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Capítulo Único


Suspirei olhando para o teto branco do meu quarto, passei as mãos por meus cabelos negros e balancei a cabeça em negação, completamente frustrado. Eu era patético, sei disso. era inteligente para um senhor feito eu, eu me sentia um retardado perto dela e até hoje estou para saber por que ela ficou comigo, porque ela é inteligente e é a garota mais linda que eu já vi em toda minha vida.
Nós começamos a nos envolver no fim do segundo ano e eu me arrependo muito por não ter investido naquela garota antes, a gente se conhecia desde a sétima série e eu me apaixonei por ela um tempo depois daquilo. Eu nunca vi com nenhum garoto e ela me disse que nunca havia namorado antes de me conhecer, ela era muito centrada e não queria abrir exceções para ninguém, mas graças a Deus ela gostou de mim o suficiente para fazer isso.
Fechei os olhos e me permiti dormir um pouco. Ultimamente eu andava muito cansado, pensando sobre minha vida e sentindo muito a falta de . Fui perdendo a consciência aos poucos, mas lembro que antes de pegar no sono completamente, um sorriso fraco apossou-se dos meus lábios.

Ela estava lá, com toda sua beleza e glória. Eu sei, sou um babaca abestalhado. escrevia furiosamente em seu caderno, havia vários livros ao seu redor e vez ou outra, ela os folheava. Seu cabelo estava preso naquele penteado que as garotas chamam de coque, alguns fios estavam soltos sendo balançados pelo fraco vento, o óculos que ela usava quando lia ou escrevia estava na ponta de seu nariz e eu sabia que logo ela o arrumaria, apenas um segundo, ela usaria seu dedo indicador para empurrar a armação negra e logo voltaria ao seu afazer. Ela era da minha sala e já estava mais do que na hora de me aproximar, eu tinha uma boa desculpa para falar com ela, uma desculpa que me ajudaria muito e não só no quesito de conquistá-la.
Aproximei-me dela e respirei fundo.
- Olá - Ela ergueu os olhos do papel e sorriu ao fitar meu rosto.
- Hey, - Sentei-me em sua frente também sorrindo e olhei para os livros.
- Eu não queria ser muito abusado, mas… Você pode me dar uma ajudinha em matemática? Sabe, eu não sou o mais inteligente dos caras e eu nunca vou conseguir passar nessa matéria sem ajuda. - Ela riu levemente, colocando uma mecha de cabelo para trás da orelha.
- Posso ajudá-lo. Sem problema.
- Eu não vou atrapalhar você?
- De forma alguma, eu tenho que estudar mesmo - Deu de ombros e eu ergui uma sobrancelha.
- Tenho certeza que você sabe todas as formas que estão nesses livros.
- Aprender nunca é demais. Você quer começar a estudar agora?
- Quanto mais rápido melhor - Ela assentiu e pediu que eu pegasse meu caderno.
se divertia com minha falta de jeito para números, eu era burro mesmo e assumia isso. Mas, segundo a garota, eu não era burro, eu só não prestava a devida atenção nas coisas.
Quase todos os dias nós íamos estudar em minha casa, pedi também que ela me ensinasse física e um pouco de química, eu até que entendia essas matérias, mas ficar perto de nunca era demais. Nós acabamos virando muito amigos, passamos a sentar juntos na hora do intervalo e agora eu sentava ao seu lado na classe. Meus amigos me zoavam, mas eu não ligava para nada do que eles diziam, eu já sofria do efeito entorpecedor de .
As provas finais logo chegaram e, surpreendentemente, eu estava tranquilo. Quando o professor me entregou a prova de matemática, apenas duas questões foram difíceis para mim, porque o resto fez com que eu me sentisse na segunda série. manjava mesmo da coisa.


++

Abri os olhos e olhei para a janela. O céu estava estrelado e um vento gostoso entrou no quarto, fazendo com que eu fechasse os olhos e suspirasse.

++

Ela saiu primeiro do que eu da sala, eu devo ter saído uns dez minutos depois e ela estava me esperando encostada na parede, perguntou como eu tinha ido e sorrindo eu lhe disse que se não tirasse um 10 naquela prova, eu definitivamente iria desistir de mim. Meus amigos saíram logo depois e encontraram a gente no pátio da escola, Kevin, Philip e Matt estavam cabisbaixos dizendo que achavam que não tinham ido muito bem e eu ri da cara deles, levando alguns socos e ouvindo a gargalhada de .
Uns dias depois os professores falaram as notas finais. Eu tirei 10 nas provas de matemática e química e 9 na de física. Assim que as aulas acabaram, eu me levantei e sorri grandemente para , a garota sorriu também e me abraçou forte me parabenizando. Eu a ergui e a apertei em meus braços fazendo o sorriso dela se transformar em gargalhadas. Ela tirou 10 em quase tudo e eu não me surpreendi nem um pouco com isso. Eu disse que tínhamos que comemorar e ela topou, por isso oito da noite passei em sua casa para levá-la até uma festa de um dos riquinhos da escola onde Kevin, Philip e Matt estavam nos esperando.
Cara como aquela garota estava gostosa! Ela usava um vestido preto colado ao corpo que batia na metade de suas coxas, o vestido possuía manga curta e um decote na frente que deixava a vista o topo de seus belos seios. Sua sandália era marrom. Seus longos cabelos estavam ondulados e volumosos. Sua maquiagem estava excelente e aquele batom vermelho escuro naquela boca deliciosa… Ah cara, como eu me segurei para não atacá-la. Ela sorriu com doçura e eu abri a porta do carro para que ela pudesse entrar. Eu ainda não era maior de idade, por isso só dirigia pelo meu bairro ou bairros bem próximos. Chegamos ao local da festa e entrei com o carro pelos portões escuros, estacionei o carro logo no começo, porque a área ao redor da casa estava toda ocupada. Detalhe, a casa do cara era tipo uma mansão que tem aqueles jardins grandes, por isso as casas no bairro onde ele mora não ficam muito próximas. Peguei na mão de e surpreendentemente ela entrelaçou seus dedos aos meus. Entramos na casa e andamos pelo meio daquele bando de adolescentes cheios de hormônios. Logo encontrei os caras e eles soltaram umas gracinhas para cima de fazendo-a rir com timidez e eu dei um cascudo na cabeça de cada um. Pegamos uma bebida e sentamos só eu e em uns pufes enormes que estavam em um espaço mais iluminado.
- Você já escolheu em qual faculdade irá estudar? - Ela me perguntou, bebendo um pouco de sua bebida.
- Não, para falar a verdade eu nem sei o que cursar, nem sei se pretendo entrar em alguma faculdade - Dei de ombros e ela franziu o cenho.
- E o que você vai fazer? - Sorri timidamente.
- Olha, vai parecer muito estranho, mas minha família tem uma confeitaria, desde pequeno eu fico por lá e eu gosto muito de fazer bolos e doces.
- Por que você nunca me falou isso?! Meu Deus, eu amo doces! Você não sabe o quanto, seu ingrato - Semicerrou os olhos e eu gargalhei.
- Você nunca me falou sobre isso.
- E você nunca me ofereceu nada, eu não cobrei nada para ensinar você, você tirou notas excelentes e nem para me dar um cookiezinho de nada você prestou - Voltei a gargalhar por conta de sua expressão e me levantei lhe estendeu a mão - O que foi?
- Vem cá sua estressadinha - Ela segurou minha mão e levantou-se. Colocamos nossas bebidas em uma mesinha que havia ali e eu a levei para fora da casa.
- Onde estamos indo?
- Atrás de sua recompensa - Entramos em meu carro e eu dei partida.
Não demorou para eu parar na frente da confeitaria da minha família, saí do carro e fez o mesmo, olhando para a fachada luminosa.
- Nós temos permissão para entrar aí?
- De certa forma, eu sou um dos donos, não é? - Peguei a chave em meu bolso e abri a primeira porta, abri a segunda porta e entrei sendo acompanhado por . Fechei tudo antes de levá-la para a cozinha. - A vitrine fica vazia à noite, sempre fazemos tudo pela manhã e conforme for acabando, nós fazemos mais e ao fim do dia, quando sobra, tiramos das vitrines para dar aos moradores de rua.
- Que gesto lindo - Vi ternura em seus olhos.
Acendi a luz e me aproximei de algumas caixas que estavam sobre o balcão, abri uma delas e peguei um cookie.
- Pega seu cookiezinho - riu e pegou o biscoito da minha mão, mordendo-o logo em seguida.
- Magnífico - Lhe entreguei um cannoli e ela o comeu revirando os olhos em sua primeira mordida – Tem algo que você fez? - Abri outra caixa e a vasculhei.
- Esse pão doce e esse brownie..
- Quero - Ri e lhe entreguei. Vi ela comer o brownie e fechar os olhos, ao comer o pão doce ela deu um longo suspiro.
- Céus! Isso está dos deuses! Você com certeza tem futuro com doces.
- Muito obrigado. E você? - Ela me olhou com o cenho franzido - Já sabe para qual faculdade ir e o que cursar? - Ela rapidamente sorriu.
- Vou cursar engenharia química - Arregalei os olhos e ela riu - E pretendo fazer isso na França - Abri a boca e ela gargalhou.
- Wow.
- Pois é - Deu de ombros - Por isso quase não tenho vida social, mas sei que quando eu estiver na França na minha tão sonhada faculdade, tudo terá valido a pena.
Mordisquei um pão e vi pegar outro brownie. Ela realmente gostava de doce.
- Você vai com quem na festa da praia que a escola está organizando? - Ela engoliu para poder me responder.
- Ainda não recebi nenhum convite - Peguei um cupcake rosa e entreguei para ela.
- Bem, sendo assim… Você gostaria de ir comigo? - Ela passou a língua pela cobertura do cupcake e eu me senti tremer. sorriu e assentiu.
- Será um prazer ter sua companhia - O sorriso dela se apagou e ela fez bico - ai, droga, eu deveria ter dito que só iria com você se você me desse uma dúzia desses cupcakes - Gargalhei e me aproximei dela.
- Bom, talvez você ganhe meia dúzia.
- Ótimo! - Levantei minha mão e limpei o canto de seus lábios.
- Tinha um pouco de cobertura - Lhe mostrei meu dedo indicador e logo depois o levei até meus lábios. abriu levemente a boca e olhou para meus lábios, depois subiu seu olhar até o meu e eu vi ali uma faísca se acender. Então liguei o dane-se, me aproximei rapidamente dela, a tomei em meus braços e logo depois juntei seus lábios aos meus.
Foi magnífico beijá-la, sua boca morna e sua língua atrevida me tiraram dos eixos. Quando separei nossas bocas, nós estávamos ofegantes. Meu braço direito estava firmemente ao redor de sua cintura e minha mão esquerda segurava com força o cabelo de sua nuca. As mãos dela estavam em meus ombros e ela passou levemente seu nariz no meu como em um beijo de esquimó.
- Achei que você não faria isso nunca - Ela disse. Eu abri os olhos e ergui uma sobrancelha.
- Se você queria tanto, por que não fez?
- Queria ver quanto tempo mais você enrolaria, aliás, por que demorou tanto tempo?
- Eu queria ter certeza que não levaria um fora.
- Eu jamais faria isso - fechou os olhos e encostou sua testa na minha, respirou profundamente e sorriu - Eu adoro você.


++

Me remexi na cama, abri os olhos, me encolhi e abracei o travesseiro, olhei fixamente para o descanso de tela do meu computador, ali passava várias fotos minha com . Minha visão foi ficando embaçada e meus olhos se fecharam novamente.

++

gargalhou sonoramente quando Matt deu um tapa na cabeça de Phillip. Minha namorada aproximou-se dele ao ver sua cara de coitado e o abraçou. Meu amigo do peito retribuiu o abraço e olhou para mim com uma expressão maliciosa, revirei os olhos e lhe mostrei o dedo do meio. sentia dó de quem fazia cara de coitado e abraçava qualquer pessoa que estivesse triste e, claro que os caras que eu chamo de amigos se aproveitavam disso.
- Você quer fazer o favor de largar minha namorada? - Puxei para meus braços e Phillip franziu o cenho.
- Poxa cara, deixa de ser egoísta - Lhe mostrei o dedo do meio novamente e gargalhou. Ela depositou um beijo em meu maxilar e eu sorri.
- Vamos embora?
- Vamos lá - Eu disse pegando em sua mão. Nos despedimos dos caras e fomos andando para a casa dela.
morava com a mãe e o pai, ela não tem irmãos ou familiares próximos, mas, mesmo sendo só ela e mais duas pessoas, ela diz que é muito feliz. Nós subimos para seu quarto e eu me deitei em sua cama enquanto ela ligava a televisão. O quarto dela era mais organizado do que o meu seria algum dia, uma das paredes era repleta por prateleiras que amparava diversos livros, a maioria era de estudos.
deitou-se ao meu lado e descansou sua cabeça em meu peitoral, eu automaticamente a abracei e comecei a acariciar seu braço. Quase uma hora depois comecei a beijar o pescoço da minha garota, aquele era seu ponto fraco, ela fechava os olhos e soltava suspiros. começou a acariciar meu peito e logo depois ergueu a cabeça para que eu pudesse beijá-la. O beijo começou suave e exploratório, logo nós fomos nos animando e quando dei por mim, eu já estava por cima dela. Os pais dela não estavam em casa por isso essa era a menor das minhas preocupações, a maior dela era que eu estava prestes a tirar a virgindade da minha namorada e estava nervoso por demais. Não era minha primeira vez, mas eu estava me sentindo como se fosse. Ela me olhou e sorriu. Aquilo era tudo que eu precisava para ter certeza que o quê estávamos prestes a fazer era o certo.
No final estávamos ofegantes e sorria, apesar de ter sido desconfortável para ela no começo. Beijei sua testa e a abracei.
- Eu amo você - Ela sussurrou em meu ouvido e eu sorri.
- Amo você, minha linda.


++

Abri os olhos e sorri. Aquela havia sido uma das melhores tardes da minha vida, eu não poderia nem descrever a forma que eu me sentia por saber que havia confiado em mim para se entregar em sua primeira vez e depois de nos sentirmos de forma tão íntima, nossa relação só se intensificou.
O ano que passei ao seu lado foi espetacular, ela alegrava os meus dias e nunca foi tão bom acordar cedo todos os dias e passar horas na escola. Claro que nem tudo foram flores, muitas vezes me trocava por seus livros, incontáveis vezes marcávamos algo e ela me dava “bolo” porque ou ela tinha que terminar de ler um livro sobre química, ou tinha que refazer diversos exercícios ou não podia perder de forma alguma uma palestra sobre a “história da química”. A vida dela era estudar e estudar e estudar, e quando eu dizia que ela já sabia muito ela dizia que conhecimento nunca era demais.
O fim do ano logo chegou mais cedo do que eu gostaria, eu estava feliz por finalmente sair daquela selva que chamavam de ensino médio, mas ao mesmo tempo queria que o ano se repetisse para que eu tivesse por mais 365 dias ao meu lado. Ela havia sido aprovada em três universidades francesas e por mais que eu tivesse sorrido com a notícia, ela sabia que eu não queria que aquilo acontecesse, ela sempre sabia de tudo. Eu me sentia um puto de um egoísta, mas mesmo assim eu lhe pedia que ela não fosse, que no Brasil havia tanta universidade boa, a altura dela, e ela apenas respondia que antes de me conhecer ela já tinha planos e que não os mudaria por causa de mim. Confesso que ouvir aquilo era mais doloroso que um tapa, quem ama sacrifica e ela não estava disposta a fazer nenhum sacrifício por mim. Eram anos demais que ela passaria fora, nenhum relacionamento à distância dura por tanto tempo assim, ainda mais o casal sendo tão jovem, nosso amor não era forte, não tivemos tempo de fortalecermos, por isso que eu tinha tanta convicção que não daria certo, também sabia disso e foi por isso que ela terminou comigo.
sempre foi um pouco fria, mas naquele dia ela definitivamente usou todo o estoque de gelo que tinha no coração. Frases como “você está atrasando minha vida”, “somos jovens demais”, “eu quero aproveitar todo o tempo na França”, foram o que mais saíram de sua boca, me machucou muito tudo o que ela disse.
Nossa, saí de sua casa me sentindo péssimo. Passei meus dias como uma garotinha deprimida, até consolo da mamãe eu tive. viajou e pelo que eu soube ela estava muito empolgada, não mostrava arrependimento ou tristeza, ela queria mesmo era já estar na França. Isso me deixou mal, porque a impressão que dava era que eu não tive importância nenhuma para ela e acho que realmente eu não tive. Eu não entrava na rede social dela para saber como ela estava, aquilo só iria me fazer mais mal, porque eu tinha certeza que até foto de formiga francesa ela deveria estar postando.
Eu não me candidatei a nenhuma faculdade, mas estava pensando em fazer pelo menos um curso de administração para ter mais noção de como cuidar da confeitaria. Poderia também fazer algum curso de confeiteiro, me aprimorar seria ótimo. Antigamente Matt, Philip e Kevin viviam me chamando de mariquinha por eu ter escolhido essa profissão, mas depois de terem experimentado meus doces, eles praticamente se ajoelhavam aos meus pés, não viviam um dia se quer sem passar aqui em casa para “me ver”, entre aspas porque me ver era uma ova, eles queriam mesmo era doce de graça. Eu nunca me importei com os pré julgamentos por causa da profissão, na minha família ser doceiro, ou confeiteiro, ou cozinheiro, nunca foi coisa de mulher, aliás, os homens cozinhavam mais que as mulheres, as mulheres dessa família praticamente nos escravizavam, sorte as delas que gostávamos do que fazíamos.
Levantei-me da cama e bocejei enquanto coçava a barriga. Entrei no banheiro para esvaziar a bexiga e joguei água em meu rosto. Desci as escadas apenas de shorts e observei o sol se pondo através da grande janela da sala. A casa estava silenciosa sem a voz grave de meu pai, as broncas da minha mãe e a bagunça de meus irmãos, todos estavam na confeitaria e demorariam ainda umas duas horas para eles voltarem. Meus dois irmãos mais velhos também são confeiteiros, enquanto minha irmã - um ano mais nova que eu – ajuda minha mãe e minhas tias com a parte burocrática do nosso estabelecimento. Eu disse que quem cozinha nessa família são os homens.
Abri a geladeira e peguei o leite despejando o conteúdo em um copo, peguei um cookie e me encostei ao balcão comendo calmamente. Balancei a cabeça em negação e ri nasalado lembrando-me dos meus primeiros dias sem , eu a via basicamente em todo lugar, já estava chegando ao ponto de falar para minha mãe me internar. Mas com o passar do tempo, essas “visões” foram acabando e hoje não a vejo mais em lugar nenhum. Bom, só em meus sonhos.
Lavei o copo que usei e o guardei, caminhei até a sala porque já estava quase na hora de começar um programa de confeiteiro que eu gostava de assistir, mas antes que eu pudesse me sentar, a campainha tocou.
Fui até a porta e a abri torcendo para que a pessoa que estava ali não pegasse muito do meu precioso tempo, porém assim que vi quem estava do outro lado da porta, qualquer programa de confeiteiro sumiu da minha cabeça.
- Oi – disse com uma voz suave. Ela estava diferente, fazia dois meses que eu não a via, mas parecia mais. Seus cabelos antes no meio da cintura, agora estavam acima dos ombros, de castanho escuro passaram a ser castanho claro. Suas sobrancelhas estavam mais finas, suas bochechas mais secas e sua pele menos corada. Ela continuava linda como sempre, só estava diferente.
- Hum, olá – Eu enviava mensagens para meu cérebro do tipo “não aja como um retardado, ela foi embora, ela magoou você, você é a mocinha da situação” – Você quer entrar? – Ela assentiu e entrou na casa, fechei a porta e a olhei. E, opa! Não era para estar na França?
Ela parecia apreensiva, suas mãos estavam entrelaçadas e ela apertava os dedos uns contra os outros.
- Pensei que você estivesse na França – Resolvi quebrar o silêncio desagradável.
- Bem – Suspirou – Talvez eu tenha cometido um erro. Sabe, eu passei minha vida toda querendo ser gente grande, me dediquei minuciosamente aos estudos, não lembro a última falta que tive na escola, nunca cabulei, nunca matei aula, nunca tirei notas vermelhas, nunca fui chamada a atenção de nenhum professor por algo de ruim que eu tenha feito, nunca fui para a diretoria, sempre fui um exemplo a ser seguido e me orgulhava muito disso. Eu tinha um objetivo e esse objetivo seria alcançando custe o quê custasse e, quando eu recebi aquelas cartas de aprovação das faculdades, eu me senti livre e presa ao mesmo tempo, livre porque eu finalmente havia alcançado meu tão sonhado objetivo, e presa porque eu começaria tudo de novo, noites estudando, dias não podendo fazer outra coisa além de ficar com a cara enfiada em livros, dias e dias tentando desvendar cálculos... A faculdade é tudo o que eu sempre sonhei, a França é maravilhosa e apesar de tudo isso, eu me sentia vazia. Eu pegava o livro para estudar e de repente eu parava, porque você não ia mais me ligar ou me mandar mensagens de texto para tirar minha concentração, porque sim, você tirava sempre e apesar de eu parecer zangada, no fundo eu gostava daquilo. Você não estaria ali para fazer meus materiais de refém e só libertá-los com o pagamento de um beijo ou um papo descontraído. Você não estaria ali para me chantagear com bombons, ou tentar me levar para a cama com seu papinho fácil. Você não estaria ali para me distrair com seu sorriso lindo ou para eu me jogar no calor dos seus braços. Você não estaria ali, e você não sabe a falta que senti de cada coisa que vivemos – A voz dela estava embargada e seus olhos tomados pelas lágrimas – Ah, , eu fui tão má com você, você é tão maravilhoso, tão, tão único! Eu estou aqui para tê-lo de volta e se você disser que não me quer, eu sinto muito, mas eu vou ter que persistir e vou ter que bater em qualquer garota que ousar tentar ter algo com você –
Tentei não sorrir, mas foi falho. Aproximei-me dela e levantei minha mão para acariciar seu rosto. Eu não podia descrever o que senti ao acariciar sua pele, ao estar em contato novamente com sua suavidade única.
- Eu poderia me fazer de difícil, mas você sabe como eu sou quando se trata de você – Ela sorriu e jogou seus braços em meus ombros, entrelaçou seus dedos em minha nuca e me puxou mais para perto.
- Eu prometo nunca mais magoar você, você sabe como eu sou quando se trata de promessas – Assenti e a abracei pela cintura. grudou sua testa na minha e logo nossas bocas estavam juntas.
Depois de incontáveis minutos, separamos nossas bocas, mas não permitiu que eu me afastasse mais.
- E a faculdade? – Perguntei.
- Acho que vou tirar esse ano para recuperar o tempo perdido, a faculdade não vai sair de lá, assim como a França. Apesar de ser difícil ser aprovada uma segunda vez, eu estou segura de que vou conseguir.
- Claro que vai, você sempre consegue tudo. E estou falando isso também em relação a mim – Ela riu e acariciou meu peito, vi em seus olhos aprovação por eu estar sem camisa.
- Desculpe por tudo que eu disse quando terminei com você, eu fui uma tremenda de uma babaca, você não atrasa minha vida, você só acrescenta. Me perdoa, de verdade.
- Te perdoei no momento que abri aquela porta – Deslizei meu nariz pelo seu – E você não precisa desistir da França agora, eu estava pesquisando cursos de confeitaria por lá e já estava sonhando em trabalhar naqueles bistrôs super chiques. Eu não sabia se era o certo ir atrás de você depois de você ter terminado comigo, mas eu queria ir – Ela sorriu rapidamente.
- Isso é perfeito – Me deu um selinho – Mas ainda quero tirar esse ano para fazer loucuras, ano que vem a França é toda nossa – Beijei a ponta de seu nariz – Além do mais, se eu levasse você embora de uma hora para outra, sua mãe iria me odiar para sempre. Aliás, estou muito encrencada por ter magoado o filhinho do coração dela?
- Talvez um pouco, mas você sabe muito bem como conquistar seu perdão.
- Ahh, fazer o quê se sou a nora dos sonhos de qualquer mãe – Semicerrei os olhos e ela gargalhou, a acompanhei no riso abraçando-a forte.
- Bom, já que essas coisas estão resolvidas, tenho mais uma coisa para resolver, quer dizer, você precisa resolver essa coisa.
- Ahh é? E o que seria?
- Vamos lá em cima que eu te falo – A peguei no colo e gargalhou enquanto eu subia as escadas o mais rápido que eu conseguia.
Em meu ponto de vista, perdoar valeu a pena, eu a amava, não sei se duraríamos para sempre... o que é o para sempre afinal? Ele pode ser o hoje, o amanhã ou até mesmo o ontem, o para sempre particularmente está dentro de cada um de nós e ninguém pode tirá-lo de lá, ninguém pode nos falar que algo não durou o bastante para se tornar marcante, só quem sentiu, quem viveu, pode dizer. Então, mesmo que o para sempre permanecesse somente dentro de cada um de nós com o passar dos anos, ainda assim, tudo teria valido a pena.


Fim.



Nota da autora (25/01/16): Ôôôôôôlá pessoal! Voltei, de novo. Ai gente, eu amo essa música, ela é tão romântica (♥). Essa música era para ter entrado no mixtape, só que depois eu descobri que ela foi lançada no ano 2000 e apesar disso resolvi continuar escrevendo-a, porque me senti mal em pensar em excluir. Bom, é isso, espero que tenham gostado e se puderem, deixem um comentariozinho ai na caixinha. Beijos!
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Minhas outras fics:

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