junto. – Eu tenho que ir. – Levantou-se pegando as chaves enquanto ia em direção à porta. – Pede desculpas ao , por mim. – Assenti o assistindo bater a porta do quarto atrás dele. Joguei as costas na cama e chorei. Eu chorei porque aquele poderia ter sido o meu ultimo beijo com , eu chorei porque eu tinha me transformado na pior pessoa do mundo e chorei, principalmente, porque no fundo eu apenas estava com medo do que eu iria sentir ao rever o melhor amigo do meu namorado.

Atualmente.

Foi difícil. Na verdade, estava sendo um dos piores momentos da minha vida permanecer naquele carro com e seu péssimo gosto musical. Era impossível não lembrar os momentos de brigas que eu tinha com ele, mesmo antes de tudo acontecer. Ele gostava de filmes de ação e eu sempre assistia os de romance, ele preferia beisebol e eu sempre assistia campeonatos internacionais de futebol, ele preferia música agitada e eu gostava mais daquelas que eram tão calmas ao ponto de me fazer dormir... Nunca concordávamos, mas sempre era divertido perceber quão boa a noite terminava quando nós dois saíamos sem o .
— Gosta da música? – Perguntou balançando a cabeça como se estivesse num show de rock.
— Prefiro músicas lentas. – Sorri sem mostrar os dentes e torcendo para que aquilo acabasse logo. – O que foi? – Perguntei ao perceber que ele estava me encarando. – Eu só não gosto dessa música.
— Nada. – Desligou o rádio e durante todo o resto do caminho não dirigiu qualquer olhar ou qualquer palavra a mim.
Assim que chegamos ao restaurante, eu deixei ir andando na minha frente e apenas observei o modo que todas as garotas do lugar olhavam pra ele. A mulher loira à nossa esquerda apenas o comia com olhar enquanto a morena à frente dela era mais discreta, e até mesmo mais bonita. O que elas não sabiam era que ele não levaria seu olhar até elas, ele sabia como flertar e ele preferia ser elogiado a elogiar. Ele estava acostumado com aquela situação desde a faculdade. O segui até a mesa mais afastada do restaurante, e possivelmente a mais cara, e me sentei à sua frente tentando ao máximo manter meus olhos afastados dele.
— E então? – Ele perguntou relaxando na cadeira e cruzando os braços. – O que você vai querer?
— Qualquer coisa. – Dei de ombros desviando a minha atenção para as pessoas à nossa volta.
— Você é muito esquisita. – Respondeu se endireitando e levanto a mão para chamar o garçom que chegou rapidamente. Eu apenas revirei os olhos enquanto eu o ouvia fazer o pedido. Não demorou muito para ficarmos sozinhos de novo, e Deus, eu estava odiando a minha vida. – Então, porque eu não te demiti ainda? – Sorriu.
— Eu não sei, , me diz você. – Tentei soar confiante, mas perto dele era apenas tudo uma grande fachada. Sempre foi.
— Você me lembra alguém... – Desviou o olhar, mas logo o voltou pra mim. – Eu gosto disso. – Completou dando de ombros. Eu queria tanto perguntar...
— Quem? – Fiz sem pensar muito, pois já poderia sentir todos os sinais de alerta piscando.
— Você não a conheceu. – Sorriu sem humor, como se lembrasse de algo. – Ela ia gostar de você, afinal ódio une as pessoas. – Assenti tentando não demonstrar nenhum tipo de humor. – Eu nunca falo sobre ela, mas eu poderia falar com você sobre isso. Eu nem sei o porquê. É louco.
— Eu não quero ouvir, . – Eu esperava que não tivesse soado rude porque no fundo, eu apenas não queria o ouvir falando sobre mim.
— Tudo bem, eu entendo. – Riu. O silêncio que novamente se instalava foi interrompido pelo celular do que não se importou com a minha presença e atendeu ali mesmo. Eu não iria prestar atenção, até porque a probabilidade de ser uma das suas “namoradas” era enorme, mas ao ver atender a pessoa como Bro, eu não pude deixar de ouvir.
Ele só chamava uma pessoa daquele jeito.
“Você é um gay... Eu estou num almoço de negócios... Sim, tem uma mulher... Ela não vai pra cama comigo...” Ele piscou ao dizer aquilo, mas eu apenas não conseguia respirar ou prestar atenção nele. “Imagino... Beleza... Eu não vou esquecer... Tchau, bro.”.
— Era um amigo de infância. – Comentou colocando o celular de volta à mesa. – A comida tá demorando muito...
. – Sussurrei não porque eu queria que ele ouvisse, mas porque eu apenas tinha que dizer o nome dele em voz alta.
— O quê? – Perguntou surpreso. - O que você disse?
— Vou ao banheiro. – Me levantei sem ao menos olhar para ele, se fizesse eu provavelmente derramaria todas as minhas mágoas para o homem à minha frente e ele apenas chamaria a policia pra me internar.

Fevereiro, 2012.

O saguão do aeroporto podia até estar lotado, mas eu me sentia sozinha e com medo de tudo à minha volta. Aquela sensação que toda a sua vida está saindo do seu controle e você apenas não pode fazer nada para mudar isso. Eu nunca fui muito de ter esse controle, eu não saia de casa e fui criada num regime muito fechado e, no fundo, ter decisão sobre as coisas era tudo o que eu queria, mas naqueles momentos eu apenas queria ligar pra minha mãe controladora e perguntar “E agora?”. Passei meu olhar por todos à minha volta, mas ninguém com os famosos cabelos enrolados do garoto mais desejado do campus. Eu não iria passar por aquilo, eu ligaria para o , contaria toda a verdade e depois escreveria sobre isso. Não parecia ser tão ruim, pelo menos não tão ruim como reencontrar com ele. Assim que eu comecei a procurar o celular na minha bolsa, uma mão pousou sobre os meus ombros me fazendo virar para trás. E lá estava ele... Sem o cabelo cacheado característico, mas algo mais maduro... O cabelo penteado como nunca antes e a mesma pele lisa de anos atrás como se ele ainda tivesse na flor da juventude... Ele tinha conseguido ficar mais bonito do que dois anos atrás. Ele estava me fazendo sentir melhor do que eu me senti quando o conheci. E, droga, eu precisava parar de encará-lo.
— Oi. – Ele não esperava me ver, eu poderia afirmar isso. Na verdade, eu também não achei que fosse vê-lo tão cedo. Eu pensei em responder, nossa como eu pensei, mas eu me lembrei. Eu me lembrei de todas as vezes que eu ficava acordando esperando apenas uma ligação, uma carta ou um sinal de fumaça dele, mas ele apenas não havia mandando nada... E naquele momento, eu percebi que não havia nada no mundo que me faria cometer o mesmo erro. Ele tinha quebrado o meu coração sem nenhum aviso e eu nunca me recuperaria. E agora, quando eu o vi parado à minha frente tão diferente da ultima vez que nos vimos, eu pude perceber que ele só havia quebrado o meu coração porque ele foi o único que o teve e eu também não poderia me recuperar disso. – ... – Chamou percebendo que eu apenas o encarava sem responder. – Eu... Eu sinto muito.
não pôde vir, ele sente muito por isso. – Respondi o mais friamente que consegui e me virei para começar a ir até o estacionamento.
. – O senti segurar meu braço, mas não o suficiente para me fazer virar. Eu não pude evitar ficar arrepiada ao sentir seu toque sob a minha pele, parecia como da ultima vez, mas pior. Mais forte. – Precisamos conversar sobre isso. – Eu não virei ou esbocei qualquer reação, eu nem sequer podia afirmar que estava respirando. – Por favor, grita comigo, briga, me chama de idiota, mas fala alguma coisa...
— Eu tentei falar com você, eu tentei por meses. Agora, , é tarde demais para ser dito algo. – Me soltei da sua mão e não me virei pra trás. Eu tinha medo de que se eu fizesse, eu apenas faria a pior escolha da minha vida. E, era toda a escolha errada que eu já tinha feito.

Atualmente.

Apoiei minhas mãos na bancada de mármore do banheiro e não pude evitar o deja-vu se formar na minha cabeça. Eu tinha estado naquela mesma sensação claustrofóbica uma semana atrás quando tudo isso começou. A aparência da mulher no espelho ainda é assustadoramente nova pra mim, talvez eu cortasse meu cabelo depois de lá, talvez eu o pintasse de loiro, talvez eu colocasse uma lente, uns óculos ou qualquer coisa que não me fizesse me sentir tão diferente. Era definitivo, eu odiava o corpo que tinham me mandado. Esperei meus batimentos voltarem ao normal e só depois de alguns minutos pude perceber a burrada que tinha feito. O que eu falaria quando ele me perguntasse sobre o ? Como eu pude ser tão estúpida?
— Eu também não sei. – Ouvi a voz de John atrás de mim dizer. Eu quase tropecei mesmo estando parada.
— Qual é o seu problema? – Gritei assustada. – Um dia você vai me matar do coração.
— Você já está morta, . – Sussurrou como se aquela informação fosse um segredo.
— Há-há, muito engraçado. – Revirei os olhos. – O que você quer?
— Vim ver como você estava. – Deu de ombros.
— Eu estou péssima, nada muito diferente de alguns anos. – Sorri sem humor. – E você? Parece melhor...
— Eu disse que não era nada. – Respondeu confiante. – Não precisa se preocupar comigo.
— Quais são as suas regras, John? – Perguntei sem muitos rodeios já que a qualquer momento alguém poderia entrar ali. – Em relação aos humanos.
— Diferentes das suas. – Disse. – Apenas diferentes.
— De um jeito bom ou ruim?
— Apenas diferente. – Sorriu se aproximando de mim. Aquele sorriso de segundas intenções.
— O que foi agora? – Cruzei os braços impaciente.
— Não se preocupe com as minhas regras, . – Riu. – Apenas lembre-se das suas.
— Eu não vou quebrar as minhas e eu espero que você não quebre as suas. – Falei confiante. – Eu preciso voltar. – Fui em direção à porta e sem me virar disse – Pare de me vigiar. – E fechei a porta atrás de mim.
— O que aconteceu, ? – Perguntou assim que me sentei. As comidas já estavam à mesa e ele já estava quase terminando a sua.
— Cólica. – Disse a primeira coisa que veio à minha mente. – Desculpe. Onde nós estávamos? – Não esperei ele responder. – Ah sim, nas localizações da nova filial... – Eu iria o encher de informações até que não sobrasse espaço para conversas sobre vidas pessoais.
Depois de muita conversa sobre terrenos e todos os tipos de meios inventados pelo homem para fugir de um assunto, eu até poderia agradecer as minhas aulas de geografia no Ensino Médio ou eu nunca teria conseguido manter aquele tipo de assunto com ele por tanto tempo. Por um breve momento, até pude sentir como se eu estivesse viva e aquela fosse uma conversa casual como anos atrás, mas assim como aconteceu com Ella, todas as vezes que ele me chamava de , eu apenas voltava ao normal. Eu voltava à morte.
— Eu percebi, . – disse ao parar na frente da empresa depois de um longo caminho apenas com a sua péssima música sendo ouvida dentro carro.
— O quê? – Destravei o cinto me preparando para sair de dentro do carro antes que tudo terminasse mal.
— Eu ouvi você falar o nome do meu amigo e percebi quando você desviou do assunto. – Comentou. – Temos o resto do dia pra falar sobre isso.
— É tarde demais pra ser dito algo, senhor . – Eu não acho que ele se lembraria daquela frase, mas eu me lembrava de cada palavra que eu tinha dito pra ele desde que nos conhecemos. Dizem que quando você morre todo o filme da sua vida passa na sua cabeça, infelizmente em todas as cenas da minha era ele quem estava lá. E eu já tinha decorado todas as nossas falas.



SETE.

Eu me lembrava daquele dia, do dia em que disse me amar pela primeira vez. Eu sorri e disse que o amava também, e eu não menti. A mentira era muita mais profunda do que o meu amor por ele, era quase tão forte quanto aquilo. Eu não queria ter feito o que fiz, mas eu sempre fui mais egoísta do que queria. Nunca fui como a personagem principal das minhas histórias, eu tinha tantos defeitos quanto alguém poderia ter na vida real. trouxe o pior de mim, tudo o que eu tinha tentado não ser por medo de ser sozinha, por medo de não ter as histórias que eu sempre escrevi. Infelizmente, estava no caminho disso tudo. Eu deveria ter parado, não podia ter inserido ele na minha vida. Ele não merecia. Nunca mereceu.
— Eu não quero saber... Eu vou entrar nessa sala. – Uma voz fina soava de fora do escritório. Eu me levantei para abrir a porta e ver o que estava acontecendo, mas assim que me aproximei uma loira abriu a porta com força, me fazendo dar um pulo pra trás. – Cadê ele? – Passou por mim sem se preocupar em me esbarrar.
— Quem é você? – Perguntei impaciente, já imaginando que aquela seria apenas mais uma aventura do .
— Você deve ser uma das secretariazinhas dele. – Virou em minha direção. Foi impossível não rolar os olhos ao ver o quão patético meu chefe era ao escolher suas acompanhantes. Ele nunca iria evoluir. – Eu quero falar com ele agora. – O som dos saltos dela batendo no chão estava terrivelmente irritante para mim.
— Eu não sei se percebeu, mas ele não está aqui. – Sorri sem humor e voltei a me sentar.
— Eu o espero. – Sentou-se no pequeno sofá de dois lugares que ficava ao lado da mesa de . Ela realmente não poderia estar falando sério. Fechei a pasta que estava em cima da minha mesa e me apoiei nos meus cotovelos para observa-la melhor. Ela era linda, ninguém poderia negar aquele fato. Loira, alta e de incríveis olhos verdes, quase idênticos aos meus quando estava viva, tirando pela parte que era muito mais escuro.
— Você está me atrapalhando. – Comentei sem humor. Não era como se eu tivesse realmente algum trabalho a ser feito, mas o fato dela estar sentada lá, batendo as pernas e não me deixando sozinha naquele espaço era cansativo.
— Eu sinto muito por você, mas eu vou falar com ele. – Respondeu sem levar seu olhar até mim. Eu apenas bufei e fui me sentar ao lado dela. – Eu não vou passar por isso de novo. – Apesar de ter tentado soar de uma maneira forte, eu pude perceber o quanto ela estava ali apenas para tentar resguardar seu ultimo suspiro de orgulho.
— Ele não ligou, não foi? – Perguntei a encarando e ela apenas assentiu sem animação. – É típico dele. Pelo menos, ele não viajou para fora do país. – Sorri sem humor e ela abaixou os ombros em sinal de desistência.
— Eu não sei porque achei que ele seria diferente. – Olhou para mim. – Ele, ao menos, olhava para mim quando estávamos na cama, eu tenho certeza que ele estava pensando em outra. – Riu sem graça. – Não sei o que eu tenho de errado.
— Não tem nada de errado com você. – Disse.
— Ele parecia um cara legal. – A voz dela já começava a ficar embargada e eu poderia afirmar que ela estava perto de chorar. – Foram os olhos, eu tenho certeza.
não merece que você chore por ele. – Pousei minhas mãos em cima da sua. – Nenhum homem merece qualquer coisa de você.
— Eu tenho 25 anos, eu não aguento mais ser chamada de encalhada pela família em todas as festas. – Começou a chorar silenciosamente.
— Você não precisa de ninguém, por favor, você é muito melhor que isso. Eu não conheço você, não sei nem seu nome, mas não faça isso com a sua vida. – Falei como se fosse óbvio. – Ela pode acabar tão rápido e você vai se arrepender ao perceber que você passou todos os dias tentando encontrar o príncipe encantado que, vamos ser sinceras, não existe. – Sorri ao perceber que ela já não chorava tanto mais.
— Desculpa por ter gritado com você. – Levou seus olhos do chão até mim. – Eu realmente estou com muita vergonha agora.
— Está tudo bem. – Dei de ombros. – Não foi sua culpa.
— É melhor eu ir antes que ele chegue e acabe brigando com você. – Levantou-se e endireitou sua saia. – Obrigada. – Sorriu. – Eu precisava conversar com alguém assim. – Sorri. Eu também queria que alguém tivesse conversado comigo, talvez nada tivesse acontecido como aconteceu.
— Pode vir aqui sempre que quiser conversar. – Eu havia gostado de fazer aquilo. Lembrava-me quando eu não era tão ranzinza com todas as pessoas à minha volta.
— Eu vou me lembrar disso. – Fechou a porta e o som dela se fechando foi o estalo para eu me lembrar o porquê de tudo ter acontecido. não havia mudado depois de todos esses anos. Enquanto eu ficava me martirizando todos os dias da minha vida, ele apenas continuava com o mesmo ciclo de sempre. O mundo não precisava de outra história como a nossa e o céu não precisava de outra .

~*~

Maio, 2007.



Era difícil ser namorada do melhor amigo de um dos meninos mais populares do campus. Todo final de semana, aparecia com algum tipo de festa diferente em algum lugar diferente. Eu conseguia entender o porquê de todas as garotas da faculdade morrerem para ter a atenção dele, e até mesmo de , eu podia perceber os olhares para cima de mim quando eu passava no campo com a companhia dos dois garotos.
— E então ? Namorada nova? – Perguntou rindo, olhando para as garotas paradas perto de uma arvore um pouco longe de onde estávamos. Eu já tinha percebido o olhar delas nos seguindo por todo o caminho até o banquinho que ficava no hall de entrada da faculdade.
— Nem sei o nome delas. – Respondeu sem tirar os olhos do celular na sua mão. Eu apenas levava o meu olhar entre os dois amigos durante a conversa, observando calada.
— Eu aposto que elas sabem até a cor da sua cueca. – o olhou e sorriu. – Não que seja difícil já que você não tenta esconder isso.
— Como se você tentasse. – Riu. – Diz, , qual é a cor da cueca dele hoje? – Eu podia sentir o desafio na sua voz e eu apenas revirei os olhos em resposta.
— Branca. – Falei sem pensar muito e apenas voltei minha atenção nas garotas um pouco à nossa frente que ainda encaravam curiosas.
— Você chutou. – Disse e assentiu segurando o riso.
— Ele sabe o valor de um cinto, . – Tentei não rir ao olhar para o melhor amigo do meu namorado que estava ao meu lado.
— Gosto de ser livre. – Respondeu. – Em todas as maneiras. – Piscou de forma engraçada.
— Para de falar sobre suas partes baixas com a minha namorada. – riu e me abraçou de lado, me puxando para ele, e eu soltei uma gargalhada com toda aquela situação. Aquele trio, definitivamente, não era algo comum de ser formado. Na verdade, era mais clichê do que eu poderia imaginar que minha vida se tornaria. E eu amava aqueles dois.
— Não precisa ter ciúmes, garoto de ouro. – Olhou para mim. – Ela já escolheu você. E além do mais, não faz meu tipo. – Deu de ombros e eu não pude deixar de sentir um aperto dentro de mim. Eu não podia evitar, mesmo que eu soubesse que não faria o tipo dele, não era pra ser algo tão relevante, afinal, ele era apenas o melhor amigo do meu namorado. – Eu acho que elas decidiram vir aqui falar comigo, finalmente. – Eu levantei meu olhar que havia se concentrado no chão por alguns minutos e não demorou muito para eu ver como ele se tornava uma pessoa completamente diferente.
— Está na hora de vê-lo agir como o rei da faculdade. – Comentou baixo para mim aproximando do meu ouvido e eu apenas assenti, observando guardar o telefone e se levantar para receber as garotas à nossa frente. Naquele momento, eu conseguia perceber o porquê de ninguém entender como ele falava comigo. Ele era terrivelmente perfeito demais para qualquer pessoa. Você sabe exatamente como a história termina com garotos como ele e, por algum motivo, você apenas fica presa nesse clichê que cerca .
— Meninas. – Falou assim que elas chegaram. – Posso ajudar com alguma coisa? – Eu precisei focar minha atenção em minhas mãos que estavam entrelaçadas com a do para não ter que olhar para o sorriso dele.
— Talvez. – A morena respondeu jogando seus cabelos lisos por cima dos ombros. – Mas não aqui. – Passou seu olhar para e ao olhar para mim apenas mudou para o desdém instantâneo, não demorando muito.
— Com certeza. – Eu não tive certeza se ele olhou para mim ou para o meu namorado assim que levantou, mas eu não fiquei muito tempo pensando naquilo e apenas voltei minha atenção ao , que começava a falar sobre as suas próximas provas.

Atualmente.



entrou no escritório e apenas jogou o seu casaco no sofá antes de se sentar em sua cadeira. Eu não conseguia evitar a repulsa em todos os pequenos atos que ele fazia. Há poucas horas eu havia visto uma pessoa chorar por ele enquanto eu podia apostar que ele sequer sabia o nome dela. Revirei os olhos e passei a encarar a tela do computador à minha frente, apenas tentando me concentrar em algo que não fosse a minha vontade de gritar com aquele homem.
— Algum recado pra mim? – Perguntou pela minha primeira vez olhando para mim. Ele agora já estava sentado e com todas as suas pastas abertas na mesa.
— Na verdade, sim. – Fechei a tela do notebook apenas para poder observa-lo melhor. – Uma mulher veio aqui chorando perguntando onde estava o cara que transou com ela na noite anterior. – Cruzei os braços. – Eu não sou paga para ser psicóloga das suas “namoradas”. – Fiz aspas com os dedos ao dizer a ultima palavra, tentando soar o mais sarcástica que eu poderia.
— Desculpa, tá legal? – Soltou uma leve risada e eu apenas desviei meu olhar dele para não perder o ultimo resquício de paciência. – Não precisa ficar com ciúmes. – Sentou-se na sua cadeira sem levantar seu olhar até mim.
— Ciúmes? – Levantei-me e fui até a sua mesa, colocando as mãos em cima dela apenas para olha-lo. – Algumas coisas não mudam mesmo. – Sorri. – Você é apenas o mesmo garoto sozinho de sempre.
— Não fale como se me conhecesse ou conhecesse a minha vida, senhorita . – Focou seu olhar em mim, pela primeira vez desde que entrou, sem muito humor.
— Não é muito difícil, senhor . – Afastei-me começando a andar pela sala. – Você é bem previsível. O tipo que sempre sai com todas as mulheres, não liga depois, age como um idiota e acha que só porque é bonitinho é digno de magoar pessoas ao seu redor. – O encarei. – Me diga, , é difícil conviver com a culpa de ter magoado tantas pessoas na sua vida? – Ri com desdém. – Espera, eu esqueci que você não se importa com ninguém além do seu terrível bem-estar. – Aproximei-me dele, que já tinha uma raiva característica nos olhos. – É por isso que você ainda é um triste garoto sozinho. É porque você machuca as pessoas. – Antes que eu pudesse continuar ele levantou, fazendo com que eu me afastasse da sua mesa. – E é exatamente por isso que ninguém nunca vai escolher você.
— Cala a boca. – Cuspiu as palavras com raiva. – Você não sabe nada sobre a minha vida e nem sobre mim.
— Pare de agir como se tudo que eu falei não fosse verdade. – Ao me virar senti sua mão segurar com força o meu braço, fazendo com que eu olhasse para ele. – Qual é seu problema? – Tentei soltar, mas ele apenas apertou. – Me solta. – Puxei e ao soltar o vi colocar as mãos no rosto como se estivesse não mais com raiva e sim terrivelmente triste, e eu quase me arrependi de dizer tudo aquilo.
— Não precisa voltar amanhã. – Disse simplesmente sem olhar para mim.
— Não é como se eu fosse sentir sua falta. – Sorri sem humor, peguei a minha bolsa na mesa e sai sem olhar para trás. – Eu não senti esse tempo todo. – Falei assim que fechei a porta atrás de mim. Respirei fundo mais algumas vezes até tomar coragem de começar a andar. Eram aqueles momentos que por mais que eu quisesse odiá-lo, apenas ficava com mais raiva por perceber que eu tinha perdido tudo por minha causa, por ter deixado alguém como ele entrar na minha vida.


OITO.

Eu havia sido demitida. Por algum motivo, o alívio que passou por mim na hora que eu ouvi a noticia de ontem não havia durado muito. Na verdade, assim que eu cheguei em casa eu percebi o quanto eu tinha estragado tudo. Nunca pediria desculpas para ele, por mais que eu possa ter falado demais, merecia aquilo. Não apenas por mim, mas por todas as garotas que ele fez chorar apenas para conseguir saciar seu ego. Acordei no sofá com a mesma roupa do trabalho e os únicos esforços físicos que tinha feito desde as nove da manhã era colocar a pipoca no micro-ondas e escolher o próximo filme de comédia romântica para assistir. Após horas, eu pude perceber o quão patético era a minha situação com todos aqueles pacotes à minha volta, meu cabelo desgrenhado e a sala suja. Não tinha ânimo para fazer nada naquele lugar e quando John apareceu na minha frente, desejando feliz aniversario, eu realmente fiquei surpresa por ter esquecido que eu faria 28 anos naquele dia.
— Meu Deus! O que houve aqui? – Perguntou olhando assustado, tentando não pisar nos milhos perdidos no carpete.
— Fui demitida. – Falei como se estivesse respondendo sobre o quanto o tempo estava frio.
— O que você fez? – Respondeu sem surpresa, na verdade, eu até poderia notar um divertimento na sua voz.
— Disse algumas coisas. – Evitei olha-lo apenas para evitar vê-lo me julgando. John era terrivelmente bom em fazer eu me sentir culpada. – Eu só não poderia conviver com tudo aquilo à minha volta. Era como um terrível trailer da minha vida sendo interpretado por outras pessoas.
— Bom, achei que isso aconteceria no primeiro dia, então parabéns por ter durado uma semana. – Sorriu, se jogando ao meu lado. Ele nem parecia o cara abatido de dias atrás. – Qual é seu plano agora?
— Me matar na banheira. – O encarei dando de ombros.
— Não exagera, . – Revirou os olhos. – É sério, você precisa pensar em algo. Já faz algumas semanas que você está aqui e, sinceramente, não há nenhum tipo de evolução. Geralmente, você já teria estragado tudo, mas nem isso fez ainda. – Olhou ao redor antes de voltar sua atenção até mim. – Quer dizer, até agora.
— Hoje não é meu aniversário? Então, vamos imaginar que é apenas meu dia de folga e tudo vai voltar ao normal amanhã. – Tentei sorrir, mas não por muito tempo até perceber que depois de quatro anos eu estava comemorando aquele dia viva. – Eu nem sequer me lembrava. – Falei mais para mim do que para o garoto ao meu lado.
— Você costumava se lembrar. – Cruzou os braços pensativo. – Você costumava surtar, na verdade.
— Perdi a noção dos dias, muita coisa pra pensar. – O encarei e pude perceber seu olhar preocupado. – Obrigada por lembrar de qualquer forma. – Sorri de lado e ele fez o mesmo, em resposta, jogando seus braços ao meu redor.
— É o que melhores amigos fazem. – Piscou; o que me fez revirar os olhos. – Tenta sair um pouco e não pensar nisso. Você está me deprimindo nesse sofá. – Pegou o pacote que estava entre nós e o colocou na mesinha de centro onde meus pés estavam apoiados. – Eu aposto que nem tomou banho. – Riu.
— Eu estou igual a você da ultima vez que veio aqui. – Peguei o controle e desliguei a televisão, me virando completamente para ele. – O que aconteceu naquele dia? Por um momento, eu achei que você iria morrer.
— Isso é impossível – O sorriso ainda estava lá, mas eu podia perceber que ele já não estava mais tão relaxado como antes.
— Não minta para mim. – Disse séria. – Mark deu a entender que talvez você esteja fazendo algo contra as regras.
— Ele disse isso ou você deduziu isso? – Bufei e o vi sorrir, dessa vez mais sincero. – Não precisa se preocupar comigo, .
— Eu não quero ter que me preocupar mesmo. – Sorri sem humor.
— E então? – O encarei confusa com a pergunta. – Vai sair desse sofá quando? É seu aniversário.
— Prefiro ficar aqui com você e comer. – Ao me movimentar em direção ao pacote de pipoca à minha frente, John foi mais rápido e puxou para si, o colocando do outro lado do sofá.
— Não hoje. – Levantou-se. – E eu preciso fazer algumas coisas com o meu caso e não vou te deixar aqui nessa cena patética.
— Odeio você. – Joguei minha cabeça para trás, recostando no sofá.
— Eu também te amo. – Fez um rápido cafuné na minha cabeça antes de se levantar e ir até a janela. – Não quero voltar aqui e te ver. – Antes de se virar para sumir na minha frente, John apenas acenou e sorriu.

~*~

Março, 2010



Eu mal podia acreditar que estava fazendo vinte e dois anos. Eu já era uma mulher formada, com alguns e-books de sucesso e caminhando para o meu próximo livro e, provavelmente, o mais complicado de se escrever até agora. Por mais que eu quisesse, eu não podia deixar todos os sentimentos confusos da minha vida fora dele, o que estava o tornando pessoal demais. Minha mãe estava finalmente superando o fato de eu não ter aceitado o emprego na nossa antiga cidade e não ter voltado para lá, mas provavelmente ela ainda estava chateada o suficiente para não se dar o trabalho de ir me ver e desejar feliz aniversário. Meu irmão tinha me mandando um cartão postal de Paris com um pequeno chaveiro da torre Eiffel como presente e me ligado para conversar comigo e perguntar se tudo estava bem. Nossa relação não era muito próxima, já que ele era dez anos mais velho do que eu e ser apenas por parte de pai, mas ainda assim eu sempre corria para ele quando algo dava errado, mesmo que por internet, já que ele sequer parava em um país por muito tempo. tinha acabado de desligar o telefone depois de me pedir para encontrá-lo em sua casa, talvez ele apenas quisesse assistir um filme e conversar sobre assuntos aleatórios como sempre fazíamos enquanto estávamos sozinhos. Nosso relacionamento de três anos estava ótimo, apesar de eu sempre ter que disputar atenção com os seus pais, que insistiam em leva-lo para todas as conferências internacionais para que ele se tornasse um empresário digno de cuidar da empresa da família e eu sei que ele gostava, já que podia aproveitar para tirar fotos, o qual era o seu hobbie depois de descobrir o quanto amava fotografias em uma feira que teve no ultimo ano da faculdade. Ainda assim, às vezes era apenas solitário. E apenas tinha desaparecido por semanas, provavelmente, viajando por algum lugar exótico e rodeado por garotas, eu nem sequer espero que ele se lembre do meu aniversário. De algum jeito, ele se afastava cada vez mais de mim e a nossa amizade sequer era a mesma de anos atrás. E eu apenas fingia que aquilo não me afetava.
— Eu sou o garoto mais sortudo do mundo por ter uma namorada tão linda. – disse sorrindo assim que abriu a porta para mim, não pude evitar revirar os olhos enquanto passava por ele. – Ei. – Puxou-me de encontro aos seus braços e eu acabei me desequilibrando e quase caindo, o que fez com que ele risse e tirasse uma mecha de cabelo que estava no meu olho e eu apenas sorri. era tão perfeito que eu apenas esperava o pior acontecer e tudo aquilo desmoronar na minha cabeça a qualquer momento. – Feliz aniversário, princesa. – Sorriu antes que eu sentisse seus lábios indo de encontro aos meus, e eu apenas joguei meus braços ao redor de seu pescoço e ele apertou mais meu corpo ao seu. Ele me levou até o sofá sem parar de me beijar e riamos ao perceber o quanto estávamos esbarrando em todos os locais possíveis até chegar até lá e ele me jogar, ficando por cima de mim.
— Eu amo você. – Disse após me separar dele, à procura de um pouco de ar. Seus olhos azuis, seu cabelo loiro, agora bagunçado, e sua boca rosada o tornavam o melhor presente da minha vida e eu sequer conseguia parar de admirá-lo. Ele havia sido a primeira a pessoa a prestar atenção em mim, se importar comigo e me tratar como se eu tivesse algum valor. E eu simplesmente o amava por isso.
— Eu também, meu amor, desde o primeiro momento que eu a vi. – Levantei minha cabeça e diminui o espaço que restava entre nós, o beijando. Antes que ele pudesse começar a tirar a sua camisa, a campainha tocou e ele resmungou, se levantando, indo em direção à porta, o que me fez rir e ajeitar meu cabelo enquanto isso. Não demorou muito para que eu ouvisse uma risada conhecida e virasse para trás rapidamente para ver rindo enquanto apenas resmungava algo que eu realmente não consegui distinguir por estar muito focada no garoto ao seu lado.
— Desculpa atrapalhar, mas você não achava realmente que eu não iria te desejar parabéns, né? – Eu não tinha me movido o suficiente ainda, eu não falava com ele há semanas, e o tempo realmente tinha o deixado mais bonito – se é que isso era possível – seu cabelo estava maior e caia nos seus olhos e talvez ele estivesse mais musculoso ou talvez fosse apenas a blusa preta que ele usava que demarcava todos os seus músculos. – Não vai me abraçar? Eu vim do outro lado do mundo só pra desejar feliz aniversário pra escritora mais talentosa do país. – Olhei para e ele apenas deu de ombros como se lamentasse pelo nosso momento ter sido interrompido, e no fundo, eu também lamentava, mas provavelmente não pelos mesmos motivos que meu namorado. – Vem cá. – me puxou para um abraço e eu apenas o retribui tentando ao máximo agir normalmente mesmo que meu coração tivesse batendo mais rápido do que em qualquer momento naquela noite.
— Eu vou pegar alguma bebida pra gente. – disse saindo da sala e eu me afastei de , que sorria.
— Você desapareceu. – Comentei, focando em qualquer lugar menos no garoto à minha frente. – Eu achei que nem iria se lembrar. – Eu não queria parecer tão triste ou dependente dele, mas eu realmente estava desde que o dia havia começado e ele sequer havia dado algum sinal de vida.
— Eu estava precisando dar um tempo da cidade. – Respondeu sem muita emoção, indo em direção à porta e eu o segui com o olhar. – Na verdade, eu não vou atrapalhar a noite de vocês. – Eu o segui até a porta sem entender o porquê dele já estar indo embora e ele pareceu perceber, pois apenas sorriu pousando as mãos no meu braço. – só me deixou entrar porque eu disse que iria embora rápido. – Deu de ombros e eu apenas assenti, levando minha mão até onde ele tinha tocado e a deixando lá apenas para fingir que ainda era ele me tocando.
— Eu fiz alguma coisa errada? – Não consegui evitar a pergunta que me rondava há meses, desde que ele apenas começou a me evitar. – Porque se eu fiz, eu realmente sinto muito, você apenas está tão distante e eu nem sequer consigo saber o que aconteceu entre a gente desde daquele dia...
, apenas esqueça... – Interrompeu-me, sorrindo, mas eu o conhecia há anos pra saber que aquele realmente não era o seu sorriso mais sincero. – Eu estava chateado, você estava chateada... – Suspirou parecendo pensar em algo antes de voltar seu olhar até mim. – Podemos fingir que nada daquilo aconteceu? Podemos ser amigos como antes? – Seus olhos pareciam implorar para que eu apenas deixasse tudo pra lá e eu apenas assenti sem muita animação, entendendo que aquilo realmente nunca poderia voltar acontecer, por mais que eu quisesse, não queria. Ele nunca quis. Ele nunca iria me olhar daquela forma.
— É claro. – Tentei o meu máximo para sorrir e acho que funcionou já que ele segurou minha cabeça entre as suas mãos e depositou um beijo na minha testa antes de apenas se virar e sair, deixando uma garota de vinte dois anos confusa para trás.


~*~


Assim que percebi o completo silêncio no apartamento, eu pude perceber o quanto meu amigo estava certo e o quão patética eu estava. Antes que pudesse pensar muito sobre o que estava prestes a fazer, levantei-me em direção ao banheiro para um banho rápido e após alguns minutos me vesti com as primeiras peças de roupas que havia encontrado no armário. Ao ir em direção à sala, não pude evitar achar o quanto aquela roupa fazia eu me lembrar da minha antiga vida, apesar do cabelo e dos olhos no tom escuro, o simples vestido floral e os cabelos presos num simples rabo de cavalo seria exatamente o que eu vestiria para um dia como esse, há quatro anos. Não demorei muito tempo ali e passei direto pela sala e depois de alguns minutos caminhando à procura de um taxi, eu já me encontrava dizendo um endereço muito lembrado por mim durante todos esses anos.
Ao descer do carro, pude sentir minhas pernas pesarem e eu realmente só queria ir embora daquele local. Toda a energia era tão pesada e angustiante para mim que eu realmente não sabia como eu tinha chegado lá. Eu me lembrava de passar na frente daquela fachada sem muito importar com o que estava do outro lado e agora, eu não apenas estava enterrada à sete palmos à alguns metros, como também minha alma estava presa à outro corpo observando tudo isso acontecer. Respirei fundo algumas vezes antes das minhas pernas começarem a obedecer aos comandos do meu cérebro e andar em direção ao local que eu estava enterrada. Eu não podia deixar de rir sozinha com o quanto aquilo era bizarro, enquanto fazia o caminho já conhecido por mim. Eu só tinha feito isso uma vez antes com John e foi logo no inicio. Provavelmente, ele apenas havia ficado com pena da garota recém-chegada com uma história trágica e resolveu fazer com que eu parasse de chorar. Depois daquele dia, nós nos tornamos inseparáveis e eu pude perceber que ele seria a pessoa mais importante pra mim naquela nova fase.
Após uma pequena caminhada sobre a grama, pude perceber um movimento perto da onde eu estava enterrada. Ao apertar os meus olhos para poder ver quem estava lá agachado depositando um pequeno arranjo de rosas, todo o ar que estava nos meus pulmões se esvaiu e por um breve momento eu achei que estava morrendo de novo.
? – Disse ao me aproximar, depois de breves minutos parada apenas o observando enquanto ele arrumava com extremo cuidado as flores e falava algumas coisas como se estivesse conversando comigo, como seu estivesse viva, como se eu simplesmente ainda estivesse lá para ele...
? – Perguntou surpreso e levantou seu olhar para mim rapidamente e tudo à minha volta se quebrou assim que ele o fez, pois eu pude perceber algo que eu só havia visto uma vez antes. estava chorando. Ele estava com o mesmo olhar que eu vi no dia que eu virei minhas costas para ele. O último olhar que eu vi. A última vez que o vi antes de morrer. – O que... O que você... Por que você está aqui? – A confusão no rosto dele provavelmente era visível também no meu. E eu, sinceramente, não sabia o porquê de estar ali, assim como também não sabia o porquê dele estar.
— Eu... – Olhei ao meu redor como se esperasse alguma ajuda ou qualquer coisa que me impedisse de abraça-lo e apenas chorar. – Eu estou visitando uma pessoa. – Disse levando meu olhar para algum ponto atrás dele.
— Ah... – Coçou a nuca parecendo envergonhado por ter sido pego naquele momento. – Eu sinto muito. – Eu não consegui manter meus olhos por muito tempo longe dele e assim que voltei a olhar para seus olhos, toda a força que eu havia feito por anos até aquele momento se quebrou e eu apenas desabei. Eu chorei por todos os dias que eu convivi com perto de mim, por todas as mentiras que eu contei para , por todas as vezes que eu apenas queria ter feito escolhas diferentes, por todos os momentos que eu apenas queria que ele estivesse ficado ao meu lado ou apenas por todas as vezes que eu queria que ele estivesse apenas ficado. – ... – O ouvi sussurrar e antes que pudesse levantar meu olhar até o dele, eu já podia sentir meu corpo colado ao dele. Eu não pensei muito ao colocar meu pescoço apoiado no seu peito e segurar com força a blusa branca que ele usava como se eu apenas fosse cair caso eu soltasse. – , por favor, fica calma... – Disse no meu ouvido, tentando fazer com que eu me acalmasse, mas apenas piorava tudo e eu já soluçava sem parar. Se ele apenas soubesse...
... Eu... – Tentei dizer sem sucesso. – Eu sinto muito. – Me afastei para que eu pudesse observa-lo e talvez tenha sido o maior erro que eu já tinha cometido até ali. A nossa proximidade era assustadoramente perigosa. Seus olhos levemente vermelhos passearam por todo o meu rosto até focar nos meus lábios, eu não me atrevi a repetir o gesto, por mais que eu quisesse. E, Deus, como eu queria. – Eu sinto muito. – Afastei-me rapidamente como se o toque da sua mão nas minhas costas queimasse. Limpei o meu rosto com as palmas das minhas mãos e não demorou muito para que eu sentisse seus dedos deslizarem pela minha bochecha com cuidado me ajudando a secar minhas lágrimas.
— Eu também sinto. – Disse ao retirar suas mãos de mim e eu quase pude suspirar por querer que ele continuasse com elas ali. Após alguns segundos parados apenas nos olhando, me virei para sair daquele lugar o mais rápido possível, antes que eu estragasse com a vida de mais alguém, já tinha feito isso com pessoas o suficiente. – Ei. – O senti segurar meu braço, mas permaneci sem olhar para ele. – Você quer falar... Você quer conversar? – Eu podia perceber o receio na sua voz, talvez ele estivesse pensando que eu chorei por causa da pessoa que eu fui visitar ou talvez ele pensasse que eu estava com saudades daquela pessoa. Sim, eu estava. Eu estava com saudades de ser eu mesma, da pessoa que eu fui antes de tudo na minha vida dar terrivelmente errado e eu ter me tornado tão amarga.
— Por que você está aqui? – Perguntei antes que pudesse evitar. Virei para encara-lo e ele apenas deu de ombro em resposta sem ânimo. Eu precisava saber. Eu precisava que ele respondesse o porquê dele estar ali quatro anos depois no meu aniversário. – Por favor... – Pedi.
— Quer tomar um café? É perto. – Eu não tinha percebido que ele continuava segurando minha mão até que ele começasse a fazer carinho nela com os dedos. Eu a puxei para perto do meu corpo rapidamente e ele apenas sorriu. – Não quero ficar aqui, . – Disse e eu apenas assenti. Eu também não queria ficar por ali nem mais um segundo.

~*~

O caminho até a pequena cafeteria durou apenas alguns minutos e o silencio nos acompanhou por todo esse tempo. Mas não era algo ruim ou desconfortável, era apenas duas pessoas cansadas demais emocionalmente para tentarem conversar sobre algo. Eu podia perceber que ele estava preocupado por causa de como eu agi, mas eu também sabia que ele não iria perguntar nada caso eu não resolvesse falar. era assim. Ele apenas não falava sobre esse tipo de coisa. Ele apenas evitava ao máximo lidar com toda essa bagagem em voz alta. Ele apenas sorria e falava que precisava sair. Ele apenas fugia. Ele sempre fugiu quando o assunto me envolvia, mesmo nos momentos que eu mais pedi que ele ficasse, que ele voltasse. E esse era um daqueles momentos onde eu apenas queria que ele falasse comigo.
... – O chamei fazendo com que ele levasse seu olhar até mim. – Eu preciso que você fale porquê você estava lá. – O olhei implorando. – Eu preciso saber. – Ele sorriu sem humor e abriu a porta para que eu passasse na frente dele ,e eu fiz, indo até a mesa mais afastada que havia visto. Assim que nos sentamos, ele chamou a garçonete e pediu dois cafés.
— Por que você precisa tanto? – Perguntou me encarando e eu desviei o olhar, pois não aguentaria por muito tempo.
— Eu... – Pensa em algo, . Apenas pense. – Eu preciso saber que eu não sou a única a fazer isso depois de anos. – A mesma garçonete de antes colocava nossos cafés na mesa e ele levou seu copo até a boca sem desviar o olhar de mim.
— Ela era a noiva do meu melhor amigo. – Eu quase podia dizer que ele iria começar a chorar a qualquer momento. – E eu realmente não sei por que faço isso depois de tanto tempo. – Deu de ombros. Ele estava triste. E aquilo estava acabando comigo. – Eu acho que... – Sorriu parecendo se lembrar de algo e eu apenas morreria para saber o que tinha o feito ficar menos triste, desejando para que fosse algo que eu tivesse feito. – Eu acho que é apenas para que ela saiba que eu ainda me lembro dela, pra ela saber que eu nunca vou esquecê-la, entende?
— Eu... – Por muito pouco, eu apenas não despejei tudo ali naquele momento. Eu só queria que ele soubesse que a culpa não era dele, por mais que eu repetisse isso todos os dias para mim mesma, no fundo, eu sabia a culpa nunca foi dele pelo o que aconteceu comigo. Nós dois fomos apenas vítimas de tudo.
— Provavelmente, se ela estivesse viva estaria me odiando. – Riu. – Mas eu realmente fiz por merecer... – Voltou seu olhar até o meu e sorriu gentilmente. – Ela iria gostar de você. Ela realmente iria amar te conhecer. Na verdade, em alguns momentos, você se parece muito com ela.
— Eu... – Pensei em algo para falar, mas apenas fechei a boca logo depois.
— Ontem quando você gritou comigo, principalmente. – Interrompeu-me se jogando mais confortavelmente na cadeira. – também odiava quando tinha que falar com algumas garotas que eu conhecia...
— Eu sinto muito pelo o que eu te disse ontem. – Falei rapidamente antes que ele terminasse sua frase. – Eu não queria ter dito tudo aquilo.
— Está tudo bem, você tinha razão em tudo o que você disse pra mim. – Parou. – E eu definitivamente já fiz várias pessoas sofrerem. Principalmente, ela. – Terminou sem nenhuma emoção no olhar.
— Eu... – Parei rapidamente. – Ela não te odeia. – Pela primeira vez, levei meu olhar até o dele. Eu só queria que ele soubesse que ele não precisava mais fazer aquilo, não precisava mais deixar nada no meu tumulo. Eu não merecia aquilo.
— Se ela estivesse aqui, nesse exato momento, eu aposto que ela estaria gritando comigo e dizendo o quanto eu acabei com a vida dela. – Disse me ignorando. – Ela fazia muito isso, na verdade, todas as poucas vezes que ela era obrigada a falar comigo. – Riu sem animação. – Você acredita que teve uma vez que ela teve que trazer uma papelada pra mim à pedido do meu amigo, que era noivo dela, e ela simplesmente jogou água na minha mesa quando me viu dormindo em cima dela. – Ri junto dele enquanto me lembrava daquele dia. tinha surtado quando percebeu que precisaria refazer todos os arquivos que estavam embaixo dele. Ficamos gritando por quinze minutos sobre o quanto ele era irresponsável. Na verdade, nós apenas gritávamos sem sentido nenhum. – Eu nem lembro sobre o que brigamos naquele dia, mas definitivamente não foi sobre o que ela tinha feito. Nós apenas ficávamos gritando um com outro até alguém aparecer e perguntar o que estava acontecendo. Apesar disso, eu amava quando ela simplesmente se importava o suficiente pra ficar minutos gritando comigo. Era bem melhor do quando ela nem me dirigia o olhar. – O sorriso dele se desfez aos poucos antes de voltar a sua atenção até mim. – Eu sinto falta disso. Porra, como eu sinto falta de ouvir a voz dela gritando comigo. – não era daqueles chorava. Eu só o vi assim uma vez em anos de convivência e agora, sentada aqui na sua frente, eu posso ver de novo. Eu consigo ver as lagrimas se formarem no canto de seus olhos. Não tentei me parar, quando coloquei minha mão em cima da sua na mesa. Ele me olhou e sorriu de lado como se me agradecesse. – Eu não sei como o conseguiu não visita-la em nenhum desses anos. – Com a simples menção daquele nome, eu puxei meus braços para perto de mim e ele me olhou confuso com o meu ato, mas eu apenas só conseguia pensar que nunca havia me visitado. Nunca.
— Ele – Tentei segurar o choro que se formava na minha garganta. – Ele nunca visitou seu tumulo?
— Ah... – Ele parecia surpreso com a pergunta. – Eu acho que ele só não conseguiria vê-la dentro do caixão. Eles iriam se casar e, de repente, ela o deixou.
— Mesmo assim. – Disse forte não querendo mais chorar. O único sentimento que eu tinha agora era raiva. – Eles eram noivos. Ele tinha que ter vindo, pelo menos uma vez, ele apenas tinha.
— Ei, , ei. – O ouvi me chamar e foi quando eu percebi as lagrimas no meu rosto e todo mundo olhando para a nossa mesa. não tinha sequer ido ao meu enterro. Senti a mão de segurar as minhas mãos em cima da minha mesa como se quisesse me acalmar.
— Ele não trouxe nem uma mísera rosa. – Comentei esperando que não ouvisse, mas ele parecia ter feito, já que acariciou minhas mãos com seus dedos.
— Ele a amava. – Eu podia notar o quanto era difícil para ele dizer aquilo. – Ele a amava tanto que não conseguiu aceitar que ela não estava mais aqui. Ele não queria que aquela fosse a ultima lembrança dela.
— E você? Você a amava? – Perguntei com a voz embargada, eu não tinha a coragem de encara-lo enquanto esperava a sua resposta, eu nem sequer percebi quanto tempo demorou até o ouvir tossir, o que me fez levantar meu olhar até ele e perceber que ele sorria.
— Mais do que deveria e menos do que ela merecia. – Seu simples sorriso se desfez e ele apenas ficou me analisando como se eu soubesse de todas as respostas, mas eu apenas estava mais confusa que ele. já tinha dito muitas vezes que me amava, mas nunca pareceu doer tanto o ouvir dizer isso como agora. – Eu sei que eu sou uma péssima pessoa por amar a noiva do meu melhor amigo, não precisa me julgar... Eu já faço isso o suficiente...
— Eu sinto muito. – O interrompi, mas antes que eu pudesse completar ele apenas começou a rir. Eu o olhei sem entender o porquê dele estar rindo como se aquilo tivesse sido engraçado. – Qual é a piada? – Eu não podia acreditar que ele estava achando alguma coisa ali divertida.
— Por favor, você realmente acha que sentir pena de mim é melhor do que me julgar? – O tom debochado na sua voz tinha definitivamente quebrado tudo que tínhamos criado até agora. – Você deve ser uma péssima conselheira amorosa para as suas amigas. – O jeito que ele revirou os olhos como se estivesse apenas brincando comigo me fez querer bater nele, e eu não pude evitar quando dei uma tapa de leve no seu braço segurando o primeiro resquício de sorriso sincero que eu tinha há anos. Ele sempre tentava tornar a situação o mais leve possível mesmo que doesse, ele sempre queria tornar tudo o mais fácil para todos à sua volta. – Ei. – Levou sua mão até onde eu tinha batido como se eu realmente o tivesse machucado.
— Cala a boca, . – Bufei cruzando os meus braços. - O que você queria que eu tivesse feito?
— Sinceramente? – Sorriu de lado fingindo uma expressão pensativa. – Um beijo estava ótimo. – Abri a minha boca em espanto antes de começar a rir. – O que foi? Não é como se você não quisesse fazer isso.
— Eu não sei da onde você tirou essa ideia. – Disse usando meu tom mais debochado possível. – Aposto que você só disse todas essas coisas pra conseguir me convencer que tinha um coração. – Apesar de tentar demonstrar indiferença, eu realmente estava com medo dele apenas rir, dar de ombros e concordar.
— Mesmo você não acreditando, eu realmente amei a . – Ele se aproximou de mim apoiando seus cotovelos na mesa. – Na verdade, depois que você apareceu, eu simplesmente não consigo parar de pensar nela. E isso está me matando, . – Eu só pude perceber que estava segurando a respiração quando ele se afastou recostando na cadeira e eu finalmente pude respirar. – Você aceita voltar amanhã? Eu prometo não levar nenhuma mulher para lá. – Perguntou sorrindo ao perceber que eu apenas o encarava sem ter o respondido e eu apenas assenti em resposta. – O gato comeu a sua língua?
— Você é louco. – Suspirei em derrota e joguei minha cabeça em cima dos meus braços que estavam na mesa, podendo ouvir apenas sua risada. Antes que eu pudesse levantar e ir embora dali para que nada ruim acontecesse, eu senti suas mãos no meu cabelo e as deixando por lá apenas movimentando seus dedos, algo no meu subconsciente apenas gritava para eu sair de lá e nunca mais olhar na sua cara ou apenas gritar para que ele parasse, mas aproveitando que ele não podia ver meu rosto, eu apenas fechei meus olhos e sorri aproveitando daquele momento. Eu sentia tanta falta dele que doía.
— Não se apaixone por mim, . – Sussurrou sem parar de fazer carinho em mim, mas, por mais que eu quisesse que ele continuasse, não pude evitar me levantar para encará-lo confusa. – Eu não posso destruir a vida de alguém de novo. Eu não aguentaria. – Me recompus e apenas dei de ombros como se aquilo não significasse nada para mim. Por mais, que eu quisesse apenas me aninhar nos seus braços.
— Não é como se você precisasse me avisar, . – O respondi sem humor. - Na verdade, eu preciso ir embora. – Assim que me levantei da cadeira o senti puxando minha mão. – Você precisa parar de fazer isso.
— Podemos ser amigos? – Eu não pude evitar sentir a sensação de deja vu que aquela situação causava em mim então eu simplesmente concordei com a cabeça e saí dali o mais rápido que pude, antes que ele me visse chorar de novo.


NOVE.

Ao sentir o sol no meu rosto, foi impossível não resmungar antes de me virar para o outro lado em busca de qualquer local mais escuro na cama. Eu ainda estava com o mesmo vestido de ontem e meu cabelo arrumado da mesma forma, porém muito mais bagunçado, o que me fez lembrar que eu apenas me joguei na cama assim que cheguei e chorei até pegar no sono. O dia anterior havia sido um dos piores de toda a minha vida e até mesmo morte, na verdade, eu não me lembrava de ter chorado tanto quanto ontem quando eu cheguei, nem mesmo no meu primeiro dia como Anjo. Nunca. Ouvir dizer que me amava – que amava – havia destruído qualquer resquício de sanidade que eu ainda tentava cultivar desde que eu o conheci. Olhei para o relógio do lado da cama e vi que já era de manhã. Levantei da cama e me arrastei até o banheiro para tomar um banho e tentar melhorar o rosto para ficar o resto do dia em uma sala com sem que ele percebesse a minha cara inchada.
Assim que terminei de me arrumar, decidi que iria passar em algum lugar para comprar um café, mesmo que no fundo eu soubesse que apenas estava tentando evitar ao máximo chegar ao meu destino, já que nem era muito fã dessa bebida.
— Bom dia. – Falei, com a voz um pouco mais rouca que o normal, ao passar pela Ella no caminho até a minha sala.
— Meu Deus, menina, você está péssima. – Respondeu assustada, virando seu corpo para me seguir com o olhar. Eu apenas bufei com esse belo comentário obvio sobre a minha aparência, apesar de ter aderido um óculos escuro, já que a maquiagem não tinha funcionado o suficiente para disfarçar o meu olhar fundo, talvez esse outro adereço também não tivesse disfarçado minha cara o suficiente. – O que houve? – Ouvi sua voz já perto de mim, ela provavelmente estava tentando me acompanhar.
— Não dormi muito bem. – Parei e virei para respondê-la o mais educado possível enquanto bebericava a bebida ainda quente no meu copo sem conseguir evitar uma careta ao sentir o gosto amargo descendo pela minha garganta.
— O que aconteceu com o naquele dia que você saiu daqui bufando? – Eu podia sentir o receio na sua voz ao me perguntar aquilo.
— Eu só disse que não era paga para ver ninguém chorando porque ele não ligou no dia seguinte. – Resolvi deixar a outra parte da discussão de fora para evitar as perguntas que eu tenho certeza que viriam a seguir.
— É surpreendente o fato dele não ter te demitido ainda. – Ella riu e eu apenas sorri em concordância.
— Ele já chegou? – Perguntei apenas torcendo para que ela dissesse que ele avisou mais cedo que não viria hoje, que tinha ficado doente ou qualquer coisa que evitasse nosso encontro, mas antes que ela pudesse responder, eu pude vê-lo sair da porta do elevador já com um sorriso nos lábios. Eu estava com o olho inchado de tanto chorar e ele sequer parava de sorrir, foi impossível não revirar os olhos e bufar andando em direção à sala, deixando uma Ella confusa para trás.
— Bom dia, . – disse assim que fechou a porta do escritório. Ele parecia estar com um ótimo humor, o que apenas piorou toda a minha situação.
– Algum problema? – Sentou-se na sua cadeira ficando de frente para mim. Eu apenas neguei e comecei a mexer no notebook como se eu realmente fosse algo importante a se fazer. – Sobre ontem...
— Por favor. – O interrompi antes que ele começasse a lembrar do que aconteceu. – Eu estava sensível e você estava sensível, será que podemos apenas não falar sobre isso? – O olhei por trás dos óculos escuros, o que tornava tudo mais fácil já que ele não conseguiria decifrar o meu olhar.
— Eu só iria pedir para você não contar para ninguém. – Foi impossível não sentir uma leve pontada no estomago. Ele apenas queria que a permanecesse como um segredo, nada muito diferente de como era antigamente.
— Sem problemas. – Forcei ao máximo um sorriso e talvez tenha funcionado, já que ele fez o mesmo gesto como resposta. – Eu vou esquecer que passei meu aniversário conversando com meu chefe sobre a paixão secreta dele pela noiva do seu melhor amigo. – Foi impossível não despejar todas as palavras carregadas de sarcasmo, mas me arrependi assim que o vi me olhar confuso.
— Era seu aniversário ontem? – Perguntou surpreso e eu apenas assenti sem animação esperando que ele não começasse uma conversa sobre aquilo. – Vocês têm mais em comum do que eu pensava... – Eu não acho que ele tenha dito para que eu ouvisse e eu não fiz de qualquer forma, a última coisa que eu queria era que ele começasse a dizer o quanto eu lembrava a . – Ella te contou sobre o jantar que teremos amanhã aqui na empresa? – Disse após alguns minutos de silencio, fazendo com que eu levasse minha atenção até ele.
— Não, ela não comentou nada. – Algo dentro de mim já sabia o objetivo dessa pergunta, principalmente, quando ele tossiu e ficou mexendo nas mãos. estava nervoso, eu podia ter certeza disso. – Por quê?
— Você aceitaria me acompanhar? – Virei minha cabeça para o lado como se pedisse para que ele continuasse. – Ah... Claro, como minha secretária. – Sorriu de lado e antes que eu pudesse pensar muito sobre isso já estava concordando com a cabeça. No fundo, eu só queria acreditar no que estava repetindo dentro de mim “tudo parte do plano”, mas eu sabia que nem ao menos eu tinha um plano. – Eu realmente achei que você iria negar até que aceitaria depois de desistir de lutar contra o meu incrível sorriso.
— Às vezes eu fico tentando entender como o seu ego cabe nessa sala com você e comigo dentro. – Revirei os olhos o vendo soltar uma leve risada.
— Como se você também não fosse assim. – Bufou fazendo graça e eu coloquei a mão no peito como se fingisse estar magoada. – É sério, você é uma pessoa muito difícil de lidar.
— Você está me chamando de chata? – Perguntei tentando segurar o riso, mas apenas se divertia sem nenhum pudor. Aquela era a primeira vez que conversávamos sem nenhuma briga há muitos anos.
— Eu diria que não, mas já que é você que está falando, eu não posso discordar. – Eu abri a minha boca surpresa e assim que ele riu, eu não pude evitar rir junto. – Eu só não te demiti ainda porque eu sei que você não sobreviveria em nenhum outro trabalho além desse. – Terminou tentando parecer preocupado e eu apenas bufei como resposta. – E você continua me tratando mal.
— Ah claro, muito obrigada pela sua incrível alma generosa. Eu não sei o que seria da minha vida sem você. – Respondi fingindo estar chorando o que nos fez ficar rindo até eu perceber que ele não desviava seu olhar do meu. O silencio agora preenchia a sala e eu podia ter certeza que meu rosto havia ficado vermelho, fazendo com que eu abaixasse minha cabeça focando a atenção nos papeis que estavam na mesa, já que apenas sorriu e desviou seu olhar.
— Nossa! Você fica com vergonha. – Comentou com humor na voz. – Agora eu estou surpreso.
— Fica quieto, . – Tentei evitar o sorriso que se formava nos meus lábios e, por muito pouco tempo, eu pude pensar que aquilo era algum dia normal da minha vida de anos atrás, antes de tudo começar a desandar. Durante o resto do dia, apenas fazia perguntas sobre as planilhas e os textos das próximas reuniões, ninguém falou nada sobre o momento rápido, porém divertido, que tivemos no inicio e eu apenas o agradecia mentalmente por isso. No horário do almoço, antes que pudesse pensar em pedir para almoçarmos juntos, eu comentei que iria me encontrar com Ella, o que o fez sorrir e dizer que me via mais tarde.

~*~


— Eu aceito almoçar com você. – Disse, me apoiando na mesa da garota de longos cabelos escuros que parecia concentrada em uma pilha de papeis à sua frente. Ela levantou seu olhar até mim e eu pude ver a confusão ali, mas ela logo sorriu. – Não acostuma comigo sendo legal. – Eu disse e ela apenas assentiu, várias vezes, animada.
— O que te fez ficar com bom humor? – Fechou a tela do seu notebook e pegou sua bolsa antes de começarmos à andar em direção ao elevador. – Você estava péssima essa manhã.
— Eu só estou com fome. – No fundo, eu sabia bem o porquê, a conversa leve que tive com de manhã realmente tinha me feito ficar um pouco mais animada, pelo menos mais animada do que já estive há muito tempo. – O quê? – Ella me olhava intrigada e com um sorriso malicioso nos lábios, mas ela apenas deu de ombros e apertou o botão do térreo.

~*~

— Eu estou te dizendo... – Parou para terminar de mastigar. – O Henry do almoxarifado está definitivamente tendo um caso com Lukas da portaria. – Eu não podia evitar rir com as loucas teorias que ela já tinha me contado sobre aquele casal e o fato das pessoas do escritório estar apostando quando eles iram se assumir.
— Achei que Lukas tivesse namorada. – Comentei terminando de beber meu suco.
— E isso importa? – Riu. – Estou dizendo, confia em mim, e aposta junto comigo que eles vão se assumir na festa de final de ano. – Eu assenti e, por um breve momento, a realidade voltou mais forte do que nunca e eu fiquei triste ao perceber que talvez eu não tivesse mais lá no final do ano para perceber se ela estava certa ou não. – Então... – Tossiu percebendo que eu tinha parado de rir. – Você irá ao jantar amanhã?
— Ah, sim... – Mesmo que meu coração dissesse para eu não fazer aquilo, eu sei que era o certo a se fazer, principalmente ao perceber o caminho que eu estava tomando com todo aquele bom humor. – Sobre isso... – Respirei fundo antes de começar a criar um plano e acabar logo com aquilo. – Você precisa ir com o no meu lugar. – Terminei rapidamente, ganhando apenas um olhar confuso como resposta.
— Como assim? – Perguntou surpresa. – Ir com quem?
— Com . – Respondi tentando parecer mais animada do que eu realmente estava. – É importante... – Pensa, , por favor. – Eu tenho um encontro amanhã à noite. – Disse antes que pudesse pensar muito. – Por isso que eu estava de bom humor. – Eu me senti um lixo quando percebi que Ella batia palmas, animada com a ideia de eu ter um encontro. – E então? O que me diz?
— Pode contar comigo. – Ela levantou as mãos para que eu batesse e eu apenas fiz, sentindo todo o bom humor adquirido de manhã indo embora me lembrando de que eu estava morta, que eu era a e que eu apenas tinha que fazer meu trabalho.
— Só não comenta com ele, tudo bem? – Pedi e ela concordou logo em seguida. – Eu vou dizer que estava passando mal.
– Então me diz sobre esse encontro... – E eu apenas terminei o dia inventando uma história de amor e mentindo, assim como fiz nos últimos anos da minha vida.

~*~


Dezembro, 2012.

O murmurinho de várias pessoas à minha volta me fez abrir os olhos, mesmo que com dificuldade, e assim que eu fiz a claridade exagerada que veio em minha direção apenas me fez fecha-los com força novamente. Todas as lembranças estavam um pouco confusas e a última coisa que eu conseguia me lembrar eram de flashes do me pedindo perdão e logo depois gritando meu nome. Tomei coragem para tentar abrir meus olhos novamente e antes que fizesse senti uma pessoa parada ao meu lado.
— Olá. – Ouvi uma voz masculina, porem não era de , ou até mesmo de , na verdade, eu não reconheci de nenhum lugar, o que me fez abrir os olhos rapidamente para decifrar quem era o dono dela. – Eu sou John e seja bem vinda. – Eu nunca tinha visto aquele garoto na minha vida e eu definitivamente também não sabia onde eu estava. Assim que tentei me levantar, senti tudo à minha volta rodar e senti as mãos do John me empurrando gentilmente para a cama. – Você tem que ficar deitada por um tempo para se acostumar.
— Eu... – Assim que comecei a falar senti uma terrível falta de ar, sentei na cama, tentei tossir, respirar fundo, mas nada adiantou, eu não consegui sentir o ar chegando aos meus pulmões.
Como um reflexo, busquei a mão de John pedindo ajuda, mas ele apenas a segurou e continuou sorrindo como estava desde que eu abri os olhos. Depois de dois minutos tentando sugar qualquer lufada de ar para dentro do meu corpo, eu apenas me senti leve e sem a necessidade de continuar fazendo isso. – O que... Eu... – Por mais que fizesse força para respirar, era como se algo impedisse, eu já podia sentir as lágrimas se formando nos meus olhos.
— Ei, , está tudo bem. – Sua voz dizia calmamente, mas eu não conseguia parar de evitar as lágrimas descendo rapidamente pelo meu rosto. Eu nem ao menos sabia o porquê de estar chorando tanto daquele jeito. Eu apenas estava. –Você está bem agora. – Ele repetia em pé ao meu lado apoiando minha cabeça, que batia um pouco abaixo do seu peito, já que ele não era muito alto.
— Onde eu estou? – Perguntei torcendo para que ele tivesse me entendido mesmo entre soluços.
— Você está morta, . – Apesar de a sua voz soar firme, seu rosto apenas transmitia o quanto ele estava receoso. Eu não tive certeza se ele continuou a falar porque eu não conseguia ouvir mais nada ao meu redor. Eu senti uma pontada forte no peito antes de me levantar bruscamente, empurrando John.
— Onde está o ? – Comecei a andar pelo imenso salão branco recheado de pessoas, mas nenhuma sequer prestava atenção em mim. Eles estavam vestidos todos da mesma forma, com roupas brancas, e eu apenas buscava pelo rosto conhecido do meu noivo naquela multidão. – ? – Chamava, mesmo que uma voz no fundo me dissesse que ele não estava lá. – Eu preciso falar com ele. – Virei-me para o garoto parado atrás de mim. – Eu preciso me explicar... – Antes que eu pudesse continuar, a lembrança apenas surgiu na minha mente.
chorando pedindo para que eu ficasse, o momento que virei e fui em direção à porta sem olhar para trás, o som da sua voz gritando meu nome, um intenso barulho de buzina e a dor do baque no carro. As lágrimas voltaram mais forte do que antes e John já não sorria mais, na verdade, a única coisa que eu podia ver no seu olhar era pena. Não demorou muito para eu sentir tudo ficar escuro de novo.
. – Ouvi alguém me chamar. – Ei, . – Abri meus olhos lentamente para encontrar íris castanhas me analisando atentamente de perto. – Você está melhor? – O tom de preocupação na sua voz apenas piorava toda a situação. Eu não sabia quem ele era, mas eu não queria estar mais ali. – Eu sei que é difícil, mas você só precisa de um tempo e esses apagões irão parar, provavelmente, amanhã. Isso é normal nos recém-chegados...
— Quem é você? – Perguntei apenas para que ele parasse de falar, já que eu não estava entendendo nada do que ele estava dizendo.
— John. – Seu sorriso era reconfortante, eu até poderia dizer, mas o fato dele não parar de sorrir estava me irritando. – Mark quer que eu te explique como tudo funciona, mas eu não posso fazer isso até ter certeza de que você está bem.
— Eu estou morta, certo? – Ele assentiu lentamente e eu apenas fechei os olhos. – Então eu não acho que algum dia eu estarei bem novamente, John.

~*~


— Um Anjo? – Eu não conseguia evitar gritar com o garoto parado à minha frente, mas sinceramente tudo ali era desesperador.
— Sim, você ajudará pessoas em suas vidas amorosas, é o que vocês fazem. – Ele parecia genuinamente animado e eu estava prestes à arrancar meus cabelos. – E eu sou um Ajudante, nós apenas ficamos com a pessoa para prepara-la para o amor com suas escolhas durante a vida. Nós somos praticamente seu sexto sentido. – Ele explicava tudo calmamente e eu apenas o olhava incrédula, eu não podia acreditar que aquilo era real.
— Amanhã é meu casamento... Na verdade, seria meu casamento se o idiota do não tivesse estragado tudo e agora eu estou morta presa num lugar com um garoto que não consegue parar com essa cara de bobo feliz e terrivelmente irritante o tempo todo e você acha que eu estou me importando com a merda da vida amorosa de pessoas que eu não conheço? Qual é o seu problema? – Disse tudo de uma vez, e talvez eu tenha sido meio rude com ele, mas eu realmente não estava dando à mínima. Pelo menos, não mais. Há dois anos, eu já não me importava em ser uma pessoa agradável ou simpática com a vida ao meu redor. Eu não reconhecia a pessoa que eu tinha me tornado.
... – Eu podia perceber que ele estava preocupado, mas eu não estava me importando nem um pouco com tudo aquilo à minha volta.
— Você não faz ideia do que a minha vida tem sido. – Gritei, começando a andar de um lado para o outro. – Minha mãe era uma louca que me comparava com qualquer coisa, meu pai me abandonou antes de eu completar um ano de vida, o meu único amigo morreu e eu quebrei o coração da única pessoa no mundo que prestou atenção em mim. Eu... Eu o amava... Eu podia ter feito isso com qualquer pessoa menos com ... Ele foi a única pessoa que viu algum valor em mim... E eu... – Pude ver John caminhar até mim, mas eu já estava sentada no chão tentando controlar as lágrimas que saiam. – Eu merecia morrer...
— Ei. – Chamou, mas eu não levantei meu olhar, permanecendo com as mãos no meu rosto tentando parar de chorar. – Você não teve culpa de nada... – Senti suas mãos nas minhas costas tentando passar algum tipo de conforto, mas nada faria eu me sentir uma pessoa melhor. – Nem você nem o ...
— Cala a boca. – Soltei as palavras com toda a raiva que eu conseguia, levantando-me e saindo de perto dele. – Se tem alguém que tem mais culpa do que em toda essa história é ele... sentia inveja do melhor amigo e me usou como algum tipo de premio para levantar o seu ego e depois foi embora. – Gritava sem ter medo de alguém estar ouvindo. Pela primeira vez, eu podia apenas colocar tudo para fora. – Você não tem noção do que eu passei nesses últimos dois anos enquanto ele se divertia em festas e mais festas. Você não faz a mínima noção do que era ter que olhar para o durante todo esse tempo e finalmente quando tudo iria dar certo, eu iria me casar com ele, o resolve estragar tudo como sempre fez. Ele sempre estragou tudo. – Antes que eu pudesse terminar de falar, eu senti John me puxando para um abraço e eu não pensei muito ao passar meus braços em volta dele e terminar de chorar tudo o que eu precisava enquanto o ouvia repetir que tudo terminaria bem.

~*~


Atualmente

Ao voltar do almoço com Ella, o meu bom humor havia ido embora completamente. Eu não queria aceitar para mim mesma que o que mais me deixou chateada foi o fato de não poder ir à festa com , e isso me assustava o suficiente para querer fugir daquele lugar. Eu conhecia bem o final dessa história.
— Ei, como foi o almoço? – Ouvi sua voz perguntar atrás de mim, eu apenas permaneci parada de frente para a porta do escritório, tentando respirar fundo o suficiente e aguentar tudo aquilo. – , você está bem?
— Foi ótimo. – Respondi virando-me em sua direção e indo até a minha mesa sem o encarar por muito tempo. Eu podia sentir seus olhos me analisando com cuidado, mas eu ainda fingia estar procurando algo em minha mesa.
— Foi mesmo? Você parecia melhor antes de sair daqui. – Apenas dei de ombros esperando que aquela resposta fosse o suficiente para encerrar o assunto. – Voltamos à estaca zero? –Cortou o silencio instalado ali por alguns minutos, o que me fez o encarar confusa. – Achei que já tínhamos pulado o tratamento de silencio que você usava comigo. – O sorriso em seus lábios quase me fez sorrir de volta, mas eu não podia. Eu apenas tinha que permanecer fora desse jogo. Eu estava morta e eu não podia leva-lo junto comigo para esse buraco.
— Eu não estou me sentindo muito bem. – E eu realmente não estava, só queria sair dali o mais rápido possível. – Eu posso sair mais cedo? – Perguntei esperando que ele começasse a me encher de perguntas, mas ele apenas bufou derrotado e assentiu apontando a porta. –Obrigada. – Peguei a minha bolsa em cima da mesa e fugi daquela empresa o mais rápido que eu podia, deixando a voz da Ella me perguntando o que tinha acontecido para trás, deixando para trás, deixando os únicos e poucos momentos felizes que eu tive há muito tempo para trás.

~*~


Assim que cheguei em casa, eu apenas tive tempo de me jogar no sofá e fazer algo que eu vinha fazendo muitas vezes desde que tinha me tornado a . Eu chorei o que poderia ser as ultimas lágrimas que ainda restavam no meu corpo. Não demorou muito tempo para que eu ouvisse a voz de John perguntando o que tinha acontecido e eu apenas levantei e corri até ele, jogando meus braços em volta de seu pescoço, o abraçando.
... – O tom de sua voz era baixo e ele passava as mãos nas minhas costas tentando me acalmar. – , o que aconteceu? Me diz, por favor. – Eu queria dizer algo, mas nada saia e todas as vezes que eu tentava formular algumas palavras as lágrimas apenas vinham mais fortes do que antes. –Venha. – Ele me puxou gentilmente para que pudesse pegar minhas mãos e me levar até o sofá, se sentado ao meu lado. – Me conte o que aconteceu.
— Eu... – Limpei as lágrimas com as costas da minha mão antes de tentar continuar. – Eu não aguento mais... Estou cansada disso tudo. – Minha voz saiu baixa e eu apoiei meu rosto em minhas mãos apenas para tentar segurar toda a avalanche dentro de mim. – Eu não consigo evitar... – O olhei pela primeira vez desde que ele havia chegado até ali e eu não precisei dizer nada, ele apenas me puxou para outro abraço. Ele sabia melhor do que ninguém que aquilo iria começar a acontecer mais cedo ou mais tarde. John havia me avisado nos meus primeiros dias aqui, ele sempre soube que eu não conseguiria evitar me apaixonar pelo de novo. – Ele disse que a amava ontem... – Sussurrei contra o seu peito. – Ele disse que me amava, John. E hoje, nós apenas conversamos e rimos normalmente como se nada tivesse acontecido... – O meu amigo apenas permanecia com os carinhos no meu cabelo, talvez esperando que adormecesse para que eu me acalmasse e eu apenas fechei meus olhos esperando que quando eu acordasse nada disso tivesse acontecido e aquele fosse apenas outro dia da faculdade.


DEZ.

Ao acordar, eu percebi que o local onde estava deitada era maior e mais confortável que o sofá; o que me fez perceber que John havia me colocado ali e tirado meus sapatos. O relógio marcava cinco da tarde do dia seguinte, o que foi bastante assustador já que eu dormi quase um dia inteiro. Ainda assim, eu apenas queria fechar meus olhos e tentar dormir de novo, mas é provável que eu não tenha sono por um longo tempo. deveria estar surtando por eu não ter dado sinal de vida, peguei meu celular de dentro da gaveta e vi quase 20 chamadas perdidas da empresa, o desliguei apenas para não ter que ouvi-lo tocando. Eu não podia mais surtar como ontem, eu tinha um trabalho a ser feito e eu precisava terminar e só assim conseguir um pouco de paz com o esquecimento. Ella tinha comentado que a festa seria às sete no salão do prédio, o que me dava duas horas para comer algo e me arrumar. Ao levantar, dei de cara com o espelho na minha frente. Os olhos vermelhos, meus companheiros há alguns dias, o cabelo castanho escuro que terminava um pouco abaixo do ombro totalmente bagunçado e a roupa do dia anterior colocava toda a bagunça que eu estava em evidencia.
— Vai dar tudo certo, . – Repetia olhando meu reflexo, tentando entender o que estava acontecendo ao meu redor. – Você vai naquela festa, vai observar os dois e depois vai começar o seu plano. – Tirei uma mecha que insistia em ficar no meu rosto. – E quando tudo isso acabar, você terá uma vida nova e um novo coração. Apenas aguente firme e não chore. – Forcei o melhor sorriso que eu poderia naquele momento e soltei o ar que segurava. – Você consegue. – Repeti antes de virar-me e sair do quarto.

~*~

Abril, 2008.


Aquela era uma típica festa de faculdade, pelo menos eu não estava errada todas as vezes que eu imaginei como elas eram. Um som incrivelmente alto tocando qualquer música pop do momento, pessoas espalhadas dançando cada uma com seu grupo de amigos e eu esperando que voltasse do bar. Eu realmente não fazia ideia de como ele havia conseguido me convencer a vir com ele para essa festa, mas não havia como negar quando ele me pedia algo com aquele sorriso que apenas ele conseguia dar. Nós estávamos juntos há um ano, mas ainda assim eu não estava acostumada a fazer parte da sua movimentada vida social. Eu não vou mentir e dizer que talvez não fosse um pouco divertido, as pessoas conversavam comigo, sorriam quando eu passava por elas pelo corredor, e até mesmo acenavam quando me viam trabalhando na biblioteca. Era mais do que eu tinha conseguido durante todo o tempo solteira naquele lugar. E mesmo tudo soando falso e superficial – exatamente como minha animação naquele momento – eu gostava de me sentir como alguém diferente, alguém que pudesse ligar para casa e dizer para mãe neurótica por aparências que tinha amigos ou simplesmente alguém que merecesse.
— Ei, , voltei. – sorria me entregando o copo de refrigerante que eu havia pedido. Ele estava incrivelmente mais bonito naquela noite. Um casaco cinza, por cima da blusa azul, com as mangas dobradas até o cotovelo, calça jeans escura e o cabelo cor de areia perfeitamente arrumado como sempre em um simples topete. Ainda assim, ele me fazia verdadeiramente feliz. – O que você está pensando, hein? – Perguntou me tirando dos meus devaneios, se aproximando de mim, me puxando com o seu braço livre já que o outro segurava seu copo com alguma bebida que eu não tinha conseguido distinguir.
— Em nós dois. – Sorri virando meu olhar para qualquer lugar que não fosse ele, ganhando uma risada como resposta e um beijo molhado na bochecha.
— É o que eu penso vinte e quatro horas por dias. – Coloquei meu rosto na curvatura do seu pescoço para não ter que encará-lo naquele momento. Ele começou a movimentar seu corpo de acordo com a música, que já não era mais tão animada como antes e eu resolvi seguir seus movimentos. – Eu estou completamente apaixonado por você. – Sussurrou no meu ouvido e eu virei meu rosto, o descansando nos seus ombros. Foi quando eu o vi parado do outro lado, apenas olhando fixamente para onde estávamos. segurava um copo de bebida e tinha o seu braço ao redor da cintura de uma garota morena que parecia dizer algo animado para ele, mas eu apenas podia sentir seus incríveis olhos azuis nos analisando.
— Hum... – Eu não estava certa em comentar sobre e interromper o momento, mas algo me disse que eu precisava parar de encara-lo porque algo dentro de mim estava sendo muito sufocado ao vê-lo com aquela menina. – Eu não sabia que viria. – Comentei me afastando de , que apenas deu de ombro em resposta antes de beber um pouco do liquido em seu copo.
— Nenhuma festa é realmente uma festa sem ele. – Riu e eu apenas forcei o maior e melhor sorriso que eu consegui torcendo para que ele acreditasse. – Por quê? – Perguntou após um tempo me encarando.
— Ele estava ali... – Virei meu rosto para que ele não visse a possível cara de duvida que eu tinha ao mentir para alguém. murmurou algo como se não se importasse muito e me puxou para seus braços, depositando um simples beijo em meus lábios, que eu retribui sem pensar muito. Eu gostava do e gostava de beijá-lo, verdadeiramente, existiam borboletas voando animadas dentro de mim quando ele sorria. Eu sentia como se ele fosse o garoto que chegava ao inicio do livro para salvar a mocinha de todas as suas inseguranças, ele iria olhar para mim e sorrir quando eu ficasse com ciúmes, e todas que lessem iriam suspirar e desejar ter um para elas, na próxima pagina, o amigo dele iria aparecer e lembrá-las de que existia algo mais forte do que aquilo. É o que dizem, quando uma borboleta bate as azas acontece um terremoto em algum lugar. Quando apareceu e trouxe as borboletas, ele acabou causando um terremoto mesmo sem saber. Ao me afastar e apoiar meu rosto em seu ombro, eu pude ver quando sorriu e levantou o copo em minha direção como se estivéssemos brindando algo. Eu apenas sorri recebendo um simples aceno antes dele ser puxado pela mesma garota para fora da minha visão.

Atualmente.


Arrumei-me o mais lentamente que era possível, já tinha perdido a noção dos minutos que estava sentada na frente do espelho apenas penteando meu cabelo, por mais liso que ele já tivesse, após um longo tempo sendo alisado. Ver aquela cor escura descer pelos meus ombros era uma das piores partes dessa nova vida. Ele fazia questão de me lembrar de quem eu não era todos os dias naquele lugar. Eu odeio esse cabelo pensei antes de bufar e me levantar, indo em direção à minha bolsa, e antes de sair dei uma ultima olhada para a sala atrás de mim, apenas para me lembrar de que aquela não era a minha casa, não era a minha vida e eu precisava esquecer tudo apenas para viver de novo. Eu precisava concluir esse caso e ganhar o esquecimento. Ganhar o direito de ter um coração livre de mágoas e, principalmente, livre do efeito daqueles olhos.
O saguão do edifício não estava cheio como eu achei que estaria. Apenas o segurança de sempre, que sorriu a me ver entrar, tentei respondê-lo com a mesma simpatia antes de caminhar até o elevador para subir até o salão de festas que ficava no último andar. Assim que a porta do elevador abriu, me esgueirei pelo corredor até a grande porta de vidro que dava passagem para um grande espaço que agora se encontrava com uma mesa de jantar no centro e várias outras distribuídas pelo local com vários tipos de comidas, o som era baixo, mas eu ainda conseguiria reconhecer aquela música em qualquer volume. A voz de Ellie Goulding recitava praticamente a minha vida na melodia de figure 8. Meus olhos procuraram por e Ella por poucos minutos até que o avistei no exato momento que jogava sua cabeça para trás rindo, possivelmente de algo que Ella havia comentado. Ela era engraçada, é claro. Revirei meus olhos ao observar aquela cena, mesmo que algo gritasse o quanto eu deveria ficar feliz por estar fazendo algo direito pelo menos uma vez. Todos os meus casais terminaram, mas obviamente também seria a exceção daquela vez. Ele sempre era a pessoa que desviava a minha vida para um caminho diferente. Fui para um local afastado, onde a luz não pegava muito, apenas para observá-los melhor. No fundo, eu não precisava estar ali, mas ficar em casa olhando para o teto pensando em tudo o que poderia acontecer também não me parecia muito confortável. A conversa dos dois parecia muito animada de onde eu estava. Ella não parou de sorrir nem por um minuto e apenas a acompanhava gesticulando as mãos animadas. Eles estavam lindos. Ella vestia um simples vestido azul de alças que ia até o joelho e , bem, estava incrivelmente dentro de um terno escuro e gravata azul. Aquilo poderia funcionar, eles poderiam funcionar. Eles poderiam ter uma linda história de amor com um final feliz, Ella poderia fazê-lo rir, poderia segurar sua mão quando ele parecia querer chorar, poderia enumerar tudo que ele tinha de incrível quando ele apenas tinha suas crises de baixa autoestima, ela poderia ajudá-lo quando seu pai apenas o colocava para baixo, ela poderia amá-lo sem culpa... Ela poderia dizer que o amava sem o “porém” no final da frase. Eles seriam felizes e eu seria apenas uma lembrança, acabaria esquecendo-se do meu aniversário e de trocar as flores do meu túmulo e elas apenas morreriam assim como eu também morri. Senti minha visão ficar embaçada e eu respirei fundo antes que chorasse de novo. Eu não tinha percebido, mas e Ella não estavam mais parados conversando em um canto, mas sim dançando na pista improvisada perto do bar. Os braços dele a puxando para um giro desengonçado enquanto cantava animadamente a música que não demorou muito para que eu reconhecesse.

Agosto, 2008.


— Ei, eu gostava daquela música. – Desviei minha atenção da janela e olhei para , que apenas sorria tirando os olhos da estrada por poucos segundos para me olhar pelo retrovisor enquanto ria e aumentava o volume do som mais pesado que começava a ecoar pelo carro, o que me fez bufar e cruzar os braços tentando parecer brava, mesmo que no fundo eu apenas tentava me recuperar do seu sorriso.
— Para de ser implicante com ela, bro. – riu, tirando a atenção da sua câmera por poucos minutos desde que tínhamos iniciado a viagem até a sua casa, recebendo apenas uma risada como resposta do amigo. Ele tinha aparecido no meu quarto, me chamando para uma das entre centenas festas do filme que nós fazíamos. Era bem mais divertido do que ficar olhando para o teto mofado do dormitório.
— Aquela música estava me deprimindo. – Olhou mais uma vez pelo retrovisor, ganhando de mim apenas um sorriso falso antes que eu voltasse minha atenção para a janela. – ... – Chamou-me, mas apenas continuei o ignorando. Não que eu me importasse, mas gostava de ouvi-lo dizer meu nome daquele jeito. Ele parecia uma criança tentando ganhar atenção. – Tudo bem... – Bufou antes de passar algumas faixas até que eu pudesse escutar novamente a voz de Taylor Swift ecoando pelo carro. – Mas é a ultima. – Bati palma animada e comecei a acompanhar a cantora nos versos de You Belong With Me.
“And you’ve got a smile that could light up this whole town” – Cantei recebendo um sorriso de pelo retrovisor e eu não pude evitar virar meu rosto rapidamente assim que senti minhas bochechas esquentarem. O resto da música seguiu com ele me observando pelo retrovisor todas as vezes que o carro parava no sinal. A presença de quase não foi notada por mim durante esse tempo. Ele apenas ficava vendo algumas fotos tiradas por ele, às vezes comentando comigo e eu apenas concordava sem prestar muita atenção no que ele dizia. Era completamente errado e sujo, e provavelmente eu terminaria a noite batendo minha cara no travesseiro me perguntando o porquê de ser a pior pessoa do mundo com a melhor pessoa do mundo, ou seja, meu namorado incrivelmente bonito e perfeito. Geralmente, as nossas noites em trio terminavam desse jeito. era o primeiro a sair após receber algum telefonema sobre uma festa da faculdade, e eu terminaríamos a noite nos beijando e conversando sobre o futuro e assim que ele me deixasse no meu prédio, eu iria pensar sobre algum momento constrangedor que o olhar de seu amigo cruzou com o meu até pegar no sono. Era um terrível e interminável ciclo que minha havia se tornado, e no final eu apenas iria me perguntar o porquê da minha vida ter se tornado um drama adolescente tão mal escrito.
— É a nossa música, . – disse animado e eu sorri ao perceber que eu também não apenas conhecia como também amava. – Closing time, open all the doors... – Cantou alto, batendo com os dedos no volante. riu e largou a câmera, seguindo a voz do amigo com a mesma animação. Eu não pude deixar de rir ao observar os dois cantando como se estivessem em algum show. Ao chegar o refrão, todos dentro do carro já estavam cantando o mais alto que conseguiam. – I know who i want to take me home. – Repetíamos essa frase por todo o refrão, sorria e virava para mim apontando e eu apenas ria da careta que ele fazia. Durante toda a música a única coisa que podia ser ouvida eram as nossas vozes gritando a letra como se estivéssemos todos no mesmo show. Eram momentos como aquele que fazia tudo valer a pena.
— Essa é a nossa música agora. Nós três. – Disse ofegante, ainda sorrindo. Eu apenas ri e acenei sendo seguido que apenas gritou em concordância ainda animado. – Uma foto para celebrar o primeiro show desse incrível trio. – Levantou a câmera para que tirasse uma foto de nós três. – Digam x.

Atualmente.


Ele estava dançando a nossa música com Ella. Não que eu tivesse algum direito sobre ele, ou sobre o fato dele parecer tão verdadeiramente feliz enquanto dançava com ela, mas eu apenas queria o tirar de lá e dizer que aquela era a nossa música e ele não podia dançar com outras pessoas. Não essa música, não sem seu amigo ou sem mim. Principalmente, sem mim. Mesmo que eu tentasse provar que o problema era o fato dele estar dançando aquela música, eu sabia bem que o problema era o fato dele estar tocando tanto a garota à sua frente. Eu assumo, estava com ciúmes, e o fato de eu não poder gritar com ele e mandá-lo parar como eu fazia alguns anos atrás apenas piorava tudo. Resolvi ficar mais um tempo observando o casal à minha frente, mas quando ele a segurou em um abraço apenas para seguir o ritmo da música mais lentamente, eu não consegui mais permanecer ali. Eu, definitivamente, não era obrigada assistir tudo aquilo.
Ao chegar no apartamento batendo a porta atrás de mim com toda a força que eu conseguia, me assustei ao ver John jogado no meu sofá com os pés em cima da mesinha de centro e os braços cruzados com os olhos perdidos no teto. Ele nem percebeu minha presença lá, mesmo com o barulho.
— O que houve? – Joguei-me ao seu lado, imitando sua posição.
— Nada... É só que... – Suspirou. – Tudo... – Terminou com o olhar ainda perdido no teto branco e sem graça.
— Sim. – Concordei. – Tudo é o que houve pra mim também. – Eu até poderia iniciar um intenso questionário sobre o porquê de ele parecer tão desanimado, mas nenhum dos dois tinha forças para discutir. Eu podia sentir isso.
— Como a gente se meteu nesses casos? – Perguntou John, quebrando o silencio de longos minutos. - Eu não me lembro de como tudo ficou tão difícil. – Pela primeira vez, desde que eu havia chego, ele levou seu olhar até mim.
— Está perguntando isso pra mim? Sério? – Nós sorrimos, mas eu podia apostar que o sorriso dele era tão sem humor quanto o meu. – Eu acho que eu vou conseguir... – Minha voz terminou num sussurro que eu nem sabia se estava falando aquilo para John ou para mim.
— Você deveria estar feliz... – Respondeu sem animação, desviando seu olhar de mim.
— É, eu sei. – Comentei. – Eu só... Eu não gostei de vê-lo com alguém, John. – Era bom falar aquilo em voz alta, mesmo que eu não devesse me sentir daquele jeito. – Eu queria estar dançando a nossa música juntos. Eu só... – Suspirei – Eu só queria que fosse eu no lugar dela.
— Eu consigo entender isso. – Respondeu e eu levantei meu rosto rapidamente para encará-lo. John tinha acabado de dizer que entendia sentir ciúmes de alguém. Ele nunca disse nada sobre isso. Ele apenas sorria e dizia que tudo iria ficar bem. – Quer dizer... Vai ficar tudo bem. – Consertou ao me encarar, não demorando muito para fechar seus olhos. Permaneci olhando para ele, que apenas abriu um dos seus olhos, voltando a fechá-lo rapidamente. – Só esquece o que eu falei, . – Eu continuei o analisando. – Por favor. – Pediu num murmuro e eu apenas bufei em derrota, voltando à posição que eu estava.
— Você vai me dizer, certo? – Perguntei. – Somos amigos, não somos? Eu sei que eu estou na lama por causa disso tudo que está acontecendo, mas eu ainda estou aqui para ouvir você sobre qualquer coisa.
— Você é minha irmã, . – Pude vê-lo sorrindo, verdadeiramente dessa vez. – Eu só preciso não pensar nisso por agora.
— John? – O chamei após algum tempo em silencio e ele olhou para mim. – Você promete não me deixar? – Por algum motivo, a ideia dele estar interagindo com alguém ao ponto de ter ciúmes me acertou de alguma forma. Ele tinha regras para seguir, as minhas eram horríveis e eu tinha medo das dele serem piores.
— Vai tudo ficar bem, . – Mesmo com seu sorriso, eu não pude evitar jogar meus braços ao seu redor do seu peito o abraçando. Eu prometi que não choraria mais, só que daquela vez eu não estava chorando por , ou pela minha antiga vida. Eu estava chorando por medo de perder a única coisa que me mantém viva por mais morto que meu corpo estivesse.

~*~

John não estava mais embaixo de mim quando eu acordei. Minha cabeça doía, não tanto quanto a minha coluna por ter dormido no sofá. Tomei um banho rápido e diferente do dia anterior, eu me arrumei o mais rapidamente que podia. Fugiria da Ella pelo resto do dia apenas para não ter que ouvi-la comentar sobre a noite com . A ideia de ouvir a garota comentar sobre o quão incrível era seu chefe não soava nem um pouco agradável, mesmo que ela precisasse disso para esquecê-lo, mesmo que ela precisasse sofrer para que no final o sofrimento acabasse. Eu não sabia se os fins justificavam tanto assim os meios.
. – Ouvi a voz de Ella chamar assim que tinha passado por sua mesa, quase chegando à sala que dividia com . Tudo estava ótimo para ser a minha vida. Quando eu cheguei ao nosso andar e vi a mesa da morena vazia, eu podia jurar que tinha chego antes dela, mas é claro que não. Nunca é simples assim. Virei fingindo o melhor sorriso que conseguia, torcendo para que funcionasse. – Ontem foi incrível. – Comentou animada, sentando em sua cadeira. – é um cara super incrível. Ele é engraçado, um cavalheiro e estava muito mais lindo ontem.
— Vejo que você gostou dele. – Respondi tentando parecer tão animada quanto ela estava, mas eu duvido que tenha funcionado pela cara que ela fez. Eu não precisava que ela me dissesse todas as qualidades dele, eu o conhecia. Eu sabia de tudo sobre ele antes mesmo dela sonhar em conhecê-lo.
— O quê? – Riu como se eu tivesse contado algo engraçado. – Você acha que eu gostei dele desse jeito? – Eu estava confusa demais para esboçar qualquer reação. – Eu estou apaixonada, sim, mas definitivamente não é pelo nosso chefe. – Eu não posso ficar feliz repeti pra mim inúmeras vezes, mas o sorriso apenas escapou dos meus lábios. Eu estava aliviada. Eu sentia como se um peso fosse tirado das minhas costas. – E de qualquer forma, eu acho que ele está apaixonado por alguém também. – Comentou sem olhar para mim e eu afundei de novo.
— Como assim? – O tom da minha voz tinha se tornado mais fino e eu fingi uma tosse para disfarçar. – O que ele disse?
— Nada demais, eu só deduzi. – Respondeu focando sua atenção em procurar alguma coisa embaixo da mesa. – Assim como estou deduzindo o fato de você ter se importado com essa informação... Achei. – Gritou jogando uma pasta em cima da mesa e logo olhando para mim. – E então?
— Eu só estava curiosa. – Tentei não soar tão na defensiva, ganhando apenas um murmuro como resposta. Sorri de lado antes de começar a caminhar para a sala, torcendo para que meu chefe não tivesse lá ainda.
— Olá. – Ouvi a voz de animada assim que fechei a porta atrás de mim. Ele estava jogado no sofá do outro lado da sala apenas usando uma calça moletom, uma simples blusa branca e os cabelos bagunçados. Tentei não deixar meu olhar correr por todo o seu corpo, mas ele era incrivelmente bonito. – Devo dizer que estou amando ver você me olhando. – O olhei surpresa e fui em direção à minha mesa, tentando ao máximo não ficar vermelha. Eu não sei o que está acontecendo comigo hoje.
— Ella me disse que foi interessante ontem... – Tentei soar o mais despreocupada possível, focando minha atenção nos papéis que estavam na mesa como se eles fossem realmente relevantes.
— Eu fiquei bem chateado quando não te vi lá. – Não levantei meu olhar até ele, mas podia sentir que estava olhando para mim. – Posso saber o porquê de ter me dado um bolo?
— Não foi um bolo. – Respondi o encarando. – Não era sequer um encontro. – Sorri vitoriosa, o vendo rir e concordar.
— Realmente. – Sentou-se rapidamente, endireitando sua postura no sofá como se tivesse acabado de pensar em algo importante. – Que tal um encontro então? – Deixei a pastar cair no chão ao sentir seu olhar parado em mim. não poderia estar falando sério comigo. O encarei sem entender e me abaixei ficando debaixo da mesa para pegar os papéis. – Eu te deixei nervosa? – Eu não tinha percebido sua proximidade até vê-lo abaixado me ajudando a arrumar o que tinha caído.
— Eu estou bem... – Levantei-me rápido demais, batendo a cabeça na parte de baixo da mesa, levando minha mão até o local e xingando baixinho. apenas riu e me puxou para cima com cuidado. Eu estava parecendo a da época da faculdade. Por Deus, garota, se controle. – Obrigada. – Agradeci ao me sentar na cadeira, o observando parado na minha frente como se esperasse alguma resposta. – Eu não vou sair com você. – Disse rapidamente, ganhando um sorriso como resposta. – Eu não sei da onde você tirou que eu queria sair com você. – Bufei desviando o olhar.
— É bem visível, na verdade. – O encarei com o olhar mais indignado que consegui. Ele só poderia estar brincando comigo. Não era visível. Poderia ser verdade, mas não era tão obvio assim. – Ella concorda comigo. – Deu de ombros, sorrindo, se jogando de volta no sofá.
— Ella também acha que você está apaixonado por alguém. – Disse tentando manter minha voz totalmente sem emoções. – Vocês também concordam nisso? – não respondeu, ele apenas deu um singelo sorriso como se aquilo fosse resposta o suficiente, mas não era. Aquilo significava o que? Ella estava certa? Quem era a garota? Ele tinha dito que me ama uns dias atrás... Minha cabeça trabalhava todas as linhas de pensamento possíveis para explicar aquele sorriso.
— Então? – Perguntou algum tempo depois, me tirando dos meus devaneios, fazendo com que eu o olhasse com curiosidade. Eu ainda queria saber ele concordava ou não com Ella.
— Então? – O imitei, ganhando um olhar confuso de .
— Eu não sei mais sobre o que estamos falando. – Riu e eu revirei os olhos tentando ao máximo não sorrir ao ouvir sua risada. – Já que você me deu um fora, você poderia, pelo menos, me ajudar na festa de boas vindas do meu amigo? – Eu pude sentir toda a minha feição endurecer. Festa de boas vindas? Para o ? Não, talvez ele tivesse outros amigos. Talvez ele tivesse algum outro amigo que estivesse viajando. – ? – Chamou e eu levantei meu olhar até ele. – Então? – Sorriu.
— Qual amigo? – Não consegui evitar a pergunta. Por favor, não diga , repetia para mim mesma.
. – Respondeu começando a mexer nas suas unhas como se aquela não fosse uma informação relevante. Eu podia sentir a minha pele ficando pálida. Ele estava voltando. – Você está bem? – Eu me levantei rapidamente para ir até o banheiro, eu não poderia surtar na frente de . Assim que fiquei em pé, senti tudo rodar ao meu redor e antes que eu pudesse sentir a dor do baque no chão, as mãos do homem atrás de mim me seguraram. – , olha para mim. – Meu corpo ficou mole e me apoiei nele, que me carregava para o sofá. – O que aconteceu? – Seu tom preocupado pôde ser percebido por mim. Mesmo com os olhos fechados, eu pude sentir seus olhos sobre mim e suas mãos nas minhas costas.
— Eu... – Olhei para o lado e vi analisando minuciosamente meu rosto. Ele estava sentado com o corpo virado para mim, com os braços envoltos do meu corpo. Eu me lembrava da ultima vez que tínhamos ficado tão próximos um do outro. – Eu preciso ir. – Tentei me levantar, mas ele apenas me agarrou mais forte.
— Eu vou levar você. – Eu neguei veementemente com a cabeça, mas ele se levantou em direção à mesa para pegar a chave. – Venha. – Estendeu sua mão e eu apenas fiquei a encarando, tomando coragem para sair dali. Eu não queria ir para nenhum lugar. Eu gostava da ideia de trancar a porta daquela sala e ficar com os braços dele envolta de mim pelo resto da minha vida. Eu não teria que encontrar com , com Ella, com a menina por quem ele estava se apaixonando... Seria só eu e ele. Eu poderia viver assim, por mais egoísta que fosse.

~*~

— Você não precisava fazer isso. – Quebrei o silencio que tinha se instalado desde que havíamos saído da empresa e perdurado por todo o caminho dentro do seu carro. Mesmo que eu sentisse que ele queria perguntar algo, todas as vezes que senti seu olhar sobre mim, eu apenas permanecia olhando para a janela e lendo as placas dos carros para tentar me acalmar. A porta do elevador se abriu e eu senti suas mãos nas minhas costas, me empurrando levemente para o corredor, me afastei rapidamente. – Pare de me tocar. – Disse firme saindo do seu contato, virando-me para encará-lo. Me assustei ao ver o quanto estávamos próximos, eu podia sentir sua respiração muito perto e se eu apenas levantasse um pouco meus pés conseguiria encostar nossos narizes. Todo o ar à minha volta parecia pertencer ao homem de incríveis olhos azuis parado na minha frente. Eu sentia como se algo muito errado fosse acontecer a qualquer momento com aqueles olhos me analisando tão friamente.
— Quem é você? – Sua voz estava rouca e tentei me afastar, mas senti a parede gelada nas minhas costas. – Da onde você conhece o ? – Perguntou nervoso e eu não consegui manter meu olhar no dele, estava terrivelmente frio e duro. Por poucas vezes eu havia visto aqueles azuis parecerem tão gelados como naquele momento. Eram como duas grandes geleiras que estavam terrivelmente me congelando a cada segundo que passava com ele me encarando. – , me responda. – Sua voz suavizou, mas eu desviei meu olhar e ele puxou meu queixo para cima me fazendo encara-lo, suas mãos permaneceram no meu rosto, mas seus olhos foram em direção aos meus lábios. Eu precisava me afastar... Eu não podia fazer aquilo... Eu estava morta. estava vivo. Eu tinha regras e eu precisava cumprir para o bem do homem à minha frente. Eu já tinha culpa demais para aguentar, não conseguiria viver com outra.
— Saia. – Me abaixei para sair por baixo dos seus braços. – Saia, . – Tentei soar firme, mas eu podia sentir o nó na minha garganta. – Só... Vá. – Suspirei em derrota ao encara-lo. Seus olhos não deveriam estar melhores que os meus. parecia que começaria a chorar a qualquer momento. – Por favor... – Minha voz estava embargada e eu nem sequer sabia como já não estava chorando ali.
— Eu não posso fazer isso de novo. – Sussurrou, e se não fosse a proximidade eu não poderia ter escutado. – , eu só... – Ele virou para ir embora, mas parou bruscamente e olhou para mim. – Eu não vou passar por toda essa merda mais uma vez. – E saiu sem olhar para trás. Estava acontecendo de novo. Eu iria arruinar tudo à minha volta novamente por ser tão egoísta. Mamãe sempre me disse o quanto eu era fria, o quanto eu nunca seria capaz de amar ninguém e ficaria sozinha pelo resto da minha vida. Eu acreditei nela até aparecer e me amar e fazer com que eu o amasse. Por ele, eu acreditei que eu poderia ter um final feliz, mas agora parada ali, sentada na frente da porta do apartamento da pessoa que eu havia me tornado, eu consegui perceber o quanto minha mãe sempre esteve certa. Eu fui egoísta durante todo o meu relacionamento com , meu egoísmo havia me levado até a casa de na noite da minha morte, meu egoísmo havia me tornado na pessoa que minha mãe sempre acreditou que eu fosse. Uma pessoa que só se importava com os próprios problemas, como se ninguém fosse ser afetado por eles. Mark tinha me dado a segunda chance de concertar tudo, mas eu apenas estava levando tudo para o mesmo caminho. estava terminando o trabalho que eu não consegui terminar em vida; destruir a vida de .


DEZ - PARTE DOIS

Incrivelmente, eu não havia derramado nenhuma lágrima. A vontade estava ali presa na minha garganta, formando um bolo que me deixava com uma enorme vontade de colocar todo o café que eu havia tomado para fora. Talvez eu estivesse seca. Terrivelmente seca e sem vida, como as folhas de outono, apenas caindo cada dia mais, esperando que algo novo nascesse no lugar. Era uma boa metáfora para colocar em algum livro que eu escreveria se estivesse viva. “Lucy – que seria um bom nome de personagem feminina – era como uma arvore no outono, suas tristezas eram como as folhas que caiam sujando toda a sua vida. A pequena garota apenas esperava os dias passarem para que ela pudesse florescer de novo, ela aguardava ansiosamente o dia que todas as suas antigas folhas estariam fora do seu corpo e levadas pelo vento para longe da sua vida e assim ela poderia viver de novo.” Eu era Lucy esperando ansiosamente pela minha nova vida.
— Você não deveria estar trabalhando? – Ouvi John dizer, mas sequer levantei minha cabeça para olhar o garoto parado na minha frente. Eu ainda estava na mesma posição desde que havia ido embora. Sentada e agarrada nas minhas pernas, tentando ocupar o menor espaço possível. Eu apenas queria sumir. – ...
— Vai embora. – Minha voz tinha saído abafada, mas eu esperava que fosse o suficiente para que ele entendesse que esse era um daqueles momentos os quais eu queria ficar sozinha.
— O que aconteceu, ? – Senti sua voz mais próxima e deduzi que ele tinha se abaixado para poder me olhar. – Vocês brigaram?
— Nós não brigamos. – O encarei séria. – Deus, nem sequer pode existir um nós. – Joguei minha cabeça para trás e fechei meus olhos, pensando na volta do meu noivo. Eu não conseguiria evitar me jogar aos seus pés e implorar por perdão ou qualquer coisa, até mesmo beijá-lo. Beijar me tornava perfeita, estar com ele me tornava na garota que minha mãe sempre quis que eu fosse, ele me tornava uma pessoa melhor, ou pelo menos eu precisava fingir ser essa pessoa para tornar tudo digno de um romance dos livros, diferente do que acontecia com . Ele apenas me tornava a garota da risada escandalosa, das piadas sem graça, a garota que usava tênis para ir para todos os lugares, a garota que usava roupas largas e dançava animada ao som da musica da cantora favorita e não se importava com o que outros pensassem. Ele me tornava numa bagunça, mas era incrivelmente revigorante. – está voltando. – Dizer aquilo em voz alta apenas tornava tudo mais real.
— Bom, isso é uma merda. – Sério? Apenas uma merda? O olhei incrédula e John apenas deu de ombros.
— Bom, isso eu poderia descobrir sozinha. – Imitei seu tom de voz desleixado e levantei o empurrando para trás. A última coisa que eu gostaria naquele momento era algum drama de melhores amigos com John.
— Ei, . – Chamou-me enquanto me seguia para dentro do apartamento. Joguei minha bolsa no chão assim que entrei e tirei meus sapatos, me deitando no sofá. Eu não estava com sono o suficiente pra dormir, com lágrimas o suficiente pra chorar, com vontade o suficiente para conversar sobre aquilo, na verdade, eu queria voltar a ser um Anjo, apenas para não ter que viver. Eu só queria ficar quieta e sozinha e esperando a bomba explodir à minha volta. – Pare com isso. Você nem sequer lembrava mais dele enquanto sentia ciúmes do ontem. – Eu nunca tinha visto John soar tão afiado como naquele momento.
— Qual é o seu problema? – O encarei, parado ainda na porta com os braços cruzados e um olhar nada acolhedor como ele sempre fora. John estava bravo, quase chateado com algo, poderia dizer.
— Qual é o meu problema? Qual é o meu problema? – Sua voz afinava cada vez mais e eu deveria estar o encarando com o olhar mais surpreso da minha vida. – “Qual é o seu problema?” é a pergunta certa. Você ficou reclamando de ciúmes ontem, e , eu realmente achei que estávamos evoluindo na sua questão com , mas, céus, você empurrou ele para Ella? Sério? Eles nem combinam. – Eu já não estava mais sequer deitada. Desde quando John conhecia Ella? E como ele sabia isso? Qual era o problema daquele garoto que não parava de bufar na minha frente?! – Você é um péssimo Anjo. – Cruzou os braços, talvez esperando alguma resposta, mas eu estava surpresa demais para dizer algo, então apenas ficamos ali encarando um ao outro por um bom tempo até que ele relaxou os braços e bufou sem animação. – Desculpe.
— Eu sou um péssimo Anjo. – Dei de ombros e John sorriu sem humor, tudo o que poderia ser ouvido naquela sala era a minha respiração, já que John nem isso fazia. – Como descobriu isso?
— Ahn... Eu deduzi. – Respondeu ainda encarando a televisão desligada à nossa frente. – Eu não acho que seja uma boa ideia. – Disse.
— É a minha única chance. – Suspirei derrotada. – Preciso fazer isso antes de encontrar com .
— Talvez Ella não goste dele. – O encarei. – O que foi?
— Você fica me espionando? – Perguntei assustada. – Qual é o seu problema? Isso é muito invasivo, sabia? Você faz isso sempre? Você precisa parar de fazer isso...
— Cala a boca, . – Interrompeu-me e eu me joguei no sofá atrás de mim. – Eu só... Você já tinha comentado sobre a Ella, eu só estava deduzindo isso tudo... – Levantei minha cabeça para encara-lo. Aquela era uma péssima mentira. – Está bem, talvez eu tenha estado no seu emprego um pouco sem você saber. Eu só... Eu me preocupo com você.
— Não é como se eu fosse fazer alguma merda, eu não preciso de babá. – Tudo bem que John estava naquela vida há muito mais tempo que eu, tudo bem que talvez eu estivesse desequilibrada emocionalmente. Bom, eu assumia tudo isso, mas eu não precisava de alguém me ajudando. Eu, definitivamente, já tinha passado da fase da minha vida na qual eu precisava de um ajudante.
— Vocês quase se beijaram hoje. – Seu tom de voz era quase acolhedor, ele não estava me julgando, ou qualquer coisa, John estava apenas me relembrando de coisas que eu não poderia fazer. – Você não conseguiria conviver com mais esse peso.
— Não vai se repetir, John. – Soei firme, mas nada dentro de mim estava certa daquilo. Sim, eu sabia que não poderia beijá-lo, mas eu também não podia fazer isso muitas vezes antes, mas nem assim eu consegui evitar. – Agora será que o senhor pode parar, por favor, de me espionar? - Até mesmo consegui soltar um pequeno sorriso para o moreno parado na minha frente.
— Não posso fazer nada se seu caso é mais emocionante que o meu. – Deu de ombros rindo e se jogando em cima de mim, eu apenas bufei e o empurrei para o chão. – Ei. – Resmungou e eu apenas estava gargalhando. Uma risada alta e escandalosa, quase irritante. Uma risada que, provavelmente, fazia anos que eu não soltava, mas ali parada e olhando o garoto jogado no chão também rindo, eu podia esquecer a merda que minha vida se tornaria dali pra frente. Eu quase podia ser normal de novo. Ser viva. – Desculpa por ter sido grosso. – Disse.
— Nunca vi você daquele jeito antes. – Deitei-me de bruços para poder encará-lo melhor.
— Eu só... – Pareceu pensar em algo, mas logo voltou seu olhar para mim. – Não é obvio que a Ella não combina com o ?
— Você não a conhece tão bem assim. – Seu olhar desviou por um breve momento, mas o suficiente para eu perceber. O resto da conversa foi John contando as suas novas piadas que, segundo ele, era de autoria própria, o que fazia muito sentido já que eu não ri de nenhuma. Ele insistiu em dizer “Você foi a única que não riu”, eu apenas dava de ombros e dizia “Bom, essa informação seria relevante se eu não fosse a única a ter ouvido”. Aquela parecia como uma tarde calma e comum que eu teria se não estivesse naquele corpo e na Central – que era como chamávamos o “céu” – depois de um tempo com algumas risadas, alguns comentários maldosos sobre o péssimo humor do meu amigo e ele resmungando em resposta, apenas ficamos em silencio. Duas pessoas paradas olhando para o teto, e talvez, torcendo para que tudo apenas sumisse. Pelo menos, era isso o que pensava desde que morri.
— John. – O chamei após longos minutos, mas sem o encarar. – Será que eu já destruí a vida de alguém? – Olhei para meu amigo deitado no chão entre o sofá e a mesinha de centro. Seus olhos estavam abertos e me encarando surpresos demais. – Eu só... – Me virei de bruços para poder encará-lo melhor. – Eu só estava pensando se o meu Anjo era tão ruim quanto eu, entende? Talvez eu tenha só... Talvez eu tenha destruído a vida de alguém por aí... – Respirei fundo. – Talvez só tenha milhares de outras garotas como eu por aí e por minha causa.
— Desculpa por ter dito que você era um Anjo ruim. – Respondeu num fio de voz quase envergonhado. Eu ri porque bem, aquela era a verdade.
— Você estava certo, de qualquer forma. – Disse. – Mas me diz, você acha que eu já fiz isso com alguém? Eu nem lembro o nome dessas pessoas e talvez eu tenha acabado com a vida delas.
— Você só fez o que achava certo, . – Respondeu me olhando com o seu típico sorriso de “estar tudo bem não estar nada bem”. – As pessoas ainda tem o direito de escolha, apesar de tudo. – Sim, eles tinham. Eu tive. Eu poderia ter terminado tudo com , jogar tudo para o alto e ficar com seu amigo, sim, eu poderia ter escolhido esse caminho. Mas quando eu vi já era tarde demais. Eu não podia deixar , ele foi o único homem da minha vida que não me deixou. Meu pai me abandonou. Até mesmo foi embora quando eu mais precisei dele. era apenas a coisa mais constante na minha vida. Parecia ser tão certo. – Para de pensar no seu Anjo. – John disse firme após um tempo em silencio.
— John há quanto tempo você morreu? – Nós nunca conversávamos sobre sua vida. Eu sabia pouquíssimas coisas sobre ele, mas por algum motivo, eu precisava perguntar aquilo. Eu sequer consegui evitar.
... – Pediu. – Por favor.
— Eu só... Eu só queria saber se tinha alguma chance de você saber quem era. – Disse me virando e voltando a encarar o teto.
— 10 anos. – Respondeu tão baixo que eu quase não entendi. – Eu morri há 10 anos. – Assenti mesmo sabendo que ele não poderia ver. Eu sabia que John não prosseguiria com o assunto. É claro que eu também não imaginei que ele tivesse sumido quando virei para encará-lo. Fiz as contas na cabeça e percebi que era provável que ele não conhecesse meu Anjo. John morreu no mesmo ano que eu conheci e . Ele não deveria ser o Ajudante popular que ele é hoje. É até meio estranho pensar que quando ele morreu, eu estava lentamente caminhando para a minha morte.
Acabei pegando no sono, sendo acordada pelo barulho da campainha que tocava. Pulei rapidamente do sofá, assustada. John não poderia ser, aquele garoto ficava por aí me espionando sem querer. A única pessoa que sabia onde eu morava além dele era ...
— Abra, . – Meus pensamentos foram interrompidos pela voz do meu chefe ecoando por todo o apartamento. Fiquei parada sem coragem para me movimentar, mas os sons mais fortes das batidas na porta pareciam ajudar as minhas pernas para elas entenderem que deveriam se movimentar.
? – Perguntei abrindo a porta apenas o suficiente para poder vê-lo. – O que você quer? – Eu não estava brava ou qualquer coisa, nem mesmo nervosa, só surpresa. Muito surpresa de vê-lo ali algumas horas depois do que aconteceu.
— No momento, eu quero entrar. – Cruzou os braços impacientes e eu dei passagem para ele passar por mim. – Eu sinto muito. – Disse sem olhar para mim. Seus olhos estavam perdidos nos seus pés, que não paravam quietos. Suas mãos dentro dos bolsos das calças e ele encarava o chão sem nenhuma animação para continuar aquela conversa. – Eu só estou confuso, , mas isso não vai interferir mais no seu trabalho, apesar de não parecer, você trabalha para mim e eu sou bastante profissional geralmente. Eu não vou mais flertar com você ou qualquer coisa que você não queira. – Pela primeira vez, desde que havia entrado na minha sala, ele cruzou seu olhar com o meu. – Eu estou confundindo tudo. Você não é a . – Ele parecia derrotado, agora que ele estava me encarando, eu podia perceber seus olhos vermelhos como se tivesse chorado. Ele estava adorável, apesar de tudo, ele estava adorável. – está morta. – Disse num suspiro. Eu não pensei muito, apenas joguei meus braços em volta dele, o abraçando forte. Ele pareceu assustado, e seus braços ficaram parados na mesma posição de antes com as mãos nos bolsos, mas não demorou muito para eu senti-lo me puxando para mais perto. Eu era um pouco mais baixa que ele, minha cabeça pousava no seu peito e suas mãos faziam desenhos abstratos nas minhas costas. É provável que tenhamos ficado por lá por longos e intensos minutos, mas era tudo tão surpreendentemente real que eu não conseguia sair. Eu não podia sair dos braços de , a última vez que isso aconteceu, ele só voltou anos depois. – A última coisa que eu esperava era um abraço. – Disse e eu levantei para encará-lo e encontrei seu sorriso característico ali. Ele não estava bem, mesmo sorrindo. Eu sabia disso. Eu usava esse mesmo sorriso todos os dias da minha vida. – Podemos ser amigos? – Afastei-me lentamente, já sentindo falta das suas mãos. – De verdade, dessa vez?
— Você é um pé no saco com um grande ego irritante, mas podemos tentar. – Nos encaramos e ele sorriu, um verdadeiro e digno sorriso de , estendendo sua mão para um aperto.
— Na saúde e na doença, na riqueza ou na pobreza. – Apertei suas mãos tentando evitar ao máximo o imenso sorriso que deveria ter surgido no meu rosto. – Até que a morte nos separe. – Assenti finalizando o nosso contado. “Nem a morte nos separou, .” Pensei. – Então... Você vai me ajudar na festa? – Perguntou após um tempo e andou em direção à porta, sendo seguido por mim.
— Você é tão interesseiro. – Revirei os olhos e ele sorriu. – Peça ajuda para Ella. – Disse lembrando do quanto eles se divertiram juntos. – Vocês são bons em festas. – Definitivamente não era para minha voz ter soado em um tom tão debochado como havia soado, mas não consegui evitar ao lembrar a cena deles dançando animados no salão.
— Ela vai ajudar você a me ajudar. – Bufei ao ver o sorriso que ele ainda tinha em seu rosto. – Posso contar com você pra fazer a melhor festa à fantasia da cidade? – Tentei negar, eu realmente tentei mandar para o meu coração todos os motivos que fazia aquela ser uma péssima ideia e talvez assim ele parasse de bater tão rápido, mas aquela era a nossa trégua. A nossa bandeira branca sendo hasteada após muitos anos, e talvez aquilo terminasse muito mal, mas quando eu pude perceber já sorria animado e talvez fosse tarde demais para voltar atrás e negar algo. – Ótimo. Nós temos uma semana para fazer tudo sair perfeito, você pode voltar para o trabalho amanhã quando melhorar e me encontrar na sala de reunião, eu vou dar todas as tarefas para você e para os outros... – passou por mim, caminhando de costas para a porta e dizendo o quanto aquilo era importante para ele e seu amigo. Eu tentava prestar atenção, mas tudo na minha mente era rodeada pelo fato que faltavam sete dias para voltar. – Certo? – Olhei para meu chefe parado na porta e assenti rapidamente. – Ótimo. Vemos-nos amanhã, temos uma longa semana pela frente. – Sorri me apoiando no batente da porta. No fundo, bem lá no fundo, eu estava feliz que eles continuaram os melhores amigos de sempre apesar de tudo o que eu tinha feito. – Até, . – Virou-se para ir embora e eu já encostava a porta, mas senti meu braço sendo puxado rapidamente e antes que eu pudesse dizer algo, senti os lábios de na minha bochecha, depositando um rápido beijo, mas que fez todo o meu corpo parar de funcionar por breves segundos. Ele não disse nada ao se virar e ir definitivamente levanto todo o meu ar junto. Eu permaneci parada, apenas tentava fazer com que todo o mundo voltasse ao normal ao meu redor. O sorriso no meu rosto deveria ser o mais sincero de toda a minha vida e meu coração nunca pareceu bater tão rapidamente há muito tempo. Foi a primeira vez que eu me senti viva.


ONZE.

Eu deveria estar feliz, contente e até mesmo aliviada pela semana ter sido tão calma na minha nova vida, mas, sinceramente, eu estava chateada. Na verdade, eu poderia dizer que eu estava total e completamente triste. Desde que foi até o meu apartamento selar nosso acordo de paz, ou seja lá o que fosse aquilo, ele sequer olhava para mim por mais de três minutos. Ele chegava ao escritório, dizia seu ‘bom dia’ animado, sorria para mim por pequenos segundos e logo dirigia toda a sua atenção para o computador à nossa frente. E por mais que isso fosse exatamente o que eu desejei por anos, eu queria que ele olhasse para mim, nem que fosse para se lembrar de .
, vamos. – Ouvi Ella dizer, com sua cabeça para dentro da sala. Eu estava totalmente entretida em organizar o e-mail da empresa. Atualmente, colocar toda a minha atenção em algum trabalho real naquele escritório era a única coisa que me deixava fora da nova orbita de e toda a sua indiferença sobre a minha presença.
— Eu preciso terminar esse trabalho, Ella, não vou almoçar hoje. – Respondi, voltando minha atenção para a planilha à minha frente. Além da minha nova relação com meu chefe, eu também havia construído uma breve e simples amizade com Ella. Nós almoçávamos juntas, conversávamos sobre as fofocas da empresa, sobre música, livros e todas as outras coisas que me mantivesse longe de toda a bagunça dentro de mim. Era uma relação reconfortante, eu gostava dela o suficiente para não querer matá-la quando a via rindo com pelo corredor. Ah sim, porque se havia outra relação sendo construída naquele lugar além da nossa, era com certeza a deles dois. Eu tentava passar despercebida por eles no corredor. Aquilo tudo não era novidade. Passar por enquanto ele estava com uma garota não era uma situação nova para mim. Mas diferente das outras vezes, a sua companhia sempre acenava para mim ao me ver passar por eles de cabeça baixa e passos apressados, diferente dele, que sequer levantava seu olhar para fazer o mesmo. me ignorava completamente depois de eu achar que tudo poderia ficar bem. Não era nada tão novo assim na nossa velha história clichê.
não te contou? – Abriu a porta completamente, indo ficar até minha frente.
— Ele não tem me contado muitas coisas. – Murmurei baixo, não me importando se ela iria escutar ou não. Minha atenção era toda depositada na tela à minha frente.
— Ele te liberou para ir comprar nossas fantasias. – Foi impossível não rolar meus olhos, soltando um audível resmungo com aquilo. – Será divertido.
— Eu não vou à essa festa. – Disse firme. Eu estava tão focada em ficar chateada por estar sendo ignorada que eu nem sequer me recordava que faltavam menos de 24 horas para encontrar meu ex-noivo. Eu não falava sobre aquilo para parecer que toda aquela situação não era real. E, bem, John estava tendo que sobreviver com um drama por vez, segundo ele. – Mas obrigada. – Terminei incerta ao perceber que ela ainda não tinha saído da sala.
— Isso não é uma opção, . – Riu. – irá me matar se eu não te levar para essa festa. – Oh que linda essa grande e belíssima amizade.
— Bom, diga ao seu grande amigo que eu não estou nem aí para o que ele quer ou deixa de querer. – Dei um típico sorriso irônico e voltei minha atenção para outro lugar.
— Ok, , eu tentei ser legal com você. – Disse impaciente, fechando a tela do notebook à minha frente.
— Qual é o seu problema? – Gritei brava ao perceber que ela já estava ao meu lado me puxando para fora da cadeira. – Eu não quero ir para essa festa estúpida do meu chefe estúpido. – Resmungava, mas já sem fazer muito esforço para impedir que ela me puxasse para fora da sala.
— Você parece uma adolescente. Céus! – Riu ao estarmos já dentro do elevador depois dela ter me puxado por todo o corredor. Bufei, mas não neguei, até porque talvez a garota ao meu lado tivesse um pouco de razão. Mas eu não queria ir comprar uma fantasia, provavelmente eu inventaria alguma desculpa de última hora e passaria o resto do sábado jogando conversa fora com John, exatamente como eu vinha fazendo por todas as noites daquela semana. A última coisa que eu queria era ir até lá e ver me ignorando de tão perto.
— Eu não quero ir mesmo, Ella. – Falei desanimada e talvez tenha soado até triste, já que ela me encarou preocupada. Felizmente, antes que qualquer pergunta pudesse ter sido feita, o som das portas do elevador se abrindo a impediu e eu rapidamente me pus à frente dela.
O caminho dentro do táxi estava em um confortável silencio, Ella parecia ter percebido que eu não queria conversar sobre qualquer coisa que ela estivesse curiosa para saber. Eu observava os prédios da janela, pensando em tudo que estava prestes a acontecer na minha vida dali por diante. Ella e estavam criando algum tipo de relacionamento e dependendo de como as coisas se desenrolariam naquela festa ou nos próximos dias, eu poderia ir embora e concluir meu caso. A de duas semanas atrás ficaria imensamente feliz com essa notícia, principalmente com a chegada de , mas eu não estava tão contente quanto eu deveria estar. Apesar de ter sido completamente ignorada durante a última semana, eu já estava me acostumando a rotina de acordar, ir até o escritório, observar e seu cenho franzido quando não conseguia resolver algum problema, almoçar com Ella, voltar ao trabalho ganhando um simples sorriso do meu chefe, chegar em casa e terminar a noite conversando com John sobre coisas terrivelmente aleatórias.
? – Ella me chamou e eu a encarei após um tempo. – Aconteceu alguma coisa?
— Eu só estou pensando. – Disse dando um sorriso de lado, apenas para que ela parasse de me encarar com tanta preocupação.
— Você parece triste. – Deu de ombros. – Eu acabei me lembrando do seu primeiro dia na empresa, em que eu te encontrei chorando.
— Eu não estava chorando. – Bufei e soltei uma pequena risada. Ella riu e assentiu.
— É claro que não. – Falou com desdém. – Definitivamente. – Depois de algum tempo em silencio, eu senti seu olhar sobre mim de novo. – Sabe, , chorar não é um problema. – A encarei. – Demonstrar que você tem fraquezas é simplesmente demonstrar que você tem um coração. E seja lá qual for o motivo para você estar triste por toda a semana ou ter chorado naquele dia, isso não é um problema. – Ella sorria amigavelmente. – Você não precisa ser forte o tempo todo. Ninguém é forte o tempo todo.
— Minha vida é uma bagunça. – Suspirei derrotada, levando meu olhar até minhas mãos paradas no meu colo. – Eu não lembro a ultima vez que eu fiquei verdadeiramente feliz por mais de um dia sem que algo ruim acontecesse. – Levei meu olhar até ela. – Quando tudo parece que vai terminar bem, na verdade acaba tão rápido que eu nem consigo me lembrar de quando que eu errei.
— Talvez você não tenha errado em nada. – Deu de ombros. – Talvez só seja a vida acontecendo como deveria acontecer. Às vezes, nós não podemos controlar como as coisas se desenrolam à nossa volta. Isso aqui não é uma história, , nós não podemos simplesmente apagar aquilo que a gente quer que suma, e escrever em negrito aquilo que a gente quer que aconteça.
— É uma boa metáfora. – Sorri.
— Sério? – Perguntou voltando ao semblante animado que ela nunca parecia deixar ir embora, nem mesmo naquele momento. – Eu acabei de inventar. – Riu e eu não pude evitar rir junto dela. – Eu vou anotar essa no bloquinho para não esquecer.
— Obrigada, Ella. – Sorri virando meu olhar para a janela, não esperando nenhuma resposta da morena ao meu lado.
— É para isso que as amigas servem, . – Disse após um tempo. Eu não pude evitar sorrir mais largamente após ouvir aquilo.

Dezembro, 2009.

Aquela era uma típica terça-feira. estava com os pais em alguma viagem de negócios e eu apenas encarava o teto buscando alguma inspiração dentro da minha mente para terminar de escrever o capítulo do meu livro. Eu tentava ignorar a vontade lá no fundo da minha mente que insistia em ligar para . Nós não nos falávamos muito sem por perto. Na verdade, eram poucos os momentos que ele olhava para mim quando seu amigo não estava próximo. Eu dizia para mim mesma que isso é normal, mas não era nada agradável. Principalmente porque era palpável toda a tensão ao nosso redor, como se estivéssemos em uma frágil corda bamba e qualquer passo em falso e tudo iria arrebentar aos nossos pés.
Após algumas horas perdidas com o silencio do quarto, eu pude ouvir alguém batendo na porta. Levantei-me incerta e sem muita animação para lidar com algum amigo perdido da minha companheira de quarto. Mas ao abrir apenas uma brecha, a única coisa notável eram os olhos claros me encarando.
? – Perguntei terminando de abrir a porta e olhando para o corredor, esperando ver parado com ele ali, mesmo que isso não fosse tão possível assim.
— Eu estou sozinho. – Sua voz não estava tão grave e firme como sempre. – Eu só... Estava pensando se eu podia passar por aqui. – Eu o encarava esperando alguma resposta para aquilo, já que tudo o que ele dizia soava como perguntas. – Eu só... Eu posso entrar? – Sorriu de lado e eu apenas dei de ombros, abrindo o caminho sem muita certeza se tinha algum tipo de voz dentro de mim.
— Eu... – Fechei a porta atrás de mim. – Hum... – Parei de novo ao ver o garoto com seus incríveis olhos claros e cabelos escuros bagunçados passando o olhar em todo o cômodo. Ele estava sentado na minha cama de solteiro que ficava ao lado de uma pequena escrivaninha que marcava a linha divisória invisível do quarto. A menina que dormia ali quase não a usava então não reclamou muito quando eu a peguei para uso próprio, na verdade, ela apenas dormia ali alguns dias da semana. A parede do seu lado era lisa e sua cama arrumada ainda com os lençóis simples que o alojamento distribui no início do ano. Era um total contraste da minha parte que já tinha as paredes decoradas com alguns quadros de avisos, além da roupa de cama, que eu havia feito questão de mudar para algo menos cor de nada e apostadas em um azul bebê. – Eu...
— Mural legal. – Disse por fim, encarando o quadro que eu colava alguns cartões postais. Minha boca abria e fechava em busca de algo para falar naquele momento. Não era a primeira vez que ele ia até ali, mas era a primeira vez que nós não tínhamos a companhia do seu amigo. – Você coleciona? – Ele já parecia mais relaxado e até mesmo um pequeno resquício de sorriso brincava nos seus lábios. Eu continuei o encarando, um pouco assustada, e não pude evitar quando meu olhar percorreu por todo o seu rosto até voltar para seu sorriso. Era tão lindo e tão acolhedor, parecia ser tão certo. A minha atenção voltou para seu olhar ao ouvir uma tosse seguida de uma risada. – Então? Coleciona cartão postal?
— Ah, o quê? – Encarei rapidamente o local que ele apontava e logo voltando minha atenção à ele. – Não. Eu não coleciono. – Dei de ombros encerrando o assunto e virando meu olhar para qualquer ponto do quarto que não fosse ele.
— Bom, você tem muitos então eu só deduzi. – Sorriu se apoiando nos seus cotovelos, fixando seu olhar em mim. Eu sequer tinha certeza se ainda respirava ou não.
— Meu irmão manda para mim. – Disse cruzando os braços e tentando disfarçar meu nervosismo balançando meu corpo.
— Eu não sabia que você tinha um irmão. – Comentou e eu tentei dar um sorriso, mas talvez não tenha soado assim.
— Pouca gente sabe. – Respondi. – Ele é irmão por parte de pai, nós não nos falamos muito, mas ele me envia cartões postais desde que eu tenho seis anos. – Eu não falava muito sobre esse assunto, até mesmo com eu não havia comentado ainda. Era um relacionamento complicado o da minha família. Isso se realmente houvesse alguma família para ter um relacionamento, se não apenas sobrava o complicado.
— Você e seu pai se falam? – já estava sentado normalmente agora, com os cotovelos apoiados no joelho, me encarando atentamente.
— Nós nos falamos uma vez quando eu tinha seis anos e estava muito curiosa para saber quem era ele e porquê ele tinha ido embora, mas depois disso ele apenas sumiu de novo. – Contei tentando soar o mais indiferente possível, mesmo que doesse. – A única ligação que sobrou foi meu irmão mais velho. Falamos-nos algumas vezes por telefone, mas ele já tem uma vida consolidada e sempre viaja para muitos lugares então ele apenas manda isso. – Fui até o mural e peguei alguns cartões, indo me sentar ao lado do , o entregando. Ele ficou estudando o postal, curioso. – Eu acabei me apegando à ele por causa disso. É bom saber que alguém se lembra de mim, sabe? E nos meus aniversários, ele sempre me manda um chaveiro de algum lugar diferente. É uma das coisas mais próximas de afeto que eu tenho de alguém da minha família.
— Eu sinto muito. – disse, colocando os postais do seu lado e tocando a minha mão que estava parada ao meu lado. Eu deveria ter me esquivado quando senti seus dedos fazendo carinho na palma da minha mão, eu definitivamente deveria ter parado com aquilo, mas eu não consegui evitar sorrir quando o olhei de canto e o vi sorrindo. – Para qual lugar você iria de todos esses? – Perguntou sem olhar para mim e eu logo virei meu olhar para frente.
— Eu gosto de Paris. – Dei de ombros. – Mas provavelmente seria para Irlanda. – Sorri ao me lembrar da primeira vez que eu recebi um cartão. Foi no meu aniversário de seis anos, eu não ganhava presentes, geralmente minha mãe sequer me abraçava, mas naquele dia foi diferente. Eu tinha ganhado um cartão postal, um chaveiro e um bilhete que dizia que ele estava feliz de descobrir que tinha uma irmã para contar sobre suas aventuras. Depois daquilo, eu prometi para mim mesma que na primeira oportunidade que tivesse eu iria viajar para Irlanda. – Foi o primeiro que ele me mandou.
— Seu irmão é um cara legal. – Falou e eu o encarei com confusão. – Ele sabe dar valor a pessoa incrível que você é. – Foi impossível não afastar minha mão rapidamente da dele e focar minha atenção toda nos meus pés. Provavelmente eu estava vermelha o suficiente para não querer levantar meu olhar até ele. – Você me perdoa? – Sua voz soou após algum tempo de silencio.
— O quê? – Perguntei o olhando confusa, mas o invés de ouvir sua voz, se aproximou de mim levando sua mão para cima da minha como estávamos antes, olhando para elas como se fosse a coisa mais bonita que ele poderia ver, logo voltando seu olhar até o meu, que o olhava de volta desde que ele havia colocado sua mão obre a minha. Eu sentia o olhar de em todo o meu rosto, indeciso como se ele não soubesse para onde encarar até que ele parou nos meus lábios e sorriu. Não era um pequeno sorriso, um sorriso de lado ou qualquer coisa que passaria despercebida. Aquele era um grande sorriso que mostrava o seus dentes perfeitamente alinhados. Era algo incrível, era simplesmente fascinante o suficiente para ser observado por mim por anos sem enjoar. Não demorou muito para que eu sentisse nossa distancia diminuindo gradativamente. Eu já conseguia sentir seu hálito quente, sua outra mão foi até meu rosto e ele passou levemente seu polegar por toda a minha bochecha. Eu não poderia dizer se ele estava sorrindo ou não, meus olhos já estavam fechados desde que eu pude sentir sua respiração tão próxima de mim.
— Me perdoa por bagunçar tudo? – Sussurrou e se não fosse sua proximidade era provável que eu nem tivesse escutado. Eu assenti e não demorou muito para que eu, finalmente, sentisse seus lábios sobre o meus. Era um beijo calmo, lento e parecia como se tudo ao nosso redor fosse quebrar se nós ousássemos fazer algo diferente daquilo. Tudo era frágil demais, o toque dos seus dedos no meu rosto, seus lábios, sua mão segurando a minha, todo aquele beijo era apenas fácil de ser destruído. E ele seria. Nós sabíamos que ele seria assim que o nosso ar acabasse e precisássemos buscar por mais, sabia tão bem quanto eu que tudo aquilo iria desmoronar sobre as nossas cabeças. E talvez fosse por isso que ele se movimentava tão lentamente. Lento o suficiente para que durasse o máximo possível. Mas após um tempo, ele apenas parou com vários selinhos sendo depositados nos meus lábios agora vermelhos, até que tudo o que poderia ser ouvido naquele quarto era meu coração batendo incrivelmente alto e a respiração meio descompassada de , que olhava para baixo agora, com sua testa encostada na minha. Sua mão ainda fazia carinho na minha bochecha. – Eu sinto muito. – Disse ainda sem levantar seu olhar para mim e eu não tinha reação para dizer qualquer coisa, e ele percebendo meu silêncio, levantou-se rapidamente sem ainda me encarar. – Eu não deveria ter te colocado nessa merda toda, – Antes que eu pudesse me levantar para tentar impedi-lo, já estava abrindo a porta e saindo por ela tão rapidamente que eu nem sequer consegui processar tudo que havia acontecido ao meu redor antes de me jogar na cama e sentir meus olhos começarem a ficar marejados.

Atualmente.

, chegamos. – Ouvi Ella chamar, tirando-me completamente dos meus devaneios. Saímos do táxi que foi pago pela morena ao meu lado que sorria animada com a loja de fantasias à nossa frente. – Eu amo festas a fantasia. – Eu permanecia parada, encarando todas aquelas roupas e mascaras da grande vitrine. – Venha. Vamos achar uma roupa legal para você. – Puxou-me, pela segunda vez naquele dia, para dentro da loja, fazendo com que o som de um sino avisasse a nossa presença.
— Eu odeio você. – Disse sem humor, apenas para que a garota ao meu lado escutasse. Ella revirou os olhos e sorriu ao ver que uma senhora se aproximava da gente, provavelmente para nos encher de ideias de roupas.
— Boa tarde, minhas queridas, o que vocês desejam? – Perguntou gentilmente e eu tentei sorrir para ela, que engatou em uma conversa animada com Ella sobre fantasias de mulher-gato, que pelo o que eu havia entendido seria sua fantasia. Deixei as duas conversando animadamente sobre qualquer coisa e adentrei mais a loja para poder procurar algo barato e simples para vestir. Pelo menos o suficiente para que fizesse sua amiga de escritório largar do seu pé. As roupas iam dos mais clichês como super-heróis até as mais aleatórias como fantasias enormes de semáforos. Nada ali parecia ser sem graça o suficiente para que eu comprasse. Na verdade, a melhor coisa seria se tivesse uma camisa preta escrita ‘fantasia’, definitivamente seria a melhor da festa.
— Achou alguma coisa, minha querida? – A senhora de curtos cabelos grisalhos e um vestido florido me olhava ansiosa esperando uma resposta com um sorriso acolhedor, mas o máximo que eu consegui foi um dar de ombros ao voltar meu olhar para as capas coloridas na minha frente. – Eu acho que eu tenho uma fantasia ótima para você.
— Eu não quero... – Comecei a dizer, mas parei logo ao perceber que ela já tinha me deixado sozinha de novo. Cruzei os braços bufando impaciente ao perceber que nada me agradava naquele lugar, apesar de um pouco acolhedor até, mas definitivamente nada animador o suficiente para fazer toda aquela festa algo entusiasmante.
— Veja, querida. – Ouvi a voz da senhora atrás de mim e ao me virar eu quase ri. Por um breve momento eu realmente queria muito soltar uma alta gargalhada, mas tudo o que consegui fazer foi encará-la com descrença. – Você seria um anjo muito bonito. – Sorriu levantando um longo vestido branco e com pequenas asas com brilhos para que eu pudesse vê-lo melhor. Antes que eu pudesse dizer o quanto aquela fantasia não era uma opção, Ella apareceu atrás da mulher, já usando uma mascara preta de mulher-gato.
— Oh, que lindo. – Disse animada, passando suas mãos pelas asas, comentando algo para a senhora. Eu só consegui revirar os olhos com a animação daquelas duas pessoas à minha frente. Sério? Um anjo? Isso poderia ficar menos irritante? – Combina com você.
— Uma pena, mas eu não vou vestir isso. – O sorriso da senhora desmanchou e eu logo me senti culpada. – Quer dizer, nada contra você ou sua loja. Eu só não gosto de anjos. – Tentei concertar e ela parecia menos triste agora.
— Nós vamos levar.- Ella sorriu animada, me ignorando completamente e eu a encarei brava.
— Não, nós não vamos. – Minha amiga apenas me olhava sorridente, como se aquela fosse a melhor ideia da vida dela. – Por que está tentando tanto me irritar hoje? – A puxei pelo braço e sussurrei para que apenas ela me escutasse. A última coisa que eu queria era desmanchar o sorriso de uma senhora de novo.
— Você sempre está irritada, isso não é muito difícil. – Deu de ombros e eu revirei os olhos, tentando parecer chateada o suficiente para que ela desistisse daquela ideia. – Ei, vamos lá, será divertido. – Empurrou meus ombros com o seu e riu. Olhei em volta procurando algo que eu tinha visto mais cedo e ao encontrar apontei para a peruca loira que estava ali. – Ótimo, então eu também quero a peruca.
— O quê? Por quê? – Perguntou e eu a olhei sorrindo sem mostrar os dentes.
— Se é uma festa a fantasia então vamos entrar completamente no personagem. – Disse com um resquício de sorriso nos meus lábios. – Agradeça por eu estar com preguiça de comprar uma lente azul. – Não esperei nenhuma resposta e passei por ela e pela senhora que parecia muito animada por estar vendendo tantas coisas em um dia. – Te encontro lá fora. – Saí da loja batendo a porta atrás de mim e ouvindo um cintilar irritante de um sino que parecia zombar da minha vida exatamente como todos naquela cidade.

~*~

— Você pintou seu cabelo? – Ouvi John gritar atrás de mim e tirei rapidamente a peruca, guardando dentro da caixa e a jogando de baixo da cama. Virei-me o olhando assustada e o vi com as sobrancelhas franzidas em confusão. – Seja lá o que for fazer, por favor, não faça.
— Cale a boca. – Joguei o plástico que estava do lado da cama nele, que riu. – Eu não vou fazer nada, isso é apenas para festa. – Saí do quarto indo em direção à sala, sendo seguida de perto pelo meu amigo que ainda estava com o sorriso no rosto.
— Você realmente quer que ele pare de te ignorar, não é? – Perguntou sem deixar a felicidade sumir da sua voz nem por um segundo. Aquilo estava me irritando profundamente. Deitei-me no sofá e ele foi para o chão exatamente como fazíamos todos aqueles dias. – Admita, .
— Cale a boca. – Repeti com a voz abafada, já que meu rosto estava enfiado no travesseiro. O máximo que eu consegui como resposta foi uma risada divertida de John do meu lado. – Você quer parar de rir? – Levantei a cabeça e joguei o travesseiro nele, que ainda ria.
— É uma tática bem sutil. – Falou tentando parecer sério. Mas parou de rir ao ver que eu não o acompanhava. – O que aconteceu? Você tinha me dito que não iria nessa festa.
— Ella apareceu no horário do almoço e me levou até uma loja para comprar a fantasia. Eu tentei negar, mas sinceramente eu nem ligo mais. – Disse sem animação, virando meu corpo e ficando de barriga para cima, focando toda a minha atenção no teto branco e sem graça do apartamento. – Parece que quanto mais eu fujo mais merda acontece.
— Então você achou que seria uma boa ideia se fantasiar de ? – Sua voz soou confusa e receosa e eu até abaixei minha cabeça para encará-lo. – O quê? Foi a primeira coisa que eu pensei. – Levantou as mãos em sinal de rendição.
— Minha fantasia é de anjo. – Murmurei e só tive certeza que ele havia me escutado quando sua risada escandalosa explodiu por todo o cômodo. – Não é tão engraçado. – John sequer parou de rir. Bufei alto tentando fazê-lo parar, mas nada adiantava. – Você já pode parar de ser um péssimo amigo agora. – Falei sem humor.
— Isso só é meio bizarro. – Eu ainda poderia ouvir um resquício de risinho na sua voz. – Mas você não vai, certo? – Perguntou. – Quer dizer, você sempre arranja um jeito de se livrar disso.
— Eu preciso ir. – Parei ao relembrar todas as cenas felizes de Ella e dançando na festa da empresa. Eu não queria ter que passar por aquilo mais uma vez. – Eu preciso arranjar um jeito...
— Nem continue se for falar sobre sua ideia ridícula da Ella e do . – Interrompeu-me com a voz séria, bastante diferente de poucos segundos antes.
— Não se meta no meu caso, John. – O respondi com o mesmo tom que ele. – Fica fora disso. – Eu não queria iniciar alguma discussão com meu amigo. Nós estávamos bem durante aquela semana. Ele não havia aparecido abatido nenhuma vez naqueles dias e eu até mesmo me esquecia de ficar preocupada com a saúde de alguém morto.
— Não vá nessa festa, , por favor. – Senti seu olhar em mim e virei meu rosto para vê-lo sentado me encarando. – Por favor. – Pediu com um leve sorriso, mas tudo nele parecia forçado demais. Eu poderia afirmar que ele realmente não queria que eu fosse nessa festa.
— Eu preciso ir. – O vi bufar e se levantar rapidamente, ficando ao meu lado. – Eu vou ficar bem, John, relaxe. nem vai falar comigo de qualquer forma.
— Por que você não pode simplesmente me ouvir e ficar em casa? – Ignorou-me completamente, parecendo nervoso, mas não de um jeito agressivo, ou qualquer coisa parecida, John parecia apenas nervoso de uma forma ansiosa. – Isso vai estragar tudo.
— Qual é o seu... – Antes que eu pudesse terminar, o homem ao meu lado já não estava mais lá. – Problema. – Terminei num suspiro.

~*~

No resto do dia de ontem, eu dividi meu tempo entre assistir episódios aleatórios de séries tão aleatórias quanto e chamar John, de vez em quando, apenas ganhando o silencio do meu apartamento como resposta. Por mais deprimente que pudesse soar, definitivamente não era tão deprimente quanto vestir aquele simples vestido branco de alças simples que caiam até os tornozelos e com uma enorme asa presa nas costas que completava a fantasia, de forma que eu poderia até achar de bonita se aquilo não fosse terrivelmente e completamente triste. Eu já estava longos minutos parados observando meu reflexo no espelho tentando decidir se aquilo era realmente o que eu queria para mim, e a caixa com a peruca parecia brilhar atrás de mim na cama, como se me chamasse para abrir e usar o ultimo acessório da minha fantasia.
— Ei. – Ouvi a voz de John atrás de mim e ao levantar minha cabeça para poder observá-lo pelo reflexo, não consegui emitir nenhum som apesar de estar com a boca aberta pronta para respondê-lo. – Estou bonito, não é? – O garoto sorriu largamente, levantando os braços e girando para que eu pudesse analisar toda a sua roupa. Ele usava uma calça lisa azul escura da mesma cor que sua capa que terminava em uma calda, contrastando com a sua blusa branca presa até o último botão e uma pequena cartola. John estava usando uma cartola da mesma cor escura que a maioria das suas roupas. – Eu sou um mágico. – Disse como se fosse a coisa mais normal do mundo.
— Como raios você conseguiu essa roupa? – Minha voz provavelmente tinha soado mais fina e mais alta que o normal. – John. – Gritei me virando para poder vê-lo melhor. – O que você pensa que está fazendo?
— Muitas perguntas, , mas eu apenas decidi ir à festa com você. – Respondeu sem deixar de sorrir. – E a parte da roupa, bem, eu tenho contatos na Central.
— Ninguém vai te ver então você definitivamente não precisava disso tudo. – Disse e recebi apenas uma revirada de olhos como resposta. John pegou a caixa que estava na cama e a abriu, me entregando a peruca loira que estava lá dentro. Ele passeou com seu olhar entre mim e o objeto em suas mãos, mas antes que eu pudesse dizer algo, ele a colocou dentro da caixa e a jogou de baixo da cama exatamente como eu tinha feito ontem. – John...
— Você não precisa dela, . – Aproximou-se de mim e antes que eu pudesse dizer algo, o senti me puxar para um abraço. – Você é incrível, ou , tanto faz e o sabe disso. – Se afastou, mas ainda com as mãos nos meus ombros. – Agora vamos, porque quanto mais cedo você souber de tudo mais tempo eu tenho para tentar me explicar. – John me virou de costas para ele e começou a me empurrar para fora do quarto.
— O que você quer dizer com isso? – Perguntei, parando bruscamente.
— Só lembre-se que eu sou a melhor pessoa que você conheceu e que você me ama. – Disse atrás de mim, mas não me deu tempo para dizer nada, já que ele logo havia sumido tão rápido quanto ontem. Eu já estava ficando irritada com aquilo, principalmente porque eu não estava nem um pouco com bom pressentimento sobre aquela noite.


DOZE.

Capítulo dedicado à minha eterna melhor amiga, que eu conheço há quatro anos por internet, e que tem sido uma das pessoas mais importantes para mim desde sempre. Obrigada por me apoiar tanto nessa estória. Amo você.



As luzes do salão de festas da empresa piscavam em uma confusão de cores e eu sentia como se a escolha de colocar aquelas asas, pegar um táxi e chegar naquele local fosse a mais importante de todas desde que eu havia me tornado . “Nós estamos condenados à liberdade”. Sim, eu estava condenada ao fato de ter a liberdade de fazer escolhas. Eu sempre tive que escolher entre qualquer caminho, qualquer pessoa e qualquer coisa que me cercassem e sempre teria uma consequência. E, céus, eu estava cansada de ter que lidar com todas as consequências ao meu redor. Tudo na minha vida era um terrível erro. era um erro. era uma terrível consequência na qual eu tinha me tornado.
— Alguma hora você terá que entrar, . – Ouvi a voz de John sussurrar atrás de mim. Provavelmente, eu estava parada na entrada por um longo tempo, apenas observando todos aqueles corpos fantasiados dançando na minha frente. – Você pode fazer isso. – A voz dele era suave e baixa e se não fosse o fato de sentir a presença de alguém atrás de mim, eu poderia afirmar que aquela voz era apenas um sopro do fundo da minha consciência. Eu gostaria de me virar e dizer o quanto eu não estava pronta para encontrar de novo, mas eu não podia, porque bem, ninguém podia enxergá-lo e apesar de ser estranho estar ali parada apenas olhando, seria bem mais esquisito se eu apenas resolvesse falar sozinha.
— Ei, vocês chegaram finalmente. – Ella gritou caminhando na minha direção saltitante com seus cabelos negros soltos e uma roupa preta colada ao corpo que a tornava, provavelmente, na garota mais bonita da festa. Mas algo no olhar dela parcialmente escondido por trás da mascara escura me chamou atenção. Ela não estava olhando para mim enquanto sorria. Ela estava olhando para o garoto vestido de mágico, que agora estava ao meu lado com um sorriso tão incrivelmente grande quanto o dela. Ella estava olhando para John.– Minhas pessoas favoritas chegando juntos. – Tudo ao meu redor parecia ter parado de funcionar e eu apenas encarava boquiaberta, John parado sorrindo para a garota à nossa frente, apenas desviando meu olhar dele para encará-la com a mesma expressão. Eu não consegui evitar soltar um grito assustado quando ele entrelaçou suas mãos na dela.
— Que brincadeira é essa? – Perguntei tentando manter meu tom de voz baixo e não tão fino quanto ele deveria estar naquele momento. Ella me encarou, pela primeira vez desde que havia chego, confusa, e John ao invés de tentar me explicar, apenas a puxou para mais perto pela cintura.
, respire. – Disse ele, baixo, com a voz o mais calma possível, mas eu não queria escutar qualquer coisa que ele tinha para dizer. Eu não queria vê-lo ali tocando Ella. Eu não queria que ele tivesse fazendo a merda de todas as escolhas erradas no mundo porque eu não conseguiria lidar com mais aquela consequência.
— Não me manda respirar, John, não faça nada. – Joguei todo o meu olhar inquisitivo para cima de Ella e eu pude perceber quando ela se encolheu mais ainda para perto do meu amigo. Eu imagino o quanto meu olhar poderia estar duro naquele momento. – Não era para você estar vendo o John. Não era para vocês se conhecerem. Vocês não deveriam estar se tocando. Você não pode fazer isso. Você não pode brincar com coisas assim, John. – Eu apontava para a garota encolhida à minha frente a cada constatação que eu tinha daquela situação. Eu não me importava de apenas despejar todas aquelas coisas sem sentido com Ella me encarando assustada e confusa. Eu não conseguiria ficar vendo eles dois juntos daquela forma e me manter calma ou pensar direito. Levei meu olhar até ele, porque John saberia exatamente sobre o que eu estava falando. – Você não pode fazer isso, John. – Repetia incansavelmente mais para mim do que para o garoto parado, e minhas pernas começaram a se mover de um lado para outro enquanto eu ruía minhas unhas olhando para o chão e repetindo que John não poderia ter feito aquilo. Não com Ella. Não com ele mesmo. Não comigo e toda a minha merda de vida instável.
— Vem, . – Senti mãos me puxarem para longe daquele lugar, mas eu não conseguia pensar em nada que não fosse “Ele não podia fazer isso” e continuar repetindo incansavelmente, sentindo meu corpo leve sendo empurrado para algum local dentro da festa, mas afastado o suficiente para que as luzes não se tornassem tão incomodas e a música não atrapalhasse o som abafado da minha voz. – Olhe para mim. – Eu reconhecia aquele tom de voz, John sempre usava quando algum recém-chegado simplesmente entrava em colapso quando descobria da sua morte. Eu não era mais uma recém-chegada, mas eu estava em um terrível colapso no qual minha mente apenas trabalhava em torno da frase que estava sendo repetida por mim até aquele momento sem parar. – , por favor. – Minhas mãos estavam tampando todo meu rosto e eu não estava chorando, pelo menos não ainda. Eu não queria levantar meu olhar e encarar o olhar tão acolhedor do que tem sido o mais próximo de família que eu tive por toda a minha vida. Talvez se eu continuasse repetindo para mim mesma que ele não podia fazer aquilo, tudo apenas se tornaria num terrível borrão e eu acordasse desse pesadelo. Um terrível pesadelo que só poderia terminar comigo chorando por ter perdido John. – Você está me assustando. – Suas mãos faziam carinho em cada um dos meus braços. Essa era a única coisa que eu conseguia sentir. Seu carinho tão familiar e bom para mim. Como eu poderia viver sem aquilo? Como eu lidaria com tudo sem John? Eu não lidaria. Isso não era nem sequer uma opção para mim.
— Você não podia ter feito isso. – Disse mais alto e levantando minha cabeça e encarando as irís castanhas me olhando tão carinhosamente. – Você não pode quebrar regras como essas, John. – Afastei-me dos seus toques rapidamente. – Você não pode brincar com isso. Não tem mais volta. Acabou tudo. Você acabou com tudo. – Gritei e eu sentia como se alguma chave apenas tivesse sido acionada e toda a tristeza, medo e preocupação fossem transformados em raiva, raiva e raiva. – Você está destruindo tudo. Eu odeio você. – Era a primeira vez que eu tinha dito aquilo para John sem qualquer resquício de risada ou brincadeira, e não fez nada melhorar. Eu poderia chorar naquele momento, mas eu não podia sentir nada além de uma imensa vontade de gritar para ele o quão idiota ele tinha sido. – Você não tinha o direito de fazer isso comigo.
— Fazer isso com você? – Perguntou incrédulo retirando suas mãos dos meus braços. – Eu não estou fazendo isso por você. – Ele soava quase amargurado agora. – Estou fazendo isso por mim e porque eu quero, . Se você me deixar explicar, eu juro que não vai parecer tão ruim. – Ele estava paciente de novo. John nunca brigava com qualquer pessoa por muito tempo.
— Você vai acabar com a única coisa constante da minha vida. Você vai acabar com a nossa amizade. – Ele ia tentar dizer algo, mas eu levantei minhas mãos apenas para que ele entendesse que eu não tinha terminado de vomitar tudo ainda. – E você mentiu para mim. A pior parte disso tudo é que mais uma vez você escondeu algo de mim. John é a segunda vez que você mente para mim. – A raiva tinha sido substituída para mágoa. Todos os meus sentimentos mudavam com cada nova descoberta que eu fazia a cerca daquela situação.
... – John encarava o chão, talvez percebendo que a pior parte disso tudo era ele não ter confiado em mim. – Eu não queria que você se preocupasse.
— Era por isso que não queria que eu viesse? Era por isso que você estava se sentindo mal? – O ignorei juntando todas as peças na minha mente e nenhuma delas se tornavam em uma imagem de um pôr-do-sol como nos quebras cabeças que eu costumava ter em casa. – Mark sabia. Foi com ele que você conseguiu essa roupa. Ele está te ajudando nisso tudo... – Deixei as palavras morrerem antes de levar meu olhar até ele, que permanecia olhando para baixo. – O que mais você está escondendo de mim?
... – Murmurou olhando para mim cautelosamente. – Por favor... Eu não posso...
— Então tem mais? – Perguntei rindo sem humor algum. – Você está escondendo mais coisas de mim? O que mais seria depois de esconder que meu caso era o , me deixando descobrir apenas na hora, e agora isso. Eu tenho medo de até onde você, Mark e seus segredinhos podem ir. – O desdém na minha risada saia um pouco abafado pelo som, mas ainda estava bastante presente. As pessoas dançavam animadas, um pouco afastadas da bolha de tensão que nos cercavam. – Por que ele está nessa, né? Você não conseguiria quebrar tantas regras sem ter ajuda de alguém.
, por favor, me deixa explicar. – Eu negava com a cabeça porque eu não conseguiria dizer nada que não fosse perto de questionamentos sobre o porquê de ele ter me escondido algo assim. – Ella é irmã mais velha do meu caso, eu descobri isso antes de saber que ela iria trabalhar com você. Ella não é um nome comum, eu sei disso, mas eu também não poderia imaginar que estaria tudo interligado. – Ele parecia sincero, apesar de tudo, e mesmo que eu não quisesse acreditar nele, existia algo em seus olhos que entregava o quanto aquilo não estava nos seus planos. – Eu a vi chorando e eu senti a sua dor, . Pela primeira vez, eu senti algo. Nós, Ajudantes, nunca somos capazes de sentir nada pelas pessoas vivas e, , eu estava tão assustado com o fato de poder sentir a tristeza dela que eu não pensei muito sobre o que estava fazendo. Eu só queria fazer com que ela parasse de chorar. – Eu quase não podia ouvir sua voz e se não fosse o fato de estar me encarando tão fixamente, talvez eu nem percebesse que ele estava dizendo algo para mim. – Eu pedi ajuda a Mark e ele me ajudou, apesar de não ser meu Líder. Ele disse que tinha como eu conseguir aparecer para os vivos, mas aquela era uma escolha que eu não poderia voltar atrás. Eu sempre a via chorando quando sua irmã se recusava a comer ou sair para a escola. Eu esperei que ela saísse e esbarrei nela. E essa foi a primeira vez que eu apareci doente no seu apartamento. – Todo o ar que eu estava prendendo desde que ele havia começado a falar saiu e eu podia sentir minhas pernas ficando moles com tanta informação sendo jogada em cima de mim. John estava apaixonado por Ella. John estava quebrando regras. Eu não poderia lidar com a ideia dele quebrar regras. Ninguém as quebrava. Nunca. Era assim que imprevistos como pessoas mortas aparecendo por aí para se comunicar não acontecia. Porque eram regras duras. Elas eram horríveis para nós. – Eu não podia deixá-la sem fazer nada. , eu estava cansado de não sentir qualquer coisa. Eu nunca falei da minha vida antes de morrer para você, não porque eu não queria, mas porque eu não sinto nada por eles, mas eu me lembro de cada um. Eu me lembro de cada rosto que eu convivi antes de morrer, mas eu não sinto nada. Eu não consigo sentir nada e isso é horrível, . Você não sabe como não é ter capacidade de sentir nada por pessoas que ilustram todas as suas melhores lembranças. É como se sempre algo estivesse faltando. É como se eu não tivesse uma vida antes de me tornar um Ajudante. Nós não somos feitos para o amor, . Mas de alguma forma, eu estou sentindo isso por ela. Eu sinto muito, mas nem você e nem ninguém vai tirar isso de mim.
— John... – Eu estava tentando absorver toda a história que ele havia me contado. Talvez, eu realmente tivesse sendo bastante egoísta ao simplesmente ignorar tudo, mas eu precisava ser a pessoa racional naquele momento. Aquilo não terminaria bem e John não parecia ter a mínima noção disso. – Você não pode fazer esse tipo de coisa, eu não posso entender como Mark está te ajudando nisso.
— Ele me deve algumas trocas de favores. – Deu de ombros e eu continuei o encarando, esperando que ele simplesmente contasse toda a verdade. – , eu não posso contar quais favores.
— Oh, ótimo, então você vai mentir de novo para mim? – Perguntei sorrindo com escárnio. – É essa a escolha que você vai fazer? – Ele desviava seu olhar de mim, nervoso. – John, olha para mim. – Falei firme. – É isso? Você não vai confiar em mim de novo? – Perguntei mais seriamente ao perceber que ele nem sequer havia levantado sua cabeça para me encarar.
— Eu não posso. – Murmurou e eu poderia dizer que ele estava triste. - Mas você vai descobrir alguma hora, , só não pode agora. E não por mim.
— Você deixou com que eu descobrisse tudo isso logo hoje, John. – Disse mais baixo que o normal e se ele não tivesse finalmente olhado para mim, eu poderia dizer que ele nem havia me escutado. – Logo no dia que eu vou reencontrar o . Era pra você me ajudar...
Eu não sou seu Ajudante, . – Interrompeu-me jogando seus braços para o alto nervoso e eu me afastei. – Eu não posso parar minha vida por sua causa.
— Que vida? – Estávamos gritando um com outro agora. – Você está morto. E você não pode levar mais gente para essa merda de existência que a gente tem.
— Eu não vou fazer isso com a Ella. – Me encarou nervoso e eu o encarei de volta.
— Você sabe que vai, John. Você está estragando tudo, não só com você, mas comigo e com ela também. – Parei para que pudesse respirar fundo e tentar colocar tudo em ordem dentro de mim. Mas uma tosse foi ouvida atrás de mim e John logo endireitou sua postura e se afastou, fazendo com que eu percebesse que estávamos mais próximos que antes.
— Atrapalho alguma coisa? – . Não me virei para encará-lo e John já tinha colocado seu sorriso encantador à mostra, o que me fez bufar e querer mais ainda deixá-lo sozinho com seus mistérios e segredos. Passei por ele, trombando em seu ombro com minhas asas, sem nenhuma vontade de pedir desculpas (até porque eu tinha feito aquilo por livre e espontânea vontade) e deixei os dois para trás. Eu não estava com paciência para nenhum deles. Um me ignorou por toda uma longa semana e o outro mentiu e escondeu coisas para mim mais uma vez. Eu só queria colocar os dois sentados na parede de frente pra mim e gritar com eles até que eu ficasse sem voz. Passei pelas pessoas que dançavam no meio da pista até chegar perto do bar e sentei em um dos bancos mais afastados que eu havia encontrado. Pelo visto, ninguém estava pensando em beber qualquer coisa, então o bar estava relativamente vazio e poucas pessoas perdiam o tempo ali jogando conversa fora.
De onde eu estava sentada consegui ver quando John caminhou até Ella e a abraçou por trás, ganhando um sorriso surpreso. Eles eram fofos. E completamente parecidos e daria tão certo. Observando os dois rindo e dançando desengonçadamente parecendo tão absortos do mundo ao redor, eu pude perceber o quanto eles poderiam ser felizes se não fosse por um sutil detalhe que fazia com que John destoasse de todos naquela festa. Ele estava morto. Ele poderia parecer bastante vivo para todos ali, mas eu sabia que amanhã ele estaria deplorável e sem energias, parecendo terrivelmente exausto apenas por estar naquela festa. E ainda existia Ella em toda aquela equação. Não conhecia a menina há muito tempo, mas de algum jeito ela, depois de John, era o mais próximo de amiga que eu tive em muito tempo e ela também não podia ser ignorada em toda aquela situação. John sabia que aquilo não terminaria bem. Ele só tinha que aceitar algo que eu aceitei há muito tempo; existem pessoas que não foram feitas para o amor. Eu tentei lutar contra isso e acabei morrendo. John está lutando contra a maré também e se as regras dos Ajudantes forem tão duras quanto à dos Anjos, então alguém vai terminar como um de nós. Morto.

~*~

— Eles formam um casal bonito, não é? – Não precisei olhar para o lado para que eu percebesse puxando um banco para sentar ao meu lado. Eu reconheceria a voz dele e perceberia sua presença, provavelmente até o fim dos tempos. – Você conhece o John? – Ele soava inseguro, provavelmente, percebendo que eu não queria iniciar uma conversa sobre o quanto eles eram perfeitos porque sinceramente apesar deles serem, nada podia sair de bom daquilo. Afundei mais ainda no banco e senti meus ombros pesarem. Foquei toda atenção em minhas mãos em cima do meu colo. – Você está com ciúmes deles? – Perguntou incerto e eu o encarei pela primeira vez naquela noite. Minha boca abriu em espanto e eu não saberia responder se foi por causa da pergunta ou pelo fato dele estar deslumbrante. Eu não reconheci sua fantasia, mas sinceramente, eu não acho que precisaria parar achar aquilo tão perfeito quanto era possível. A roupa era até simples, se eu fosse comparar com o tanto de coisa colorida que eu tinha visto na festa. Ele usava uma blusa preta colada ao corpo e calças tão escuras quanto, além de uma jaqueta jeans a qual fazia com que seus músculos ficassem mais amostra do que o normal e no seu pescoço existiam algumas marcas como se fossem tatuagens sem nenhuma forma definida, ainda assim ele estava definitivamente deslumbrante – Eu sou quase extraterrestre, só que gato. – Piscou divertido.
— O quê? – Balancei minha cabeça tentando me livrar da visão dele da minha mente e levantei meu olhar para encará-lo, vendo que ele estava sorrindo de lado. Ótimo. Eu tinha praticamente encarado ele. Controle-se, . – Eu não estou falando com você. – Disse como se estivesse me lembrando disso e virei para frente, encarando um ponto distante, tentando me manter fora da orbita de .
— Oh, sinto muito. – Bufei alto apenas ao encará-lo e ver seu sorrisinho característico. Não olhei muito porque ele conseguia fazer com que eu apenas esquecesse o quão prejudicial ele era para minha sanidade. – Por que você não está falando comigo, exatamente? Eu achei que a gente estava bem. – Perguntou após algum tempo em silencio e eu o olhei dando o sorriso mais cínico que eu poderia conseguir. É claro que ele estaria agindo como se tudo estivesse perfeitamente e incrivelmente normal.
— Porque você não faz o que tem feito durante toda a semana e simplesmente me ignora e me deixa sozinha? – Eu havia ficado em pé apenas para poder me virar completamente para ele e vê-lo melhor. Talvez não tivesse sido a melhor ideia de todas porque ele também estava sentado virado para mim e seu sorriso parecia estar maior e eu nem sabia como havíamos chegado aquele ponto de aproximação comigo entre suas pernas, mas sua mão estava em meu rosto e seu polegar fazia carinho e eu queria tanto me entregar àquele toque, fechar meus olhos e beijá-lo. Eu poderia tanto fazer isso que dói. Eu nem lembrava mais o porquê de estar brava com o garoto dono de olhos tão lindos.
— Eu sinto muito, . – Disse baixo e eu apenas assenti sem muitas forças olhando fixadamente em seus olhos. Se me perguntasse qual era a música que alta que estava tocando, provavelmente eu nem saberia se estava tocando alguma porque tudo o que eu conseguia pensar era em seus olhos tão grudados nos meus. Se algum de nós dois resolvesse respirar um pouco mais alto é provável que toda a bolha ao nosso redor exploda. Sempre era assim com a gente. Ao mesmo tempo, parecia tão certo receber seus toques, mas também soava tão errado. Era como se nós tivéssemos medo de nos tocar simplesmente porque sabíamos que coisas erradas aconteceriam depois. – Você me perdoa? – E ali estavam aquelas três palavras. Hoje eu entendia exatamente o que elas significavam para nós dois. A partir do momento que a gente finalmente se entregasse tudo daria errado. sabia melhor do que eu o quanto aquelas três palavras tinham iniciado um caminho que nos levou à traições e mortes. E parecia que ele sabia exatamente o quanto nós estávamos indo pela mesma direção e com o mesmo final trágico quando disse aquilo, mas ainda assim eu iria responder exatamente como anos atrás, provavelmente, eu apenas diria que sim e de algum jeito ele faria a minha noite valer a pena. Sempre valia a pena, mesmo que tudo desmoronasse depois. Nós dançaríamos e tudo seria normal naquela noite. Eu não iria me lembrar de Ella e John e todas as suas merdas. Seria só eu dançando com o cara que faz meu mundo girar. Não importava o final, não se pelo menos por poucos minutos nós estivéssemos juntos. Mas parou de sorrir e se afastou tão rapidamente que eu achei que ele tivesse se queimado com o toque das suas mãos em mim. Ele estava com a postura rígida e dura, parado na minha frente, mas não me olhando. Seus olhos estavam em algum lugar atrás de mim. E eu não precisei olhar. Eu apenas sabia lá no fundo que ele estava ali. estava na festa. – Eu preciso ir. – Passou por mim correndo, sem me encarar, e me deixou parada do mesmo jeito que eu estava desde que ele havia me tocado.

~*~

Eu não estava respirando direito desde que havia passado por mim e isso já fazia alguns quinze minutos pelo menos. Eu tentava, inutilmente, permanecer calma e não surtar como fiz quando descobri sobre John mais cedo. Eu só tinha que respirar, inspirar e talvez tudo fosse fazer sentido ao meu redor. As luzes não seriam tão incomodas como estavam sendo, a música não seria tão alta ao ponto de me fazer ficar com dor de cabeça e o meu cérebro não seria tão idiota ao ponto de estar fazendo com que eu quisesse ir até ele e dizer um simples e educado “oi”. Mas eu sabia que não seria tão simples assim. Aquele seria um oi carregado de todas as desculpas que eu poderia dar antes dele me chamar de maluca e dizer que não sabia quem eu era. Meu estomago revirava só em pensar no olhar distante de ao me encarar. Ele não me reconheceria. E eu não saberia lidar com o olhar de indiferença do para mim. O primeiro garoto que havia se interessado em me conhecer não saberia que eu estava ali viva. E se ele soubesse, talvez apenas quisesse que eu morresse por ter mentido para ele. Levantei minha cabeça em direção ao centro da pista de dança e todo o ar que eu havia inspirado tão tranquilamente parou de circular no meu interior. Era como aquela cena onde tudo ao seu redor vira um imenso borrão escuro e tudo o que você consegue focar é um ponto especifico. sorria enquanto gesticulava para John e Ella como se apresentassem eles ao garoto de calça jeans clara e casaco azul virado de costas para mim. Eu não precisava ver seu rosto, seu sorriso ou ouvir sua voz para saber quem era aquele homem parado. Ele estava realmente ali, parado a poucos metros de distancia de mim. Eu pude reparar quando John parou de sorrir rapidamente como se algo estivesse o incomodado, talvez ele apenas houvesse percebido quem era aquele garoto à sua frente. Antes que ele pudesse me ver ali parada, caminhei rapidamente em direção ao banheiro que ficava perto do bar improvisado.
Passei pelas pessoas, esbarrando nelas com a asa de anjo e assim que abri a porta do banheiro ganhei um olhar desconfiado de algumas mulheres que ali estavam retocando suas maquiagens. Eu só queria um local vazio para essa sensação claustrofóbica acabar. Eu me sentia presa. Eu me sentia presa em algo pior do aquela festa. Eu me sentia presa dentro do meu próprio corpo. Era uma situação muito angustiante que eu já estava acostumada a sentir desde que havia morrido. Eu estava presa a toda aquela situação por um corpo, seja ele o de ou o atual. Eu só estava presa. Era como se aquilo fosse a vida me castigando por ter traído alguém que me amava tanto. Ela estava apenas me punindo, eu podia sentir essa dor. Não havia mais onde se esconder. Esperei que algumas das mulheres passassem por mim e caminhei até o espelho, molhando as mãos e levando água ao meu rosto. Por sorte, John havia me feito desistir da ideia maluca de ir loira para a festa. Eu não conseguiria lidar com aquilo também. Olhei para o meu reflexo cansada e soltei o ar preso nos meus pulmões. Eu não lembro se na hora da minha morte toda a minha vida passou pelos meus olhos como todos sempre dizem, mas eu conseguia ver todos esses momentos encarando os olhos castanhos e sem vida naquele espelho por longos minutos. E em todos eles, eu suspirava quando a risada de ecoava por toda a minha mente. Era tudo tão real, parecia que ele estava ali rindo para mim novamente. Era como se eu não tivesse estragado tudo. Depois do que pode ter sido quase meia hora e muitos olhares confusos para cima de uma garota com um longo vestido branco e asas jogada no chão, eu resolvi sair não apenas do banheiro, mas de toda a festa. Eu não estava pronta para encontrar com . Talvez eu nunca estivesse pronta para aquilo.
Abri a porta rapidamente tentando dobrar as asas para que eu passasse sem esbarrar em ninguém no caminho até a saída, mas senti um esbarrão forte que quase me fez cair para trás, se duas mãos não tivessem segurado meus braços. Olhei para as asas jogadas no chão e mais uma vez o borrão e a falta de ar estava presente na festa ao ouvir aquela voz tão conhecida por mim.
— Eu sinto muito por ter destruído suas asas. – A voz dele estava mais rouca que quatro anos atrás. Seu aperto, ainda sentido por mim, ainda fazia sentir como se eu tivesse um jardim recheado de borboletas no meu estomago e eu poderia me aconchegar nos seus braços e chorar por longas horas enquanto murmurava incontáveis pedidos de desculpas. Eu poderia fazer tudo isso, mas eu não podia fazer um simples movimento; eu não podia levantar meu olhar do chão para encará-lo. Eu não podia olhar em seus olhos. – Você está bem? Você parece que vai chorar. – Sua voz soava tão preocupada que por pouco eu não desmaiei naquele lugar.
— Eu sinto muito. – Eu apenas disse em um sussurro – como se fosse o máximo que eu conseguiria fazer sentindo seu toque queimar nos meus braços – sem me importar se ele iria escutar ou não, provavelmente, ele apenas iria pensar que eu estava dizendo aquilo por ser educada e ter esbarrado nele, mas dentro da minha cabeça eu poderia completar a sentença “Eu sinto muito por ter te traído com seu melhor amigo”. Eu estava dizendo aquilo por ser uma traidora. E quando eu ouvi uma simples e baixa risada ecoar pelos meus ouvidos e sentir suas mãos suavizarem no aperto, eu levantei meu olhar para o garoto parado na minha frente e vi tudo o que queria ver desde que fechei meus olhos pela ultima vez. sorria para mim. Ele sorria largamente para mim após longos anos. Ele havia mudado tanto fisicamente, seu rosto estava mais profundo e mais marcado, como se ele estivesse envelhecido mais que o normal e sua barba estava maior do que sempre esteve e seus olhos pareciam ter clareado mais com o tempo, mas ele ainda sorria como da primeira vez que foi falar comigo. Ele ainda estava tão bonito. O sorriso dele ainda me fazia sorrir e eu percebi isso quando eu apenas sorri. Não era um sorriso largo ou entusiasmado, foi um sorriso que surgiu tão de repente como se meu corpo apenas tivesse mandado o sinal de que estava tudo bem de novo, e se eu morresse naquele exato momento, eu poderia morrer sabendo que eu não destruí um dos mais belos sorrisos que eu já vi. Eu morreria aliviada.
— Quem é você? – A realidade bateu forte em mim e era como se eu estivesse morrendo de novo. Eu poderia até mesmo ouvir a buzina ao sentir o baque daquelas palavras que pareciam doer tanto quanto o baque do carro no meu corpo. Ele me olhava intrigado, mas só aquela pergunta fez meu sorriso se desfazer. Ele não sorria para mim. Ele sorria para . É claro, ele nunca sorriria para quem o traiu com o melhor amigo. – Eu nunca vi você por aqui. – Cada vez que sua voz soava em minha direção e seu sorriso não desmanchava, eu soltava uma lufada de ar presa dentro de mim. Suas mãos ainda me seguravam, mas minha postura já estava ereta apesar disso. Eu não olhava para nada que não fosse seus olhos verdes que ainda me encaravam tão curiosamente. Talvez se ele apenas olhasse mais fundo, se ele prestasse um pouco de atenção, talvez ele conseguisse me enxergar debaixo de toda aquela fachada. Talvez ele me visse gritando desesperadamente para que ele me reconhecesse. – A gente se conhece? Você é familiar. – Era só isso que eu precisava, era só um sinal para que eu soubesse que ele ainda tinha a sensação que eu estava ali na sua frente viva e respirando pelo menos por agora. O sorriso estava de volta ao meu rosto, mas antes que eu pudesse responder ouvi a voz de surgir atrás dele.
— Não, vocês não se conhecem, . – Pela primeira vez, desde que havia pousado seu olhar em mim, eu fiz a força de desviar para algo que não fossem seus olhos verdes e encarei o homem parado ao seu lado que passeava seu olhar sério entre mim e seu amigo.
— Eu acho que sim, . – O tom de voz havia mudado completamente, assim como o seu sorriso, até mesmo suas mãos não estavam mais me tocando. Ele olhou para ao seu lado que apenas assentiu sorrindo sem mostrar os dentes. Era tudo tão falso. Eu não me sentia mais dentro da conversa, eles apenas tinham uma bolha entre eles dois e eu poderia sentir dali o quanto tudo aquilo soava só falso. – Você pode pegar para gente alguma bebida? – Perguntou ainda sorrindo, sem olhar para mim. focou seu olhar em mim como se esperasse que eu falasse algo. Talvez ele esperasse que eu falasse que ele não precisava ir pegar nada, talvez ele só esperasse que eu pedisse para ele ficar, mas eu não fiz. Eu não poderia fazer. Desviei meu olhar dele e foquei no chão, apenas podendo escutar um baixo “É claro” que destruiu toda a pequena e frágil felicidade que a presença do tinha causado em mim. – Vamos dançar? – Perguntou após algum tempo, levantei para encará-lo e mais uma vez ele sorria para mim. Não aquele sorriso que ele deu para , mas o que ele dava para quando eu dizia que o amava. Ele esperava uma resposta, mas tudo o que meu cérebro conseguia processar é que eu estava fazendo as mesmas escolhas de novo. – E então? – O som da sua risada fez com que eu sorrisse e acenasse em direção à pista. Aquela não era a mesma escolha. Na verdade, eu não tinha outra opção. Escolher nunca foi uma opção.

~*~

Desde que ele havia me puxado para o centro da pista, eu não tinha aberto minha boca. Eu não sabia bem o porquê de ser tão difícil apenas falar com ele, mas todas as vezes que eu abria minha boca para dizer algo, um bolo se formava na minha garganta e eu sentia que era capaz de vomitar todo o café da amanhã e então eu a fechada de novo. Talvez eu estivesse com medo do que eu poderia dizer se fosse abrir a boca. Eu sinto que poderia ser capaz de dizer tudo o que eu ensaiei nos meus quatro anos mortos. Eu me movia ao som da música sem tanta animação quanto o garoto na minha frente, mas não era culpa dele, eu não gostava muito de dançar. Ele saberia disso se percebesse que eu era a sua noiva morta ali na sua frente. Mas ainda assim eu não queria estar em outro lugar naquele momento, principalmente quando feixes coloridos de luz passavam por cima de nós e tudo que eu conseguia distinguir na bagunça colorida da festa era seu incrível sorriso, e ao enxegá-lo eu sentia tudo à minha volta entrar em ordem automaticamente. trazia a calma que eu sempre precisei na minha vida.
— Eu ainda não sei seu nome. – Gritou por cima da música, fazendo com que eu parasse de encará-lo tão descaradamente como estava fazendo desde o começo. Eu só estava parada vendo o garoto se divertir à minha frente. Eu mal podia conter uma onda de felicidade crescendo dentro de mim ao perceber que ele estava bem. Apesar de parecer bem mais velho, ele era o mesmo garoto de brilho nos olhos e apaixonado pela vida que distribuiu sorrisos para todos a sua volta. – Tem alguma coisa no meu dente? – Balancei a minha cabeça em confusão e mesmo que a música estivesse no volume máximo, eu ainda conseguiria distinguir cada vibração da risada que ele deu. E eu ri junto dele, negando, o que o fez colocar a mão no peito suspirando dramaticamente como se estivesse aliviado.
— Meu nome é... – Senti um puxão no meu braço e puxei rapidamente em reflexo, virando para trás para gritar com a pessoa que fez com que parasse de sorrir mesmo que por breves segundos. – John? – Gritei surpresa e Ella estava ao seu lado, ainda evitando olhar para frente e jogando toda a sua atenção na sua mascara que já não cobria mais seu rosto. Antes que eu pudesse olhar para ele de novo, eu já estava sendo puxado para longe do centro e consequentemente para longe do . Olhei para trás para buscar seu olhar e me desculpar, mas as várias fantasias tomaram minha visão e eu já havia o perdido de vista. Voltei minha atenção para as mãos de John segurando meu braço e parei duramente, tentando me esquivar do seu aperto. – Qual é o seu problema, garoto? – Puxei meu braço, finalmente parando de ser puxada. Ele me olhava incrédulo e com os braços cruzados, sem tirar seu olhar reprovador.
— Qual é o meu problema? Meu problema? – Sua voz afinava a cada palavra e ele parecia impaciente, quase nervoso. – O que você pensa que estava fazendo com aquele garoto? – Franzi o olhar em confusão e esperei para que ele continuasse a se explicar antes que eu começasse a gritar com ele pelo fato da Ella estar ao seu lado me encarando confusa como se eu fosse a louca daquele lugar por ter gritado com ele. Aquilo apenas me lembrava do fato de que aquela não era uma simples discussão entre mim e John, porque agora outras pessoas podiam ver. Ella podia vê-lo. – Você não pode estar fazendo essa merda de novo. – Abaixou a voz como se quisesse que ninguém escutasse, mas escutariam. É claro que escutariam até porque agora ele tinha a droga de um corpo materializado. E isso foi o suficiente para que eu reunisse toda a força que eu tinha para empurrá-lo e John, pego de surpresa com meu empurrão, acabou se desequilibrando para trás, descruzando os braços rapidamente para se apoiar na garota ao seu lado, que segurou em seu cotovelo para que ele ficasse ereto antes de tombar para trás. O olhar que John lançou para mim foi pior do que um tapa, foi pior do que a dor que eu senti no acidente, foi pior do que qualquer coisa que eu já tinha sentido fisicamente.
... – Ella olhou para mim preocupada, mas antes que ela pudesse continuar eu levantei a mão para que ela se calasse e virei-me para me afastar daqueles dois.
— Não vá atrás dele. – John disse e eu não virei para encará-lo. Eu não queria ter que ver aquele olhar carregado de decepção para cima de mim. Eu estava cansada de ter que lidar com o fato de ter decepcionado a ultima pessoa que eu ainda tinha intacta. A única relação que eu ainda não tinha arruinado. “Se você continuar assim vai terminar sozinha, ”. A voz da minha mãe ecoou por todo o meu cérebro em um looping que fazia com que eu não me esquecesse de que mais uma vez ela estava certa sobre mim. Eu terminaria sozinha. – Ele não merece que você vá atrás dele. – Terminou em um sussurro e eu poderia dizer que ele tinha se aproximado de mim ao sentir sua mão no meu ombro, fazendo com que eu virasse para encará-lo. – Não faz isso de novo. – Eu poderia começar a chorar a qualquer momento e antes que eu fizesse, John me puxou para um aperto e eu não neguei ao enrolar seu corpo com meus braços, murmurando incansáveis pedidos de desculpas. Ele não respondia, apenas fazia carinho nas minhas costas fazendo com que mais lagrimas molhassem sua blusa branca por baixo da capa escura. – Estão te dando a chance de escolher de novo. Vá atrás dele. – Me afastei de seu aperto para que encontrasse seu sorriso e ele não precisava dizer de quem ele estava falando e eu não precisava de mais nada para saber o que eu tinha que fazer daquela vez. Assim que me afastei dele pude perceber Ella encolhida ao lado de John. Eu não tinha tempo para explicar nada para ela e eu sabia que John faria isso por mim. Além do mais, eu não tinha cabeça para ter que lidar com aquilo naquele momento. Antes que eu pudesse me virar para ir definitivamente atrás do , ouvi John me chamar e o olhei com impaciência. – é um babaca. – Revirei os olhos, mas ele não sorriu ou demonstrou qualquer sinal de que aquilo era apenas ele sendo implicante. – Só vai atrás de quem você realmente quer. – Assenti e me virei, passando rapidamente por todas as pessoas na minha frente sem me preocupar em pedir desculpas por pisar no pé de alguns deles.

~*~

Não demorou muito para eu encontrar sentado em um dos bancos à frente do balcão do bar e gesticulando com a mão, segurando um copo de bebida. Pelo jeito afoito que ele fazia seus movimentos, eu poderia até afirmar que ele já estava começando a ficar bastante bêbado.
. – O chamei ao me aproximar dele e a sua postura caída já estava reta de novo, mas ele não virou para trás para me olhar. Ele só levou o resto da bebida em seu copo aos lábios e levantou os braços como se quisesse que o barman colocasse mais um pouco para ele. – Por favor, não me ignore. – Pedi, mesmo sabendo que eu não tinha o direito de dizer aquilo já que eu tinha o ignorado momentos atrás. E como se ele soubesse disso, apenas riu, virando sua cabeça por cima dos ombros para me encarar e logo voltar a olhar para frente. Fiquei ao seu lado, puxando o copo recém-colocado no balcão para longe dele, que bufou, revirando os olhos, sem olhar para mim ainda.
— Já acabou de dançar com o garoto de ouro? – Lá estava o apelido que tinha na faculdade, o chamava assim quando ele fazia algo certo ou simplesmente quando queria irritá-lo. Mas aquela era uma daquelas vezes, que ele apenas soltava cada letra com o maior resquício de deboche possível. E as lembranças de todas as vezes que ele usou aquela forma quando eu dizia o porquê dele estar sozinho nas nossas brigas me acertou como outro tapa tão forte quanto o olhar de John para mim momentos antes.
, me desculpe... – Eu não levantei meu olhar até ele, mas não era necessário muito para eu saber o quanto ele estava com uma expressão séria e sem sentimentos aparentes.
— Só me deixe sozinho, . – Interrompeu-me e antes que eu pudesse impedi-lo, já pegava o copo de novo e bebia toda a doze de uma vez só batendo com o mesmo no balcão ao terminar. E foi ali que eu percebi. Quando eu pude ver seus olhos azuis tão escuros que poderiam ser confundidos com um castanho, foi naquele momento que não importava se estava bem, se ele estava sorrindo ou se ele me fazia sorrir. Nada realmente importava se estivesse tão destruído daquela forma. Ele me viu morrer. Eu sei que ele me viu porque ele também foi a última coisa que eu vi antes de tudo se tornar escuro. Não foi o sorriso do , por mais que eu quisesse e por mais que aquilo me tornasse mais culpada ainda por não ter ocorrido. sempre esteve na sombra do seu melhor amigo e naquela noite eu apenas havia o lembrado que ele nunca seria a primeira opção. Que ele nunca foi uma opção real porque o garoto de ouro sempre conseguia tudo. não foi a única pessoa que morreu naquela história toda há quatro anos, ela sequer foi a primeira a ter sua vida roubada. foi o primeiro. foi a primeira pessoa que teve sua vida roubada tão rapidamente quando eu fiz a minha escolha. Eu o matei. Eu matei o brilho que ele tinha no olhar. E naquela noite, foi como se eu girasse uma faca sem piedade por cima da sua ferida ainda aberta.
— Eu vou te levar para casa, você não pode beber mais. – Levantei do banco e puxei o braço dele para longe do copo, ganhando um resmungo em resposta, mas ele não fez força para me parar. Não foi muito fácil ignorar o bolo que se formava na minha garganta todas as vezes que eu via seus olhos tão escuros e sem vida. Mas eu não podia chorar na sua frente. Coloquei um dos seus braços por cima dos meus ombros, tentando nos equilibrar e, apesar da dificuldade e do corpo mole de , ele pareceu cooperar para que saíssemos da festa sem muitos problemas. – Eu vou chamar um táxi, me diz o seu endereço. – Falei ao conseguir após um longo tempo para leva-lo até o elevador. O encarei e pude vê-lo com os olhos fechados como se quase pudesse dormir em pé. Foi impossível não sorrir ao lembrar-se da ultima vez que eu o tinha visto dormir, mesmo que aquele tenha sido a véspera de um dos piores dias da minha vida e o estopim para tudo que veio depois, nada podia negar o quanto aquela visão me fazia aquecer carinhosamente por dentro. – ... – Cutuquei seu peito, fazendo com que ele se mexesse, mas não acordou, pelo contrário, ele apenas me puxou para mais próximo dele, pousando sua cabeça em cima da minha com cuidado. Sorri tendo minha atenção tirada dele quando o apito do elevador soou, avisando que havíamos chego ao térreo. Não estava tão fácil carregá-lo como antes, já que além de se apoiar em mim, agora ele também me segurava ao seu lado, fazendo com que ficasse difícil andar até a saída. – Arrume um táxi para nós, por favor. – Pedi para o segurança que estava na porta, e rapidamente ele pegou seu rádio dizendo algo e pediu para que eu esperasse ali dentro, que avisaria quando chegasse.

~*~

— Senhorita, o táxi já está aguardando vocês lá fora. – Ouvi o segurança dizer, me virando para e passando mais uma vez as mãos por de trás das suas costas para que eu o levasse até lá fora. O taxista ajudou para que eu o colocasse sentado no banco traseiro do carro e logo depois eu entrei. ainda tinha seus olhos fechados e a cabeça agora reencostada no banco. Disse o endereço do meu apartamento para o motorista e assim que o carro começou a se mover, virou seu rosto para onde eu estava e abriu lentamente seus olhos.
— Estou te levando para casa. – Avisei, ganhando um preguiçoso aceno e resmungo em resposta.
— Não me deixe sozinho. – Sussurrou e antes que eu pudesse pensar em responder, seus olhos já estavam fechados de novo e eu só queria poder dizer que eu nunca mais o deixaria sozinho. Eu só queria poder dizer que ele foi a última coisa que eu pensei antes de morrer. Ele era a única coisa de que eu não desistiria.


TREZE.

se apoiou em mim por todo o caminho até a porta do meu apartamento, mesmo com o taxista e depois o porteiro perguntando se eu queria ajuda para carregá-lo, ele resmungava algo e me abraça mais forte como se não quisesse que eu o soltasse. E bem, eu não soltei. Abri a porta com dificuldade e o empurrei para dentro antes de me virar para trancá-la. Quando me virei de volta para ele, pude vê-lo parado do mesmo jeito de olhos fechados e os braços estendidos para frente como se me chamasse para um abraço. Soltei uma risadinha baixa, balançando a cabeça em negação, mesmo sabendo que ele não veria e o peguei pela mão, o levando em direção ao quarto.
— Eu tinha me esquecido que você fica carente bêbado. – Murmurei achando que ele não ouviria, mas ele riu. Eu podia até ficar preocupada com as perguntas que poderiam vir a seguir, mas ele estava tão bêbado que, provavelmente, não se lembraria de nada amanhã. – Senta. – O empurrei para sentar na ponta da cama, mas ele jogou seu corpo nela, ficando apenas com os pés para fora. Ele ainda estava com um sorriso divertido no rosto e eu também. Era difícil não sorrir ao vê-lo daquele jeito. Abaixei para tirar seu tênis e suas meias para deixá-lo mais confortável. – Vá para cima, . – Ele se arrastou pela cama até estar deitado com a cabeça no travesseiro e esparramado pela cama. Fui até o armário para pegar outro edredom para levar comigo para sala e quando eu fui até a cama pegar o outro travesseiro, segurou meu pulso ainda de olhos fechados. – ...
— Fique comigo – Interrompeu-me e abriu lentamente os olhos, provavelmente dando de cara com minha feição confusa e surpresa. – Por favor, eu não quero ficar sozinho. – Pediu fazendo muita força para dizer aquelas palavras, eu podia ver.
— Eu não acho uma boa ideia, . – Respondi desviando meu olhar dele. Tentei puxar meu braço para longe, mas seu aperto aumentou e eu não estava fazendo tanta força assim de qualquer forma.
— Por favor, . Eu não vou fazer nada. – Parou. – Eu só não quero ficar sozinho. – E eu fiquei. A voz dele soava rouca e eu poderia dizer quebrada, como se dizer aquelas palavras doesse, e mesmo que não tenha doido nele e seja tudo da minha cabeça, eu poderia dizer que doeu em mim. Então eu apenas fiquei.
— Chega para lá. – sorriu largamente e soltei meu pulso, indo para o lado direito da cama e coloquei o travesseiro de volta no lugar, jogando o edredom em cima dele, que riu brevemente. – Você é muito espaçoso. – Disse com divertimento, ganhando uma careta como resposta. Apesar de a cama ser de casal, eu poderia sentir todo meu corpo se esquentar apenas por estar em um cômodo fechado com ele. Ao me deitar, tentei ao máximo não toca-lo de forma alguma e fiquei estática na cama olhando para o teto. Ele nem pareceu estar desconfortável, já que eu pude vê-lo de canto de olho se virar para mim e ficar me observando com a cabeça deitada em suas mãos. Eu não me atrevi a encará-lo de volta. Tudo dentro do meu corpo gritava perigo, perigo e um foge daí antes que alguma merda aconteça. – Vá dormir, . – Disse séria, ainda encarando as luzes acesas do quarto. Eu tinha esquecido de apagar e agora mesmo se eu quisesse dormir eu não conseguiria. Ótimo. Mas também não era como se eu conseguisse e amanhã quando ele me perguntasse o porquê das olheiras, eu poderia usar isso como uma desculpa.
— Obrigada. – Sussurrou, mas antes que eu pudesse responder, sua respiração pesada já estava lenta de novo e eu o olhei, apenas tendo a visão de um sorriso sumindo e um relaxado, dormindo. Eu havia me esquecido de quão bonita era essa cena. E foi impossível não me lembrar da ultima e única vez que eu o vi assim tão de perto e de como tudo mudou drasticamente ao amanhecer. Mas no fundo, havia valido a pena. Eu sei que sim.
— Desculpe por tê-lo escolhido hoje. – Murmurei após algum tempo em silêncio, apenas para ter certeza que ele já estava realmente dormindo. Eu só precisava me desculpar de algum jeito, e com ele acordado eu seria bombardeada de perguntas que não teria como eu responder. Então eu só tinha aquela oportunidade para fazer. – Eu senti sua falta durante esses anos. – Virei-me para o lado para não ter que encará-lo com a vista já embaçada e tentei ao máximo dormir, mas quando preguei meus olhos, senti seu braço em cima de mim me puxando para perto dele. E eu gelei. Virei minha cabeça sobre os ombros para ver se ele tinha acordado, mas seu rosto estava da mesma forma de antes. Talvez ele só estivesse acostumado em abraçar as pessoas na cama. Soltei o ar que estava preso dentro de mim e mesmo sem querer acabei me aconchegando no seu aperto e dormi.

~*~

Aquela era a sensação mais reconfortante que eu sentia há anos. Não os anos que eu passei como Anjo, mas sim mais tempo. Bem mais tempo que isso. Era uma sensação que eu só senti uma vez antes, mas agora parecia muito melhor. Era como se eu finalmente estivesse em casa de novo. Não aquele lugar onde eu morava com minha mãe, mas sim em casa. Literalmente, um local onde eu me sentia completa e feliz. Abri meus olhos lentamente, tentando me acostumar com a luz do sol que entrava pela janela, mas a única coisa que eu vi foi o peito de se movendo lentamente em ritmo de respiração. Eu não sei como havíamos parado naquela posição, com seus dois braços me agarrando nele num abraço e eu encolhida em seu peito sem me preocupar com a aproximação. Mas apesar de que senti-lo assim tão perto parecesse tão certo, eu ainda precisava me afastar, não para o meu bem, mas sim para o dele mesmo. Ao apoiar minhas mãos nele para tentar afasta-lo sem precisar acorda-lo, o ouvi resmungar e me puxou para mais perto ainda e tentei evitar o sorriso que surgiu no meu rosto, mas foi impossível.
— Volte a dormir. – Disse com a voz baixa e eu levantei meu olhar e o vi olhando para mim. Ele já estava acordado e eu tentando não fazer barulho. Bufei e levantei meu corpo rapidamente, até chegar a ficar tonta pela rapidez. E o olhei por cima dos ombros, o vendo sorrir. Um típico sorriso de lado que faria qualquer um suspirar. Revirei os olhos, mas também sorri. – Minha cabeça está explodindo. – Jogou seus braços para cima da cabeça, tentando proteger sua visão da claridade e eu ri. Ele parecia realmente com ressaca. E eu estava de bom humor já que eu não havia dormido tão bem há muito tempo. Então ele teria que lidar com o meu lado divertido. Uma pena.
— Jura? – Falei um pouco mais alto que o necessário, ganhando um grunhido em resposta. – Que pena. Eu adoro cantar de manhã. – Sorri me jogando ao lado dele, o olhando de rabo de olho. Eu ainda conseguia ver seu sorriso por entre suas mãos. – Running through the heat, hot beat you shine like silver in the sun light, you light up my cold heart. – Cantei em plenos pulmões, ganhando um se cobrindo com a coberta até a cabeça e reclamando. Eu ri, me divertindo como não fazia há muito tempo. – It feels right in the sun, the sun. We’re running round, round like nothing else can matter in our lives. – Ri olhando para ele todo coberto e me preparei para cantar mais alto, pulando para o refrão da música logo. – A love like this won’t last forever. I know that a love like this won’t last forever, but I, I don’t really mind. I don’t really mind at all.
— Não vai durar mesmo, você não respeita nem minha dor de cabeça. – Disse rindo apenas com a cabeça para fora do cobertor. E eu nem me importei com aquela frase, eu realmente não estava me importando com nada que não estivesse dentro daquele quarto. E quando eu ia começar a segunda parte, ele gritou dramaticamente um “não” e empurrou meu corpo, me pegando desprevenida, me fazendo cair no chão. O tombo nem foi tão forte, mas a minha bunda ficaria doendo pelo resto da manhã pelo menos, e eu me sentei olhando para ele que estava gargalhando na cama. E bem, eu sabia como fazê-lo pedir desculpas. E eu faria. Levantei-me tentando encenar a melhor raiva possível e quando ele viu que eu não havia tentando brigar com ele, a gargalhada foi parando aos poucos. – Ei, , foi sem querer. – Virei minha cabeça para olhá-lo e eu vi que ele fazia força para não rir então continuei com a cena.
— Cale a boca. – Abri a porta do armário, fingindo estar procurando algo. Eu apenas precisava matar o tempo até que ele se sentisse culpado e pedisse desculpas. não sabia que eu o conhecia tão bem, mas sim eu conhecia aquele garoto como a palma da minha mão. Antes que eu pudesse me virar para ver como ele estava, eu senti duas mãos agarrando minha cintura por trás e eu nem tive tempo de me debater direito porque logo já estávamos jogados na cama. em cima de mim com o corpo entre minhas pernas e apoiado nos seus braços ao meu redor. Era difícil respirar com aqueles olhos me encarando tão de perto. Eu poderia dizer que era quase claustrofóbica a sensação dele tão próximo a mim. Apesar de tudo, eu também poderia dizer que era a melhor coisa que eu já senti há muito tempo. O sorriso não sumia do seu rosto e também não deveria ser diferente no meu. – If I don’t say this now I will surealy break. As I’m leaving the one I want to take. – Ele cantava tão baixo que se não estivesse tão próximo, eu provavelmente nem o escutaria, mas o sorriso era sempre presente. Sua voz não era a mais afinada, mas ainda era incrível, principalmente por estar tão rouca de manhã. – Forgive the urgency, but hurry up and wait. My heart has started to separate. Oh, oh, oh... Be my babe... I’ll look after you.
... – O chamei, colocando minhas mãos em seu peito para que ele parasse de se aproximar. Aquilo não poderia acontecer. Não agora. Nem nunca uma voz completou no fundo da minha mente e eu inconscientemente bufei com desânimo. Aquela era uma linha que eu não podia ultrapassar.
— Essa é a parte da história em que a gente se beija. – Disse num sussurro ainda de olhos fechados. Era uma pena que essa história já tinha acabado anos atrás.
— Não, essa é a parte que eu me vingo. – Juntei toda a maior força de vontade que eu tinha ainda restante no meu corpo e o empurrei para fora da cama. Em um momento normal, eu nunca conseguiria empurra-lo, mas ele estava distraído o suficiente para ser pego de surpresa e cair no chão sem muito problema. Aproveitei que ele ainda estava no chão se recuperando do susto e tentei acalmar minha respiração descompassada. Mesmo que todo o meu corpo estivesse respondendo as caricias dele e gritando para que eu apenas me entregasse, lá no fundo eu podia ouvir a voz de desesperada para que eu só não fizesse isso com ele. Tudo, menos isso, , por favor.
— Eu vou fingir que você me empurrou só porque eu ainda não tinha escovado os dentes. – Apoiou seus braços na cama e me virei para olhá-lo, dando de cara com seu sorriso ainda presente, como se nada estivesse acontecido. E era assim que tudo deveria ter acontecido antes. Naquele momento, eu percebi que se tudo estivesse acontecido exatamente assim anos atrás não estaríamos aqui, ou melhor, estaríamos, mas eu não seria uma pessoa quebrada dentro de um corpo diferente e ainda estaria com aquele sorriso. – Você está bem? – Perguntou, desmanchando sua feição divertida e assumindo um olhar mais preocupado, provavelmente por eu ter desmanchado o sorriso tão rápido.
— Melhor levantarmos. – Pulei para fora da cama, começando à arruma-la do jeito mais desleixado possível enquanto observava pegar seus tênis no pé da cama para calçá-los ainda sem se levantar. O clima era tão tenso que eu quase queria me bater por ter estragado tudo tão rápido. Se eu estivesse ficada calada, sem musicas, piadinhas e só calada, com certeza não estaria esse clima tão desconfortável no quarto e ele não estaria tentando me olhar tão disfarçadamente como estava.
— Eu fiz alguma coisa? – Segurou meu braço rapidamente quando eu já me virava para ir em direção à porta. Respirei fundo antes de virar e tentar me livrar dos seus braços inutilmente. Seu olhar estava receoso e não havia nenhum resquício da diversão que tivemos alguns momentos atrás.
— Está tudo bem. – Disse com o melhor sorriso que eu consegui, mas no fundo eu sabia de duas coisas; a primeira era que nunca estaria bem para mim de novo; a segunda era que sim, ele havia feito alguma coisa. Não comigo, não com a , mas ele tinha feito com a . E mesmo que eu quisesse, eu não poderia esquecer o quanto ele havia me machucado e agora com seu olhar tão preocupado, eu fico me perguntando o porquê dele não ter feito nada disso com ela daquela vez, mesmo sabendo que eu precisaria dele. E se era possível, o fato de eu estar com ciúmes de mim mesma só consumiu todo o meu corpo.
— Me desculpe. – Soltou meu braço e respondeu, não deixando nem por um minuto de olhar nos meus olhos. E eram naqueles momentos, que por poucos segundos eu conseguia ver que ele sabia. Bem lá no fundo, ele só sabia que aquela não era uma situação normal. Eu não era uma garota comum e aquela não era uma resposta para nada que havia sido dito ou feito ali.
— Por quê? – Perguntei sem desviar minha atenção para outro lugar que não fosse ele. – Por que você está me pedindo desculpa?
— Eu não sei. – Deu de ombros desviando o olhar, como se estivesse confuso e estivesse procurando a resposta no quarto, logo olhando para mim de volta. – Eu só sinto que eu devo pedir desculpas para você. Sempre. – Terminou com um sorriso simples de volta ao seu rosto.
— Vou ao banheiro, você pode ver se tem algo para comer na cozinha, ou ir embora. – Disse, aproveitando que seu aperto havia diminuído e me soltei indo em direção à porta. Ele suspirou, mas não tentou me impedir.
Ao chegar ao banheiro, eu fechei a porta atrás de mim e respirei fundo, soltando o máximo de ar que conseguia, só para tentar fazer aquela sensação de aperto passar. Mas não passou, é claro. Não com o barulho de passos do lado de fora e armários sendo abertos. Uma pena, ele só encontraria pipoca e alguns restos de comida congelada. Talvez, fosse o suficiente para que o fizesse ir embora. Aquela sensação de acordar do lado dele, e agir como algo real, era tão boa que era capaz de destruir toda a sanidade que eu tinha. E eu precisava dela, eu precisava me manter sã para não destruir tudo. Principalmente, para não destruí-lo. Escovei os dentes o mais devagar que eu podia e tentei arrumar meu cabelo, o vestido branco amassado continuaria ali até que ele fosse embora. O que eu esperava que fosse logo.

— Como você sobrevive? – Dei de cara com um encostado no balcão que dividia a cozinha da sala. Seus braços cruzados e uma das sobrancelhas levantadas. – É sério, você vive a base de pipoca? – Apontou para o armário atrás dele como se fosse a terrível prova do crime. Revirei os olhos passando por ele e indo em busca de um copo d’água. – Sem respostas, mocinha? – Virei-me indo em direção ao filtro e não olhei para ele até que o copo estivesse cheio. O encarei enquanto bebia água e tentei soar o mais despreocupada possível, mesmo que eu quisesse rir da cara que ele fazia no momento.
— Eu gosto de pipoca. – Dei de ombros deixando o copo na pia e imitando sua pose com os braços cruzados e a cabeça levemente tombada para o lado. – Agora que você viu que não tem o que comer já pode ir embora. – Apontei para a porta, voltando a cruzar meus braços em seguida.
— Oh, é claro. – Riu sem humor, endireitando sua postura e caminhando até a saída. Eu o segui com olhar, mas não havia saído da minha posição ainda. Eu estava permanecendo longe. abriu a porta com a chave que ainda estava na fechadura e antes de girar a maçaneta para sair e me deixar respirar finalmente sem nenhum problema, ele virou-se para mim como se estivesse se lembrado de algo importante. – Eu vou trazer um café para gente essa tarde. – Franzi o cenho para ele, que deu de ombros voltando para a porta. – E você compra a torta de chocolate. – Ele não podia ver, mas eu estava surpresa e até mesmo sorrindo com aquela ideia de companhia. – Até às quatro, senhorita . – finalmente abriu a porta e saiu, me deixando com um sorriso estupidamente bobo no rosto que eu não consegui conter.
— Isso vai dar tão, tão, tão errado. – Soltei o ar junto de uma risada terrivelmente nervosa. O apartamento soava totalmente quieto agora e toda a tensão que estava presente havia se dissipado, mas ao chegar ao quarto foi impossível não sentir o perfume do em tudo ali. Parte de mim queria tirar toda a roupa de cama e mudar para algo que não tivesse aquele cheiro, mas a outra só queria se jogar na cama e inspirar aquilo o mais fundo possível. Não escutei nenhuma das duas partes, só sentei na cama apoiando minha cabeça nas mãos para tentar pensar sobre toda a merda que aconteceu em menos de meia hora desde que eu havia acordado. Não eram nem onze da manhã ainda e todo o meu dia já estava de cabeça para baixo. Eu tinha uma missão e tudo o que eu estava fazendo desde que havia começado era quase ter empurrado ele para a menina que estava se encontrando com meu amigo morto. Eu era definitivamente o pior Anjo que alguém poderia ter. E para piorar, eu estava me empurrando para ele. – Que merda eu estou fazendo? – A voz saiu abafada e eu queria poder dizer que estava quase chorando, mas eu não estava. Eu estava bem, talvez terrivelmente animada sobre a tarde, um pouco assustada com o que poderia acontecer, mas não triste. Eu não estava nem um pouco triste. “Mas ele não merece nada disso, , ele te machucou.” Uma voz fria e dura soou no fundo da minha mente. Era a minha voz de semanas atrás antes de entrar em tudo aquilo. Era uma voz que transparecia tudo no que eu tinha me tornado nos dois últimos anos da minha vida. Uma pessoa amarga, que querendo ou não estava desaparecendo cada dia que eu passava naquele lugar. Eu estava voltando a ser aquela garota da faculdade, mesmo sem pedir por aquilo, e eu não sei se eu lutaria contraria isso. No fundo, eu odiava a pessoa na que eu havia me tornado. Antes que eu pudesse pensar mais sobre isso, eu a respondi como se ela fosse uma amiga me dando conselhos “Mas ele foi tão fofo com a .”; “Mas você não é a , você é a .” – Eu sei. – Suspirei derrotada, me jogando completamente na cama. E deveria ser por isso que pessoas que não estavam preparadas ainda não conseguiam casos como aqueles. Nós podíamos encarar aquilo como uma segunda oportunidade, quando na verdade era apenas um caso como outro qualquer. era apenas um caso. “Encontre-se com ele essa tarde e termine com isso, , termine seu trabalho. E fique longe. Ele não merece nada disso, lembre-se que tudo aconteceu por culpa do que ele fez.” Termine com isso.

~*~

Eu não havia percebido quando peguei no sono, mas de alguma forma, eu estava deitada na cama normalmente e com a cabeça enfiada no travesseiro usado pelo horas atrás. Ainda sem fazer esforço para levantar, abri a gaveta da cabeceira procurando o celular, que eu mal usava, jogado lá dentro, apenas para ver a hora. Era quase três e meia da tarde, e eu ainda tinha que tomar banho, tirar aquela roupa e comprar a bendita torta de chocolate. Ou eu podia fingir que esqueci e voltar a dormir e não abrir a porta quando ele chegasse. Aquela também era uma opção viável se não fosse o fato de que amanhã eu estaria numa sala com ele sentado na minha frente. Fugir do não era uma opção, não para uma pessoa que voltou a vida só por causa dele, literalmente. Levantei lentamente, ficando sentada na cama, peguei o travesseiro que estava ao lado do meu e o cheiro do perfume masculino ainda estava ali presente. Eu precisava colocar aquilo para lavar. Não agora, mas eu precisava. Após algum tempo segurando o travesseiro, resolvi sair da cama e fazer alguma coisa. Andei até o banheiro, sentindo o chão frio de madeira e resolvi tomar um banho rápido, eu nem sabia se existia alguma padaria ali perto, eu mal saía daquele apartamento.
Fiz tudo o que eu tinha para fazer, menos pentear o cabelo escuro que parecia ter crescido mais do que o normal, e o deixei solto sem me arriscar a fazer algo diferente porque, no fundo, eu só queria alguma desculpa para não sair do meu quarto e eu sei o quanto eu seria capaz de usar aquela desculpa como algo plausível quando batesse na minha porta daqui meia hora. Não demorou muito para o táxi chegar e quando ele me perguntou o destino, eu não pude evitar quando aquele nome saiu da minha boca.

~*~

Epicerie Boulud. O letreiro dourado ainda era o mesmo chamativo e bonito, assim como todo o restaurante/padaria. Eu podia apostar que a cabine telefônica ainda estava há alguns quarteirões, exatamente como algumas semanas atrás, quando tudo aquilo começou. Tudo parecia exatamente no lugar. As pessoas distraídas nas mesas, outras no balcão, conversas baixas, até o clima parecia ser o mesmo daquele dia. Mas, apesar de tudo ter permanecido igual, eu estava completamente diferente da primeira vez. Principalmente, pelo motivo que me levava ali naquela segunda vez. Um encontro. Mas não um simples encontro. Era com , e eu nunca estive num encontro com ele, nem mesmo como . Nunca. Essa constatação me acertou em cheio e agora tudo que eu pensava em fazer era dar de costas para aquela entrada chamativa dourada e entrar no primeiro taxi para voltar para o aconchego do apartamento. Não demorou muito para que eu me virasse e sentisse uma mão me segurando pelo ombro. Olhei por cima dos ombros, assustada, e quase desejei que o mundo acabasse ali naquele milésimo.
. – Disse me virando completamente, tentando soar da forma mais convincente possível ao vê-lo parado na minha frente com uma sacola nas mãos e um café na outra. Ele estava lindo. Uma blusa xadrez, calça jeans e seus cabelos cor de areia bagunçados, mas ainda tão incrivelmente encantador. – Oi. – Acenei um pouco nervosa, desviando meu olhar rapidamente antes que ele percebesse o quanto eu estava encantada.
— Ei. – Sua voz soava um pouco ofegante e sua respiração descompassada como se estivesse corrido para me alcançar, mas ainda assim ele sorriu mostrando todos os seus perfeitos dentes brancos e alinhados. – Você sumiu ontem e eu ainda não sei seu nome. – Riu levando seu café até os lábios. Forte e sem açúcar. Eu poderia apostar.
. – O respondi após um tempo em silêncio. Foi impossível para mim, não soar desanimada ao ter que me apresentar para alguém que eu conhecia tanto. Não tinha doído tanto assim quando eu fiz essa mesma apresentação com seu melhor amigo. Quando ele abriu a boca para responder, uma senhora saiu pela porta atrás de nós, pedindo licença para , que sorriu gentil para ela ao ceder espaço. E eu sorri só ao vê-lo sorrindo. Balancei a cabeça em negação tentando fazer o sorriso sumir. Eu precisava me concentrar e sair dali.
— Venha. – Chamou quando já estávamos parcialmente sozinhos de novo, tendo a companhia apenas dos carros e das pessoas desviando de nós dois na calçada. – Vamos tomar um café. – Em nenhum momento ele desmanchava o sorriso do rosto. Seus olhos azuis ainda eram reconfortantes e eu ainda podia sentir as peças se encaixando ao meu redor, além de uma voz, já conhecida por mim, soando na no interior da minha mente “vá com ele, você está com saudades”. E sim, eu estava com muitas. Dei de ombros, e o que eu poderia imaginar que não era possível aconteceu, e ele parecia sorrir mais largamente que antes. passou pela porta, sendo seguido de perto por mim, que tentava inutilmente esquecer a razão que me levou até aquele lugar pela segunda vez. Eu só iria conversar um pouco com e depois voltaria para o apartamento. Eu só precisava daquele momento. – Você prefere balcão ou uma mesa? – Perguntou virando sua cabeça para mim, eu dei de ombros porque não fazia diferença nenhuma, contanto que eu não estragasse tudo. sorriu como se concordasse e logo estávamos sentados em uma mesa afastada. Ele colocou o café e a sacola em cima da mesa entre a gente, enquanto eu ficava batendo minhas unhas na mesa evitando ao máximo encará-lo por muito tempo. – Vou pedir um café para você.
— Não precisa... – Antes que eu pudesse completar já levantava sua mão chamando algum atendente, que chegou sem demorar muito. O garoto parecia ter por volta dos dezoito anos e vestia uma roupa branca com um avental amarelo dourado. Os olhares dos dois garotos estavam depositados em mim e eu não consegui pensar muito antes de responder. – Um café forte e sem açúcar como o dele. – O menino assentiu anotando rapidamente num bloco e virou-se rapidamente, mais uma vez, me deixando sozinha com que me encarava curioso.
— Como você sabe que meu café é forte e sem açúcar? – Eu pude sentir meus olhos se arregalarem. Ele franzia o cenho para mim esperando uma resposta e tudo o que eu conseguia pensar era em sair dali e voltar para o meu apartamento, que tinha o perfume do , meu cérebro fez questão de recordar. – . – Chamou e eu voltei minha atenção a ele, que permanecia com a mesma feição.
— Você tem cara de quem gosta desse tipo de café. – Tentei soar o mais convincente possível mesmo que no final aquela afirmação soasse mais como uma pergunta do que com outra coisa. Eu já começava a criar todas as desculpas possíveis para as perguntas que viriam a seguir. Mas antes que ele pudesse dizer algo, o atendente trouxe o café, o impedindo de completar a ação e eu apenas sorri agradecendo pelo café e por ter parado seja lá o que fosse que ele viria depois. – Então... Para onde você tinha viajado? – Perguntei segurando o copo com as duas mãos e levando até os lábios, torcendo para que ele respondesse a pergunta e a história do café fosse esquecida.
— Ah... – Voltou a sorrir como se ele começasse a lembrar das suas viagens. – Eu fui para muitos lugares diferentes, realmente, eu viajei por três anos então eu mal posso dizer o quanto de coisa eu conheci nesse tempo. – Riu divertido e eu assenti me segurado ao máximo para não perguntar do por que ele ter ido embora. Mas eu não podia estragar tudo, eu queria saber de todas as coisas que ele fez no tempo que eu fiquei fora. Eu precisava saber como ele estava acima de tudo. – Mas, apesar de tudo, eu ainda sentia que precisava voltar para cá, entende? Como se eu ainda tivesse assuntos pendentes que me seguram aqui. – Deu de ombros sem o sorriso de antes.
— Eu entendo. – Repeti seu gesto porque eu realmente fazia ideia da sensação que era estar presa em alguma coisa. Eu sentia aquilo todos os dias. – Eu também tive que voltar para resolver algumas coisas.
— E como você está se saindo? – Perguntou calmamente e eu mais uma vez dei de ombros como se aquilo explicasse toda a confusão que eu estava causando sem precisar dizer em palavras. – É, eu também. – Riu sem humor e eu o segui na risada.
— Eu... – Respirei fundo antes de soltar aquela pergunta. – Por que você foi embora? – Ele não apareceu se abalar como eu esperava que ele fizesse, apenas bebeu o que deveria ser os restos do seu café e me encarou paciente, esperando mais alguma pergunta que eu não me atrevi em fazer.
te contou sobre ela, não foi? – Sua voz não demonstrava nenhuma emoção e até mesmo seus olhos sempre tão acolhedores pareciam distantes. Isso me afetou mais do que eu achei que afetaria, e eu já estava arrependida em estar sentada ali. – Vou encarar seu silêncio como um sim. – Ele se jogou mais para trás no banco que sentava, colocando suas mãos em cima da mesa e brincando com elas como se pensasse a melhor forma de responder. parecia, acima de qualquer coisa, desconfortável.
— Você não precisa dizer nada. Na verdade, foi uma péssima pergunta. Eu estou indo embora agora. – Cuspi todas as palavras o mais rápido que eu podia apenas para poder sair dali sem nenhum problema.
— Ela me traiu. – Ouvi sua voz quando já me preparava para andar e ir embora. Mas aquelas três palavras me impediram de fazer qualquer coisa. Até mesmo de respirar. Eu podia sentir uma dor no fundo do meu peito, daquelas que você precisava respirar fundo para que passasse e logo então viriam as lágrimas descendo pelo meu rosto. Mas eu só voltei a me sentar, sem respirar fundo para que aquele incômodo passasse, eu não queria que ele passasse de qualquer forma. Eu merecia aquela dor. Eu merecia tudo de ruim que aquilo poderia causar, porque eu sei que não chegaria nem perto do quanto aquelas palavras pareceram machucar ao sair da boca do . – Com ele. – Suspirou. – Com meu melhor amigo. – Antes que eu pudesse dizer algo, ele riu sem nenhum humor. Eu não sei se era possível uma risada soar tão triste como aquela que ele deu. – Sabe quando o mundo desmorona a sua volta e você não sabe nem quando tudo começou a começar a dar tão errado? Eu perdi o chão, sabe? Eu não sabia o que fazer.
— Eu sinto muito. – Foi a única coisa que eu consegui dizer sem que eu me jogasse aos seus pés e implorasse perdão. E também era o máximo que eu podia fazer para que ele só me perdoasse por tudo. Eu só queria que ele visse tudo que estavam nas entrelinhas daquelas três simples palavras.
— Aconteceu tudo muito rápido. Em um dia, eu iria me casar. E logo depois, o me disse que ele havia transado com minha noiva e quando eu menos esperei, ele me ligou chorando dizendo que ela havia sido atropelada e quando eu cheguei ao hospital, ela já estava morta. – Disse tudo num sussurro quase inaudível e sem levantar seu olhar das suas mãos até mim. – Eu perdi a mulher que eu amava e o meu melhor amigo em uma mesma noite. – Completou finalmente me encarando e eu não consegui evitar as lagrimas que já saiam sem nenhum impedimento. Antes que eu pudesse entender o que estava acontecendo ao meu redor, levantei rapidamente e fui me sentar ao seu lado o abraçando sem nenhum pudor. Meus braços estavam ao redor do seu pescoço e eu pude sentir quando ele hesitou em me abraçar de volta, mas eu não me importava em estar parecendo confusa, eu só precisava abraça-lo e torcer para que ele me perdoasse algum dia.
— Eu sinto muito, . – Me afastei do seu corpo e tentei evitar que minha voz soasse tão quebrada como estava. Eu não conseguia parar de fungar e chorar com ele me olhando tão de perto e eu podia ter certeza que eu nunca me esqueceria da sua voz soando no fundo da minha mente ao dizer a frase “Eu perdi a mulher que eu amava e meu melhor amigo em uma mesma noite”. Nada nunca se compararia a força que aquelas palavras tinham no meu corpo.
. – Chamou-me quando eu fiz menção em sair do lado dele para voltar ao meu local de antes. Eu o encarei tentando não me abalar com seu olhar em mim. – Você pode me abraçar de novo? – nunca pareceu tão frágil para mim. Nunca. Ele era uma das pessoas mais inabaláveis que eu conhecia, muito mais até que o , e quando a sua voz soou tão destruída, eu não pude fazer nada além de colocar meus braços mais uma vez ao seu redor e, dessa vez, eu não havia sido a única a me entregar naquele momento. Meu rosto estava enterrado no seu peito e sua cabeça em cima dos meus ombros. Eu não me importava em estar molhando toda a sua camisa xadrez. Aquele era o mais perto que eu estava dele há muito tempo e era diferente. Aquele abraço era completamente diferente dos abraços que eu dava em seu melhor amigo. Mas eu amava . Eu realmente o amava e ele nunca mereceu o que fizemos com ele. Nunca.
— Ela amava você. – Soltei antes que pudesse me segurar. Senti seu corpo ficar rígido e seu braço já estava não estava ao meu redor como antes. Quando em resolvi me afastar dele, não voltou seu olhar até mim, ele se remexeu no banco para que pudesse pegar sua carteira no bolso de trás da sua calça e eu só observava seus movimentos.
— Eu fui embora porque, acima de tudo, eu sentiria falta dela. – Murmurou e quando eu ia tentar respondê-lo sem chorar, ele virou sua carteira para mim e a única coisa que eu vi foi uma foto nossa. Foi uma das últimas festas da faculdade, e eu nem lembrava que havia a tirado, mas eu podia ver o quanto eu estava verdadeiramente feliz ali naquele momento tão singelo. Na foto, eu estava sentada em cima de seu colo, e nem sequer olhava para a lente da câmera, ele estava com a cabeça enterrada no meu pescoço e eu só sorria. – Eu não a visitei no tumulo. – Disse olhando para a foto. Ele quase parecia culpado ao dizer aquelas palavras e eu me lembrei de como eu me senti quando me contou aquilo.
— Por quê? – Não pude evitar a pergunta que rondava pela minha cabeça todas as vezes que eu parava para pensar naquilo.
— Você vê como o sorriso dela era bonito? – Um resquício de sorriso brincava em seus lábios. – Eu não conseguiria vê-la em um caixão tão sem vida. Eu só não podia fazer isso e ainda ter que lidar com ali ao seu lado. – Sua voz agora era um pouco mais agressiva que antes e eu podia perceber a mesma tensão da festa de quando eles se falaram. Eu tinha destruído a amizade deles. – Eu sou uma péssima pessoa por não ter ido. – Terminou cabisbaixo.
— Não, você não é. – Disse firme. era a única pessoa naquela história que não poderia se culpar por alguma coisa. Ele era a vitima ali. – Você não tinha que saber lidar com todas essas coisas, . Nada disso foi culpa sua. Não se culpe por nada disso. – Ele levantou seu olhar até o meu e apenas assentiu sem animação.
— Desculpa. – Balançou a cabeça e endireitou sua postura, guardando a carteira. – Você deve estar me achando uma companhia triste e entediante. Eu até te fiz chorar. – Tentou rir, mas eu ainda conseguia ver o quão triste ele estava, talvez ele nunca fosse ficar bem de novo. E, mais uma vez, era tudo por minha culpa. – Podemos começar de novo? – Perguntou e eu o encarei sorrindo. Tudo o que eu mais queria naquela vida era começar de novo, principalmente com ele.
— Ótimo. – Sorriu. – Vamos sair daqui? Andar um pouco por essa cidade caótica, mas também bela. – Era impossível negar algo para ele, mesmo que no fundo da minha mente algo me dissesse que eu já estava atrasada para encontrar o , eu não podia negar aquilo para o . Eu não tinha o direito de negar qualquer coisa para ele, por mais que eu quisesse, e, no fundo, eu não queria. Eu poderia me resolver com depois, inventar alguma história, e a distancia dele me faria bem. Era bom para mim, para o meu corpo, para minha sanidade e para a vida de que eu ficasse longe de novo. Muita gente já tinha se machucado naquela vida por minha causa.
— Me faça gostar dessa cidade de novo. – O respondi, sorrindo, e eu me senti muito bem ao ver que seu sorriso era largo e brilhante de novo.

~*~

havia me levado para um longo passeio por todo o centro, enquanto me contava sobre sua nova ideia de um curso de fotografia para jovens. Eu fugi de todas as perguntas que eram dirigidas para mim sobre minha vida ou família. Eu respondia da forma mais vaga possível e ele parecia perceber que aquele era um assunto difícil, já que logo voltava a falar sobre os lugares que ele havia viajado. Eu evitei ao máximo olhar o relógio ou perguntar a hora, já que tudo apenas me levava ao fato de que já deveria estar me esperando no apartamento. E agora eu estava ali, fechando a porta do taxi e entrando no prédio.
— Senhorita, o Senhor foi embora há algum tempo atrás. Ele tinha vindo te procurar. – O porteiro disse, sem olhar diretamente para mim, assim que eu fechei a porta atrás e eu não pude fazer nada além de suspirar alto. Encarei o relógio que ficava ali na recepção e não me surpreendi ao ver que já eram quase seis horas da tarde.
— Obrigada. – Sussurrei sem me importar se ele iria escutar ou não e fui até o elevador, torcendo para que ele caísse e eu pudesse morrer e voltar ao final de tudo aquilo. Assim que as portas se abriram e eu dei de cara com o corredor, eu não pude evitar imaginar as cenas que já haviam acontecido naquele lugar. Principalmente, nas ultimas vinte e quatro horas. E foi quando eu vi dois copos de café no chão à frente da minha porta que eu desabei. Eu me abaixei para pegá-los eu pude ver um bilhete debaixo do copo que estava escrito um em letra cursiva. “Eu espero que você goste da minha escolha.” Dizia o bilhete, e terminava com uma singela carinha feliz. Após ficar algum tempo só encarando aquele bilhete. Eu abri a porta e assim que a entrei eu pude ver John jogado no sofá, parecendo um pouco largado.
ficou horas ali fora, se eu não estivesse tão fraco, eu o pediria para entrar. – Sua voz estava lenta e cansada, ele sequer havia levantado sua cabeça para me encarar.
— Eu estava com . – Suspirei derrotada e agora sim eu pude ver John me encarando um pouco surpreso, mas principalmente com um olhar acusatório. – Eu só não pude negar, tá legal? Ele estava destruído, John... – Falei antes que ele começasse qualquer discurso que fosse. Eu sei que talvez a minha escolha não fosse a melhor, principalmente depois de ontem, mas ainda assim eu não me arrependia por completo. não merecia qualquer coisa de ruim vinda de mim, e entenderia a situação, até porque parece que ele também estava empenhado em fazer o seu melhor amigo perdoá-lo, segundo o que comentou por alto no passeio.
— Ele não me pareceu tão destruído quando o conheci. – Interrompeu-me, dizendo com sarcasmo, voltando a se deitar completamente.
— Do que você está falando? – Perguntei indo em direção ao balcão da cozinha, colocando o copo com o nome de em cima do balcão junto com o bilhete, ficando apenas com o meu na mão.
— Eu só não acredito que você fez isso. – Completou, um pouco chateado.
— Você não está muito na posição de poder me julgar. – Fui me sentar no chão ao pé do sofá onde ele estava deitado. Eu podia sentir o quão debilitado John parecia, da onde eu estava ele não emanava a energia de dias atrás. Aquilo me preocupava mais que tudo. – Você está bem?
— Só fica um pouco difícil depois de me materializar, nada para se preocupar, eu vou melhorar. – Olhei para cima e vi um pequeno sorriso surgir nos seus lábios.
— Me perdoe por ontem, John. – Sussurrei voltando meu olhar para frente. – Eu não queria ter dito que te odiava. Eu nunca poderia odiar você.
— Tudo bem, . Eu deveria ter te contado. Eu só não sabia como fazer isso, não era algo que eu estava esperando. – Disse. – Você confia em mim ainda?
— Eu nunca poderia deixar de confiar em você, John. – Voltei meu olhar até ele e sorri, ganhando um aceno como resposta.
— Não se esqueça disso nunca. – Ele estava sério de novo. Sem sorrisos. – Eu só quero o seu bem, . Sempre. Não se esqueça disso. – Assenti e reencostei minha cabeça no sofá atrás de mim. Levei o copo até meus lábios para provar a bebida que ele havia escolhido para mim, e assim que senti o doce gosto de caramelo descer pela minha garganta, todo o meu peito se aqueceu da melhor forma que podia. Frappuccino de caramelo. O sabor favorito da . Era o meu sabor favorito e ele ainda se lembrava disso.


QUATORZE.

2008, junho.



— A câmera gosta de você. – dizia vendo as últimas fotos que ele havia tirado de mim. Eu não era muito amante das lentes, mas de alguma forma ele sempre conseguia me pegar em algum segundo distraída, na maioria das vezes com a cara enfiada no computador ou nos livros. E mesmo que meu rosto não aparecesse completamente, ele ainda sorria animado com o feito de ter capturado o momento e passava o resto do dia pedindo para que eu posasse para ele. – Seu sorriso é lindo. – Levei meu olhar até ele, que estava com a cabeça deitada nas minhas pernas e sorri ao ver as ruguinhas se formarem perto dos seus olhos brilhantes ao sorrir.
— Vamos tirar uma foto. – Disse animada, batendo em sua barriga para que ele se levantasse e ficasse sentado ao meu lado. – Então como nós fazemos isso? – Perguntei sorrindo largamente quando ele me entregou a câmera e levantou-se da cama indo em direção à cômoda na nossa frente, rapidamente pegando duas toucas praticamente iguais.
— Você acha que é cafona demais namorados usando a mesma coisa? – Perguntou confuso, mas sem deixar o sorriso morrer, encarando as duas toucas em suas mãos. Eu não respondi, apenas ri e peguei a azul para mim deixando a verde para ele, que sorriu mais largamente e jogou-se ao meu lado na cama reencostando sua cabeça na parede atrás de nós. – Você tira as fotos hoje. – O encarei confusa, mas apenas ganhei um aceno como incentivo para prosseguir. Levantei o visor para poder ver como ficaria da melhor forma, e assim que ela estava na altura dos nossos rostos olhou diretamente para frente e deu um dos mais belos sorrisos que eu já tinha visto, foi impossível não sorrir ao ver aquele garoto ao meu lado, e foi quando ele levou suas mãos até a câmera que eu segui seus movimentos com o olhar sem deixar o sorriso sumir e abaixei um pouco a cabeça quando ouvi o barulho da foto sendo tirada. – Eu te amo. – Murmurou ao levar seus lábios de encontro ao meu lentamente sem me beijar. – Para sempre. – Levei minha mão até sua nunca e o puxei para perto de mim apenas para que pudéssemos começar um calmo beijo naquela tarde chuvosa de um sábado qualquer.

2008, dezembro.



— Eu não gosto de surpresas, . – Disse tentando não tropeçar com os olhos sendo fechados pelas mãos do . – É sério. – Parei ao bater minha perna levemente no braço do sofá ganhando apenas um sussurro de desculpas ao pé do ouvido. – , é sério. – Repeti seriamente e ele só riu e depositou um leve beijo na minha nuca como se fosse para me acalmar.
— Fique calma, não é uma festa. – Soltei o ar mais tranquilamente ao ter aquela confirmação. Eu detestava a ideia de festas de final de ano lotadas, eu não era uma grande amante de multidões. – Antes de tudo, não foi muito caro, então não precisa surtar. – Não senti mais sua presença atrás de mim e nem suas mãos tampando minha visão, mas assim que fiz menção de abrir os olhos ele gritou um não e eu só voltei a ficar impaciente de novo, torcendo para que não tivesse ninguém além de nós dois naquela sala. – Tudo bem... – Ouvi sua voz um pouco afastada de onde eu estava e alguns murmurinhos que pareciam alguém diferente, mas ainda assim familiar para mim.
— Quem está aí? – Perguntei curiosa ganhando apenas o silêncio como resposta.
— Pode abrir. – Abri os olhos sem muita cerimônia encontrando do lado da mesa de jantar e em cima dela uma bela máquina de escrever. Abri a boca com a intenção de dizer algo, mas nada saia e um sorriso logo se formou no meu rosto. Era um dos poucos presentes de Natal que eu ganhava. Minha mãe não era amável o suficiente para fazer algo além de ligar para mim de madrugada e eu não tinha amigos o suficiente, nem familiares para participar de alguma festa, menos naqueles dois últimos natais que me levou para comemorar com a sua família. – E então? – Perguntou ansioso e eu levei meu olhar até ele de novo, mas ainda sem a capacidade de responder algo concreto então eu só fui até ele e o abracei jogando meus braços ao redor da sua nuca sendo recebida pelo seu aperto na minha cintura. Não demorou muito até que um barulho de câmera fosse escutado e eu tirei minha atenção, pela primeira vez desde que havia chego ali, para algo que não fosse meu namorado e o presente na mesa e vi sorrindo com a câmera de nas mãos e mexendo a boca em um silêncio que eu pude entender como um feliz natal.

Atualmente.



Acordar na manhã seguinte não foi nada simples, principalmente, quando você sabe a sensação de acordar ao lado de e agora aquela cama parecia vazia e solitária. Todos os flashes do final de semana passaram na minha cabeça como um rápido trailer. Tanta coisa havia acontecido, em simples quarenta e oito horas, eu não pude deixar de suspirar desanimada ao perceber que aquele seria apenas o inicio de mais uma semana naquele lugar. Não podia mentir e dizer que não estava terrivelmente assustada com o encontro com na empresa mais tarde, principalmente pelas perguntas que viriam sobre o encontro da tarde que nunca aconteceu.
E eu me preparei mentalmente para todas elas, todas as perguntas já tinham suas respostas na ponta da minha língua. Todo o roteiro seria previamente estudado por mim e seguiria suas falas à risca, porque eu o conhecia bem e sabia que sim, ele não faria nada que tornasse algum momento desconfortável para outra pessoa. Nenhuma pressão. Nunca. Mas a vida não era tão gentil comigo quanto ele, e quando eu abri a porta e avistei sentado na cadeira falando animado sobre algo e apenas assentindo sem esboçar nenhuma animação parecida com a do amigo, eu percebi que não tinha pensando em respostas para aquela situação.
. – Exclamou com um largo sorriso ao ouvir a porta se fechando, não demorou muito para que ele se levantasse e viesse até mim para que me beijasse carinhosamente no rosto, mas automaticamente senti meu corpo ficar rígido e me afastei rapidamente, fazendo seu sorriso murchar um pouco. – Então... – Tossiu cruzando os braços e virando-se para , que estava apenas observando sua bola de beisebol sendo jogada para o alto. – Estávamos falando mesmo de você.
— Eu... – Sussurrei e parou de jogar a sua bola para o alto. A tensão na sala era claustrofóbica e continuava sorrindo. Era tão falso e maquiado, não era o sorriso que eu aprendi a amar. – . – Disse após um tempo em silencio.
, nos deixe sozinhos por um momento, por favor. – O seu amigo o encarou impaciente, mas antes que pudesse reclamar, repetiu. – Por favor, . – Eu percebi que tudo havia mudado. tinha sorrisos falsos para seu melhor amigo. estava verdadeiramente irritado com algo. Era tudo o inverso do que já tinha sido um dia. E era tudo minha culpa. O olhar de demonstrava exatamente a frase que eu evitei dizer para mim mesma por todos esses anos; é tudo sua culpa, . Não do , não do , nem de ninguém mais. É exclusivamente minha. Sempre foi, a voz da minha mãe surgia em loops repetindo que era tudo minha culpa. Eu sempre estraguei tudo. – Por que você está fazendo isso? – Sua voz mais baixa e rouca que o normal trouxe minha atenção para o homem sentado com a postura reta e sem nenhuma linha de expressão no rosto. só me olhava friamente, eram naqueles pequenos momentos que eu sentia como se ele pudesse enxergar a minha alma e dizer que eu estava morta. – Por que você está jogando com nós dois? Quem é você? Você não pode chegar do nada e bagunçar algo que eu levei anos pra reconstruir. Principalmente, porque você sabe. – gritava gesticulando e apontando para mim, pela primeira vez, desde que eu havia entrado naquela sala, eu conseguia enxergar algo nele: mágoa. E mais uma vez, eu senti meu corpo recuar. – Eu sei que você sabe, eu não sei como ou porquê, mas eu sei que você sabe exatamente onde está entrando e o jogo que você está fazendo. – Abri a minha boca, mas ele levantou a mão e eu fechei de novo. “Você merece isso, , é tudo sua culpa. Sempre foi.”. – Se você está fazendo isso com algum tipo de vingança contra mim, não precisa. – Disse um pouco mais abalado, apoiando suas mãos na mesa e deixando de me encarar. – Eu já sofro com isso tempo o suficiente sem ajuda de ninguém.
... – Dei um passo para frente, mas ainda permaneci longe, mesmo que a única coisa que eu conseguisse pensar era em como eu precisava dizer à ele que estava tudo bem.
— Eu entendo. – Levantou seu olhar até mim. – Você não pôde dizer não à ele, não foi? – Foi a minha vez de desviar a atenção para o chão. – É claro, não seria diferente com você. Ninguém nunca diz não ao . Nem mesmo eu consegui fazer isso quando precisei.
, eu posso explicar... – Aproximei-me mais, porém ele já tinha se afastado e voltado a postura rígida de antes.
— Você está demitida. – Disse sério e tudo o que eu consegui foi procurar seu olhar, mas ele já tinha se virado para observar a janela atrás dele. – Definitivamente dessa vez. Peça à Ella que arrume suas contas, eu não me importo de pagar. Eu só quero que você vá embora da minha vida. – Nem ao menos o som das nossas respirações poderia ser escutado naquele momento. Tudo estava um terrível silencio e as palavras do ecoavam na minha mente. E, pela segunda vez, eu abri a minha boca para dizer algo, mas eu não podia. Não era justo. Eu não tinha o direito de começar tudo aquilo novamente. Aquele ciclo não podia continuar.
— Eu sinto muito. – Murmurei sem a certeza se ele escutou ou não, virei-me e saí da sala o mais rápido que eu consegui. estava rindo, conversando com a Ella, e eu ouvi sua voz chamar por mim, mas eu não podia parar. Não naquele momento.

2010, janeiro.



— Você anda distante há algumas semanas, está tudo bem? – Perguntou , me puxando para um abraço de lado. Era uma tarde fria e estávamos sentados nos bancos que ficavam ao pé da escada na faculdade. O encarei e tentei ao máximo dar o melhor sorriso que eu conseguiria e neguei com a cabeça, mas a verdade é que tudo estava péssimo. Eu sentia o abraço dele me sufocar e eu sentia todos que passavam por nós me encarando e me julgando como se soubessem exatamente o que eu tinha feito naquele dia. O que eu tinha feito com o melhor amigo do meu namorado. E, o pior de tudo, que eu havia gostado de ter feito. – Eu consigo sentir daqui sua cabeça trabalhando, . – Insistiu, mas sem perder a leveza na voz que ele sempre tinha, piorando tudo dentro de mim. Talvez, eu devesse contar tudo naquele momento. Olhando para aqueles olhos alegres e destruir a manhã de uma pessoa que só se preocupava comigo, talvez eu devesse fazer isso e depois ligar para a minha mãe em busca de algum colo, mas só ouvir o desprezo. Talvez, essa fosse a única coisa que eu merecesse de qualquer pessoa, já que eu havia traído a única que me amou. Talvez, eu só tivesse que falar as três palavras “eu traí você” e só assim, talvez, eu conseguisse o que eu sempre mereci; a solidão.
... – Comecei a dizer baixo e levei meus olhos ao chão, mas antes que eu pudesse continuar, senti o garoto ao meu lado me cutucar e o encarei confusa.
— Parece que o nosso queridinho finalmente apareceu depois das festas de final de ano. – Franzi o cenho, mas segui o olhar de até o grupo de pessoas que havia acabado de chegar e foi quando eu o vi, pela primeira vez, após o incidente. E, claro, o rei do campus não poderia estar sem alguma rainha. E ela era linda e sorridente ao lado do garoto que estava com um sorriso tão grande quanto o dela. – Ele é tão previsível, não é? – Perguntou risonho, mas meus olhos ainda estavam grudados na cena quase romântica na minha frente. – Mas o que você iria falar? – Voltou sua atenção à mim e eu o encarei de volta, tentando não parecer tão abalada quanto eu estava por dentro.
— Estou só estou enlouquecendo com o livro e com o trabalho final. – Falei rapidamente, pareceu acreditar, pois, logo, ele estava sorrindo abertamente e puxando meu rosto para um beijo singelo na testa.
— Você é incrível, não há nada para se preocupar. – Sorri verdadeiramente, mesmo que a culpa me corroesse por dentro, eu estava feliz naquele momento com o braço dele envolta a minha cintura. Tudo estava dentro do que deveria ser. Aquilo não era uma história na qual a principal era perfeita e conseguia ser plenamente feliz. Isso não existe na vida real. Ninguém é perfeito ou plenamente feliz. Eu era uma mentirosa e egoísta demais para querer terminar com a única coisa capaz de me fazer ficar minimamente bem. Mesmo que tudo parecesse certo com nós dois, eu sempre iria sentir que não era bom o suficiente. Não era certo como eu achei que o amor seria. Mas era o que eu merecia, era o máximo que eu poderia ter e eu o amava. Eu aprendi a amá-lo. – Eu amo você. – Sorriu segurando com uma das mãos meu rosto e olhando no fundo dos meus olhos, eu desviei um pouco o olhar para baixo, mas ainda estava lá, naqueles momentos, a certeza da escolha certa que fazia meu coração palpitar mais rápido. – Pra sempre, . – Levantou meu rosto devagar e me beijou levemente sobre os lábios. Apenas como um lembrete. Uma lembrança.

Atualmente.



. – Ouvi Ella chamar assim que passei por sua mesa, mas eu não podia parar, eu sei que se eu fizesse isso, se alguém sequer perguntasse se eu estava bem, eu sabia que eu iria explodir. Eu iria terrivelmente colocar tudo pra fora, tudo que eu guardei por todos esses anos e eu não podia. Não com ela, pelo menos, mas John provavelmente não estaria no apartamento e a única coisa que iria me restar seria chorar sozinha pela trigesima vez depois que eu cheguei àquele lugar. – , eu preciso...
— Eu sei, tudo bem? – Virei-me rapidamente fazendo com que Ella parasse de andar atrás de mim. – Eu estou demitida e você precisa fazer o seu trabalho, mas não hoje, por favor. – A encarei praticamente implorando para que ela não tentasse conversar naquele momento.
— Eu só queria saber como você estava. – Disse calmamente. – Ele não vai realmente te demitir, quer dizer, vocês estão brincando de gato e rato desde que você chegou aqui. Ele vai mudar de ideia como sempre, seja lá qual foi a briguinha de vocês dessa vez. – Ela deu de ombros e sorriu tentando me tranquilizar, eu diria, mas era diferente daquela vez e até mesmo ela sabia disso.
— Você sabe que não é simples dessa vez. – Levei meu olhar para as minhas mãos.
— Sabe o que eu sei? – Voltou a olhar para ela. – Eu sei que você mudou o desde que chegou aqui. Eu cheguei num ano muito conturbado, , ele era recluso, não falava com ninguém, era uma secretária diferente a cada duas semanas e sem contar as vezes que ele faltava reuniões por causa de ressaca. Ele parecia destruído e ele só passou a melhorar após muito tempo, sequer conversava com alguém, ele só chegava e ia para sua sala. Até você aparecer. – Apontou para mim, empurrando meu ombro de leve com o dedo. – Ele melhorou mais com você aqui em poucas semanas, do que fez durante quatro anos.
— É por isso que eu estou indo, Ella. – Tentei soar a mais centrada possível, quando tudo o que eu queria fazer era desmoronar. – Se eu continuar aqui, sabe que ele vai voltar ao que ele era antes.
— Vocês... – A interrompi rapidamente.
— Eu não posso explicar, mas eu só não posso ficar aqui e fazer o que eu estou fazendo com ele, Ella, não é justo com ninguém. Eu não posso continuar errando desse jeito. – Já sentia minha voz ficar embargada. – Eu ligo para cá amanhã para você resolver minha demissão, mas eu preciso ir embora. – Parei. – Definitivamente, dessa vez. – Disse ao vê-la abrir a boca para dizer algo.

Abril, 2012



— Você precisa se acalmar, amor, você vai acabar criando um buraco no chão. – Senti as mãos de me puxarem para sentar no seu colo, fazendo com que eu parasse de andar de um lado para o outro pela sala. Faltavam poucos minutos para a minha primeira sessão de autógrafos do meu livro e o pavor de não ter ninguém era terrível demais para eu lidar com aquilo.
— Estou atrapalhando o casalzinho? – Ouvi dizer e colocar apenas a cabeça para dentro da onde estava. Rolei os olhos e levantei de onde estava assim que senti rir e acenar para que ele entrasse. – Como você está? – Perguntou se jogando no pequeno sofá do outro lado da sala.
— Quem te deixou entrar? – Ignorei sua pergunta e eu já podia sentir meus problemas se multiplicando ao ver aquele típico sorriso de lado que apenas ele conseguia dar.
— Privilégios de ser melhor amigo do noivo da autora. – Eu podia sentir observar tudo que estava acontecendo, mas eu também sei que ele não podia sentir tudo o que estava por trás daquela frase e no modo que ela foi jogada no ar, ou pelo menos, esperava que não.
— Vou usar do meu privilégio como autora e te colocar para fora daqui, , você não foi convidado. – Respondi séria e ganhei apenas um aceno de cabeça e um sorriso contido como resposta.
— Tudo bem, . – Levantou-se, levantando a mão em rendição.
— Ei, , senta aí. – Foi a vez de se levantar e ficar atrás de mim. – Vocês costumavam ser amigos, , não precisa ser tão grossa com ele. só está sendo idiota e querendo tirar você do sério porque é divertido.
— Não é divertido fazer isso logo hoje. – Olhei incrédula para logo virando minha atenção para o homem em pé na minha frente com as mãos no bolso do casaco. – Porque você não faz o que você melhor sabe fazer e desaparece por não sei... – Fingi estar pensando. – O resto da minha vida.
— Ela está nervosa, , nós nos falamos depois. – Pousou suas mãos nos meus ombros e seu amigo só assentiu mais uma vez e saiu sem dirigir seu olhar até mim por uma ultima vez. – , o que foi isso? – Afastei meu corpo dele e foquei meu olhar no sofá agora vazio.
— Eu só estou nervosa, , não é nada demais. – Respondi tentando soar convincente e não tão mentirosa como eu realmente deveria me sentir, mas não sentia. Mentiras já haviam se tornado um grande clichê na minha vida. – Eu preciso ficar sozinha por um tempo, por favor. – apenas passou por mim murmurando um “tudo bem” e assim que a porta se fechou, eu pude soltar o ar que eu prendi desde que apareceu naquele lugar. Desde que ele reapareceu na minha vida depois de dois anos longe.

Atualmente



Assim que eu abri a porta do meu apartamento esperando encontrá-lo, a única visão que eu tive foi a que eu já estava acostumada a ter desde que eu havia me tornado dona daquele lugar. John estava jogado no sofá apenas olhando para o teto com os braços cruzados. Eu poderia me acostumar com aquela vida, por poucos segundos eu consegui ver tudo aquilo funcionando. Eu teria um dia caótico com e no final, iria apenas desabafar com John enquanto comia qualquer porcaria calórica que eu havia me permitido comprar no caminho para não morrer de fome, é claro, não que isso fosse possível para alguém que já tinha até mesmo seu nome numa lápide.
— Não esperava ver você aqui, John. – Comentei fechando a porta atrás de mim , jogando a bolsa de qualquer jeito no chão e caminhando até o meu amigo, tirando os pés dele do sofá e me sentando.
— Eu que não esperava encontrar você aqui. – Sentou-se endireitando seu corpo. – Não é nem hora do almoço ainda. – Soltei um sorriso sem humor e abaixei minha cabeça em direção às minhas pernas cruzadas em cima do sofá. – Ei, o que rolou?
estava lá com ele. – Respondi sem encará-lo. – Eu fui demitida.
... – Sua voz, apesar de soar baixa e até mesmo fraca, ainda transparecia uma calma que eu nunca teria na minha vida, uma calma que eu nunca tive, mas senti em poucos momentos.
— Está tudo bem. – O encarei tentando soar forte. – Eu estou bem sobre isso, sabe? Eu não podia mais ficar lá de qualquer forma, John, não por mim porque não faz mais diferença, eu estou morta, mas por ele, entende? está vivo e eu não posso mais fazer isso com ele.
, você não pode desistir dele. – Disse e eu neguei levemente, tentando ao máximo segurar as lágrimas dentro do meu corpo, eu havia prometido para mim mesma que eu não iria mais chorar.
— Eu só estou fazendo a mesma coisa que ele fez, John. – Parei. – Ele desistiu de tudo antes, eu só estou indo embora como ele escolheu fazer anos atrás quando poderia ter ficado.

2010, abril



— Mãe? – Atendi confusa ao ver o numero do visor no celular. Ela nunca me ligava, nem em aniversários. Nunca. No máximo, uma mensagem nada calorosa dizendo um “parabéns” apenas como um roteiro que ela deveria seguir para poder dizer que era uma boa mãe para as amigas, mesmo que fosse a maior mentira de todas. Então eu não esperava algo bom daquela ligação no meio da tarde de um sábado. Eu não esperava que nada de bom soasse daquele tom de voz frio que eu conhecia tão bem e que foi um dos maiores motivos para que eu me mudasse assim que a oportunidade surgiu. Nada. Eu nunca esperei nada. E quando ela disse aquelas palavras, pela primeira vez, eu só queria que ela estivesse brincando comigo. Uma péssima e terrível brincadeira de mal gosto apenas para me assustar, apenas para ser a péssima mãe que ela sempre foi para mim. Eu só queria que ela estivesse tentando soar malvada como todas as outras vezes. Só para me culpar, apenas isso. Eu só queria que ela estivesse mentindo exatamente como ela fazia nas festas da escola ao me abraçar. Eu só queria que ela estivesse mentindo quando disse que meu irmão havia morrido.
E pela primeira vez, eu senti a morte de alguém. E era uma dor que eu nunca havia sentido e eu morreria apenas para não precisar sentir. A dor de perder a única pessoa que parecia gostar de mim, mesmo que com pequenos gestos e pouco contato. A visão que eu tinha do quadro com os cartões-postais estava ficando embaçada com as lágrimas saindo antes que eu pudesse tentar segurar só para que ela não me ouvisse do outro lado. Ela sempre odiava quando eu chorava, mas logo o som do telefone havia terminado e tudo o que eu tinha agora era o som abafado do meu choro naquele quarto recheado de lembranças. Eu não pensei muito ao pegar o celular jogado na cama atrás de mim e mandar uma mensagem de texto para a única pessoa que eu sabia que poderia fazer eu me sentir melhor naquele momento. Pelo menos, para que eu me sentisse menos sozinha. Eu só não queria estar sozinha como eu estive minha vida toda.
... – Ouvi uma voz surgir da porta e eu já sabia de quem era sem ao menos precisar prestar atenção. Corri até ele e o puxei para dentro, me jogando nos seus braços sem me importar se alguém veria abraçando a namorada do melhor amigo dele de forma tão desesperada. – Ei, calma, o que aconteceu? – Suas mãos faziam carinho no meu cabelo e meu coração estava tão apertado que eu não conseguia pensar em mandá-lo parar, pois aquilo não parecia errado. Aquilo me fazia bem e eu queria que ele continuasse assim para sempre. – , você precisa me dizer o que aconteceu! – Perguntou com o tom baixo e preocupado. – Foi o ? – Neguei rapidamente com a cabeça apoiada no seu peito e senti ele me puxar para a cama. – Você quer que eu ligue para ele? Eu sei que ele vai pegar um avião e voltar assim que você pedir. – Mais uma vez, eu apenas me limitei em negar com a cabeça que ainda estava na mesma posição mesmo que agora eu estivesse sentado ao seu lado. – Eu não gosto de te ver chorando, por favor, o que aconteceu? – Perguntou novamente puxando meu rosto carinhosamente para cima para que eu pudesse encará-lo. – Por favor. – Eu senti seus grandes e brilhantes olhos sobre mim e analisando todo o meu rosto em busca de alguma resposta.
... – Engoli o choro que ainda insistia em vir tão duramente e respirei fundo para que pudesse respondê-lo. – Meu irmão morreu. – Dizer aquelas simples palavras em voz alta era tão ruim quanto ouvi-las da primeira vez. Tornava tudo tão real quanto.
— Amor, eu sinto muito. – Ouvi-lo me chamar daquela forma não deveria ter tido o efeito que teve, em meio a tudo aquilo, eu quase consegui sorrir. Eu voltei à posição que estávamos antes, sentindo logo seu carinho. – Desculpa. – Murmurou e eu apenas assenti, mesmo que eu quisesse apenas pedir para que ele não se desculpasse. Eu só queria dizer que estava tudo bem. – Eu acho melhor ligar para o . – Fez menção em se levantar, mas eu logo o segurei.
— Não. – Disse rapidamente, ganhando um olhar confuso. – Eu não quero que ele precise voltar da viagem da família dele. – Pedi, ganhando apenas um aceno como resposta. – Se você não quiser ficar, tudo bem, mas, por favor, não chame ele. – pareceu concordar, pois logo ele estava relaxado de novo sentado ao meu lado. – Você se importa de passar a noite aqui comigo? Eu não quero ficar sozinha. – Eu não queria parecer tão triste e desesperada pela sua companhia, mas eu precisava das mínimas coisas boas que ele fazia comigo. Eu só queria que ele ficasse por um dia e que eu pudesse sentir isso.
— Eu faço o que você quiser, . – Respondeu como um mínimo sorriso, logo se levantando e afastando o lençol um pouco para que pudéssemos deitar. Eu o ajudei a arrumar a cama em silêncio, as lagrimas ainda saíam, mas de forma mais contida. Eu sabia que ninguém entraria naquele quarto. E eu sabia que ele não iria se importar em me ver chorar. – Você tem certeza disso? – Assenti e ele repetiu o meu gesto. Deitei antes dele, mas logo pude vê-lo tirar o casaco grosso lentamente, eu tentei muito virar meu olhar para outro lado. Lentamente, ele se deitou do meu lado, ficando na mesma posição que eu. A cama era de solteiro e mesmo que tentássemos nossos braços ainda encostavam levemente um no outro. – Eu sinto muito pelo seu irmão, , ele gostava de você. – Parou e eu senti seu olhar sobre mim, mas permaneci olhando para o teto branco, sentindo meu rosto molhado ainda. – Ele não iria querer que você ficasse triste, sabe? Tudo bem você sofrer, quer dizer, não está tudo bem você sofrer... – Parou rapidamente e voltou a sua posição de antes. – Eu só sinto muito mesmo.
— Eu não tinha muito contato com ele. – Disse já um pouco mais calma. – Na verdade, nenhum além dos presentes que ele me dava, mas eu sinto como se a única pessoa que gostasse de mim de verdade não está mais aqui. Eu não tenho mais ninguém para ligar e agradecer pelos presentes de aniversário, eu não tenho ninguém mais para sonhar entrar comigo na igreja no dia do meu casamento. , eu não tenho mais nada.
— Você tem o . – Sussurrou e se não fosse a proximidade e o silencio do quarto, eu nem poderia afirmar que ele realmente disse aquelas palavras.
— Ele vai encontrar alguém que mereça ele mais do que eu. – Disse já sentindo meu coração se apertar de novo. Eu não merecia alguém como , nunca mereci e todos pareciam fazer questão de me lembrar disso com os olhares maldosos pelo corredor da faculdade. E estando ali com o melhor amigo dele, após tê-lo beijando meses antes, só provava isso para mim mesma. – Eu estou mais sozinha do que sempre fui.
— Você sempre vai ter a mim, . – Olhou para mim e eu o encarei de volta, assustada com aquelas palavras. – Eu sempre vou estar aqui para você. Eu prometo não deixar você. – Senti sua mão procurar a minha entre os nossos corpos e elas logo se entrelaçaram. Nossos rostos não estavam mais tão distantes como antes e a sua outra mão tirava lentamente uma mecha do meu cabelo do meu rosto. – Posso? – Pediu e eu concordei rapidamente, naquele minuto era a única coisa que importava. Nós. O irreal que nunca poderia se tornar real naquele mundo, não com aquelas vidas, não comigo sendo a namorada do seu melhor amigo. Mas tudo isso se tornava apenas uma nuvem de incertezas perto do sentimento que ele causava ao juntar nossos lábios. Nada parecia ser mais certo do que sentir seu beijo e sua mão no meu rosto tão levemente. Uma bolha fina e inacessível acabava de ser formada em volta de nós dois e eu nunca quis tanto que o tempo parasse quanto naquele momento. – Eu te amo. – Sussurrou entre o beijo. Logo, eu já estava em baixo dele e segurando a barra da sua camisa branca que eu tanto quis tirar tantas vezes que eu o vi a usando. E foi o que ele fez sem muita pressa. Tudo era terrivelmente e incrivelmente lento entre nós dois. O medo de quebrar aquele momento, o medo de cair da corda bamba que era a nossa relação, o medo de dar um passo em falso e destruir tudo e, principalmente, o fato de ter o medo de aquela ser a primeira e única vez que teríamos nossos momentos destemidos juntos faziam com que a gente só quisesse que durasse o máximo possível.
E durou. Pelo resto da noite, apenas o som abafado dos nossos gemidos puderam ser ouvidos no quarto. Nada mais. Nenhum arrependimento, nenhum medo e nenhuma culpa. Apenas a certeza que aquilo parecia ser o certo. E foi, pelo menos, para mim. Para ? Não parecia ter sido porque assim que eu senti a luz do sol entrar pela janela, eu senti a cama vazia ao meu lado. Apenas resquícios de uma noite que nunca aconteceria de novo, apenas um lençol branco e frio cobrindo meu corpo nu. Procurei pelo celular na escrivaninha ao lado da cama sem ainda levantar e o encontrei. Já eram quase onze da manhã. Nenhuma mensagem. Nenhum bilhete. Nada. Algo dentro de mim já estava prestes a quebrar tão violentamente como ontem. Coloquei apenas a mesma blusa que eu estava ontem e lentamente digitei o numero do . Está tudo bem, eu repeti para mim mesma. Ele disse que ficaria comigo. Para sempre. Ele nunca me deixaria sozinha. Tudo era um terrível looping na minha cabeça enquanto eu ouvia o som saindo do celular avisando que a ligação havia caído na caixa-postal. Está tudo bem, . Ele não iria te deixar sozinha, não depois de ontem. Não depois de tudo. Horas passaram, ligações foram perdidas, tudo se perdeu em longos minutos e longas vezes que eu quase implorei para que ele me ligasse para dizer que estava tudo bem. Ele disse que estaria, então porque a única coisa que eu sentia era que tudo nunca mais ia ficar bem depois de ontem?!
Ouvi batidas na porta e, após longo tempo, respirando com dificuldade, eu consegui sorrir e me acalmar. Só podia ser ele, talvez com um café e um pedido de desculpas, dizendo que o celular havia descarregado. Seu sorriso e nada mais. E a possibilidade de criar algo, lutar por aquilo e enfrentar tudo para repetir o que aconteceu ontem. Coloquei a primeira calça de um pijama qualquer jogado no guarda-roupa e até arrumei um pouco meu cabelo. Respirei fundo e abri a porta, mas logo eu senti a bolha estourando definitivamente e toda a nevoa estava de volta ao lugar a qual ela pertencia.
— Surpresa! – disse com seu sorriso brilhante. Eu não pude evitar procurar alguém parado com as mãos no bolso do casaco atrás dele. Eu não pude evitar procurar como ele sempre estava quando seu melhor amigo ia me visitar. – Eu queria fazer isso de um jeito mais romântico, só que o resolveu ir viajar logo hoje, então vamos apenas com o clichê, certo? Já que ele é a única pessoa que toparia tocar violão de graça.
viajou? – Perguntei atônita. Eu não poderia ter soado tão quebrada como naquele momento, mas não pareceu perceber, pois ele só deu de ombros e se ajoelhou no corredor. – O que... – Eu nunca achei que pudesse sentir tantas coisas ao mesmo tempo, mas eu sinto que poderia desmaiar a qualquer momento. Tudo girava e eu não ouvia mais uma palavra que dizia, tudo o que minha mente conseguia processar era o som de gritos que eu soltaria se pudesse. Eu só queria gritar e pedir para que aquilo parasse. Aquilo precisava parar. Eu precisava parar de sentir o mundo girando tão rápido ao meu redor. Foi quando o garoto loiro à minha frente puxou um anel do bolso que eu pude perceber o que ele estava fazendo. Naquele momento, eu fiz a única coisa que eu poderia fazer. Eu parei, respirei fundo e fiz a única escolha certa que eu poderia fazer. Eu me agarrei a única coisa que eu ainda tinha. A única promessa que alguém não iria quebrar. – Sim. – Saiu da minha boca tão lentamente que eu só percebi o que havia feito quando senti seus lábios no meu. O mundo havia parado de girar. Os gritos não soavam mais na minha mente. Nada mais acontecia. Eu sentia como se tudo estivesse morrendo naquele exato momento. Tudo estava morrendo dentro de mim. Ele havia me deixado porque era isso o que eu era para ele: nada além de uma de todas as outras conquistas que ele tinha. Tudo estava morrendo porque tinha destruído tudo ao ir embora. Porque assim como meu irmão, ele também havia saído da minha vida para sempre. Em especial, do meu coração.


QUINZE.

— Ei, , como você está? – Ouvi John perguntar se escorando na porta do quarto. Já era de noite, quando eu comecei a escutar barulhos na sala e descobri que meu amigo estava de volta, infelizmente, ele parecia pior do que quando havia me deixado sozinha. Até mesmo sua voz estava mais baixa do que o normal.
— Melhor do que você, eu acho. – Respondi me ajeitando na cama para poder ficar sentada e encarar meu amigo melhor. – Eu deveria me preocupar, John? Porque eu realmente não quero ter que lidar com isso também. – Implorei ganhando apenas um sorriso singelo sem mostrar os dentes.
— Sabe, , eu sempre achei que você se preocupava muito com todo mundo e nunca com você. – Cruzou os braços até o caminho da minha cama, onde se sentou ao meu lado e me encarou. – Eu me lembro dos seus primeiros meses na Central, você era um caos naquele lugar. Você fingia ser legal comigo apenas para eu contar como estava.
— Você demorou pra me ajudar. – O lembrei e ele riu assentindo.
— Realmente, Mark me mataria se soubesse que eu estou interferindo em algo. Principalmente, em relação a você. – Terminou deixando a voz sumir. – Você não é tão durona como quer parecer. E eu não estou falando isso porque você praticamente chorou todos os dias desde que chegou aqui. – Comentou rindo e eu logo o segui. – Na verdade, isso te torna a pessoa durona que você quer tanto ser. Quer dizer, quem na sua pele não iria chorar todos os dias? Eu, provavelmente, iria me esconder no banheiro e inventar alguma piada sem graça com algum trocadilho. – Parou por breves segundos. – O que eu estou querendo dizer é que você precisa parar de se preocupar com os outros. , e até eu mesmo. , você precisa fazer o que você acha que é melhor para você e quem liga para as consequências? – Perguntou apontando para o nada. – Eu acho que ninguém vivo nesse quarto se importa. – Sorriu orgulhoso e eu também, pois aquele era um ótimo trocadilho e eu sei o quanto ele havia pensado naquilo.
— Da última vez, que eu fiz isso, eu acabei transando com o melhor amigo do meu namorado. – O lembrei.
— E você gostou, não foi? – Respondeu e eu o empurrei levemente tentando ao máximo me manter séria. – Você fez o que queria fazer, , não se culpe por isso.
— É meio difícil quando essa escolha destrói a vida de tanta gente. – Comentei cabisbaixa, mantendo todo meu foco em minhas mãos. – Tudo estaria bem se eu não tivesse feito aquilo, e eu tenho que conviver com isso pra sempre.
— Você não estaria bem, sabe disso, não é? – O encarei, assentindo quase que de forma imperceptível. – Algumas escolhas não são fáceis de serem feitas, mas isso não significa que você não precisa fazê-las, na verdade, geralmente, elas são as que nós temos que fazer inevitavelmente em algum momento.
— Por que você está falando essas coisas? – Perguntei o olhando um pouco confusa com toda aquela conversa, apesar de ser típico do John sempre estar com seu tom amigável e conselheiro.
— Não é nada. – Riu de uma forma um pouco exagerada, até mesmo nervosa, eu diria. – Só estou dando conselhos diários. – Puxou minha mão para segurá-la calorosamente. – Conselhos diários do melhor ajudante que você conhece.
— John. – Disse, encarando nossas mãos entrelaçadas. – Não há nada para se preocupar, certo? – Voltei meu olhar para o homem com um rosto tão jovem à minha frente. Ele sempre pareceu ser mais novo do que realmente é, mas algo nele sempre me tornava a adolescente cheia de medos que eu era anos atrás antes de conhecer . Era como se eu só precisasse da ajuda dele sempre. Qualquer coisa que eu fosse fazer, eu só precisava perguntar “é esse o certo, John” e ele sempre sorria e começava uma grande conversa existencial.
— Sempre há coisas para se preocupar. – Arregalei meus olhos em surpresa. – Relaxa, , o nome científico para isso é vida, pelo o que eu me lembro. – Riu e eu soltei nossas mãos. – Tudo vai terminar bem, não é? Histórias sempre terminam com um final feliz. Até mesmo aquela que alguém precisa morrer para isso, no final, era tudo parte de algum ensinamento profundo.
— Já estamos mortos. – O lembrei e ele apenas assentiu lentamente. – Acho que só falta o ensinamento profundo então.
— E o beijo do casal principal. – Deu uma leve risada e eu o empurrei com a perna para beirada da cama.
— Cala a boca. – Disse ganhando uma risada mais alta do Ajudante. Logo sua risada perdeu o som e ele pareceu parar por um breve momento, como se não tivesse mais forças. – John. – Chamei e sentei rapidamente na cama, tocando suas costas que estavam mais frias que o normal, ele nunca pareceu tão pálido de repente. – Ei, John. – Chamei novamente com um pouco mais de desespero e assustada, mas ele só sorriu minimamente como se fizesse força para se manter ali. E, pela primeira vez, eu senti tudo se esfriar dentro do quarto. Era um frio congelante como se tivessem aberto à janela, mas ela permanecia fechada e a cortina sem nenhum sinal de ventania.
— Eu... Eu estou bem. – Falou com a voz mais rouca e baixa que o normal. – Eu preciso ir. – Pediu ainda parecendo abalado. Eu nem ao menos tive chance de pedir para que ele ficasse e logo só havia o som da minha respiração no quarto vazio e a temperatura ambiente já estava normal de novo. Continuei encarando o local onde meu amigo estava sentado e rindo há poucos segundos antes de tudo terrivelmente mudar. Engoli o choro que havia se formado na minha garganta e voltei a me deitar, apenas encarando o teto branco. “Tudo vai terminar bem” repeti para mim mesma tentando me acalmar sobre o que estava acontecendo e tentando, inutilmente, apagar um lado do meu cérebro que gritava o quanto aquilo não estava bem. Não era normal. Gritando que aquilo era a “consequência”.

Dezembro, 2012.


Eu olhava minha visão no espelho e o vestido branco dentro da capa pendurado atrás de mim era apenas tão assustador quanto à imagem de uma igreja lotada esperando o meu final feliz. Um final que eu nem sabia se queria tanto assim agora, mesmo que isso tivesse sido o que eu mais pedi por toda a minha vida. Um noivo que me ama, uma boa carreira com literatura, um apartamento bom e um possível sorriso orgulhoso da minha mãe. E mesmo com todo esse lindo azul, com toda essa beleza digna de um arco-íris, ainda teria uma nuvem cinza me lembrando do quanto eu tive que fazer para conseguir aquilo, do quanto eu tiver que mentir e quem eu tive que enganar para ter chegado até aquele altar. Ele sempre estaria ali. Em todas as festas, em todos os jantares importantes, em todos os momentos que alguém importante precisa estar, ele estaria porque ele era importante. E por mais que eu tentasse, eu não poderia mentir para aquele reflexo e dizer que ele era apenas importante para o meu noivo, mas ele também era importante para mim. sempre estaria presente para me lembrar de tudo, não apenas fisicamente, mas também na minha mente como ele estava desde o dia que ele apareceu, como uma cicatriz que nunca poderia ser curada.
Continuei olhando para o espelho e eu não era mais a adolescente de anos atrás, eu era uma adulta na véspera do casamento. Isso era tudo o que eu tinha naqueles segundos olhando para meus olhos. Eu já havia perdido os minutos que eu havia estado ali levando o olhar do chão até o vestido, do meu rosto ao pequeno porta-retratos ao lado da cama com uma foto minha e do . Olhei para o relógio na parede e ele já marcava mais que meia-noite, oficialmente aquele era o dia do meu casamento. Soltei o ar que estava segurando, e quase que instantaneamente o barulho do celular vibrando na cama soou por todo quarto, virei-me esperando encontrar o nome do no visor, mas era apenas seu melhor amigo. Ele, provavelmente, avisaria que ele não iria voltar para casa, já que eles estavam juntos como algum tipo de despedida entre eles dois. Virei o celular para baixo e esperei que ele parasse de vibrar. Falar com era a ultima coisa que eu poderia processar naquele momento. Sentei-me na beirada da cama e olhei para o piso gelado, logo, ouvindo o telefone vibrar novamente. Eu não poderia ouvir sua voz, não naquele dia, não sabendo que ele estava lá. Eu não conseguia não sentir ódio dentro de mim toda vez que ele apenas dizia meu nome. Ódio por todos os dias que ele não ligou, ódio por todas as manhãs que ele não deu sinal de vida, ódio por todas as ligações rejeitadas, cartas rejeitas, e-mails rejeitados, por toda a rejeição no único momento que eu precisava dele. Por todos os dias, desde que ele me deixou sozinha, ele matou lentamente todas as melhores e escassas lembranças que eu tinha dele.
A vibração do telefone não parou nem por um minuto. Eu o encarei, respirei fundo e talvez eu precisasse fazer aquilo. Eu teria que lidar com pelo resto dos meus dias desde hoje. Eu não tinha para onde correr.
— O que você quer? – Disse assim que coloquei o celular na orelha. Eu esperei sua resposta, mas apenas sua respiração poderia ser ouvida por mim. – , o que você quer? – Repeti focando em cada palavra lentamente. E, pela primeira vez, eu ouvi algo parecido como um choro vindo do garoto do outro lado da linha.
— Eu sinto muito, . – Disse com a voz embargada e algo dentro de mim, que eu nem sabia que estava lá ainda, quebrou-se instantaneamente, mas eu apenas respirei fundo e afastei todos aqueles pensamentos.
— Você está bêbado? – Perguntei tentando parecer o mais rude que eu conseguia, mesmo que eu só quisesse pedir para que ele parasse de chorar. – Eu vou desligar...
— Eu contei tudo. – Interrompeu-me e eu parei de respirar por breves segundos apenas sendo observada pelo meu próprio reflexo atônito. – Eu não queria, , mas eu só não consegui... – O seu choro ainda aumentava cada vez mais, mas eu só conseguia segurar o telefone, nenhum som saia da minha boca. – Nós estávamos bêbados, acabamos discutindo por coisas idiotas e quando eu vi, já era tarde demais...
— Bêbados? Tarde demais? – Levantei-me rapidamente enquanto gritava com no telefone. Eu precisava encontrar , mas antes eu precisava olhar nos olhos de seu melhor amigo e simplesmente perguntar o porquê de dizer aquilo depois de tantos anos, de tanto tempo. – Você estragou tudo porque estava bêbado? – Disse incrédula, mas antes que ele pudesse responder, eu terminei. – Não sai desse apartamento, eu preciso olhar para você quando você disser que estragou a vida do seu melhor amigo e a minha também porque é isso o que você faz, , você destrói coisas. Sempre. Não fuja dessa vez.
, por favor. – Desliguei o celular e não me preocupei em leva-lo comigo, apenas o joguei na sala antes de fechar a porta atrás de mim. Antes que eu seguisse pelo corredor, encostei minhas costas na porta e segurei o choro o máximo que eu pude. Eu mal conseguia imaginar o olhar decepcionado e triste de ao ouvir da boca de seu melhor amigo que ele havia dormido com sua namorada. Tudo havia acabado. O vestido de noivo estendido no quarto agora era apenas um vestido que nunca seria usado. havia destruído tudo exatamente como da ultima vez quando foi embora para outro país. E só agora a ficha havia caído. Só com a primeira lágrima descendo pelo meu rosto, eu consegui perceber que tudo havia acabado. deveria estar me odiando no momento. não era apenas mais uma nuvem cinza, ele havia se transformado no céu escuro e violento de uma tempestade inesperada.

Atualmente.


Olhei para o pequeno relógio em cima da cabeceira ao lado da cama, esperando que já estivesse passado tempo o suficiente para John concertar seu problema e voltar. Eu só precisava que ele aparecesse de surpresa com um grande e característico sorriso, apenas brigando comigo por ainda estar do mesmo jeito patético desde que ele havia ido embora. Mas ele não apareceu. O silencio dentro daquele apartamento fazia com que eu quisesse gritar apenas para não parecer tão solitário. Apenas para não parecer como os lugares afastados da Central; escuro, silencioso e morto.
Silencio esse que foi quebrado pelo som de batidas rápidas e insistentes na porta. Algo dentro de mim já sabia quem poderia estar fazendo isso no inicio de uma madrugada e essa mesma metade não queria ter que lidar com isso naquele momento, pois ele apenas gritava “cuidado”. Então eu apenas fiquei lá deitada, esperando que as batidas parassem, esperando que ele fosse embora de uma vez, porque eu sabia o final daquilo caso eu o deixasse entrar e, eu também sabia que não era algo com que eu conseguiria lidar.
Não aconteceu como eu esperava, as batidas na porta não cessaram nem mesmo após minutos. Elas diminuíram, mas ainda permaneciam ali. Joguei a coberta para longe de mim e sentei-me na cama com os pés já se encostando ao chão gelado. Eu precisava mandá-lo embora definitivamente. Alguém precisava encerrar aquilo alguma hora. Eu estou morta. Eu não sou a , as coisas não funcionavam assim. Elas eram o que deveriam ser.
Levantei-me rapidamente e andei até a sala sem me preocupar como eu estava; de pijamas e com o cabelo bagunçado. Não haveria conversa. Não iria demorar muito, eu só precisava acabar com o sofrimento de nós dois da melhor forma e da maneira mais saudável possível.
... – Disse antes mesmo de ter aberto a porta completamente, mas logo fui surpreendida por um corpo caindo mole em cima de mim e o segurei o mais rápido que pude apesar da surpresa. – Ei... – O chamei, mas ele apenas entrelaçou suas mãos na minha cintura e eu pude sentir todo o odor de bebida que vinha dele. A roupa era a mesma desde que eu havia saído da empresa mais cedo. – Ei, ... – O homem, que era maior do que eu, apenas agarrou-se mais em mim e eu lentamente nos levei até o sofá, sem antes bater a porta do apartamento com os pés e fechá-la.
— Você não pode me deixar de novo, . – Sua voz estava mais rouca e baixa que o normal, eu nem poderia dizer se ele sabia onde estava já que seus olhos permaneciam fechados desde que eu o vi. Eu não fazia nem noção de como ele havia coseguido chegar lá naquele estado. Tirei o cabelo que caía em sua testa e sentei-me ao seu lado após retirar seu sapato e meia. – Eu amo você...
... – Tentei fazê-lo acordar de seus devaneios, mas ele nem ao menos fez menção de abrir os olhos. – está morta. – Lembrei, não apenas para ele, mas para mim mesma. Eu estava morta. era apenas o corpo de uma garota qualquer que estava livre para eu usar. Não era nada além de um corpo morto. E não apenas ele precisava entender isso, eu precisava também.
não respondeu como eu achei que fosse. Nós estávamos num completo silencio apenas sentados um ao lado do outro, braços se tocando, respirações lentas e calmas como se aquilo fosse apenas uma noite normal como todas as outras. Já fazia algum tempo que eu havia parado de encarar o teto para virar minha cabeça e ficar o olhando dormir. Ele parecia completamente sereno como se não houvesse nenhuma preocupação em sua mente.
— Eu sinto muito. – Murmurei e seu rosto virou-se lentamente para o meu lado e seus olhos abriram um pouco. Não demorou muito para que eu sentisse uma das suas mãos acariciar minha bochecha e eu fechei meus olhos por breves segundos. Ele fazia de forma tão delicada que era como se ele tivesse com medo que apenas com um movimento brusco, eu desaparecesse da frente dele. Era como se ele soubesse. – ... – Tentei chamá-lo, mas antes que eu pensasse em abrir meus olhos, eu o senti próximo a mim. Mais próximo do que ele deveria ficar. Mais próximo do que era seguro para qualquer um de nós dois. E ainda assim, a última coisa que eu pensava era em fazê-lo parar.
— Eu te amo. – Ouvi sua voz baixa e sonolenta dizer. Não demorou muito para uma forte e revigorante sensação se apoderar do meu corpo ao sentir seus lábios sobre os meus. Era uma sensação diferente. Beijar sempre foi como fazer algo sabendo que tudo poderia acabar logo em seguida. Era como beijar alguém sabendo que aquela seria a ultima vez. Beijar sempre significou dizer adeus. Mas eu aceitava, eu sempre aceitei porque no final, sempre valeria a pena sentir meu coração bater tão rápido. Sentir seus lábios movendo tão lentamente, sentir seu toque, sua respiração. Sentir. Estar vivo. Eu sentia estar viva naquele momento, até que seus lábios ficaram gelados rapidamente, sua mão caiu do meu rosto e eu me lembrei. Eu não estava viva. sim, mas eu era apenas um corpo morto sugando suas energias.
Afastei-me rapidamente olhando para seu corpo jogado no sofá. E eu só pude gritar. Eu gritei por socorro, por ajuda, por qualquer pessoa que pudesse salvá-lo. A voz de John surgiu no fundo da minha mente. Tudo havia terminado tão rápido quanto começou.
! – Gritei apenas torcendo que algo acontecesse, mas seu corpo permanecia parado. – Por favor, não. Não faz isso. Por favor. – Eu já sentia as lágrimas correndo pelo meu rosto e minha visão ficar embaçada. Busquei com o olhar o telefone por toda a sala e corri para pegá-lo o mais rápido possível. – Não, por favor, , não faz isso comigo. Eu sinto muito. – Disquei o numero da emergência enquanto tocava seu rosto cada vez mais gelado. – Eu preciso de ajuda. Por favor, eu preciso de uma ambulância. Rápido. – A voz do outro lado apenas pedia para que eu me acalmasse, mas as lágrimas não paravam. A culpa. A raiva. A tristeza. Tudo estava sendo extravazado a cada segundo que eu o via naquele sofá. – Por favor. – Respondi todas as suas perguntas sobre o endereço e desliguei o telefone sem me importar em dizer mais nada. – , não me deixa. Eu sinto muito por tudo. Eu amo você. – Repetia incansavelmente esperando que ele acordasse e dissesse que tudo ia ficar bem. Ele não me deixaria de novo. – Eu te amo. Eu escolhi você, eu amei você por todos esses anos, . Por favor, sou eu, . – Eu esperei, mas ele não abriu os olhos nem por uma vez em todos aqueles dolorosos minutos no qual apenas meu choro poderia ser ouvido por todo apartamento. Meu desespero em cada palavra. Em cada pedido para que ele voltasse. O barulho da ambulância surgiu e não demorou muito para que minha sala fosse tomada por pessoas retirando do sofá e o colocando na maca. Eu observava tudo sem dizer uma palavra. A cabeça estava entre minhas mãos e tudo o que eu ouvia era meu choro e diversas vozes ao fundo. Era assim que tudo iria acabar. Eu sentia como se nem ao menos eles estivessem me ouvido. Toda a cena aconteceu como um filme. O seu corpo sendo carregado para fora, a porta sendo deixada aberta e apenas o silêncio. Até que eu vi tudo apagar à minha volta. Aquele era o nosso ultimo adeus.


Dezembro, 2012.


— Então, , posso te chamar assim, não é? – Virou a cabeça para trás para me encarar e eu dei de ombros, eu não me importava muito em como ele me chamaria naquele lugar, existiam coisas mais relevantes para se importador do que aquilo. – Okay, , nós temos algum tipo de código de sobrevivência aqui na Central. – Dizia enquanto andava lentamente na minha frente e sempre dando rápidas olhadas para trás.
— Não é sobrevivência se já estamos mortos. – O interrompi, pela primeira vez desde que ele havia começado a falar há alguns longos minutos. O garoto à minha frente apenas deu uma leve risada e acenou com a cabeça.
— Resposta perspicaz. – Disse olhando para mim e resquícios do sorriso ainda estavam lá em seu rosto, em nenhum momento ele parecia parar de sorrir. – Mas digamos que não seja sempre a nossa sobrevivência, quer dizer, no seu caso, no meu seria a minha, mas enfim vamos focar em você. – Parou parecendo um pouco confuso, mas logo voltou a andar e eu o segui. – O que eu quero dizer é que existem regras, entende? São apenas métodos para evitar que todo mundo saía por aí querendo visitar as pessoas que amavam na terra.
— Tem como visitá-los? – Parei rapidamente de andar e o perguntei surpresa, mas sem deixar escapar o tom um pouco mais feliz que surgiu na minha voz. Talvez eu conseguisse reencontrar e dizer que não era como havia dito, talvez se eu pedisse desculpas, talvez ele entendesse.
— Não é assim que funciona, . – Pela primeira vez, ele não parecia tão sorridente desde que eu o havia conhecido e, logo, a pequena faísca de felicidade também havia se apagado tão rápido quanto surgiu. – Nós não voltamos com menos de dez anos de experiência na Central e boas resoluções de casos, e ainda assim esse tipo de situação é muito especial. Além do mais, eles nos colocam longe dessas pessoas, mas ainda assim por mais experiência e tempo que nós temos, alguns que conseguem voltar à vida simplesmente esquecem todo o treinamento e vão em busca de quem amam então, bem, é preciso evitar riscos desnecessários. Por isso, nós temos regras. – Explicou-me, encarando com um olhar acolhedor e até mesmo triste, eu o encarava com a maior força que eu poderia fazer para não começar a chorar ali mesmo. – Regras para a sobrevivência deles no seu caso. – Terminou desviando sua atenção de mim, mas rapidamente levantando sua cabeça, a agitando e voltando com a mesma feição leve e descontraída que ele tinha momentos antes, mesmo que parecesse menos verdadeira naquele momento. Ele não pareceu apenas receoso em contar todas aquelas coisas, mas também chateado por ter que fazer. – Enfim, onde nós estávamos? – Perguntou começando a andar na minha frente e ele quase conseguiu arrancar um sorriso meu.
— Por que você parece tão animado para alguém que está morto? – Limitei-me a perguntar, vendo todos em volta tão sem vida, tão branco, tão claro, mas ao mesmo tempo parecendo tão morto quanto poderia ser. Nenhum sorriso, nenhuma conversa parecendo animada o suficiente para fazer aquele lugar parecer acolhedor, apenas o garoto com cabelos arrumados em um sutil e pequeno topete negro sorrindo.
— Porque eu gosto de você. – Respondeu rapidamente sem olhar para mim. E, apesar de surpresa, eu não pude deixar de evitar ficar feliz ao ouvir aquilo.
— Você não me conhece. – O lembrei, mas ele não pareceu se abalar, pois apenas deu de ombros e continuou andando. – E as últimas pessoas que disseram isso para mim não terminaram com uma historia muito boa para contar.
— Bem, eu já morri, não é mesmo? O que pior poderia acontecer agora? – Virou-se rapidamente para responder com um leve sorriso e eu apenas o respondi com um leve aceno e sorriso também.
— Quais são as minhas regras? – Perguntei com o tom de voz um pouco mais amigável.
— Ah, sim, para isso que estamos aqui. – Pareceu se lembrar de algo e logo estávamos em um espaço silencioso e sozinhos com pequenos bancos brancos espalhados. O garoto sentou-se e, apesar de um pouco receosa, eu sentei ao seu lado. – É muito normal ter pessoas como você aqui na Central, . Pessoas que deixaram alguém importante na terra, pessoas que eles amam e são ligadas de alguma forma romântica, e, bem, para Anjos é uma situação um pouco mais complicada do que para nós, meros Ajudantes. – Parou apenas para me encarar, já que até aquele momento seu rosto estava virado para frente. – Se você me perguntar se eu amo alguém que eu deixei, eu diria que eu nem sequer lembro-me dessas pessoas. Eu sei que elas existem, eu sei que eu deixei pessoas que eu amo, mas eu não sinto nada, qualquer sentimento que eu poderia sentir por elas apenas foi apagado quando eu virei um Ajudante. Não é importante que a gente saiba como é amar alguém romanticamente, nós não precisamos disso. Nós precisamos ajudar pessoas, nós precisamos sentir por elas, não por nós mesmos. – Eu o encarava atenta e até um pouco triste. Eu tentava reconhecer algum tipo de tristeza em seu olhar, mas não havia nada. Talvez eu quisesse aquilo também, talvez eu não quisesse sentir mais. – Vocês precisam disso. Vocês precisam ter esse amor dentro de vocês, e muitas vezes, quando Anjos voltam à terra, isso tudo fica fora de controle. – Desviou rapidamente seu olhar para o chão e logo voltou a me encarar. – Por isso, o afetado pela regra não são vocês, mas sim os humanos que vocês amam. Se um Anjo beijar um humano por muito tempo, ele morre.
— O quê? – Perguntei atônita. Aquilo era muito mais do que eu conseguia lidar em tão pouco tempo. Há poucas horas atrás, eu estava olhando para o espelho em casa e agora eu estava morta e conversando sobre regras que caso não fossem cumpridas poderiam matar alguém. – Isso é loucura. – Levantei-me do banco lentamente, começando a andar na frente de John, que permanecia sentado e me seguindo com o olhar. – Então a pessoa simplesmente morre? Simples assim? – Disse sem parar de andar. – Isso é loucura. Isso é cruel com as pessoas. Vocês são doentes. – Gritei sem me preocupar se alguém iria escutar ou não. Eu não dava a mínima para o que as pessoas iriam pensar sobre mim naquele momento. Eu só precisava descontar toda minha raiva e frustração que parecia ter alcançado o limite com aquela informação.
, isso é só para manter as coisas como elas são. Além do mais, tem momentos que o Anjo consegue parar antes, mas isso é raro de acontecer. Aqueles que conseguiram salvar as outras pessoas apenas fizeram com que elas simplesmente enlouquecessem e não é tão melhor do que a morte. Ninguém acredita quando você diz que beijou uma pessoa que morreu. – Sua voz apesar de soar triste, nem por um momento pareceu perder o controle. – E ainda assim, eu já vi as coisas saírem do controle por aqui. Nós estamos mortos agora, seja lá o que a gente tinha, nós não temos mais. Acabou. Nós não podemos sair por aí fingindo que as coisas não aconteceram. Que não existem consequências para alguns atos. Eu sei que é difícil, mas é o que é.
— Cala a boca. – Virei-me para ele rapidamente. – Você não faz ideia do que é isso. Você mesmo falou; você não sabe mais o que é amar, então não venha dizer como é difícil.
— Touché. – Sorriu tristemente e eu consegui perceber o quanto eu estava agindo de forma estúpida com a única pessoa que parecia se importar comigo há anos.
— Eu... – Parei e fui me sentar ao seu lado. – Eu sinto muito, eu não queria dizer isso. – Levantei meu olhar, que até aquele momento estava perdido em minhas mãos, até o garoto ao meu lado.
— Está tudo bem, eu consigo imaginar que seja bastante difícil para você. – Disse me encarando. – Vai ficar tudo bem, . As coisas sempre terminam bem. – Assenti sem acreditar muito naquelas palavras e ele não continuou a falar. Apenas ficamos nós dois lá parados na companhia um do outro.


DEZESSEIS – PARTE UM.

Meus olhos se abriram abruptamente e eu esperava encontrar a Central, mas ainda era a sala do apartamento escura, sendo iluminada apenas pelos raios solares que começavam a aparecer pelas frestas da persiana. Não era como se eu quisesse encarar alguma coisa naquele lugar, eu ainda não podia acreditar que aquilo estava acontecendo, que aquilo aconteceu. Eu senti a vida dele se esvaindo em minhas mãos e eu me senti mais forte, eu me senti mais viva. Eu mal consigo pensar no que aconteceria se aquele beijo durasse mais do que durou, tudo estaria acabado. Tudo.
. – Ouvi um sussurro vindo de trás de mim e me virei rapidamente, e foi quando eu vi tudo desmoronando ao meu redor. Corri até chegar ao John estirado ao chão. Encarei seus olhos quase totalmente negros, não havia mais quase nenhum ponto branco, tudo havia sido tomado por uma cor negra. O olhei assustada, mas ele apenas sorriu. John só me olhou e moveu seus lábios em um simples sorriso, mas ainda dava para ver a dor. Abaixei-me para ficar ao seu lado e coloquei sua cabeça na minha perna, e não demorou muito para eu sentir minha garganta fechando e as lágrimas sendo formadas.
— O que aconteceu? – Perguntei, sem tirar meus olhos do garoto abatido e deitado no meu colo. Eu não precisava de nenhuma resposta para saber exatamente o que estava acontecendo, mas eu ainda esperava que ele negasse. Eu só precisava de uma palavra e eu poderia parar de segurar o choro dentro de mim e sorrir. Eu só precisava que ele dissesse que estava bem. E tudo ficaria bem, pois era assim com John. Ele sempre deixava tudo bem.
— Eu... Eu quebrei as regras. – A voz dele era tão baixa e rouca. A primeira lágrima já caía pela minha bochecha até chegar à mão de John. – É o que acontece. – E eu chorei. Sem me segurar dessa vez, eu sabia o que estava acontecendo. Eu entendia o que era aquilo e eu não podia fazer nada contra isso. Nada. Abracei o John, enrolando meus braços na sua cintura, sentindo a sua característica blusa branca ficar molhada com todos os meus altos murmúrios e soluços. – Está tudo bem. – Disse, tentando soar mais firme, mas não era nada como a voz dele. Não era nada animado, energético, divertido como John sempre foi. Tinha algo em sua voz que sempre soava feliz, como se ele sempre estivesse feliz, mas não agora. Sua voz era fraca, baixa, sem emoção e quase quebrada. As palavras saíam com dor. A mesma dor que era liberada com as minhas lágrimas. A mesma dor que eu sentia dentro de mim. Toda a dor que é possível de um corpo sem vida sentir. Tudo ali doía. Dor. Dor. Dor. Era a dor de perder alguém. A dor de uma queda que você não podia evitar. A dor de sentir uma vida sendo perdida. A vida do seu melhor amigo. Uma vida que valia mais do que tudo para mim. John é tudo que mantém uma parte de mim viva. Uma parte que valeria a pena viver. Essa parte era John e agora eu podia sentir essa parte morrendo. E doía tanto. Não doía morrer. Não doeu quando eu senti o baque do carro. Mortes não eram dolorosas para pessoas que não cometiam erros em vida. Morrer não dói, é o que eu responderia caso alguém me perguntasse, mas aquilo estava doendo. Aquilo doía mais do que qualquer coisa. – Eu sinto muito... Você precisa ficar forte, . Ter você perto de mim tornou a morte um lugar muito melhor. Você é minha irmã.
— John... – O chamei ao sentir seus braços ficando cada vez mais moles ao meu redor. Seus olhos castanhos estavam quase completamente escurecidos e ele se apoiava no meu corpo de novo, ficando de costas para mim. – John... – O desespero de ver seus olhos fechando e o sorriso se desmanchar lentamente.
Me perdoa... – Ouvi sua voz cada vez mais fraca e só assenti desesperadamente. Eu não queria despedidas, eu não queria ouvi-lo dizer nada e ter que gravar cada palavra como se aquelas fossem as ultimas. Eu não queria que sua voz soasse assim nas minhas últimas lembranças. – Eu amo você...
— John... – Gritei, o sacudindo, esperando que ele só abrisse os olhos e sorrisse por uma ultima vez. – Eu te amo, John, por favor... – E acabou. Todo o simples movimento que eu ainda sentia das suas mãos segurando as minhas tinham acabado. Aquele era só mais um corpo sem vida como todos os outros. O abracei, sentindo tudo dentro de mim se quebrar tão rapidamente e duramente quanto era possível, pela segunda vez, em pouco tempo. Eu estava morrendo pela terceira vez. . . E agora John. O silêncio dava espaço apenas para meus gritos, choros e soluços inconsoláveis, pedindo para que ele voltasse. Eu só precisava que ele voltasse para mim. Eu só precisava dele. Eu precisava da única coisa que deixava minha cabeça para fora do limite da água. – John... – Gritei pela última vez, mas assim como todas outras, não teve nenhuma resposta, apenas meu corpo reagindo com mais lágrimas. Seu corpo ficava cada vez mais leve no meu colo e eu não me surpreendi quando ele já não estava mais ali. John não existia mais. John era só mais uma parte da minha vida que não voltaria. John era só mais um personagem morto nessa história. Arrastei meu corpo até a parede mais próxima e chorei, porque aquela era a única coisa que eu tinha naquele momento. Eu havia perdido a ultima coisa que me restava. Eu havia perdido meu melhor amigo e agora só restava as lágrimas e toda a dor que aquilo poderia causar. John era o sol de toda a minha vida e agora ele se foi.

~*~


A sensação não era nova para mim. Eu me sentia do mesmo jeito que eu me senti no meu primeiro dia como Anjo. Aquele era um incrível e infeliz deja-vu. Até mesmo a dor era a mesma de anos atrás, a qual tornava tudo pior. Eu só não queria sentir mais. Eu só queria desintegrar, ficar sem energias, sumir... Eu só queria não existir. Mas, por algum motivo, aquilo era muito difícil para mim. Talvez eu apenas tivesse que pagar por um castigo. Talvez eu fosse fadada a conviver com aquele aperto no peito pelo resto da minha existência, e eu teria que lidar com isso. Apenas lide, . Lide com isso como você lidou sua vida inteira.
— Eu sei que você já está acordada. – A voz do Mark soou perto de mim, mas eu não queria abrir os olhos e dar de cara com a claridade. Eu não queria mais aquela luz branca e morta dizendo que eu ainda precisava passar por aquilo. Eu queria o escuro. Eu queria o preto. Eu queria não enxergar nada a minha volta. Um vácuo. – ...
— Por que eu ainda estou aqui? – Perguntei, o interrompendo. Minha voz estava mais grossa que o normal, ela soava como antigamente, eu poderia sentir minha garganta seca. O ar não entrava mais e eu estava naquela linha tênue de novo, entre o vivo e o morto. Eu era um Anjo de novo. Um Anjo com direito ao meu corpo antigo e todas as suas cicatrizes, sejam elas as que eu adquiri no acidente ou até mesmo as que eu consegui como . E essas últimas estavam abertas ainda, ardendo e machucando todas as vezes que eu me lembrava da voz de desesperada, implorando para que acordasse.
— Porque você não terminou seu caso. – Disse e eu ri. Uma risada totalmente irônica e sem humor algum apenas saiu de mim sem que eu evitasse. Era uma risada que não soava há muito tempo vinda de mim. Mas Mark me deixava a beira da loucura e toda aquela palhaçada da vida-após-morte apenas trazia o pior de mim embrulhada em sarcasmo. “Não seja tão má com tudo, .” A voz de John soou no fundo da minha mente e eu já sentia vontade de chorar de novo. Eu poderia chorar tanto ou mais que eu chorei no dia que eu cheguei aqui. E, no final, eu perceberia que não teria nenhum sorriso irritante para dizer que eu estava morta. E eu perceberia o quanto aquele lugar parecia mais morto do que antes sem John. O quanto eu parecia mais morta sem ele.
— Você o matou. – Deixei as palavras saírem lentamente da minha boca. Tão lentamente quanto eu podia. Eu queria apenas que a verdade fosse jogada na cara daquele homem e doesse. Era apenas para machucar. Eu só queria que ele sentisse qualquer coisa, mesmo que eu soubesse que não se aproximaria nem um pouco do quanto eu estava machucada. Mas eu queria que alguém dissesse isso ao Mark. Ele precisava saber que eu sabia a verdade. Ele o matou. – Você deu a arma e a bala para alguém que não iria se preocupar em atirar em si mesmo. – Abri meus olhos e por mais que doesse a claridade tão forte no meu rosto, eu não os fechei ou fiz qualquer movimento para que doesse menos. Eu só queria sentir qualquer dor que me esquecesse daquela que estava no meu coração. Era apenas uma distração. Mas não durou por muito tempo, e logo as vozes de trouxeram a real dor à tona de novo.
, eu não fiz nada que ele não tenha me pedido. – Pela primeira vez, levantei meu corpo para que encarasse o homem de cabelos grisalhos e feições duras me encarando atentamente. Ele realmente acreditava que não era culpado por tudo aquilo, mas ele era. Mas é claro que ele não iria sentir nada com aquela culpa. Eu nem acreditava que ele tinha um coração. Mark nunca foi alguém bem vindo para mim. Por algum motivo, eu apenas queria gritar com ele todas as vezes que seu olhar era direcionado a mim. – Mas você não está aqui por isso, . Você está aqui porque chegou a hora de você descobrir toda a verdade. – Sua voz séria e firme me despertou para aquele lugar e, por breves minutos, eu não me lembrava mais das coisas que haviam acontecido. Eu estava em sinal de alerta. Passei meu olhar por todo o cômodo e ele não era tão diferente dos outros locais da Central. As paredes eram num branco incomodo que poderiam deixar qualquer um louco, mas assim que eu senti um baixo som de click, um grande painel que cobria toda a parede atrás de Mark surgiu. Era como uma daquelas telas de cinema. Não era nada que eu já tivesse visto naquele lugar. Mark virou-se de costas para mim e caminhou para perto do telão que parecia desligado. – Esse é O Painel. – Disse, mas ainda sem tirar seus olhos fixos do objeto. – Série 20142312. Caso Ajudante. Nome: . – Eu não precisava entender o que era toda aquela parafernalha à minha frente, ou todos aqueles números, para saber que ele iria me contar algo sobre o meu Ajudante. Eu iria saber quem foi. Antes que eu pudesse pensar em colocar meus pés para fora daquilo que parecia ser uma maca e ir até ele, Mark virou-se para mim segurando uma injeção muito parecida com a que injetaram em mim antes de eu virar . Foi impossível não afastar meu corpo o máximo que eu podia para longe dele, que já estava bem perto de novo, a sala não era tão grande como eu pensava, as paredes brancas deveriam dar uma ilusão de grandeza inexistente. Eu segurava minhas pernas perto do meu corpo e tentava ocupar menos espaço possível, como se tentasse adiar o que eu saberia que aconteceria. Talvez fosse aquele o fim. John, talvez, tenha passado por aquela sala antes de sumir realmente. Então, eu relaxei. Aquele era, finalmente, o fim para mim. Tinha acabado e eu poderia descansar. Estendi meu braço em direção ao Mark, como se o pedisse para que apenas enfiasse aquilo logo, e ele fez. Não tinha gritos, socos, buzinas ou qualquer coisa como todas as outras vezes que eu havia apagado. Apenas os olhos. Eles sempre estariam ali.

~*~


— Ela está pronta? – Vozes? Foi a primeira coisa que passou pela minha cabeça. Eu não tinha conseguido ainda. E eu conhecia aquela voz. É claro que conhecia, era a voz do Mark. Eu estava pronta para abrir meus olhos e gritar com ele. Gritar e talvez até tentar socar aquele homem e inserir muitos palavrões enquanto fazia isso, mas principalmente dizer “Por que essa merda não acaba logo?”. E eu faria, se uma risada tão conhecida por mim não fizesse eu me levantar e abrir os olhos rapidamente, que definitivamente me deixaria tonta, se eu não estivesse morta. E logo eu estava de pé, olhando para a cena mais esquisita que eu achei que veria na minha vida. Era John.
— John. – Gritei e corri para me aproximar dele, que sorria abertamente, mas era como um terrível holograma. Minha mão atravessou seu corpo e o sorriso não deixou seu rosto. E foi quando o choque fez com que meu olhar passasse por tudo à minha volta. Aquele lugar. Aquele jardim, as risadas, a escadaria que dava no prédio branco recém-pintado. Eu estava na minha faculdade.
— É claro que sim. – A voz do meu amigo fez com que eu o voltasse a encarar. Eu sorri. Foi inevitável, o sorriso que surgiu nos meus lábios. Era tão bom vê-lo ali sorrindo, animado como se tivesse feito a maior descoberta do século. Como se ele tivesse me ganho em qualquer jogo. Como ele sorriu da ultima vez que eu vi. – Ela só brilhou, Mark. Eles brilharam, na verdade. Foi lindo. Eu poderia fazer isso pelo resto da minha existência, ajudar as pessoas. – O sorriso de John crescia a cada sentença e Mark colocou a mão em seu ombro, como se o parabenizasse por algo. – Eu vou sentir falta dela, mas foi um ótimo primeiro caso. Eu estou feliz que eu tenha começado com alguém tão divertido. – E minha feição fechou automaticamente. A verdade me atingiu como eu queria que tivesse atingido Mark mais cedo. E doía. Exatamente como eu pensei que fosse doer nele, mas era em mim. John era meu Ajudante. Eu fui seu primeiro caso. Essa descoberta rondava a minha cabeça, impedindo-me até de seguir os próximos passos dos dois parados na minha frente. E foi quando algo chamou minha atenção. Algo que sempre chamaria a minha atenção. Mesmo que todo o mundo à minha volta estivesse desmoronando, exatamente como naquele momento, ele ainda seria capaz de me fazer voltar. . E eu não pude impedir meus pés de me levarem até o garoto encostado no muro. As mãos nos bolsos, os amigos o cercando, o sorriso despreocupado, a risada espontânea que o fazia jogar a cabeça para trás. Eu estava parada de frente para ele. Mas, é claro, ele não me via. apenas ria tão alto e divertido que eu morreria para saber o que fez com que uma das cenas mais bonitas acontecesse. – Olhe o que vai acontecer. – A voz de John tirou-me do devaneio e eu quase perdi o momento exato em que parou de rir e uma garota com cabelos loiros, vestida simples e agarrada nos seus livros passava rapidamente na frente do grupo de amigos e dos dois homens vestidos de branco. Ela não pôde perceber quando a seguiu com os olhos. Quando ele parou de rir para prestar atenção nos poucos segundos que ela ficou na sua linha de visão. Ela não se lembraria daquele dia. E eu sabia disso, eu tinha certeza, na verdade, porque eu era aquela garota. E eu não me lembrava dos olhares do e nem do pequeno sorriso que se formou nos seus lábios a me ver passar. E eu não pude pensar muito, antes de sentir meu corpo sendo jogado para trás, com uma força desproporcional, fechando os olhos e esperando a dor do baque em algo.
Dor que nunca chegou, e logo eu já estava na sala branca de novo, parada exatamente como estava antes de tudo mudar à minha volta. Mark estava parado, estático, como se nada houvesse acontecido e eu foquei meu olhar no Painel que estava apagado de novo. Então eu voltei meu olhar ao homem a minha frente e gritei. Eu gritei o mais alto que eu podia, porque eu precisava que aquilo só saísse daquele corpo tão desgastado que eu carregava como um fardo. Eu só queria gritar por socorro, mesmo sabendo que ninguém iria me salvar. Eu só queria que ele sentisse o mínimo de pena de mim e parasse com aquela tortura. Eu não precisava de nada daquilo, ver aquelas cenas ou qualquer coisa. Eu precisava morrer. Definitivamente, dessa vez.
— Por que você está fazendo isso comigo? – Perguntei com a voz embargada, levando meu olhar até ele que, por breves momentos, pareceu se sensibilizar com a garota quebrada implorando um pouco de paz. – Pare, por favor. – Pedi com um último sussurro. As forças já estavam se esvaindo. Eu estava cansada de lutar.
— Eu sinto muito, . – Mark se aproximou da onde eu estava e eu não neguei quando ele me puxou para um abraço desajeito. Eu não o abracei de volta, mas eu não queria mais do que algo para me encostar e chorar. – Você precisa saber de tudo e só assim você saberá o que fazer. – Murmurou contra o meu cabelo. O abraço dele não era nada reconfortante. Seu corpo era gelado, era a temperatura real de todos os corpos que estavam ali por muito tempo, mas a dele parecia pior. Eu me afastei rapidamente.
— Eu não quero saber nada, Mark, eu só quero acabar com isso. Por favor, me deixe ir embora. – Pedi por ultima vez, mas ele não me respondeu, apenas gesticulou um “sinto muito” com a boca e se virou para O Painel como da ultima vez, deixando-me ali, parada. Ele disse números como da ultima vez e eu esperava ouvir meu nome soar na sua voz dura e robótica de novo, mas ele não disse. Mark pareceu respirar fundo e dizer um vibrante e seco , que reverberou por toda a sala. – Não se aproxime de mim. – Disse rapidamente, quando Mark se virou segurando uma nova seringa. – Mark, seja lá qual forem seus joguinhos...
, eu fui o seu Anjo. – A voz dele fez com que minha boca fechasse rapidamente, eu o encarei incrédula. Nem se eu quisesse dizer algo, eu conseguiria. Era a mesma sensação de ser puxada de antes, mas dessa vez para uma realidade diferente e horrível. Mark se aproximou mais e eu não fiz movimento nenhum para me esquivar, mas quando eu achei que ele iria pegar meu braço para injeta-lo, ele só olhou para mim e cruzou as mãos nas costas como se tentasse fazer com que eu ficasse menos encolhida. – Mas antes de tudo, eu fui o Anjo da sua mãe. – Mais um baque, eu permaneci parada, o encarando atônita, esperando que ele continuasse. – E eu estraguei tudo com ela. Eu só precisava de mais um caso para me aposentar definitivamente, e eu gostava do que fazia, mas eu era um Líder e não queria mais ter que lidar com aquilo. Sua mãe não pareceu um caso difícil, na verdade, foi bem rápido e esse foi o problema. Eu não ponderei nenhum aviso do Anjo do seu pai dizendo que não era a mesma coisa para ele. Sua mãe havia se apaixonado perdidamente, e era a minha chance de terminar logo e bem, eu não precisei fazer muita coisa. Sua mãe o amava e era tudo. Eu já tinha bastante voz na Central, o Anjo do seu pai apenas concordou porque ele era um caso difícil e cansativo. Eu prometi que ela faria com que ele a amasse com o tempo...
— Mas ela não fez. – Completei quando sua voz sumiu em um sussurro e ele assentiu. Meu pai nunca amou minha mãe, mas ainda assim, nada fazia com que eu entendesse o que tinha a ver com aquilo tudo. Com aquela historia merda de família que eu tinha.
— Então sua mãe ficou grávida de você e eu achei que seria o melhor final para minha carreira. Eu havia conseguido e fui embora ao dia dessa noticia. Eu só voltei nove meses depois, para ver o amor que eu havia formado materializado em você. Essa é uma das grandes maravilhas de ser um Anjo. – Um sorriso simples nasceu nos seus lábios, logo se desfazendo. – Mas seu pai não estava mais lá. Ele tinha abandonado você e sua mãe e, por algum motivo, eu percebi. Ele não gostava dela, ele não entendia porque estava ali, mas eu entendia, porque fui eu que fiz com que ele ficasse. E quando ele foi embora, sua mãe ficou devastada. Ela não cuidava de você ou, se cuidava, era tão desleixada e sempre culpando o pequeno bebê sorridente, que não tinha culpa de nada. O único culpado fui eu. Sempre. E eu monitorei você por todos os seus dias, vendo o quanto a sua mãe te culpava por algo que não estava ao seu alcance, por algo que eu tinha feito apenas por ser egoísta. E aí quando chegou a hora de você ter um Ajudante, John era um recém-chegado, mas ele só tinha aquela áurea. E eu era um Líder antigo, ninguém sabia do meu erro, ninguém perguntava. Depois que você conclui um caso, você não volta para ele, mas eu voltava para o da sua mãe por culpa. Eu voltei por todos esses anos. Então eu consegui indicar John para você. Ele estava animado com tudo, tentaria fazer o seu melhor e era o que você merecia: o melhor. – Mark não parava nem um por segundo, ele despejava tudo como se precisasse fazer isso por muito tempo. – E ele conseguiu. Você se tornou uma bela menina e com belas escolhas, até que ele me disse que você tinha se apaixonado. O tipo de amor que faria qualquer pessoa ter inveja. Era o seu amor verdadeiro. E eu peguei seu caso para mim, eu precisava me redimir com você e tirar essa culpa de dentro de mim, então eu apenas peguei o seu caso como um caso especial e, mais uma vez, ninguém me parou. Líder tem suas regalias. Mas quando eu vi , eu vi o seu pai. E eu não poderia admitir que você ficasse devastada como sua mãe ficou, eu precisava terminar aquele ciclo. E sempre foi um caso difícil, até mesmo para os Ajudantes, mas quando o seu ultimo chegou para dizer que ele estava pronto e o primeiro Anjo dele assumiu, eu ainda fiquei com medo. Você só consegue seu Anjo quando você está pronto para amar, quando você está pronto para o amor, e quando ele viu você, percebeu que ele estaria pronto para amar alguém como você. Mas ele já havia ficado com tantas outras pessoas, ele era tão parecido com seu pai, que eu não poderia acreditar que ele mudaria por você. Seu pai não mudou pela sua mãe, mesmo ela o amando verdadeiramente. Eles nunca mudam. Até que apareceu. Ele já tinha um Anjo por um tempo, mas nada foi muito intenso, até que eu conversei com o que cuidava dele e concordamos que seria perfeito. É claro, eu havia escondido o fato de você já ter encontrado seu amor. Você amaria ...
— Eu o amei. – O interrompi. Toda aquela historia passava na minha cabeça unida a todos os flashbacks dos momentos que eu tinha com a minha mãe, enquanto ela gritava comigo, me culpando por ter destruído sua vida, seguida pelas cenas com e com . Era tudo um filme estranho que parecia finalmente fazer sentido.
— Sim, você o amou. – Concordou sem emoção. – Mas você sempre percebeu que não era o seu amor. E não era, . Aquele amor era o que eu queria que você sentisse por ele. E não foi difícil fazer vocês dois ficarem juntos, vocês eram perfeitos. Você começou a acreditar que para amar as pessoas deveriam ser iguais porque, bem, era isso que eu precisava que você acreditasse. Eu precisava ser aquela voz no fundo da sua cabeça dizendo que você não podia terminar como a sua mãe. Então eu soube que, mesmo quando aparecia e você sentia algo, mesmo quando aquele amor pleno parecia surgir dentro de você quando o amigo do seu namorado aparecia, mesmo assim, eu saberia que você nunca o trairia. Então eu fui embora. Você era feliz com e ele nunca a abandonaria.
— Até que eu morri. – Disse, sabendo exatamente como aquela história terminava.
— Sim, até que você morreu. Eu não seguia mais seu caso, eu precisava ficar de fora da sua vida agora. Mas quando eu vi seu nome nos recém-chegados, eu percebi que eu tinha falhado com você de novo, exatamente como da última vez, porque ainda não era a sua hora. A única diferença era que você não estava nascendo para que eu descobrisse isso, e sim morrendo. E eu surtei, . Pela primeira vez, desde que eu havia morrido, eu apenas surtei. Eu chorei e se não fosse John, eu teria desistido de tudo ali mesmo, ao ler seu nome naquela lista de pessoas mortas, porque eu a havia matado e eu sabia disso. Eu sabia que a culpa era minha. – Era a primeira vez que eu via Mark demonstrar qualquer tipo de emoção e eu não poderia imagina-lo chorando. Nunca. Mas ali, vendo aquele senhor com cabelos grisalhos me encarando como se estivesse confessando o pior crime, fez com que eu ficasse quase mal por ele. – Eu não precisava pedir para John ir falar com você, ele iria mesmo se eu não pedisse, principalmente porque enquanto eu chorava, eu o contei tudo exatamente como estou fazendo agora. Ele amava você. Um verdadeiro irmão, . Vocês tinham essa ligação de irmandade. E quando ele saiu para ir ver você, eu fiz a ultima coisa que eu poderia fazer de errado. Eu precisava ficar perto de você, cuidar de você e fazer com que você encontrasse aquele brilho no olhar apaixonante de novo. Eu coloquei você para o meu departamento de Anjos, mesmo sabendo que sua vocação era ser um Ajudante. Você não era um péssimo Anjo porque queria, só não era da sua natureza. E então eu iniciei o meu ultimo plano para me redimir com você. Eu esperaria você aceitar sua nova vida e, quando isso acontecesse, você iria voltar para começar algo que já deveria ter acontecido há muito tempo se eu não tivesse impedido. Você iria voltar a ser humano e eu sabia que ele se apaixonaria por você, porque sempre foi você. Era por isso que ele era um caso impossível, porque você era a única pessoa que ele poderia amar. Você ainda é.
— Nada disso muda o fato dele ter me deixado naquele dia. – O encarei, tentando ao máximo manter minha voz firme no meio de todas aquelas revelações. John iria gostar que eu me mantesse sóbria durante tudo aquilo. Eu podia fazer isso. Eu consegui imaginar meu amigo parado ao lado do homem, apenas sorrindo acolhedor para mim, mas ele não estaria lá. Nunca mais. E eu precisava passar por isso sendo forte por ele. – me deixou porque quis. Eu teria desistido do , você sabe disso, Mark. Não estava mais em suas mãos. Eu iria embora com ele. Talvez ele não me amasse o suficiente naquela época, talvez tudo que ele sinta agora seja culpa. – As palavras começaram a sair emboladas e rápidas da minha boca, de forma confusa. – Talvez...
— Você precisa entender algumas coisas, . – Interrompeu-me, fazendo com que eu o olhasse novamente. A mão que segurava a mesma seringa que antes estava estendida. E eu entendi o que ele queria que eu fizesse.
— Por que isso é importante agora? – Perguntei com a voz baixa. – Eu o beijei. está morto. Nada disso importa agora. Tudo que aconteceu, a forma como aconteceu, o que eu vi ou deixei de ver, nada disso importa, Mark. Nada. Acabou. – Gritei, empurrando sua mão para longe. – Só me deixa em paz, por favor, se algum dia você verdadeiramente se preocupou comigo, apenas me deixe ter essa existência em paz. Eu não tenho mais ninguém que eu amo. Eu preciso sobreviver sem John, sem o meu melhor amigo. Eu estou sozinha, por favor, pare. Eu estou implorando, me desligue de uma vez. – Mark me encarou como qualquer pessoa encararia uma imagem de uma garota desgastada fisicamente e psicologicamente que suplicava para sumir. Ele me olhou com pena, não antes de puxar meu braço rapidamente, aproveitando que eu não tinha forças nem ao menos para negar. Logo eu senti tudo escurecer à minha volta novamente, mas diferente da outra vez, não havia nada naquela escuridão. Nada para eu tentar me segurar, como uma luz. Não havia nada além de solidão.





Continua...



Nota da autora: Demorou, mas eu voltei. Antes de tudo eu devo um enorme pedido de desculpas. Eu sinto muito por ter sumido por tanto tempo, tive muitos problemas pessoais e técnicos que fizeram com que eu não conseguisse e nem me sentisse bem pra continuar escrevendo. Muita coisa aconteceu ano passado, mas dessa vez eu consigo terminar. Faltam dois capítulos pra terminar (no máximo três) e o 17 está pronto então não vai demorar muito. O final vai acontecer, eu espero que vocês não tenham desistido da história ( de mim tudo bem eu entendo). Espero que gostem. Eu sinto muito pela demora dd um ano.



Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.
Para saber quando essa fic vai atualizar, acompanhe aqui.


comments powered by Disqus