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Última atualização: 10/07/2020

Prólogo

As gotas de chuva caiam gradativamente e iam intensificando na medida em que observava o céu completamente escuro e repleto de nuvens expressivas, seu vestido branco ia molhando. As ondas do mar ricocheteavam a enorme muralha de pedra e os fones foram retirados do seu ouvido.
Anna fechou os olhos e se deixou mergulhar naquela mistura de sons. Seu corpo se deixou levar de um lado a outro enquanto ela montava uma melodia. Seus tons começavam grave, o violino se fazia presente, a cena de suspense havia sido montada diante aos seus olhos. O vento falava com as ondas, a chuva apenas limitava ainda mais a percepção da mente humana diante a tentativa para entender o que tinha acontecido.
A cena era completamente aceitável ao cinema atual. Anna, uma garota que havia fugido de casa e trajava um vestido branco, estava com uma nova coloração nas suas vestes, sozinha, ela movimentava o corpo de um lado ao outro de acordo com a música da natureza que escutava. Em cima de quase que um precipício, uma menina rodopiava e o seu vestido, demonstrando muito mais do que pensou em deixar a mostra.
Quem seria aquela garota? O que ela escondia sob o corpo magro, a pele alva e os cabelos ruivos? Seus braços iam e vinham com a leveza de uma pluma e seus pés estavam descalços.
Ao longe, um homem observava cada reação da garota. O corpo que ia aos poucos sendo moldado pelo vestido já completamente encharcado. Ele pegou a câmera e tirou algumas fotos, conseguiu captar momentos angustiantes e sombrios diante de reações tão graciosas. Ninguém ia até ali sem um proposito, aquele parapeito já tinha sido palco de muita investigação.
Tentando captar o rosto dela, ele observou que a garota não fazia parte da sua comunidade, talvez fosse alguém novo e jamais visto. Enquanto a menina ainda rodopiava sem parecer se importar com o chão incerto e os cascalhos que poderiam machucar o seu pé, ele começou a cogitar a possibilidade de ela ter vindo de um certo prédio.
E foi quando ela parou.
A menina inclinou o corpo para o lado e sem muitas delongas, voltou o corpo até onde ele se encontrava, por trás de um arbusto, acreditando estar a salvo dos olhares curiosos dela e também da chuva. Ela não disse nada e ele escondeu a câmera atrás do corpo. Ela começou a andar em sua direção e ele sentiu o corpo tremular diante da aproximação da garota, sem esperar por aquele encontro, deu meia volta e começou a correr por entre os arbustos adentrando na floresta. Seu coração batia forte e ele terminou por deixar a câmera caindo no chão, enquanto corria sem saber ao menos o porquê.
Anna parou de caminhar e negou com a cabeça, deixando que um sorriso brotasse dos seus lábios, ela voltou seu olhar ao chão, e perante as rochas em mistura com a vegetação do local, uma mancha vermelha ia se formando, correndo junto a grande quantidade de água. Seu vestido ia chegando aos poucos a sua coloração natural e o tom de branco estava voltando a ser perceptível.
Ela inclinou a cabeça para o lado, jogando os fones de ouvido o mais longe que pôde naquele momento, assim como o seu celular. Zimmer já não a contemplava com a maestria da sua trilha sonora e ela voltou o corpo ate o precipício.
A garota observou suas mãos e junto a água da chuva, começou a limpá-las. Aos poucos o sangue foi começando a desaparecer e ela se via novamente limpa. Seus olhos foram na direção da floresta e ela voltou a negar com a cabeça – Não, Anne, agora não – Anna afirmou agachando e deixando-se ajoelhar no chão, inclinando o corpo para frente e deixando suas palmas das mãos rente a vegetação – Não há necessidade de mais um agora – a menina disse sorridente.
Sem mais uma palavra, ela se movimentou e deitou o corpo, olhando para o céu. A chuva batia no seu rosto e ela abriu os lábios a fim de ingerir um pouco daquele líquido.
A sinfonia daquele ambiente ainda se fazia presente e ela poderia ficar um longo período sem proferir uma única palavra. Caso não tivesse jogado seu celular longe, poderia gravar aquele som para depois trabalhar numa mixagem, mas não estava com inspiração para tais trabalhos naquele momento.
Tinha cessado sua fome e se sentia em paz como a muito tempo não conseguia se sentir. Anna sentiu bruscamente e massageou seu braço, a dor aguda que tinha sentido foi forte o bastante para interromper aquele momento tão sublime em que se encontrava – De novo isso? Eu já falei que não existe necessidade de ir atrás dele, Anne. Ele não tirou foto nossa, calma! – A menina sorriu para frente assentindo, demonstrando firmeza nas suas palavras – Caso ele tenha registrado nós duas, eu vou brigar com ele, certo? Fica tranquila – Ela voltou a jogar o corpo no chão sendo paralisada no meio do caminho.
Anna viu a garota de cabelos longos ao lado do seu corpo, ela cravava as mãos no seu braço forte o bastante para que sua unha rasgasse a manga do vestido branco e penetrasse na unha da outra – isso está machucando, Anne! – A garota tentou se afastar, sem obter nenhum resultado – Eu invoco o Iermant – A ruiva afirmou esperta e aos poucos a outra a soltou.
Lemant era o porquê daquela amizade ter iniciado. Um Deus nórdico criado por dia, junto ao Thor e toda sua magnitude. O deus da amizade e do companheirismo. Algumas pessoas não acreditavam na exatidão daquele juramento, mas para Anna, juntamente com Anne, aquele era o motivo de estarem ali, vivas e juntas. Eternamente juntas.
– Não podemos em hipótese alguma machucar uma a outra, desde a primeira vez em que decidimos nos tornar amigas, até depois disso - Anna massageou o seu braço, erguendo o corpo e negando com a cabeça – Você consegue ser estraga prazeres quando quer, sabia? – a menina reclamou arrumando as vestes concentrada, antes de virar de costas para o mar e começar a caminhar pela floresta – Queria continuar aqui, ainda tem mancha pelo meu vestido, não está completamente limpo – ela reclamou respirando fundo – Eu sei que você é a personificação da Athena com a sabedoria e justiça, mas é necessário ter calma, eu preciso descansar – A garota comentou apenas por comentar, suas palavras não passariam de somente palavras jogadas ao vento, já que ela continuava a se preparar para fazer exatamente o que a amiga pedia.
Anna mirava um garoto que estava a mais de 500 metros de distância que corria amedrontado. Um sorriso brotou dos seus lábios e ela passou a língua pela boca, mordendo logo em seguida, ela voltou o olhar para a garota que ela via ao seu lado, beijando a sua bochecha enquanto se preparava para correr – Amigas para sempre – Ela afirmou sorrindo. Anna ergueu um pouco o vestido e mostrou a cicatriz em forma de F que tinha na coxa esquerda – Está ficando pequeno, tenho que refazer – Comentou concentrada, voltando o olhar para amiga – Já fazem cinco anos desde a última vez – Anna negou com a cabeça baixando a saia do vestido, se posicionando novamente – Quanto tempo eu tenho? Vinte minutos? – Questionou, observando – Bom, garotinho, acho melhor você correr – a ruiva afirmou enquanto corria descalça na chuva, adentrando a floresta e sumindo.
Desaparecendo completamente.


Capítulo 1

A mochila nas costas tinha suas alças torcidas a cada passo dado. Os olhos percorriam cada novo ambiente pela primeira vez, a fim de memorizar para não esquecer uma segunda vez. A bota de montaria preta tinha sido uma das suas últimas compras da sua estadia em Dublin. Suas lembranças percorriam por lugares de um passado em que ela e suas amigas costumavam caminhar pela Henry Street enquanto tomavam sorvete e faziam compras.
Até o momento em que tudo mudou.
Anna caminhava pela rua principal observando as lojas, toda cidade um pouco afastada de Dublin tinha aquele ar puro e um tanto atemporal. As ruas daquele lugar tinham pouquíssimas pessoas caminhando e aquilo soava estranho aos olhos dela. Em cada passo dado e lugar observado, a garota se deixava perceber um ponto nórdico naquele lugar, sua arquitetura, seus bares e até mesmo as casas que habitavam as ruas principais. O contraste dos veículos também era visível. Em meio a carros importados que expunham os que viviam bem, existia o contraste dos carros dos anos 80 ou 90.
Seus olhos se voltaram para o chão e ela observou uma calçada completamente diferente. As pedras pareciam ter sido colocadas propositalmente, formando uma imagem. A garota agachou o corpo e deixou que seus dedos percorressem aquela arte nórdica, teria ficado horas observando cada detalhe. Dois tons de cinza eram visíveis. A mais clara percorria o caminho total da calçada e o tom mais escuro formavam círculos e dentro desses círculos, instrumentos de luta. Anna ergueu o olhar quando escutou um movimento do grande portão sendo aberto. Ela levantou o corpo passando as mãos pela roupa observando a casa logo a sua frente.
Ali, no meio da avenida principal daquele condado de 45 mil pessoas, Anna arregalou os olhos diante do castelo medieval que ela observou. Duas torres estavam presentes e ela se sentiu induzida a voltar as épocas que tanto gostava de estudar em aulas de história – Anne, você precisa ver isso – Ela sussurrou para a outra completamente fascinada pelo que observava.
A construção daquele magnifico lugar remetia à época em que os nórdicos invadiram a Irlanda. Os bárbaros, mais conhecidos como Vikings, transformaram muitos estabelecimentos em pontos de guerra e para ela, aquele castelo certamente era obra daquela época conturbada do seu povo. Anna sentiu um arrepio percorrer o seu corpo diante a história que era contada sobre aquele lugar, as pequenas janelas, as duas torres, a porta majestosa e terrivelmente grande no meio. Sua cabeça deu voltas ao imaginar como uma pessoa conseguia habitar um local com aquele e o que realmente tinha lá dentro. Uma série de arvores formavam duas fileiras que iam desde a entrada do castelo até o seu portão. No meio, uma estrada de cascalho glorificava ainda mais aquilo que ela tinha definido como maravilha.
A garota deu passos à frente e quase entrou naquele jardim, caso não tivesse tido a atenção levada a outro ponto.

Uma buzina de carro a levou a cambalear para trás, no instante em que um carro parava ao lado do seu corpo, Anna sentiu o coração disparar, segurando as alças da bolsa nas costas com mais força. O vidro todo escuro do carro foi descendo a ponto dela olhar o rosto que foi levemente inclinado para o lado afim de vê-la. O homem de cabelos escuros retirou os óculos escuros do rosto e sorriu – Você é nova por aqui? – Ele questionou e ela sentiu o coração disparar, tamanha era a beleza dele, Anna assentiu sem desviar os olhos dos dele – Não fazemos parte de nenhum tipo de seita, ok? Somente meu pai que acredita que pode ter um castelo como residência e gastou todo o dinheiro da fortuna do vovô nisso aqui – Ele afirmou e a garota não encontrou uma única palavra capaz de expressa o que estava sentindo, Anna apertou ainda com mais força as alças da bolsa vendo que o olhar dele desviou do seu rosto e observou as mãos da garota – Bom, espero que você não tente invadir a propriedade, temos alguns cachorros que não sabem lidar com gente que eles não conhecem – O garoto afirmou recolocando os óculos no rosto – Tenha um bom dia – Ele disse antes de dobrar a esquerda com o carro, cantando pneu.
Anna ficou paralisada. Seu coração ainda batia descompassado e ela tentava de qualquer jeito absorver o que tinha acontecido. Voltando o seu olhar para o muro com o portão já fechado, a garota voltou a sentir um arrepio percorrer o seu corpo, a incomodando o bastante para que ela deixasse seus passos percorrerem para trás, antes dela voltar todo o percurso que estava fazendo. Ela escutava a voz da Anne ao seu lado e aquilo estava sendo insuportável – Cala a boca, Anne, eu não quero mais ir para lá, eu não gosto de gente como ele, garotos como ele são errados, ele é como todos os outros – Ela ficou repetindo enquanto depositava as mãos nos ouvidos ainda escutando as palavras da amiga junto a si. Anna começou a caminhar a passos largos, buscando a sua casa, sabendo que ainda estavam longe.
Ela começou a sentir um desconforto habitar o seu corpo enquanto suas mãos começavam a gelar. A Anne não conseguia ficar calada um segundo e foi quando a Anna esbarrou em alguém que ela sentiu finalmente tudo silenciar.
Seu corpo se chocou com algo maior do que ela e piscando algumas vezes, Anna sentiu mãos segurarem a sua cintura para que ela não caísse – cuidado – ela voltou o olhar para o rosto do rapaz e se sentiu tonta por um instante, o homem que estava segurando a sua cintura estava sem óculos escuros, mas o rosto era o mesmo que tinha saído do carro em menos de cinco minutos, Anna afastou as mãos dele rapidamente do corpo tentando afirmar alguma palavra sem conseguir, ela negou com a cabeça e novamente a voz da Anne se tornou presente aos seus ouvidos, o garoto tinha cabelos castanhos, olho castanhos e deixava transparecer um sorriso tímido nos lábios – Você está bem? – Ele estendeu a mão para que ela apertasse e a garota escondeu as mãos atrás do seu corpo, Anna ainda encarava os olhos dele sem conseguir desviar sua visão – Meu nome é Matthew e o seu? – Ele perguntou e ela votou a negar com a cabeça fechando os olhos fortemente.
- Você não está vendo isso, você não está – Anna repetiu algumas vezes tentando acalmar a respiração do seu corpo que agora estava completamente descompassada, ao abrir os olhos, o garoto ainda encarava o seu rosto completamente confuso, ele tinha uma sobrancelha erguida e demonstrava uma dúvida transparente – Vai embora – a garota voltou a sussurrar e ele deu um passo para trás.
Sua mente era um labirinto de pensamentos soltos e imagens que destoavam, aquele garoto a sua frente, depois de ter dobrado a esquina em menos de 10 minutos era algo que ela não sabia do que se tratava. A realidade não parecia fazer qualquer sentido que fosse e talvez, a fantasia que por muitas vezes era explorada por ela, estivesse brincando consigo mais uma vez.

Matthew tentou falar alguma outra coisa com aquela garota, mas não soube o que dizer, ela ia se afastando cada vez mais do seu corpo e ele se deixou hipnotizar pelos olhos dela. Os cabelos da garota eram ruivos como o fogo e ela parecia tão sozinha quanto ele naquele instante – Eu... quer ajuda? – Ele voltou a indagar vendo-a negar com a cabeça, ela deixou que um sorriso fraco brotasse nos seus lábios e por um instante, ele teve a impressão de que ela pedia desculpas silenciosamente. Matthew estudou com atenção enquanto o corpo dela se movimentava ainda de frente para o seu, o garoto estendeu uma mão afim de que ela tocasse sem ainda conseguir raciocinar o porquê de estar fazendo aquilo, mas aquela não seria a hora, nem o momento em que questionaria suas atitudes por impulso.
Anna voltou os olhos para a mão dele. Uma mão alva e bastante bonita, seus dedos eram grandes e sua mão parecia ser gostosa de segurar, ela sentiu um tremor percorrer o corpo e negando com a cabeça, virou de costas para ele caminhando a passos largos. Anne voltara a falar.
Ela não queria ouvir.
- Não fala comigo, eu não quero ouvir – Anna afirmou esbarrando numa outra pessoa completamente perdida – Desculpa, eu... desculpa.
- Olha por onde anda, garota – Uma senhora afirmou encarando-a e Anna sorriu sem jeito, desviando dela e continuando a caminhar rápido. Seus passos foram acelerando até que ela começou a perder o fôlego enquanto corria por aquelas ruas, algumas pessoas observavam aquela garota correr em direção as montanhas e ela não teve tempo de se importar com os outros, nunca se deixava fazer aquilo.
A brisa fria que tocava o seu corpo a deixava num completo torpor e todos os pensamentos que a levavam para algum ambiente em que se sentia confusa e insegura iam aos poucos se desaparecendo. Desejou fones de ouvido para escutar algum som diferente daqueles carros que percorriam por aquelas ruas. Talvez uma cidade pacata não tenha sido silenciosa o bastante para alguém como ela que escutava tanto sobre tudo o que acontecia a sua volta.
Muito criança, Anna aprendera a escutar realmente cada som percorria qualquer ambiente em que ela se encontrava e aquela perspectiva intensa e tornara em alguém que se apaixonou por tudo que emitia algum tipo de barulho.
Anna correu a passos firmes segurando sua mochila por sobre os ombros para que ela não despencasse do seu corpo, enquanto ao longe, ela conseguia escutar as palavras que naquele instante queria esquecer.

Wixlex era uma pequena cidade, a distância do ponto principal para a sua residência um pouco mais afastada era grande o bastante para alguém sedentário correr, mas Anna amava correr. Quando começava a percorrer caminhos, sentindo a brisa sob o seu corpo, mais e mais rápido ela conseguia adicionar um pouco de intensidade aos seus passos e depois de muito treino, a garota não sentia tanta dificuldade em percorrer 3 quilômetros em menos de uma hora.
Precisava chegar em casa.
- Cala a boca, Anne, eu não estou louca, eu não estou – Anna sussurrou enquanto voltava e depositar as mãos nos ouvidos, a fim de cessar as palavras da sua amiga que não parava de falar um segundo sequer.
Ao longe, a casa que sua mãe escolhera para morar estava ali, única e aconchegante. Distante de qualquer tipo de civilização, junto a uma pista que registrava passagens de carro em no máximo 6 vezes durante todo o dia.
A Garota avistou a sua modesta casa, abrindo o portão e entrando, sabendo que seus pais não estavam em casa, ela sentiu os batimentos do coração começarem e acalmar. Anna percorreu o olhar ao redor a procura de algum vestígio de movimento humano e não encontrou, sentindo uma onda de alívio percorrer o seu corpo. A casa havia sido comprada um mês atrás diante um site de compra e venda na internet. Não era pequena, mas antiga. As pedras a levavam a crer que a fundação daquele lugar era muito mais velha do que as histórias que pedia para que o seu pai contasse antes de dormir.
A casa foi originalmente construída no início do século XIX, era constituída por pedras, pequenas janelas brancas e detalhes em azul. Ao lado da casa principal existia um pequeno depósito que certamente pertencia ao caseiro que morou no local. O valor oferecido pela casa ficou ainda acima do que o proprietário queria receber e por isso, seu pai economizou o restante que tinha para uma reforma. Em Dublin, teriam um apartamento pequeno de 45 metros quadrados, em Wixlex, tinham uma propriedade com mais de 20 hectares.
Anna olhou ao redor da estrada solitária e voltou a procurar por alguém ao redor, com a resposta em negativo, ela agachou o corpo e procurou pela chave embaixo do tapete de boas-vindas. Naquele dia em especial, seu pai a pegaria na escola ao final da aula e ela estava terminantemente proibida de andar com a chaves, mas conhecendo sua mãe e lembrando o quanto a mulher costumava esquecer a chave pelos cantos, ela sabia que não demoraria muito até que existisse uma reserva embaixo do tapete.
A garota pegou a chave, abriu a porta da frente e foi entrando na casa deixando tudo absolutamente aberto, ela seria a única pessoa existente nos próximos 05 quilômetros, ela e a Anne.
Além do Loki.
O cachorro começou a latir e ela sequer parou para falar com ele. Anna correu até o quarto, subindo as escadas e se jogando na cama, fechando os olhos com as mãos aos ouvidos – por favor, para, por favor... por favor... – Anna balançou seu corpo sentindo os olhos fecharem-se enquanto ela ia lentamente recobrando a normalidade dos seus batimentos cardíacos.
Ela abriu os olhos e buscou pelos seus fones de ouvido, encontrando-os na sua penteadeira, a menina foi até lá ligando-o junto ao seu celular.
O último, segundo seus pais afirmaram a algumas semanas. Não que aquilo importasse de alguma maneira, ela sabia que uma hora ou outra conseguiria exatamente tudo o que queria.
Anna fechou os olhos quando começou a escutar o barulho de chuva caindo ao chão, aumentando o volume, ela sentiu como se os pingos de chuva estivessem caindo sob o seu corpo, assim como na melodia. Os acordes acompanhavam o movimento do seu corpo e quando ela percebeu, já estava de olhos fechados percorrendo a extensão do seu quarto, dançando. Suas mãos iam e vinham de acordo com a música e o seu corpo se movimentava sem cessar. Ela parou os movimentos girando a cabeça com os olhos fechados, erguendo uma mão, depois a outra, dedilhando seu braço com a mão até chegar a sua nuca, seus dedos voltaram a dedilhar a nuca, descendo pelos seus seios, percorrendo a cintura e indo até o pé. Anna inclinou o tronco até o chão e abraçou as pernas, movimentando a cabeça, acompanhando o som.
Ao longe, ela escutou um latido do cachorro se tornando mais e mais presente no ambiente, Anna deu de ombros, voltando o corpo e ficando em pé olhado para o Loki – o que foi, loki? O que você tem? – Ela questionou caminhando até o cachorro que continuou latindo mais.
Anna retirou os fones de ouvido e paralisou a música, seus olhos foram até o local em que o cachorro encarava incomodado e sorriu – Eu já falei que você precisa se acostumar com a Anne, ela não vai embora daqui – A Anna afirmou passando as mão pelo focinho dele – Você acha que a mamãe vai me dar uma bronca, caso me veja em casa? – Anna questionou escutando a Anne retrucar incomodada – Eu sei que você perdeu aula, Anne, mas eu fiquei nervosa quando vi aquelas pessoas todas e você também me assustou – Anne deu de ombros pegando o cachorro nos braços, deitando na cama com ele – Deita com a gente, Anne – Ela disse vendo o cachorro latir infinitamente ditado – Deixa ela deitar, Loki, sabia que quem colocou esse nome em você foi ela? – Anna comentou sorridente – Nossa amiga Anne que trouxe você para mim – Anna afirmou pegando o celular, mexendo concentrada – O que? Você acha? Olha Loki, a Anne acha que eu preciso contar a você como foi o meu encontro com o garoto bonito que mora naquele castelo! – Anne sentou encostada na parede arrumando as vestes – Sabe como foi? Então, nos encontramos duas vezes e eu... – Ela parou de falar no instante em que observou a porta e teve o coração parando de bater por um segundo sequer.

A garota perdeu a noção do que faria ou do que iria dizer. O cachorro desceu da cama em silêncio, caminhando até a porta e paralisando, encarando a Anna assim como a mulher ruiva de olhos verdes e sardas no rosto que a observava a cena com os braços cruzados, Anna sorriu sem jeito ao tentar buscar na mente uma mentira boa o suficiente para que pudesse deixar claro que a culpa não tinha sido sua por sair de casa, mas não foi tão fácil assim.
- Oi, mãe.
- Espero que você tenha uma explicação plausível, Anna – A mulher iniciou a frase já recriminando pelo que ela tinha feito – Eu fui na escola parabenizar a minha filha e o professor simplesmente afirmou que você faltou no primeiro dia de aula, o que te leva a crer que eu não descobriria?
Ingrid Byrne possuía longos cabelos ruivos como os da sua filha, estava vestida com uma calça preta de alfaiataria e uma camisa de botão branca, nos pés, ela tinha um scarpin do mesmo tom da calça e seus cabelos estavam presos, a mulher culminava um semblante raivoso e seus braços balanceavam entre o cruzamento e o movimento pelo corpo sem saber como prosseguir. Ela tinha as sobrancelhas arqueadas e o coração dela estava em disparada. Minutos antes, a Senhora Byrne tinha total certeza de que haviam invadido sua residência e que algo sério tinha acontecido com seus móveis. Ao subir as escadas tentando não se mostrar presente, ela percebeu que se tratava apenas da sua filha e aquilo a acalmou um pouco. Onde segundos depois ela se questionou do porquê sua filha não estar na escola, então, o medo havia dado caminho a raiva que sentia no momento.
- Não foi isso, mãe... eu somente... Aconteceu um imprevisto, eu briguei com a Anne e ela... – Anna em pé, começava a andar de um lado a outro na tentativa de pensar numa desculpa boa o bastante para que sua mãe acreditasse.
- Não gosto de mentiras, garota – Ingrid deixou que as palavras voassem dos seus lábios antes de controlar a fúria que pairava dentro dela – A Anne não é uma garota difícil e sequer gosta de desobedecer aos mais velhos, o combinado era qual? Escola pela manhã e aqui estamos nós mais uma vez com você sendo essa garota desobediente.
- Mãe, eu não quis ser assim, a senhora sabe – Anna enrolou o dedo indicador numa mecha de cabelo enquanto tentava acalmar a mente – Eu somente fiquei um pouco assustada e a Anne... Ela não...
- Ela o que, minha filha? – A mulher passou a mão pelo rosto cansada – Eu tive que faltar o trabalho na parte da manhã para ir à escola e você sequer foi. Pelo amor de Deus, Anna! Será que você pode pensar um pouco nos outros além de você? Estou cansada de ter que ficar pensando no que você faz vinte e quatro horas por dia!
- Mãe, não foi por querer, eu juro, eu vou... eu quero ir... eu preciso ir... eu conheci um garoto hoje e ele...
- Não! – Ingrid gritou alto o bastante para que a Anna cambaleasse para trás, tocando com o seu corpo na parede, o peito da garota arfava e na medida em que sua mãe, retirava os sapatos e caminhava até o seu corpo, a garota se encolhia ainda mais – você sabe que não pode – A mais velha afirmou baixinho e a Anna desviou os olhos dos dela, fechando-os – Você tem a Anne, não tem? Não precisa de mais ninguém, filha.
- Eu... – Anna passou a mão pelo rosto voltando e recuperar os flashes do garoto que sorriu para ela tão lindamente, a garota negou com a cabeça – mãe, não. Eu... eu queria... o nome dele...
- Eu já disse que não! – Ingrid voltou a berrar, sentindo o peito arfar. Ela se sentiu encurralada pelas frases da filha – você não vai se envolver com esse rapaz, deixe-o em paz! – A mulher exclamou fora de si, passando a mão pelo rosto ao observar a filha com os olhos repletos em lágrimas – Filha, eu não quis... – Ela se aproximou do corpo da garota que foi lentamente descendo encostada na parede, até o chão – desculpa...
Anna negou com a cabeça voltando a sentir os olhos cheios de lagrimas – Saí do meu quarto, mamãe – A menina sussurrou escondendo o rosto por entre os seus braços – Eu sei, Anne, eu sei – Anna sussurrou sentindo o corpo da sua mãe próximo ao seu enquanto ela tentava esconder o seu rosto ao máximo.
- Anna, olha para a mamãe, filha – Ela pegou o rosto da filha por entre suas mãos, erguendo-os, sentindo um pesar habitar o corpo – Entenda que eu estou tentando somente proteger você, filha, você sabe como esses garotos são, eles machucam e depois, como você vai ficar? Não é, Anne? – Ingrid olhou para a lateral e depois voltou seu olhar para a filha a sua frente – Você é pura e não enxerga maldade em ninguém, por isso que eu preciso cuidar de você... Precisamos, não, Anne?
A garota assentiu em silêncio, diferentemente das palavras que sua mãe proferia, ela não concordada, não com os olhos dele. Não com a sensação de paz que havia sentido ao esbarrar com o corpo dele. Anna escondeu o que verdadeiramente sentia mais uma vez, ela sentia o olhar da Anna sob o seu corpo e dando de ombros, Anna sorriu perfeitamente, seus olhos tinham um tom amedrontado e demonstravam fraqueza, algo que elas eram acostumadas a observar – Eu sei, desculpa pela minha reação, eu fiquei assustada com o tom de voz. A senhora sabe que eu não gosto de gritos, nada intenso demais me faz bem.
- Eu não quis... Não quis soar grosseira, filha – Ingrid agachou, ficando de joelhos no chão, passando a mão pela cabeça da filha – Eu somente tenho medo de que você possa se machucar, não é, Anne? Eu me preocupo com vocês duas, filha – Ela sussurrou e a Anna, num gesto infantil, ergueu o rosto até o rosto da mãe e a abraçou apertado – Estamos juntas nessa. Lugar novo, pessoas novas, podemos fazer diferente dessa vez.
- O papai está junto? – Ela questionou com a cabeça deitada no ombro da mãe com os olhos fechados – O papai vai cuidar da gente, dessa vez, mãe? – Anna sussurrou e sua mãe assentiu com a cabeça.
- O papai sempre cuida da gente – A mãe dela afirmou suspirando pesadamente, sentindo o corpo da filha mais calmo – Você chegou a andar pela cidade?
- Eu vi um castelo, mãe – A garota afirmou empolgada – Um castelo enorme, um lugar lindo, parecia um castelo escandinavo. Lembra quando fomos até a Finlândia? O castelo de Savonlinna – A menina enxugou as lágrimas esquecendo completamente do momento ruim – Não foi, Anne? Nossa, mãe, foi maravilhoso, eu quis entrar lá, a calçada parece aquelas calçadas que vimos em Portugal, lembra? Só que as calçadas dos portugueses devem ser bem mais novas do que aquelas, e o castelo estava lá, imponente! Majestoso! Foi como estar numa história, sabe? Fascinante – Anna sentiu os olhos brilharem e por um momento a Ingrid sorriu junto a filha que contabilizava aquela aventura como se fosse a coisa mais importante de toda a sua vida.

Ingrid recordou-se do pedido de aniversário da filha logo depois de ter completado dezesseis anos. Desde muito nova, sonhou ser historiadora para aprender muito mais do que já sabia sobre a cultura daqueles países e o seu fascínio se encontrava na literatura nórdica e nos países escandinavos. O Castelo de Savonlinna localizava-se na cidade de Savonlinna, na região lacustre de Olavinlinna, na Finlândia Oriental.
Erguido a partir de 1475, é um dos castelos mais importantes do país, sendo o conjunto dominado por um imponente torreão, de planta circular. A mulher nunca esqueceria o olhar da filha ao se deparar com tal lugar, tudo ela tentava explicar a eles com o mais preciso detalhe e sua fixação pela cultura nórdica só aumentou a partir dali.
- Podemos procurar para saber se o castelo é aberto a visitações, filha – Louise afirmou sorridente, faria o que fosse possível para ajudar a filha naquele momento de mudança, Anna nunca conseguia se adaptar com facilidade, principalmente em se tratando da Anne.
Tão diferente da reação em que esperou com aquelas palavras, Anna recuou o corpo, ficando seria. O semblante da garota se tornou sombrio e seus olhos escureceram, Ingrid sentiu-se confusa, a sua frente uma charada de reações estava a postos e ela tentava assimilar o que verdadeiramente aquele recuo significava. Nunca, em momento algum, teve uma reação contraria a descoberta de ambientes históricos pertencentes aos Nórdicos.
Anna suspirou antes de negar com a cabeça, voltando a focalizar no rosto dele mais uma vez - Eu... é uma propriedade – Ela pigarreou retirando a cabeça do ombro da mãe, mexendo nos cabelos, um pouco nervosa – O rapaz que... que a senhora... Não, que eu não posso me aproximar mora lá – Ela sorriu fraco evitando ter que olhar para a mãe – Ele estava saindo da casa quando eu quase entrei, por isso recuei. Desculpa, Anne... Não, mãe, eu recuei porque a Anne falou para que eu recuasse porque ele não era muito alguém que... Não, isso eu pensei, eu tive medo de chegar perto dele, vocês sabem como eu fico perto de garotos muito bonitos – Ela deu de ombros erguendo o corpo e caminhando até a janela – Vocês acham que ele me achou bonita?
Anna passou a mão pelo rosto voltando a fechar os olhos e pensando nele mais uma vez. Algo peculiar em se tratando dela.

Ingrid fechou o punho tentando acalmar a respiração que se encontrava completamente descompassada, ela ergueu o corpo do chão e observou a filha que mexia nos cabelos, observando a rua como algo importante, a mulher negou com a cabeça, antes de responder – Você é linda, filha – A mulher afirmou com toda a sinceridade que existia nela – Não tem como não achar isso de você, sua beleza não e comum – Ela afirmou observando a garota percorrer os dedos pelos lábios – Você sabe disso, você entende que você chama atenção de qualquer garoto que você conhece.
- Eu sou estranha? – Num sussurrou a Anna desviou os olhos da janela e caminhou até o espelho se encarando – Estranha como? Será que ele vai me achar feia? A Anne é mais bonita.
- Nem toda loira é mais bonita, filha, as vezes o diferencial é aquilo que as pessoas precisam – Ingrid afirmou e ela assentiu ainda observando a si mesma.
Para a mulher, incentivar sua filha a externar a beleza que possuía era inversamente tudo aquilo que planejara para ela, Anna costumava acreditar em qualquer pessoa que se aproximava dela e isso nunca havia sido algo positivo em se tratando dela. Os anos tinham sido fáceis em partes, mesmo que Ingrid tivesse que remediar um coração quebrado por cada local que elas passavam.
– Não sei se ele... – A garota parou de falar virando o rosto para sua mãe e forçando um sorriso – Desculpa, mamãe, não irei mais ficar falando de alguém que não vale a pena – A menina respondeu obediente – Quer almoçar comigo? Nós podemos almoçar, nós três, o que a senhora acha?
Ingrid sorriu fraco tentando desvendar as feições da filha enquanto se limitava em afirmar com a cabeça. Anna conseguia ser uma garota que beirava a pureza, por muitas vezes sua inocência a colocara em momentos difíceis e bastante perturbadores, ela e o seu marido sempre tentaram esconder a preciosidade que tinham em casa do mundo cruel e manipulador. Sua filha não merecia sofrer muito mais do que já sofria.
- Só se você explicar mais uma vez como perdeu o celular – A mãe sorriu divertida vendo a filha olhar para a cama e manter seus olhos fixos ali por um bom tempo, Anna fechou os olhos enquanto assentia com a cabeça para depois abri-los sorridente.
- Bom, naquele dia, fomos eu e a Anne conhecer os arredores do condado, nos perdemos e ao final do dia, quando a chuva estava muito forte, tivemos que nos abrigar num lugar escuro, acho que uma casinha, por isso que perdi o celular, acredito que deixei lá e outro dia quando fui com o papai buscar, não encontrei.
- Você foi com o seu pai? – A mulher perguntou um tanto surpresa com a resposta dela e a garota assentiu que sim – Entendi, então – Ingrid sorriu encarando a filha por uma última vez – Irei trocar de roupa meninas, ok? Fico esperando as duas lá embaixo, certo?
Anna se viu sozinha com a Anne e cruzou os braços incomodada – Qual o problema de ter dito a mamãe o que tínhamos feito? Não vi problema algum em afirmar a ela, nós mentimos Anne! – Anna sussurrou nervosa – De novo estamos mentindo para a mamãe, se ela... – Ela sentiu a mão da outra sob a sua boca e uma limitação na respiração, Anna se debateu um pouco diante daquela atitude, negando com a cabeça. Ela deu um tapa e logo conseguiu respirar, ofegante – Eu já falei que não gosto disso, você pode até ser... – Ela revirou os olhos – Eu acho que ele gostou de mim, também.
A garota sentiu o coração disparar e logo começou uma fantasia desenfreada diante de alguém que tinha acabado de conhecer, ao seu lado, ela via a Anne num misto de inveja e incomodo pelo fato da garota estar outra vez se envolvendo com um garoto, mas aquilo não importava entre elas. Anna não queria ter que pensar nele daquela maneira, sua mãe havia alertado a garota de que aquilo não seria possível e ela mesma sabia o quanto garotos poderiam ser em demasiado malvados.
O seu coração não concordava em nada com aquela frase e a garota sentia que precisava vê-lo mais uma vez. Seus olhos sempre iriam a procura dos dele enquanto estivesse na cidade. Mesmo sabendo que a Anne não concordava com aquilo e muito menos sua mãe, a vontade que tinha era de entrar na internet e... Anna foi até o laptop, erguendo a tampa e ligando-o, seus olhos foram em busca de um site de pesquisas e quando ela mordeu o lábio ao adicionar o nome do garoto, recebendo a imagem de inúmeros garotos sob aquele nome, um suspiro brotou dos seus lábios quando percebeu que não seria fácil.
- Meninas! Estou esperando vocês! – Ingrid exclamou chegando a sala e organizando o ambiente para ver um filme enquanto elas almoçavam descontraidamente.
Anna assentiu em silêncio achando uma foto dele num canto afastado. Uma conta em um aplicativo de jogos e filmes online. A garota deixou que um sorriso fascinado brotasse dos seus lábios quando observou aquela pequena foto.
Ele estava sorrindo sem jeito, um sorriso digno de um príncipe, junto aos braços cruzados e o cabelo um tanto bagunçado. Anna voltou a escutar a voz da sua mãe e voltando o olhar para trás, ela sorriu – Ele não é lindo? – A garota gargalhou – Claro Anne, ele é grande, deve ser todo enorme – A garota deixou que aquele pensamento assolasse sua mente e erguendo o corpo junto ao espelho, ela mexeu nos cabelos modificando o sorriso que tinha para um semblante puro e fascinante – Shiu, esse segredo eu não faço questão da mamãe, descobrir – Ela deu uma piscadela antes de caminhar até a porta do quarto - Eu sei que não, eu não... Eu não vou me aproximar dele, ele não está na lista, mas que ele é lindo... Ele é – Anna afirmou ajeitando a roupa mais uma vez antes de sorrir para trás, sair do quarto e fechar a porta – Vamos Anne?


Capítulo 2

As cortinas do quarto tremulavam de um lado ao outro. O vento frio entrava no quarto sem pedir permissão e somente uma pequena luminária era responsável pela iluminação do ambiente. O pequeno objeto tinha sua base em cimento glow e um cilindro de 30 centímetros de diâmetro. Ao término do sólido, uma esfera de vidro estava repleta por pequenas luzes amareladas. Junto as luzes, flores eram iluminadas dentro do vidro e no teto, a sombra em movimento acalmava a garota que tinha os olhos fechados. Tentando dormir.
Anna virou o corpo para o lado mais uma vez. O relógio que estava na mesinha ao lado da cama piscava afirmando que já era mais de 01 da manhã. A garota ficou abrindo e fechando os olhos sem parar a fim de cansar suas pálpebras e enfim repousar. No dia seguinte precisaria ir à escola para iniciar finalmente as aulas e aquilo não ajudava em nada a insônia que havia habitado o seu corpo.
Ela começou a balançar as pernas de um lado ao outro escutando o som do vento em contato com o tecido da cortina do seu quarto.

Aquela noite estava especialmente fria e caso Anna fosse alguém que lidasse bem com a escuridão, ela poderia sair pela floresta ao lado da sua casa para uma pequena caminhada, mas quem gostava de caminhadas noturnas era a Anne, não ela.
Uma buzina de carro foi escutada e num sobressalto, Anna ergueu o corpo da cama e escondeu-se na janela afim de ver o que estava acontecendo. Em frente a sua casa, o carro dos seus pais estava parado sem nenhum movimento. As luzes do quarto dos seus pais pareciam estarem desligadas e em frente a estrada repleta por árvores e que certamente só estariam com um ponto de luz vindo do poste, uma iluminação extra se fazia presente.
Um carro estava parado. Sua cor escura fizera o coração da Anna disparar e uma garota saiu do banco traseiro. Ela usava uma pequena saia de couro e um top cropped. Nas costas, a garota usava uma jaqueta. Com um pouco de dificuldade, Anna observou uma garrafa grande e transparente em suas mãos, o que a levara a crer que se tratava de vodka. A menina sorria e antes de trocar de lugar com um rapaz que agora cambaleava enquanto caminhava para o banco traseiro, ela encarou a casa a sua frente.
Anna escondeu mais o corpo por trás das cortinas, mas ela não percebeu que naquele instante, a sombra do seu corpo por trás do tecido branco, junto as luzes da luminária, a tornaram muito mais visível do que ela imaginou ou desejou.

Brenna sentia a cabeça girar. Todo o álcool ingerido naquela tarde e começo de noite haviam transformado a mente da garota em uma completa balburdia. Sua mente parecia pregar peças com o seu corpo e ela agora observava, junto a luzes que flutuavam numa certa casa, a imagem de uma mulher. A silhueta encarava suas atitudes e ela sentiu o corpo arrepiar, Brenna percorreu os olhos pela propriedade e observou que se tratava de uma casa antiga, as paredes pintadas em branco, as portas e janelas com tons de azul a assustaram, uma casa grande, porém, simplória.
Ela tentou buscar na mente algum resquício de lembrança que indicava que aquela casa havia sido comprada, mas não escutou nenhum boato ou rumor, a garota se limitou em voltar seus olhos para a mulher que ainda parecia encara-la.
Entregando a garrafa ao garoto ao seu lado que sequer sabia o nome, Brenna fechou a porta do carro e começou a caminhar, aos poucos ela foi saindo da estrada, escutando ao longe seus amigos chamarem-na. Ela não recuou, quanto mais próxima chegava da casa, Brenna conseguia ver o corpo da jovem com mais precisão. As vestimentas longas a deixavam com um aspecto de algum filme de terror em que se recusou a assistir por medo, os longos cabelos indicavam que talvez ela fosse bonita. O coração dela disparou quando ela parou próxima a casa, ao longe, a garota ou o vulto se escondeu mais um pouco e Brenna inclinou a cabeça para o lado, àquela altura, ela só conseguia escutar os cascalhos das pequenas pedras que se movimentavam de acordo com o vento que pairava naquela noite, em especial.
Ela não desviou os olhos da janela do quarto até o momento em que seu pescoço começou a doer, a garota passou a mão pela nuca, abaixando a cabeça para retornar ate o quarto, vendo-o completamente vazio. Brenna sentiu o estômago revirar e ao virar o corpo em direção ao carro com medo do que poderia acontecer, não viu ninguém por um momento. A garota gritou fechando os olhos com força para depois abri-los com mais rapidez e correr até a lateral da casa completamente absorta em pensamentos – Porque... por que eu estou escutando isso?
Brenna questionou quando começou a escutar um barulho singular de cascalho batendo no chão, a garota voltou para o lugar que estava anteriormente e colocou suas mãos sob os olhos assustada – o que está acontecendo? O que está... – Ela sussurrou antes de sentir duas mãos envolta da sua cintura a puxando fortemente, antes que ela pudesse se deixar gritar alto o bastante para alguém a ajudar, ela sentiu uma mão tampar-lhe os lábios. A garota arregalou os olhos se deparando com os olhos castanhos e intensos. Ela sentiu o coração disparar, depositando suas mãos sob as dele. Sua respiração foi voltando aos poucos para a normalidade e Brenna sentiu que ele ia retirando as mãos dos seus lábios na medida em que ela ia acalmando por completo.
- Sem escândalo – a voz dele não passava de um sussurro e Brenna até pensou em responder alguma coisa, mas preferiu ficar em silêncio. Seus olhos verdes encontraram-se com os dele e ela somente assentiu – Não queremos confusão.
Brenna tocou o rosto dele e o puxou para um beijo entorpecente, ele não recuou. Ela passou as mãos pelas costas dele, enquanto ele trocava as caricias, passando as mãos por dentro da sua saia.

Anna teve os lábios boquiabertos analisando aquela cena. Seu corpo arrepiou e quando pode perceber o sorriso em que ele deixava a mostra a cada beijo trocado, seu coração disparou. A garota puxou a nuca dele para mais um beijo e ele somente afastou o corpo de ambos, caminhando até o carro, sentando-se no banco de motorista, enquanto esperava mais uma vez que a garota entrasse logo no veículo.
Antes de entrar, Brenna encarou mais uma vez o quarto daquela casa que parecia ter vindo de alguma história assustadora e negando com a cabeça, ela entrou no automóvel que deu partida cantando pneu. Anna observou aquela cena boquiaberta.
Mais uma vez se deparou com ele.
Num momento completamente novo, deixou-se encantar por ele.
Novamente.
Ele usava uma jaqueta de couro preta, camisa de algodão branca e uma calça jeans. Seria clichê afirmar que ele parecia ter saído de uma revista pop. Talvez de uma capa de fanfic do wattpad ou do AO3, bonito demais para passar despercebido para qualquer pessoa, principalmente por ela.

Anna deixou que o corpo fosse inclinado para fora da janela tentando observar para onde eles tinham ido e sem pensar duas vezes, ela voltou os olhos para dentro do quarto. A garota foi até o seu pequeno armário pegando algumas peças de roupa, jogando na cama, Anna negou com a cabeça no instante em que começou a retirar a camisola que usava para dar lugar a outra vestimenta. Ela colocou a meia calça preta, uma saia de couro e um sweater listrado. Nos pés, um coturno se fez presente e um trench coat de lã vermelho. Ela deixou os cabeços soltos e mordendo o lábio, se vendo mais uma vez naquele espelho, Anna fechou os olhos pesadamente – Você vai sim, Anna, você é jovem, não pode ficar presa aqui, você não é fugitiva, não é – Ela afirmou pegando o celular e mandando uma mensagem para o número da Anne, ela precisava acordar logo para acompanha-la.
A garota sorriu satisfeita passando uma mão pelo cabelo mais uma vez olhando ao redor enquanto caminhava pé ante pé pelo quarto dos seus pais. Sua mãe dormia pesadamente e ela deixou que um sorriso bobo brotasse dos seus lábios, sua mãe era infinitamente linda, para Anna, ser um pouco do que ela sempre foi era uma felicidade sem tamanho.
Descendo as escadas rapidamente, ela se deparou com o cachorro, Loke a encarava seriamente, Anna afagou o pelo dele antes de sair por aquela porta sem olhar para trás, um arrepio tomou conta do seu corpo no instante em que ela escutou passos bem atrás do seu corpo.
Antes de virar, um tanto assustada por poder ser alguém que não conhecia, ela se deixou visualizar o celular a procura de uma mensagem da Anne, sem sucesso. Anna seguiu o mais rápido que pode com certo receio em olhar para trás, travando uma luta inconsciente para entender se teria coragem de variar ou não, mas antes que conseguisse tomar uma decisão coerente, a garota modificou o corpo para trás, sorrindo alegre ao notar que não estava sozinha – Meu deus, Anne! Que susto, pensei que fosse algum fantasma masculino querendo vingar a morte dos familiares a Thor – Anne gargalhou escutando o eco do próprio sorriso pela estrada rente a floresta – Você sabe se vamos andar muito? Eu consigo ver a fumaça de uma fogueira vinda dali – Anna apontou para um lugar mais distante – Mas não sei se teremos que andar muito – A garota assentiu suspirando pesadamente – O que você estava fazendo que não viu aquela garota sem roupa tentando agarrar o cara que eu gostei? – Anna deu de ombros escutando um barulho do seu lado esquerdo e parando subitamente de andar.

Seus olhos percorreram aquela floresta sem fim que parecia chamá-la. A lua estava no topo das colinas e ela conseguia enxergar ao longe, seu corpo arrepiou no instante em que uma rajada de vento mais forte se fez presente e ela sentiu aquela brisa forte e congelante. Era revigorante sentir cada pedaço do seu corpo ser banhado em dor diante o frio que sentia. As roupas não eram quentes o suficiente e ela sentiu o queixo tremer, sem se importar. Ao fundo, Anne argumentava que ela não deveria buscar caminhos que não conhecia aquela hora da noite, florestas sempre pertenciam a alguém, aquela frase era muito correta e desde criança havia escutado. Sua melhor amiga deixava claro, mas, Anna tinha as florestas como algo seu. Seu ambiente de trabalho, sua casa, o único lugar do mundo que conseguia obter conexão. Tão diferente de pedaços de madeira e concreto em que as pessoas ao seu redor repetiam inúmeras vezes que seriam felizes, uma hora ou outra, mas Anna não conseguia acreditar.

Dando um passo para o meio da estrada a sua frente, a garota negou com a cabeça antes de focalizar seus olhos no carro que parecia vir em alta velocidade. Anna sentiu a luz do farol penetrar seus poros a levando a fechar os olhos enquanto escutava os freios do carro tentando paralisar, a buzina ecoava pelo silencio da noite e ela inclinou a cabeça para trás abrindo os braços completamente inebriada.
A junção do barulho das árvores em contato com os pneus do carro tentando junto aos freis paralisarem para que não atropelassem o seu corpo era como um dançar de sons e novas experiencias. Aquele tremor paralisando o seu corpo com a simples ideia de que a qualquer momento aquele veículo iria levá-la para longe trazia um tipo de adrenalina que ela nunca soube lidar. Anna abriu os olhos se deparando com algo escuro e completamente sobre humano, antes de ter seu corpo jogado até a lateral da pista. Com os olhos abertos, ela viu o instante em que seu corpo era arremessado, observou sua cabeça paralisar num piso diferente e lentamente, seus olhos que agora piscavam algumas vezes tentavam buscar algum tipo de vestígio de dor. Passos vinham na sua direção, o carro parou de se movimentar, Anna via o rosto da amiga encarando o seu no chão, Anne sorria de lado e pela primeira vez aquele silêncio que sempre pedia e nunca conseguia obter estava presente. Anne não sussurrava palavras, sequer ajudou seu corpo a se reerguer e antes que Anna pudesse argumentar ou brigar diante da sua meia calça que parecia ter rasgado e diante ao frio que sentia nas pernas, um par de olhos castanhos atrapalharam a sua visão e a única coisa que ela conseguiu ver no instante seguinte, foi cada traço do corpo do rapaz. Aquele rosto que havia acabado de passar pela sua casa com outra garota.

O motivo de estar fora da cama, em primeiro ato.

- Você está bem? – Anna sentiu as mãos dele sob o seu rosto – Você está bem garota? Fala comigo... por favor...
Os olhos dela fixaram-se em cada detalhe daquele rosto. O semblante do garoto estava completamente assustado e ela desejou poder segurá-lo pela nuca enquanto os corpos de ambos se moldavam diante aquela lua. Anna viu quando os olhos dele percorreram o corpo dela em busca de algum ferimento ou um indício de que algo mais grave pudesse ter ocorrido. Ela não conseguia escutar o que ele falava e ao seu lado, a garota enxergava a Anne encarando seus olhos fixamente. Um tremor percorreu o seu corpo quando ela se deparou com o sorriso maléfico da sua melhor amiga ao lado do garoto. Anna observou Anne agachar ao lado do rapaz que ainda estava passando a mão pelo seu rosto e procurando interminavelmente por algum vestígio de arranhão.
- Oi – Anna afirmou mesmo sem escutar nada do que ele falava, seus olhos se encontraram com os dele e ele puxou o corpo dela para o dele, ajoelhando no chão e abraçando o corpo dela junto ao seu – oi – Ela voltou a sussurrar piscando algumas vezes.
- Você está bem? Eu... nos conhecemos? Você parece... – Ele recuou na fala e voltou a percorrer as mãos pelos longos cabelos da garota a sua frente – Quem é você?
Ele questionou e Anna sentiu todos os sons daquela noite se fazerem presentes ao seu corpo, ela fechou os olhos lembrando da colisão e da imagem que enxergou antes de ter sido jogada junto ao meio fio da estrada. Seus olhos se movimentaram mesmo estando fechados e ela sentiu o corpo tremular mais nitidamente. Retornando aquela cena, Anna enxergou a Anne com um vestido branco e um coturno rosa. Seus cabelos estavam em traças e ela sorria ainda cheia de segredos, os quais Anna não queria ter por perto.
Ela fechou os olhos novamente entreabrindo os lábios e começando a tossir em demasiado. Antes que ela pudesse sentar com o intuito de paralisar aquela situação, sentiu duas mãos envoltas dos seus lábios, levando-a a arregalar os olhos e foi quando ela se deparou com a sua realidade.

Matthew tinha as mãos tremulas enquanto segurava a jaqueta jeans próxima aos lábios dela. A ruiva ao seu lado estava tossindo e a sua tosse era repleta por sangue. Depois do tempo em que passou tentando procurar por arranhões e machucados diante a colisão absurda e infinitamente grave, ficou ainda mais confuso quando se deparou com uma garota deitada na estrada com a pele completamente limpa. O garoto tinha as mãos sob os lábios dela que parava de tossir aos poucos enquanto ele não a soltava.
Não suportava ter que dirigir a noite. Estradas como aquelas sempre o levavam a lugares completamente inusitados e gostava muito dos Irmãos Grimm para não adicionar todos aqueles mundos sobrenaturais a sua realidade. Em sua frente, ele tinha em suas mãos uma bela mulher ou garota, dependendo da sua idade. Ela estava bem vestida e momentos antes, seu carro atingira o seu corpo. O vidro não foi quebrado, isso se dava ao blindado do carro que tinha ganhado de presente dos pais aos dezoito anos, meses atrás, não que verdadeiramente se importasse com aquele tipo de coisa.
A garota parou de tossir e ele negou com a cabeça, trazendo o rosto dela próximo ao seu afim de tentar entender o que estava acontecendo. Ela fixou os seus olhos num ponto ao seu lado e começou a sussurrar palavra nas quais ele não conseguia decifrar. Matthew manteve o corpo um pouco distante do seu no instante em que um grito foi ecoado no lugar. Saindo dos lábios dela.
Sua primeira reação foi solta-la e ele quase o fez, mas antes que pudesse se afastar e correr para o carro se protegendo daquilo que parecia acontecer, seus olhos se perderam nos olhos dela e ele não conseguiu movimentar um musculo sequer do seu corpo.
A ventania que anteriormente estava presente ali, se desfez e somente a respiração dela naquele momento era escutava no instante. Ele estava com a sua própria respiração presa, não conseguia se movimentar, muito menos se deixaria respirar diante da atmosfera completamente fora da sua realidade que estava acontecendo ali.
- Não me deixa – Um murmúrio foi escutado e ele a encarou surpreso, seu semblante foi modificado e ele voltou a respirar com uma certa dificuldade, os olhos dela estavam fixos nos dele e seus lábios entreabertos, sangue ainda estava determinando uma coloração fraca no rosto dela, algo que ele rapidamente modificou, passando o polegar pela sua bochecha para limpa-la – Não me deixa sozinha, Matthew – A voz da garota atingiu um timbre mais forte e ele negou com a cabeça.

Ele enfim lembrou-se dela.

Matthew assentiu, entrelaçando sua mão a dele em busca de alguma explicação para o que estava acontecendo. A garota a sua frente era a mesma que no dia anterior tinha fugido dele, mas tão diferentemente daquele primeiro encontro, ela tinha agora as mãos perdidas nos ombros dele e o segurava como se a sua vida dependesse daquilo. Ele não se demorou até puxar mais um pouco o seu corpo para o dele, jogando a jaqueta banhada em sangue para o lado, moldando o corpo dela ao seu.
- Você está bem? – Ele voltou a questionar e a garota assentiu, Matthew afirmou com a cabeça encarando o rosto dela. Ela tinha os olhos fechados e parecia confortavelmente bem envolta dele.

Um pouco incomodado por não conseguir assimilar o que verdadeiramente tinha acontecido aos dois, Matthew balançou o corpo afim de niná-la e acalmá-la, não deveria ser fácil para uma garota o tipo de acidente que ele tinha deixado acontecer.
Obviamente, caso estivesse com uma velocidade mais baixa, nada daquilo teria acontecido, mas não poderia negar o que corria em suas veias.
Automobilismo era o seu ponto de equilíbrio. Quando criança, seu pai, um amante de corridas, colocou-o numa escolinha para grandes pilotos. Seu ídolo era Eddie Irvine e talvez aquela completa loucura pelo piloto Irlandês tivesse abandonado vestígios de uma carreira conturbada e completamente arriscada. Para Matthew era como derrapar sem um freio.
Enquanto o carro caminhava por entre as estradas, descobrindo suas curvas, seus pontos de aceleração, sua adrenalina se tornava o ponto forte do seu dia. Independente de quantas desavenças ele tinha tido.
Alguns acreditam que Senna e Schumacher tinham juntos o título de melhores corredores de fórmula 1, mas para ele não se tratava somente de ter um carro bom e obter junto a equipe as melhores estratégias, correr era testar a sua mortalidade a cada segundo.
Quando os números do visor aumentavam rapidamente junto a aceleração dos seus movimentos, o seu corpo caminhava em direção ao ponto em que para qualquer pessoa um movimento errado resultaria em morte, mas para ele era somente um teste.
Uma afirmativa junto ao real significado da vida.

Nada além de adrenalina.

- Obrigada – Ela afirmou ainda presa ao corpo dele como se eles tivessem um imã.
- Você estava indo para a festa? – Matthew questionou e ela abriu os olhos o encarando, ele percorria seus dedos pelo cabelo macio dela sem precisar voltar seus olhos para o carro. Analisar o que estava acontecendo naquela cena só o deixaria completamente insano.
Uma vez, precisou ler Hamlet para a escola. Não fazia o seu gênero literário e ele se limitou em somente pesquisar na internet algumas frases icônicas da peça que tardiamente se tornaria um filme. Shakespeare, o romancista das garotas fascinadas por romance afirmava que havia muito aquilo o que se aprender ou entender, entre o céu e a terra e talvez ele até concordasse com aquela frase. Não costumava acreditar em nada que não tivesse descrito na ciência, mas sabia que muitas vezes não existia explicação cientifica para acontecimentos.
Como ele definiria uma garota ter sido arremessada para metros de distância do seu carro e não sofrer nenhum tipo de arranhão? Aquela frase se enquadrava perfeitamente no que estava bem diante dos seus olhos.
- Não se trata de ver para crer. Mas de crer para ver – Anna afirmou e Matthew sentiu um arrepio incomodo percorrer sua espinha, ele deu um breve sorriso somente para não demonstrar algum tipo de fraqueza diante daquela garota que havia afirmado aquela frase que fazia completo sentido com o seu pensamento anterior – O orfanato – Ela disse afastando o corpo do dele, virando-o antes de levantar completamente saudável, limpando as suas vestes – Você já assistiu? – Ela questionou passando a mão pelo cabelo enquanto observava o garoto ainda paralisado, com os joelhos fincados no asfalto enquanto encarava a garota completamente confuso – Muitas vezes tanto falamos sobre um assunto que ele finalmente acontece – Anna continuou a falar – A propósito, meu nome é Anna, desculpa pela maneira em que eu tratei você anteriormente, mas eu te vi passando agora a pouco, eu moro ali.
Anna apontou para sua nova casa um tanto sem jeito, ele tinha vestes caras e parecia ser muito mais rico do que ela sonhou em ser um dia, sua residência falava por si só, mas ela nunca teria vergonha do ambiente em que vivia junto aos seus pais, por isso já não importava mais se as pessoas pudessem deixar de falar com ela por causa daquilo. Matthew desviou os olhos do rosto dela ainda boquiaberto, seus olhos piscaram algumas vezes e ele fixou-os na casa completamente escura que observava a sua frente. Durante muito tempo, pensou que aquela residência estava a venda e não imaginou por um segundo sequer quem moraria num lugar como aqueles, distante e infinitamente assustador – Você... você sabe da história dessa casa?
- Não – Anna negou com a cabeça dando um passo, parando ao lado do garoto que agora estava de pé com as mãos no bolso, ela olhou para casa, assim com ele, se deixando ficar perdida naquela imagem – Alguma história mal assombrada de um passado não tão distante? – Ela sorriu divertida e ele se limitou em negar com a cabeça – Alguém morreu aí? – Anna questionou voltando a perceber a amiga que estava parada ao seu lado – Agora não, Anne – Ela sussurrou passando a mão pela cabeça, escutando os sussurros da amiga que se tornavam um pouco mais intensos a cada minuto que passava. Anna passou novamente as mãos pelos ouvidos, fechado os olhos mais uma vez – Vai embora – A menina sussurrou vendo Matthew voltar os olhos para ela com o intuito de entender o que ela estava falando.
- Você está bem? – Ele perguntou e Anna sorriu assentindo – Quer ajuda? – Matthew tocou o braço dela que ia até seus ouvidos e Anna percebeu o momento em que Anne parou de falar.
- Me abraça – A garota sussurrou e ele recuou um passo, completamente incerto de que realmente deveria fazer aquilo – por favor – a garota sussurrou e ele ergueu uma sobrancelha antes de trazê-la para junto ao seu corpo.
Anna depositou o queixo no ombro dele, seus olhos foram abertos e ela encarou aquela garota parada, ela cambaleava se afastando mais a cada minuto em que seus olhos, fixos nos seus, sentiam que ali não era o seu lugar. A garota apertou mais um pouco o pescoço do garoto fechando os olhos, sentindo um silêncio presente naquele instante. O vento estava circulando e ela conseguia escutar as folhas das árvores que emanavam o seu som cotidiano, levando a Anna sentir um arrepio percorrer o seu corpo. Voltando a abrir os olhos, ela se deparou com aqueles olhos próximos demais, a ponto dela cambalear para trás e cair no chão. Matthew, sendo pego de surpresa, estendeu a mão para segurar a garota que parecia fraca naquele instante e sem desviar o contato que tinham, ele ergueu o seu corpo – Você precisa parar de cair pelos cantos – Ele tentou sorrir vendo-a completamente pálida, Anna entrelaçou a mão a dele antes de escutar um barulho ensurdecedor de pneus pelo asfalto.
Eles escutaram um clarão, e Matthew aproximou suas mãos da cintura da garota, Anna sentiu o corpo responder ao toque imediatamente e com o coração em disparada, ela observou um carro reduzir a velocidade, parando ao lado deles.
Os vidros escuros haviam sido abaixados e um rapaz de cabelos loiros, junto a uma garota, sorriram para eles. Anna sentiu um calor se fazer presente, sentindo o olhar de duas pessoas completamente desconhecidas sob o seu corpo.
- Você parou no meio do caminho para uma rapidinha, Matt? – O rapaz questionou enquanto a garota ao seu lado sorria satisfeita – Vamos logo, não quero perder o começo – Ele disse apontando para o corpo da Anna deixando um sorriso malicioso se fazer presente – Quem é? Garota nova?
Matthew negou com a cabeça e Anna ficou ofegante pelo tipo de abordagem – Não interessa a você, Max – O garoto afirmou sério – Vai na frente, eu alcanço vocês rápido.
- Como sempre, não é Matt? – Anna escutou a voz insinuante da garota ao se direcionar ao garoto que ainda segurava a sua cintura – Velocidade é algo que você domina com louvor – A garota loira afirmou enquanto mastigava seu chiclete.

Anna se sentiu por um instante num colegial Americano. A garota dentro do carro parecia ter saído de alguma revista adolescente com seus longos cabelos loiros e seu corpo numa roupa que parecia ser completamente apertada. Ela observou quando a garota depositou a mão no ombro do rapaz que dirigia o carro. Um audi. Para Anna não fazia sentido algum o carro que aquelas pessoas possuíam. Uma pequena cidade Não poderia ser repleta de carros importados como aqueles, a economia do local não era boa o suficiente para aquele tipo de demonstração de poder. Matthew apertou um pouco a cintura dela e ela esqueceu completamente sobre o que estava pensando. Talvez sua mente estivesse entrando num transe.
- Você pode ir na frente, Max – Anna escutou a voz do Matthew um pouco mais firme ao definir a frase e o garoto que dirigia o carro deu de ombros, se limitando em cantar pneu ao sair dali. - Você não respondeu, você estava indo para a festa na fogueira? – Matthew questionou e Anna desviou os olhos do caminho que o carro fazia até se perder na escuridão daquelas curvas acentuadas. Seus olhos voltaram para sua casa, antes dela virar o rosto para o Matthew, no instante em que sua respiração ficou suspensa.
Anna sentiu o corpo tremer. Seus olhos se perderam na janela que tinha uma luz acesa. Ela entreabriu os lábios algumas vezes para proferir alguma palavra, mas nenhum som foi escutado naquele instante. Seus ouvidos foram tampados e ela somente escutava o som do seu coração que batia descompassado. A janela estava fechada, mas a cortina estava aberta. Seus olhos se depararam com duas silhuetas que a observavam.
Um pouco escondida, talvez tentado não ser vista estava sua mãe. O pijama denunciava que ela estava acordada e que sabia muito bem que a sua filha estava fazendo mais uma vez aquilo que ela não havia deixado. Anna sentiu as mãos tremerem diante da possibilidade de ela descer aquelas escadas e deixar claro na frente do garoto quem mandava naquela relação. A garota sentiu os olhos repletos por lágrimas quando ao seu lado, outra silhueta se fazia mais e mais presente. Anne estava ao lado da sua mãe, elas usavam o mesmo pijama e diferente do olhar sombrio que sua mãe parecia ter, mesmo sem a certeza daquilo diante a distância, Anne sorria. Aquele sorriso que arrepiava seu corpo. Anne conseguia despertar na Anna tudo aquilo que ela mais gostava, junto a amizade que tinham desde sempre, ao mesmo tempo, a garota conseguia amedrontá-la diante das certezas que sempre tinha referente as pessoas que costumava conhecer.

Ela se machucava e uma hora, precisava também machucar.

- Eu não sei se posso ir – Anna sussurrou ainda com os olhos vidrados na luz que estava acesa na sua casa. Um incomodo percorreu o seu estomago quando a luz foi desligada e uma completa escuridão se fez presente. Ela voltou seus olhos para o Matthew assustada – Você pode correr o mais rápido que pôde? – A garota sussurrou amedrontada e ele se limitou em assentir com a cabeça.
- Entra no carro – Matthew afirmou e Anna correu até a porta de passageiro entrando rapidamente no carro dele, o garoto pegou a jaqueta que havia usado anteriormente e entrou logo em seguida antes de colocar o cinto, dando partida no carro, a encarando – Acho melhor você colocar o cinto – Ele afirmou sorrindo de lado e ela, sentindo o coração em disparada e as mãos tremendo, se limitou em puxar o cinto de qualquer jeito, tateando nervosa, antes de encaixa-lo.
Anna encarou o garoto ao seu lado que dirigia com uma única mão, ele tinha os olhos vidrados na pista e com os vidros abertos, ela inclinou a cabeça para o lado, sentindo o vento gélido bagunçar o seu cabelo, Anna deixou que um sorriso brotasse no seu rosto ao sentir aquela sensação de adrenalina que percorria o seu corpo, sem olhar absolutamente nada, ela tateou a perna dele, percorrendo a mão, maliciosa. A garota sentiu o impacto da sua atitude pelo seu corpo quando sua mão subiu mais um pouco.
Antes que pudesse voltar a movimentar seus dedos, ele segurou a mão da garota, a encarando. Anna voltou a cabeça para dentro do carro o olhando de lado, Matthew negou com a cabeça antes de abrir a boca – Você não precisa disso – Ele afirmou olhando intensamente para os olhos dela antes de voltar sua atenção para a estrada.
- Desculpa – Anna sussurrou incomodada pela reação estranha dele. Garotos não agiam daquela maneira, eles não precisavam vir com manual de instrução, somente trabalhavam sem pensar, não existia uma conclusão mais intensa diante das atitudes, eram sempre limitados e... homens – Não pensei que... Não sabia que você tinha namorada.
- Isso não tem muito a ver – Matthew afirmou estacionando o carro, voltando o seu olhar para o dela antes de concluir sua frase – Eu só não acredito que você precise desse tipo de coisa – O garoto afirmou sério, antes de sair do carro, esperando por ela.
- Desculpa pelo que eu fiz – Ela voltou a cochichar sentindo-se envergonhada – não quis... Não quis parecer vulgar.
- Você não parece, acredite, eu sei diferenciar as reações de uma mulher ao meu lado – Seus olhos se tornaram intensos e Anna sentiu o corpo responder aquela reação que ele havia tido ao seu lado com precisão.
A cada instante em que o olhava, uma chamava voltava a acender dentro dela e a todo movimento dele, a sensação de que ele era completamente diferente de tudo o que havia encontrado até ali, era gritante. Anna passou a mão pelo cabelo, nervosa, retirando o cinto e saindo do carro. A garota demorou um curto espaço de tempo até percorrer a distância que os separava para caminhar ao lado dele até uma pequena trilha repleta de espantalhos por todos os lados, por um instante, seus olhos brilharam – O que é isso, Matthew? – Ela entreabriu os lábios absorvendo tudo o que via, fascinada. - Isso o que? – Ele questionou cumprimentando algumas pessoas que falavam com ele como se ele fosse realmente importasse – Ah... isso? - Matthew sorriu – temática da festa... Você tem alguma coisa contra espíritos? Mitologia nórdica? – Ele questionou e ela negou com a cabeça – Então... Bem vinda as boas vindas do último ano do colegial – Um sorriso brotou dos seus lábios, antes dele colocar uma espécie de capacete com galhos em cima. Anna se deixou observá-lo caminhar sorridente enquanto cumprimentava as pessoas que também tinham itens rústicos por sobre seus ombros e cabelos

Anna ficou paralisada no mesmo local. Algumas pessoas também possuíam máscaras e seus rostos estavam pintados com uma tinta vermelha ou branca, ela sentiu o corpo arrepiar quando percebeu que não existia distinção do que verdadeiramente acontecia naquele lugar. Eram jovens, crianças que brincavam com vestimentas completamente antigas e que pertenciam a outra dinastia. Para ela, aquilo se tratava de apropriação cultural, mas talvez para eles não significasse nada.
A música alta definia as danças que as pessoas se enquadravam. Os pés batiam ao chão de acordo com as paradas especificas daquela canção que emanava textos e inscrições rúnicas de povos antigos. A era Viking emanava em casa ação ou reação que as pessoas possuíam naquele instante e num misto de incomodo diante da dúvida de que aquilo pudesse ser correto e a absorção de toda aquela prática fascinante e viciante, Anna assimilava e devorava cada pequeno estímulo que recebia.

Os sussurros estavam mais fortes e ela precisou fechar os olhos para não se deixar escutar tudo aquilo. Anna cambaleou, esbarrando numa pessoa completamente alcoolizada. Os olhos dela foram de encontro aos olhos dele e ela entreabriu os lábios para tentar entender o que estava acontecendo com a sua mente, mas antes que pudesse perceber o que acontecia, o garoto a puxou pela cintura e despejou de qualquer maneira um copo nos seus lábios.
Anna se deixou beber aquele líquido vermelho, fechando os olhos antes de voltar a abri-los. Ele tinha o sorriso mais bonito que já viu em toda a sua vida e não houve resistência quando ele apertou novamente os braços ao redor do corpo dela e juntou os lábios de ambos – Ela reapareceu – Ele sussurrou no ouvido da Anna, que se deixou fechar os olhos querendo mais um pouco daquele beijo em que ele tinha.
Um ponto forte do seu sistema nervosa era a necessidade que se tornava real do lado sexual que aflorava no seu corpo, sempre em que se encontrava junto a um garoto bonito. Não tinha o controle de conseguir sorrir tímida ou assim como sua mãe afirmava, manter-se distante. A cada segundo de convivência, cada toque por sobre a jaqueta de couro que ele tinha, a vontade de voltar a beijá-lo era ainda mais angustiante e ela sentia-se sufocar com a ideia de não mais fazê-lo.
Para Anna, ele havia se arrependido de não ter beijado a garota e agora aqueles lábios estavam presos aos seus. Ela não mais escutou absolutamente nenhum som além da sua respiração ofegante e a dele, as mãos do rapaz percorreram suas nádegas e ela sorriu entre um beijo e outro, mordendo seu lábio inferior – Você resolveu mudar de ideia? – A garota sussurrou no ouvido do rapaz ao morder o lóbulo da sua orelha sorridente, ele gemeu baixo e ela sentiu os pelos do seu corpo responderem ao toque. Para ela, poderiam deitar-se ali e transarem.
Não poderia ser uma alucinação da sua mente pertencer aquele cara, Anna sorriu mais uma vez afastando o seu corpo do dele, passando suas mãos pela nuca dele antes de voltar a beijá-lo – Hoje você está mais falante, gostei. Bem gostosa – O garoto afirmou e ela sorriu confusa pelo tipo de frase que Matthew afirmava, mas deixou para lá. A ideia de tornar real aquilo que se propus a fazer desde o momento em que o viu beijando uma garota em frente a sua casa, tinha surtido efeito.

Ele era ainda mais espetacular.

Anna sorriu inclinando a cabeça para trás enquanto sentia os lábios do garoto percorrerem o seu pescoço. Não existia sussurro, não existia ninguém que pudesse incomodá-la. Absolutamente nada ficaria entre eles.
Ela não deixaria.
Uma garota calma como ela não poderia ficar trancada em casa, ele a ajudaria, sua mãe não venceria aquela batalha.
Não mais uma vez.

Anna segurou uma das mãos do garoto e foi inclinando o corpo sobre a grama dali, seu sorriso malicioso indicava que não existiria nenhum tipo de resistência em se tratando dela e sob um olhar surpreso e completamente fixo dele, ela observou quando ele deitou o corpo sob o dela e iniciou mais beijos sôfregos.
Num certo momento, Anna sentiu olhares sob si e erguendo o rosto das carícias dele, ela sentiu um arrepio percorrer a espinha indicando que algo talvez estivesse errado, por sob as sombras de arvores, enquanto as pessoas se beijavam e bebiam sem se importar com mais nada, ela teve olhos fixos no seu por um instante. A garota piscou algumas vezes tentando assimilar de quem eram aqueles olhos até que a pessoa sumiu. Ou o homem.
A garota negou com a cabeça voltando a encarar o garoto a sua frente, antes de se perder nele mais uma vez. As sombras não importavam ali, ele era uma luz em meio a sua escuridão. Ela precisava aproveitar.
Enquanto podia.


Continua...



Nota da autora: Sem nota.



Outras Fanfics:
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